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LUXAÇÕES E ENTORCES 1. DEFINIÇÃO DE CONCEITOS: - Fratura: é a perda parcial ou total da continuidade da estrutura óssea. Ela pode ser completa ou incompleta, dentre diversas outras características. - Luxação: É a perda total da congruência entre duas superfícies articulares. A perda parcial é chamada de subluxação. - Entorse: é a lesão de ligamentos, que pode ser, também, parcial ou total. A entorse é dividida em três graus: no grau I, há apenas distensão das fibras; no grau II, há lesão parcial; e, no grau III, há lesão total. - Contusão: é a lesão em amassamento de partes moles por trauma direto, sem cortes. - Estiramento muscular: é como a entorse, porém em músculos. Apresenta a mesma divisão em graus. - Tratamentos: Luxações têm indicação de redução de emergência. A contusão e a entorse, porém, são de tratamento conservador pelo método PRICE: Proteção; Repouso; Ice (gelo); Compressão; Elevação. 2. LUXAÇÕES DO OMBRO E CINTURA ESCAPULAR 2.1 LUXAÇÃO GLENOUMERL - Sinal da DRAGONA - Definição: luxação glenoumeral (ou escapuloumeral; afinal, a glenoide faz parte da escápula) indica a perda de congruência articular do ombro. - Epidemiologia: A luxação anterior é muito mais comum do que a posterior: responde por 95% dos casos. Quanto mais jovem o paciente, maior a chance dessa luxação gerar uma instabilidade, culminando em nova luxação futura: isso ocorre em 90% daqueles menores de 20 anos à primeira luxação, mas apenas em 10% daqueles maiores de 40 anos. - Mecanismo de trauma: A luxação anterior ocorre por um movimento de abdução e rotação externa do ombro. É associada principalmente a atividades esportivas. A luxação posterior ocorre por um movimento de flexão vertical, flexão horizontal e rotação interna do ombro. É associada principalmente a crises convulsivas, mas também pode ocorrer em práticas esportivas. - Quadro clínico e diagnóstico: O paciente apresenta, geralmente, a história de um trauma esportivo, muitos são luxadores recorrentes, que estão acostumados à ocorrência. Há dor e incapacidade de mover o ombro; dependendo da luxação, pode ocorrer compressão do feixe neurovascular, com parestesia e, infrequentemente, comprometimento vascular. OBS.: Sinal da dragona: a curvatura natural do ombro desaparece conforme ele desocupa a cavidade glenoidal, sendo substituída por um degrau abrupto formado pelo acrômio. Esse sinal é característico da luxação glenoumeral anterior e é diferente do sinal da tecla do piano, que se observa na luxação acromioclavicular. - Diagnóstico: clínico + confirmatório por raio-x nas : incidências anteroposterior, Y (ou perfil) escapular e axilar. - Tratamento: Mesmo que o diagnóstico seja claro de luxação glenoumeral (e clinicamente o é), deve-se sempre radiografar o ombro antes de reduzi-lo, pois a coexistência de fraturas, em especial da cabeça do úmero, contraindica uma redução fechada. Para se reduzir um úmero, é necessário que haja conexão entre diáfise e cabeça; quando essa conexão está perdida, é impossível fazer uma redução fechada. Uma vez confirmada a luxação e excluída a fratura, procede-se à redução de forma incruenta. Existem diversas técnicas, mas duas são as principais: a técnica de tração e contração e a técnica de Milch Na técnica de tração e contratração, enquanto uma pessoa traciona membro superior acometido pelo punho, outra faz uma força diametralmente oposta – a contratração. Na técnica de Milch, faz-se abdução e rotação externa progressivas, até que se atinja o ponto exato em que o ombro luxou. Nesse momento, com a musculatura relaxada, o ombro reduz espontaneamente, basicamente sem esforço algum. Uma vez reduzido, o ombro deve ser imobilizado, no máximo, por uma semana. A imobilização é por conforto; não evitará uma nova luxação. Ademais, quanto mais tempo imobilizado, maior a chance de o ombro desenvolver uma capsulite adesiva e, por consequência, restrição de movimentos. Tratamento cirúrgico (redução cruenta) é restrito aos casos de fratura-luxação, luxações recorrentes e luxação irredutível. 2.2 LUXAÇÃO ACROMIOCLAVICULAR - Definição: Lesão da articulação acromioclavicular que pode culminar em uma luxação. - Epidemiologia: Geralmente, ocorre em pacientes jovens, em traumas esportivos ou por uso repetido (trabalhador braçal). - Mecanismo de trauma: Queda sobre o aspecto lateral do ombro, estando esse aduzido. Com isso, o acrômio é impulsionado para Medial e Inferior (mnemônico: acrôMIo). - Quadro clínico e diagnóstico: O paciente apresenta-se com dor e incapacidade variável de mover o ombro, conforme o grau de lesão da articulação. Principalmente, há dificuldade de sustentar o peso do braço, devido à lesão. Clinicamente, observa-se o sinal da tecla de piano. Pela lesão dos ligamentos que unem o acrômio e a clavícula, o acrômio “cai” – e a distância e o sinal ficam tão mais intensos quanto a gravidade da lesão ligamentar. O diagnóstico é feito por meio de duas incidências radiográficas específicas: a biacromial, que avalia ambos os acrômios na mesma imagem, para comparação; e a incidência de Zanca, que é específica para a articulação acromioclavicular. Faz-se a medida da distância entre a clavícula e o acrômio, e essa medida dará o diagnóstico e a classificação. - Classificação: Classificação de Rockwood para LAC. A LAC é classificada por Rockwood e segue uma progressão: no primeiro grau, há apenas distensão ligamentar, identificada com dor à palpação e uma radiografia normal. Nos graus II, III e V, há uma progressão a distância entre clavícula e o coracoide, chegando até 300% acima do normal. No grau IV, há uma luxação posterior; no grau VI, uma luxação inferior. -Tratamento: O tratamento é baseado na classificação. Graus IV, V e VI precisam ser operados; graus I e II são de tratamento conservador com tipoia. O grau III pode seguir o tratamento cirúrgico ou conservador, conforme a demanda do paciente; pacientes que não executam trabalhos braçais ou não são esportistas geralmente são tratados de forma conservadora. 2.3 LUXAÇÃO ESTERNO CLAVICULAR - Epidemiologia e mecanismo de trauma: Lesão rara, pode ocorrer de duas formas: • Espontânea, geralmente em pacientes jovens com hiperfrouxidão ligamentar, ao elevar o braço. • Traumática, por uma contusão de alta energia da extremidade distal da clavícula, por acidente automobilístico ou por trauma esportivo. Se a energia do trauma vem de posterior, portanto empurrando a extremidade distal para anterior, como se fosse uma alavanca, a parte proximal da clavícula luxará para posterior. De forma oposta, se a contusão é de anterior, a parte distal vai para posterior e a proximal luxa para anterior. - Quadro clínico e diagnóstico: Nos casos de luxação atraumática, a apresentação clínica é de um “deslocamento” articular, toda vez que o paciente eleva o braço, com redução espontânea ao abaixá-lo. No caso da luxação traumática, o paciente apresenta-se com uma deformidade anterior e dolorosa na região lateral do esterno, no caso da luxação anterior, e um “afundamento” na mesma região, na luxação posterior, que pode se associar a comprometimento de vias aéreas, entre outros. Do ponto de vista de diagnóstico radiográfico, existem três incidências radiográficas tão específicas: Heinig, Hobbs e Serendipity. Outra opção (que é, na realidade, o padrão-ouro) é a realização de uma tomografia, por meio da qual se evidencia com clareza o desvio no corte axial. - Tratamento: O tratamento varia conforme o quadro clínico. É tratada de forma conservadora apenas se atraumática ou anterior e crônica. - Complicações: Embora a luxação anterior seja basicamente isenta de complicações, a luxação posterior pode levar à compressão de estruturas posteriores à articulação. Dentre elas, figuram: • Compressão da traqueia e obstrução de vias aéreas. • Pneumotórax. • Compressão ou laceraçãode grandes vasos (artéria pulmonar, veia braquiocefálica, veia cava superior e artéria inominada): sua apresentação clínica pode não ser nada além de trombose. • Perfuração ou ruptura esofágica. • Lesão do plexo braquial. 2.4 PRONAÇÃO DOLOROSA - Definição: A pronação dolorosa nada mais é do que a subluxação (não a luxação!) da cabeça do rádio. Outro sinônimo é “Cotovelo da babá”, devido a seu mecanismo de trauma. - Mecanismo de trauma: Entre os dois e cinco anos de idade, há uma maior frouxidão ligamentar nas estruturas que estabilizam a cabeça do rádio, o que o predispõe à subluxação. Sendo assim, essa patologia é mais comum em crianças na primeira infância. A subluxação ocorre quando se traciona a criança com o antebraço estendido e pronado (por isso, pronação dolorosa). Geralmente, está associada à tentativa de evitar uma queda; ou a uma queda enquanto a criança sendo conduzida pela mão. - Quadro clínico e diagnóstico: A criança apresenta-se com dor e incapacidade de mover o membro, mantendo geralmente o cotovelo imobilizado pelo outro braço, com muito medo de movê-lo, ou paralisado ao longo do corpo. O diagnóstico é feito, na maioria das vezes, pela história clínica. Em casos com história clínica clássica e apresentação clínica compatível, não é necessário fazer qualquer exame diagnóstico. Contudo, se houver dúvida, pode-se fazer uma radiografia do cotovelo nas incidências anteroposterior e perfil; não haverá qualquer alteração radiográfica na pronação dolorosa e, muitas vezes, quando se posiciona o membro para fazer o exame, obtém-se a redução espontânea. Conduta: redução incruenta, que deve ser feita no pronto-socorro e sem sedação. Não é necessária cirurgia ou imobilização. 2.5 LUXAÇÃO DO COTOVELO - Definição: luxação é a perda de congruência articular da articulação úmero-rádio-ulnar. - Epidemiologia: São a segunda articulação mais luxada, atrás apenas do ombro, mas não pela sua frequência e sim pela infrequência das outras luxações. - Mecanismo de trauma: A luxação do cotovelo ocorre por uma queda da própria altura com a mão estendida, havendo, assim, um momento axial e em valgo (muito semelhante ao da fratura supracondiliana), que leva à luxação posterolateral, a mais comum. - Quadro clínico e Diagnóstico: A luxação do cotovelo apresenta-se com muita dor e incapacidade funcional total do cotovelo, incluindo flexão, extensão e pronossupinação. A deformidade articular é evidente e é importante que se faça a avaliação neurovascular para ter certeza de que não há comprometimento do feixe. A confirmação diagnóstica é feita por meio da radiografia do cotovelo, nas incidências anteroposterior e perfil. Considerando que fraturas-luxações do cotovelo podem envolver também os ossos do antebraço e do úmero, não se esqueça de sempre radiografar os ossos longos proximais e distais. - Tratamento: Tratando-se de uma luxação simples (portanto, sem fraturas), procede-se à redução da articulação, no próprio setor de emergência. Pode-se fazer uma infiltração articular com anestésico para ajudar a diminuir a dor. A redução é feita com o paciente em decúbito ventral, com o ombro abduzido a 90 graus, o cotovelo fletido a 90 graus e para fora da maca. Traciona-se o membro pelo punho e, quando a resistência do tríceps é vencida, o cotovelo reduz. Após a redução, testa-se a estabilidade da articulação e a necessidade de reparos ligamentares. A imobilização deve ser feita por uma semana, no caso de uma luxação simples sem instabilidade. Outros casos necessitarão de cirurgia reparatória. 2.6 LUXAÇÃO DE JOELHO - Epidemiologia: Patologia rara, quatro vezes mais comum em homens. Estima-se que metade dos casos tenha redução espontânea e, portanto, não seja diagnosticada. - Mecanismo de trauma: Lesões de alta energia associam-se a acidentes automobilísticos ou quedas. Por outro lado, lesões de baixa energia também podem ocorrer durante caminhada ou atividade esportiva. A luxação posterior ocorre pelo mesmo mecanismo que a lesão do LCP: impacto contra a tíbia em um joelho fletido. A luxação anterior ocorre por hiperextensão. - Quadro clínico e Classificação: O paciente apresenta-se com dor, deformidade e incapacidade de mover o membro. Lesão do nervo fibular ocorre em 25% e fraturas estão presentes em 60% dos casos. A direção da luxação da tíbia leva à classificação: • Anterior: mais comum, responde por 30% a 50% dos casos. Maior incidência de lesão do nervo fibular, com grande risco também de lesão da artéria poplítea. • Posterior: é a segunda mais comum (30% a 40% dos casos) e a que apresenta maior risco de lesão da artéria poplítea – 25%. Associada também à lesão do LCP. • Lateral: 13% dos casos. • Medial: 3% dos casos. • Rotacional: 4%, geralmente irredutível. - Diagnóstico: À avaliação física, é sempre essencial averiguar o status neurovascular. A confirmação diagnóstica é por meio da radiografia de joelho, nas incidências anteroposterior e perfil. Uma ressonância magnética feita posteriormente pode ajudar a avaliar os ligamentos e estruturas lesadas. - Tratamento: A luxação deve ser reduzida imediatamente e o pulso deve ser checado antes e depois da redução. Mesmo que ele esteja preservado, deve-se medir o índice tornozelo-braquial (divisão da pressão do tornozelo pela pressão do braço). Índices acima de 0,9 indicam apenas observação clínica. Índices abaixo de 0,9 indicam avaliação com ultrassonografia ou angiotomografia. O joelho deve ser imobilizado após a redução e, dependendo do seu grau de instabilidade, pode ser necessária uma fixação externa. Caso haja necessidade de intervenção da cirurgia vascular, deve-se fixar externamente o joelho primeiro. - Complicações: Lesão do nervo fibular; lesão da artéria poplítea; fraturas associadas; lesão ligamentar e meniscal. Uma isquemia acima de oito horas eleva o risco de amputação para 86%. 3. ENTORSE DO JOELHO A entorse do joelho segue o mesmo princípio que a entorse de qualquer articulação: há um trauma com lesão, parcial ou total, dos ligamentos. Especificamente falando do joelho, quando dizemos entorse, queremos dizer que realmente não houve lesão ligamentar – ou falaríamos em lesão parcial do LCA, LCP etc. A entorse apresenta-se com edema, dor e impotência funcional variável. Ao exame físico, há poucos achados, geralmente com dor e sensibilidade à palpação do ligamento acometido. Nas entorses do joelho, é essencial avaliar todos os ligamentos e meniscos por meio dos testes semiológicos. Ocasionalmente, especialmente em casos de lesão ligamentar, isso pode ser impossível, e uma opção é imobilizar o paciente, seguindo o método PRICE, e reavaliar em uma semana, quando o edema tiver diminuído. Exames subsidiários, na entorse, não trarão qualquer informação: radiografias serão normais, ultrassonografias indicarão um derrame articular discreto e podem identificar alguma alteração talvez nos ligamentos mais superficiais, como LCL e LCM, e ressonância não trará nada que o próprio exame físico já não apresente: um estiramento. Assim, como toda entorse, a entorse do joelho pode ser muito bem conduzida pelo método PRICE. Regras de Ottawa. Essas regras foram criadas originalmente para o tornozelo e indicam quando solicitar uma radiografia na ocorrência de uma entorse dessa articulação. Posteriormente, elas foram desenvolvidas também para os joelhos e pés e são como segue: Só devem ser solicitadas radiografias em casos com menos de sete dias de evolução e caso o paciente apresente pelo menos um dos itens seguintes: - 55 anos ou mais; ou - Sensibilidade isolada na patela (válido apenas como achado isolado); ou - Sensibilidade à palpação da cabeça da fíbula; ou - Incapacidade de fletir até 90 graus; ou - Incapacidade de apoiar carga por quatro passos, imediatamente após o trauma e na sala de exames.