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Unidade 2 – Semiologia especial dos sistemas tegumentar, digestivo, respiratório e circulatório I. Semiologia especial do sistema tegumentar A semiologia do sistema tegumentar abrange a avaliação da pele e seus anexos, como pelos, unhas e glândulas adjacentes. A pele é o maior órgão dos animais domésticos e, além de ser a responsável por caracterizar um indivíduo, realizar termorregulação e produzir moléculas endógenas, também possui a função de proteger o corpo de fatores externos químicos, físicos e microbiológicos. A semiologia do sistema tegumentar abrange a avaliação da pele e seus anexos, como pelos, unhas e glândulas adjacentes. A pele é o maior órgão dos animais domésticos e, além de ser a responsável por caracterizar um indivíduo, realizar termorregulação e produzir moléculas endógenas, também possui a função de proteger o corpo de fatores externos químicos, físicos e microbiológicos. A exposição da pele a agressões reflete em alterações cutâneas frequentes na clínica médica, representando cerca de 75% dos atendimentos veterinários. Isso se deve também ao fato de que muitas doenças sistêmicas têm como sinal clínico lesões na pele. Logo, é preciso saber que as alterações tegumentares podem ter origem primária, ou seja, causada por lesões diretamente na pele, ou secundária, quando ocorrer devido a uma doença base. As camadas da pele são a epiderme (superior), derme (intermediária) e hipoderme (profunda). O tegumento varia em quantidade, cor, tamanho e textura, de acordo com a espécie, idade, sexo, raça e, até mesmo, entre grupo de animais com as mesmas características. A pele é uma continuação das mucosas, ou se inserem nelas, seja a mucosa respiratória, digestiva, urogenital ou ocular, e o seu pH é ligeiramente ácido. Nos ruminantes o pH é cerca de 5,5, nos equinos normalmente varia entre 4,8 a 6,8, e em cães e gatos o intervalo é de 5,5 a 7,5. As regiões da pele são as pilosas, que possuem pelos, e glabras, onde os folículos pilosos são ausentes, como nos coxins e plano nasal. Os folículos pilosos ficam inseridos na porção intradérmica, onde contém a raiz dos pelos, enquanto as hastes são visíveis diretamente no exame clínico por estarem localizadas na porção externa da pele. Os pelos podem ser primários, os quais são acompanhados de glândula sebácea e do músculo eretor, e secundários, que possuem apenas a glândula sebácea adjacente. Os pelos primários saem individualmente em cada poro, e é importante considerar que os bovinos e equinos apresentam apenas esse tipo em seu tegumento. Já os pelos secundários se localizam em grupos por poro, e podem compor a pelagem de cães, gatos, suínos e pequenos ruminantes, por exemplo. As glândulas sebáceas, por sua vez, estão presentes em toda a extensão da pele, exceto nas regiões glabras, e são responsáveis por produzir o sebo que, além de conferir maciez e brilho à pele e aos pelos, têm a função de proteção contra patógenos. Próximas a elas estão localizadas as glândulas sudoríparas, responsáveis pela sudorese, sendo em cães encontradas também nos coxins. Outras glândulas, como as perianais, supra caudais e das orelhas, ainda compõem o sistema tegumentar. Da mesma forma que as unhas, pois também devem ser investigadas no exame clínico do paciente ANAMNESE ESPECÍFICA A anamnese do sistema tegumentar deve ser detalhada, pois essas informações direcionam as suspeitas diagnósticas formadas com os achados do exame físico. Entretanto, antes de iniciar essa etapa, a resenha deve ser preenchida adequadamente, pois algumas doenças cutâneas estão diretamente ligadas com as características intrínsecas do animal, tais como: 1. Idade: Algumas doenças ocorrem com maior frequência em uma determinada faixa etária, a exemplo da celulite juvenil canina, que, como o nome sugere, acomete animais jovens, geralmente com até seis meses de idade; 2. Sexo: Existem alterações cutâneas que possuem predisposição sexual, mas que também variam com o ciclo estral, no caso das fêmeas, como na dermatose secundária ao hiperestrogenismo; 3. Raça: Diversas doenças estão relacionadas com a raça do animal, como a astenia cutânea (vista com maior frequência nos equinos da raça Quarto de Milha). Além disso, a raça também auxilia a identificar as características normais daquele indivíduo, como a ausência de pelos em gatos da raça Sphynx; 4. Pelagem: O conhecimento sobre a pelagem inicial do paciente é importante para identificar as doenças que levam à alteração na cor, tamanho ou aspecto dos pelos, como no vitiligo, no qual o animal começa a ter áreas esbranquiçadas, devido à perda da pigmentação no local. Com o início da anamnese, as alterações de pele devem ser descritas como citadas pelo tutor na queixa principal, se esse for o motivo dele buscar atendimento veterinário para seu animal. Porém, se a queixa principal for outro motivo, mas houver relatos de lesões cutâneas durante a consulta, essas informações também devem ser obtidas e registradas no local específico da ficha. Logo, na seção de sistema tegumentar, deve ser perguntado ao tutor e registrado as respostas: Procedência do animal: ele foi adquirido em canil, abrigo ou de outras formas? Conhece os pais do animal? Se sim, possuem algum histórico de lesões de pele? Outros animais da mesma ninhada dele possuem alterações cutânea? O objetivo dessas perguntas é entender se a lesão tem caráter hereditário ou está relacionada com locais aglomerados, como canil e abrigo; Histórico geográfico: o animal já esteve em outra cidade? Se sim, qual? Na época, utilizou alguma medida profilática para doenças endêmicas da região? Dessa forma, é possível saber se o paciente já esteve em locais endêmicos, com proteção ou não, para doenças como leishmaniose. Se o paciente vive em uma região endêmica para a doença suspeitada, é importante que se realize as perguntas pensando em outros diagnósticos diferenciais; Início e tempo de evolução do quadro: quando a lesão começou? O aspecto inicial da lesão era o mesmo que está agora? Essa alteração é recorrente ou é a primeira vez que se manifesta? Assim, é possível compreender há quanto tempo o animal está com a lesão, se ela modificou ou não em relação ao seu estado inicial, e se ela é aguda ou crônica; Periodicidade: qual a frequência que essas lesões aparecem e somem/pioram? Percebeu alguma correlação delas com o clima ou o cio? No caso de lesões recorrentes, é importante saber a frequência e se há relação com estações do ano ou alterações hormonais; Manejo: qual a frequência de banhos dados? Com qual produto? Também é utilizado outros produtos na pele? Se sim, com qual frequência? Assim, é possível saber se a origem da lesão está com um manejo inadequado, por exemplo, com excesso de banhos; Ectoparasitas: o animal possui ectoparasitas? Se sim, quais e há quanto tempo? Entender se o animal possui ectoparasitas é fundamental para diagnosticar algumas doenças como a DAPE (dermatite alérgica à picada de ectoparasitas); Alimentação e contactantes: o que o animal come? Já percebeu alguma piora com um alimento específico? Ele convive com outros animais? Se sim, eles também estão com lesões na pele? Com essas perguntas, podem ser direcionadas suspeitas relacionadas à alimentação, e se esta é contagiosa ou não; Prurido: o animal se coça? Se sim, em qual intensidade? Quando começou? Ao questionar a intensidade, é importante mensurar em uma escala de 0 a 10, sendo 0 nenhuma coceira e 10 um prurido tão intenso que o animal acorda ou para de comer para se coçar. Tão importante quanto numerar o grau do prurido, é saber se ele começou antes ou depois do início da lesão, pois em doenças como a demodicose, por exemplo, a coceira só é iniciada um tempo após a manifestação da lesão; Tratamentos prévios: o animal já fez algum tratamento para a pele? Com quaisprodutos? As lesões melhoraram ou não com a intervenção? Foi prescrito por outro médico veterinário ou realizado por conta própria? Dessa forma, é possível saber quais produtos já foram utilizados e como foi a resposta do paciente com as medicações. Essas informações são necessárias principalmente nos casos de suspeitas de resistência bacteriana ou fúngica. Essas perguntas podem variar, de acordo com a manifestação clínica do paciente, e devem ser realizadas com uma linguagem de fácil entendimento para o tutor. CARACTERÍSTICAS DAS LESÕES CUTÂNEAS Antes de iniciar o exame físico do paciente, é necessário saber identificar as lesões para descrevê-las corretamente na ficha. Cada lesão possui uma descrição específica universal (Quadro 1), sendo o conjunto dessas alterações que caracteriza cada doença cutânea. Portanto, apesar de existir diversas nomenclaturas para as alterações dermatológicas, as principais lesões devem ser facilmente reconhecidas pelo médico veterinário. EXEMPLIFICANDO O pênfigo foliáceo, por exemplo, é uma doença dermatológica autoimune que, em cães, se manifesta com pústulas e colaretes epidérmicos na face e orelhas, podendo evoluir para crostas, hiperqueratose em coxins e discromia nasal, periocular e no pavilhão auricular. // Quadro 1. Descrições das principais lesões dermatológicas em animais domésticos: Essas lesões podem aparecer isoladamente ou em conjunto. Logo, quando elas estão associadas, a nomenclatura também pode ser realizada com a junção dos termos. Por exemplo, em um animal com vesículas e bolhas na pele, a alteração pode ser descrita como vesiculobolhosa, assim como papulocrostosa, se houver pápulas e crostas, e diversas outras combinações necessárias. EXAME FÍSICO ESPECÍFICO No exame físico específico do sistema tegumentar são aplicadas as semiotécnicas da palpação, olfação e inspeção. Na palpação, avalia-se a textura, o volume, a sensibilidade, a temperatura, a consistência, a umidade e untuosidade do tegumento. Além disso, a palpação também é útil para diferenciar alterações cutâneas similares. Por exemplo: o Sinal de Nikolsky: Separação da epiderme após pressionar e friccionar a pele, sendo característico de pênfigos; o Sinal de Godet: marca do dígito que permanece após pressionar o dedo em uma área inchada da pele, sendo utilizado para diagnosticar edemas; o Sinal de Larsson: evidência de descamação acumulada após friccionar os pelos no sentido contrário ao crescimento, sendo observado nos distúrbios de queratinização; o Digitopressão ou vitopressão: pressão do dedo ou de uma lâmina de vidro, respectivamente, em cima de lesões avermelhadas. Se a coloração não se modificar com o teste, determinamos que se trata de uma púrpura, porém se durante a compressão o local ficar com a coloração normal da pele, a alteração cutânea se trata de um eritema. A olfação é uma semiotécnica que é explorada por alguns profissionais, porém é relativo de acordo com a experiência de cada um. Algumas alterações realmente têm odores mais característicos, mas não são patognomônicos, por isso devem ser utilizadas apenas para levantar suspeitas diagnósticas, sem fechá-las. A malasseziose, por exemplo, é uma infecção fúngica cutânea que normalmente se manifesta de forma secundária a outras doenças bases, como hipersensibilidade alimentar e atopia. Quando o animal é acometido por ela, geralmente exala um odor semelhante ao de salgadinho de milho, o que leva ao direcionamento do raciocínio clínico para essa infecção durante o exame clínico. Na inspeção direta, identificamos não apenas as lesões de acordo com sua morfologia, mas também com a sua distribuição, topografia, profundidade e configuração. Quanto à distribuição, as alterações podem ser localizadas (até cinco lesões), disseminadas (mais de cinco lesões) e generalizadas (maior parte da superfície cutânea está com as lesões). Em relação à topografia, as lesões podem se manifestar de forma simétrica ou assimétrica. Quanto à profundidade, elas podem ser superficiais ou profundas, e com relação à configuração, recebem o nome de acordo com a forma apresentada, podendo ser circular, linear e geográfica, por exemplo. Em se tratando de alterações no pelo, deve ser descrito seu aspecto, coloração, textura e quantidade, utilizando o termo rarefação pilosa para áreas com menos pelo que o normal, e alopecia para as regiões com ausência de pelos. As mesmas observações devem ser realizadas nas glândulas e unhas, sendo o termo onicogrifose bastante utilizado para descrever unhas excessivamente espessadas e prolongadas, e hiperidrose para a sudorese exacerbada Todas as alterações do tegumento devem ser escritas na ficha clínica e também marcadas em um dermograma (Figura 2), quando possível. Assim, a representação da lesão se torna mais fidedigna para comparar com os padrões de distribuição de algumas doenças e observar a evolução da lesão após instituir o tratamento. Por fim, também é feita a inspeção indireta para visualizar o agente causador, realizando exames complementares, como o raspado cutâneo, a citologia de pele, o tricograma, a cultura fúngica e bacteriana e a biópsia. Figura 2. Dermograma canino para marcar as lesões observadas. Fonte: UFMG, 2013, n.p. II. Semiologia especial do sistema digestivo A semiologia do sistema digestivo busca investigar todas as alterações na boca, esôfago, pré-estomago (ruminantes), estômago, intestino e ânus, além dos órgãos anexos, como o fígado e pâncreas. Apesar de ser um sistema com múltiplas funções, a digestão e absorção dos nutrientes é a principal delas e, por isso, a perda de apetite do animal é um dos principais motivos para o tutor buscar atendimento veterinário. A semiologia do sistema digestivo busca Investigar todas as alterações na boca, esôfago, pré-estomago (ruminantes), estômago, intestino e ânus, além dos órgãos anexos, como o fígado e pâncreas. Apesar de ser um sistema com múltiplas funções, a digestão e absorção dos nutrientes é a principal delas e, por isso, a perda de apetite do animal é um dos principais motivos para o tutor buscar atendimento veterinário. Então, para compreender as alterações do sistema digestivo, é preciso inicialmente diferenciar a fome do apetite, sendo a fome uma necessidade fisiológica de comer, sem estar relacionada com um alimento específico, enquanto normalmente o apetite refere- se ao desejo de comer algo específico. Ao apetite normal, denominamos normorexia, diminuído é chamado de hiporexia, e quando ausente denominamos anorexia. O apetite aumentado é descrito como polifagia, enquanto a alitrofagia ou apetite depravado (ou pervertido) refere-se à ingestão de materiais que não são alimentos, como objetos, terra e cabelo. Além disso, quando o animal ingere um tipo de alimento e rejeita outro, dizemos que ele possui o apetite seletivo. No entanto, havendo dificuldade de deglutir denominamos disfagia, enquanto a expulsão do conteúdo estomacal pela boca é definida como êmese. E quando há sangue no vômito o termo técnico é hematêmese. As fezes com características normais são chamadas de normoquesia, já a ausência de defecação é denominada aquesia e a disquesia ocorre quando há dor ao defecar. Sendo assim, devemos ressaltar que o aumento do volume, fluidez e/ou frequência da defecção são características da diarreia, enquanto a constipação é a defecção pouco frequente ou reduzida. A presença de sangue nas fezes pode ser descrita como melena, no caso do sangue digerido (coloração amarronzada), ou hematoquezia quando o sangue é vermelho vivo. E o termo coprofagia corresponde à ingestão de fezes pelo animal. ANAMNESE ESPECÍFICA Para iniciar a anamnese, a resenha do animal deve estar completa, pois os principais pontos dessa etapa que influenciam no raciocínio clínico são: 1.IDADE: Algumas doenças ocorrerão apenas em uma determinada faixa etária, como a síndrome beber ruminal, onde os bezerros que recebem leite em posição inadequada da cabeça (para baixo) têm o fechamento inadequado da goteira esofágica, que desvia o destino desse leite do abomaso para o rúmen, culminando em fermentação inadequada deste pela microbiota ruminal. Essa síndrome, por exemplo, só acomete bezerros lactantes, pois após a fase de amamentação, a goteira esofágica perde sua funcionalidade; 2. ESPÉCIE: O mesmo sinal clínico pode levar a suspeitas diagnósticas distintas, a depender da espécie examinada. Dores abdominais extremas e agudas em equinos normalmente estão relacionadas com cólicas, em ruminantes com timpanismo e em cães e gatos com pancreatite; 3. RAÇA: Também é um fator crucial em alterações do sistema digestivo, pois o porte do animal pode influenciar na identificação de um quadro emergencial ou não. Em cães de raças grandes como o Dogue Alemão, especialmente quando são alimentados apenas uma vez ao dia, é comum acontecer a torção gástrica, também chamada de vólvulo gástrico. Essa alteração consiste na dilatação excessiva do estômago por aprisionamento do ar, devido a uma rotação do órgão. Com isso, se uma intervenção emergencial não for instituída logo, o animal pode vir a óbito por rompimento do estômago. Logo, ao atender um cão de porte grande com os sinais clínicos compatíveis, o raciocínio clínico do médico veterinário provavelmente será diferente de um animal de raças de porte pequeno ou médio. Ao iniciar a anamnese específica do sistema digestivo, todos os detalhes devem ser obtidos para diferenciar a origem dos sinais clínicos. O trato gastrointestinal é contínuo e, por isso, o tutor pode não ser capaz de identificar onde a alteração realmente está acontecendo. Por essa razão, devem ser questionados e registrados: Apetite: O animal alterou o apetite? Se sim, está comendo mais ou menos? Ele está selecionando os alimentos que vai comer? Ele pode ter ingerido algum material não comestível? Com essas informações, é possível saber se o animal tem normo, poli, oligo ou anorexia, assim como se o apetite está seletivo e se há a possibilidade de ter ingerido objetos que podem causar obstrução intestinal por corpo estranho, por exemplo; Alimentação: O que normalmente o animal come? Como é ofertado o alimento? Houve mudança recente na alimentação? Se sim, como foi realizada essa troca? Quantas vezes ao dia esse animal se alimenta? Como esse alimento é armazenado? Em muitas situações, as alterações digestivas dos pacientes estão relacionadas com o manejo alimentar inadequado, seja pelo tipo, frequência ou a forma que o alimento é ofertado, ou pela mudança brusca na dieta, bem como pela conservação inadequada do alimento, que pode contaminar e consequentemente causar danos à saúde do animal; Alterações físicas e comportamentais: O animal perdeu ou ganhou peso? Se sim, há quanto tempo isso está ocorrendo? Ele está demonstrando dor abdominal? Ele continua ruminando ou pastando? Está apreendendo e mastigando o alimento adequadamente? Com essas informações é possível saber se o escore de condição corporal do paciente foi afetado pelas alterações digestivas. Também é possível saber a gravidade, de acordo com o nível de dor abdominal e, no caso dos animais de produção, se houve mudança nos hábitos de ruminação ou pastagem. A dificuldade em apreender ou mastigar o alimento também deve ser investigada, pois esse pode ser o motivo da hipo ou anorexia dos animais; Êmese: O animal está vomitando? Se sim, há quanto tempo e com qual frequência? Quais são as características desse vômito? Quando ele vomita, realiza esforço para o ato? Ele tosse quando expele o alimento? Essas perguntas são necessárias para saber se o vômito é agudo ou crônico, se tem alimentos, sangue ou é apenas conteúdo biliar (líquido amarelado), e para diferenciar êmese, regurgitação, disfagia e engasgo; Defecção: Como estão as fezes do animal? Se tem constipação, há quanto tempo isso ocorre? Se tem diarreia, qual a frequência e coloração das fezes? As fezes têm muco? O animal faz esforço para defecar, mas não consegue? Há sangue nas fezes? Se sim, esse sangue é amarronzado ou vermelho vivo? Têm alimentos não digeridos ou objetos nas fezes? Dessa forma, é possível saber as características das fezes para diferenciar uma diarreia de intestino delgado ou grosso, se é aguda ou crônica, e se há hematoquezia ou melena. Com as respostas obtidas por anamnese específica, associada com as informações das perguntas da anamnese geral, é possível suspeitar se a alteração tem caráter infectocontagioso, no caso de outros contactantes apresentarem a mesma alteração, por exemplo, e se o quadro digestivo é primário ou secundário a uma doença base. DIFERENCIANDO OS SINAIS RELATADOS As alterações descritas pelo responsável são da maneira que ele observa, porém cabe ao médico veterinário saber questionar adequadamente para obter respostas que diferenciem os sinais clínicos mais confundidos pelo tutor (Quadro 2). Por exemplo, é comum relatarem que o animal está vomitando, quando, na verdade, a alteração pode ser uma regurgitação, disfagia ou engasgo. A êmese ou vômito corresponde à expulsão do conteúdo estomacal pela boca com esforços que são chamados de mímica do vômito. Quando esse conteúdo retorna de forma passiva, ou seja, sem movimentos de expulsão do animal, ocorre a regurgitação. Já a disfagia pode ser confundida com a êmese, pois como o animal tem dificuldade de deglutir, o alimento é devolvido, porém sem atingir o estômago. E a mesma situação ocorre no engasgo, no qual o alimento pode ser expelido através da tosse se irritar a faringe ou porção posterior do palato. Quadro 2. Diferença clínica entre os mecanismos de evacuação de conteúdo pela boca. Fonte: FEITOSA, 2020, n.p.; SANTANA, 2021, n.p. Em relação a diarreias, é importante saber todas as suas características para diferenciar sua origem, seja de intestino delgado ou grosso. Sabemos que as diarreias agudas geralmente acometem as duas porções do intestino, porém as crônicas tendem a se manifestar com as alterações específicas de cada segmento (Quadro 3). Por exemplo, nos casos de pancreatite crônica, a sintomatologia é de uma diarreia de intestino delgado, enquanto na colite histiocítica ulcerativa é de intestino grosso. Logo, é importante saber que os borborigmos são os ruídos semelhantes a bolhas no estômago ou intestino dos animais e geralmente é relatado pelo tutor como “ronco na barriga”. Já a esteatorreia corresponde a fezes com gordura, normalmente tem coloração amarelada e alimentos não digeridos, sendo essa alteração característica de insuficiência pancreática exócrina. A presença de muco do intestino grosso nas fezes tem a conformação translúcida, brilhante e pegajosa. Em função disso, os tutores costumam citar que as fezes estão com um “catarro transparente”. Para descrever o momento que o animal faz esforço para defecar sem liberação das fezes, utiliza-se o termo tenesmo. Contudo, quando o animal não consegue conter a diarreia para fazer em outro local, considera-se estar com urgência na defecção. Quadro 3. Diferença entre diarreia do intestino delgado e do intestino grosso. Fonte: MARKS, 2013, n.p.; SANTANA, 2021, n.p. EXAME FÍSICO ESPECÍFICO O exame físico do sistema digestivo inicia verificando a postura do animal para observar se há dor abdominal acentuada, pois sugere um quadro emergencial. Cães e gatos com esse sinal clínico tendem a ficar em posição de prece, enquanto ruminantes apresentam cifose (dorso arqueado e os membros esticados) e equinos rolam, escavam o chão e são capazes de escoicear ou morder o próprio abdômen. A inspeção continua com a avaliação da cavidade oral para verificar se há alterações dentárias,como tártaros e fraturas, ou em qualquer outra estrutura que impeça o animal de apreender, mastigar ou deglutir os alimentos. Essa semiotécnica também é utilizada para identificar a conformação do abdômen (distendido ou não) e como estão as características fecais. Caso o animal não defeque durante o exame clínico, é possível identificar se ele está com diarreia, observando se a região perianal está inflamada ou com resquícios de fezes. A palpação da porção cervical do esôfago também pode ser aplicada da mesma forma nas diferentes espécies, pressionando a região com os dígitos para identificar sensibilidade dolorosa, elevações sugestivas de corpo estranho ou neoplasias. Porém, demais aspectos variam conforme a espécie: // Ruminantes O rúmen desses animais pode ser avaliado através da inspeção, observando se está distendido ou não na parede abdominal do flanco esquerdo. Esse órgão pode ser palpado na mesma região superficialmente com a palma da mão para avaliar a frequência e intensidade das contrações ruminais (movimento de ondas), ou com a mão fechada em punho profundamente para identificar o conteúdo ruminal, de acordo com a resistência da parede. Mas essa avaliação do conteúdo é melhor realizada com a palpação por via retal, onde o examinador insere a mão e braço no reto do animal para avaliar as estruturas internas. Vale considerar ainda que o rúmen deve ser auscultado, principalmente da região dorsal do flanco esquerdo, onde é ouvido de duas a três crepitações (sons dos movimentos ruminais) a cada dois minutos em animais saudáveis, sendo esperado nos caprinos cinco movimentos em cinco minutos. Na ficha, também deve ser descrito se esses movimentos estão com a intensidade ausente, diminuída, normal ou aumentada. Além disso, a percussão produzida com o martelo e plexímetro na região dorsal produz um som timpânico, enquanto na região ventral é ouvido um som submaciço. Esses sons variam em caso de alterações ruminais, como o timpanismo. No retículo, normalmente é realizado uma palpação profunda na região xifoide, socando com o punho ou elevando com um bastão, para identificar possível retocolite. Devido a sua posição anatômica, o omaso é inacessível para avaliação através das semiotécnicas de rotina. Já o abomaso pode ser percutido do 7º ao 11º espaço intercostal direito, sendo esperado o som submaciço. Em relação à cavidade abdominal, também é possível palpar o fígado quando está aumentando de tamanho, pressionando a delimitação do arco costal direito. E o intestino pode ser avaliado auscultando os ruídos hidroaéreos no flanco direito, percutindo a fossa paralombar direita (som timpânico) descendo até a porção ventral do flanco (som submaciço) e palpando as alças intestinais através da via retal. // Equinos No abdômen dos equinos, normalmente é realizado o teste do rebote, onde é feito uma ligeira compressão e descompressão do abdômen com os dígitos e se o animal tiver peritonite, responderá com gemido de dor. A percussão é realizada com o animal em posição quadrupedal, em todo o abdômen, e o som produzido varia de acordo com a presença de gás ou líquido na região. Porém, se for ouvido som maciço em toda região, significa que toda a cavidade está repleta de líquido, como na peritonite, e o som timpânico presente em maior proporção indica timpanismo intestinal. Os quadrantes abdominais ventrais e dorsais (esquerdos e direitos) sempre devem ser auscultados no exame físico de equinos por, no mínimo, 30 segundos e em três pontos diferentes da mesma região. No quadrante dorsal direito, é ouvido o som característico da válvula ileocecal, que se assemelha ao ruído de uma cachoeira. Nos demais quadrantes, são ouvidos borborigmos que podem diminuir com o jejum prolongado ou dor e aumentar nos casos de cólicas espasmódicas, podendo ser ouvido até mesmo sem o auxílio de um estetoscópio. E no timpanismo intestinal, esses ruídos podem ser modificados, tornando-se metálicos. // Cães e gatos Em cães e gatos, a palpação pode ser realizada em toda a superfície abdominal com as pontas dos dedos, avaliando a sensibilidade dolorosa de cada região e a delimitação dos órgãos palpáveis. O estômago pode ser sentido na região epigástrica, apenas quando está repleto, de forma curva e irregular. Na região hipocondríaca direita, adentrando o arco intercostal, pode ser palpada a borda do fígado quando ele está com seu volume aumentado. As alças intestinais podem ser avaliadas com a palpação da região mesogástrica, e no caso do intestino grosso, também na região hipogástrica, sendo possível perceber repleção do órgão por gases ou fezes (principalmente nos casos de constipação, onde essas últimas se encontram duras). O reto pode ser palpado com a introdução do dedo do médico veterinário, recoberto por luva descartável e lubrificante. Nessas espécies também é realizada a percussão digital do abdômen com o paciente em decúbito lateral ou dorsal na região mesogástrica. O som pode ser claro em uma região com ar, como o intestino, ou maciço quando é realizado sob o fígado ou em alças intestinais repletas de fezes. No caso de excesso de gases em estômago ou intestino, é ouvido um som timpânico na percussão. A ausculta identifica borborigmos que estão diminuídos, quando o trato gastrointestinal está vazio, ou aumentado, quando há aumento do peristaltismo. DICA O sucesso na obtenção de dados com a aplicação das semiotécnicas, especialmente no sistema digestivo, depende do conhecimento detalhado da anatomia de cada espécie. Por isso, é recomendado realizar uma revisão anatômica para se aprofundar na semiologia especial do trato gastrointestinal. Para complementar o exame clínico, algumas técnicas e exames podem ser realizados, como a colheita e avaliação do líquido ruminal (ruminantes) ou estomacal (equinos) e do fluido peritoneal, ultrassonografia e radiografia abdominal, assim como a laparotomia exploratória, em alguns casos, que consiste na abertura cirúrgica da cavidade abdominal para examinar diretamente os órgãos. III. Semiologia especial do sistema respiratório O sistema respiratório é avaliado direta ou indiretamente em todas as suas estruturas, sendo elas: as narinas, a cavidade nasal, a faringe, a laringe, a traqueia e o pulmão. E, para isso, é necessário conhecer os termos técnicos relacionados a manifestações dos sinais clínicos desse sistema, a exemplo da epistaxe que significa sangramento nasal, enquanto a liberação simultânea de sangue pelas narinas e boca se chama hemoptise. O espirro é uma manifestação clássica de acometimento respiratório, por ser uma medida protetora para retirar qualquer irritante da cavidade nasal. Porém, quando o sentido do espirro é inverso, ou seja, ao invés do ar ser expelido, é inspirado, denominamos espirro reverso, que ocorre principalmente em cães de porte pequeno e seu acontecimento não está relacionado com gravidade ou doença específica. Há ainda a tosse que também está relacionada com a proteção do sistema respiratório, normalmente das vias aéreas inferiores e podendo ser produtiva (com secreção) ou seca (sem secreção). Um som alto e grosseiro durante a respiração é chamado de ronco e está relacionado com obstrução na faringe, palato mole prolongado e até obesidade. Já o estridor é o som agudo e fino, semelhante a um assovio, durante a inspiração, sendo causado por obstrução da passagem do ar nas vias áreas superiores. Em relação à inflamação, os termos variam de acordo com a estrutura respiratória acometida. Quando inflama a mucosa nasal é denominada rinite, nos seis nasais é chamado de sinusite, na faringe de faringite e na traqueia é referido como traqueíte. Ao atingir apenas os brônquios, a inflamação é definida como bronquite e nos pulmões é pneumonia. ANAMNESE ESPECÍFICA As alterações respiratórias podem ser leves ou levar o animal a óbito em poucosminutos, por isso, antes mesmo de iniciar a ficha, pode ser necessário intervir no animal. Logo, para entender se o quadro é uma emergência, as seguintes perguntas devem ter uma resposta positiva: o animal parou subitamente de respirar? o O animal ficou com a coloração da língua ou gengiva arroxeada? o O animal perdeu a consciência após iniciar a alteração? Se a resposta for negativa para os três questionamentos, o preenchimento da ficha deve ser retomado, iniciando pela resenha, pois os princípios que interferem no raciocínio clínico são: 1. Idade 2. Raça Em relação à anamnese específica do sistema respiratório, os questionamentos realizados e suas respectivas respostas são referentes a: Mecanismos de proteção: O animal apresenta tosse ou espirro? Se sim, há quanto tempo? Há produção de secreção? Se sim, com quais características? Assim, é possível saber se o acometimento é crônico ou agudo e se está relacionado com a porção superior ou inferior das vias aéreas, além de relacionar com possíveis patologias, a depender da secreção expelida; Alterações nasais: O animal tem secreção nasal? Se sim, com quais características e há quanto tempo? Tem sangramento nasal? Esse sangramento também sai pela boca? A cavidade nasal foi deformada? Se sim, há quanto tempo? Dessa forma, é possível saber se a secreção nasal é constante e se há epistaxe ou hemoptise, bem como saber se a cavidade nasal a ser avaliada no exame físico sofreu modificação, o que pode levantar suspeitas de corpo estranho e neoplasias; Padrão respiratório: A respiração do animal está mais rápida ou mais lenta que o usual? Ele está com dificuldade para respirar? Em caso positivo, há quanto tempo? Quando o animal respira é possível ouvir algum ruído? Se sim, a que ele se assemelha? O animal está forçando o abdômen para respirar? Com esses questionamentos, é possível saber se o histórico do animal cursa com normo, taqui ou bradipneia, assim como se há dispneia e produção de ruídos, como estridor e ronco; Alteração comportamental: O animal está cansando rapidamente ou desmaiando ao realizar atividades físicas? Se sim, em quais atividades e há quanto tempo ocorre? A gravidade e o local da alteração respiratória têm relação com a intolerância ao exercício, visto que normalmente o acometimento das vias aéreas inferiores reflete em um animal ofegante facilmente e os desmaios representam a baixíssima oxigenação dos tecidos; Contactantes e ambiente: Como é local que o animal vive? Outros animais contactantes estão apresentando alterações respiratórias? Se sim, desde quando? Entender o ambiente que o animal passa a maior parte do tempo e dorme, muitas vezes, pode elucidar a queixa do tutor. É comum, por exemplo, ao iniciar uma reforma na casa, o animal apresentar tosses e espirros alérgicos. Além disso, investigar se outros contactantes estão com a mesma sintomatologia indica uma condição de contágio. Durante a anamnese, principalmente ao questionar sobre as características da respiração, alguns tutores não sabem descrever o som ouvido e, com isso, tentam repeti-lo na consulta. O ato não pode ser julgado e, inclusive, pode ser aplicado pelo médico veterinário quando este perceber que o tutor não consegue reproduzir o ruído ou associá-lo com outro. O essencial é que a comunicação seja realizada sem obstáculos, visto que o quadro respiratório pode variar em pouco tempo e é essa evolução que caracteriza cada doença. PADRÕES RESPIRATÓRIOS A respiração dos animais tem um padrão fisiológico, a depender da idade e espécie (Quadro 4), e para a frequência dentro do parâmetro esperado denominamos eupneia. Quando a frequência está acima do intervalo normal, é chamada de taquipneia e quando está abaixo é bradipneia. Para ausência de respiração, o termo técnico é apneia. A frequência respiratória é expressa em mpm ou mrm (movimentos por minuto). Quadro 4. Frequência respiratória normal nos animais domésticos. Fonte: FEITOSA, 2020, n.p.; HAWKINS, 2015, n.p. A dificuldade de respirar é chamada de dispneia, porém ela deve ser caracterizada segundo o movimento da respiração. A obstrução da entrada de ar é denominada dispneia inspiratória, em que são observados movimentos de extensão torácica curtos pela pouca entrada do ar, normalmente com alterações nas vias áreas superiores. Já na dispneia expiratória, a dificuldade é na fase de expulsão do ar, comumente visto nas afecções das vias inferiores, podendo ser restritiva, quando a respiração é rápida e superficial, ou não restritiva, quando a expiração é mais prolongada. Há ainda a dispneia mista que apresenta dificuldade tanto na inspiração quanto na expiração. Quando o animal se deita de lado e, nesse momento, apresenta dispneia, chamamos de trepopneia. Essa alteração ocorre quando há o deslocamento de fluidos para uma maior área pulmonar, a exemplo dos casos de efusão pleural unilateral. E a hiperpneia é caracterizada pelo aumento da intensidade da respiração, muitas vezes relatado pelos tutores como uma respiração “mais forte”. Essas dispneias podem seguir um padrão contínuo, como a respiração de Cheyne- Stokes, que consiste em ciclos alternados de hiperpneia e apneia (Figura 3). A respiração de Biot é caracterizada por períodos de apneia intercalados por respirações irregulares de diferentes frequências e amplitudes. Vale ressaltar ainda que a respiração de Kussmaul possui uma inspiração e expiração profunda e lenta. Figura 3. Padrões respiratórios mais comuns. Fonte: Adobe Stock. Acesso em: 20/06/2021. EXAME FÍSICO ESPECÍFICO O exame físico do sistema respiratório inicia buscando sinais de gravidade que alterem a conduta clínica do profissional, sendo eles: apneia, dispneia intensa, perda de consciência, mucosas cianóticas e posição ortopneica (Figura 4). Nesse posicionamento, o animal fica com cabeça e pescoço estendidos, cotovelos afastados, boca entreaberta e em estação ou decúbito esternal, para facilitar a passagem do ar. Se observadas essas alterações, o quadro é emergencial e, por isso, o exame físico detalhado deve ser suspenso nesse momento para realizar a intervenção médica necessária. Entretanto, não havendo essa situação, a avaliação deve ser minuciosa, com a inspeção das narinas, cavidade nasal, face, palato e movimentos torácicos para verificar se há secreção nasal e qual a coloração e consistência, presença de estruturas anormais na cavidade nasal, como neoplasias e corpo estranhos, anomalias nas estruturas, além de também avaliar a mucosa da região e definir qual o padrão respiratório do animal. O tipo respiratório também é observado, sendo esperada a respiração costo- abdominal, porém, em animais com dores na região torácica (como as causadas por fratura de costela), espera-se uma respiração com movimentos abdominais acentuados. Já os pacientes com dores abdominais tendem a poupar a região fazendo uma respiração do tipo costal (predominantemente com a região torácica). Espirros e tosses podem ser relatados pelo tutor, mas o animal pode não demonstrar durante o exame físico. Por essa razão, é interessante perguntar ao tutor se ele tem o registro desse comportamento em vídeo para auxiliar no raciocínio clínico. A tosse pode ser provocada na palpação da traqueia, principalmente nos casos dos animais que têm inflamação ou colapso do órgão, e em grandes animais com o tamponamento de ambas as narinas com as mãos. Com a palpação, também é percebido o frêmito laríngeo ou traqueal, a depender da localização da vibração, que indica excesso de líquido ou membranas que se movem com a passagem do ar. Ao colocar a mão sobre o tórax, pode haver uma vibração, chamado de frêmito torácico, tendo relação com líquido na região ou atrito das pleuras. A ausculta pode ser realizada diretamente nos animais que produzem ruídos altos, como ronco e estridor, porém o usodo estetoscópio é fundamental para avaliar os sons pulmonares. Como nem toda área do tórax é audível, deve ser traçada uma linha imaginária para delimitar a área de ausculta: PORÇÃO ANTERIOR: a partir da escápula; PORÇÃO SUPERIOR: abaixo da musculatura dorsal; PORÇÃO POSTERIOR E INFERIOR: linha imaginária que liga os pontos nos espaços intercostais (EIC) na direção da tuberosidade ilíaca (17º EIC em equinos, 12º nas demais espécies domésticas), tuberosidade isquiática (14º EIC em equinos, 11º em ruminantes e 10º em cães e gatos) e na articulação escapuloumeral (10º EIC em equinos, 10º em ruminantes e 8º em cães e gatos). Em ausculta pulmonar normal, os ruídos ouvidos são da passagem de ar (semelhante a um leve assopro). Nas alterações, podem ser ouvidos diversos sons, como as crepitações, roncos e sibilos (semelhante a um assovio, assim como o estridor, porém tem origem na via área inferior). Ao posicionar o estetoscópio na região pulmonar, é possível também ouvir ruídos das outras estruturas respiratórias, sendo necessário auscultar ainda a traqueia para distinguir o órgão acometido, de acordo com o aumento ou diminuição do ruído auscultado inicialmente nos pulmões. O tórax também pode ser percutido com martelo e plexímetro nos grandes animais e dígito-digital em cães e gatos. O som normal é o claro, porém em situações que há o excesso de ar na cavidade, como no pneumotórax, há produção de um ruído hipersonoro, timpânico ou maciço. Já quando o espaço é preenchido por líquido ou massas neoplásicas, o som percutido é submaciço ou maciço. A olfação é pouco utilizada para pequenos animais, porém em ruminantes e equinos é aplicada inspirando o ar exalado pela narina do animal e, se o mesmo tiver odor putrefativo, é indicado degeneração tecidual. Ademais, as técnicas e exames complementares, como toracocentese, radiografia do tórax, broncoscopia e biopsia dos órgãos acometidos, auxiliam a concluir um diagnóstico do paciente. IV. Semiologia especial do sistema circulatório A avaliação do sistema circulatório abrange os achados cardíacos e dos vasos sanguíneos. Normalmente, as alterações no sistema circulatório podem passar despercebidas pelos tutores até a manifestação de sinais clínicos exacerbados que, muitas vezes, estão relacionados com situações de emergência. A avaliação do sistema circulatório abrange os achados cardíacos e dos vasos sanguíneos. Normalmente, as alterações no sistema circulatório podem passar despercebidas pelos tutores até a manifestação de sinais clínicos exacerbados que, muitas vezes, estão relacionados com situações de emergência. Os sinais podem parecer estar relacionados com outros sistemas como a tosse, que geralmente é assimilada a alterações respiratórias. Todavia, ela é comum de acontecer nos animais com doenças cardíacas, que levam ao desenvolvimento de edema pulmonar, como a insuficiência cardíaca congestiva. Da mesma forma, a dispneia pode ocorrer nesses animais, necessitando de uma intervenção veterinária imediata. A ascite é o acúmulo de líquido na cavidade abdominal e possui diversas causas, sendo uma delas a cardiopatia, que aumenta a sobrecarga da veia cava caudal e altera o equilíbrio coloidosmótico da região. Essas alterações cardíacas também podem levar à síncope, por não bombear adequadamente o sangue até o encéfalo. Além disso, ocorre um aumento no catabolismo que, com a progressão da doença cardíaca, pode desenvolver caquexia no animal, mesmo sem alterar o apetite. ANAMNESE ESPECÍFICA Ao iniciar a anamnese, nem sempre a queixa principal do tutor será relacionada ao sistema cardiovascular, porém na seção que precede esse relato é preciso estar atento principalmente a: 1. ESPÉCIE: As alterações cardiovasculares podem acometer mais uma espécie em detrimento de outra, a exemplo da cardiomiopatia dilatada, que ocorre comumente em cães e tem sua fisiopatologia oposta à cardiomiopatia hipertrófica, que se desenvolve com mais frequência em felinos; 2. RAÇA: A seleção dos animais com uma determinada característica para a criação de raças leva também predisposições genéticas não desejáveis, como é o caso do Cavalier King Charles Spaniel, uma raça canina frequentemente acometida pela degeneração da valva mitral; 3. IDADE: As doenças circulatórias podem ser congênitas ou adquiridas. As doenças congênitas, como a persistência do quarto arco aórtico, se manifestam em animais jovens, enquanto as alterações adquiridas, como a insuficiência valvar, são normalmente observadas em animais de meia idade a idosos. Os questionamentos de uma anamnese específica do sistema cardiovascular são relacionados a: Resposta respiratória: O animal tem tosse seca? Se sim, desde quando? Ele fica cansado mesmo sem realizar esforço físico? Está com dificuldade de respirar? Se sim, há quanto tempo? Dessa maneira, é possível saber se o animal tem tosse improdutiva, o que já auxilia a distinguir de alterações respiratórias primárias pelo tempo de evolução desse sinal clínico, e se, além de intolerância ao exercício, o animal também fica ofegante com atividades diárias, para compreender a gravidade da alteração cardíaca; Edemas: O animal está com alguma região do corpo inchada? Se sim, quais e há quanto tempo? O edema é um sinal clássico de distúrbio cardíaco e ele pode se apresentar em membros, flancos e face. Quando o edema é generalizado, chamamos de anasarca; Respostas sistêmicas: O animal tem histórico de desmaios? Se sim, em quais situações ocorre? Ele tem perdido peso? Se sim, há quanto tempo? O abdômen dele aumentou de tamanho recentemente? Dessa forma, é possível ter noção do quanto a ejeção sanguínea para os tecidos está comprometida, a ponto de o animal desmaiar por oxigenação encefálica inadequada. Além disso, é avaliado o nível de congestão sanguínea para levar a um desequilíbrio osmótico na região abdominal, bem como o quanto as atividades catabólicas do sistema circulatório estão sendo exercidas. A anamnese do sistema estudado não possui perguntas diretas sobre cada estrutura, pois o tutor não consegue notar as modificações no coração ou nos vasos sanguíneos, apenas seus reflexos nos demais órgãos. AUSCULTA CARDÍACA A ausculta cardíaca fornece informações valiosas para reunir com os relatos da anamnese e na suspeita de alteração cardiovascular. Ela é realizada com o auxílio do estetoscópio que, para obter os sons adequadamente, deve estar posicionado nos pontos de ausculta corretos para cada espécie. Esses pontos recebem os nomes das válvulas audíveis na localização, sendo do lado esquerdo os focos pulmonar, aórtico e mitral, e do lado direito o tricúspide. Em cães, gatos, equinos e pequenos ruminantes, os focos do lado esquerdo são rotineiramente chamados de PAM-345, pois a inicial de cada valva representa as posições no 3º, 4º e 5º espaço intercostal. Em bovinos, esses pontos são o pulmonar no 3º EIC e o aórtico e mitral no 4º EIC. Em todas as espécies domésticas, o foco do tricúspide pode ser auscultado na região ventral do 3º ou 4º EIC direito. As bulhas cardíacas são os sons ouvidos no batimento cardíaco. A primeira bulha se origina com o fechamento das válvulas atrioventriculares esquerda e direita, preenchimento das câmaras com sangue e contração ventricular. Ela marca o início da fase sistólica, ou seja, da ejeção sanguínea por contração dos ventrículos. A segunda bulha indica o começo da fase diastólica, que corresponde à dilatação dos ventrículos para o retorno sanguíneo. Nessa fase, ocorre o fechamento das válvulas aórtica, pulmonar e semilunares. Já a terceira bulha é o som produzido com a entrada e choque do sangue nas paredes ventriculares para seu preenchimento, enquanto a quarta é vista como uma pré-sístole, por representar a contração do átrio. Em cães e gatos, é perceptível apenas a primeira e segunda bulha,sendo o intervalo do som entre a primeira e a segunda curta, e mais prolongada da segunda para a primeira. Quando as demais bulhas são ouvidas, assemelham-se a um galope e indicam alteração cardíaca nas espécies. Já em bovinos, é audível a primeira, segunda e quarta bulha, sendo a terceira ouvida esporadicamente, enquanto em equinos, todas as bulhas são audíveis, porém se o animal estiver com a frequência cardíaca aumentada, os sons podem se tornar menos distinguíveis. EXAME FÍSICO ESPECÍFICO A avaliação específica do sistema circulatório mais clássica é a verificação da frequência cardíaca. Esse parâmetro é medido em batimentos por minuto e, quando os valores estão dentro do intervalo de referência, é chamado de normocardia (Quadro 5). Ao se encontrar acima do limite da normalida de, é denominado taquicardia e a bradicardia se refere a uma frequência cardíaca diminuída. Quando o ritmo dos batimentos está irregular, o termo utilizado é arritmia. Ainda com o estetoscópio, é investigado se as bulhas cardíacas estão com o som adequado ou com desdobramento (repetição do ruído). Também é investigado nos focos de ausculta se as válvulas estão com sinal de degeneração representado pelo sopro que, como o nome sugere, é um som semelhante ao assopro. Em algumas situações, como anemia severa e febre, pode ocorrer o sopro funcional, que é o ruído sem alterações valvulares. O sopro pode ser classificado, de acordo com sua gravidade, em: o Grau 1: sopro quase imperceptível; o Grau 2: sopro suave; o Grau 3: ruído de tom moderado; o Grau 4: som acentuado, porém sem frêmito; o Grau 5: sopro acentuado e com frêmito; o Grau 6: sopro exacerbado, com frêmito, e audível até sem estetoscópio, mesmo em pequenos animais. A inspeção é realizada observando a coloração das mucosas, pois, se estiverem congestas, indicam alteração circulatória e a cianose pode ocorrer devido ao edema pulmonar secundário à cardiopatia. Notar se a veia jugular está pulsando, indica retorno sanguíneo pela válvula tricúspide, visto que os vasos sanguíneos pulsantes são as artérias e não as veias. A palpação pode ser aplicada para identificar o choque precordial, ou seja, a área em que o batimento cardíaco é sentido, diferente do frêmito cardíaco, que é a vibração da região em que há a degeneração da válvula. Para avaliar a presença de edema, é realizado o teste de Godet, que, se for positivo, manterá a marca do dedo no local pressionado. O pulso deve ser palpado com dois dedos, ocluindo parcialmente a artéria femoral em cães e gatos, e facial, safena ou digital em grandes animais, devendo acompanhar cada batimento cardíaco. Caso contrário, indica uma arritmia. Além disso, quanto à tensão, pode ser classificada em fraca (mole), firme (normal) e forte (duro). Em relação à frequência, pode estar com bradisfigmia (diminuído), normosfigmia (normal) ou taquisfigmia (aumentado). A percussão e a olfação não são realizadas na rotina do exame físico do sistema circulatório, porém os aparelhos de inspeção indireta são fundamentais para fechar o diagnóstico do paciente. Dentre eles, destacam-se: o eletrocardiograma, que tem a principal função de avaliar o ritmo cardíaco; o ecocardiograma, que observa a morfologia do coração; e a aferição de pressão arterial, que identifica os quadros de hipo ou hipertensão. Ademais, também são utilizados com frequência a radiografia torácica, pericardiocentese e biopsia da estrutura afetada. SINTETIZANDO A avaliação semiológica do sistema tegumentar é baseada em padrões de lesões, classificadas de acordo com suas características, como a liquenificação, que é o espessamento da pele em favos de mel, pois cada doença tem como sinais clínicos um conjunto de lesões já conhecida. Por isso, além de descrevê-las adequadamente na ficha, é preciso detalhar as áreas de acometimento, já que esse conjunto de dados auxiliam nas suspeitas diagnósticas e no acompanhamento da evolução do quadro. No sistema digestivo, a Investigação inicial consiste em diferenciar vômito, regurgitação, disfagia e engasgo, quando o tutor relata que há expulsão de conteúdo pela boca. Esses quadros são totalmente diferentes, já que, por exemplo, na disfagia e engasgo, o alimento sequer chega ao estômago. E, em casos de diarreia, especialmente as crônicas, é necessário compreender se sua origem é no intestino delgado, grosso ou mista. Em relação ao trato respiratório, antes de iniciar a ficha do animal, é necessário saber se é uma emergência, pois o tempo é fundamental para salvar o paciente que está com dificuldade de respirar. As alterações do sistema estão associadas a um padrão respiratório, seja um animal em eupneia (apenas com a queixa de espirros esporádicos) ou um animal em apneia (com risco de óbito). Por fim, o sistema circulatório é avaliado indiretamente durante a anamnese, visto que não é possível obter informações precisas, por parte da maioria dos tutores, sobre as condições do coração e vasos sanguíneos do animal. Porém, no exame físico realizado adequadamente, o sistema cardiovascular é bem avaliado, sendo necessário exames complementares, como eletrocardiograma, para fechar o diagnóstico do paciente.