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PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE 1 
RESENHA BIBLOGRÁFICA 3 
GUSTAVO DOS SANTOS LIMA – 241038924 
 
Constitui-se, na elaboração das observações aqui delimitadas, o ponto fecundo, 
porém tenso, acerca da problemática do tabu do incesto e o diálogo psíquico-antropológico 
entre Freud e Lévi-Strauss. A partir das aproximações e embates entre as duas concepções 
acerca da interdição do incesto, logra-se a compreensão acerca do ponto comum entre os dois 
autores: a concepção de que o tabu do incesto marca a passagem da natureza para a cultura. 
Em Freud, observa-se uma lucidez ao compreender a instauração de uma instância 
psíquica com valor de interdição e veto ao desejo incestuoso a um indivíduo embebido da 
inconsciência desses processos, ou melhor, dessa estrutura. É justamente no caráter 
inconsciente que se assentam essas estruturas sociais, ou melhor, no aspecto de 
reprodutibilidade inconsciente presente no homem (o que é melhor explicitado no estudo do 
aparato fonêmico em A análise estrutural em linguística e antropologia (1958)) que 
interessará fundamentalmente à démarche levistraussiana. 
Neste sentido, é claro em Freud a função da interdição do incesto como um 
recalcamento de impulsos e desejos a partir de um parricídio primal que representa a estrutura 
edípica do grupo, ou seja, o totem emerge a partir da morte do agente castrador paterno, onde, 
num passado filogenético, a este era destinada a posse exclusiva de mulheres. Após o 
parricídio, portanto, o remorso cai sobre os parricidas, onde o desejo edípico se torna culpado. 
O evento posterior ao parricídio é melhor analisado por Freud a partir da seguinte 
compreensão: 
O que até então fora interdito por sua existência real foi doravante proibido pelos 
próprios filhos, de acordo com o procedimento psicológico que nos é tão familiar na 
psicanálise, sob o nome de ‘obediência adiada’. Anularam o próprio ato proibindo a 
morte do totem, o substituto do pai; e renunciaram aos seus frutos abrindo mão da 
reivindicação às mulheres que agora tinham sido liberadas. Criaram assim, do 
sentimento de culpa filial, os dois tabus fundamentais do totemismo, que por essa 
própria razão, corresponderam inevitavelmente aos dois desejos reprimidos do 
complexo de Édipo (FREUD, 1996, pg 151). 
 
Lévi-Strauss, por outro lado, responde à interdição do incesto a partir das dinâmicas 
estruturais responsivas de um grupo frente a uma lei, que fundamentam e regulam os 
desdobramentos lógicos de reprodução do grupo. Tais desdobramentos lógicos residem no 
funcionamento das instituições sociais do grupo, este que se rege a partir do princípio de 
reciprocidade que organiza a troca de mulheres a partir da estrutura de parentesco. Ou seja, ao 
tabu do incesto encontra-se resposta na necessidade de trocas exogâmicas de mulheres entre 
grupos, o que se faz necessário para a reprodução desses grupos; neste sentido, “[...] proibição 
do incesto tem logicamente em primeiro lugar por finalidade ‘imobilizar’ as mulheres no seio 
da família, a fim de que a divisão delas, ou a competição em torno delas, seja feita no grupo e 
sob o controle do grupo, e não em regime privado” (Lévi-Strauss, 1976, p. 85). 
Seguindo esse percurso, impõe-se observar que, no horizonte levistraussiano, a 
interdição do incesto não se limita a uma função negativa ou repressiva, mas instaura, de 
maneira positiva, um princípio articulador das relações sociais — princípio que opera como 
eixo normativo e como matriz de inteligibilidade para o sistema de parentesco. Ou seja, a 
proibição não apenas impede determinadas uniões, mas sobretudo obriga à constituição de 
vínculos exteriores; força o grupo a deslocar-se para fora de si, convocando-o a instituir 
alianças reguladas pela troca. Essa compulsoriedade estrutural evidencia que a passagem do 
natural ao cultural não é um salto contingente, mas a entrada em um campo de regras gerais 
que antecedem a experiência empírica e organizam o espaço das possíveis relações. 
Ademais, ao considerar o totemismo freudiano e sua derivação do parricídio 
primordial, percebe-se que Freud e Lévi-Strauss, embora utilizando estratégias 
epistemológicas distintas, convergem no reconhecimento de uma ruptura inaugural que 
institui a lei. Freud o faz ao postular a morte do pai como acontecimento psíquico-filogenético 
e ao localizar no remorso o motor da regra; Lévi-Strauss o faz ao identificar, na 
obrigatoriedade da troca, a irrupção de um sistema simbólico que regula e distribui posições 
diferenciais no grupo. Em ambos, a interdição assume o estatuto de fundamento: é o gesto que 
delimita e estabiliza as relações, sendo simultaneamente repressão (em Freud) e condição 
formal de comunicação (em Lévi-Strauss). 
Nesse sentido, torna-se evidente que, se em Freud a dinâmica edípica explicita a 
estrutura universal do desejo e seu recalcamento, em Lévi-Strauss a mesma universalidade 
manifesta-se sob a forma de um sistema lógico que prescinde de qualquer acontecimento 
histórico real. É justamente nessa zona de cruzamento que se situa o diálogo entre os dois 
autores: apesar de partirem de pressupostos distintos — a pulsão e o mito psíquico, em Freud; 
a lógica estrutural e a reciprocidade, em Lévi-Strauss —, ambos reconhecem que a 
humanidade só se constitui quando o desejo é submetido a uma regra que o ultrapassa, o 
organiza e o molda. 
Assim, conclui-se que a convergência entre Freud e Lévi-Strauss reside na 
universalidade da proibição do incesto, tomada por ambos como o marco inaugural da cultura. 
Seja como resultado de um ato parricida que funda o superego e instaura a renúncia edípica, 
seja como efeito estrutural da necessidade de instaurar redes de trocas exogâmicas, a 
interdição aparece como o primeiro gesto verdadeiramente cultural — o momento em que o 
homem é arrancado do registro natural e introduzido na ordem simbólica das normas, das 
alianças e das obrigações. Em suma, o que une os dois autores é o reconhecimento de que a 
cultura nasce quando o incesto é proibido, e é nesse interdito que se funda, simultaneamente, 
a lei e a ordem. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
REFERÊNCIAS 
 
FREUD, S. (1913). Totem e Tabu. Rio de Janeiro: Edição Standard Brasileira das Obras 
Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Imago, 1996. 
 
LÉVI-STRAUSS, Claude. A análise estrutural em linguística e antropologia. In. 
Antropologia Estrutural. São Paulo: Cosac Naify. 2008 [1958]. 
 
LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis: Vozes, 
2009 [1949].

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