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ClíniCa Prof.ª Amanda de Ávila Bicca Martins imunologia Indaial – 2021 1a Edição Impresso por: Elaboração: Prof.a Amanda de Ávila Bicca Martins Copyright © UNIASSELVI 2021 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI M386i Martins, Amanda de Ávila Bicca Imunologia clínica. / Amanda de Ávila Bicca Martins. – Indaial: UNIASSELVI, 2021. 198 p.; il. ISBN 978-65-5663-616-0 ISBN Digital 978-65-5663-615-3 1. Imunologia. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 610 Olá, acadêmico! Seja bem-vindo ao Livro Didático em Imunologia Clínica, que trata da imunologia em um contexto aplicado, ou seja, a imunologia no laboratório clínico. Assim, todos os conceitos aprendidos em disciplinas de imunologia básica serão a base para compreender como funcionam as principais metodologias utilizadas na rotina laboratorial, bem como o significado clínico dos resultados obtidos. Ao longo da Unidade 1, veremos os conceitos básicos relacionados ao funcionamento do sistema imune, como as doenças reumáticas, o modo como se desenvolvem e a relação que os processos fisiopatológicos dessas doenças têm com as provas imunológicas disponíveis atualmente. A Unidade 2 apresentará a aplicação da imunologia no diagnóstico e no prognóstico do pré-natal e de doenças autoimunes. Nesse contexto, trataremos tanto das dinâmicas fisiológicas, relacionadas ao período gestacional e seus principais exames, quanto das características referentes a doenças autoimunes e das análises clínicas atreladas a elas. Por fim, na Unidade 3, aprofundaremos a aplicação da imunologia no diagnóstico e prognóstico de doenças infecciosas e autoimunes. Assim, serão abordadas as doenças infecciosas como sífilis, síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids), hepatites, coronavírus (Covid-19), além de doenças autoimunes, como a doença celíaca e a tireoidite de Hashimoto. Ao longo desse livro, será possível observar quão interessante e relevante são os tópicos abordados, embora isso não os tornem menos complexos. Para compreender e absorver os conhecimentos da melhor forma possível, sugerimos que o acadêmico utilize todos os recursos educacionais disponibilizados pela instituição, como leituras complementares, realização das autoatividades e demais recursos disponíveis no seu ambiente virtual e na trilha de aprendizagem. Bons estudos! Prof.ª Amanda de Ávila Bicca Martins APRESENTAÇÃO Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos. GIO Olá, eu sou a Gio! No livro didático, você encontrará blocos com informações adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender melhor o que são essas informações adicionais e por que você poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto estudado em questão. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. Diante disso, você verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os seus estudos com um material atualizado e de qualidade. QR CODE Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confira, acessando o QR Code a seguir. Boa leitura! ENADE LEMBRETE Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conheci- mento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa- res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! SUMÁRIO UNIDADE 1 — APLICAÇÃO DA IMUNOLOGIA NO DIAGNÓSTICO E PROGNÓSTICO DE DOENÇAS REUMÁTICAS ........................................ 1 TÓPICO 1 — CONSIDERAÇÕES SOBRE IMUNOLOGIA CLÍNICA ............................. 3 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 3 2 CONCEITOS EM IMUNOLOGIA BÁSICA ............................................................... 3 2.1 RESPOSTA INATA ..................................................................................................................6 2.1.1 Barreiras físicas ............................................................................................................6 2.1.2 Barreiras químicas .......................................................................................................7 2.1.3 Fagócitos .......................................................................................................................7 2.1.4 Processo inflamatório ................................................................................................7 2.1.5 Sistema complemento ..............................................................................................7 2.2 RESPOSTA IMUNE ADAPTATIVA ...................................................................................... 8 3 INTRODUÇÃO AOS ENSAIOS IMUNOLÓGICOS ................................................... 9 RESUMO DO TÓPICO 1 .......................................................................................... 14 AUTOATIVIDADE ................................................................................................... 15 TÓPICO 2 — COMPREENDENDO AS DINÂMICAS SOBRE DOENÇAS REUMÁTICAS .....................................................................................17 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................17 2 ETIOPATOGENIA DAS DOENÇAS REUMÁTICAS ................................................17 3 OSTEOARTRITE .................................................................................................. 18 4 ARTRITE REUMATOIDE (AR) .............................................................................19 5 FEBRE REUMÁTICA............................................................................................23 RESUMO DO TÓPICO 2 ..........................................................................................26 AUTOATIVIDADE ................................................................................................... 27 TÓPICO 3 — MARCADORES DE DOENÇAS REUMÁTICAS ...................................29 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................29 2 PROTEÍNA C-REATIVA .......................................................................................29 3 FATOR REUMATOIDE .........................................................................................32 4 ANTIESTREPTOLISINA O ...................................................................................34 RESUMO DO TÓPICO 3 ..........................................................................................36 AUTOATIVIDADE ................................................................................................... 37 TÓPICO 4 — METODOLOGIAS UTILIZADAS PARA INVESTIGAÇÃO DE DOENÇAS REUMÁTICAS .............................................................39 1 AGLUTINAÇÃO EM LÁTEX ..................................................................................39 2 NEFELOMETRIA ................................................................................................. 41 3 TURBIDIMETRIA .................................................................................................42 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................. 44 RESUMO DO TÓPICO 4 .......................................................................................... 51 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................52 REFERÊNCIAS .......................................................................................................53 UNIDADE 2 — APLICAÇÃO DA IMUNOLOGIA NO DIAGNÓSTICO E PROGNÓSTICO DO PRÉ-NATAL ........................................................57 TÓPICO 1 — DEMANDAS IMUNOLÓGICAS E A IMPORTÂNCIA DO ACOMPANHAMENTO IMUNOLÓGICO NO PERÍODO PRÉ-NATAL .....59 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................59 2 GONADOTROFINA CORIÔNICA HUMANA ......................................................... 61 2.1 DOENÇA TROFOBLÁSTICA GESTACIONAL ...................................................................64 RESUMO DO TÓPICO 1 ..........................................................................................66 AUTOATIVIDADE ................................................................................................... 67 TÓPICO 2 — TOXOPLASMOSE...............................................................................69 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................69 2 TOXOPLASMOSE ................................................................................................69 2.1 CICLO BIOLÓGICO .............................................................................................................. 70 2.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS ............................................................................................72 2.3 LABORATÓRIO CLÍNICO NA TOXOPLASMOSE .............................................................74 2.3.1 Infecção recente........................................................................................................75 2.3.2 Transição imunológica ............................................................................................76 2.3.3 Infecção latente ou crônica ...................................................................................76 RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................... 79 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................80 TÓPICO 3 — CITOMEGALOVÍRUS E RUBÉOLA ..................................................... 81 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 81 2 CITOMEGALOVÍRUS ........................................................................................... 81 2.1 LABORATÓRIO CLÍNICO APLICADO AO CITOMEGALOVÍRUS ...................................83 3 RUBÉOLA ........................................................................................................... 84 3.1 LABORATÓRIO CLÍNICO APLICADO À RUBÉOLA ........................................................86 RESUMO DO TÓPICO 3 ..........................................................................................88 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................89 TÓPICO 4 — METODOLOGIAS UTILIZADAS PARA DIAGNÓSTICO E PROGNÓSTICO DO PRÉ-NATAL ....................................................... 91 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 91 2 IMUNOCROMATOGRAFIA .................................................................................. 91 2.1 FLUXO LATERAL ................................................................................................................. 92 2.2 DUPLA MIGRAÇÃO OU DUPLO PERCURSO (DPP) .................................................... 93 2.3 IMUNOCONCENTRAÇÃO ................................................................................................ 93 3 ENSAIO IMUNOENZIMÁTICO (ELISA) ...............................................................96 4 ENSAIO IMUNOENZIMÁTICO DE MICROPARTÍCULAS ................................... 101 5 HEMAGLUTINAÇÃO .........................................................................................103 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................104 RESUMO DO TÓPICO 4 ........................................................................................109 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 110 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 113 UNIDADE 3 — DOENÇAS INFECTOCONTAGIOSAS E AUTOIMUNES ..................117 TÓPICO 1 — SÍFILIS ..............................................................................................119 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................119 2 SÍFILIS ...............................................................................................................119 3 LABORATÓRIO CLÍNICO NO DIAGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO DA SÍFILIS .............................................................................................................. 123 3.1 TESTES NÃO TREPONÊMICOS .......................................................................................123 3.1.1 Floculação: VDRL ......................................................................................................125 3.1.2 Ensaio RPR ................................................................................................................129 3.2 TESTES TREPONÊMICOS .............................................................................................. 130 3.2.1 Imunofluorescência indireta – FTA-Abs ........................................................... 130 3.2.2 Teste treponêmico imunoenzimático – ELISA ................................................132 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................ 136 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 137TÓPICO 2 — SÍNDROME DA IMUNODEFICIÊNCIA ADQUIRIDA (SIDA OU AIDS) ............................................................................... 139 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 139 2 VÍRUS DA IMUNODEFICIÊNCIA HUMANA (HIV) .............................................140 3 LABORATÓRIO CLÍNICO NO DIAGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO DO HIV/AIDS ....................................................................................................144 RESUMO DO TÓPICO 2 .........................................................................................151 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 152 TÓPICO 3 — HEPATITES VIRAIS ......................................................................... 153 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 153 2 HEPATITES VIRAIS .......................................................................................... 153 3 LABORATÓRIO CLÍNICO NO DIAGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO DAS HEPATITES VIRAIS .................................................................................. 157 3.1 HEPATITE A ........................................................................................................................ 158 3.2 HEPATITE B ...................................................................................................................... 158 3.3 HEPATITE C ...................................................................................................................... 159 3.4 HEPATITE D ...................................................................................................................... 159 3.5 HEPATITE E ....................................................................................................................... 160 RESUMO DO TÓPICO 3 .........................................................................................161 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 162 TÓPICO 4 — CORONAVÍRUS ............................................................................... 165 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 165 2 CORONAVÍRUS ................................................................................................. 165 2.1 SARS-COV-1 .......................................................................................................................167 2.2 SARS-CoV-2 ..................................................................................................................... 169 3 O LABORATÓRIO CLÍNICO NO DIAGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO DE SARS-COV-1 E SARS-COV-2 ..................................................................... 173 3.1 DETECÇÃO DE ANTÍGENO PARA SARS-COV – IMUNOCROMATOGRAFIA DE FLUXO............................................................................................................................174 3.2 DETECÇÃO DE ANTICORPOS PARA SARS-COV – ELISA .......................................179 RESUMO DO TÓPICO 4 ........................................................................................ 181 AUTOATIVIDADE .................................................................................................183 TÓPICO 5 — LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO ...............................................185 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................185 2 LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO .................................................................185 3 LABORATÓRIO CLÍNICO NO DIAGNÓSTICO DO LÚPUS .................................188 3.1 ANTICORPOS ANTINUCLEARES (ANA/FAN) ............................................................. 188 LEITURA COMPLEMENTAR .................................................................................191 RESUMO DO TÓPICO 5 ........................................................................................ 192 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 193 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 195 1 UNIDADE 1 — APLICAÇÃO DA IMUNOLOGIA NO DIAGNÓSTICO E PROGNÓSTICO DE DOENÇAS REUMÁTICAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • entender conceitos de imunologia básica; • compreender as dinâmicas relacionadas a doenças reumáticas; • reconhecer a etiopatogenia das doenças reumáticas; • desenvolver uma visão abrangente sobre os mecanismos de desenvolvimento das doenças reumáticas; • identificar aspectos relacionados às principais técnicas imunológicas utilizadas para investigação de patologias reumáticas. Esta unidade está dividida em quatro tópicos. No decorrer dela, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – CONSIDERAÇÕES SOBRE IMUNOLOGIA CLÍNICA TÓPICO 2 – COMPREENDENDO AS DINÂMICAS SOBRE DOENÇAS REUMÁTICAS TÓPICO 3 – MARCADORES DE DOENÇAS REUMÁTICAS TÓPICO 4 – METODOLOGIAS UTILIZADAS PARA INVESTIGAÇÃO DE DOENÇAS REUMÁTICAS Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 CONSIDERAÇÕES SOBRE IMUNOLOGIA CLÍNICA TÓPICO 1 — UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Entre os vários sistemas que possuímos, vamos destacar a importância do sistema imunológico e seu papel em todo nosso organismo. Qualquer pessoa que tenha tido o privilégio de ouvir o desempenho de uma brilhante orquestra executando uma sinfonia composta por um dos maiores maestros sabe que cada instrumento musical, cuidadosamente afinado, contribui para o som coletivamente harmonioso produzido pelos músicos. (COICO; SUNSHINE, 2010, p. 1). Em uma analogia com o corpo humano, podemos dizer que, para desfrutar de coisas simples, como assistir a um filme, existe uma “orquestra biológica” não apenas gigante, mas também bastante diversa, que, com uma sinergia singular, faz com que todos os sistemas funcionem de modo coordenado, 24 horas por dia, para manter a estabilidade interna, chamada homeostase. Nesse aspecto, para compreender as dinâmicas relacionadas à imunologia clínica, revisaremos alguns conceitos básicos sobre a imunologia, abordando os principais aspectos clínicos associados a esta disciplina. 2 CONCEITOS EM IMUNOLOGIA BÁSICA O sistema imunológico tem como principal função proteger o organismo contra agressores externos. Para isso, conta com diferentes tipos celulares e moléculas mediadoras que atuarão de modo a manter o equilíbrio dos demais sistemas. Quando o corpo é exposto a algum tipo de microrganismo ou de um agente agressor que coloca em risco o equilíbrio – e, por conseguinte, a saúde – dos indivíduos, ocorre uma mobilização do sistema imune, no sentido de gerar uma resposta para eliminar o potencial agente de risco (LUNDY; FOX; GIZINSKI, 2015). As respostas desencadeadas pelo sistema imune ocorrem, ordenadamente, em quatro processos principais: • identificação de antígenos estranhos; • determinação do potencial prejudicial do agressor; • ativação de células e mediadores próprios para eliminar o agressor; • desenvolvimento da resposta efetora para eliminação do agente e restabelecimento do equilíbrio homeostático. Lais Realce Lais Realce 4 Para que todos esses passos sejam executados com sucesso, contamos com diferentes tipos celulares pertencentes ao sistema imune. A medula óssea é a fonte de origem de células-tronco hematopoiéticas pluripotentes, que, após sucessivasdiferenciações, podem originar diferentes células com diferentes funções (Figura 1). FIGU RA 1 – TIPO S D E CÉLU LAS D O SISTEM A IM U N E E SU AS FU N ÇÕ ES FO N TE: Silverthorn (2017, p. 760) Lais Realce 5 Entre as funções descritas na Figura 1, podemos perceber que os linfócitos B secretam anticorpos. Afinal, o que são esses anticorpos? Os anticorpos são moléculas proteicas, classificadas como imunoglobulinas, que conseguem identificar agentes estranhos, presentes tanto na superfície de patógenos quanto em porções de toxinas produzidas por eles. Esses agentes estranhos são moléculas grandes que recebem o nome de antígenos. Assim, o anticorpo liga-se a uma pequena porção do antígeno chamada epítopo antigênico, semelhantemente ao modelo de chave/fechadura estudado em enzimas (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2008). Essa ligação é muito importante na rotina laboratorial, uma vez que é justamente a ligação entre antígeno e anticorpo, ou seja, a formação desse imunocomplexo, o qual é base para diversos ensaios imunológicos, que veremos ao longo desta disciplina. FIGURA 2 – REAÇÃO ANTÍGENO ANTICORPO FONTE: <https://www.fcav.unesp.br/Home/departamentos/patologia/HELIOJOSEMONTASSIER/aula-8- interacao-ag-ac-testes-sorologicos-primarios-e-secundarios.pdf>. Acesso em: 15 jan. 2021. O reconhecimento de potenciais agressores e a abordagem resolutiva, por parte das células e moléculas relacionadas ao sistema imune, podem ocorrer por intermédio de dois tipos diferentes de resposta: inata ou adaptativa (Figura 3), que trabalham de modo coordenado para neutralizar qualquer ameaça ao equilíbrio dos órgãos e tecidos (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2008). Epítopo Antígeno Anticorpo 6 FIGURA 3 – PRINCIPAIS MECANISMOS DA IMUNIDADE INATA E ADQUIRIDA FONTE: Abbas; Lichtman; Pober (2008, p. 3) 2.1 RESPOSTA INATA A resposta inata corresponde à primeira resposta do sistema imune diante de um dano tecidual. Trata-se de uma resposta rápida, composta por mecanismos que precedem a existência da infecção (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2008). O objetivo da imunidade inata é controlar e impedir o avanço da infecção, o que ocorre via ativação de mecanismos inespecíficos para o patógeno em questão. São exemplos desses mecanismos inatos: barreiras físicas, barreiras químicas, fagócitos, processo inflamatório e sistema complemento. 2.1.1 Barreiras físicas • Junções intercelulares ocludentes – tornam as células epiteliais “seladas”, dificultando o acesso de invasores ao ambiente interno. • Muco – produzido pelas células mucosas presentes no trato respiratório, no trato gastrointestinal e no trato genital, trata-se de uma secreção glicoproteica. Sua função é recobrir as superfícies dos locais em que está presente, impedindo a invasão de microrganismos ao epitélio, uma vez que eles são aderidos ao muco. • Cílios – auxiliam na expulsão de agentes patogênicos, uma vez que sua movimentação impele o muco com potenciais agressores para fora do local em que estão presentes, por exemplo, o trato respiratório. Lais Realce 7 • Microbiota – presentes em boa parte das superfícies epiteliais, é composta por microrganismos não patogênicos, que auxiliam no combate a patógenos por competir pelos nutrientes disponíveis, além de produzir moléculas antimicrobianas. • Lágrimas e saliva – compostas por fosfolipase A e lisozima, moléculas com proprie- dades antimicrobianas. 2.1.2 Barreiras químicas O pH e as enzimas digestivas compõem uma barreira química que impede a proliferação de boa parte dos possíveis invasores no trato digestivo. 2.1.3 Fagócitos Células responsáveis por reconhecer, englobar e destruir patógenos, além de sinalizarem ao sistema imunológico que esses patógenos estão atacando órgãos e tecidos. Os fagócitos mononucleares podem ser: • Monócitos – células precursoras de macrófagos, presentes na circulação sanguínea. • Macrófagos – células presentes nos tecidos dotadas de capacidade fagocítica, que podem expressar diferentes características, de acordo com o estímulo de ativação recebido. • Neutrófilos – células presentes em grande quantidade no nosso organismo, responsáveis pelo combate a microrganismos como bactérias e fungos. 2.1.4 Processo inflamatório Respostas geradas para defender o organismo de um potencial agressor, com o intuito de curar ou reparar danos. Trata-se de um processo mediado pela conjunção de ações imunoendócrinas, que apresentam, como sinais e sintomas característicos, calor, dor, rubor, edema e limitação ou perda funcional do local em que o processo inflamatório se estabeleceu (ABBAS; LICHTMAN; POBER, 2008). 2.1.5 Sistema complemento Além dos mecanismos e componentes do sistema inato descritos anteriormente, temos também o sistema complemento, que atua tanto na resposta inata quanto na resposta adquirida, é composto por 30 proteínas plasmáticas inativadas presentes na nossa corrente sanguínea. Sua ativação pode acontecer de três modos diferentes, chamados vias de ativação do sistema complemento: Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce 8 • Via clássica – a ativação ocorre por intermédio da ligação de certos tipos de anticorpos ligados aos antígenos. • Via das lecitinas – ativada pela ligação da lecitina plasmática aos resíduos de manose localizados na superfície de agentes agressores. • Via alternativa – a ativação ocorre via superfície de membrana do agente agressor, na ausência de anticorpos. Qualquer uma das três vias de ativação resultará na clivagem (divisão) da proteína C3. Com a ativação da C3, são ativadas proteínas uma após a outra, levando a um efeito de ativação em cascata que resulta na geração de mecanismos efetores contra o agente agressor. Entre os mecanismos efetores, podemos destacar a oponização, a fagocitose, o complexo de ataque à membrana e o recrutamento de células pró-inflamatórias (VOLTARELLI, 2009). Agora que reconhecemos alguns mecanismos associados à imunidade inata, abordaremos a resposta imune adquirida. 2.2 RESPOSTA IMUNE ADAPTATIVA A resposta imune adquirida, também conhecida como resposta imune especí- fica, que, como o próprio nome revela, é uma resposta adquirida à medida que o orga- nismo é exposto aos agressores. Assim, quando em contato com um novo patógeno, a imunidade adaptativa memoriza quais mecanismos específicos são mais eficazes para defender órgãos e tecidos contra o patógeno em questão. A especificidade dessa res- posta é o que a torna tão eficaz, no que tange à proteção do organismo. Desse modo, diante de uma nova exposição ao agressor previamente “memorizado”, o sistema imune adaptativo já sabe os mecanismos necessários para eliminá-lo (LUNDY; FOX; GIZINSKI, 2015). O reconhecimento ocorre pela identificação dos antígenos específicos presentes na constituição de cada patógeno. Dessa forma, os linfócitos identificam esses antígenos, por meio de receptores de membrana capazes de realizar esse reconhecimento. A partir daí, é desencadeado um processo de multiplicação de células de defesa, que serão divididas em dois tipos: células efetoras, que farão a defesa contra o patógeno, e células de memória, que serão ativadas apenas quando houver uma segunda exposição ao mesmo patógeno (LUNDY; FOX; GIZINSKI, 2015). Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce O QUE SAO RECEPTORES Lais Realce 9 Acadêmico, para aprimorar seu conhecimento relacionado às diferenças entre os linfócitos B e T leia o artigo Sistema imunitário – parte II. Fundamentos da resposta imunológica mediada por linfócitos T e B, acessando: https://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0482-50042010000500008. Boa leitura! DICA A seguir, conheceremos tópicos introdutórios relacionados aos ensaios imunológicos e suaaplicação clínica em diferentes tipos de patologia. 3 INTRODUÇÃO AOS ENSAIOS IMUNOLÓGICOS Após relembrar alguns conceitos importantes relacionados à imunologia, é importante entender alguns conceitos relacionados aos ensaios imunológicos. Você já parou para pensar como são realizados os testes que indicam se você está passando por um processo infeccioso e como o médico consegue, através de exames, saber se a vacina estimulou a produção de anticorpos suficientes para o proteger de um vírus ou se você está passando por um processo infeccioso recente? A chave para essas perguntas está relacionada ao tipo de reação que ocorre nas técnicas usadas em ensaios imunológicos: a interação entre antígeno e anticorpos. INTERESSANTE Os ensaios imunológicos são técnicas que determinam respostas imunes de anticorpos, antígenos ou linfócitos para detectar de forma exata a presença de agentes agressores no organismo. A base que fundamenta esses testes é a interação que ocorre entre antígeno e anticorpo, de modo que nós podemos utilizar como reagentes tanto anticorpos quanto antígenos e seus componentes. Por exemplo, quando você realiza uma técnica que busca identificar um determinado anticorpo, à composição do reagente utilizada para o teste será adicionado um antígeno, sendo esse tipo de teste classificado como ensaio direto. Por outro lado, quando o objetivo é identificar a presença de determinado antígeno o reagente deverá conter o anticorpo para esse antígeno, e esse teste será classificado como um ensaio indireto. Lais Realce Lais Realce Lais Realce 10 Para entender como essas técnicas podem, entre tantos antígenos e anticorpos existentes, quantificar especificamente um determinado antígeno ou anticorpo, deve-se compreender que os testes imunológicos são baseados no princípio da especificidade que a resposta imune possui. Existem diferentes métodos para detecção de antígenos e anticorpos, cada um com suas vantagens e desvantagens. Por exemplo, há metodologias que podem apresentar reagentes marcados e reagentes não marcados. Quando a metodologia é do tipo que apresenta reagentes marcados, uma substância como um fluoróforo, por exemplo, é adicionada ao reagente com o intuito de aumentar a sensibilidade de detecção do ensaio (VOLTARELLI, 2009). Nesse momento, podemos pensar nas características que são importantes para entender qual a melhor metodologia a ser utilizada. Assim, para optar por uma metodologia, critérios como sensibilidade e especificidade devem ser observados. A sensibilidade de um teste corresponde à menor concentração da ligação antígeno- anticorpo que o imunoensaio é capaz de detectar. Isso significa que, quanto maior a sensibilidade do teste, menores são as concentrações que ele é capaz de quantificar. Portanto, um teste com alta sensibilidade é um teste capaz de quantificar melhor a proporção de indivíduos doentes. Dessa forma, podemos afirmar que a sensibilidade informa quão boa é uma metodologia para detectar pacientes que estão, de fato, com alguma doença. Isso indica que um teste com alta sensibilidade é um teste com menor chance de apresentar resultados falso-negativos, isto é, quando o teste apresentou resultado negativo em indivíduos que apresentam a doença investigada (FERREIRA; PATINO, 2017). Resultados falso-negativos podem ocorrer também por conta do efeito prozona, um fenômeno que ocorre quando existem muitos anticorpos na amostra de soro analisada, em resposta ao antígeno infeccioso. O excesso de anticorpos gera uma desproporção em relação aos antígenos presentes no reagente, resultando na formação de complexos muito pequenos que não se aglomeram de modo a permitir aglutinação visível (SMITH; HOLMAN, 2004). Sabemos que, muitas vezes, é difícil visualizar alguns conceitos descritos. Para facilitar sua compreensão sobre a aglutinação resultante da reação antígeno e anticorpo, indicamos o vídeo “Reação de Aglutinação”, disponibilizado pelo Canal Butantan. Assista ao vídeo sugerido em: https://www.youtube.com/watch?v=PAxlKvpTT5Y. GIO Em metodologias para análise de proteína C-reativa por aglutinação em látex, por exemplo, os fabricantes indicam a partir de quais concentrações os imunoensaios podem apresentar resultados falso-negativos devido ao efeito prozona (Figura 4). Esse resultado falso-negativo é descartado ao serem realizadas diluições seriadas, para que a amostra apresente aglutinação visível. Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce 11 FIGURA 4 – EFEITO PROZONA FONTE: <https://imunosite.wordpress.com/category/materiais/>. Acesso em: 14 jan. 2021. Além da sensibilidade da metodologia, ainda existem outras circunstâncias que podem gerar resultados falso-negativos, como a janela imunológica, que corresponde ao intervalo entre o momento em que o paciente teve contato com o antígeno e o momento em que o organismo passa a apresentar níveis detectáveis de anticorpos para o antígeno em questão (BRASIL, 2018). Outra característica que merece atenção quando avaliamos a qualidade de um imunoensaio é a especificidade. Especificidade é um termo que indica a capacidade de um teste de identificar os indivíduos que não possuem a doença ou condição clínica investigada. Assim, quanto maior for a especificidade de um teste, menor será o número de pacientes com resultado falso-positivo. Resultados falso-positivos são aqueles que apresentam resultados positivos apesar de o paciente não apresentar a doença investigada. As circunstâncias que podem apresentar resultados falso-positivos podem ter origem tanto das limitações da metodologia do imunoensaio quanto das condições clínicas do paciente (FERREIRA; PATINO, 2017). Em se tratando de limitações relacionadas à metodologia, um resultado falso-positivo pode ocorrer por conta de uma reação cruzada, ou seja, quando o anticorpo é capaz de interagir com um antígeno diferente daquele que o originou. Isso pode decorrer da semelhança entre o antígeno homólogo (que estimulou a formação daquele anticorpo) e o antígeno heterólogo. Além disso, a reação cruzada pode ser resultado de dois antígenos diferentes apresentarem o mesmo epítopo, chamado epítopo compartilhado (Figura 5). Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce 12 FIGURA 5 – REAÇÕES CRUZADAS FONTE: <https://www.microbiologybook.org/Portuguese/5.GIF>. Acesso em: 14 jan. 2021. Diluições seriadas Uma diluição seriada é uma técnica na qual são realizadas várias diluições progressivas; assim, inicia com a solução mais concentrada chegando a soluções menos concentradas, amplificando o fator de diluição rapidamente. A fonte do material de diluição (soluto) para cada etapa é proveniente do material diluído da etapa anterior. Em uma diluição em série, o fator de diluição total é o produto dos fatores de diluição em cada etapa. Logo, em uma diluição 1/2, o fator de diluição é 2 e todas as diluições seguintes serão multiplicadas por 2. Para ter 1 mL de solução, como mostra a figura a seguir, tem-se a adição de 0,1 ml do concentrado mais 0,9 mL do diluente. Diluições em série são usadas para criar, com precisão, soluções extremamente diluídas, bem como soluções para experimentos que exigem uma curva de concentração com uma escala exponencial ou logarítmica. A técnica é útil quando há escassez do volume do concentrado ou do diluente, havendo necessidade de minimizar seu uso, ou quando há necessidade de diversas diluições, por exemplo, na determinação de um título ou na contagem de microrganismos. IMPORTANTE 13 ESQUEMA DE DILUIÇÃO SERIADA FONTE: <https://kasvi.com.br/preparo-de-solucoes-laboratorio-concentracao-fator- diluicao-seriada/>. Acesso em: 14 jan. 2021. FONTE: Kasvi. Preparo de Soluções em Laboratório.2018. Disponível em: https://kasvi. com.br/preparo-de-solucoes-laboratorio-concentracao-fator-diluicao-seriada/. Acesso em: 14 jan. 2021. 14 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • As respostas desencadeadas pelo sistema imune podem ser divididas, resumidamente, em quatro processos principais: identificação de antígenos estranhos; determinação do potencial prejudicial do potencial agressor; ativação de células e mediadores próprios para conter o agressor; e restabelecimento do equilíbrio homeostático. • Os linfócitos T são responsáveis pela eliminação de microrganismos intracelulares e pela regulação de respostas imunológicas diante de antígenos). • Os linfócitos B estimulam a geração de plasmócitos e a produção de anticorpos próprios para ataque ao antígeno identificado. • As respostas imunológicas podem ser do tipo inata (a primeira linha de defesa do corpo humano, capaz de eliminar micro-organismos invasores antes da ativação da resposta adaptativa) ou adaptativa (que corresponde à imunidade de memória, desenvolvida após contato com agente agressor específico). • As barreiras físicas e químicas, fagócitos e o processo inflamatório integram a resposta inata. • Os linfócitos efetores e de memória integram a resposta adaptativa. • Janela imunológica é o intervalo entre o momento em que o paciente teve contato com o antígeno e o momento em que o organismo passa a apresentar níveis detectáveis de anticorpos para o antígeno em questão. • Resultados falso-negativos são aqueles que o teste apresentou resultado negativo em indivíduos que apresentam a doença investigada. • As reações cruzadas favorecem o estabelecimento de resultados falso-negativos por conta da desproporção entre anticorpo e antígenos, o que dificulta a visualização da aglutinação. • Resultados falso-positivos apresentam testes positivos sem que o paciente tenha a doença investigada. • A sensibilidade indica a menor concentração da ligação antígeno-anticorpo que o imunoensaio é capaz de detectar. A especificidade indica a capacidade de um teste identificar os indivíduos que não possuem a doença ou a condição clínica investigada. RESUMO DO TÓPICO 1 15 AUTOATIVIDADE 1 A imunologia é a ciência que estuda o sistema imune e, por conseguinte, todos os seus mecanismos de defesa. Para que o sistema imune desenvolva sua função protetora, a atividade das células de defesa se faz essencial. Com relação às células com ação importante de defesa, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) Célula NK. b) ( ) Linfócito B. c) ( ) Células da macroglia. d) ( ) Linfócito T. 2 Alguns componentes caracterizam a resposta imunológica inata. Quais são esses componentes e as suas funções? 3 O sistema imunológico pode apresentar dois tipos de resposta a potenciais agres- sores: a resposta inata e a resposta adquirida. Nesse contexto, cada uma contém mecanismos que interagem com o patógeno com o objetivo de eliminá-lo. Assinale a alternativa que apresenta exemplos de mecanismos pertencentes a imunidade inata e adquirida, respectivamente: a) ( ) Monócitos e eliptócitos. b) ( ) Macrófagos e linfócitos efetores. c) ( ) Linfócitos efetores e células de memória. d) ( ) Células de memória e macrófagos. 4 Explique a função do processo inflamatório no sistema imune. Lais Lápis Lais Texto digitado x Lais Texto digitado x 16 17 COMPREENDENDO AS DINÂMICAS SOBRE DOENÇAS REUMÁTICAS UNIDADE 1 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO É muito comum que, ao apresentar dores nas articulações, as pessoas relacionem esse sintoma ao reumatismo. Apesar desse entendimento fazer parte do senso comum, trata-se de uma ideia distorcida. Isso porque reumatismo não é uma doença específica, mas, sim, um grupo de “diferentes doenças que acometem o aparelho locomotor, ou seja, ossos, articulações, cartilagens, músculos, tendões e ligamentos” (BRASIL, 2013) manifestando eventos dolorosos. Assim, neste tópico, abordaremos os mecanismos etiopatológicos atrelados a essas doenças. 2 ETIOPATOGENIA DAS DOENÇAS REUMÁTICAS De posse do conhecimento de que as doenças reumáticas apresentam eventos dolorosos relacionados ao aparelho motor, é importante compreender quais mecanismos conduzem ao estabelecimento dessas doenças. Mesmo não apresentando mecanismos claros sobre como esse grupo de doenças se estabelece, sabe-se que fatores genéticos, imunológicos e infecciosos têm importante relação com sua causa. As doenças reumáticas podem ser de fase aguda, originadas por fatores exógenos, ou crônica. Nesse contexto, o período de duração da doença está associado à retirada do estímulo exógeno, como o tratamento de uma infecção, por exemplo. Por outro lado, quando as doenças reumáticas apresentam perfil crônico, em geral, trata-se de uma doença caracterizada por um processo autoimune que pode acompanhar o paciente ao longo da vida, alternando períodos de manifestação de sinais e sintomas e períodos assintomáticos (HAMMER; MCPHEE, 2016). As doenças reumáticas de fase aguda e crônica apresentam em comum o estabelecimento de um processo inflamatório. A importância de destacar o componente inflamatório dessas doenças é que, a partir dos elementos moleculares que configuram essa inflamação, é possível realizar exames que serão, em associação às características clínicas do paciente, balizadores a respeito da suspeita clínica inicialmente proposta pelo médico. Nesse contexto, abordaremos o processo inflamatório como um dos principais elementos etiopatogênicos das doenças reumáticas e compreender como o sistema imune interage diante dessas infecções e como percebemos essa interação nos exames laboratoriais (HAMMER; MCPHEE, 2016). Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce 18 Para isso, é necessário entender a fisiopatologia das principais doenças reumáticas em nível celular e molecular. 3 OSTEOARTRITE Nossos ossos são revestidos em suas extremidades por uma estrutura chamada cartilagem, cuja função é absorver o impacto gerado pelos movimentos que fazemos. Assim, quando um ginasta executa um salto e cai em pé, por exemplo, a cartilagem é um componente essencial para que o choque do solo com o pé do atleta não gere um evento doloroso considerável (SOCIEDADE BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA, 2019). Na osteoartrite, também conhecida como artrose, temos um processo degenerativo nas estruturas cartilaginosas. Com isso, os ossos perdem o revestimento cartilaginoso, o que os expõe diretamente aos impactos gerados pelos diversos tipos de movimentos que realizamos, e a estrutura óssea passa a ser comprometida pelo desgaste. Esse desgaste gera alterações nos ossos e conduz a formação de um processo inflamatório na membrana sinovial, que contribui para manifestação de dor ao realizar movimentos (SOHN et al., 2012). Lembre-se de que os ossos, ao contrário da cartilagem, são dotados de tecido nervoso e circulação sanguínea. Por isso, movimentos que normalmente seriam indolores passam a manifestar dor. ATENÇÃO O processo inflamatório que compõe a osteoartrite está associado à degene- ração da cartilagem (Figura 7), que, quando rompida, libera elementos de sua matriz extracelular lesionada no líquido sinovial. O extravasamento de matriz extracelular (MEC) estimula a produção de elementos pró-inflamatórios no líquido sinovial, que podem, por sua vez, estimular a produção de enzimas que intensificam a degradação da cartilagem (REZEND; CAMPOS, 2013). O líquido chamado de sinovial está localizado no interior da cápsula articular, que reveste e protege a articulação, auxiliando no alívio do impacto entre os ossos. IMPORTANTE Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce 19 FIGURA 7 – OSTEOARTRITEFONTE: <https://drmarciosilveira.com/artrose-no-joelho-descricao-doenca/#Artrose_no_joelho_Primaria>. Acesso em: 20 dez. 2020. Cartilagem articular Esporões ósseos Menisco Perda de cartilagem Espaço articular normal Redução do espaço articular Os fatores que influenciam o estabelecimento desse processo degenerativo são multifatoriais e podem estar tanto relacionados às características do paciente quanto à influência de fatores mecânicos. Os fatores associados às características dos pacientes dizem respeito a componentes relacionados a: • hereditariedade: se já existem casos de osteoartrite na família; • obesidade: uma vez que é uma condição clínica que acarreta sobrecarga articular, o que pode favorecer processos degenerativos; • hipermobilidade: condição que aumenta o estresse articular e favorece a ruptura da malha colágena. Quanto aos fatores mecânicos atrelados ao estabelecimento da osteoartrite, temos a sobrecarga esportiva por realização de atividades de alto impacto, a utilização de aparelhos de musculação da maneira errada, os macrotraumas e as alterações na biomecânica articular. 4 ARTRITE REUMATOIDE (AR) Na artrite reumatoide (AR), células do sistema imune atacam os componentes teciduais do próprio indivíduo, pois é uma doença autoimune. Trata-se de uma doença inflamatória, autoimune sistêmica, que acomete aproximadamente 1% da população mundial, apresentando maior propensão de desenvolvimento em mulheres. Apesar de acometer indivíduos de qualquer idade, a maior incidência ocorre na faixa entre 50 e 75 anos (RODBARD et al., 2019). Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce 20 As manifestações da AR ocorrem principalmente na membrana sinovial. Assim, todas as articulações que apresentam membrana sinovial serão afetadas, de modo que, conforme a doença progride, é possível observar um gradativo efeito de erosão e deformidade articular (RODBARD et al., 2019). Na verdade, as manifestações clínicas não se limitam apenas às articulações, pois, além desses efeitos, é possível o estabelecimento de manifestações em órgãos e sistemas, classificados como manifestações extra-articulares. De acordo com Moura et al. (2012), são exemplos de manifestações extra-articulares: Nódulos reumatoides, pericardite, derrame pericárdico, pleurite, derrame pleural, doença pulmonar intersticial, hipertensão da artéria pulmonar, síndrome de Caplan, síndrome de Felty, anemia de doença crônica, trombocitose, neuropatia, esclerite, episclerite, síndrome Sicca, escleromalácia perforans, glomerulonefrite, úlceras cutâneas, vasculites, tenossinovite de De Quervain, amiloidose e Síndrome de Sjögren (MOURA et al., 2012, p. 687). A artrite reumatoide é uma doença de origem multifatorial. Contudo, sabe-se que existem fatores passíveis de mudança, como o tabagismo, a periodontite e o microbioma, que têm em comum o estabelecimento de um evento inflamatório. Um ambiente inflamatório estimula a citrulinização dos peptídeos, que consiste na conversão de uma arginina em citrulina. Sabe-se que as reações que levam à citrulinização estimulam a produção de anticorpos contra as proteínas citrulinadas, por isso esses fatores têm relação com o estabelecimento da artrite reumatoide (CARVALHO et al., 2014). Os peptídeos são moléculas compostas por aminoácidos ligados entre si por ligações peptídicas. ATENÇÃO Além dos fatores de risco que podemos mudar, existem também fatores relacionados à hereditariedade, ou seja, a fatores genéticos. Na artrite reumatoide, os genes HLA estão associados ao estímulo para que os linfócitos B autorreativos produzam anticorpos contra proteínas citrulinizadas. Os macrófagos também são um importante elemento fisiopatológico na artrite reumatoide, uma vez que secretam fator de necrose tumoral α (TNF-α) e interleucina 1 (IL-1), que são citocinas estimuladoras da inflamação, processo envolvido intimamente na patogenia da AR (CARVALHO et al., 2014). Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Nota pesquisar mais sobre, afim d compreender melhor o assunto. 21 A IL-1 é uma citocina que atua como mediadora na resposta imunológica diante da invasão bacteriana, da inflamação, de infecções e de lesões. Assim como a IL-1, o TNF-α também é uma citocina que atua promovendo a resposta imune e a inflamatória por meio do recrutamento de neutrófilos e monócitos na região da infecção, além de apresentar mecanismos com a capacidade de ativar essas células imunes. IMPORTANTE Conhecendo os elementos gerais que compõem o quadro de artrite reumatoide, é necessário compreender como esse processo interage com as articulações. Na Figura 8, podemos observar as estruturas presentes na articulação de um indivíduo sadio e a de um indivíduo com artrite reumatoide. FIGURA 8 – COMPARAÇÃO ENTRE JOELHO NORMAL (A) E JOELHO COM ARTRITE (B) FONTE: Montes (2014, p. 24) espaço articular cartilagem sinoviócitos Pannus neutrófilo osso Hiperplasia sinovial cápsula articular membrana sinovial osteoclasto fibroblasto macrófafo célula dendritica linfócito T célula B plasma linfócito B angiogênese mastócito 22 Na representação esquemática da figura, é possível observar que, na artrite reumatoide, o ataque à membrana sinovial desencadeia um processo inflamatório. A inflamação persistente propicia a formação de uma estrutura chamada pannus. De acordo com Carvalho et al. (2014, p. 12): “Esse tecido, denominado pannus reumatoide, apresenta hiperplasia e hipertrofia dos sinoviócitos, infiltrado inflamatório predominantemente de linfócitos, plasmócitos e macrófagos e intensa angiogênese, tornando-se densamente vascularizado”. É importante ressaltar que, nessas circunstâncias, o líquido sinovial contém, em sua predominância, neutrófilos. Nesse caso, utilizamos a representação esquemática de um joelho para facilitar a compreensão. Entretanto, é importante lembrar que esse processo pode ocorrer em qualquer articulação do tipo sinovial (GOELDNER et al., 2011). Por conta disso, as manifestações clínicas compreendem o estabelecimento de poliartrite crônica, de padrão erosivo, principalmente nas mãos e nos punhos. Além disso, indivíduos portadores de AR apresentam artralgia de padrão inflamatório (dor nas articulações), tendo como caraterística manifestação principalmente ao acordar, com sensação de rigidez que apresenta melhora com a realização de esforço físico. Ao pesquisar sobre AR, é comum surgirem imagens de mãos e dedos deformados, uma vez que uma das consequências de um processo inflamatório persistente é o dano tecidual com evolução para perda da função. Nessa doença, tais alterações são consequência do não tratamento, que evolui para deformidade e consequente prejuízo funcional das articulações acometidas. Deformidades em formato de botoeira (deformação de boutonnière) e pescoço de ganso (Figura 9) são exemplos do resultado da progressão da artrite reumatoide (GOELDNER et al., 2011). FIGURA 9 – DEFORMIDADES CARACTERÍSTICAS DA ARTRITE FONTE: <https://msdmnls.co/3yf3ZAa>. Acesso em: 21 dez. 2020. 23 Como visto anteriormente, as manifestações clínicas extra-articulares representam um espectro de pior prognóstico dentro da artrite reumatoide, devido a sua potencial gravidade. Um elemento importante das manifestações clínicas extra-articulares é a presença do fator reumatoide, um tipo de anticorpo importante e que será mais bem abordado nas provas laboratoriais relacionadas às doenças reumáticas. 5 FEBRE REUMÁTICA A febre reumática é uma doença autoimune que acomete pacientes genetica- mente predispostos (em torno de 1 a 2% da população), quando infectados pela bactéria Streptococcus pyogenes. Via de regra, trata-se de uma doença precedida por um caso de infecção de via aérea superior (RACHID, 2003).Caro acadêmico, nesse momento, você pode se perguntar: mas se essa é uma doença originada por uma bactéria, por que a febre reumática integra o grupo de doenças reumáticas? GIO Os eventos característicos relacionados à febre reumática estão associados ao estabelecimento de um quadro inflamatório que acomete diferentes órgãos e estruturas, resultando em condições clínicas de maior complexidade, como valvulite, e coreia, além de artrite reativa pós-estreptocócica (RACHID, 2003). Esse quadro se desenvolve quando o mecanismo fisiopatológico que justifica as condições clínicas citadas está associado a um fenômeno chamado mimetismo molecular. Desse modo, devido às semelhanças entre os componentes moleculares que constituem o Streptococcus e componentes presentes no corpo humano, o sistema imunológico se “confunde” e ataca os próprios tecidos do indivíduo, ou seja, a ativação do sistema imune, necessária para combater a infecção, resulta na produção de anticorpos capazes de reconhecer e atacar as estruturas bacterianas para eliminar o agente patogênico. Entretanto, além de atacar o agente infeccioso, os anticorpos atacam também tecidos que contêm em sua estrutura componentes moleculares similares aos da bactéria (RACHID, 2003). Assim, o mimetismo molecular do estreptococo gera uma reação cruzada, uma vez que células saudáveis do indivíduo passam a ser atacadas. Veja abaixo, o estabelecimento das condições clínicas resultantes das reações cruzadas que ocorrem na febre reumática (Figura 10): Lais Realce Lais Realce Lais Nota procurar para compreender melhor 24 FIGURA 10 – ESTRUTURA DA BACTÉRIA S. PYOGENES E SUAS SIMILARIDADES COM OS TECI DOS DO CORPO HUMANO, QUE TAMBÉM SE TORNAM ALVOS DOS AUTOANTICORPOS FONTE: Herdy (2000 apud Cruz, 2017, p. 5) ↓ TROPOMIOSINA (Miocárdio) Reações cruzadas com... PAREDE CELULAR STREPTOCOCCUS β Hemolítico do grupo A CÁPSULA PROTEÍNA (M.R.T.) CARBO-HIDRATOS N-ACETIL GLICOSAM) MUCOPETÍDEO M. PROTOPLASMAT. (↓ag) CITOPLASMA (Neuron. N. Caucato) SARCOLEMA (Miocárdio e vasos) SINÓVIA (articulação) GLICOPROTEÍNA (válvula) • Valvulite: anticorpos produzidos contra os polissacarídeos da parede celular do estreptococo atacam as glicoproteínas presentes nas valvas cardíacas. Com isso, ocorre um processo inflamatório nas valvas cardíacas, que pode resultar em prejuízo permanente no funcionamento dessas estruturas (Figura 11). • Vasculite: anticorpos produzidos contra antígenos presentes na membrana citoplasmática bacteriana atacam o sarcolema dos vasos. Com isso, é estabelecido um processo inflamatório que altera a espessura vascular, prejudicando o fluxo de sangue para órgãos e tecidos. • Artrite: anticorpos produzidos contra a cápsula de ácido hialurônico presente no Streptococcus atacam o tecido sinovial. Com isso, cria-se um processo inflamatório na membrana sinovial que progride para limitação de movimentos. FIGURA 11 – VALVULITE CARACTERÍSTICA DE FEBRE REUMÁTICA FONTE: <https://medifoco.com.br/febre-reumatica-o-que-e-quais-seus-sintomas/>. Acesso em: 5 fev. 2021. Lais Realce 25 • Coreia: anticorpos produzidos contra antígenos presentes na membrana plasmática estreptocócica atacam regiões do encéfalo. Com isso, o indivíduo passa a apresentar distúrbios relacionados à realização de movimentos e hipotonia (PEREIRA; BELO; SILVA, 2015). Em 2019, pesquisadores do Instituto do Coração, de São Paulo, desenvolveram uma vacina que pode evitar o desenvolvimento da febre reumática. Já existe uma versão pronta da vacina para testes em seres humanos que espera por autorização. Para saber mais sobre essa vacina, acesse: http://glo.bo/3NintYL. INTERESSANTE Como observado anteriormente, as doenças reumáticas, por intermédio de diferentes vias, têm como denominador comum o processo inflamatório. Lais Realce 26 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • As doenças reumáticas têm como componente comum o estabelecimento de um processo inflamatório. • A osteoartrite (artrose) é definida como um processo degenerativo nas estruturas cartilaginosas. Com isso, os ossos perdem esse revestimento cartilaginoso, o que os expõe diretamente aos impactos gerados pelos diversos tipos de movimentos que realizamos. • desgaste presente na osteoartrite gera alterações na estrutura óssea e leva à formação de um processo inflamatório na membrana sinovial. • Na artrite reumatoide, a membrana sinovial é afetada e, conforme progride, é possível observar um gradativo efeito de erosão e deformidade articular. • O avanço da artrite reumatoide dá origem ao pannus, caracterizado por hiperplasia e hipertrofia dos sinoviócitos, infiltrado inflamatório predominantemente de linfócitos, plasmócitos e macrófagos e intensa angiogênese. • A febre reumática é uma doença autoimune decorrente de uma infecção nas vias aéreas superiores causada por Streptococcus pyogenes. • Os eventos característicos relacionados à febre reumática estão associados ao estabelecimento de um quadro inflamatório que acomete diferentes órgãos, resultando em condições clínicas de maior complexidade, como valvulite, artrite e coreia. RESUMO DO TÓPICO 2 27 AUTOATIVIDADE 1 Na artrite reumatoide, ocorre a formação de um processo hiperplásico e hipertrófico estabelecido nas células sinoviais que contêm infiltrado inflamatório e intensa angiogênese, o que o torna densamente vascularizado. Com relação ao termo que caracteriza essa descrição, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Sinoviose hiperplásica. b) ( ) Pannus. c) ( ) Deformação de boutonnière. d) ( ) Valvulite. 2 As doenças reumáticas possuem uma característica que permite a realização de exames para compor diagnóstico e traçar prognóstico dessas doenças. Qual é essa característica? Justifique. 3 Os eventos característicos relacionados à febre reumática estão associados ao estabelecimento de um quadro inflamatório que acomete diferentes órgãos e estruturas, resultando em condições clínicas de maior complexidade. Explique o papel do mimetismo molecular na febre reumática. Lais Texto digitado 28 29 TÓPICO 3 — MARCADORES DE DOENÇAS REUMÁTICAS UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Quando se trata do diagnóstico, estamos falando em evidências que, em conjunto, apontam o estabelecimento de alguma patologia. Nesse contexto, estudaremos um dos mais importantes elementos que estruturam um diagnóstico: as análises laboratoriais – também conhecidas como provas ou exames laboratoriais. Sabe-se que, atualmente, os exames laboratoriais constituem um importante elemento balizador de mais da metade das decisões médicas. Assim, conheceremos as características dos principais exames aplicados às patologias previamente discutidas. 2 PROTEÍNA C-REATIVA A proteína C-reativa (PCR) foi descrita pela primeira vez na década de 1930. A indicação “C-reativa” foi dada, inicialmente, por ter sido identificada a sua reação com o polissacarídeo C da cápsula da bactéria Streptococcus pneumoniae em casos de pacientes com pneumonia pneumocócica. Após essa descoberta, novos estudos identificaram sua presença em outras condições clínicas. Isso fez com que a PCR se tornasse um exame amplamente utilizado, em função da variedade de doenças em que sua mensuração aparece alterada. Por isso, a PCR é classificada como inespecífica (CARVALHO et al., 2007). Dessa maneira, a detecção da PCR não é considerada patognomônica, ou seja, não é própria e característica de nenhuma doença específica. Acadêmico, a sigla PCR também pode surgir em textos com o significado de reação em cadeia da polimerase. Para diferenciá- las, é necessário compreender que a proteína C-reativa é uma proteína de fase aguda inespecífica,visto que está presente em diversas patologias, enquanto a reação em cadeia da polimerase é uma técnica da biologia molecular que visa a amplificar o material genético – por isso, sugerimos que você revise o livro da disciplina de Biologia Molecular IMPORTANTE Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce 30 A PCR é uma pentraxina (Figura 12) de origem hepática, que atua ligando-se a potenciais agressores, células em apoptose ou com alguma lesão, causando a sua destruição por intermédio da ativação de fagócitos e do sistema complemento. FIGURA 12 – ESTRUTURA MOLECULAR DA PROTEÍNA C-REATIVA FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/image-illustration/creactive-protein-crp-human-molecule- chemical-117136327>. Acesso em: 5 fev. 2021. De acordo com Neto e Carvalho (2009, p. 416), “A PCR e a via clássica do complemento atuam em sintonia, promovendo a limpeza de células apoptóticas sem ocasionar lise celular”. Dessa forma, os mediadores pró inflamatórios dentro dessas células não são liberados, impedindo a intensificação da reação inflamatória presente. Ao longo deste livro, alguns termos serão recorrentes, por isso, vamos relembrar as diferenças entre os seguintes conceitos: • Análise qualitativa: indica se há ou não quantidade relevante do analito que está sendo investigado na amostra. O critério que estabelece se existe uma quantidade significativa do analito chama-se cut-off, que corresponde ao ponto de corte predeterminado. Nesse tipo de metodologia, não identificamos a concentração do analito. • Análise semiquantitativa: atribui-se valores às escalas qualitativas estabelecidas de acordo com cada técnica. Contudo, não necessariamente o número atribuído a cada descrição representa com exatidão a concentração presente. A função desse tipo de análise objetiva produzir resultados mais detalhados do que aqueles obtidos em análise qualitativas e não sugerir valores absolutos, como em análises quantitativas. IMPORTANTE Lais Realce Lais Realce Lais Realce 31 • Análise quantitativa: mensura a concentração do analito na amostra utilizada. • Down-regulation: é um termo que se refere ao processo de redução ou supressão de uma resposta a um determinado estímulo. Por exemplo: uma célula pode reduzir sua resposta a uma molécula devido à redução do número de receptores presentes na superfície dessa célula. Com relação a sua influência sobre o processo inflamatório, sabemos que a PCR pode atuar tanto como mediador pró-inflamatório quanto anti-inflamatório. De acordo com Neto e Carvalho (2009, p. 416), isso ocorre porque: A interação entre PCR e porção Fc de imunoglobulinas dá-se, em fagócitos, por meio de receptores FcγRI (CD64) e FcγRIIa (CD32), levando à indução de fagocitose e à secreçzão de citocinas pró- inflamatórias como interleucina 1 (IL-1) e fator de necrose tumoral-α (TNF-α). Já em neutrófilos, a interação promove down-regulation da inflamação com inibição da resposta quimiotática, clivagem de L-selectina diminuindo a marginação de leucócitos e endocitose de receptores IL-6. Acadêmico, você sabe o que é downregulation? É um termo em inglês que significa “desregulação” ou “dessensibilização”. Ao receber um estímulo de downregulation, a célula ou um tecido diminui a sua função ou a liberação de moléculas, como as citocinas, que são quimiotáticos no processo inflamatório. IMPORTANTE Por se tratar de uma proteína de fase aguda, a PCR apresenta-se elevada na fase ativa de doenças relacionadas a processos inflamatórios – é importante notar que a presença desse componente no organismo é sempre associada a um processo inflamatório, mas não é possível saber o que desencadeou essa manifestação apenas por causa disso. Isso significa que, em doenças reumáticas, haverá a presença da PCR, pois, conforme discutido anteriormente, as doenças reumáticas integram o grupo de doenças de caráter inflamatório. Assim, condições como artrite reumatoide e vasculites em fase ativa apresentarão dosagens aumentadas de PCR. As concentrações da PCR tendem a aumentar entre a quarta e sexta hora após o início do processo inflamatório, podendo atingir o pico de concentração na circulação sanguínea em até 50 horas. Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce 32 Quando solicitada com o objetivo de investigar doenças reumatológicas, algumas condições podem elevar discretamente os valores da PCR, posto que apresentam quadros inflamatórios como, por exemplo: “Obesidade, tabagismo, diabetes, uremia, hipertensão arterial, inatividade física, uso de anticoncepcionais orais, distúrbios do sono, álcool, fadiga crônica, depressão, envelhecimento, doença periodontal, entre outras situações” (NETO; CARVALHO, 2009, p. 416). Até o momento, vimos que a PCR foi apresentada como um importante marcador relacionado a doenças reumáticas. Contudo, existe uma grande variedade de condições em que ela é utilizada como marcador de diagnóstico e prognóstico, integrando um grupo de exames utilizados com frequência, em especial no ambiente hospitalar, para acompanhamento da evolução do paciente. Nesse contexto, sugerimos a leitura do artigo Aplicações Clínicas Atuais da Proteína C-reativa, escrito por Guilherme Birchal Collares e Urquiza Helena Meira Paulino, que destaca outras condições em que a PCR é um instrumento importante para as equipes médicas: http://rmmg. org/exportar-pdf/579/v16n4a12.pdf. INTERESSANTE 3 FATOR REUMATOIDE O fator reumatoide (FR) é um autoanticorpo descrito inicialmente na década de 1940 por Waller Rose. A denominação FR se deve ao fato de que esses autoanticorpos foram identificados pela primeira vez em pacientes com artrite reumatoide. Após essa descoberta, novos estudos identificaram sua presença em outras condições clínicas. Assim, embora o nome remeta à artrite reumatoide, esse não é um marcador patognomônico para a doença. Apesar de não se tratar de um exame confirmatório para artrite reumatoide, ele faz parte das evidências clínicas que compõem o diagnóstico diferencial dessa doença. Em termos moleculares (Figura 13): O fator reumatoide (FR) é um auto-anticorpo que tem como alvo a região Fc de IgGs, ou seja, ele se liga em outros anticorpos e mais especificamente, na sua porção “Fc” (parte invariável dos anticorpos, que foi nomeada por se cristalizar em análises estruturais de anticorpos). A maioria dos FR são do isotipo IgM mas podem ser também IgA e IgG (MACEDO et al., 2016, p. 2). Lais Realce Lais Realce Lais Realce Lais Realce 33 FIGURA 13 – ALGUNS TIPOS DE ISÓTOPOS DOS FATORES REUMATOIDES FONTE: Macedo et al. (2016, p. 3) Os fatores reumatóides são auto-anticorpos que apresentam estruturas diferentes e pertencem às classes IgM (mais comumente), IgG e IgA Apesar da impossibilidade de utilização exclusiva desse marcador para confirmação de artrite reumatoide, a avaliação do fator reumatoide tem uma importante função prognóstica (capacidade de uma informação indicar a evolução mais provável de uma condição clínica). De acordo com Mota et al. (2011), os níveis mais elevados de fator reumatoide no soro de pacientes com artrite reumatoide estão associados a um estágio agressivo da doença agressiva, à presença de nódulos reumatoides e às manifestações extra-articulares. No que se refere a outras condições clínicas (Quadro 1), Carvalho et al. (2014, p. 72) indicam que: Imunoglobulinas com atividade de FR estão presentes em pequena quantidade e com baixa avidez no soro da maior parte dos indivíduos; nesses casos, a pesquisa do FR é negativa ou fracamente reagente. Em determinadas condições patológicas, a concentração de imunoglobulinas pode se elevar com atividade de FR de alta afinidade. As duas condições em que o FR é detectado commaior frequência e em maiores títulos são a artrite reumatoide e a síndrome de Sjögren. Entretanto, uma vez que o FR é encontrado em frequência variável em grande número de outras condições mórbidas, sua especificidade e seu valor preditivo positivo para o diagnóstico de artrite reumatoide não são elevados. 34 QUADRO 1 – ENFERMIDADES EM QUE É COMUM A PRESENÇA DE FATOR REUMATOIDE Grupo de doenças Enfermidades específicas Doenças virais Hepatite B ou C, mononucleose, Influenza, AIDS, pós-vacinação Doenças autoimunes Artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, esclerose sistêmica, polimiosite, dermatomiosite, síndrome de Sjögren, crioglobulinemia mista, cirrose biliar primária, hepatite autoimune, fibrose pulmonar idiopática (Harman-Hirsch), doença mista do tecido conjuntivo, vasculites Neoplasias Principalmente após irradiação ou quimioterapia Infecções bacterianas Tuberculose, sífilis, hanseníase, salmonelose, endocardite bacteriana subaguda, brucelose, borreliose Doenças parasitárias Malária, calazar, esquistossomose, filariose, tripanossomíase FONTE: Carvalho et al. (2014, p. 72) Nesses termos, pode-se considerar que o FR é uma análise auxiliar para o fechamento do diagnóstico de artrite reumatoide. Entretanto, em pacientes já diagnosticados com essa doença, é, sobretudo, um bom indicador prognóstico, haja vista que a presença de altas titulações desses anticorpos no soro de pacientes apontam um agravamento da doença, que pode indicar manifestações extra-articulares. O fator reumatoide é um exame que integra a rotina da maior parte dos laboratórios, independentemente do porte. Contudo, existem exames mais específicos para investigação de AR e que são menos conhecidos, uma vez que o número de laboratórios que os realizam é bem menor. O peptídeo citrulinado cíclico é um desses marcadores. Assim, sugerimos a leitura da publicação feita pelo laboratório Fleury Autoanticorpos contra peptídeo citrulinado cíclico (CCP) apresentam alta especificidade e sensibilidade para o diagnóstico de artrite reumatoide, que aborda esse marcador: https://www. fleury.com.br/medico/artigos-cientificos/autoanticorpos-contra-peptideo- citrulinado-ciclico-ccp-apresentam-alta-especificidade-e-sensibilidade- para-o-diagnostico-de-artrite-reumatoide. INTERESSANTE 4 ANTIESTREPTOLISINA O A estreptolisina O é uma exotoxina (proteínas que podem ser produzidas por bactérias, capazes de gerar prejuízo a uma célula hospedeira) produzida por Streptococcus pyogenes. Quando ativada, tem ação hemolítica, ou seja, desencadeia a lise (quebra) das hemácias. É importante esclarecer que o que leva à ativação biológica dessa toxina bacteriana é a ausência de oxigênio (RACHID, 2003). 35 Como vimos, quando um patógeno invade o organismo, muitos eventos imunológicos ocorrem para culminar em sua eliminação, entre eles, temos a ativação dos linfócitos B. Após a infecção por S. pyogenes, anticorpos são produzidos pelos linfócitos B específicos para combater essa exotoxina, uma vez que essa molécula é imunogênica. Esses anticorpos são chamados de antiestreptolisina O (ASO ou ASLO) (RACHID 2003). Assim, análises que investigam a presença de ASO apontam a existência prévia de infecção estreptocócica. É comum que, em um primeiro momento, a dosagem sanguínea desse anticorpo esteja fortemente vinculada à investigação de febre reumática. Contudo, devemos lembrar que a ASO estará presente em qualquer manifestação clínica vinculada a infecções pela espécie S. pyogenes (GEERTS et al., 2011), como glomerulonefrite aguda, escarlatina, amigdalite, faringite (Figura 14), erisipela e sepse puerperal. FIGURA 14 – FARINGITE ESTREPTOCÓCICA FONTE: <https://www.sanarmed.com/casos-clinicos-dor-de-garganta-ha-6-dias-ligas>. Acesso em: 5 fev. 2021. É importante ressaltar que a presença de ASO pode permanecer na circulação sanguínea por semanas após o evento infeccioso. No Tópico 4, compreenderemos como esse analito pode ser dosado no laboratório. 36 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • São as interações relacionadas aos componentes do sistema imune em resposta ao processo inflamatório que permitem as análises laboratoriais e, por conseguinte, a construção de diagnóstico e prognóstico das doenças reumáticas. • A proteína C-reativa é uma pentraxina produzida por células do fígado, que atua ligando-se a potenciais agressores, células em apoptose ou com alguma lesão, ativando sua destruição por intermédio da ativação de fagócitos e do sistema complemento. • Por se tratar de uma proteína de fase aguda, a proteína C-reativa apresenta-se elevada na fase ativa de doenças relacionadas a processos inflamatórios. • O fator reumatoide é um autoanticorpo, geralmente da classe IgM, que atua contra a fração Fc de um anticorpo IgG. • Diferentes condições clínicas alteram os valores de fator reumatoide, o que o torna um marcador inespecífico. • A estreptolisina O é uma exotoxina produzida por Streptococcus pyogenes. • A ativação da estreptolisina O tem ação hemolítica, diante de condições de ausência de oxigênio. • A antiestreptolisina O é o anticorpo produzido para neutralizar essa exotoxina • A antiestreptolisina O não é um marcador patognomônico de febre reumática. • A antiestreptolisina O estará presente em qualquer manifestação clínica vinculada a infecções por estreptococos do grupo A, não se restringindo apenas à febre reumática. RESUMO DO TÓPICO 3 37 AUTOATIVIDADE 1 Considere as lacunas apresentadas no texto a seguir: A febre reumática é um dos possíveis desfechos relacionados à infecção bacteriana por Streptococcus pyogenes. Essa bactéria produz uma ____________, chamada de _________________. Com o objetivo de neutralizar os prejuízos resultantes dessa infecção, são produzidos anticorpos chamados de _________________. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) Endotoxina; estreptolisina O; antiestreptolisina O. b) ( ) Exotoxina; antiestreptolisina O; estreptolisina O. c) ( ) Exotoxina; estreptolisina O; antiestreptolisina O. d) ( ) Estreptolisina O; endotoxina; exotoxina. 2 Atualmente, a proteína C-reativa tem recebido maior destaque, devido às variadas aplicações atribuídas principalmente ao âmbito hospitalar. Explique por que ocorre o aumento significativo de sua utilização com base nas características desse marcador. 3 O fator reumatoide não é um marcador patognomônico de artrite reumatoide. Justifique essa afirmação. 38 39 TÓPICO 4 — METODOLOGIAS UTILIZADAS PARA INVESTIGAÇÃO DE DOENÇAS REUMÁTICAS UNIDADE 1 1 AGLUTINAÇÃO EM LÁTEX A técnica de aglutinação em látex é baseada nas reações de precipitação. Os imunoensaios, desenvolvidos pelo princípio das reações de precipitação, estão baseados na interação entre antígeno e anticorpo solúveis que produzem complexos insolúveis visíveis. A formação desses complexos visíveis é realizada a partir da utilização de partículas inertes (que não reagem quimicamente), como o látex. Em casos de técnicas que utilizam a aglutinação em látex, é possível realizar a análise qualitativa e semiquantitativa de marcadores imunológicos, como a PCR, o fator reumatoide e a ASO. De acordo com Voltarelli (2009, p. 78): Partículas de látex são esferas de poliestireno utilizadas como suportes na adsorção de proteína solúvel e antígenos polissacarídicos, funcionando como sistema indicador da reação antígeno-anticorpo. O teste pode ser empregado na pesquisa de antígenos ou anticorpos. A aplicação mais comum é na detecção de fator reumatoide IgM, dirigido contra isotipos de IgG, IgA1, IgM ou IgE. Com relação à possibilidade de esse tipo de teste ser usado tanto para pesquisa deantígenos quanto de anticorpos, fazemos referência a testes diretos (partículas de látex sensibilizadas com anticorpos – Figura 15) ou indiretos (partículas de látex sensibilizadas com antígeno). Assim, quando existe na amostra uma concentração mínima do marcador que está sob investigação, é possível observar a formação de pequenos grumos (imunocomplexos), resultantes da aglutinação. Caro acadêmico, lembre-se de que a concentração mínima que um ensaio é capaz de detectar é a sensibilidade desse teste. Portanto, quando as instruções do teste indicam um determinado valor de concentração do marcador como o valor da sensibilidade do teste, isso significa que aquela é a menor concentração que essa técnica é capaz de detectar. IMPORTANTE 40 A execução da técnica de aglutinação em látex para marcadores de doença reumatoide segue um procedimento comum. São utilizadas amostras de soro do paciente, que serão pipetadas conforme a qualidade indicada nas instruções do kit reagente em uma placa própria para essa técnica (Figura 16). Em seguida, na mesma placa, a quantidade de látex sensibilizado indicada nas instruções do teste (dependendo do marcador em investigação) será aplicada na amostra e homogeneizada pelo tempo indicado pelo fabricante do teste. Após essa etapa, o analista deverá observar a presença ou a ausência de grumos na suspensão (mistura contendo látex sensibilizado e amostra). Suspensões que apresentarem grumos (Figura 17) indicam que existe uma concentração igual ou superior ao cut-off (ponto de corte) estabelecido no kit do reagente (DOLES, 2018). FIGURA 15 – PARTÍCULA DE LÁTEX SENSIBILIZADA COM O ANTICORPO ANTI-PCR FONTE: Labtest (2010, p. 3) Anticorpo (ligado a partícula de látex) Precipitados Antígeno protéico Sabemos que a execução correta de uma técnica depende, além da leitura do protocolo da técnica, da visualização de execução dos procedimentos. Para isso, sugerimos um vídeo que demonstra a técnica de aglutinação em látex para PCR: https://www.youtube.com/watch?v=pFQwrVO15wQ. GIO FIGURA 16 – EXECUÇÃO DA TÉCNICA DE AGLUTINAÇÃO EM PLACA FONTE: Doles (2018, p. 2) 41 FIGURA 17 – AGLUTINAÇÃO EM LÁTEX APRESENTANDO FORMAÇÃO DE GRUMOS NA POSIÇÃO 2 FONTE: Veiga (2009, p. 153) É importante ressaltar que, para que o teste apresente resultados adequados, a correta execução do procedimento é essencial. Para isso, deve-se atentar para as instruções de uso do teste, bom como os possíveis interferentes, como: • Tempo de execução: nas instruções, consta o tempo que a reação deve ocorrer e o intervalo que o analista deve avaliar a presença ou ausência de grumos. Passado esse tempo, podem ocorrer aglutinações inespecíficas, resultando falso-positivos. • Condições da amostra: alguns kits utilizados para aglutinação em látex podem ter seu desempenho prejudicado pela presença de hemólise (rompimento das hemácias com liberação de hemoglobina no soro) e lipemia (presença de lipídeos na amostra de soro), apresentando resultados falso-positivos pelo estabelecimento de aglutinações inespecíficas. • Altas concentrações do marcador investigado: as instruções de uso dos kits indicam sempre os limites de concentração do marcador investigado que podem gerar efeito prozona (LABTEST, 2018). 2 NEFELOMETRIA A nefelometria é uma técnica quantitativa utilizada para mensurar a concentração dos marcadores de doenças reumáticas. Para sua execução, é utilizado um nefelômetro, equipamento que mede a dispersão de luz gerada em soluções contendo imunocomplexos. O nefelômetro mensura a luz dispersa pelos imunocomplexos, pois possui, em sua estrutura, um detector posicionado em um ângulo de 70° em relação à fonte de luz. Segundo Voltarelli (2009, p. 76): Uma característica importante das soluções coloidais é a sua pronunciada dispersão da luz. Quando um feixe de luz incidente atravessa um meio contendo partículas, estas interferem com a passagem da luz, fazendo com que seja dispersa em todas as direções. Esse fenômeno, conhecido como efeito Tyndall, não altera o comprimento de onda da luz incidente e é independente do tipo de partícula. 42 A fonte luminosa utilizada em ensaios nefelométricos é de alta intensidade e incide sob uma cubeta (pequeno tubo que pode ser feito de plástico, vidro ou quartzo, muito utilizado em ensaios laboratoriais) que contém a solução resultante da amostra com o reagente. A forma e o tamanho das partículas, resultantes dos imunocomplexos formados, serão fatores determinantes para quantidade e natureza da dispersão de luz captada e quantificada pelo nefelômetro (Figura 17). A medida de um marcador utilizando a nefelometria é rápida, apresenta boa precisão, principalmente quando os nefelômetros dispõem de dispositivos que subtraem interferentes, como a lipemia e a hemólise (VOLTARELLI, 2009). FIGURA 17 – ESQUEMA DO PRINCÍPIO FÍSICO DA NEFELOMETRIA E TURBIDIMETRIA FONTE: Bender; von Mühlen (2009, p. 77) 3 TURBIDIMETRIA O princípio do método turbidimétrico quantitativo para análise de marcadores de doenças reumáticas funciona, assim como na nefelometria, a partir da emissão de feixe de luz na amostra previamente preparada com reagente. Com a incidência desse feixe de luz, as partículas sólidas existentes no líquido refletem os raios luminosos. De acordo com Voltarelli (2014, p. 77): Esse teste está sujeito às mesmas condições dos sistemas nefelo- métricos. O sinal de detecção é a absorbância e não a intensidade de luz dispersa. Não necessita de aparelhagem especial. As reações podem ser medidas em espectrofotômetros simples utilizados em bioquímica. Pode ser utilizada para medidas quantitativas de drogas ou biomarcadores no soro, plasma ou urina. Dessa forma, enquanto o nefelômetro mede a luz dispersa, a turbidimetria mede a luz absorvida (não dispersada) pela turbidez gerada pelos imunocomplexos formados na combinação entre amostra e reagente. Para medir a absorbância presente na reação entre amostra e reagente, o equipamento utilizado é o espectrofotômetro. Na turbidimetria, fatores pré-analíticos como hemólise, lipemia e concentrações elevadas de bilirrubina podem interferir na medida de marcadores de doença reumática. É 43 importante lembrar que existem diferentes kits reagentes no mercado para quantificação de marcadores de doenças reumáticas por essa metodologia. Portanto, outros possíveis interferentes relacionados a compostos que podem estar presentes na amostra de soro devem ser verificados nas instruções de uso do kit utilizado. Na leitura complementar, a seguir, veremos as provas laboratoriais que estão relacionadas ao diagnóstico dessas doenças, as principais metodologias utilizadas na rotina clínica e as possíveis interpretações dos resultados. NOTA 44 LEITURA COMPLEMENTAR O USO DE PROVAS DE ATIVIDADE INFLAMATÓRIA EM REUMATOLOGIA Nilton Salles Rosa Neto Jozélio Freire de Carvalho INTRODUÇÃO A resposta de fase aguda é um mecanismo fisiopatológico de defesa associado a estados inflamatórios que, apesar do nome já consagrado, ocorre tanto na inflamação aguda quanto na crônica. Caracteriza-se pelo aumento ou diminuição da concentração sérica de determinadas proteínas em decorrência de algum estímulo que ocasione injúria tecidual. Atualmente, opta-se por utilizar o termo biomarcador inflamatório ao se referir às proteínas envolvidas nessa resposta. Utiliza-se a análise dos biomarcadores de inflamação em doenças reumatológicas para a monitoração de atividade de doença – correlacionando com outros dados clínicos e laboratoriais – e para a diferenciação entre doença ativa e presença de infecções. Este artigo revisa o uso de provas de atividade inflamatória atualmente disponíveis no âmbito assistencial. HISTÓRICO Em 1930,pesquisadores descobriram uma proteína que reagia com o polissacarídeo C da cápsula de S. pneumoniae obtida do sangue de pacientes durante a fase aguda de pneumonia pneumocócica. A ela, deram o nome de proteína C-reativa (PCR). A partir de então, estudaram-se as alterações das proteínas plasmáticas em soro de pacientes agudamente enfermos devido a infecções. As proteínas encontradas nessas situações foram denominadas proteínas de fase aguda, e a reação inflamatória – ou resposta do organismo diante da lesão tecidual –, resposta de fase aguda. Posteriormente, verificou-se a presença dessas proteínas após outros eventos, como trauma, isquemia, neoplasia e reações de hipersensibilidade. Suas concentrações também se encontravam alteradas em estados inflamatórios crônicos. RESPOSTA DE FASE AGUDA A resposta de fase aguda caracteriza-se pela alteração na concentração sérica de certas proteínas após a injúria tecidual, algumas respondendo com elevação (biomarcadores positivos) e outras com diminuição (biomarcadores negativos) de 45 TABELA 1 – BIOMARCADORES INFLAMATÓRIOS POSITIVOS Sistema de Coagulação/Fibrinólise Fibrinogênio Plasminogênio Ativador de plasminogênio tecidual Uroquinase Proteína S Vitronectina Inibidor do ativador de plasminogênio tecidual 1 Sistema Complemento C3; C4; C9 Fator B Inibidor C1 (C1 INH) Proteína ligadora C4b Lectina ligadora de manose (MBL) Proteínas de Transporte Ceruloplasmina Haptoglobina Hemopexina Participantes da Resposta Inflamatória Fosfolipase A2 secretória (sPLA2-IIA) Proteína ligadora de lipopolissacarídeo (LPS) Antagonista do receptor de interleucina-1 (IL-1 RA) Fator estimulador de colônias – granulócitos (G-CSF) Antiproteases α1-Antiprotease α1-Antiquimiotripsina Inibidor da tripsina pancreática Inibidor da interalfatripsina suas concentrações. Essas proteínas terão funções pró e anti-inflamatórias e podem estimular ou inibir a produção umas das outras. Apesar da importância desse trabalho em conjunto, na prática clínica somente algumas dessas proteínas são utilizadas como marcadores, quer pela disponibilidade do método, quer pelo custo de sua determinação. Podem ser encontradas nas Tabelas 1 e 2 algumas das proteínas de fase aguda, divididas de acordo com sua função biológica original. 46 Adaptado para o português de Kushner e Gabay com permissão dos autores. Copyright © 1999 - Massachusetts Medical Society. Todos os direitos reservados. Outros Proteína C-reativa (PCR) Proteína sérica amiloide A (SAA) α1-glicoproteína ácida (AGP) Fibronectina Ferritina Angiotensinogênio Proteína Ligadora do Retinol TABELA 2 – BIOMARCADORES INFLAMATÓRIOS NEGATIVOS Albumina Transferrina α2-HS glicoproteína Alfafetoproteína (AFP) Globulina ligadora de tiroxina Fator de crescimento insulina-símile-1 (IGF-1) Fator XII Adaptado para o português de Kushner e Gabay com permissão dos autores. Copyright © 1999 - Massachusetts Medical Society. All rights reserved. Mudanças comportamentais e alterações fisiológicas, bioquímicas e nutricionais somam-se para completar a resposta de fase aguda. Alterações neuroendócrinas Uma das maiores características dessa fase é a presença de febre, uma resposta existente para promover um meio ótimo de funcionamento de enzimas e a estabilização de membranas celulares. Há indisposição e sonolência – medidas que reduzem o consumo energético do organismo. Modulando a resposta inflamatória, há aumento da secreção de hormônio liberador de corticotrofinas (CRH), hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) e cortisol, hormônio antidiurético (ADH) e catecolaminas; e diminuição do fator de crescimento similar à insulina do tipo 1 (IGF-1). Alterações hematopoéticas Em decorrência de inflamação, podemos encontrar leucocitose e trombocitose e, nos casos mais prolongados, anemia de doença crônica. 47 Alterações metabólicas Incluem-se perda muscular e balanço nitrogenado negativo, levando, em casos crônicos, à restrição de crescimento em crianças e à caquexia em adultos. Há diminuição da gliconeogênese e aceleração de osteoporose. Verificam-se aumento da lipogênese hepática e lipólise de tecido adiposo, assim como diminuição da atividade das lipoproteínas lipases muscular e adiposa, com o objetivo de, em casos de infecção, haver aumento da concentração de lipoproteínas, promovendo maior ligação à lipopolissacarídeo (LPS) e resultando em menor efeito tóxico para o organismo. Alterações hepáticas O fígado participa da produção e da liberação de muitas das proteínas relacionadas à resposta inflamatória. Fisiologicamente, há aumento de metalotioneína, óxido nítrico sintase, heme oxigenase, superóxido dismutase, inibidor tecidual de metaloproteinase-1 e redução da atividade fosfoenolpiruvato carboxiquinase. Alterações em outros constituintes do plasma Como controle das reações em andamento, há consumo de zinco, ferro e cobre e retinol plasmático e aumento de antioxidantes como glutationa. CLASSIFICAÇÃO Os biomarcadores da inflamação dividem-se em quatro grupos: • Proteínas de defesa do hospedeiro – participam do reconhecimento e eliminação de patógenos: proteína C-reativa, lectina ligadora de manose, proteína ligadora de lipopolissacarídeo, proteínas do complemento, fibrinogênio; • Inibidores de proteinases séricas – atuam na limitação do dano tecidual, neutralizando enzimas proteolíticas e metabólitos de oxigênio: α1-antiproteinase, α1- antiquimiotripsina, α2-antiplasmina, inibidor do C1; • Proteínas de transporte com atividade antioxidante – responsáveis pela contenção da reação inflamatória e restauração da estrutura original lesada: ceruloplasmina, hemopexina, haptoglobina; • Outras – proteína sérica amiloide A (SAA), antagonista do receptor de IL-1, α1- glicoproteína ácida, fosfolipase A2 secretória grupo IIA (sPLA2-IIA). Há diferenças significativas em termos de cinética, magnitude e duração de resposta entre os biomarcadores inflamatórios. A PCR e a SAA são detectadas a partir de quatro horas do insulto e têm pico de 24 a 72 horas, podendo chegar a mil vezes o valor normal. O fibrinogênio tem pico em sete a dez dias e eleva-se duas a três vezes o normal (Figura 1). 48 FIGURA 1. PADRÃO DE RESPOSTA DE BIOMARCADORES INFLAMATÓRIOS FRENTE À LESÃO TECIDUAL. Apenas alguns desses marcadores encontram-se disponíveis para utilização na rotina do reumatologista, e o texto trata, inicialmente, das origens e funções biológicas das proteínas envolvidas e dos métodos de determinação de sua atividade. Em seguida, detalhamos seus usos nas diversas doenças reumáticas. PROTEÍNA C-REATIVA É o biomarcador mais estudado. Promove a interação entre imunidades humoral e celular. É produzida no fígado e classificada como pentraxina – um pentâmero com uma fenda ligadora de fosfatidilcolina (dependente de íons cálcio) e outras em face oposta que se ligam ao componente do sistema complemento C1q e à porção Fc de imunoglobulinas (Fcγ). Sua função é ligar-se a patógenos e células lesadas e/ou apoptóticas (fosfati- dilcolina) e iniciar sua eliminação por meio da ativação do sistema complemento e de fagócitos (C1q e Fcγ). Essas ligações e atrações celulares permitem considerá-la uma opsonina. Também atua regulando a extensão e a intensidade da reação inflamatória. 49 Apesar de sua função assemelhar-se à de anticorpos e participar da imunidade inata, não há descrição de estados deficientes de proteína C-reativa (PCR), o que, a princípio, deve ser incompatível com a vida. A ativação do complemento ocorre pela via clássica, por deposição dos fragmentos de C3 e C4 na PCR e no ligante, formação da C3 convertase clivando o C3 em C3a, uma anafilatoxina que induz a liberação de histamina de basófilos e mastócitos, e C3b, que atua como opsonina, atraindo fagócitos – macrófagos – ao local dainflamação. A ativação não converte C5, ou seja, não há amplificação dos efeitos pró-inflamatórios ou formação do complexo de ataque à membrana (CAM) diretamente pela PCR. A PCR e a via clássica do complemento atuam em sintonia, promovendo a limpeza de células apoptóticas sem ocasionar lise celular, minimizando a liberação de mediadores que aumentariam a reação inflamatória.5 É sabido que, na artrite reumatoide (AR), o complemento é ativado pela PCR, especialmente naqueles com maior atividade de doença, porém não está clara a participação da ativação do complemento na manutenção da reação inflamatória e destruição articular. A interação entre PCR e porção Fc de imunoglobulinas dá-se, em fagócitos, por meio de receptores FcγRI (CD64) e FcγRIIa (CD32), levando à indução de fagocitose e à secreção de citocinas pró-inflamatórias como interleucina (IL)-1 e fator de necrose tumoral (TNF)-α. Já em neutrófilos, a interação promove down-regulation da inflamação com inibição da resposta quimiotática, clivagem de L-selectina diminuindo a marginação de leucócitos e endocitose de receptores IL-6. Verifica-se, portanto, que a PCR tem funções pró e anti-inflamatórias. A determinação da PCR é mais sensível, avaliando uma resposta rápida por uma medida direta. Reflete, também, a extensão do processo inflamatório ou da atividade clínica, principalmente em infecções bacterianas (e não virais), reações de hipersensibilidade, isquemia e necrose tecidual. Podem-se encontrar valores discretamente elevados de PCR em obesidade, tabagismo, diabetes, uremia, hipertensão arterial, inatividade física, uso de anticoncepcionais orais, distúrbios do sono, álcool, fadiga crônica, depressão, envelhecimento, doença periodontal, entre outras situações. É também um marcador de aterosclerose, sendo um preditor de infarto do miocárdio, morte súbita ou acidente vascular encefálico e deve ter papel na patogênese da aterogênese. A metodologia amplamente utilizada é a imunonefelometria, que permite a liberação de resultados quantitativos, facilitando a interpretação clínica e permitindo o acompanhamento laboratorial de cada caso. A PCR também é importante como marcador de ativação endotelial e indutor de lesão vascular relacionada à inflamação, em especial em placas de ateroma. Pode ser utilizada como preditor de coronariopatias (angina e infarto do miocárdio), por acelerar o processo de aterosclerose. A denominação de PCR hipersensível, ou ultrassensível, diz respeito a métodos que possam detectar valores mais baixos (menor do que o percentil 97,5) do que os limites dos métodos usuais (menor do que percentil 90), ou 50 seja, exames mais sensíveis, que já identifiquem alterações inflamatórias em pacientes aparentemente saudáveis ou com fatores de risco conhecidos e permitam estimar o risco cardiovascular. Em pacientes com AR e lúpus eritematoso sistêmico (LES), a inflamação persistente, demonstrada por dosagens sequenciais de PCR, implica morbidade e mortalidade cardiovascular precoce. FONTE: Adaptado de ROSA NETO, N. S.; CARVALHO, J. F. O uso de provas de atividade inflamatória em reumatologia. Rev. Bras. Reumatol., v. 49, n. 4, p. 413-30, 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/ pdf/rbr/v49n4/08.pdf. Acesso em: 18 dez. 2020. 51 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • A técnica de aglutinação em látex é baseada nas reações de precipitação, os quais refletem a interação entre antígeno e anticorpos solúveis que produzem complexos insolúveis visíveis. • Técnicas que utilizam a aglutinação em látex permitem realizar análise qualitativa e semiquantitativa de marcadores imunológicos, como a proteína C-reativa, o fator reumatoide e a antiestreptolisina O. • O nefelômetro mede a luz dispersa pelos imunocomplexos a partir de um detector posicionado em um ângulo de 70° em relação à fonte de luz. • A nefelometria é uma metodologia rápida e precisa, principalmente quando os nefelômetros dispõem de dispositivos que subtraem interferentes. • A turbidimetria é uma metodologia que ocorre a partir da emissão de feixe de luz na amostra previamente preparada com reagente, que incide sob as partículas sólidas existentes no líquido e reflete os raios luminosos e o turbidímetro mede a luz absorvida. RESUMO DO TÓPICO 4 52 AUTOATIVIDADE 1 Existem alguns métodos quantitativos utilizados para mensurar marcadores de doenças reumáticas. Explique a diferença entre a nefelometria e a turbidimetria. 2 O fator reumatoide é um marcador utilizado para diagnóstico e prognóstico de artrite reumatoide, entre outras doenças. Para execução das metodologias de aglutinação em látex e nefelometria, temos a formação de uma solução com micropartículas capazes de dispersar luz e, com isso, permitir a análise desse analito. Sobre o tipo de solução utilizada nessas técnicas, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Solução coloidal. b) ( ) Solução ácida. c) ( ) Solução não inerte. d) ( ) Solução precipitadora. 3 Alguns interferentes podem interferir nos resultados obtidos pela técnica de aglutinação em látex. Cite-os e explique por que eles podem ocorrer. 53 ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H.; POBER, J. S. Imunologia celular e molecular. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2008. BENDER, A. L.; VON MÜHLEN, C. A. 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TÓPICO 1 – DEMANDAS IMUNOLÓGICAS E A IMPORTÂNCIA DO ACOMPANHAMENTO IMUNOLÓGICO NO PERÍODO PRÉ-NATAL TÓPICO 2 – TOXOPLASMOSE TÓPICO 3 – CITOMEGALOVÍRUS E RUBÉOLA TÓPICO 4 – METODOLOGIAS UTILIZADAS PARA DIAGNÓSTICO E PROGNÓSTICO DO PRÉ-NATAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 58 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 59 TÓPICO 1 — DEMANDAS IMUNOLÓGICAS E A IMPORTÂNCIA DO ACOMPANHAMENTO IMUNOLÓGICO NO PERÍODO PRÉ-NATAL UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Sob o aspecto imunológico, a gestação é semelhante à invasão do organismo por um patógeno, pois, ao longo de 9 meses, o feto se nutre e cresce consideravelmente até estar apto a viver fora do ambiente que propiciou o seu desenvolvimento – afinal, se existe essa semelhança entre a gestação e um processo infeccioso, por que o sistema imune da gestante não ataca o feto? Neste tópico, veremos por que isso não ocorre. A ideia de que uma mulher tem a capacidade de gerar uma nova vida é vista como um milagre, que é resultado de diversas mudanças no corpo da gestante. Adaptações fisiológicas, anatômicas e endócrinas permitem que o feto se desenvolva em sua completude. Entretanto, algo também deveria acontecer no sistema imunológico da mãe, uma vez que as características genéticas do feto diferem das genéticas da mãe. Assim, ele deveria ser reconhecido pelo sistema imune como um agente agressor. Sabemos que, de alguma forma, o feto não é percebido dessa maneira pelo sistema imune. Isso acontece porque nós, mamíferos placentários, possuímos estruturas que protegem o desenvolvimento embrionário, do ponto de vistaimunológico, como a decídua. Decídua é um nome que deriva do termo em latim deciduus, traduzido como “que se desprende”. Trata-se do endométrio do tecido gravídico, que possui funções relacionadas à composição estrutural e nutricional embrionária. No aspecto imunológico, Nancy et al. (2012) descobriram que a decídua é capaz de silenciar a expressão de genes responsáveis pela produção citocinas mediadoras de inflamação. Essas citocinas, por sua vez, atuam recrutando linfócitos T. Com o silenciamento desses genes, os linfócitos não recebem sinalização na decídua, o que impede que eles se acumulem nesta estrutura placentária. Essa descoberta indica que um dos mecanismos associados à imunotolerância materno-fetal permite que o feto se desenvolva sem ser atacado pelo sistema imune materno. Mesmo sabendo que a gestante é imunotolerante, e o feto não é visto como um “inimigo”, é importante tratarmos de outro assunto importante: o acompanhamento pré-natal. 60 Pré-natal é um termo que se refere ao acompanhamento recebido pelas gestantes desde a confirmação da gravidez ao nascimento do bebê. O objetivo do pré- natal é acompanhar a evolução das adaptações fisiológicas gestacionais como o ganho de peso, a alimentação, a pressão arterial, o desenvolvimento fetal e demais ocorrências que podem gerar algum prejuízo ao longo da gestação (BRASIL, 2016). De acordo com o atual risco gestacional, existem dois tipos de abordagem pré-natal: o pré-natal de risco habitual (quando a gestante não possui doenças que possam sofrer agravo ao longo da gestação), e o pré-natal de alto risco (quando a gestante já possui fatores de risco ou doenças que podem prejudicar na gestação, o que exige um acompanhamento mais próximo). Ao acompanhar o período gestacional, o objetivo é monitorar sinais vitais e parâmetros que, quando alterados, representam forte indício de risco para mãe e para o bebê, como hipertensão, diabetes gestacional e infecções (BRASIL, 2010). Como é possível imaginar, a contar pelos exemplos de infecções e diabetes gestacional, o laboratório clínico é um elemento essencial para um pré-natal de sucesso. Nesse contexto, além da avaliação realizada pelas equipes médicas, diferentes exames são solicitados com o intuito de investigar as condições de saúde da gestante, podendo- se destacar os ensaios imunológicos voltados à detecção da gestação (como a dosagem de gonadotrofina coriônica humana) e a investigação de doenças infecciosas, como a toxoplasmose, o citomegalovírus e a rubéola. A seguir, conheceremos mais sobre esses marcadores imunológicos, sua importância e metodologias utilizadas para execução desses imunoensaios. Importância do pré-natal Segundo o Ministério da Saúde, a realização do pré-natal representa papel fundamental na prevenção e/ou detecção precoce de patologias tanto maternas como fetais, permitindo um desenvolvimento saudável do bebê e reduzindo os riscos da gestante. Informações sobre as diferentes vivências devem ser trocadas entre as mulheres e os profissionais de saúde. Essa possibilidade de intercâmbio de experiências e conhecimentos é considerada a melhor forma de promover a compreensão do processo de gestação. Para saber mais sobre o tema, sugerimos a leitura do texto Importância do pré-natal, do Ministério da Saúde, que aborda a relevância da realização do pré-natal para a saúde da gestante e do bebê, acesse: http://bvsms.saude. gov.br/dicas-em-saude/2198-importancia-do-pre-natal. INTERESSANTE 61 2 GONADOTROFINA CORIÔNICA HUMANA A gonadotrofina coriônica humana (hCG) é um hormônio popularmente conhecido para detectar uma gestação. Trata-se de um hormônio produzido, em condições fisiológicas, durante a gestação. Inicialmente, sua produção ocorre via sinciciotrofoblastos, e representa uma sinalização essencial para a manutenção da gestação. Ao longo do primeiro mês e meio de gravidez, é o hCG que sinaliza a manutenção do corpo lúteo. O corpo lúteo, por sua vez, produz progesterona, um hormônio responsável por manter a gestação ao longo das primeiras semanas de gravidez. A progesterona tem esse papel devido a sua capacidade de espessamento do endométrio e inibição das contrações uterinas, características que favorecem a implantação e a manutenção do óvulo fertilizado no útero (Figura 1). Além da produção de progesterona no estágio inicial da gestação, o hCG liga-se a receptores específicos que estimulam a angiogênese (criação de vasos sanguíneos) no endotélio uterino (NWABUOBI et al., 2017). Contudo, o corpo lúteo não permanece viável ao longo de toda gestação, o que significa que, após algum tempo, será necessário que outra estrutura mantenha a secreção de hormônios da gestação. De acordo com Silverthorn (2017, p. 829): “A menos que o embrião em desenvolvimento envie um sinal hormonal, o corpo lúteo degenera- se, os níveis de estrogênio e progesterona caem e o embrião é eliminado do corpo junto com as camadas superficiais do endométrio durante a menstruação”. Assim, a partir da 8ª semana de desenvolvimento fetal, é a placenta que passa a secretar hormônios que impedirão a menstruação ao longo da gestação, como estrogênio, progesterona, hormônio lactogênio placentário humano e gonadotrofina coriônica humana. Durante esse período, as concentrações desses hormônios na corrente sanguínea sofrem grandes variações, a fim de permitir que ocorram as adaptações físicas e metabólicas necessárias para a boa evolução da gestação (SANARMED, 2019). FIGURA 1 – VARIAÇÃO DOS NÍVEIS HORMONAIS DURANTE A GRAVIDEZ FONTE: <https://bit.ly/3QWkf02>. Acesso em: 20 jan. 2021. 62 Atualmente, a detecção laboratorial de hCG qualitativa ou quantitativa é o principal instrumento no diagnóstico de gestação. O hCG é uma molécula composta por proteínas em 70% de sua estrutura e 30% de ramificações e unidades de carboidratos. Essa molécula contém 2 subunidades, a alfa, composta por aminoácidos organizados de maneira semelhante à região alfa de outras glicoproteínas, como o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo-estimulante (FSH). Por outro lado, a outra subunidade, que recebe o nome de beta (BhCG) não apresenta essa similaridade com outras moléculas, o que confere a característica de especificidade biológica. Assim, quando as metodologias apresentam o nome BhCG, sabemos que essa subunidade será utilizada no princípio do teste para reduzir potenciais interferentes na amostra (MEDEIROS; NORMAN, 2006). Para a detecção do BhCG, podemos realizar ensaios qualitativos e quantitativos. Um exemplo de ensaio qualitativo são os testes de gravidez vendidos em farmácias, nos quais a amostra utilizada é urina. No laboratório clínico, também podemos utilizar ensaios quantitativos, geralmente realizados com soro da paciente. Caro acadêmico, ao longo desta disciplina, alguns termos serão recorrentes, como a caracterização de técnicas como qualitativas ou quantitativas. A seguir, aproveitamos para relembrar esses conceitos: • Análise qualitativa: indica se há ou não quantidade relevante do analito que está sendo investigado na amostra em questão. O critério que estabelece se existe uma quantidade significativa do analito se chama cut-off, que corresponde ao ponto de corte predeterminado. Nesse tipo de metodologia, não identificamos a concentração do analito. • Análise quantitativa: mensura a concentração do analito em questão na amostra utilizada. IMPORTANTE Nesse momento, pode surgir a seguinte dúvida: se podemos utilizar urina para detectar esse hormônio, por que coletar sangue? Amostras de urina podem apresentar concentrações inferiores àquelas que são o nível mínimo de detecção do teste. Pacientes que consomem mais líquidos apresentam urinadiluída, podendo gerar resultados falso-negativo, por exemplo. Por outro lado, a utilização de amostras de soro para testes quantitativos não apresenta este tipo de interferência, o que reduz consideravelmente a possibilidade de resultados falso- negativos. A detecção de BhCG utilizando amostras de soro pode ocorrer a partir do 8º a 11º dia pós concepção. Em geral, testes qualitativos são considerados testes de triagem, que permite que a paciente identifique ou não uma possível gestação (BRITO, 2018). 63 As metodologias quantitativas para dosagem do BhCG podem ser utilizadas para detecção, porém, o principal motivo de solicitação médica é como instrumento de auxílio na estimativa do tempo de gestação, pois é possível detectar a concentração do hormônio presente no sangue. Abaixo, apresentamos um fluxograma que indica a relação entre as concentrações desse hormônio e período gestacional estimado (Figura 2). Podemos afirmar que, se este hormônio estiver presente em concentrações elevadas em amostras de soro ou urina de paciente, sua detecção não necessariamente indica gestação, pois, até o momento, vimos apenas as circunstâncias fisiológicas em que o hCG é produzido. Contudo, existem ainda condições patológicas em que a dosagem de b-hCG pode estar aumentada, tanto em homens quanto mulheres. FIGURA 2 – FLUXOGRAMA DE DIAGNÓSTICO GESTACIONAL FONTE: <https://www.sanarmed.com/diagnostico-de-gravidez>. Acesso em: 16 mar. 2021. 1° trimestre: até 150.000 mUI/ml 2° trimestre: 3.500 a 20.000 mUI/mL 3° trimestre: 5.000 a 50.000 mUI/mL Positivo Negativo BETA-hCG Sangue Urina Antigamente, os laboratórios clínicos utilizavam sapos para realizar testes de gravidez. Leia a reportagem, publicada no site Aventuras na História, que relata a evolução dos testes de gravidez ao longo do tempo. Acesse: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/ almanaque/sapo-o-primeiro-teste-de-gravidez.phtml. INTERESSANTE 64 2.1 DOENÇA TROFOBLÁSTICA GESTACIONAL De acordo com Lima et al. (2017, p. 94): Doença trofoblástica gestacional (DTG) compreende um grupo de tumores derivados do tecido placentário, incluindo lesões benignas, representadas pela mola hidatiforme completa (MHC) e parcial, e um grupo de lesões com diferentes graus de invasão de disseminação, denominadas neoplasia trofoblástica gestacional (NTG): mola inva- sora, coriocarcinoma, tumor trofoblástico do sítio placentário e tumor trofoblástico epitelioide. A mola hidatiforme, ou gravidez molar é uma complicação gestacional que resulta no desenvolvimento de células anormais, que resulta em um agrupamento celular desordenado, semelhante a cachos de uva (Figura 3). FIGURA 3 – COMPARAÇÃO ENTRE ÚTERO NORMAL E ÚTERO COM GRAVIDEZ MOLAR FONTE: <https://eigierdiagnosticos.com.br/blog/doencas/o-que-e-cromossomopatia-fetal/> Acesso em: 17 fev. 2021. Apesar do nome “gravidez”, esta não é uma condição capaz de gerar um feto normal. Ela pode ser o resultado de um espermatozoide que fertiliza um óvulo sem núcleo de DNA (mola hidatiforme completa) ou pode resultar da fertilização de um óvulo normal por dois espermatozoides (mola hidatiforme incompleta), sendo este último tipo com menor probabilidade de evolução para doença trofoblástica gestacional maligna. Apesar de tratar-se de uma condição que não evoluirá para formação de um feto viável, a mola hidatiforme apresenta aumento expressivo nas concentrações de BhCG. Assim, a presença de concentrações elevadas de BhCG, discrepantes do período gestacional, em associação às manifestações clínicas características como indicado por Andrade (2009, p. 95): 65 Do ponto de vista clínico, o volume uterino aumentado e complicações como hiperemese, pré-eclâmpsia e cistos tecaluteínicos são mais frequentes entre as portadoras de MHC. As pacientes com MHP geralmente apresentam sintomas consistentes com abortamento incompleto ou retido e por isto quase sempre o diagnóstico de MHP é obtido após avaliação histológica de material de curetagem. Esse conjunto de informações permite que o médico identifique a doença e realize o manejo adequado (ANDRADE, 2009). Além da mola hidatiforme, o BhCG pode apresentar concentrações elevadas na presença de coriocarcinomas. O coriocarcinoma é uma doença trofoblástica gestacional com características cancerígenas. Trata-se de uma condição majoritariamente originada de uma gestação prévia ou presença de gestação molar. Entretanto, em casos raros, o coriocarcinoma pode aparecer em outras regiões fora do útero, acometendo inclusive homens, principalmente nos testículos (AMERICAN CANCER SOCIETY, 2016). Como visto, uma solicitação de exame de BhCG para homens está relacionada com a investigação da presença de coriocarcinoma. A detecção de BhCG pode ser realizada por metodologias diferentes, cada uma com vantagens e desvantagens relacionadas a sua espe- cificidade e sensibilidade, assim como interferentes presentes na amostra, que podem prejudicar os resultados dos testes, reduzindo sua capacidade de indicar a condição dos pacientes. DICA 66 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • O hCG é um hormônio produzido durante a gestação, em condições fisiológicas, podendo também apresentar concentrações elevadas em condições patológicas, como as doenças trofoblásticas gestacionais. • O hCG auxilia, inicialmente, na manutenção do corpo lúteo, para que ele permaneça viável e produza progesterona, hormônio que auxiliará no sucesso das etapas iniciais da gestação. Além disso, o hCG está vinculado à angiogênese no endométrio. • A partir da 8ª semana de gestação, a placenta passa a ser quem secreta diversos hormônios, entre eles o hCG e a progesterona. • Durante a gestação as concentrações de hormônios na corrente sanguínea variam. Essas oscilações promovem as adaptações físicas e metabólicas • Para fins diagnósticos, a subunidade beta do hCG é a mais comumente utilizada, uma vez que apresenta maior especificidade biológica, reduzindo, assim, as chances de resultados alterados em decorrência de interferentes presentes na amostra. • A detecção de BhCG utilizando amostras de soro pode ocorrer a partir do 8º a 11º dia pós-concepção. • Testes qualitativos de BhCG são considerados testes de triagem, que permitem que a paciente identifique ou não a gestação • Metodologias quantitativas para BhCG são instrumento de auxílio na estimativa do tempo de gestação. RESUMO DO TÓPICO 1 67 AUTOATIVIDADE 1 O hormônio gonadotrofina coriônica humana (hCG) é encontrado em amostras de sangue ou urina de mulheres grávidas. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Os testes rápidos, comercializados em farmácias, são utilizados como testes confirmatórios de gestação, uma vez que a amostra utilizada é a urina. b) ( ) A análise quantitativa não é capaz de estimar o tempo de gestação da paciente. c) ( ) Dosagem de BhCG em amostras de soro permite uma detecção mais precoce da gestação, quando comparada a dosagens realizadas em amostras de urina. d) ( ) Testes realizados em amostras de urina permitem detecção de gestação em até duas semanas após a fecundação. 2 A gonadotrofina coriônica humana é um hormônio essencial para que o embrião permaneça viável, uma vez que é responsável pela manutenção do corpo lúteo, que, por sua vez, produz progesterona, hormônio que auxiliará no sucesso das etapas iniciais da gestação. Apesar de sua semelhança a outros hormônios, como o LH e o FSH, o hCG pode ser medido em amostras de soro sem que esses hormônios interfiram na dosagem. Explique como é possível realizar a detecção de hCG sem a interferência desses hormônios. 3 Cite uma vantagem e uma desvantagem da execução de testes de gravidez em amostras de urina. 4 Considere o texto a seguir:O hCG é um hormônio que tem importante papel como marcador sorológico indicativo de ____________. Contudo, existem condições clínicas que também geram aumento da concentração de hCG na circulação sanguínea como ___________, por exemplo. Esta condição ______________. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) Massa tumoral – mola hidatiforme – corresponde a uma doença trofoblástica gestacional. b) ( ) Mola hidatiforme – gestação – corresponde a uma doença trofoblástica gestacional. c) ( ) Gestação – mola hidatiforme – corresponde a uma doença trofoblástica gestacional. d) ( ) Doença trofoblástica gestacional – gestação – mola hidatiforme. 68 5 O teste que detecta, seletivamente, a presença do hCG e é usado como diagnóstico de gravidez. Reagentes imunológicos secos são dispostos em uma membrana e reagem à medida que as amostras migram. Considerando o resultado válido indicativo de ausência de gestação, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Linha teste ausente e linha controle presente. b) ( ) Linha teste ausente e linha controle ausente. c) ( ) Linha teste presente e linha controle presente. d) ( ) Linha teste presente e linha controle ausente. 69 TOXOPLASMOSE UNIDADE 2 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO A toxoplasmose integra um grupo de doenças infecciosas investigadas durante o período pré-natal. Por ser uma doença que, na maioria dos infectados, é assintomática, pode trazer grandes prejuízos ao desenvolvimento fetal. É essencial identificar se a gestante foi infectada, e se ela está no estágio agudo ou crônico da infecção. Por isso, surgem questões como quem é o agente infeccioso por trás de uma doença que pode acarretar prejuízos ao feto, como evitar a contaminação por esse agente infeccioso, como os imunoensaios podem auxiliar o corpo clínico na identificação dessa condição e qual o estado imunológico da paciente. A seguir, descobriremos mais sobre as dinâmicas relacionadas à toxoplasmose e sua importância no contexto gestacional. 2 TOXOPLASMOSE A toxoplasmose é uma doença causada por um protozoário chamado Toxoplasma gondii, que infecta a maioria das espécies endotérmicas, incluindo os seres humanos. Os únicos hospedeiros definitivos para Toxoplasma gondii são os membros da família Felidae (que compreende principalmente os gatos domésticos). • Animais endotérmicos: utilizam todo o calor que produzem internamente para manter a temperatura corporal estável. É importante lembrar que o corpo depende de uma série de reações químicas que dependem de uma temperatura ideal. Por termos a capacidade de manter a nossa temperatura estável, nossas reações podem ocorrer e a homeostase é mantida. • Protozoário: microrganismos compostos por apenas uma célula, dotado de núcleo, e que precisam de outros seres vivos para obter nutrição. • Hospedeiros definitivos: são seres em que o toxoplasma é capaz de se amadurecer e passar por reprodução sexuada. • Hospedeiros intermediários: são seres em que o toxoplasma é capaz de se reproduzir apenas de forma assexuada. • Ciclo heteróxeno: é um ciclo que necessita de um ou mais hospedeiros intermediários. NOTA 70 2.1 CICLO BIOLÓGICO O ciclo de vida do parasita é heteroxeno, caracterizado por diversas etapas, sendo que o T. gondii estará presente de diferentes maneiras, chamados de estágios evolutivos (Figura 4): • Taquizoítos: também chamados de trofozoítos, essa forma evolutiva ocorre na infecção aguda. Como o próprio nome indica (taqui- = “rápido” em grego), é uma forma evolutiva que se reproduz rapidamente dentro de diversos tipos celulares e nas células epiteliais (exceto aquelas pertencentes ao trato gastrointestinal) do hospedeiro intermediário. Sua multiplicação acontece por endodiogenia, que é um modo especializado de multiplicação assexuada, no qual duas células-filhas são formadas dentro da célula-mãe. Ao fim da reprodução, a membrana plasmática da célula hospedeira é rompida, o que permite que os novos parasitas cheguem ao meio extracelular e, a partir daí, passem a se disseminar pela corrente sanguínea e pelo sistema linfático para outros tecidos (SOUZA et al., 2014). • Oocistos: são as formas infectantes do T. gondii, resultado do ciclo sexuado do parasita que ocorre no epitélio gastrointestinal dos felinos. São liberados no meio externo pelas fezes. • Bradizoítos: também conhecidos como merozoítos, são formas evolutivas de reprodução lenta (bradi- = lento, em grego), que aparecem dentro de cistos teciduais. Os bradizoítos utilizam o cisto como um artifício de proteção contra a resposta imune. De acordo com Souza e Belfort Jr. (2014, p. 35), “embora os cistos teciduais se desenvolvam em diversos órgãos como pulmões, fígado e rins, eles são prevalentes nos tecidos muscular e nervoso, incluindo o cérebro, olhos e músculos esquelético e cardíaco”. Os cistos teciduais podem permanecer latentes por toda a vida do hospedeiro sem causar uma resposta inflamatória ou imunológica, evitando, assim, sua destruição. Durante o curso da infecção, os cistos teciduais podem romper-se, e com a diferenciação de bradizoítas em taquizoítas (conversão), reinvadem outras células hospedeiras e se rediferenciam em bradizoítas (interconversão), formando um novo cisto tecidual (SOUZA; BELFORT JR., 2014, p. 35). FIGURA 4 – FORMAS EVOLUTIVAS DO TOXOPLASMA GONDII: OOCISTO 1000X (1); TAQUIZOÍTOS LIVRES 1000X (2); E CISTO COM BRADIZOÍTOS 1000X (3) FONTE: Hornink et al. (2013, p. 86) A B C 71 Para facilitar a compreensão de cada etapa do ciclo de vida do T. gondii, o Quadro 1 descreve o significado dos números apresentados na Figura 5 (CDC, 2020). FIGURA 5 – CICLO DE VIDA DO TOXOPLASMA GONDII FONTE: <https://www.nanocell.org.br/toxoplasmose-a-culpa-e-dos-gatos/>. Acesso em: 21 jan. 2021. 72 QUADRO 1 – ETAPAS DO CICLO DE VIDA DO TOXOPLASMA GONDII FONTE: CDC (2020) (1) Apesar da eliminação dos oocistos produzidos ocorrer somente após 1 a 3 semanas, um grande número deles é eliminado nas fezes de gatos. No ambiente, os oocistos levam de 1 a 5 dias para esporular e se tornar infectantes. (2) Estágio em que os hospedeiros intermediários presentes na natureza se tornam infectados após ingerir solo, água ou plantas contaminadas com esses oocistos. (3) Após a ingestão, os oocistos originam taquizoítos nos enterócitos (intestino). Essa forma evolutiva localiza-se, predominantemente, no tecido nervoso e muscular, e forma cistos tissulares denominados bradizoítos. (4) Os gatos se tornam infectados após consumir hospedeiros intermediários, como roedores que contenham bradizoítos. Além disso, também podem ser infectados diretamente pela ingestão de oocistos esporulados. (5) Animais criados para consumo humano também podem ser infectados após ingestão de oocistos esporulados no ambiente. (6) Os humanos podem ser infectados pela ingestão de carnes malcozidas contendo bradizoítos. (7) Os humanos podem ser infectados pelo consumo de alimentos e/ou água contaminados com fezes de gatos ou oriundos de solo contaminado. (8) Os humanos podem ser infectados via transplante de órgãos ou transfusão sanguínea (mais raro). (9) Os humanos podem ser infectados via transplacentária, ou seja, a infecção presente na mãe passa para o feto. Com base nas etapas descritas sobre o ciclo de vida do T. gondii, é possível compreender como podemos prevenir a infecção por este parasita. Assim, os cuidados profiláticos estão relacionados a evitar beber água não tratada, usar luvas ao realizar jardinagem ou qualquer tipo de contato com o solo ou areia, ensinar as crianças a importância da lavagem de mãos na prevenção de infecções, manter caixas de areia externas cobertas (uma vez que gatos podem defecar nelas), alimentar gatos apenas com rações ou alimentos bem cozidos, não forneceralimentos crus ou com pouco cozimento aos gatos, manter a liteira (caixa de areia do gato) higienizada diariamente. 2.2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A toxoplasmose na maior parte dos infectados pode permanecer assintomática ao longo de maior parte da vida. Contudo, pacientes infectados que apresentam manifestações clínicas podem ter características diferentes. Pacientes saudáveis, que não estão em período gestacional, estão propensos a não apresentar sintomas, uma vez que o sistema imune impede que o parasita se mul- tiplique e gere maiores prejuízos ao organismo. Caso existam sintomas, eles se asseme- lham a sintomas gripais, com a presença de linfonodos inchados e dores musculares. Esses sintomas podem durar de semanas a meses e desaparecer, o que ainda não é indicativo de cura, mas, sim, de que o parasita está em estado inativo. A reativação da doença pode ocorrer quando o paciente apresentar quadro de imunodepressão. 73 É fundamental compreendermos a diferença entre pacientes imunodeprimidos e imunossuprimidos. Para isso, apresentaremos um trecho de um texto da Revista de Medicina Tropical, justamente sobre a diferença entre esses conceitos. Os dois termos têm sido empregados indistintamente para caracterizar a deficiência do sistema imunitário. Embora tenham o mesmo fundamento semântico, como termos médicos não devem ser considerados sinônimos. Quando devemos empregar um ou outro? Define-se imunodepressão como um estado de deficiência do sistema imunitário para, normalmente, responder aos agentes agressores. A imunodepressão pode ser primária e secundária ou adquirida. É primária quando dependente de fatores genéticos hereditários que afetam o processo de defesa imunológica, causando maior susceptibilidade às infecções, geralmente por germes de baixa patogenicidade, bem como às doenças autoimunes e às neoplasias. Na maioria das vezes, manifesta-se na infância. A forma adquirida, como o próprio nome indica, se deve a um fator externo que afeta o sistema imunológico e é exemplificada pela síndrome da imunodeficiência adquirida causada pelo vírus HIV-1; apresenta igualmente grande susceptibilidade às infecções por germes oportunistas e ao aparecimento de neoplasias. Imunossupressão é o ato de reduzir deliberadamente a atividade ou eficiência do sistema imunológico. A imunossupressão é feita, usualmente, para coibir a rejeição em transplantes de órgãos ou para o tratamento de doenças autoimunes como lúpus, artrite reumatoide, esclerose sistêmica, doença inflamatória intestinal, entre outras. Para fazê-la, recorre-se, normalmente, a medicamentos, mas também podem ser utilizados outros métodos, como plasmaferese ou radiação. Com o sistema imunológico praticamente desativado, o indivíduo imunossuprimido fica vulnerável a infecções oportunistas. FONTE: REZENDE, J. M. Imunodepressão, Imunossupressão. Revista de Patologia Tropical, v. 40, n. 2, p. 199-201, 2011. IMPORTANTE No que se refere às gestantes, saber o período em que a infecção ocorreu é importante para entender os possíveis prejuízos ao feto. De modo geral, em mulheres infectadas antes do período gestacional, a toxoplasmose oferece menores riscos ao feto, uma vez que a gestante já desenvolveu imunidade. Por outro lado, no caso de mulheres infectadas pouco tempo antes, ou mesmo ao longo da gestação, existe grande risco de infecção congênita, ou seja, da doença ser transmitida da mãe para o feto. A severidade de danos ao feto é maior quão mais próximo ao início da gestação a infecção congênita tiver ocorrido. São consequências ao feto na toxoplasmose congênita no período gestacional (WALCHER; COMPARSI; PEDROSO, 2014): • aborto; • nascimento prematuro; • redução ou aumento da cabeça do feto. 74 Além desses eventos, quando o recém-nascido não apresenta sintomas ao nascer, ainda assim ele pode desenvolver, posteriormente, condições clínicas como perda de visão, deficiência mental e convulsões. 2.3 LABORATÓRIO CLÍNICO NA TOXOPLASMOSE A investigação laboratorial da toxoplasmose é fundamentada na pesquisa sorológica de anticorpos produzidos contra o T. gondii, em que cada tipo de anticorpo pode fornecer diferentes informações à equipe médica. As principais imunoglobulinas (anticorpos) pesquisadas são das classes IgM e IgG, específicas para T. gondii. Sua aplicação na clínica permite identificar, de modo genérico, se a infecção está em fase aguda ou crônica. Além dessas imunoglobulinas, também podem ser utilizadas como instrumento diagnóstico as das classes IgA e IgE para compreender com maior clareza o período de infecção. No período gestacional, a investigação de anticorpos IgM e IgG para toxoplasmose é tão importante que já faz parte dos exames de triagem solicitados por serviços de saúde, tanto públicos quanto privados, que realizam acompanhamento pré-natal. A determinação desses anticorpos no soro da paciente auxilia na compreensão de qual é sobre o estágio da toxoplasmose pelo qual a gestante está passando, porque os anticorpos auxiliam a traçar uma espécie de “linha do tempo” da infecção (Figura 6). Isso porque o aumento e a redução das concentrações de cada anticorpo variam de acordo com a evolução da doença (Quadro 2). QUADRO 2 – RELAÇÃO ENTRE AS DIFERENTES CLASSES DE ANTICORPOS ANTI-TOXOPLASMA GONDII E O PERÍODO DE INFECÇÃO Anticorpo anti-Toxoplasma gondii Período de detecção IgM Detectável no soro da paciente em até duas semanas após a infecção, podendo atingir seu pico de concentração em até um mês após a infecção. IgA Detectável em mais da metade dos pacientes após 15 dias de infecção, permanecendo presente na corrente sanguínea de 3 a 6 meses. IgE Detectável, majoritariamente, nos 4 primeiros meses após a infecção IgG Detectável entre a primeira e segunda semana pós-infecção, apresentando pico de concentração aproximadamente 2 meses após a infecção. Nesse período inicial, os anticorpos IgG produzidos possuem baixa avidez, ou seja, baixa força da ligação entre o anticorpo IgG anti-Toxoplasma gondii e o parasita. A partir do 4° mês de infecção, os anticorpos IgG passam a apresentar aumento gradativo de sua força de interação (avidez) ao T. gondii. FONTE: O autor 75 Para compreender com maior clareza o momento imunológico de uma paciente que apresenta anticorpos anti-Toxoplasma gondii, é importante não avaliar os anticorpos isoladamente, pois é a variação desse conjunto de anticorpos que confere ao médico clareza no entendimento do estágio evolutivo da toxoplasmose. A triagem básica solicitada pelos serviços de saúde compreende a solicitação de anticorpos IgM e IgG anti-Toxoplasma gondii. É a partir dos resultados obtidos nesses exames que o médico começa a entender a situação da paciente e, caso ainda exista alguma dúvida, ele pode solicitar a dosagem de outros anticorpos como IgA e IgE ou teste de avidez para IgG. A seguir, apresentamos um trecho de uma matéria do laboratório Pró Exame sobre o teste de avidez para IgG, uma prova imunológica muito importante para a compreensão do estágio imunológico da paciente: Avaliando a avidez de anticorpos IgG A avaliação da avidez da IgG assume grande relevância em situações de dilema diagnóstico, especialmente em gestantes, para avaliar o tempo de infecção em doenças como toxoplasmose, rubéola e citomegalovirose. O conceito de “avidez” refere-se à força da ligação depois da formação dos complexos antígeno-anticorpo reversíveis. Resulta de interações múltiplas entre uma molécula de anticorpo e os epítopos de um antígeno complexo. Quanto mais sítios de ligação tiver um anticorpo, maior a avidez. A propriedade de avidez do anticorpo se acentua no decorrer da resposta imunológica, notadamente para imunoglobulinas da classe IgG, cuja produção segue à das imunoglobulinas da classe IgM. Desse modo, a avidez é diretamente proporcional ao tempo de infecção. Esse conhecimento tem sido amplamente utilizado emtestes imunoenzimáticos que avaliam a avidez da IgG em resposta a agentes infecciosos e a relação com o tempo de infecção. A utilidade do teste de avidez: a avaliação da avidez da IgG assume grande relevância em situações de dilema diagnóstico, especialmente em gestantes com presença de anticorpos IgM, para investigação de toxoplasmose, rubéola e citomegalovirose. Na primo-infecção, o tratamento precoce é essencial para reduzir o risco de transmissão ao feto ou reduzir as sequelas. Nessa fase, a resposta antigênica primária é baixa e a avidez dos anticorpos aumenta com o amadurecimento do sistema imunológico. Para ler mais, acesse: http://www.proexame.com.br/painel/informativos/ images/MzY=/lab.com%20agosto%20%202015-%20Avidez%20de%20 anticorpos%20IgG.pdf.pdf. IMPORTANTE 2.3.1 Infecção recente Quando a paciente apresenta parasitemia (presença de parasitas na corrente sanguínea) ao longo das primeiras semanas de infecção. Nesse período, a gestante pode apresentar no sangue anticorpos anti-Toxoplasma gondii do tipo IgM em maiores concentrações, IgA, IgE e IgG de baixa avidez. 76 FIGURA 6 – DIAGNÓSTICO SOROLÓGICO DA TOXOPLASMOSE FONTE: <http://www.proexame.com.br/painel/informativos/images/MzY=/lab.com%20agosto%20%20 2015-%20Avidez%20de%20anticorpos%20IgG.pdf.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2021. Dias Semanas Meses Infecção secundária ou reativação Infecção Primária Início dos Sintomas IgG Avidez Estímulo 'Antigênico IgM IgG 2.3.2 Transição imunológica Conforme a infecção evolui, o sistema imune passa a criar defesas para combater o T. gondii. Assim, é possível encontrar no sangue do paciente anticorpos específicos IgM em concentrações reduzidas, em relação ao estágio anterior, e concentrações elevadas de IgG que, nesse momento, apresentam avidez crescente. 2.3.3 Infecção latente ou crônica Trata-se de um período de evolução relativamente lento, em que o principal marcador sorológico é a presença de anticorpos IgG de alta avidez em concentrações baixas, permanecendo dessa forma ao longo da vida da paciente. Esses anticorpos de alta avidez são moléculas que apresentam uma resposta de defesa mais efetiva. Essa eficácia se deve à capacidade que o IgG de alta avidez possui de interagir e ligar-se à diversos epítopos antigênicos, resultando em maior força na ligação estabelecida entre antígeno e anticorpo (MITSUKA-BREGANÓ; LOPES-MORI; NAVARRO, 2010). É importante lembrar que, toda vez que um imunoensaio detecta anticorpos relacionados a um antígeno específico no sangue, estamos utilizando uma metodologia indireta. Isso significa que precisamos que nosso sistema imune apresente uma resposta diante do antígeno para que possamos compreender se existiu ou não determinada infecção. Assim, dependemos do tempo que cada indivíduo, de acordo 77 com seu estado imunológico, consegue reagir aos antígenos com os quais entra em contato. Esse tipo de metodologia não dá uma resposta definitiva, mas, sim, um panorama das dinâmicas imunológicas que estão acontecendo naquele momento em que a amostra do paciente é coletada (SOUZA; BELFORT JR., 2014). É importante conhecer as principais metodologias utilizadas para detectar os anticorpos da toxoplasmose, uma vez que cada uma delas contém vantagens e desvantagens relacionadas a sua especificidade e sensibilidade, bem como possíveis moléculas presentes na amostra, que podem interferir nos resultados dos testes, reduzindo sua capacidade de indicar as reais interações imunológicas do paciente. Nesse momento, os princípios das técnicas não serão abordados – o Tópico 4 abordará os aspectos metodológicos das técnicas aqui indicadas. Por ora, citaremos as metodologias utilizadas e possíveis particularidades de cada uma apresenta na detecção de anticorpos anti-Toxoplasma gondii. Caro acadêmico, aproveite esse momento para revisar conceitos de sensibilidade e especificidade. • Sensibilidade: menor concentração da ligação antígeno-anticorpo que o imunoensaio é capaz de detectar. Quanto maior a sensibilidade do teste, menores as concentrações que ele é capaz de quantificar. Assim, um teste com alta sensibilidade é um teste que irá quantificar melhor a proporção de indivíduos doentes. Portanto, um teste com alta sensibilidade é aquele com menor chance de apresentar resultados falso-negativos. • Especificidade: indica a capacidade de um teste de identificar os indivíduos que não possuem a doença ou condição clínica investigada. Dessa forma, quanto maior for a especificidade de um teste, menor o número de pacientes com resultado falso-positivo. IMPORTANTE Uma das metodologias mais utilizadas na rotina laboratorial é o ELISA (sigla do inglês enzyme linked immunosorbent assay), que é um ensaio imunoenzimático. Essa técnica é comumente utilizada para detecção de anticorpos IgM e IgG anti-Toxoplasma gondii, embora seja importante ressaltar que existe a possibilidade de resultados falso- positivos para IgM, porque pacientes com fator reumatoide no soro podem interagir com os reagentes utilizados. 78 Para facilitar a visualização e a compreensão da técnica de ELISA, assista a seguinte animação, desenvolvida pelo canal Open Michigan: https://youtu.be/RRbuz3VQ100. GIO Além do ELISA, também é possível utilizar a técnica chamada MEIA (sigla para Microparticle Enzyme Immunoassay), para realizar a determinação quantitativa IgG e IgM anti-Toxoplasma. Nessa técnica, as amostras de soro ou plasma são tratadas com tampão que neutraliza fator reumatoide (FR), removendo, assim, a possível interferência gerada por esse complexo antígeno-anticorpo, evitando resultados falso-positivos para IgM (COSTA, 2007). Fator reumatoide (FR) é um autoanticorpo que interage com a região Fc de IgGs, ou seja, ele se liga em na sua porção “Fc”, que é uma porção que não se altera nos anticorpos. IMPORTANTE 79 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • A toxoplasmose é causada por um protozoário chamado Toxoplasma gondii, que utiliza seres humano e outros animais como hospedeiro intermediário, tendo felídeos como hospedeiros definitivos. • O Toxoplasma gondii tem ciclo de vida heteroxeno, caracterizado por diversas etapas, e que apresenta diferentes formas, chamadas de estágios evolutivos, em que o parasita se apresenta como oocisto, bradizoíto e taquizoíto. • A maior parte dos pacientes apresenta infecção assintomática. Contudo, pacientes com a imunidade fragilizada podem apresentar manifestações clínicas. • Quanto mais próximo do primeiro trimestre de gestação a infecção ocorrer, maior a probabilidade de severidade de danos ao feto. Aborto, nascimento prematuro e redução ou aumento da cabeça do feto são exemplos das consequências da toxoplasmose congênita no período gestacional. • A investigação laboratorial da toxoplasmose é fundamentada na pesquisa de anticorpos contra o Toxoplasma gondii, produzidos pelo sistema imunológico, quando em contato com o parasita. Nessa pesquisa, cada tipo de anticorpo pode fornecer diferentes informações sobre a evolução da doença. • Os principais anticorpos pesquisados são IgM e IgG, porém, também podem ser pesquisados IgA e IgE todos os específicos contra o T. gondii. • A combinação da interpretação dos anticorpos pesquisados pode indicar ao médico se a gestante está passando por uma infecção recente, uma transição imunológica ou uma infecção latente. • ELISA e MEIA são alguns dos principais imunoensaios utilizados no diagnóstico e no controle da toxoplasmose. RESUMO DO TÓPICO 2 80 AUTOATIVIDADE 1 A toxoplasmose é uma doença causada por um protozoário chamado de Toxoplasma gondii, que infecta a maioria das espécies endotérmicas, incluindo os seres humanos. Assinale a alternativa INCORRETA:a) ( ) É causada pela bactéria chamada de Toxoplasma gondii. b) ( ) Gera mais prejuízos em pacientes imunodeprimidos. c) ( ) Em imunocompetentes, é predominantemente assintomática. d) ( ) Quando adquirida no primeiro trimestre de gestação, pode gerar sérios prejuízos no desenvolvimento do feto. 2 Sobre o Toxoplasma gondii e seu ciclo de vida, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) O Toxoplasma gondii é um parasito capaz de infectar praticamente qualquer animal de sangue quente. ( ) Os hospedeiros definitivos do Toxoplasma gondii são os cães e os roedores, ocorrendo a sua reprodução sexuada no intestino desses animais. ( ) Os taquizoítos são a forma infectante na fase ativa da doença. ( ) Após cerca de 10 dias da primeira infecção, o hospedeiro intermediário elimina nas fezes milhões de oocistos contendo esquisoporozoítos. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – V – F. b) ( ) V – V – F – V. c) ( ) V – F – V – F. d) ( ) F – V – V – F. 3 Cite os estágios evolutivos do toxoplasma e explique suas características. 4 A toxoplasmose causada pelo Toxoplasma gondii adquire especial relevância quando infecta gestantes, devido ao elevado risco de prejuízos potenciais ao feto. Assim, o Ministério da Saúde indica que todas as gestantes passem por investigação de anticorpos da classe IgG e IgM desde o início do acompanhamento pré-natal. Sobre a detecção de anticorpos IgM e IgG, assinale a alternativa CORRETA: ( ) A detecção de imunidade vacinal contra toxoplasma é identificada pela presença de anticorpos de IgG de alta avidez. ( ) A detecção de anticorpos de IgG de baixa avidez no início da gestação é indicativo de bom prognóstico. ( ) A detecção de IgG reagente e IgM reagente é confirmatório de infecção prévia à gestação, o que indica proteção fetal. ( ) Resultados sorológicos que não especificam se a infecção é aguda têm indicação de realização de teste de avidez de IgG. 5 Explique qual a importância dos testes de avidez IgG para toxoplasmose. 81 TÓPICO 3 — CITOMEGALOVÍRUS E RUBÉOLA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Além da toxoplasmose, vimos que a investigação de anticorpos para citomega- lovírus e rubéola também integra o grupo de exames solicitados no período pré-natal. Esses vírus têm especial importância pelo potencial prejuízo que podem causar ao feto, uma vez que as mães infectadas que podem não apresentar quaisquer sintomas, como é o caso do citomegalovírus. Nesse sentido, todos os esforços diagnósticos são volta- dos principalmente para proteger o feto e permitir que ele se desenvolva sem qualquer efeito deletério. Neste tópico, apresentaremos as características do vírus da rubéola e do citomegalovírus, a fim de conhecer suas características, suas possíveis interferências no desenvolvimento fetal e como é realizado o diagnóstico laboratorial. 2 CITOMEGALOVÍRUS O citomegalovírus (CMV) é um vírus que pertence à família herpesviridae, sendo considerado um herpesvírus humano. De acordo com Stephens et al. (2015, p. 54), “O nome da família vem de um verbo grego herpein, que significa ‘rastejamento’”, logo, refere-se ao fato de os membros da família causarem infecções latentes recorrentes com progressão lenta. Por isso, também pode ser encontrado na literatura como herpesvírus humano tipo 5 (HHV-5). Os agentes virais pertencentes a esse grupo possuem algumas características que merecem destaque, como: • Latência: quando o vírus continua no organismo, sem que o hospedeiro apresente sintomas clínicos relacionados a ele. • Recorrência: quando o vírus pode gerar manifestações clínicas novamente. • Cronicidade: quando a infecção viral é passível de tratamento, porém sem que o paciente se cure. Quando o CMV infecta pacientes imunocompetentes, ou seja, pacientes que estão com o sistema imune funcionando normalmente, na maioria dos casos, não ocorre o aparecimento de sintomas. Existem diferentes vias de infecção, mas nenhuma delas envolve hospedeiro intermediário, pois o único hospedeiro é o ser humano. A transmissão do CMV pode ocorrer de forma (FERREIRA; MORAES, 2013): 82 • Adquirida: infecção por transmissão horizontal, fora do período neonatal. Os principais fluídos transmissores de CMV são a saliva e a urina. Assim, em locais com condições precárias de higiene, a infecção por CMV é mais comum e ocorre de modo mais precoce. Além disso, é possível que a transmissão do CMV ocorra por via sexual. • Perinatal: infecção durante o parto ou pela amamentação. Tanto as secreções com as quais o recém-nascido tem contato quanto o leite podem estar contaminados com CMV. Trata-se de um tipo de infecção que oferece menos riscos ao recém-nascido, uma vez que a maioria dos infectados não apresenta sintomas. • Congênita: das transmissões congênitas, o CMV é a infecção mais comum. Além da maior ocorrência em grupos em condições socioeconômicas de vulnerabilidade, outro fator que favorece essa capacidade de contaminação é que, mesmo que a mãe tenha sido infectada antes de engravidar, ainda assim o CMV consegue infectar o feto. Isso se dá pela capacidade de reativação do CMV que está latente na mãe. Apesar disso, o maior risco de recém-nascidos com manifestações clínicas relacionadas aos CMV congênito são casos em que a mãe foi infectada durante o período gestacional. No caso da infecção congênita, o recém-nascido pode apresentar como manifestações clínicas surdez neurossensorial, microcefalia, hepatoesplenomegalia e calcificações que resultam em retardo no desenvolvimento. Acadêmico, ao longo dos conteúdos apresentados, podemos perceber que novos conceitos surgem. É importante que você saiba diferenciá-los com clareza. Por isso, precisamos relembrar das diferenças entre os conceitos de reinfecção e reativação: • Reinfecção: quando um paciente contrai a doença, se cura totalmente, entra em contato novamente com o patógeno e fica doente novamente. • Reativação: quando o paciente trata a doença, mas o patógeno não desaparece do organismo (permanece incubado) e, frente a um quadro de imunossupressão ou imunodepressão, o patógeno gera novas mani- festações clínicas. IMPORTANTE Além disso, é primordial conhecermos como esse vírus se comporta no organismo de seu hospedeiro: após a infecção primária, o CMV pode ficar em um intervalo que varia de 1 a 3 meses sem que o indivíduo apresente sinais e sintomas. Esse intervalo recebe o nome de período de incubação (MATTOS; MEYER; LIMA, 2011). Em pacientes com o sistema imune saudável, o CMV é destruído por células T citotóxicas direcionadas para atacar esse vírus, além da produção de anticorpos IgM antiCMV e IgG antiCMV, importantes biomarcadores sorológicos, conforme veremos a 83 seguir. Dessa forma, a infecção é contida e o paciente pode apresentar sintomas leves ou até mesmo nenhum sintoma. Algumas das possíveis manifestações clínicas são (MATTOS; MEYER; LIMA, 2011): • febre prolongada; • sudorese; • hepatomegalia; • dor muscular; • fraqueza. Em pacientes com sistema imunológico debilitado, a primo-infecção ou reativação do CMV está atrelada a manifestações clínicas mais graves, como a coriorretinite, pericardite e miocardite. A contar pela gravidade das manifestações clínicas, tanto em recém-nascidos quanto em pacientes com imunidade prejudicada, é possível compreender que o exame laboratorial é uma ferramenta muito relevante, tanto para obter diagnóstico inicial de CMV quanto para acompanhamento da evolução e tratamento de eventuais reativações do CMV (MATTOS; MEYER; LIMA, 2011). 2.1 LABORATÓRIO CLÍNICO APLICADO AO CITOMEGALOVÍRUS Os imunoensaios aplicados à investigação do CMV são baseados na pesquisa sorológica de anticorpos específicos para CMV. Assim como na toxoplasmose, os anticorpos utilizados,quando avaliados em conjunto, fornecem elementos a respeito da infecção. Dada à característica de reativação do CMV, os marcadores sorológicos permitem também compreender se o paciente está passando por um episódio de reativação viral, como resultado de uma fase de maior vulnerabilidade imunológica. Nesse contexto, a detecção de anticorpos IgM e IgG antiCMV corresponde a um dos principais instrumentos diagnósticos para compreender o estágio desta infecção. Em pacientes com idade igual ou superior a um ano (quando os anticorpos maternos não estão mais presentes na circulação), a detecção de anticorpos IgG antiCMV indica que houve infecção em algum momento da vida, porém não determina quando ocorreu esta infecção. Os anticorpos IgM antiCMV podem ser detectados no soro da gestante a partir da segunda semana de infecção, podendo permanecer detectável no sangue por até 18 meses. O IgM antiCMV também pode ser detectado em casos de reativação do vírus, o que também enfraquece a ideia de que paciente positivo para esse anticorpo está necessariamente passando pela fase aguda de uma primeira infecção. Nesse caso, pode-se pensar na detecção de IgM antiCMV como um alerta para que outros exames sorológicos sejam solicitados para esclarecer o estágio da infecção. 84 Se a detecção de IgM não é confirmatória para infecção recente nem a IgG pode confirmar isso, para evidenciar com clareza se a presença de IgM antiCMV corresponde a uma infecção primária, é indicado que sua interpretação seja combinada com a avaliação da avidez de IgG antiCMV. Assim, quando uma paciente possui anticorpos IgM contra o CMV e anticorpos IgG com baixa avidez, temos resultados confiáveis que evidenciam infecção primária. A sorologia para IgG e IgM é comumente realizada pelo ensaio imunoenzimático ELISA. No caso desses ensaios, a presença de fator reumatoide e outros herpesvírus pode gerar reações cruzadas e, com isso, resultados falso-positivos. Além disso, o aumento da sensibilidade das metodologias, com o avanço tecnológico, permite que IgM antiCMV sejam detectados por meses após a fase inicial em que sua produção foi estimulada, o que pode ser um eventual fator de confusão no momento da interpretação desses resultados. 3 RUBÉOLA A rubéola é uma doença causada por um vírus que pertence à família togaviridae, chamado de rubivírus. Os seres humanos são os únicos hospedeiros desse vírus, que se dissemina por via respiratória, a partir de secreções nasofaríngeas contaminadas. De acordo com Costa et al. (2013, p. 48): Seu período de incubação pode variar entre 14 e 21 dias (média de 17 dias). A maior transmissibilidade é observada no período entre sete dias antes do surgimento do exantema característico da doença, até o sétimo dia após o seu desaparecimento. O vírus invade o epitélio respiratório e se dissemina por viremia primária. Após replicação no sistema reticuloendotelial, há uma viremia secundária, podendo então ser isolado a partir de monócitos do sangue periférico. Em indivíduos com a imunidade preservada, trata-se de uma infecção benigna e autolimitada, ou seja, evolui apresentando começo, meio e fim, e pode terminar sem tratamento. Quando sintomática, a rubéola pode apresentar (COSTA et al., 2013): • febre baixa; • nódulos e gânglios linfáticos inchados na nuca, pescoço e atrás das orelhas; • mal-estar; • cefaleia; • coriza; • dores músculo-articulares. 85 Nesse momento, pode surgir a dúvida: se é uma doença benigna e autolimitada, qual sua relevância na gestação? A rubéola é uma doença infectocontagiosa muito importante associada ao período gestacional. Em gestantes, pode ocorrer a síndrome da rubéola congênita. Trata-se de uma condição desafiadora para a equipe médica, uma vez que não possui tratamento específico. Por não possuir tratamento, o acometimento de gestantes pelo vírus da rubéola pode apresentar sequelas relevantes, conforme descrito por Costa et al. (2013, p. 47): Esse, um vírus do gênero Rubivírus, determina em geral infiltrado inflamatório mononuclear e necrose nas porções maternas e fetais da placenta, bem como esclerose do endotélio vascular placentário e do concepto em formação. Há especial tropismo pelos tecidos ricamente vascularizados além dos derivados da porção ectodérmica do disco embrionário, como o Sistema Nervoso Central. Assim, quando precoce, a infecção (durante o primeiro trimestre de gestação) resulta em anomalias de diversos órgãos, sendo clássica, porém não patognomônica, a tríade de má formação cardíaca, catarata e surdez. A prevenção é um tópico sempre relevante. Para abordar esse assunto, apresentamos a matéria do laboratório Hermes Pardini Rubéola: como prevenir? A vacinação é a melhor forma de se prevenir Existem duas formas de se tornar imune à doença: por infecção natural ou por meio da vacinação, que dura por quase toda a vida. Além disso, a vacina contra a rubéola é o meio mais seguro e eficaz de prevenir a doença, sendo eficiente em quase 100% dos casos. Por fim, as pessoas que não tomaram a vacina ou o seu reforço na infância podem se imunizar durante qualquer fase da vida, com exceção do período da gravidez ocorre porque a vacina contra rubéola pode levar ao aborto ou malformações no bebê, como sinalizamos anteriormente. LEMBRETE: Filhos de mães imunes geralmente permanecem protegidos por anticorpos maternos em torno de seis a nove meses após o nascimento. Existem dois tipos de vacinas: • Vacina tríplice viral: protege contra três doenças causadas por vírus (sarampo, caxumba e rubéola). • Vacina tetra viral: protege contra quatro doenças causadas por vírus (sarampo, caxumba, rubéola e catapora). Acima de tudo, a vacina tríplice-viral faz parte do calendário básico de vacinação da criança e é administrada em forma de injeção, a partir de vírus atenuados contra a rubéola. IMPORTANTE 86 Então, quem deve se vacinar? • Pessoas de 6 meses a 49 anos de idade. • Pessoas de 12 meses a 29 anos precisam tomar a segunda dose após 30 dias de ter tomado a primeira dose. Esquema vacinal De acordo com a Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm), o esquema de vacinação brasileiro envolve a administração de duas doses. Dessa forma, o recomendado é que a primeira dose seja administrada logo após a criança completar um ano de idade, então, o tempo máximo recomendado é de até 15 meses de vida, podendo ser aplicada a partir dos seis meses. Nesses casos, geralmente, é aplicada a vacina tríplice viral. Assim, o ideal é administrar a segunda dose entre 4 e 6 anos, apesar de não haver limite de idade para a aplicação desta dose. Para continuar a sua leitura, acesse: http://hermespardini.com.br/ blog/?p=395. É importante ressaltar que, a gravidade das anomalias resultantes da rubéola congênita é maior quando a infecção ocorre nos estágios iniciais da gestação. Isso porque, nesse estágio, o feto fica mais vulnerável por estar em estágios iniciais de formação de suas estruturas. Nesse contexto, é importante que a infecção seja investigada e o status imunológico da gestante, perante essa infecção, seja detectado e acompanhado. Assim, o laboratório clínico é um importante aliado da equipe médica. 3.1 LABORATÓRIO CLÍNICO APLICADO À RUBÉOLA A contar pela presença de sintomas leves e inespecíficos da rubéola, que podem ser facilmente confundidos com outras doenças, como sarampo, dengue, enteroviroses e rickettsioses, o laboratório é fundamental para confirmar ou descartar casos de rubéola. Assim, o principal instrumento diagnóstico para isso é a detecção de anticorpos IgM e IgG. A presença de anticorpos IgM específicos para o vírus da rubéola apresenta seu pico de concentração sanguínea poucos dias após o estabelecimento da infecção, com redução a partir da 6ª semana pós-infecção. Apesarde representar um indicativo de infecção em estágio agudo, é importante ressaltar que a evolução das metodologias para detecção de IgM apresentou aumento na sensibilidade desse teste, o que permite que este anticorpo seja detectado mesmo após a fase aguda, porém em baixas concentrações, o que pode causar dúvidas na interpretação dos resultados. 87 Além de fase aguda da primo-infecção, é possível encontrar anticorpos IgM em casos de reinfecção. Em casos que é sabido que houve infecção antes do período gestacional, a literatura indica que o feto não corre o risco de apresentar síndrome da rubéola congênita, não representando assim um problema no período gestacional. Caso não haja clareza se a presença de IgM refere a uma primo-infecção ou reinfecção, é indicada a solicitação do teste de avidez para IgG para rubéola. Assim, testes que indicam alta avidez para IgG representam que a infecção pelo vírus da rubéola ocorreu há mais de 3 meses. A detecção de anticorpos IgG para rubéola é possível entre o 10º e 20º dia da infecção, e aumenta rapidamente, com pico de concentração em até 10 semanas. A partir desse período, tende a reduzir gradativamente, sendo detectável ao longo de toda vida da paciente (BRITO et al., 2016). Quanto às técnicas utilizadas para detecção de anticorpos para rubéola, o ELISA constitui a principal metodologia para investigação desses anticorpos. Os ensaios imunoenzimáticos são utilizados devido a boa sensibilidade que apresentam. Dentro dos tipos de ELISA utilizados, destacamos o método de captura para IgM, e o método indireto para IgG uma vez que, de acordo com Ferreira e Moraes (2013, p. 151): O ELISA para a detecção de IgM-antirrubéola é o teste mais importante no diagnóstico da infecção primária materna e da rubéola congênita. A técnica de captura de IgM é a mais empregada por não apresentar reações falso-positivas ou falso-negativas, respectivamente, em amostras que apresentam o fator reumatoide e naquelas com excesso de IgG antirrubéola. No ELISA indireto, a presença do fator reumatoide da classe M em amostras positivas para IgG pode provocar resultado falso-positivo para IgM e constituir um problema importante, pois a prevalência desse fator é particularmente mais alta na rubéola congênita do que as infecções congênitas causadas por outros vírus. 88 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Citomegalovírus (CMV) é um vírus que pertence à família Herpesviridae, sendo considerado um herpesvírus humano. • A infecção por CMV desenvolve-se em três estágios: latência (vírus continua no organismo, sem que o hospedeiro apresente sintomas), recorrência (vírus pode gerar manifestações clínicas novamente) e cronicidade (vírus é passível de tratamento, porém sem que haja cura). • Em indivíduos imunocompetentes, o CMV é destruído por células T citotóxicas direcionadas para atacar este vírus, além da produção de anticorpos, IgM antiCMV seguido de IgG antiCMV. • IgG antiCMV indica que houve infecção em algum momento da vida, porém, não determina quando ocorreu esta infecção. • Quando paciente possui anticorpos IgM antiCMV e anticorpos IgG antiCMV com baixa avidez, temos resultados confiáveis que evidenciam infecção primária. • Rubéola é uma doença causada por um vírus que pertence à família Togaviridae, chamado rubivírus. • Os seres humanos são os únicos hospedeiros do vírus da rubéola, que se dissemina por via respiratória, a partir de secreções nasofaríngeas contaminadas. • Em indivíduos com a imunidade preservada, a rubéola é uma doença de infecção benigna e autolimitada. • A presença de anticorpos IgM para rubéola apresenta seu pico de concentração poucos dias após o estabelecimento da infecção, com redução a partir da 6ª semana pós-infecção. • Além de fase aguda da primo-infecção, é possível encontrar anticorpos IgM em casos de reinfecção. Para confirmar a reinfecção, recomenda-se o teste de avidez IgG para rubéola, que confirma esse quadro quando apresenta altas titulações. RESUMO DO TÓPICO 3 89 AUTOATIVIDADE 1 Os seres humanos são os únicos hospedeiros do rubivírus, que se dissemina por via respiratória, a partir de secreções nasofaríngeas contaminadas. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O Toxoplasma gondii é o agente etiológico da rubéola. b) ( ) A rubéola é uma doença que exige tratamento medicamentoso para que seja curada. c) ( ) A rubéola é uma doença benigna e autolimitada. d) ( ) A primo-infecção por rubéola em gestantes no primeiro trimestre não causa nenhum prejuízo ao desenvolvimento fetal. 2 Explique qual é a importância do teste de avidez IgG em investigações sorológicas. 3 Descreva os três estágios presentes na infecção por citomegalovírus. 4 Considerando investigações sorológicas para rubéola, os ensaios imunoenzimáticos (ELISA) são uma das principais metodologias para detectar anticorpos lgM e lgG antirrubéola e os testes de avidez para lgG. Analise as sentenças a seguir: I- A presença de IgG específica antivírus da rubéola, com alta avidez, em amostra de soro da paciente demonstra imunidade para a rubéola. II- Exposição prévia ao período gestacional de rubéola é diagnosticada pela presença apenas de IgM específica antivírus da rubéola numa amostra de soro da paciente. III- Títulos de anticorpos IgG específicos antivírus da rubéola, independentemente da avidez, progressivamente aumentados nos lactantes indicam proteção à infecção. IV- A infecção aguda de rubéola é diagnosticada pelo aumento dos títulos de IgG específica antivírus da rubéola, com baixa avidez. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) As sentenças I e IV estão corretas. c) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas. d) ( ) As sentenças II, III e IV estão corretas. 90 5 A infecção congênita por citomegalovírus tem, na maioria dos casos, recém-nascidos assintomáticos. Considerando a sequela tardia dessa infecção, que pode ser reduzida com o diagnóstico laboratorial precoce e terapia medicamentosa, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A calcificação parenquimatosa difusa. b) ( ) A microcefalia. c) ( ) A surdez. d) ( ) A coriorretinite multilateral. 91 TÓPICO 4 — METODOLOGIAS UTILIZADAS PARA DIAGNÓSTICO E PROGNÓSTICO DO PRÉ-NATAL UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Anteriormente, conhecemos as características relacionadas aos marcadores imunológicos investigados durante o período pré-natal, tanto para diagnóstico quanto para acompanhamento das pacientes. Para que esse acompanhamento ocorra, diferentes metodologias são utilizadas. Neste tópico, serão apresentadas as técnicas citadas ao longo desta unidade para compreendermos suas principais características. 2 IMUNOCROMATOGRAFIA Um teste de gravidez, daqueles de farmácia, é capaz de indicar se uma mulher está grávida através da metodologia imunocromatografia, também conhecida como teste rápido, a partir de uma amostra de urina. Entretanto, além dos testes de farmácia, a imunocromatografia também faz parte da rotina laboratorial. Trata-se de uma metodologia qualitativa, utilizada em laboratório como triagem para identificar os mais diferentes tipos de substâncias, como o próprio hormônio hCG, e para detecção de agentes patogênicos, como vírus (HIV, SARS-CoV2 e hepatite) e bactérias (Helicobacter pylori) (BRASIL, 2018). Essa técnica é realizada utilizando uma matriz, que é o local onde ocorrerá a reação, geralmente feita de nitrocelulose ou nylon e coberta por uma tira de acetato transparente, que possibilita visualizar o resultado do teste. Nesse teste, podemos identificar o anticorpo produzido no organismo ou o antígeno (BRASIL, 2018). Quando o objetivo é detectar se, na amostra,há a presença do anticorpo de interesse, a matriz apresentará o antígeno específico para o anticorpo investigado. Além disso, a matriz possui anti-imunoglobulina associado a uma substância chamada marcador, que, na presença da formação do complexo antígeno-anticorpos, apresentará uma coloração na região teste (BRASIL, 2018). Caso o objetivo seja a detecção da presença de um determinado antígeno, a matriz do teste conterá anticorpos específicos para o antígeno que está sendo pesquisado. Esse anticorpo apresenta um marcador conjugado a ele, com coloração na região teste, quando houver a formação de complexo antígeno-anticorpo (BRASIL, 2018). 92 Existem diferentes apresentações de testes imunocromatográficos, conforme veremos a seguir. 2.1 FLUXO LATERAL O fluxo lateral apresenta quatro áreas (Figura 7), nas quais temos o local em que a amostra será depositada, chamado de área ou cavidade da amostra, a zona ou base de conjugado (que contém o anticorpo anti-imunoglobulina conjugado com seu marcador), a área ou banda de teste (local onde, ocorrendo a reação antígeno-anticorpo, será possível identificar a presença de uma banda colorida indicando positividade) e a área controle (local em que temos o controle da reação, o que permite considerar o resultado da banda teste válido). Independentemente do resultado da banda de teste, a aplicação da amostra deve sempre corar a banda da área controle. Isso porque a área controle já contém o marcador pesquisado. Assim, mesmo a aplicação de uma amostra que não contenha o marcador investigado, em conjunto com o diluente, deverá marcar esta área. A área controle marcada indica que os líquidos aplicados na tira teste estão fluindo corretamente. Quando a área controle não apresentar coloração após aplicação da amostra, o resultado deve ser rejeitado, uma vez que isso indica presença de alguma falha no teste. Essa avaliação da banda controle se aplica a todos os diferentes tipos de ensaios imunocromatográficos (BRASIL, 2018). FIGURA 7 – ESTRUTURA DE TESTE RÁPIDO DE FLUXO LATERAL FONTE: <https://repositorio.ufscar.br/bitstream/handle/ufscar/12046/Disserta%C3%A7%C3%A3o_JCL. pdf?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 28 jan. 2021. 93 2.2 DUPLA MIGRAÇÃO OU DUPLO PERCURSO (DPP) A dupla migração apresenta três áreas visíveis, nas quais teremos o local em que a amostra será depositada (área 1), a área em que o tampão é depositado (solução capaz de evitar grandes variações no pH do meio em que é adicionado), permitindo o deslocamento do conjugado em direção à área de teste (área 2), e a área 3, em que estão as bandas teste e controle localizadas. Assim, o tampão desloca o conjugado na direção da amostra. Caso a amostra contenha o anticorpo ou antígeno pesquisado, a banda teste apresentará coloração. FIGURA 8 – IMUNOCROMATOGRAFIA DE DUPLA MIGRAÇÃO OU PERCURSO FONTE: <https://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/22168/mod_resource/content/2/HIV%20-%20 Manual%20Aula%206%20%281%29.pdf> Acesso em: 28 jan. 2021. 2.3 IMUNOCONCENTRAÇÃO Nesse teste, a amostra é depositada sobre uma membrana de nitrocelulose, que a absorve (Figura 9). Ao entrar em contato com o antígeno ou anticorpo presente no dispositivo, ocorre a formação do complexo antígeno-anticorpo. Em seguida, o conjugado com marcador de cor é depositado na mesma membrana que, se houver formação do complexo antígeno-anticorpo, apresentará um ponto colorido visível na área teste (T) (Figura 10). 94 FIGURA 9 – REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA DE UM TESTE DE IMUNOCONCENTRAÇÃO FONTE: <https://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/22168/mod_resource/content/2/HIV%20-%20 Manual%20Aula%206%20%281%29.pdf>. Acesso em: 28 jan. 2021. FIGURA 10 – DISPOSITIVOS DE IMUNOCONCENTRAÇÃO APRESENTANDO AMOSTRA REAGENTE (ESQUERDA) E NÃO REAGENTE (DIREITA) FONTE: <https://www.completesafetysupplies.co.uk/images/products/medium/1444739842-07632800.jpg>. Acesso em: 28 jan. 2021. Independentemente do modo de execução do teste imunocromatográfico, a interpretação do teste é realizada da mesma forma, e esses resultados podem ser visualizados na forma de ponto, linha ou banda colorida, variando de acordo com o fabricante (Figura 11). 95 FIGURA 11 – INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS DO TESTE DE IMUNOCROMATOGRAFIA FONTE: <https://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/22168/mod_resource/content/2/HIV%20-%20 Manual%20Aula%206%20%281%29.pdf> Acesso em: 28 jan. 2021 Reagente: Quando houver formação de duas linhas coloridas: uma na área de teste (T) e outra na área de controle (C). Não reagente: Quando houver formação de uma linha colorida, somente na área de controle (C). Inválido: Quando não houver linha colorida, na área de controle (C). De acordo com Brasil (2018, p. 9): Algumas das causas prováveis para a invalidação do teste podem ser o armazenamento inadequado dos kits, um volume insuficiente de amostra, um volume incorreto de solução diluente e a simples execução incorreta. Se o resultado obtido em um teste for inválido, leia novamente as instruções do fabricante e repita o teste com a utilização de um novo dispositivo. Se o problema persistir, não utilize mais nenhum teste desse lote. Em alguns casos, a formação de cor da banda ou ponto do teste pode aparecer mais fraca. Contudo, a presença de formação de ponto ou banda colorida, independentemente da intensidade de cor, deve ser considerada resultado reagente, quando a coloração da banda do teste for acompanhada da coloração da banda ou ponto que indica controle, conforme visto anteriormente. IMPORTANTE 96 3 ENSAIO IMUNOENZIMÁTICO (ELISA) O ELISA (do inglês, Enzyme Linked Immuno Sorbent Assay) é um imunoensaio no qual a ligação antígeno-anticorpo é acompanhada por mensuração de atividade enzimática presente na reação. O reagente de cor é uma enzima que gera mudança de coloração se o teste for positivo, e a mudança na coloração é medida por metodologia espectrofotométrica. Trata-se de uma metodologia utilizada para diferentes finalidades, como a detecção viral, a medida de antígenos ou anticorpos e a dosagem hormonal. De acordo com Voltarelli (2009, p. 83): Trata-se de técnica imunoenzimática sensível, heterogênea (múl- tiplas fases), para a quantificação de antígenos ou anticorpos. Um dos reagentes é imobilizado na fase sólida, enquanto outro pode ser ligado a uma enzima, com preservação tanto da atividade enzimática como da imunológica do anticorpo. A fase sólida pode ser constitu- ída por partículas de agarose, poliacrilamida, dextrano, poliestireno etc. Placas plásticas são as mais difundidas por permitirem múltiplos ensaios e automação. O teste detecta quantidades extremamente pequenas de antígenos ou anticorpos, podendo ter elevada precisão se os reagentes e os parâmetros forem bem padronizados. Existem diferentes métodos de ELISA, que são (Figura 12): • ELISA direto: em kits que pesquisam antígenos, os anticorpos são fixados em uma placa composta por material rígido, como poliestireno. Esse anticorpo fixado reagirá com antígenos presentes na amostra. Em seguida, é adicionado anticorpo específico, dessa vez, marcado com enzima. A placa, então, é incubada, ou seja, tem todas suas regiões mantidas a uma mesma temperatura, para que a reação ocorra em todas as regiões da placa (também conhecidas como poços) de modo uniforme. Por fim, um substrato (molécula que reage com a enzima presente no kit reagente) é adicionado. Esse substrato é um cromógeno, ou seja, quando reage com a enzima forma um produto colorido. A coloração que se forma é medida por espectrofotômetro, que, a partir da intensidade da cor presente, mensura a quantidade do antígeno presente na amostra. • ELISA indireto: mensura a concentração de anticorpos na amostra. Isso acontece quando a amostra, contendo anticorpos, reage com seu antígeno específico, que está presente na placa de ELISA (fase sólida).Essa ligação antígeno-anticorpo é revelada pela ação do conjugado enzimático específico, que gera coloração ao reagir com o substrato cromogênico (moléculas em que a enzima se liga resultando em formação de cor). É um ensaio que inspira cuidados, uma vez que a medida de anticorpos IgM, aplicada a doenças infecciosas, tem como interferente a presença de grandes quantidades do fator reumatoide na amostra, gerando resultados falso-positivos, o que prejudica sua especificidade. • ELISA competitivo: a placa contém o antígeno ou anticorpo de interesse, e o an- tígeno ou anticorpo presente na amostra compete com aqueles presentes na placa pelo local ligação. Em consequência, a leitura da concentração desse teste é inver- samente proporcional, uma vez que, quanto menor a concentração da substância 97 FIGURA 12 – ESQUEMAS DOS TESTES ENZIMÁTICOS HETEROGÊNEOS DO TIPO DIRETO, INDIRETO E COMPETIÇÃO FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/3OxieGg>. Acesso em: 28 jan. 2021. ELISA DIRETO OU SANDUÍCHE ELISA INDIRETO ELISA COMPETIÇÃO Para compreender com maior clareza as diversas etapas necessárias para execução da técnica de ELISA, utilizaremos o ELISA indireto (AFTER et al., 2000): • Sensibilização da placa: na primeira etapa, o antígeno específico será diluído em uma solução tampão. A solução tampão é importante para evitar que o pH da solução varie, o que pode prejudicar as reações a seguir. Essa solução contendo antígenos é aplicada à placa de poliestireno (Figura 13), onde os antígenos deverão ficar aderidos. investigada, menos elas se ligam aos sítios disponíveis, sendo ocupados pelas subs- tâncias presentes no reagente. Dessa forma, quanto menor a coloração gerada pela reação, mais positivo é o teste. 98 FIGURA 13 – PLACA DE POLIESTIRENO COM 96 POÇOS UTILIZADA PARA TÉCNICAS DE ELISA FONTE: <https://www.lojanetlab.com.br/acessorios-para-laboratorios/microplacas-de-microtitulacao/ microplaca-para-elisa-96-pocos-fundo-chato-esteril-ref-k30-5096p-olen>. Acesso em: 16 mar. 2021. • Lavagem da placa: uma vez sensibilizada, a placa que recebeu o antígeno passa por alguns ciclos de lavagem (Figura 14) para retirar antígenos que não se fixaram na placa. FIGURA 14 – EQUIPAMENTO PARA LAVAGEM AUTOMÁTICA DE MICROPLACA DE ELISA FONTE: <https://www.medicalexpo.com/pt/prod/awareness-technology/product-67695-431705.html>. Acesso em: 16 mar. 2021. • Bloqueio da placa: a placa é tratada com uma solução rica em proteínas (como leite desnatado, albumina, caseína ou gelatina). O objetivo dessa etapa é bloquear regiões que não estão recobertas por antígeno e, com isso, impedir que reações inespecíficas ocorram. • Lavagem de placa: após o bloqueio, novas lavagens são executadas para retirada das moléculas passíveis de reações inespecíficas. 99 • Adição de amostra: as amostras dos pacientes são pipetadas na placa e incubadas. A incubação é a manutenção da placa sob uma temperatura uniforme durante um mesmo período estabelecido pelo kit reagente utilizado. Caso as amostras contenham anticorpos específicos para os antígenos fixados na placa, ocorrerá a formação de complexo antígeno-anticorpo. • Lavagem da placa: nova lavagem ocorre para retirada de anticorpos presentes na amostra que não se ligaram aos antígenos presentes na placa. • Adição do conjugado: o conjugado corresponde a um anticorpo anti-IgG (anticorpos secundários) ligado a uma enzima peroxidase (enzima mais comumente utilizada para técnica de ELISA). Esse anticorpo secundário tem como função ligar- se ao anticorpo primário, quando este estiver presente na amostra (Figura 15). A placa passa por nova incubação e novos ciclos de lavagens (remoção de anticorpos soltos), antes da adição do substrato. FIGURA 15 – REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA DAS LIGAÇÕES PRESENTES NO ELISA INDIRETO FONTE: <http://biomedicinabrasil.com.br/metodologia/teste-de-elisa/>. Acesso em: 18 mar. 2021. • Adição do substrato: o substrato consiste em uma substância (no caso da peroxidase, o substrato é o H2O2) que forma um complexo com a enzima e, com isso, gera novos produtos. Nessa técnica, o substrato está ligado a um cromógeno (substância que gera reação de cor). Caso ocorra reação enzimática, devido à presença de anticorpos na amostra, o substrato é oxidado e, com essa reação, o cromógeno gera cor (Figura 16). • Leitura: por fim, a formação de cor presente na placa é mensurada por espectrofo- tometria com filtro ajustado para leitura do marcador de interesse (Figura 17). 100 FIGURA 16 – REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA DAS ETAPAS DE ELISA INDIRETO FONTE: <https://www.misodor.com.br/HIVAIDSPEDIATRIA.php> Acesso em: 16 mar. 2021. Adiciona-se o soro do paciente; o anticorpo complementar se liga ao antígeno. Anti-HISG conjugado a enzima é adicionado e se liga ao anticorpo ligado ao antígeno. Adiciona-se o substrato da enzima ( ), e a reação produz/forma um produto que resulta em uma mudança visível de cor ( ). 1 2 3 4 O antígeno é adsorvido ao poço. (b) Um teste ELISA indireto positivo para detectar anticorpos. 101 FIGURA 17 – EQUIPAMENTO LEITOR DE PLACAS DE ELISA FONTE: <https://static.biotek.com/images/products/800TS/800TS_right_open_door-apps.jpg>. Acesso em: 15 mar. 2021. A espectrofotometria é uma metodologia importante e muito utilizada no laboratório clínico, sendo um conteúdo que consideramos importante ser revisitado. Leia o texto Introdução à Espectrofotometria, escrito por Paulo Valim, no site Ciência em Ação: https://cienciaemacao.com.br/introducao- a-espectrofotometria/. IMPORTANTE 4 ENSAIO IMUNOENZIMÁTICO DE MICROPARTÍCULAS Assim como o ELISA, trata-se de uma técnica imunoenzimática, porém a diferença é que a porção sólida são micropartículas em suspensão líquida e não uma placa (VOLTARELLI, 2009). Nessa técnica, a fase sólida são micropartículas de látex contendo os antígenos que se ligam aos anticorpos presentes na amostra estudada. Essas micropartículas se ligarão a uma matriz de fibra de vidro de maneira irreversível. O conjugado contendo antígenos e fosfatase alcalina é adicionado a seguir, ligando-se aos anticorpos, formando um complexo antígeno-anticorpo-antígeno. A reação é revelada pela adição de um substrato, que gera um produto fluorescente pela sua ligação com a enzima. A intensidade da fluorescência é medida, sendo considerada reagente quando supera o ponto de corte da técnica (Figura 18). 102 FIGURA 18 – ENSAIO IMUNOENZIMÁTICO DE MICROPARTÍCULAS FONTE: <https://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/22167/mod_resource/content/1/HIV%20-%20 Manual%20Aula%205.pdf> Acesso 28 jan. 2021 103 5 HEMAGLUTINAÇÃO Nessa metodologia, são utilizados fragmentos de antígenos recobrindo glóbulos vermelhos. Essa solução contendo hemácias e antígenos específicos para o marcador investigado é distribuída em poços de microplaca. A presença de anticorpos específicos interage com o antígeno presente na solução dispensada na placa, recobrindo o poço como uma espécie de “tapete” vermelho (amostras 1 a 3 na Figura 19); caso a amostra de soro não apresente os anticorpos investigados, as hemácias ficam depositadas no fundo do poço formando um botão vermelho (amostras 4 a 7 da Figura 19) (FERREIRA; MORAES, 2013). FIGURA 19 – REAÇÃO DE HEMAGLUTINAÇÃO FONTE: <http://twixar.me/wttm>; <http://twixar.me/9ttm>. Acesso em: 16 mar. 2021. 104 LEITURA COMPLEMENTAR CUIDADOS COM A DOSAGEM DA GONADOTROFINA CORIÔNICA HUMANA NO SEGUIMENTO DE PACIENTES COM DOENÇA TROFOBLÁSTICA GESTACIONAL Elza Uberti José Mauro Madi Antonio Braga Bruno Grillo Maurício Viggiano A principal vigilância hormonal no seguimento pós-molar consiste na dosagem periódica e sistemática da gonadotrofina coriônica humana (hCG). Sendo um produto das células da placenta, em especial do sinciciotrofoblasto, o hCG também é secretado em menores quantidades pelas células citotrofoblásticas. O hCG pertence ao grupo dos hormônios glicoproteicos,que também compreende o luteinizante (LH), o folículo- estimulante (FSH) e o tireoestimulante (TSH). Todos esses possuem duas subunidades diferentes, a e b, que são unidas por ligações não covalentes e que precisam estar combinadas para formar o hormônio biologicamente ativo. A subunidade α é produzida tanto na hipófise como na placenta e tem a mesma sequência peptídica das subunidades a de outros hormônios (LH, FSH, TSH). A subunidade β é peculiar a cada hormônio e determina sua especificidade. O hCG é produzido pela placenta na gestação normal, pela doença trofoblástica gestacional (DTG), em mulheres que estão ou estiveram grávidas, nas neoplasias de origem germinativa, por tumores não trofoblásticos e também em tecidos normais, incluindo testículo e hipófise humana. A principal função do hCG é promover a produção de progesterona pelo corpo lúteo do ovário. No início da gestação normal, o trofoblasto se diferencia em células predominantemente citotrofoblásticas, enquanto as células sinciciotrofoblásticas são dominantes ao término da gravidez. O sinciciotrofoblasto é a maior fonte secretora de hCG intacto na circulação materna e as células menos diferenciadas do citotrofoblasto secretam além do hormônio na sua forma intacta, as subunidades α e β. À semelhança da placenta normal, as células anormais do trofoblasto na doença trofoblástica gestacional (DTG) sintetizam e secretam tanto o hCG intacto como as formas livres das subunidades α e β. 105 Figura 1 – Estrutura química da molécula intacta do hCG com as cadeias α e β; peso molecular: 37.500 daltons Após 1980, foram desenvolvidos imunoensaios tipo sanduíche, rápidos e automatizados, usando anticorpos monoclonais para reconhecer especificamente o hCG e suas subunidades livres. Tais ensaios, que são tão ou mais sensíveis do que o teste do BhCG por radioimunoensaio, não utilizam radioisótopos, apresentam menor coeficiente de variação e maior durabilidade dos reagentes, o que implica um menor custo final na execução do exame. As diferentes formas degradadas do hCG são reconhecidas por um grande número de anticorpos, o que resulta em grande variação nos resultados inter-ensaios, especialmente se a determinação é na urina, trazendo confusão nos resultados dos testes para diagnóstico de gravidez. Utilizam-se amostras séricas para fins de monitorização dos níveis de hCG durante a gravidez (tratamento conservador e medicamentoso da gravidez ectópica e na fertilização assistida) e na monitorização das neoplasias, em especial a neoplasia. Trofoblástica Gestacional (NTG) A natureza complexa dos produtos de degradação do hCG intacto, da meia-vida dos produtos de degradação e das reações cruzadas dos vários produtos de degradação com os vários anticorpos, explica a discrepância entre os resultados da dosagem de gonadotrofina coriônica feita nos diferentes laboratórios e, num mesmo laboratório, com o mesmo kit, entre as diferentes amostras do material. Atualmente, a conduta efetiva dos casos de DTG é altamente dependente da determinação do imunoensaio sérico para dosagem quantitativa do hCG, que deve ser utilizado em todos os estágios do manejo da DTG, incluindo diagnóstico, planejamento terapêutico, monitorização da resposta ao tratamento e detecção das eventuais recidivas. Em DTG, é recomendável um ensaio que dose o hCG total + BhCG, que tem a vantagem de reconhecer também o hCG clivado e o BhCG-clivado, o que proporcionará resultados mais precisos e condutas clínicas mais acertadas. O uso do hCG apenas na propedêutica da DTG é direcionado para cinco momentos: 1) diagnóstico de DTG; 2) Seguimento pós-esvaziamento molar; 3) diagnóstico de neoplasia trofoblástica gestacional pós-molar 4) Monitorização do tratamento quimioterápico; 5) diagnóstico de recidiva da NTG. 106 Para os fins referidos, é indispensável a determinação quantitativa de BhCG (hCG intacto + BhCG), exames que preferencialmente devem ser realizados em um mesmo laboratório, para se ter credibilidade e se poder comparar o resultado com outros da mesma procedência. É importante também que os profissionais do laboratório onde o exame é realizado tenham conhecimento que lidam com um marcador tumoral e que os resultados se destinam à monitorização de DTG, e não apenas ao diagnóstico de gravidez, ou seja, ratificando a necessidade de o resultado ser precisamente quantificado. hCG no diagnóstico de DTG Em condições normais da gestação, os níveis séricos de hCG biologicamente ativo aumentam exponencialmente no 1º trimestre da gravidez, duplicando a cada dois dias, atingindo o pico em torno da 10ª a 12ª semana, quando podem alcançar valores de 100.000 mUI/mL. A partir daí, os valores decrescem até a 20ª semana, atingindo cerca de 20% dos valores de pico máximo e assim permanecem até o final da gestação. Após o parto, os níveis séricos de hCG seguem regredindo e os resultados dos testes atingem valores normais (< 5 mUI/mL) em torno de 30 dias. Após a interrupção de uma gravidez não molar na 1ª metade da gestação, os valores de hCG atingem resultado normal em torno de 2 a 3 semanas. Essa informação é importante por auxiliar a conduta clínica frente à paciente que tenha apresentado um abortamento espontâneo e completo, e/ou quando um exame anatomopatológico for inconclusivo no diagnóstico de mola hidatiforme (MH) (quando, por exemplo, evidenciar apenas edema de vilos sem hiperplasia de trofoblasto), situação em que uma dosagem de hCG feita em 3 semanas ajuda a elucidar o diagnóstico: se, nesse tempo referido, a dosagem sérica do hCG for < 5 mUI/mL fica afastada uma DTG e o edema de vilos deve refletir outras cromossomopatias. Na mulher em idade fértil e sem uso de contraceptivos, diante de um resultado positivo de hCG, a maior probabilidade é se tratar de uma gravidez normal. Diante de um atraso menstrual, se uma paciente com hCG-positivo apresentar sangramento genital e um exame de ultrassonografia (US) mostrando conteúdo uterino sugestivo de MH, uma dosagem de hCG sérico quantitativo com valores elevados confirma a suspeita de DTG. Na MH parcial, situação na qual os valores séricos quantitativos do hCG são geralmente menos elevados, o diagnóstico clínico e US inicialmente é de gestação interrompida; para um diagnóstico precoce de MH parcial destaca-se a importância do exame histológico sistemático de todo material curetado, com alerta ao patologista se houver suspeita diagnóstica de MH parcial. A realização de uma dosagem de hCG é também importante no diagnóstico diferencial de miomas uterinos intracavitários (submucosos) com degeneração: a imagem ao US dessa patologia, por vezes, é sugestiva de MH. Se a dosagem de hCG for negativa é afastada uma gravidez e fica reforçada a suspeita inicial de mioma degenerado. 107 A dosagem de hCG também é essencial no rastreamento de causas de sangramento uterino disfuncional ou em mulheres que, no menacme, mesmo sem sangramento anormal, apresentem sintomas atípicos como hemoptise, dores abdominais, convulsões etc.; nesses casos, na ausência de gestação documentada há mais de 30 dias, um hCG positivo levanta a hipótese de DTG e indica avaliação diagnóstica. Para diagnóstico de gestação molar basta um resultado positivo na dosagem de hCG (≥ 200 mUI/mL) associado à imagem típica ao US. A quantificação do hCG nessa etapa diagnóstica será relevante, entretanto, para identificação da MH de alto-risco para desenvolvimento de NTG; em tais pacientes uma dosagem de hCG ≥ 100.000 mUI/mL é sinal de alerta para rastreio das complicações médicas associadas ao hCG elevado, tais como tamanho uterino maior do que o esperado para a idade gestacional, presença de cistos ovarianos teca-luteínicos volumosos, pré-eclampsia, hipertireoidismoe embolização trofoblástica. Na quantificação do hCG, é importante também destacar a possibilidade de um resultado falsamente mais baixo devido ao efeito “hook”, que pode estar presente quando os níveis da gonadotrofina são extremamente elevados. O excesso de hCG progressivamente satura a fase sólida e a detecção de anticorpos, impedindo que haja formação do “sanduíche” que quantifica o hCG, quando se utilizam os novos ensaios com anticorpos monoclonais. Esse efeito pode ser prevenido pela diluição da amostra a 1/100 e 1/10.000. Diante da paciente com gestação molar e úteros volumosos, um contato da equipe médica com o laboratório torna-se essencial, antes de ser iniciado o processo de quantificação do hCG, para evitar os resultados incorretos. O valor do BhCG obtido antes ou logo após esvaziamento da MH representa o ponto inicial de uma curva onde serão colocadas sucessivamente a cada 7 dias os outros valores numéricos, configurando a curva individual de regressão do BhCG, que possibilita identificar precocemente a evolução da DTG para remissão espontânea ou para evolução neoplásica. hCG no acompanhamento pós-molar Feito um diagnóstico clínico de MH, o próximo passo é o esvaziamento da cavidade uterina, preferencialmente com o método de vácuo-aspiração elétrica ou manual, através do qual se consegue o material para ser enviado para exame histopatológico. Segue tal procedimento cirúrgico, um acompanhamento com consultas médicas e dosagens quantitativas de hCG, que duram em média 6 a 8 meses, conhecido como acompanhamento pós-molar. Esse acompanhamento que deve ser realizado preferencialmente em Centros de Referência (CR), onde uma equipe multidisciplinar treinada proporcione o atendimento adequado em todas as fases do tratamento. Nessa etapa, o BhCG, que precisa sempre ser precisamente quantificado, tem papel relevante como marcador tumoral. 108 Recomenda-se que as pacientes façam consultas médicas acompanhadas da dosagem de BhCG até serem obtidos três resultados semanais consecutivos com níveis inferiores a 5 mUI/mL quando, por definição clínica, é caracterizada a remissão da doença. Após a remissão, o controle passa a ser mensal, durante mais cerca de 6 meses. Durante todo o seguimento pós-molar, as pacientes devem fazer anticoncepção rigorosa, de preferência mediante o uso de anticoncepcional oral, uma vez que não podem engravidar durante o período de acompanhamento. A anticoncepção eficaz é um dos pilares do controle pós-molar e, como tal, o uso é recomendado e garantido. A maioria das pacientes portadoras de MH (80%) permanece assintomática até a cura completa da doença. A curva de regressão do BhCG de cada paciente realizada durante o acompanhamento pós-molar pode ser comparada com a curva semilogarítmica e exponencial de regressão normal do hCG, conforme proposto por Schlaerth et al. (Figura 2) ou com outra proposta em nosso meio por Maestá. Se os valores forem progressivamente descendentes e paralelos à curva padrão de regressão, significa que a paciente está evoluindo para remissão espontânea da doença, dispensando qualquer tratamento adicional. Figura 2 – Curva semilogarítmica de regressão do hCG proposta por Schlaerth et al. (média ± 2 desvios padrões), adaptada para mostrar o valor considerado normal (inferior a 5 mUI/mL) FONTE: Adaptado de <https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/414-cuidados-com-a-dosagem-da- gonadotrofina-corionica-humana-no-seguimento-de-pacientes-com-doenca-trofoblastica-gestacional>. Acesso em: 2 fev. 2021. 109 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • A imunocromatografia é uma metodologia qualitativa, utilizada em laboratório como triagem para identificar vírus, hormônios e bactérias. • Na imunocromatografia, utiliza-se uma matriz, que pode estar coberta por uma tira de acetato transparente, para permitir visualizar o resultado do teste, podendo-se identificar o anticorpo ou o antígeno presente na amostra. • Fluxo lateral, dupla migração e imunoconcentração são as possíveis apresentações dos testes imunocromatográficos. • Existem tipos diferentes de ELISA: direto, indireto e competitivo. • No ELISA direto, que detecta antígenos, o anticorpo é fixado na placa, ligando-se, posteriormente, a um anticorpo ligado a uma enzima, a qual se liga a um substrato que irá formar a cor que o espectrofotômetro quantifica. • No ELISA indireto, o antígeno é fixado na placa, ligando-se a um anticorpo não marcado. Em seguida, é adicionado um segundo anticorpo conjugado a uma enzima que, ao reagir com o substrato, forma a cor que será mensurada por espectrofotometria. • No ELISA competitivo, a placa apresenta antígeno ou anticorpo de interesse, e o antígeno ou anticorpo que existe na amostra compete com aqueles presentes na placa pelo local ligação. • Ensaio imunoenzimático de micropartículas é uma técnica imunoenzimática em que a porção sólida é composta por micropartículas em suspensão líquida. RESUMO DO TÓPICO 4 110 AUTOATIVIDADE 1 A imunocromatografia é uma metodologia qualitativa, utilizada em laboratório como triagem para identificar os mais diferentes tipos de substâncias, como o próprio hormônio hCG, e para detecção de agentes patogênicos, como vírus e bactérias. A respeito do método imunocromatográfico, observe a figura a seguir: FONTE: <http://www.nano-macro.com/2015/09/a-magica-do-diagnostico-post-2.html>. Acesso em: 16 mar. 2021. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Trata-se de um teste com resultado reagente. b) ( ) Trata-se de um teste inválido, uma vez que a área de controle não apresentou marcação. c) ( ) Trata-se de um teste válido, uma vez que a área de controle não apresentou marcação. d) ( ) Trata-se de um resultado não reagente, uma vez que a área C não apresentou marcação. 2 ELISA é uma metodologia utilizada para diferentes finalidades, como a detecção viral, a medida de antígenos ou anticorpos e a dosagem hormonal. Explique por que o ELISA indireto não é a melhor opção para detecção de IgM. 3 Existem tipos diferentes de ELISA: direto, indireto e competitivo. Explique o funcionamento da técnica de ELISA competitivo. 4 A técnica de ELISA, independentemente do tipo, apresenta diversas etapas que precedem a geração de resultados que indicarão ou não a presença do marcador investigado. Com relação ao teste de ELISA indireto, analise a ordem dos compostos utilizados: I- Antígeno de interesse. II- Substrato. III- Soro de paciente. IV- Anticorpo secundário. 111 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) II – IV – I – III. b) ( ) I – III – IV – II. c) ( ) II – IV – I – III. d) ( ) III – I – IV – II. 5 Sobre a hemaglutinação passiva, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Resultados reagentes são identificados pela presença de um botão vermelho no fundo do poço. b) ( ) São utilizados glóbulos brancos sensibilizados com fragmentos do antígeno de interesse. c) ( ) Resultados reagentes são identificados pela presença de um tapete vermelho no fundo do poço. d) ( ) São utilizados glóbulos brancos sensibilizados com fragmentos de cromógeno associado ao antígeno de interesse. 112 113 REFERÊNCIAS AFTER, R. A. et al. Kuby Immunology. 4. ed. New York: WH Freeman & Company; 2000. AMERICAN CANCER SOCIETY. Sinais e sintomas da doença trofoblástica gestacional. 2016. 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Acesso em: 12 jan. 2021. 116 117 DOENÇAS INFECTOCONTAGIOSAS E AUTOIMUNES UNIDADE 3 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • entender as principais doenças infecciosas e autoimunes; • compreender as principais características e os testes imunológicos mais utilizados no diagnóstico e no acompanhamento de sífilis, síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA ou AIDS), hepatites virais, coronavírus e lúpus eritematoso sistêmico. Esta unidade está dividida em cinco tópicos. No decorrer dela, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – SÍFILIS TÓPICO 2 – SÍNDROME DA IMUNODEFICIÊNCIA ADQUIRIDA (SIDA OU AIDS) TÓPICO 3 – HEPATITES VIRAIS TÓPICO 4 – CORONAVÍRUS TÓPICO 5 – LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 118 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 119 TÓPICO 1 — SÍFILIS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Nesta unidade, apresentaremos as principais doenças infecciosas e autoimunes, abordando as características de cada uma e quais os testes imunológicos mais utilizados no diagnóstico e acompanhamento dessas doenças. Neste tópico, aprofundaremos nosso conhecimento a respeito da sífilis. 2 SÍFILIS A sífilis é uma doença sistêmica que tem como agente etiológico o Treponema pallidum. Esse microrganismo apresenta forma de espiroqueta e característica microaeróbia (que cresce sob baixa tensão de oxigênio), com parede celular semelhante às bactérias Gram-negativas. Apesar da semelhança, o T. pallidum não se cora na coloração de Gram. São os componentes estruturais da bactéria (Figura 1) (FERREIRA, 2013): • Filamento axial: tem como função promover a movimentação do Treponema. É composto por um feixe de fibrilas que formam uma espiral em torno do Treponema, semelhante ao formato de um saca-rolhas. • Membrana celular: estrutura composta por proteínas de ligação à penicilina, lipoproteínas, glicolipídeos e cardiolipina. A cardiolipina é o principal antígeno utilizado para investigações sorológicas não treponêmicas. • Periplasma: composta por uma camada que, de acordo com Ferreira (2013, p. 5), “uma membrana interna ou citoplasmática que rodeia o corpo celular e uma membrana externa protetora. Entre uma membrana e outra, encontra-se um espaço periplasmático com uma pequena camada de peptidoglicano”. É nessa região que o filamento axial fica aderido, o que confere o formato espiralado ao Treponema. É a partir desta estrutura que o movimento em hélice é possível, bem como sua capacidade de se deslocar em meios com maior viscosidade. • Membrana externa: tem como função proteger o microrganismo do meio externo, por revestir a superfície treponêmica (FERREIRA, 2013). A identificação da bactéria por microscopia óptica não faz parte das práticas laboratoriais de rotina, uma vez que é uma bactéria muito delgada, o que dificulta sua visualização no setor de microbiologia. “A pequena diferença de densidade entre o corpo e a parede do T. pallidum faz com que seja prejudicada sua visualização à luz direta no microscópio. Cora-se fracamente; daí o nome pálido, do latim pallidum” (AVELLEIRA; BOTTINO, 2006, p. 113). 120 É sempre importante rever alguns conceitos para absorvero conteúdo com maior clareza: • Doença sistêmica: afetam diversos órgãos, não se restringindo ao prejuízo de um único determinado órgão ou sistema. • Bactéria Gram-negativa: são bactérias constituídas de uma parede de peptidoglicano mais delgada, o que faz com que não retenham o cristal violeta ao longo da etapa de descoloração, o que resulta na cor vermelha ao final da coloração de Gram. • Microaeróbia: microrganismos que se desenvolvem em baixas tensões de oxigênio. IMPORTANTE FIGURA 1 – COMPOSIÇÃO ESTRUTURAL DO TREPONEMA PALLIDUM FONTE: <https://www.biomedicinapadrao.com.br/2011/09/espiroquetas.html>. Acesso em: 8 fev. 2021. O T. pallidum é um patógeno que tem como hospedeiro apenas os seres humanos e a via de transmissão ocorre principalmente por contato sexual, porém também pode ser causado por transmissão vertical, ou seja, da gestante para o feto (quando não houver tratamento da gestante) (AVELLEIRA; BOTTINO, 2006). Ao ser transmitido, o T. pallidum penetra no organismo e atinge a corrente sanguínea, sendo distribuído por diversos tecidos. Com essa dispersão, uma resposta inflamatória e imunológica por parte do sistema imune é desencadeada culminando nas manifestações clínicas que podem ser divididas em 3 estágio: 121 • Sífilis primária: nesse primeiro estágio as manifestações ocorrem de 10 a 90 dias após a infecção (período de incubação). Nessa etapa, o sinal clínico inicial é a presença de lesão no local onde a bactéria penetrou no organismo. Essa lesão, que contém muitas espiroquetas, recebe o nome de cancro duro (Figura 2), pois apresenta base endurecida e secreção, porém sem manifestação de dor. Essa lesão desaparece espontaneamente em cerca de 15 dias (BRASIL, 2010). • Sífilis secundária: quando a sífilis não é detectada e tratada já no estágio primário as manifestações clínicas evoluem para o estágio secundário (Figura 3), em decorrência da dispersão da bactéria por todos os órgãos. A partir desse estágio, a presença de exantemas (roséolas sifilíticas), que consistem em erupções cutâneas contendo treponemas, é a manifestação clínica característica (BRASIL, 2010). • Sífilis latente: caso o paciente infectado siga sem detecção e tratamento da sífilis, as manifestações clínicas cessam, configurando o estágio latente, o qual é considerado recente durante o primeiro ano de infecção e, após esse período, é considerada latente tardia (BRASIL, 2010). • Sífilis terciária: o paciente apresenta um processo inflamatório acompanhado da destruição de tecido ósseo, estabelecimento da sífilis cardiovascular (manifestada pela aortite, uma inflamação na artéria aorta) e da neurossífilis (que pode se manifestar por prejuízos auditivos, motores, visuais, depressão, perda de memória e dor) (BRASIL, 2010). É um estágio considerado grave que pode se manifestar de 10 a 30 anos após a infecção. A sífilis terciária se manifesta na forma de inflamação e destruição de tecidos e ossos. É caracterizada por formação de gomas sifilíticas, tumorações amolecidas vistas na pele e nas membranas mucosas, que também podem acometer qualquer parte do corpo, inclusive no esqueleto ósseo (BRASIL, 2010, p. 22). As manifestações clínicas estão presentes em três estágios, porém, a patologia em si apresenta quatro estágios, sendo um deles latente e com poucos ou nenhum sintoma ou sinal clínico. FIGURA 2 – REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA DE CANCRO DURO CARACTERÍSTICO DE SÍFILIS PRIMÁRIA FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/image-illustration/syphilitic-ulcers-ulcus-durum-close- view-465543644>. Acesso em: 8 fev. 2021. 122 Nos últimos anos, as solicitações de provas para diagnóstico de sífilis aumentaram consideravelmente. Isso se deveu ao aumento no número de casos apresentados no Brasil. Por isso, sugerimos a leitura da matéria Sífilis volta a ser uma epidemia no Brasil, apesar do tratamento rápido, de 2017, publicada na Globo News. Uma doença que não escolhe idade, sexo nem classe social. É assim que especialistas descrevem a sífilis, transmitida pela bactéria treponema pallidum, principalmente por via sexual, mas também da mãe para o filho, durante a gravidez. A falta de tratamento pode causar cegueira, demência e más formações, no caso de fetos. Mas infectologistas destacam que o tratamento é rápido, assim como o diagnóstico, que pode ser feito com um teste rápido, com resultado pronto em dez minutos. No caso da sífilis primária, uma única dose de penicilina benzatina intramuscular já o suficiente para a cura. O aumento dos casos da doença preocupa especialistas. O Dr. Alexandre Chieppe, subsecretário Estadual de Vigilância em Saúde, afirma que, desde 2011, vem sendo observado um aumento de casos de sífilis congênita e do número de casos na população geral. Desde o início dos anos 2000, a comunidade médica internacional já vinha alertando para o aumento do número de casos da doença. No Brasil, especialmente nos grandes centros urbanos, a infecção dava sinais de avanço rápido e preocupava as autoridades. Tanto que, em meados de 2007, a ONG do Rio de Janeiro “Centro de Educação Sexual”, junto com outros parceiros, lançou uma campanha de prevenção, estrelada por artistas como Glória Pires e o marido Orlando Moraes. FONTE: <http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2017/04/sifilis-volta-ser- uma-epidemia-no-brasil-apesar-do-tratamento-rapido.html>. Acesso em: 20 fev. 2021. INTERESSANTE FIGURA 3 – ERUPÇÕES CUTÂNEAS CARACTERÍSTICAS DA SÍFILIS SECUNDÁRIA FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/secondary-stage-syphilis-sores-lesions- on-1024557601>. Acesso em: 5 fev. 2021. 123 3 LABORATÓRIO CLÍNICO NO DIAGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO DA SÍFILIS Inicialmente, apresentaremos as características do T. pallidum e as manifesta- ções clínicas de acordo com o estágio de evolução da doença. Contudo, se realizarmos provas imunológicas para detectar o treponema, qual a importância de conhecer todas estas características da doença? Conforme a doença evolui, cada fase tem um grupo de provas imunológicas próprias para diagnóstico da sífilis. De posse do conhecimento dessas diferenças, o médico avalia o paciente para, então, compreender quais testes são ideais para investigar a suspeita médica. As provas imunológicas utilizadas para detecção de sífilis dividem-se em dois tipos: ensaios treponêmicos e não treponêmicos. A seguir, veremos as diferenças entre essas provas e o significado clínico de cada uma. 3.1 TESTES NÃO TREPONÊMICOS Como o próprio nome indica, nos ensaios não treponêmicos, os anticorpos detectados não são específicos para o T. pallidum. É possível encontrar na literatura esses testes classificados como anticardiolipínicos, ou seja, anticorpos produzidos contra moléculas chamadas cardiolipinas. As cardiolipinas são fosfolipídios que apre- sentam carga negativa e, em mamíferos, estão presentes na membrana mitocondrial. Em condições patológicas, essas moléculas estão presentes em células apoptóticas, na ativação plaquetária e em complicações durante a gestação. Contudo, também são encontrados na sífilis (RAND; WOLGAST, 2018). Os testes não treponêmicos estão amplamente disponíveis nos laboratórios, são de baixo custo e possibilitam o monitoramento da resposta ao tratamento. Como desvantagens, possuem baixa sensibilidade na sífilis primária e também na sífilis latente e tardia, além de produzirem resultados falso-positivos, devido à ocorrência de outras enfermidades que causam degeneração celular (BRASIL, 2016, p. 23). Assista ao seguinte vídeo, desenvolvido pelo Telelab, sobre testes não treponêmicos: https://www.youtube.com/watch?v=nAWWmxLM9vg. Trata- se de um material importante que visa a facilitar a compreensão desses novos conhecimentos e revisa o conceito de efeito prozona, conhecimento essencial para evitar a obtenção de resultados falso-negativos. IMPORTANTE 124 Assim, quando aplicamos testes não treponêmicos para investigação de sífilis, é importante ter em mente que resultados reagentes(positivos) indicam a presença de anticorpos anticardiolipínicos, que também podem ser encontrados em outras condições clínicas. Apesar de inespecíficos, são testes importantes para acompanhamento da eficácia do tratamento para sífilis, sendo de fácil realização e baixo custo. Isso ocorre pela observação, em casos de tratamentos efetivos, da redução na quantidade de anticorpos anticardiolipínicos no soro de pacientes. Os testes não treponêmicos podem ser de dois tipos: • Qualitativos: aplicados a triagem de amostras, indicando apenas se a amostra apresenta resultado reagente ou não. • Quantitativos: testes que determinam a quantidade de anticorpos presentes em amostras e auxiliam principalmente no acompanhamento da evolução do paciente frente ao tratamento. Pelo resultado de um teste não treponêmico quantitativo, como o paciente está respondendo a um tratamento? Ocorre que, nestes tipos de testes, o médico tem acesso à titulação de anticorpos anticardiolipínicos da amostra do paciente. A titulação corresponde à maior diluição em que a amostra apresentou resultado reagente (NADAL; FRAMIL, 2007). A titulação descrita é realizada a partir de diluições seriadas, assunto abordado nas unidades anteriores. IMPORTANTE Assim, quanto maiores os títulos de anticorpos anticardiolipínicos que a amostra do paciente apresenta, maior a atividade da doença em casos em que o tratamento ainda não foi aplicado ao paciente; já em pacientes em tratamento, indica que a resposta ao tratamento não é suficiente para combater a bactéria. Por outro lado, baixas titulações em pacientes em tratamento indicam que o paciente está respondendo bem ao medicamento (BRASIL, 2010). A seguir, abordaremos as principais metodologias de testes imunológicos não treponêmicos no que diz respeito à interpretação dos resultados. Os princípios das metodologias apresentadas aqui serão discutidos no Tópico 5. 125 3.1.1 Floculação: VDRL O VDRL (sigla do inglês Venereal Disease Research Laboratory) é um dos principais testes não treponêmicos para diagnóstico e acompanhamento da sífilis, uma vez que é possível verificar a presença de anticorpos anticardiolipina presentes nas amostras de soro ou líquor antes e depois do tratamento. Trata-se de uma técnica de floculação em que, de acordo com o Grupo Wiener Laboratórios (2000, p. 4): “As ‘reaginas’ que se encontram presentes em indivíduos infectados por T. pallidum, são detectadas no soro pela reação com um antígeno cardiolipínico purificado e estabilizado. Se a amostra contiver reagina, esta se unirá ao antígeno, produzindo uma floculação visível ao microscópio”. Para que a reação de floculação ocorra, diferentes etapas devem ser seguidas. A Figura 4 apresenta os passos que devem ser executados para triagem inicial de amostras em que o soro do paciente é testado puro e na diluição ⅛, chamada de VDRL qualitativo. Caso a avaliação qualitativa da amostra analisada apresente resultado reagente pura e/ou diluída, a técnica de VDRL quantitativo deverá ser executada (Figura 5) com o objetivo de identificar a maior titulação de anticorpos anticardiolipínicos presentes na amostra analisada (BRASIL, 2016). Após tratamentos bem-sucedidos, o VDRL pode se tornar não reagente, ou, após redução progressiva dos títulos (durante acompanhamento do tratamento), ainda apresentar, mesmo tempos depois do tratamento, baixas titulações. Contudo, as permanências dessas baixas titulações não necessariamente indicam que a infecção segue ativa ou que o tratamento não seja efetivo, mas, sim, que existe uma cicatriz sorológica. Assim, um tratamento é considerado eficaz quando um apresenta redução das titulações em comparação àquelas presentes antes do tratamento. Em geral, se após a conclusão do tratamento o paciente apresentar titulações de 1/2 e 1/4, acompanhados de testes treponêmicos não reagentes, trata-se de uma cicatriz sorológica (BRASIL, 2010). 126 FIGURA 4 – ETAPAS DA TÉCNICA DE VDRL QUALITATIVA FONTE: <https://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/22193/mod_resource/content/1/ S%C3%ADfilis%20-%20Manual%20Aula%202.pdf>. Acesso em: 7 abr. 2021. 127 Em pacientes com a doença ativa, os resultados reagentes de VDRL apresentam titulações altas, a partir de 1/16, entre a 2ª e 4ª semana após o surgimento do cancro duro, sendo necessário o início do tratamento. Além disso, pacientes pós-tratamento que apresentam titulações de VDRL ainda maiores que as mencionadas anteriormente têm indicação para repetição de tratamento (BRASIL, 2010). Para ilustrar todas as etapas, assista ao vídeo VDRL – O que todo biomédico precisa saber, que mostra o passo a passo da técnica. Utilize esse material como instrumento facilitador para visualização e compreensão dos passos previamente descritos. Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=G_mcKz03LoA. IMPORTANTE FIGURA 5 – ETAPAS DA TÉCNICA DE VDRL QUANTITATIVA 128 FONTE: <https://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/22193/mod_resource/content/1/ S%C3%ADfilis%20-%20Manual%20Aula%202.pdf>. Acesso em: 7 abr. 2021. É importante lembrarmos que, por se tratar de um teste que não está detectando a bactéria em si, ele não é específico para sífilis. Assim, existem causas transitórias ou permanentes que podem gerar resultados falso-positivos, como mostra o Quadro 1. QUADRO 1 – SITUAÇÕES QUE PODEM GERAR RESULTADOS FALSO-POSITIVOS NOS TESTES NÃO TREPONÊMICOS FONTE: Brasil (2016, p. 23) Situações que podem gerar resultados falso positivos transitórios Situações que podem gerar resultados falso-positivos permanentes • Algumas infecções; • Após vacinações; • Uso concomitante de medicamentos; • Após transfusões de hemoderivados; • Gravidez; • Em idosos. • Portadores de lúpus eritematoso sistêmico; • Síndrome antifosfolipídica e outras colagenoses; • Hepatites virais crônica; • Usuários de drogas ilícitas injetáveis; • Hanseníase; • Malária; • Em idosos. Assim, para saber quando o resultado reagente realmente indica a doença, a Portaria nº 3.242, de 30 de dezembro de 2011, estabelece o fluxo de testes para sífilis que devem ser realizados e indica quais são necessários para compreender se o resultado reagente corresponde ou não a sífilis, entre outras recomendações. 129 Além dos casos de resultados falso-positivos, existe também a possibilidade de resultados falso-negativos – anteriormente, abordamos o fenômeno prozona, que pode gerar resultados falso-negativos diante de altas concentrações de anticorpos em amostras não diluídas. Desse modo: Nos testes não treponêmicos, especialmente na sífilis secundária, quando há grande produção de anticorpos, podem ocorrer resultados falso-negativos em decorrência do fenômeno de prozona. Esse fenômeno consiste na ausência de reatividade aparente no teste realizado em uma amostra não diluída que, embora contenha anticorpos anticardiolipina, apresenta resultado não reagente quando é testada. Esse fenômeno decorre da relação desproporcional entre as quantidades de antígenos e anticorpos presentes na reação não treponêmica, gerando resultados falso-negativos (BRASIL, 2016, p. 20). Por isso, quando realizamos a técnica de VDRL na rotina laboratorial, é indispensável que a amostra seja testada tanto pura quanto diluída 1/8, sendo a testagem em diluição necessária para evitar resultados falso-negativos pelo efeito prozona (BRASIL, 2016). 3.1.2 Ensaio RPR O ensaio RPR (sigla do inglês Rapid Test Reagin) é uma variação do VDRL, porém tem como diferencial não necessitar de microscópio para visualização do resultado reagente. Isso é possível porque o kit reagente contém partículas de carvão na sua composição, o que torna a floculação visível a olho nu (Figura 6). A interpretação dos resultados deste teste é semelhante à apresentada no VDRL (BRASIL, 2016). FIGURA 6 – DEMONSTRAÇÃO DA VISUALIZAÇÃO DE RESULTADO NA TÉCNICA DE RPR FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/stanbio-rpr-test-kit-add-serum-463825115> Acesso em: 26 abr.2021. 130 3.2 TESTES TREPONÊMICOS Os testes treponêmicos são provas qualitativas que detectam anticorpos antitreponêmicos, ou seja, anticorpos produzidos especificamente contra o T. pallidum. Essa detecção ocorre pela presença de antígenos treponêmicos nas técnicas utilizadas. Por detectar anticorpos, resultados reagentes são indicativos de que, em dado momento, o paciente foi exposto ao T. pallidum, o que não necessariamente indica infecção ativa. São testes realizados em amostras que apresentaram resultados reagentes em testes não treponêmicos, conforme indicado no Manual Técnico para Diagnóstico da Sífilis (BRASIL, 2016). 3.2.1 Imunofluorescência indireta – FTA-Abs O teste FTA-Abs (sigla do inglês, Fluorescent Treponemal Antibody Absorption Test) é uma metodologia considerada padrão-ouro para sífilis, ou seja, é a melhor opção de exame, aquela que apresenta menor probabilidade de erro. Trata-se de uma técnica de imunofluorescência indireta (Figura 7) que “utiliza T. pallidum (da cepa Nichols) fixado em áreas demarcadas de lâminas de vidro em que são feitas as reações” (BRASIL, 2016), composta por várias etapas: A amostra de soro utilizada deve ser inativada, por 30 minutos, a 56ºC. As diluições são feitas em tubo. A amostra é diluída a 1/5, misturando-se 1 parte de soro e 4 partes de solução absorvente ou sorbent – extrato de cultura de treponema Reiter não patogênico. Essa diluição é feita para remover anticorpos treponêmicos comuns à maioria dos treponemas não patogênicos que podem estar presentes no soro. A amostra diluída é colocada sobre a demarcação da lâmina. Se a amostra contiver anticorpos antitreponema pallidum, estes vão se ligar aos treponemas fixados na lâmina.Após a incubação da reação e a lavagem da lâmina para remover anticorpos e outros componentes da amostra que não se ligaram à reação, é adicionado o conjugado fluorescente – soro antiimunoglobulina humana conjugado ao isotiocianato de fluoresceína). Se na amostra houver anticorpos ligados aos treponemas fixados na lâmina, o conjugado vai se ligar aos anticorpos, tornando os treponemas fluorescentes. Assim, estes poderão ser vistos, em microscopia de fluorescência, emitindo luz verde-maçã (BRASIL, 2016, p. 41). Para ilustrar melhor a técnica de FTA-ABS, assista ao vídeo “Imunofluorescência Indireta no FTA-ABS”, no qual os recursos visuais facilitam a compreensão dos princípios da técnica. Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=yc_GEJBOIr0. IMPORTANTE 131 Em pacientes com sífilis em estágio primário, é a primeira prova sorológica que apresenta resultado reagente. Além disso, é um teste utilizado em casos em que as manifestações clínicas são compatíveis com sífilis, porém apresenta resultado não reagente em provas não treponêmicas, situação possível em pacientes em estágio de sífilis primária, latente recente ou tardia (BRASIL, 2010). FIGURA 7 – REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA DE UMA REAÇÃO DE IMUNOFLUORESCÊNCIA INDIRETA – FTA-ABS FONTE: <https://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/22197/mod_resource/content/1/ S%C3%ADfilis%20-%20Manual%20Aula%206.pdf>. Acesso em: 7 abr. 2021. Essa técnica pode apresentar três tipos de resultados: reagente, não reagente e inconclusivo. No caso de resultados inconclusivos, é importante atentar para possíveis problemas relacionados à qualidade dos reagentes utilizados, bem como se a amostra que apresentou tal resultado foi acondicionada e manipulada corretamente. As particularidades relacionadas aos interferentes técnicos relacionados a essa metodologia, que culminam em resultados inconclusivos, serão discutidos no Tópico 5 (BRASIL, 2016). No caso de resultados reagentes, é importante ter em mente que se trata da investigação de anticorpos antitreponêmicos. Assim, se o paciente tiver sido infectado pelo Treponema, o organismo produzirá anticorpos para combatê- lo, os quais continuam detectáveis mesmo após a sua cura. Dessa forma, uma vez que o paciente tenha resultado FTA-Abs reagente, novas testagens utilizando essa metodologia seguirão apresentando resultado reagente, uma vez que se trata de uma cicatriz imunológica (BRASIL, 2016). Anticorpo treponêmico da amostra Conjugado fluorescente 132 3.2.2 Teste treponêmico imunoenzimático – ELISA Nesse tipo de teste, antígenos do Treponema estão fixados a uma fase sólida (placa de poliestireno) e ligam-se aos anticorpos antitreponêmicos presentes na amostra do paciente. Seguindo a mesma lógica do FTA-Abs, por ser um teste que detecta anticorpos específicos para Treponema, uma vez que o resultado seja reagente, o paciente seguirá apresentando esse mesmo resultado ao longo de sua vida. Dessa maneira, não é um teste aplicável para acompanhamento de tratamento ou diagnóstico de reinfecção (BRASIL, 2016). Deve-se observar que, ao tratar do teste imunoenzimático para Treponema, utilizamos a palavra reinfecção, ou seja, mesmo após a cura, o paciente ainda corre risco de novas infecções. Isso ocorre porque, apesar da produção de anticorpos antitreponêmicos na primeira infecção, essa bactéria tem mecanismos de evasão (mecanismos que tornam um patógeno menos detectável pelo sistema imune), como a baixa capacidade que as proteínas de superfície tem de gerar resposta imune (baixa imunogenicidade) e a variação de antígenos expressos pelas lipoproteínas (moléculas compostas por lipídios e proteínas) (BRAGA, 2018). IMPORTANTE De acordo com o Ministério da Saúde, o diagnóstico e acompanhamento aplicado à sífilis deve seguir fluxogramas de trabalho, a partir das metodologias previamente descritas: • Triagem não treponêmica confirmada por teste treponêmico (Figura 8) – fluxograma no qual a amostra é, inicialmente, testada utilizando provas não treponêmicas, como o VDRL. Casos em que o teste inicial não treponêmico apresenta resultado não reagente, tanto amostra pura quanto diluída 1/8, o fluxograma se encerra nessa etapa. Caso o paciente apresente manifestações clínicas compatíveis com sífilis, nesse caso, a equipe médica deve solicitar novamente novo exame dentro de 30 dias após a data da primeira coleta, para excluir da hipótese diagnóstica a sífilis. Caso a amostra seja testada pura e diluída e apresente resultado reagente para o teste não treponêmico, esse resultado deverá ser confirmado por um teste treponêmico. Tanto o resultado do teste não treponêmico quanto o teste treponêmico devem constar em laudo (BRASIL, 2016). 133 FIGURA 8 – FLUXOGRAMA DE TESTES DE TRIAGEM NÃO TREPONÊMICO CONFIRMADO POR TESTE TREPONÊMICO FONTE: Brasil (2016, p. 34) Resultado Reagente? Resultado Reagente? Amostra Não Reagente para Sífilis Amostra Não Reagente para Sífilis Amostra Reagente para Sífilis Amostra Realizar Teste não Treponêmico Realizar Teste Treponêmico simsim simsim nãonão nãonão • Diagnóstico laboratorial reverso de sífilis baseado em testes imunológicos automatizados: nesse fluxo de trabalho (Figura 9), a amostra é processada primeiro por testes automatizados treponêmicos, em que o resultado inicial determina as próximas etapas. Se o primeiro teste apresentar resultado não reagente, não é necessária mais nenhuma etapa. Caso apresente resultado reagente, ele deve ser seguido de um teste não treponêmico para confirmação diagnóstica (CASTEJON et al., 2019). 134 FIGURA 9 – FLUXOGRAMA DE DIAGNÓSTICO LABORATORIAL REVERSO DE SÍFILIS BASEADO EM TESTES IMUNOLÓGICOS AUTOMATIZADOS FONTE: Brasil (2016, p. 36) A combinação dos resultados de testes não treponêmicos e treponêmicos obtidos nos fluxos de trabalho previamente descritos têm diferentes interpretações para equipes médicas. O Quadro 2 indica as combinações e os significados clínicos possíveis com base nos resultados obtidos pelos exames imunológicos. Amostra Resultado Reagente? Amostra Não Reagente para Sífilis Realizar Teste Treponêmico nãonão simsim Resultado Reagente? Realizar Teste não Treponêmico nãonão Resultado Reagente? Amostra Não Reagentepara Sífilis Realizar Teste Treponêmico* nãonão Amostra Reagente para Sífilis simsim Amostra Reagente para Sífilis simsim 135 QUADRO 2 – INTERPRETAÇÃO DE PROVAS SOROLÓGICAS PARA SÍFILIS FONTE: Adaptado de <https://www.drakeillafreitas.com.br/como-fazer-o-diagnostico-da-sifilis/>. Acesso em: 12 fev. 2021. VDRL FTA-Abs Interpretação Titulação 1/16 Reagente Doença ativa, exceto quando o resultado de paciente em tratamento apresentar redução em relação às titulações anteriores Titulação 1/1, 1/2, 1/4 Reagente Cicatriz imunológica ou doença terciária ou latência tardia Reagente Não Reagente Falso-positivo Não reagente Reagente Cicatriz imunológica, independente se após tratamento ou cura espontânea 136 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Sífilis é uma doença sistêmica que tem como agente etiológico o Treponema pallidum, uma bactéria com parede celular semelhante às Gram-negativas que apresenta forma de espiroqueta microaeróbia. Os seres humanos são os únicos hospedeiros dessa bactéria. • A estrutura do Treponema pallidum é composta por: filamento axial (promove a movimentação do Treponema), membrana celular (composta por lipoproteínas, glicolipídios e cardiolipina, sendo este o principal antígeno investigado em testes não treponêmicos), periplasma (dá o formato espiralado ao Treponema) e membrana externa (protege o microrganismo). • O Treponema é transmitido por contato sexual, mas também pode ser transmitido por transmissão vertical e contato com secreções. • As manifestações clínicas podem ser divididas em três estágios: sífilis primária (manifestação clínica é a presença de lesão no local em que a bactéria invade) sífilis secundária (dispersão do Treponema pallidum por todos os órgãos com formação de exantemas), sífilis latente (manifestações clínicas cessam) e sífilis terciária (processo inflamatório acompanhado de prejuízo no tecido ósseo, cardiovascular e do sistema nervoso) • A detecção de sífilis é feita por provas imunológicas de dois tipos: treponêmicos (provas qualitativas que detectam anticorpos antitreponêmicos, ou seja, anticorpos específicos para o Treponema) e não treponêmicos (não são específicos para o Treponema, investiga a presença de anticorpos anticardiolipínicos). • FTA-Abs é a metodologia treponêmica considerada padrão-ouro para sífilis pois apresenta menor probabilidade de erro. • Teste treponêmico imunoenzimático ELISA utiliza antígenos do Treponema fixados a uma fase sólida que se ligam aos anticorpos antitreponêmicos presentes na amostra do paciente. • Os fluxos diagnósticos para sífilis compreendem principalmente: triagem não treponêmica confirmada por teste treponêmico e diagnóstico laboratorial reverso de sífilis baseado em testes imunológicos automatizados. RESUMO DO TÓPICO 1 137 AUTOATIVIDADE 1 Sobre o Treponema pallidum, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) Trata-se de uma bactéria Gram-negativa em formato de espiroqueta e microaerófila. b) ( ) Indivíduos infectados pelo Treponema pallidum apresentam como sintoma inicial uma ferida no local em que ocorreu a infecção. c) ( ) A bactéria apresenta mecanismos de evasão de alta imunogenicidade, que permitem novas infecções em indivíduos já curados. d) ( ) Com a evolução do quadro infeccioso sem tratamento, o Treponema pode gerar prejuízos neurológicos. 2 Na técnica de VDRL, é indispensável a realização de testes com a amostra pura e com a amostra diluída na proporção 1/8. Justifique esta afirmação. 3 A respeito dos testes treponêmicos, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) São testes comumente utilizados para acompanhamento do tratamento para sífilis. b) ( ) São testes confirmatórios, que pesquisam anticorpos específicos para Treponema pallidum. c) ( ) São testes de triagem inespecíficos para Treponema pallidum. d) ( ) São os testes mais indicados para investigar reinfecções. 4 Por que são utilizados testes não treponêmicos para sífilis, apesar de sua inespecificidade? Justifique sua resposta. 5 A sífilis é uma doença infecciosa que apresenta diferentes estágios, caracterizados por diferentes manifestações clínicas. Sobre os estágios dessa doença, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) Os dois primeiros estágios da doença são considerados os de maior chance de contágio. b) ( ) O terceiro estágio pode ser assintomático. c) ( ) Na sífilis secundária, a pele é acometida pelo surgimento de manchas. d) ( ) Na sífilis terciária, é possível observar a formação do cancro duro, correspondente a uma ferida indolor que surge no local da inoculação da bactéria. 138 139 SÍNDROME DA IMUNODEFICIÊNCIA ADQUIRIDA (SIDA OU AIDS) UNIDADE 3 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO No início da década de 1980, um dos primeiros registros do que, ao final do mesmo ano, seria definido pelo Center for Disease Control (CDC) como a síndrome da imunodeficiência adquirida (Sida ou, do inglês, Aids), resultante da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), foi: Recentemente, tratamos vários homossexuais jovens, previamente sadios, com múltiplos episódios de pneumonia por Pneumocystis carinii, candidíase extensa de mucosa e infecções virais graves. As manifestações clínicas e os estudos da imunidade celular indicaram um grave defeito da função das células T. Esta síndrome representa uma deficiência imunológica potencialmente transmissível (GOTTLIEB et al., 1981, p. 444). Como podemos perceber, inicialmente, foi relatada como uma condição clínica restrita a indivíduos homossexuais do sexo masculino. Essa conclusão inicial estigmatizou a AIDS como uma doença relacionada a indivíduos homossexuais do sexo masculino e transmitida via contato sexual nos anos 1980 (CDC, 2020). Contudo, com a evolução dos conhecimentos adquiridos sobre a AIDS, essa informação inicial foi desmistificada. Isso porque foi observado que mulheres, recém- nascidos filhos de gestantes com HIV e indivíduos que, independentemente da orientação sexual, compartilhavam agulhas para uso de drogas de abuso ou receberam doação de sangue contaminado também poderiam ser infectados pelo vírus HIV. Assim, foi possível compreender que, diferentemente das conclusões iniciais sobre a doença, além da via sexual a transmissão do HIV (Figura 10), poderia ocorrer por via vertical (mãe para filho) e via sanguínea (CDC, 2020). 140 FIGURA 10 – VIAS DE TRANSMISSÃO DO VÍRUS HIV FONTE: <https://www.vihda.pt/saber-sobre-o-hiv/como-se-transmite/>. Acesso em: 20 fev. 2021. O HIV é um vírus que infecta o sistema imunológico dos seres humanos. Quando essa infecção não é devidamente tratada, ela passa a expressar um quadro conhecido como AIDS. Até o momento, trata-se de uma condição para a qual não existe cura, assim, uma vez infectado, o paciente permanece com o vírus por toda sua vida. Contudo, com os avanços no desenvolvimento de estratégias terapêuticas, pacientes infectados podem viver de modo saudável e com maior qualidade de vida atualmente (FIOCRUZ; HOAGLAND, 2013). A seguir, compreenderemos os mecanismos de infecção desse vírus, e como ele desencadeia a AIDS. Ao longo deste tópico, abordaremos também as metodologias utilizadas para detecção e acompanhamento dos pacientes que vivem com HIV. 2 VÍRUS DA IMUNODEFICIÊNCIA HUMANA (HIV) O HIV foi originado de um vírus presente em chimpanzés da África Central, chamado de vírus da imunodeficiência símia (SIV), e é provável que tenha sido transmitido aos humanos pelo contato com a carne de caça desses animais, bem como com o seu sangue infectado. O HIV é um retrovírus (vírus que armazena suas informações em formato de ácido ribonucleico-RNA e possui a enzima transcriptase reversa) pertencente à família Lentiviridae. Esta subfamília de vírus tem como características um longo período de incubação antes do estabelecimento de sinais e sintomas relacionados à doença, supressão imunológica e infecção de células sanguíneas e do sistema nervoso (FIOCRUZ; HOAGLAND, 2013).141 Ao infectar um indivíduo, o HIV liga-se ao receptor CD4+, que está presente na membrana plasmática dos linfócitos T auxiliares (também conhecidos como linfócitos T-CD4+). A partir daí, ele utiliza a célula infectada para se reproduzir. A replicação do HIV tem início com a liberação do RNA viral dentro da célula infectada. Esse RNA é transcrito por uma enzima chamada transcriptase reversa, responsável por transcrever o RNA viral em DNA pró-viral. Uma vez sintetizado, o DNA pró-viral entra no núcleo da célula infectada e se integra ao DNA celular com o auxílio da enzima viral integrase. Posteriormente, a célula passa a produzir o RNA e as proteínas do HIV, que são importantes para a formação de novos virions (partícula viral completa que está estruturalmente intacta e é infecciosa) ainda imaturos. Os virions imaturos são convertidos em vírus HIV maduros, por ação das enzimas virais proteases, rompem a célula ao qual se originaram e invadem outra célula do hospedeiro, e, assim, o ciclo se reinicia (Figura 11). Ao utilizar os componentes celulares para sua replicação, o HIV destrói progressivamente os linfócitos. Os linfócitos atuam na defesa contra microrganismos patogênicos e células cancerígenas, por isso, com a redução dos linfócitos, o indivíduo infectado passa a ficar vulnerável a infecções oportunistas (infecções por microrganismos que, diante da vulnerabilidade imunológica do paciente, conseguem causar infecções generalizadas) (BRASIL, 2013). Muitas vezes, é desafiador compreender alguns processos biológicos, e um exemplo é o processo de replicação do HIV. Assim, assista à animação a seguir, que pode auxiliar no entendimento das etapas da replicação do HIV: https://www.youtube.com/watch?v=ZQ9amIhyZ48. IMPORTANTE É importante ressaltarmos que existem dois tipos de HIV: o HIV tipo 1 e o HIV tipo 2. O primeiro é um retrovírus mais disperso por todo o mundo, enquanto o segundo é o principal causador de infecções por HIV na região central da África. IMPORTANTE 142 FIGURA 11 – CICLO DE REPLICAÇÃO DO HIV FONTE: <http://twixar.me/TBtm>. Acesso em: 21 fev. 2021. Quando a infecção progride de tal forma que a quantidade de linfócitos fica muito baixa, diferentes manifestações clínicas passam a surgir configurando a AIDS. Esta progressão que ocorre entre a infecção e o estabelecimento da AIDS pode ser dividida em fases, conforme descrito abaixo: • Infecção aguda: trata-se da fase de incubação, que corresponde ao período entre o contágio e a manifestação de sinais e sintomas. Esta fase dura de 3 a 6 semanas, e por apresentar sintomas leves e similares ao de uma gripe, não recebem a devida atenção por parte do paciente. • Fase assintomática (ou latência clínica): o vírus se replica intensamente, porém o sistema imune por ainda apresentar número considerável de glóbulos brancos, consegue controlar a replicação viral, de modo que o paciente não manifesta sintomas. Essa fase pode perdurar por até 10 anos, e o indivíduo infectado pode transmitir o vírus para outras pessoas. Próximo do fim desse período, a carga viral (quantidade de cópias do vírus presente em determinado fluido corporal) passa a aumentar, enquanto os linfócitos T CD4 apresentam redução em sua quantidade. 143 • Fase sintomática inicial: por conta da redução das células CD4+, o paciente infectado se torna imunologicamente vulnerável, o que favorece o aparecimento de outras doenças, quando os linfócitos T-CD4+ apresentam concentrações abaixo de 500 células/mm3 (em condições normais, os indivíduos apresentam entre 500 e 1200 células/mm3 de linfócitos T-CD4+). Entre as manifestações clínicas possíveis, temos: tuberculose pulmonar, herpes-zoster, candidíase genital de repetição e dermatoses. • AIDS: um paciente é enquadrado nessa fase quando a contagem de linfócitos T-CD4+ é inferior a 200 células/mm3. Nessa etapa, a redução drástica das células de defesa favorece o aparecimento de doenças oportunistas como sarcoma de kaposi (Figura 12), caquexia, neurocriptococose, neurotoxoplasmose, candidíase, tuberculose extrapulmonar, diarreia crônica, entre outras (FURRER; FUX, 2002). FIGURA 12 – PACIENTES COM CANDIDÍASE (A) E SARCOMA DE KAPOSI (B) FONTE: <https://www.mdsaude.com/doencas-infecciosas/dst/sarcoma-kaposi/>. Acesso em: 20 fev. 2021. Síndrome é um termo que tem origem do grego “syndromé”, que significa reunião. Assim, ao se deparar com o termo síndrome na área da saúde, isso significa que o paciente apresenta um conjunto de sinais e sintomas inespecíficos, mas que, em conjunto, configuram uma determinada síndrome. INTERESSANTE 144 É importante ter clareza quanto à diferença de alguns termos relacionados a este tópico: uma pessoa que vive com HIV não é uma pessoa que necessariamente está com AIDS. Em especial, pessoas que vivem com HIV e fazem uso de terapia antiretroviral (medicamentos responsáveis por inibir a replicação do HIV e, por conseguinte, reduzir o prejuízo ao sistema imunológico), e realizam o acompanhamento médico corretamente, apresentam melhora na qualidade de vida, uma vez que apresentam melhora na disposição, energia e apetite e menores chances do desenvolvimento de doenças oportunistas (UNAIDS, 2017). 3 LABORATÓRIO CLÍNICO NO DIAGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO DO HIV/AIDS Nesse momento, compreenderemos como é realizado o diagnóstico da infecção por HIV e o acompanhamento de pacientes que vivem com o vírus a partir das provas sorológicas presentes no laboratório clínico, bem como a interpretação dos resultados de cada metodologia e sua aplicação clínica. Os aspectos técnicos das metodologias ainda não discutidas nesta disciplina serão abordados no Tópico 5. NOTA As metodologias e fluxos de trabalho aplicados ao diagnóstico do HIV foram implantados na rotina laboratorial com base nas orientações técnicas disponibilizadas pelo Ministério da Saúde, a partir do Manual Técnico para o Diagnóstico da Infecção pelo HIV, aprovado pela Portaria SVS/MS n° 29, de 17 de dezembro de 2013. Essa portaria deve ser seguida pelos profissionais envolvidos no diagnóstico de HIV tanto nos setores públicos quanto privados. A construção deste manual foi pensada considerando cenários de maior e menor disponibilidade de recursos técnicos. Desse modo, existem seis fluxos de trabalho possíveis preconizados pelo manual (apresentados na forma de fluxogramas), com o objetivo de contemplar as diferentes condições de trabalho dos laboratórios brasileiros. Assim, quando um laboratório objetiva implantar uma rotina para diagnóstico de HIV, esse manual deve ser consultado e, dentro dos recursos disponíveis, um dos fluxogramas disponíveis deve ser selecionado para nortear os fluxos de trabalho. 145 O Ministério da Saúde consegue delinear esses fluxogramas propostos a partir da Classificação de Fiebig et al. (2003), uma vez que, conforme descrito por Souza (2017, p. 42): Estudos de Fiebig et al. apontam o período de reatividade de cada metodologia de testagem após o evento de infecção, servindo como base para a construção dos fluxogramas. O sistema proposto estabelece seis estágios na infecção recente pelo HIV, de acordo com o padrão de reatividade a marcadores específicos (RNA viral, antígeno, p.24, ELISA e Western Blot), que surgirão nos ensaios de detecção ao longo da progressão da infecção viral. Tal sistema é a base para a tomada de decisão sobre quais metodologias são mais adequadas em contextos distintos da infecção pela sintomatologia e histórico do paciente. Os testes utilizados para detecção do HIV são divididos em gerações. Quanto maior a geração do ensaio, maior a capacidade de detecção do vírus em infecções recentes por HIV (BRASIL, 2018): • Primeira geração: são imunoensaios de formato indireto, que detectam a presença de IgG para HIV, e que apresenta janela de soroconversão (surgimento do anticorpo no soro) de 35 a 45 dias. Por detectar IgG, é considerado um teste pouco específico e menos sensível em comparação com as geraçõesseguintes, o que fez com que esta geração de testes entrasse em desuso nos laboratórios clínicos. • Segunda geração: também um imunoensaio indireto (metodologia já apresentada na Unidade 2), porém sua vantagem consiste no uso de fragmentos de proteínas do HIV. A opção por este antígeno está relacionada à presença de epítopos imunodominantes (regiões antigênicas presente em certas proteínas do HIV pelo qual a resposta humoral tem maior afinidade). Assim, quanto mais epítopos imunodominantes, maior a sensibilidade do ensaio. • Terceira geração: são ensaios do tipo imunométricos, também conhecidos como sanduíche, que permitem a detecção de anticorpos anti-HIV IgM e anti-HIV anti- IgG simultaneamente. A capacidade de detecção de IgM deste tipo de teste confere maior sensibilidade em relação à primeira e segunda geração. Nestes testes, a janela de soroconversão é de 20 a 30 dias. • Quarta geração: testes que detectam tanto o antígeno p24 presente no vírus e ainda detectam os anticorpos específicos para HIV. Nestes testes o tempo médio de janela sorológica é de 15 dias. Dada a importância das metodologias de quarta geração, assista ao vídeo a seguir, que aborda esses testes, demonstrando como este tipo de ELISA é realizado, bem como outras características importantes: https://www.youtube.com/watch?v=cE6IL4H8HJE. IMPORTANTE 146 Assim, os imunoensaios mais comumente utilizados nas rotinas para HIV são os ensaios imunoenzimáticos (ELISA). De modo geral, o princípio de ensaios sorológicos para HIV não está voltado para detectar o vírus, mas, sim, detectar a presença de anticorpos específicos para HIV. Um lembrete importante é que a produção de anticorpos específicos precede a presença do patógeno investigado. Dessa forma, somente pacientes infectados pelo vírus HIV, por exemplo, poderão apresentar anticorpos para esse vírus. Antígeno p24 é uma proteína que compõe a cápsula protetora que guarda os genes e enzima viral, chamada de capsídeo, na zona central do vírus. ANTÍGENO P24 FONTE: <http://docplayer.com.br/11719439-Francisco-andre-marques- de-oliveira-cariri.html>. Acesso em: 27 fev. 2021. NOTA 147 Os Fluxogramas 1, 2 e 3 são os preferenciais por combinarem os testes que permitem agilizar o diagnóstico da infecção, sendo também os que apresentam maior resolutividade e, por esses motivos, o DIAHV os indica como sendo os de primeira escolha nas situações nas quais está recomendada sua aplicação (BRASIL, 2018, p. 66). Conforme citado anteriormente, a execução das provas sorológicas aplicadas ao diagnóstico de HIV deve seguir os fluxos de trabalho indicados pelo Ministério da Saúde. Os principais fluxos e seu respectivo funcionamento são: • Dois testes rápidos realizados em sequência com amostras de sangue: fluxo de trabalho que utiliza dois testes rápidos (Figura 13), que devem detectar antígenos diferentes, em amostras de sangue de punção digital (gotas de sangue extraídas da ponta dos dedos) ou punção venosa. Contudo, um resultado só é válido em testes rápidos quando a faixa controle é marcada. Assim, quando aparece “Válido?” ao longo do fluxograma, estamos tratando de um possível problema no teste de teste. Testes que apresentarem resultado que não é válido tem indicação de nova coleta por punção venosa e processamento de acordo com fluxogramas que incluem outras metodologias. Por outro lado, casos em que o teste apresentar resultado válido não reagente, o fluxograma de trabalho se encerra nessa etapa. Entretanto, pacientes que apresentam resultado válido reagente para HIV devem ser testados com um segundo teste rápido. Se o resultado neste segundo teste rápido apresentar resultado reagente e a amostra utilizada por originada de punção digital, devemos solicitar coleta de segunda amostra para repetir e com isso confirmar o resultado. Já em casos em que o segundo teste apresenta resultado não reagente, também é necessária realização de coleta de nova amostra para comparação com o primeiro teste rápido utilizado (BRASIL, 2018). 148 FIGU RA 13 – D O IS TESTES RÁ PID O S REA LIZA D O S EM SEQ U ÊN CIA CO M A M O STR AS D E SA N GU E FO N TE: Brasil (2018, p. 67) sim sim R ealizar Teste R ápido 1 (TR 1) V álido? não não R epetir Teste R ápido 1 (TR 1) 1 V álido? não não A m ostra N ão R eagente para H IV 4 R esultado R eagente? não não V álido? V álido? R esultado R eagente? Prim eira discordância? A m ostra R eagente para H IV 2,3,5 C oletar um a am ostra por punção venosa e encam inhá-la para ser testada com um dos fluxogram as definidos para laboratório. R ealizar Teste R ápido 2 (TR 2) R epetir Teste R ápido 2 (TR 2) 1 sim sim sim sim sim sim sim sim sim sim não não não não sim sim não não A m ostra 149 • Um teste rápido utilizando fluido oral seguido por um teste rápido utilizando sangue: neste fluxo de trabalho, também são utilizados 2 testes rápidos diferentes, em que um deles utilizamos amostra de fluido oral enquanto o segundo é realizado com amostra de sangue (Figura 14). Sua aplicação é indicada principalmente em ações e campanhas de testagem que ocorrem fora dos estabelecimentos de saúde. Este fluxograma é semelhante ao anterior, com a diferença de que um teste é realizado com fluído oral (BRASIL, 2018). FI GU RA 1 4 – D O IS T ES TE S RÁ PI D O S: U M U TI LI ZA N D O A A M O ST RA D E FL U ÍD O O RA L E O U TR O A A M O ST RA D E SA N GU E FO N TE : B ra si l ( 20 18 , p . 7 4) si m si m R ea liz ar T es te R áp id o 1 (T R 1- FO ) V ál id o? nã o nã o R ep et ir Te st e R áp id o 1 (T R 1- FO )1 V ál id o? nã o nã o A m os tr a N ão R ea ge nt e pa ra H IV 3 R es ul ta do R ea ge nt e? nã o nã o V ál id o? V ál id o? R es ul ta do R ea ge nt e? Pr im ei ra di sc or dâ nc ia ? A m os tr a R ea ge nt e pa ra H IV 2, 4 C ol et ar u m a am os tr a po r p un çã o ve no sa e en ca m in há -la p ar a se r t es ta da c om u m d os flu xo gr am as d efi ni do s pa ra la bo ra tó ri o. R ea liz ar T es te R áp id o 2 (T R 2) R ep et ir T es te R áp id o 2 (T R 2) 1 si m si m si m si m si m si m si m si m si m si m nã o nã o nã o nã o si m si m nã o nã o A m os tra (F lu id o O ra l - F O ) A m os tra (S an gu e) 150 • Aplicação de um imunoensaio de quarta geração confirmado por teste molecular como metodologia complementar: nesse fluxo de trabalho, é utilizada metodologia de imunoensaio (ELISA) de 4ª geração que, frente a resultados não reagentes, o resultado já pode ser liberado (Figura 15). Contudo, amostras que apresentam resultado reagente devem ser confirmadas utilizando teste molecular para contagem de carga viral. Quando a carga viral presente apresentar resultado igual ou superior a 5.000 cópias do vírus/mL de sangue a amostra é considerada reagente para HIV. Caso a avaliação da carga viral apresente resultado inferior a 5.000 cópias do vírus/mL, a amostra deverá ser testada por metodologia de Western Blot, que ao apresentar resultado reagente, confirma que a amostra é reagente para HIV e, caso apresente resultado não reagente, deverá ser laudada como resultado inconclusivo, com indicação para nova coleta de amostra 1 mês da data da primeira coleta (BRASIL, 2018). FIGURA 15 – ENSAIOS DE QUARTA GERAÇÃO UTILIZANDO TESTE MOLECULAR COMO METODOLOGIA COMPLEMENTAR FONTE: Brasil (2018, p. 80) Resultado ≥ 5.000 cópias/ml? Amostra Não Reagente para HIV1 Resultado Reagente? nãonão simsim Amostra (soro ou plasma) Resultado Reagente? Realizar IE 4aG (T1) Realizar Teste Molecular (T2) Amostra Indeterminada1 Amostra Reagente para HIV2 Realizar Teste WB ou IB ou IBR (T3) nãonão nãonão simsim simsim 151 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • O vírusda imunodeficiência adquirida (HIV) ataca o sistema imunológico. Quando essa infecção não é tratada, passa a expressar um quadro conhecido como síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA ou AIDS). • HIV é um retrovírus (vírus que armazena suas informações em formato de ácido ribonucleico) pertencente à família Lentiviridae. Esta subfamília de vírus tem como características um longo período de incubação antes do estabelecimento de sintomas relacionados à doença, à supressão imunológica e à infecção de células sanguíneas e nervosas. • A progressão da infecção ocorre de tal forma que a quantidade de leucócitos fica muito baixa. A partir daí, diferentes manifestações clínicas passam a surgir configurando a síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). • O princípio de ensaios sorológicos para HIV é voltado para detectar a presença de anticorpos específicos para o HIV. • As metodologias e fluxos de trabalho aplicados ao diagnóstico do HIV são implantados na rotina laboratorial seguindo orientações técnicas disponibilizadas pelo Ministério da Saúde, a partir do Manual Técnico para o Diagnóstico da Infecção pelo HIV, aprovado pela Portaria SVS/MS n° 29/2013. • Entre os principais fluxos de trabalho para diagnóstico de HIV, podemos destacar: dois testes rápidos realizados em sequência com amostras de sangue; um teste rápido utilizando fluido oral seguido por um teste rápido utilizando sangue; e a aplicação de um imunoensaio de quarta geração confirmado por teste molecular como metodologia complementar. RESUMO DO TÓPICO 2 152 AUTOATIVIDADE 1 Explique a diferença entre HIV e AIDS. 2 Sobre o vírus HIV, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Trata-se de uma doença que culmina com o estabelecimento de prejuízo hepá- tico crônico. b) ( ) É sinônimo da síndrome da imunodeficiência adquirida. c) ( ) É responsável pelo estabelecimento da AIDS. d) ( ) É transmitida exclusivamente por via sexual. 3 A detecção de HIV é realizada por provas sorológicas classificadas em gerações. A respeito das gerações dessas provas sorológicas, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Ensaios de primeira geração são do tipo imunométrico e detectam anticorpos anti-HIV IgM e anti-HIV anti-IgG simultaneamente. b) ( ) Ensaios de segunda geração são do tipo sanduíche direto, sendo considerados pouco específicos e menos sensíveis em comparação com as gerações seguintes. c) ( ) Ensaios de terceira geração apresentam 15 dias de janela de soroconversão. d) ( ) Ensaios de quarta geração detectam o antígeno p24 e os anticorpos específicos para HIV. 4 Sobre a evolução clínica que caracteriza o estabelecimento da AIDS, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O aumento progressivo de cópias dos linfócitos T-CD4+ precede o aparecimento de sintomas. b) ( ) O aumento progressivo da carga viral é o evento que precede o aparecimento de sintomas. c) ( ) A redução progressiva da carga viral é o evento que precede o aparecimento de sintomas. d) ( ) A manifestação de sintomas precede as alterações nos marcadores de carga viral. 5 Explique a importância do antígeno p24 relacionado ao HIV. 153 TÓPICO 3 — HEPATITES VIRAIS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO “Em todo o mundo, 290 milhões de pessoas vivem com hepatite viral e desconhecem que estão contaminadas”, esta afirmação é do Ministério da Saúde e destaca a importância de diagnosticar pessoas que vivem com hepatite viral e desconhecem esse fato. A seguir, conheceremos mais sobre as hepatites virais, bem como as metodologias utilizadas para diagnóstico e o significado clínico dos resultados obtidos. 2 HEPATITES VIRAIS Hepatite é um termo que vem da palavra grega Hepar, que significa fígado. Associada ao sufixo “ite”, que refere a inflamação, indica que se trata de um processo inflamatório localizado no fígado. Este quadro inflamatório hepático pode ter diferentes causas, como: • doenças metabólicas; • doenças autoimunes; • uso excessivo de álcool; • substâncias tóxicas; • medicamentos; • infecção viral. Nesse primeiro momento, abordaremos hepatites originadas por infecções virais. Trata-se de uma doença crônica causada por vírus hepatotrópicos, ou seja, vírus que tem maior afinidade pelos hepatócitos, células que formam o tecido hepático. Dividem-se em cinco tipos, nomeados de acordo com as cinco primeiras letras do alfabeto: • Vírus da hepatite A (HAV): vírus de RNA com capsídeos formados pelo antígenos HAVAg (Figura 16). É encontrado no sangue e nas fezes de indivíduos contaminados e tem como meio de transmissão a via oral-fecal. Assim, dissemina-se com facilidade quando um indivíduo ingere alimentos contaminados ou por contato próximo com pessoas contaminadas. Os sintomas da hepatite A incluem náusea, icterícia, dor estomacal e fadiga, e podem durar por até 2 meses. A vacinação é a melhor forma de prevenir a contaminação por HAV (BRASIL, 2015). 154 FIGURA 16 – VÍRUS DA HEPATITE A FONTE: <https://bit.ly/3ab5iHh>. Acesso em: 11 fev. 2021. • Vírus da hepatite B (HBV): vírus de DNA que é revestido com duas camadas, compostas por diferentes antígenos (Figura 17). A camada interna composto por HBcAg, que representa o antígeno core (do inglês, núcleo) e o antígeno HBeAg, conhecido como antígeno “e”, que é um produto do gene do cerne viral. Já a camada externa (envelope) é composta por HBsAg, que corresponde ao antígeno de superfície desse vírus. É transmitido por contato com fluídos corporais contaminados. Indivíduos com infecção recente por HBV nem sempre apresentam sintomas. Contudo, quando existem sintomas nessa fase, o indivíduo pode manifestar fadiga, icterícia, dor estomacal, náusea e redução do apetite. A evolução do processo inflamatório desencadeado por esse vírus pode ocorrer de duas formas: como uma doença de curto prazo ou como uma infecção crônica com complicações clínicas como câncer de fígado ou cirrose (lesão hepática crônica que formam tecido cicatricial gerando insuficiência hepática). A vacinação é a principal via de prevenção desta infecção (BRASIL, 2015). FIGURA 17 – VÍRUS DA HEPATITE B FONTE: <https://bit.ly/3ab5iHh>. Acesso em: 11 fev. 2021. 155 • Vírus da hepatite C (HCV): vírus de RNA com capsídeo e um envoltório externo, composto por lipoproteínas (Figura 18). É disseminado por via sanguínea, sexual e instrumentos de manicure não esterilizados. A maior parte dos indivíduos infectados não apresenta sintomas por longos períodos após a infecção. Contudo, quando se dá a manifestação de sintomas, frequentemente é indicativo de problemas hepáticos em estágio avançado, apresentando complicações como cirrose e câncer de fígado. Não existe vacina própria para esse vírus. Dessa forma, evitar o compartilhamento de agulhas, instrumentos de manicure e atividade e usar preservativo são hábitos que previnem a contaminação por este vírus (BRASIL, 2015). FIGURA 18 – VÍRUS DA HEPATITE C FONTE: <https://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/22180/mod_resource/content/3/Hepatites- Manual-Aula-1.pdf>. Acesso em: 11 fev. 2021. • Vírus da hepatite D (HDV): vírus responsável pela hepatite delta, que possui envoltório composto por HBsAg, que é o mesmo antígeno de superfície presente no HBV (Figura 19). O HDV depende deste antígeno para completar seu ciclo biológico e sua capacidade de invadir a célula e se replicar (FONSECA, 2002). Assim, a infecção por HDV depende de coinfecção (infecção simultânea) ou superinfecção, que é quando ocorre a infecção por HDV após o indivíduo ter sido contaminado por HBV. A transmissão acontece quando sangue ou fluidos corporais contaminados entram em contato com o indivíduo. A contar pela relação de dependência que o HDV tem com o HBV, a vacinação para HBV é uma via de prevenção de infecção por HDV (FONSECA, 2002). 156 FIGURA 19 – VÍRUS DA HEPATITE D FONTE: <https://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/22180/mod_resource/content/3/Hepatites- Manual-Aula-1.pdf>. Acesso em: 11 fev. 2021 • Vírus da hepatiteE (HEV): vírus de RNA com capsídeo formado pelo antígeno HEVAg, que pode ser encontrado nas fezes de indivíduos infectados (Figura 20). Assim, a infecção se dá pelo consumo de alimentos e água contaminados. Pode ocorrer de modo assintomático, mas em casos sintomáticos, as manifestações clínicas são semelhantes àquelas presentes em infecções por HAV. Manifestações clínicas de perfil crônico por HEV são raras e ocorrem em pacientes com sistema imune comprometido (CDC, 2020). FIGURA 20 – VÍRUS DA HEPATITE E FONTE: <https://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/22180/mod_resource/content/3/Hepatites- Manual-Aula-1.pdf>. Acesso em: 11 fev. 2021. 157 3 LABORATÓRIO CLÍNICO NO DIAGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO DAS HEPATITES VIRAIS Inicialmente, apresentaremos as características de cada um dos tipos de vírus da hepatite, pois cada vírus tem seus antígenos. É a partir das particularidades antigênicas de cada um deles que o laboratório clínico se pauta para investigar infecções causadas por esses vírus. A seguir, conheceremos os marcadores sorológicos aplicados ao diagnóstico das hepatites virais, sendo importante compreender que a confirmação das hipóteses clínicas relacionadas a esses vírus depende da combinação desses marcadores. O diagnóstico das hepatites virais é baseado na detecção dos marcadores presentes no sangue, soro, plasma ou fluido oral da pessoa infectada, por meio de imunoensaios, e/ou na detecção do ácido nucleico viral, empregando técnicas de biologia molecular. O constante avanço tecnológico na área de diagnóstico permitiu o desenvolvimento de técnicas avançadas de imunoensaios, incluindo o de fluxo lateral, que são atualmente empregadas na fabricação de testes rápidos (TR). Os TR são de fácil execução, não exigem infraestrutura laboratorial para a sua realização e podem gerar resultados em até 30 minutos, permitindo ampliar o acesso ao diagnóstico (BRASIL, 2015, p. 13). Nas hepatites virais, os fluxos de análise da amostra são diferentes frentes, resultados de triagem não reagentes e reagentes (BRASIL, 2015): • Testes rápidos de triagem com resultado não reagente para hepatite: resultado liberado com base nesse único teste aplicado. A repetição dessa análise é sugerida apenas em casos em que o paciente apresenta manifestações clínicas que reforçam a suspeita de hepatite, após 30 dias da primeira análise realizada. A recomendação de repetição após 1 mês da primeira análise tem como objetivo eliminar a possibilidade de o paciente estar passando pelo período de janela diagnóstica, que corresponde ao tempo entre a infecção e o período de detecção do marcador infeccioso investigado. • Testes de triagem com resultado reagente para hepatite: testes de triagem reagente para hepatite devem ser acompanhados de outro teste confirmatório. A aplicação deste segundo teste é realizada com o objetivo de aumentar o valor preditivo positivo (VPP), que corresponde à probabilidade de o indivíduo avaliado de fato estar doente (BRASIL, 2015). 158 3.1 HEPATITE A Causada pelo vírus HAV, sua detecção ocorre por sorologia IgM e IgG para HAV. De 5 a 10 dias após infecção, o IgM anti-HAV passa a ser detectável, permanecendo assim por até meio ano após o momento da infecção. Após o término da fase aguda, é possível que este marcador se torne indetectável. No caso dos anticorpos IgG, uma vez reagente, este anticorpo permanecerá detectável ao longo de toda vida do paciente. Sua aplicabilidade está associada principalmente ao acompanhamento epidemiológico da doença (BRASIL, 2015). 3.2 HEPATITE B O antígeno e os anticorpos utilizados para diagnóstico de hepatite B permitem compreender qual o estágio da infecção. Inicialmente, a triagem é realizada pelos seguintes marcadores (BRASIL, 2015): • HbsAg: trata-se do antígeno de superfície presente no HBV, detectável na corrente sanguínea após o 1º mês de infecção. É um antígeno presente tanto na infecção aguda quanto na infecção crônica, também conhecido como antígeno Austrália. • Anti-Hbc: trata-se do anticorpo da classe IgG contra o antígeno presente no capsídeo ou core do vírus da hepatite B. Este anticorpo é passível de detecção por toda vida. Além dos marcadores utilizados para triagem, existem ainda outros marcadores utilizados no diagnóstico da hepatite B (BRASIL, 2015): • Anti-HBc: trata-se de um anticorpo da classe IgM produzido contra o antígeno do capsídeo ou core do HVB, presente na fase aguda (recente) da infecção. • Anti-HBs: classe de anticorpos produzidos em resposta ao antígeno de superfície do HVB, presente em pacientes que foram imunizados contra este vírus por vacinação. • HBeAg: presente após o primeiro mês de infecção, trata-se de um marcador que indica que o paciente apresenta alta infectividade devido à presença de replicação viral intensa. Quando presente em estágios crônicos da hepatite indica que a doença está em atividade. • Anti-HBe: trata-se de anticorpo produzido contra o antígeno “e” presente no HVB. De modo geral, é indicador de bom desfecho para o paciente, uma vez que sinaliza, em hepatites agudas, resolução da infecção ou menor chance de evolução da hepatite para cirrose, pela atividade reduzida da doença, em pacientes crônicos. Muitas vezes, a investigação sorológica para hepatite B inclui a maior parte dos marcadores discutidos anteriormente. Para facilitar o entendimento do significado clínico das combinações possíveis de resultados, o Quadro 2 apresenta as interpretações possíveis para os achados sorológicos. 159 QUADRO 3 – INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS SOROLÓGICOS PARA HEPATITE B Hepatite B: Interpretação dos resultados sorológicos Interpretação HBsAg HBeAg Anti- HBc IgM Anti- HBc IgG Anti- HBe Anti- HBs Incubação + - - - - - Fase aguda + + + + - - Fase aguda final ou hepatite crônica + + - + - - + - - + + - + - - + - - Início da fase convalescente - - + + - - Imunidade, infecção passada recente - - - + + + Imunidade, infecção passada - - - + - + ou - Imunidade, resposta vacinal - - - - - + FONTE: <https://www.biomedicinapadrao.com.br/2013/11/marcadores-sorologicos-da-hepatite-b.html>. Acesso em: 15 fev. 2021. 3.3 HEPATITE C O diagnóstico da hepatite C é realizado pela investigação de anticorpos anti- HCV como metodologia de triagem. A presença de resultado reagente indica que, em algum momento, o paciente teve contato com o vírus. Esse marcador, contudo, não é capaz de especificar em qual fase (aguda ou crônica) da infecção o paciente se encontra (BRASIL, 2015). 3.4 HEPATITE D A investigação de infecção por HVD é realizada pela dosagem de anticorpos totais anti-HVD (IgM e IgG juntos). É importante lembrar que, nesse caso, trata-se de um vírus que depende da presença do HVB para se reproduzir, seja via superinfecção ou coinfecção (BRASIL, 2015). A interpretação dos marcadores para hepatite B, em conjunto com os resultados da dosagem de anticorpos totais para HVD, permite diferenciar se o quadro do paciente é resultado de superinfecção ou coinfecção, conforme mostram os Quadros 3 e 4. 160 QUADRO 4 – RESULTADOS COMPATÍVEIS COM SUPERINFECÇÃO FONTE: A autora QUADRO 5 – RESULTADOS COMPATÍVEIS COM COINFECÇÃO FONTE: A autora Marcador Resultado HbsAg Reagente anti-HBc Reagente anti-HBc IgM Não reagente anti-HDV Reagente antiHBs Não reagente Marcador Resultado HbsAg Reagente anti-HBc Reagente anti-HBc IgM Reagente anti-HDV Reagente antiHBs Não reagente 3.5 HEPATITE E A infecção pelo HVE é possível pela pesquisa de anticorpos anti-HVE IgM e anticorpos anti-HVE totais no soro do paciente, cuja presença de anticorpos IgM indica infecção recente e a presença de anticorpos totais indica exposição prévia ao HVE (BRASIL, 2015). 161 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Hepatites virais são um processo inflamatório localizado no fígado causada por infecções virais. • Hepatites virais são causadas por vírus hepatotrópicos (que têm maior afinidade com o tecidohepático) que se dividem em cinco tipos: A, B, C, D e E. • Cada um dos tipos virais apresenta antígenos diferentes, que, no laboratório clínico, são utilizados para detecção em amostras de sangue, soro, plasma ou fluido oral do indivíduo infectada • A detecção de hepatite A ocorre por sorologia IgM e IgG para HAV. • A detecção de hepatite B ocorre por marcadores de triagem como HbsAg e anti-Hbc e marcadores diagnósticos como anti-Hbc, anti-Hbs, HBeAg, anti-HBe • A detecção de hepatite C é realizado pela investigação de anticorpos anti-HCV como metodologia de triagem, que indica contato com o vírus em dado momento • A detecção da hepatite D deve ser avaliada juntamente com marcadores de hepatite B, uma vez que permite discernir se existe uma coinfecção ou superinfecção. • A infecção pelo HVE é possível pela pesquisa de anticorpos anti-HVE IgM (infecção recente) e anticorpos anti-HVE totais (exposição prévia ao HVE). RESUMO DO TÓPICO 3 162 AUTOATIVIDADE 1 Com relação ao marcador indicativo de imunidade vacinal para hepatite B, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Anti-Hbs. b) ( ) Anti-Hbc. c) ( ) Anti-HVA. d) ( ) Anti-HVB. 2 Explique quais componentes permitem a detecção dos diferentes tipos de hepatites. 3 Explique a relação entre hepatite B e a hepatite D. 4 Considerando os marcadores de hepatite B aguda com a interpretação de cada marcador, associe os itens, utilizando o código a seguir: I- HBsAg. II- Anti-HBc IgM. III- Anti-HBc total. IV- HBeAg. V- Anti-HBe. VI- Anti-HBs. ( ) Marcador de infecção recente, presente no soro até 8 meses após a infecção. ( ) Anticorpo que indica imunidade ao HBV. ( ) Sua presença indica estágio de alta infecciosidade. ( ) Representa contato prévio com o vírus. Está presente nas infecções agudas indicado pela presença de IgM e crônicas pela presença de IgG. ( ) Presente após desaparecimento do HBeAg, indica que a fase replicativa foi encerrada. ( ) Primeiro marcador a aparecer no curso da infecção pelo HBV. Assinale a alternativa que corresponde a sequência CORRETA: a) ( ) I – V – VI – IV – II – III. b) ( ) III – II – VI – V – IV. c) ( ) II – VI – IV – III – V – I. d) ( ) Nenhuma das alternativas anteriores está correta. 163 5 Paciente do sexo feminino, 36 anos de idade, procura banco de sangue para fazer doação de sangue. Os exames de triagem utilizados para avaliar se a paciente está apta a doação de sangue indicam alterações na sorologia para hepatite B. Com relação ao padrão de resultados em que o sangue doado poderá ser utilizado sem oferecer riscos para o paciente que receberá a transfusão sanguínea, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Anti-HBc total (-); HBsAg (-); Anti-HBs (+). b) ( ) Anti-HBc total (-); HBsAg (+); Anti-HBs (-). c) ( ) Anti-HBc total (-); HBsAg (-); Anti-HBs (-). d) ( ) Anti-HBc total (+); HBsAg (-); Anti-HBs (+). 164 165 TÓPICO 4 — CORONAVÍRUS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO No final de 2019, a China foi marcada pela presença de uma pneumonia de origem desconhecida. Assim, em 31 de dezembro, as festividades de ano novo vieram acompanhadas da emissão de um alerta para Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre essa situação. A partir daí, teve início uma investigação para descobrir o agente causador dessa pneumonia que, em poucos dias, apontou ser um novo tipo de coronavírus. Esse relato sucinto é apenas uma fração do que, em 11 de março de 2020, seria declarado pelo Dr. Tedros Adhanom, diretor geral da OMS, como uma pandemia causada pelo novo coronavírus. A seguir, compreenderemos as características desses vírus e como o laboratório clínico pode auxiliar no diagnóstico desses agentes causadores de doenças. 2 CORONAVÍRUS Coronavírus (COVs) é um termo que se refere à vasta família de vírus Coronaviridae, que compreende os gêneros Alpha coronavírus, Beta coronavírus, Gama coronavírus e Delta coronavírus (MCBRIDE; VAN ZYL; FIELDING, 2014). Esses vírus estão presentes no mundo todo e são comuns também em diferentes espécies animais, entre eles, os seres humanos. Nos seres humanos, esses vírus acometem principalmente o trato respiratório superior, resultando em manifestações de diferentes gravidades, como resfriados (em casos brandos) até infecções pulmonares graves, conhecidas como síndrome respiratória aguda grave. Ainda sobre as características da família Coronaviridae, Gruber (2020, p. 1) aponta que: As partículas virais são esféricas, com cerca de 125 nm de diâmetro e revestidas por um envelope fosfolipídico. O genoma de RNA de fita simples e senso positivo contém entre 26 e 32 quilobases e está associado a proteínas, formando o nucleocapsídeo. As partículas apresentam projeções que emanam do envelope em forma de espículas, formadas por trímeros da proteína S (spike protein). Essas projeções geram um aspecto de coroa, daí a denominação coronavírus. A proteína S é responsável pela adesão do vírus nas células do hospedeiro e participa do processo de interiorização, no qual ocorre a fusão entre as membranas viral e da célula e a entrada do vírus no citoplasma. 166 Em se tratando de material genômico que tem senso (sentido) positivo, estamos falando de um vírus que apresenta muita agilidade na geração de novas cópias, uma vez que o material genômico se presta diretamente a realização da síntese proteica. IMPORTANTE O mecanismo de infecção (Figura 21) pelo coronavírus tem início com a forte ligação da proteína Spike (glicoproteína em formato de espícula) ao receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2), presente nas células. Com a entrada do vírus na célula humana, as informações presentes no material genético viral passam a ser traduzidas, resultando na formação de proteínas capazes de replicar o material genético do vírus, como a RNA polimerase (SANAR, 2020). Como resultado da ação da RNA polimerase, são produzidas fitas de RNA que constituirão, após ligação com proteínas virais, as partículas virais. A conclusão do processo de montagem viral ocorrerá no complexo de Golgi e no retículo endoplasmático da célula infectada. Uma vez terminada a montagem, as partículas virais deixam a célula e passam a infectar novas células e repetir as etapas previamente descritas (SANAR, 2020). Entre os coronavírus citados anteriormente, os Betacoronavírus serão nosso principal objeto de estudos, dado o potencial letal de espécies como SARS-CoV-1 e SARS-CoV-2, que serão discutidos a seguir. A enzima conversora de angiotensina 2 é uma enzima que integra o sistema renina-angiotensina e está presente em pneumócitos (células epiteliais dos pulmões). IMPORTANTE 167 FIGURA 21 – MECANISMO DE REPLICAÇÃO VIRAL DO CORONAVÍRUS FONTE: <http://cienciaviva.org.br/index.php/2021/01/01/corridavacinascov2/>. Acesso em: 25 fev. 2021. 2.1 SARS-COV-1 Desde o início dos anos 2000, os coronavírus têm apresentado novas cepas infectantes tanto em populações humanas quanto animais. Em 2003, uma destas cepas de coronavírus foi identificada como causadora da epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave, comumente identificada pela sigla SARS-CoV-1 (do inglês, acute respiratory syndrome coronavirus), responsável pela morte de 10 a 50% das pessoas infectadas, com porcentagem variando conforme a faixa etária (GRAHAM; DONALDSON; BARIC, 2013). Acredita-se que a origem deste vírus sejam morcegos, uma vez que se trata de um animal que é reservatório para diversos vírus filogeneticamente semelhantes àqueles coronavírus que já sabemos serem patogênicos em seres humanos. Esta característica faz com que exista alta probabilidade destes vírus infectarem seres humanos resultando em emergências de saúde pública de escala internacional, como a que teve início no final de 2019 (GRAHAM; DONALDSON; BARIC, 2013). 168 O estabelecimento da SARS é bastante complexo, com diferentes fatores que resultam em lesões graves nos pulmões e disseminação viral em outros órgãos. A afinidade do SARS-CoV-1 com pneumócitos, em decorrência da presençados receptores ECA2, já citados anteriormente, resulta em dano alveolar difuso (GU; KORTEWEG, 2007). O desenvolvimento da SARS é caracterizado pela perda sequencial da integridade da membrana capilar alveolar, acúmulo de líquido no espaço extravascular e perda de volume de troca gasosa pulmonar, mais proeminente nas áreas dependentes dos pulmões. As anormalidades resultantes de áreas com baixa relação ventilação/ perfusão e atelectasia ou consolidação franca conduzem a manifestações clínicas de insuficiência respiratória – hipoxemia arterial e insuficiência mecânica do pulmão (BORGES, 2018, p. 17) O SARS-CoV-1 apresenta um período de incubação de 2 a 10 dias, a partir do qual iniciam as manifestações clínicas mais frequentes, como: • mal-estar; • tosse seca; • febre persistente; • calafrio; • dor muscular; • dor de cabeça; • dispneia (dificuldade de respirar). Além destes sintomas, alguns pacientes podem apresentar, com menor frequência, coriza, dor de garganta, náuseas, taquipneia (aumento da frequência de ciclos respiratórios), taquicardia (aumento da frequência cardíaca), diarreia e vômito (HUI; WONG; WANG, 2003). É importante ressaltar que, apesar do nome referir a uma síndrome respiratória, outros sistemas do nosso corpo podem ser significativamente prejudicados. Dessa forma, podemos pensar que deve existir algo em comum entre diferentes órgãos que faça com que eles sejam afetados. E, de fato, existe! Ocorre que células tubulares renais, células miocárdicas, neurônios, células do sistema imune e células da mucosa intestinal, por exemplo, também possuem o receptor ECA2, que seria a “porta de entrada” do SARS-CoV-1 nas células. Assim, todas as células que apresentam este receptor acabam se tornam alvos primários deste agente infeccioso. Um dos efeitos observados nesta ligação foi a significativa elevação na concentração de citocinas pró-inflamatórias, que são proteínas produzidas pelas células infectadas que promovem o estabelecimento de um processo inflamatório. Sendo assim, é possível compreender que este ambiente pró-inflamatório, desencadeado inicialmente para combater a infecção por SARS-CoV-1, também acaba por prejudicar o tecido infectado (HE et al., 2006). 169 Nesse contexto, a presença de citocinas, como fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), por exemplo, pode induzir à apoptose pneumócitos, e mediar a formação de fibrose no tecido pulmonar. Com a presença deste vírus na corrente sanguínea, ocorre infecção deste vírus em outros órgãos que contém receptores ECA2, o que intensifica rapidamente o processo inflamatório, gerando disfunção em diferentes órgãos (HE et al., 2006). 2.2 SARS-CoV-2 Segundo o fragmento da matéria da BBC News Brasil, que apresenta uma resumida linha do tempo de uma pandemia que chegou ao Brasil em fevereiro de 2020, o agente infeccioso dessa doença é o SARS-CoV-2, conhecido como o novo coronavírus (CEVIK et al., 2020). As primeiras notícias sobre uma “pneumonia misteriosa” que estava afetando algumas partes da China começaram a surgir na mídia internacional no final de dezembro de 2019. A informação de que a doença era causada por um novo tipo de coronavírus foi transmitida por cientistas chineses e divulgada a partir do dia 8 de janeiro de 2020. Rapidamente, a cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, foi identificada como epicentro da crise sanitária e teve seus aeroportos, portos, ferrovias e rodovias bloqueadas, numa tentativa de conter a disseminação do agente infeccioso. Mas já era tarde demais: logo apareceram casos em outras partes da China e o agente infeccioso foi identificado em países próximos, como Japão e Tailândia. Os episódios de covid-19 se espalharam rapidamente para outros continentes e foram detectados na Europa e na América do Norte. Portanto, havia a certeza quase absoluta que o vírus chegaria em algum momento ao Brasil ainda no primeiro trimestre de 2020(BBC NEWS BRASIL, 2021). Apesar de pertencer à mesma família do SARS-Cov-1, apresentar similaridades genéticas, e a preferência de ambos por interagir com o receptor ECA2 para invadir as células, existem diferenças que permitiram que a pandemia causada pelo SARS- CoV-2 perdurasse e resultasse em um maior número de mortes. Inicialmente, podemos destacar o número efetivo de reprodução (R) maior que o identificado no SARS-Cov-1, o que explica sua maior eficiência para se disseminar (WÖLFEL et al., 2020). 170 O número efetivo de Reprodução (R) corresponde à capacidade de propagação viral. Este número é expresso como um índice que aponta o número médio de pessoas contagiadas a cada indivíduo infectado nas condições existentes em um dado momento. A interpretação deste índice ocorre da seguinte forma: • R superior a 1: indica que cada pessoa infectada transmite a doença para, no mínimo, mais um pessoa, disseminando o vírus. • R inferior a 1: indica que a transmissão da infecção está menor e o número de contágios está diminuindo. Este índice é utilizado para estimar a demanda hospitalar e, com isso, adequar a infraestrutura para dar conta da demanda e também auxiliar os governantes no entendimento das medidas necessárias para proteção da população. IMPORTANTE Ainda sobre as diferenças do SARS-CoV-2, sabemos que, apesar de se ligar ao mesmo receptor ECA 2 que o SARS-CoV-1, o SARS-CoV-2 apresenta diferenças em suas proteínas de superfície que permite uma maior ligação com o receptor ECA2 e, com isso, maior eficiência na invasão das células hospedeiras. Além disso, SARS-CoV-2 tem maior afinidade com o trato respiratório superior (nariz externo, cavidade nasal, faringe, laringe e porção superior da traqueia), o que permite facilidade da infecção das células nestas regiões e facilidade para se disseminar com maior facilidade pelas vias aéreas. Outro importante diferencial entre SARS-Cov-1 e SARS-Cov-2 são as dinâmicas das cargas virais de cada um. O SARS-CoV-1 atinge o pico de carga viral em média 15 dias após o início das manifestações clínicas. Esta característica permite que a infecção já tenha sido determinada e o paciente isolado precocemente, o que reduz a capacidade de transmissão deste vírus (CEVIK et al., 2020). Em contraste, o SARS-Cov-2 tem seu pico de carga viral no trato respiratório, observado no início da manifestação dos sintomas ou durante a primeira semana da doença, o que denota maior potencial infectante imediatamente antes ou durante os primeiros dias do início dos sintomas. Sabendo dessa característica, é possível compreender a importância do distanciamento social, mesmo com indivíduos que não apresentam sintomas, uma vez que este pode estar infectado sem ainda ter apresentado sintomas (WÖLFEL et al., 2020). Carga viral é termo que refere a quantidade de vírus presente na corrente sanguínea do indivíduo infectado. IMPORTANTE 171 No que diz respeito ao potencial patogênico do SARS-Cov-2, Vaduganathan et al. (2020) apontam o impacto da infecção por SARS-Cov-2 no sistema renina- angiotensina. Assim como previamente descrito no SARS-CoV-1, a entrada do SARS- CoV-2 ocorre pela ligação da proteína S, presente na superfície do vírus, com o receptor ECA2 presente nos pneumócitos tipo II. Com a entrada do vírus na célula, ocorre downregulation da expressão do receptor ECA2, por duas vias: pela destruição da célula que invadiu ou por estar ocupando o receptor ao ligar-se a ele. Com isso, a angiotensina II passa a ficar acumulada, e isso intensifica o agravamento da Covid-19, nome dado às manifestações clínicas que caracterizam a infecção por SARS-Cov-2 (Figura 22). Como resultado da interação do SARS-CoV-2 com as células-alvo, tem-se início a replicação ativa das partículas virais seguida das manifestações clínicas, como (CEVIK, 2020): • febre; • dor no corpo; • cefaleia; • fadiga; • dificuldades respiratórias; • disfunção olfatória (perda temporária do olfato e do paladar); • diarreia; • infarto do miocárdio. FIGURA 22 – INTERAÇÃO ENTRE O SARS-COV-2 E O SISTEMA RENINA-ANGIOTENSINA-ALDOSTERONAFONTE: <https://pt.slideshare.net/flaviasmatos/doencas-pulmonares-difusas>. Acesso em: 26 fev. 2021. 172 IMPORTANTE Considerando a importante relação do receptor ECA2 na patogênese resultante da infecção por SARS-CoV-2, apresentamos um trecho do texto O sistema renina- angiotensina-aldosterona (SRAA) versus a infecção pelo coronavírus 2019, que explora as funções do sistema renina-angiotensina-aldosterona, do qual os receptores ECA2 fazem parte. Aproveite essa leitura para relembrar a importância do SRAA e compreender sua relação com a Covid-19. O sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) versus a infecção pelo coronavírus 2019 O sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) regula funções essenciais do organismo, como a manutenção da pressão arterial, balanço hídrico e de sódio. A lógica fundamental que preside o funcionamento do sistema é responder a uma instabilidade hemodinâmica e evitar a redução na perfusão tecidual sistêmica. Atua de modo a reverter a tendência à hipotensão arterial através da indução de vasoconstricção arteriolar periférica e aumento na volemia por meio de retenção renal de sódio (através da aldosterona) e água (através da liberação de ADH- vasopressina). A renina é liberada pelos rins, enquanto a enzima conversora de angiotensina (ECA) é encontrada no endotélio vascular em vários órgãos. Uma vez ativada a cascata, surgem a angiotensina I (AI) e a angiotensina II (AII), que circulam pelo sangue e se ligam em receptores específicos ATI e ATII, regulando funções em órgãos-alvos. Receptores de ATII estão presentes universalmente na árvore arterial e produzem acentuada contração em segmentos isolados de todos os leitos arteriais. Além do efeito vasoconstritor extensivamente demonstrado in vitro e in vivo, ATII exerce importantes efeitos tróficos sobre a parede arterial. A participação desse sistema no fenômeno de redução luminal da hipertensão essencial instalada tem sido demonstrado pela inibição farmacológica da enzima conversora ou do antagonismo dos receptores AT1. Todos os componentes do SRAA estão presentes no endotélio e na parede arterial e a formação de Ang II, no vaso, está solidamente documentada. Está claro que a hiperatividade desse sistema, contribuiu expressivamente na fisiopatologia da hipertensão arterial e em outras patologias cardiovasculares. Os fármacos conhecidos como inibidores da ECA – o Dr. Sérgio Henrique Ferreira de Ribeirão Preto, SP, foi pioneiro ao descrever o Fator Potencializador da Bradicinina, sendo assim, o precursor deste grupo de drogas – realizam bloqueio reversível da enzima conversora de angiotensina, reduzindo a formação de AII. Sabe-se que a AII é um potente peptídeo vasoconstritor e estimulante da secreção adrenal de aldosterona. O bloqueio da ECA promove, diretamente, um efeito hipotensor causado pela inibição dos efeitos vasoconstritores e estimulantes da secreção de aldosterona e, indiretamente, previnem doença isquêmica cardíaca, doença aterosclerótica, nefropatia diabética e hipertrofia ventricular esquerda. Por outro lado, o receptor AT2 tem efeito antiproliferativo, vasodilatador e de apoptose. Ele também ativa a produção de óxido nítrico. Assim como, a produção de AT1-7 pela ECA2 traduz em efeitos benéficos como antiproliferativo e anti-hipertensivo. FONTE: <https://pebmed.com.br/o-sistema-renina- angiotensina-aldosterona-versus-a-infeccao-pelo- coronavirus-2019/>. Acesso em: 26 abr. 2021. 173 Por tratar-se de um vírus recentemente descoberto, muito sobre os mecanismos patogênicos do SARS-CoV-2 ainda não foram esclarecidos. Contudo, a urgência em detectar esse vírus e isolar pacientes para reduzir a disseminação do SARS-CoV-2 intensificou esforços para desenvolver metodologias para diagnóstico do vírus. A seguir, conheceremos as metodologias utilizadas para diagnóstico e acompanhamento de pacientes com Covid-19. Assista ao vídeo, produzido pelo Instituto Butantã, que fala sobre as características que temos conhecimento do SARS-CoV-2 até o momento: https://www.youtube.com/watch?v=wC3r4Lcm1Sw. DICA 3 O LABORATÓRIO CLÍNICO NO DIAGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO DE SARS-COV-1 E SARS-COV-2 O diagnóstico de Covid-19 é um importante instrumento no combate à disseminação dos vírus, porque permite que as equipes médicas identifiquem os pacientes infectados, isolando-os dos demais indivíduos não infectados, a fim de impedir o contágio. Existem diferentes metodologias utilizadas para detecção de SARS-CoV-1 e SARS-CoV-2, tanto por detecção do vírus quanto pela presença de anticorpos produzidos contra esse vírus. A principal metodologia para detecção direta é realizada por RT-PCR, que pertence ao setor de Biologia Molecular. Apesar de abordarmos apenas testes sorológicos, é importante saber que existem também testes moleculares muito utilizados para detecção de coronavírus. Por isso, apresentamos, a seguir, um trecho do texto RT-PCR ou sorológico? Entenda as diferenças entre os testes, publicado pela Universidade Federal de Minas Gerais, que resume o princípio da técnica de RT-PCR e suas características. O que é o RT-PCR? Considerado o “padrão-ouro” ou “padrão de referência”, o RT-PCR é o exame que identifica o vírus e confirma a Covid-19. Para isso, o teste busca detectar o RNA do vírus através da amplificação do ácido nucleico pela reação em cadeia da polimerase. De acordo com a professora Glaucia, esse teste deve ser realizado no início da doença, especialmente na primeira semana, quando o indivíduo possui grande quantidade do vírus SARS-CoV-2. IMPORTANTE 174 As amostras são coletadas através de swabs (cotonetes) de nasofaringe (nariz) e orofaringe (garganta). A abordagem do exame, no momento, é do profissional de saúde que está atendendo o paciente no hospital, ambulatório ou consultório. Isso porque é preciso saber a fase da doença para a coleta da amostra. FONTE: <https://www.medicina.ufmg.br/rt-pcr-ou-sorologico-entenda-as- diferencas-entre-os-testes-para-a-covid-19/>. Acesso em: 25 fev. 2021. Com relação às metodologias sorológicas para detecção de SARS-CoV, as prin- cipais metodologias utilizadas são os testes imunocromatográficos, que podem realizar a detecção de antígeno ou de anticorpos IgM e IgG, ELISA e imunofluorescência (IFA). Nesse momento, é importante lembrarmos que todas as metodologias apresentam limitações que podem prejudicar os resultados das provas sorológicas. No caso de metodologias aplicadas à detecção do SARS-CoV, não é diferente. Um dos principais elementos que se tem conhecimento que interfere na detecção de anticorpos e antígenos por ELISA e imunocromatografia, as principais metodologias utilizadas, está relacionado ao tempo de evolução clínica dos pacientes (Figura 23). 3.1 DETECÇÃO DE ANTÍGENO PARA SARS-COV – IMUNOCROMATOGRAFIA DE FLUXO Por se tratar de um método de detecção direto qualitativo, ou seja, que identifica presença do antígeno na amostra de secreção nasofaríngea, trata-se da opção que apresenta capacidade de detecção mais precoce, sendo a melhor metodologia sorológica indicada para a detecção entre o 2º e o 10º após o início dos sintomas. Nessa metodologia, a tira de membrana é pré-revestida com anticorpo anti- SARS-CoV-2, imobilizado na linha de teste. Assim, amostras de secreção nasofaríngea contendo antígenos de SARS-CoV-2, passam pela membrana e reagem com o anticorpo anti-SARS-CoV-2, formando um conjugado Ag-Ac. Como resultado é possível observar a formação de tira colorida na região teste. Caro acadêmico, lembre-se de que a metodologia de imunocromatografia de fluxo lateral já foi abordada na Unidade 2. Sugerimos que você revisite esse tema para reforçar seus conhecimentos. DICA 175 FIGURA 23 – EVOLUÇÃO CLÍNICA E DETECÇÃO LABORATORIAL DA COVID-19 FONTE: <https://www.febrasgo.org.br/es/covid19/item/977-como-utilizar-os-testes-de-covid-19-ag-fia-e- igg-igm>. Acesso em: 26 fev. 2021. 176 A amostra utilizada é raspado nasofaríngeo, coletado por swab, uma hasteflexível semelhante a um cotonete, todas as etapas da técnica estão apresentadas na Figura 24. Além da execução do teste dentro do período correto, outro elemento que pode prejudicar os resultados desta técnica por gerar resultados falso-negativos são erros de coleta de swab nasofaríngeo. Por tratar-se de um procedimento bastante desconfortável para o paciente, que pode atrapalhar a correta execução da coleta é importante considerar que o resultado pode ter sido comprometido pela raspagem nasofaríngea incorreta ou insuficiente. A interpretação do resultado obedece às orientações apresentadas na metodologia de imunocromatografia, discutidas na Unidade 2. A coleta de secreção nasofaríngea é uma etapa crucial na detecção de antígenos de SARS-CoV-2 por imunocromatografia e também para realização de RT-PCR para detecção de SARS-CoV-2. Por isso, sugerimos um vídeo que demonstra como o procedimento de coleta deve ser realizado, acesse: https://www.youtube.com/ watch?v=owYKzDi6F6Q IMPORTANTE FIGURA 24 – PROCEDIMENTO DO TESTE DE ANTÍGENO PARA SARS-COV 177 FONTE: <https://www.centerlab.com/teste-rapido-covid-19-ag-eco.html>. Acesso em: 9 abr. 2021. Essa metodologia qualitativa é utilizada principalmente para triagem de pacientes, devido a sua rapidez e praticidade. Os kits comerciais disponíveis possuem diferentes apresentações, como: 178 • Testes rápidos que diferenciam IgM e IgG: são aqueles que apresentam três bandas (faixas) – controle, IgM e IgG –, permitindo discernir qual anticorpo está ou não reagente. Ressalta-se que resultados que não apresentarem a banda controle serão sempre considerados testes inválidos (Figura 25). FIGURA 25 – IMUNOCROMATOGRAFIA COM BANDAS SEPARADAS PARA IGM E IGG FONTE: <http://twixar.me/67tm>. Acesso em: 25 fev. 2021. Negativo IgM+ IgM+ IgG+ Inválido Inválido Inválido IgM+ • Testes rápidos que não diferenciam anticorpos são aqueles que apresentam duas bandas (faixas): controle e teste, permitindo apenas determinar a presença de anticorpos, sem diferenciá-los. Ressalta-se que resultados que não apresentarem a banda controle serão sempre considerados testes inválidos (Figura 26). FIGURA 26 – TESTE IMUNOCROMATOGRÁFICO PARA DETECÇÃO DE ANTICORPOS PARA COVID-19 FONTE: <https://guiadafarmacia.com.br/wp-content/uploads/2020/04/PROTOCOLO-ABRAFARMA- TESTES-RAPIDOS-COVID19-V-1.1-30ABR2020.pdf>. Acesso em: 25 fev. 2021. a 179 Após conhecermos as provas sorológicas mais utilizadas para detecção de Covid-19, é importante compreendermos que esses resultados apresentam diferentes interpretações quando avaliados em conjunto. Para facilitar a compreensão, a Figura 27 apresenta uma interpretação de resultados de sorologia para Covid-19, os quais devem sempre ser interpretados em conjunto com os sinais e os sintomas manifestados pelo paciente. FIGURA 27 – INTERPRETAÇÃO DE RESULTADOS DE SOROLOGIA PARA COVID-19 FONTE: <https://cerpe.com.br/saude/exame-sorologia-covid-19>. Acesso em: 25 fev. 2021. 3.2 DETECÇÃO DE ANTICORPOS PARA SARS-COV – ELISA Conforme discutido na Unidade 2, trata-se de uma metodologia que detecta anticorpos específicos para diferentes doenças. No caso da SARS-CoV-2 não é diferente, uma vez que o ELISA é aplicado ao diagnóstico clínico de SARS-CoV pela detecção quantitativa de anticorpos produzidos em resposta à infecção por esse vírus. Os principais anticorpos investigados são IgM e IgG. No entanto, para que os resultados sejam fidedignos às condições imunológicas do paciente no momento da coleta, é importante atentar para o tempo decorrido entre o início dos sintomas e a coleta. O período para coleta, a partir do qual seria possível a detecção de anticorpos para SARS- CoV-2, seria entre o 7º e o 10º dia após início dos sintomas. Assim, não é uma técnica útil para detecção de anticorpos nos estágios iniciais da infecção. De modo geral, o IgM é detectável mais cedo que o IgG (BRASIL, 2020). 180 Contudo, a presença de IgM e IgG simultaneamente na amostra não são confirmatórios para determinar que se trata de uma infecção recente, dado que os avanços tecnológicos permitiram a formulação de kits comerciais para esta técnica com maior sensibilidade (TAN et al., 2003; BRASIL, 2020). Quando a finalidade do teste for identificar a exposição anterior ao SARS-CoV-2, podem ser usados testes sorológicos para detecção de IgG ou IgM (para determinar se um indivíduo foi previamente infectado), do tipo imunocromatográfico ou ELISA, que poderá ser quantitativo, caso o título do anticorpo seja necessário. Caso os achados clínicos permitam, o indivíduo testado não exigiria quarentena e poderia se associar a indivíduos não infectados ou infectados com risco mínimo de transmissão ou nova infecção (BRASIL, 2020, p. 5). 181 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Coronavírus pertencem a família de vírus Coronaviridae que compreende os gêneros Alpha coronavírus, Beta coronavírus, Gama coronavírus e Delta coronavírus. • Estes vírus estão presentes no mundo todo e são comuns também em diferentes espécies animais, entre eles os seres humanos. • Nos seres humanos, o trato respiratório superior é o principal sistema acometido, podendo resultar em manifestações de diferentes gravidades, como resfriados até síndrome respiratória aguda grave. • O mecanismo de infecção dos coronavírus tem início com a forte ligação da proteína Spike ao receptor da ECA2 presente em alguns tipos celulares. • Betacoronavírus apresentam potencial letal por incluir espécies como SARS-CoV-1 e SARS-CoV-2, que têm afinidade com pneumócitos. • SARS-CoV-1 foi causador epidemia global de síndrome respiratória aguda grave em 2003. • Um dos efeitos observados nesta ligação entre SARS-CoV e o receptor ECA2 é o aumento na concentração de citocinas pró-inflamatórias, que são proteínas produzidas pelas células infectadas que promovem o estabelecimento de um processo inflamatório. • SARS-CoV-2 foi causador da pandemia global de Covid-19 em 2020. Assim, como SARS-CoV-1, sua entrada nas células ocorre pelo receptor ECA2. • A escala de contágio do SARS-Cov-2 é maior em relação ao SARS-Cov-1, dado o maior número efetivo de reprodução (R), o que justifica sua maior eficiência para se disseminar. • O SARS-Cov-1 tem seu pico de carga viral na segunda semana após o início dos sintomas, o que permite que a infecção já tenha sido determinada e o paciente isolado, reduzindo assim sua capacidade de contágio, enquanto o SARS-Cov-2 tem seu pico de carga viral no trato respiratório é observado no início da manifestação dos sintomas ou durante a primeira semana da doença, o que denota maior potencial infectante imediatamente antes ou durante os primeiros dias do início dos sintomas. RESUMO DO TÓPICO 4 182 • A compreensão do tempo de evolução clínica do paciente permite que as provas sorológicas sejam realizadas dentro dos períodos passíveis detecção de anticorpos IgM e IgG. • A detecção de antígeno deve ser realizada nos primeiros dias após o início dos sintomas. 183 AUTOATIVIDADE 1 Explique a função da proteína Spike na infecção por SAR-Cov-2. 2 Sobre a relação entre o receptor ECA2 e o coronavírus, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Este receptor pertence ao sistema-renina-angiotensina-aldosterona e está presente em diferentes órgãos vitais como pulmão, rins e coração. b) ( ) Trata-se de um receptor de baixa especificidade e capacidade de ligação para o SARS-Cov-2 em especial. c) ( ) O ECA2 é o marcador sorológico da Covid-19. d) ( ) O SARS-Cov-1 teve uma evolução mais branda pois os receptores ECA 2 estavam em número reduzido nas populações acometidas por esse vírus. 3 A detecção de infecção por SARS-Cov-2 pode ser realizada por diferentes metodologias sorológicas. Cite quais são as principais metodologias utilizadas e quando o uso de cadauma delas é indicado. 184 185 LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO UNIDADE 3 TÓPICO 5 — 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, conheceremos a doença autoimune lúpus. Doenças autoimunes ocorrem quando nosso sistema imune ataca as células do próprio corpo, como se elas fossem patógenos (como vírus e bactérias). Dessa forma, condições autoimunes são aquelas em que o sistema imune não é capaz de discernir entre células saudáveis do próprio corpo e organismos estranhos. A seguir, conheceremos mais sobre esta doença e como seu diagnóstico é realizado. 2 LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO O lúpus é uma doença autoimune que afeta diferentes tecidos no corpo humano. Por ser uma doença que acomete principalmente o tecido conjuntivo, é classificada como uma condição clínica pertencente ao grupo das colagenoses. Assim, o lúpus apresenta um processo inflamatório crônico e multissistêmico em que a presença de autoanticorpos resulta em prejuízo tecidual. As manifestações clínicas presentes na doença são comumente confundidas com sintomas de outras doenças. Neste contexto, se torna, por vezes, uma doença de difícil diagnóstico. O tipo mais comum é o lúpus eritematoso sistêmico (LES), responsável por afetar vários órgãos e é uma doença mais frequente em mulheres. Apesar da grande variedade de sintomas presentes (Figura 28), o paciente não apresenta necessariamente todas as manifestações clínicas. Algumas das principais manifestações clínicas presentes são descritas a seguir (BRASIL, 2016): • Anemia (redução do número de hemácias), leucopenia (redução no número de glóbulos brancos), linfopenia (redução do número de linfócitos) e plaquetopenia (redução do número de plaquetas). • Inflamação renal, pleural e pericárdica. • Inchaço e dores articulares. • Lesões cutâneas (lesão em forma de borboleta no rosto é a mais comum). • Vasculite (processo inflamatório nos pequenos vasos), que resulta em lesões avermelhadas e dolorosas. • Perda de peso e sensação de fraqueza. • Convulsões, psicose e prejuízo de nervos periféricos. • Aumento do volume hepático, ganglionar e do baço (na doença em exacerbação). 186 Pacientes com lúpus alternam períodos em que expressam sinais e sintomas (exacerbações) a períodos assintomáticos (remissões). Os mecanismos específicos associados ao estabelecimento desta doença ainda não foram completamente esclarecidos. Contudo, sabe-se que é uma doença multifatorial, que depende de características genéticas, hormonais e ambientais que favoreçam seu estabelecimento. Dada a predominância do acometimento de pacientes do sexo feminino em idade fértil, acredita-se que o fator hormonal esteja relacionado ao estrogênio, uma vez que este hormônio está vinculado a redução da apoptose (morte programada) e atividade dos linfócitos B, o que resulta na produção contínua de autoanticorpos. Quanto aos fatores ambientais, a exposição solar tem grande influência na exacerbação do lúpus, uma vez que está associada a geração de uma resposta inflamatória, o que favorece a produção de interleucinas e fator de necrose tumoral. Com isso, linfócitos B autorreativos são estimulados a produzir anticorpos. Em se tratando de fatores genéticos, de acordo com SANARMED (2019, p. 1): Existe prevalência aumentada em parentes de primeiro grau e em gêmeos monozigóticos, 17 vezes e 29 vezes maior que população geral, respectivamente. A deficiência de componentes da via clássica do complemento como C1q (principal) e C4 conferem alta chance de desenvolver a doença. Também existe associação com HLA DR2 e DR3, além de outros polimorfismos genéticos (PTPN22, TREX 1, STAT 4, IFR5, TLR7, entre outros). FIGURA 28 – SINTOMAS PRESENTES NO LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO FONTE: <http://portaldonic.com.br/jornalismo/2019/11/25/lúpus -nao-tem-cura-mas-e-possivel-conviver- com-ela/>. Acesso em: 27 fev. 2021. 187 Com a interação dos fatores citados anteriormente, há o estabelecimento da perda da autotolerância (incapacidade de identificar os próprios anticorpos) e consequente aparecimento das manifestações clínicas. Caro acadêmico, considerando a influência da exposição solar em pacientes com lúpus, apresentamos um trecho de uma reportagem extraída do site do Dr. Drauzio Varella: Pacientes de lúpus devem evitar exposição solar. Esse texto apresenta recomendações importantes que objetivam prevenir agravamento dessa doença por conta da exposição solar. Pacientes de lúpus devem evitar exposição solar Lúpus e exposição solar definitivamente não combinam. Basta notar que quando o paciente fica exposto à luz solar por horas seguidas e sem proteção, sua pele fica avermelhada (no rosto, são visíveis lesões com o formato de asa de borboleta). Isso ocorre porque o sol promove uma reação imunológica no organismo que desencadeia os sintomas. “Orientamos que os pacientes com a doença sempre utilizem bloqueadores solares de fator no mínimo 30 quando saírem às ruas. Mesmo se o dia estiver nublado, é preciso usar o produto. O importante é impedir que surja o processo inflamatório. Quando a pele já está avermelhada e com certo prurido, é sinal de que a inflamação já começou”, destaca Eduardo Borba, professor doutor de reumatologia da USP. Mas atenção: a exposição solar desencadeia uma reação inflamatória que pode afetar não apenas a pele, mas estruturas como articulações, cérebro e rins. Dessa maneira, a exposição à luz do sol pode comprometer todos os órgãos envolvidos na doença. Quando a crise se instala, geralmente é necessário entrar com medicação, que na maioria das vezes é à base de corticoides. Como o uso dessa classe de medicamentos deve ser moderado, o ideal é prevenir. O paciente com lúpus pode frequentar a praia, mas é necessário cuidado redobrado com o corpo. Veja as orientações do dr. Eduardo: • Sempre utilize bloqueadores solares com fator mínimo de proteção número 30. Reaplique a cada duas ou três horas, com antecedência de 15 a 30 minutos antes da exposição ao sol. Lembre-se de que os raios UV são mais intensos entre 10 e 15 horas. • A dica é passar o equivalente a uma colher de chá de protetor no rosto e pescoço; uma colher de chá na parte da frente do tronco e a mesma medida na parte de trás; uma colher de chá em cada braço; uma colher de chá na parte da frente das coxas e pernas e a mesma medida na parte de trás. • O uso de óculos escuros, com 99% a 100% de proteção, ajuda a prevenir problemas na região dos olhos que podem afetar os portadores de lúpus. Não se esqueça de utilizar chapéus e roupas leves sempre que possível. • A prática de atividade física é muito importante para controlar e estabilizar a doença, além de fornecer resistência aos portadores. Se você for adepto de caminhada ou corrida, saia cedo de casa. Evite exposição solar depois das dez da manhã. FONTE: <https://drauziovarella.uol.com.br/reumatologia/pacientes-de-lúpus -devem-evitar- exposicao-solar/#:~:text=A%20exposi%C3%A7%C3%A3o%20solar%20desencadeia%20 uma,de%20forma%20lenta%20e%20progressiva>. Acesso em: 27 fev. 2021. IMPORTANTE 188 3 LABORATÓRIO CLÍNICO NO DIAGNÓSTICO DO LÚPUS O laboratório clínico aplicado ao diagnóstico de lúpus compreende, além das investigações sorológicas apresentadas a seguir, a investigação de parâmetros bioquímicos e hematológicos, que não contemplam esta disciplina. Assim, abordaremos a pesquisa de autoanticorpos como principal prova sorológica utilizada no diagnóstico e acompanhamento do lúpus. Em pacientes com suspeita de LES, os exames laboratoriais devem ser realizados para detectar a presença dos autoanticorpos, que são os principais marcadores da doença. Anticorpos antinucleares são encontrados em mais de 90% dos pacientes de LES, embora a sua presença não seja específica para esta doença, podendo aparecer em outras doenças autoimunes, infecciosas ou mesmo em indivíduos normais (ÁLVARO APOIO, 2018, p. 1). 3.1 ANTICORPOS ANTINUCLEARES (ANA/FAN) A detecção de anticorpos antinucleares, também conhecida como fator antinuclear (FAN) é um métodoque utiliza como princípio a imunofluorescência indireta (abordada anteriormente) utilizado na investigação de lúpus por estar presente na corrente sanguínea de pacientes com doenças autoimunes sistêmicas associadas ao tecido conjuntivo (LARA; NEVES, 2004). Conforme indicado acima, o método mais empregado para a detecção de anticorpos antinucleares (ANA) ou FAN é a imunofluorescência indireta. Para investigação de anticorpos ANA ou do FAN, esta metodologia utiliza como substrato células da linhagem HEp-2, derivadas de tumor de células epiteliais humanas. A utilização destas células ocorre pois elas expressam maior parte dos antígenos de importância clínica para este tipo de investigação. Para ilustrar todas as etapas necessárias para execução da técnica de FAN, assista ao vídeo Técnica de FAN – Imunofluorescência Indireta, que pode auxiliar na visualização e compreensão de cada etapa. Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=fblyi4r-N7w. DICA 189 Apesar de integrar parte dos 11 critérios diagnósticos paro lúpus, não se trata de um exame patognomônico paro lúpus, uma vez que outras doenças autoimunes, como síndrome de Sjögren, artrite reumatoide e tireoidite de Hashimoto, também apresentam esses autoanticorpos (LARA; NEVES, 2004). Contudo, a detecção desses anticorpos nem sempre indica a presença de doença autoimune. De acordo com Lara e Neves (2004, p. 284): Um problema muito expressivo no dia a dia do laboratório é a positividade do teste sem que haja correlação clínica. Em soro puro ou em baixas diluições, virtualmente toda a população apresenta reatividade na pesquisa de FAN; daí a necessidade de um valor de corte adequado. Mudanças na distribuição dos títulos dos auto-anticorpos na população são idade e sexo dependente. Para minimizar essa situação, vários laboratórios adotam um valor de corte de 1:80. Ainda assim, até 13,3% da população sadia pode ter um teste positivo. Geralmente, quanto mais alto o título, mais significativo o resultado do exame, especialmente em pacientes jovens. Como podemos perceber, o resultado apresentando titulação reagente para FAN não necessariamente indica presença de doença autoimune. Além do resultado reagente apresentando titulação, existem antígenos-alvo que formam padrões nucleares. Esses padrões são utilizados pelas equipes médicas para reforçar ou descartar a suspeita clínica de lúpus. A Figura 29 apresenta um resumo dos padrões possíveis para FAN reagente e suas possíveis interpretações clínicas (DELLAVANCE; ANDRADE, 2007). FIGURA 29 – RELAÇÃO ENTRE A PRESENÇA DE ANTÍGENOS ALVO E POSSÍVEIS PATOLOGIAS Antigênico/ Padrão FAN Patologia Anti-DNA de cadeia dupla (ds-DNA, DNA nativo) Padrão: Homogêneo Encontrados primariamente no LES numa frequência de 70 a 80% dos casos concentração de antígenos (título) correlaciona se bem com a atividade da doença: Presença de anticorpos anti-DNA correlaciona-se particularmente com a atividade da nefrite lúpica. Anti-histona Padrão: Homogêneo Estão presentes em 96% dos pacientes com lúpus induzido por medicamentos e em 30% do LES. Hidralazina, procainamida e anticonvulsivantes. Ocorre em 15 a 20% dos pacientes com AR. Anti-snRNP Padrão: Pontilhado (grosso) Altos títulos de RNP, na ausência de anti-Sm, são fortemente sugestivos de doença mista do tecido conjuntivo (DMTC), que se manifesta clinicamente por acometimento cutâneo do tipo esclerodérmico, miosite e sinovite tipo reumatoide, que aparece em 100% dos casos; surge em baixos títulos em LES, lúpus discoide, artrite reumatoide, síndrome de Sjögren e lúpus induzido por medicamentos. Anti-Sm (Smith, nome do primeiro paciente em que foi reconhecido) Padrão pontilhado (grosso) Possui alta especificidade para o LES, porém sua sensibilidade nesses pacientes é de apenas 25 a 30%, geralmente durante a fase aguda da doença; raramente aparece em outras desordens; alguns estudos associam a sua presença com nefrite branda de surto benigno, outros ao envolvimento do SNC, quando manifestação única do LES. 190 Anti-SSa/Ro Padrão pontilhado (fino) Ro é uma proteína citoplasmática pequena ligada ao RNA, cuja função é desconhecida; esse anticorpo está presente em cerca de 70% dos pacientes com síndrome de Sjögren primária. Já na síndrome Sjögren associada à artrite reumatoide está presente em 40% dos casos, também ocorre em 30% dos pacientes com LES, marcando as formas de lúpus neonatal e lúpus subagudo cutâneo, e na síndrome do anticorpo antifosfolipídio. Anti-SSb/La Padrão pontilhado (fino) São contrapartículas proteicas do RNA que parecem participar como um cofator para a RNA polimerase; o anti-La geralmente acompanha o anti-Ro; a presença de ambos no LES é geralmente associada a uma doença mais leve do que quando o Ro está presente isoladamente. O SSb/La ocorre em mais da metade dos pacientes com síndrome de Sjögren e no LES em 15%. Anti-centromero Padrão pontilhado centromérico Esclerose sistêmica forma CREST (C – calcinose; R – Raynaud; E – dismotilidade esofagiana; S – esclerodermia; T – telangectasia). Anti-Scl-70 Padrão nucleolar Proteína 70 KDa que foi recentemente identificada como uma topoisomerase, encontrada em 75% de pacientes com esclerose sistêmica difusa. Anti PCNA Padrão pontilhado pleomórfico PCNA Específico para LES (5 a 10% dos casos), não sendo encontrado em outras patologias. Geralmente, pacientes com PCNA-positivo apresentam maior incidência de glomerulonefrite difusa. FIGURA 30 – REATIVIDADE DOS ANTICORPOS ANTI-DSDNA POR IMUNOFLUORESCÊNCIA FONTE: <https://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/2496/exames_laboratoriais_%E2%80%93_ autoanticorpos.htm>. Acesso em: 9 abr. 2021. 191 LEITURA COMPLEMENTAR VACINAS ANTICOVID: UM OLHAR DA SAÚDE COLETIVA Reinaldo Guimarães A abordagem de temas complexos Doenças de massa costumam ser complexas. No caso da pandemia pelo SARS-CoV-2, a complexidade foi agravada, em seu início, pelo desconhecimento quase completo das características do patógeno que a causava e das consequências disso. Na dimensão de sua biologia, as pistas existentes remetiam ao conhecimento de outros coronavírus já identificados que, ao fim e ao cabo, pouco ajudaram no manejo do novo organismo. Em sua fisiopatologia, o que se pensava ser uma enfermidade respiratória revelou-se uma condição sistêmica. No plano da abordagem clínica, mais surpresas com uma evolução heterodoxa na qual sintomas prodrômicos transformavam-se rapidamente em doença grave, sem que o bom estado geral dos pacientes fosse condizente com a gravidade de sua real função respiratória medida pelo oxímetro. No terreno epidemiológico, o acompanhamento do estado imunitário da população também surpreendeu pela pouca presença de portadores de anticorpos quando comparada com a experiência de outras epidemias virais e isso levanta atualmente intenso debate sobre os mecanismos imunológicos envolvidos na doença. No plano dos serviços de saúde, porque a velocidade do adoecimento e a gravidade de parte dos pacientes revelou- se maior e mais intensa do que a organização ordinária deles estava preparada para suportar. Além dos serviços, a vida em sociedade, no campo do trabalho, do afeto, do lazer etc., foi também inesperadamente desorganizada, assim como a economia dos países, já bastante fragilizada antes mesmo da pandemia. Apesar de intensa, como veremos a seguir, os resultados da busca por medicamentos eficazes foram frustrantes até o momento. E agora temos uma corrida por uma ou mais boas vacinas. Uma lição deve ser tirada a partir da descrição feita acima. Não haverá apenas uma medida ou mesmo o ataque a uma das dimensões descritas acima que seja capaz de resolver, per se, o problema em seu conjunto. O seu enfrentamento deve ser organizado a partir de ações articuladas nas múltiplas dimensões apontadas. O corolário dessa assertiva é que uma ou mais boas vacinas serão importantíssimas para contribuir para enfrentar a COVID 19, mas é muito pouco provávelque possam sozinhas resolver o problema em sua totalidade. Por outro lado, para que uma ou mais boas vacinas cumpram seu importante papel, serão necessárias várias etapas e vários aspectos intrínsecos e extrínsecos às mesmas que deverão ser estabelecidos antes que elas possam cumprir a sua missão. Este texto tem o objetivo de discutir a complexidade no campo das vacinas. FONTE: Adaptado de GUIMARÃES, R. Vacinas Anticovid: um Olhar da Saúde Coletiva. Ciênc. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 25, n. 9, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1413-81232020000903579&tlng=pt. Acesso em: 26 abr. 2021. 192 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Doenças autoimunes ocorrem quando o sistema imune ataca as células do próprio corpo, como se elas fossem patógenos. • O lúpus é uma doença autoimune que afeta diferentes tecidos no corpo humano. Por ser uma doença que acomete principalmente o tecido conjuntivo, o lúpus é classificado como uma condição clínica pertencente ao grupo das colagenoses. • O lúpus apresenta um processo inflamatório crônico e multissistêmico em que a presença de autoanticorpos resulta em prejuízo tecidual. • O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é o tipo mais comum de lúpus e é uma doença mais frequente em mulheres. • Entre as manifestações clínicas presente no lúpus podemos destacar: anemia, inflamação renal, pleural e pericárdica, inchaço e dores articulares, lesões cutâneas, vasculite, perda de peso, sensação de fraqueza, convulsões, psicose e prejuízo de nervos periféricos, aumento do volume hepático, ganglionar e do baço (na doença em exacerbação). • Pacientes com lúpus alternam períodos em que expressam sinais e sintomas (exacerbações) a períodos assintomáticos (remissões). • O lúpus é uma doença multifatorial, que depende de características genéticas, hormonais e ambientais que favorecem seu estabelecimento. • A detecção de anticorpos antinucleares é um método que utiliza como princípio a imunofluorescência indireta na investigação de lúpus por estar presente na corrente sanguínea de pacientes com doenças autoimunes sistêmicas associadas ao tecido conjuntivo. • A pesquisa de autoanticorpos não se trata de um exame patognomônico paro lúpus, uma vez que outras doenças autoimunes como síndrome de Sjögren, artrite reumatoide e tireoidite de Hashimoto também apresentam estes autoanticorpos. RESUMO DO TÓPICO 5 193 AUTOATIVIDADE 1 Sobre doenças autoimunes, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Doenças autoimunes são aquelas em que anticorpos são produzidos contra patógenos específicos. b) ( ) São todas as doenças em que os autoanticorpos estão ausentes. c) ( ) Nesse tipo de doença, o corpo perde a capacidade de diferenciar células saudáveis de células patogênicas. d) ( ) São doenças causadas estritamente por anticorpos lúpicos. 2 A exposição solar é um fator importante na exacerbação do lúpus. Justifique esta afirmação. 3 Sobre o lúpus eritematoso sistêmico, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) A confirmação do diagnóstico de lúpus se dá apenas quando o paciente apresenta todos as manifestações clínicas descritas para estas doenças. b) ( ) Trata-se de um tipo de colagenose. c) ( ) Não existe cura paro lúpus, contudo a constância de cuidados previne novas exacerbações. d) ( ) O eritema malar é um dos sinais clássicos da doença. 4 Com relação ao lúpus eritematoso sistêmico, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) Trata-se de uma doença que ocorre com maior frequência em pacientes do sexo feminino. b) ( ) Períodos em que a doença está ativa são caracterizados pela ausência de sintomas, como inflamação renal, anemia, lesões cutâneas e dores articulares. c) ( ) É uma doença classificada como colagenose. d) ( ) É uma doença multissistêmica, autoimune e crônica, que alterna períodos sintomáticos com períodos assintomáticos. 5 Lúpus eritematoso sistêmico é uma doença autoimune do tipo colagenose. Explique como ocorre o mecanismo imunológico que caracteriza o lúpus. 194 195 REFERÊNCIAS ÁLVARO APOIO. Aspectos laboratoriais para o diagnóstico do Lúpus Eritematoso Sistêmico. 2018 Disponível em: https://alvaroapoio.com.br/medicina-diagnostica/ aspectos-laboratoriais-para-o-diagnostico-do-lúpus -eritematoso-sistemico. Acesso em: 22 fev. 2021. AVELLEIRA, J. C. R.; BOTTINO, G. Sífilis: diagnóstico, tratamento e controle. An. Bras. Dermatol., v. 81, n. 2, p. 111-126, 2006. BIERNATH, A. Um ano de coronavírus no Brasil: os bastidores da descoberta do primeiro caso oficial. BBB NEWS. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/ portuguese/brasil-56189539. Acesso em: 18 fev. 2021. BORGES, A. M. Desafios e Perspectivas do Modelo Porcino de Lesão Pulmonar Induzida por Ácido Oleico. Dissertação (Mestrado em Ciências Pneumológicas) – Programa de Pós-graduação em Ciências Pneumológicas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, 2018. 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