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Natalia Quintino Dias Zika e Chikungunya As arboviroses são doenças causadas por vírus, sendo transmitidas por vetores artrópode. A maioria dos casos é benigno e autolimitado, porém as complicações potencialmente graves vêm sendo descritas (a chikungunya, pela possibilidade de quadro articular crônico, e a zika, pelos casos de microcefalia associados). O aspecto mais importante no controle dessas doenças é o combate aos vetores Aedes aegypti e Aedes albopictus, os mesmos envolvidos na transmissão da dengue e da febre amarela urbana. Ainda não há vacina disponível e nem antiviral específico para essas doenças. Chikungunya É causada pelo vírus chikungunya (CHIKV), da família Togaviridae e do gênero Alphavirus. Essa característica faz com que não haja reação cruzada com os testes diagnósticos de dengue e zika. O nome chikungunya vem de uma palavra em Makonde, língua falada por um grupo que vive no sudeste da Tanzânia e norte de Moçambique. Significa “aqueles que se dobram”, descrevendo a aparência encurvada de pessoas que sofrem com a artralgia característica. Transmissão - Vetorial; - Congênita, geralmente no intraparto em pacientes com alta viremia. A taxa de transmissão, nesse período, pode chegar a aproximadamente 50%, e cerca de 90% podem evoluir para formas graves. Não há evidências de que a cesariana altere o risco de transmissão. O vírus não é transmitido pelo aleitamento materno. Não há descrição de malformações associadas. - Casos transfusionais podem ocorrer, mas são raros, caso sejam seguidos os protocolos transfusionais. Epidemiologia O CHIKV foi isolado, inicialmente, na Tanzânia, por volta de 1952. Desde então, há relatos de surtos em vários países do mundo. Nas Américas, em outubro de 2013, teve início uma grande epidemia de chikungunya em diversas ilhas do Caribe. Em comunidades afetadas recentemente, a característica marcante são epidemias com elevadas taxas de ataque, que variam de 38% a 63%. No Brasil, a transmissão autóctone foi confirmada no segundo semestre de 2014, primeiramente nos estados do Amapá e da Bahia. Atualmente, o único estado do país sem registro de casos autóctones é o Rio Grande do Sul. A doença é mais grave em pacientes com comorbidades e nos extremos de idade. Quadro clínico A maior parte dos indivíduos infectados pelo CHIKV desenvolve sintomas; alguns estudos mostram que até 70% apresentam infecção sintomática. Período de incubação: 3 a 7 dias. O período de viremia no ser humano pode durar até 10 dias e começar até 2 dias antes do aparecimento de sintomas. A maioria dos indivíduos infectados desenvolve a doença. A doença pode evoluir em 3 fases: aguda, subaguda e crônica. Após o período de incubação, inicia-se a fase aguda ou febril, que dura até o 14º dia. Alguns pacientes evoluem com persistência das dores articulares após a fase aguda, caracterizando o início da fase subaguda, com duração de até 3 meses. Natalia Quintino Dias Fase aguda ou febril É caracterizada principalmente por febre de início súbito e surgimento de intensa poliartralgia, quase sempre acompanhada de dores nas costas, rash cutâneo (presente em mais de 50% dos casos) cefaleia e fadiga, com duração média de 7 dias. A poliartralgia normalmente é poliarticular, bilateral e simétrica, mas pode haver assimetria. Acomete grandes e pequenas articulações e abrange, com maior frequência, as regiões mais distais. Pode haver edema, e este, quando presente, normalmente está associado à tenossinovite. Na fase aguda também tem sido observada dor ligamentar. A mialgia, quando presente, é, em geral, de intensidade leve a moderada. Fase subaguda A febre normalmente desaparece, podendo haver persistência ou agravamento da artralgia (10 dias a 3 meses), incluindo poliartrite distal, exacerbação da dor articular nas regiões previamente acometidas na primeira fase e tenossinovite hipertrófica subaguda em mãos, mais frequentemente em falanges, punhos e tornozelos. Síndrome do túnel do carpo pode ocorrer como consequência da tenossinovite hipertrófica (sendo muito constante nas fases subaguda e crônica). O comprometimento articular costuma ser acompanhado por edema de intensidade variável. Há relatos de recorrência da febre. Fase crônica Quando a duração dos sintomas persiste além dos 3 meses, atinge a fase crônica. Nesta fase, algumas manifestações clínicas podem variar de acordo com o sexo e a idade. Exantema, vômitos, sangramento e úlceras orais parecem estar mais associados ao sexo feminino. Dor articular, edema e maior duração da febre são mais prevalentes quanto maior a idade do paciente. O sintoma mais comum nesta fase crônica é o acometimento articular persistente ou recidivante nas mesmas articulações atingidas durante a fase aguda, caracterizado por dor com ou sem edema, limitação de movimento, deformidade e ausência de eritema. Normalmente, o acometimento é poliarticular e simétrico, mas pode ser assimétrico e monoarticular. Também há relatos de dores nas regiões sacroilíaca, lombossacra e cervical. Ocasionalmente, articulações incomuns, como temporomandibulares (dor à movimentação mandibular) e esternoclaviculares, são acometidas. Em frequência razoável, são vistas manifestações decorrentes da síndrome do túnel do carpo, tais como dormência e formigamento das áreas inervadas pelo nervo mediano. Alguns pacientes poderão evoluir com artropatia destrutiva semelhante à artrite psoriática ou à reumatoide. Alguns trabalhos descrevem que essa fase pode durar até 3 anos, outros descrevem casos com até 6 anos de duração. Manejo e seguimento Na fase aguda de chikungunya, grande parte dos casos pode ser acompanhada ambulatorialmente. Não há necessidade de acompanhamento na maioria dos enfermos, devendo estes ser orientados a retornar ao PS em caso de persistência da febre por mais de 5 dias e aparecimento de sinais de gravidade dos danos articulares. Os pacientes de grupo de risco (gestantes, pacientes com comorbidades, idosos e menores de 2 anos de idade) também devem ser acompanhados ambulatoriamente, devido ao risco de desenvolvimento das formas graves da doença. Sinais de gravidade (podem surgir nas fases agudas e subaguda): ● Acometimento neurológico. ● Dor torácica, palpitações e arritmias (taquicardia, bradicardia ou outras arritmias). ● Dispneia. ● Redução de diurese ou elevação abrupta de ureia e creatinina. ● Sinais de choque, instabilidade hemodinâmica; ● Vômitos persistentes. ● Sangramento de mucosas e descompensação de doença de base. Os pacientes que apresentam sinais de gravidade ou critérios de internação (neonatos) devem ser acompanhados em unidades com leitos de internação. As formas graves da infecção pelo CHIKV acometem, com maior frequência, pacientes com comorbidades (história de convulsão febril, diabetes, asma, insuficiência cardíaca, alcoolismo, Natalia Quintino Dias doenças reumatológicas, anemia falciforme, talassemia e hipertensão arterial sistêmica), crianças, pacientes com idade acima de 65 anos, e aqueles que estão em uso de alguns fármacos (aspirina, anti-inflamatórios e paracetamol em altas doses). As manifestações atípicas e os cofatores estão associados ao maior risco de evolução para óbito. O acometimento articular na Chikungunya pode causar importante incapacidade física, impactando de forma significativa na qualidade de vida dos pacientes. O tratamento da dor envolve todas as fases da doença, devendo ser efetivo desde os primeiros dias de sintomas. Os principais fatores de risco para a cronificação são: idadeacima de 45 anos, significativamente maior no sexo feminino, desordem articular preexistente e maior intensidade das lesões articulares na fase aguda. Complicações Alguns casos podem evoluir com complicações neurológicas, com descrição de casos – especialmente na Ásia – de mielorradiculopatias, episódios de miocardite e hepatite causadas pelo vírus. No entanto, a principal complicação da doença é a articular, com caráter deformador, semelhante à artrite reumatoide. Na fase crônica, observam-se 3 grupos de pacientes: Natalia Quintino Dias 1) aqueles que têm manifestações dolorosas mínimas, demonstrando estar o quadro clínico em franca regressão; 2) aqueles cujo quadro clínico se mantém inalterado, em que os sinais e sintomas persistem praticamente na mesma intensidade da fase subaguda; e 3) um grupo menor de doentes, nos quais se observa o aumento da intensidade das manifestações inflamatórias e dolorosas. Para os 2 últimos grupos, o diagnóstico laboratorial para comprovação da infecção pelo CHIKV deve ser solicitado, o que será realizado por meio da sorologia (não repetir o exame, se já realizado). Diagnóstico As alterações laboratoriais de chikungunya, durante a fase aguda, são inespecíficas. - Leucopenia com linfopenia menor que 1.000 células/mm3 é a observação mais frequente. - A trombocitopenia inferior a 100.000 células/mm3 é rara. - VHS e a PCR encontram-se geralmente elevados, podendo permanecer assim por algumas semanas. - Outras alterações podem ser detectadas, como elevação discreta das enzimas hepáticas, da creatinina e da creatinofosfoquinase (CPK). PCR-RNA e de cultura do vírus: do período de incubação até o fim da viremia, porém são formas caras, do ponto de vista de saúde pública. Diagnóstico sorológico (pesquisa de IgM e IgG): entre o 5º e 7º dias, já pode ser feito, mas, esse diagnóstico confirmatório é tardio. Sorologia pareada: 2 amostras devem ser coletadas, a primeira na fase aguda da doença e a segunda aproximadamente 15 dias após a primeira. O aumento de 4 vezes no título dos anticorpos demonstra a reatividade específica. Tratamento Não há tratamento antiviral disponível, então o tratamento é apenas com sintomáticos, hidratação e suporte clínico. Pacientes com instabilidade hemodinâmica Necessário avaliar as funções renal, hepática e cardíaca, os sinais e os sintomas neurológicos, a hemoconcentração e a trombocitopenia e, se necessário, iniciar, de imediato, a terapia de reposição de volume e tratar as complicações, conforme o quadro clínico. Para alta desses pacientes, é necessária a melhora do estado geral, aceitação de hidratação oral, ausência de sinais de gravidade e melhora dos parâmetros laboratoriais. Fase crônica O tratamento das complicações articulares é semelhante ao de algumas doenças reumatológicas, com o uso de analgésicos, anti- inflamatórios não esteroidais, corticoide, hidroxicloroquina, metotrexato e sulfassalazina. Zika É causada pelo vírus Zika, um vírus RNA da família Flaviviridae, a mesma do vírus da dengue e da hepatite C. Desde 2014, casos de circulação do vírus Zika foram detectados no continente americano. No Brasil, casos de doença exantemática têm sido reportados desde o final de 2014 e, no começo do ano de 2015, pacientes da cidade de Natal, estado de Rio Grande do Norte, apresentaram sintomas compatíveis com a febre da dengue. Houve grande número de casos, sendo o país responsável por grande número de publicações relacionadas. Transmissão - Vetorial (principal), pelos mosquitos do gênero Aedes, de forma semelhante à dengue e à chikungunya. - Congênita, responsável pelo aumento do número de casos de microcefalia no Brasil. - Sexual; - Transfusional. Epidemiologia Em 2019, consoante dados do Ministério da Saúde, foram notificados 10.715 casos prováveis (taxa de incidência de 5,1 casos por 100 mil habitantes) de infecções pelo vírus Zika no país. A região Nordeste apresentou a maior taxa de incidência (8,8 casos/100 mil habitantes), seguida das regiões Centro-Oeste (taxa de incidência de 5,8 casos/100 mil habitantes), Norte (taxa de incidência de 5,3 casos/100 mil habitantes), Sudeste (taxa de incidência de 4,1 casos/100 mil habitantes) e Sul (taxa de incidência de 0,4 caso/100 mil habitantes). É uma doença de notificação compulsória, assim como a dengue e a chikungunya -> importante problema de saúde pública para o país. Natalia Quintino Dias Quadro clínico Período de incubação: cerca de 10 dias no mosquito, e 3-6 dias no homem. Os hospedeiros vertebrados do vírus incluem macacos e seres humanos. O quadro clínico é semelhante ao de outras arboviroses, entretanto chama atenção o fato de a febre ser baixa – diferentemente da febre da dengue e da chikungunya – e, na maior parte dos casos (>80%), ser acompanhada de hiperemia conjuntival, ademais de exantema (que pode ou não ser pruriginoso), que, ao contrário das outras arboviroses, pode ser intenso. Assim, há grande semelhança clínica com essas doenças. Com menos frequência, há dor retro-orbital, anorexia, vômitos, diarreia e dor abdominal, aftas. Astenia (perda ou diminuição da força física) pós- infecção é frequente. Os sintomas desaparecem em até 7 dias. A dor articular pode estar presente até 1 mês antes do início da doença; a artralgia não é tão intensa como a que ocorre em chikungunya e não apresenta a mesma cronicidade característica desta. Em alguns pacientes, pode ocorrer hematoespermia. Quando se falar de mialgia e dor retro-orbitária, pensar em dengue; quando forem mencionadas fortes dores articulares – ou mesmo artrite –, pensar em chikungunya; quando se falar de hiperemia conjuntival e exantema, pensar em Zika. Diagnóstico O diagnóstico definitivo de Zika é dado por exames sorológicos. Como o vírus zika é da mesma família do vírus da dengue e da febre amarela, existe a possibilidade de cruzamento sorológico, podendo dificultar o diagnóstico. Até o 7º dia de infecção, o PCR para Zika fecha o diagnóstico, pois ele é específico para o vírus. Após esse período, o diagnóstico pode ser feito com sorologia IgM e IgG – sabendo-se que pode haver cruzamento sorológico. Complicações Esse vírus possui “neurotropismo”, o que pode levar a uma série de complicações graves, sendo as mais comuns: a) Síndrome de Guillain-Barré, uma doença desmielinizante que cursa com dor e fraqueza muscular progressiva, além de perdas motoras e paralisia flácida; e b) microcefalia, que é uma má-formação do sistema nervoso central devido ao ataque do vírus a células ainda em fase de migração e diferenciação, de modo que a criança se apresenta com redução do perímetro cefálico, além de comprometimento neuropsicomotor significativo. O Ministério da Saúde, em consonância com a OMS, considera 32 cm (percentil de 2,6 para meninos e 5,6 para meninas) a medida padrão mínima para o PC do Recém-Nascido (RN). A microcefalia é causada por vírus de maneira geral, como citomegalovírus, a partir da transmissão Natalia Quintino Dias transplacentária. Dessa forma, o vírus atinge o SNC do feto e desacelera o crescimento neuronal, provocando alterações no crescimento ósseo e, consequentemente, redução do perímetro cefálico. Além da microcefalia, os exames de imagem mostram algumas características em comum: microcalcificações periventriculares e corticais, hipoplasia de vernix cerebelar e, em alguns casos, lisencefalia, compatível com padrão de infecções congênitas. Com a confirmação do surto de Zika no Nordeste do Brasil, a partir de abril de 2015, foi percebido aumento de casos neurológicos na Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Ocorreramdescrições de casos confirmados de encefalomielite disseminada aguda (Adem), neurite óptica, encefalites e meningite com PCR positivo para vírus Zika em LCR nessas situações. Tratamento O tratamento é baseado no uso de acetaminofeno (paracetamol) ou dipirona para o controle da febre e o manejo da dor. No caso de erupções pruriginosas, os anti- histamínicos podem ser considerados. Contudo, é desaconselhável o uso ou a indicação de ácido acetilsalicílico e outras drogas anti- inflamatórias devido ao risco aumentado de complicações hemorrágicas, descritas nas infecções por síndrome hemorrágica, como ocorre com outros flavivírus (embora com frequência bem menor que em outras arboviroses). Existe uma vacina em fase III e algumas drogas em estudo, mesmo assim, ainda não foram aprovadas para uso clínico.