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Estudo de caso
Duração: 23 sessões
Frequência: 2 vezes por semana
Idade: 29
Sexo: masculino
ATENÇÃO: o caso que irei apresentar terá os dados alterados para preservar a identidade do paciente. As informações apresentadas a seguir, estão organizadas na sequência de acontecimentos, mas eu trarei apenas as partes mais “importantes”. Primeiro, por questões didáticas e segundo porque seria impossível lembrar de todos os detalhes.
Não foram todas as sessões que tiveram informações importantes para nosso estudo, por isso, aqui não constará todas as sessões.
Sessão 1: foi realizado o preenchimento da ficha de anamnese junto ao paciente, onde ele trouxe sua queixa principal.
Analista: qual foi o motivo que o levou a buscar um psicanalista?
Paciente: minha esposa rompeu nosso relacionamento e eu não estou sabendo lidar, parece que tudo está sem sentido.
Analista: pode me explicar melhor o que é esse sem sentido?
Paciente: eu não gosto de acordar porque eu vivo sentindo uma angustia, parece que tem algo preso dentro do meu peito, eu só fico melhor quando estou dormindo, mas não consigo dormir cedo e acordo muito cedo, já sentindo essa angústia, uma tristeza sem tamanho.
Analista: devo imaginar que você acha que nunca mais terá uma vida igual antes, certo?
Paciente: parece que nunca vai passar, a minha vida aqui se resume ao medo de nunca mais ter uma vida digna.
Analista: o que seria uma vida indigna?
Paciente: uma vida angustiada, sem perspectiva.
Analista: como era sua vida antes dela?
Paciente: trabalhava, estudava e tinha meus finais de semana que eu adorava.
Analista: e o que te faz pensar que você não pode ter uma vida semelhante? O
que te faz pensar que você nunca mais irá se relacionar com outra pessoa que você goste? O que te faz pensar que você é incapaz de ter uma vida após o término? Você está passando por um período de luto que é algo absolutamente normal, principalmente, se tratando de um relacionamento de 5 anos,. Porém, o que mais me preocupa não é o que você está sendo no momento, e sim, a sua crença de que isso não vai passar. Isso não é uma verdade, hoje parece que não vai passar, mas passa, você ficou muitos anos nesse relacionamento e por isso sua mente se adaptou a esse estilo de vida. Da mesma forma que você se adaptou a esse estilo de vida, também ira se adaptar a um novo estilo, pois nossa mente tem uma capacidade incrível de adaptação e a sua não é diferente.
Paciente: mas porque parece que não vou me acostumar?
Analista: no estado de luto é comum fazermos julgamentos da realidade baseados naquilo que estamos sentindo, a lógica não faz muito sentido nesses momentos, mas posso lhe assegurar que esse estado emocional é passageiro.
Sessão 2: na sessão 2, já havia identificado que se tratava de uma neurose secundaria. Paciente fazia boas associações, estabilidade emocional, e apresentava uma psicopatologia pontual, uma dependência emocional. Tomei a ficha para contextualizar as informações. O foco da sessão era solucionar esse sofrimento causado pelo fim do relacionamento. Logo, o foco foi manter a produção de elaborações baseadas na queixa principal. Avaliei todos as características do paciente e ele se adapta ao método. Elabora bem, suporta bem o diálogo, lida bem com a realidade, não é impulsivo, tem uma demanda especifica e é neurótico. Na ficha, ele havia dito que era alguém que se sentida inferior e que a ex-esposa o fazia se sentir importante, então, peguei essa parte e relacionei com o que ele estava vivendo no momento para começar a observar os padrões. Sempre que ele falava das lembranças dos dois juntos, ele apresenta isso de braços abertos espaçados sob a mesa, mas quando fala da dor do término, colocava as mãos sob os joelhos e apertava. Vamos continuar a busca por padrões.
Analista: como está se sentindo hoje?
Paciente: como se eu tivesse perdido um parente.
Analista: como se um parente tivesse morrido?
Paciente: sim, uma sensação de vazio.
Analista: quero que se vire de frente para mim e coloque as duas mãos sob a mesa e me fale o que é esse vazio?
OBS: nesse momento, começo a pedir que ele altere seus padrões de comportamento, pois já havia percebido que esse gesto da mão no joelho faz parte de forma direta ao sintoma.
Paciente: sinto um desejo que isso não tivesse acontecido. Desejo acordar de manhã e ver que tudo não passou de um sonho. Desejo tomar banho para que a água leve junto essa tristeza sem fim.
Analista: o que sua ex-esposa representa para você?
Paciente: não sei bem, eu apenas sinto como se ela fosse parte de mim, não sei explicar o que ela representa.
Analista: você disse na ficha que que seu professor era uma pessoa admirável e que você se sentia parte dele. Qual a relação entre ele a sua ex-esposa?
Paciente: não tem relação.
OBS: ele havia dito que seu professor o encorajava que fazia com que ele se
sentisse confiante. Começo a observar que ele tem uma tendência a se relacionar com pessoas que o tornem legítimas para as suas fantasias de superioridade.
Analista: sua ex o faz sentir como se fosse parte de alguma coisa?
Paciente: sim, mas se eles me “aceitasse” do jeito que sou.
OBS: ao falar da esposa ele fala “eles”, no plural, e aceitasse no singular, esse é um clássico ato falho onde ele não estava falando da esposa em si, mas buscando aceitação de outras pessoas. Agora quem são essas pessoas? Ele havia dito que sua relação com sua família era maravilhosa.
Analista: você falou muito sobre as qualidades da sua família, mas e os defeitos?
Paciente: difícil encontrar defeitos, sempre foram muito cuidadosos comigo.
OBS: a palavra cuidadosos sempre vinha acompanhada de um sopro, como se estivesse forçando, então, o estimulei a dizer a palavra novamente.
Analista: igual sua esposa era?
Paciente: não tinha pensado nisso.
Analista: como eram esses cuidados?
Pacientes: às vezes era como se eu fosse um prisioneiro, não me deixavam fazer muitas coisas com medo que eu me machucasse ou ficasse triste.
Analista: então me diz qual a diferença entre cuidado e aprisionamento?
Paciente: cuidado é zelar pelo bem do outro, prisão é manter alguém sob controle.
Analista: quero que você pense se o que você sentia por sua ex-esposa era cuidado ou você queria mantê-la sob seu controle.
Sessão 3: ele apresentava repetições de comportamento sobre o que sua família tinha em relação a ele. A primeira hipótese é que sua esposa representava aquilo que ficou faltando por parte de seus familiares. Como se ela sustentasse sua fantasia de superioridade que era um sentimento contrário ao que ele acreditava que sua família tinha em relação a ele.
Analista: cuidado ou controle?
Paciente: controle. Eu pensando percebi que eu queria ter o domínio sob ela e talvez essa seja uma das razões pelo fim do casamento.
Analista: que tipo de controle?
Paciente: às vezes, eu pedia a opinião dela sobre algo que eu tinha feito e se ela dissesse que não gostou, eu ficava triste, bravo. Com o passar do tempo ela passou a agir de maneira a nunca me magoar, sempre escolhendo palavras.
Analista: você entende que isso pode ter sido muito cansativo para ela?
Paciente: sim, mas agora não tem como voltar atrás, né?
Analista: quem te reprimia mais em sua família?
Paciente: não sei o que é repressão, mas tudo o que eu ia fazer eles diziam: não faça isso, não brinque disso, não fale isso, não assista isso. Me recordo disso desde os 7 anos de idade e não foi apenas um que dizia, foram todos. Desde os meus pais até os meus irmãos.
Analista: ser bom em algo depende da aprovação de alguém? Você pode ser bom, mesmo se alguém disser que não é?
Paciente: Sim. O fato não depende de opinião.
Analista: eu concordo plenamente! Você disse ser bom em administração e de fato é, isso independe se o seu professor acha que é ou não, isso independe se sua família acha ou não. Esse fato não depende da aprovação nem mesmo de sua ex-esposa.
Paciente: mas porque dizer isso? Meu professor e minha ex-esposa sempre me deram força.
Analista: até aqui você viveu dependendo da aprovação de pessoas para não sofrer com a repressão da suafamília. Você meio que foi programado para pensar no fracasso sobre si mesmo, mas a vida real exige que façamos coisas para sobreviver, como trabalhar e você vivia pressionado nesse meio. Você nunca teve dependência emocional com sua esposa, ela segundo você era parte sua, porque representava parte do seu sintoma de se autoafirmar.
Sessão 4:
Analista: hoje você não colocara as mãos sobre os joelhos e nem falará sobre
cuidados, hoje vamos falar sobre o seu futuro, o futuro do X. sem mãos no joelho. Me fale o que você gostaria de alcançar?
Paciente: ótimo! Gostaria de pensar em minha pós-graduação.
Analista: você não pensa?
Paciente: penso e agora estou me sentindo mais animado.
Analista: fatos dependem de opinião?
Paciente: não!
Analista: você tinha uma vida antes dela, vai continuar tendo depois dela. Sua
profissão, suas vontades, seu futuro. Isso é você e não o que pensam de
você.
Sessão 5:
Analista: como está se sentindo hoje?
Paciente: um pouco melhor, ainda sinto falta, mas não estou angustiado. Até quando ainda precisarei fazer análise?
Analista: creio que não muito, mas vamos fazer assim, vamos diminuir a frequência para uma vez na semana. O que acha?
Paciente: ótimo! Terei mais tempo para me dedicar a pós.
Final: 
Após o paciente repetir o gesto da mão no joelho por diversas vezes em todas as sessões, ao falar da sua ex-esposa. Ao forçá-lo a falar sobre cuidado, ele sempre se referia à família e á ex-cônjuge. Comecei a vincular a lógica significante, a estrutura da cadeia significante dele, então, por diversas vezes em outras sessões, eu pedi que ele falasse com as mãos sob a mesa, essa foi uma forma de intervenção. Isso o ajudou a gerar a alteração na estrutura lógica dos sintomas. Também fiz intervenção quando pedia para ele dizer ou associar uma coisa com outra coisa. Também usei perguntas para gerarem elaboração. Após a sessão descrita acima, fizemos mais algumas sessões com a frequência de uma vez por semana e em seguida uma vez a cada 15 dias. Após isso, encerramos o processo e ele já não apresentava mais aquele estado de luto.

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