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Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. • pruriginosas e inúmeras, confluentes, acompanhadas de eritema -eczema • com prurido discreto ou sensação de queimação, reunidas em pequenos aglomerados (em torno de 10 elementos) herpes simples • sem prurido, com hiperestesia e com disposição metamérica -herpes-zóster • erupção generalizada assestando-se em outra dermatose preexistente -erupção variceliforme de Kaposi • erupção aguda ao nível das regiões palmares e plantares - disidrose • erupção vesiculopustulosa acompanhada, em geral, de lesões eritematoescamosas sem prurido -psoríase pustulosa. Hereditária • bolhas tensas, sanguinolentas, em áreas de traumatismo- epidermólise bolhosa simples • idem, com involução atrófica e cistos epidérmicos - epidermólise bolhosa distrófica • idem, com êxito letal in utero ou até 4 meses de idade - epidermólise bolhosa letal • em bebês do sexo feminino, precedendo o aparecimento de lesões verrucosas ou hipercrômicas - incontinência pigmentar. Adquirida • bolhas não tensas (acantolíticas) com lesões de mucosa oral -pênfigo vulgar • bolhas rasas (acantolíticas), sem lesões orais e tendência ao estado foliáceo -pênfigo foliáceo • bolhas praticamente inaparentes; lesões eritematoescamosas em região centrofac ial, esternal e/ ou interescapular pênfigo eritematoso (Senear- Usher) • início por bolhas (acantolíticas) orais, com evolução para lesões vegetantes -pênfigo vegetante • vesículas, bolhas, placas urticadas e prurido - dermatite de Duhring-Brocq • bolhas tensas subepidérmicas, às vezes comprometendo a mucosa oral, em pessoas idosas - penfigoide bolhoso • vesículas, bolhas, lesões urticadas e prurido em gestantes herpes gestationis • bolhas tensas com formação sniequiante de mucosas (ocular, oral) -penfigoide cicatricial • lesões eritematopapulosas e vesiculobolhosas de morfologia variada, algumas em íris ou alvo - eritema multiforme. • lesões eritematopapulosas e vesiculobolhosas, com nitenso comprometimento de mucosas e estado geral grave - síndrome de Stevens-Johnson • bulose generalizada com intenso descolamento epidérmico (como grande queimado) - necrólise epidérmica tóxica. Há dois tipos de vírus herpes-simplex: tipo 1 (HSV-1), responsável principalmente por infecções na face e no tronco, e o tipo 2 (HSV-2), relacionado especialmente às infecções genitais. Entretanto, ambos podem infectar qualquer parte da pele ou das mucosas. A transmissão do HSV-1 é por contato pessoal, próximo ou íntimo. Por não resistir à secagem e à temperatura ambiente, a transmissão por fômites ou aerossol é difícil. Os indivíduos portadores do HSV-1 transmitem o vírus pela saliva ou qualquer outra secreção infectada, ou ainda pelo contato direto com as lesões. Cerca de 70% dos adultos com mais de 40 anos são soropositivos para o HSV-1 e muitos o excretam de forma intermitente na saliva ou secreções, mesmo quando assintomáticos. As partículas virais (vírions) penetram facilmente as mucosas e pequenas soluções de continuidade da pele (abrasões). Uma vez adquirido, o HSV- -1 penetra nas células da epiderme e derme, multiplicando-se e atingindo terminações nervosas locais. A maioria (cerca de 75% dos casos) não desenvolve sintomas e a infecção permanece subclínica. A principal característica do vírus é a sua persistência no organismo do hospedeiro: ele simplesmente não é eliminado. Ao invés disso, caminha pelos axônios neurais e ganha os corpos celulares dos neurônios do gânglio do trigêmio (gânglio de Nasser), onde o seu genoma permanece em estado latente incorporado no genoma celular. A qualquer momento, por mecanismos ainda não conhecidos, o vírus pode voltar a se replicar nos neurônios do gânglio e descer pelos nervos periféricos e terminações nervosas para novamente atingir a pele e causar lesões. As manifestações clínicas são distintas e estão relacionadas ao estado imunológico do paciente. Na primoinfecção herpética, pela imaturidade do sistema imunológico específico contra o vírus, as manifestações clínicas, quando ocorrem, são floridas e mais prolongadas. Na reativação herpética, o quadro clínico é mais brando, pelo uso da memória imunológica. Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. Embora o HSV-1 esteja mais relacionado à gengivoestomatite, ao herpes orolabial e ao herpes cutâneo, e o HSV-2 mais ao herpes genital, ambos os vírus podem causar qualquer das manifestações! O sexo oral é geralmente o responsável pelo herpes oral por HSV-2 e pelo herpes genital pelo HSV-1. Gengivoestomatite herpética (primoinfecção) Afeta principalmente crianças. O período de incubação entre a exposição e o aparecimento dos sintomas é de 3-10 dias (média de 6-8 dias). O quadro inicia-se abruptamente com febre alta, dor de garganta, mialgia, adenopatia cervical e aparecimento de lesões vesiculares dolorosas múltiplas envolvendo lábios, região perioral e cavidade bucal. As lesões clássicas do herpes simples são vesículas com base eritematosa que posteriormente podem se romper, evoluindo para pequenas lesões ulceradas, por vezes formando-se pequenas crostas. Pode haver acometimento do palato e da faringe, provocando dificuldade para deglutir alimentos e odinofagia. O principal diagnóstico diferencial é com a herpangina (enterovirose por coxsackie A que produz vesículas no palato, mas poupa a mucosa anterior da cavidade oral e a região labial). A síndrome do HSV-1 é autolimitada, durando cerca de 10- 14 dias, mas pode se estender por até seis semanas. A desidratação é uma complicação comum e deve ser evitada. Alguns quadros de primoinfecção herpética podem ser brandos, com poucas vesículas e sem febre ou comprometimento do estado geral. Herpes orolabial (reativação herpética) Esta forma é mais comum em adultos. Pode ser desencadeada por exposição ao sol, trauma, estresse emocional ou por uma infecção respiratória febril. Iniciando-se com um pródromo de uma dor em queimação ou ardência na região labial ou perilabial, cerca de 24h antes do surgimento das lesões. Surgem vesículas agrupadas, com base eritematosa, acometendo uma pequena área orolabial unilateral (FIGURAS 2A, 2B e 2C). Não há sinais e sintomas sistêmicos. A dor melhora após as primeiras 24h e as lesões regridem após 5 dias. A frequência de episódios recorrentes é extremamente variável. Um estudo mostrou que em 25% dos casos a recorrência era uma por mês, e em 20%, duas por ano (a maioria oscilava entre estes extremos). Panarício herpético e herpes cutâneo O HSV-1 pode causar lesões típicas (vesículas agrupadas com base eritematosa) em qualquer parte da pele, geralmente após inoculação direta do vírus. Predomina neste grupo o panarício herpético, adquirido pelo contato do dedo com secreção contaminada ou lesão herpética. Pode ocorrer por autoinoculação. Médicos, dentistas, enfermeiros são grupos de risco para este tipo de manifestação. O panarício herpético também pode ser causado pelo HSV-2. Surge abruptamente dor, edema e eritema da extremidade do dígito com aparecimento das vesículas. Sintomas sistêmicos e adenite satélite podem ocorrer. Erupção variceliforme de Kaposi (eczema herpético) A erupção variceliforme de Kaposi é um quadro de herpes simples que se dissemina em lesões cutâneas preexistentes, geralmente em indivíduos com dermatite atópica. Aparecem vesículas por toda área da dermatite e que logo se transformam em pústulas. A transmissão é por contato sexual, geralmente se manifestando como herpes genital (que é uma DST). Embora na primoinfecção genital 30% dos casos sejam pelo HSV-1, a reativação herpética genital quase sempre é pelo HSV-2. Estima-se que 20-50% dos adultos com vida sexual ativasejam portadores do vírus e podem transmiti-lo mesmo quando assintomáticos. Tal como no caso do HSV-1, a infecção por SV-2 também é persistente, com o vírus mantendo-se no estado de latência nos gânglios sacrais. Este pode ser reativado a qualquer momento, justificando os casos de herpes genital recorrente. Herpes genital O período de incubação é de 3-14 dias e a duração dos sinais e sintomas é em média de 12 dias para a primoinfecção e de 9 dias para a infecção recorrente. No homem, as lesões ocorrem na glande e prepúcio, e na mulher, nos grandes e pequenos lábios, clitóris e colo uterino. As lesões são vesículas com base eritematosa, que evoluem para úlceras e crostas seroemorrágicas. O quadro da primoinfecção é mais proeminente e pode cursar com febre, adenopatia inguinal e queda do estado geral. Disúria e secreção uretral no homem e corrimento aquoso na mulher são relatados. Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. Herpes simples neonatal Ocorre quando a mãe apresenta herpes genital com a contaminação do neonato durante o parto. Pode se manifestar de três formas: (1) envolvimento de pele, olho e mucosa oral; (2) encefalite; e (3) doença disseminada. Atinge mais frequentemente cabeça ou região glútea. É contraindicado o parto normal em gestantes apresentando herpes genital. Eritema polimorfo herpético O eritema polimorfo ou multiforme é uma erupção cutâneo-mucosa por hipersensibilidade disseminada que se caracteriza por lesões papuloeritematosas, algumas do tipo em alvo (centro mais proeminente ou vesiculoso), predominantemente na palma das mãos e membros – FIGURA 6). Pode ser provocada por reação a drogas ou por agentes infecciosos, destacando-se o vírus herpes-simplex. A forma grave desta dermatose é a síndrome de Stevens-Johnson, caracterizada pela disseminação das lesões para o tronco, que podem ser eritematosas, purpúricas e bolhosas, e acometimento da mucosa orogenital. Sempre que estivermos diante de um paciente apresentando um quadro de eritema polimorfo, temos que investigar história de herpes, por ser uma das principais causas. O quadro surge, em geral, 7-10 dias após o herpes. Herpes simples em imunodeprimidos O HSV em latência surge frequentemente pela imunossupressão. É uma das complicações mais frequentes na Aids. A característica clínica muitas vezes torna-se bem diferente do habitual, as lesões podem se apresentar de forma verrucosa ou úlceras crônicas (FIGURAS 7A e 7B) com mais de um mês de evolução, e acompanhado de dor. É a causa mais frequente de úlceras orais na Aids. DIAGNÓSTICO O diagnóstico é clínico. Na dúvida, realiza-se o método de Tzanck (raspado do assoalho de uma vesícula, corando- se pelo Giemsa, Leishman ou HE; o exame é positivo na presença de células multinucleadas que indicam infecção pelo vírus herpes-simplex ou pelo VZV). O Vírus Varicela-Zóster (VZV) causa dois tipos de doença no ser humano: (1) varicela; e (2) herpes-zóster. A varicela é uma doença febril com exantema vesicular disseminado que ocorre quase sempre na infância e foi devidamente descrita na apostila de Pediatria. A varicela é a primoinfecção pelo VZV, enquanto o herpes-zóster é a reativação do vírus. O VZV, tal como o HSV-1 e HSV-2, permanece latente nos neurônios ganglionares. A diferença é que qualquer gânglio da medula espinhal e mesmo gânglios dos pares cranianos (trigêmio e geniculado) podem conter o vírus. A partir desses gânglios, o vírus desce pelos nervos periféricos ou pares cranianos para novamente acometer a pele, sempre respeitando um determinado dermátomo. QUADRO CLÍNICO O herpes-zóster ocorre vários anos depois do episódio de varicela. É mais comum após os 40 anos de idade, especialmente nos idosos. O quadro se manifesta em um dermátomo unilateral (esta é a principal característica da doença!!). O paciente refere um pródromo de dor em queimação na área do dermátomo acometido, por vezes associada à febre. Dias depois aparecem as lesões: vesículas agrupadas com base eritematosa, dolorosas (FIGURAS 8C e 8D). A dor é decorrente da necroinflamação do gânglio reativado. Os nervos mais frequentemente atingidos são os intercostais (50%), vindo, em seguida, trigêmio (15%), cervical, lombar e lombossacro. As vesículas tornam- se crostas e as lesões tendem a desaparecer em 2-4 semanas, podendo haver infecção bacteriana secundária. A complicação principal é a neuralgia pós-herpética, ocorrendo em 10-15% dos casos (mais comum nos idosos). Definida pela persistência (> 30 dias) de dor em queimação e disestesia na área afetada após o desaparecimento das lesões. Pode persistir por meses ou anos se não tratada e, eventualmente, é bastante limitante. O herpes-zóster oftálmico atinge a região do ramo oftálmico do trigêmio, acometendo também a córnea e por vezes outras estruturas do olho, com risco de amaurose. O envolvimento do ramo nasociliar leva à formação de vesículas no lado ou na ponta do nariz – sinal de Hutchinson. Na síndrome de Ramsay-Hunt, o território do gânglio geniculado é contemplado, surgindo lesões no ouvido externo, associadas a paralisia facial periférica e sintomas vestibulococleares (vertigem, zumbido, hipoacusia). Outras possíveis complicações são: Guillant-Barret e pupila de Argyll-Robertson. Herpes-Zóster em Imunodeprimidos É comum em pacientes com Aids e nos transplantados. Manifesta-se com acometimento extenso por mais de um dermátomo e tende a ser recorrente. Estas características devem sempre aventar a suspeita de imunodeficiência, Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. indicando a solicitação do anti-HIV nos casos apropriados. DIAGNÓSTICO O diagnóstico é clínico ou confirmado pelo método de Tzanck. Doença relativamente benigna, de caráter polimorfo, pruriginosa, com fases de exacerbação e acalmia relativa, associada, muitas vezes, à enteropatia tipo glúten-sensível, geralmente assintomática. É relativamente rara, predomina no adulto jovem, embora possa ocorrer na criança e no adolescente. Atinge mais o sexo masculino do que o feminino (2:1). É indiferente quanto à raça. De causa desconhecida, a DH tem patogenia imunológica. A Imunofluorescência direta (ifd) realizada em pele sã ou perilesional demonstra que há depósitos de IgA1, sob a forma granular, na papiladérmica ; ocasionalmente, IgG, IgM e complemento podem ser detectados, assim como no sangue são detectados anticorpos antitransglutaminase. A transglutaminase tecidual é responsável pela estabilidade da matriz extracelular. No intestino, essa enzima, em especial a Tgase 3 , considerada o principal autoantígeno, promove a deaminação da gliadina e com esta formaria um complexo peptídio que se uniria à depressão antigênica da molécula da classe II do MHC HLA-DQ2 das células apresentadoras de antígeno. Este, por sua vez, seria apresentado aos linfócitos T sensibilizados, que seriam capazes de estimular a produção de linfócitos B do tipo IgA, os quais se comportariam como autoanticorpos contra vários alvos, entre os quais gliadina, complexo peptídio transglutaminase-gliadina e transglutaminases, inclusive epidérmicas. Supostamente, nos pacientes com DH, o que acontece no intestino poderia ocorrer na pele. A deposição dessas IgA na papila dérmica age como um fator quimiotático para coleções de neutrófilos ativados (microabscesso de Piérard), que, com suas enzimas proteolíticas, lesionam a lâmina lúcida, levando à formação de bolha subepidérmica. Anticorpos séricos em títulos baixos, incluindo imunocomplexos circulantes, são detectáveis em cerca de 30% dos casos; estes não se relacionam com a gravidade clínica e são do tipo IgA antigliadina (fração solúvel alcoólica do glúten e seu componente antigênico),antirretículo e antiendomísio, e este último correlaciona- se com o grau de acometimento intestinal. Em geral, o início é insidioso e pode processar-se por prurido e sensação de queimação, que pode preceder as manifestações objetivas em até 8 a 12 h. A erupção cutânea pode aparecer concomitantemente, ou mesmo antes das sensações subjetivas. Lesões eritematosas, seropápulas eritematosas de aspecto urticariforme, pequenas bolhas (como vesículas) e, até mesmo, grandes bolhas constituem a erupção, que é simétrica e tende à generalização (Figuras 21.26 e 21.27). Os locais de escolha são: regiões interescapular e sacra, nádegas, superfícies extensoras dos antebraços, joelhos, cotovelos, couro cabeludo e nuca. Um dos aspectos característicos, na maioria dos casos, é o agrupamento das lesões (Figura 21.28), portanto, com arranjo herpetiforme e com crescimento centrífugo, ou seja, maior quantidade de bolhas na periferia. Observam-se escoriações, lesões crostosas e despigmentação residual. Excepcionalmente, podem ocorrer lesões da mucosa oral, o que representa prognóstico ruim. Pode-se observar sintomatologia de má absorção, como esteatorreia (30%), dispepsia, perda de peso. Exames complementares demonstraram absorção anormal de d- xilose (até 30% dos casos), anemia por deficiência de folato e ferro e acloridria. O iodo é reconhecidamente capaz de desencadear exacerbação da doença. Iodeto de potássio, meios de contraste, alimentos ricos em iodo, inclusive frutos do mar, preenchedores dentais que contenham tri- iodometano e doenças da tireoide (em tratamento ou não com compostos iodados) têm sido implicados no desencadeamento ou na exacerbação da DH. O local ideal da biopsia é a pele eritematosa próxima à bolha recente. Neste local, encontra-se, inicialmente, no topo da papila, acúmulo de neutrófilos que constituem os característicos microabscessos de Piérard. Eventualmente, podem surgir eosinófilos, seguindo-se a formação da bolha, inicialmente multilocular, entre a papila dérmica e a epiderme. Os neutrófilos apresentam-se degenerados com leucocitoclasia. A microscopia eletrônica revela bolha subepidérmica na zona da lâmina lúcida. Ainda que não tenha sido estabelecido o antígeno da DH, o depósito de IgA não está relacionado com qualquer estrutura Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. reconhecida da pele. A biopsia de jejuno revela atrofia de vilosidade e aumento da contagem de linfócitos. O elemento de maior valor é a IFD perilesional (padrão granular de IgA na papila). Na histologia, o elemento de maior valor é a papilite neutrofílica e/ou eosinofílica, o que muitas vezes não possibilita, isoladamente, um diagnóstico de certeza em relação ao penfigoide bolhoso. A resposta terapêutica satisfatória à dapsona e a piora com o uso de iodeto de potássio são características da DH. Deve ser feito com as demais buloses, em especial dermatose por IgA linear, farmacodermias, lúpus eritematoso sistêmico bolhoso e epidermólise bolhosa adquirida. Evolui em surtos agudos com fases de relativa acalmia. Um pequeno número de pacientes consegue entrar em remissão. Parece encerrar um risco relativo de 2 a 3 vezes quanto ao desenvolvimento de neoplasia, em especial de linfoma gastrintestinal. Pacientes com DH apresentam maior incidência de doenças consideradas autoimunes como tireoidites, diabetes, anemia perniciosa etc. Erupção bolhosa ou vesicobolhosa, que acomete especialmente crianças em idade préescolar (a antigamente denominada bulose crônica da infância); há também outro pico de incidência em adultos, especialmente entre 60 e 65 anos de idade, e com ligeira predominância feminina. Pode ser desencadeada por fármacos, em especial vancomicina; penicilina, cefalosporina, anti- inflamatórios não esteroides ocasionalmente e raramente lítio, ciclosporina, furosemida, entre outras. Há relatos de associação a neoplasias, principalmente distúrbios mieloproliferativos, e diversas outras como câncer de bexiga e rim; entretanto, essas relações são incertas. Existe forte associação a HLA-B8, -CW7 e - DR3. Os principais antígenos envolvidos são colágeno XVII, que corresponde ao antígeno penfigoide de 180 kDa (AP2), ou os produtos proteolíticos de sua clivagem, as moléculas de 97 kDa ou de 120 kDa. Outros epítopos do AP2 e o colágeno VII podem estar implicados também. As lesões cutâneas podem ser placas urticadas, pápulas, vesículas e bolhas que podem ser, inclusive, hemorrágicas; lesões anulares com bolhas na periferia resultam no denominado aspecto “em colar de pérolas” (Figuras 21.24 e 21.29), que ocorre, com maior frequência, em crianças, assim como nestas é típica a localização periorificial (Figuras 21.30 e 21.31). Pode ser muito pruriginosa. Ocorre, também, acometimento mucoso importante e a intensidade varia de leve a grave, o que faz lembrar o penfigoide cicatricial. As mucosas mais acometidas são a oral e a conjuntival (em 70% dos adultos). A histopatologia é idêntica à da DH e reflete as características imunológicas próprias da doença: depósito linear de IgA e C3 na zona da membrana basal; a deposição de IgA se dá na lâmina lúcida ou na zona da sublâmina densa. O diagnóstico diferencial clínico deverá ser feito com DH, penfigoide bolhoso, PC, lúpus eritematoso sistêmico e eritema polimorfo. O diagnóstico diferencial histopatológico deverá ser feito essencialmente com a DH e requererá a imunofluorescência para confirmação. O processo costuma ser autolimitado, com remissão em 3 a 4 anos para crianças, e em 3 a 6 anos para adultos, na maioria dos pacientes. São processos infecciosos, classificados primariamente como cutâneos e por impetiginização ou por infecção secundária, quando a pele estiver previamente lesada. São mediados por toxinas (endo ou exotoxinas). Podem ser classificadas por duas formas: ■ etiologia: • ∘ estafilococcias (Staphylococcus aureus) • ∘ estreptococcias (Streptococcus pyogenes) ■ profundidade da infecção na pele: • ∘ infecção superficial da pele: impetigo e síndrome da pele escaldada estafilocócica (SSSS) • ∘ infecção da epiderme e derme: ectima Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. • ∘ infecção mais profunda: erisipela e celulite • ∘ profunda com tendência à supuração: abscesso e fleimão • ∘ abertura do folículo pilossebáceo: ostiofoliculite • ∘ profundidade do folículo piloso: foliculite • ∘ folículo piloso juntamente com sua glândula sebácea: furúnculo e carbúnculo • ∘ glândula sudorípara écrina: periporite e abscessos múltiplos dos lactentes • ∘ unha e suas dobras: paroníquia e panarício. Na patogenia das piodermites, diversos fatores devem ser considerados: ▪ a interferência da flora residente, por dificultar a colonização de outras bactérias ▪ a barreira mecânica celular, com renovação constante da epiderme ▪ o grau de hidratação da pele normal, visto que fatos de observação clínica e experimental demonstram que, quanto maior a umidade da pele, mais fácil a multiplicação de bactérias ▪ o pH ácido dificulta e o pH alcalino facilita a multiplicação das bactérias. O pH da pele situa-se entre 4,6 e 5,8 ▪ a barreira química representada por ácidos graxos não saturados (principalmente o oleico) produzidos à custa da ação da flora residente , sobretudo do Propionibacterium acnes ▪ a capacidade imunológica (celular e/ou humoral) do indivíduo ▪ a patogenicidade e o grau de virulência do germe. • São doenças com comprometimento cutâneo e, algumas vezes, mucoso, que têm em comum a presença de bolhas intraepidérmicas, que ocorrem por acantólise, que é a perda da adesão entre as células epiteliais da camada de Malpighi. • Ocorrea produção de autoanticorpos contra antígenos do desmossomos (estrutura celular responsável pela adesão celular epitelial), e esses antígenos são as desmogleínas, glicoproteínas transmembrânicas desmossômicas. • Os autoanticorpos (que são considerados patogênicos e pertencem à classe IgG) presentes nessas doenças reagem com as desmogleínas, levando à acantólise, resultando em perda de coesão entre os queratinócitos, que provoca a formação das vesículas e bolhas. • Os pênfigos classificam-se em diferentes variantes, mas as formas mais frequentemente descritas são o pênfigo vulgar e o pênfigo foliáceo. • O foliáceo tem duas formas completamente distintas: 1) o pênfigo foliáceo não endêmico/ ou pênfigo de Cazenave; 2) o pênfigo foliáceo endêmico/ fogo selvagem. • O pênfigo vulgar tem duas variedades: 1) a comum, com bolhas; 2) a vegetante, caracterizada por lesões vegetantes localizadas. • A etiologia é desconhecida, embora, em certos casos, o agente possa ser suspeitado. Fatores genéticos provavelmente estão na predisposição individual para desenvolver a doença. Em todos os pênfigos, está presente o sinal de Nikolsky. Quando se faz uma fricção ocorre o deslizamento da pele aparentemente normal próxima da área comprometida, indicando acantólise. Então a pele é pressionada e puxada para o lado, ou é feito um movimento giratório, indo e voltando. Se o resultado do teste for positivo, haverá desprendimento da camada superficial fina, deixando a pele rosa, úmida e geralmente muito sensível. É um excelente recurso diagnóstico dos pênfigos, embora não seja patognomônico. O pênfigo foliáceo pode ocorrer de forma não endêmica e de forma endêmica: 1) NÃO ENDÊMICA • Foi descrita por Cazenave, e, por esta razão, denomina- se “pênfigo foliáceo de Cazenave”. • + na 4ª ou 5ª décadas de vida • Não existem casos familiares. 2) ENDÊMICA • Tem ocorrência familiar • + em adultos jovens e crianças que vivem próximos a córregos e rios, em áreas rurais, e em algumas tribos indígenas. • Encontrado na América do Sul , principalmente no Brasil. Patogenia • Na patogenia do pênfigo foliáceo endêmico, devem ser considerados fatores de ordem ambiental, genéticos e imunológicos, que se correlacionam: • Fatores ambientais: Ocorre em áreas rurais em pessoas que vivem em más condições sociais, em habitações precárias próximas a córregos, com higiene pobre, em meio a animais domésticos e grande quantidade e variedade de insetos. Ocorre + nos estados: Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná e São Paulo. • Fatores genéticos: Demonstrada por estudos dos antígenos, em que determinados alelos conferem maior risco relativo à doença, exemplo: HLA-DRB1*0404; HLA- DRB1*1402 e HLA-DRB1*1406. Além de que, todos esses alelos apresentam a mesma sequência de aminoácidos, LLEQRRAA, na posição 67 a 74, na terceira região hipervariável do gene DRB1. • Fatores imunológicos : São doenças autoimunes em que se comprovou a presença de autoanticorpos antiepiteliais dirigidos contra os espaços intercelulares da epiderme. Verificou-se que a Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. principal subclasse de IgG envolvida no PFE é a IgG4. Além disso, o antígeno contra o qual reagem os anticorpos antiepiteliais, tanto no pênfigo foliáceo clássico como no PFE (endêmico), é a desmogleína-1. Os autoanticorpos do pênfigo foliáceo, inclusive do PFE, reagem contra os domínios EC1 e EC2, que são os domínios extracelulares da desmogleína-1 mais afastados da membrana celular. OBS: Há ainda uma relação entre presença de anticorpos antidesmogleína-1 e situação geográfica. Em indivíduos normais, quanto maior a proximidade do foco endêmico, maior a presença de anticorpos antidesmogleína, e quanto maior a distância do foco endêmico, menor a positividade para tais anticorpos, indicando que a produção de anticorpos antidesmogleína é desencadeada por fatores ligados ao ambiente, porém ainda desconhecidos. Nos indivíduos sãos, mas com positividade aos anticorpos antidesmogleína e nos doentes em remissão, a subclasse de IgG predominante é a IgG1; e quando esses indivíduos adoecem ou os doentes em remissão entram em atividade clínica, invertese e a IgG4 prepondera sobre a IgG1. Portanto, os indivíduos saudáveis com anticorpos antidesmogleína positivos e os doentes têm a mesma resposta IgG1, mas nos doentes, a resposta IgG4 é maior. Além disso, pode ocorre no PFE o fenômeno da disseminação de epítopos, isto é, inicialmente os anticorpos originados pelos f a t o re s a m b i e n t a i s d e s c o n h e c i d o s reconhecem o domínio extracelular EC5 da desmogleína-1, mas esse fenômeno não leva à acantólise, não causando a doença. Quando os anticorpos antidesmogleína passam a reconhecer os domínios EC1 e EC2, o que ocorre nos indivíduos geneticamente predispostos, produz-se acantólise e surge a doença ativa. Estudou-se a presença de anticorpos antidesmogleína no soro de doentes de dermatoses infecciosas que ocorrem também em áreas endêmicas de PF (hanseníase, paracoccidioidomicose) e de doenças em cuja cadeia de transmissão participam insetos vetores (leishmaniose, oncocercose, e doença de Chagas) ➢ Admite-se que componentes da saliva do inseto, e não o parasita em si, possam desencadear a produção de anticorpos antidomínio EC5 da desmogleína que, em indivíduos com alelos de suscetibilidade e habitantes de áreas endêmicas, possam evoluir por meio do fenômeno de disseminação de epítopos para reconhecimento dos domínios EC1 E EC2. ➢ Recentemente, demonstrou-se a hipótese do mimetismo antigênico, isto é, os insetos das áreas endêmicas, ao picarem o indivíduo, introduzem, por meio da saliva , antígenos que desencadeiam a formação de anticorpos que reagem cruzadamente com a desmogleína. Quadro clínico • Tanto o endêmico e não endêmico, caracterizam-se por: 1) Bolhas superficiais que se rompem com facilidade deixando áreas erosadas (Figura 16.3) 2) Com a ruptura das bolhas, formam-se erosões que confluem e geram áreas eritematosas recobertas por crostas e escamas. 3) S/ acometimento mucoso. 4) Sensível ao frio e piora com exposição solar. 5) Lesões iniciais geralmente ocorrem na face, no pescoço e na parte superior do tronco, permanecendo, nessas localizações, muitas vezes, por meses ou anos. E isso é a forma frusta/localizada (Figuras 16.4 e 16.5), chamada pênfigo eritematoso. 6) Quando, na maioria das vezes, espalham-se por todo o corpo rapidamente, com disseminação das lesões no sentido craniocaudal, de forma simétrica, é a forma generalizada bolho-invasiva (Figuras 16.6 e 16.7). Há sensação de ardor ou queimação, o que originou o nome “fogo selvagem”. 7) Alguns desses pacientes evoluem para a forma eritrodérmica (Figuras 16.8 e 16.9), em que as bolhas se tornam menos evidentes, distribuídas de forma universal na pele predominando o eritema e a descamação crônica. Observam-se odor característico e a cama do doente recoberta de escamas. Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. 8) Outros doentes, durante a evolução, apresentam lesões pigmentares de aspecto verrucoso (Figura 16.10), muitas vezes com distrofias ungueais e queratodermias palmoplantares. É a forma queratósica, que pode evoluir para lesões pigmentadas residuais, a chamada forma pigmentar, a qual indica remissão da enfermidade. Complicações: retardo do crescimento de crianças acometidas pela enfermidade, dermatofitoses, escabiose e disseminação do herpes-vírus, levando à erupção variceliforme de Kaposi. Diagnóstico • Feita a suspeita clínica, a diagnose deve ser confirmada laboratorialmente por meio de exames citológico e histopatológico e provas imunológicas que detectem a presença deanticorpos antiepiteliais. • Na citologia, demonstram-se células acantolíticas que permitem a diagnose de pênfigo, mas sem especificidade, pois ocorrem em todas as formas da doença. • A histopatologia r e v e l a c l i v a g e m intraepidérmica acantolítica alta, isto é, subcórnea ou granulosa. • A imunofluorescência direta demonstra depósitos de IgG e C3 pela epiderme em 100% dos casos em atividade clínica, e a imunofluorescência indireta é pos0itiva em 90 a 100% dos casos, em geral, em títulos bastante elevados quando em atividade clínica, havendo, na maioria dos casos, correlação entre títulos e atividade da doença. • Para diagnose, na grande maioria dos casos, as reações de imunofluorescência são suficientes, mas existem outras técnicas imunológicas, mais empregadas em pesquisa , e x : immunoblotting, a imunoprecipitação e a técnica de ELISA e preparações comerciais de desmogleínas para serem testadas com os soros dos doentes. Todas essas técnicas demonstram, nos pênfigos foliáceos, a presença de anticorpos antidesmogleínas-1 de 160 kD. Diagnóstico diferencial • Devem ser consideradas as demais dermatoses bolhosas, particularmente o pênfigo vulgar. • Nas formas frustas, é preciso diferenciar a dermatite seborreica e o lúpus eritematoso e, nas formas eritrodérmicas, devem ser consideradas as outras eritrodermias primárias e as dermatoses que podem evoluir para essa condição. • Considerado a forma mais grave de pênfigo. Sendo crônica e com períodos de remissão e exacerbação, podendo evoluir para óbito se não for tratado. • Inicia-se, em mais de 50% dos casos, com lesões exulceradas na mucosa oral, que lembram aftas, podendo permanecer nessa área por vários meses, antes do aparecimento de lesões na pele. • Pode surgir em qualquer idade (+ na 4ª e a 6ª décadas da vida) • Distribuição universal (porém possui mais casos entre os judeus) ➢ Isso porque estudos de histocompatibilidade têm mostrado uma incidência aumentada do HLADR4 (em judeus ashkenazi) e do DRw6 (em outros grupos étnicos). • Alguns recém-nascidos de mães com pênfigo vulgar apresentam a doença clínica e laboratorial de forma transitória, que desaparece alguns meses após o nascimento, o que demonstra a passagem dos anticorpos pela placenta. Patogenia • Doentes de pênfigo vulgar em atividade apresentam autoanticorpos das subclasses IgG1 e IgG4, porém os autoanticorpos patogênicos são da subclasse IgG4. • Estudos demonstram que doentes de pênfigo vulgar com lesões mucosas apresentam autoanticorpos somente contra a desmogleína-3, o que se denomina pênfigo vulgar mucoso. • Doentes de pênfigo vulgar com comprometimento mucoso e cutâneo apresentam autoanticorpos contra desmogleínas 3 e também contra a desmogleína 1, sendo que a doença é denominada pênfigo vulgar mucocutâneo. Quadro clínico • As manifestações iniciais da doença são a presença de lesões nas mucosas orais em 50 a 70% dos doentes (Figura 16.15), alcançando 90%, durante a evolução. • Podem acometer toda a mucosa bucal, mas predominam na mucosa jugal (parte interna da bochecha por dentro da boca), no palato e nas gengivas. O pênfigo vulgar pode se apresentar como gengivite descamativa. Outras mucosas podem também ser afetadas – conjuntival, nasal, faríngea, laríngea, esofagiana, vaginal, cervical, uretral e anal. • As lesões nas mucosas são representadas por bolhas flácidas, que, rompidas, formam erosões dolorosas que sangram facilmente. ➢ As lesões orais dificultam alimentação, com comprometimento nutricional e do estado geral. O pênfigo vulgar pode se restringir ao acometimento oral (tipo mucoso, com mínimo acometimento cutâneo) ou evoluir para acometimento cutâneo (tipo mucocutâneo), com bolhas flácidas sobre áreas de pele normal ou eritematosa (Figura 16.16). • As bolhas são frágeis e formam-se áreas erodidas, úmidas, sangrantes, algumas recobertas por crostas hemáticas, confluentes, dolorosas e sem tendência à cicatrização (Figura 16.17). • Sinal de Nikolsky positivo (relembrando: presente em todos os tipos de pênfigos!) Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. • As lesões cutâneas podem ser localizadas ou generalizadas, sendo comuns aquelas no couro cabeludo, na face, nas axilas e na virilha. • As lesões evoluem com discromia (hipercromia ou hipocromia), sem cicatriz. Complicações: Infecção bacteriana secundária é uma das mais frequentes do pênfigo vulgar, podendo ocorrer sepse e choque séptico. Desnutrição e caquexia também podem ser relatadas. A gestação pode precipitar ou agravar o pênfigo vulgar e no feto, podem ocorrer retardo de crescimento, prematuridade e morte intrauterina. OBS: Gestantes com pênfigo vulgar podem transmitir seus autoanticorpos para o feto, com o desenvolvimento de pênfigo neonatal. O pênfigo neonatal tende a desaparecer espontaneamente em três semanas, pois resulta, exclusivamente, da transferência de anticorpos que são progressivamente eliminados. Diagnóstico • A partir da suspeita clínica, a diagnose é confirmada por exame citológico, exame histopatológico, imunofluorescência e, eventualmente, por immunoblotting, imunoprecipitação e ELISA, da mesma forma descrita para o pênfigo foliáceo. • A diferença está no antígeno detectado pelas várias técnicas: Dsg-3 de 130kD no pênfigo vulgar mucoso; e Dsg- 1 e Dsg-3 (160kD e 130kD) no pênfigo vulgar mucocutâneo. • O exame histopatológico demonstra clivagem acantolítica baixa suprabasal. Diagnóstico diferencial • Excluir as demais formas de pênfigo e as doenças bolhosas, penfigoide bolhoso, penfigoide de membranas mucosas e epidermólise bolhosa adquirida. Devem ser ainda excluídas as dermatoses bolhosas medicamentosas. • Considerado uma variante benigna de pênfigo vulgar e costuma ocorrer em doentes mais jovens. Quadro clínico • Como no pênfigo vulgar, as lesões costumam se iniciar na mucosa oral. Evoluem, acometendo grandes dobras flexurais e intertriginosas. As bolhas são flácidas e, ao se romperem, dão lugar a áreas exulceradas envolvidas por vegetações que formam placas de aspecto verrucoso e hiperpigmentado (Figura 16.18). Diagnóstico • Histopatológico: Revela acantólise suprabasal com hiperplasia epitelial e a presença de microabscessos de eosinófilos. Nada mais é do que uma forma benigna e localizada do PF. Ocorre na etapa inicial ou regressiva (espontânea ou terapêutica) do PF. Chama-se a atenção para o aspecto morfotopográfico (lesão em “asa de borboleta” na face) que lembra o lúpus eritematoso. A D-penicilamina é o principal fármaco causador, seguida do captopril (anti-hipertensivo), que são estruturalmente semelhantes por conterem o grupamento sulfidrila (tiol), que, por sua vez, faz reação cruzada com as desmogleínas. Outras substâncias (não tióis) também podem desencadear pênfigo: penicilina, rifampicina e outros inibidores da enzima conversora de angiotensina, como o enalapril. A suspensão da substância não interrompe obrigatoriamente o processo. No pênfigo herpetiforme, as lesões simulam a dermatite herpetiforme, ou seja, vesículas, bolhas ou pápulas agrupadas que tendem a formar arranjo anular, inclusive prurido intenso. Raramente mucosas estão acometidas. Trata-se de uma entidade rara responsiva à dapsona, caracterizada por vesículas ou pústulas, sobre base eritematosa ou pele normal. Estas lesões agrupam-se, exibindo aspecto anular ou circinado. Elas se localizam em áreas intertriginosas, nas laterais do tronco e na parte proximal dos membros. O sinal de Nikolsky pode ser negativo. Constitui um diagnóstico diferencial importante com a doença de Sneddon-Wilkinson; nesta, a IFD é negativa. Caracteriza-se clinicamente por mucosite erosiva e dolorosa. Esta manifestaçãoé muito intensa, com má resposta à terapêutica. As lesões cutâneas polimórficas lembram eritema multiforme ou lúpus subagudo. A intensidade do acometimento da traqueia, dos brônquios e dos pulmões leva, com frequência, o paciente ao óbito. Este acometimento pulmonar, que não ocorre no PV, viabilizou a criação do conceito de síndrome multiorgão autoimune paraneoplástica. Linfoma não Hodgkin é a neoplasia mais comumente associada (38,6%); a leucemia linfocítica crônica (25%). Existe uma associação significante entre PP e HLA classe II DRB1*03 e em chineses HLACw*14. Histopatologia A histopatologia dos pênfigos caracterizase por bolhas intraepidérmicas e fendas decorrentes de acantólise (lise dos acantos, denominação antiga dos desmossomos das células malpighianas); no interior das bolhas, identificam-se células acantolíticas. No PV, a localização da clivagem acantolítica é suprabasal (Figura 21.13), enquanto, no PF, é na granulosa (Figura 21.14). Por vezes, em uma fase inicial, antes que Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. ocorra a acantólise, há invasão de eosinófilos na epiderme, conhecida como espongiose eosinofílica. No PVe, encontra-se caracteristicamente hiperplasia epitelial com grande quantidade de eosinófilos. No PH, é grande também a quantidade de eosinófilos. No pênfigo por IgA, a histopatologia varia: no tipo dermatose pustulose subcórnea há infiltrado neutrofílico; no tipo intraepidérmico neutrofílico, o infiltrado pode envolver os folículos pilosos. No PP, ocorre acantólise suprabasal e também, caracteristicamente, degeneração vacuolar da basal, bem como queratinócitos disceratóticos. Diagnóstico Deve ser feito por histopatologia (bolha acantolítica), acompanhada preferencialmente pela IFD e IFI e citologia do líquido das bolhas (células acantolíticas), associadas à clínica. Diagnóstico diferencial Lesões mucosas: aftas, herpes, eritema multiforme, líquen plano, doença de Behçet, penfigoide bolhoso e penfigoide cicatricial; lesões cutâneas: farmacodermia, Stevens-Johnson, eritrodermias de outra natureza (apenas para o PF), dermatite seborreica, lúpus eritematoso e outras doenças vesicobolhosas. Do ponto de vista histopatológico, faz-se com doença de Darier, Hailey-Hailey e de Grover. Evolução e prognóstico São doenças de evolução crônica e não limitada. O prognóstico do PV e do PF é o de uma doença potencialmente fatal. Graças à introdução dos corticosteroides sistêmicos, o número de mortes diminuiu, ocorrendo em cerca de 10% dos pacientes. O PF é de melhor prognóstico que o PV, assim como o são os respectivos subtipos. A instituição precoce da terapia adequada influencia favoravelmente a evolução. Em geral, a morte é resultante de infecções ou complicações do tratamento. Excepcionalmente pode ocorrer a transformação com maior frequência do PF em PV do que do PV em PF. As farmacodermias são reações cutâneas a medicamentos utilizados na prática médica. Estima-se uma incidência entre 2 e 3% dos pacientes hospitalizados. Qualquer fármaco pode causar erupções cutâneas, embora os mais frequentemente implicados sejam as penicilinas (especialmente as aminopenicilinas), as sulfonamidas, os anticonvulsivantes aromáticos (fenitoína, carbamazepina, fenobarbital), os Anti-Inflamatórios Não Esteroidais (AINE) do grupo dos oxicams (piroxicam, tenoxicam etc.) e butazonas (fenilbutazona), inibidores da ECA, hidralazina e alopurinol. Existem vários tipos de farmacodermia, cada um apresentando o seu grupo de drogas mais comumente envolvidas. É claro que existem medicamentos que estão incluídos em mais de um tipo de erupção cutânea. Virtualmente, qualquer quadro clínico pode ser mimetizado por fármacos. Algumas formas são graves e potencialmente fatais, como a reação anafilática, a Síndrome de Stevens- Johnson (SSJ) e, principalmente, a Necrólise Epidérmica Tóxica (NET). Em relação à patogênese e à fisiopatologia, podemos classificar as farmacodermias em imunológicas (alérgicas) e não imunológicas (não alérgicas): • Superdosagem (ex.: necrose por derivados do ergot); • Fatores individuais (ex.: idiossincrasia e intolerância); • Efeitos colaterais (ex.: alopecia pelo uso de citostáticos); • Alteração do equilíbrio ecológico (ex.: candidíase vaginal após corticoterapia ou antibioticoterapia); • Teratogenicidade (ex.: focomelia por talidomida); • Fototoxicidade (ex.: tetraciclina, dapsona, psoralenos); • Interações medicamentosas (ex.: inibindo ou estimulando a metabolização pelo citocromo p450). • Neste grupo merecem destaque: 1. A urticária não alérgica, provocada pela liberação histamínica induzida por contrastes iodados, morfina, codeína, curare (antracúrio, vecurônio, succinilcolina) e inibidores da ECA (FIGURA 1); 2. A necrose cutânea pelo cumarínico, quadro grave decorrente de fenômeno tromboclusivo dos vasos cutâneos (FIGURA 2); 3. A reação de Jarisch-Herxheimer. Esta última é observada classicamente após o uso da penicilina G benzatina para tratar a sífilis. Ocorre após 4 a 12 horas da primeira injeção, manifestando-se por febre moderada, mal-estar, cefaleia, mialgia, rubor facial, leucocitose, exacerbação das lesões preexistentes ou um novo rash eritematoso, durando até 24 horas. Ocorre em 50% dos casos na sífilis primária, em Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. 90% dos casos na sífilis secundária e em 25% na sífilis latente. • Reação tipo I: imediata (após 30 a 60 minutos), mediada por IgE, provocando degranulação de mastócitos e basófilos, liberando histamina, prostaglandinas e leucotrienos. Representada por urticária, angioedema e reação anafilática; • Reação tipo II: citotoxidade mediada por anticorpos (IgG e IgM); • Reação tipo III: mediada por imunocomplexos. Exemplificada pela vasculite cutânea e a doença do soro; Devemos ressaltar que muitas formas de farmacodermia não têm mecanismo muito bem estabelecido, como é o caso de eritema multiforme, SSJ e NET. 1) Exantema Induzido Por Drogas Drogas mais comuns • Betalactâmicos (penicilinas). • Sulfonamidas. • Eritromicina. • Gentamicina. • Anticonvulsivantes aromáticos. O rash cutâneo aparece geralmente dentro de duas semanas após início da droga (podendo também ocorrer até duas semanas após a sua suspensão). O mecanismo é desconhecido. Um tipo clássico é o rash induzido pela ampicilina em 85% dos pacientes com mononucleose infecciosa (vírus Epstein-Barr). É uma erupção eritematosa maculopapular de distribuição simétrica, geralmente pruriginosa, que surge principalmente no tronco e nas áreas de pressão em pacientes acamados (FIGURA 3). Pode ser do tipo morbiliforme (com lesões eritematosas confluentes, semelhantes ao sarampo). Com a suspensão da droga, desaparece em uma a duas semanas. O principal diagnóstico diferencial é com as viroses exantemáticas. 2) Urticárias E Angioedema Drogas mais comuns • Penicilinas. • Cefalosporinas. • Sulfonamidas. • Contraste iodado. • AINE (oxicams, butazonas). • Anestésicos. • Plasma (na deficiência de IgA). • Látex. Não IgE mediada: • Morfina, codeína; • Contraste iodado; • ECA (principalmente captopril). A urticária é um distúrbio comum na população (cerca de 20% das pessoas terão um episódio ao longo da vida), caracterizado por placas eritematosas, de bordos irregulares, confluentes ou não, com o centro pálido, predominando no tronco e nas extremidades proximais, bastante pruriginosas, conhecido como urtica ou ponfo (FIGURA 4). Algumas se apresentam como lesões policíclicas. O prurido pode ser generalizado, referido mesmo nas áreas sem lesão. Pode ser classificada em aguda (< 6 semanas) ou crônica (> 6 semanas). • Na formaaguda, a chance de encontrar uma causa específica é maior e costuma estar relacionada a infecções e reação a medicamentos, comida ou insetos. • No caso dos medicamentos, pode aparecer 30 a 60 minutos após (imediata) ou mesmo dias após sua administração (tardia). • Na urticária crônica, não identificamos a etiologia em 80-90% dos casos, sendo comumente autolimitada, com duração média de 2-5 anos. O angioedema (edema angioneurótico) está presente em 50% dos casos ou pode vir de forma isolada. É caracterizado pelo edema mole dos lábios, pálpebras, língua, de apresentação assimétrica e algumas vezes desfigurante (FIGURA 5). O edema de glote é uma complicação esperada e pode vir associado a uma reação de náuseas e vômitos, febre baixa, hipotensão ou choque (choque anafilático). É o que chamamos de reação anafilática e pode matar o paciente se não tratado de imediato. A fisiopatogenia da urticária e do angioedema é semelhante, o que difere é a profundidade do acometimento. O angioedema é dividido em: adquirido e hereditário. No angioedema hereditário, há uma deficiência do inibidor da C1q esterase. O tratamento da urticária/angioedema medicamentoso é a suspensão da droga implicada e o início de anti- histamínicos. As drogas de escolha são os antagonistas-H1. Os anti-histamínicos de primeira geração, com potencial sedativo e efeitos anticolinérgicos (boca seca, visão borrada, retenção urinária, diplopia, secura vaginal), são representados pela hidroxizina, na dose de 25 a 50 mg 6/6h, dexclorfeniramina 2 mg 6/6h, prometazina 25 mg 6/6h. Os anti-histamínicos de nova geração (não sedativos) são: loratadina 10 mg/dia, cetirizina 10 mg/dia, fexofenadina 60 a 120 mg 2x/dia. Nos casos refratários, pode-se associar um antagonista- H2 (ranitidina, cimetidina, famotidina). Os corticoides (prednisona 30 a 40 mg/ dia) são de valor limitado em urticária/angioedema agudos, embora possam ser acrescentados nos casos mais graves. A adrenalina (epinefrina) SC ou IM na dose 0,3 a 0,5 ml da solução 1:1.000 é indicada no tratamento da reação anafilática (como principal droga!!). Já nos casos de angioedema hereditário, pode-se fazer reposição do inibidor de C1q esterase nas crises, e nos períodos intercrise, é utilizado danazol, estanazol, Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. oximetolona, ácido épsilon aminocaproico e ácido tranexâmico na tentativa de evitar uma crise. Anafilaxia? Trata-se de uma grave reação multissistêmica, potencialmente fatal e de início rápido, cujo mecanismo principal está relacionado à liberação abrupta de mediadores sistêmicos por mastócitos. Normalmente, teremos a produção de anticorpos IgE em uma exposição prévia a um antígeno, associada à degranulação mastocitária quando ocorre a reexposição ao antígeno. É possível a liberação direta destes mediadores também por medicamentos e fatores físicos. Como resultado, teremos o surgimento de alterações cutâneo-mucosas, respiratórias, cardiovasculares e gastrointestinais (edema de laringe e de glote, broncoespasmo, náuseas, vômitos, hipotensão arterial). Além da manutenção de vias aéreas pérvias, a primeira medida farmacológica a ser adotada é a administração de adrenalina intramuscular (primeira linha, na coxa anterolateral) ou intravenosa. As demais medidas incluem: • reposição volêmica (o choque é distributivo), • anti-histamínicos (angioedema e prurido), • corticoides (visando sintomas tardios, porém de ação questionável) e • broncodilatadores (sibilância refratária). • A posição supina com membros inferiores elevados também está indicada. 3) Eritema Pigmentar Fixo Drogas mais comuns • Fenoftaleína (laxantes). • Tetraciclinas. • Sulfonamidas. • Penicilinas. • Barbitúricos (fenobarbital). • AINE (oxicams, butazonas). • Salicilatos. Caracterizado pelo surgimento de uma ou múltiplas lesões, que começam com uma tonalidade eritematosa, e com o passar do tempo, vão ficando acastanhadas, bordos bem definidos, não pruriginosas (eventualmente com sensação de queimação), predominando na face, no pescoço, nas extremidades e na genitália, de distribuição assimétrica (FIGURA 6A). Podem ocorrer bolhas. O diagnóstico é confirmado quando surge a mesma lesão, exatamente nos mesmos locais das lesões prévias, após nova exposição à droga. As lesões recorrentes podem deixar hiperpigmentação residual (FIGURA 6B). 4) Vasculite Por Hipersensibilidade Tem como mecanismo proposto a reação de hipersensibilidade tipo III, ou seja, uma doença por imunocomplexos, causando vasculite leucocitoclástica de predomínio nos membros inferiores. O paciente apresenta uma erupção eritematosa maculopapular que se transforma num rash purpúrico, com petéquias e púrpuras confluentes, de distribuição simétrica pelos membros inferiores (FIGURA 7). A presença da púrpura palpável (elevada) e a ausência de plaquetopenia são bastante sugestivos do diagnóstico. Lesões urticariformes, bolhas e necrose podem ocorrer. A erupção pode ser assintomática ou associada a um conjunto de sinais e sintomas que recebem a denominação de doença do soro. Esta pode se apresentar com ou sem a vasculite cutânea leucocitoclástica e/ou lesão urticariforme. Caracteriza-se pela ocorrência, sete a dez dias após a administração da droga, de febre alta, mialgias, artralgias e linfadenopatia. Por ser uma doença mediada por imunocomplexos, há queda do complemento plasmático. Suspendendo-se o medicamento, os sintomas desaparecem em dias ou poucas semanas. 5) Eritema Multiforme Drogas mais comuns • Sulfonamidas. • Penicilinas. • Quinolonas. • Cefalosporinas. • Anticonvulsivantes aromáticos. • Alopurinol. • AINE. O eritema multiforme minor, deve ser diferenciado do eritema multiforme major (síndrome de Stevens- Johnson), uma erupção que pode compartilhar tipos de lesão com a forma minor, mas que parece ser uma entidade patogênica e fisiopatológica diferente. Embora exista relação com drogas em alguns casos, é fundamental frisar que, na maioria das vezes, o eritema multiforme minor não é causado pela exposição a drogas, mas sim pela infecção pelo vírus herpes- simplex (eritema multiforme herpético). As lesões surgem geralmente até seis dias após o herpes labial recorrente (forma mais comum de herpes associado). Cerca de 90% dos casos de eritema multiforme de curso recidivante estão associados ao vírus herpes-simplex, sendo que em 80% desses casos ocorre herpes manifesto; no restante, observa-se apenas o DNA viral na epiderme das áreas de lesão. Trata-se de uma erupção eritematosa de início súbito, distribuição simétrica, raramente pruriginosa, Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. predominando na porção extensora dos membros, mãos e pés (embora possa ocorrer na região palmar), face e eventualmente mucosa oral. Em alguns casos, o rash progride centripetamente para o tronco (FIGURA 8). Uma vez estabelecida, o rash cutâneo é estável e desaparece espontaneamente após um a três semanas, com um curso extremamente benigno. As lesões podem ser de várias morfologias, embora alguns pacientes possam ter apenas uma delas. O aspecto mais comum é o de lesões eritematopapulares arredondadas, bordos bem definidos, tamanhos variados (poucos milímetros a 2 cm), que podem ou não apresentar confluência. Muitas dessas lesões apresentam bordas edematoeritematosas e centros violáceos ou pigmentados ou podem ter características purpúricas (FIGURA 9). As lesões clássicas do eritema polimorfo são as “lesões em alvo” ou “lesões em íris”, que são fundamentais para o diagnóstico. Caracterizam-se por terem anéis concêntricos alternados, cada um com uma morfologia ou cor diferente.As lesões típicas são elevadas e possuem três ou mais anéis. As lesões em alvo atípicas são achatadas ou planas e contêm apenas dois anéis. São exemplos de lesão em alvo aquelas com centro eritematoso, violáceo ou vesiculoso, circulado por palidez e novamente eritema (FIGURA 10). Em alguns pacientes, surgem algumas bolhas (eritema multiforme bolhoso). As lesões mucosas são vistas em 70% dos casos, apresentando-se nos lábios, cavidade bucal, palato, gengiva e genital (FIGURA 11). São lesões enantematosas, erosadas ou esbranquiçadas, geralmente dolorosas. Na dúvida diagnóstica, pode-se confirmá-lo pela biópsia. A doença acomete basicamente a derme superficial, que se encontra edemaciada e contendo infiltrado mononuclear (linfocítico), predominando na junção dermoepidérmica. Há degeneração hidrópica da camada basal, discreta espongiose (edema intercelular dos queratinócitos) e necrose satélite dos queratinócitos (em volta de infiltrado linfocítico). 6) Síndrome de Stevens-Johnson e Necrólise epidérmica tóxica (síndrome de lyell) Drogas mais comuns • Sulfonamidas. • Penicilinas. • Quinolonas. • Cefalosporinas. • Anticonvulsivantes aromáticos. • Alopurinol. • AINE. A Síndrome de Stevens-Johnson (SSJ) e a Necrólise Epidérmica Tóxica (NET) provavelmente constituem espectros de uma mesma doença, sendo a NET uma forma mais grave do que a SSJ. Classificação e epidemiologia Segundo consensos atuais, a diferença entre as duas entidades é apenas quantitativa. Ambas são definidas pelo acometimento de duas ou mais áreas de mucosa (oral, ocular, genital), exantema eritematoso disseminado contendo lesões em alvo atípicas e lesões bolhosas que geram desnudamento cutâneo (escaldamento). • O termo SSJ é reservado para os casos com menos de 10% de pele desnudada • O termo NET, para os casos mais graves, com mais de 30% de pele desnudada graves, com mais de 30% de pele desnudada. • Os pacientes intermediários com 10 a 30% de pele desnudada são referidos como overlap SSJ-NET. Pela estatística americana, a SSJ é duas vezes mais comum que a NET e a proporção de casos entre as três entidades (SSJ, overlap, NET) é de aproximadamente 3:2:1,7. Todas elas são cerca de duas vezes mais comuns em mulheres. Predominam nos adultos, embora possam ocorrer em crianças, especialmente a SSJ. A taxa de ocorrência entre as drogas mais incriminadas é de 10 a 20 casos a cada 100.000 administrações do fármaco. Etiologia A relação com medicamentos é encontrada em mais de 50% com a SSJ e em 80 a 95% com a NET. As drogas mais frequentemente suspeitas são a penicilina, os antibióticos penicilina, os antibióticos contendo sulfa, os barbitúricos, os anticonvulsivantes, os analgésicos, os anti-inflamatórios não esteroides e o alopurinol. Em alguns casos, ocorre juntamente com uma outra doença grave, complicando o diagnóstico. As manifestações clínicas ocorrem com uma média de 14 dias após a exposição, porém com ampla variação (1 a 45 dias). Após a reexposição, o período de latência é mais curto e as manifestações são mais graves. A SSJ pode ser causada por agentes infecciosos, destacando-se o Mycoplasma pneumoniae. Esta infecção está presente em 15% dos casos de SSJ e costuma ocorrer entre 5 e 20 anos de idade. Outros agentes podem estar relacionados, embora mais raramente. Existe um aumento importante da incidência de SSJ/NET em pacientes portadores de HIV, especialmente os casos provocados pelas sulfonamidas. Há também uma relação genética com o HLA A29 e B12. Fisiopatologia e patologia A patogênese e a fisiopatologia são parcialmente conhecidas. Dependem do poder citotóxico direto dos linfócitos T CD8 sobre os queratinócitos da epiderme, modulados pelos linfócitos T CD4. Não há participação importante dos anticorpos. Aparentemente, a droga, ou mais comumente um metabólito da droga, é incorporado na membrana dos queratinócitos, servindo de hapteno ao ligar-se no complexo de histocompatibilidade classe I. Um defeito da detoxicação hepática e cutânea de metabólitos medicamentosos pode ser observado em alguns pacientes propensos. Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. O grave dano epidérmico na SSJ e NET decorre da ação dos linfócitos T citotóxicos CD8 que, ao interagirem com os queratinócitos sensibilizados, induz a sua apoptose. A liberação local de TNF-alfa é extrema, fruto da interação entre macrófagos ativados e queratinócitos. A imunofluorescência é negativa. O histopatológico revela um discreto infiltrado inflamatório mononuclear subepidérmico, com degeneração hidrópica da camada basal e extensa necrose eosinofílica da epiderme. Nas áreas bolhosas ou desnudas, há caracteristicamente necrose de toda a espessura da epiderme e descolamento subepidérmico. Manifestações clínicas Síndrome de Stevens-Johnson Um estágio prodrômico de 1 a 14 dias é encontrado em metade dos pacientes, caracterizando-se por febre, mal- estar, cefaleia, coriza, angina (comprometimento orofaríngeo), mialgias, artralgias (síndrome gripal) e eventualmente vômitos e diarreia. Nesse momento, o paciente pode fazer uso de analgésicos-antitérmicos que podem ser implicados inadvertidamente na causa da erupção. • Quadro cutâneo: começa com uma erupção eritematosa maculopapular, por vezes morbiliforme, aparecendo no tronco e na face e progredindo centrifugamente para as extremidades. Algumas lesões individuais são lesões em alvo atípicas, achatadas, com centro violáceo ou pigmentado e halo eritematoso. As lesões são dolorosas e tendem à confluência, especialmente na face, no pescoço e no tórax anterior, que podem apresentar um eritema difuso e bolhas (FIGURAS 12 e 13), ocasionalmente hemorrágicas. A pele do paciente exibe o sinal de Nikolsky positivo: descolamento da epiderme após tração manual. Este sinal é precoce e aparece antes de surgirem as áreas de desnudamento espontâneo. Dentro dos primeiros quatro a cinco dias as lesões eritematosas aumentam em número e tamanho. As áreas de eritema confluente podem originar áreas desnudas (FIGURA 14), desprendendo epiderme necrótica, com aspecto de escaldadura. Por definição, na SSJ estas áreas somam no máximo 10% da pele total. • Lesões mucosas: são universais e são fundamentais para a definição clínica da síndrome. Costumam ser extensas e muito sintomáticas. Duas ou mais membranas mucosas estão envolvidas, entre oral, ocular e genital. Em 40% dos casos, as três estão comprometidas. Na mucosa oral (estomatite), os lábios, cavidade bucal, palato e língua podem apresentar lesões. O quadro começa com queimação labial e oral, evoluindo com edema, eritema e bolhas que logo se rompem, deixando erosões vermelho hemorrágicas, cobertas por pseudomembranas branco acinzentadas e úlceras rasas aftosas. Os lábios são recobertos por crostas hemorrágicas características da síndrome (FIGURAS 15) As lesões orais são bastante dolorosas. Pode ocorrer acometimento de gengiva, faringe, laringe e até esôfago e traqueia. O envolvimento genital quase sempre inclui lesões erosivas (após rotura de bolhas hemorrágicas) ou purulentas, ocupando a vulva, a vagina ou a glande e a fossa navicular, podendo levar a retenção urinária e parafimose (FIGURA 17). As lesões oculares são potencialmente graves e podem deixar sequelas. Há conjuntivite (olho vermelho) e queimação ocular, evoluindo para vesiculação, erosões dolorosas e lacrimejamento bilateral. Em casos mais graves, surgem conjuntivite purulenta, pseudomembranas, úlceras da córnea, uveíte anterior e panoftalmite. As sequelas oculares podem levar à cegueira e podem ser: simbléfaro (aderência da conjuntiva palpebral à córnea), sinéquia, entrópio (inversão palpebral), ectrópio (eversão palpebral), triquíase(inversão ciliar), opacidades corneanas e cicatrizes. A intervenção de um oftalmologista na fase precoce é fundamental para o tratamento dessas lesões. Necrólise epidérmica tóxica Também é comum a fase prodrômica, tal como na SSJ. Surge um rash cutâneo eritematoso morbiliforme, com ou sem lesões-alvo atípicas, predominando na face e no tronco e evoluindo para confluência. A pele já nesta fase apresenta sinal de Nikolski positivo (FIGURA 18). Ao longo de quatro a cinco dias, as lesões cutâneas transformam-se em grandes bolhas flácidas que deixam grandes áreas cutâneas desnudas, que aparecem como erosões gotejantes serosas intensamente eritematosas (FIGURA 19). O desnudamento atinge 30 a 90% da superfície corporal e assemelha-se a um grande queimado por escaldadura. O acometimento das mucosas é extenso e grave, tal como na SSJ. Alterações orgânicas e laboratoriais A SSJ e a NET, frequentemente, são acompanhadas de alterações laboratoriais inflamatórias e distúrbios Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. hidroeletrolíticos. Estes são mais comuns e mais graves na NET. Exemplos: leucocitose neutrofílica leve a moderada, anemia leve, hipoalbuminemia, microalbuminúria, elevação de transaminases, aumento do VHS e proteína C-reativa. Na desidratação grave, pode haver azotemia pré-renal. O acometimento orgânico é raro na SSJ e comum na NET. Predominam lesões no aparelho respiratório, no trato gastrointestinal e no fígado. São descritos: dispneia, tosse, obstrução traqueal, desprendimento da mucosa traqueobrônquica, expectoração de cálculos bronquiais, infiltrado pulmonar, broncopneumonia e raramente SDRA. A sepse pode contribuir para alguns deses achados. No trato gastrointestinal: diarreia, dor abdominal, hemorragia digestiva; no fígado, podemos ter hepatite com icterícia e elevação proeminente das enzimas hepáticas. 7) Outras farmacodermias Fotodermatoses por Fármacos Podem ser de dois tipos: • Erupções fototóxicas: o fármaco se distribui pela pele e aumenta a sua sensibilidade física à radiação ultravioleta tipo UVA. O paciente evolui tal como uma queimadura de sol intensa, de primeiro ou segundo grau (bolhosa), em áreas fotoexpostas, sem ter tido uma exposição tão intensa ao sol (FIGURA 20). As drogas mais envolvidas são: tetraciclinas, AINE, fenotiazinas, amiodarona e psoraleno. • Erupção fotoalérgica: os raios ultravioleta do sol transformam a droga num composto imunogênico, que sensibiliza os linfócitos e determina lesões do tipo eczema, também em áreas fotoexpostas. Os agentes mais comuns são os tópicos, como produtos fenólicos em sabonetes e substâncias usadas em determinadas fragrâncias. Eritrodermia Exfoliativa Este termo identifica um eritema descamativo difuso disseminado pelo corpo, envolvendo mais de 50% da superfície cutânea. Pode ser causado por psoríase, eczema atópico, micose fungoide (síndrome de Sézary) e farmacodermia, esta última responsável por cerca de 10% dos casos. As drogas mais envolvidas são: sais de ouro, arsenicais, mercuriais, barbitúricos e penicilinas. Lúpus Farmacoinduzido É causado principalmente pela hidralazina em doses acima de 200 mg/ dia. Outras drogas frequentemente implicadas são: procainamida, anticonvulsivantes aromáticos, isoniazida. O paciente desenvolve um rash cutâneo lúpus-símile, com fotodermatose, rash malar, rash discoide, erupção eritematosa maculopapular difusa, além de lesões orais, artrite, serosite e alterações hematológicas (citopenias). Caracteristicamente não há comprometimento renal e do sistema nervoso central. A doença desaparece em algumas semanas com a suspensão da droga. Síndrome de Hipersensibilidade (DRESS – Drug Reaction with Eosinophilia and Systemic Symptoms) É uma síndrome rara, potencialmente grave, que aparece entre duas a seis semanas após exposição à droga, sendo mais comum com os anticonvulsivantes aromáticos, especialmente a fenitoína e o alopurinol. O paciente apresenta-se inicialmente com febre, mal- estar, linfadenopatia e erupção cutânea morbiliforme, que pode se tornar confluente e progredir para uma dermatite esfoliativa. Manifestações hematológicas típicas são eosinofilia e linfocitose atípica. Envolvimento de órgão interno é esperado, com acometimento hepático em 60-80% dos pacientes. Outros achados seriam nefrite e pneumonite intersticiais. Após a suspensão do medicamento envolvido, que é a principal medida terapêutica a ser estabelecida, a melhora ocorre gradualmente dentro de seis a nove semanas. A presença de importante adenopatia cervical, axilar, intratorácica e retroperitonial com febre caracteriza a síndrome do pseudolinfoma típica da fenitoína. Pênfigo e Penfigoide Farmacoinduzido O pênfigo é uma bulose intraepidérmica autoimune caracterizado por acantólise (perda da aderência entre os queratinócitos epidérmicos) e formação de bolhas flácidas que se rompem. Quando induzido por drogas possui as mesmas características dos pênfigos idiopáticos. O histopatológico com imunofluorescência é confirmatório. As drogas mais implicadas são as que possuem grupamento tiol (SH): captopril, piroxicam, penicilamina, penicilina. O penfigoide é uma bulose subepidérmica autoimune por destacamento dermoepidérmico. As bolhas são tensas, diferentemente do pênfigo. Pode ser autolimitado (farmacodermia típica) ou persistente (neste caso, a droga somente foi o desencadeante da forma idiopática). A histopatologia com imunofluorescência também é diagnóstica. Pustulose Exantematosa Generalizada Aguda (PEGA) É uma farmacodermia caracterizada pela formação de múltiplas pústulas estéreis não foliculares com base eritematosa, pruriginosas ou dolorosas, distribuídas de forma simétrica, predominantemente na face e nas regiões intertriginosas (FIGURA 21). Febre moderada e leucocitose neutrofílica são comuns. Esta erupção tem latência extremamente curta, ocorrendo após 24 horas da exposição ao fármaco e desaparecendo em poucos dias (nove a dez dias) após a sua suspensão. O histopatológico é compatível com uma vasculite dérmica. As drogas mais incriminadas são: penicilinas e macrolídeos. Erupção Liquenoide Semelhante ao líquen plano: pequenas placas achatadas, violáceas e bastante pruriginosas, de distribuição simétrica por tronco e membros. A mucosa oral é envolvida em até 70% dos casos. As drogas mais Isadora Pedreira. Módulo XXII. Problema 04 Intermed. envolvidas são: metildopa, betabloqueadores, AINEs, quinidina, penicilamina, reveladores fotográficos. Erupção Acneiforme Múltiplas pápulas inflamatórias e pústulas, distribuídas pela face, pelos ombros (FIGURAS 22A e 22B) e pelo tórax superior, muito semelhantes ao acne inflamatório (mais sem comedões típicos), podem ocorrer após uso das seguintes drogas: corticosteroides, anabolizantes, anticoncepcionais, barbitúricos, tioureias, lítio, tuberculostáticos, halógenos, como iodo, bromo e cloro, além de algumas medicações tópicas faciais. Desaparecem após a suspensão das drogas, mas, muitas vezes, exigem tratamento da mesma forma como é feito para o acne. Iododerma e Bromoderma Diversas drogas contêm iodo ou bromo em suas preparações. A amiodarona e os contrastes radiológicos são os principais exemplos de preparados com iodo. Existem xaropes para tosse antigos que contêm iodeto de potássio. Diversas drogas contêm brometo, como o brometo de ipatrópio ou tiotrópio (DPOC) e o brometo de priridostigmina (miastenia gravis). As lesões dependem de mecanismo de hipersensibilidade celular, com atração de linfócitos, macrófagos e neutrófilos para o local sensibilizado. No iododerma, ocorre erupção acneiforme, com pápulas e pústulas em regiões seborreicas do corpo (face, tronco superior).Lesões purpúricas, supurativas e ulceradas podem ocorrer. No bromoderma, surgem lesões vegetantes, ulceradas e pustulares, de curso crônico e insidioso, predominando nos membros inferiores e na região malar. Referências: AZULAY, R.D.; AZULAY, D.R.; AZULAY-ABULAFIA, L. Dermatologia - 7. ed., rev. e atual - Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.