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Pág. 1 de 9 www.proleges.com.br SUMÁRIO DIREITOS HUMANOS E DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE ............................................................................................. 2 REGRAS DE BEIJING ............................................................................................................................................................................................... 2 Legenda dos grifos: AMARELO – DESTAQUE VERDE – EXCEÇÃO, VEDADO ou ALGUMA ESPECIFICIDADE AZUL – GÊNERO, PALAVRA-CHAVE ou EXPRESSÃO LARANJA – SUJEITOS, PESSOAS OU ENTES CINZA – MEUS COMENTÁRIOS DENTRO DO ARTIGO Para saber se o material foi atualizado, clique aqui e confira a data da capa (se for posterior a 10/01/2023, houve alteração no conteúdo): Link: https://drive.google.com/file/d/1zY-1__tRz6_dqpMNXvWkSAmT6JKIdmF2/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1zY-1__tRz6_dqpMNXvWkSAmT6JKIdmF2/view?usp=sharing Pág. 2 de 9 www.proleges.com.br DIREITOS HUMANOS E DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE REGRAS DE BEIJING/PEQUIM REGRAS MÍNIMAS DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A ADMINIS- TRAÇÃO DA JUSTIÇA DA INFÂNCIA E DA JUVENTUDE (REGRAS DE BEIJING/PEQUIM) Noções gerais #Dica Depois de estudar as Regras de Beijing, vale a leitura das Diretrizes de Riad. As regras e as diretrizes são bem im- portantes para concursos da Defensoria Pública, principal- mente em fases subjetivas e oral. #Panorama_geral Diretrizes de Riad Regras de Beijing/Pequim Prevenção do crime. Processo e julgamento. Regras Mínimas das Nações Unidas para a Proteção dos Jovens Privados de Liberdade Objetivo: proteção dos jovens privados de liberdade. Jovem é a pessoa com idade inferior a 18 anos (art. 11.a). (Juiz TJRN 2013 Cespe incorreta, porque, embora soft law, elas são sim aplicáveis na ordem interna brasileira) As Regras de Beijing, as Diretrizes de RIAD e as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Proteção dos Jovens Pri- vados de Liberdade, instrumentos internacionais de proteção aos direitos das crianças e adolescentes, não se aplicam ao Brasil, visto que não foram apro- vadas pelo Congresso Nacional brasileiro e promulgados pelo presidente da República. (Defensor DPESP 2012 FCC correta) Às Diretrizes de Riad coube prever me- didas de prevenção à prática do ato infracional, mediante a participação da sociedade e a adoção de uma abordagem voltada à criança, definindo o papel da família, da educação, da comunidade, prevendo cooperação entre todos os setores relevantes da sociedade. Questões (Defensor DPEPR 2017 FCC incorreta, porque as Re- gras de Beijing são de natureza soft law, não vincu- lantes, nem tampouco há que falar em status de norma constitucional, porque não passaram pelo rito necessário, previsto no § 3º do art. 5º da CF/88) De acordo com o posicionamento do Supremo Tri- bunal Federal sobre a hierarquia dos tratados inter- nacionais de direitos humanos, consideram-se como tratados de hierarquia constitucional: Regras Míni- mas das Nações Unidas para a Administração da Jus- tiça da Infância e Juventude − Regras de Beijing. PRIMEIRA PARTE - PRINCÍPIOS GERAIS 1. Orientações fundamentais 1.1 Os Estados membros procurarão, em conformidade com os seus interesses gerais, promover o bem-estar do menor e da sua família. 1.2 Os Estados membros esforçar-se-ão por criar condições que assegurem ao menor uma vida útil na comunidade fomentando, durante o período de vida em que o menor se encontre mais exposto a um comportamento desviante (STJ: hipervulnerável - REsp 1793332), um processo de desenvolvimento pessoal e de educação afastado tanto quanto possível de qualquer contato com a criminalidade e a delinquência. 1.3 É necessário tomar medidas positivas que assegurem a mobilização completa de todos os recursos existentes incluindo a família, os voluntários e os outros grupos comunitários, assim como as escolas e outras instituições comunitárias, com o fim de promover o bem-estar do menor e reduzir a necessidade de intervenção da lei e tratar de forma eficaz, equitativa e humanitária o jovem em conflito com a lei. 1.4 A Justiça de menores deve ser concebida como parte integrante do processo de desenvolvimento nacional de cada país, no quadro geral da justiça social para todos os jovens, contribuindo assim, ao mesmo tempo, para a proteção dos jovens e a manutenção da paz e da ordem na sociedade. 1.5 A aplicação destas regras deve ser feita dentro do contexto das condições econômicas, sociais e culturais existentes em cada Estado membro. 1.6 Os serviços de Justiça de menores devem ser sistematicamente desenvolvidos e coordenados tendo em vista aperfeiçoar e apoiar a capacidade dos funcionários que trabalham nestes serviços, em especial os seus métodos, modos de atuação e atitudes. 2. Campo de aplicação das regras e definições utilizadas 2.1 As Regras Mínimas a seguir enunciadas serão aplicadas imparcialmente aos jovens Delinquentes, sem qualquer distinção, designadamente de raça, cor, sexo, língua, religião, de opiniões políticas ou outras, de origem nacional ou social, de condição econômica, nascimento ou outra condição. 2.2 Para os fins das presentes Regras, as definições a seguir enunciadas serão aplicadas pelos Estados membros de modo compatível com os seus respectivos sistemas e conceitos jurídicos: a) MENOR é qualquer criança ou jovem que, em relação ao sistema jurídico considerado, pode ser punido por um delito, de forma diferente da de um adulto; (#atenção: a expressão “menor” lembra a fase da situação irregular e o Código de Menores - 1979; totalmente criticável a expressão “menor”, pois não se pode mais pensar que criança e adolescente sejam objeto de direito, mas sim sujeitos de direitos, conforme a doutrina da proteção integral e a CF/88; portanto, não utilize a expressão “menor” em provas subjetivas e orais) b) DELITO é qualquer comportamento (ato ou omissão) punível por lei em virtude do sistema jurídico considerado; c) DELINQUENTE JUVENIL é qualquer criança ou jovem acusado de ter cometido um delito ou considerado culpado de ter cometido um delito. 2.3 Em cada país (os limites de idade dependem expressamente de cada sistema jurídico), procurar-se-á promulgar um conjunto de leis, normas e disposições especialmente aplicáveis aos Delinquentes juvenis e às instituições e organismos encarregados da administração da Justiça de menores e destinado: a) A responder (= satisfazer) às necessidades específicas dos Delinquentes juvenis, protegendo ao mesmo tempo os seus direitos fundamentais; AUTOR: MARCO TORRANO INSTAGRAM: @MARCOAVTORRANO/@PROLEGES E-MAIL: PROLEGESMARCOTORRANO@GMAIL.COM https://www.instagram.com/marcoavtorrano/ https://www.instagram.com/proleges/ mailto:prolegesmarcotorrano@gmail.com?subject=Dúvida/Sugestão/Crítica Pág. 3 de 9 www.proleges.com.br b) A responder (= satisfazer) às necessidades da sociedade; c) A aplicar efetiva e equitativamente as regras a seguir enunciadas. 3. Ampliação do âmbito de aplicação das regras 3.1 As disposições pertinentes das presentes Regras serão aplicadas não só aos Delinquentes juvenis, mas também aos menores que possam ser processados por qualquer comportamento específico, que não seria punido se fosse cometido por um adulto. #CNJ (Regras de Pequim. Série Tratados Internacionais de Direitos Huma- nos: bit.ly/3Zs82o9). Comentários sobre o art. 3.1: aos chamados "delitos de status", previstos em vários sistemas jurídicos nacionais onde a gama de com- portamentos considerados como delitos é maior para os jovens do que para os adultos (p. ex., absentismo escolar, indisciplina escolar e familiar, embria- guez pública, etc.). 3.2 Procurar-se-á alargar os princípios contidos nas presentes Regras a todos os menores a quem se apliquemmedidas de proteção e assistência social. 3.3 Procurar-se-á também alargar os princípios incorporados nas presentes Regras aos jovens adultos Delinquentes. 4. Responsabilidade penal 4.1 Nos sistemas jurídicos que reconhecem a noção de responsabilidade penal em relação aos menores, esta não deve ser fixada a um nível demasiado baixo, tendo em conta os problemas de maturidade afetiva, psicológica e intelectual. #Paralelo_Direito_Constitucional: CLÁUSULA PÉTREA (art. 228 da CF) ➔ Art. 228. São penalmente inim- putáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da le- gislação especial. É possível redução da maioridade penal? A doutrina especializada defende que o art. 228 da CF não pode sofrer alteração, pois representa um direito fundamental do indivíduo que ainda não completou 18 anos (= cláusula pé- trea). Assim, eventual emenda constitucional que vise reduzir a maioridade penal seria inconstitucional. Nesse sentido: Paulo Lépore, Luciano Rossatto e Gustavo Cives Seabra. 5. Objetivos da Justiça de menores (ou melhor: da Justiça da Infância e da Juventude) 5.1 O sistema da Justiça de menores deve dar a maior importância ao bem-estar (i. promoção do bem-estar da criança e do adolescente) destes e assegurar que qualquer decisão em relação aos Delinquentes juvenis seja sempre proporcional às circunstâncias especiais tanto dos Delinquentes como do delito (ii. princípio da proporcionalidade). (portanto, o art. 5.1 elencou dois objetivos da Justiça da Infância e da Juventude: i. promoção do bem-estar da criança e do adolescente; e ii. princípio da proporcionalidade) 6. Alcance do poder discricionário (permite-se o poder dicionário para “facilitar” a aplicação das medidas mais apropriadas a cada caso concreto) 6.1 Dadas as diferentes necessidades específicas dos menores e a diversidade de medidas possíveis, deve ser previsto um poder discricionário suficiente em todas as fases do processo e a diferentes níveis da administração da Justiça de menores, designadamente nas fases de instrução, de acusação, de julgamento e de aplicação e seguimento das medidas tomadas. 6.2 Contudo, devem ser feitos esforços no sentido de assegurar que este poder discricionário seja exercido de um modo responsável, em todas as fases do processo e a todos os níveis. 6.3 As pessoas que o exercem devem ser especialmente qualificadas ou formadas para o exercer judiciosamente e de acordo com as suas funções e mandatos respectivos. 7. Direitos dos menores 7.1 As garantias fundamentais do processo (= garantias processuais), tais como a presunção de inocência, o direito de ser notificado das acusações, o direito de não responder, o direito à assistência judiciária, o direito à presença dos pais ou tutor, o direito de interrogar e confrontar as testemunhas e o direito ao recurso serão asseguradas em todas as fases do processo. 8. Proteção da vida privada 8.1 O direito do menor à proteção da sua vida privada deve ser respeitado em todas as fases a fim de se evitar que seja prejudicado por uma publicidade inútil ou pelo processo de estigmatização. 8.2 Em princípio, não deve ser publicada nenhuma informação que possa conduzir à identificação de um Delinquente juvenil. #CNJ (Regras de Pequim. Série Tratados Internacionais de Direitos Huma- nos: bit.ly/3Zs82o9). Comentários sobre o art. 8: a regra 8 sublinha a impor- tância da proteção do direito do menor à vida privada. Os jovens são particu- larmente sensíveis à estigmatização. As investigações criminológicas neste domínio mostraram os efeitos perniciosos (de toda a espécie) resultantes do fato de os jovens serem qualificados, de uma vez por todas, como "Delinquen- tes" ou "criminosos". 9. Cláusula de proteção 9.1 Nenhuma disposição das presentes Regras poderá ser interpretada como excluindo a aplicação das Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Reclusos10 e dos outros instrumentos e regras reconhecidos pela comunidade internacional e relativos ao tratamento e à proteção dos jovens. (REGRAS DE MANDELA: aplicam-se subsidiariamente) SEGUNDA PARTE - INVESTIGAÇÃO E PROCEDIMENTO 10. Primeiro contato 10.1 Sempre que um menor é detido, os pais ou o tutor devem ser imediatamente notificados ou, se isso não for possível, deverão vê-lo no mais curto prazo de tempo. 10.2 O Juiz ou qualquer outro funcionário ou organismo competente deverá examinar imediatamente a possibilidade de libertar o menor. 10.3 Os contatos entre os organismos encarregados de fazer cumprir a lei e o jovem Delinquente deverão ser estabelecidos de forma a respeitar o estatuto jurídico do menor, a favorecer o seu bem-estar e a evitar prejudicá-lo, tendo em conta as circunstâncias do caso. 11. Remissão dos casos 11.1 Sempre que possível tentar-se-á tratar o caso dos Delinquentes juvenis evitando o recurso a um processo https://bit.ly/3Zs82o9 https://bit.ly/3Zs82o9 Pág. 4 de 9 www.proleges.com.br judicial perante a autoridade competente referida na regra 14.1 infra (buscar-se aqui a desjudicialização para solução do caso concreto). 11.2 A polícia, o Ministério Público e os outros organismos que se ocupem de casos de delinquência juvenil poderão lidar com eles discricionariamente (poder discricionário: para melhor solucionar cada caso concreto), evitando o recurso ao formalismo processual penal estabelecido, antes faseando-se em critérios fixados para esse efeito nos seus sistemas jurídicos e nas presentes regras. 11.3 Qualquer recurso a meios extrajudiciais (ex.: remissão) que implique o encaminhamento para serviços comunitários ou outros serviços competentes exige o consentimento do interessado, dos seus pais ou do seu tutor; contudo, a decisão relativa à remessa do caso será sujeita a exame por uma autoridade competente, se isso for solicitado. 11.4 A fim de facilitar a abordagem discricionária dos casos de delinquência juvenil, procurará organizar-se programas comunitários, designadamente de vigilância e de orientação temporárias e assegurar a restituição dos bens e a indenização das vítimas Questão (Defensor DPEPR 2017 FCC correta) Dentre diversas novidades, o Estatuto da Criança e do Adolescente passou a prever a possibilidade de remissão ao ado- lescente que viesse a praticar ato infracional. Esta previsão decorreu de compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito internacional, havendo expressa re- comendação para adoção da remissão nas Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça, da Infância e da Juventude − Regras de Bei- jing. #Paralelo_com_ECA Espécie de remissão Definição Remissão pré-processual ou ministerial Natureza de exclusão do processo. Oferecida pelo MP. Remissão processual ou judicial. Natureza de extinção ou suspensão do processo. Oferecida pelo juiz. Remissão própria Não é cumulada com MSE. Remissão imprópria Cumulada com MSE, desde que não internação e semiliberdade. 12. Especialização nos serviços de polícia 12.1 Para melhor cumprir as suas funções, os polícias que se ocupam frequentemente, ou exclusivamente, de menores ou que se dedicam essencialmente à prevenção da delinquência juvenil devem receber uma instrução e uma formação especiais (capacitação especial). Com este fim deveriam ser criados nas grandes cidades serviços especiais de polícia. 13. Prisão preventiva 13.1 A prisão preventiva constitui uma medida de último recurso e a sua duração deve ser o mais curta possível. #CNJ (Regras de Pequim. Série Tratados Internacionais de Direitos Huma- nos: bit.ly/3Zs82o9). Comentários sobre o art. 13.1: o perigo de "contami- nação criminal" para os jovens presos preventivamente não deve ser subes- timado. É, pois, importante sublinhar a necessidade de medidas alternativas. Ao fazê-lo, a regra 13.1 encoraja a elaboração de medidas novas e inovadoras destinadas a evitar a prisão preventiva no interesse do bemestar do menor13.2 Sempre que for possível, a prisão preventiva deve ser substituída por outras medidas (medidas alternativas, como, por exemplo, os programas de meio aberto – ver a nossa Lei do SINASE comentada no semestral de Direito da Criança e do Adolescente), tais como uma vigilância apertada, uma assistência muito atenta ou a colocação em família, em estabelecimentos ou em lar educativo.. 13.3 Os menores em prisão preventiva devem beneficiar- se de todos os direitos e garantias previstos nas Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Reclusos (REGRAS DE MANDELA: aplicam-se subsidiariamente). 13.4 Os menores em prisão preventiva devem estar separados dos adultos e ser detidos em estabelecimentos diferentes ou numa parte separada de um estabelecimento em que também se encontram detidos adultos. 13.5 Durante a sua prisão preventiva, os menores devem receber cuidados, proteção e toda a assistência individual – no plano social, educativo, profissional, psicológico, médico e físico – de que necessitem, tendo em conta a sua idade, sexo e personalidade. #Paralelo_com_ECA INTERNAÇÃO PROVISÓRIA (art. 108) ➔ Duração máxima: 45 dias. No máximo 5 dias poderão ser cum- pridos perante repartição policial (confe- rir o art. 185 do ECA).[1] Será computado esse tempo para o cálculo dos 3 anos máximos de interna- ção. A inobservância do prazo de 45 dias importa no crime do art. 235 do ECA. ➔ É determinada pela autoridade judiciária, em ação socioeduca- tiva já iniciada pelo MP. ➔ Requisitos: i) indícios suficientes de autori- dade e materialidade; ii) necessidade imperiosa da me- dida. [1] Art. 185. A internação, decretada ou mantida pela autoridade judiciária, não poderá ser cumprida em estabelecimento prisional. § 1º Inexistindo na comarca entidade com as características definidas no art. 123, o adolescente deverá ser imediatamente transferido para a localidade mais próxima. § 2º Sendo impossível a pronta transferência, o adolescente aguardará sua remoção em repartição policial, desde que em seção isolada dos adultos e com instalações apropriadas, não podendo ultrapassar o prazo máximo de cinco dias, sob pena de responsabilidade. Crime Art. 235 do ECA Art. 235. Descumprir, injustificada- mente, prazo fixado nesta Lei em bene- fício de adolescente privado de liber- dade: Pena - detenção de seis meses a dois anos. Internação provisória na visão do STJ https://bit.ly/3Zs82o9 Pág. 5 de 9 www.proleges.com.br A medida de internação provisória somente pode ser apli- cada quando presentes as hipóteses dos arts. 108 e 122 do Estatuto da Criança e do Adolescente, segundo os quais de- vem estar presentes indícios suficientes de autoria e materi- alidade, deve ser demonstrada a necessidade imperiosa da medida e o ato infracional tenha sido cometido mediante grave ameaça ou violência a pessoa, por reiteração no come- timento de outras infrações graves ou por descumprimento reiterado e injustificável da medida anteriormente imposta. STJ. 5ª Turma. HC 337.610/SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 27/9/2016. STJ. 6ª Turma. AgRg no RHC n. 171.271/SP, Rel. Min. Olindo Menezes (Desembargador Convocado do TRF 1ª Região), jul- gado em 22/11/2022. TERCEIRA PARTE – JULGAMENTO E DECISÃO 14. Autoridade competente para julgar 14.1 Se o caso de um jovem Delinquente não foi objeto de um processo extrajudicial (previsto na regra 11) (por processo extrajudicial podemos pensar aqui no instituto da remissão), é examinado pela autoridade competente (tribunal, comissão, conselho, etc.) de acordo com os princípios de um processo justo e equitativo. 14.2 O processo favorecerá os interesses do menor e será conduzido numa atmosfera de compreensão, que permita ao jovem participar e expressar-se livremente. 15. Assistência judiciária e direitos dos pais e tutores 15.1 Ao longo de todo o processo, o menor tem o direito de ser representado pelo seu advogado ou pedir a designação de um advogado oficioso (advogado dativo), quando existam no país disposições legais que prevejam essa assistência (assistência jurídica gratuita). 15.2 Os pais ou o tutor podem participar no processo e a autoridade competente pode, no interesse do menor, requerer que o façam. Esta pode, contudo, recusar essa participação se existirem razões para supor que essa exclusão é necessária no interesse do menor. 16. Relatórios de inquérito social 16.1 Para facilitar o julgamento do caso pela autoridade competente e a menos que se trate de infrações leves, antes da autoridade competente tomar a decisão final, os antecedentes do menor, as condições em que vive e as circunstâncias em que o delito foi cometido são objeto de um inquérito profundo. 17. Princípios relativos ao julgamento e à decisão (em outras palavras, princípios norteadores da decisão judicial o das medidas) 17.1 A decisão de qualquer autoridade competente deve basear-se nos seguintes princípios: a) A decisão deve ser sempre proporcional (princípio da proporcionalidade) não só às circunstâncias e gravidade da infração, mas também às circunstâncias e necessidades do jovem Delinquente, assim como às necessidades da sociedade; b) As restrições à liberdade pessoal do menor são impostas somente depois de um estudo cuidadoso e limitadas ao mínimo possível; c) A privação da liberdade individual só é imposta se o menor for considerado culpado de um fato grave que implique violência contra outra pessoa ou de reincidência noutros crimes graves e se não existir outra solução adequada; d) O bem-estar do menor deve ser o elemento condutor no exame do caso. 17.2 A pena de morte (= pena capital) não é aplicável aos crimes cometidos por menores. 17.3 Os menores não estão sujeitos a castigos corporais. 17.4 A autoridade competente pode suspender o processo em todo e qualquer momento (a qualquer tempo). 18. Várias medidas aplicáveis 18.1 A autoridade competente pode assegurar a execução do julgamento sob formas muito diversas, usando de uma grande maleabilidade a fim de evitar, tanto quanto possível, o internamento numa instituição. Tais medidas, algumas das quais podem ser aplicadas cumulativamente, incluem (ECA: medidas protetivas e/ou medidas socioeducativas podem ser aplicadas cumulativamente, desde que compatíveis entre si): a) Medidas de proteção, orientação e vigilância; b) Regime de prova (ex.: liberdade assistida); c) Medidas de prestação de serviços à comunidade; d) Multas, indenizações e restituições; e) Tratamento intermédio e outras medidas de tratamento; f) Participação em grupos de "counselling" e outras atividades semelhantes (em outras palavras, determinação de participar em sessões de grupo e atividades similares); g) Colocação em família idônea, em centro comunitário ou outro estabelecimento (em outras palavras, determinação de colocação em lar substituto, centro de convivência ou outros estabelecimentos educativos); h) Outras medidas relevantes. 18.2 Nenhum menor será subtraído (= excluído) à vigilância (= convivência) dos pais, quer parcial quer totalmente, a não ser que as circunstâncias do caso façam com que isso seja necessário. Questão (Defensor DPERN 2015 Cespe incorreta) Segundo as Regras de Beijing, a sanção aplicável ao jovem que cometer ato infracional deverá ser específica e única, princípio que torna inadmissível a aplicação si- multânea de uma medida de liberdade assistida e uma de prestação de serviços à comunidade. 19. Recurso mínimo à colocação em instituição 19.1 A colocação de um menor em instituição (ex.: internação), é sempre uma medida de último recurso e a sua duração deve ser tão breve quanto possível. 20. Prevenção de demoras desnecessárias 20.1 Qualquer caso deve ser tratado de forma expedita, desde o princípio, sem atrasos evitáveis. 21. Registros 21.1 Os Registros referentes aos jovens Delinquentes devem ser consideradosestritamente confidenciais e incomunicáveis a terceiros. O acesso a estes registros deve ser limitado às pessoas diretamente envolvidas no Pág. 6 de 9 www.proleges.com.br julgamento do processo em causa ou a outras pessoas devidamente autorizadas. 21.2 Os Registros de jovens Delinquentes não serão utilizados em processos subsequentes de adultos em que esteja implicado o mesmo Delinquente. Jurisprudência do STJ #Regra: os atos infracionais não podem ser valorados negativamente na do- simetria da pena Atos infracionais não podem ser considerados maus antece- dentes para a elevação da pena-base, tampouco podem ser utilizados para caracterizar personalidade voltada para a prática de crimes ou má conduta social. Há impropriedade na majoração da pena-base pela conside- ração negativa da personalidade do agente em razão da pré- via prática de atos infracionais, pois é incompossível exacer- bar a reprimenda criminal com base em passagens pela Vara da Infância. STJ. 5ª Turma. HC 499987/SP, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 30/05/2019. STJ. 6ª Turma. REsp 1702051/SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 06/03/2018. #Exceção: art. 33, § 4º, da Lei de Drogas No entanto, prevaleceu, no âmbito da Terceira Seção, para fins de consolidação jurisprudencial e ressalvado o entendi- mento desta Relatora para o acórdão, entendimento inter- mediário no sentido de que o histórico infracional pode ser considerado para afastar a minorante prevista no art. 33, § 4.º, da Lei n. 11.343/2006, por meio de fundamentação idô- nea que aponte a existência de circunstâncias excepcionais, nas quais se verifique a gravidade de atos pretéritos, devida- mente documentados nos autos, bem como a razoável pro- ximidade temporal de tais atos com o crime em apuração. STJ. 3ª Seção. EREsp n. 1.916.596/SP, Rel. Min. Joel Ilan Paci- ornik, relatora para acórdão Ministra Laurita Vaz, julgado em 8/9/2021. Questão (Defensor DPEPB 2022 FCC correta) Um adolescente cumpriu medida socioeducativa de internação pela prática de ato infracional equiparado a roubo por oito meses, teve sua medida extinta e foi liberado. Três meses depois, já adulto, foi-lhe imputada a prá- tica de novo roubo, oportunidade em que o Ministé- rio Público postulou sua prisão preventiva invo- cando, entre outros motivos, a existência do antece- dente infracional. Esse fundamento do pedido mi- nisterial contraria o disposto nas Regras Mínimas das Nações Unidas para Administração da Justiça da Infância e da Juventude (Regras de Beijing), que prevê que os registros dos jovens infratores não se- rão utilizados em processos de adultos em casos subsequentes que envolvam o mesmo infrator. 22. Necessidade de profissionalização e de formação 22.1 A formação profissional, a formação permanente, os cursos de reciclagem e outros tipos de formação apropriados, servirão para proporcionar a aquisição e manutenção da competência profissional necessária a todas as pessoas encarregadas de assuntos referentes a menores. 22.2 Os funcionários da Justiça de menores devem refletir a diversidade dos jovens que entram em contato com o sistema de Justiça de menores. Tentar-se-á assegurar uma representação equitativa de mulheres e de minorias nos órgãos da Justiça de menores. QUARTA PARTE - TRATAMENTO EM MEIO ABERTO 23. Meios de execução do julgamento 23.1 A fim de assegurar a execução das decisões da autoridade competente, referida na regra 14.1, essa mesma autoridade ou uma outra, se as circunstâncias o exigirem, tomará as medidas necessárias. 23.2 Com esse fim, a autoridade pode, se o julgar necessário, modificar as decisões, com a condição dessa modificação ser conforme aos princípios que figuram nas presentes regras. 24. Assistência aos menores 24.1 Procurar-se-á assegurar aos menores, em todas as fases do processo, assistência em matéria de alojamento, de educação, de formação profissional, de emprego ou outra forma de assistência prática e útil, com vista a facilitar a sua reinserção. 25. Mobilização de voluntários e outros serviços comunitários 25.1 Solicitar-se-á a voluntários, a organizações de voluntários, às instituições locais e a outros serviços comunitários, que contribuam eficazmente para a reinserção do menor num quadro comunitário e, tanto quanto possível, no interior da célula familiar. #Paralelo_com_ECA Princípio da incompletude institucional O atendimento prestado pela entidade de acendimento não é completo, até porque o adolescente deverá permanecer convivendo junco à sua comunidade. Dessa maneira, serão obrigatórias a escolarização e a profissionalização, devendo, sempre que possível, ser utilizados os recursos existentes na comunidade (art. 120, § 1º). Portanto, o Estatuto encampou o princípio da incompletude institucional. Se houvesse adotado a completude institucio- nal, todas as atividades deveriam ser realizadas na própria unidade, sem a possibilidade do adolescente participar da vida em comunidade. LÉPORE, Paulo; ROSSATO, Luciano. Manual de direito da criança e do ado- lescente. Juspodivm, 2021, p. 260. O atendimento voltado ao adolescente autor de ato infraci- onal está disposto no Sistema Nacional de Atendimento So- cioeducativo (SINASE), o qual reitera a partir do princípio da incompletude institucional que as medidas socioeducativas devem ser articuladas de forma intersetorial, ou seja, deve atuar em diálogo direto com as demais políticas setoriais. Desta forma, a instituição executora das medidas socioedu- cativas em meio aberto tem a sua atuação pautada no prin- cípio da incompletude institucional, o que significa dizer que a intersetorialidade entre as políticas de educação, saúde, assistência social, segurança e do sistema de justiça é Pág. 7 de 9 www.proleges.com.br imprescindível para assegurar os direitos fundamentais dos adolescentes que se encontram em cumprimento de medida socioeducativa. Ou seja, as políticas setoriais devem estar envolvidas no atendimento aos adolescentes, acionando o máximo possível de serviços na comunidade, responsabili- zando as políticas setoriais no atendimento. BRITO, Ana. A incompletude institucional e a intersetorialidade na polí- tica de atenção à criança e ao adolescente no município de Recife. Disponí- vel: bit.ly/3VH9elt. (Juiz TJSC 2017 FCC incorreta, porque o princípio da incompletude institu- cional defende que as entidades de atendimento utilizarão, sempre que pos- sível, os recursos/serviços da comunidade, pois as instituições de proteção aos direitos da criança e do adolescente, isoladamente, não são completas) As entidades que desenvolvem programas de acolhimento institucional de- vem concretizar o princípio da incompletude institucional, que implica buscar outras instituições de mesmo perfil de funcionamento para trocar experiên- cias e recursos operacionais. QUINTA PARTE - TRATAMENTO EM INSTITUIÇÃO 26. Objetivos do tratamento institucional 26.1 A formação e o tratamento dos menores colocados em instituição têm por objetivo assegurar-lhes assistência, proteção, educação e formação profissional, a fim de os ajudar a desempenhar um papel construtivo e produtivo na sociedade. 26.2 Os jovens colocados em instituição receberão a ajuda, proteção e assistência – no plano social, educativo, profissional, psicológico, médico e físico – de que possam necessitar, em função da sua idade, sexo e personalidade e no interesse do seu desenvolvimento harmonioso. 26.3 Os menores colocados em instituição devem estar separados dos adultos e detidos em estabelecimento distinto ou numa parte separada de um estabelecimento em que também se encontrem adultos. 26.4 As jovens Delinquentes colocadas em instituição devem beneficiar-se de uma atenção especial no que diz respeito às suas necessidades e problemas próprios. A ajuda, proteção, assistência, tratamento e formação de que se beneficiam não deve, em nenhum caso, ser inferioràquelas de que se beneficiam os jovens Delinquentes. Deve ser-lhes assegurado um tratamento justo. 26.5 No interesse e para o bem-estar do menor colocado em instituição, os pais ou o tutor gozarão de direito de visita. 26.6 Favorecer-se-á a cooperação interministerial e interdepartamental, com o fim de assegurar aos menores internados uma formação escolar apropriada ou, se se justificar, uma formação profissional adequada, para que, ao deixar a instituição, não se encontrem prejudicados nos seus estudos. 27. Aplicação das Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Reclusos 27.1 As Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Reclusos e Recomendações conexas serão aplicáveis no que diz respeito ao tratamento dos jovens Delinquentes colocados em instituição, inclusive àqueles que se encontram em detenção preventiva. (REGRAS DE MANDELA: aplicam-se subsidiariamente) 27.2 Na medida do possível, procurar-se-á aplicar os princípios pertinentes enunciados nas Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos, com o fim de responder às diversas necessidades dos menores, próprias da sua idade, sexo e personalidade. 28. Aplicação frequente e rápida do regime de liberdade condicional 28.1 A autoridade apropriada recorrerá à liberdade condicional tantas vezes quanto possível e tão cedo quanto possível. 28.2 Os menores colocados em liberdade condicional serão assistidos e supervisionados por uma autoridade apropriada e receberão todo o apoio da comunidade. #CNJ (Regras de Pequim. Série Tratados Internacionais de Direitos Huma- nos: bit.ly/3Zs82o9). Comentários sobre o art. 28: o poder de decretar a li- berdade condicional pode ser conferido à autoridade competente, como está previsto na regra 14.1, ou a uma outra autoridade. Por isso que convém em- pregar o termo autoridade "apropriada" e não autoridade "competente". 29. Regimes de semidetenção 29.1 Procurar-se-á estabelecer sistemas de semidetenção tais como estabelecimentos de transição, lares educativos, centros diurnos de formação profissional e outros estabelecimentos apropriados, destinados a favorecer a reinserção social dos menores. SEXTA PARTE - INVESTIGAÇÃO, PLANIFICAÇÃO, FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS E AVALIAÇÃO 30. A investigação, base da planificação, da formulação de políticas de avaliação 30.1 Procurar-se-á organizar e fomentar a investigação necessária à formulação de planos e de políticas eficazes. 30.2 Procurar-se-á rever e avaliar periodicamente as tendências, os problemas e as causas da delinquência e da criminalidade juvenis, assim como as necessidades específicas dos menores detidos. 30.3 Procurar-se-á estabelecer com caráter regular um dispositivo permanente de investigação e de avaliação, integrado no sistema de administração da Justiça de menores, bem como compilar e analisar os dados e informações pertinentes necessários a uma avaliação apropriada e a um aperfeiçoamento ulterior do referido sistema. 30.4 Na administração da Justiça de menores, a prestação de serviços deve ser sistematicamente planificada e implementada e fazer parte integrante do esforço de desenvolvimento nacional. Novidade no site! Disponível https://bit.ly/3YOiqXa https://bit.ly/3VH9elt https://bit.ly/3Zs82o9 https://bit.ly/3YOiqXa Pág. 8 de 9 www.proleges.com.br Corte IDH Caso “Instituto de Reeducação do Menor” vs. Paraguai Resumo do caso: o caso se refere à responsabilidade inter- nacional do Paraguai pela morte e lesões de menores inter- nados no Instituto de Reeducação do Menor “Coronel Pan- chito López”, o qual estava em um contexto: sem infraestru- tura adequada, superlotação, insalubridade, guardas insufi- cientes e incapacitados. Chegaram a ocorrer três incêndios no local, o que levou a morte de 9 garotos e lesões em ou- tros. Palavras-chave: direito à vida; direitos da criança; liber- dade pessoal; saúde Pontos importantes analisados pela Corte IDH: i) Posição especial de garante: a Corte IDH afirmou que o Estado se encontra numa posição especial de garante frente às pessoas privadas de liberdade. ii) Dependências separadas entre adultos e adolescentes privados de liberdade: a Corte IDH constatou que no caso também houve violação ao art. 5.5 da CADH. Art. 5. Direito à integridade pessoal (...) 5. Os menores, quando puderem ser processados, devem ser separados dos adultos e conduzidos a tribunal especializado, com a maior rapidez possível, para seu tratamento. iii) Aplicação das garantias processuais do art. 8º da CADH a crianças e adolescentes em conflito com a lei: o art. 8º da CADH não é exclusivo dos adultos, aplicando-se também a crianças e adolescente em conflito com a lei. iv) Direito à educação: o local não oferecia ensino (e nem havia professores), violando o direito à educação. O direito à educação não está previsto na CADH, mas sim no seu Proto- colo Adicional (Protocolo de São Salvador – art. 13). v) Excepcionalidade da privação de liberdade: somente como último recurso e pelo menor prazo possível (art. 13.1 – Regras de Beijing). 13.1. A prisão preventiva constitui uma medida de último recurso e a sua duração deve ser o mais curta possível. vi) Ameaça de tortura como tratamento desumano: a Corte IDH entendeu que a simples ameaça de uma conduta proi- bida pelo art. 5º da CADH, quando seja suficientemente real e iminente, pode, em si mesma, estar em conflito com a norma em questão. No caso concreto, não se comprovou a tortura ou maus-tratos, mas o clima de permanente ten- são/violência levou à conclusão. Sentença traduzida (CNJ): https://bit.ly/3CF8zcD. Mais sobre: https://bit.ly/3Xnab2U. Clique aqui para voltar ao SUMÁRIO https://bit.ly/3CF8zcD https://bit.ly/3Xnab2U