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1 Hemograma Trata-se de uma exame de baixa sensibilidade e especificidade, portanto sua avaliação deve ser muito criteriosa e sempre associada à história clínica do paciente. O hemograma é composto pela série vermelha (eritrócitos/eritrograma), série branca (leucócitos/leucograma) e pela série plaquetária (plaquetograma). Ao avaliar os eritrócitos, podemos fazer diagnóstico de anemias e poliglobulias – principalmente da policitemia. O leucograma nos mostra parâmetros associados aos processos infecciosos, traumáticos e inflamatórios em geral. Através da série plaquetária podemos fazer diagnósticos de possíveis distúrbios da coagulação sanguínea relacionados à hemostasia primária. Os componentes do eritrograma são formados na medula óssea a partir da stem cell, uma célula indiferenciada: para que a produção dessas células aconteça, é necessário o estímulo de uma glicoproteína sintetizada nos rins, chamada de eritropoetina (EPO). Os leucócitos, por sua vez, são produzidos a partir de estímulos das citocinas inflamatórias (interleucinas). Para produção das plaquetas – a partir da fragmentação do citoplasma do megacariócito – a medula óssea deve receber estímulo da trombopoetina, uma glicoproteína sintetizada no fígado. Eritropoiese: pró-eritroblasto, eritroblasto basofílico, eritroblasto policromático, eritroblasto ortocromático, reticulócito e hemácia. Série Vermelha ● Número de Eritrócitos (M/µL → milhões por microlitro) ● Dosagem de Hemoglobina (g/dL → gramas por decilitro) → Hb ● Hematócrito (porcentagem) → Ht ○ Massa eritrocitária em 100 ml de sangue ○ Aumenta quando há diminuição do volume plasmático (dengue e desidratação) ○ Diminui quando há aumento do volume plasmático (insuficiência cardíaca e gestação) ● Índices Hematimétricos ○ VCM (Volume Corpuscular Médio) ○ HCM (Hemoglobina Corpuscular Média) ○ CHCM (Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média) ○ RDW (Indicador de Anisocitose) → variação do tamanho do eritrócito ● Morfologia dos Eritrócitos ○ A variação da morfologia dos eritrócitos é chamada de poiquilocitose (ex.: anemia falciforme) Anemia Ferropriva: anemia microcítica/hipocrômica ● RDW apresenta-se elevado, portanto há anisocitose ● Isso acontece pois há duas populações diferentes de eritrócitos (normais e microcíticos) 2 Anemia Megaloblástica: anemia macrocítica ● RDW apresenta-se elevado, portanto há anisocitose ● Isso acontece pois há duas populações diferentes de eritrócitos (normais e megaloblastos) Esferocitose hereditária: anemia normocítica ● Trata-se de uma anemia hemolítica devido a alteração na membrana dos eritrócitos, que perdem a sua forma ● Apesar do VCM estar normal, também apresenta RDW elevado, portanto há anisocitose ● Isso acontece porque os eritrócitos são pequenos (esferócitos) e, por ser uma anemia hemolítica, a medula óssea passa a ser responsiva e lança reticulócitos (células grandes) na circulação periférica ● A única situação onde o CHCM está aumentado é nas anemias hemolíticas Fisiopatologia das Anemias Os principais sintomas clínicos do paciente anêmico são cansaço, adinamia, fraqueza, sonolência, dispnéia, etc. Os sinais são: palidez, e, eventualmente, icterícia. Essas manifestações são decorrentes da hipóxia tecidual, que pode acontecer por três motivos: 1. Estímulo inadequado para medula óssea Na anemia da doença crônica há aumento da IL-6 e hepcidina. A hepcidina elevada impede a absorção de ferro intestinal, o que diminui também a ferroportina: nessas condições, o aporte de ferro para a medula óssea diminui e a síntese de eritrócitos torna-se deficitária. Na anemia da doença crônica também ocorre a liberação do fator de necrose tumoral-α (alfa) e interferon-γ (gama), ambos responsáveis por diminuir a síntese de EPO: sem EPO, a medula óssea não sintetiza eritrócitos. Além disso, TNF-α e IFN-γ fagocitam o ferro, que fica armazenado dentro do macrófago, diminuindo o aporte de ferro para a medula óssea. Outros exemplos são: anemia da doença renal e anemia ferropriva – sem ferro não há síntese de hemoglobina. Ademais, também podemos apontar o hipotireoidismo: a tiroxina (T4) estimula a medula óssea, assim com EPO – na vigência da sua diminuição, o paciente tende a tornar-se anêmico. 2. Defeito na maturação do eritrócito Anemia megaloblástica (deficiência de B12 e ácido fólico): o eritroblasto (uma célula muito maior que o reticulócito e também hemácias), nessas condições, expulsa seu núcleo mais precocemente, resultando na formação de células grandes e com defeito na maturação. Além disso, o ácido fólico é precursor das da timina (base pirimídica), resultando em erros na maturação da célula: isso também afeta os neutrófilos, que se tornam hipersegmentados. 3. Diminuição no tempo de vida do eritrócito Anemias por hemorragias e anemias hemolíticas. 3 Classificação das anemias A diminuição da hemoglobina pode estar atrelada a alteração (ou não) dos índices hematimétricos: ● Anemia normocítica normocrômica: VCM normal e HCM normal ○ Anemia da Insuficiência Renal ○ Na anemia da doença crônica, inicia-se como normocítica normocrômica – conforme o quadro se agrava, torna-se microcítica hipocrômica ● Anemia microcítica hipocrômica: VCM diminuído e HCM diminuído ○ Anemia Ferropriva ○ Talassemia (anemia do mediterrâneo) – aumento da hemoglobina A2 ● Anemia macrocítica hipocrômica: VCM aumentado e HCM diminuído ○ Anemia Megaloblástica Morfologia dos Eritrócitos ● Anemia regenerativa: quando a medula óssea está responsiva, avaliado a partir da presença de eritroblastos policromáticos e reticulócitos ○ Anemia Hemolítica e Anemia por Hemorragia ● Anemia arregenetativa: quando a medula óssea não está responsiva (sem presença de policromasia e aumento de reticulócitos) ● Anemia relativa: comum na insuficiência cardíaca por aumento do volume plasmático, também chamada de anemia dilucional. Nas gestantes, a anemia relativa é fisiológica. ● Anemia absoluta: quando há diminuição da hemoglobina, alteração dos índices hematimétricos e alteração do hematócrito. Poiquilocitose É a alteração na forma dos eritrócitos, sendo que cada processo anêmico apresenta uma morfologia específica. Esfregaço normal 4 Anemia Ferropriva (VCM diminuído [hemácias pequenas] e HCM diminuído [hemácias descoradas] Hemácias em foice: anemia falciforme (confirmada pela eletroforese de hemoglobina) Presença de esferócitos (esferocitose hereditária), hemácias em alvo (sugestivo de talassemia) e eritroblasto ortocromático (medula óssea responsiva, comum das anemias por hemorragia e anemias hemolíticas) Ovalócitos: sugestivo de eliptocitose hereditária 5 Esquizócitos: sugestivo de anemia por insuficiência renal A hipertensão na gestação pode levar a eclâmpsia, que pode ter com complicação a síndrome HELLP – apresenta insuficiência renal (podendo apresentar esquizócitos no esfregaço). ● Síndrome HELLP ○ Hemograma com anemia por hemólise devido a hipertensão renal e insuficiência renal – pode ser referida como anemia microangiopática (com presença de esquizócitos) ○ Plaquetopenia devido às microlesões da hipertensão renal, recrutando as plaquetas para hemostasia primária, que acabam reduzindo na circulação sanguínea ○ Há elevação das enzimas hepáticas (AST e ALT → aspartato aminotransferase e alanina aminotransferase) Anemia regenerativa: eritroblastos basofílicos e eritroblastos policromáticos Presença de reticulócitos: anemia regenerativa 6 Série Branca No leucograma, K representa 1.000: o valor de referência varia entre 5.000 e 10.000. O aumento desses valores chama-se leucocitose, e a diminuição de leucopenia. As leucocitoses podem acontecer nos processos inflamatórios, infecções bacterianas e processos traumáticos. As leucopenias podem acontecer nas quimioterapias e alguns vírus que destroem os leucócitos. Os neutrófilos, eosinófilos e monócitos (macrófagos nos tecidos) são fagócitos; os linfócitos são células responsáveis pela imunidade celular e produção de anticorpos. ● Granulócitos Neutrófilos,basófilos e eosinófilos. São células que possuem grânulos em seu interior. ● Agranulócitos Linfócitos e monócitos. São células que não possuem grânulos em seu interior. No leucograma, o valor relativo representa a quantidade de leucócitos específicos (neutrófilos, eosinófilos, etc) em 100 leucócitos, dado em porcentagem. A somatória dos leucócitos no valor relativo sempre dará 100. O valor absoluto do leucograma representa a quantidade total de leucócitos específicos dentro da quantidade total de leucócitos, que varia normalmente entre 5.000 e 10.000. Esse parâmetro deve ser utilizado para a interpretação clínica do leucograma. Neutrófilos Apresenta normalmente 3 lóbulos, sendo a principal célula de defesa do sistema imune inato. São células móveis e sua principal função é a fagocitose – apesar disso, também faz a quimiotaxia e opsonização (reconhecimento de antígenos). Os neutrófilos, quando liberados da reserva da medula óssea no espaço intravascular, apresenta-se 50% no pool marginal (aderido à parede vascular) e 50% no pool circulante – o neutrófilo quantificado no leucograma é referente ao pool circulante.O pool marginal existe para facilitar as situações nas quais os neutrófilos precisam migrar para os tecidos, quando acontece as fagocitoses, quimiotaxia e opsonização. A liberação dos neutrófilos da medula óssea se dá pela IL-1 e IL-6 (ambas liberadas nas áreas inflamadas, infeccionadas, traumatizadas e necrosadas). O fator estimulante de colônia granulocítica (CSF-GM) e peptideoglicano (parede celular das bactérias) também estimulam a medula óssea a produzir mais neutrófilos, resultando em neutrofilia – condição observada nas infecções bacterianas, inflamações crônicas, necroses musculares (IAM), anemias hemolíticas, estresse emocional e uso prolongado de corticóides sistêmicos. Como diferenciar as neutrofilias da infecções bacterianas das neutrofilias das necroses musculares? Além da clínica do paciente, no infarto o paciente sente dor, o que leva ao aumento do cortisol, que leva ao deslocamento do neutrófilo do pool marginal para o pool circulante (processo chamado de recirculação dos neutrófilos), levando a neutrofilia – a mesma situação acontece quando há estresse emocional e uso prolongado de corticóides sistêmicos. 7 Nas infecções bacterianas agudas, a neutrofilia estará associada ao desvio à esquerda – o que acontece porque os neutrófilos estão sendo maturados muito rapidamente e as suas células precursoras começam a aparecer na circulação periférica: aumento dos bastonetes, presença de metamielócitos, mielócitos e pró-mielócitos. Neutrófilos com granulação tóxica: tratam-se de granulações dos metamielócitos, mielócitos e pró-mielócitos, que permaneceu conservada nos neutrófilos que se maturaram rápido demais. Os microvacúolos (pontinhos brancos) são as bactérias fagocitadas no interior dos neutrófilos. Desvio à direita – hipersegmentação dos neutrófilos Ocorre quando há deficiência de vitamina B12 e ácido fólico. Neutropenia Diminuição do número de neutrófilos, que acontece durante a quimioterapia, quando o baço fagocita os neutrófilos, quando os neutrófilos estão no baço funcionando como célula apresentadora de antígenos – comum em situações de infecções virais, como hepatites, sarampo e rubéola. Também acontece na anemia aplástica, onde há deficiência de todas as séries sanguíneas (linfopenia, anemia e trombocitopenia) e também em certos tipos de leucemia. 8 Linfócitos Os linfócitos são produzidos nos órgãos linfóides primários (medula óssea e timo) e maturados nos órgãos linfóides secundários (baço e linfonodos). No hemograma, não é possível diferenciar os linfócitos: para isso, é necessário a citometria de fluxo. Quando o nosso organismo é invadido por um agressor intracelular, a medula óssea é estimulada a produzir linfócitos imaturos, que passam a ser maturados nos órgãos linfóides secundários. Nessas situações, as células apresentadoras de antígenos (células dendríticas, macrófagos e neutrófilos) fagocitam o agressor e se dirigem ao baço, onde estão os linfócitos imaturos. Quando esses linfócitos imaturos reconhecem na superfície da célula apresentadora de antígenos uma proteína chamada de MHC (complexo de histocompatibilidade principal) de classe 1, ocorre a produção de linfócitos T citotóxicos – os linfócitos CD8+, que tem a capacidade de neutralizar a célula apresentadora de antígeno, que possui o agressor em seu interior. Nas situações onde as células apresentadoras de antígenos possuem em sua superfície a proteína chamada de MHC de classe 2, ocorre a produção de linfócitos T CD4+, que na presença de IL-12, geram a resposta imune Th1, onde participam os macrífagos. Esses macrófagos ativam os linfócitos B, que produzem anticorpos, responsáveis por fazer a neutralização da célula apresentadora de antígeno, que possui o agressor em seu interior. Por esse motivo, frente a resposta imune Th1 há linfocitose: há participação intensa dos linfócitos. Causas de linfocitose Infecções virais agudas: mononucleose, coqueluche, hepatite e rubéola. Hemopatias: leucemia linfóide crônica e aguda. Causas de linfocitopenia Linfoma de Hodgkin, onde os linfócitos se encontram nos tumores; também pode acontecer em infecções bacterianas agudas. Eosinófilos Seu aumento é denominado de eosinofilia e sua diminuição, de reação de alerta ou eosinopenia. Quando o organismo entra em contato com alérgenos, ocorre a produção de IgE pelos anticorpos: a IgE sensibiliza os mastócitos, que produzem 3 citocinas: ● IL-4 ○ Responsável pela resposta imune Th2 (produção de anticorpos) ● IL-5 ○ Responsável por estimular a medula óssea a produzir eosinófilos ● IL-13 ○ Possui uma reação análoga a IL-4, intensificando e/ou cronificando o processo inflamatório 9 Eosinopenia/reação de alerta Quando há 0% de eosinófilos: esse processo acontece na fase aguda de infecções. Os eosinófilos, nessas situações, encontram-se no tecido ajudando os neutrófilos a fazer a fagocitose, não sendo detectados na circulação periférica. Nas infecções é chamado de reação de alerta pelo aumento de cortisol, o que diminui a IL-5 e, consequentemente, diminui os eosinófilos (tanto teciduais quanto da circulação periférica). Plaquetas ● VPM: volume plaquetário médio ○ Macroplaquetas Todas as vezes que há aumento do número de plaquetas (trombocitose) e aumento do VPM, há risco de trombose. Informações dos casos clínicos ● A sensibilização de células apresentadoras de antígenos associada a leucocitose são característicos de infecção viral: quando isso está associado à presença de mais de 1.000 linfócitos atípicos, é muito sugestivo de mononucleose infecciosa (doença do beijo) ● Sorologia IgG e IgM positivos para o vírus Epstein-Barr: confirmação do diagnóstico da mononucleose infecciosa ● Reação de Mantoux (ou PPD): usada para diagnóstico de tuberculose ● Aumento de desidrogenase lática: indica dano celular ● Hemocultura: pode ser solicitada para descartar septicemia ● Cefaléia, febre, rigidez de nuca e fotofobia: sinais e sintomas característicos de meningite ○ Hemograma com neutrofilia associado a desvio à esquerda: sugestivo de meningite bacteriana ■ Bastonetes, mielócitos e metamielócitos ○ Presença de granulações tóxicas: grânulos dos precursores dos neutrófilos preservados nos neutrófilos devido a maturação muito rápida ○ Microvacúolos citoplasmáticos: bactéria fagocitada no interior dos neutrófilos ○ Reação de alerta: 0% de eosinófilos, comum da fase aguda das infecções ● Além do hemograma, nesse caso deve ser analisado o líquor cefalorraquidiano ○ O aumento dos leucócitos no líquor se chama pleocitose – no caso de meningite bacteriana há predomínio de neutrófilos ○ No exame bioquímico do líquor, observa-se a glicorraquia: a concentração de glicose no líquor fica diminuída, pois foi consumida pelas bactérias ■ O aumento de proteínas no líquor é denominado hiperproteinorraquia ● Na meningite viral, também há pleocitose e predomínio de linfócitos,sem diminuição da glicorraquia e também há hiperproteinorraquia 10 ● A anemia normocítica normocrômica é comum nas doenças crônicas (como artrite reumatóide), podendo evoluir como microcítica hipocrômica ● Ferro diminuída e capacidade de ligação diminuída são comuns na anemia da doença crônica ○ Há aumento IL-6 e hepcidina ○ O aumento da hepcidina diminui a ferroportina, que diminui a capacidade de ligação do ferro e também o aporte de ferro para a medula óssea, resultando em diminuição da síntese de eritrócitos, levando a anemia ○ A liberação de TNF-α e IFN-γ há diminuição do estímulo de EPO, diminuindo a eritropoese ○ O aumento de TNF-α e IFN-γ ativa macrófagos, que fagocitam o ferro, que aparece diminuído ■ Sem ferro, não há síntese de hemoglobina ● A anemia ferropriva é microcítica hipocrômica, sendo diferenciada da anemia da doença crônica em estágios mais avançados da seguinte forma: ○ Na anemia da doença crônica há diminuição de ferro, capacidade de transporte diminuída e ferritina normal ou elevada (afinal a ferritina está fagocitada no interior do macrófago) ○ Na anemia ferropriva há diminuição do ferro, capacidade de transporte aumentada, pois há aumento dessa proteína, mas sem ferro ligado; além disso, a ferritina está diminuída ● Na artrite reumatóide, por ser uma doença autoimune, pode haver destruição da série branca, evoluindo como leucopenia ○ Nessa doença pode haver deposição de imunocomplexos nos rins, sendo interessante solicitar creatinina e uréia para avaliação da função renal ● VHS pode estar aumentada