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Júlia Lenza Goulart 5 período O Lúpus Eritematoso Sistêmico é uma doença inflamatória crônica, autoimune, de etiologia pouco conhecida, mas é decorrente de um desequilíbrio do sistema imunológico e de produção de autoanticorpos dirigidos contra proteínas do próprio organismo. Isso gera a formação de imunocomplexos que se depositam em vasos de pequeno calibre, resultando em vascuilites e disfunção do local acometido. Clinicamente a doença tem períodos de exacerbação de atividade inflamatória, intercalados com remissão parcial ou completa dos sintomas. Epidemiologia: Mais prevalente em mulheres em idade reprodutiva, com primeiros sinais e sintomas iniciando entre a segunda e a terceira décadas de vida. Nessa faixa etária é predominante no sexo feminino na proporção 10:1. Nas crianças, em que tem pouco efeito do estrógeno, a proporção é de 3:1 e em idosos é 8:1. Parece ser mais prevalente em afrodescendentes, as características da doença e sua gravidade podem diferir nos grupos étnicos. Os estrógenos possuem papel estimulador de várias células imunes, como macrófagos, linfócitos T e B. Nesse sentido, favorecem a adesão de mononucleares ao endotélio vascular, estimulam a secreção de algumas citocinas, como IL-1, e expressão de moléculas de adesão e MHC. Etiologia: Tem etiologia multifatorial, sendo composta por fatores genéticos, epigenéticos, hormonais, ambientais e imunológicos. -Genética: Os defeitos imunológicos genéticos atuam diminuindo a depuração dos imunocomplexos, diminuem a regulação imunológica, aumentam a resposta inflamatória, causam disfunções em células imunes (diminuem a depuração), diminuem a modulação da resposta inflamatória e deixam o indivíduo com maior suscetibilidade para infecções (o que pode desencadear e agravar crises inflamatórias do LES. • Alta prevalência entre gêmeos monozigóticos e em parentes de primeiro grau. • Deficiência de proteínas do sistema complemento C1q, C2 e C4. • Deficiência do receptor Fc de imunoglobulinas. Fator regulador de interferon (IRF5). • Genes predisponentes – TREX1 e DNAse1. • Associação com alelos do complexo de histocompatibilidade maior (MHC) – DR2 e DR3 de classe II. • Deficiência nos mecanismos de autorregulação do sistema imune. -Ambientais • Luz UV do tipo B: efeitos imunogênitocs que determinam apoptose de queratinócitos com lesão direta do DNA e expressão de substancias que favorecem a produção de linfócitos B autorreativos, com ampliação da resposta imune. • Hormonios: estrogênios são imunoestimulantes e andrógenos e progestágenos são imunodepressores. • Medicamentos: lúpus farmacoinduzido, provavelmente por demetilação do DNA (hidralazina, procainamida, isoniazida, fenitoína, clorpromazina, penicilamina, metildopa, quinidina, interferon-alfa, agentes anti-TNF). • Tabagismo: desenvolvimento de anticorpos anti-DNA dupla fita. • Exposição a sílica • Agentes microbiológicos: vírus EPV. Outros microrganismos relacionados são o citomegalovírus (CMV) e a Mycobacterium tuberculosis. Júlia Lenza Goulart 5 período Fisiopatologia: a fisiopatologia dessa doença é marcada por vários defeitos no sistema imune que levam a uma perda de autotolerância. Nesse sentido, há uma produção anromal de anticorpos. Antígenos, autoanticorpos e complexos imunes persistem por períodos prolongados, tornando possível a inflamação e a própria doença. O resultado de todo esse processo é a manutenção e produção de autoanticorpos e, subsequente, imunocomplexos, que se depositam em órgãos-alvo. As células-alvo lesadas (glomérulos, células endoteliais, plaquetas e outras) liberam mais antígenos, que perpetuam o processo. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Pele e anexos: as manifestações cutâneas são extremamente importantes, acontecem em 70% dos pacientes no início da doença e em até 80-90% dos pacientes durante a evolução. AGUDAS -Rash Malar/eritema de vespertilio ou eritema “asa de borboleta”: é altamente fotossensível, apresenta-se como eritema na região malar e no dorso do nariz dando aspecto de asa de borboleta, transitório ou mais persistente. -Outros tipos de lesões agudas são máculas, pápulas ou placas eritematosas, algumas com tonalidade violácea, que podem apresentar leve descamação. As lesões não são pruriginosas e primariamente ocorrem em áreas expostas ao sol, como face, tórax, ombros, face extensora dos braços e dorso das mãos, regredindo sem deixar atrofia. SUBAGUDAS -Placas eritomatosas em áreas expostas ao sol e com intensa fotossensibilidade, habitualmente associada ao anticorpo anti-Ro. Há duas variedades da lesão, a papuloescamosa e anular. Inicialmente se iniciam com uma papula ou pequena placa eritematosa levemente descamativa. variante papuloescamosa, as lesões progridem e confluem formando placas psoriasiformes em arranjo muitas vezes reticulado. Já na variante anular ocorre progressão periférica das lesões, com eritema e fina descamação na borda. Ocasionalmente surgem hipopigmentação e telangectasias no centro das lesões anulares. Júlia Lenza Goulart 5 período CRÔNICAS: forma mais comum é o lúpus eritematoso discoide, caracterizado por lesões maculosas ou papulosas, eritematosas, bem definidas, com escamas firmes e aderentes à superfície das lesões. Comumente, em sua evolução, essas lesões tornam-se confluentes, formando placas recobertas por escamas espessas e ceratose, que se estende para o interior do folículo piloso dilatado. Os locais mais acometidos são: couro cabeludo, pavilhão auricular, região torácica anterior e porção superior dos braços. Na face, as sobrancelhas, as pálpebras, o nariz e as regiões mentoniana e malar estão frequentemente envolvidas. As lesões cutâneas são crônicas, persistentes e podem regredir deixando áreas cicatriciais discrômicas, além de telangectasias e alopecia cicatricial. Musculoesqueléticas: artralgia e mialgias são frequentes (95%). Pode ocorre rigidez matinal semelhante a artrite reumatoide. Padrão de acometimento: simétrico distal e migratório -Artropatia de Jaccoud: é identificada em 8-10% dos casos, e é caracterizada por um desvio ulnar dos dedos, subluxação das articulações metacarpofalangianas, deformidades reversíveis do tipo pescoço de cisne e polegar em X, decorrentes do acometimento inflamatório de tendões e ligamentos. Essas deformidades articulares também são comuns à artrite reumatoide, porém no lúpus não são observadas lesões. Artrite deformante não erosiva. -Osteonecrose: A persistência de dor, edema e calor em apenas uma articulação, principalmente no joelho, no ombro ou no quadril, levanta a suspeita de osteonecrose ou artrite séptica. A prevalência de osteonecrose é aumentada em doentes com lúpus, principalmente naqueles em uso de corticoides. O quadril (cabeça do fêmur) é a articulação mais frequentemente envolvida. Júlia Lenza Goulart 5 período Cardíacas e pulmonares: • Pericardite • Miocardite • Endocardite de Libman-Sacks • Coronariopatia • Pleurite* • Derrame Pleural • Pneumonite • Fibrose intersticial • HAP • TEP • Síndrome do pulmão encolhido/contraído • Hemorragia alveolar Renais e hematológicas: principal determinante da morbimortalidade nos pacientes dcom LES. Manifesta-se em 50 a 70% dos pacientes, mas praticamente 100% tem doença renal a microscopia eletrônica. Além das síndromes nefrítica e nefrótica, alterações se sedimento urinário, também são comuns. A presença de hematúria, leucocituria e cilindros celulares são parâmetros importantes para caracterização de glomerulonefrite em atividade. A proteinúria também pode indicar a atividade inflamatória nos rins. • Proteinúria > 500mg/24h ou +3 no EAS (50%) • Cilindros celulares na urinálise - dismorfismo de padrão glomerular • Alvos renais – glomérulos o Hematúria isolada o Cilindrúria o Proteinúria isolada o Síndrome nefrítica o Síndrome nefrótica o GNRP (glomerulonefrite rapidamente progressiva)• Nefrite Lúpica (Deposição de imunocomplexos DNA/Anti-DNA) Manifestações hematológicas, a leucopenia e linfopenia são encontradas com alta frequência no LES. A plaquetopenia pode ser a primeira manifestação da doença. Clinicamente observam-se petéquias ou equimoses, principalmente de membros inferiores, além de fenômenos hemorrágicos. A anemia hemolítica Coombs positivo também pode ocorrer de forma isolada no início da doença, porém, o achado mais frequente é a anemia de doença crônica. A pancitopenia nos pacientes lúpicos pode ser relacionada com efeito colateral dos imunossupressores, com complicação de infecções ou com manifestações da síndrome hemofagocítica. Gastrointestinais: queixas inespecíficas que aparecem em 25 a 40% dos pacientes. Dor abdominal náuseas e vômitos, que podem ser desde uma peritonite estéril até efeitos colaterais dos medicamentos. • Elevação de enzimas hepáticas • Anorexia, náuseas, vômitos e diarreia • Hepatomegalia • Pancreatite • Vasculite mesentérica • Peritonite/Ascite • Hepatite autoimune Júlia Lenza Goulart 5 período Neuropsiquiátricas: envolve o SNC, SNP e SNA, além de síndromes psiquiátricas e psico funcionais. As manifestações podem preceder ou ocorrer simultaneamente ou após o inicio da doença. Podem ser primárias, decorrentes do dano imunológico ou tromboembolismo u secundárias, decorrentes de situações clinicas a que o paciente está sujeito. Oculares: • Ceratoconjuntivite seca • Episclerite/Conjuntivite • Vasculite retiniana – Exsudatos algodonosos na fundoscopia DIAGNÓSTICO Baseia-se na combinação de manifestações clínicas e alterações laboratoriais, desde que outras doenças sejam excluídas. EULAR e ACR (2019 EULAR/ACR Classification Criteria) para lúpus eritematoso sistêmico (S =96,1% e E = 93,4%): • Positividade de FAN como critério de entrada; • Avaliação subsequente de 7 domínios clínicos e 3 domínios imunológicos específicos; • Pontuação maior ou igual a 10 classifica o indivíduo como LES. Os pacientes só são elegíveis para esses critérios se têm ANA positivo ≥ 1:80. Os critérios não precisam ocorrer simultaneamente. Deve-se utilizar somente o critério de maior ponderação em um único domínio. O lúpus eritematoso sistêmico deve ser a explicação mais provável para cada critério. Júlia Lenza Goulart 5 período Atividade de doença = Combinação de história clínica, exame físico, testes funcionais específicos e estudos sorológicos. Sua quantificação pode ser de grande importância para o seguimento dos pacientes, tanto na prática clínica quanto nos estudos clínicos. Índices de atividade de doença: • **SLEDAI (Systemic Lupus Erythematosus Disease Activity Index) e suas versões (SELENA-SLEDAI e SLEDAI-2K) – SLEDAI > 3 = doença clinicamente ativa = mudanças no tratamento farmacológico • SLAM (Systemic Lupus Activity Measure); • BILAG (British Isles Lupus Assessment Group); • ECLAM (European Consensus Lupus Activity Measurement ); Júlia Lenza Goulart 5 período TRATAMENTO Grande variabilidade fenotípica e de manifestações clínicas = Tratamento requer a definição da extensão e gravidade da doença! Reconhecer a atividade de doença e identificar os fatores associados à reativação; OBS: Avaliar a não adesão ao tratamento - uma das mais importantes causas do não controle da doença. O tratamento visa: 1. Controle dos sintomas 2. Prevenção e/ou redução das complicações 3. Aumento da sobrevida do paciente Júlia Lenza Goulart 5 período Medidas Gerais: I) Educação: informar, ao paciente e aos familiares, o que é a doença, sua evolução, riscos e os recursos disponíveis para diagnóstico e tratamento. Recomenda-se a necessidade de cumprimento das medidas estabelecidas pelo médico. II) Apoio psicológico: transmitir otimismo e motivação para o tratamento, além de estimular os projetos de vida. O paciente deve ser capaz de levar sua vida social, profissional e afetiva de forma normal. III) Atividade física: repouso nos períodos de atividade sistêmica da doença e medidas visando melhora do condicionamento físico (estimular a atividade física regular). EVITAR EXAUSTÃO. IV) Dieta: recomenda-se a adoção de uma dieta balanceada, evitando-se excessos de sal, carboidratos e lipídeos. V) Proteção: contraluz solar e outras forma de irradiação ultravioleta (protetores solares, roupas, chapéus, sombrinhas). VI) Evitar: tabagismo, pois está implicado na patogenia da doença cardiovascular e exacerbação das lesões discoides. VII) Monitorização e controle da PA, glicemia e perfil lipídico. Tratamento farmacológico Deve ser individualizado para cada paciente e dependera dos órgãos acometidos e da gravidade das manifestações. Antimaláricos: indicados independente do órgão ou sistema afetado, é indicado para reduzir a atividade da doença e tentar poupar o uso de corticoide. reduz a possibilidade de novo surto de atividade, melhora perfil lipídico, glicemia e diminui risco de trombose. Apresentam toxicidade ocular e podem gerar maculopatia. Avaliação semestral oftalmológica semestral está indicada. • Difosfato de cloroquina (4 mg/kg/dia) e o sulfato de hidroxicloroquina (6 mg/kg/dia) • Se contraindicação pode ser usado Dehidroepiandrosterona (DHEA) Corticoides: é a classe mais utilizada, mas seu uso deve ser criterioso e menos intenso, pois apresenta danos orgânicos permanentes a longo prazo. (Prednisona) Analgésicos/AINES Citotóxicos: ciclofosfamida, micofenolato e azatioprina (imunossupressores) Imunobiológicos/Anticorpo monoclonal: belilumabe, direcionado contra o BLyS, citocina cujo bloqueio reduz a sobrevida do linfócito B. INDUÇÃO DA REMISSÃO: Antimaláricos + GC altas doses + agente imunossupressor/citotóxico (ciclofosfamida, micofenolato ou azatiorpina) são teratogênicos, adm com cuidado Se lesões orgânicas fulminantes = corticoide em pulsoterapia = metilprednisolona 0,5- 1g/dia IV por 3-5dias, seguido de corticoide oral Se lesão orgânica grave, porem não fulminante = prednisolona oral 0,5-1mg/kg/dia por 4 a 6 semanas com desmame progressivo até dose de manutenção 5-10mg/dia. MANUTENÇÃO REMISSÃO Desmame do glicocorticoide até dose mínima + imunossupressor/citotóxico (micofelato ou azatioprina)