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Unidade 2 – Semiologia especial dos sistemas tegumentar, 
digestivo, respiratório e circulatório 
 
I. Semiologia especial do sistema tegumentar 
A semiologia do sistema tegumentar abrange a avaliação da pele e seus anexos, como 
pelos, unhas e glândulas adjacentes. A pele é o maior órgão dos animais domésticos e, 
além de ser a responsável por caracterizar um indivíduo, realizar termorregulação e 
produzir moléculas endógenas, também possui a função de proteger o corpo de fatores 
externos químicos, físicos e microbiológicos. 
A semiologia do sistema tegumentar abrange a avaliação da pele e seus anexos, como 
pelos, unhas e glândulas adjacentes. A pele é o maior órgão dos animais domésticos e, 
além de ser a responsável por caracterizar um indivíduo, realizar termorregulação e 
produzir moléculas endógenas, também possui a função de proteger o corpo de fatores 
externos químicos, físicos e microbiológicos. 
A exposição da pele a agressões reflete em alterações cutâneas frequentes na clínica 
médica, representando cerca de 75% dos atendimentos veterinários. Isso se deve 
também ao fato de que muitas doenças sistêmicas têm como sinal clínico lesões na 
pele. Logo, é preciso saber que as alterações tegumentares podem ter origem primária, 
ou seja, causada por lesões diretamente na pele, ou secundária, quando ocorrer devido 
a uma doença base. 
As camadas da pele são a epiderme (superior), derme (intermediária) e hipoderme 
(profunda). O tegumento varia em quantidade, cor, tamanho e textura, de acordo com a 
espécie, idade, sexo, raça e, até mesmo, entre grupo de animais com as mesmas 
características. 
A pele é uma continuação das mucosas, ou se inserem nelas, seja a mucosa 
respiratória, digestiva, urogenital ou ocular, e o seu pH é ligeiramente ácido. Nos 
ruminantes o pH é cerca de 5,5, nos equinos normalmente varia entre 4,8 a 6,8, e em 
cães e gatos o intervalo é de 5,5 a 7,5. 
As regiões da pele são as pilosas, que possuem pelos, e glabras, onde os folículos 
pilosos são ausentes, como nos coxins e plano nasal. Os folículos pilosos ficam 
inseridos na porção intradérmica, onde contém a raiz dos pelos, enquanto as hastes 
são visíveis diretamente no exame clínico por estarem localizadas na porção externa 
da pele. 
Os pelos podem ser primários, os quais são acompanhados de glândula sebácea e do 
músculo eretor, e secundários, que possuem apenas a glândula sebácea adjacente. Os 
pelos primários saem individualmente em cada poro, e é importante considerar que os 
bovinos e equinos apresentam apenas esse tipo em seu tegumento. Já os pelos 
secundários se localizam em grupos por poro, e podem compor a pelagem de cães, 
gatos, suínos e pequenos ruminantes, por exemplo. 
As glândulas sebáceas, por sua vez, estão presentes em toda a extensão da pele, 
exceto nas regiões glabras, e são responsáveis por produzir o sebo que, além de 
conferir maciez e brilho à pele e aos pelos, têm a função de proteção contra patógenos. 
Próximas a elas estão localizadas as glândulas sudoríparas, responsáveis pela 
sudorese, sendo em cães encontradas também nos coxins. 
Outras glândulas, como as perianais, supra caudais e das orelhas, ainda compõem o 
sistema tegumentar. Da mesma forma que as unhas, pois também devem ser 
investigadas no exame clínico do paciente 
 
 
ANAMNESE ESPECÍFICA 
A anamnese do sistema tegumentar deve ser detalhada, pois essas informações 
direcionam as suspeitas diagnósticas formadas com os achados do exame físico. 
Entretanto, antes de iniciar essa etapa, a resenha deve ser preenchida 
adequadamente, pois algumas doenças cutâneas estão diretamente ligadas com as 
características intrínsecas do animal, tais como: 
1. Idade: Algumas doenças ocorrem com maior frequência em uma determinada 
faixa etária, a exemplo da celulite juvenil canina, que, como o nome sugere, 
acomete animais jovens, geralmente com até seis meses de idade; 
 
2. Sexo: Existem alterações cutâneas que possuem predisposição sexual, mas 
que também variam com o ciclo estral, no caso das fêmeas, como na dermatose 
secundária ao hiperestrogenismo; 
 
3. Raça: Diversas doenças estão relacionadas com a raça do animal, como a 
astenia cutânea (vista com maior frequência nos equinos da raça Quarto de 
Milha). Além disso, a raça também auxilia a identificar as características normais 
daquele indivíduo, como a ausência de pelos em gatos da raça Sphynx; 
 
4. Pelagem: O conhecimento sobre a pelagem inicial do paciente é importante 
para identificar as doenças que levam à alteração na cor, tamanho ou aspecto 
dos pelos, como no vitiligo, no qual o animal começa a ter áreas 
esbranquiçadas, devido à perda da pigmentação no local. 
Com o início da anamnese, as alterações de pele devem ser descritas como citadas 
pelo tutor na queixa principal, se esse for o motivo dele buscar atendimento veterinário 
para seu animal. Porém, se a queixa principal for outro motivo, mas houver relatos de 
lesões cutâneas durante a consulta, essas informações também devem ser obtidas e 
registradas no local específico da ficha. 
Logo, na seção de sistema tegumentar, deve ser perguntado ao tutor e registrado as 
respostas: 
 Procedência do animal: ele foi adquirido em canil, abrigo ou de outras formas? 
Conhece os pais do animal? Se sim, possuem algum histórico de lesões de 
pele? Outros animais da mesma ninhada dele possuem alterações cutânea? O 
objetivo dessas perguntas é entender se a lesão tem caráter hereditário ou está 
relacionada com locais aglomerados, como canil e abrigo; 
 Histórico geográfico: o animal já esteve em outra cidade? Se sim, qual? Na 
época, utilizou alguma medida profilática para doenças endêmicas da região? 
Dessa forma, é possível saber se o paciente já esteve em locais endêmicos, 
com proteção ou não, para doenças como leishmaniose. Se o paciente vive em 
uma região endêmica para a doença suspeitada, é importante que se realize as 
perguntas pensando em outros diagnósticos diferenciais; 
 Início e tempo de evolução do quadro: quando a lesão começou? O aspecto 
inicial da lesão era o mesmo que está agora? Essa alteração é recorrente ou é a 
primeira vez que se manifesta? Assim, é possível compreender há quanto tempo 
o animal está com a lesão, se ela modificou ou não em relação ao seu estado 
inicial, e se ela é aguda ou crônica; 
 Periodicidade: qual a frequência que essas lesões aparecem e somem/pioram? 
Percebeu alguma correlação delas com o clima ou o cio? No caso de lesões 
recorrentes, é importante saber a frequência e se há relação com estações do 
ano ou alterações hormonais; 
 Manejo: qual a frequência de banhos dados? Com qual produto? Também é 
utilizado outros produtos na pele? Se sim, com qual frequência? Assim, é 
possível saber se a origem da lesão está com um manejo inadequado, por 
exemplo, com excesso de banhos; 
 Ectoparasitas: o animal possui ectoparasitas? Se sim, quais e há quanto 
tempo? Entender se o animal possui ectoparasitas é fundamental para 
diagnosticar algumas doenças como a DAPE (dermatite alérgica à picada de 
ectoparasitas); 
 Alimentação e contactantes: o que o animal come? Já percebeu alguma piora 
com um alimento específico? Ele convive com outros animais? Se sim, eles 
também estão com lesões na pele? Com essas perguntas, podem ser 
direcionadas suspeitas relacionadas à alimentação, e se esta é contagiosa ou 
não; 
 Prurido: o animal se coça? Se sim, em qual intensidade? Quando começou? Ao 
questionar a intensidade, é importante mensurar em uma escala de 0 a 10, 
sendo 0 nenhuma coceira e 10 um prurido tão intenso que o animal acorda ou 
para de comer para se coçar. Tão importante quanto numerar o grau do prurido, 
é saber se ele começou antes ou depois do início da lesão, pois em doenças 
como a demodicose, por exemplo, a coceira só é iniciada um tempo após a 
manifestação da lesão; 
 Tratamentos prévios: o animal já fez algum tratamento para a pele? Com quaisprodutos? As lesões melhoraram ou não com a intervenção? Foi prescrito por 
outro médico veterinário ou realizado por conta própria? Dessa forma, é possível 
saber quais produtos já foram utilizados e como foi a resposta do paciente com 
as medicações. Essas informações são necessárias principalmente nos casos 
de suspeitas de resistência bacteriana ou fúngica. 
Essas perguntas podem variar, de acordo com a manifestação clínica do paciente, e 
devem ser realizadas com uma linguagem de fácil entendimento para o tutor. 
 
 
CARACTERÍSTICAS DAS LESÕES CUTÂNEAS 
Antes de iniciar o exame físico do paciente, é necessário saber identificar as lesões 
para descrevê-las corretamente na ficha. Cada lesão possui uma descrição específica 
universal (Quadro 1), sendo o conjunto dessas alterações que caracteriza cada doença 
cutânea. Portanto, apesar de existir diversas nomenclaturas para as alterações 
dermatológicas, as principais lesões devem ser facilmente reconhecidas pelo médico 
veterinário. 
EXEMPLIFICANDO O pênfigo foliáceo, por exemplo, é uma doença dermatológica 
autoimune que, em cães, se manifesta com pústulas e colaretes epidérmicos na face e 
orelhas, podendo evoluir para crostas, hiperqueratose em coxins e discromia nasal, 
periocular e no pavilhão auricular. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
// Quadro 1. Descrições das principais lesões dermatológicas em animais 
domésticos: 
 
Essas lesões podem aparecer isoladamente ou em conjunto. Logo, quando elas estão 
associadas, a nomenclatura também pode ser realizada com a junção dos termos. Por 
exemplo, em um animal com vesículas e bolhas na pele, a alteração pode ser descrita 
como vesiculobolhosa, assim como papulocrostosa, se houver pápulas e crostas, e 
diversas outras combinações necessárias. 
 
EXAME FÍSICO ESPECÍFICO 
No exame físico específico do sistema tegumentar são aplicadas as semiotécnicas da 
palpação, olfação e inspeção. Na palpação, avalia-se a textura, o volume, a 
sensibilidade, a temperatura, a consistência, a umidade e untuosidade do tegumento. 
Além disso, a palpação também é útil para diferenciar alterações cutâneas similares. 
Por exemplo: 
o Sinal de Nikolsky: Separação da epiderme após pressionar e friccionar a pele, 
sendo característico de pênfigos; 
 
o Sinal de Godet: marca do dígito que permanece após pressionar o dedo em 
uma área inchada da pele, sendo utilizado para diagnosticar edemas; 
 
o Sinal de Larsson: evidência de descamação acumulada após friccionar os 
pelos no sentido contrário ao crescimento, sendo observado nos distúrbios de 
queratinização; 
 
o Digitopressão ou vitopressão: pressão do dedo ou de uma lâmina de vidro, 
respectivamente, em cima de lesões avermelhadas. Se a coloração não se 
modificar com o teste, determinamos que se trata de uma púrpura, porém se 
durante a compressão o local ficar com a coloração normal da pele, a alteração 
cutânea se trata de um eritema. 
A olfação é uma semiotécnica que é explorada por alguns profissionais, porém é 
relativo de acordo com a experiência de cada um. Algumas alterações realmente têm 
odores mais característicos, mas não são patognomônicos, por isso devem ser 
utilizadas apenas para levantar suspeitas diagnósticas, sem fechá-las. 
A malasseziose, por exemplo, é uma infecção fúngica cutânea que normalmente se 
manifesta de forma secundária a outras doenças bases, como hipersensibilidade 
alimentar e atopia. Quando o animal é acometido por ela, geralmente exala um odor 
semelhante ao de salgadinho de milho, o que leva ao direcionamento do raciocínio 
clínico para essa infecção durante o exame clínico. 
Na inspeção direta, identificamos não apenas as lesões de acordo com sua morfologia, 
mas também com a sua distribuição, topografia, profundidade e configuração. Quanto à 
distribuição, as alterações podem ser localizadas (até cinco lesões), disseminadas 
(mais de cinco lesões) e generalizadas (maior parte da superfície cutânea está com as 
lesões). 
Em relação à topografia, as lesões podem se manifestar de forma simétrica ou 
assimétrica. Quanto à profundidade, elas podem ser superficiais ou profundas, e com 
relação à configuração, recebem o nome de acordo com a forma apresentada, 
podendo ser circular, linear e geográfica, por exemplo. 
Em se tratando de alterações no pelo, deve ser descrito seu aspecto, coloração, textura 
e quantidade, utilizando o termo rarefação pilosa para áreas com menos pelo que o 
normal, e alopecia para as regiões com ausência de pelos. As mesmas observações 
devem ser realizadas nas glândulas e unhas, sendo o termo onicogrifose bastante 
utilizado para descrever unhas excessivamente espessadas e prolongadas, e 
hiperidrose para a sudorese exacerbada 
Todas as alterações do tegumento devem ser escritas na ficha clínica e também 
marcadas em um dermograma (Figura 2), quando possível. Assim, a representação da 
lesão se torna mais fidedigna para comparar com os padrões de distribuição de 
algumas doenças e observar a evolução da lesão após instituir o tratamento. 
Por fim, também é feita a inspeção indireta para visualizar o agente causador, 
realizando exames complementares, como o raspado cutâneo, a citologia de pele, o 
tricograma, a cultura fúngica e bacteriana e a biópsia. 
 
Figura 2. Dermograma canino para marcar as lesões observadas. Fonte: UFMG, 2013, 
n.p. 
 
II. Semiologia especial do sistema digestivo 
A semiologia do sistema digestivo busca investigar todas as alterações na boca, 
esôfago, pré-estomago (ruminantes), estômago, intestino e ânus, além dos órgãos 
anexos, como o fígado e pâncreas. Apesar de ser um sistema com múltiplas funções, a 
digestão e absorção dos nutrientes é a principal delas e, por isso, a perda de apetite do 
animal é um dos principais motivos para o tutor buscar atendimento veterinário. 
A semiologia do sistema digestivo busca Investigar todas as alterações na boca, 
esôfago, pré-estomago (ruminantes), estômago, intestino e ânus, além dos órgãos 
anexos, como o fígado e pâncreas. Apesar de ser um sistema com múltiplas funções, a 
digestão e absorção dos nutrientes é a principal delas e, por isso, a perda de apetite do 
animal é um dos principais motivos para o tutor buscar atendimento veterinário. 
Então, para compreender as alterações do sistema digestivo, é preciso inicialmente 
diferenciar a fome do apetite, sendo a fome uma necessidade fisiológica de comer, sem 
estar relacionada com um alimento específico, enquanto normalmente o apetite refere-
se ao desejo de comer algo específico. 
Ao apetite normal, denominamos normorexia, diminuído é chamado de hiporexia, e 
quando ausente denominamos anorexia. O apetite aumentado é descrito como 
polifagia, enquanto a alitrofagia ou apetite depravado (ou pervertido) refere-se à 
ingestão de materiais que não são alimentos, como objetos, terra e cabelo. Além disso, 
quando o animal ingere um tipo de alimento e rejeita outro, dizemos que ele possui o 
apetite seletivo. No entanto, havendo dificuldade de deglutir denominamos disfagia, 
enquanto a expulsão do conteúdo estomacal pela boca é definida como êmese. E 
quando há sangue no vômito o termo técnico é hematêmese. 
As fezes com características normais são chamadas de normoquesia, já a ausência de 
defecação é denominada aquesia e a disquesia ocorre quando há dor ao defecar. 
Sendo assim, devemos ressaltar que o aumento do volume, fluidez e/ou frequência da 
defecção são características da diarreia, enquanto a constipação é a defecção pouco 
frequente ou reduzida. A presença de sangue nas fezes pode ser descrita como 
melena, no caso do sangue digerido (coloração amarronzada), ou hematoquezia 
quando o sangue é vermelho vivo. E o termo coprofagia corresponde à ingestão de 
fezes pelo animal. 
 
ANAMNESE ESPECÍFICA 
Para iniciar a anamnese, a resenha do animal deve estar completa, pois os principais 
pontos dessa etapa que influenciam no raciocínio clínico são: 
 
1.IDADE: Algumas doenças ocorrerão apenas em uma determinada faixa etária, 
como a síndrome beber ruminal, onde os bezerros que recebem leite em 
posição inadequada da cabeça (para baixo) têm o fechamento inadequado da 
goteira esofágica, que desvia o destino desse leite do abomaso para o rúmen, 
culminando em fermentação inadequada deste pela microbiota ruminal. Essa 
síndrome, por exemplo, só acomete bezerros lactantes, pois após a fase de 
amamentação, a goteira esofágica perde sua funcionalidade; 
 
2. ESPÉCIE: O mesmo sinal clínico pode levar a suspeitas diagnósticas distintas, a 
depender da espécie examinada. Dores abdominais extremas e agudas em 
equinos normalmente estão relacionadas com cólicas, em ruminantes com 
timpanismo e em cães e gatos com pancreatite; 
 
3. RAÇA: Também é um fator crucial em alterações do sistema digestivo, pois o 
porte do animal pode influenciar na identificação de um quadro emergencial ou 
não. Em cães de raças grandes como o Dogue Alemão, especialmente quando 
são alimentados apenas uma vez ao dia, é comum acontecer a torção gástrica, 
também chamada de vólvulo gástrico. Essa alteração consiste na dilatação 
excessiva do estômago por aprisionamento do ar, devido a uma rotação do 
órgão. Com isso, se uma intervenção emergencial não for instituída logo, o 
animal pode vir a óbito por rompimento do estômago. Logo, ao atender um cão 
de porte grande com os sinais clínicos compatíveis, o raciocínio clínico do 
médico veterinário provavelmente será diferente de um animal de raças de porte 
pequeno ou médio. 
Ao iniciar a anamnese específica do sistema digestivo, todos os detalhes devem ser 
obtidos para diferenciar a origem dos sinais clínicos. O trato gastrointestinal é contínuo 
e, por isso, o tutor pode não ser capaz de identificar onde a alteração realmente está 
acontecendo. Por essa razão, devem ser questionados e registrados: 
 Apetite: O animal alterou o apetite? Se sim, está comendo mais ou menos? Ele 
está selecionando os alimentos que vai comer? Ele pode ter ingerido algum 
material não comestível? Com essas informações, é possível saber se o animal 
tem normo, poli, oligo ou anorexia, assim como se o apetite está seletivo e se há 
a possibilidade de ter ingerido objetos que podem causar obstrução intestinal por 
corpo estranho, por exemplo; 
 
 Alimentação: O que normalmente o animal come? Como é ofertado o alimento? 
Houve mudança recente na alimentação? Se sim, como foi realizada essa troca? 
Quantas vezes ao dia esse animal se alimenta? Como esse alimento é 
armazenado? Em muitas situações, as alterações digestivas dos pacientes 
estão relacionadas com o manejo alimentar inadequado, seja pelo tipo, 
frequência ou a forma que o alimento é ofertado, ou pela mudança brusca na 
dieta, bem como pela conservação inadequada do alimento, que pode 
contaminar e consequentemente causar danos à saúde do animal; 
 
 Alterações físicas e comportamentais: O animal perdeu ou ganhou peso? Se 
sim, há quanto tempo isso está ocorrendo? Ele está demonstrando dor 
abdominal? Ele continua ruminando ou pastando? Está apreendendo e 
mastigando o alimento adequadamente? Com essas informações é possível 
saber se o escore de condição corporal do paciente foi afetado pelas alterações 
digestivas. Também é possível saber a gravidade, de acordo com o nível de dor 
abdominal e, no caso dos animais de produção, se houve mudança nos hábitos 
de ruminação ou pastagem. A dificuldade em apreender ou mastigar o alimento 
também deve ser investigada, pois esse pode ser o motivo da hipo ou anorexia 
dos animais; 
 
 Êmese: O animal está vomitando? Se sim, há quanto tempo e com qual 
frequência? Quais são as características desse vômito? Quando ele vomita, 
realiza esforço para o ato? Ele tosse quando expele o alimento? Essas 
perguntas são necessárias para saber se o vômito é agudo ou crônico, se tem 
alimentos, sangue ou é apenas conteúdo biliar (líquido amarelado), e para 
diferenciar êmese, regurgitação, disfagia e engasgo; 
 
 Defecção: Como estão as fezes do animal? Se tem constipação, há quanto 
tempo isso ocorre? Se tem diarreia, qual a frequência e coloração das fezes? As 
fezes têm muco? O animal faz esforço para defecar, mas não consegue? Há 
sangue nas fezes? Se sim, esse sangue é amarronzado ou vermelho vivo? Têm 
alimentos não digeridos ou objetos nas fezes? Dessa forma, é possível saber as 
características das fezes para diferenciar uma diarreia de intestino delgado ou 
grosso, se é aguda ou crônica, e se há hematoquezia ou melena. 
Com as respostas obtidas por anamnese específica, associada com as informações 
das perguntas da anamnese geral, é possível suspeitar se a alteração tem caráter 
infectocontagioso, no caso de outros contactantes apresentarem a mesma alteração, 
por exemplo, e se o quadro digestivo é primário ou secundário a uma doença base. 
 
 
DIFERENCIANDO OS SINAIS RELATADOS 
As alterações descritas pelo responsável são da maneira que ele observa, porém cabe 
ao médico veterinário saber questionar adequadamente para obter respostas que 
diferenciem os sinais clínicos mais confundidos pelo tutor (Quadro 2). Por exemplo, 
é comum relatarem que o animal está vomitando, quando, na verdade, a alteração 
pode ser uma regurgitação, disfagia ou engasgo. 
A êmese ou vômito corresponde à expulsão do conteúdo estomacal pela boca com 
esforços que são chamados de mímica do vômito. Quando esse conteúdo retorna de 
forma passiva, ou seja, sem movimentos de expulsão do animal, ocorre a regurgitação. 
Já a disfagia pode ser confundida com a êmese, pois como o animal tem dificuldade de 
deglutir, o alimento é devolvido, porém sem atingir o estômago. E a mesma situação 
ocorre no engasgo, no qual o alimento pode ser expelido através da tosse se irritar a 
faringe ou porção posterior do palato. 
Quadro 2. Diferença clínica entre os mecanismos de evacuação de conteúdo pela 
boca. Fonte: FEITOSA, 2020, n.p.; SANTANA, 2021, n.p. 
Em relação a diarreias, é importante saber todas as suas características para 
diferenciar sua origem, seja de intestino delgado ou grosso. Sabemos que as diarreias 
agudas geralmente acometem as duas porções do intestino, porém as crônicas tendem 
a se manifestar com as alterações específicas de cada segmento (Quadro 3). Por 
exemplo, nos casos de pancreatite crônica, a sintomatologia é de uma diarreia de 
intestino delgado, enquanto na colite histiocítica ulcerativa é de intestino grosso. 
Logo, é importante saber que os borborigmos são os ruídos semelhantes a bolhas no 
estômago ou intestino dos animais e geralmente é relatado pelo tutor como “ronco na 
barriga”. Já a esteatorreia corresponde a fezes com gordura, normalmente tem 
coloração amarelada e alimentos não digeridos, sendo essa alteração característica de 
insuficiência pancreática exócrina. 
A presença de muco do intestino grosso nas fezes tem a conformação translúcida, 
brilhante e pegajosa. Em função disso, os tutores costumam citar que as fezes estão 
com um “catarro transparente”. Para descrever o momento que o animal faz esforço 
para defecar sem liberação das fezes, utiliza-se o termo tenesmo. Contudo, quando o 
animal não consegue conter a diarreia para fazer em outro local, considera-se estar 
com urgência na defecção. 
Quadro 3. Diferença entre diarreia do intestino delgado e do intestino grosso. Fonte: 
MARKS, 2013, n.p.; SANTANA, 2021, n.p. 
 
 
EXAME FÍSICO ESPECÍFICO 
O exame físico do sistema digestivo inicia verificando a postura do animal para 
observar se há dor abdominal acentuada, pois sugere um quadro emergencial. Cães e 
gatos com esse sinal clínico tendem a ficar em posição de prece, enquanto ruminantes 
apresentam cifose (dorso arqueado e os membros esticados) e equinos rolam, 
escavam o chão e são capazes de escoicear ou morder o próprio abdômen. 
A inspeção continua com a avaliação da cavidade oral para verificar se há alterações 
dentárias,como tártaros e fraturas, ou em qualquer outra estrutura que impeça o 
animal de apreender, mastigar ou deglutir os alimentos. Essa semiotécnica também é 
utilizada para identificar a conformação do abdômen (distendido ou não) e como estão 
as características fecais. Caso o animal não defeque durante o exame clínico, é 
possível identificar se ele está com diarreia, observando se a região perianal está 
inflamada ou com resquícios de fezes. 
A palpação da porção cervical do esôfago também pode ser aplicada da mesma forma 
nas diferentes espécies, pressionando a região com os dígitos para identificar 
sensibilidade dolorosa, elevações sugestivas de corpo estranho ou neoplasias. Porém, 
demais aspectos variam conforme a espécie: 
 
// Ruminantes 
O rúmen desses animais pode ser avaliado através da inspeção, observando se está 
distendido ou não na parede abdominal do flanco esquerdo. Esse órgão pode ser 
palpado na mesma região superficialmente com a palma da mão para avaliar a 
frequência e intensidade das contrações ruminais (movimento de ondas), ou com a 
mão fechada em punho profundamente para identificar o conteúdo ruminal, de acordo 
com a resistência da parede. Mas essa avaliação do conteúdo é melhor realizada com 
a palpação por via retal, onde o examinador insere a mão e braço no reto do animal 
para avaliar as estruturas internas. 
Vale considerar ainda que o rúmen deve ser auscultado, principalmente da região 
dorsal do flanco esquerdo, onde é ouvido de duas a três crepitações (sons dos 
movimentos ruminais) a cada dois minutos em animais saudáveis, sendo esperado nos 
caprinos cinco movimentos em cinco minutos. Na ficha, também deve ser descrito se 
esses movimentos estão com a intensidade ausente, diminuída, normal ou aumentada. 
Além disso, a percussão produzida com o martelo e plexímetro na região dorsal produz 
um som timpânico, enquanto na região ventral é ouvido um som submaciço. Esses 
sons variam em caso de alterações ruminais, como o timpanismo. 
No retículo, normalmente é realizado uma palpação profunda na região xifoide, 
socando com o punho ou elevando com um bastão, para identificar possível retocolite. 
Devido a sua posição anatômica, o omaso é inacessível para avaliação através das 
semiotécnicas de rotina. Já o abomaso pode ser percutido do 7º ao 11º espaço 
intercostal direito, sendo esperado o som submaciço. 
Em relação à cavidade abdominal, também é possível palpar o fígado quando está 
aumentando de tamanho, pressionando a delimitação do arco costal direito. E o 
intestino pode ser avaliado auscultando os ruídos hidroaéreos no flanco direito, 
percutindo a fossa paralombar direita (som timpânico) descendo até a porção ventral 
do flanco (som submaciço) e palpando as alças intestinais através da via retal. 
 
// Equinos 
No abdômen dos equinos, normalmente é realizado o teste do rebote, onde é feito uma 
ligeira compressão e descompressão do abdômen com os dígitos e se o animal tiver 
peritonite, responderá com gemido de dor. A percussão é realizada com o animal em 
posição quadrupedal, em todo o abdômen, e o som produzido varia de acordo com a 
presença de gás ou líquido na região. Porém, se for ouvido som maciço em toda 
região, significa que toda a cavidade está repleta de líquido, como na peritonite, e o 
som timpânico presente em maior proporção indica timpanismo intestinal. 
Os quadrantes abdominais ventrais e dorsais (esquerdos e direitos) sempre devem ser 
auscultados no exame físico de equinos por, no mínimo, 30 segundos e em três pontos 
diferentes da mesma região. No quadrante dorsal direito, é ouvido o som característico 
da válvula ileocecal, que se assemelha ao ruído de uma cachoeira. Nos demais 
quadrantes, são ouvidos borborigmos que podem diminuir com o jejum prolongado ou 
dor e aumentar nos casos de cólicas espasmódicas, podendo ser ouvido até mesmo 
sem o auxílio de um estetoscópio. E no timpanismo intestinal, esses ruídos podem ser 
modificados, tornando-se metálicos. 
 
// Cães e gatos 
Em cães e gatos, a palpação pode ser realizada em toda a superfície abdominal com 
as pontas dos dedos, avaliando a sensibilidade dolorosa de cada região e a delimitação 
dos órgãos palpáveis. O estômago pode ser sentido na região epigástrica, apenas 
quando está repleto, de forma curva e irregular. Na região hipocondríaca direita, 
adentrando o arco intercostal, pode ser palpada a borda do fígado quando ele está com 
seu volume aumentado. As alças intestinais podem ser avaliadas com a palpação da 
região mesogástrica, e no caso do intestino grosso, também na região hipogástrica, 
sendo possível perceber repleção do órgão por gases ou fezes (principalmente nos 
casos de constipação, onde essas últimas se encontram duras). O reto pode ser 
palpado com a introdução do dedo do médico veterinário, recoberto por luva 
descartável e lubrificante. 
Nessas espécies também é realizada a percussão digital do abdômen com o paciente 
em decúbito lateral ou dorsal na região mesogástrica. O som pode ser claro em uma 
região com ar, como o intestino, ou maciço quando é realizado sob o fígado ou em 
alças intestinais repletas de fezes. No caso de excesso de gases em estômago ou 
intestino, é ouvido um som timpânico na percussão. A ausculta identifica borborigmos 
que estão diminuídos, quando o trato gastrointestinal está vazio, ou aumentado, 
quando há aumento do peristaltismo. 
DICA O sucesso na obtenção de dados com a aplicação das semiotécnicas, 
especialmente no sistema digestivo, depende do conhecimento detalhado da anatomia 
de cada espécie. Por isso, é recomendado realizar uma revisão anatômica para se 
aprofundar na semiologia especial do trato gastrointestinal. 
Para complementar o exame clínico, algumas técnicas e exames podem ser realizados, 
como a colheita e avaliação do líquido ruminal (ruminantes) ou estomacal (equinos) e 
do fluido peritoneal, ultrassonografia e radiografia abdominal, assim como a 
laparotomia exploratória, em alguns casos, que consiste na abertura cirúrgica da 
cavidade abdominal para examinar diretamente os órgãos. 
 
III. Semiologia especial do sistema respiratório 
O sistema respiratório é avaliado direta ou indiretamente em todas as suas estruturas, 
sendo elas: as narinas, a cavidade nasal, a faringe, a laringe, a traqueia e o pulmão. 
E, para isso, é necessário conhecer os termos técnicos relacionados a manifestações 
dos sinais clínicos desse sistema, a exemplo da epistaxe que significa sangramento 
nasal, enquanto a liberação simultânea de sangue pelas narinas e boca se chama 
hemoptise. 
O espirro é uma manifestação clássica de acometimento respiratório, por ser uma 
medida protetora para retirar qualquer irritante da cavidade nasal. Porém, quando o 
sentido do espirro é inverso, ou seja, ao invés do ar ser expelido, é inspirado, 
denominamos espirro reverso, que ocorre principalmente em cães de porte pequeno e 
seu acontecimento não está relacionado com gravidade ou doença específica. 
Há ainda a tosse que também está relacionada com a proteção do sistema respiratório, 
normalmente das vias aéreas inferiores e podendo ser produtiva (com secreção) ou 
seca (sem secreção). Um som alto e grosseiro durante a respiração é chamado de 
ronco e está relacionado com obstrução na faringe, palato mole prolongado e até 
obesidade. Já o estridor é o som agudo e fino, semelhante a um assovio, durante a 
inspiração, sendo causado por obstrução da passagem do ar nas vias áreas 
superiores. 
Em relação à inflamação, os termos variam de acordo com a estrutura respiratória 
acometida. Quando inflama a mucosa nasal é denominada rinite, nos seis nasais é 
chamado de sinusite, na faringe de faringite e na traqueia é referido como traqueíte. Ao 
atingir apenas os brônquios, a inflamação é definida como bronquite e nos pulmões é 
pneumonia. 
 
ANAMNESE ESPECÍFICA 
As alterações respiratórias podem ser leves ou levar o animal a óbito em poucosminutos, por isso, antes mesmo de iniciar a ficha, pode ser necessário intervir no 
animal. Logo, para entender se o quadro é uma emergência, as seguintes perguntas 
devem ter uma resposta positiva: 
o animal parou subitamente de respirar? 
o O animal ficou com a coloração da língua ou gengiva arroxeada? 
o O animal perdeu a consciência após iniciar a alteração? 
Se a resposta for negativa para os três questionamentos, o preenchimento da ficha 
deve ser retomado, iniciando pela resenha, pois os princípios que interferem no 
raciocínio clínico são: 
1. Idade 
2. Raça 
Em relação à anamnese específica do sistema respiratório, os questionamentos 
realizados e suas respectivas respostas são referentes a: 
 Mecanismos de proteção: O animal apresenta tosse ou espirro? Se sim, há 
quanto tempo? Há produção de secreção? Se sim, com quais características? 
Assim, é possível saber se o acometimento é crônico ou agudo e se está 
relacionado com a porção superior ou inferior das vias aéreas, além de 
relacionar com possíveis patologias, a depender da secreção expelida; 
 
 Alterações nasais: O animal tem secreção nasal? Se sim, com quais 
características e há quanto tempo? Tem sangramento nasal? Esse sangramento 
também sai pela boca? A cavidade nasal foi deformada? Se sim, há quanto 
tempo? Dessa forma, é possível saber se a secreção nasal é constante e se há 
epistaxe ou hemoptise, bem como saber se a cavidade nasal a ser avaliada no 
exame físico sofreu modificação, o que pode levantar suspeitas de corpo 
estranho e neoplasias; 
 
 Padrão respiratório: A respiração do animal está mais rápida ou mais lenta que 
o usual? Ele está com dificuldade para respirar? Em caso positivo, há quanto 
tempo? Quando o animal respira é possível ouvir algum ruído? Se sim, a que ele 
se assemelha? O animal está forçando o abdômen para respirar? Com esses 
questionamentos, é possível saber se o histórico do animal cursa com normo, 
taqui ou bradipneia, assim como se há dispneia e produção de ruídos, como 
estridor e ronco; 
 
 Alteração comportamental: O animal está cansando rapidamente ou 
desmaiando ao realizar atividades físicas? Se sim, em quais atividades e há 
quanto tempo ocorre? A gravidade e o local da alteração respiratória têm relação 
com a intolerância ao exercício, visto que normalmente o acometimento das vias 
aéreas inferiores reflete em um animal ofegante facilmente e os desmaios 
representam a baixíssima oxigenação dos tecidos; 
 
 Contactantes e ambiente: Como é local que o animal vive? Outros animais 
contactantes estão apresentando alterações respiratórias? Se sim, desde 
quando? Entender o ambiente que o animal passa a maior parte do tempo e 
dorme, muitas vezes, pode elucidar a queixa do tutor. É comum, por exemplo, ao 
iniciar uma reforma na casa, o animal apresentar tosses e espirros alérgicos. 
Além disso, investigar se outros contactantes estão com a mesma 
sintomatologia indica uma condição de contágio. 
Durante a anamnese, principalmente ao questionar sobre as características da 
respiração, alguns tutores não sabem descrever o som ouvido e, com isso, tentam 
repeti-lo na consulta. O ato não pode ser julgado e, inclusive, pode ser aplicado pelo 
médico veterinário quando este perceber que o tutor não consegue reproduzir o ruído 
ou associá-lo com outro. O essencial é que a comunicação seja realizada sem 
obstáculos, visto que o quadro respiratório pode variar em pouco tempo e é essa 
evolução que caracteriza cada doença. 
 
PADRÕES RESPIRATÓRIOS 
A respiração dos animais tem um padrão fisiológico, a depender da idade e espécie 
(Quadro 4), e para a frequência dentro do parâmetro esperado denominamos eupneia. 
Quando a frequência está acima do intervalo normal, é chamada de taquipneia e 
quando está abaixo é bradipneia. Para ausência de respiração, o termo técnico é 
apneia. A frequência respiratória é expressa em mpm ou mrm (movimentos por minuto). 
 Quadro 4. Frequência respiratória normal nos animais domésticos. Fonte: FEITOSA, 
2020, n.p.; HAWKINS, 2015, n.p. 
A dificuldade de respirar é chamada de dispneia, porém ela deve ser caracterizada 
segundo o movimento da respiração. A obstrução da entrada de ar é denominada 
dispneia inspiratória, em que são observados movimentos de extensão torácica curtos 
pela pouca entrada do ar, normalmente com alterações nas vias áreas superiores. Já 
na dispneia expiratória, a dificuldade é na fase de expulsão do ar, comumente visto nas 
afecções das vias inferiores, podendo ser restritiva, quando a respiração é rápida e 
superficial, ou não restritiva, quando a expiração é mais prolongada. Há ainda a 
dispneia mista que apresenta dificuldade tanto na inspiração quanto na expiração. 
Quando o animal se deita de lado e, nesse momento, apresenta dispneia, chamamos 
de trepopneia. Essa alteração ocorre quando há o deslocamento de fluidos para uma 
maior área pulmonar, a exemplo dos casos de efusão pleural unilateral. E a hiperpneia 
é caracterizada pelo aumento da intensidade da respiração, muitas vezes relatado 
pelos tutores como uma respiração “mais forte”. 
Essas dispneias podem seguir um padrão contínuo, como a respiração de Cheyne-
Stokes, que consiste em ciclos alternados de hiperpneia e apneia (Figura 3). A 
respiração de Biot é caracterizada por períodos de apneia intercalados por respirações 
irregulares de diferentes frequências e amplitudes. Vale ressaltar ainda que a 
respiração de Kussmaul possui uma inspiração e expiração profunda e lenta. 
Figura 3. Padrões respiratórios mais comuns. Fonte: Adobe Stock. Acesso em: 
20/06/2021. 
EXAME FÍSICO ESPECÍFICO 
O exame físico do sistema respiratório inicia buscando sinais de gravidade que alterem 
a conduta clínica do profissional, sendo eles: apneia, dispneia intensa, perda de 
consciência, mucosas cianóticas e posição ortopneica (Figura 4). Nesse 
posicionamento, o animal fica com cabeça e pescoço estendidos, cotovelos afastados, 
boca entreaberta e em estação ou decúbito esternal, para facilitar a passagem do ar. 
Se observadas essas alterações, o quadro é emergencial e, por isso, o exame físico 
detalhado deve ser suspenso nesse momento para realizar a intervenção médica 
necessária. 
Entretanto, não havendo essa situação, a avaliação deve ser minuciosa, com a 
inspeção das narinas, cavidade nasal, face, palato e movimentos torácicos para 
verificar se há secreção nasal e qual a coloração e consistência, presença de 
estruturas anormais na cavidade nasal, como neoplasias e corpo estranhos, anomalias 
nas estruturas, além de também avaliar a mucosa da região e definir qual o padrão 
respiratório do animal. 
O tipo respiratório também é observado, sendo esperada a respiração costo-
abdominal, porém, em animais com dores na região torácica (como as causadas por 
fratura de costela), espera-se uma respiração com movimentos abdominais 
acentuados. Já os pacientes com dores abdominais tendem a poupar a região fazendo 
uma respiração do tipo costal (predominantemente com a região torácica). 
Espirros e tosses podem ser relatados pelo tutor, mas o animal pode não demonstrar 
durante o exame físico. Por essa razão, é interessante perguntar ao tutor se ele tem o 
registro desse comportamento em vídeo para auxiliar no raciocínio clínico. A tosse pode 
ser provocada na palpação da traqueia, principalmente nos casos dos animais que têm 
inflamação ou colapso do órgão, e em grandes animais com o tamponamento de 
ambas as narinas com as mãos. 
Com a palpação, também é percebido o frêmito laríngeo ou traqueal, a depender da 
localização da vibração, que indica excesso de líquido ou membranas que se movem 
com a passagem do ar. Ao colocar a mão sobre o tórax, pode haver uma vibração, 
chamado de frêmito torácico, tendo relação com líquido na região ou atrito das pleuras. 
A ausculta pode ser realizada diretamente nos animais que produzem ruídos altos, 
como ronco e estridor, porém o usodo estetoscópio é fundamental para avaliar os sons 
pulmonares. Como nem toda área do tórax é audível, deve ser traçada uma linha 
imaginária para delimitar a área de ausculta: 
 PORÇÃO ANTERIOR: a partir da escápula; 
 PORÇÃO SUPERIOR: abaixo da musculatura dorsal; 
 PORÇÃO POSTERIOR E INFERIOR: linha imaginária que liga os pontos nos 
espaços intercostais (EIC) na direção da tuberosidade ilíaca (17º EIC em 
equinos, 12º nas demais espécies domésticas), tuberosidade isquiática (14º EIC 
em equinos, 11º em ruminantes e 10º em cães e gatos) e na articulação 
escapuloumeral (10º EIC em equinos, 10º em ruminantes e 8º em cães e gatos). 
Em ausculta pulmonar normal, os ruídos ouvidos são da passagem de ar (semelhante 
a um leve assopro). Nas alterações, podem ser ouvidos diversos sons, como as 
crepitações, roncos e sibilos (semelhante a um assovio, assim como o estridor, porém 
tem origem na via área inferior). Ao posicionar o estetoscópio na região pulmonar, é 
possível também ouvir ruídos das outras estruturas respiratórias, sendo necessário 
auscultar ainda a traqueia para distinguir o órgão acometido, de acordo com o aumento 
ou diminuição do ruído auscultado inicialmente nos pulmões. 
O tórax também pode ser percutido com martelo e plexímetro nos grandes animais e 
dígito-digital em cães e gatos. O som normal é o claro, porém em situações que há o 
excesso de ar na cavidade, como no pneumotórax, há produção de um ruído 
hipersonoro, timpânico ou maciço. Já quando o espaço é preenchido por líquido ou 
massas neoplásicas, o som percutido é submaciço ou maciço. 
A olfação é pouco utilizada para pequenos animais, porém em ruminantes e equinos é 
aplicada inspirando o ar exalado pela narina do animal e, se o mesmo tiver odor 
putrefativo, é indicado degeneração tecidual. Ademais, as técnicas e exames 
complementares, como toracocentese, radiografia do tórax, broncoscopia e biopsia dos 
órgãos acometidos, auxiliam a concluir um diagnóstico do paciente. 
 
IV. Semiologia especial do sistema circulatório 
A avaliação do sistema circulatório abrange os achados cardíacos e dos vasos 
sanguíneos. Normalmente, as alterações no sistema circulatório podem passar 
despercebidas pelos tutores até a manifestação de sinais clínicos exacerbados que, 
muitas vezes, estão relacionados com situações de emergência. 
A avaliação do sistema circulatório abrange os achados cardíacos e dos vasos 
sanguíneos. Normalmente, as alterações no sistema circulatório podem passar 
despercebidas pelos tutores até a manifestação de sinais clínicos exacerbados que, 
muitas vezes, estão relacionados com situações de emergência. 
Os sinais podem parecer estar relacionados com outros sistemas como a tosse, que 
geralmente é assimilada a alterações respiratórias. Todavia, ela é comum de acontecer 
nos animais com doenças cardíacas, que levam ao desenvolvimento de edema 
pulmonar, como a insuficiência cardíaca congestiva. Da mesma forma, a dispneia pode 
ocorrer nesses animais, necessitando de uma intervenção veterinária imediata. 
A ascite é o acúmulo de líquido na cavidade abdominal e possui diversas causas, 
sendo uma delas a cardiopatia, que aumenta a sobrecarga da veia cava caudal e altera 
o equilíbrio coloidosmótico da região. Essas alterações cardíacas também podem levar 
à síncope, por não bombear adequadamente o sangue até o encéfalo. Além disso, 
ocorre um aumento no catabolismo que, com a progressão da doença cardíaca, pode 
desenvolver caquexia no animal, mesmo sem alterar o apetite. 
 
 
ANAMNESE ESPECÍFICA 
Ao iniciar a anamnese, nem sempre a queixa principal do tutor será relacionada ao 
sistema cardiovascular, porém na seção que precede esse relato é preciso estar atento 
principalmente a: 
1. ESPÉCIE: As alterações cardiovasculares podem acometer mais uma espécie 
em detrimento de outra, a exemplo da cardiomiopatia dilatada, que ocorre 
comumente em cães e tem sua fisiopatologia oposta à cardiomiopatia 
hipertrófica, que se desenvolve com mais frequência em felinos; 
 
2. RAÇA: A seleção dos animais com uma determinada característica para a 
criação de raças leva também predisposições genéticas não desejáveis, como é 
o caso do Cavalier King Charles Spaniel, uma raça canina frequentemente 
acometida pela degeneração da valva mitral; 
 
3. IDADE: As doenças circulatórias podem ser congênitas ou adquiridas. As 
doenças congênitas, como a persistência do quarto arco aórtico, se manifestam 
em animais jovens, enquanto as alterações adquiridas, como a insuficiência 
valvar, são normalmente observadas em animais de meia idade a idosos. 
Os questionamentos de uma anamnese específica do sistema cardiovascular são 
relacionados a: 
 Resposta respiratória: O animal tem tosse seca? Se sim, desde quando? Ele 
fica cansado mesmo sem realizar esforço físico? Está com dificuldade de 
respirar? Se sim, há quanto tempo? Dessa maneira, é possível saber se o 
animal tem tosse improdutiva, o que já auxilia a distinguir de alterações 
respiratórias primárias pelo tempo de evolução desse sinal clínico, e se, além de 
intolerância ao exercício, o animal também fica ofegante com atividades diárias, 
para compreender a gravidade da alteração cardíaca; 
 
 Edemas: O animal está com alguma região do corpo inchada? Se sim, quais e 
há quanto tempo? O edema é um sinal clássico de distúrbio cardíaco e ele pode 
se apresentar em membros, flancos e face. Quando o edema é generalizado, 
chamamos de anasarca; 
 
 Respostas sistêmicas: O animal tem histórico de desmaios? Se sim, em quais 
situações ocorre? Ele tem perdido peso? Se sim, há quanto tempo? O abdômen 
dele aumentou de tamanho recentemente? Dessa forma, é possível ter noção do 
quanto a ejeção sanguínea para os tecidos está comprometida, a ponto de o 
animal desmaiar por oxigenação encefálica inadequada. Além disso, é avaliado 
o nível de congestão sanguínea para levar a um desequilíbrio osmótico na 
região abdominal, bem como o quanto as atividades catabólicas do sistema 
circulatório estão sendo exercidas. 
A anamnese do sistema estudado não possui perguntas diretas sobre cada estrutura, 
pois o tutor não consegue notar as modificações no coração ou nos vasos sanguíneos, 
apenas seus reflexos nos demais órgãos. 
 
 
AUSCULTA CARDÍACA 
A ausculta cardíaca fornece informações valiosas para reunir com os relatos da 
anamnese e na suspeita de alteração cardiovascular. Ela é realizada com o auxílio do 
estetoscópio que, para obter os sons adequadamente, deve estar posicionado nos 
pontos de ausculta corretos para cada espécie. Esses pontos recebem os nomes das 
válvulas audíveis na localização, sendo do lado esquerdo os focos pulmonar, aórtico e 
mitral, e do lado direito o tricúspide. Em cães, gatos, equinos e pequenos ruminantes, 
os focos do lado esquerdo são rotineiramente chamados de PAM-345, pois a inicial de 
cada valva representa as posições no 3º, 4º e 5º espaço intercostal. Em bovinos, esses 
pontos são o pulmonar no 3º EIC e o aórtico e mitral no 4º EIC. Em todas as espécies 
domésticas, o foco do tricúspide pode ser auscultado na região ventral do 3º ou 4º EIC 
direito. 
 
As bulhas cardíacas são os sons ouvidos no batimento cardíaco. A primeira bulha se 
origina com o fechamento das válvulas atrioventriculares esquerda e direita, 
preenchimento das câmaras com sangue e contração ventricular. Ela marca o início da 
fase sistólica, ou seja, da ejeção sanguínea por contração dos ventrículos. A segunda 
bulha indica o começo da fase diastólica, que corresponde à dilatação dos ventrículos 
para o retorno sanguíneo. Nessa fase, ocorre o fechamento das válvulas aórtica, 
pulmonar e semilunares. Já a terceira bulha é o som produzido com a entrada e 
choque do sangue nas paredes ventriculares para seu preenchimento, enquanto a 
quarta é vista como uma pré-sístole, por representar a contração do átrio. 
Em cães e gatos, é perceptível apenas a primeira e segunda bulha,sendo o intervalo 
do som entre a primeira e a segunda curta, e mais prolongada da segunda para a 
primeira. Quando as demais bulhas são ouvidas, assemelham-se a um galope e 
indicam alteração cardíaca nas espécies. Já em bovinos, é audível a primeira, segunda 
e quarta bulha, sendo a terceira ouvida esporadicamente, enquanto em equinos, todas 
as bulhas são audíveis, porém se o animal estiver com a frequência cardíaca 
aumentada, os sons podem se tornar menos distinguíveis. 
 
 
EXAME FÍSICO ESPECÍFICO 
A avaliação específica do sistema circulatório mais clássica é a verificação da 
frequência cardíaca. Esse parâmetro é medido em batimentos por minuto e, quando os 
valores estão dentro do intervalo de referência, é chamado de normocardia (Quadro 5). 
Ao se encontrar acima do limite da normalida de, é denominado taquicardia e a 
bradicardia se refere a uma frequência cardíaca diminuída. Quando o ritmo dos 
batimentos está irregular, o termo utilizado é arritmia. 
Ainda com o estetoscópio, é investigado se as bulhas cardíacas estão com o som 
adequado ou com desdobramento (repetição do ruído). Também é investigado nos 
focos de ausculta se as válvulas estão com sinal de degeneração representado pelo 
sopro que, como o nome sugere, é um som semelhante ao assopro. Em algumas 
situações, como anemia severa e febre, pode ocorrer o sopro funcional, que é o ruído 
sem alterações valvulares. 
O sopro pode ser classificado, de acordo com sua gravidade, em: 
o Grau 1: sopro quase imperceptível; 
o Grau 2: sopro suave; 
o Grau 3: ruído de tom moderado; 
o Grau 4: som acentuado, porém sem frêmito; 
o Grau 5: sopro acentuado e com frêmito; 
o Grau 6: sopro exacerbado, com frêmito, e audível até sem estetoscópio, mesmo 
em pequenos animais. 
A inspeção é realizada observando a coloração das mucosas, pois, se estiverem 
congestas, indicam alteração circulatória e a cianose pode ocorrer devido ao edema 
pulmonar secundário à cardiopatia. Notar se a veia jugular está pulsando, indica 
retorno sanguíneo pela válvula tricúspide, visto que os vasos sanguíneos pulsantes são 
as artérias e não as veias. 
A palpação pode ser aplicada para identificar o choque precordial, ou seja, a área em 
que o batimento cardíaco é sentido, diferente do frêmito cardíaco, que é a vibração da 
região em que há a degeneração da válvula. Para avaliar a presença de edema, é 
realizado o teste de Godet, que, se for positivo, manterá a marca do dedo no local 
pressionado. 
O pulso deve ser palpado com dois dedos, ocluindo parcialmente a artéria femoral em 
cães e gatos, e facial, safena ou digital em grandes animais, devendo acompanhar 
cada batimento cardíaco. Caso contrário, indica uma arritmia. Além disso, quanto à 
tensão, pode ser classificada em fraca (mole), firme (normal) e forte (duro). Em relação 
à frequência, pode estar com bradisfigmia (diminuído), normosfigmia (normal) ou 
taquisfigmia (aumentado). 
A percussão e a olfação não são realizadas na rotina do exame físico do sistema 
circulatório, porém os aparelhos de inspeção indireta são fundamentais para fechar o 
diagnóstico do paciente. Dentre eles, destacam-se: o eletrocardiograma, que tem a 
principal função de avaliar o ritmo cardíaco; o ecocardiograma, que observa a 
morfologia do coração; e a aferição de pressão arterial, que identifica os quadros de 
hipo ou hipertensão. Ademais, também são utilizados com frequência a radiografia 
torácica, pericardiocentese e biopsia da estrutura afetada. 
 
 
SINTETIZANDO 
A avaliação semiológica do sistema tegumentar é baseada em padrões de lesões, 
classificadas de acordo com suas características, como a liquenificação, que é o 
espessamento da pele em favos de mel, pois cada doença tem como sinais clínicos um 
conjunto de lesões já conhecida. Por isso, além de descrevê-las adequadamente na 
ficha, é preciso detalhar as áreas de acometimento, já que esse conjunto de dados 
auxiliam nas suspeitas diagnósticas e no acompanhamento da evolução do quadro. 
No sistema digestivo, a Investigação inicial consiste em diferenciar vômito, 
regurgitação, disfagia e engasgo, quando o tutor relata que há expulsão de conteúdo 
pela boca. Esses quadros são totalmente diferentes, já que, por exemplo, na disfagia e 
engasgo, o alimento sequer chega ao estômago. E, em casos de diarreia, 
especialmente as crônicas, é necessário compreender se sua origem é no intestino 
delgado, grosso ou mista. 
Em relação ao trato respiratório, antes de iniciar a ficha do animal, é necessário saber 
se é uma emergência, pois o tempo é fundamental para salvar o paciente que está com 
dificuldade de respirar. As alterações do sistema estão associadas a um padrão 
respiratório, seja um animal em eupneia (apenas com a queixa de espirros 
esporádicos) ou um animal em apneia (com risco de óbito). 
Por fim, o sistema circulatório é avaliado indiretamente durante a anamnese, visto que 
não é possível obter informações precisas, por parte da maioria dos tutores, sobre as 
condições do coração e vasos sanguíneos do animal. Porém, no exame físico realizado 
adequadamente, o sistema cardiovascular é bem avaliado, sendo necessário exames 
complementares, como eletrocardiograma, para fechar o diagnóstico do paciente.