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Copyright © by Andreas Huyssen Catalogação na fonte Departamento Nacional do Livro H998s Huyssen, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia / Andreas Huyssen - Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000. 116p., 12x21cm. Monume 41 da do holocausto ISBN 85-86579-15-7 1. Memória - Aspectos sociais. 2. Memória (Filosofia). 3. Holocausto judeu (1939-1945). 4. Civilização moderna Séc. XX. 5. Alemanha Civilização - Séc. XX. Título. de Berlimg CDD 909.82 Capa Victor Burton Projeto gráfico e Editoração eletrônica Adriana Moreno Coordenação editorial Lucia Lambert Assistente editorial Ana Carolina Kapp Revisão Andréia do Espírito Santo Apoio CNPq ed 2000 ed 2004 Direitos reservados Aeroplano Editora e Consultoria Ltda. Av. Ataulfo de Paiva, 658 s/402 Leblon - Rio de Janeiro - RJ 22440-030 Telefax: (21) 2239-7399 aeroplano@aeroplanoeditora.com.brOs ensaios reunidos neste livro apontam surpreendente nasci- mento de uma cultura e de uma política da memória e sua expan- são global a partir da queda do Muro de Berlim, do fim das ditadu- ras latino-americanas e do "apar- theid" na África do Sul. Observando as transformações de Berlim, Huyssen explora as cons- truções de cenários urbanos, es- paços virtuais e OS novos senti- dos da memória histórica. Juntos, estes ensaios sugerem que ima- ginário urbano e as memórias trau- máticas têm um papel-chave na atual transformação na nossa ex- periência de espaço e tempo e nos conduzem muito além do le- gado da modernidade e do colo- nialismo.Chiesto Duchamp Josef Passados presentes: mídia, política, amnésia 1 Um dos fenômenos culturais e políticos mais surpreen- dentes dos anos recentes é a emergência da memória como uma das preocupações culturais e políticas centrais das so- ciedades ocidentais. Esse fenômeno caracteriza uma volta ao passado que contrasta totalmente com o privilégio da- do ao futuro, que tanto caracterizou as primeiras décadas da modernidade do século XX. Desde mitos apocalípti- cos de ruptura radical do começo do século XX e a emer- gência do "homem novo" na Europa, através das fantasma- gorias assassinas de purificação racial ou de classe, no Na- cional Socialismo e no stalinismo, ao paradigma de moder- nização norte-americano, a cultura modernista foi energi- zada por aquilo que poderia ser chamado de "futuros pre- No entanto, a partir da década de 1980 o foco pare- ce ter-se deslocado dos futuros presentes para OS passados pre- sentes; este deslocamento na experiência e na sensibilidade do tempo precisa ser explicado histórica e Mas o foco contemporâneo na memória e na tempora- lidade também contrasta totalmente com muitos outros trabalhos inovadores sobre categorias de espaço, mapas, geo- grafias, fronteiras, rotas de comércio, migrações, desloca- mentos e diásporas, no contexto dos estudos culturais e pós-coloniais. De fato, não faz muito tempo havia nos Es- tados Unidos um amplo consenso de que para entender a cultura pós-moderna o foco devia ser deslocado da pro-Andreas 10 Huyssen Seduzidos pela Memória Seduzidos pela Memória Andreas Huyssen 11 blemática do tempo e da memória, vinculada à forma an- nados, então, primeiramente pelo debate cada vez mais terior do alto modernismo, para uma outra na qual o espa- amplo sobre o Holocausto (iniciado com a série de TV uma peça-chave do momento pós-moderno³. Mas, como "Holocausto" e, um pouco mais adiante, com o movimen- tem mostrado o trabalho de geógrafos como David Har- to testemunhal bem como por toda uma série de eventos vey⁴, a própria separação entre tempo e espaço representa relacionados à história do Terceiro Reich (fortemente poli- um grande risco para o entendimento completo das cultu- tizada e cobrindo quadragésimos e aniver- ras moderna e pós-moderna. Tempo e espaço, como cate- sários): a ascensão de Hitler ao poder em 1933 e a infame gorias fundamentalmente contingentes de percepção his- queima de livros, relembrada em 1983; a Kristallnacht, o toricamente enraizadas, estão sempre intimamente ligadas pogrom organizado em 1938 contra os judeus alemães, obje- entre si de maneiras complexas, e a intensidade dos desbor- to de uma manifestação pública em 1988; a conferência de dantes discursos de memória, que caracteriza grande parte Wannsee, de 1942, que iniciou a "Solução Final", relem- da cultura contemporânea em diversas partes do mundo de brada em 1992 com a abertura de um museu na vila de hoje, prova o argumento. De fato, questões de temporali- Wansee onde a conferência tinha sido realizada; a invasão dades diferentes e modernidades em estágios distintos da Normandia em 1944, relembrada com um grande espe- emergiram como peças-chaves para um novo entendimen- táculo realizado pelos aliados, mas sem qualquer presença rus- to rigoroso dos processos de globalização a longo prazo que sa, em 1994; o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, procurem ser algo mais do que apenas uma atualização dos relembrada em 1985 com um emocionado discurso do paradigmas ocidentais de modernização⁵. presidente da Alemanha e, de novo, em 1995 com uma sé- Discursos de memória de um novo tipo emergiram pela rie de eventos internacionais na Europa e no Japão. Estes primeira vez no ocidente depois na década de 1960, no eventos a maioria deles "efemérides às quais se rastro da descolonização e dos novos movimentos so- pode acrescentar a querela dos historiadores em 1986, a ciais em sua busca por histórias alternativas e revisionistas. queda do muro de Berlim em 1989 e a unificação nacional A procura por outras tradições e pela tradição dos "outros" da Alemanha em receberam intensa cobertura da foi acompanhada por múltiplas declarações de fim: o fim da mídia internacional, remexendo as codificações da história história, a morte do sujeito, o fim da obra de arte, o fim nacional posteriores à Segunda Guerra Mundial da história das Tais declarações eram freqüentemente nacional na França, na Áustria, na Itália, no Japão e até nos entendidas literalmente, mas, no seu impulso polêmico e Estados Unidos e, mais recentemente, na Suíça. o Holocaust na replicação do ethos do vanguardismo, elas apontam di- Memorial Museum em Washington, planejado durante a retamente para a presente recodificação do passado, que se década de 1980 e inaugurado em 1993, estimulou o deba- iniciou depois do modernismo. te sobre a americanização do Mas as resso- Os discursos de memória aceleraram-se na Europa e nos nâncias da memória do Holocausto não pararam aí, levan- Estados Unidos no começo da década de 1980, impulsio- do a que, no final da década de 1990, sejamos obrigados aAndreas 12 Huyssen 13 Seduzidos pela Memória Seduzidos pela Memória perguntar: em que medida pode-se, agora, falar de uma mo uma prova da incapacidade da civilização ocidental de globalização do discurso do Holocausto? praticar a anamnese, de refletir sobre sua inabilidade cons- É evidente que a recorrência de políticas genocidas em titutiva para viver em paz com diferenças e de Ruanda, na Bósnia e em Kossovo, em uma década consi- tirar as conseqüências das relações insidiosas entre a moder- derada pós-histórica (1990), tem mantido vivo o discurso nidade iluminista, a opressão racial e a violência organiza- da memória do Holocausto, contaminando-o e estenden- Por outro lado, esta dimensão mais totalizante do dis- do-o para antes de seu ponto de referência original. É real- curso do Holocausto, tão dominante em boa parte do pen- mente interessante notar como, no caso dos massacres or- samento pós-moderno, é acompanhada por uma dimensão ganizados em Ruanda e na Bósnia, no início da década de que ela particulariza e localiza. É precisamente a emer- 1990, as comparações com o Holocausto foram, inicialmen- gência do Holocausto como uma figura de linguagem uni- te, fortemente rejeitadas pelos políticos, pela mídia e por versal que permite à memória do Holocausto começar a grande parte do público, não por causa das inquestionáveis entender situações locais específicas, historicamente dis- referências históricas, mas sobretudo devido a um desejo tantes e politicamente distintas do evento original. No mo- de resistir à Por outro lado, a intervenção "hu- vimento transnacional dos discursos de memória, o Holo- manitária" da OTAN em Kossovo e a sua legitimação têm causto perde sua qualidade de índice do evento histórico sido largamente dependentes da memória do Holocausto. específico e começa a funcionar como uma metáfora para Fluxos de refugiados através das fronteiras, mulheres e crian- outras histórias e memórias. Holocausto, como lugar- ças jogadas em trens para deportação, relatos de atrocida- comum universal, é o pré-requisito para seu descentramen- des, estupros sistemáticos e destruições brutais, tudo isto to e seu uso como um poderoso prisma através do qual po- mobilizou uma política de culpa na Europa e nos Estados demos olhar outros exemplos de genocídio. global e o Unidos associada à não-intervenção nas décadas de 1930 e local da memória do Holocausto têm entrado em novas 1940 e ao fracasso da intervenção na guerra da Bósnia em constelações que pedem para ser analisadas caso a caso. As- 1992. A guerra em Kossovo confirma, portanto, o crescen- sim como pode energizar retoricamente alguns discursos te poder da cultura da memória no final da década de 1990, de memória traumática, a comparação com o Holocausto mas ela também levanta questões difíceis sobre uso do também pode servir como uma falsa memória ou simples- Holocausto como um lugar-comum universal para trau- mente bloquear a percepção de histórias específicas. mas históricos. Em se tratando de passados presentes, no entanto, a A globalização da memória funciona também em dois memória do Holocausto e seu lugar na reavaliação da mo- outros sentidos relacionados, que ilustram o que eu cha- dernidade ocidental não contam toda a história. Há tam- maria de paradoxo da globalização. Por um lado, o Holo- bém muitas tramas secundárias, que constroem a me- causto se transformou numa cifra para o século XX como um mória narrativa atual no seu escopo mais amplo, dis- todo e para a falência do projeto iluminista. Ele serve co- tinguindo de forma bastante clara nosso tempo das pri-Andreas 14 Huyssen 15 Seduzidos Seduzidos pela Memória meiras décadas deste século. Permitam-me apenas listar mórias de uma modernidade que deu errado ou se ele arti- uns poucos fenômenos mais destacados. Desde a década de cula as próprias ansiedades da metrópole sobre o futuro des- 1970, pode-se observar, na Europa e nos Estados Unidos, a locado para o passado. Não há dúvida de que o mundo es- restauração historicizante de velhos centros urbanos, cida- tá sendo musealizado e que todos nós representamos os nos- des-museus e paisagens inteiras, empreendimentos patri- sos papéis neste processo, É como se o objetivo fosse con- moniais e heranças nacionais, a onda da nova arquitetura de seguir a recordação total. Trata-se então da fantasia de um museus (que não mostra sinais de esgotamento), o boom arquivista maluco? Ou há, talvez, algo mais para ser dis- das modas retrô e dos utensílios reprô, a comercialização cutido neste desejo de puxar todos esses vários passados para a em massa da nostalgia, a obsessiva automusealização atra- presente? Algo que seja, de fato, específico à estruturação vés da câmera de vídeo, a literatura memorialística e con- da memória e da temporalidade de hoje e que não tenha si- fessional, o crescimento dos romances autobiográficos e his- do experimentado do mesmo modo nas épocas passadas. tóricos pós-modernos (com as suas difíceis negociações Freqüentemente tais obsessões com a memória e com o entre fato e ficção), a difusão das práticas memorialísticas nas passado são explicadas em função do fin de siècle, mas eu pen- artes visuais, geralmente usando a fotografia como suporte, so que é preciso ir mais fundo para dar conta daquilo que e o aumento do número de documentários na televisão, in- se pode chamar agora de uma cultura da memória, na me- cluindo, nos Estados Unidos, um canal totalmente voltado dida em que se disseminou nas sociedades do Atlântico- para história: o History Channel No lado traumático da cul- Norte a partir dos últimos anos da década de 1970. que tura da memória, e junto ao cada vez mais onipresente dis- aí aparece, agora, em grande parte como uma comerciali- curso do Holocausto, temos a vasta literatura psicanalítica zação crescentemente bem-sucedida da memória pela in- sobre trauma; a controvérsia sobre a síndrome da me- dústria cultural do ocidente, no contexto daquilo que a so- mória recuperada; os trabalhos de história ou sobre temas ciologia alemã chamou de assume uma atuais relacionados a genocídio, aids, escravidão, abuso se- inflexão política mais explícita em outras partes do mun- xual; as cada vez mais numerosas controvérsias públicas so- do. Especialmente desde 1989, as questões sobre memória bre efemérides politicamente dolorosas, comemorações e e o esquecimento têm emergido como preocupações domi- memoriais; a mais recente pletora de pedidos de desculpas nantes nos países pós-comunistas do leste europeu e da an- pelo passado, feitos por líderes religiosos e políticos da Fran- tiga União Soviética; elas permanecem como peças-chaves ça, do Japão e dos Estados Unidos; e, finalmente, trazendo na política no Oriente Médio; dominam o discurso públi- juntos entretenimento memorialístico e o trauma, temos CO na África do Sul pós-apartheid com a sua Truth and Re- a obsessão mundial com o naufrágio de um navio a vapor, conciliation Commission ("Comissão de Verdade e Recon- supostamente não-naufragável, que marcou o fim de uma ciliação") e são também onipresentes em Ruanda e na Ni- outra época dourada. De fato, não se pode ter certeza se o géria; energizam o debate racial que explodiu na Austrália sucesso internacional do Titanic é uma metáfora de me- em torno da questão da stolen generation ("geração rouba-Andreas 16 Huyssen 17 Seduzidos pela Seduzidos pela Memória da"); pesam sobre as relações entre Japão, China e Coréia rar a legitimidade e o futuro das suas políticas emergentes, e determinam, em grau variado, o debate cultural e políti- buscando maneiras de comemorar e avaliar os erros do pas- CO em torno dos presos políticos desaparecidos e seus filhos sado. Quaisquer que possam ser as diferenças entre a Ale- nos países latino-americanos, levantando questões funda- manha do pós-guerra e a África do Sul, a Argentina ou mentais sobre violação de direitos humanos, justiça e res- Chile, o lugar das práticas de memória é ainda na- ponsabilidade coletiva. cional e não pós-nacional ou global. Isto traz implicações A disseminação geográfica da cultura da memória é tão para trabalho interpretativo. Embora o Holocausto, como ampla quanto é variado o uso político da memória, indo lugar-comum universal da história traumática, tenha mi- desde a mobilização de passados míticos para apoiar expli- grado para outros contextos não relacionados, deve-se sem- citamente políticas chauvinistas ou fundamentalistas (por pre perguntar se e como ele reforça ou limita as práticas de exemplo: a Sérvia pós-comunista e o o populismo hindu memória e as lutas locais, ou se e como ele pode executar na Índia) até as tentativas que estão sendo realizadas, na Ar- ambas funções ao mesmo tempo. É claro que os debates gentina e no Chile, para criar esferas públicas de memória sobre a memória nacional estão sempre imbricados com os "real" contra as políticas do esquecimento, promovidas pe- efeitos da mídia global e seu foco em temas tais como ge- los regimes pós-ditatoriais, seja através de reconciliações nocídio e limpeza étnica, migração e direitos das minorias, nacionais e anistias oficiais, seja através do silêncio repres- vitimização e responsabilização. Quaisquer que possam ser Mas ao mesmo tempo, é claro, nem sempre é fácil as diferenças e especificidades locais das causas, elas suge- traçar uma linha de separação entre passado mítico e pas- rem que a globalização e a forte reavaliação do respectivo sado real, um dos nós de qualquer política de memória em passado nacional, regional ou local deverão ser pensados qualquer lugar. real pode ser mitologizado tanto quanto juntos. Isto, por seu turno, faz perguntar se as culturas de o mítico pode engendrar fortes efeitos de realidade. Em memória contemporâneas em geral podem ser lidas como suma, a memória se tornou uma obsessão cultural de pro- formações reativas à globalização da economia. Este é um porções monumentais em todos os pontos do planeta. terreno no qual se poderia tentar alguns novos trabalhos Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que embo- comparativos sobre mecanismos e lugares-comuns de trau- ra os discursos de memória possam parecer, de certo mo- mas históricos e práticas de memória nacional. do, um fenômeno global, no seu núcleo eles permanecem ligados às histórias de nações e estados específicos. Na me- 2 dida em que as nações lutam para criar políticas democrá- ticas no rastro de histórias de extermínios em massa, apar- Se a consciência temporal da alta modernidade no oci- theids, ditaduras militares e totalitarismo, elas se defrontam, dente procurou garantir o futuro, então pode-se argumen- como foi e ainda é o caso da Alemanha desde a Segunda tar que a consciência temporal do final do século XX Guerra Mundial, com a tarefa sem de assegu- envolve a não menos perigosa tarefa de assumir a responsa-Andreas 18 Huyssen Seduzidos Seduzidos pela Memória Andreas Huyssen 19 bilidade pelo passado. Inevitavelmente, ambas as tentativas Para onde quer que se olhe, a obsessão contemporânea são assombradas pelo fracasso. Portanto um segundo pon- pela memória nos debates públicos se choca com um inten- to deve ser tratado imediatamente. enfoque sobre a me- so pânico público frente ao esquecimento, e poder-se-ia mória e o passado traz consigo um grande paradoxo. Com perfeitamente perguntar qual dos dois vem em primeiro freqüência crescente, os críticos acusam a própria cultura lugar. É medo do esquecimento que dispara o desejo de da memória contemporânea de amnésia, apatia ou embo- lembrar ou é, talvez, contrário? É possível que o excesso tamento. Eles destacam sua incapacidade e falta de vonta- de memória nessa cultura saturada de mídia crie uma tal de de lembrar, lamentando a perda da consciência histórica. sobrecarga que o próprio sistema de memórias fique em A acusação de amnésia é feita invariavelmente através de perigo constante de implosão, disparando, portanto, o me- uma crítica à mídia, a despeito do fato de que é pre- do do esquecimento? Qualquer que seja a resposta para es- cisamente esta desde a imprensa e a televisão até os CD- tas questões, fica claro que velhas abordagens sociológicas Roms e a Internet que faz a memória ficar cada vez mais da memória coletiva tal como a de Maurice Halbwachs, disponível para nós a cada dia. Mas e se ambas as observa- que pressupõe formações de memórias sociais e de grupos ções forem verdadeiras, se o aumento explosivo de memó- relativamente estáveis não são adequadas para dar conta ria for inevitavelmente acompanhado de um aumento ex- da dinâmica atual da mídia e da temporalidade, da me- plosivo de esquecimento? E se as relações entre memória e mória, do tempo vivido e do esquecimento. As contrastan- esquecimento estiverem realmente sendo transformadas, tes e cada vez mais fragmentadas memórias de sob pressões nas quais as novas tecnologias da informação, grupos sociais e étnicos específicos permitem perguntar se as políticas midiáticas e o consumismo desenfreado estive- ainda é possível, nos dias de hoje, a existência de formas de rem começando a cobrar o seu preço? Afinal, e para co- memória consensual coletiva e, em caso negativo, se e de meçar, muitas das memórias comercializadas em massa que que forma a coesão social e cultural pode ser garantida sem consumimos são "memórias imaginadas" e, portanto, mui- ela. Está claro que a memória da mídia sozinha não será su- to mais facilmente esquecíveis do que as memórias vivi- ficiente, a despeito de a mídia ocupar sempre maiores por- das¹³. Mas Freud já nos ensinou que a memória e o es- ções da percepção social e política do mundo. quecimento estão indissolúvel e mutuamente ligados; que As próprias estruturas da memória pública midiatizada a memória é apenas uma outra forma de esquecimento e ajudam a compreender que, hoje, a nossa cultura secular, que o esquecimento é uma forma de memória escondida. obcecada com a memória, tal como ela é, está também de Mas o que Freud descreveu como os processos psíquicos da maneira tomada por um medo, um terror mesmo, recordação, recalque e esquecimento em um indivíduo vale do esquecimento. Este medo do esquecimento articula-se também para as sociedades de consumo contemporâneas paradigmaticamente em torno de questões do Holocausto, como um fenômeno público de proporções sem prece- na Europa e nos Estados Unidos, ou dos presos políticos dentes que pede para ser interpretado historicamente. desaparecidos na América Latina. Ambos, é claro, compar-Andreas 20 Huyssen 21 Seduzidos Memória Seduzidos pela Memória tilham a crucial ausência de um espaço fúnebre tão neces- de mídia como veículos para todas as formas de memória. sário para alimentar a memória humana, fato que ajuda a Portanto, não é mais possível, por exemplo, pensar no Ho- explicar a forte presença do Holocausto na Argentina. Mas locausto ou em outro trauma histórico como uma questão o medo do esquecimento do desaparecimento opera tam- ética e política séria, sem levar em conta os múltiplos mo- bém em uma outra escala. Quanto mais nos pedem para dos em que ele está agora ligado à mercadorização e à espe- lembrar, no rastro da explosão da informação e da comer- tacularização em filmes, museus, docudramas, sites na In- cialização da memória, mais nos sentimos no perigo do es- ternet, livros de fotografia, histórias em quadrinhos, ficção, quecimento e mais forte é a necessidade de esquecer. Um até contos de fadas (La vita é bella, de Benigni) e música ponto em questão é a distinção entre passados usáveis e da- popular. Mas mesmo se o Holocausto tem sido mercadori- dos disponíveis. A minha hipótese aqui é que nós tentamos zado interminavelmente, isto não significa que toda e qual- combater este medo e perigo do esquecimento com es- quer mercadorização inevitavelmente banalize-o como tratégias de sobrevivência de rememoração pública e priva- evento histórico. Não há nenhum espaço puro fora da cul- da. enfoque sobre a memória é energizado subliminar- tura da mercadoria, por mais que possamos desejar um tal mente pelo desejo de nos ancorar em um mundo caracteri- espaço. Depende muito, portanto, das estratégias específicas zado por uma crescente instabilidade do tempo e pelo fra- de representação e de mercadorização e do contexto no turamento do espaço vivido. Ao mesmo tempo, sabemos qual elas são representadas. Da mesma forma, a suposta- que tais estratégias de rememoração podem afinal ser, elas mente trivial Erlebnisgesellschaft dos estilos de vida comer- mesmas, transitórias e incompletas. Devo então voltar à cializados em massa, espetáculos e eventos fugazes tem uma questão: por quê? E especialmente: por que agora? Por que realidade vivida significativa, subjacente às suas manifesta- esta obsessão pela memória e pelo passado e por que este ções superficiais. Meu argumento aqui é o seguinte: pro- medo do esquecimento? Por que estamos construindo mu- blema não é resolvido pela simples oposição da memória seus como se não houvesse mais amanhã? E por que só séria à memória trivial, do modo como os historiadores al- agora o Holocausto passou a ser algo como uma cifra oni- gumas vezes opõem história e memória tout court, memó- presente para as nossas memórias do século XX, por cami- ria como uma coisa subjetiva e trivial, fora da qual o his- nhos inimagináveis vinte anos atrás? toriador constrói a realidade. Não podemos simplesmente 3 contrapor museu sério do Holocausto a um parque te- mático "Disneyficado". Porque isto iria apenas reproduzir a Quaisquer que tenham sido as causas sociais e políticas velha dicotomia alta/baixa da cultura modernista sob uma no- do crescimento explosivo da memória nas suas várias sub- va aparência, como ocorreu no debate caloroso que situou tramas, geografias e setorializações, uma coisa é certa: não filme Shoah, de Claude Lanzmann, como uma represen- podemos discutir memória pessoal, geracional ou pública tação adequada (isto é, uma não representação) da memó- sem considerar a enorme influência das novas tecnologias ria do Holocausto, por oposição à Lista de Schindler, de Spiel-Andreas 22 Huyssen 23 Seduzidos pela Seduzidos Memória berg, como uma trivialização comercial. Se forma. E aqui seguindo o surrado argumento de Mc- a distância constitutiva entre a realidade e a sua representa- Luhan de que o meio é a mensagem é bastante significati- ção em linguagem ou imagem, devemos, em princípio, estar vo que o poder da nossa eletrônica mais avançada depen- abertos para as muitas possibilidades diferentes de repre- da inteiramente de quantidades de memória: Bill Gates sentação do real e de suas memórias. Isto não quer dizer talvez seja a mais recente encarnação do velho ideal ameri- que vale tudo. A qualidade permanece como uma questão cano mais é melhor. Mas "mais" é medido agora em bites a ser decidida caso a caso. Mas a distância semiótica não de memória e no poder de reciclar o passado. Que o diga pode ser encurtada por uma e única representação correta. a divulgadíssima compra da maior coleção de originais fo- Tal argumento equivaleria a uma concepção modernista tográficos feita por Bill Gates: com a mudança da foto- do De fato, fenômenos como a Lista de Schin- grafia para a sua reciclagem digital, a arte de reprodução dler e o arquivo visual de Spielberg dos testemunhos de so- mecânica de Benjamin (fotografia) recuperou a aura da breviventes do Holocausto nos compelem a pensar a me- O que mostra que o famoso argumento de mória traumática e a memória visual como ocupando jun- Benjamin sobre a perda ou o declínio da aura na moder- tas o mesmo espaço público, em vez de vê-las como fenô- nidade era apenas uma parte da história; esqueceu-se que a menos mutuamente excludentes. Questões cruciais da cul- modernização, para começar, criou ela mesma a sua aura. tura contemporânea estão precisamente localizadas no limi- Hoje, é digitalização que à fotografia ar entre a memória dramática e a mídia comercial. É muito Afinal, como Benjamin também sabia, a própria indústria fácil argumentar que os eventos de entretenimento e os es- cultural da Alemanha de Weimar precisou lançar mão da petáculos das sociedades contemporâneas midiatizadas exis- como de tem apenas para proporcionar alívio ao corpo político e so- Então, permitam-me por um momento condescender cial angustiado por profundas memórias de atos de violên- com velho argumento sobre a velha indústria cultural, tal cia e genocídio perpetrados em seu nome, ou que eles são como Adorno o propôs contra a posição de Benjamim so- montados apenas para reprimir tais memórias. o trauma é bre a mídia tecnológica, por ele considerada excessivamente comercializado tanto quanto o divertimento e nem mesmo otimista. Se hoje a idéia de arquivo total leva triunfalis- para diferentes consumidores de memórias. É também mui- tas do ciberespaço a abraçar as fantasias globais à la Mc- to fácil sugerir que os espectros do passado que assombram Luhan, os interesses de lucro dos comerciantes de memória as sociedades modernas, com uma força nunca antes conhe- cida, articulam realmente, pela via do deslocamento, um *Nota do tradutor: para Benjamin, a fotografia é o primeiro meio de reprodução verdadeiramente revolucionário. Para mais detalhes, inclu- crescente medo do futuro, num tempo em que a crença no sive sobre a questão da aura, ver Walter Benjamin, Magia e técnica, arte progresso da modernidade está profundamente abalada. e São Paulo: Brasiliense, 1985, especialmente os ensaios Sabemos que a mídia não transporta a memória pública "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade "Pequena His- inocentemente; ela a condiciona na sua própria estrutura e tória da fotografia" e "Sobre conceito da História".Andreas 24 Huyssen 25 Seduzidos pela Seduzidos pela Memória de massa parecem ser mais pertinentes para explicar o su- presente da reciclagem a curto prazo, para o lucro, o pre- cesso da síndrome da memória. Trocando em miúdos: o pas- sente da produção na hora, do entretenimento instantâneo sado está vendendo mais do que o futuro. Mas por quanto e dos paliativos para a nossa sensação de ameaça e insegu- tempo, ninguém sabe. rança, imediatamente subjacente à superfície desta nova Tome-se a chamada de um falso anúncio colocado na In- era dourada, em mais um fin de siècle? Os computadores, ternet: Departamento de Retrô dos Estados Unidos Alerta: dizem, poderão não saber reconhecer a diferença entre o Poderá Haver uma Escassez de Passado." primeiro parágrafo ano 2000 e o ano 1900 mas nós sabemos? diz: "Numa entrevista coletiva na segunda-feira, o Secretário de Retrô, Anson Williams, emitiu um importante comunica- 4 do sobre uma iminente 'crise nacional de alertando que 'se níveis atuais do consumo retrô nos Estados Unidos con- Os críticos da amnésia do capitalismo tardio duvidam tinuarem fora de controle, as reservas de passado poderão ser que a cultura ocidental da mídia tenha deixado algo pare- exauridas já em 2005'. Mas não se preocupem. Nós já estamos cido com memória "real" ou com um forte sentido de his- comercializando passados que nunca existiram: a prova disso é tória. Partindo do argumento padrão de Adorno, segundo a recente introdução da linha de produtos Aerobleu, nostalgias o qual a mercadorização é o mesmo que esquecimento, eles dos anos 1940 e 50 inteligentemente organizadas em torno de argumentam que a comercialização de memórias gera ape- um fictício clube de jazz de Paris que nunca existiu, mas onde nas amnésia. Em última instância, não acho este argumen- teriam tocado todos grandes nomes do jazz da época do be- to convincente porque ele deixa muita coisa de fora. É bop, uma linha de produtos repleta de recordações originais, muito fácil atribuir o dilema em que vivemos a maqui- gravações originais em CD e peças originais, todas disponíveis nações da indústria da cultura e à proliferação da nova mí- nos Estados Unidos em qualquer filial da dia. Algo mais deve estar em causa, algo que produz o de- Os "remakes originais" estão na moda e, assim como os teóri- sejo de privilegiar o passado e que nos faz responder tão fa- culturais e os críticos, nós estamos obcecados com re-re- voravelmente aos mercados de memória: este algo, eu su- presentação, repetição, replicação e com a cultura da cópia, geriria, é uma lenta mas palpável transfomação da tempo- com ou sem original. ralidade nas nossas vidas, provocada pela complexa inter- Do jeito como as coisas estão acontecendo, parece plau- seção de mudança tecnológica, mídia de massa e novos sível perguntar: dado que o crescimento explosivo da me- padrões de consumo, trabalho e mobilidade global. Pode mória é história, como não resta dúvida de que será, terá haver, de fato, boas razões para pensar que a força da re- alguém realmente se lembrado de alguma coisa? Se todo o memoração tem igualmente uma dimensão mais benéfica passado pode acabar, não estamos apenas criando nossas e produtiva. No entanto, muito disso é o deslocamento de próprias ilusões de passado, na medida em que somos mar- um medo do futuro nas nossas preocupações com a me- cados por um presente que se encolhe cada vez mais o mória e, por mais dúbia que hoje nos pareça a afirmaçãoAndreas 26 Huyssen 27 Seduzidos de que somos capazes de aprender com a história, a cultura Aqui, gostaria de voltar a um argumento articulado pela da memória preenche uma função importante nas transfor- primeira vez por dois filósofos alemães conservadores, Her- mações atuais da experiência temporal, no rastro do im- mann Lübbe e Odo Marquard, no começo da década de pacto da nova mídia na percepção e na sensibilidade hu- 1980. Já então, assim como outros que estavam no meio manas. do debate em torno das promessas futuras do pós-moder- Daqui para a frente, então, gostaria de sugerir alguns ca- nismo, Hermann Lübbe descreveu aquilo que chamou de minhos para pensar a relação entre o privilégio que damos "musealização" como central para o deslocamento da sensi- à memória e ao passado, de um lado, e, de outro, im- bilidade temporal do nosso tempo¹⁶. Ele mostrou como a pacto potencial da nova mídia sobre a percepção e a tem- musealização já não era mais ligada à instituição do museu poralidade. Este é um tema complexo. Estender a dura no sentido estrito, mas tinha se infiltrado em todas as áreas Hermann crítica de Adorno à indústria cultural ao que, agora, se po- da vida cotidiana. diagnóstico de Lübbe assinalou o his- deria chamar de indústria da memória seria tão parcial e toricismo expansivo da nossa cultura contemporânea e insatisfatório quanto apoiar a crença de Benjamin no po- afirmou que nunca antes o presente tinha ficado tão obce- tencial emancipador da nova mídia. A crítica de Adorno é cado com o passado como agora. Lübbe argumentou que correta, no que se refere à comercialização em massa dos a modernização vem inevitavelmente acompanhada pela produtos culturais, mas não ajuda a explicar o crescimen- atrofia das tradições válidas, por uma perda de racionali- to da síndrome de memória dentro da indústria da cultura. dade e pela entropia das experiências de vida estáveis e du- Sua ênfase teórica nas categorias marxistas de valor de tro- radouras. A velocidade sempre crescente das inovações técni- ca e reificação acaba por bloquear questões de temporali- cas, científicas e culturais gera quantidades cada vez maio- dade e de memória e não dá a devida atenção às especifici- res de produtos que já nascem praticamente obsoletos, dades da mídia e da sua relação com as estruturas da per- contraindo objetivamente a expansão cronológica do que e cepção da vida cotidiana nas sociedades de consumo. Por pode ser considerado o (afiado qual gume) presente de outro lado, Benjamin está correto ao atribuir ao retrô uma uma dada época. dimensão que dá cognitividade à memória. Nas suas teses Superficialmente, este argumento parece bastante plau- "Sobre o conceito da ele a chama de um salto de sível. Lembra um incidente ocorrido poucos anos atrás, tigre em direção ao passado, mas quer alcançá-la através do quando fui comprar um computador numa loja de alta próprio meio de reprodutibilidade que, para ele, represen- tecnologia em Nova York. A compra se mostrou mais ta a promessa futurista e permite a mobilização política so- cil do que o previsto. Tudo o que estava exposto era inva- cialista. Em vez de colocar-nos ao lado de Benjamin con- riavelmente descrito pelos vendedores como já obsoleto, is- tra Adorno ou vice-versa, como ocorre comumente, o inte- to é, uma peça de museu, se comparado com a nova versão ressante seria utilizarmos produtivamente a tensão entre do produto, muito mais poderosa e cujo lançamento seria estes dois argumentos para uma análise do presente. iminente. Isto parecia dar novo significado à velha ética deAndreas 28 Huyssen 29 Seduzidos pela Memoria Seduzidos pela Memória postergar a gratificação. Como não me convenci, comprei sões insuportáveis na nossa "estrutura de co- um modelo lançado há dois anos que tinha mais do que eu mo a chamaria Raymond Williams. Na teoria de Lübbe, precisava e, além disso, estava sendo vendido pela metade o museu compensa esta perda de estabilidade. Ele oferece do preço. Comprei um "obsoleto" e, portanto, não fiquei formas tradicionais de identidade cultural a um sujeito surpreso ao ver recentemente o meu IBM Thinkpad 1995 moderno desestabilizado, mas a teoria não consegue re- exibido na seção de desenho industrial do Museu de Arte conhecer que estas tradições culturais têm sido, elas mes- Moderna de Nova York. tempo de permanência dos ob- mas, afetadas pela modernização, através da reciclagem jetos de consumo nas prateleiras tem obviamente encurta- digital mercadorizada. A musealização de Lübbe e os lu- do de uma maneira muito radical, e com ele a extensão do gares de memória de Nora compartilham verdadeira- presente que, no sentido de Lübbe, foi se contraindo si- mente a sensibilidade compensatória que reconhece uma multaneamente à expansão da memória do computador e perda de identidade nacional e comunitária, mas crê na dos discursos sobre a memória pública. nossa capacidade de compensá-la de algum jeito. Os lu- que Lübbe descreveu como musealização pode agora gares de memória (lieux de mémoire), em Nora, compen- ser facilmente mapeado com o crescimento fenomenal do sam a perda dos meios de memória (milieux de mémoire), discurso de memória dentro da própria historiografia. A do mesmo modo que, em Lübbe, a musealização com- pesquisa sobre memória histórica alcançou escopo interna- pensa a perda de tradições vividas. cional. A minha hipótese é que, também nesta proemi- Este argumento conservador sobre deslocamentos em nência da mnemo-história, precisa-se da memória e da sensibilidades temporais precisa ser retirado de seu marco autor do musealização, juntas, para construir uma proteção contra a de referência binário (lugar versus meio em Nora e en- obsolescência e o desaparecimento, para combater a nossa tropia do passado versus musealização compensatória em profunda ansiedade com a velocidade de mudança con- Lübbe) e empurrado para uma outra direção, que não es- tínuo encolhimento dos horizontes de tempo e de espaço. teja ligada a um discurso de perda e que aceite desloca- argumento de Lübbe sobre a contração da extensão mento fundamental nas estruturas do sentimento, expe- do presente aponta para um grande paradoxo: quanto riência e percepção, na medida em que elas caracterizam o mais o capitalismo de consumo avançado prevalece sobre nosso presente que se expande e contrai simultaneamente. o passado e o futuro, sugando-os num espaço sincrônico A crença conservadora de que a musealização cultural em expansão, mais fraca a sua autocoesão, menor a esta- pode proporcionar uma compensação pelas destruições da bilidade ou a identidade que proporciona aos assuntos modernização no mundo social é demasiadamente sim- contemporâneos. o cineasta e escritor Alexander Kluge já ples e ideológica. Ela não consegue reconhecer que qual- comentou o ataque do presente sobre o resto do tempo. quer senso seguro do próprio passado está sendo desesta- Há, simultaneamente, tanto excesso quanto escassez de bilizado pela nossa indústria cultural musealizante e pela presença, uma situação historicamente nova que cria ten- mídia, as quais funcionam como atores centrais no drama NoenAndreas 30 Huyssen 31 Seduzidos pula moral da memória. A própria musealização é sugada neste Com certeza, o fim do século XX não nos oferece aces- cada vez mais veloz redemoinho de imagens, espetáculos e so fácil ao lugar-comum da idade de ouro. As memórias do eventos e, portanto, está sempre em perigo de perder a sua século XX nos confrontam, não com uma vida melhor, capacidade de garantir a estabilidade cultural ao longo do mas com uma história única de genocídio e destruição em tempo. massa, a qual, a priori, barra qualquer tentativa de glori- 5 ficar passado. Depois das experiências da Primeira Guerra Mundial e da Grande Depressão, do stalinismo, do Têm-se repetido que, na medida em que nos aproxi- nazismo e do genocídio em escala sem precedentes, depois mamos do fim do século XX e, com ele, do fim do milê- das tentativas de descolonização e das histórias de atroci- nio, as coordenadas de espaço e de tempo estruturadoras dades e repressão, a nossa consciência foi afetada de tal das nossas vidas estão sendo crescentemente submetidas a modo que a visão da modernidade ocidental e suas pro- novos tipos de pressão. Espaço e tempo são categorias fun- messas escureceu consideravelmente dentro do próprio damentais da experiência e da percepção humana, mas, ocidente. Nem mesmo a atual idade dourada nos Estados longe de serem imutáveis, elas estão sempre sujeitas a mu- Unidos pode expurgar com facilidade as memórias dos danças históricas. Uma das lamentações permanentes da tremores que ameaçaram o mito de progresso permanente modernidade se refere à perda de um passado melhor, da a partir do final da década de 1960 e dos anos 1970. tes- memória de viver em um lugar seguramente circunscrito, temunho da ampliação crescente da distância entre ricos e com um senso de fronteiras estáveis e numa cultura cons- pobres, da permanente ameaça de colapso de economias truída localmente com seu fluxo regular de tempo e um regionais e nacionais inteiras e do retorno da guerra no núcleo de relações Talvez, tais dias tenham continente que gerou duas guerras mundiais neste século, sido sempre mais sonho do que realidade, uma fantasma- certamente trouxe consigo um aumento significativo de goria de perda gerada mais pela própria modernidade do 7 entropia na nossa percepção das possibilidades futuras. que pela sua pré-história. Mas, sonho tem o poder de Numa era de limpezas étnicas e crises de refugiados, mi- permanecer, e o que eu chamei de cultura da memória, po- grações em massa e mobilidade global para um número ca- de bem ser, pelo menos em parte, a sua encarnação con- da vez maior de pessoas, experiências de deslocamento, re- temporânea. A questão, no entanto, não é a perda de algu- locação, migração e diásporas parecem não mais a exceção ma idade de ouro de estabilidade e permanência. Trata-se e sim a regra. Mas tais fenômenos sozinhos não contam to- mais da tentativa, na medida em que encaramos próprio da a estória. Na medida em que as barreiras espaciais se en- processo real de compressão do espaço-tempo, de garantir fraquecem e o próprio espaço é globalizado por um tempo alguma continuidade dentro do tempo, para propiciar al- cada vez mais comprimido, um novo tipo de incômodo es- guma extensão do espaço vivido dentro do qual possamos tá se enraizando no coração das metrópoles. mal-estar- respirar e nos mover. da civilização metropolitana do final do século não maisAndreas 32 Huyssen 33 Seduzidos Memória Seduzidos pela Memória parece se originar primariamente de sentimentos generali- blica, sobre a democracia e o seu futuro e sobre a forma zados de culpa e recalque pelo superego, como observou mutante da nacionalidade, da cidadania e da identidade. Freud na sua análise sobre a modernidade ocidental clás- As respostas dependerão, em grande medida, das conste- sica e sobre o seu modo dominante de formação do sujeito. lações locais, mas a disseminação global dos discursos de Franz Kafka e Woody Allen pertencem a uma idade ante- memória indicam que algo mais está em jogo rior. Nosso mal-estar parece fluir de uma sobrecarga infor- Alguns têm-se voltado para a idéia do arquivo, como um macional e percepcional combinada com uma aceleração cul- contrapeso ao sempre crescente passo da mudança, um lugar tural, com as quais nem a nossa psique nem os nossos senti- de preservação espacial e temporal. Do ponto de vista do ar- dos estão bem equipados para lidar. Quanto mais rápido so- quivo, é claro, o esquecimento é a última das transgressões. mos empurrados para o futuro global que não nos inspira Mas quão confiáveis ou à prova de falhas são nossos ar- confiança, mais forte é o nosso desejo de ir mais devagar e quivos digitalizados? Os computadores têm pouco mais de mais nos voltamos para a memória em busca de conforto. cinqüenta anos de idade e, no entanto, já estamos precisando Mas que conforto pode-se ter com as memórias do século de "arqueólogos de dados" para desvendar os mistérios dos XX?! E quais são as alternativas? Que condições temos para primeiros programas: basta pensar no notório problema do negociar uma mudança rápida e um retorno ao que Georg bug do milênio, ameaçando as nossas burocracias computa- Simmel chamou de cultura objetiva, satisfazendo ao mesmo dorizadas. Bilhões de dólares estão sendo gastos para impedir tempo aquilo que considero como a necessidade fundamen- que as nossas redes computadorizadas funcionem de modo tal das sociedades modernas de viver em formas estendidas de retrô, trocando o ano 2000 por 1900. Ou considere as difi- temporalidade e para garantir um espaço, conquanto permeá- culdades quase insuperáveis que as autoridades alemãs estão vel, a partir do qual possamos falar e agir? Com certeza, não tendo para decodificar o vasto corpo de gravações eletrônicas há uma resposta simples para tal questão, mas, a memória da antiga República Democrática da Alemanha, um mundo individual, geracional, pública, cultural e, ainda inevitavel- que desapareceu junto com seus computadores de grande por- mente, a memória nacional certamente faz parte dela. Um te, de origem soviética, e seus sistemas administrativos. Re- dia, talvez, emergirá algo como uma memória global, na me- fletindo sobre este problema, um gerente sênior de tecnologia dida em que as diferentes partes do globo estão sendo levadas da informação dos arquivos canadenses teria dito recente- a se juntar cada vez mais estreitamente. Mas, qualquer que uma das maiores ironias da idade da informação. Se seja, uma tal memória global será sempre mais prismática e não encontrarmos métodos de preservação duradoura das heterogênea do que holística ou universal. gravações eletrônicas, esta poderá ser a era sem Neste meio tempo temos que perguntar: como poderiam De fato, a ameaça do esquecimento emerge da própria ser garantidas, estruturadas e representadas as memórias tecnologia à qual confiamos o vasto corpo de registros ele- locais, regionais e nacionais? É claro, esta é uma questão trônicos e dados, esta parte mais significativa da memória fundamentalmente política sobre a natureza da esfera pú- cultural do nosso tempo.Andreas 34 Huyssen 35 Seduzidos poin Soduzidos As transformações atuais do imaginário temporal trazi- tentando curar as feridas provocadas pelo passado, alimen- das pelo espaço e pelo tempo virtuais podem servir para tar e expandir o espaço habitável em vez de destruí-lo em destacar a dimensão das possibilidades da cultura da me- função de alguma promessa futura, garantindo o "tempo de mória. Quaisquer que sejam as suas causas específicas, mo- qualidade" estas parecem ser necessidades culturais ainda tivos ou contextos, as intensas práticas de memória que ve- não alcançadas num mundo globalizado, e as memórias lo- mos em tantas e distintas partes do mundo de hoje articu- cais estão intimamente ligadas às suas articulações. lam uma crise fundamental de uma estrutura de temporali- Mas, é claro, passado não pode nos dar que o futuro dade anterior, que marcou a época da alta modernidade, não conseguiu. De fato, não há como evitar o retorno aos com sua fé no progresso e no desenvolvimento, celebran- aspectos negativos daquilo que alguns chamariam de uma do o novo e o utópico, como o radical e irredutivelmente epidemia de memória. Isto me leva de volta a Nietzsche, outro, e uma fé inabalável em algum telos da história. Po- cuja segunda meditação extemporânea prematura sobre o liticamente, muitas práticas atuais de memória atuam con- uso e o abuso da história, constantemente citada nos deba- tra o triunfalismo da teoria da modernização, nesta sua úl- tes contemporâneos sobre a memória, talvez continue tão tima versão chamada "globalização". Culturalmente, elas extemporânea como sempre. Claramente, a febre de me- expressam a crescente necessidade de uma ancoragem es- mória das sociedades midiatizadas ocidentais não é uma fe- pacial e temporal em um mundo de fluxo crescente em re- bre de consumo histórico no sentido dado em Nietzsche, a des cada vez mais densas de espaço e tempos comprimidos. qual podia ser curada com o esquecimento produtivo. É Assim como a historiografia perdeu a sua antiga confiança mais uma febre mnemônica provocada pelo cibervírus da em narrativas teleológicas magistrais e tornou-se mais céti- amnésia que, de tempos em tempos, ameaça consumir a ca quanto ao uso de marcos de referência nacionais para o própria memória. Portanto, agora nós precisamos mais de desenvolvimento do seu conteúdo, as atuais culturas críti- rememoração produtiva do que de esquecimento produti- cas de memória, com sua ênfase nos direitos humanos, em vo. Em retrospectiva, podemos ver agora como a febre his- questões de minorias e gêneros e na reavaliação dos vários tórica da época de Nietzsche funcionou para inventar tra- passados nacionais e internacionais, percorrem um longo dições nacionais na Europa com vistas à legitimização dos caminho para proporcionar um impulso favorável que estados-nações imperiais e para dar coerência cultural a so- ajude a escrever a história de um modo novo e, portanto, ciedades conflitantes no turbilhão da revolução industrial para garantir um futuro de memória. No cenário mais fa- e da expansão colonial. Em comparação, as convulsões vorável, as culturas de memória estão intimamente ligadas, mnemônicas da cultura do norte do Atlântico de hoje em muitas partes do mundo, a processos de democratiza- parecem em grande parte caóticas e fragmentárias, à deri- ção e lutas por direitos humanos e à expansão e fortaleci- va através das nossas telas. Mesmo em lugares onde as prá- mento das esferas públicas da sociedade civil. Desacelerar ticas de memória têm um foco político muito claro, tais em vez de acelerar, expandir a natureza do debate público, como a África do Sul, a Argentina, o Chile e, mais recen-Andreas 36 Huyssen 37 Seduzidos Seduzidos pela Memória temente, a Guatemala, elas são igualmente afetadas em as memórias necessárias para construir futuros locais dife- certo grau pela cobertura da mídia internacional e suas ob- renciados num mundo global. Não há nenhuma dúvida de sessões de memória. Como sugeri anteriormente, assegurar que a longo prazo todas estas memórias serão modeladas o passado não é uma tarefa menos arriscada do que asse- em grande medida pelas tecnologias digitais e pelos seus gurar o futuro. Afinal de contas, a memória não pode ser efeitos, mas elas não serão redutíveis a eles. Insistir numa um substituto da justiça e a própria justiça será inevitavel- separação radical entre memória "real" e virtual choca-me mente envolvida pela falta de credibilidade da memória. tanto quanto um quixotismo, quando menos porque qual- Mas mesmo onde as práticas de memória cultural não têm quer coisa recordada pela memória vivida ou imaginada um foco explicitamente político, elas expressam o fato de é virtual por sua própria natureza. A memória é sempre que a sociedade precisa de ancoragem temporal, numa transitória, notoriamente não confiável e passível de es- época em que, no despertar da revolução da informação e quecimento; em suma, ela é humana e social. Dado que a numa sempre crescente compressão do espaço-tempo, a re- memória pública está sujeita a mudanças políticas, gera- lação entre passado, presente e futuro está sendo transfor- cionais e individuais -, ela não pode ser armazenada para mada para além do reconhecimento. sempre, nem protegida em monumentos; tampouco, neste Neste sentido, práticas de memória nacionais e locais particular, podemos nos fiar em sistemas de rastreamento contestam os mitos do cibercapitalismo e da globalização digital para garantir coerência e continuidade. Se senti- com sua negação de tempo, espaço e lugar. Sem dúvida, do de tempo vivido está sendo renegociado nas nossas cul- desta negociação emergirá finalmente alguma nova confi- turas de memória contemporâneas, não devemos esquecer guração de tempo e espaço. As novas tecnologias de trans- de que o tempo não é apenas o passado, sua preservação e porte e comunicação sempre transformaram a percepção transmissão. Se nós estamos, de fato, sofrendo de um ex- humana na modernidade. Foi assim com a ferrovia e o cesso de memória¹⁸, devemos fazer um esforço para distin- telefone, com o rádio e o avião, e o mesmo será verdade guir passados usáveis dos passados dispensáveis. Precisa- também quanto ao ciberespaço e o cibertempo. As novas mos de discriminação e rememoração produtiva e, ademais, tecnologias e as novas mídias também sempre vêm acom- a cultura de massa e a mídia virtual não são necessaria- panhadas de ansiedades e medo, quais, mais tarde, se mente incompatíveis com este objetivo. Mesmo que a am- mostrarão injustificados ou até mesmo ridículos. A nossa nésia seja um subproduto do ciberespaço, precisamos não época não será exceção. permitir que medo e o esquecimento nos dominem. Aí Ao mesmo tempo, o ciberespaço sozinho não é o mode- então, talvez, seja hora de lembrar o futuro, em vez de ape- lo apropriado para imaginar o futuro global esta noção nas nos preocuparmos com o futuro da memória. de memória é sem sentido, uma falsa promessa. A me- mória vivida é ativa, viva, incorporada no social isto é, em indivíduos, famílias, grupos, nações e regiões. Estas sãoAndreas 38 Huyssen 39 Seduzidos Memória Seduzidos Memória Notas 9. Naturalmente, o uso da memória do Holocausto como um prisma para os acontecimentos em Ruanda é altamente problemático, uma vez que ele não pode dar conta dos problemas específicos relacionados com 1 título deste ensaio e a noção de "futuros presentes" se devem à obra a política de memória pós-colonial. Mas isto nunca foi levado em con- seminal de Reinhart Koselleck, Futures Past ("Futuros passados", Bos- ta pela mídia ocidental. Sobre políticas de memória nas várias partes da ton: MIT Press, 1985). África, cf. Richard Werbner, Memory and the Postcolony: African 2. Naturalmente, uma noção enfática de "futuros presentes" ainda Anthropology and the Critique of the Power ("A memória e a pós-colônia: opera no imaginário neoliberal da globalização financeira e eletrônica, a antropologia africana e a crítica do poder", Londres e Nova York: Zed uma versão do antigo e praticamente desacreditado paradigma da mo- Books, 1998). dernização, atualizado para mundo pós-guerra fria. 10. Esta visão foi articulada pela primeira vez por Horkheimer e 3 Paradigmaticamente no ensaio clássico de Frederic Jameson, "Post- Adorno em sua Dialectic of Enlightenment ("Dialética do esclarecimen- modernism or the Cultural Logic of Late Capitalism" ("Pós-modernis- to"); nos anos 1980, foi novamente usada e reformulada por Lyotard e mo ou a lógica cultural do capitalismo tardio"), New Left Review 146 outros. Sobre a questão da centralidade do Holocausto na obra de (julho-agosto de 1984): 53-92. Horkheimer e Adorno, ver Anson Rabinbach, In the Shadow of Ca- 4 David Harvey, The Condition of Postmodernity, ("A condição da pós- tastrophe: German Intellectuals Between Apocalypse and Enlightenment modernidade", Oxford: Basil Blackwell, 1989). sombra da catástrofe: intelectuais alemães entre o Apocalipse e o es- 5. Ver Arjun Appadurai, Modernity at Large: Cultural Dimensions of clarecimento", Berkeley: University of California Press, 1997). Globalization ("Modernidade em geral: dimensões culturais da globali- 11. Gerhard Schulze, Die Erlebnisgesellschaft: Kultursoziologie der Gegen- zação", Minneapolis e Londres: University of Minnesota Press, 1998), wart ("A Erlebnisgesellschaft. sociologia cultural da contemporaneidade", especialmente o capítulo 4, e mais recentemente o número especial Al- Frankfurt e Nova York: Campus, 1992). termo Erlebnisgesellschaft, lite- ter/Native Modernities ("Modernidades Alter/Nativas") de Public Cul- ralmente "sociedade da é de difícil tradução. Refere-se a uma ture 27 (1999). sociedade que privilegia experiências intensas, mas superficiais, orientadas 6. Sobre a complexa mistura de futuros presentes e passados presentes, para alegrias instantâneas no presente e rápido consumo de bens, even- ver Andreas Huyssen, "The Search for Tradition" ("A busca da tradi- tos culturais e estilos de vida associados ao consumo de massa. o traba- ção") e "Mapping the Postmodern" ("Mapeando o pós-moderno") em lho de Schulze é um estudo sociológico empírico sobre a sociedade alemã After the Great Divide: Modernism, Mass Culture, Postmodernism ("De- contemporânea que evita tanto os parâmetros restritivos do paradigma de pois do grande divisor: modernismo, cultura de massa, pós-modernis- classe de Bourdieu quanto a oposição de inflexão filosófica entre Erlebnis mo", Bloomington: Indiana UP, 1986), 160-178, 179-221.7. Ver Char- e Erfahrung na obra de Benjamin, como oposição entre uma experiência les S. Maier, The Unmasterable Past ("O passado indomável", Cam- superficial e uma experiência genuinamente profunda. bridge: Harvard University Press, 1988; a New German Critique 44 (pri- 12. Sobre o Chile, ver Nelly Richard, Residuos y metaforas: ensayos de mavera-verão de 1988), número especial sobre Historikerstreit (a "que- cultural sobre el Chile de la transición ("Resíduos e metáforas: en- rela dos historiadores"), e a New German Critique 58 (inverno de 1991), saios/de crítica cultural sobre o Chile da transição" (Santiago do Chile: número especial sobre a unificação alemã. Editorial Cuarto Propio, 1998); sobre a Argentina, ver Rita Arditti, 8. Ver Anson Rabinach, "From Explosion to Erosion: Holocaust Me- Searching for Life: The Grandmothers of the Plaza de Mayo and the diss- morialization in America since Bitburg" ("Da explosão à erosão: a re- appeared Children of Argentina procura de vida: as mães da Plaza de memoração do Holocausto nos Estados Unidos desde Bitburg"), Histo- Mayo e os filhos desaparecidos da Argentina", Berkeley, Los Angeles e ry and Memory 9: 1/2 (outono de 1997): 226-255. Londres: University of California Press, 1999).Andreas 40 Huyssen Seduzidos pela Memória Andreas Huyssen 41 13. Meu uso da noção de "memória imaginada" tem origem na discus- são de Arjun Appadurai sobre "nostalgia imaginada" em seu livro Mo- dernity at Large, 77f. A noção é problemática, na medida em que toda memória é imaginada e, mesmo assim, ela nos permite distinguir me- Sedução mórias relacionadas às experiências vividas de memórias pilhadas nos monumental arquivos e comercializadas em massa para consumo rápido. 14. Sobre estas questões, ver Miriam Hansen, "Schindler's List is not The Second Commandment, Popular Modernism, and Public Memory" ("A Lista de Schindler não é Shoah. Segundo Mandamento, Qualquer discussão sobre monumentalidade e moderni- modernismo popular e a memória pública"), Critical Inquiry 22 (in- dade inevitavelmente traz à mente a obra de Richard Wag- verno de 1996): 292-312. E também o meu artigo "Of Mice and Mi- ner, a estética do Gesamtkunstwerk, o artista monu- mesis: Reading Spiegelman with Adorno" ("De ratos e mímesis: lendo Spiegelman com Adorno"), a ser publicado na New German Critique. mental, a história do Festival de Bayreuth. Mas a noção de 15. Dennis Cass, "Sacrebleu! The Jazz Era is up for Sale: Gift Mer- monumentalidade que Wagner representa deve ser situada chandisers Take Licence with History" ("Sacrilégio! A era do jazz entra em seu contexto histórico, estético e nacional concreto, no em vendedores de presentes tomam liberdades com a histó- século XIX, e conforme seus efeitos políticos e culturais, ria"), Harper's Magazine (dezembro de 1997): 70-71. que viriam a dominar a nossa compreensão mais genérica 16. Hermann Lübbe, Zeit-Verhältnisse: Zur Kulturphilosophie des Fort- schritts ("A sensibilidade temporal: para uma filosofia cultural do pro- do monumental. Meu propósito é apresentar algumas re- gresso" Viena e Colônia: Verlag Styria, 1983). Para uma crítica flexões sobre a própria categoria de monumental, que, a mais detalhada do modelo de Lübbe, ver o meu "Escape from Amnesia: meu ver, vem sendo recodificada no contexto contemporâ- The Museum as Mass Medium" ("Escapando da amnésia: o museu co- neo de uma cultura memorialística voraz e em contínua mo cultura de massa", in Twilight Memories: Marking Time in a Culture expansão. Minha preocupação central, portanto, é a ques- of Amnesia ("Memórias crepusculares: marcando tempo numa cultura tão do monumental em relação à memória a memória da Londres e Nova York: Routledge, 1995), 13-36. geracional, a memória na cultura pública, a memória na- 17. Citado pelo New York Times de 12 de fevereiro de 1998. 18. o termo é de Charles S. Maier; seu ensaio "A Surfeit of cional, a memória feita em pedra na arquitetura -, e o con- Memory? Refletions on History, Melancholy, and Denial" ("Um exces- texto contemporâneo específico do qual tratarei é a Alema- so de memória? Reflexões sobre história, melancolia e negação"), nha depois da unificação. History and Memory, 5 (1992): 136-151. Enquanto alemães têm se esforçado, ante a acusação de esquecerem ou recalcarem seu passado histórico por dé- desde 1945, alguns críticos fazem agora a objeção inversa: a inflação da memória. De fato, desde os anos 1980 a Alemanha se engajou numa mania de memória de proporções verdadeiramente monumentais. Estão em an- damento em toda a Alemanha, hoje, algumas centenas de

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