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VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
 
 
 
 
 
 
 
CURSO ANUAL DE FILOSOFIA 
Prof. Márcio Michiles 
ESCOLAS FILOSOFICAS GREGAS 
 
INTRODUÇÃO 
São várias as ciências que tem o homem como objeto de estudo, 
desde a antropologia, estudo direto, ou a história, geografia, 
biologia, psicologia e a Filosofia e a Sociologia, não é a toa que 
áreas de estudo reservam tanto tempo para o estudo 
multifacetado do homem, somos um incrível animal sem 
qualidades especiais que deu certo e dominou as relações sobre 
a terra. Sem entrarmos no confronto direto entre a visão 
evolucionista e a criacionista, vamos aceitar apenas que o homem 
evolui, e o faz a cada segundo de sua existência. Como diria 
Heráclito “Ninguém desce duas vezes o mesmo rio”. 
Trabalhar o diferencial do homem, sua evolução através do 
trabalho, o manual de sua sobrevivência que lhe deu condição de 
dinamizar o cérebro e coloca-lo a frente das demais espécies 
tornou-se uma obseção, não digo apenas entender o 
funcionamento do cérebro mas sua dialética perene entre a razão 
e a emoção. 
O Homem passa a se entender como ser grupal a partir dos 
bandos e da formação das primeiras aldeias, vivia-se um período 
historicamente chamado de Pré-História, passagem do paleolítico 
para o Neolítico, e ali estava o homem frágil diante de uma 
realidade adversa da sobrevivência. 
 
 
No filme a Era do Gelo I, a saga mostra a tentativa de uma 
Preguiça, um Mamute e um Tigre Dente de Sabre, em devolver 
um bebê humano a seu bando, é bem identificado a fragilidade do 
Bebê e os cuidados do “falso bando de animais” em defender o 
pequeno humano, em um determinado momento esta fragilidade 
é abordada e dito que um dia ele dominaria o mundo. Os animais 
demonstram no filme, razão e sentimentos aflorados e inteligência 
para mudar ações e o próprio ambiente, que são vistas como 
propriedades humanas. Nesta dinamização do cérebro o homem 
formou aldeias e montou civilização, construindo e garantindo sua 
sobrevivência que em alguns momentos subjugando e 
aniquilando outras espécies e mesmo a própria espécie humana 
em nome da garantia de vida ou a melhora para o seu grupo mais 
próximo. A guerra tornou-se um elemento peculiar de garantia de 
vida, os mais fortes e às vezes mais sábios montavam 
verdadeiras estruturas aplicadas a morte do inimigo, que passava 
a ser assim chamado apenas por também tentar sobreviver e 
garantir uma melhora na vida da sua comunidade. Esta “Arte da 
Guerra” dominou o espírito de legiões, do Oriente ao Ocidente a 
busca pelo domínio do Mundo era uma constante na mente de 
líderes, faraós, imperadores, reis e ou mesmo místicos que 
prometiam uma vida melhor assim que dominassem ao inimigo. 
Como sabemos milhares de pessoas morreram ao longo da 
história na tentativa de seguir ao líder que desenvolveu a ideia de 
melhoria e paz para os povos vencedores, afinal como diria 
Machado de Assis em seu escrito “Quincas Borba”, “Ao vencedor 
as batatas”. 
E bem verdade que a vitória em algumas vezes trouxe não 
apenas a paz ao celeiro dos vencedores, mas também a glória, a 
arte, a luxuria, ao vermos Roma em seu momento Imperial 
(especialmente na Dinastia Júlio-Claudiana), pode-se constatar 
isso. O preço da guerra sempre é muito alto e ao poucos a 
diplomacia política fundamentada estruturalmente na Grécia 
Antiga, passou a tomar espaço em todo o mundo, aliado a isso 
algumas técnicas de produção e comércio passaram a influir na 
dinâmica de vida dos homens. O homem se desenvolvia e junto 
com ele sua habilidade de contornar a adversidades naturais e 
especialmente humanas. 
 
 
Neste contexto os sábios, passam a ser valorizados, homens que 
tinham uma habilidade suprema em conhecer aos demais, 
articulistas, negociadores, sagazes na habilidade humana. Os 
sábios passam a ser tão respeitados em algumas culturas 
comparando-se aos próprios deuses, o que dizer quando o 
conhecimento se aliou da religião, das crenças, como foi o caso 
da Idade Média Ocidental, o universo conspirava sob uma única 
liderança, os temores inexplicáveis e as condutas racionais eram 
tratados da mesma forma, sob a óptica, ou melhor, “A luz da fé” 
cristã. 
Não há paz na mente humana, o rio dos saberes é turbulento, 
mesmo em momento onde tudo parecia estar em paz, o homem 
se obstinava de outras carências e reiniciava a “Roda viva”, e se 
deparava com mudanças significavas para o seu bem estar social, 
do renascimento ao iluminismo a mente humana viveu a galopes, 
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CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 muitos saberes foram expressos, muitas guerras e muitas 
melhorias também, inventos por todas as áreas e o homem cada 
vez mais distante de sua natural fragilidade. 
 A “luz se fez” e o homem passou a dominar todos os espaços, a 
ciência a ocupar lugar cada vez mais de destaque, a 
contemporaneidade determinou que guerras, torturas e morte 
seriam abomináveis, mesmo ainda fazendo uso constante das 
mesmas, o capital torna-se o novo signo de obstinação, ao 
homem que detiver o capital financeiro é dado o poder dentre os 
demais, os ícones do passado são apenas referências de valores 
e tradições efêmeras em muitas culturas. Agora a nova onda da 
busca pela sobrevivência, poder, glória e luxuria estão 
acentuadas no acumulo de capital pessoal e dos Estados políticos 
da contemporaneidade. 
Se no passado o homem matava para sobreviver e para melhorar 
de vida, por que hoje seria diferente? Na verdade as formas de 
conquista se diluíram e utilizam-se de técnicas cada vez mais 
aperfeiçoadas para garantir o amplo 
desenvolvimento do Ser ou do 
Estado em detrimento de outro, e a 
cada dia se usa mais o saber, a 
ciência, a lógica, e a emoção para 
garantir espaço e dominação sobre o 
outro, se isso não for o suficiente, 
bom as armas e a guerra ainda 
podem garantir “as batatas”. 
“Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As 
batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim 
adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, 
onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem 
em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se 
suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a 
destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a 
outra e recolhe os despojos. (...) ao vencido, ódio ou compaixão; 
ao vencedor, as batatas.” 
Machado de Assis em Quincas Borba 
Entender essa dinâmica do Homem tornou-se necessário, como 
vimos quanto mais saber (Sophia) o homem tinha, mais êxito teria 
em suas relações e foi assim que a conquista perene do saber 
ganhou forma e adeptos, eram os “amantes do saber”, os 
filósofos. 
Os primeiros filósofos gregos em especial a partir de Sócrates, 
passam a rediscutir o pensamento humano com bases mais 
sólidas que os discursos mitológicos ou mesmo teológicos até 
então aceitos pelas comunidades e usam também uma forma de 
organizar o pensamento, chamadas na época de escolas, como 
podemos identificar abaixo. 
 
 
Os Pré-Socráticos 
Pode-se afirmar que foi a primeira corrente de pensamento, 
surgida na Grécia Antiga por volta do século VI a.C. Os filósofos 
que viveram antes de Sócrates se preocupavam muito com o 
Universo e com os fenômenos da natureza. Buscavam explicar 
tudo através da razão e do conhecimento científico. Podemos 
citar, neste contexto, os físicos Tales de Mileto, Anaximandro, 
Anaximenes, Xenófanes e Heráclito, que formavam a escola 
Jônica, os elementos da natureza (Água, Ar, Fogo e Terra), 
ganharam força nessa escola, acreditavam que havia uma 
formação do universo e dos próprios seres vivos através desses 
elementos. 
Pitágoras desenvolve seu pensamento defendendo a ideia de 
que tudo preexiste a alma, já que esta é imortal, tendosegundo 
se acredita, forte influência de conceitos egípcios, a religião 
tornava-se assim importante para o filósofo. Mas 
indiscutivelmente, foi com a crença de que o número é o elemento 
básico explicativo da realidade e mantenedor da harmonia do 
cosmos. O pensamento de Pitágoras configura a escola Italiana. 
Demócrito e Leucipo defendem a formação de todas as coisas, 
a partir da existência dos átomos, fundando assim a escola 
atominsta, onde a realidade consiste em átomos e no vazio, 
sendo gerado por uma aproximação e repulsão dos átomos neste 
ambiente e com isso surgiria além do movimento os fenômenos 
naturais. 
 
O Período Clássico – Socráticos, Sofistas, Platônicos e 
Aristotélicos. 
Os séculos V e IV a.C. na Grécia Antiga foram de grande 
desenvolvimento cultural e científico. O esplendor de cidades 
como Atenas, e seu sistema político democrático, proporcionou o 
terreno propício para o desenvolvimento do pensamento. É a 
época dos sofistas e do grande pensador Sócrates. 
Os sofistas, entre eles Górgias, Leontinos e Abdera, defendiam 
uma educação, cujo objetivo máximo seria a formação de um 
cidadão pleno, preparado para atuar politicamente para o 
crescimento da cidade. Dentro desta proposta pedagógica, os 
jovens deveriam ser preparados para falar bem (retórica), pensar 
e manifestar suas qualidades artísticas. 
Sócrates começa a pensar e refletir sobre o homem, buscando 
entender o funcionamento do Universo dentro de uma concepção 
científica. Para ele, a verdade está ligada ao bem moral do ser 
humano. Ele não deixou textos ou outros documentos, desta 
forma, só podemos conhecer as ideias de Sócrates através dos 
relatos deixados por Platão. 
Platão foi discípulo de Sócrates e defendia que as ideias 
formavam o foco do conhecimento intelectual. Os pensadores 
teriam a função de entender o mundo da realidade, separando-o 
das aparências. 
Outro grande sábio desta época foi Aristóteles que desenvolveu 
os estudos de Platão e Sócrates. Foi Aristóteles quem 
desenvolveu a lógica dedutiva clássica, como forma de chegar ao 
conhecimento científico. A sistematização e os métodos devem 
 
 
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CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 ser desenvolvidos para se chegar ao conhecimento pretendido, 
partindo sempre dos conceitos gerais para os específicos. 
 
O Período Pós-Socrático – Término com a queda de Roma 
Ocidental. 
Está época vai do final do período clássico (320 a.C.) até o 
começo da Era Cristã, dentro de um contexto histórico que 
representa o final da hegemonia política e militar da Grécia. 
Ceticismo: de acordo com os pensadores céticos, a dúvida deve 
estar sempre presente, pois o ser humano não consegue 
conhecer nada de forma exata e segura. 
Epicurismo: os epicuristas, seguidores do pensador Epicuro, 
defendiam que o bem era originário da prática da virtude. O corpo 
e a alma não deveriam sofrer para, desta forma, chegar-se ao 
prazer. 
Estoicismo: os sábios estóicos como, por exemplo Marco Aurélio 
e Sêneca, defendiam a razão a qualquer preço. Os fenômenos 
exteriores a vida deviam ser deixados de lado, como a emoção, o 
prazer e o sofrimento. 
 
A análise básica do nascimento da estrutura filosófica termina na 
Idade Antiga, é obvio que com o advento da Idade Média 
Ocidental, uma nova forma de entender o saber, o pensamento e 
as ações humanas no ocidente irá ganhar corpo, a Igreja Cristã 
que crescera muito em fins da Idade Antiga, comandaria o novo 
cenário neste momento. 
É fundamental perceber que o homem, ainda hoje tem como 
forte orientação estrutural da sua racionalidade norteada 
pelos pensamentos gregos e adaptados a sua realidade de 
mundo. 
 
 
 
 
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CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 
EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 
 
Questão 01 (Uel 2013) 
Leia o texto a seguir. 
Tudo isso ela [Diotima] me ensinava, quando sobre as questões 
de amor [eros] discorria, e uma vez ela me perguntou: – que 
pensas, ó Sócrates, ser o motivo desse amor e desse desejo? A 
natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre e 
ficar imortal. E ela só pode assim, através da geração, porque 
sempre deixa um outro ser novo em lugar do velho; pois é nisso 
que se diz que cada espécie animal vive e é a mesma. É em 
virtude da imortalidade que a todo ser esse zelo e esse amor 
acompanham. 
 
(Adaptado de: PLATÃO. O Banquete. 4.ed. São Paulo: Nova 
Cultural, 1987, p.38-39. Coleção Os Pensadores.) 
 
Com base no texto e nos conhecimentos sobre o amor em Platão, 
assinale a alternativa correta. 
 
a) A aspiração humana de procriação, inspirada por Eros, 
restringe-se ao corpo e à busca da beleza física. 
b) O eros limita-se a provocar os instintos irrefletidos e vulgares, 
uma vez que atende à mera satisfação dos apetites sensuais. 
c) O eros físico representa a vontade de conservação da espécie, 
e o espiritual, a ânsia de eternização por obras que perdurarão na 
memória. 
d) O ser humano é idêntico e constante nas diversas fases da 
vida, por isso sua identidade iguala-se à dos deuses. 
e) Os seres humanos, como criação dos deuses, seguem a lei 
dos seres infinitos, o que lhes permite eternidade. 
 
Questão 02 (Uncisal 2012) 
O período pré-socrático é o ponto inicial das reflexões filosóficas. 
Suas discussões se prendem a Cosmologia, sendo a 
determinação da physis (princípio eterno e imutável que se 
encontra na origem da natureza e de suas transformações) ponto 
crucial de toda formulação filosófica. Em tal contexto, Leucipo e 
Demócrito afirmam ser a realidade percebida pelos sentidos 
ilusória. Eles defendem que os sentidos apenas capturam uma 
realidade superficial, mutável e transitória que acreditamos ser 
verdadeira. Mesmo que os sentidos apreendam “as mutações das 
coisas, no fundo, os elementos primordiais que constituem essa 
realidade jamais se alteram.” Assim, a realidade é uma coisa e o 
real outra. 
Para Leucipo e Demócrito a physis é composta 
 
a) pelas quatro raízes: o úmido, o seco, o quente e o frio. 
b) pela água. 
c) pelo fogo. 
d) pelo ilimitado. 
e) pelos átomos. 
 
Questão 03 (Ufsj 2012) 
Sobre o princípio básico da filosofia pré-socrática, é CORRETO 
afirmar que 
a) Tales de Mileto, ao buscar um princípio unificador de todos os 
seres, concluiu que a água era a substância primordial, a origem 
única de todas as coisas. 
b) Anaximandro, após observar sistematicamente o mundo 
natural, propôs que não apenas a água poderia ser considerada 
arché desse mundo em si e, por isso mesmo, incluiu mais um 
elemento: o fogo. 
c) Anaxímenes fez a união entre os pensamentos que o 
antecederam e concluiu que o princípio de todas as coisas não 
pode ser afirmado, já que tal princípio não está ao alcance dos 
sentidos. 
d) Heráclito de Éfeso afirmou o movimento e negou 
terminantemente a luta dos contrários como gênese e unidade do 
mundo, como o quis Catão, o antigo. 
 
Questão 04 (Enem 2012) 
TEXTO I 
Anaxímenes de Mileto disse que o ar é o elemento originário de 
tudo o que existe, existiu e existirá, e que outras coisas provêm de 
sua descendência. Quando o ar se dilata, transforma-se em fogo, 
ao passo que os ventos são ar condensado. As nuvens formam-
se a partir do ar por feltragem e, ainda mais condensadas, 
transformam-se em água. A água, quando mais condensada, 
transforma-se em terra, e quando condensada ao máximo 
possível, transforma-se em pedras. 
BURNET, J. A aurora da filosofia grega. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 
2006 (adaptado). 
 
TEXTO II 
Basílio Magno, filósofo medieval, escreveu: “Deus, como criador 
de todas as coisas, está no princípiodo mundo e dos tempos. 
Quão parcas de conteúdo se nos apresentam, em face desta 
concepção, as especulações contraditórias dos filósofos, para os 
quais o mundo se origina, ou de algum dos quatro elementos, 
como ensinam os Jônios, ou dos átomos, como julga Demócrito. 
Na verdade, dão a impressão de quererem ancorar o mundo 
numa teia de aranha”. 
GILSON, E.; BOEHNER, P. História da Filosofia Cristã. São 
Paulo: Vozes, 1991 (adaptado). 
 
Filósofos dos diversos tempos históricos desenvolveram teses 
para explicar a origem do universo, a partir de uma explicação 
racional. As teses de Anaxímenes, filósofo grego antigo, e de 
Basílio, filósofo medieval, têm em comum na sua fundamentação 
teorias que 
a) eram baseadas nas ciências da natureza. 
b) refutavam as teorias de filósofos da religião. 
c) tinham origem nos mitos das civilizações antigas. 
d) postulavam um princípio originário para o mundo. 
e) defendiam que Deus é o princípio de todas as coisas. 
 
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CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 Questão 05 (Enem 2012) 
Para Platão, o que havia de verdadeiro em Parmênides era que o 
objeto de conhecimento é um objeto de razão e não de sensação, 
e era preciso estabelecer uma relação entre objeto racional e 
objeto sensível ou material que privilegiasse o primeiro em 
detrimento do segundo. Lenta, mas irresistivelmente, a Doutrina 
das Ideias formava-se em sua mente. 
 
ZINGANO, M. Platão e Aristóteles: o fascínio da filosofia. São 
Paulo: Odysseus, 2012 (adaptado). 
 
O texto faz referência à relação entre razão e sensação, um 
aspecto essencial da Doutrina das Ideias de Platão (427–346 
a.C.). De acordo com o texto, como Platão se situa diante dessa 
relação? 
a) Estabelecendo um abismo intransponível entre as duas. 
b) Privilegiando os sentidos e subordinando o conhecimento a 
eles. 
c) Atendo-se à posição de Parmênides de que razão e sensação 
são inseparáveis. 
d) Afirmando que a razão é capaz de gerar conhecimento, mas a 
sensação não. 
e) Rejeitando a posição de Parmênides de que a sensação é 
superior à razão. 
 
 
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CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO 
 
Questão 01 
 
No centro da imagem, o filósofo Platão é retratado apontando 
para o alto. Esse gesto significa que o conhecimento se encontra 
em uma instância na qual o homem descobre a 
a) suspensão do juízo como reveladora da verdade. 
b) realidade inteligível por meio do método dialético. 
c) salvação da condição mortal pelo poder de Deus. 
d) essência das coisas sensíveis no intelecto divino. 
e) ordem intrínseca ao mundo por meio da sensibilidade. 
 
Questão 02 
Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros, naturais e 
não necessários; outros, nem naturais nem necessários, mas 
nascidos de vã opinião. Os desejos que não nos trazem dor se 
não satisfeitos não são necessários, mas o seu impulso pode ser 
facilmente desfeito, quando é difícil obter sua satisfação ou 
parecem geradores de dano. 
EPICURO DE SAMOS. “Doutrinas principais”. In: SANSON, V. F. 
Textos de filosofia. Rio de Janeiro: Eduff, 1974. 
 
No fragmento da obra filosófica de Epicuro, o homem tem como 
fim 
a) alcançar o prazer moderado e a felicidade. 
b) valorizar os deveres e as obrigações sociais. 
c) aceitar o sofrimento e o rigorismo da vida com resignação. 
d) refletir sobre os valores e as normas dadas pela divindade. 
e) defender a indiferença e a impossibilidade de se atingir o saber. 
 
Questão 03 
Tales foi o iniciador da reflexão sobre a physis, pois foi o primeiro 
filósofo a afirmar a existência de um princípio originário e único, 
causa de todas as coisas que existem, sustentando que esse 
princípio de tudo é a água. Tudo se origina a partir dela. Essa 
proposta é importantíssima [...] podendo com boa dose de razão 
ser qualificada como a primeira proposta filosófica daquilo que se 
costuma chamar de começo da formação do universo. 
REALE, Giovanni. História da filosofia. São Paulo: Loyola, 1990. 
 
 
 
 
A passagem do mito à filosofia iniciou-se com os pré-socráticos. O 
primeiro deles foi Tales de Mileto, que iniciou o estudo da 
cosmologia. A cosmologia é definida como: 
a) A investigação racional do agir humano 
b) A investigação acerca da origem e da ordem do mundo 
c) O estudo do belo na arte 
d) O estudo do estado civil e natural e seu ordenamento jurídico 
 
Questão 04 
“Há, porém, algo de fundamentalmente novo na maneira como os 
Gregos puseram a serviço do seu problema último – da origem e 
essência das coisas – as observações empíricas que receberam 
do Oriente e enriqueceram com as suas próprias, bem como no 
modo de submeter ao pensamento teórico e casual o reino dos 
mitos, fundado na observação das realidades aparentes do 
mundo sensível: os mitos sobre o nascimento do mundo.” 
 
Fonte: JAEGER, W. Paideia. Tradução de Artur M. Parreira. 3.ed. 
São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 197. 
 
Com base no texto e nos conhecimentos sobre a relação entre 
mito e filosofia na Grécia, é correto afirmar: 
a) Em que pese ser considerada como criação dos gregos, a 
filosofia se origina no Oriente sob o influxo da religião e apenas 
posteriormente chega à Grécia. 
b) A filosofia representa uma ruptura radical em relação aos mitos, 
representando uma nova forma de pensamento plenamente 
racional desde as suas origens. 
c) Apesar de ser pensamento racional, a filosofia se desvincula 
dos mitos de forma gradual. 
d) Filosofia e mito sempre mantiveram uma relação de 
interdependência, uma vez que o pensamento filosófico necessita 
do mito para se expressar. 
e) O mito já era filosofia, uma vez que buscava respostas para 
problemas que até hoje são objeto da pesquisa filosófica. 
 
Questão 05 
A relação entre mito e logos pode ser ilustrada a partir do seguinte 
fragmento do poema Sobre a Natureza de Parmênides. 
 
“E a deusa me acolheu benévola, e na sua a minha 
mão direita tomou, e assim dizia e me interpelava: 
ó jovem, companheiro de aurigas imortais, 
tu que assim conduzido chegas à nossa morada. 
salve! Pois não foi mau destino que te mandou perlustrar 
esta via (pois ela está fora da senda dos homens)...” 
 
Os Pré -Socráticos. Trad. de José Cavalcante de Souza. 1ª ed. 
São Paulo: Abril Cultural. 1973, p. 147. (Os Pensadores) 
 
Após ler o fragmento, analise a reIação mito- logos nas origens da 
filosofia. 
 
 
 
 
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CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 
RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA 
 
Questão 01: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa B 
 
Questão 02: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa A 
 
Questão 03: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa B 
 
Questão 04: 
Resolução: . 
 
Resposta: Alternativa C 
 
Questão 05: 
Resolução: A filosofia é um produto grego e está relacionada 
com uma determinada estrutura social, econômica e cultural 
do período. Nessa estrutura, o mito possui um papel 
fundamental como estruturante da cultura simbólica daquele 
povo. A filosofia nasce a partir de problemas que antes eram 
resolvidos segundo o pensamento mitológico. Longe de ser 
uma ruptura radical, o distanciamento da filosofia em relação 
aos mitos se dá de maneira gradual. 
 
 
 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA 
Prof. Márcio Michiles 
SUJEITO E OBJETO DO OCNHECIMENTO 
 
Introdução 
Nós temos a forte impressão que o real existe fora de nós, que o 
mundo é tal como o vemos, mas na verdade a realidade não 
existe como algo externo ao indivíduo.A realidade é um dado 
interno. Não sabemos como o mundo é na verdade. Nossa 
percepção não o percebe como ele é em si mesmo. Nós só 
conseguimos perceber a realidade de forma coerente e coesa 
porque os estímulos do mundo externo são transformados por 
nossos sentidos. Desse modo, transformamos vibrações em sons, 
reações químicas em cheiros, fótons em imagens, ondas 
eletromagnéticas em cores. O mundo em si não tem cheiro, cor, 
sabor, sons ou uma forma definida. Não podemos dizer que o céu 
é azul, uma vez chamamos de azul certas ondas 
eletromagnéticas que, ao serem captadas pelos olhos, são 
transmitidas pelos nervos ópticos causando a impressão de azul 
em nosso cérebro. O aparelho visual humano percebem 
radiações eletromagnéticas dentro de um espectro de 
comprimento de onda que vai de aproximadamente 380 
nanômetros até 780 nanômetros. Contudo, é necessário que 
essas ondas sejam captadas por nossa retina e sejam 
transformadas por nosso cérebro em um estímulo mental, que 
chamamos cor.Da mesma forma, sentimos o doce, o amargo, o 
azedo, o ácido, por causa das papilas gustativas, que são 
receptores do paladar da língua, produzindo a partir das 
propriedades químicas do objeto um estímulo mental, que 
chamamos sabor. Não podemos dizer, também, que o mundo que 
nos cerca produz sons. O que existe são ondas que se propagam 
no ar. Para que essas ondas sejam transformadas em sons é 
necessário que tenham sido captadas por nossos ouvidos e sejam 
transformadas em um estímulo mental, que denominamos som. 
Hoje, já podemos responder uma velha pergunta filosófica: há 
som quando uma árvore desaba numa floresta, se não tiver 
alguém para ouvir? É claro que não, uma vez que a queda da 
árvore produz ondas no ar, mas essas ondas só produzem sons 
se forem captadas por um ser vivo que possa transformá-las em 
estímulos sonoros. 
Essas questões sobre a percepção do real nos remetem a um 
velho problema da filosofia: a relação entre sujeito e objeto. Há 
três vertentes que procuram esclarecer essa relação: o realismo, 
o idealismo e o criticismo kantiano. Em cada uma delas há um 
modo peculiar de compreender a realidade. 
A primeira vertente, o realismo, se refere ao primado do objeto. O 
ponto de partida para o conhecimento são as coisas, tal como 
elas se encontram no mundo. A representação que fazemos do 
real depende dos objetos. O conhecimento se estabelece como 
adequação. Os nossos conceitos e ideias se adequam as coisas. 
Dessa forma, o mundo é tal como o vemos e percebemos. A 
palavra latina que designa coisas é res. Esta resposta primordial, 
e até diria primitiva, natural, leva na história da metafísica o nome 
de realismo, da palavra latina res. À pergunta: quem existe? 
Responde o homem naturalmente: existem as coisas – res – e 
esta resposta é o fundo essencial do realismo metafísico” 
(Morente, 1980). Para o realismo, o mundo possui uma 
inteligibilidade que pode ser compreendida pela razão. A partir da 
reflexão podemos formar conceitos ou noções das coisas, 
procurando conhecer suas estruturas. Assim, o conhecimento 
reflete na mente a realidade. Essa é uma posição ingênua, uma 
vez que acreditamos naquilo que percebemos por nossos 
sentidos. Acreditamos na percepção humana como uma instância 
capaz de captar as estruturas da realidade como elas são em si 
mesmas. É como se os nossos sentidos fossem o espelho do 
mundo. Percebemos um mundo acabado, pronto, estável, com 
uma estrutura determinada, que pode ser compreendida pela 
razão. Toda filosofia até o século XVI foi realista, uma vez que 
todo conhecimento tinha como postulado a existência das coisas. 
 Do mesmo modo, o senso comum é realista, pois acredita na 
existência das coisas como elas são em si mesmas. Muitos 
séculos demorou até que a humanidade mudasse seu modo de 
pensar. Foi somente no mundo moderno que a filosofia começou 
a estudar os modos ou as estruturas subjetivas do conhecimento. 
Foi a partir daí que surgiu um novo modo de conhecer e pensar a 
realidade: o idealismo. 
A segunda vertente surge no mundo moderno. Ao contrário do 
realismo, o idealismo se refere ao primado do sujeito. O sujeito 
surge para a filosofia moderna como um ser pronto e acabado, 
que contém em si certas estruturas fixas. É a partir dessas 
estruturas que podemos conhecer o real. O real, nesse sentido, é 
determinado pelas estruturas que subjaz no indivíduo. O real 
somente se constitui a partir do eu. Ao contrário do realismo, “o 
idealismo considerará, preferentemente, o conhecimento como 
uma atividade que vai do sujeito às coisas, como uma atividade 
elaboradora de conceitos, ao final de cuja elaboração surge a 
realidade das coisas” (Morente, 1980, p.68). Desse modo, o 
conhecimento não é mais determinado pelo objeto, mas pelo 
sujeito. A capacidade de conhecer depende da subjetividade do 
indivíduo, do “eu penso”. O maior representante do idealismo foi o 
filósofo francês René Descartes (1596-1650). Foi ele que tornou a 
subjetividade o fundamento do sujeito do conhecimento. Em seu 
livro, “Discurso do método”, ao duvidar de toda a realidade e de 
todo saber produzido em sua época, ele partiu em busca de um 
axioma que pudesse servir de fundamento a todo conhecimento, 
uma verdade primeira indubitável. A partir da dúvida Descartes 
chegou a uma verdade certa e segura, ao “eu penso”: “cogito 
ergo sum”. Se duvido, eu penso; se penso, eu existo. A partir 
dessa verdade ele deduz a realidade do eu e do mundo. Em seu 
ponto de vista, o ser humano já nasce com certos conhecimentos 
universais e necessários capazes de conhecer a realidade. Esses 
conhecimentos já estão no indivíduo. Por exemplo, sabemos que 
todo triângulo têm três lados ou que duas paralelas são 
equidistante intuitivamente, não precisamos demonstrar 
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 empiricamente essas verdades, uma vez que elas são inatas. 
Sem esses conhecimentos ou princípios a priori seria impossível 
conhecer a realidade. O eu cartesiano é puro pensamento (res 
cogitans). O pensamento é o lugar da verdade, é o puro intelecto, 
pois é por meio dele que adquirimos as idéias claras e distintas. É 
esse puro intelecto que se torna o núcleo do conhecimento. 
 A terceira vertente, o criticismo kantiano, vai buscar um meio 
termo entre o realismo e o idealismo. Chama-se criticismo, porque 
o filósofo alemão Emmanuel Kant fez uma crítica da razão, 
traçando os limites daquilo que podemos conhecer. Em sua 
opinião, o conhecimento se dá como relação entre o sujeito e o 
objeto, entre um ser cognoscente e um objeto cognoscível. É 
dessa relação que surge o conhecimento. O conhecimento é uma 
síntese entre o objetivo e o subjetivo. Para Kant, todo nosso 
conhecimento começa na experiência, mas nem todo ele provém 
da experiência. O real não é algo externo ao indivíduo, mas este 
o produz no interior de si mesmo. Somos nós que através de 
certas faculdades a priori, estabelecidos independentes da 
experiência, organizamos e damos sentido e coerência ao real. 
A razão seria essa capacidade que o ser humano tem, partindo 
de princípios a priori, representar e conhecer o mundo. Desse 
modo, o conhecimento só lida com fenômenos. O mundo aparece 
como representação para o sujeito que o conhece. 
Conhecer é o ato pelo qual o pensamento apreende o objeto ou o 
torna presente, esforçando-se para formar uma representação 
que exprime perfeitamente este objeto. Na teoria kantiana, para 
conhecer é preciso se distinguir a matéria, isto é, o objeto; e a 
forma, ou seja, a maneira pela qual conhecemos o objeto. A 
matéria é aquilo que no fenômeno corresponde à sensação. Já a 
forma do fenômeno é aquilo que faz com que a diversidade do 
fenômeno seja ordenada na intuição, através de certas relações. 
Há duas formas, portanto,a priori do conhecimento: a 
sensibilidade e o entendimento. 
A sensibilidade é a capacidade de receber representações 
graças à maneira pela qual somos afetados pelos objetos. É 
mediante a sensibilidade que os objetos nos são dados, só ela 
nos fornece intuições. A intuição é aquilo que se torna consciente 
de maneira imediata. Quando imaginamos, por exemplo, um 
objeto qualquer em nossa mente. Quando alguém nos diz cadeira, 
intuímos de forma imediata em nossa mente. A sensibilidade intui 
os objetos pela percepção dos sentidos, organizando o material 
sensível em uma relação espaço-temporal. Tempo e espaço são 
formas a priori do sentir, que organizam as intuições que temos 
da realidade. O tempo e o espaço não existem fora do sujeito, são 
categorias que não pertencem à realidade, mas fazem parte da 
interioridade do sujeito. Para Newton, tempo e espaço são entes 
reais absolutos. Para Leibniz, são apenas determinações ou 
relações das coisas em si mesmas. Já para Kant, são 
determinações ou relações inerentes apenas à forma da intuição. 
Espaço e tempo não são propriedades das coisas e nem se 
originam da observação do mundo exterior. Pelo contrário, aquilo 
que entendemos como realidade pressupõe o espaço e o tempo. 
Por sua vez, para que haja o conhecimento é necessário também 
o entendimento, ou seja, a faculdade que sintetiza em conceitos 
as intuições da sensibilidade. A causalidade, a unidade, a forma, 
e a relação, que percebemos nas coisas, não são atributos delas, 
mas são atributos da nosso entendimento. O entendimento possui 
as formas de relacionar as coisas como causa e efeito, 
substância, atributo, unidade, pluralidade. Essas formas são os 
predicados de toda experiência possível. É o entendimento que 
produz esse mundo organizado que representamos o em nossa 
mente. Assim, percebemos um mundo organizado, estritamente 
conexo, segundo a ordem causal. Em outras palavras, só 
podemos ter a experiência do real pela conjugação da 
sensibilidade (que nos dá os objetos) e do entendimento (que 
pensa esses objetos). É assim que surge a representação da 
realidade em nossa mente. Com o criticismo kantiano o problema 
do sujeito e objeto chega a um impasse, pois não podemos 
conhecer de forma absoluta a realidade em si mesma. Não 
podemos conhecer o mundo a nossa volta, uma vez que o real é 
produzido pelo sujeito que conhece. O mundo surge como 
representação, como fenômeno. Saber o que é a realidade em si 
não é mais possível. 
 
O Modelo Empirista 
Descartes teve suas ideias rebatidas imediatamente por 
Thomas Hobbes (1588-1679) que, através de padre Marin 
Mersenne (1588-1648), encaminhou as dúvidas que fazem parte 
da obra cartesiana Objeções e Respostas (1641). Em seguida, os 
chamados empiristas ingleses, John Locke, George Berkeley 
(1685-1753) e David Hume, formularam ideias opostas às de 
Descartes. Locke criticou a existência de ideias inatas, 
argumentando que apenas a experiência seria a única fonte de 
conhecimento possível. 
No seu Ensaio acerca do Entendimento Humano (1690), a 
mente foi descrita como algo semelhante a um papel em branco a 
ser preenchido com o conhecimento adquirido pela experiência -a 
famosa tábula rasa. A partir da percepção e sensação das coisas, 
as ideias poderiam ser desenvolvidas em progressão, das 
primárias às secundárias, das simples às complexas, de modo 
que fosse possível se associar umas com as outras. O ser 
pensante era capaz de produzir abstrações e generalizações com 
a interação dessas ideias extraídas da experiência 
Ao contrário de Locke, Berkeley tentou mostrar que a ideia 
de uma substância material só era passível de entendimento por 
causa da existência de um ser percipiente. Toda confusão em 
torno das ideias surgia por causa da incompreensão da condição 
dos seres sensíveis, cuja concepção dependia necessariamente 
da percepção do sujeito. Isto é, tais seres substratos só poderiam 
ser entendidos como aqueles que são percebidos e que para 
existirem precisariam de um espírito que os percebessem. A 
mente que percebe e experimenta é a única que torna possível o 
conhecimento das sensações e das ideias. Todo equívoco 
envolvendo essa concepção se daria por conta da linguagem; do 
abuso das palavras que das ideias particulares visam encontrar 
ideias gerais abstratas. Para Berkeley, nem todos nomes 
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 significam ideias. A propriedade de uma coisa particular não 
permitiria a conclusão de que tal atributo compusesse a uma outra 
coisa com o mesmo nome em todos aspectos diferente. Por 
exemplo, da soma interna dos ângulos de um triângulo ser 180°, 
não se conclui que um isósceles seja igual ao triângulo retângulo 
ou escaleno . Portanto, a ideia que se tem de uma coisa não 
poderia ser separada de sua percepção, uma ideia abstrata 
jamais surgiria de uma particular. 
Sob outro aspecto, em vez de atacar inicialmente o modo 
de conceber as ideias, Hume criticou a noção de causalidade 
vinculada entre dois eventos que costumeiramente se sucedem 
um ao outro. Como é sabido, ele demonstrou não haver motivos 
fortes para se construir uma relação necessária entre eventos 
particulares que periodicamente ocorreram no passado e sua 
generalização para eventos semelhantes no presente e no futuro. 
Somente o hábito justificaria a correlação feita entre dois 
acontecimentos em tempos sucessivos, mas distintos um do 
outro. A racionalidade, portanto, não poderia ser ancorada nessa 
aparente regularidade dos fenômenos naturais. Nesse sentido, a 
mente humana, concebida por Hume, resume-se à capacidade de 
combinar, transpor, aumentar ou diminuir os dados fornecidos 
através dos sentidos, pela experiência. Sem supor o 
agenciamento de uma entidade incorporada, “todos os materiais 
do pensamento -dizia Hume- derivam da sensação interna ou 
externa; só a mistura e composição destas dependem da mente e 
da vontade” . Apenas três princípios seriam suficientes para a 
conexão entre as ideias: semelhança, contiguidade e causação. E 
todas as operações da alma seriam geradas pelo hábito como um 
instinto natural . 
Todas essas objeções empíricas abrangiam questões 
quanto à natureza da experiência sensorial, a classificação dos 
objetos, o papel da linguagem e o estatuto do ser consciente. Tais 
questões ainda são comuns a ciência cognitiva em seu estágio 
inicial . 
 
A Síntese Fundacional de Kant 
Quando Kant se pôs a escrever sua Crítica da Razão Pura 
(1781), ele se encontrava diante dessas duas correntes 
filosóficas. A primeira, idealista, defendida pelo cartesianos e pelo 
filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) que rebatia 
Locke dizendo que não havia nada na mente humana que não 
tivesse passado pelos sentidos, a não ser o próprio intelecto e 
suas paixões . Segundo essa tendência, o pensamento em geral 
poderia organizar e revelar todas as possibilidades de 
conhecimento. 
Os empiristas constituíam o segundo ponto de vista pelo 
qual o pensamento era apenas o instrumento de reflexão ou 
elaboração da experiência física. Para eles, as afirmações e 
provas a priori dos princípios universais da razão pura não 
passavam de tautologias que nada acrescentavam ao 
entendimento da mente e do mundo. 
Ao invés de comprometer-se com uma dessas duas 
correntes, Kant tentou, então, estabelecer os limites das posições 
empiristas e racionalistas, propondo uma interpretação crítica da 
razão. A postulação de um juízo sintético a priori reconhecia que o 
conhecimento tinha como fonte a experiência, sendo portanto 
sintético, mas sua necessidade era estabelecida a priori pela 
razão especulativa. Kant, tal como Descartes, concebia a mente 
como uma entidade ativa do entendimento -o eu transcendental- 
capaz de moldar e organizar as sensações e asideias, 
transformando a aparente desordem da experiência num 
pensamento estruturado. Embora não fosse apta a conhecer a si 
mesmo, dada as limitações da razão em conhecer coisas em si, o 
eu transcendental seria capaz de obter o conhecimento possível 
da experiência, como fenômeno. 
Através dos conceitos puros da sensibilidade -espaço e 
tempo- a mente poderia construir afirmações verdadeiras sobre o 
mundo. Portanto, o conhecimento proviria da experiência 
sensorial dos fenômenos naturais e seriam organizados segundo 
categorias do pensamento -quantidade, qualidade, relação e 
modalidade. Como tais, os conceitos sensíveis puros não seriam 
construídos por imagens dos objetos, mas por esquemas 
transcendentais produzidos pela imaginação sem recorrer à 
intuição singular. O esquema nada mais seria do que uma 
representação geral de um conceito criada como figura pela 
imagina. 
No jargão da ciência cognitiva, os esquemas funcionariam 
como “representações mentais”, sendo uma interpretação 
intelectual da experiência sensorial. Pode-se entender, assim, 
esses esquemas como uma maneira de relacionar as 
representações com o mundo físico e a estrutura inata da mente. 
Contudo, ao apontar as limitações do conhecimento, Kant 
condenou a possibilidade de uma psicologia empírica fornecer 
algum resultado válido, pois a mente jamais poderia conhecer-se 
a si mesma, devido a impossibilidade dela realizar experiência 
espaciais e temporais sobre si. Por conta disso, durante os anos 
que se seguiram, a psicologia cognitiva teve de enfrentar mais 
este obstáculo posto por Kant 
 
 
 
 
 
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EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 
 
Questão 01 (Enem PPL 2012) 
Assentado, portanto, que a Escritura, em muitas passagens, não 
apenas admite, mas necessita de exposições diferentes do 
significado aparente das palavras, parece-me que, nas 
discussões naturais, deveria ser deixada em último lugar. 
 
GALILEI, G. Carta a Benedetto Castelli. In: Ciência e fé: cartas de 
Galileu sobre o acordo do sistema copernicano com a Bíblia. São 
Paulo: Unesp, 2009. (adaptado) 
 
O texto, extraído da carta escrita por Galileu (1564-1642) cerca de 
trinta anos antes de sua condenação pelo Tribunal do Santo 
Oficio, discute a relação entre ciência e fé, problemática cara no 
século XVII. A declaração de Galileu defende que 
 
a) a bíblia, por registrar literalmente a palavra divina, apresenta a 
verdade dos fatos naturais, tornando-se guia para a ciência. 
b) o significado aparente daquilo que é lido acerca da natureza na 
bíblia constitui uma referência primeira. 
c) as diferentes exposições quanto ao significado das palavras 
bíblicas devem evitar confrontos com os dogmas da Igreja. 
d) a bíblia deve receber uma interpretação literal porque, desse 
modo, não será desviada a verdade natural. 
e) os intérpretes precisam propor, para as passagens bíblicas, 
sentidos que ultrapassem o significado imediato das palavras. 
 
Questão 02 (Enem 2013) 
 
TEXTO I 
Há já de algum tempo eu me apercebi de que, desde meus 
primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como 
verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios 
tão mal assegurados não podia ser senão mui duvidoso e incerto. 
Era necessário tentar seriamente, uma vez em minha vida, 
desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e 
começar tudo novamente a fim de estabelecer um saber firme e 
inabalável. 
DESCARTES, R. Meditações concernentes à Primeira Filosofia. 
São Paulo: Abril Cultural, 1973 (adaptado). 
 
TEXTO II 
É de caráter radical do que se procura que exige a radicalização 
do próprio processo de busca. Se todo o espaço for ocupado pela 
dúvida, qualquer certeza que aparecer a partir daí terá sido de 
alguma forma gerada pela própria dúvida, e não será 
seguramente nenhuma daquelas que foram anteriormente 
varridas por essa mesma dúvida. 
SILVA, F. L. Descartes: a metafísica da modernidade. São Paulo: 
Moderna, 2001 (adaptado). 
 
A exposição e a análise do projeto cartesiano indicam que, para 
viabilizar a reconstrução radical do conhecimento, deve-se 
 
a) retomar o método da tradição para edificar a ciência com 
legitimidade. 
b) questionar de forma ampla e profunda as antigas ideias e 
concepções. 
c) investigar os conteúdos da consciência dos homens menos 
esclarecidos. 
d) buscar uma via para eliminar da memória saberes antigos e 
ultrapassados. 
e) encontrar ideias e pensamentos evidentes que dispensam ser 
questionados. 
 
Questão 03 (Enem 2013) 
Até hoje admitia-se que nosso conhecimento se devia regular 
pelos objetos; porém todas as tentativas para descobrir, mediante 
conceitos, algo que ampliasse nosso conhecimento, malogravam-
se com esse pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar 
se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo 
que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento. 
KANT, I. Crítica da razão pura. Lisboa: Calouste-Gulbenkian, 
1994 (adaptado). 
 
O trecho em questão é uma referência ao que ficou conhecido 
como revolução copernicana na filosofia. Nele, confrontam-se 
duas posições filosóficas que 
 
a) assumem pontos de vista opostos acerca da natureza do 
conhecimento. 
b) defendem que o conhecimento é impossível, restando-nos 
somente o ceticismo. 
c) revelam a relação de interdependência entre os dados da 
experiência e a reflexão filosófica. 
d) apostam, no que diz respeito às tarefas da filosofia, na primazia 
das ideias em relação aos objetos. 
e) refutam-se mutuamente quanto à natureza do nosso 
conhecimento e são ambas recusadas por Kant. 
 
Questão 04 (Uel 2015) 
Leia o texto a seguir. 
 
É pois manifesto que a ciência a adquirir é a das causas primeiras 
(pois dizemos que conhecemos cada coisa somente quando 
julgamos conhecer a sua primeira causa); ora, causa diz-se em 
quatro sentidos: no primeiro, entendemos por causa a substância 
e a essência (o “porquê” reconduz-se pois à noção última, e o 
primeiro “porquê” é causa e princípio); a segunda causa é a 
matéria e o sujeito; a terceira é a de onde vem o início do 
movimento; a quarta causa, que se opõe à precedente, é o “fim 
para que” e o bem (porque este é, com efeito, o fim de toda a 
geração e movimento). 
 
Adaptado de: ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. De Vincenzo 
Cocco. São Paulo: Abril S. A. Cultural, 1984. p.16. (Coleção Os 
Pensadores.) 
 
Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema, assinale a 
alternativa que indica, corretamente, a ordem em que Aristóteles 
apresentou as causas primeiras. 
 
a) Causa final, causa eficiente, causa material e causa formal. 
b) Causa formal, causa material, causa final e causa eficiente. 
c) Causa formal, causa material, causa eficiente e causa final. 
d) Causa material, causa formal, causa eficiente e causa final. 
e) Causa material, causa formal, causa final e causa eficiente. 
 
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CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 Questão 05 (Ufu 2012) 
O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se 
que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer 
um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdade em lugar 
da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se 
repelem como incompatíveis entre si [...]. 
 
HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito. Petrópolis: Vozes, 
1988. 
 
Com base em seus conhecimentos e na leitura do texto acima, 
assinale a alternativa correta segundo a filosofia de Hegel. 
a) A essência do real é a contradição sem interrupção ou o 
choque permanente dos contrários. 
b) As contradições são momentos da unidade orgânica, na qual, 
longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários.c) O universo social é o dos conflitos e das guerras sem fim, não 
havendo, por isso, a possibilidade de uma vida ética. 
d) Hegel combateu a concepção cristã da história ao destituí-la de 
qualquer finalidade benevolente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
EXERCÍCIOS DE FICAÇÃO 
 
Questão 01 (Unesp 2015) 
IHU On-Line – A medicalização de condutas classificadas como 
“anormais” se estendeu a praticamente todos os domínios de 
nossa existência. A quem interessa a medicalização da vida? 
 
Sandra Caponi – A muitas pessoas. Em primeiro lugar ao saber 
médico, aos psiquiatras, mas também aos médicos gerais e 
especialistas. Interessa muito especialmente aos laboratórios 
farmacêuticos que, desse modo, podem vender seus 
medicamentos e ampliar o mercado de consumidores de 
psicofármacos de modo quase indefinido. Porém, esse interesse 
seria irrelevante se não existisse uma demanda social que aceita 
e até solicita que uma ampla variedade de comportamentos 
cotidianos ingresse no domínio do patológico. Um exemplo 
bastante óbvio é a escola. Crianças com problemas de 
comportamento mais ou menos sérios hoje recebem rapidamente 
um diagnóstico psiquiátrico. São medicadas, respondem à 
medicação e atingem o objetivo social procurado. Essas crianças 
que tomam ritalina ou antipsicóticos ficam mais calmas, mais 
sossegadas, concentradas e, ao mesmo tempo, mais tristes e 
isoladas. 
 
www.ihuonline.unisinos.br. Adaptado. 
 
Podemos considerar como uma importante implicação filosófica 
da medicalização da vida 
a) a incorporação do conhecimento científico como meio de 
valorização da autonomia emocional e intelectual. 
b) a institucionalização de procedimentos de análise e de cura 
psiquiátrica absolutamente objetivos e eficientes. 
c) a proliferação social de conhecimentos e procedimentos 
médicos que pressupõem a patologização da vida cotidiana. 
d) a contribuição eticamente positiva da psiquiatrização do 
comportamento infantil e juvenil na esfera pedagógica. 
e) o caráter neutro do progresso científico em relação a 
condicionamentos materiais e a demandas sociais. 
 
Questão 02 (Ueg 2013) 
A ciência desconfia da veracidade de nossas certezas, de nossa 
adesão imediata às coisas, da ausência de crítica e da falta de 
curiosidade. Por isso, onde vemos coisas, fatos e acontecimentos, 
a atitude científica vê problemas e obstáculos, aparências que 
precisam ser explicadas. 
 
CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2003. p. 
218. 
 
Com base na afirmação precedente pode-se afirmar que: 
a) a ciência, ao contrário do senso comum, é um conhecimento 
objetivo, quantitativo e generalizador, que se opõe ao caráter 
dogmático e subjetivo do senso comum. 
b) a ciência domina o imaginário contemporâneo. Isso significa 
que, cada vez mais, confiamos no testemunho de nossos sentidos 
que promovem uma adesão acrítica à realidade dada. 
c) a ciência existe para confirmar nossas certezas cotidianas, 
utilizando um pensamento assistemático que despreza o trabalho 
da razão. 
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 d) a rigor, a ciência complementa o senso comum, mas banindo 
os obstáculos e problemas observados por nossa percepção 
imediata das coisas. 
 
Questão 03 (Unb 2012) 
O emplasto 
 
Um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-
me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. 
Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais 
arrojadas cambalhotas. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, 
deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a 
forma de um X: decifra-me ou devoro-te. 
Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento 
sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a 
nossa melancólica humanidade. 
Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do 
governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, 
não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam 
resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão 
profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da 
vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o 
gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, 
esquinas e, enfim, nas caixinhas do remédio, estas três palavras: 
Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do 
arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos 
me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de 
reconhecer os hábeis. Assim, a minha ideia trazia duas faces, 
como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. 
De um lado, filantropia e lucro; de outro, sede de nomeada. 
Digamos: — amor da glória. 
Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o 
amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem 
cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um 
dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa 
mais verdadeiramente humana que há no homem e, 
consequentemente, a sua mais genuína feição. 
Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto. 
 
Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Obra 
completa, v. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992, p. 514-5 (com 
adaptações). 
 
A frase “Decifra-me ou devoro-te” remete ao enigma da esfinge, 
consagrado na tragédia grega Édipo Rei, de Sófocles. A 
formulação de um enigma envolve jogos de palavras e 
associações semânticas ambíguas e paradoxais, que parecem 
conduzir a respostas impossíveis ou absurdas. A decifração de 
um enigma está associada, portanto, a grande capacidade de 
raciocínio e de reflexão e, não menos, a domínio das palavras e 
da língua. Assim, quem decifra um enigma será considerado um 
ser superior, de saber excepcional, cujas palavras serão 
respeitadas e seguidas. Com relação às questões envolvidas na 
decifração de um enigma e ao tema a que o texto de Machado de 
Assis se reporta, assinale a opção correta. 
a) A resolução, pelo narrador, da situação enigmática demandou 
o processo de uma ideia em evolução e, assim, a resposta, ou 
seja, a invenção do emplasto Brás Cubas, não encerra 
ambiguidade nem paradoxo, ao contrário do que ocorre com os 
demais enigmas. 
b) O poder intelectual do narrador evidencia-se em ações de 
relevância humanitária, o que, como enfatiza o próprio narrador, 
alcança reconhecimento em instâncias de representação política. 
c) A reação do narrador a comentários dos tios sinaliza que o 
embate entre tipos e âmbitos de poder é resolvido pelo saber. 
d) O episódio da resolução do enigma evoca um momento 
vitorioso de Brás Cubas no que se refere à sua capacidade de 
admitir sentimentos passionais por meio de argumentação 
racional. 
 
Questão 04 
ANALISE A PERCEPÇÃO DA FILOSOFIA DUALISTA E O 
METODO CARTESIANO DE DESCARTES. 
 
Questão 05 
COMO IMMANUEL KANT DESENVOLVEU SUA PERCEPÇAO 
DE CONHECIMENTO E SUA NOÇAO DE JUÍZO DE RAZAO 
 
 
 
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7 
 
CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 
RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA 
 
Questão 01: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa C 
 
Questão 02: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa A 
 
Questão 03: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa C 
 
Questão 04: 
Resolução: Como exemplo da radicalidade indicada pelo prof. 
Franklin Leopoldo e Silva, vale mencionar que Descartes inicia a 
segunda meditação com a metáfora de um homem submerso, ele 
diz: “a meditação que fiz ontem encheu-me de tantas dúvidas, que 
doravante não está mais em meu alcance esquecê-las. E, no 
entanto, não vejo de que maneira poderia resolvê-las; e, como se 
de súbito tivesse caído em águas muito profundas, estou de tal 
modo surpreso que não posso nem firmarmeus pés no fundo, 
nem nadar para me manter à tona”. Essa metáfora expõe um 
homem de mãos atadas; voltar para a situação anterior é 
impossível, porém manter-se no meio do caminho também. A 
única opção é manter-se trilhando o caminho da dúvida 
sistemática e generalizada, esperando desse modo alcançar 
algum ponto firme o suficiente para ser possível apoiar os pés, e 
nadar de volta para a superfície. Mantendo-se nesse caminho, o 
filósofo busca o ponto que irá inaugurar uma cadeia de razões da 
qual ele não poderá duvidar. O chão desse mar no qual o filósofo 
está submerso é esta única coisa da qual ele não pode duvidar, 
mesmo se o gênio maligno estiver operando. Tal certeza radical é 
a certeza sobre o fato de que se o gênio maligno perverte meus 
pensamentos, ele nunca poderia perverter o próprio fato de que 
eu devo estar pensando para que ele me engane. Penso, existo é 
a nova raiz que nutre a modernidade. 
 
Questão 05: 
Resolução: Primeiro, distingamos entre os tipos de juízos que 
Kant considera sermos capazes de fazer. Eles são três: 1) juízos 
analíticos (ou aqueles juízos nos quais já no sujeito encontramos 
o predicado, ou seja, juízos tautológicos e, por conseguinte, dos 
quais não se obtém nenhum tipo de conhecimento); 2) juízos 
sintéticos a posteriori (ou aqueles juízos nos quais a experiência 
sensível está presente e se faz parte decisiva do julgamento, ou 
seja, juízos particulares e contingentes); e 3) juízos sintéticos a 
priori (ou aqueles juízos nos quais o predicado não está contido 
no sujeito e a experiência não constitui alguma parte decisiva do 
conteúdo, ou seja, juízos nos quais se obtém conhecimento sobre 
algo, porém sem que a experiência seja relevante para a 
conclusão obtida, o que faz desse tipo de juízo universal e 
necessário). 
Segundo, lembremos que Kant afirmava que a matemática e a 
física realizam justamente o último tipo de juízo mencionado. Ele, 
então, se perguntava se a metafísica também não era capaz de 
realizar esse tipo de juízo. Para solucionar esta questão: “é 
possível uma metafísica baseada em juízos sintéticos a priori?”, o 
filósofo irá modificar o ponto de vista da investigação se 
inspirando em Copérnico, isto é, considerando o objeto não 
através daquilo que a experiência sensível expõe, porém a partir 
da possibilidade de a faculdade mesma de conhecer constituir a 
priori o objeto – o astrônomo fez algo similar quando, em vez de 
calcular o movimento dos corpos celestes através dos dados da 
experiência sensível, calculou esses movimentos através da 
suposição de que o próprio observador (o homem sobre a Terra) 
se movia. Esse a priori que Kant formula se encontra nas formas 
da sensibilidade, nas categorias do entendimento e no 
esquematismo, isto é, na sua filosofia transcendental, ou na sua 
filosofia sobre as condições de possibilidade do próprio 
conhecimento. 
 
 
 
 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA 
Prof. Márcio Michiles 
GÊNERO FILOSÓFICO 
 
Gênero: Suas transformações sociais ao longo dos séculos 
Conceituar gênero é caminhar por uma trilha que ainda está se 
construindo e tem muito a ver com política e teoria. Nesse 
sentido, o próprio conceito de gênero foi fruto tanto de discussões 
políticas quanto teóricas. Normalmente associado ao estudo das 
relações entre homens e mulheres pelas ciências humanas, ele 
ajudou a despertar o interesse da historiografia em compreender 
a multiplicidade de identidades femininas ao longo da história. 
 
A definição mas corrente de gênero é a que o considera uma 
categoria relacional, ou seja, gênero é entendido como estudo das 
relações sociais entre homens e mulheres, e como essas relações 
são organizadas em diferentes sociedades, épocas e culturas. Os 
pesquisadores que utilizam essa categoria de análise fazem 
questão de frisar que no campo das relações homem e mulher há 
uma distinção entre a esfera biológica, que é o sexo propriamente 
dito e suas características físicas, e a esfera social e cultural, que 
é a identidade do gênero. Assim, não há uma essência masculina 
ou uma essência feminina imutáveis e determinadas por 
características biológicas. O que há são construções sociais e 
culturais que fazem que homens e mulheres sejam educados e 
socializados para ocupar posições políticas e sociais distintas, 
normalmente cabendo aos homens as posições hierárquicas mais 
elevadas, enquanto às mulheres são reservadas as posições 
menos privilegiadas. Desse modo, o conceito de gênero tem 
muito a ver com a forma como são percebidas as relações de 
poder entre homens e mulheres. Segundo ele, as identidades 
masculina e feminina são construções sociais e culturais que 
impõem aos sexos condutas, práticas, espaços de poder e 
anseios diferentes. Tudo isso baseado nas distinções que a 
própria sociedade constrói para o feminino e o masculino, e não 
em diferenças naturalmente predeterminadas entre homens e 
mulheres. 
 
Historicamente, o conceito de gênero surgiu para se contrapor a 
uma visão que enfatizava as diferenças biológicas, ou sexuais, 
entre homens e mulheres, que acabava naturalizando a 
dominação masculina. A nova categoria veio enfatizar que a 
natureza não explica, e muito menos determina, a relação entre 
os sexos. São os componentes sociais e culturais que interferem 
mais decisivamente na maneira pela qual os gêneros se 
relacionam, não havendo papéis fixos para homens e mulheres 
em nenhuma esfera social. 
 
A categoria de gênero tem uma história que se inicia com o 
movimento feminista, nas décadas de 1960 e 1970. Este, em sua 
luta política, percebeu que tinha de construir uma História das 
mulheres, pois só assim explicaria a subordinação feminina e 
seus mecanismos e divulgaria a resistência e a luta de muitas 
mulheres no decorrer da história. Construir esse passado era, 
assim, um ato político fundamental para a afirmação do 
movimento no presente. Logo, foram as próprias mulheres que 
levantaram o véu do silêncio na história, pois, até então, o 
preconceito da historiografia produzida por homens não 
reconhecia que elas faziam parte da história. Havia, nesse 
período, uma conexão estreita entre o fazer político e o fazer 
intelectual. Assim, até os anos 1970, História das mulheres foi um 
campo majoritariamente feminino, já que os homens 
marginalizavam seus escritos. Dessa forma, as historiadoras e 
demais estudiosas, ligadas ao movimento feminista, construíram 
uma “história feminina” paralela à “história dos homens”. 
 
No entanto, com as mudanças que ocorreram no próprio 
movimento feminista e na concepção de História a partir dos 
últimos anos da década de 1970, a produção historiográfica 
ocidental se afastou da política. Esse rompimento conferiu maior 
legitimidade acadêmica ao saber histórico produzido pelas (e 
sobre) as mulheres, e agora também por homens. Foi nesse 
momento que surgiu, na década de 1980, a categoria gênero, 
elaborada como um termo aparentemente neutro e desvinculado 
da ideologia feminista que usava a “perigosa” ideia de História das 
mulheres. 
 
A polêmica, no entanto, continua: fazer uma História das mulheres 
ou uma História de gênero? Historiadores e historiadoras que 
defendem o uso da categoria gênero afirmam que não há uma 
identidade única para o que se chama genericamente mulheres, 
por isso a ideia de gênero auxilia na compreensão da diversidade 
das condições femininas ao longo da história, sobretudo quando 
relacionadas aos homens. Ou seja, há muitos tipos de mulheres 
diferentes ao longo da história, que possuem condições sociais 
distintas dependendo de numerosos fatores, como a cor da pele, 
a etnia, a classe, a idade etc., e elas devem ser estudadas em 
relação aos homens, e não de forma isolada. Os defensores de 
uma História das mulheres ressaltam, por seu turno, que gênero 
não explica tudo e não se pode ir logo fazendo umahistória das 
relações sociais entre homens e mulheres quando ainda se ignora 
muito da história das próprias mulheres. Há, contudo, posições 
menos ortodoxas que fazem uso da categoria gênero associada a 
outras categorias, como raça e classe, pois a desigualdade não 
se dá apenas entre homens e mulheres, como um bloco 
homogêneo. Entre as mulheres, há negras, brancas, índias, 
judias, árabes, mulatas, ricas e pobres, entre muitas outras 
diferenciações que precisam ser pensadas. 
 
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2 
 
CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 O termo gênero não deve ser entendido como sinônimo de 
mulher/mulheres ou de sexo, uma vez que essa categoria de 
análise não combina com determinações biológicas. Mas isso não 
quer dizer que, na prática, as pessoas não acreditem em 
determinações biológicas. Para essas pessoas, a própria 
diferenciação física entre homem e mulher já justifica a 
dominação masculina ou as diferenças sociais entre homens e 
mulheres. Uma coisa é o conceito, que visa à superação de 
visões estreitas e estereotipadas em relação às condutas das 
pessoas, e outra é a forma como, no cotidiano, essas pessoas 
percebem o corpo. No cotidiano, o comum é as pessoas tomarem 
as diferenças biológicas como justificativa das diferenças sociais. 
Ou seja, elas naturalizam as práticas de dominação que sequer 
são percebidas, exatamente porque aparecem como “evidentes” 
demais. No entanto, a História não deve ficar restrita aos papéis 
de gênero, à diferenciação entre a identidade masculina e a 
feminina, mas perceber que a opressão de gênero pode estar 
associada a outros tipos de opressão social. Por último, é preciso 
lembrar que os papéis sociais de gênero são mutáveis, e homens 
e mulheres podem, ao longo do tempo e dependendo da 
sociedade em que estão inseridos, apresentar práticas e 
comportamentos diferenciados. 
 
Enfatizando ou não a categoria gênero, atualmente dispomos de 
vasta produção historiográfica relativa à História das mulheres no 
Brasil. Marco na ampliação das publicações sobre o tema foi a 
coletânea organizada em 1997 por Mary Del Priore, intitulada 
História das mulheres no Brasil. Sexualidade, honra feminina, 
prostituição, família, trabalho e cotidiano são apenas algumas das 
faces de instigantes estudos realizados por especialistas nessa 
área, que compõem a coletânea. Escravas, índias, senhoras, 
mulheres forras, imigrantes, operárias, escritoras, entre tantas 
outras, tiveram suas histórias contadas por historiadoras e 
historiadores que ousaram levantar a poeira dos documentos para 
abordar essa temática que ajuda a compor um quadro bem mais 
completo e rico da história do Brasil. 
 
Na sala de aula, devemos estar sempre atentos para mostrar que 
a dominação masculina e a violência de gênero estão baseadas 
em percepções de gênero desenvolvidas e alimentadas por 
diversos mecanismos do meio social: pela escola, pela própria 
família, na vida profissional e assim por diante. Em suma, a 
dominação de gênero (que pode ter uma face bem sutil e 
invisível), quase sempre, é incorporada pelas mulheres 
dominadas, devido à forma como as instituições sociais são 
constituídas e as imagens que elas transmitem. No meio escolar, 
devemos nos acautelar para não reproduzirmos preconceitos 
arraigados em livros didáticos, filmes, músicas e em outras 
linguagens. É fundamental estimular nas alunas e nos alunos uma 
conduta de suspeita perante os discursos produzidos nos mais 
diversos meios de comunicação, analisando, por exemplo, como 
os filmes e as novelas apresentam as ideias de feminilidade e 
masculinidade. 
Alemanha cria “terceiro gênero” para registro de recém-
nascidos 
Atualizado em 20 de agosto, 2013 - 06:07 (Brasília) 09:07 GMT 
Fonte: 
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130820_a
lemanha_terceirosexo_dg.shtml 
 
 
Pais de recém-nascidos hermafroditas na Alemanha podem optar 
por gênero 'indefinido' 
 
A partir de 1º de novembro, a Alemanha oferecerá aos pais 
três opções para registrar seus filhos: "masculino", 
"feminino" e "indefinido". 
A nova lei foi aprovada em maio, mas seu teor só foi divulgado 
agora. Com isso, a Alemanha passa a ser o primeiro país europeu 
a oficializar o terceiro gênero. 
Essa mudança é uma opção para pais de bebês hermafroditas, 
que nascem fisicamente com ambos os sexos. 
A nova legislação abre a possibilidade de a criança, ao se tornar 
adulta, escolher posteriormente se prefere ser definida como 
homem ou mulher. Ou mesmo seguir com o sexo indefinido pelo 
resto da vida. 
 
Questões indefinidas 
Na Alemanha, alguns jornais disseram que a mudança é uma 
"revolução legal". No entanto, a lei não prevê como a escolha do 
sexo indefinido é refletida em documentos como o passaporte, 
onde existe apenas escolha entre "M" e "F". A revista alemã de 
direito familiar FamRZ sugere que a opção de sexo indefinido seja 
marcada com a letra "X". 
 
A nova lei é amparada em uma decisão do tribunal constitucional 
alemão que estabeleceu que pessoas que se sentem 
profundamente identificadas com um determinado gênero têm o 
direito de escolher seu sexo legalmente. 
 
Outro assunto ainda a ser definido é matrimônio. A lei alemã só 
permite atualmente casamentos entre homens e mulheres, o que 
não contempla pessoas de gêneros indefinidos. 
 
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130820_alemanha_terceirosexo_dg.shtml
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130820_alemanha_terceirosexo_dg.shtml
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Poucos países no mundo possuem legislações sobre terceiro 
sexo. A Austrália aprovou uma lei há seis semanas, mas desde 
2011 os australianos já têm o direito de identificar-se com o sexo 
"X" no passaporte. Na Nova Zelândia, isso é possível desde 2012. 
O correspondente da BBC na Alemanha, Demian McGuiness, 
afirma que ainda há outros pontos em aberto. No caso de uma 
pessoa de sexo indefinido ser presa, em qual presídio ela seria 
detida? 
 
O grupo de direitos de pessoas transgêneros Trangender Europe 
vê avanços na legislação alemã, mas reivindica mais mudanças. 
"É [uma mudança] lógica, mas não é uma lei tão progressista 
como gostaríamos que fosse", disse Richad Köhler, do 
Transgender Europe. Ele diz que a lei só contempla bebês que 
tiveram diagnóstico médico de hermafroditismo. 
 
A entidade quer que as pessoas possam ter o direito de 
deixar a opção de gênero em branco, sem precisar se quer se 
declarar "indefinido". 
 
 
 
 
 
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EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 
 
Questão 01 
01 “Em geral, o feminismo veio demonstrar que a opressão tem 
muitas faces, uma das quais é a opressão das mulheres por via 
da discriminação sexual. Ao privilegiar a opressão de classe, o 
marxismo secundarizou e, no fundo, ocultou a opressão sexual e, 
nessa medida, o seu projeto emancipatório ficou 
irremediavelmente truncado. [...] Se para as feministas marxistas, 
a primazia explicativa das classes é admissível desde que seja 
articulada com o poder e a política sexual, para a maioria das 
correntes feministas não é possível estabelecer, em geral, a 
primazia das classes sobre o sexo ou sobre outro fator de poder e 
de desigualdade e algumas feministas radicais atribuem mesmo a 
primazia explicativa ao poder sexual.” 
 
(SOUZA S., Boaventura. Pela mão de Alice, o social e o político 
na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1996. p. 41.) 
 
De acordo com o texto, é correto afirmar: 
a) A teoria marxista das classes, como explicação das relações de 
gênero, é o fundamento dos movimentosfeministas. 
b) Ao priorizar a opressão de classe, o marxismo eclipsou a 
opressão feminina, destituindo-a de sua relevância social. 
c) As feministas marxistas defendem a primazia do poder sexual 
sobre a de classes. 
d) O feminismo radical, ao explicitar a discriminação sexual como 
forma de opressão, fortaleceu o entendimento marxista da 
sociedade. 
e) O projeto emancipatório das feministas teve significativo 
impulso após a adoção do marxismo enquanto modelo explicativo 
da opressão feminina. 
 
Questão 02 
02 Leia o texto a seguir, que remete ao debate sobre questões de 
gênero. 
 
 A violência contra a mulher acontece cotidianamente e 
nem sempre ganha destaque na imprensa, afirmou a ministra da 
Secretaria de Políticas para as Mulheres, Nilcéa Freire [...]. 
“Quando surgem casos, principalmente com pessoas famosas, 
que chegam aos jornais, é que a sociedade efetivamente se dá 
conta de que aquilo acontece cotidianamente e não sai nos 
jornais. As mulheres são violentadas, são subjugadas 
cotidianamente [...]”, afirmou a ministra. [...] “Eliza morreu porque 
contrariou um homem que achou que lhe deveria impor um 
castigo. Ela morreu como morrem tantas outras quando rompem 
relacionamentos violentos”, disse a ministra. 
 
(“Violência contra as mulheres é diária”, diz ministra, Agência 
Brasil, Brasília, 11 jul. 2010.) 
 
Com base no texto e nos conhecimentos socioantropológicos 
sobre o tema, é correto afirmar: 
a) Questões de gênero são definidas a partir da classe social, 
razão pela qual são mais presentes nas camadas populares do 
que entre as elites. 
b) As identidades sociais masculina e feminina são configuradas a 
partir de características biológicas imutáveis presentes em cada 
um. 
c) As diferenças de gênero são determinadas no terreno 
econômico, daí o fato de serem produto da sociedade capitalista. 
d) As experiências socialistas do século XX demonstram que 
nelas as questões de gênero são resolvidas de modo a 
estabelecer a igualdade real entre homens e mulheres. 
e) As relações de gênero são construídas socialmente e 
favorecem, nas condições históricas atuais, a dominação 
masculina. 
 
Questão 03 
 
 
— Diga lá, menina, o que é que você quer ser quando crescer? 
Eu quero ser dona de casa atuante ou mulher de milionário. 
Dona de casa atuante ou mulher de milionário. 
(Jorge Ben Jor). 
 
Na estrofe da letra de Jorge Ben Jor e na imagem acima, pode-se 
observar um modelo de socialização da mulher, em que a 
imitação torna-se um ótimo momento de interação infantil de 
gênero. Sobre as relações de gênero, é correto afirmar: 
 
a) O conceito de gênero se refere às condições de origem 
psicológicas e biológicas. 
b) A discussão sobre a violência doméstica não deve entrar em 
pauta nas discussões sobre gênero. 
c) A desigualdade entre homens e mulheres é historicamente 
construída, ou seja, não é uma desigualdade natural. 
d) A discussão sobre a identidade corporal e a sexualidade 
feminina não fazem parte das análises sobre questões de gênero. 
e) A visão feminina é constantemente romântica, e, por isso, 
deve-se ater ao direito à maternidade, mas não à igualdade de 
condições no trabalho. 
 
Questão 04 
As brincadeiras de menino, em geral, envolvem atividades ao ar 
livre, como bicicleta, pipa ou skate. As meninas brincam de 
casinha. Isso é comum porque, antigamente, era papel do homem 
sair de casa para trabalhar, enquanto às mulheres cabiam os 
cuidados com o lar”, constata a pedagoga Maria Angela Barbato 
Carneiro, coordenadora do Núcleo de Cultura, Estudos e 
Pesquisas do Brincar da Pontifícia Universidade Católica de São 
Paulo. 
ECHEVERRIA, Malu. Brincadeira não tem sexo: meninos e 
meninas podem — e devem — brincar do que tiverem vontade. In: 
Revista Crescer. ed. 139, jun. 2005. [online] Disponível em: 
<http://super.abril.com.br/ 
superarquivo/2003/conteudo_275078.shtml>. Acesso em: 29 jan. 
2009. 
 
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CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 Sobre o processo de socialização e as relações de gênero, é 
correto afirmar: 
a) O termo “sexo” distingue as diferenças anatômicas, e o termo 
“gênero”, as diferenças fisiológicas entre homens e mulheres. 
b) As relações de gênero são universais e não dependem da 
construção que cada cultura tem em relação às diferenças 
sexuais. 
c) O processo de socialização disciplina os corpos quanto aos 
modos de agir, porém esse aprendizado não interfere nos modos 
de ser dos sujeitos sociais. 
d) O gênero é uma construção social que, através de organismos 
sociais, como a família e a mídia, atribui papéis e identidades 
sociais a homens e mulheres. 
e) As brincadeiras de crianças, assim como o modo como se 
comportam, demonstram que os papéis sociais são definidos 
antes mesmo do encontro com as instituições sociais. 
 
Questão 05 
 
 
 
A charge acima, presente nas redes sociais, faz uma brincadeira 
com a construção dos estereótipos do homem e da mulher 
perfeitos. Ainda que esses estereótipos não condigam 
necessariamente com a realidade, a sociologia se interessa por 
analisá-los porque 
a) contribuem para a emancipação da mulher. 
b) estimulam homens e mulheres a tornarem-se cada vez mais 
perfeitos. 
c) são extremamente prejudiciais para as crianças, pois as 
constrangem a fantasiarem um conto de fadas impossível de ser 
vivido. 
d) são construídos a partir do olhar científico. 
e) fazem parte da representação coletiva da sociedade, 
demonstrando a forma como homens e mulheres se projetam nas 
relações de gênero. 
 
 
 
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO 
 
Questão 01 
Uma mãe canadense defendeu a decisão tomada por ela e por 
seu marido de manter em segredo o sexo de seu filho mais novo, 
para dar à criança a oportunidade de desenvolver a sua 
identidade sexual por conta própria. A decisão tomada por Kathy 
Witterick, 38 anos, e David Stocker, 39, de não revelar o gênero 
de seu bebê Storm, de quatro meses de idade, gerou uma 
avalanche de reações – positivas e negativas – após reportagem 
do jornal “Toronto Star”, publicada nesta semana [28.05.2011]. 
 
(www.g1.globo.com. Adaptado.) 
 
De acordo com o texto, pode-se afirmar que: 
a) O ponto de vista adotado pela mãe canadense pressupõe a 
adoção do determinismo biológico no campo da sexualidade. 
b) O fato descrito pela reportagem revela a influência da fé 
religiosa nos padrões comportamentais contemporâneos. 
c) Sob o ponto de vista moral, a decisão tomada pelo casal 
canadense expressa um perfil conservador. 
d) O fato em questão revela que, para os pais da criança 
canadense, identidade sexual é um tema pertencente 
exclusivamente à esfera da autonomia individual. 
e) A postura adotada pelos pais da criança em questão revela 
intolerância no campo das diferenças sexuais. 
 
Questão 02 
Na obra Grande Sertão: veredas, Guimarães Rosa apresenta dois 
personagens Riobaldo e Diadorim numa relação inusitada de 
atração. A trama se desenvolve como uma relação entre pessoas 
do mesmo sexo. As semelhanças nas aparências escondem, 
porém, diferenças de origem biológica, porque se trata de uma 
mulher (Diadorim) que se passa socialmente por homem. 
Escrita em 1956, essa obra de Guimarães Rosa trata de uma 
temática extremamente contemporânea, que é 
a) a superação do conceito de sexo, biologicamente herdado, pelo 
conceito de transexualidade, como categoria cientificamente 
possível. 
b) a superação do conceito de sexo, de natureza biológica, pelo 
conceito de gênero, de natureza sociocultural. 
c) a superação do conceito de sexo, de origem natural, pelo 
conceito de opção sexual, de natureza individual. 
d) a superação do conceito de sexo, de viés anatômico, pelo 
conceito de homossexualidade. 
 
Questão 03 
O conceito de gênero tem como objetivo explicitar que as 
diferenças entre homens e mulheres não são apenas de ordem 
física ou biológica.Antes disso, as relações de gênero estão 
diretamente relacionadas às características atribuídas a cada 
sexo pela sociedade e sua cultura. Sobre o conceito de gênero, é 
correto afirmar que 
a) o conceito de gênero começa a ser utilizado de forma mais 
ampla no final da década de 1970 por pesquisadoras interessadas 
em compreender o fenômeno do feminismo e o processo de 
opressão sofrido pelas mulheres naquele momento histórico. 
b) os estudos de Margareth Mead sobre a importância da cultura 
na determinação dos papéis sociais e nos usos e costumes de 
homens e mulheres pouco contribuíram para o desenvolvimento 
do conceito. 
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6 
 
CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 c) os estudos contemporâneos sobre as relações de gênero 
apresentam uma completa ruptura com as concepções 
desenvolvidas por Joan Scott a respeito da temática que, em sua 
teoria, previa uma grande importância para o conceito ao não 
restringi-lo a história das mulheres. 
d) em uma sociedade democrática e com uma ampla liberdade 
sexual o conceito de gênero não é representativo, pois sua 
sustentação está centrada exclusivamente nos conflitos entre os 
sexos. 
e) os estudos realizados por Georg Simmel sobre a história da 
família e sobre o impacto do dinheiro nas relações entre os sexos 
demonstram que a organização das estruturas de parentesco não 
possuem relação com as concepções históricas do conceito de 
gênero. 
 
Questão 04 
A construção do masculino e do feminino em uma sociedade, no 
entanto, varia de acordo não somente com seu conjunto de 
normas instituídas, mas principalmente por tradições, valores e 
subjetividades, materializadas pela existência de indicadores que 
traduzem as desigualdades vivenciadas pela população, apesar 
dos pactos, tratados e resoluções construídas na direção da 
promoção de igualdade. 
 
BICALHO, P. P. G. et al. Os direitos sexuais e o enfrentamento da violência 
sexual. Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 24, n.1, 2012, p. 36. 
 
A respeito das desigualdades de gênero, assinale a alternativa 
correta. 
 
a) As desigualdades de gênero, no Brasil, são maiores que nos 
outros países mais desenvolvidos. 
b) A igualdade entre homens e mulheres existe, uma vez que está 
presente na Constituição. 
c) Há diversas instituições, normas e condutas das pessoas que 
expressam as desigualdades de gênero. 
d) A população deve ser vista como uma totalidade não 
fragmentada para que as desigualdades deixem de existir. 
e) Somente uma ética da tolerância é capaz de estimular 
condutas da desigualdade. 
 
Questão 05 
A República Islâmica do Irã abençoa e incentiva operações de 
troca de sexo, em nome de uma política que considera todo 
cidadão não heterossexual como espírito nascido no corpo 
errado. Com ao menos 50 cirurgias por ano, o país é recordista 
mundial em mudança de sexo, após a Tailândia. Oficialmente, 
gays não existem no país. Ficou famosa a frase do presidente 
Mahmoud Ahmadinejad dita a uma plateia de estudantes nos EUA 
em 2007, de que “não há homossexuais no Irã”. A 
homossexualidade nem consta da lei. Mas sodomia é passível de 
execução. […] Uma transexual operada confidenciou um 
sentimento amplamente compartilhado em silêncio: “Não teria 
mutilado meu corpo se a sociedade tivesse me aceitado do jeito 
que eu nasci”. 
 
(Samy Adghirny. Operação antigay. Folha de S.Paulo, 
13.01.2013.) 
 
O incentivo a cirurgias de troca de sexo no Irã é motivado por 
a) tabus sexuais decorrentes do fundamentalismo religioso 
hegemônico naquele país. 
b) critérios de natureza científica que definem o que é uma 
“sexualidade normal”. 
c) uma política governamental fundamentada em princípios 
liberais de cidadania. 
d) influências ocidentais ocasionadas pelo processo de 
globalização cultural pela internet. 
e) pressões exercidas pelos movimentos sociais homossexuais 
pelo direito à cirurgia. 
 
Questão 06 
A relação de gênero e um dos temas mais discutidos da 
sociedade, ao longo do tempo. Analise a questão de gênero e 
relacione com os conflitos culturais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) 
 
RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA 
 
Questão 01: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa D 
Questão 02: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa B 
 
Questão 03: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa A 
 
Questão 04: 
Resolução: . 
 
Resposta: Alternativa C 
 
Questão 05: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa A 
 
Questão 06: 
Resolução: É de consenso nas ciências sociais considerar que o 
gênero é uma construção social que os indivíduos incorporam 
desde criança, quando são colocados em contato com as 
instituições sociais. É nessa socialização que os indivíduos 
apreendem os papéis sociais que cada gênero deve 
desempenhar na sociedade. Tais papéis são naturalizados e, 
assim, as pessoas passam a considerar que é “natural” que o 
homem vá trabalhar e a mulher fique em casa. Ainda que haja 
diferenças anatômicas entre homens e mulheres, tais diferenças 
não são suficientes para explicar as diferenças sociais entre 
gêneros. 
 
 
 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA 
Prof. Márcio Michiles 
FILOSOFIA – LINGUAGEM 
 
A IMPORTÂNCIA DA LINGUAGEM 
 Na abertura da sua obra Política, Aristóteles afirma que 
somente o homem é um “animal político”, isto é, social e cívico, 
porque somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais, 
escreve Aristóteles, possuem voz (phone) e com ela exprimem 
dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e, com ela, 
exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em 
comum esses valores é o que torna possível a vida social e 
política e, dela, somente os homens são capazes. Segue a 
mesma linha o raciocínio de Rousseau no primeiro capítulo do 
Ensaio sobre a origem das línguas: A palavra distingue os 
homens dos animais; a linguagem distingue as nações entre si. 
Não se sabe de onde é um homem antes que ele tenha falado. 
Escrevendo sobre a teoria da linguagem, o linguista Hjelmslev 
afirma que “a linguagem é inseparável do homem, segue-o em 
todos os seus atos”, sendo “o instrumento graças ao qual o 
homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas 
emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento 
graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base mais 
profunda da sociedade humana.” Prosseguindo em sua 
apreciação sobre a importância da linguagem, Rousseau 
considera que a linguagem nasce de uma profunda necessidade 
de comunicação: Desde que um homem foi reconhecido por outro 
como um ser sensível, pensante e semelhante a si próprio, o 
desejo e a necessidade de comunicar-lhe seus sentimentos e 
pensamentos fizeram-no buscar meios para isso. Gestos e vozes, 
na busca da expressão e da comunicação, fizeram surgir a 
linguagem. Por seu turno, Hjelmslev afirma que a linguagem é “o 
recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas 
solitárias em que o espírito luta contra a existência, e quando o 
conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do 
pensador.” A linguagem, diz ele, está sempre à nossa volta, 
sempre pronta a envolver nossos pensamentos e sentimentos, 
acompanhando-nos em toda a nossa vida. Ela não é um simples 
acompanhamento do pensamento, “mas sim um fio 
profundamente tecido na trama do pensamento”, é “o tesouro da 
memória e a consciência vigilante transmitida de geração a 
geração”. A linguagem é, assim, a forma propriamente humana da 
comunicação, da relação com o mundo e com os outros, da vida 
social e política, do pensamentoe das artes. 
 No entanto, no diálogo Fedro, Platão dizia que a linguagem é 
um pharmakon. Esta palavra grega, que em português se traduz 
por poção, possui três sentidos principais: remédio, veneno e 
cosmético. 
 Ou seja, Platão considerava que a linguagem pode ser um 
medicamento ou um remédio para o conhecimento, pois, pelo 
diálogo e pela comunicação, conseguimos descobrir nossa 
ignorância e aprender com os outros. Pode, porém, ser um 
veneno quando, pela sedução das palavras, nos faz aceitar, 
fascinados, o que vimos ou lemos, sem que indaguemos se tais 
palavras são verdadeiras ou falsas. Enfim, a linguagem pode ser 
cosmético, maquiagem ou máscara para dissimular ou ocultar a 
verdade sob as palavras. A linguagem pode ser conhecimento-
comunicação, mas também pode ser encantamento-sedução. 
 Essa mesma idéia da linguagem como possibilidade de 
comunicação-conhecimento e de dissimulação-desconhecimento 
aparece na Bíblia judaico-cristã, no mito da Torre de Babel [Gn 
11.1-9], quando Deus lançou a confusão entre os homens, 
fazendo com que perdessem a língua comum e passassem a falar 
línguas diferentes, que impediam uma obra em comum, abrindo 
as portas para todos os desentendimentos e guerras. A 
pluralidade das línguas é explicada, na Escritura Sagrada, como 
punição porque os homens ousaram imaginar que poderiam 
construir uma torre que alcançasse o céu, isto é, ousaram 
imaginar que teriam um poder e um lugar semelhante ao da 
divindade. “Que sejam confundidos”, disse Deus. 
 
A FORÇA DA LINGUAGEM 
Podemos avaliar a força da linguagem tomando como exemplo os 
mitos e as religiões. A palavra grega mythos, como já vimos, 
significa narrativa e, portanto, linguagem. Trata-se da palavra que 
narra a origem dos deuses, do mundo, dos homens, das técnicas 
(o fogo, a agricultura, a caça, a pesca, o artesanato, a guerra) e 
da vida do grupo social ou da comunidade. Pronunciados em 
momentos especiais – os momentos sagrados ou de relação com 
o sagrado -, os mitos são mais do que uma simples narrativa; são 
a maneira pela qual, através das palavras, os seres humanos 
organizam a realidade e a interpretam. O mito tem o poder de 
fazer com que as coisas sejam tais como são ditas ou 
pronunciadas. O melhor exemplo dessa força criadora da palavra 
mítica encontra-se na abertura da Gênese, na Bíblia judaico-
cristã, em que Deus cria o mundo do nada, apenas usando a 
linguagem: “E Deus disse: faça-se!”, e foi feito. Porque Ele disse, 
foi feito. A palavra divina é criadora. Também vemos a força 
realizadora ou concretizadora da linguagem nas liturgias 
religiosas. Por exemplo, na missa cristã, o celebrante, 
pronunciando as palavras “Este é o meu corpo” e “Este é o meu 
sangue”, realiza o mistério da Eucaristia, isto é, a encarnação de 
Deus no pão e no vinho. Também nos rituais indígenas e 
africanos, os deuses e heróis comparecem e se reúnem aos 
mortais quando invocados pelas palavras corretas, pronunciadas 
pelo celebrante. A linguagem tem, assim, um poder encantatório, 
isto é, uma capacidade para reunir o sagrado e o profano, trazer 
os deuses e as forças cósmicas para o meio do mundo, ou, como 
acontece com os místicos em oração, tem o poder de levar os 
humanos até o interior do sagrado. Eis por que, em quase todas 
as religiões, existem profetas e oráculos, isto é, pessoas 
escolhidas pela divindade para transmitir mensagens divinas aos 
humanos. 
 Esse poder encantatório da linguagem aparece, por 
exemplo, quando vemos (ou lemos sobre) rituais de feitiçaria: a 
feiticeira ou o feiticeiro tem a força para fazer coisas acontecerem 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 pelo simples fato de, em circunstâncias certas, pronunciarem 
determinadas palavras. É assim que, nas lendas sobre o rei Artur 
e os cavaleiros da Távola Redonda, os feiticeiros Merlin e 
Morgana decidem o destino das guerras, pronunciando palavras 
especiais dotadas de poder. Também nos contos infantis há 
palavras poderosas (“Abre-te, Sésamo!”, “Shazam!”) e 
encantatórias (“Abracadabra”). Essa dimensão maravilhosa da 
linguagem da infância é explorada de maneira belíssima pelo 
cineasta Federico Fellini no filme Oito e Meio, quando a 
personagem adulta pronuncia as palavras “Asa Nisa Nasa”, 
trazendo de volta o passado. As palavras assumem o poder 
contrário também, isto é, criam tabus. Ou seja, há coisas que não 
podem ser ditas porque, se forem, não só trazem desgraças, 
como ainda desgraçam quem as pronunciar. As palavras-tabus 
existem nos contextos religiosos de várias sociedades (por 
exemplo, em muitas sociedades não se deve pronunciar a palavra 
“demônio” ou “diabo”, porque este aparece; em vez disso se diz “o 
cão”, “o demo”, “o tinhoso”). As palavras-tabus não existem 
apenas na esfera religiosa, mas também nos brinquedos infantis, 
quando certas palavras são proibidas a todos os membros do 
grupo, sob pena de punição para quem as pronunciar. 
 Existem, ainda, palavras-tabus na vida social, sob os efeitos 
da repressão dos costumes, sobretudo os que se referem a 
práticas sexuais. Assim, para certos grupos sociais de nossa 
sociedade e mesmo para nossa sociedade inteira, até os anos 60 
do século passado, eram proibidas palavras como puta, 
homossexual, aborto, amante, masturbação, sexo oral, sexo anal, 
etc. Tais palavras eram pronunciadas em meios masculinos e em 
locais privados ou íntimos. Também palavras de cunho político 
tendem a tornar-se quase tabus: revolucionário, terrorista, 
guerrilheiro, socialista, comunista, etc. O poder mágico-religioso 
da palavra aparece ainda num outro contexto: o do direito. Na 
origem, o direito não era um código de leis referentes à 
propriedade (de coisas ou bens, do corpo e da consciência), nem 
referentes à vida política (impostos, constituições, direitos sociais, 
civis, políticos), mas era um ato solene no qual o juiz pronunciava 
uma fórmula pela qual duas partes em conflito fariam a paz. 
 O direito era uma linguagem solene de fórmulas conhecidas 
pelo árbitro e reconhecidas pelas partes em litígio. Era o 
juramento pronunciado pelo juiz e acatado pelas partes. Donde as 
expressões “Dou minha palavra” ou “Ele deu sua palavra”, para 
indicar o juramento feito e a “palavra empenhada” ou “palavra de 
honra”. É por isso também que, até hoje, nos tribunais, se faz o(a) 
acusado(a) e as testemunhas responderem à pergunta: “Jura 
dizer a verdade, somente a verdade, nada além da verdade?”, 
dizendo: “Juro”. Razão pela qual o perjúrio – dizer o falso, sob 
juramento de dizer o verdadeiro – é considerado crime 
gravíssimo. 
 Nas sociedades menos complexas do que a nossa, isto é, 
nas sociedades que são comunidades, onde todos se conhecem 
pelo primeiro nome e se encontram todos os dias ou com 
frequência, a palavra dada e empenhada é suficiente, pois, 
quando alguém dá sua palavra, dá sua vida, sua consciência, sua 
honra e assume um compromisso que só poderá ser desfeito com 
a morte ou com o acordo da outra parte. É por isso que, nos 
casamentos religiosos, em que os noivos fazem parte da 
comunidade, basta que digam solenemente ao celebrante 
“Aceito”, para que o casamento esteja concretizado. 
Independentemente de acreditarmos ou não em palavras 
místicas, mágicas, encantatórias ou tabus, o importante é que 
existam, pois sua existência revela o poder que atribuímos à 
linguagem. Esse poder decorre do fato de que as palavras são 
núcleos, sínteses ou feixes de significações, símbolos e valores 
que determinam o modo como interpretamos as forças divinas, 
naturais, sociais e políticas e suas relações conosco. 
 
A OUTRA DIMENSÃO DA LINGUAGEM 
 Para referir-se à palavra e à linguagem, os gregos possuíam 
duas palavras: mythos e logos. Diferentemente do mythos,logos 
é uma síntese de três palavras ou idéias: fala/palavra, 
pensamento/idéia e realidade/ser. Logos é a palavra racional do 
conhecimento do real. É discurso (ou seja, argumento e prova), 
pensamento (ou seja, raciocínio e demonstração) e realidade (ou 
seja, os nexos e ligações universais e necessários entre os 
seres). É a palavra-pensamento compartilhada: diálogo; é a 
palavra-pensamento verdadeira: lógica; é a palavra-pensamento 
de alguma coisa: o “logia” que colocamos no final de palavras 
como cosmologia, mitologia, teologia, ontologia, biologia, 
psicologia, sociologia, antropologia, tecnologia, filologia, 
farmacologia, etc. 
 Do lado do logos desenvolve-se a linguagem como poder de 
conhecimento racional e as palavras, agora, são conceitos ou 
idéias, estando referidas ao pensamento, à razão e à verdade. 
Essa dupla dimensão da linguagem (como mythos e logos) 
explica por que, na sociedade ocidental, podemos comunicar-nos 
e interpretar o mundo sempre em dois registros contrários e 
opostos: o da palavra solene, mágica, religiosa, artística, e o da 
palavra leiga, científica, técnica, puramente racional e conceitual. 
Não por acaso, muitos filósofos das ciências afirmam que uma 
ciência nasce ou um objeto se torna científico quando uma 
explicação que era religiosa, mágica, artística, mítica cede lugar a 
uma explicação conceitual, causal, metódica, demonstrativa, 
racional. 
 
A ORIGEM DA LINGUAGEM 
 Durante muito tempo a Filosofia preocupou-se em definir a 
origem e as causas da linguagem. Uma primeira divergência 
sobre o assunto surgiu na Grécia: a linguagem é natural aos 
homens (existe por natureza) ou é uma convenção social? Se a 
linguagem for natural, as palavras possuem um sentido próprio e 
necessário; se for convencional, são decisões consensuais da 
sociedade e, nesse caso, são arbitrárias, isto é, a sociedade 
poderia ter escolhido outras palavras para designar as coisas. 
Essa discussão levou, séculos mais tarde, à seguinte conclusão: 
a linguagem como capacidade de expressão dos seres humanos 
é natural, isto é, os humanos nascem com uma aparelhagem 
física, anatômica, nervosa e cerebral que lhes permite 
expressarem-se pela palavra; mas as línguas são convencionais, 
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 isto é, surgem de condições históricas, geográficas, econômicas e 
políticas determinadas, ou, em outros termos, são fatos culturais. 
Uma vez constituída uma língua, ela se torna uma estrutura ou 
um sistema dotado de necessidade interna, passando a funcionar 
como se fosse algo natural, isto é, como algo que possui suas leis 
e princípios próprios, independentes dos sujeitos falantes que a 
empregam. 
 
Perguntar pela origem da linguagem levou a quatro tipos de 
respostas: 
1. a linguagem nasce por imitação, isto é, os humanos imitam, 
pela voz, os sons da Natureza (dos animais, dos rios, das 
cascatas e dos mares, do trovão e do vulcão, dos ventos, etc.). A 
origem da linguagem seria, portanto, a onomatopéia ou imitação 
dos sons animais e naturais; 
2. a linguagem nasce por imitação dos gestos, isto é, nasce como 
uma espécie de pantomima ou encenação, na qual o gesto indica 
um sentido. Pouco a pouco, o gesto passou a ser acompanhado 
de sons e estes se tornaram gradualmente palavras, substituindo 
os gestos; 
3. a linguagem nasce da necessidade: a fome, a sede, a 
necessidade de abrigar-se e proteger-se, a necessidade de 
reunir-se em grupo para defender-se das intempéries, dos 
animais e de outros homens mais fortes levaram à criação de 
palavras, formando um vocabulário elementar e rudimentar, que, 
gradativamente, tornou-se mais complexo e transformou-se numa 
língua; 
4. a linguagem nasce das emoções, particularmente do grito 
(medo, surpresa ou alegria), do choro (dor, medo, compaixão) e 
do riso (prazer, bem-estar, felicidade). Citando novamente 
Rousseau em seu Ensaio sobre a origem das línguas: Não é a 
fome ou a sede, mas o amor ou o ódio, a piedade, a cólera, que 
aos primeiros homens lhes arrancaram as primeiras vozes… Eis 
por que as primeiras línguas foram cantantes e apaixonadas 
antes de serem simples e metódicas. Assim, a linguagem, 
nascendo das paixões, foi primeiro linguagem figurada e por isso 
surgiu como poesia e canto, tornando-se prosa muito depois; e as 
vogais nasceram antes das consoantes. Assim como a pintura 
nasceu antes da escrita, assim também os homens primeiro 
cantaram seus sentimentos e só muito depois exprimiram seus 
pensamentos. Essas teorias não são excludentes. É muito 
possível que a linguagem tenha nascido de todas essas fontes ou 
modos de expressão, e os estudos de Psicologia Genética (isto é, 
da gênese da percepção, imaginação, memória, linguagem e 
inteligência nas crianças) mostra que uma criança se vale de 
todos esses meios para começar a exprimir-se. Uma linguagem 
se constitui quando passa dos meios de expressão aos de 
significação, ou quando passa do expressivo ao significativo. Um 
gesto ou um grito exprimem, por exemplo, medo; palavras, frases 
e enunciados significam o que é sentir medo, dão conteúdo ao 
medo. 
 
 
 
O QUE É A LINGUAGEM? 
 A linguagem é um sistema de signos ou sinais usados para 
indicar coisas, para a comunicação entre pessoas e para a 
expressão de idéias, valores e sentimentos. Embora tão simples, 
essa definição da linguagem esconde problemas complicados 
com os quais os filósofos têm-se ocupado desde há muito tempo. 
 
Essa definição afirma que: 
1. a linguagem é um sistema, isto é, uma totalidade estruturada, 
com princípios e leis próprios, sistema esse que pode ser 
conhecido; 
2. a linguagem é um sistema de sinais ou de signos, isto é, os 
elementos que formam a totalidade linguística são um tipo 
especial de objetos, os signos, ou objetos que indicam outros, 
designam outros ou representam outros. Por exemplo, a fumaça é 
um signo ou sinal de fogo, a cicatriz é signo ou sinal de uma 
ferida, manchas na pele de um determinado formato, tamanho e 
cor são signos de sarampo ou de catapora, etc. No caso da 
linguagem, os signos são palavras e os componentes das 
palavras (sons ou letras); 
3. a linguagem indica coisas, isto é, os signos linguísticos (as 
palavras) possuem uma função indicativa ou denotativa, pois 
como que apontam para as coisas que significam; 
4. a linguagem tem uma função comunicativa, isto é, por meio das 
palavras entramos em relação com os outros, dialogamos, 
argumentamos, persuadimos, relatamos, discutimos, amamos e 
odiamos, ensinamos e aprendemos, etc.; 
5. a linguagem exprime pensamentos, sentimentos e valores, isto 
é, possui uma função de conhecimento e de expressão, sendo 
neste caso conotativa, ou seja, uma mesma palavra pode 
exprimir sentidos ou significados diferentes, dependendo do 
sujeito que a emprega, do sujeito que a ouve e lê, das condições 
ou circunstâncias em que foi empregada ou do contexto em que é 
usada. Assim, por exemplo, a palavra água, se for usada por um 
professor numa aula de química, conotará o elemento químico 
que corresponde à fórmula H2O; se for empregada por um poeta, 
pode conotar rios, chuvas, lágrimas, mar, líquido, pureza, etc.; se 
for empregada por uma criança que chora pode estar indicando 
uma carência ou necessidade como a sede. A definição nos diz, 
portanto, que a linguagem é um sistema de sinais com função 
indicativa, comunicativa, expressiva e conotativa. No entanto, 
essa definição não nos diz várias coisas. Por exemplo, como a 
fala se forma em nós? Por que a linguagem pode indicar coisas 
externas e também exprimir idéias (internas ao pensamento)? Por 
que a linguagem pode ser diferente quando falada pelo cientista, 
pelo filósofo, pelo poeta ou pelo político? Como a linguagem pode 
ser fonte de engano, de mal-entendido,de controvérsia ou de 
mentira? O que se passa exatamente quando dialogamos com 
alguém? O que é escrever? E ler? Como podemos aprender uma 
outra língua? Na resposta a várias dessas perguntas, vamos 
encontrar uma divergência que já encontramos quando 
estudamos a razão, a verdade, a percepção ou a imaginação, 
qual seja, a diferença entre empiristas e intelectualistas. 
 
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 EMPIRISTAS E INTELECTUALISTAS DIANTE DA LINGUAGEM 
 Para os empiristas, a linguagem é um conjunto de imagens 
corporais e mentais formadas por associação e repetição e que 
constituem imagens verbais (as palavras). As imagens corporais 
são de dois tipos: motoras e sensoriais. As imagens motoras são 
as que adquirimos quando aprendemos a articular sons (falar) e 
letras (escrever), graças a mecanismos anatômicos e fisiológicos. 
As imagens sensoriais são as que adquirimos quando, graças aos 
nossos sentidos, à fisiologia de nosso sistema nervoso, sobretudo 
a de nosso cérebro, aprendemos a ouvir (compreender sons e 
vozes) e a reconhecer a grafia dos sons (ler). As imagens verbais 
são aprendidas por associação, em função da freqüência e 
repetição dos sinais externos que estimulam nossa capacidade 
motriz e sensorial. A palavra ou imagem verbal é uma síntese de 
imagens motoras e sensoriais armazenadas em nosso cérebro. 
 O que levou a essa concepção empirista da linguagem foi o 
estudo médico de “perturbações da linguagem”: a afasia 
(incapacidade para usar e compreender todas as palavras 
disponíveis na língua); a agrafia (incapacidade para escrever ou 
para escrever determinadas palavras); a surdez verbal (ouvir as 
palavras sem conseguir compreendê-las) e a cegueira verbal (ler 
sem conseguir entender). Os médicos que estudaram essas 
perturbações concluíram que estavam relacionadas com lesões 
no cérebro e que, portanto, a linguagem era um fenômeno físico 
(anatômico e fisiológico) do qual não temos consciência 
(desconhecemos suas causas), mas de cujos efeitos temos 
consciência, isto é, falamos, ouvimos, escrevemos, lemos e 
compreendemos o sentido das palavras. 
 A linguagem seria uma soma de causas físicas e de efeitos 
psíquicos cujos átomos ou elementos seriam as imagens verbais 
associadas. Os intelectualistas, porém, apresentam uma 
concepção muito diferente desta. Embora aceitem que a 
possibilidade para falar, ouvir, escrever e ler esteja em nosso 
corpo (anatomia e fisiologia) afirmam que a capacidade para a 
linguagem é um fato do pensamento ou de nossa consciência. A 
linguagem, dizem eles, é apenas a tradução auditiva, oral, gráfica 
ou visível de nosso pensamento e de nossos sentimentos. A 
linguagem é um instrumento do pensamento para exprimir 
conceitos e símbolos, para transmitir e comunicar idéias abstratas 
e valores. A palavra, dizem eles, é uma representação de um 
pensamento, de uma idéia ou de valores, sendo produzida pelo 
sujeito pensante que usa os sons e as letras com essa finalidade. 
O pensamento puro seria silencioso ou mudo e formaria, para 
manifestar-se, as palavras. Duas provas poderiam confirmar essa 
concepção da linguagem: o fato de que o pensamento procura e 
inventa palavras; e o fato de que podemos aprender outras 
línguas, porque o sentido de duas palavras diferentes em duas 
línguas diferentes é o mesmo e tal sentido é a idéia formada pelo 
pensamento para representar ou indicar as coisas. A grande 
prova dos intelectualistas contra os empiristas foi a história de 
Helen Keller. Nascida cega, surda e muda, Helen Keller aprendeu 
a usar a linguagem sem nunca ter visto as coisas e as palavras, 
sem nunca ter escutado ou emitido um som. Se a linguagem 
dependesse exclusivamente de mecanismos e disposições 
corporais, Helen Keller jamais teria chegado à linguagem. Mas 
chegou. E chegou quando compreendeu a relação simbólica entre 
duas expressões diferentes: numa das mãos, sentia correr a água 
de uma torneira, enquanto a outra mão, na qual segurava uma 
agulha, guiada por sua professora, ia traçando a palavra água; 
quando se tornou capaz de compreender que uma mão traduzia o 
que a outra sentia, tornou-se capaz de usar a linguagem. Assim, a 
linguagem, longe de ser um mecanismo instintivo e biológico, 
seria um fato puro da inteligência, uma atividade intelectual 
simbólica e de compreensão, uma pura tradução de 
pensamentos. As concepções empirista e intelectualista, apesar 
de suas divergências, possuem dois pontos em comum: 
1. ambas consideram a linguagem como sendo 
fundamentalmente indicativa ou denotativa, isto é, os signos 
linguísticos ou as palavras servem apenas para indicar coisas; 
2. ambas consideram a linguagem como um instrumento de 
representação das coisas e das idéias, ou seja, as palavras têm 
apenas uma função ou um uso instrumental representativo. Esses 
dois pontos de concordância fazem com que, para as duas 
correntes filosóficas, os aspectos conotativos ou a função 
conotativa da linguagem seja considerada algo perturbador e 
negativo. Em outros termos, o fato de que a comunicação verbal 
se realize com as palavras assumindo sentidos diferentes, 
dependendo de quem fala e ouve, escreve e lê, do contexto e das 
circunstâncias em que as enunciamos, é considerado perturbador 
porque, afinal, as coisas são sempre o que elas são e as idéias 
são sempre o que elas são, de modo que as palavras deveriam 
ter sempre um só e mesmo sentido para indicar claramente as 
coisas e representar claramente as idéias. Por esse motivo, 
periodicamente, aparecem na Filosofia correntes filosóficas que 
se preocupam em “purificar” a linguagem para que ela sirva 
docilmente às representações conceituais. Tais correntes julgam 
que a linguagem perfeita para o pensamento é a das ciências e, 
particularmente, a da matemática e a da física. 
 
PURIFICAR A LINGUAGEM 
 Uma dessas correntes filosóficas desenvolveu-se no século 
passado com o nome de positivismo lógico. Os positivistas 
lógicos distinguiram duas linguagens: 
1. a linguagem natural, isto é, aquela que usamos todos os dias e 
que é imprecisa, confusa, mescla de elementos afetivos, volitivos, 
perceptivos e imaginativos; 
2. a linguagem lógica, isto é, uma linguagem purificada, 
formalizada (ou seja, com enunciados sem conteúdo e 
avaliadores do conteúdo das linguagens científicas e filosóficas), 
inspirada na matemática e sobretudo na física. Essa linguagem 
obedecia a princípios e regras lógicas precisas e funcionava por 
meio de operações chamadas cálculos simbólicos (semelhantes 
às operações da matemática), que permitiam avaliar com exatidão 
se um enunciado era verdadeiro ou falso. Dava-se ênfase à 
sintaxe lógica dos enunciados, que asseguraria a verdade 
representativa e indicativa da linguagem. A conotação foi 
afastada. 
 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 A linguagem lógica era uma metalinguagem, isto é, uma 
segunda linguagem que falava sobre língua natural e sobre 
linguagem científica para saber se os enunciados delas eram 
verdadeiros ou falsos. Assim, por exemplo, na linguagem comum 
e diária dizemos: “O livro é de autoria de José Antônio Silva” e, na 
metalinguagem lógica, diremos: “A proposição ‘O livro é de autoria 
de José Antônio Silva’ é uma proposição verdadeira se e somente 
se forem preenchidas as condições x, y, z”. 
 No entanto, descobriu-se, pouco a pouco, que havia 
expressões linguísticas que não possuíam caráter denotativo nem 
representativo, e, apesar disto, eram verdadeiras. Descobriu-se 
também que havia inúmeras formas de linguagem que não 
podiam ser reduzidas aos enunciados lógicos e tipo matemático e 
físico. Descobriu-se,ainda, que a linguagem usa certas 
expressões para as quais não existe denotação. Por exemplo, as 
preposições e as conjunções só têm existência na linguagem e 
não na realidade. Além disso, descobriu-se que a redução da 
linguagem ao cálculo simbólico ou lógico despojava de qualquer 
verdade e de qualquer pretensão ao conhecimento a ontologia, a 
literatura, a história, bem como várias ciências humanas, isto é, 
todas as linguagens que são profundamente conotativas, para as 
quais a multiplicidade de sentido das palavras e das coisas é sua 
própria razão de ser. 
 
CRÍTICA AO EMPIRISMO E AO INTELECTUALISMO 
 As concepções empiristas e intelectualistas também 
sofreram sérias críticas dos estudiosos da linguagem no campo 
da psicologia. 
 Os psicólogos Goldstein e Gelb fizeram estudos 
aprofundados da afasia e descobriram situações curiosas. Por 
exemplo, ordena-se a um afásico: “Coloque nesta pilha todas as 
fitas azuis que você encontrar nesta caixa”. O afásico inicia a 
separação. Ao encontrar uma fita azul-claro ele a coloca na pilha 
das fitas azuis, conforme lhe foi dito, mas também passa a colocar 
ali fitas verde-claro, rosa-claro e lilás-claro. Os dois psicólogos 
observaram, assim, que a palavra azul não formava uma 
categoria ou uma idéia geral para o afásico e que, portanto, seu 
problema de linguagem era também um problema de 
pensamento. No entanto, do ponto de vista cerebral ou 
anatômico, a parte do cérebro destinada à inteligência estava 
perfeita, sem nenhuma lesão. Com isso, compreendeu-se que os 
empiristas estavam enganados e que a linguagem não é um mero 
conjunto de imagens verbais, mas é inseparável de uma visão 
mais global da realidade e inseparável do pensamento. Esses 
estudos, porém, não reforçaram a concepção intelectualista, como 
poderíamos supor. De fato, basta tentarmos imaginar o que seria 
um pensamento puro, mudo, silencioso para compreendermos 
que não seria nada, não pensaria nada. Não pensamos sem 
palavras, não há pensamento antes e fora da linguagem, as 
palavras não traduzem pensamentos, mas os envolvem e os 
englobam. É justamente por isso que a criança aprende a falar e a 
pensar ao mesmo tempo, pois, para ela, uma coisa se torna 
conhecida e pensável ao receber um nome. Como escreveu 
Merleau-Ponty, a linguagem é o corpo do pensamento. 
A LINGUÍSTICA E A LINGUAGEM 
 Durante o século XIX, o estudo da linguagem ou linguística 
tinha como preocupação encontrar a origem da linguagem e das 
línguas, considerando o estado presente ou atual de uma língua 
como resultado ou efeito de causas situadas no passado. A 
linguagem era estudada sob duas perspectivas: a da filologia, que 
buscava a história das palavras pelo estudo das raízes, com o 
propósito de chegar a uma única língua original, mãe ou matriz de 
todas as outras; e a da gramática comparada, que estudava 
comparativamente as línguas existentes com o propósito de 
encontrar famílias linguísticas e chegar à língua-mãe original. 
Nesses estudos, retomava-se a discussão sobre o caráter natural 
ou convencional da linguagem. Também era comum aos filólogos 
e gramáticos a idéia de que as línguas se transformam no tempo 
e que as transformações eram causadas por fatores 
extralinguísticos (migrações, guerras, invasões, mudanças sociais 
e econômicas, etc.). 
 Tais estudos, porém, viram-se diante de problemas que não 
conseguiam resolver. Um desses problemas foi o aparecimento 
do estudo das flexões (tempos verbais, maneira de indicar o plural 
e o singular, aumentativos e diminutivos, declinações), revelando 
que as línguas mudavam por razões internas e não por fatores 
externos. Essa descoberta teve resultados curiosos. Um deles, 
aparecido na Alemanha, tomava as flexões como prova de que 
cada povo tem uma língua diferente porque esta exprimiria o 
caráter ou o espírito do povo. Haveria línguas doces e propícias 
aos sentimentos profundos (como a alemã); línguas rudes e mais 
voltadas para a prosa e a guerra (como o latim), etc. Em suma, 
cada estudioso inventava o “caráter da língua” segundo as 
fantasias e ideologias de sua nação e dos nacionalismos da 
época. A partir do século XX, uma nova concepção da linguagem 
foi elaborada pela linguística e seus pontos principais são: a 
linguagem é constituída pela distinção entre língua e fala ou 
palavra: a língua é uma instituição social e um sistema, ou uma 
estrutura objetiva que existe com suas regras e princípios 
próprios, enquanto a fala ou palavra é o ato individual de uso da 
língua, tendo existência subjetiva por ser o modo como os sujeitos 
falantes se apropriam da língua e a empregam. Assim, por 
exemplo, temos a língua portuguesa e a palavra ou fala de 
Camões, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, 
a sua e a minha; a língua é uma totalidade dotada de sentido no 
qual o todo confere sentido às partes, isto é, as partes não 
existem isoladas nem somadas, mas apenas pela posição e 
função que o todo da língua lhes dá e seu sentido vem dessa 
posição e dessa função. Assim, por exemplo, os signos r e l só 
existem nas línguas onde a diferença desses sons tem uma 
função importante para diferenciar sentidos, motivo pelo qual não 
operam significativamente em chinês e em japonês (ou seja, os 
chineses usam l indiferentemente para todas as palavras, sejam 
elas em l ou r; os japoneses usam r indiferentemente para todas 
as palavras, sejam elas em l ou r). Os signos são os elementos da 
língua; são valores e não coisas ou entidades, isto é, são o que 
valem por sua posição e por sua diferença com relação aos 
demais signos; numa língua, distinguem-se signo e significado, ou 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 significante e significado: o signo é o elemento verbal material da 
língua (r, l, p, b, q, g, por exemplo), enquanto o significado são os 
conteúdos ou sentidos imateriais (afetivos, volitivos, perceptivos, 
imaginativos, evocativos, literários, científicos, retóricos, 
filosóficos, políticos, religiosos, etc.) veiculados pelos signos; o 
significante é uma cadeia ou um grupo organizado de signos 
(palavras, frases, orações, proposições, enunciados) que 
permitem a expressão dos significados e garantem a 
comunicação; a relação dos signos ou significantes com as coisas 
é convencional e arbitrária, mas, uma vez constituída a língua 
como sistema de relações entre signos/significantes e 
significados, a relação com as coisas indicadas, nomeadas, 
expressadas ou comunicadas torna-se uma relação necessária 
para todos os falantes da língua. Assim, por exemplo, a distinção 
entre pa e ba, pata e bata é convencional, mas uma vez fixada 
pela língua, torna-se necessária e inquestionável; como as partes 
(signos ou significantes) de uma língua recebem seu sentido e 
sua função pelo lugar que o todo da língua lhes confere, essas 
partes distinguem-se umas das outras apenas por suas 
diferenças, e a língua é uma estrutura constituída por diferenças 
internas ou por oposições pertinentes entre os signos. Por 
exemplo, em português, existem os signos p e b, d e t porque 
suas diferenças são pertinentes para o sentido das palavras (dizer 
pata e bata, dente e tente é dizer sentidos diferentes); também 
existe a oposição pertinente entre o r e o l, mas tal oposição ou 
diferença não existe em japonês e em chinês e por isso, como 
vimos, tais signos não existem nessas línguas. 
 Por relação com sua própria língua, quando um japonês fala 
o português, é levado a usar sempre o r (que corresponde a um 
som ou signo diferencial existente em japonês, isto é, faz sentido 
em japonês) e a substituir o l por r. 
 Quando um chinês fala o português ocorre exatamente o 
contrário, prevalece o l porque este som e signo tem relação com 
o todo da língua chinesa,e o r não. Em inglês, não existe o signo-
som ão e, assim, quando um inglês fala o português, tende a usar 
an e am porque são signos-sons que fazem sentido em inglês. A 
língua, portanto, é feita dessas diferenças internas e por isso se 
diz que os signos são diacríticos e que a língua é uma estrutura 
diacrítica; a língua é um código (conjunto de regras que 
permitem produzir informação e comunicação) e se realiza 
através de mensagens, isto é, pela fala/palavra dos sujeitos que 
veiculam informações e se comunicam de modo específico e 
particular (a mensagem possui um emissor, aquele que emite ou 
envia a mensagem, e um receptor, aquele que recebe e 
decodifica a mensagem, isto é, entende o que foi emitido); o 
sujeito falante possui duas capacidades: a competência (isto é, 
sabe usar a língua) e a performance (isto é, tem seu jeito pessoal 
e individual de usar a língua); a competência é a participação do 
sujeito em uma comunidade linguística e a performance são os 
atos de linguagem que realiza; a língua se realiza em duas 
dimensões: a sincronia, ou seja, o todo da língua tomado na 
simultaneidade ou no seu estado atual ou presente; e a 
diacronia, ou seja, a língua vista sucessivamente, através de 
suas mudanças no tempo ou de sua história; a língua é 
inconsciente, isto é, nós a falamos sem ter consciência de sua 
estrutura, de suas regras e seus princípios, de suas funções e 
diferenças internas; vivemos nela e com ela e a empregamos sem 
necessidade de conhecê-la cientificamente. 
 Alguns exemplos poderão ajudar-nos a compreender todos 
esses pontos. Uma língua é como um jogo de xadrez: é um todo 
no qual cada peça tem seu sentido, seu lugar e sua função por 
diferença ou por oposição às demais peças. O jogo é uma 
convenção ou um código com suas regras próprias, princípios e 
leis, e cada partida é a maneira como jogadores individuais usam 
e interpretam as regras, leis e princípios gerais do jogo (a 
diferença entre os jogadores e os sujeitos falantes é que estes 
falam a língua respeitando o código, mas sem conhecê-lo 
conscientemente, enquanto os jogadores precisam conhecer o 
código para poder jogar). 
 O jogo existe antes e depois de cada partida. Cada partida 
rearranja o tabuleiro e chega a resultados diferentes, mas as 
regras do jogo são sempre as mesmas. Em cada partida, os 
jogadores podem jogar porque conhecem o código e porque 
sabem interpretar os lances um do outro, respondendo a cada um 
deles. A linguística veio mostrar algo muito interessante e que 
explica por que falar uma língua estrangeira ou traduzir um texto 
estrangeiro não são coisas simples como julgavam os 
intelectualistas. Por exemplo, em inglês, é possível dizer “The 
man I love ”. Quando traduzimos para o português temos: “O 
homem que amo”. Observamos que, em inglês, parece “faltar” 
uma palavra: o “que”. Notamos também que em inglês parece 
“sobrar” uma palavra: o “I”, o “eu”, que não usamos na frase em 
português. Para um inglês, evidentemente, não falta e nem sobra 
nada. Este sentimento de falta ou sobra mostra que a diferença 
entre o inglês e o português não é de vocabulário, mas de 
estrutura linguística. No caso da tradução da palavra inglesa 
cheese e da palavra francesa fromage para o português, queijo, 
temos a impressão de que passamos sem problema de uma 
língua para outra. Mas não é o caso. Quando um inglês usa 
cheese, ele está se referindo ou a algo leitoso e cremoso, quase 
sem gosto, ou a algo mais duro e forte, que se pode comer sem 
outra coisa. O francês, por seu turno, ao dizer fromage estará 
pensando em queijos muito diferentes, dependendo da região 
onde mora, da hora e do dia em que vai comer o queijo, sempre 
acompanhado de pão e vinho. Para um inglês e para um francês, 
queijo jamais poderia ser imaginado junto com um doce, enquanto 
para nós, brasileiros, queijo (de Minas, prato, requeijão baiano) 
vai bem com goiabada ou com doce de leite, com o pão com 
manteiga e o café com leite. Assim dizer cheese não é dizer 
fromage nem queijo; dizer fromage não é dizer cheese nem 
queijo; dizer queijo não é dizer cheese nem fromage. Esse 
segundo exemplo explica o que os lingüistas querem dizer 
quando afirmam que o momento da criação de um signo (cheese, 
fromage, queijo) é arbitrário ou convencional, mas, uma vez 
criado, passa a ter um sentido necessário naquela língua (cheese 
é cheese e não é fromage nem queijo). Esse exemplo nos mostra 
também que uma língua é algo social, histórico, determinado por 
condições específicas de uma sociedade e de uma cultura. 
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 A EXPERIÊNCIA DA LINGUAGEM 
 Dizer que somos seres falantes significa dizer que temos e 
somos linguagem, que ela é uma criação humana (uma instituição 
sociocultural), ao mesmo tempo em que nos cria como humanos 
(seres sociais e culturais). A linguagem é nossa via de acesso ao 
mundo e ao pensamento, ela nos envolve e nos habita, assim 
como a envolvemos e a habitamos. Ter experiência da linguagem 
é ter uma experiência espantosa: emitimos e ouvimos sons, 
escrevemos e lemos letras, mas, sem que saibamos como, 
experimentamos sentidos, significados, significações, emoções, 
desejos, idéias. Após o caminho feito até aqui, podemos voltar à 
definição inicial que demos da linguagem e nela fazer alguns 
acréscimos. Em primeiro lugar, teremos que especificar melhor 
que tipo de signo é o signo linguístico. Por que uma palavra é 
diferente, por exemplo, da fumaça que indica fogo? Ou, se se 
preferir, qual é a diferença entre a fumaça-signo-de-fogo, que 
vejo, e a palavra fumaça, que pronuncio ou escuto? A fumaça é 
uma coisa que indica outra coisa (fogo). A palavra fumaça, porém, 
é um símbolo, isto é, algo que indica, representa, exprime 
alguma coisa que é de natureza diferente dela. O símbolo é um 
análogo (a bandeira simboliza a nação, por exemplo) e não um 
efeito da coisa indicada, representada ou exprimida. O símbolo 
verbal ou palavra me reenvia a coisas que não são palavras: 
coisas materiais, idéias, pessoas, valores, seres inexistentes, etc. 
A linguagem é simbólica e, pelas palavras, nos coloca em relação 
com o ausente. A linguagem é, pois, inseparável da imaginação. 
Em segundo lugar, temos que especificar melhor as várias 
funções que atribuímos à linguagem (indicativa ou denotativa, 
comunicativa, expressiva, conotativa) e para isso precisamos 
indagar com o que a linguagem se relaciona e nos relaciona. 
Evidentemente, diremos que a linguagem nos relaciona com o 
mundo e com os outros seres humanos. Mas como se dá essa 
relação? Essa pergunta, como vimos, era central para o 
Positivismo Lógico. Por seus erros e acertos, ele foi responsável 
pelo surgimento de uma nova disciplina filosófica, a Filosofia da 
Linguagem, intimamente ligada às investigações lógicas, 
transformando-se com elas e graças a elas. A grande 
preocupação da Filosofia da Linguagem resume-se numa 
pergunta: As palavras realmente dizem as coisas tais como são? 
Descrevem e explicam verdadeiramente a realidade? 
 Tradicionalmente, dizia-se que a linguagem possuía a forma 
de uma relação binária, isto é, entre dois termos: 
 signo verbal <-> coisa indicada (realidade) 
 signo verbal <-> idéia, conceito, valor (pensamento) 
 No entanto, é possível perceber que essa relação binária não 
nos explica por que uma palavra ou um signo verbal indica 
alguma coisa ou alguma idéia, pois, se ele fosse simplesmente 
denotativo ou indicativo e dual, não poderia haver o fenômeno da 
conotação, isto é, uma mesma palavra indicando coisas e idéias 
diferentes. Tomemos um exemplo a que já nos referimos várias 
vezes em outros capítulos e que foi muito trabalhado pelo filósofo 
alemão Frege. “Estrela da manhã” e “estrelada tarde” indicam 
Vênus. Mas falar na estrela d’alva, na estrela da tarde, na estrela 
matutina e na estrela vespertina não é a mesma coisa, ainda que 
todas essas expressões se refiram a Vênus. Em cada uma 
dessas expressões, o sentido de Vênus muda e esse sentido é 
expresso pelas palavras que se referem ao mesmo planeta. 
Assim, as palavras indicam-denotam alguma coisa, mas também 
a conotam, isto é, referem-se aos sentidos dessa coisa. 
Imaginemos ou recordemos a leitura de um romance. 
Começamos a ler entendendo tudo o que o escritor escreveu 
porque referimos suas palavras a coisas que já conhecemos, a 
idéias que já possuímos e ao vocabulário comum entre ele e nós. 
Pouco a pouco, porém, o livro vai ganhando espessura própria, 
percebemos as coisas de outra maneira, mudamos idéias que já 
tínhamos, vemos surgir pessoas (personagens) com vida própria 
e história própria, sentimos que as palavras significam de um 
modo diferente daquele com o qual estamos habituados a usá-las 
todo dia. Uma realidade foi criada e penetramos em seu interior 
exclusivamente pelas mãos do escritor. Como isso é possível? 
Como as palavras poderiam criar um mundo, se elas apenas 
fossem sinais para indicar coisas e idéias já existentes? Com o 
romance descobrimos que as palavras se referem a 
significações, inventam significações, criam significações. 
Imaginemos ou recordemos um diálogo. Quantas vezes 
conversando com alguém, dizemos: “Puxa! Eu nunca tinha 
pensado nisso!”, ou então: “Você sabe que, agora, eu entendo 
melhor uma idéia que tinha, mas que não entendia muito bem?”, 
ou ainda: “Você me fez compreender uma coisa que eu sabia e 
não sabia que sabia”. Como essas frases são possíveis? É que a 
linguagem tem a capacidade especial de nos fazer pensar 
enquanto falamos e ouvimos, nos faz compreender nossos 
próprios pensamentos tanto quanto os dos outros que falam 
conosco. Ela nos faz pensar e nos dá o que pensar porque se 
refere a significados, tanto os já conhecidos por outros quanto os 
já conhecidos por nós, bem como os que não conhecíamos por 
estarmos conversando. Esses exemplos nos levam a considerar a 
linguagem sob uma forma ternária: palavra ou signo significante 
<-> sentido ou significação; significado ↔ realidade ou mundo 
(coisas, pessoas) e instituições sociais, políticas, culturais O 
mundo suscita sentidos e palavras, as significações levam à 
criação de novas expressões linguísticas, a linguagem cria novos 
sentidos e interpreta o mundo de maneiras novas. Há um vai-e-
vem contínuo entre as palavras e as coisas, entre elas e as 
significações, de tal modo que a realidade, o pensamento e a 
linguagem são inseparáveis, suscitam uns aos outros e 
interpretam-se uns aos outros. A linguagem: refere-se ao mundo 
através das significações e, por isso, podemos nos relacionar com 
a realidade através da palavra; relaciona-se com sentidos já 
existentes e cria sentidos novos e, por isso, podemos nos 
relacionar com o pensamento através das palavras; exprime e 
descobre significados e, por isso, podemos nos comunicar e nos 
relacionar com os outros; em o poder de suscitar significações, de 
evocar recordações, de imaginar o novo ou o inexistente e, por 
isso, a literatura é possível. A linguagem revela nosso corpo como 
expressivo e significativo, os corpos dos outros como expressivos 
e significativos, as coisas como expressivas e significativas, o 
mundo como dotado de sentido e o pensamento como trabalho de 
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 descoberta do sentido. As palavras têm sentido e criam sentido. 
Como escreve Merleau-Ponty: 
 A palavra, longe de ser um simples signo dos objetos e das 
significações, habita as coisas e veicula significações. Naquele 
que fala, a palavra não traduz um pensamento já feito, mas o 
realiza. E aquele que escuta recebe, pela palavra, o próprio 
pensamento. 
A linguagem não traduz imagens verbais de origem motora e 
sensorial, nem representa idéias feitas por um pensamento 
silencioso, mas encarna as significações. 
 
LINGUAGEM SIMBÓLICA E LINGUAGEM CONCEITUAL 
 A diferença entre linguagem simbólica e linguagem 
conceitual é o que deve interessar-nos agora. Fundamentalmente, 
a linguagem simbólica opera por analogias (semelhanças entre 
palavras e sons, entre palavras e coisas) e por metáforas 
(emprego de uma palavra ou de um conjunto de palavras para 
substituir outras e criar um sentido poético para a expressão). A 
linguagem simbólica realiza-se principalmente como imaginação. 
A linguagem conceitual procura evitar a analogia e a metáfora, 
esforçando-se para dar às palavras um sentido direto e não 
figurado ou figurativo. Isso não quer dizer que a linguagem 
conceitual seja puramente denotativa. Pelo contrário, nela a 
conotação é essencial, mas não possui uma natureza imaginativa 
ou imagética. 
 A linguagem simbólica (dos mitos, da religião, da poesia, do 
romance, do teatro) e a linguagem conceitual (das ciências, da 
filosofia) diferem sob os seguintes aspectos: 
 A linguagem simbólica é fortemente emotiva e afetiva, 
enquanto a linguagem conceitual procura falar das emoções e dos 
afetos sem se confundir com eles e sem se realizar por meio 
deles; 
 A linguagem simbólica oferece sínteses imediatas (imagens), 
enquanto a linguagem conceitual procede por desconstrução 
analítica e reconstrução sintética dos objetos, fazendo com que 
acompanhemos cada passo da análise e da síntese; 
 A linguagem simbólica nos oferece palavras polissêmicas, 
isto é, carregadas de múltiplos sentidos simultâneos e diferentes, 
tanto sentidos semelhantes e em harmonia, quanto sentidos 
opostos e contrários; a linguagem conceitual procura diminuir ao 
máximo a polissemia e a conotação, buscando fazer com que 
cada palavra tenha um sentido próprio e que seus diferentes 
sentidos dependam do contexto no qual é empregada; a 
linguagem simbólica leva-nos para dentro dela, arrasta-nos para 
seu interior pela força de seu sentido, de suas evocações, de sua 
beleza, de seu apelo emotivo e afetivo; a linguagem conceitual 
busca convencer-nos e persuadir-nos por meio de argumentos, 
raciocínios e provas. A linguagem simbólica fascina e seduz; a 
linguagem conceitual exige o trabalho lento do pensamento; a 
linguagem simbólica nos dá a conhecer o mundo criando um 
outro, análogo ao nosso, porém mais belo ou mais terrível do que 
o nosso, mais justo ou mais violento do que o nosso, mais antigo 
ou mais novo do que o nosso, mais visível ou mais oculto do que 
o nosso; a linguagem conceitual busca dizer o nosso mundo, 
decifrando seu sentido, ultrapassando suas aparências e seus 
acidentes; a linguagem simbólica, privilegiando a memória e a 
imaginação, nos diz como as coisas ou os homens poderiam ter 
sido ou poderão ser, voltando-se para um possível passado ou 
para um possível futuro; a linguagem conceitual busca dizer o 
nosso presente, fala do necessário, determinando suas causas ou 
motivos e razões; procura também as linhas de força de suas 
transformações e o campo dos possíveis, como possibilidade 
objetiva e não apenas desejada ou sonhada. 
 
RESUMINDO… 
 A linguagem em sentido amplo (isto é, englobando língua, 
fala e palavra) é constituída por quatro fatores fundamentais: 
1. fatores físicos (anatômicos, neurológicos, sensoriais), que 
determinam para nós a possibilidade de falar, escutar, escrever e 
ler; 
2. fatores socioculturais, que determinam a diferença entre as 
línguas e entre as línguas dos indivíduos. Assim, o português e o 
inglês correspondem a sociedades e culturas diferentes, bem 
como a linguagem de Machado de Assis e de Guimarães Rosa 
correspondem a momentos diferentes da cultura no Brasil; 
3. fatores psicológicos (emocionais, afetivos, perceptivos,imaginativos, lembranças, inteligência) que criam em nós a 
necessidade e o desejo da informação e da comunicação, bem 
como criam nossa capacidade para a performance linguística, 
seja ela cotidiana, artística, científica ou filosófica; 
4. fatores linguísticos propriamente ditos, isto é, a estrutura e o 
funcionamento da linguagem que determinam nossa competência 
e nossa performance enquanto seres capazes de criar e 
compreender significações. Esses fatores nos dizem por que 
existe linguagem e como ela funciona, mas não nos dizem o que 
é a linguagem. É a perspectiva fenomenológica que nos orienta 
para sabermos não só o que é a linguagem, mas também qual é 
seu papel fundamental no conhecimento: a linguagem não é 
mecanismo psicomotor (os fatores 1 e 3 apresentam as condições 
biológicas e psicológicas para haver linguagem, mas não qual é a 
natureza da experiência da palavra); a linguagem não é simples 
relação binária entre signo e coisa, signo e idéia, mas é uma 
relação ternária, na qual os signos são símbolos que veiculam 
significações; a linguagem não traduz pensamentos, mas participa 
ativamente da formação e formulação das idéias e dos valores; a 
linguagem é uma forma de nossa experiência total de seres que 
vivem no mundo e com outros; é uma dimensão de nossa 
existência; a linguagem, como a percepção e a imaginação, pode 
comprazer-se no já dado, já dito e já pensado, no instituído e 
estabelecido, ficando escrava dos preconceitos e das ideologias, 
pois, como disse Platão, ela pode ser remédio, veneno e 
máscara. Pode bloquear nosso conhecimento e pode produzir 
desconhecimento (mentira, desinformação). É, assim, nosso meio 
de acesso ao mundo, aos outros e à verdade, mas também o 
instrumento do engano, do falso e da mentira; a linguagem cria, 
interpreta e decifra significações, podendo fazê-lo miticamente 
ou logicamente, magicamente ou racionalmente, 
simbolicamente ou conceitualmente. 
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EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 
 
Questão 01 
“Para referir-se à palavra e à linguagem, os gregos possuíam 
duas palavras: mythos e lógos. Diferentemente do mythos, lógos 
é uma síntese de três ideias: fala/palavra, pensamento/ideia e 
realidade/ser. Lógos é a palavra racional em que se exprime o 
pensamento que conhece o real. É discurso (ou seja, argumento e 
prova), pensamento (ou seja, raciocínio e demonstração) e 
realidade (ou seja, as coisas e os nexos e as ligações universais e 
necessárias entre os seres). [...] Essa dupla dimensão da 
linguagem (como mythos e lógos) explica por que, na sociedade 
ocidental, podemos comunicar-nos e interpretar o mundo sempre 
em dois registros contrários e opostos: o da palavra solene, 
mágica, religiosa, artística e o da palavra leiga, científica, técnica, 
puramente racional e conceitual.” 
(CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2011, p. 187-
188). 
 
A partir do texto, assinale a(s) alternativa(s) correta(s). 
01) O mythos é uma linguagem que comunica saberes e 
conhecimentos. 
02) As coisas próprias do domínio religioso são inefáveis, ou seja, 
não podem ser pronunciadas e ditas pela linguagem humana. 
04) O mythos não possui o mesmo poder de convencimento e de 
persuasão que o lógos. 
08) O lógos é, ao mesmo tempo, o exercício da razão e sua 
enunciação para os seres humanos. 
16) O lógos é muito mais do que a palavra, é a expressão das 
qualidades essenciais do ser, a possibilidade de conhecer as 
coisas nos seus fundamentos primeiros. 
 
Questão 02 
Um dos principais problemas de nosso tempo diz respeito à 
linguagem: seus limites, suas vinculações, em suma, sua 
capacidade de traduzir em signos as coisas. A esse respeito, o 
filósofo francês Merleau-Ponty afirma: “A palavra, longe de ser um 
simples signo dos objetos e das significações, habita as coisas e 
veicula significações. Naquele que fala, a palavra não traduz um 
pensamento já feito, mas o realiza. E aquele que escuta recebe, 
pela palavra, o próprio pensamento” 
(In: CHAUI, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2011, p. 196). 
 
A partir do trecho citado, assinale a(s) alternativa(s) correta(s). 
01) A palavra torna real um pensamento por meio da fala, 
conferindo-lhe existência. 
02) A palavra não consegue expressar a totalidade do objeto 
enunciado. 
04) A palavra, ouvida ou escrita, é o pensamento manifesto em 
sua realidade. 
08) A palavra faz uma mediação entre as coisas e o pensamento. 
16) A palavra vincula-se intimamente aos objetos reais, pois é 
parte do ser desse objeto. 
 
Questão 03 
“Na abertura de sua obra Política, Aristóteles afirma que somente 
o homem é um ‘animal político’, isto é, social e cívico, porque 
somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais, escreve 
Aristóteles, possuem voz (phoné) e com ela exprimem dor e 
prazer, mas o homem possui a palavra (lógos) e, com ela, 
exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em 
comum esses valores é o que torna possível a vida social e, dela, 
somente os homens são capazes.” 
(CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 14ª edição. São Paulo: Ática, 
2011, p. 185). 
 
A partir dessa reflexão sobre o homem e a linguagem, assinale o 
que for correto. 
 
01) O homem se distingue dos animais porque possui linguagem 
simbólica, isto é, capaz de estabelecer ligações entre os signos e 
as coisas. 
02) Expressões artísticas, como a pintura, a fotografia e a dança, 
não podem ser consideradas formas de linguagens. 
04) A linguagem é um instrumento político, pois o domínio da 
linguagem culta é uma forma de segregação entre distintas 
classes sociais. 
08) A Lógica se distingue da linguagem natural porque não se 
ocupa com a significação dos conteúdos do pensamento, mas sim 
com sua expressão formal. 
16) Palavras “tabu” são aquelas proibidas de serem pronunciadas, 
sob pena de punição, como forma de reforçar laços sociais e 
reprimir costumes. 
 
Questão 04 
Considerando que a linguagem verbal é um dos principais 
elementos constitutivos do mundo cultural porque nos permite 
transcender a experiência vivida, é correto afirmar: 
 
a) O signo verbal tem a capacidade de apresentar para a 
consciência o respectivo objeto que se encontra ausente. 
b) O nome não tem relação alguma com seu referente. 
c) A relação entre significante e significado do signo verbal é 
aleatória e transcendental 
d) A cultura é um processo transcendental da constituição do 
imaginário popular. 
e) O signo verbal é extraído da realidade por meio de um 
processo de abstração. 
 
Questão 05 
 “A linguagem é um sistema de signos ou sinais usados para 
indicar as coisas, para a comunicação entre as pessoas e para a 
expressão de ideias, valores e sentimentos.” 
 
(CHAUI, Marilena. Convite à filosofia, p.151.) 
 
Através de leis que podem ser conhecidas, a linguagem constitui 
um tema privilegiado para a filosofia desde o seu surgimento até 
nossos dias. 
 
 
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 Sobre o exposto, assinale o que for correto. 
 
01) Na Poética e na Retórica, Aristóteles fixa as formas e usos da 
linguagem como resposta ao fenômeno da Torre de Babel, 
aperfeiçoando a comunicação entre as pessoas. 
02) O positivismo lógico da Escola de Viena é o movimento 
contrário às filosofias de conteúdo “oculto” e “profundo”, tendo em 
vista a clareza dos conceitos através da análise da linguagem. 
04) Chama-se linguagem denotativa aquela que designa 
diretamente as coisas, e linguagem conotativa aquela em que a 
palavra adquire significados implícitos para além do vínculo direto 
e imediato que mantém com os objetos da realidade. 
08) Chama-se sincroniada linguagem a sua parte atual ou 
presente, e diacronia da linguagem o estudo das transformações 
que ela recebe ao longo do tempo. 
16) Platão, no Crátilo, estabelece as duas teses que comandam a 
questão sobre a origem das línguas, a saber: a tese de que os 
nomes são naturais e adequados às coisas, e a tese de que os 
nomes são arbitrários e escolhidos pela convenção humana. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO 
 
Questão 01 
Leia o texto a seguir. 
 
Em A Câmara Clara: Nota sobre a Fotografia, Roland Barthes 
investiga, como espectador e não como fotógrafo, a estrutura da 
fotografia como sistema, como código: a linguagem fotográfica, 
portanto. E aponta um paradoxo: a imagem fotográfica é uma 
cópia do real e uma ficção. No que se refere à “emoção” de 
sujeito olhado e de sujeito que olha uma foto-retrato, o autor 
argumenta: “diante da objetiva, faço pose; então, sou, ao mesmo 
tempo, aquele que eu me julgo, aquele que eu gostaria que me 
julgassem, aquele que o fotógrafo me julga e aquele de que ele se 
serve para exibir sua arte. Assim, a fotografia é o advento de mim 
mesmo como outro, uma dissociação astuciosa da consciência de 
identidade; a fotografia transforma o sujeito em objeto.” 
 
Roland Barthes. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de 
Janeiro: Nova Fronteira, p. 22-3 (com adaptações). 
 
Com base no que está proposto acerca de retrato/fotografia no 
trecho acima, redija um texto, na modalidade padrão da língua 
portuguesa, apresentando sua visão sobre a seguinte questão: 
um rosto na foto-retrato — realidade ou ficção? 
 
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO 
 
 
 
Questão 02 
Leia o texto a seguir. 
 
O ser humano, no decorrer da sua existência na face da terra e 
graças à sua capacidade racional, tem desenvolvido formas de 
explicação do que há no intuito de estabelecer um nexo de 
sentido entre os fenômenos e as experiências por ele vivenciados. 
Essas vivências, à medida que são passíveis de expressão 
através das construções simbólicas contidas na linguagem, 
apresentam um caráter eminentemente social. 
 
(HANSEN, Gilvan. Modernidade, Utopia e Trabalho. Londrina: 
Edições Cefil, 1999. p.13.) 
 
 
Com base na obra Molhe Espiral, no texto e nos conhecimentos 
sobre o pensamento de Habermas, assinale a alternativa correta. 
a) A linguagem, em razão de sua dimensão material, inviabiliza a 
(re)produção simbólica da sociedade. 
b) As construções simbólicas se valem do apreço instrumental e 
do valor mercantil. 
c) A importância do simbólico na sociedade decorre de sua 
adequação aos parâmetros funcionais e técnicos. 
d) A dimensão simbólica da sociedade é inerente à forma como o 
homem assegura sentido à realidade. 
e) A forma de expressão dos elementos simbólicos na arena 
social deve atender a uma utilidade prática. 
 
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES 
Se a recente antropologia estrutural está certa (e suas hipóteses, 
de fato, elaboram as suposições de Leibniz e Herder), esses 
modelos de parentesco, essas convenções de mútua identificação 
que subjazem a toda sociedade humana, dependem vitalmente da 
disponibilidade e desenvolvimento da linguagem. A passagem do 
homem de um estado natural para um estado cultural – o principal 
ato isolado de sua história – está em todos os pontos 
entrelaçados com suas faculdades de fala. Os tabus do incesto e 
os consequentes sistemas de parentesco que tornam possível a 
definição e a sobrevivência biossocial de uma comunidade não 
precedem a linguagem. Muito provavelmente desenvolvem-se 
com ela e através dela. Não podemos proibir o que não podemos 
nomear. As regras de casamento exogâmico ou endogâmico só 
podem ser formuladas e – o que não é menos importante – 
transmitidas onde existam adequada sintaxe e taxionomia verbal. 
Fonte: Steiner, George. Extraterritorial: a literatura e a revolução 
da linguagem. São Paulo: Companhia das Letras/Secretaria de 
Estado da Cultura, 1990. p. 69/70. 
 
Questão 03 
No texto, 
 
I. a expressão "sintaxe" pode ser tomada como sinônimo de 
"regras de combinação". 
II. a reflexão do autor se dá acerca da importância da linguagem 
proposicional. 
III. "nomear" pode ser considerado como uma atividade linguística 
de predicação. 
 
Está(ão) correta(s) 
a) apenas I. 
b) apenas II. 
c) apenas III. 
d) apenas II e III. 
e) I, II e III. 
 
Questão 04 
Segundo o texto, 
 
I. o autor considera a linguagem como uma condição apenas 
suficiente para a passagem do homem de um estado natural 
para um estado cultural. 
II. os estudos recentes de antropologia estrutural conflitam com as 
especulações filosóficas de Leibniz e Herder. 
III. a capacidade de nomeação é uma condição necessária para o 
estabelecimento de interdição social. 
 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 Está(ão) correta(s) 
a) apenas I. 
b) apenas II. 
c) apenas III. 
d) apenas I e II. 
e) apenas II e III. 
 
Questão 05 
Em filosofia, quando se trata dos tipos de conhecimento, costuma-
se distinguir três tipos diferentes: o conhecimento proposicional 
(saber que), o conhecimento como habilidade (saber como) e o 
conhecimento como familiaridade (saber de). De acordo com as 
afirmações a seguir, relativas ao livro Primeiras estórias, de 
Guimarães Rosa, pode-se dizer que se trata de conhecimento 
 
I. Crianças, bandidos, gurus sertanejos e loucos povoam a galeria 
de personagens dos contos. 
II. A unidade do conjunto é garantida por um narrador-
protagonista de primeira pessoa, que se repete em todos os 
contos. 
III. Ao incorporar, na escrita, cacoetes e construções da fala, os 
contos privilegiam os sons e estruturas que, em várias 
passagens, rompem com o padrão culto da linguagem. 
 
a) como habilidade apenas. 
b) proposicional apenas. 
c) como familiaridade apenas. 
d) proposicional e como habilidade. 
e) como familiaridade e como habilidade. 
 
Questão 06 
A linguagem verbal é um sistema de símbolos que permite aos 
seres humanos ultrapassarem os limites da experiência vivida e 
organizar essa experiência sob forma abstrata, conferindo sentido 
ao mundo. 
 
Assinale o que for correto. 
01) A linguagem humana, da mesma forma que as linguagens de 
computador, é altamente estruturada e, por isso, inflexível; não 
fosse assim, a comunicação entre as pessoas seria impossível. 
02) A linguagem oral é o único meio à disposição do homem para 
sua comunicação e o estabelecimento de relações com os outros 
indivíduos. 
04) A formação do mundo cultural depende fundamentalmente da 
linguagem. Pela linguagem, o homem deixa de reagir somente ao 
presente imediato, podendo pensar o passado e o futuro e, com 
isso, construir o seu projeto de vida. 
08) Os nomes são símbolos ou representações dos objetos do 
mundo real e das entidades abstratas. Como representações, os 
nomes têm o poder de tornar presente para nossa consciência o 
objeto que não está dado aos sentidos. 
16) O homem é a única espécie animal dotada da capacidade de 
linguagem mediante a palavra e faz uso de símbolos, isto é, 
refere-se às coisas por meio de signos convencionados, enquanto 
na linguagem de outros animais os signos são índices. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA 
 
Questão 01: 
Resolução: 
 A questão propõe ao aluno uma reflexão apurada a respeito 
da realidade da fotografia. Podendo assumir duas posições, o 
aluno pode argumentar que sim,que é real um rosto na foto-
retrato (afinal, há instrumentos objetivos e científicos que 
produzem essa imagem); ou que não, que o rosto ali presente 
é uma ficção, uma imagem resultante de uma objetivação 
sempre parcial e incompleta de um sujeito que não existe na 
fotografia, mas somente além dela. 
 
Resposta: Alternativa 
 
Questão 02: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa D 
 
Questão 03: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa E 
 
Questão 04: 
Resolução: . 
 
Resposta: Alternativa C 
 
Questão 05: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa B 
 
Questão 06: 
Resolução: 
 04 + 08 + 16 = 28. 
 
Resposta: Alternativa 
 
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Prof. Márcio Michiles 
ÉTICA E MORAL 
 
A Ética e a Moral 
 Conceituando e distinguindo a ética da moral. 
 No contexto filosófico, ética e moral possuem diferentes 
significados. A ética está associada ao estudo fundamentado 
dos valores morais que orientam o comportamento humano em 
sociedade, enquanto a moral são os costumes, regras, tabus e 
convenções estabelecidas por cada sociedade. 
Os termos possuem origem etimológica distinta. A palavra “ética” 
vem do Grego “ethos” que significa “modo de ser” ou “caráter”. Já 
a palavra “moral” tem origem no termo latino “morales” que 
significa “relativo aos costumes”. 
 Ética é um conjunto de conhecimentos extraídos da 
investigação do comportamento humano ao tentar explicar as 
regras morais de forma racional, fundamentada, científica e 
teórica. É uma reflexão sobre a moral. 
 Moral é o conjunto de regras aplicadas no cotidiano e 
usadas continuamente por cada cidadão. Essas regras orientam 
cada indivíduo, norteando as suas ações e os seus julgamentos 
sobre o que é moral ou imoral, certo ou errado, bom ou mau. 
No sentido prático, a finalidade da ética e da moral é muito 
semelhante. São ambas responsáveis por construir as bases que 
vão guiar a conduta do homem, determinando o seu caráter, 
altruísmo e virtudes, e por ensinar a melhor forma de agir e de se 
comportar em sociedade. 
Fonte: http://www.significados.com.br/etica-e-moral/ 
 
 
 
 
Fonte: http://1to1center.wordpress.com/page/2/ 
 Os valores éticos de uma sociedade estão sempre sendo 
colocados a crivo como pode-se ver nessas imagens, 
frequentemente somos colocados diante de situações nas quais a 
nossa decisão depende daquilo que consideramos bom, justo ou 
moralmente correto. Toda vez que isso ocorre, estamos diante de 
uma decisão que envolve um julgamento moral, a partir do qual 
vamos orientar nossa ação. 
 O Ser Humano é segundo o próprio Aristóteles o único capaz 
de distinguir o certo do errado, o bem do mal, o bom do ruim. 
“Os homens são bons de um modo apenas, porém são maus de 
muitos modos” (Aristóteles, Ética a Nicomaco) 
 Muitos foram os filósofos que versaram sobre a Ética e a 
Moral, os termos escolhidos para a apresentação são bases para 
o desenvolvimento das ideias. 
 
DESENVOLVENDO A TEMÁTICA 
Ética 
 Tema complexo, a ética envolve ao mesmo tempo reflexões 
metafísicas e reflexões sobre os problemas concretos da vida 
cotidiana. 
 O Dicionário de filosofia, de Nicola Abbagnano, define ética 
como a ciência da moral, ou ciência da conduta, que possui duas 
concepções fundamentais: uma que considera a ética uma ciência 
do fim para o qual a conduta dos homens deve ser orientada; e 
outra que se preocupa menos com o fim e mais com a 
investigação das questões que impulsionam a conduta humana. A 
primeira concepção busca entender qual a finalidade da vida, 
afirmando que o ideal para o qual o homem se dirige é a 
felicidade. Nessa perspectiva, Aristóteles defendeu que os atos do 
homem racional devem ser virtuosos para que ele alcance a 
felicidade. Em sua obra Ética a Nicômaco, Aristóteles propôs que 
a alma moderada e racional deve evitar os extremos (o excesso e 
a deficiência) se quiser evitar o comportamento vicioso. Sua lista 
de virtudes inclui coragem, temperança, liberalidade, 
magnanimidade, mansidão, franqueza e justiça, sendo esta última 
considerada a maior de todas. Essa concepção foi desenvolvida 
por numerosos outros pensadores ocidentais. A Idade Média, por 
exemplo, permaneceu fiel a ela com São Tomás de Aquino, que 
imaginou Deus como o fim último do homem, princípio esse do 
qual deriva sua doutrina da felicidade e da virtude. Já para Hegel, 
que segue a mesma concepção, o Estado era o objetivo da 
conduta humana. Esse Estado é a totalidade ética, o ápice do que 
ele designa como eticidade. Mesmo criticando a moral vigente no 
século XIX, também Nietzsche propôs uma doutrina que, 
estruturalmente, mantinha a noção de ética como ciência do fim. 
Mas para ele, novas virtudes eram necessárias para substituir as 
antigas e assim formar o super-homem, virtudes que diriam sim à 
vida e ao mundo: altivez, alegria, saúde, amor sexual, inimizade, 
guerra, vontade forte, disciplina intelectual, entre outras. Como 
esse filósofo inverteu toda a moralidade então vigente, fruto da 
religião e da tradição, costuma-se dizer que Nietzsche é 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 imoralista. Certamente, a postura nietzschiana quanto à ética é 
profundamente distinta da ocidental-cristã. 
 Já a segunda concepção da ética investiga as motivações 
das ações humanas, e não essas ações propriamente. Alguns 
filósofos chegaram a dizer que o móvel da conduta dos homens (o 
que os faz seguirem regras) era o desejo de sobreviver; outros 
que a motivação humana era o prazer; outros, ainda, que era a 
autoconservação. 
 Mas a definição de ética como ciência da moral não é aceita 
por todos. Nelson Saldanha, em seu livro Ética e História, pensa 
ser um equívoco definir ética como ciência. O autor recusa-se a 
aceitar a ética como um modelo abstrato de normas categóricas e 
prescritivas e dá a entender que não há apenas uma ética, mas 
éticas diferentes conforme os distintos agrupamentos humanos. 
Segundo essa definição, ética é um conceito histórico e relativo, 
isto é, histórica e socialmente situado. Mas o autor distingue a 
moral e a ética universais, inerentes ao ser humano, das 
experiências éticas específicas de cada contexto histórico. De 
forma mais abrangente, Saldanha define ética como o conjunto de 
todas as formas de normatividade vigentes nos agrupamentos 
humanos. Conceito que concilia, assim, a postura mais universal 
de que todos os seres humanos têm ética e a postura histórica, 
que diferencia as múltiplas experiências éticas de diferentes 
culturas. 
 Segundo o filósofo Manfredo Araújo de Oliveira, são três os 
pressupostos fundamentais para o conhecimento da ética: o 
primeiro diz que o homem é o único ser que precisa constituir-se 
como ser, justificando seus atos e decisões, e como o homem é o 
ser da decisão, a ética é uma questão eminentemente humana. 
Segundo, a ética diz respeito não apenas ao homem em sua 
transcendência e universalidade, mas ao homem em sua 
historicidade e particularidade, tornando-se um tema tanto da 
Filosofia quanto da História. Por último, a ética, sobretudo a 
chamada ética prática, diz respeito à vida de todos nós, quando 
deparamos com situações em que temos de tomar decisões para 
resolver problemas como o aborto, a eutanásia, o tratamento 
dispensado aos animais a responsabilidade de ajudar os pobres, 
entre outras situações. 
 O conceito de ética se relaciona aos conceitos afins de 
problema ético e de ação ética. Peter Singer define um problema 
ético como aquele que exige do indivíduo um confrontamento, 
uma escolha séria e racional a ser tomada. Para o autor, os juízos 
éticos são universalizáveis, e além dissoa ação verdadeiramente 
ética é aquela que pode ser justificada não apenas pelos 
interesses do indivíduo que a executa, mas também pelos 
interesses dos outros sobre quem essa ação recai. Ou seja, não 
estamos agindo eticamente quando só nossos interesses estão 
envolvidos. Isso é fundamental para se pensar as nossas 
responsabilidades para com os outros, sejam eles parentes, 
amigos, membros de nossa própria comunidade ou pessoas 
distantes. A dimensão racional da ética, entretanto, não significa 
que há correspondência perfeita entre razão e ética. Se a ação 
ética envolve uma racionalidade que lhe fundamenta, a ação 
racional não envolve necessariamente a ética. Uma pessoa 
egoísta pode fundamentar racionalmente ações não éticas. Um 
investidor da bolsa de valores, por exemplo, pode praticar uma 
ação racional com respeito aos fins que almeja, mas as 
considerações de cunho ético podem passar bem longe dessa 
ação. 
 Para Singer, as pessoas costumam confundir ética com 
moralismo proibitivo, sobretudo em questões relativas à 
sexualidade e ao prazer; outras a encaram como um sistema 
ideal, nobre na teoria, mas inaplicável na realidade; há ainda 
quem pense que a ética só tem sentido do ponto de vista religioso 
(agir corretamente é seguir os mandamentos divinos); por fim, há 
aqueles que adotam o relativismo e o subjetivismo em questões 
éticas, negando a possibilidade concreta de princípios éticos de 
validade universal. O autor refuta todas essas visões: primeiro, a 
ética não é moralismo sexual, pois mesmo na era da aids o ato 
sexual em si não envolve nenhuma questão moral específica, 
embora envolva considerações gerais, como honestidade, 
prudência, preocupação com os outros; segundo, a ética não é 
uma cartilha, um sistema de normas simples e práticas do tipo 
Não minta, Não roube, Não mate (normas simples como essas 
não resolvem a complexidade da vida); terceiro, ética e religião 
não são termos necessariamente sinônimos, e o comportamento 
ético, em si, não precisa do respaldo da autoridade divina ou da 
religião para se efetivar. Platão já argumentava: se os deuses 
aprovam algumas ações, isso ocorre porque elas já são boas em 
si mesmas, e não porque os deuses as aprovaram. A ética, do 
ponto de vista da Filosofia e da História, apela para a liberdade e 
a autonomia do ser racional, e não para a autoridade divina ou 
religiosa. Quarto, dizer que a ética é relativa a uma sociedade 
específica é certo, por um lado, e falso, por outro, pois princípios 
mais gerais podem ter validade universal; por fim, a ética não é 
subjetiva porque os juízos éticos estão sujeitos à crítica e à razão, 
não sendo ações puramente individuais de um sujeito isolado. 
 Singer acredita que a razão exerce importante papel nas 
decisões éticas, e a ética é universal. Esses argumentos são 
interessantes e polêmicos, sobretudo em uma época como a que 
vivemos, em que a razão e a ideia de uma ética universalizante 
vêm sendo desacreditadas. A própria Filosofia ocidental pós-
moderna, como indica Manfredo Araújo de Oliveira, vem falando 
do fim da Razão, que estaria dando lugar a uma pluralidade de 
razões fragmentárias, situadas historicamente. Os teóricos pós-
modernos encaram a pluralidade não apenas como um fato, mas 
como um valor que liberta o homem do totalitarismo de uma ética 
universal etnocêntrica. Por fim, alertam para o risco de 
determinados valores de uma cultura específica se tornarem 
universais de modo arbitrário e postulam a necessidade de éticas 
particulares. Ou seja, a negação da Razão, pela pós-
modernidade, implica a negação da Ética como conjunto de 
princípios universais da conduta humana. A pós-modernidade 
está ligada a um profundo senso histórico, pensando o Homem (e 
a ética) em sua particularidade. 
 Se, por um lado, tal conduta ajuda a desconstruir o 
etnocentrismo da ciência, que considera os valores ocidentais 
oriundos do Iluminismo universais, por outro, o relativismo pós-
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 moderno levado a extremos não responde aos principais 
problemas éticos do mundo contemporâneo. Se todos os 
governos e povos julgarem que sua ética particular está correta 
em si mesma, e não tem relação com a ética de outros povos e 
governos, jamais haverá consensos estáveis sobre temas como a 
preservação do meio ambiente, a ajuda humanitária aos países 
pobres, as ações de violência contra os direitos humanos, 
relações comerciais mais justas, entre outros temas da agenda 
política mundial. Não há como negar o pluralismo cultural que 
existe no mundo e mesmo nos países, assim como não é possível 
negar as raízes históricas da ética de cada povo, mas isso não 
significa que devemos renunciar ao princípio do homem em sua 
universalidade. 
 O grande projeto que a humanidade precisa colocar no 
Terceiro Milênio, segundo sugere Sergio Paulo Rouanet, é o de 
reconquistar a universalidade perdida do homem. Esse projeto 
não deve resultar na imposição de valores ocidentais a outros 
povos. A humanidade precisa encontrar nas particularidades de 
cada cultura o elemento universal para a construção de uma ética 
para toda a humanidade. Nesse sentido, os professores de 
História do ensino Fundamental e Médio devem se preocupar com 
a ética nas escolas, estimulando ações éticas quanto aos 
problemas do mundo contemporâneo e discutindo o tema no dia a 
dia. As escolas também precisam estar envolvidas com projetos 
educativos sobre questões éticas, pois as instituições de ensino 
interessadas apenas em cumprir programas curriculares podem 
perder de vista a dimensão formativa do homem como ser ético e 
político. A ética, já dizia Aristóteles, é uma reflexão que tem como 
ponto de partida a vida histórica dos homens e busca melhorar a 
práxis, que é a prática social consciente. Ou seja, a ética não é 
uma reflexão estritamente metafísica, uma vez que busca efetivar-
se historicamente como ações virtuosas. Esse sentido da ética 
relacionada à práxis humana implica o estabelecimento de 
relação entre os homens, no sentido de que as nossas escolhas 
diante de problemas éticos afetam os outros, e não dizem respeito 
unicamente ao agente da decisão. Esse sentido comunitário, 
engendrado no conceito aristotélico, precisa ser retomado e 
discutido na contemporaneidade. 
 A precariedade da formação filosófica da maioria dos 
historiadores brasileiros é responsável pelo desconhecimento de 
obras fundamentais de autores como Aristóteles e Nietzsche. Mas 
muitas ferramentas didáticas e paradidáticas estão à disposição 
dos profissionais de ensino. Uma boa sugestão para o trabalho 
em sala de aula é desenvolver a discussão da ética em linguagem 
acessível aos alunos. Um caminho pode ser o debate filosófico 
em torno da série de tv norte-americana, bastante conhecida no 
Brasil, Os Simpsons. Por meio de uma perspectiva bem-
humorada sobre um programa de TV popular, os professores e 
estudantes do Ensino Médio podem começar a conhecer o 
pensamento filosófico de pensadores como Aristóteles e 
Nietzsche, assim como adentrar discussões sobre ética, moral e 
virtude. O trabalho interdisciplinar entre História, Filosofia e 
Sociologia deve ser tentado, adotando temas importantes da 
atualidade, como aids, terrorismo, guerras, fundamentalismo, 
religião, ciência, entre outros. 
 
Moral 
 Moral trata-se de um conjunto de valores, normas e noções 
sobre o que é certo ou errado, proibido e permitido, dentro de uma 
determinada sociedade. 
Numa breve definição de moral, podemos dizer que se trata do 
conjunto de valores, de normas e de noções do que é certo ou 
errado, proibido e permitido, dentro de uma determinada 
sociedade, de uma cultura. Como sabemos, as práticas positivas 
de um código moral são importantespara que possamos viver em 
sociedade, fato que fortalece cada vez mais a coesão dos laços 
que garantem a solidariedade social. Do contrário, teríamos uma 
situação de caos, de luta de todos contra todos para o 
atendimento de nossas vontades. 
 Assim, moral tem a ver com os valores que regem a ação 
humana enquanto inserida na convivência social, tendo assim um 
caráter normativo. A moral diz respeito a uma consciência coletiva 
e a valores que são construídos por convenções, as quais são 
formuladas por uma consciência social, o que equivale dizer que 
são regras sancionadas pela sociedade, pelo grupo. Segundo 
Émile Durkheim, um dos pensadores responsáveis pela origem da 
Sociologia no final do século XIX, a consciência social é fruto da 
coletividade, da soma e inter-relação das várias consciências 
individuais. 
 Dessa forma, as mais diferentes expressões culturais 
possuem diferentes sistemas morais para organização da vida em 
sociedade. Prova disso está nas diferenças existentes entre os 
aspectos da cultura ocidental e oriental, em linhas gerais. Basta 
avaliarmos o papel social assumido pelas mulheres quando 
comparamos brasileiras e afegãs, assim como aquele assumido 
pelos anciãos nas mais diferentes sociedades, o gosto ou 
desinteresse pela política. Devemos sempre ter em mente que a 
moral, por ser fruto da consciência coletiva de uma determinada 
sociedade e cultura, pode variar através da dinâmica dos tempos. 
 Ao partirmos então da ideia de que a moral é construída 
culturalmente, algumas “visões de mundo” ganham status de 
verdade entre os grupos sociais e, por isso, muitas vezes são 
“naturalizadas”. Essa naturalização de uma visão cultural é o que 
dificulta conseguirmos distinguir entre juízo de fato (análise 
imparcial) e de valor (fruto da subjetividade), o que pode ser uma 
armadilha que nos leva ao desenvolvimento de preconceitos em 
relação ao que nos é estranho e diferente. 
 Considerar o outro ou o próximo é um aspecto fundamental à 
moralidade. Dessa forma, uma preocupação constante no debate 
sobre ética e moral se dá no sentido de evitar a violência em 
todas as suas possíveis expressões (física ou psíquica), bem 
como o caos social. Os valores éticos (ou morais) se oferecem, 
portanto, como expressão e garantia de nossa condição de seres 
humanos ou de sujeitos racionais e agentes livres, proibindo 
moralmente a violência e favorecendo a coesão social, isto é, a 
“ligação” entre as pessoas em sociedade. Porém, considerando-
se que o código moral é constituído pela cultura, a violência não é 
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 vista da mesma forma por todas as culturas. Numa cultura, ao 
definir o que é mau ou violento, automaticamente defini-se o que 
é bom. Logo, a noção de violação, profanação e discriminação 
variam de uma cultura para outra. Contudo, em todas se tem a 
noção do que é a violência. 
 Assim, tanto os valores como a ideia de virtude são 
fundamentais à vida ética e, dessa forma, evitam a violência, o ato 
imoral ou antiético. Ser virtuoso, em linhas gerais, significa 
desejar e saber colocar em prática ações éticas, isto é, 
moralmente louváveis. A noção de bem e mal ou bom e mau é 
fundamental para que calculemos uma forma de fugir do 
sofrimento, da dor, alcançando a felicidade de forma virtuosa. 
 Contudo, é importante lembrar que fins éticos requerem 
meios éticos, o que nos faz deduzir que a famosa expressão 
“todos os fins justificam os meios” não é válida quando se busca 
ser virtuoso. Se em nosso código moral consideramos o roubo 
como algo imoral, roubar seria assim um meio injustificável para 
se alcançar qualquer coisa, ainda que isso fosse feito em nome 
de algum valor moral. A simples existência da moral não significa 
a presença explícita de uma ética, entendida como filosofia moral, 
isto é, uma reflexão que discuta, problematize e interprete o 
significado dos valores morais. Ao contrário disso, as sociedades 
tendem a naturalizar seus valores morais ao longo das gerações, 
isto é, ocorre uma aceitação -generalizada. 
 
Ética de Kant 
Kant 
A moral Kantiana exclui a ideia de que possamos ser regidos se 
não por nós próprios. É a pessoa humana, ela própria, que é a 
medida e a fonte do dever. O homem é criador dos valores 
morais, dirige ele próprio a sua conduta. 
Como para Rousseau, será para Kant a consciência a fonte dos 
valores. Mas não se trata de uma consciência instintiva e 
sentimental; A Consciência moral para Kant é a própria Razão. 
Assim, a moral de Kant é uma moral racional: a regra da 
moralidade é estabelecida pela razão – O Princípio do dever é a 
pura Razão. A regra da ação não é uma lei exterior a que o 
homem se submete, mas é uma lei que a razão, Atividade 
Legisladora, impõe à sensibilidade. Nestas condições, o homem, 
no ato moral, é ao mesmo tempo, Legislador e Súbdito. 
 
 É uma ética formal, vazia de conteúdo, na medida em que: 
1º - não estabelece nenhum bem ou fim que tenha que ser 
alcançado 
2º - não nos diz o que temos que fazer, mas apenas como 
devemos atuar 
 O que interessa é a intenção, a coerência entre a ação e a 
lei, e não o fim. 
 A ética Kantiana possui uma Forma e não um conteúdo à 
essa forma necessária é a Universalidade: O racional é o 
Universal. 
 
 
 
 Kant critica as éticas tradicionais por serem: 
a) empíricas – cujo conteúdo é extraído da experiência e portanto 
não permite leis universais. 
b) os preceitos das éticas materiais são hipotéticos ou 
condicionais (meios para atingir um fim. 
c) as éticas materiais são heterónomas – a lei moral é recebida, 
não radica na razão. A vontade é determinada a atuar deste ou 
daquele modo por desejo ou inclinação. 
 Na base da moral Kantiana está presente um determinado 
conceito de Homem. 
- O homem é um ser que se auto-regula a si mesmo, que se auto-
determina em liberdade. 
- O homem possui neste sentido um poder absoluto – a sua razão 
autônoma e livre determina a sua própria lei. 
- O homem é um destino, isto é, um ser que tem que fazer-se a si 
mesmo – Personalização – “ao homem cabe o destino moral da 
personalização.” 
- Mas o homem, em virtude da sua constituição, participa também 
do mundo sensível, da animalidade. 
- O homem é um ser dividido dentro de si próprio. Por um lado é 
um Ser Empírico, enquanto livre arbítrio que pode ou não agir 
segundo a representação da lei moral. Por outro lado é um Ser 
Inteligível, na medida em que leva em si um tipo de Causalidade 
Livre, que se impõe como exigência absoluta e incondicional. 
 O Homem como Ser Moral à Autonomamente à Lei Moral 
 O que é a Lei Moral? 
 A lei moral é para Kant, Universal, Necessária e «apriori», 
pois o seu fundamento não poderia ter sido tirado da experiência 
onde existem muitas inclinações e desejos contraditórios. 
A lei moral fundamenta-se na liberdade da Razão e tem origem na 
consciência moral, isto é, na razão autônoma. 
 A lei moral é a lei que o homem enquanto ser racional e livre 
descobre em si mesmo como correspondendo à sua natureza. É 
uma lei intrínseca da razão. É a existência da moralidade no 
homem – A Personalidade – que o identifica com Deus: 
“Maximamente pessoa e ideal de existência personalizada, isto é, 
absolutamente causadora de si”. 
 No homem a Lei Moral afirma-se como um Dever e assume 
a forma de Imperativo Categórico. 
 DEVER – O que é então o dever para Kant? 
 “A necessidade de uma ação por puro respeito à lei” 
 “O valor moral de uma ação não radica pois em qualquer fim 
a atingir, mas apenas na máxima, no motivo que determina a sua 
realização, quando este motivo é o dever. 
 Uma ação feita por dever tem o seu valor moral, não nofim 
que através dela se queira alcançar, mas na máxima pela qual ela 
resultou: não depende pois da realidade do objeto, mas apenas 
meramente do princípio do querer”. 
 Para Kant “uma ação não é obrigatória porque é boa, é boa 
porque é obrigatória”. 
Para Kant o Dever é o Bem: A Boa Vontade é a Vontade de agir 
por Dever. 
 
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 A Lei Moral que se impõe por Dever assume a Forma 
de Imperativo Categórico. 
 O imperativo categórico, ou da moralidade, determina a ação 
independentemente de todo o fim a atingir e tem o seu 
fundamento apenas na consciência moral. 
 O imperativo moral é categórico (e não hipotético) sem 
qualquer condição. Respeita à forma e princípio donde resulta a 
ação (“o valor da ação moral ... vem do princípio da vontade que o 
produziu”) isto é a Intenção, se assim não fosse, as suas 
determinações ficariam sujeitas à possibilidade material de 
realizar a ação apreciando-lhe as consequências, então não seria 
categórico. Essa forma necessária é a Universalidade: O Racional 
é o Universal. 
 A vontade não se determina só por leis, mas por fins, mas os 
fins subjetivos são relativos e só podem fundar imperativos 
hipotéticos. Só um fim em si pode fundar um imperativo 
categórico, só o homem é fim em si e tem valor absoluto, é 
pessoa; os objetos ou seres irracionais têm valor relativo, são 
coisas. 
 Se o homem é fim em si, a sua vontade só pode estar ao 
serviço da razão; a vontade moral é, pois, autônoma, e há 
heteronomia sempre que o ser racional obedece a um móvel 
exterior à Razão. 
 A lei moral é um imperativo e obriga o homem ao Dever. 
 O próprio princípio da moral à limite prático constituído por 
impulsos sensíveis que leva à finitude de quem deve realizá-la . 
 A moralidade não é racionalmente necessária de um Ser 
Infinito que se identifica com a Razão, mas sim a racionalidade 
possível de um ser que tanto pode assumir como não assumir a 
Razão como guia de conduta. 
 Aqui está a Raiz da exigência paradoxal de que o homem 
como sujeito de Liberdade valha como Número – mas afirmando-
se como Número o homem não anula a sua natureza sensível – o 
Ser Fenômeno. 
 A sua numeralidade mobiliza a sua fenomenalidade. 
 O mundo suprassensível que estabelece no ato da sua 
liberdade, é a forma da própria natureza sensível. 
 Mas o sujeito moral enquanto Número não deixa se 
ser fenômeno – a sensibilidade, e como tal nunca se identifica 
com a Razão, a moralidade nunca é conformidade completa de 
vontade com lei moral, nunca é Santidade. 
Fonte: http://afilosofiadaintegracao.blogspot.com.br/2009/03/etica-
de-kant.html 
 
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EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 
 
Questão 01 
No contexto da cultura ocidental e na história do pensamento 
político e filosófico, as considerações sobre a necessidade de 
valores morais prévios na organização do Estado e das 
instituições sociais sempre foi um tema fundamental devido à 
importância, para esse tipo de questão, dos conceitos de bem e 
de mal, indispensáveis à vida em comum. 
 
Diante desse fato da história do pensamento político e filosófico, a 
afirmação de Espinosa, segundo a qual “Se os homens 
nascessem livres, não formariam nenhum conceito de bem e de 
mal, enquanto permanecessem livres” (ESPINOSA, 1983, p. 264), 
quer dizer o seguinte: 
 
a) O homem é, por instinto, moralmente livre, fato que condiciona 
sua ideia de ética social. 
b) Assim como o indivíduo é anterior à sociedade, a liberdade 
moral antecede noções como bem e mal. 
c) Os valores morais que servem de base para nossa socialização 
são tão naturais quanto nossos direitos. 
d) Não poderíamos falar de bem e de mal se não nos 
colocássemos além da liberdade natural. 
e) Não há nenhum vínculo necessário entre viver livre e saber o 
que são bem e mal. 
 
Questão 02 
“Como toda lei prática representa uma ação possível como boa e 
por isso como necessária para um sujeito praticamente 
determinável pela razão, todos os imperativos são fórmulas da 
determinação da ação que é necessária segundo o princípio de 
uma vontade boa de qualquer maneira. No caso da ação ser 
apenas boa como meio para qualquer outra coisa, o imperativo é 
hipotético; se a ação é representada como boa em si, por 
conseguinte, como necessária numa vontade em si conforme à 
razão como princípio dessa vontade, então o imperativo é 
categórico”. 
Kant 
 
Considerando o pensamento ético de Kant e o texto acima, é 
correto afirmar que 
 
a) o imperativo hipotético representa a necessidade prática de 
uma ação como subjetivamente necessária para um ser 
determinável pelas inclinações. 
b) o imperativo categórico representa a necessidade prática de 
uma ação como meio para se atingir um fim possível ou real. 
c) os imperativos (hipotético e categórico) são fórmulas de 
determinação necessária, segundo o princípio de uma vontade 
que é boa em si mesma. 
d) o imperativo categórico representa a ação como boa em si 
mesma e como necessária para uma vontade em si conforme a 
razão. 
e) o imperativo hipotético declara a ação como objetivamente 
necessária independentemente de qualquer intenção ou finalidade 
da ação. 
 
 
Questão 03 
“... a função própria do homem é um certo modo de vida, e este é 
constituído de uma atividade ou de ações da alma que 
pressupõem o uso da razão, e a função própria de um homem 
bom é o bom e nobilitante exercício desta atividade ou a prática 
destas ações [...] o bem para o homem vem a ser o exercício ativo 
das faculdade da alma de conformidade com a excelência, e se 
há mais de uma excelência, em conformidade com a melhor e a 
mais completa entre elas. Mas devemos acrescentar que tal 
exercício ativo deve estender-se por toda a vida, pois uma 
andorinha só não faz verão (nem o faz um dia quente); da mesma 
forma, um dia só, ou um curto lapso de tempo, não faz um homem 
bem-aventurado e feliz”. 
Aristóteles. 
 
Considerando o texto citado e o pensamento ético de Aristóteles, 
seguem as afirmativas abaixo: 
 
I. O bem mais elevado que o ser humano pode almejar é a 
eudaimonia (felicidade), havendo uma concordância geral de 
que o bem supremo para o homem é a felicidade, e que bem 
viver e bem agir equivale a ser feliz. 
II. A eudaimonia (felicidade) é sempre buscada por si mesma e 
não em função de outra coisa, pois o ser humano escolhe o 
viver bem como a mais elevada finalidade e por nada além do 
próprio viver bem. 
III. Definindo a eudaimonia (felicidade) a partir da função própria 
da alma racional e do exercício ativo das faculdades da alma 
em conformidade com a excelência (virtude) conclui-se que, 
aos seres humanos, só é possível levar uma vida constituída 
por momentos de felicidade decorrentes da satisfação dos 
desejos e paixões que não se subordinam à atividade 
racional. 
IV. A eudaimonia (felicidade) é um certo modo de vida constituído 
de uma atividade ou de ações por via da razão e conforme a 
ela, sendo o bem melhor para o homem o exercício ativo das 
faculdades da alma em conformidade com a excelência 
(virtude), que deve estender-se por toda a vida. 
V. A excelência (virtude) humana, como realização excelente da 
tarefa humana, reside no exercício ativo da racionalidade, pois 
a função própria de um homem bom é o bom e nobilitante 
exercício desta atividade ou na prática destas ações em 
conformidade com a virtude, sendo este o bem humano 
supremo e a última finalidade desiderativa humana. 
 
Das afirmativas feitas acima 
 
a) somente a afirmação I está incorreta. 
b) somente a afirmação III está incorreta. 
c) as afirmações III e V estão corretas. 
d) as afirmaçõesI e III estão corretas. 
e) as afirmações II, III e IV estão corretas. 
 
Questão 04 
Elaborada nos anos de 1980, em um contexto de preocupações 
com o meio ambiente e o risco nuclear, a Ética do Discurso 
buscou reorientar as teorias deontológicas que a antecederam. 
 
 
 
 
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 Um exemplo está contido no texto a seguir. 
 
De maior gravidade são as consequências que um conceito 
restrito de moral comporta para as questões da ética do meio 
ambiente. O modelo antropocêntrico parece trazer uma espécie 
de cegueira às teorias do tipo kantiano, no que diz respeito às 
questões da responsabilidade moral do homem pelo seu meio 
ambiente. 
 
(HABERMAS, Jürgen. Comentários à Ética do Discurso. Trad. de 
Gilda Lopes Encarnação. Lisboa: Instituto Piaget, 1999, p.212.) 
 
Com base no texto e nos conhecimentos sobre a Ética do 
Discurso, é correto afirmar que a ética 
 
a) abrange as ações isoladas das pessoas visando adequar-se às 
mudanças climáticas e às catástrofes naturais. 
b) corresponde à maneira como o homem deseja construir e 
realizar plenamente a sua existência no planeta. 
c) compreende a atitude conservacionista que o sistema 
econômico adota em relação ao ambiente. 
d) implica a instrumentalização dos recursos tecnológicos em 
benefício da redução da poluição. 
e) refere-se à atitude de retorno do homem à vida natural, 
observando as leis da natureza e sua regularidade. 
 
Questão 05 
“Uma moral racional se posiciona criticamente em relação a todas 
as orientações da ação, sejam elas naturais, autoevidentes, 
institucionalizadas ou ancoradas em motivos através de padrões 
de socialização. No momento em que uma alternativa de ação e 
seu pano de fundo normativo são expostos ao olhar crítico dessa 
moral, entra em cena a problematização. A moral da razão é 
especializada em questões de justiça e aborda em princípio tudo 
à luz forte e restrita da universalidade.” 
 
(HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e 
validade. v. I. Trad. Flávio Beno Siebeneichler. Rio de Janeiro: 
Tempo Brasileiro, 1997. p. 149.) 
 
Com base no texto e nos conhecimentos sobre a moral em 
Habermas, é correto afirmar: 
 
a) A formação racional de normas de ação ocorre 
independentemente da efetivação de discursos e da autonomia 
pública. 
b) O discurso moral se estende a todas as normas de ações 
passíveis de serem justificadas sob o ponto de vista da razão. 
c) A validade universal das normas pauta-se no conteúdo dos 
valores, costumes e tradições praticados no interior das 
comunidades locais. 
d) A positivação da lei contida nos códigos, mesmo sem o 
consentimento da participação popular, garante a solução moral 
de conflitos de ação. 
e) Os parâmetros de justiça para a avaliação crítica de normas 
pautam-se no princípio do direito divino. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO 
 
Questão 01 
Autonomia da vontade é aquela sua propriedade graças à qual ela 
é para si mesma a sua lei (independentemente da natureza dos 
objetos do querer). O princípio da autonomia é, portanto: não 
escolher senão de modo a que as máximas da escolha estejam 
incluídas simultaneamente, no querer mesmo, como lei universal. 
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. 
Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 1986, p. 85. 
 
De acordo com a doutrina ética de Kant: 
 
a) O Imperativo Categórico não se relaciona com a matéria da 
ação e com o que deve resultar dela, mas com a forma e o 
princípio de que ela mesma deriva. 
b) O Imperativo Categórico é um cânone que nos leva a agir por 
inclinação, vale dizer, tendo por objetivo a satisfação de paixões 
subjetivas. 
c) Inclinação é a independência da faculdade de apetição das 
sensações, que representa aspectos objetivos baseados em um 
julgamento universal. 
d) A boa vontade deve ser utilizada para satisfazer os desejos 
pessoais do homem. Trata-se de fundamento determinante do 
agir, para a satisfação das inclinações. 
 
Questão 02 
Ao declarar que “a moral e a religião pertencem inteiramente à 
psicologia do erro”, Nietzsche pretendeu 
 
a) destruir os caminhos que “a psicologia utiliza para negar ou 
afirmar a moral e a religião”. 
b) criticar essa necessidade humana de se vincular a valores e 
instituições herdados, já que “o Homem é forjado para um fim e 
como tal deve existir”. 
c) denunciar o erro que tanto a moral quanto a religião cometem 
ao confundir “causa com efeito, ou a verdade com o efeito do que 
se considera como verdade”. 
d) comprovar que “a moral e a religião estão no imaginário 
coletivo, mas para se instalarem enquanto verdade elas precisam 
ser avalizadas por uma ciência institucionalizada”. 
 
Questão 03 
As histórias, resultado da ação e do discurso, revelam um agente, 
mas este agente não é autor nem produtor. Alguém a iniciou e 
dela é o sujeito, na dupla acepção da palavra, mas ninguém é seu 
autor. 
 
ARENDT, Hannah. A condição humana. Apud SÁTIRO, A.; 
WUENSCH, A. M. Pensando melhor – iniciação ao filosofar. São 
Paulo: Saraiva, 2001. p. 24. 
 
A filósofa alemã Hannah Arendt foi uma das mais refinadas 
pensadoras contemporâneas, refletindo sobre eventos como a 
ascensão do nazismo, o Holocausto, o papel histórico das massas 
etc. No trecho citado, ela reflete sobre a importância da ação e do 
discurso como fomentadores do que chama de “negócios 
humanos”. 
 
 
 
Nesse sentido, Arendt defende o seguinte ponto de vista: 
 
a) a condição humana atual não está condicionada por ações 
anteriores, já que cada um é autor de sua existência. 
b) a necessidade do ser humano de ser autor e produtor de ações 
históricas lhe tira a responsabilidade sobre elas. 
c) o agente de uma nova ação sempre age sob a influência de 
teias preexistentes de ações anteriores. 
d) o produtor de novos discursos sempre precisa levar em conta 
discursos anteriores para criar o seu. 
 
Questão 04 
A produção de mercadorias e o consumismo alteram as 
percepções não apenas do eu como do mundo exterior ao eu; 
criam um mundo de espelhos, de imagens insubstanciais, de 
ilusões cada vez mais indistinguíveis da realidade. O efeito 
refletido faz do sujeito um objeto; ao mesmo tempo, transforma o 
mundo dos objetos numa extensão ou projeção do eu. É 
enganoso caracterizar a cultura do consumo como uma cultura 
dominada por coisas. O consumidor vive rodeado não apenas por 
coisas como por fantasias. Vive num mundo que não dispõe de 
existência objetiva ou independente e que parece existir somente 
para gratificar ou contrariar seus desejos. 
(Christopher Lasch. O mínimo eu, 1987. Adaptado.) 
 
Sob o ponto de vista ético e filosófico, na sociedade de consumo, 
o indivíduo 
 
a) estabelece com os produtos ligações que são definidas pela 
separação entre razão e emoção. 
b) representa a realidade mediante processos mentais 
essencialmente objetivos e conscientes. 
c) relaciona-se com as mercadorias considerando prioritariamente 
os seus aspectos utilitários. 
d) relaciona-se com objetos que refletem ilusoriamente seus 
processos emocionais inconscientes. 
e) comporta-se de maneira autônoma frente aos mecanismos 
publicitários de persuasão. 
 
Questão 05 
Leia. 
 
Em um documento rubricado pela Rede Global de Academias de 
Ciência (IAP), um grupo de pensadores da comunidade científica 
com sede em Trieste (Itália) que engloba 105 academias de todo 
o mundo alerta pela primeira vez sobre os riscos do consumo nos 
países do Primeiro Mundo e a falta de controle demográfico, 
principalmente nas nações em desenvolvimento. Na declaração 
da comunidade científica se indica que as pautas de consumo 
exacerbado do Primeiro Mundo estão se deslocandoperigosamente para os países em desenvolvimento: os milhões 
de telefones celulares e toneladas de “junk food” que invadem os 
lares pobres são claros indicadores dessa problemática. A 
ausência nos países pobres de políticas de planejamento familiar 
ou de prevenção de gravidezes precoces acaba de configurar um 
sombrio cenário de superpopulação. “Trata-se de dois problemas 
convergentes que pela primeira vez analisamos de forma 
conjunta”, afirma García Novo. 
(Francho Barón. El País, 16.06.2012. Adaptado.) 
 
 
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 Um dos problemas relatados no texto está relacionado com 
 
a) a supremacia de tendências estatais de controle sobre a 
economia liberal. 
b) o aumento do nível de pobreza nos países subdesenvolvidos. 
c) a hegemonia do planejamento familiar nos países do Terceiro 
Mundo. 
d) o declínio dos valores morais e religiosos na era 
contemporânea. 
e) o irracionalismo das relações de consumo no mundo atual. 
 
Questão 06 
A filosofia, no que tem de realidade, concentra-se na vida humana 
e deve ser referida sempre a esta para ser plenamente 
compreendida, pois somente nela e em função dela adquire seu 
ser efetivo. 
VITA, Luís Washington. Introdução à Filosofia, 1964, p. 20. 
 
Sobre esse aspecto do conhecimento filosófico, é CORRETO 
afirmar que 
a) a consciência filosófica impossibilita o distanciamento para 
avaliar os fundamentos dos atos humanos e dos fins aos quais 
eles se destinam. 
b) um dos pontos fundamentais da filosofia é o desejo de 
conhecer as raízes da realidade, investigando-lhe o sentido, o 
valor e a finalidade. 
c) a filosofia é o estudo parcial de tudo aquilo que é objeto do 
conhecimento particular. 
d) o conhecimento filosófico é trabalho intelectual, de caráter 
assistemático, pois se contenta com as respostas para as 
questões colocadas. 
e) a filosofia é a consciência intuitiva sensível que busca a 
compreensão da realidade por meio de certos princípios 
estabelecidos pela razão. 
 
Questão 07 
Texto 1 
 
Sobre o estupro coletivo de uma estudante de 23 anos em Nova 
Déli, o advogado que defende os suspeitos declarou: “Até o 
momento eu não vi um único exemplo de estupro de uma mulher 
respeitável”. Sobre esta declaração, o advogado garantiu que não 
tentou difamar a vítima. “Eu só disse que as mulheres são 
respeitadas na Índia, sejam mães, irmãs, amigas, mas diga-me 
que país respeita uma prostituta?!” 
 
(Advogado de acusados de estupro na Índia denuncia confissão 
forçada. 
http://noticias.uol.com.br. Adaptado.) 
 
Texto 2 
 
Na Índia, a violência contra as mulheres tomou uma nova e mais 
perversa forma, a partir do cruzamento de duas linhas: as 
estruturas patriarcais tradicionais e as estruturas capitalistas 
emergentes. Precisamos pensar nas relações entre a violência do 
sistema econômico e a violência contra as mulheres. 
 
(Vandana Shiva, filósofa indiana. No continuum da violência. O 
Estado de S.Paulo, 12.01.2013. Adaptado.) 
 
Os textos referem-se ao fato ocorrido na Índia em dezembro de 
2012. Pela leitura atenta dos textos, podemos afirmar que: 
 
a) segundo a filósofa, fatos como esse explicam-se pela 
confluência de fatores históricos e econômicos de exclusão social. 
b) para a filósofa, a violência contra as mulheres na Índia deve- se 
exclusivamente ao neoliberalismo econômico. 
c) as duas interpretações sugerem que a prevenção de tais atos 
violentos depende do resgate de valores religiosos. 
d) sob a ótica do advogado, esse fato ocorreu em virtude do 
desrespeito aos direitos humanos. 
e) as duas interpretações limitam-se a reproduzir preconceitos de 
gênero socialmente hegemônicos naquele país. 
 
Questão 08 
Quanto à deliberação, deliberam as pessoas sobre tudo? São 
todas as coisas objetos de possíveis deliberações? Ou será a 
deliberação impossível no que tange a algumas coisas? Ninguém 
delibera sobre coisas eternas e imutáveis, tais como a ordem do 
universo; tampouco sobre coisas mutáveis, como os fenômenos 
dos solstícios e o nascer do sol, pois nenhuma delas pode ser 
produzida por nossa ação. 
 
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2007. 
(adaptado). 
 
O conceito de deliberação tratado por Aristóteles é importante 
para entender a dimensão da responsabilidade humana. A partir 
do texto, considera-se que é possível ao homem deliberar sobre 
 
a) coisas imagináveis, já que ele não tem controle sobre os 
acontecimentos da natureza. 
b) ações humanas, ciente da influência e da determinação dos 
astros sobre as mesmas. 
c) fatos atingíveis pela ação humana, desde que estejam sob seu 
controle. 
d) fatos e ações mutáveis da natureza, já que ele é parte dela. 
e) coisas eternas, já que ele é por essência um ser religioso. 
 
Questão 09 
 Na obra de Aristóteles, a Ética é uma ciência prática, concepção 
distinta da de Platão, referida a um tipo de saber voltado à ação. 
Na Ética a Nicômaco, Aristóteles destaca uma excelência moral 
determinante para a constituição de uma vida virtuosa. 
 
Esta excelência moral tão importante é 
 
 
 
 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 
RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE FIXAÇÃO 
 
Questão 01: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa A 
Questão 02: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa C 
 
Questão 03: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa C 
 
Questão 04: 
Resolução: . 
 
Resposta: Alternativa D 
 
Questão 05: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa E 
 
Questão 06: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa B 
 
Questão 07: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa A 
 
Questão 08: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa C 
 
Questão 09: 
Resolução: A ética aristotélica é uma reflexão específica 
sobre os costumes. Este trabalho de Aristóteles é 
extremamente inovador, pois Platão nunca tratou os 
costumes desta maneira. Diferentemente de Aristóteles, 
Platão investiga alguns costumes específicos, mas não fala 
especificamente deles. Na República, por exemplo, ele critica 
a religião da cidade, mas isto simplesmente porque a religião 
da cidade fornece um modelo ruim de deuses irracionais, ou 
seja, Platão não está preocupado com o costume religioso, 
mas com o fato de a religião se mostrar ser um princípio 
político que fundamentaria mal o costume. Já Aristóteles 
investiga justamente o costume e o procedimento através do 
qual um bom costume é estabelecido – a religião e a teologia 
já não é uma preocupação de Aristóteles. Não por outro 
motivo, a prudência é extremamente importante para o 
discípulo de Platão, quer dizer, o que importaria seriam as 
preleções em política pelas quais o sujeito toma consciência 
da variedade das ações que os homens realizam, e passa a 
escolher e justificar de maneira racional as suas próprias. 
 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA 
Prof. Márcio Michiles 
ESTADO E CONTRATO SOCIAL 
 
INTRODUÇÃO - NICOLAU MAQUIAVEL 
 Nicolau Maquiavel, Nasceu na cidade italiana 
de Florença em 3 de maio de 1469 e morreu, na mesma cidade, 
em 21 de junho de 1527. Maquiavel, foi historiador, diplomata, 
filósofo, estadista e político italiano da época do Renascimento, 
Filho de pais pobres, Maquiavel desde cedo se interessou pelos 
estudos. Aos sete anos de idade começou a aprender latim. Logo 
depois passou a estudar ábaco e língua grega antiga. 
 Aos 29 anos de idade, ingressou na vida política, exercendo 
o cargo de secretário da Segunda Chancelaria da República de 
Florença. Porém, com a restauração da família Médici ao poder, 
Maquiavel foi afastado da vida pública. Nesta época, passou a 
dedicar seu tempo e conhecimentos para a produçãode obras de 
análise política e social. 
 Maquiavel parece não ter tido uma posição política clara. 
Quando os Médicis retomaram o governo, continuou a trabalhar 
incansavelmente para cair nas boas graças da família. O que 
prova que, ou era extraordinariamente ambicioso, ou acreditava 
de fato no serviço do estado, não lhe importando o grupo ou o 
partido político que detinha as rédeas do governo. Os Médicis, de 
qualquer maneira, nunca confiaram inteiramente nele, já que tinha 
sido um funcionário importante da república. Feito prisioneiro, 
torturaram-no em 1513 acabando por ser banido para a sua 
propriedade em San Casciano, mas esta atuação dos Médicis não 
o impediu de tentar novamente ganhar as boas graças da família. 
Foi durante o seu exílio em San Casciano, quando tentava 
desesperadamente regressar à vida pública, que escreveu as 
suas principais obras: Os discursos sobre a primeira década de 
Tito Lívio, O Príncipe, A História de Florença, e duas peças. 
Muitas destas obras, como O Príncipe, foram escritas com a 
finalidade expressa de conseguir uma nomeação para o governo 
dos Médicis. 
 A extraordinária novidade, tanto dos Discursos como 
do Príncipe, foi a separação da política da ética. A tradição 
ocidental, exatamente como a tradição chinesa, ligava tanto a 
ciência como a atividade política à ética. Aristóteles tinha 
resumido esta posição quando definiu a política como uma 
mera extensão da ética. A tradição ocidental, via a política em 
termos claros, de certo e errado, justo e injusto, correto e 
incorreto, e assim por diante. Por isso, os termos morais usados 
para avaliar as ações humanas eram os termos empregues para 
avaliar as ações políticas. 
 Maquiavel foi o primeiro a discutir a política e os fenômenos 
sociais nos seus próprios termos sem recurso à ética ou à 
jurisprudência. De fato pode-se considerar Maquiavel como o 
primeiro pensador ocidental de relevo a aplicar o método científico 
de Aristóteles e de Averróis à política. Fê-lo observando os 
fenômenos políticos, e lendo tudo o que se tinha escrito sobre o 
assunto, e descrevendo os sistemas políticos nos seus próprios 
termos. Para Maquiavel, a política era uma única coisa: conquistar 
e manter o poder ou a autoridade. Tudo o resto - a religião, a 
moral, etc. -- que era associado à política nada tinha a ver com 
este aspecto fundamental - tirando os casos em que a moral e a 
religião ajudassem à conquista e à manutenção do poder. A única 
coisa que verdadeiramente interessa para a conquista e a 
manutenção do poder manter é ser calculista; o político bem 
sucedido sabe o que fazer ou o que dizer em cada situação. 
 
 
 Com base neste princípio, Maquiavel descreveu 
no Príncipe única e simplesmente os meios pelos quais alguns 
indivíduos tentaram conquistar o poder e mantê-lo. A maioria dos 
exemplos que deu são falsos. De fato, o livro está cheio de 
momentos intensos, já que a qualquer momento, se um 
governante não calculou bem uma determinada ação, o poder e a 
autoridade que cultivou tão assiduamente fogem-lhe de um 
momento para o outro. O mundo social e político do Príncipe é 
completamente imprevisível, sendo que só a mente mais 
calculista pode superar esta volatilidade. 
 Maquiavel, tanto no Príncipe como nos Discursos, só tece 
elogios aos vencedores. Por esta razão, mostra admiração por 
figuras como os Papa Alexandre VI e Júlio II devido ao seu 
extraordinário sucesso militar e político, sendo eles odiados 
universalmente em toda a Europa como papas ímpios. A sua 
recusa em permitir que princípios éticos interferissem na sua 
teoria política marcou-o durante todo o Renascimento, e 
posteriormente, como um tipo de anti-Cristo, como mostram as 
muitas obras com títulos que incluíam o nome anti-Maquiavel. Em 
capítulos como «De que modo os príncipes devem cumprir a sua 
palavra» cap. XVIII) Maquiavel afirma que todo o julgamento 
moral deve ser secundário na conquista, consolidação e 
manutenção do poder. A resposta à pergunta formulada mais 
acima, por exemplo, é que: 
 «Todos concordam que é muito louvável um príncipe 
respeitar a sua palavra e viver com integridade, sem astúcias nem 
embustes. Contudo, a experiência do nosso tempo mostra-nos 
que se tornaram grandes príncipes que não ligaram muita 
importância à fé dada e que souberam cativar, pela manhã, o 
espírito dos homens e, no fim, ultrapassar aqueles que se 
basearam na lealdade». 
 Pode ajudar na compreensão de Maquiavel imaginar que 
não está a falar sobre o estado em termos éticos mas sim em 
termos cirúrgicos. É que Maquiavel acreditava que a situação 
italiana era desesperada e que o estado Florentino estava em 
perigo. Em vez de responder ao problema de um ponto de vista 
ético, Maquiavel preocupou-se genuinamente em curar o estado 
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 para o tornar mais forte. Por exemplo, ao falar sobre os povos 
revoltados, Maquiavel não apresenta um argumento ético, mas 
cirúrgico: «os povos revoltados devem ser amputados antes que 
infectem o estado inteiro.» 
 O único valor claro na obra de Maquiavel é a virtú (virtus em 
Latim), que é relacionado normalmente com «virtude». Mas de 
fato, Maquiavel utiliza-a mais no sentido latino de «viril», já que os 
indivíduos com virtú são definidos fundamentalmente pela sua 
capacidade de impor a sua vontade em situações difíceis. Fazem 
isto numa combinação de caráter, força, e cálculo. Numa das 
passagens mais famosas do Príncipe, Maquiavel descreve qual é 
a maneira mais apropriada para responder a volatilidade do 
mundo, ou à Fortuna, comparando-a a uma mulher: «la fortuna é 
donna». Maquiavel refere-se à tradição do amor cortesão, onde a 
mulher que constitui o objecto do desejo é abordada, cortejada e 
implorada. O príncipe ideal para Maquiavel não corteja nem 
implora a Fortuna, mas ao abordá-la agarra-a virilmente e faz dela 
o que quer. Esta passagem, já escandalosa na época, representa 
uma tradução clara da ideia renascentista do potencial humano 
aplicado à política. É que, de acordo com Pico della Mirandola, se 
um ser humano podia transformar-se no que quisesse, então 
devia ser possível a um indivíduo de caráter forte pôr ordem no 
caos da vida política. 
 
Thomas Hobbes 
 Thomas Hobbes foi um filósofo que nasceu (em Wesport 
5/4/1588) e faleceu na Inglaterra (em Hardwick Hall, 4/12/1679). 
Hobbes ficou sob os cuidados do seu tio, visto que seu pai, um 
vigário, teve de ir embora depois de participar de uma briga na 
porta da igreja onde trabalhava. Estudou em Magdalen Hall de 
Oxford e, em 1608, foi trabalhar com a família Cavendish como 
mentor de um de seus filhos, a quem acompanhou pelas suas 
viagens pela França e Itália entre 1608 e 1610. Quando seu aluno 
morreu, em 1628, voltou à França, desta vez para se tutor do filho 
de Gervase Clifton. 
 Permaneceu na França até 1631, quando os Cavendish o 
solicitaram novamente para ser mentor de outro dos seus filhos. 
Em 1634, acompanhado de seu novo aluno, realizou outra viagem 
ao continente, ocasião que aproveitou para conversar com Galileu 
Galilei e outros pensadores e cientistas da época. Em 1637, 
voltou à Inglaterra, mas a situação política, que anunciava a 
guerra civil, o levou a abandonar seu país e a estabelecer-se em 
Paris em 1640. 
 Pouco tempo antes, Hobbes tinha feito circular entre seus 
amigos um exemplar manuscrito de sua obra: Elementos da lei 
natural e política, apresentados em dois tratados distintos, foram 
editados em 1650. Em 1651, abandonou a França e voltou à 
Inglaterra, levando consigo o manuscrito do Leviatã, sua obra 
mais conhecida e que seria editada em Londres, naquele ano. 
 Os contatos que Hobbes teve com cientistas de sua época, 
que foram decisivos para a formação de suas ideias filosóficas, o 
levaram a fundir sua preocupaçãocom problemas sociais e 
políticos com seu interesse pela geometria e o pensamento dos 
filósofos mecanicistas. Seu pensamento político pretende ser uma 
aplicação das leis da mecânica aos campos da moral e da 
política. As leis que regem o comportamento humano, segundo 
Hobbes, são as mesmas que regem o universo e são de origem 
divina. De acordo com elas, o homem em estado natural é 
antissocial por natureza e só se move por desejo ou medo. Sua 
primeira lei natural, que é a autoconservação, o induz a impor-se 
sobre os demais, de onde vem uma situação de constante 
conflito: a guerra de todos contra todos, na qual o homem é um 
lobo para o homem. 
 Para poder construir uma sociedade é necessário, portanto, 
que cada indivíduo renuncie a uma parte de seus desejos e 
chegue a um acordo mútuo de não aniquilação com os outros. 
Trata-se de estabelecer um contrato social, de transferir os 
direitos que o homem possui naturalmente sobre todas as coisas 
em favor de um soberano dono de direitos ilimitados. Este 
monarca absoluto, cuja soberania não reside no direito divino, 
mas nos direitos transferidos, seria o único capaz de fazer 
respeitar o contrato social e garantir, desta forma, a ordem e a 
paz, exercendo o monopólio da violência que, assim, 
desapareceria da relação entre indivíduos. 
 Hobbes não se contentou em rejeitar o direito divino do 
soberanos, fez tábua rasa de todo o edifício moral e político da 
Idade Média. A soberania era em Hobbes a projeção no plano 
político de um individualismo filosófico ligado ao nominalismo, que 
conferia um valor absoluto à vontade individual. A conclusão das 
deduções rigorosas do pensador inglês era o gigante Leviatã, 
dominando sem concorrência a infinidade de indivíduos, de que 
tinha feito parte inicialmente, e que tinham substituído as suas 
vontades individuais à dele, para que, pagando o preço da sua 
dominação, obtivessem uma proteção eficaz. Indivíduos que 
estavam completamente entregues a si mesmos nas suas 
atividades normais do dia-a-dia. 
 Infinidade de indivíduos, porque não se encontra em Hobbes 
qualquer referência nem à célula familiar, nem à família alargada, 
nem tão pouco aos corpos intermédios existentes entre o estado e 
o indivíduo, velhos resquícios da Idade Média. Hobbes refere-se a 
estas corporações no Leviatã, mas para as criticar considerando-
as «pequenas repúblicas nos intestinos de uma maior, como 
vermes nas entranhas de um homem natural». Os conceitos de 
«densidade social» e de «interioridade» da vida religiosa ou 
espiritual, as noções de sociabilidade natural do homem, do seu 
instinto comunitário e solidário, da sua necessidade de 
participação, são completamente estranhos a Hobbes. 
 É aqui que Hobbes se aproxima de Maquiavel e do seu 
empirismo radical, ao partir de um método de pensar 
rigorosamente dedutivo. A humanidade no estado puro ou natural 
era uma selva. A humanidade no estado social, constituído por 
sociedades civis ou políticas distintas, por estados soberanos, não 
tinha que recear um regresso à selva no relacionamento entre 
indivíduos, a partir do momento em que os benefícios consentidos 
do poder absoluto, em princípio ilimitado, permitiam ao homem 
deixar de ser um lobo para os outros homens. Aperfeiçoando a 
tese de Maquiavel, Hobbes defende que o poder não é um 
simples fenômeno de força, mas uma força institucionalizada 
canalizada para o direito (positivo), - «a razão em acto» de R. 
Polin - construindo assim a primeira teoria moderna do Estado. 
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 Deste Estado, sua criação, os indivíduos não esperam a 
felicidade mas a Paz, condição necessária ao prosseguimento da 
felicidade. Paz que está subordinada a um aumento considerável 
da autoridade - a do Soberano, a da lei que emana dele. 
Mas, mesmo parecendo insaciável, esta invenção humana com o 
nome de um monstro bíblico, não reclama o homem todo. De fato, 
em vários aspectos o absolutismo político de Hobbes aparece 
como uma espécie de liberalismo moral. Hobbes mostra-se 
favorável ao desenvolvimento, sob a autoridade ameaçadora da 
lei positiva, das iniciativas individuais guiadas unicamente por um 
interesse individual bem calculado, e por um instinto racional 
aquisitivo. 
 
Jean Bodin 
 Jean Bodin nasceu em Angers, França 1530, e faleceu 
em Laon, também na França em 1596, foi um jurista francês, 
membro doParlamento de Paris e professor de Direito em 
Toulouse. Também adepto da teoria do direito divino dos reis, 
Jean Bodin tornou se conhecido como o Procurador Geral do 
Diabo devido a sua incansável perseguição a feiticeiras e hereges 
Ele é considerado por muitos o pai da Ciência Política devido a 
sua teoria sobre soberania. Baseou-se nesta mesma teoria para 
afirmar que a legitimação do poder do homem sobre a mulher e 
da monarquia sobre a gerontocracia. 
 Além de preocupar-se com questões de ordem política, Bodin 
também era um famoso perseguidor das manifestações heréticas 
de sua época. Sua ação contra valores religiosos considerados 
anticristãos acabou deixando-o conhecido como “procurador do 
Diabo”. Entre suas principais obras damos destaque espacial à 
“República”. 
 Convivendo com os intensos conflitos religiosos que 
tomaram conta da França do século XVI, Bodin vai dedicar boa 
parte de sua reflexão política à questão da soberania. Nesse 
sentido, um dos mais marcantes valores pregados pelo seu 
pensamento consiste em defender a indivisibilidade da soberania. 
Segundo o autor, um sistema político em que a delegação de 
poderes se institui enquanto prática comum promove a diluição da 
soberania necessária a um governo estável. 
 Além disso, Bodin acredita que a idéia de um governo misto 
gera uma falsa impressão de que não há a ação de um setor 
politicamente soberano. Para confirmar essa idéia ele toma como 
exemplo as práticas políticas instituídas no interior da República 
romana. De acordo com sua interpretação, o fato da população 
romana ter o direito de indicar quais pessoas ocupariam os cargos 
de magistratura, não limita os diversos poderes concedidos a 
esses mesmos representantes políticos. 
 Dessa maneira, Jean Bodin não aceita a possibilidade de 
uma forma de governo pautada na ausência de soberania. Caso 
não haja um setor politicamente soberano, seja minoritário ou 
majoritário, qualquer governo acaba se transformando em um 
verdadeiro regime de natureza anárquica. Por isso esse pensador 
francês vai pensar no “estado” que a soberania assume em 
diferentes contextos políticos, para assim, julgar qual a 
classificação mais adequada ao seu tipo de governo. 
 No momento em que a hegemonia é assumida pela figura do 
príncipe, temos a instalação de uma monarquia. Em experiências 
onde a soberania é assumida pela grande maioria da população, 
acredita o pensador que o estado é popular. Por fim, caso haja 
um grupo minoritário controlando as instituições políticas, haveria 
a formação de um regime aristocrático. Além disso, Bodin também 
vai admitir que cada tipo de estado assuma diferentes formas de 
governo. 
 Em uma monarquia, por exemplo, ele pode admitir que o rei 
tenha uma forma de governo democrática ao permitir que 
diferentes grupos sociais participem da administração pública. Ao 
mesmo tempo, quando a monarquia restringe a participação 
popular ou concentra as decisões nas mãos do rei, o governo 
passa a ganhar traços claramente despóticos. Dessa maneira, 
Bodin oferece meios para analisar de forma diversa os mais 
diferentes estados. 
 
 Por fim, sua obra se sustenta veementemente na idéia de 
que seria impossível conceber um governo pautado em grupos 
igualitariamente favorecidos. Ao naturalizar as desigualdades,Bodin começa a levantar argumentos onde indica que a 
desigualdade e a presença de um indivíduo soberano não se 
tratam de um costume socialmente constituído, mas uma forma 
claramente perceptível em diferentes manifestações de 
ordenação da natureza. 
 Dessa forma, Jean Bodin também utiliza uma argumentação 
de traço fortemente religioso para defender o regime monárquico. 
Segundo o próprio autor, “todas as leis da natureza nos guiam 
para a monarquia; seja observando esse pequeno mundo que é 
nosso corpo, seja observando esse grande mundo, que tem um 
soberano Deus; seja observando o céu, que tem um só Sol”. Por 
isso, esse teórico absolutista será considerado um dos defensores 
do “direito divino dos reis”. 
 
Jacque Bossuet 
 Jacques Bossuet foi um Orador francês, nascido em 1627 e 
falecido em 1704, considerado uma das personalidades mais 
influentes em assuntos religiosos, políticos e culturais da França 
da segunda metade do século XVII. Oriundo de uma família de 
magistrados, formou-se em Teologia, permanecendo como 
cônego em Metz até 1669. Com uma extraordinária vocação para 
a oratória, ganhou fama com os seus sermões. 
 Bossuet concebeu o príncipe como um agente envolvido por 
uma auréola de sacralidade e de mistério. A soberania 
verticalizada do monarca, que estaria em comunhão com a 
vontade mantenedora do mundo, faria da realeza um instrumento 
de intervenção divina. Isso ocorreria para orientar a sociedade 
política, sempre no sentido da realização do bem público. Como 
afirmou Mircea Eliade, em O sagrado e o profano, nenhum mundo 
é possível sem a verticalidade, e essa dimensão por si só evoca a 
transcendência. Bossuet enxergava a solução dos problemas 
políticos que afligiam a sociedade na ação do soberano. 
Na Política extraída das Sagradas Escrituras, tanto quanto no 
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 Discursos sobre a história universal, há uma grande esperança 
colocada sobre a figura protetora do príncipe. 
 O príncipe virtuoso nos preceitos da fé cristã seria a chave 
de toda a ação política, que não somente estimularia e 
asseguraria a paz entre os homens, como também levaria ao 
império absoluto da religião do Deus verdadeiro. Nesse sentido, 
os textos de Bossuet formam sempre um denso catálogo dos 
valores morais que o soberano deveria perseguir, do mesmo 
modo que encerram o elenco dos vícios, em relação aos quais o 
monarca deveria estabelecer uma prudente distância. Não é 
demais lembrar que a ordem do mundo repousava sobre seus 
ombros, segundo a crença do escritor. Do príncipe, Deus exigiria 
uma prestação de contas mais severa. Assim, a temática do rei-
artífice da salvação pública é a chave para se compreender a 
função da realeza no pensamento político de Bossuet. A presença 
da realeza sagrada estimularia a ordem e a estabilidade no reino, 
inibindo os impulsos destrutivos provocados pela inveja e pela 
tendência natural dos homens para a violência. Como vemos, o 
piedoso Bossuet não está tão distante do ímpio Hobbes, ao 
menos em matéria referente à concepção da natureza humana. 
Essas infiltrações hobbesianas são muito comuns na Politique. No 
entanto, a favor de Aristóteles – e, portanto, contra Hobbes –, ele 
acreditava que a sociabilidade era um impulso natural entre os 
homens. Mas a sua visão cristã da história levava-o a considerar 
que os homens foram desnaturados pelo pecado. Daí a 
necessidade de um poder soberano aos quais tinham de se 
submeter. Então, na ausência mesmo que temporária da realeza, 
liberar-se-ia o velho espírito desagregador entre os homens, que 
levaria muito depressa às idolatrias e ao caos. Isso fez Bossuet 
refletir que, na época do bezerro de ouro, “Tudo era Deus, exceto 
Deus mesmo”. O medo da desagregação do corpo político e o 
problema da insegurança induzem os povos a cercarem seus reis 
de cuidado. Como ele afirmou na Política extraída das Sagradas 
Escrituras, o príncipe é um bem público e cada um deve estar 
muito preocupado em conservá-lo. A vida do príncipe é vista 
como a salvação de todo o povo. É uma infelicidade a um Estado 
ser privado dos conselhos e da sabedoria de um príncipe 
experimentado e ser submetido a novos senhores que, 
frequentemente, aprendem a ser sábios à custa do povo. 
 
Absoluto não é Arbitrário 
 O bispo teve o cuidado de separar o que ele denominou 
de gouvernement absolu (governo absoluto), no qual os súditos 
gozam de eficaz proteção de uma autoridade ligada às tradições e 
pelo que é ditado da razão, do outro, o gouvernement arbitraire (o 
governo arbitrário ou tirânico), no qual todo os súditos são 
escravos sacrificados a um déspota que não se orienta pela lei e 
pelos costumes, mas sim pelo capricho e pelo ato discricionário. 
 Ao fundir a teologia com a política, Bossuet foi considerado 
pelos tratadistas como um pensador superado no seu próprio 
século, mas isto não impediu que sua influência se projetasse por 
muito tempo, estendendo-se inclusive para o século XIX adentro 
servindo como alimento ideológico aos tradicionalistas 
reacionários da Espanha (primeiro com D.Fernando VII e depois 
com D.Carlos) e Portugal (o príncipe D. Miguel, apoiado por 
D.Carlota Joaquina). 
 Em contraposição ao ‘Leviatã’ de Hobbes, o entendimento da 
Monarquia Absoluta de Bossuet está longe de aceitar a existência 
aterradora de um estado-gigante exercendo seu poder uniforme 
sobre uma massa de indivíduos isolados. O Monarca Absoluto 
dele é um sol, mais ilumina e atrai do que oprime. É a estrela-
maior de uma constelação formada por uma hierarquia de 
vassalos e súditos ligados pelo respeito comum aos antigos 
costumes e às instituições estabelecidas, da mesma forma como 
as leis gravitacionais de Newton explicavam a conformidade do 
Cosmo num todo equilibrado e harmônico. 
 Interessa ainda ressaltar a famosa passagem de advertência 
que Bossuet faz aos príncipes, alertando-os para a sua 
mortalidade: ‘Vocês são filhos do Todo-Poderoso’, escreveu 
ele, ‘é ele quem estabelece vosso poder pelo bem do governo 
humano. Mas ó deuses de lama e pó, vocês morrem como 
homens’. 
 Assim, depois da monarquia francesa ter afastado os 
ingleses do continente, de ter neutralizado e depois banidos para 
sempre os huguenotes e conseguido domesticar e enquadrar a 
nobreza feudal, ela estava pronta para assumir ares divinos, 
encontrando na pessoa de Luis XIV a sua melhor personificação. 
 
A nobre linhagem da monarquia francesa 
 Bossuet fez mais ainda. Num ensaio anterior ao Politique, 
intitulado Discours sur l´Histoire Universelle (Discurso sobre a 
História Universal, 1678-1681) discorre sobre as várias etapas 
vencidas pela história desde os tempos de Adão até Carlos 
Magno, associando o reino de Luis XIV a uma linhagem de 
eventos extraordinários que marcaram a humanidade desde a 
Criação. 
 É um enorme afresco que partindo do primeiro homem passa 
por Noé e o dilúvio, por Abraão, Moisés, pela queda de Tróia, pela 
fundação do Templo por Salomão, pela fundação de Roma por 
Rômulo, por Ciro e a reconstrução do Templo de Jerusalém, pela 
vitória definitiva de Cipião sobre Cartago, pelo nascimento de 
Jesus Cristo, pela adesão de Constantino ao cristianismo e, por 
último, culmina no estabelecimento de um novo império por parte 
de Carlos Magno. 
 A monarquia francesa dos Bourbon é, por conseguinte, a 
herdeira legitima e estágio derradeiro desta gigantesca epopéia 
que remonta aos primeiros momentos da humanidade e aos 
patriarcas fundadores da sociedade, sendo que a França - 
produto direto de patrocinadores eméritos e daquele grande 
conquistador, tendo igual valor aos da antiguidade - tem como 
missão ‘superá-los a todos em piedade, em sabedoria e na 
justiça’.(*) 
 (*) Certamente foi esta identificação de Luis XIV com os 
feitos épicos dos príncipes do passado, exaltada por Bossuet, 
quem inspirou o pintor Charles Le Brun a compor os magníficos 
painéis de Versalhes que explicitamente fazem a associação das 
campanhas militares do Rei-Sol com as façanhas dos 
conquistadores antigos. 
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O Rei-Máquina 
 Para abastecer as 50 fontes, os canais e mais de 600 
chafarizes espalhados pelos jardins de Versalhes, foi preciso 
conceber um sistema especial de irrigação e abastecimento de 
água. O projeto do Marly-la-machine foi então levado a efeito por 
obra do arquiteto Jules Hardouin Mansart (que continuou 
conduzindo Versalhes depois da morte do arquiteto Le Vau) e do 
pintor Charles le Brun que, entre 1682 e 1687, construíram um 
engenhoso aparelho de sucção de água colocado à beira do Rio 
Sena. Dali ele bombeava o necessário colina acima para um 
conjunto de reservatórios de onde a água, aproveitando-se das 
leis gravitacionais, tomava o caminho dos jardins. 
 Inspirando-se naquele perfeito maquinismo é que Jean-Marie 
Apostolidès, professor em Harvard, escreveu o ensaio Le roi-
machine (O rei-máquina,1993) analisando a estruturação do 
poder estatal de Luis XIV. Do mesmo modo que o engenho de 
Marly-la-machine regava as árvores e as plantas e fazia jorrar 
tudo em Versalhes, assim os ideólogos do Direito Divino 
entendiam a função do monarca. Dele era a força que provia o 
reino, inundando-o com a prosperidade e o bem estar geral. 
 Esta simetria do Estado Monárquico com uma máquina 
perfeita e com a racionalidade em geral, por igual foi decorrente 
de um século que se deixou fascinar pelos novos engenhos que 
brotavam em todas as partes. Não foi sem motivos que os dois 
maiores pensadores da França dedicaram-se à matemática 
(Descartes) e até ao invento da máquina de calcular (Pascal): era 
o espírito do tempo. 
Fonte: 
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/politica/2009/05/15/000.htm 
 
 As estruturas monárquicas ganharam força e com o tempo 
declinaram, as amarras postas aos burguesas que garantiam 
certa tranquilidade aos reis foram gradativamente sendo minadas 
e a política passou a ser discutida como elemento de propriedade 
das massas, ora na Inglaterra do século XVII e ou na França do 
século XVIII, os centros de debates ou mesmo as escolas 
norteavam uma nova forma de pensar. A liberdade era a bola da 
vez. 
 Laissez-faire, laissez-passer, le monde fait peur lui même. 
 
Fonte: http://histria-cma-
canoas.blogspot.com.br/2011/07/iluminismo-revolucao-no-campo-
das.html 
 
 Os pensadores Iluministas se seguravam no desejo pela 
liberdade e nos desmandos do Rei e da Igreja para garantir que 
todas as pessoas pudessem sair do jugo e da opressão do Estado 
e poder compor as estruturas políticas da Nação. 
Essa corrente filosófica surgida na Europa do século XVII, vinha 
para abalar a Igreja e o poder Absoluto do Rei, o maior problema 
era a resistência do próprio povo, acostumado a ser guiado pelo 
poder absoluto, manteve as amarras por décadas. 
 Vejamos os principais pensadores: 
 - John Locke (1632-1704), ele acreditava que o homem 
adquiria conhecimento com o passar do tempo através 
do empirismo; 
 Considerado um dos mais importantes pensadores da 
doutrina liberal, John Locke nasceu em 1632, na cidade de 
Wrington, Somerset, região sudoeste da Inglaterra. Era filho de 
um pequeno proprietário de terras que serviu como capitão da 
cavalaria do Exército Parlamentar. Mesmo tendo origem humilde, 
seus pais tiveram a preocupação de dar ao jovem Locke uma rica 
formação educacional que o levou ao ingresso na academia 
científica da Sociedade Real de Londres. 
 Antes desse período de estudos na Sociedade Real, Locke 
já havia feito vários cursos e frequentado matérias que o 
colocaram em contato com diversas áreas ligadas às Ciências 
Humanas. Refletindo a possibilidade de integração dos saberes, o 
jovem inglês nutriu durante toda a sua vida um árduo interesse 
por áreas distintas do conhecimento humano. Apesar de todo 
esse perfil delineado, não podemos sugerir que Locke sempre 
teve tendências de faceta liberal. 
 Quando começou a se interessar por assuntos políticos, 
Locke inicialmente defendeu a necessidade de uma estrutura de 
governo centralizada que impedisse a desordem no interior da 
sociedade. Sua visão conservadora e autoritária se estendia 
também ao campo da religiosidade, no momento em que ele 
acreditava que o monarca deveria interferir nas opções religiosas 
de seus súditos. Contudo, seu interesse pelo campo da filosofia 
modificou paulatinamente suas opiniões. 
Um dos pontos fundamentais de seu pensamento político se 
transformou sensivelmente quando o intelectual passou a 
questionar a legitimidade do direito divino dos reis. A obra que 
essencialmente trata desse assunto é intitulada “Dois Tratados 
sobre o Governo” e foi publicada nos finais do século XVII. Em 
suas concepções, Locke defendia o estabelecimento de práticas 
políticas que não fossem contra as leis naturais do mundo. 
 Além disso, esse proeminente pensador observou muitos de 
seus interesses no campo político serem tematizados no interior 
de seu país quando presenciou importantes acontecimentos 
referentes à Revolução Inglesa. Em sua visão, um poder que não 
garantisse o direito à propriedade e à proteção da vida não 
poderia ter meios de legitimar o seu exercício. Ainda sob tal 
aspecto, afirmou claramente que um governo que não respeitasse 
esses direitos deveria ser legitimamente deposto pela população. 
 No que se refere à propriedade, Locke se utiliza de 
argumentos de ordem teológica para defender a sua própria 
existência. Segundo ele, o mundo e o homem são frutos do 
trabalho divino e, por isso, devem ser vistos como sua 
propriedade. Da mesma forma, toda riqueza que o homem fosse 
capaz de obter por meio de seu esforço individual deveriam ser, 
naturalmente, de sua propriedade. 
 Interessado em refletir sobre o processo de obtenção do 
conhecimento e a importância da educação para o indivíduo, 
Locke foi claro defensor do poder transformador das instituições 
de ensino. De acordo com seus ensaios, o homem nascia sem 
dominar nenhuma forma de conhecimento e, somente com o 
passar dos anos, teria a capacidade de acumulá-lo. A partir dessa 
premissa é que o autor britânico acreditava que as mazelas eram 
socialmente produzidas e poderiam ser superadas pelo homem. 
 O reconhecimento do legado de Locke ocorreu quando ele 
ainda era vivo. Durante a vida, teve a oportunidade de ocupar 
importantes cargos administrativos e exerceu funções de caráter 
diplomático. Na Inglaterra, chegou a ocupar o cargo de membro 
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 do Parlamento e defendeu o direito dessa instituição indicar os 
ministros que viessem a compor o Estado. Respeitado por vários 
outros representantes do pensamento liberal, John Locke faleceu 
em 1704, na cidade de Oates, Inglaterra. 
 - Voltaire (1694-1778), ele defendia a liberdade de 
pensamento e não poupava crítica a intolerância religiosa; 
 Voltaire é um dos grandes nomes do Iluminismo e seus 
escritos se caracterizam pela ironia, vivacidade e polêmica, 
especialmente contra as injustiças e a superstição. É um filósofo 
deísta, ou seja, admite a existência de Deus, mas nega a 
qualquer igreja o direito de ser o seu representante. Defende o 
que ele chama de religião natural e vê Deus como um ser distante 
do mundo, responsável somente pela sua criação e que não 
interfere na história doshomens. Além disso, é considerado como 
cético, laico e anticlerical. 
 Em seu pensamento político Voltaire não acreditava que as 
nações de sua época estivessem prontas para se tornarem 
democráticas e também não defendia a república, pois pensava 
que o povo não estava pronto para assumir esses dois modos de 
governo. Não via com bons olhos a oligarquia e defendia uma 
monarquia absoluta esclarecida. 
 Em algumas de suas obras defende a liberdade política e 
critica a intolerância religiosa, tendo por mote a igualdade, justiça 
e tolerância. 
 Foi contra a tortura, a pena de morte, a vivisseção e a 
crueldade imposta aos animais de criação, tinha ainda simpatia 
pelo vegetarianismo. 
 Os homens selvagens são livres e os civilizados tem que ser 
tratados com igualdade pela lei, pois muitas vezes são escravos 
da guerra e da injustiça. 
 Economicamente defende os primórdios do pensamento 
liberal. 
 Em suas viagens pela Holanda e Inglaterra ficou admirado 
com a tolerância religiosa, a liberdade de expressão de novas 
ideias políticas, científicas e filosóficas difundida nesses países. 
Se impressiona também com as novas descobertas científicas de 
Newton e o empirismo de Locke. Desses dois autores ele tira sua 
defesa da pesquisa científica baseada na experimentação e na 
busca de leis comuns que explicassem os mais diversos 
fenômenos naturais. Seguidor do empirismo, Voltaire defende a 
pesquisa científica sem a obediência e a dependência das 
verdades religiosas. 
 Voltaire acredita na existência de Deus e diz que se existe 
um relógio é porque existe também um relojoeiro, ou seja, a prova 
da existência de Deus está na organização e na disposição do 
universo, se existe uma obra é porque existe o artesão, o 
idealizador e construtor dessa obra, esse artesão é Deus, criador 
desse universo. Segundo ele, se Deus não existisse teríamos que 
inventá-lo, pois toda natureza grita que ele existe. O Deus de 
Voltaire é o grande arquiteto dessa máquina de funcionamento 
perfeito que é o universo. O Deus de Voltaire não divide as 
pessoas nem é a causa da intolerância, é um Deus universal, da 
mesma forma que a razão é comum a todos os homens. Crer em 
Deus é acreditar em algo evidente, mas a evidência da existência 
de Deus é possibilitada pela razão e não pela fé. Deus fez o 
universo, mas não intervêm mais nele, e, portanto o homem é um 
ser livre. 
 O filósofo critica os textos bíblicos e coloca em dúvida a sua 
fundamentação histórica e a legitimidade moral de boa parte 
deles. 
 Foram grandes as críticas de Voltaire à Igreja Católica que 
ele considera infame, supersticiosa, ridícula, absurda, suja de 
sangue e responsável pelo fanatismo e pela intolerância religiosa. 
Em substituição à Igreja Católica ele defende uma religião natural 
baseada em uma moral natural, tolerante e que busca unir os 
homens espiritualmente respeitando as diferenças culturais. 
 Por outro lado Voltaire é também contrário ao materialismo, 
ao espiritualismo e ao ateísmo. Considera esse último destruidor 
das virtudes humanas, diz que para uma sociedade é melhor ter 
uma religião falsa do que não ter nenhuma. Critica ainda o Islã, 
também pelo seu fanatismo. 
 Para ele a filosofia é o espírito crítico que vai contrapor a 
tradição para poder diferenciar o que verdadeiro do que é falso. 
 - Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), ele defendia a ideia 
de um estado democrático sob os princípios da Vontade Geral 
(maioria); 
 Rousseau era antes de tudo um filósofo especulativo, que 
criou um sistema contraditório, e tentou ser uma perversão do 
dogma católico do pecado original. Para ele, o homem nasce 
naturalmente bom, no mesmo estado de graça do casal original 
da Bíblia, mas se a Bíblia afirma que a curiosidade do homem em 
provar do fruto da árvore do bem e do mal foi a causa da sua 
queda, Rousseau atribui a tendência do homem para o mal à vida 
em sociedade. Rousseau não apresenta provas da sua tese, e 
suas teorias perigosas começam aí. 
 Rousseau identifica o mal com a necessidade que o homem 
tem de criar novas necessidades, que são fontes de outras 
privações; com a desigualdade, que é fruto da propriedade 
privada; e com a escravatura, mesmo no sentido do rei absoluto. 
 Rousseau inverte a filosofia Tomista que havia declarado 
que a natureza humana é boa no sentido metafísico, mas não no 
sentido histórico. O homem para São Tomás não é bom no seu 
começo. Rousseau confunde natureza metafísica com o sentido 
histórico, dizendo que o homem é bom em sua origem histórica, e 
que a pureza foi concedida a ele por Deus, sendo necessária a 
sua volta. 
 Na teologia católica, o homem nasce livre em sua razão, mas 
sua ação fica limitada pela vida em sociedade; já em Rousseau, a 
liberdade é um ato puro e perfeição pura de humanidade. Na 
filosofia católica, os homens em sua natureza individual não são 
iguais de maneira alguma. A cada um Deus concedeu dons 
variados de inteligência e na ordem da Graça. Quanto à justiça, 
os homens são iguais perante à lei, mas a cada um cabe um tipo 
de pena adequado à seu crime, nesse ponto a justiça deve ser 
desigual. Na filosofia de Rousseau, a igualdade deve ser imposta 
pelo Estado de uma maneira absoluta para compensar as 
desigualdades sociais. 
 
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 A Política e o Estado em Rousseau 
 Aqui entra suas ideias de contrato social e da Vontade Geral. 
O homem é livre, e é proibido renunciar a essa liberdade. Mas 
Rousseau prega que a família e as corporações são um crime, 
dessa forma só existe o indivíduo. A Vontade Geral é aquela que 
propõe o bem comum, e faz surgir um novo ser que é muito bom: 
o deus-Estado. 
 Como a Direita e a Esquerda herdaram às ideias de 
Rousseau 
 O surgimento do deus-estado é fruto do pensamento da 
maioria, sendo que essa maioria nas assembleias manifesta a 
Vontade Geral; cabe, portanto à minoria reconhecer que errou e 
deve se submeter à maioria. O indivíduo quando reconhece que é 
a minoria e errou, sacrifica sua liberdade individual, dessa forma 
todo o interesse individual desaparece, e consequentemente 
todas as desigualdades sociais. Mesmo com o estatismo, a 
liberdade, para Rousseau, permanece inalterada. 
 Como notou Bertrand Russell, Hitler é fruto de Rousseau. 
Stalin também, mesmo que o filósofo inglês não tenha dito isso. O 
povo é bom, mas precisa de um líder que o esclareça. A vontade 
geral é a única fonte da lei, do bem e do mal, do certo e do 
errado. Se a maioria, por exemplo, declarar que o aborto é bom, e 
não um crime, isso é lei, e para Rousseau, os que são contrários 
a essa decisão devem ser separados da sociedade, e em último 
caso, até mortos. 
 Quem governará a cidade? Será o guia, responde Rousseau, 
que deverá ser um super-homem, que irá transcender a natureza 
humana para aperfeiçoá-la. 
 Esse resumo da filosofia de Rousseau pode ser aplicado 
tanto a alguns esquerdistas, como alguns direitistas da nossa 
época. Eles não toleram a existência de uma oposição; todos 
devem se submeter à sua vontade, inclusive a assembleia e o 
judiciário. Existe a necessidade do guia que conduza o povo, e 
esse deve ter características messiânicas. Daí esse culto 
irracional que existiu como continua a existir a tantos líderes do 
mundo moderno. 
 “O Contrato Social” é apontada como a obra prima deste 
autor e nela ele expõe o conceito de contrato social. A definição 
de contrato social apresentada por Rousseau diz que este é um 
Pacto de Associação e não de submissão entre os membros de 
uma sociedade, ou seja, o contrato social é um acordo entre os 
indivíduos para que seja possívela criação de uma sociedade, 
ano de fundo necessário à criação e surgimento de um Estado. A 
liberdade está inerente na lei livremente aceita. 
 É a partir da análise da obra “O contrato Social” que 
verificamos a profunda distinção entre a definição de contrato 
social de Rousseau, e as definições apresentadas por Hobbes e 
Locke, como teremos oportunidade de ver em outra altura. 
 Para Rousseau, o homem é naturalmente bom e é a 
sociabilização que o degenera, este tema ele discute na obra: 
“Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade 
entre os homens” (1755) 
 
 
VONTADE GERAL 
 Rousseau introduz um elemento fundamental para a 
manutenção e bom funcionamento do Estado, qual seja, a 
vontade geral. Esta surge do conflito entre os interesses 
individuais e vontades particulares dos cidadãos. 
 A vontade geral distingue-se da vontade de todos e neste 
sentido o autor escreve: 
 “Há, às vezes, diferença entre a vontade de todos e a 
vontade geral: esta só atende ao interesse comum, enquanto a 
outra olha o interesse privado, e não é senão uma soma das 
vontades particulares. Porém, tirando estas mesmas vontades, 
que se destroem entre si, resta como soma dessas diferenças a 
vontade geral.” (Rousseau, 1980 : 32) 
 A vontade geral é, portanto, a busca do interesse comum 
somando as diferenças dos interesses particulares. 
 Na esteira do pensamento rousseauniano temos a noção de 
democracia participativa. Para o autor, os Estados de pequenas 
dimensões garantem a participação efetiva de seus cidadãos o 
que por sua vez garante a liberdade e a igualdade entre esses 
homens (dois aspectos fundamentais para Rousseau). 
 - Montesquieu (1689-1755), ele defendeu a divisão do poder 
político em Legislativo, Executivo e Judiciário; 
 O Espírito das Leis, o mais importante livro de Montesquieu 
publicado em 1748 quando o autor tinha cinquenta e nove anos, é 
produto de um pensamento elaborado na primeira metade do 
século XVIII, obra de um pensador, único na sua época, que 
considerava os problemas políticos em si mesmos, sem ideias 
pré-concebidas sobre o espírito e a natureza. 
 Para o pensamento ocidental, desde os sofistas gregos até 
aos filósofos de princípio do século XVIII, a diversidade das leis 
demonstrava a instabilidade da justiça humana, sendo que só no 
direito natural, comum a todas as sociedades, se podia encontrar 
a unidade original do direito. Mas para Montesquieu o problema 
não se colocava, já que para ele «a infinita diversidade de leis e 
costumes humanos não eram produto unicamente das suas 
fantasias». 
 O método de Montesquieu consistiu em examinar as leis 
positivas nas suas relações entre si, mostrando que, pela sua 
própria natureza, determinadas leis tanto implicavam como 
excluíam outras. Havia, por isso, entre as leis positivas, relações 
naturais de exclusão e de inclusão, dirigidas não pela 
arbitrariedade de um homem ou de uma assembleia, mas pela 
necessidade das coisas. 
 É por isso que que a obra mais famosa de Montesquieu, 
ocupando-se unicamente das leis positivas, excluindo qualquer 
investigação sobre as leis naturais, começa pela célebre 
formulação - «As leis, no seu significado mais lato, são relações 
necessárias que derivam da natureza das coisas. Há uma razão 
primitiva, e as leis são as relações que se encontram entre os 
vários seres, e das relações destes seres entre si.» Estas 
afirmações estavam de acordo com a ideia da existência de leis 
universais comuns a toda a humanidade, defendidas pelos 
racionalistas, mas vão mais além já que em Montesquieu existe 
um encadeamento entre elas, que faz com que uma determinada 
forma de governo implique uma legislação específica; assim como 
a variedade geográfica, a moral, o comércio, a religião acabam 
por modificar as leis. 
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 Mas, para Montesquieu a vida política de um país não é 
determinada por uma qualquer fatalidade, já que os homens são 
livres e «enquanto seres inteligentes violam constantemente as 
leis que Deus estabeleceu, modificando também as que eles 
próprios criaram.» Nessa base, as relações que se estabelecem 
entre os diferentes tipos de leis de uma sociedade, não são nem 
inexoráveis nem independentes da vontade humana; de facto 
Montesquieu nunca afirmou que um fator geográfico como o clima 
determinasse a constituição das sociedades, mesmo que muitos 
dos seus leitores o tenham concluído. 
 O objetivo de Montesquieu é descobrir modelos de 
sociedade que inspirem os legisladores. Sociedades que são 
muitas vezes apresentadas como instrumentos mecânicos - uma 
comparação típica do século XVIII - que foram criados e 
modificados pelo engenho humano e de acordo com relações de 
necessidade que foram sendo estabelecidas ao longo dos 
tempos. Modelos que, por terem um desenvolvimento temporal, 
podem ser analisados por meio da indução histórica, e também da 
dedução que ilumine o carácter natural e a conveniência dessas 
relações. 
 
 
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EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 
 
Questão 01 
Ao pensar como deve comportar-se um príncipe com seus 
súditos, Maquiavel questiona as concepções vigentes em sua 
época, segundo as quais consideravam o bom governo depende 
das boas qualidades morais dos homens que dirigem as 
instituições. Para o autor, “um homem que quiser fazer profissão 
de bondade é natural que se arruíne entre tantos que são maus. 
Assim, é necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda 
a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso 
segundo a necessidade”. 
 
Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Abril cultural, Os Pensadores, 
1973, p.69. 
 
Sobre o pensamento de Maquiavel, a respeito do comportamento 
de um príncipe, é correto afirmar que: 
 
a) a atitude do governante para com os governados deve estar 
pautada em sólidos valores éticos, devendo o príncipe punir 
aqueles que não agem eticamente. 
b) o Bem comum e a justiça não são os princípios fundadores da 
política; esta, em função da finalidade que lhe é própria e das 
dificuldades concretas de realizá-la, não está relacionada com a 
ética. 
c) o governante deve ser um modelo de virtude, e é precisamente 
por saber como governar a si próprio e não se deixar influenciar 
pelos maus que ele está qualificado a governar os outros, isto é, a 
conduzi-los à virtude. 
d) o Bem supremo é o que norteia as ações do governante, 
mesmo nas situações em que seus atos pareçam maus. 
e) a ética e a política são inseparáveis, pois o bem dos indivíduos 
só é possível no âmbito de uma comunidade política onde o 
governante age conforme a virtude. 
 
Questão 02 
Nasce daqui uma questão: se vale mais ser amado que temido ou 
temido que amado. Responde-se que ambas as coisas seriam de 
desejar; mas porque é difícil juntá-las, é muito mais seguro ser 
temido que amado, quando haja de faltar uma das duas. Porque 
dos homens se pode dizer, duma maneira geral, que são ingratos, 
volúveis, simuladores, covardes e ávidos de lucro, e enquanto 
lhes fazes bem são inteiramente teus, oferecem-te o sangue, os 
bens, a vida e os filhos, quando, como acima disse, o perigo está 
longe; mas quando ele chega, revoltam-se. 
MAQUIAVEL, N. O príncipe. Rio de Janeiro: Bertrand, 1991. 
 
A partir da análise histórica do comportamento humano em suas 
relações sociais e políticas, Maquiavel define o homem como um 
ser 
 
a) munido de virtude, com disposição nata a praticar o bem a si e 
aos outros. 
b) possuidor de fortuna, valendo-se de riquezas para alcançar 
êxito na política. 
c) guiado por interesses, de modo que suas ações sãoimprevisíveis e inconstantes. 
d) naturalmente racional, vivendo em um estado pré-social e 
portando seus direitos naturais. 
e) sociável por natureza, mantendo relações pacíficas com seus 
pares. 
 
Questão 03 
Étienne de La Boétie em sua obra “O discurso da servidão 
voluntária” apresenta os tipos de governantes tiranos. São eles: 
a) o tirano que obtém o poder pela força das armas, aquele que 
obtém o poder por sucessão e aquele que obtém o poder por 
vontade de Deus. 
b) o tirano que obtém o poder por meio de eleições, o que obtém 
o poder pela força das armas e o que obtém o poder por vontade 
de Deus. 
c) o tirano que obtém o poder pela força das armas, aquele que 
obtém o poder por sucessão e aquele que obtém o poder através 
de uma revolução. 
d) o tirano que obtém o poder por meio de eleições, aquele que 
obtém o poder pelas forças das armas e aquele que obtém o 
poder por sucessão. 
e) o tirano que obtém o poder pela força das armas, aquele que 
obtém o poder através de uma revolução e aquele que obtém o 
poder por meio de eleições. 
 
Questão 04 
O homem natural é tudo para si mesmo; é a unidade numérica, o 
inteiro absoluto, que só se relaciona consigo mesmo ou com seu 
semelhante. O homem civil é apenas uma unidade fracionária que 
se liga ao denominador, e cujo valor está em sua relação com o 
todo, que é o corpo social. As boas instituições sociais são as que 
melhor sabem desnaturar o homem, retirar-lhe sua existência 
absoluta para dar-lhe uma relativa, e transferir o eu para a 
unidade comum, de sorte que cada particular não se julgue mais 
como tal, e sim como uma parte da unidade, e só seja percebido 
no todo. 
 
ROUSSEAU, J. J. Emílio ou da Educação. São Paulo: Martins 
Fontes, 1999. 
 
A visão de Rousseau em relação à natureza humana, conforme 
expressa o texto, diz que 
 
a) o homem civil é formado a partir do desvio de sua própria 
natureza. 
b) as instituições sociais formam o homem de acordo com a sua 
essência natural. 
c) o homem civil é um todo no corpo social, pois as instituições 
sociais dependem dele. 
d) o homem é forçado a sair da natureza para se tornar absoluto. 
e) as instituições sociais expressam a natureza humana, pois o 
homem é um ser político. 
 
 
 
 
 
 
 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 Questão 05 
Thomas Hobbes é considerado um dos maiores filósofos políticos 
da Idade Moderna, até Hegel. Escreveu obras políticas 
fundamentais para a compreensão do Estado Moderno. Sua obra 
mais conhecida é O Leviatã (1651). Seguindo o pensamento de 
Hobbes, assinale a alternativa incorreta sobre Hobbes e o seu 
pensamento. 
 
a) Para Hobbes o poder do soberano não é absoluto. O poder do 
governante tem que ser limitado. Ou o poder é limitado, ou 
continuamos na condição de guerra. 
b) Thomas Hobbes é considerado um filósofo contratualista, pois 
se trata de um pensador que viveu entre o século XVI e XVIII, e 
que afirmava que a origem do Estado e/ou sociedade está num 
contrato. 
c) Para Hobbes, o poder do Estado tem que ser pleno, absoluto. A 
autoridade do poder de um rei deve resolver todas as pendências 
e arbitrar qualquer decisão. 
d) Segundo Hobbes, do Estado derivam todos os direitos a quem 
o poder soberano é conferido mediante o consentimento do povo 
reunido. 
e) Sua teoria contratual afirma o princípio de preservação da vida 
na base da política e sustenta a ideia da criação e da manutenção 
do poder soberano no ato de linguagem implicado na estrutura 
representativa do pacto político. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO 
 
Questão 01 
O Absolutismo como forma de governo esteve presente na 
península Ibérica, na França e na Inglaterra, tendo impactado e 
influenciado as maiores economias de seu tempo. 
 
Seus pensadores mais conhecidos e suas teorias foram: 
 
a) Nicolau Maquiavel e sua teoria de que o indivíduo estava 
subordinado ao Estado; Thomas Hobbes, criador da teoria do 
Contrato; Jacques Bossuet e Jean Bodin, que defenderam que o 
Rei era um representante divino. 
b) Nicolau Maquiavel e a teoria do Contrato; Thomas Hobbes e a 
teoria da supremacia do Rei como representante divino; Jacques 
Bossuet e Jean Bodin, que defenderam a subordinação do 
indivíduo ao Estado. 
c) Maquiavel, Jacques Bossuet e Jean Bodin, cujas teorias só se 
diferenciaram na aplicabilidade teológica, bem como Thomas 
Hobbes, que preconizou o indivíduo como senhor de seus 
direitos. 
d) Maquiavel e Thomas Hobbes, que conceberam o Contrato 
Social, Jacques Bossuet, que estabeleceu o conceito de 
individualismo primordial, e Jean Bodin, que defendeu a primazia 
da esfera governamental. 
 
Questão 02 (Unicamp 2012) 
“O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros. O 
que se crê senhor dos demais não deixa de ser mais escravo do 
que eles. (...) A ordem social, porém, é um direito sagrado que 
serve de base a todos os outros. (...) Haverá sempre uma grande 
diferença entre subjugar uma multidão e reger uma sociedade. 
Sejam homens isolados, quantos possam ser submetidos 
sucessivamente a um só, e não verei nisso senão um senhor e 
escravos, de modo algum considerando-os um povo e seu chefe. 
Trata-se, caso se queira, de uma agregação, mas não de uma 
associação; nela não existe bem público, nem corpo político.” 
 
(Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social. [1762]. São Paulo: 
Ed. Abril, 1973, p. 28,36.) 
 
No trecho apresentado, o autor 
 
a) argumenta que um corpo político existe quando os homens 
encontram-se associados em estado de igualdade política. 
b) reconhece os direitos sagrados como base para os direitos 
políticos e sociais. 
c) defende a necessidade de os homens se unirem em 
agregações, em busca de seus direitos políticos. 
d) denuncia a prática da escravidão nas Américas, que obrigava 
multidões de homens a se submeterem a um único senhor. 
 
 
 
 
 
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 Questão 03 
A importância do argumento de Hobbes está em parte no fato de 
que ele se ampara em suposições bastante plausíveis sobre as 
condições normais da vida humana. Para exemplificar: o 
argumento não supõe que todos sejam de fato movidos por 
orgulho e vaidade para buscar o domínio sobre os outros; essa 
seria uma suposição discutível que possibilitaria a conclusão 
pretendida por Hobbes, mas de modo fácil demais. O que torna o 
argumento assustador e lhe atribui importância e força dramática 
é que ele acredita que pessoas normais, até mesmo as mais 
agradáveis, podem ser inadvertidamente lançadas nesse tipo de 
situação, que resvalará, então, em um estado de guerra. 
 
RAWLS, J. Conferências sobre a história da filosofia política. São 
Paulo: WMF, 2012 (adaptado). 
 
O texto apresenta uma concepção de filosofia política conhecida 
como 
a) alienação ideológica. 
b) microfísica do poder. 
c) estado de natureza. 
d) contrato social. 
e) vontade geral. 
 
Questão 04 
“Através dos princípios de um direito natural preexistente ao 
Estado, de um Estado baseado no consenso, de subordinação do 
poder executivo ao poder legislativo, de um poder limitado, de 
direito de resistência, Locke expôs as diretrizes fundamentais do 
Estado liberal.” 
Bobbio. 
 
 Considerando o texto citado e o pensamento político de Locke, 
seguem as afirmativas abaixo: 
 
I. A passagem do estado de natureza para a sociedade política ou 
civil, segundo Locke, é realizada mediante um contrato social, 
através do qual os indivíduos singulares, livres e iguais dão seu 
consentimento para ingressar no estado civil. 
II. O livre consentimento dos indivíduospara formar a sociedade, 
a proteção dos direitos naturais pelo governo, a subordinação dos 
poderes, a limitação do poder e o direito à resistência são 
princípios fundamentais do liberalismo político de Locke. 
III. A violação deliberada e sistemática dos direitos naturais e o 
uso contínuo da força sem amparo legal, segundo Locke, não são 
suficientes para conferir legitimidade ao direito de resistência, pois 
o exercício de tal direito causaria a dissolução do estado civil e, 
em consequência, o retorno ao estado de natureza. 
IV. Os indivíduos consentem livremente, segundo Locke, em 
constituir a sociedade política com a finalidade de preservar e 
proteger, com o amparo da lei, do arbítrio e da força comum de 
um corpo político unitário, os seus inalienáveis direitos naturais à 
vida, à liberdade e à propriedade. 
 
V. Da dissolução do poder legislativo, que é o poder no qual “se 
unem os membros de uma comunidade para formar um corpo 
vivo e coerente”, decorre, como consequência, a dissolução do 
estado de natureza. 
 
Das afirmativas feitas acima 
a) somente a afirmação I está correta. 
b) as afirmações I e III estão corretas. 
c) as afirmações III e IV estão corretas. 
d) as afirmação II e III estão corretas. 
e) as afirmações III e V estão incorretas. 
 
Questão 05 
Porque as leis de natureza (como a justiça, a equidade, a 
modéstia, a piedade, ou, em resumo, fazer aos outros o que 
queremos que nos façam) por si mesmas, na ausência do temor 
de algum poder capaz de levá-las a ser respeitadas, são 
contrárias a nossas paixões naturais, as quais nos fazem tender 
para a parcialidade, o orgulho, a vingança e coisas semelhantes. 
 
HOBBES, Thomas. Leviatã. Cap. XVII. Tradução de João Paulo 
Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Nova 
Cultural, 1988, p. 103. 
 
Em relação ao papel do Estado, Hobbes considera que: 
a) O seu poder deve ser parcial. O soberano que nasce com o 
advento do contrato social deve assiná-lo, para submeter-se aos 
compromissos ali firmados. 
b) A condição natural do homem é de guerra de todos contra 
todos. Resolver tal condição é possível apenas com um poder 
estatal pleno. 
c) Os homens são, por natureza, desiguais. Por isso, a criação do 
Estado deve servir como instrumento de realização da isonomia 
entre tais homens. 
d) A guerra de todos contra todos surge com o Estado repressor. 
O homem não deve se submeter de bom grado à violência estatal. 
 
Questão 06 
Em filosofia política, o contratualismo visa à construção de uma 
“teoria racional sobre a origem e o fundamento do Estado e da 
sociedade política”. O modelo contratualista é “... construído com 
base na grande dicotomia ‘estado (ou sociedade) de natureza / 
estado (ou sociedade) civil’” (cf. BOBBIO), sendo que a passagem 
do estado de natureza para o estado civil ocorre mediante o 
contrato social. 
 
Considerando o texto acima e as diferentes teorias 
contratualistas, é INCORRETO afirmar que 
a) o ponto de partida, no pensamento contratualista, para a 
análise da origem e fundamento do Estado, é o estado político 
historicamente existente, cujo princípio de legitimação de sua 
efetividade histórica é o consenso. 
b) os elementos constitutivos do estado de natureza são 
indivíduos singulares, livres e iguais uns em relação aos outros, 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 sendo o estado de natureza um estado no qual reinam a 
igualdade e a liberdade. 
c) para o contratualismo, a sociedade política, em contraposição a 
qualquer forma de sociedade natural, encontra seu princípio de 
fundamentação e legitimação no consenso dos indivíduos 
participantes do contrato social. 
d) diferentemente de Locke, que concebe o estado de natureza 
como um “estado de relativa paz, concórdia e harmonia”, para 
Hobbes, o estado de natureza é um estado de guerra 
generalizada, de todos contra todos, de insegurança e violência. 
e) a passagem do estado de natureza para o estado civil ocorre 
mediante uma ou mais convenções, ou seja, mediante “um ou 
mais atos voluntários e deliberados dos indivíduos interessados 
em sair do estado de natureza”, e ingressar no estado civil. 
 
Questão 07 
As monarquias absolutistas se consolidaram na Europa entre os 
séculos XVI e XVIII por meio de instrumentos como a 
racionalização das instituições burocráticas e o estabelecimento 
de sistemas jurídicos, baseados no antigo Direito Romano e nas 
tradições germânicas. Também nessa época surge a filosofia 
política moderna, que contribuiu para o processo de legitimação 
das monarquias, ao fundamentar racionalmente o dever dos 
cidadãos perante o Estado e a concentração de poderes na figura 
do soberano. Sobre o Estado Absolutista moderno, assinale o que 
for correto. 
 
01) O filósofo inglês John Locke formulou a tese de que, no 
estado de natureza, os homens viviam em permanente estado de 
guerra, o que gerava insegurança, anarquia e miséria. No seu 
entendimento, o Estado Absolutista surgiu para fazer cessar essa 
“guerra de todos contra todos”. Em troca de segurança, os 
indivíduos teriam aceitado uma espécie de “servidão voluntária” 
face ao poder real. 
02) O Estado Absolutista foi consolidado na Inglaterra com a 
Ascensão de Jorge III, da dinastia de Hanover, no final do século 
XVI. 
04) O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), em sua obra 
Leviatã (1651), afirma que todos os indivíduos, em sua condição 
natural, têm igual poder de realizar o que desejam. Porém esse 
poder é voluntariamente transferido para o Estado, por meio do 
contrato social, para o benefício de todos. 
08) O cardeal Richelieu, espécie de primeiro-ministro de Luiz XIII, 
deu passos importantes para a consolidação do poder absolutista 
na França. Entre seus feitos estão: a criação do corpo de 
intendentes, servidores que ocupavam cargos não vendáveis e 
que fiscalizavam as províncias; a redução do poder da alta 
nobreza; a consolidação de um exército permanente e a extinção 
do poder militar dos protestantes, arrebatando-lhes a fortaleza 
militar de La Rochelle. 
16) No Estado Absolutista, o soberano encontra-se submetido às 
mesmas leis que os demais cidadãos, a fim de restringir o poder 
do governo central. 
 
Questão 08 
O filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) diz no Contrato 
Social: 
 
“A passagem do estado natural ao estado civil produz no homem 
uma mudança notável, substituindo em sua conduta o instinto 
pela justiça, e conferindo às suas ações a moralidade que 
anteriormente lhes faltava. [...] O que o homem perde pelo 
contrato social é a liberdade natural e um direito ilimitado a tudo 
que o tenta e pode alcançar; o que ganha é a liberdade civil e a 
propriedade de tudo o que possui.” 
 
(ROUSSEAU, Jean-Jacques. Contrato Social. In: Antologia de 
textos filosóficos. Curitiba: SEED-PR, 2009, p. 606-607.) 
 
A partir desse trecho, que reproduz uma concepção clássica da 
filosofia política contratualista, é correto afirmar que: 
01) A opção pelo contrato social ocorre porque não há garantias 
jurídicas no estado natural. 
02) O estado natural é pautado por condutas instintivas porque 
não há limitações cívicas ou legais. 
04) O contrato social garante mais liberdade civil porque os 
homens agem moralmente. 
08) A liberdade civil não é uma conquista para os homens porque 
eles perdem seu maior bem, a liberdade instintiva. 
16) O estado natural é inseguro e injusto porque não há homens 
moralmente corretos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA 
 
Questão 01:Resolução: 
 
Resposta: Alternativa A 
 
Questão 02: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa A 
 
Questão 03: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa C 
 
Questão 04: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa E 
 
Questão 05: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa B 
 
Questão 06: 
Resolução: 
 
 
Resposta: Alternativa A 
 
Questão 07: 
Resolução: 
04 + 08 = 12. 
Resposta: Alternativa 
 
Questão 08: 
Resolução: 
 01 + 02 + 04 = 07. 
Resposta: Alternativa 
 
 
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Prof. Márcio Michiles 
LIBERDADE 
 
 Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre 
arbítrio, de acordo com a própria vontade, desde que não 
prejudique outra pessoa, é a sensação de estar livre e não 
depender de ninguém. Liberdade é também um conjunto de 
ideias liberais e dos direitos de cada cidadão. Liberdade é 
classificada pela filosofia, como a independência do ser 
humano, o poder de ter autonomia e espontaneidade. A 
liberdade é um conceito utópico, uma vez que é questionável 
se realmente os indivíduos tem a liberdade que dizem ter, se 
com as mídias ela realmente existe, ou não. Diversos 
pensadores e filósofos dissertaram sobre a liberdade como 
Sartre, Descartes, Kant, Marx e outros. No meio jurídico, 
existe a liberdade condicional, que é quando um indivíduo 
que foi condenado por algo que cometeu, recebe o direito de 
cumprir toda, ou parte de sua pena em liberdade, ou seja, 
com o direito de fazer o que tiver interesse, mas de acordo 
com as normas da justiça. Existe também a liberdade 
provisória, que é atribuída a um indivíduo com cunho 
temporário. Pode ser obrigatória, permitida (com ou sem 
fiança) e vedada (em certos casos como o alegado 
envolvimento em crime organizado). 
 
 A liberdade de expressão é a garantia e a capacidade 
dada a um indivíduo, que lhe permite expressar as suas 
opiniões e crenças sem ser censurado. Apesar disso, estão 
previstos alguns casos em que se verifica a restrição legítima 
da liberdade de expressão, quando a opinião ou crença tem 
o objetivo discriminar uma pessoa ou grupo específico 
através de declarações injuriosas e difamatórias. Com 
origem no termo em latim libertas, a palavra liberdade 
também pode ser usada em sentido figurado, podendo ser 
sinônimo de ousadia, franqueza ou familiaridade. Ex: Como 
você chegou tarde, eu tomei a liberdade de pedir o jantar 
para você. A liberdade pode consistir na personificação de 
ideologias liberais. Faz parte do lema "Liberdade, Igualdade 
e Fraternidade", criado em 1793 para expressar valores 
defendidos pela Revolução Francesa, uma revolta que teve 
um impacto enorme nas sociedades contemporâneas e nos 
sistemas políticos da atualidade. 
 
 No âmbito da música, várias obras foram dedicadas ou 
inspiradas pelo conceito de liberdade. Um exemplo é o Hino 
da Proclamação da República do Brasil, escrito por Medeiros 
de Albuquerque: "Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre 
nós!" 
 
 Liberdade e Ética. De acordo com a ética, a liberdade 
está relacionada com responsabilidade, uma vez que um 
indivíduo tem todo o direito de ter liberdade, desde que essa 
atitude não desrespeite ninguém, não passe por cima de 
princípios éticos e legais. 
 
 
 Segundo a filosofia, liberdade é o conjunto de direitos 
de cada indivíduo, seja ele considerado isoladamente ou em 
grupo, perante o governo do país em que reside; é o poder 
qualquer cidadão tem de exercer a sua vontade dentro dos 
limites da lei. 
 
 Diversos filósofos estudaram e publicaram suas obras 
sobre a liberdade como Marx, Sartre, Descartes, Kant e 
outros. Para Descartes a liberdade é motivada pela decisão 
do próprio indivíduo, mas muitas vezes essa vontade 
depende de outros fatores, como dinheiro ou bens materiais. 
 Em geral vou tentar abordar a visão de liberdade de 
alguns filósofos em destaque: 
 
SÓCRATES 
 Sócrates, nasceu entre 470/469 a.C época em que os 
gregos enfrentam as Guerras Médicas onde o Mar Egeu 
passa a ser um mar “helênico”. Atenas assume nesse 
período a hegemonia da Grécia onde já está instituído o 
governo democrático além da forte influência dos chamados 
“sofistas” que usavam o jogo da linguagem para difundirem 
seus pensamentos acerca de temas como justo, belo, bom 
mediante pagamento, passando assim a seculariza a filosofia 
buscando-a por seu valor utilitário, negando assim, o 
absolutismo da verdade, pois concebem a verdade como 
uma criação do homem, uma construção histórica, uma 
convenção social, e atribuem essas características aos 
conceitos sobre Direito, Liberdade, Bem-estar, etc. 
 
 A partir daí surge a figura de Sócrates que vem para 
romper e quebrar esses paradigmas existentes, 
reposicionando a atividade lógica (constituindo uma cr ítica 
aos sofistas) em que a verdade só pode ser alcançada senão 
por uma certeza e opinião, conceito e preconceito. Fundando 
assim a ontologia da “descoberta do ser” concentrando sua 
filosofia no “conhecer-se a si mesmo” tentando assim instigar 
o indivíduo a pensar por si mesmo. Deste ponto começa 
nossa pesquisa acerca de como esse indivíduo relaciona-se 
com essa “liberdade de expressão”, mediante o pensamento 
de liberdade para Sócrates, fazendo uma breve análise entre 
o julgamento de Sócrates e a formação dos Estados 
Democráticos e por fim fazer uma análise da necessidade e 
objetivo da fortificação da liberdade de expressão na 
atualidade. 
 
 Para começar nosso estudo de antemão torna-se 
necessário analisar as várias concepções que se tem no 
mundo antigo de liberdade e mesmo de indivíduo. Partindo 
deste ponto chegamos a três concepções principais expostos 
por Gigon a seguir: A primeira é a concepção em que se tem 
a liberdade como forma de vida do Estado e do indivíduo no 
Estado e na sociedade. Já a segunda é a que concebe a 
liberdade como pressuposto de toda ação eticamente 
responsável e, por isso, serão consideradas sobretudo as 
limitações que, justamente, de muitos lados, restringem essa 
liberdade. E na terceira, perguntar-se-á como, na perspectiva 
cosmológica e teológica, pode-se afirmar a liberdade da ação 
humana. Tanto na antiguidade quanto na atualidade, a 
concepção de “liberdade” é considerada um fim intrínseco a 
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 realidade, tanto do indivíduo como da sociedade em que ele 
vive, e por consequência também influência a história 
mundial no âmbito de seu conjunto. 
 
 No mundo antigo “cidadão era aquele que tinha o direito 
e a competência para emitir opiniões sobre todos os 
assuntos da cidade, de ouvir todas as opiniões diferentes e 
de discutir todas elas para poder decidir e votar” (CHAUI, 
2002, p.203). Vale ressalvar, nem todos eram considerados 
cidadãos, e por consequência nem todos tinham o direito a 
chamada “liberdade” aqui está era para aquele grupo de 
indivíduos que conseguiram superar o domínio da Zoe e se 
encontravam no chamado domínio da Bios, que seria uma 
forma de vida idealizada, no qual o âmbito principal seria a 
questão da política do bem viver que poderia ser discutida. 
 
 Para falarmos sobre democracia no mundo antigo 
precisamos antes explanar o que seria a democracia, e 
assim chegar ao sentido que seus limites sociais 
implicam. Para os indivíduos desse período a autarquia seria 
a forma ideal de poder, já que ela significa, em primeiro 
lugar, a pretensão de poder satisfazer a todas as 
necessidades físicas por suas próprias forças ou sem 
depender do serviço prestado por um estranho, no que toca 
ao indivíduo, a autarquia pode traduzir a tentativa de contar 
integralmente consigo mesmo para sua sobrevivência física 
representando assim sua importância como expressão da 
independência espiritualdo indivíduo, onde o mesmo basta-
se a si próprio e não precisa da presença de qualquer outro 
homem. Atualmente, o termo democracia diz respeito “a um 
governo pelo povo seja direto ou representativo” e o termo 
república geralmente é usado para se referir a “um sistema 
político onde um chefe de estado é eleito por um tempo 
limitado, oposto de uma monarquia constitucional”. 
 
 Mas se a forma ideal de governo seria uma monarquia, 
e neste viés a democracia seria uma forma de governo não 
ideal, qual a contribuição de Sócrates para a sua instauração 
na atualidade? Sócrates não tentou nem ao mesmo se 
defender ao invés disso lutou até o seu fim para 
defender suas ideias, o que o fez até o último minuto da sua 
vida. Depois disto, se passado mais de 24 séculos pouco 
refletimos sobre a grandiosidade do ato desse ilustre 
pensador que marcou o pensamento filosófico. Com sua 
determinação de preferir ser condenado a deixar de 
filosofar, “Eu nunca deixarei de pensar”, Sócrates 
estabeleceu as bases da luta pelo direito a manifestação de 
pensamentos e defesa dos mesmos, a chamada liberdade de 
expressão, que influenciada junto com os ideais iluministas 
contribuiu para a formação das atuais democracias. 
 
 Com a posição de Sócrates a filosofia ganhou vida. 
Além de deixar também um dos maiores legados as 
sociedades contemporâneas democráticas: o exemplo de luta 
pelo direito de expor suas ideias e pensamentos e defendê-
los. Sócrates morreu injustamente, porém, em defesa do 
pensamento e da verdade. 
 
 
DESCARTES 
 Para o filósofo René Descartes (1596-1650), age com 
mais liberdade quem melhor compreende as alternativas que 
precedem a escolha. Dessa premissa, decorre 
o silogismo lógico de que, quanto mais evidente a veracidade 
de uma alternativa, maiores as chances de ela ser escolhida 
pelo agente. Nesse sentido, a inexistência de acesso à 
informação afigura-se óbice à identificação da alternativa 
com maior grau de veracidade. 
 
ESPINOZA 
 Para Espinoza (1632-1677), a liberdade possui um 
elemento de identificação com a natureza do "ser". Nesse 
sentido, ser livre significa agir de acordo com sua natureza. 
É mediante a liberdade que o Homem se exprime como tal e 
em sua totalidade. Esta é também, enquanto meta dos seus 
esforços, a sua própria realização. Tendemos a associar a 
fruição da liberdade a uma determinação constante e 
inescapável. Contudo, os ditames de nossa vida estão sendo 
realizados a cada passo que damos: assim, a deliberação 
está também a cargo da vontade humana (na qual se 
inserem as leis físicas e químicas, biológicas e psicológicas). 
Diretamente associada à ideia de liberdade, está a noção de 
responsabilidade, vez que o ato de ser livre implica assumir 
o conjunto dos nossos atos e saber responder por eles. 
 
GOTTFRIED WILHELM LEIBNIZ 
 Para Leibniz (1646-1716), o agir humano é livre a 
despeito do princípio de causalidade que rege os objetos do 
mundo material. 
 
 “A ação humana é contingente, espontânea e refletida. 
Ou seja, ela é tal que poderia ser de outra forma (nunca é 
necessária) e, por isso, contingente. É espontânea porque 
sempre parte do sujeito agente que, mesmo determinado, é 
responsável por causar ou não uma nova série de eventos 
dentro da teia causal. É refletida porque o homem pode 
conhecer os motivos pelos quais age no mundo e, uma vez 
conhecendo-os, lidar com eles de maneira livre. ” 
 
KANT 
 Segundo Kant, liberdade está relacionado com 
autonomia, é o direito do indivíduo dar suas próprias regras, 
que devem ser seguidas racionalmente. Essa liberdade só 
ocorre realmente, através do conhecimento das leis morais e 
não apenas pela própria vontade da pessoa. Kant diz que a 
liberdade é o livre arbítrio e não deve ser relacionado com as 
leis. 
 
SCHOPENHAUER 
 Para Arthur Schopenhauer (1788-1860), a ação humana 
não é absolutamente livre. Todo o agir humano, bem como 
todos os fenômenos da natureza, até mesmo suas leis, são 
níveis de objetivação da coisa em si kantiana que o filósofo 
identifica como sendo puramente vontade. Para 
Schopenhauer, o homem é capaz de acessar sua realidade 
por um duplo registro: o primeiro, o do fenômeno, onde todo 
o existente reduz-se, nesse nível, a mera representação. No 
nível essencial, que não se deixa apreender pela intuição 
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 intelectual, pela experiência dos sentidos, o mundo é 
apreendido imediatamente como vontade, Vontade de Vida. 
 
 Nesse caso, a noção de vontade assume um aspecto 
amplo e aberto, transformando-se no princípio motor dos 
eventos que se sucedem na dimensão fenomênica segundo a 
lei da causalidade. O homem, objeto entre objetos, coisa 
entre coisas, não possui liberdade de ação porque não é livre 
para deliberar sobre sua vontade. O homem não escolhe o 
que deseja, o que quer. Logo, não é livre - é absolutamente 
determinado a agir segundo sua vontade particular, 
objetivação da vontade metafísica por trás de todos os 
eventos naturais. O que parece deliberação é uma ilusão 
ocasionada pela mera consciência sobre os próprios desejos. 
É poder viver sem ninguém mandar. 
 
BAKUNIN 
 Bakunin (1814-1876) não se referia a um ideal abstrato de 
liberdade, mas a uma realidade concreta baseada na liberdade 
simétrica de outros. Liberdade consiste no "desenvolvimento 
pleno de todas as faculdades e poderes de cada ser humano, 
pela educação, pelo treinamento científico, e pela prosperidade 
material". Tal concepção de liberdade é "eminentemente social, 
porque só pode ser concretizada em sociedade," não em 
isolamento. Em um sentido negativo, liberdade é "a revolta do 
indivíduo contra todo tipo de autoridade, divina, coletiva ou 
individual." 
 
MARX 
 Marx Influenciado por Hegel, nos Manuscritos econômico-
filosóficos e em A ideologia Alemã, Karl Marx (1818-1883) 
entende a liberdade humana como a constante criação prática 
pelos indivíduos de circunstâncias objetivas nas quais despontam 
suas faculdades, sentidos e aptidões (artísticas, sensórias, 
teóricas. Ele, assim, critica as concepções metafísicas da 
liberdade. Para ele, não há liberdade sem o mundo material no 
qual os indivíduos manifestam na prática sua liberdade junto com 
outras pessoas, em que transformam suas circunstâncias 
objetivas de modo a criar o mundo objetivo de suas faculdades, 
sentidos e aptidões. Ou seja, a liberdade humana só pode ser 
encontrada de fato pelos indivíduos na produção prática das suas 
próprias condições materiais de existência. Desse modo, se os 
indivíduos são privados de suas próprias condições materiais de 
existência, isto é, se suas condições objetivas de existência 
são propriedade privada (de outra pessoa, portanto), não há 
verdadeira liberdade, e a sociedade se divide em proletários e 
capitalistas. 
 
 Sob o domínio do capital, a manifestação prática da vida 
humana, a atividade produtiva, se torna coerção, trabalho 
assalariado; as faculdades, habilidades e aptidões humanas se 
tornam mercadoria, força de trabalho, que é vendida no mercado 
de trabalho, e a vida humana se reduz à mera sobrevivência. 
Marx diz que as várias liberdades parciais que existem 
no capitalismo - por exemplo, a liberdade econômica (de comprar 
e vender mercadorias), a liberdade de expressão ou a liberdade 
política (decidir quem governa) - pressupõem que a separação 
dos homens com relação as suas condições de existência seja 
mantida, pois, caso essa separação seja atacada pelos homens 
em busca de sua liberdade material fundamental, todas essas 
liberdades parciais são suspensas (ditadura) para restabelecer o 
capitalismo. Mas, se a luta dos indivíduos privados de suas 
condições de existência (proletários) tiver êxito e se eles 
conseguirem abolir a propriedade privada dessas condições, seria 
instaurado o comunismo, queele entende como a associação 
livre dos produtores. 
 
SARTRE 
 Para Jean-Paul Sartre (1905-1980), a liberdade é a 
condição ontológica do ser humano. O homem é, antes de tudo, 
livre. O homem é livre mesmo de uma essência particular, como 
não o são os objetos do mundo, as coisas. Livre a um ponto tal 
que pode ser considerado a brecha por onde o Nada encontra seu 
espaço na ontologia. O homem é nada antes de definir-se como 
algo, e é absolutamente livre para definir-se, engajar-se, encerrar-
se, esgotar a si mesmo. O tema da liberdade é o núcleo central do 
pensamento do filósofo francês e resume toda a sua doutrina. Sua 
tese é: a liberdade é absoluta ou não existe. Sartre recusa 
todo determinismo e mesmo qualquer forma de condicionamento. 
Assim, ele recusa Deus e inverte a tese de Lutero; para este, a 
liberdade não existe justamente porque Deus tudo sabe e tudo 
prevê. Mas como, para Sartre, Deus não existe, a liberdade é 
absoluta. 
 
 E recusa também o determinismo materialista: se tudo se 
reduzisse à matéria, não haveria consciência e não haveria 
liberdade. Qual é, então, o fundamento da liberdade? É o nada, o 
indeterminismo absoluto. Agora entende-se melhor a má-fé: a 
tendência a ser termina sendo a negação da liberdade. Se o 
fundamento da consciência é o nada, nenhum ser consegue ser 
princípio de explicação do comportamento humano. Não há 
nenhum tipo de essência - divina, biológica, psicológica ou social - 
que anteceda e possa justificar o ato livre. É o próprio ato que 
tudo justifica. Por exemplo: de certo modo, eu escolho inclusive o 
meu nascimento. Por quê? Se eu me explicasse a partir de meu 
nascimento, de uma certa constituição psicossomática, eu seria 
apenas uma sucessão de objetos. 
 
 Mas o homem não é objeto, ele é sujeito. Isso significa que, 
aqui e agora, a cada instante, é a minha consciência que está 
"escolhendo", para mim, aquilo que meu nascimento foi. O modo 
como sou meu nascimento é eternamente mediado pela 
consciência, ou seja, pelo nada. A falsificação da liberdade, ou a 
má-fé, reside precisamente na invenção dos determinismos de 
toda espécie, que põem no lugar do nada o ser. A liberdade 
humana revela-se na angústia. O homem angustia-se diante de 
sua condenação à liberdade. O homem só não é livre para não 
ser livre, está condenado a fazer escolhas, e a responsabilidade 
de suas escolhas é tão opressiva que surgem escapatórias 
através das atitudes e paradigmas de má-fé, onde o homem 
aliena-se de sua própria liberdade, mentindo para si mesmo 
através de condutas e ideologias que o isentem da 
responsabilidade sobre as próprias decisões. 
 
GUY DEBORD 
 No livro A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord (1931-
1994), ao criticar a sociedade de consumo e o mercado, afirma 
que a liberdade de escolha é uma liberdade ilusória, pois escolher 
é sempre escolher entre duas ou mais coisas prontas, isto é, 
predeterminadas por outros. Uma sociedade como a capitalista, 
onde a única liberdade que existe socialmente é a liberdade de 
escolher qual mercadoria consumir, impede que os indivíduos 
sejam livres na sua vida cotidiana. 
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 A vida cotidiana na sociedade capitalista se divide em tempo 
de trabalho (que é não livre, submetido à hierarquia de 
administradores e às exigências de lucro impostas pelo mercado) 
e tempo de lazer (onde os indivíduos têm uma liberdade 
domesticada que é escolher entre coisas que foram feitas sem 
liberdade durante o tempo de trabalho da sociedade). Assim, a 
sociedade da mercadoria faz da passividade (escolher, consumir) 
a liberdade ilusória que se deve buscar a todo o custo, enquanto 
que, de fato, como seres ativos, práticos (no trabalho, na 
produção), somos não livres. 
 
Referências Bibliográficas: 
MIRANDA Theobaldo. Manual da Filosofia. 15º, São Paulo, 1970, 
p.311, 398-456. 
SARTRE Jean. Todo humanismo é um existêncialismo. 2º, São 
Paulo, 1990, p.31-42. 
Coleção Os Pensadores - Vol XXXV - Manuscritos Econômico-
Filosóficos e Outros Textos Escolhidos - Karl Marx- seleção por 
José Arthur Giannotti. 
 
 
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EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 
 
Questão 01 
Para que não haja abuso, é preciso organizar as coisas de 
maneira que o poder seja contido pelo poder. Tudo estaria 
perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou 
dos nobres, ou do povo, exercesse esses três poderes: o de fazer 
leis, o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes 
ou as divergências dos indivíduos. Assim, criam-se os poderes 
Legislativo, Executivo e Judiciário, atuando de forma 
independente para a efetivação da liberdade, sendo que esta não 
existe se uma pessoa ou grupo exercer os referidos poderes 
concomitantemente. 
 
MONTESQUIEU, B. Do espírito das leis. São Paulo: Abril Cultural, 
1979 (adaptado). 
 
A divisão e a independência entre os poderes são condições 
necessárias para que possa haver liberdade em um Estado. 
 
Isso pode ocorrer apenas sob um modelo político em que haja 
 
a) exercício de tutela sobre atividades jurídicas e políticas. 
b) consagração do poder político pela autoridade religiosa. 
c) concentração do poder nas mãos de elites técnico-científicas. 
d) estabelecimento de limites aos atores públicos e às instituições 
do governo. 
e) reunião das funções de legislar, julgar e executar nas mãos de 
um governante eleito. 
 
Questão 02 
A angústia, para Jean-Paul Sartre, é : 
 
a) tudo o que a influência de Shopenhauer determina em Sartre: a 
certeza da morte. O Homem pode ser livre para fazer suas 
escolhas, mas não tem como se livrar da decrepitude e do fim. 
b) a nadificação de nossos projetos e a certeza de que a relação 
Homem X natureza humana é circunstancial, objetiva, e pode ser 
superada pelo simples ato de se fazer uma escolha. 
c) a certificação de que toda a experiência humana é idealmente 
sensorial, objetivamente existencial e determinante para a vida e 
para a morte do Homem em si mesmo e em sua humanidade. 
d) consequência da responsabilidade que o Homem tem sobre 
aquilo que ele é, sobre a sua liberdade, sobre as escolhas que 
faz, tanto de si como do outro e da humanidade, por extensão. 
 
Questão 03 
Leia o excerto abaixo e assinale a alternativa que relaciona 
corretamente duas das principais máximas do existencialismo de 
Jean-Paul Sartre, a saber: 
 
I. “a existência precede a essência” 
II. “estamos condenados a ser livres” 
 
 
 
 
Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá 
jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada 
e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o 
homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não 
encontramos já prontos, valores ou ordens que possam legitimar 
a nossa conduta. [...] Estamos condenados a ser livres. Estamos 
sós, sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o 
homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se 
criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi 
lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz. 
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. 3ª. ed. 
S. Paulo: Nova Cultural, 1987. 
 
a) Se a essência do homem, para Sartre, é a liberdade, então 
jamais o homem pode ser, em sua existência, condenado a ser 
livre, o que seria, na verdade, uma contradição. 
b) A liberdade, em Sartre, determina a essência da natureza 
humana que, concebida por Deus, precede necessariamente a 
sua existência. 
c) Para Sartre, a liberdade é a escolha incondicional, à qual o 
homem, como existência já lançada no mundo, está condenado, e 
pela qual projeta o seu ser ou a sua essência. 
d) O Existencialismo é, para Sartre, um Humanismo, porque aexistência do homem depende da essência de sua natureza 
humana, que a precede e que é a liberdade. 
 
Questão 04 
Jean-Paul Sartre (1905 – 1980) encontrou um motivo de reflexão 
sobre a liberdade na obra de Dostoiévski Os irmãos Karamazov: 
“se Deus não existe, tudo é permitido”. A partir daí teceu 
considerações sobre esse tema e algumas consequências que 
dele podem ser derivadas. 
 
 [...] tudo é permitido se Deus não existe e, por 
conseguinte, o homem está desamparado porque não encontra 
nele próprio nem fora dele nada a que se agarrar. Para começar, 
não encontra desculpas. [...] Estamos sós, sem desculpas. É o 
que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser 
livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, e como, no 
entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável 
por tudo o que faz. 
 
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. São 
Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 9 (coleção “Os Pensadores”). 
 
Com base em seus conhecimentos sobre a filosofia existencialista 
de Sartre e nas informações acima, assinale a alternativa correta. 
 
a) Porque entende que somos livres, Sartre defendeu uma 
filosofia não engajada, isto é, uma filosofia que não deve se 
importar com os acontecimentos sociais e políticos de seu tempo. 
b) Para Sartre, a angústia decorre da falta de fé em Deus e não 
do fato de sermos absolutamente livres ou como ele afirma “o 
homem está condenado a ser livre”. 
c) As ações humanas são o reflexo do equilíbrio entre o livre-
arbítrio e os planos que Deus estabelece para cada pessoa, 
consistindo nisto a verdadeira liberdade. 
d) Para Sartre, as ações das pessoas dependem somente das 
escolhas e dos projetos que cada um faz livremente durante a 
vida e não da suposição da existência e, portanto, das ordens de 
Deus. 
 
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6 
 
CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 Questão 05 
Para Sartre, “o Homem é livre, o Homem é liberdade”. Com 
relação a tal princípio, é CORRETO afirmar que o homem é: 
 
a) “a expressão de que tudo é permitido por meio da liberdade e 
que provém da existência de Deus”. 
b) “um animal político no sentido aristotélico e por isso necessita 
viver a liberdade política em comunidade”. 
c) “um ser que depende da liberdade divina e necessita que o 
futuro esteja inscrito no céu”. 
d) “condenado a ser livre, uma vez que foi lançado no mundo, é 
responsável por tudo que faz”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO 
 
Questão 01 
Baseando-se nos textos e no comentário apresentados a seguir: 
 
“Hitler considerava que a propaganda sempre deveria ser popular, 
dirigida às massas, desenvolvida de modo a levar em conta um 
nível de compreensão dos mais baixos. 'As grandes massas', 
dizia ele, 'têm uma capacidade de recepção muito limitada, uma 
inteligência modesta, uma memória fraca'. Por isso mesmo, a 
propaganda deveria restringir-se a pouquíssimos pontos, 
repetidos incessantemente […]. Tudo interessa no jogo da 
propaganda: mentiras, calúnias; para mentir, que seja grande a 
mentira, pois assim sendo, 'nem passará pela cabeça das 
pessoas ser possível arquitetar uma tão profunda falsificação da 
verdade.” 
 
LENHARO, Alcir. Nazismo: “o triunfo da vontade”. 6ª. ed., São 
Paulo: Ática, 1998, p. 47-48. 
 
“Eu vivo em tempos sombrios. 
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, 
Uma testa sem rugas é sinal de indiferença. 
Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia. 
Que tempos são esses, 
Quando falar sobre flores é quase um crime, 
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça? [...]”. 
 
Trecho de “Aos que virão depois de nós”, de Bertolt Brecht, 193?. 
 
Uma das características marcantes do nazismo – que colocou em 
cheque tanto a liberdade, a democracia e a dignidade humana, 
quanto os movimentos socialistas e comunistas – foi a 
disseminação de uma ideologia de extrema direita, de tradição 
xenófoba, nacionalista e antissemita, por uso sistemático e 
ostensivo dos modernos meios de informação e comunicação 
com o objetivo expresso de silenciar, controlar e conduzir as 
“massas” - daí a importância de Brecht dizer “Eu vivo em tempos 
sombrios”. Exemplos, aliás, desta prática – dadas às devidas 
proporções e aos contextos distintos – ainda persistem em nossos 
dias. 
 
Assinale a alternativa INCORRETA. 
a) É possível afirmar que, em ambos os textos, encontra-se 
presente a referência histórica às práticas de violência e 
dominação, levadas a cabo pelo governo alemão através de Adolf 
Hitler, também conhecido como “Führer”. 
b) O conteúdo da poesia de Bertolt Brecht nada tem a ver com o 
processo histórico de ascensão ao poder de Adolf Hitler e do 
regime nazista em 1933, haja vista o motivo de sua escrita ser 
uma crítica veemente ao comunismo de Stálin na então União 
Soviética. 
c) Uma das razões principais para que Hitler defendesse o uso 
“repetitivo” dos modernos meios de comunicação da época – 
especialmente, as rádios – estava na capacidade que eles tinham 
de conquistar as “massas” a qualquer custo, inclusive ao custo da 
liberdade de expressão. 
d) Existe uma identificação entre o que denuncia a poesia de 
Brecht e a passagem analítica do texto de Lenharo, ao citar 
trechos de Mein Kümpf, de Hitler, na medida em que o 
silenciamento repressivo que anula o direito ao livre pensar crítico 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 corresponderia ao bombardeio massivo de valores, símbolos e 
ideias caras ao nazismo, como a propaganda dirigida às massas. 
e) A presença em nossa contemporaneidade de movimentos e 
grupos de extrema direita, que defendem a ausência de 
conhecimento crítico, a excessiva limitação da liberdade de 
pensamento e expressão e o preconceito contra questões de 
gênero, sexualidade e etnia guardam relativa ligação com a 
ideologia nazista. 
 
Questão 02 
Gilberto Cotrim (2006. p. 212), ao tratar da pós-modernidade, 
comenta as ideias de Michel Foucault, nas quais “[...] as 
sociedades modernas apresentam uma nova organização do 
poder que se desenvolveu a partir do século XVIII. Nessa nova 
organização, o poder não se concentra apenas no setor político e 
nas suas formas de repressão, pois está disseminado pelos vários 
âmbitos da vida social [...] [e] o poder fragmentou-se em 
micropoderes e tornou-se muito mais eficaz. Assim, em vez de se 
deter apenas no macropoder concentrado no Estado, [os] 
micropoderes se espalham pelas mais diversas instituições da 
vida social. Isto é, os poderes exercidos por uma rede imensa de 
pessoas, por exemplo: os pais, os porteiros, os enfermeiros, os 
professores, as secretarias, os guardas, os fiscais etc.” 
 
Fonte: COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: história e 
grandes temas. São Paulo: Saraiva, 2006. (adaptado) 
 
Pelo exposto por Gilberto Cotrim sobre as ideias de Foucault, a 
principal função dos micropoderes no corpo social é interiorizar e 
fazer cumprir 
a) o ideal de igualdade entre os homens. 
b) o total direito político de acordo com as etnias. 
c) as normas estabelecidas pela disciplina social. 
d) a repressão exercida pelos menos instruídos. 
e) o ideal de liberdade individual. 
 
Questão 03 
“Discursos sobre o sexo não se multiplicaram fora do poder ou 
contra ele, porém, lá onde ele se exercia e como meio para seu 
exercício: criaram-se em todo canto incitações a falar; em toda 
parte, dispositivos para ouvir e registrar procedimentos para 
observar, interrogar e formular. Desenfurnam-no e obrigam-no a 
uma existência discursiva”. 
Trecho de História da Sexualidade, Vol. I – "A Vontade de Saber" 
in Sociologia em Movimento (p. 503). 
 
Tendo como referência os estudos sobre sexualidade em “A 
Vontade de Saber”, no qualo autor se propõe a analisar os 
discursos de verdade em torno da sexualidade, é CORRETO 
afirmar sobre essa obra que 
a) o objetivo principal da obra foi fazer uma história das condutas, 
comportamentos e práticas sexuais das sociedades ocidentais. 
b) o tema principal do livro são os problemas de censura e de 
liberdade sexual nas sociedades ocidentais. 
c) em “A Vontade de Saber”, o discurso sobre repressão sexual 
moderna é criticado por ocultar a proliferação de discursos a 
respeito da sexualidade. 
d) Foucault demonstra que os discursos sobre a sexualidade 
apenas descrevem a natureza reprodutiva humana e não se 
articulam com quaisquer relações de poder. 
e) em “A Vontade de Saber”, o autor defende a existência de uma 
verdade sobre o sexo que está escondida nos discursos sobre 
sexualidade. 
 
Questão 04 
Os estudos realizados por Michel Foucault (1926-1984) 
apresentam interfaces que corroboram para estudos em diversas 
áreas de conhecimento, entre as quais a Filosofia, Ciências 
Sociais, Pedagogia, Psiquiatria, Medicina e Direito. Em 1975, 
Foucault publicou a obra “Vigiar e Punir: história da violência das 
prisões”, na qual propunha uma nova concepção de poder, a qual 
abandonava alguns postulados que marcaram a posição 
tradicional da esquerda do período. 
 
Sobre a concepção de poder foucaultiana, é CORRETO afirmar. 
 
a) Só exerce poder quem o possui, por se tratar de um privilégio 
adquirido pela classe dominante que detém o poder econômico. 
b) O poder está centralizado na figura do Estado e está localizado 
no próprio aparelho de Estado, que é o instrumento privilegiado 
do poder. 
c) Todo poder está subordinado a um modo de produção e a uma 
infraestrutura, pois o modo como a vida econômica é organizada 
determina a política. 
d) O poder tem como essência dividir os que possuem poder 
(classe dominante) daqueles que não têm poder (classe dos 
dominados). 
e) O poder não remete diretamente a uma estrutura política, ao 
uso da força ou a uma classe dominante: as relações de poder 
são móveis e só podem existir quando os sujeitos são livres e há 
possibilidade de resistência. 
 
Questão 05 
A rebelião ocorrida na penitenciária de Cascavel/PR em agosto de 
2014 remete ao passado e à história da repressão, 
especificamente na passagem do período das punições à 
vigilância. O estudo mais representativo sobre a história das 
prisões é Vigiar e Punir de Michel Foucault. 
 
Sobre as prisões atuais, tendo como referência essa obra, é 
CORRETO afirmar. 
 
a) Na prisão, os delinquentes não são úteis nem econômica nem 
politicamente para o sistema. 
b) O objetivo das prisões é reeducar os delinquentes, ensinando-
lhes uma profissão que possa ser exercida ao saírem da prisão. 
c) A prisão impede a reincidência e permite a correção do 
delinquente. 
d) A prisão, para Foucault, longe de transformar os criminosos em 
gente honesta, serve apenas para fabricar novos delinquentes. 
e) A função da prisão é retirar os criminosos de circulação e do 
convívio social, e nada mais. 
 
Questão 06 
Leia o texto a seguir: 
 
Tendo em vista que um dos principais sujeitos da sociedade civil 
organizada são os movimentos sociais, é importante registrar que 
os movimentos pela educação têm caráter histórico, são 
processuais e ocorrem, portanto, dentro e fora de escolas e em 
outros espaços institucionais. As lutas pela educação envolvem a 
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 luta por direitos e são parte da construção da cidadania. 
Movimentos sociais pela educação abrangem questões tanto de 
conteúdo escolar quanto de gênero, etnia, nacionalidade, 
religiões, portadores de necessidades especiais, meio ambiente, 
qualidade de vida, paz, direitos humanos, direitos culturais etc. 
Esses movimentos são fontes e agências de produção de 
saberes. 
 
Disponível em: 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
40362006000100003 
Acesso em: junho 2015. 
 
A Educação é considerada um aspecto integrador do indivíduo 
com o grupo social e funciona como um instrumento de 
transmissão do patrimônio cultural de uma sociedade. No texto, a 
forma de transmissão da educação é denominada de 
a) Revolucionária. 
b) Sistemática. 
c) Burocrática. 
d) Informal. 
e) Isolada. 
 
Questão 07 
7 “A liberdade religiosa tem como contrapartida, de fato, uma 
pacificação do pluralismo das visões de mundo cujos custos se 
mostraram desiguais. Até aqui, o Estado liberal só exige dos que 
são crentes entre seus cidadãos que dividam a sua identidade, 
por assim dizer, em seus aspectos públicos e privados. São eles 
que têm de traduzir as suas convicções religiosas para uma 
linguagem secular antes de tentar, com seus argumentos, obter o 
consentimento das maiorias. É assim que, quando querem 
reclamar o estatuto de portador de direitos fundamentais para os 
óvulos fecundados fora do corpo materno, os católicos e 
protestantes procuram hoje (talvez prematuramente) traduzir a 
imagem e semelhança a Deus da criatura humana para a 
linguagem secular do direito constitucional. Mas a procura por 
argumentos voltados à aceitação universal só não levará a 
religião a ser injustamente excluída da esfera pública, e a 
sociedade secular só será privada de importantes recursos para a 
criação de sentido, caso o lado secular se mantenha sensível 
para a força de articulação das linguagens religiosas. Os limites 
entre os argumentos seculares e religiosos são inevitavelmente 
fluidos. Logo, o estabelecimento da fronteira controversa deve ser 
compreendido como uma tarefa cooperativa em que se exija dos 
dois lados aceitar também a perspectiva do outro. (...) O senso 
comum democraticamente esclarecido não é algo singular, mas 
algo que descreve a constituição mental de uma esfera pública 
com muitas vozes”. 
 
HABERMAS, Jürgen. Fé e saber. Editora São Paulo: Unesp, 
2013, p. 15-16. 
 
Uma vez que “os limites entre os argumentos seculares e 
religiosos são inevitavelmente fluidos”, qual é, segundo 
Habermas, a exigência básica para que ocorra um trabalho 
cooperativo entre as tradições religiosas e a tradição secular do 
Estado liberal? Por quê? 
 
 
 
Questão 08 
Leia. 
 
Escola pública do DF começa a testar chip para monitorar 
alunos 
 
Por meio de um chip fixado no uniforme, uma turma de 42 
estudantes do primeiro ano do ensino médio tem suas entradas e 
saídas monitoradas no CEM (Centro de Ensino Médio) 414 de 
Samambaia, cidade-satélite do Distrito Federal. 
O projeto, que começou a funcionar no dia 22 de outubro, manda 
mensagem por celular aos pais ou responsáveis pelos alunos, 
informando o horário de entrada e saída da escola. 
Segundo a diretora do CEM, a medida foi tomada para aumentar 
a permanência dos alunos nas salas de aula. "Os professores dos 
últimos horários reclamam que muitos alunos costumam sair 
antes do término das aulas. Por mais que a escola tente manter o 
controle, eles dão um jeito de sair da escola". 
 
Fonte: Folha on-line. 30 out. 2012. Adaptado. Disponível em: 
<http://folha.com/no1177555>. Acesso em 30 out. 2012. 
 
O texto apresenta uma forma de controle de estudantes dentro da 
instituição escolar. Esse tipo de instrumento está vinculado a qual 
lógica apresentada pelo filósofo Michel Foucault? 
a) Emancipação, que tem como fundamento tornar os estudantes 
sujeitos autônomos. 
b) Panoptismo, que tem intenção de controlar, mas também de 
tornar mais produtivos os corpos observados. 
c) Regime de verdade, que faz com que a Escola esteja 
comprometida com a emancipação humana. 
d) Luta de Classes, que torna tensa a relação entre estudantes e 
professores. 
e) Violência simbólica, que agride o sujeito através da linguagem. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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9CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 
RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA 
 
Questão 01: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa b 
Questão 02: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa C 
 
Questão 03: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa C 
 
Questão 04: 
Resolução: . 
 
Resposta: Alternativa E 
 
Questão 05: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa D 
 
Questão 06: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa D 
 
Questão 07: 
Resolução: 
Para Habermas, a sociedade secular não está livre da perspectiva religiosa, ou seja, as decisões que são tomadas no âmbito 
secular devem estar abertas a escutar todos os que resistirem a uma decisão, pois o Estado liberal possui fundamentos morais 
alicerçados exatamente naqueles que resistem e contestam as decisões seculares. Mesmo na sociedade utilitarista ainda não 
houve a libertação das tradições religiosas, se fazendo necessário ter cuidados nas decisões, pois segundo o filósofo, o que a 
sociedade secular determina, não elimina de fato aquilo que ela considera uma perturbação. Sendo assim, como os limites são 
fluídos, a chave para o trabalho cooperativo entre as tradições religiosas e a tradição secular no estado liberal está alicerçada no 
diálogo, que visa o desenvolvimento do consenso. 
 
Resposta: Alternativa 
 
Questão 08: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa B 
 
 
 
 
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA 
Prof. Márcio Michiles 
ALIENAÇÃO 
 
Na vida cotidiana, na ciência ou na filosofia, o conceito 
de alienação assume diversos papéis e significados. No entanto, 
estes significados podem ser vistos como variações de um 
mesmo significado amplo, alienação como o ato pelo qual alguém 
torna-se estranho ou outro alguém ou a algo. O resultado de tal 
ato, seja de alguém em relação a algo ou o oposto, também é 
chamado de alienação. 
 
Neste sentido, alienação é: transformar propriedades, relações e 
ações humanas em propriedades e ações de coisas, que são 
independentes do homem. Outra interpretação é a de que a 
alienação é um afastamento de si mesmo, um processo através 
do qual o homem pensa a si, através de suas ações, como 
estranho a sua própria natureza, vendo-se como "coisa" 
(retificação), afastando-se da natureza humana. 
 
Em termos de sociedade, a alienação é um conceito abordado e 
desenvolvido por vários teóricos clássicos e contemporâneos 
como uma condição nas relações sociais manifestada por um 
baixo grau de integração, ou de valores comuns, e um elevado 
grau de distanciamento ou isolamento entre indivíduos, ou ainda 
entre um indivíduo e um grupo de pessoas, em um ambiente de 
convivência. O conceito tem muitos usos específicos dependendo 
da disciplina que o utiliza, mas em geral pode se referir tanto a um 
estado psicológico pessoal (subjetiva) como a um tipo de relação 
social (objetivamente). 
 
Filosoficamente, o conceito de alienação foi elaborado pela 
primeira vez pelo filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel. 
Segundo Hegel, a alienação é uma característica essencial do 
homem (a mente finita). A alienação se dá por meio da produção 
de coisas, para expressar-se em objetos, sejam coisas físicas, 
produtos culturais ou instituições sociais. A isto Hegel chamou 
objetificação, que segundo o filósofo é uma forma de alienação. 
Os objetos produzidos pelo homem tornam-se estranhos ao 
próprio homem, ao assumirem sua própria forma e função. 
 
Alguns autores têm defendido que o conceito de alienação pode 
ser encontrado, em sua primeira forma no Velho Testamento, 
quando este apresenta o conceito de idolatria. De acordo com 
outros no entanto, a doutrina cristã do pecado original e da 
redenção pode ser considerada como uma primeira versão da 
doutrina da alienação, de forma semelhante a exposta por Hegel. 
No entanto, já que Hegel vê a natureza como uma forma auto-
alienada da Mente Absoluta (ou Espírito Absoluto, ou ainda 
Deus), o mais provável é que a fonte do conceito de alienação de 
Hegel se encontre em Platão, quando este apresenta sua 
interpretação do mundo natural como uma imagem imperfeita do 
mundo das Ideias. 
 
Para Platão a psique da alma humana é uma relação tripartida 
entre a razão, a emoção e os sentidos. Um ser humano só 
atingiria a harmonia psicológica e felicidade através de uma alma 
capaz de equilibrar estes três aspectos. Esta ordem ideal 
desenvolve-se não só no plano psicológico, mas também social e 
politico. Na República, Platão defende que na Polis ideal haveria 
uma harmonia semelhante, em que cada membro está em acordo 
com o todo, de forma que os membros de cada classe 
comportam-se adequadamente. Neoplatônicos, como Plotino, 
forçam essa noção em um sentido mais ontológico. De acordo 
com Plotino, a alma deve ser devidamente sintonizada com o 
Bom (Uno). Por esta razão, sempre que a alma dirige a sua razão, 
o desejo, ou a atenção para coisas inferiores isto resulta em uma 
forma de alienação. 
 
A despeito das influências anteriores, Hegel, Ludwig Feuerbach 
e Karl Marx, foram os três primeiros a apresentar uma elaboração 
explicita do conceito de alienação e cuja interpretação é base 
para as discussões sobre o conceito, seja em filosofia, sociologia 
ou psicologia. 
 
Referências bibliográficas: 
 HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do 
espírito. (tradução Paulo Meneses). 5º ed. Petrópolis: Vozes. 
2008. 
 PLATÃO. A República. (trad. Enrico Corvisieri) São Paulo: Nova 
Cultural, 1999. (Col. Os Pensadores). 
 PLOTINO. Enneadi. Traduzione, introduzione, note e bibliografia 
di G. Faggin. Presentazione e iconografia plotiniana di G. 
Reale. Milano: Bompiani, 2000. 
 REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da filosofia. /Il 
pensiero occidentale dalle origini adoggi. Trad. São Paulo: 
Paulinas, v.1, 1990, 693 p. 
 
CONCEITO DE ALIENAÇÃO 
Na filosofia política, fala-se de alienação para designar a condição 
do trabalhador que, à semelhança de uma peça de engrenagem, 
integra a estrutura de uma unidade de produção sem ter nenhum 
poder de decisão sobre sua própria atividade nem direitos sobre o 
que produz. Transcendendo o âmbito da produção, a alienação se 
estende às decisões políticas sobre o destino da sociedade, das 
quais as grandes massas permanecem alijadas, e mesmo ao 
âmbito das vontades individuais, orientadas pela publicidade e 
pelos meios de comunicação de massas. 
 
O conceito de alienação tem raízes no pensamento de Hegel e 
Karl Marx, mas cabe destacar uma importante observação 
complementar, a de Ludwig Feuerbach, mestre de Marx, para 
quem as formas paroxísticas da alienação humana seriam o 
êxtase e o arrebatamento religiosos. 
 
Para Hegel, a alienação é um processo essencial pelo qual a 
consciência ainda ingênua, convencida de que a realidade do 
mundo é independente dela mesma, chega a tornar-se 
consciência de si. Essa transformação da consciência em 
consciência de si é descrita na Phänomenologie des Geistes 
(1807; Fenomenologia do espírito). Para Hegel, o concreto reside 
na unidade dos termos contraditórios que entram em confronto. 
Cada termo é a negação de seu próprio oposto, sendo o 
movimento interno do sujeito a "negação da negação". A luta 
desses opostos é mortal, pois o ser de cada um deles está no 
outro, que o desafia e nega. A posse de si mesmo fica assim 
condicionada à destruição do outro, que detém a verdade e o 
absoluto. Concebida nesses termos, a alienação é, portanto, além 
de profunda, necessariamente intrínseca e primordial: o ser de 
cada indivíduo não reside em si próprio e sim em seu oposto, no 
qual corre o risco de se diluir. 
http://www.infoescola.com/filosofos/platao/
http://www.infoescola.com/biografias/karl-marx/
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CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 Para Marx, a alienação refere-se a uma situação resultante dos 
fatores materiais dominantesda sociedade, caracterizada por ele 
sobretudo no sistema capitalista, em que o trabalho humano se 
processa de modo a produzir coisas que imediatamente são 
separadas dos interesses e do alcance de quem a produziu, para 
se transformarem, indistintamente, em mercadorias. 
 
http://www.estudantedefilosofia.com.br/conceitos/alienacao.php 
 
TRABALHO ALIENADO 
Para Marx existe sim o trabalho alienado. Este seria o trabalho 
que a sociedade industrial criou, a sociedade dominada pela 
produção de mercadorias. O trabalho que rompe a ligação entre o 
homem e sua atividade vital. 
 
Marx descreveu algumas características do trabalho alienados: 
* a alienação e o caráter fortuito do trabalho em relação ao sujeito 
trabalhador; 
* a alienação e o caráter fortuito do trabalho em relação ao objeto 
dele; 
* a determinação absoluta do trabalhador pelas necessidades, já 
que o trabalho (...) não tem para ele outro significado que ser uma 
fonte de satisfação de suas necessidades, enquanto ele só existe 
para elas como escravo de suas necessidades. 
 
Segundo Karl Marx, quanto mais o operário produz, menos ele 
custa para a economia e consequentemente mais ele Se 
desvaloriza, chegando ao ponto de se tornar uma mercadoria do 
capitalismo; este visaria somente o lucro e geraria a sede de 
riquezas e a guerra entre cobiças, a concorrência. Quanto mais o 
operário produzir, mais ele está valorizando o mundo das coisas e 
desvalorizando o mundo dos homens, tornando-se tanto mais 
pobre quanto mais riquezas ele produzir. O operário recebe 
primeiro o trabalho, e depois o meio de subsistência, sendo em 
primeiro lugar operário e depois pessoa física, tornando-o assim 
escravo de seu próprio trabalho. A Economia Política esconde a 
alienação na essência do trabalho porque ela não considera a 
relação direta entre o operário (trabalho) e a produção. É certo 
que o trabalho produz maravilhas para os ricos e a privação para 
o operário. O trabalho transforma o operário numa máquina que 
não consegue afirmar-se e não se sente à vontade, um infeliz. O 
operário não desempenha uma atividade física e intelectual livre, 
mas mortifica seu corpo e arruína seu espírito. 
 
O homem não se sente mais livremente ativo senão em suas 
funções animais, transformando-se bestial. Sua vida perde o 
sentido, pois o homem passa a fazer de sua própria vida 
simplesmente um meio de subsistência, invertendo com isso a 
relação que teria com o trabalho, desta forma o trabalho alienado 
termina por alienar do homem seu próprio gênero. Marx chega a 
seguinte conclusão: se o produto do trabalho é alienado do 
trabalhador, por ser algo exterior a ele, a ponto de não lhe 
pertencer, deve ser então propriedade de outro, que não é 
evidentemente quem o produziu, nem os deuses e muito menos a 
natureza, como pensavam os antigos, então logicamente deve ser 
outro homem que tomou dele aquilo que deveria lhe pertencer. 
 
LAZER ALIENADO 
O processo de alienação na sociedade industrial afeta também a 
utilização do tempo livre destinado ao lazer. 
A indústria cultural e de diversão vende peças de teatro, filmes, 
livros, shows, jornais e revistas como qualquer outra mercadoria. 
E o consumidor alienado compra seu lazer da mesma maneira 
como compra seu sabonete. Consome os “filmes da moda” e 
frequenta os “lugares badalados” sem um envolvimento autêntico 
com o que faz. 
 
Agindo desse modo, muitos se esforçam e fingem que estão se 
divertindo, pensam que estão se divertindo, querem acreditar que 
estão se divertindo. Na verdade, “através da máscara da alegria 
se esconde uma crescente incapacidade para o verdadeiro 
prazer. 
 
http://gustavohbo.wordpress.com/2009/02/10/lazer-alienado/ 
 
CONSUMO ALIENADO 
Num mundo em que predomina a produção alienada, também o 
consumo tende a ser alienado. A produção em massa tem por 
corolário o consumo de massa. 
 
O problema da sociedade de consumo é que as necessidades 
são artificialmente estimuladas, sobretudo pelos meios de 
comunicação de massa, levando os indivíduos a consumirem de 
maneira alienada. 
 
A organização dicotômica do trabalho a que nos referimos - pela 
qual se separam a concepção e a execução do produto - reduz as 
possibilidades de o empregado encontrar satisfação na maior 
parte da sua vida, enquanto se obriga a tarefas desinteressantes. 
Daí a importância que assume para ele a necessidade de se dar 
prazer pela posse de bens. "A civilização tecnicista não é uma 
civilização do trabalho, mas do consumo e do "bem-estar". O 
trabalho deixa, para um número crescente de indivíduos, de incluir 
fins que lhe são próprios e torna-se um meio de consumir, de 
satisfazer as "necessidades" cada vez mais amplas."(O. 
Friedmann, Sete estudos sobre o homem e a técnica, p. 147.) 
 
Vimos que na sociedade pós-industrial a ampliação do setor de 
serviços desloca a ênfase da produção para o consumo de 
serviços. Multiplicam-se as ofertas de possibilidade de consumo. 
A única coisa a que não se tem escolha é não consumir! Os 
centros de compras se transformam em "catedrais do consumo", 
verdadeiros templos cujo apelo ao novo torna tudo descartável e 
rapidamente obsoleto. Vendem-se coisas, serviços, idéias. Basta 
ver como em tempos de eleição é "vendida" a imagem de certos 
políticos... 
 
A estimulação artificial das necessidades provoca aberrações do 
consumo: montamos uma sala completa de som, sem gostar de 
música; compramos biblioteca " a metro" deixando volumes 
"virgens" nas estantes; adquirimos quadros famosos, sem saber 
apreciá-los (ou para mantê-los no cofre). A obsolescência dos 
objetos, rapidamente postos fora de moda", exerce uma tirania 
invisível, obrigando as pessoas a comprarem a televisão nova, o 
refrigerador ou o carro porque o design se tornou antiquado ou 
porque uma nova engenhoca se mostrou "indispensável". 
 
E quando bebemos Coca-Cola porque "E emoção pra valer!", 
bebemos o slogan, o costume norte-americano, imitamos os 
jovens cheios de vida e alegria. Com o nosso paladar é que 
menos bebemos... 
 
Como o consumo alienado não é um meio, mas um fim em si, 
torna-se um poço sem fundo, desejo nunca satisfeito, um sempre 
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 querer mais. A ânsia do consumo perde toda relação com as 
necessidades reais do homem, o que faz com que as pessoas 
gastem sempre mais do que têm. O próprio comércio facilita tudo 
isso com as prestações, cartões de crédito, liquidações e ofertas 
de ocasião "dia das mães" etc. 
 
Mas há um contraponto importante no processo de estimulação 
artificial do consumo supérfluo - notado não só na propaganda, 
mas na televisão, nas novelas -, que é a existência de grande 
parcela da população com baixo poder aquisitivo, reduzida 
apenas ao desejo de consumir. O que faz com que essa massa 
desprotegida não se revolte? 
 
Há mecanismos na própria sociedade que impedem a tomada de 
consciência: as pessoas têm a ilusão de que vivem numa 
sociedade de mobilidade social e que, pelo empenho no trabalho, 
pelo estudo, há possibilidade de mudança, ou seja, "um dia eu 
chego la E se nao chegam, "é porque não tiveram sorte ou 
competência". 
 
Por outro lado, uma série de escapismos na literatura e nas 
telenovelas fazem com que as pessoas realizem suas fantasias 
de forma imaginária, isto sem falar na esperança semanal da 
Loto, Sena e demais loterias. Além disso, há sempre o recurso ao 
ersatz, ou seja, a imitação barata da roupa, da jóia, do bule da 
rica senhora. 
 
O torvelinho produção-consumo em que está mergulhado o 
homem contemporâneo impede-o de ver com clareza a própria 
exploração e a perda da liberdade, de tal forma se acha reduzido 
na alienação ao que Marcuse chama de unidimensionandade (ou 
seja, a uma só dimensão). Ao deixar de ser o centro de si mesmo, 
o homem perde a dimensãode contestação e crítica, sendo 
destruída a possibilidade de oposição no campo da política, da 
arte, da moral. Por isso, nesse mundo não há lugar para a 
filosofia, que é, por excelência, o discurso da contestação. 
In: FILOSOFANDO, INTRODUÇÃO À FILOSOFIA. ARANHA, M. 
L. A e MARTINS, M. H. P. São Paulo: Moderna, 1993, 2.ed 
 
ALIENAÇÃO 
Capaz de ameaçar o trabalho e a consciência humana desde 
seus primórdios, a alienação afeta principalmente o homem do 
mundo moderno, em que as relações sociais se tornam cada vez 
mais determinadas por seu aspecto mercantil ou econômico-
financeiro. 
 
Alienação é a condição psico-sociológica de perda da identidade 
individual ou coletiva decorrente de uma situação global de falta 
de autonomia. Encerra portanto uma dimensão objetiva -- a 
realidade alienante -- e a uma dimensão subjetiva -- o sentimento 
do sujeito privado de algo que lhe é próprio. 
 
O conceito de alienação é comum a vários domínios do saber. Em 
psicologia e psiquiatria, fala-se de alienação para designar o 
estado mental da pessoa cuja ligação com o mundo circundante 
está enfraquecida. Em antropologia, a alienação é o estado de um 
povo forçado a abandonar seus valores culturais para assumir os 
do colonizador. Em sociologia e comunicação, discute-se a 
alienação que a publicidade e os meios de comunicação 
suscitam, dirigindo a vontade das massas, criando necessidades 
de consumo artificiais e desviando o interesse das pessoas para 
atividades passivas e não participativas. 
Em filosofia política, fala-se de alienação para designar a 
condição do trabalhador que, à semelhança de uma peça de 
engrenagem, integra a estrutura de uma unidade de produção 
sem ter nenhum poder de decisão sobre sua própria atividade 
nem direitos sobre o que produz. Transcendendo o âmbito da 
produção, a alienação se estende às decisões políticas sobre o 
destino da sociedade, das quais as grandes massas permanecem 
alijadas, e mesmo ao âmbito das vontades individuais, orientadas 
pela publicidade e pelos meios de comunicação de massas. 
 
HISTÓRICO 
O conceito de alienação tem raízes no pensamento de Hegel e 
Karl Marx, mas cabe destacar uma importante observação 
complementar, a de Ludwig Feuerbach, mestre de Marx, para 
quem as formas paroxísticas da alienação humana seriam o 
êxtase e o arrebatamento religiosos. 
 
Para Hegel, a alienação é um processo essencial pelo qual a 
consciência ainda ingênua, convencida de que a realidade do 
mundo é independente dela mesma, chega a tornar-se 
consciência de si. Essa transformação da consciência em 
consciência de si é descrita na Phänomenologie des Geistes 
(1807; Fenomenologia do espírito). Para Hegel, o concreto reside 
na unidade dos termos contraditórios que entram em confronto. 
Cada termo é a negação de seu próprio oposto, sendo o 
movimento interno do sujeito a "negação da negação". A luta 
desses opostos é mortal, pois o ser de cada um deles está no 
outro, que o desafia e nega. A posse de si mesmo fica assim 
condicionada à destruição do outro, que detém a verdade e o 
absoluto. Concebida nesses termos, a alienação é, portanto, além 
de profunda, necessariamente intrínseca e primordial: o ser de 
cada indivíduo não reside em si próprio e sim em seu oposto, no 
qual corre o risco de se diluir. 
 
Para Marx, a alienação refere-se a uma situação resultante dos 
fatores materiais dominantes da sociedade, caracterizada por ele 
sobretudo no sistema capitalista, em que o trabalho humano se 
processa de modo a produzir coisas que imediatamente são 
separadas dos interesses e do alcance de quem a produziu, para 
se transformarem, indistintamente, em mercadorias. 
 
Marx, situando o homem na raiz da história (o homem concreto, 
que define com o trabalho sua relação com seus semelhantes e 
com a natureza), inverte a dialética hegeliana. De acordo com a 
dialética de Marx, o processo de alienação leva o ser genérico do 
homem -- expresso pelo trabalho -- a converter-se em instrumento 
de sua sobrevivência, o que ocorre, primeiro, na relação do 
produtor com o produto e, em seguida, na relação do produtor 
com os consumidores do produto. A alienação transforma o 
operário em escravo de seu objeto, mas o processo não se detém 
aí, já que o trabalho é mercadoria que produz bens de consumo 
para outrem. Na verdade, ocorre a alienação do homem perante o 
próprio homem: ao produzir um bem que não lhe pertence, o 
homem propicia o jugo daquele que não produz sobre a produção 
e o produto, deixando assim que o outro, alheio à produção, se 
aproprie dela. 
 
Dá-se assim a "reificação" ou coisificação social, ou seja, a 
conversão de todas as relações sociais em formas de 
mercadorias, que abrangeriam o próprio homem, desse modo já 
submerso na fantasmagoria das relações entre as coisas. 
Sintetizando-se o problema, a alienação seria ocasionada pela 
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 divisão de trabalho e, de outro lado, pela separação entre o 
trabalho e o produto dele resultante. Os reflexos alienatórios 
seriam inevitáveis tanto na filosofia como nas instituições políticas 
e sociais, na religião, na literatura e nas artes. 
 
FILOSOFIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA 
Pensadores marxistas, muitas vezes desligados das principais 
correntes da tradição materialista-dialética retomaram os 
conceitos de alienação e reificação. György Lukács, por exemplo, 
fala de um mundo cristalizado de coisas e relações "coisísticas", 
ressaltando que a forma de mercadoria assume uma 
universalidade objetiva e subjetiva-objetiva, o que significa que 
todos os objetos são avaliados e trocados como mercadorias. O 
fenômeno da alienação se estende da fábrica a todos os setores 
da sociedade. 
 
Louis Althusser postula que a teoria da alienação implica uma 
retomada humanista e ideológica dos Manuscritos projetada na 
doutrina não-humanista do fetichismo de O capital. O brasileiro 
José Artur Gianotti fala mesmo no desaparecimento dos conceitos 
marxistas de mercadoria e de fetiche da mercadoria. 
 
No existencialismo marxista de Sartre também está presente o 
conceito de alienação, assim como no pensamento de Herbert 
Marcuse, voltado principalmente para a alienação alimentada 
pelos meios de comunicação. Na linha de Marcuse, os demais 
pensadores da Escola de Frankfurt -- Walter Benjamin e Theodor 
Adorno principalmente -- tratam a questão da arte como produto 
industrial e do objeto de arte como mercadoria. 
 
Atualmente, o que se entende como trabalho humano abstrato 
nada mais é do que o princípio real do processo efetivo da 
produção de quaisquer mercadorias. Nenhuma teoria pode 
modificar ou negar a situação básica produtora de alienação, 
inerente ao modo capitalista de produção, assim como o conceito 
de trabalho abstrato está indissoluvelmente ligado aos meios de 
produção desse sistema. 
 
 
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EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM 
 
Questão 01 
No Brasil, a origem do funk e do hip-hop remonta aos anos 1970, 
quando da proliferação dos chamados “bailes black” nas periferias 
dos grandes centros urbanos. Embalados pela black music 
americana, milhares de jovens encontravam nos bailes de final de 
semana uma alternativa de lazer antes inexistente. Em cidades 
como o Rio de Janeiro ou São Paulo, formavam-se equipes de 
som que promoviam bailes onde foi se disseminando um estilo 
que buscava a valorização da cultura negra, tanto na música 
como nas roupas e nos penteados. No Rio de Janeiro ficou 
conhecido como “Black Rio”. A indústria fonográfica descobriu o 
filão e, lançando discos de “equipe” com as músicas de sucesso 
nos bailes, difundia a moda pelo restante do país. 
 
DAYRELL, J. A música entra em cena: o rap e o funk na 
socialização da juventude. Belo Horizonte: UFMG, 2005. 
 
A presença da cultura hip-hopno Brasil caracteriza-se como uma 
forma de 
 
a) lazer gerada pela diversidade de práticas artísticas nas 
periferias urbanas. 
b) entretenimento inventada pela indústria fonográfica nacional. 
c) subversão de sua proposta original já nos primeiros bailes. 
d) afirmação de identidade dos jovens que a praticam. 
e) reprodução da cultura musical norte-americana. 
 
Questão 02 
Leia o texto a seguir. 
 
A sociedade, com sua regularidade, não é nada externa aos 
indivíduos; tampouco é simplesmente um “objeto oposto” ao 
indivíduo; ela é aquilo que todo indivíduo quer dizer quando diz 
“nós”. Mas esse “nós” não passa a existir porque um grande 
número de pessoas isoladas que dizem “eu” a si mesmas 
posteriormente se une e resolve formar uma associação. As 
funções e as relações interpessoais que expressamos com 
partículas gramaticais como “eu”, “você”, “ele” e “ela”, “nós” e 
“eles” são interdependentes. Nenhuma delas existe sem as outras 
e a função do “nós” inclui todas as demais. Comparado àquilo a 
que ela se refere, tudo o que podemos chamar “eu”, ou até “você”, 
é apenas parte. 
 
ELIAS, N. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar, 1994. p.57. 
 
O modo como as diferentes perspectivas teóricas tratam da noção 
de identidade vincula-se à clássica preocupação das Ciências 
Sociais com a questão da relação entre indivíduo e sociedade. 
 
Com base no texto e nos conhecimentos da sociologia histórica, 
de Norbert Elias, assinale a alternativa que apresenta, 
corretamente, a noção de origem do indivíduo e da sociedade. 
 
a) O indivíduo forma-se em seu “eu” interior e todos os outros são 
externos a ele, seguindo cada um deles o seu caminho 
autonomamente. 
b) A origem do indivíduo encontra-se na racionalidade, conforme 
a perspectiva cartesiana, segundo a qual “penso, logo existo”. 
c) A sociedade origina-se do resultado diretamente perceptível 
das concepções, planejamentos e criações do somatório de 
indivíduos ou organismos. 
d) A sociedade forma-se a partir da livre decisão de muitos 
indivíduos, quando racional e deliberadamente decide-se pela 
elaboração de um contrato social. 
e) A sociedade é formada por redes de funções que as pessoas 
desempenham umas em relação às outras por meio de 
sucessivos elos. 
 
Questão 03 
Texto 1 
 
A ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros (PT), acusa a polícia 
e os frequentadores de shoppings de discriminar jovens negros 
nos “rolezinhos”. “As manifestações são pacíficas. Os problemas 
são derivados da reação de pessoas brancas que frequentam 
esses lugares e se assustam com a presença dos jovens.” Para 
ela, a liminar que autorizou os shoppings a barrar clientes 
“consagra a segregação racial” e dá respaldo ao que a PM “faz 
cotidianamente”: associar negros ao crime. 
 
(Medo de “rolezinho” é reação de brancos, diz ministra. Folha de 
S.Paulo, 16.01.2014.) 
 
Texto 2 
 
Não se percebia, originalmente, nenhuma motivação de classe ou 
de “raça” nos rolezinhos. Agora, sim, grupos de esquerda, os tais 
“movimentos sociais” e os petistas estão tentando tomar as 
rédeas do que pretendem transformar em protesto de caráter 
político. Se há, hoje, espaços de fato públicos, são os shoppings. 
As praças de alimentação, por exemplo, são verdadeiras ágoras 
da boa e saudável democratização do consumo e dos serviços. 
Lá estão pobres, ricos, remediados, brancos, pretos, pardos, 
jovens, velhos, crianças... 
 
(Reinaldo Azevedo. “Rolezinho e mistificações baratas”. Folha de 
S. Paulo, 17.01.2014. Adaptado.) 
 
O confronto dos dois textos permite afirmar que 
 
a) o texto 1 elogia o caráter democrático da sociedade brasileira, 
enquanto o texto 2 assume uma posição elitista. 
b) ambos criticam a manipulação do desejo exercida pela 
publicidade e pelo marketing na sociedade de consumo. 
c) o texto 1 aborda o tema pelo viés da segregação racial, 
enquanto o texto 2 critica a manipulação da opinião pública. 
d) ambos tratam os “rolezinhos” como resultado histórico e 
material da luta de classes na sociedade brasileira. 
e) ambos tratam as manifestações como protestos de natureza 
ideológica contra os processos de exclusão social. 
 
Questão 04 
Sobre o conceito de alienação, é correto afirmar: 
 
a) é um conceito de Émile Durkheim, que expressa a situação na 
qual um indivíduo perde sua identidade, vivendo uma relação 
social na qual há ausência de regras e normas. 
b) é um conceito de Karl Marx, que significa que o trabalhador 
perde o controle do seu processo de trabalho e do seu produto, 
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 gerando um estranhamento em relação a ele, devido à existência 
da propriedade privada. 
c) é um conceito de Karl Marx, que revela o processo de inversão 
da realidade pela falsa consciência, trocando o determinante pelo 
determinado, a essência pela aparência, a causa pelo efeito, tal 
como fizeram os ideólogos alemães. 
d) é um conceito de Max Weber, que traduz para linguagem 
sociológica o processo de racionalização e burocratização da vida 
moderna, no qual a calculabidade dos fatores técnicos, a 
quantificação, a hierarquia e o sigilo são as características 
principais. 
 
Questão 05 
Os preconceitos fazem parte da vida em sociedade e resistem às 
mudanças, muitas vezes alimentando as desigualdades e a 
exclusão social, conforme trecho da música A carne dos 
compositores Seu Jorge, Marcelo Yuca e Wilson Capellette. 
 
A carne mais barata do mercado é a carne negra que vai de graça 
‘pro’ presídio 
E para debaixo de plástico que vai de graça ‘pro’ subemprego 
E ‘pros’ hospitais psiquiátricos 
A carne mais barata do mercado é a carne negra 
Que fez e faz história 
Segurando esse país no braço 
O cabra aqui não se sente revoltado 
Porque o revólver já está engatilhado 
E o vingador é lento 
Mas, muito bem intencionado 
E esse país vai deixando todo mundo preto e o cabelo esticado... 
 
Seu Jorge; Marcelo Yuca e Ulisses Cappelletti. “A Carne”. In: 
Farofa Carioca, Moro no Brasil. Rio de Janeiro: independente, 
1998. 
 
Os conceitos sociológicos apresentados no trecho da composição 
A carne são os seguintes: 
 
a) acomodação, discriminação racial, exploração do trabalho. 
b) institucionalização, igualdade social, politização. 
c) marginalização, industrialização, socialização. 
d) democracia, cidadania, desigualdade social. 
e) estigma, flexibilização, modernização. 
 
 
 
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EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO 
 
Questão 01 
Analise a imagem a seguir 
 
 
 
O quadro pretende mostrar os habitantes do continente americano 
e seus costumes, contudo os ameríndios aparecem com feições 
apolíneas e cabelos anelados. Nesta representação, como em 
muitas outras, os personagens mais se assemelham aos 
europeus do que propriamente aos povos da América. O quadro, 
assim, acaba nos dizendo mais sobre o olhar do próprio europeu 
do que sobre aqueles que procurava retratar. A identidade dos 
grupos humanos é uma característica fundamental para a criação 
de um “nós coletivo” que, ao mesmo tempo, identifica e diferencia 
os grupos entre si. Sobre a identidade, considere as afirmativas a 
seguir. 
 
I. A identidade possui natureza estática, daí perpassar as 
gerações e os subgrupos que se originam a partir de um tronco 
comum. 
II. Como em um jogo de espelhos, a identidade é construída a 
partir das representações que os grupos fazem dos outros, o 
que permite que enxerguem a si mesmos. 
III. A herança genética dos diferentes grupos humanos impede 
transformações de identidade, posto que delimita a 
abrangência das respectivas culturas. 
IV. A identidade supõe um processo de resignificação das 
diferenças entre os grupos sociais em função de um 
determinado contexto. 
 
Estãocorretas apenas as afirmativas: 
a) I e II. b) I e III. c) II e IV. 
d) I, III e IV. e) II, III e IV. 
 
Questão 02 
A formação cultural do Brasil tem como eixo central a 
miscigenação. Autores, como por exemplo Gilberto Freire, 
destacaram que a mistura de raças/etnias europeias, africanas e 
indígenas configuraram nossos hábitos, valores, hierarquias, 
estilos de vida, manifestações artísticas, enfim, a maioria das 
dimensões da nossa vida social, política, econômica e cultural. 
Entretanto, outros pensadores consideravam-na um aspecto 
negativo em nossa formação e tentaram ressaltar as origens 
europeias de algumas regiões, como o intelectual paranaense 
Wilson Martins afirmou: 
 Assim é o Paraná. Território que, do ponto de vista 
sociológico, acrescentou ao Brasil uma nova dimensão, a de uma 
civilização original construída com pedaços de todas as outras. 
Sem escravidão, sem negro, sem português e sem índio, dir-se-ia 
que a sua definição não é brasileira. Inimigo dos gestos 
espetaculares e das expansões temperamentais, despojado de 
adornos, sua história é a de uma construção modesta e sólida e 
tão profundamente brasileira que pôde, sem alardes, impor o 
predomínio de uma ideia nacional a tantas culturas antagônicas. E 
que pôde, sobretudo, numa experiência magnífica, harmonizá-las 
entre si, num exemplo de fraternidade humana a que não 
ascendeu à própria Europa, de onde elas provieram. Assim é o 
Paraná. 
 
(MARTINS, W. Um Brasil diferente: ensaio sobre fenômenos de 
aculturação no Paraná. 2. ed. São Paulo: T. A Queiroz, 1989. p. 
446.) 
 
O preconceito em relação às origens africanas e indígenas criou 
uma ambiguidade no processo de autoafirmação dos indivíduos 
em relação às suas origens. 
 
Assinale a alternativa em que a árvore genealógica relatada por 
um indivíduo evidencia esse sentimento de ambiguidade em 
relação à formação social brasileira. 
a) Meu avô paterno, filho de italianos, casou-se com uma filha de 
índios do interior de Minas Gerais; meu avô materno, filho de 
português casado com uma negra, casou-se com uma filha de 
portugueses. Apesar de saber que sou fruto de uma mistura, 
dependendo do lugar em que estou, destaco uma dessas 
descendências: na maioria das vezes, digo que descendo de 
portugueses e/ou de italianos; raramente digo que descendo de 
negros e índios, quando o faço é porque terei alguma vantagem. 
b) Meu avô paterno, filho de negros, casou-se com uma filha de 
índios do Paraná; meu avô materno, filho de português casado 
com uma espanhola, casou-se com uma filha de italianos. Sempre 
destaco que sou brasileiro acima de tudo, pois descendo de 
negros, índios e europeus. Essa afirmação ajuda-me a obter 
vantagens em diferentes lugares, pois a identidade brasileira tem 
sido assumida com clareza pelo estado e pelo povo ao longo da 
história. 
c) Meus avós maternos são filhos de italianos e os avós paternos 
são filhos de imigrantes alemães. Eu casei com uma negra, mas 
meus filhos serão, predominantemente, brancos. Tenho orgulho 
dessa descendência que é predominante nas diferentes regiões 
do Brasil. Costumo destacar que o Brasil é diferente, é branco e 
negro e eu descendo de famílias italianas e alemãs, assim como 
meu filho. Esse traço cultural revela a grandeza do país e a 
firmeza de nossa identidade cultural. 
d) Meu avô paterno, filho de índios do Paraná, casou-se com uma 
filha de índios do Rio Grande Sul; meu avô materno, filho de 
negros, casou-se com uma filha de negros. Gosto de afirmar que 
sou brasileiro, pois índios, portugueses e negros formam nossa 
identidade nacional. 
e) Meu avô paterno, filho de poloneses, casou-se com uma filha 
de índios do Paraná; meu avô materno, filho de ucranianos, 
casou-se com uma filha de poloneses. Como sou paranaense, 
costumo destacar que o Paraná tem miscigenação semelhante as 
das outras regiões do Brasil: aqui temos índios, europeus e 
negros. 
 
 
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 Questão 03 
A alienação política marcou a história da sociedade brasileira, 
conforme retratada no fragmento do poema “Analfabeto 
Político” de autoria de Bertolt Brecht 
 
O pior analfabeto é o analfabeto político. 
Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos 
políticos. 
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da 
farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das 
decisões políticas. 
O analfabeto político é tão burro 
Que se orgulha e estufa o peito 
Dizendo que odeia política. 
Não sabe o imbecil 
Que da sua ignorância política 
Nascem a prostituta, o menor abandonado, 
O assaltante e o pior de todos os bandidos, 
Que é político vigarista, pilantra, corrupto. 
E lacaio das empresas nacionais e multinacionais. 
 
SOUZA, S. M. R. de. Um outro olhar: filosofia. São Paulo: FTD, 
1995, p. 154. 
 
Explique o conceito de alienação política e suas implicações para 
o exercício da cidadania, relacionando-as aos versos de Brecht. 
 
Questão 04 
Analise os fragmentos a seguir. 
 
Fundamental para os estudos históricos na atualidade, o texto se 
refere ao conceito de 
a) gênero. b) patriarcado. c) empoderamento. 
d) matriarcado. e) feminismo. 
 
Questão 05 
Cada cultura tem suas virtudes, seus vícios, seus conhecimentos, 
seus modos de vida, seus erros, suas ilusões. Na nossa atual era 
planetária, o mais importante é cada nação aspirar a integrar 
aquilo que as outras têm de melhor, e a buscar a simbiose do 
melhor de todas as culturas. A França deve ser considerada em 
sua história não somente segundo os ideais de Liberdade-
Igualdade-Fraternidade promulgados por sua Revolução, mas 
também segundo o comportamento de uma potência que, como 
seus vizinhos europeus, praticou durante séculos a escravidão em 
massa, e em sua colonização oprimiu povos e negou suas 
aspirações à emancipação. Há uma barbárie europeia cuja cultura 
produziu o colonialismo e os totalitarismos fascistas, nazistas, 
comunistas. Devemos considerar uma cultura não somente 
segundo seus nobres ideais, mas também segundo sua maneira 
de camuflar sua barbárie sob esses ideais. 
 
(Edgard Morin. Le Monde, 08.02.2012. Adaptado.) 
 
No texto citado, o pensador contemporâneo Edgard Morin 
desenvolve 
a) reflexões elogiosas acerca das consequências do 
etnocentrismo ocidental sobre outras culturas. 
b) um ponto de vista idealista sobre a expansão dos ideais da 
Revolução Francesa na história. 
c) argumentos que defendem o isolamento como forma de 
proteção dos valores culturais. 
d) uma reflexão crítica acerca do contato entre a cultura ocidental 
e outras culturas na história. 
e) uma defesa do caráter absoluto dos valores culturais da 
Revolução Francesa. 
 
Questão 06 
TEXTO I 
 
Ela acorda tarde depois de ter ido ao teatro e à dança; ela lê 
romances, além de desperdiçar o tempo a olhar para a rua da sua 
janela ou da sua varanda; passa horas no toucador a arrumar o 
seu complicado penteado; um número igual de horas praticando 
piano e mais outra na sua aula de francês ou de dança. 
Comentário do Padre Lopes da Gama acerca dos costumes 
femininos [1839] apud SILVA, T. V. Z.Mulheres, cultura e literatura 
brasileira. Ipotesi — Revista dos Estudos Literários, Juiz de Fora, 
v. 2. n. 2, 1998. 
 
TEXTO II 
 
As janelas e portas gradeadas com treliças não eram cadeias 
confessas, positivas; mas eram, pelo aspecto e pelo seu destino, 
grande gaiolas, onde os pais e maridos zelavam, sonegadas à 
sociedade, as filhas e as esposas. 
MACEDO, J.M. “Memória da Rua do Ouvidor [1878]”. Disponível 
em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 20 maio 2013 
(adaptado). 
 
A representação social do feminino comum aos dois textos é o(a) 
a) submissão de gênero, apoiada pela concepção patriarcal de 
família. 
b) acesso aos produtos de beleza,decorrência da abertura dos 
portos. 
c) ampliação do espaço de entretenimento, voltado às distintas 
classes sociais. 
A sociologia, a antropologia e 
outras ciências humanas 
lançaram mão [dessa] 
categoria para demonstrar e 
sistematizar as desigualdades 
socioculturais existentes entre 
mulheres e homens, que 
repercutem na esfera da vida 
pública e privada de ambos os 
sexos, impondo a eles papéis 
sociais diferenciados que 
foram construídos 
historicamente e criaram polos 
de dominação e submissão. 
Impõe-se o poder masculino 
em detrimento dos direitos das 
mulheres, subordinando-as às 
necessidades pessoais e 
políticas dos homens, 
tornando-as dependentes. 
Portanto, [esse] termo pode ser 
entendido como um 
instrumento, como uma lente 
de aumento que facilita a 
percepção das desigualdades 
sociais e econômicas entre 
mulheres e homens, que se 
deve à discriminação histórica 
contra as mulheres. Esse 
instrumento oferece 
possibilidades mais amplas de 
estudo sobre a mulher, 
percebendo a em sua 
dimensão relacional com os 
homens e o poder. Como uso 
desse instrumento, pode-se 
analisar o fenômeno da 
discriminação sexual e suas 
imbricações relativas à classe 
social, às questões étnico-
raciais, intergeracionais e de 
orientação sexual. 
 
TELES, Maria Amélia de Almeida & MELLO, Mônica. O que é 
violência contra a mulher. São Paulo: Brasiliense, 2003. p. 16-17. 
(adaptado) 
VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
 
 
 
 
 
9 
 
CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 d) proteção da honra, medida pela disputa masculina em relação 
às damas da corte. 
e) valorização do casamento cristão, respaldado pelos interesses 
vinculados à herança. 
 
Questão 07 
 Leia o texto a seguir: 
 
Agregado (...) de pessoas que ocupam determinado espaço físico. 
Possui as seguintes características: é desordenada, 
descontrolada, anônima, desinibida; pode ser fanática e 
constituída de unidades uniformes; os fins e os sentimentos estão 
enquadrados pelo mais baixo denominador comum; a interação 
manifesta-se em termos de emoções generalizadas; os 
participantes adquirem segurança e poder; apresenta uma ideia 
fixa; pode dar expressão aos motivos inconscientes, reforçados 
pelo caráter cumulativo e circular de interexcitação. 
 
Disponível em: 
<http://www.prof2000.pt/users/dicsoc/soc_m.html#> 
 
 
A que tipo de agregado social esse texto se refere? 
a) Massa 
b) Multidão 
c) Liderança institucional 
d) Estamento 
e) Difusão cultural 
 
Questão 08 
Texto 1 
 
O professor não se aproveitará da audiência cativa dos 
estudantes para promover os seus próprios interesses, opiniões 
ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e 
partidárias. Ao tratar de questões políticas, socioculturais e 
econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa – 
isto é com a mesma profundidade e seriedade –, as principais 
versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito. 
O professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos 
recebam a educação moral que esteja de acordo com suas 
próprias convicções. 
 
www.programaescolasempartido.org. Adaptado. 
 
Texto 2 
 
Ciências sempre incluem controvérsias, mesmo física e química. 
Se não ensinamos isso também, ensinamos errado. E o mesmo 
vale para história e sociologia – o professor precisa ensinar Karl 
Marx, mas também Adam Smith e Émile Durkheim. Mas o 
conhecimento que precisa ser passado é essencialmente 
científico – o que não inclui o criacionismo, que é uma teoria 
religiosa. Com todo respeito, mas família é família, e sociedade é 
sociedade: a família pode ter crenças de preconceito homofóbico 
ou contra a mulher, por exemplo, e não se pode deixar que um 
jovem nunca seja exposto a um ponto de vista diferente desses. 
Ele tem que ser exposto a outros valores. 
 
Renato Janine Ribeiro. https://educacao.uol.com.br, 21.07.2016. 
Adaptado. 
O confronto entre os dois textos permite concluir corretamente 
que 
a) ambos atribuem a mesma importância à fé religiosa e à ciência 
como fundamentos educativos. 
b) ambos defendem o relativismo no campo dos valores morais, 
valorizando a aceitação das diferenças. 
c) as duas abordagens valorizam a doutrinação ideológica do 
professor sobre o aluno no campo educativo. 
d) o texto 1 assume uma posição moralmente conservadora, 
enquanto o texto 2 defende uma educação pluralista. 
e) o texto 1 é contrário a preconceitos morais, enquanto o texto 2 
denuncia o cientificismo na educação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
 
 
 
 
 
10 
 
CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 
RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA 
 
Questão 01: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa C 
Questão 02: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa A 
 
Questão 03: 
Resolução: 
A alienação política, na ótica de Brecht, corresponde ao 
desinteresse do indivíduo de participar da vida pública de 
sua comunidade. Assim, por se interessar somente em 
questões fúteis ou privadas, ele delega tudo aquilo que é do 
interesse comum a outras pessoas. Isso causa uma perda de 
cidadania, na medida em que os direitos políticos não são 
exercidos e que os direitos civis e sociais não são 
reivindicados. 
 
 
Resposta: Alternativa 
 
Questão 04: 
Resolução: . 
 
Resposta: Alternativa A 
 
Questão 05: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa D 
 
Questão 06: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa A 
 
Questão 07: 
Resolução: 
 
 
Resposta: Alternativa B 
 
Questão 08: 
Resolução: 
 
Resposta: Alternativa D 
 
 
 
 
VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
 
 
 
 
 
 
 
CURSO ANUAL DE FILOSOFIA 
Prof. Márcio Michiles 
RAZAO INSTRUMENTAL 
 
A RAZÃO INSTRUMENTAL 
 
 
 
 Razão instrumental é um conceito reconhecido no 
pensamento filosófico e cientifico desenvolvido por Max 
Horkheimer através do surgimento da teoria critica juntamente 
com Adorno. Horkheimer atuou como diretor do instituto de 
pesquisa social, sendo o primeiro a formular conceitualmente a 
chamada teoria critica. 
 O conceito de razão instrumental é sobremaneira relevante 
na obra de Habermas como crítica ao cientificismo e ao 
positivismo, porque somente uma razão com um fim em si mesma 
tem por característica a verdadeira racionalidade, sendo razões 
como meios para determinados fins, uma racionalidade 
subordinada de certa forma alienada. Esta racionalidade dos 
meios é denominada de instrumental, conforme define 
REPA (2008, p. 19): 
 
 A racionalidade instrumental define-se por ser estritamente 
formal. Não importam os conteúdos das ideias e dos princípios 
que possam ser considerados racionais, mas a forma como essas 
ideias e princípios podem ser utilizados para a obtenção de um 
fim qualquer. Ou seja, a racionalidade instrumental, formal 
caracteriza-se, antes de tudo, pela relação entre meios e fins. Ela 
só diz respeito aos meios, aos critérios de eficácia na escolha dos 
meios para atingir os fins, sejam eles quais forem. 
 Assim, no que tange as ciências, de certa forma toda ela tem 
um objetivo implícito, no âmbito da manipulação ou do interesse, 
caracterizando-a como uma prática instrumental, desta forma 
Habermas produzirá uma critica a teoria das ciências positivas. O 
que nos interessa aqui é como a sociedade moderna se comporta 
frente à instrumentalização da razão, direcionada pelas mídias, 
pela era da informação acrítica, pelo mercado de consumo, enfim, 
questões relevantes uma vez que dependendo o grau de 
alienação que se estabelece ao sujeito acaba por ser tornar um 
mero objeto, entre tantos, podemos destacar o trabalho, quando 
visto apenas como forma de produção. 
Esta forma de alienação resulta em uma colonização por um 
sistema que diminuio mundo da vida, esta colonização também 
se verifica na esfera econômica legitimada, pois o sistema como 
um todo permeia nas relações entre sujeito e objeto. 
 O sistema que colonializa as razões cognoscentes, o faz por 
certa legitimação instrumental, ou seja, convence o ser que atua 
no mundo da vida, na esfera comumente aceita como publica, 
oprimindo sua vocação para uma “práxis” emancipatória. Desta 
feita, alienados e ou oprimidos servem como meio prático para se 
alcançar um fim, seja ele qual for, como um hedonismo capitalista, 
que para sua auto preservação, dilacera a livre deliberação do 
sujeito. Assim, percebemos as premissas do que Habermas 
chamaria de agir estratégico. 
 O agir comunicativo distingue-se, portanto, do agir 
estratégico pelo fato de uma coordenação de ações bem sucedida 
não se apoiar sobre a racionalidade orientada para fins dos 
planos de ação sempre individuais, mas sobre a força 
racionalmente motivadora de realizações de entendimento, ou 
seja, sobre uma racionalidade que se manifesta nas condições 
em que um consenso pode ser alcançado de um modo 
comunicativo. 
(HABERMAS, 2004, p. 85). 
 
 Vamos tentar demonstrar como isto se dá com um exemplo 
do próprio Habermas, porém tentarei simplifica-lo no intuito de 
uma melhor compreensão. Suponhamos que um sujeito X, que 
promete doar uma pequena quantia em dinheiro para um sujeito 
Y, não obstante, este se utiliza da quantia fornecida para junto de 
um sujeito Z, praticar um assalto, através da compra de uma 
arma, por exemplo, com a quantia fornecida. Ora, o sujeito Y se 
beneficiou do agir estratégico, uma vez, que se tivesse revelado 
para X o verdadeiro propósito, presume-se que este não seria 
condizente com tal ação. Agora se Y tivesse revelado sua meta, 
haveria um consenso em deliberar para o bem ou para o mal, este 
é o agir comunicativo o que se utiliza da razão para o 
entendimento não como um instrumento e ou estratégia para 
determinado fim. Vamos abrir um parêntese aqui para ação em si 
do agir comunicativo, fazendo um gancho a um conceito Kantiano, 
a saber; o da “boa vontade”. 
 Para Kant não há nada que possa validar algo como o bem 
em si. Por exemplo, a beleza não pode ser caracterizada com 
bem em si porque pode ser usada para o mal, em quantas 
ocasiões já não presenciamos e ou tivemos conhecimento de 
caso que se utilizaram da beleza para sedução de alguém, o que 
dizemos do poder, pode ser caracterizado como bem em si, a 
história já nos tem dado a resposta, a força, fama, o dinheiro, 
enfim não há nada no mundo que caracterize o bem em si, 
exceto, a “boa vontade”. 
 Ora, Kant dirá que a boa vontade é o bem em si, uma vez 
que vai em direção oposta ao desejo. Destarte, a importância do 
conceito de desejo e vontade da teoria Kantiana, na teoria de 
Habermas, no momento o que nos interessa é que o conceito de 
boa vontade é imanente ao dever, e para que uma ação tenha 
efeito de entendimento mutuo a boa vontade precisa ser utilizada. 
 Não obstante, temos uma divergência entre Kant e Habermas, o 
primeiro pensa o individuo que age pelo imperativo categórico 
como capaz de decidir por si só quais são as regras morais que 
qualquer um possa seguir, o segundo pensa que em uma 
sociedade, as regras morais são estabelecidas dentro de uma 
comunidade de falantes. No entanto, fica clara a atividade que 
caberá ao mundo da vida, a oscilação entre agir estratégico e agir 
comunicativo, a “práxis” instrumental e a valoração do sujeito. 
 
REFERÊNCIAS: 
REPA, Luís Sergio, PINZANI, Alessandro. REVISTA MENTE E 
CEREBRO: 
Fundamentos para a compreensão contemporânea da psique. 
Editora Duetto, São Paulo, 2008. 
 
 A faculdade subjetiva do pensar é a razão, ou seja, é a 
faculdade que julga, discerne, compara, relaciona, calcula, ordena 
e coordena os meios com os fins. Essa faculdade tornou-se em 
sua evolução um instrumento formal. A razão não é apenas a 
VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
 
 
 
 
 
2 
 
CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 faculdade interior do homem, mas ela se personificou nos próprios 
objetos deste mundo. A razão tornou-se racionalidade. Ela está 
presente no aparelho produtivo, no aparelho tecnológico e 
cientifico, nas instituições políticas, no hospital, na escola, no 
trânsito e na mídia. Em todos os empreendimentos humanos há a 
relação calculada entre meios e fins. A operação, a coordenação, 
a ordem, o sistema, o cálculo, a busca da unidade define a 
racionalidadade em sua eficácia. 
 O primeiro pensador que desvelou o fenômeno da 
racionalidade no mundo ocidental foi Max Weber. Weber em seu 
livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, publicado em 
1905, diagnosticou que a característica fundamental específica da 
sociedade ocidental é a racionalização. Ele entende a 
racionalização como uma “regularização da ação humana” na 
busca de certos fins específico. Em seus estudos, ele percebeu 
que no ocidente ocorreram fenômenos culturais dotados de 
“desenvolvimento universal” em seu valor e significado. Por 
exemplo, a ideia de um estado racionalmente organizado como 
uma entidade política, com uma constituição racionalmente 
redigida, um direito racionalmente ordenado, uma administração 
orientada por regras racionais e com funcionários especializados 
somente existiu no ocidente. Da mesma forma, a apropriação 
capitalista racionalmente efetuada e calculada em termos de 
capital. Tudo sendo feito em termos de balanço, onde a ação 
individual das partes, baseada no cálculo, só existiu no ocidente. 
 O que weber faz “é postular como racional toda a ação que se 
baseia no cálculo, na adequação de meios e fins, procurando 
obter com um mínimo de dispêndios um máximo de efeitos 
desejados, evitando-se ou minimizando-se todos os efeitos 
colaterais indesejados”. (FREITAG, 1994, p.90). 
 Para Weber o conceito de “racionalização” se desenvolveu 
principalmente pelas ciências ocidentais em suas possibilidades 
técnicas. “Essa racionalização intelectualista (…) devemos à 
ciência e à técnica-científica” (Weber, 1993, p.30). O 
desenvolvimento de uma ciência racional fundamentada em 
princípios racionais e no método científico é um produto do 
ocidente. A astronomia fundamentada matematicamente; a 
geometria demonstrada através da prova racional; as ciências 
naturais fundamentada na observação e no método experimental; 
a medicina desenvolvida empiricamente com fundamentos 
biológicos e bioquímicos é uma descoberta da cultura ocidental. 
Esse processo de racionalização das ciências atingiu todas as 
esferas da vida social e tornou o “mundo desencantado”. Tudo o 
que existe poderia ser explicado pelo conhecimento racional. O 
mundo deixou de ser misterioso. 
 Apesar de a racionalização ter começado com as ciências, foi 
somente com os protestantes que ela adquiriu valor e significado. 
Foi graças à ética protestante que a racionalidade tornou-se 
universal, impulsionando o capitalismo. Com os protestantes o 
capitalismo ganhou consistência, assumiu formas e direções. Foi 
com o protestantismo que surgiu a organização capitalista 
assentada no trabalho livre. 
 Os membros da escola de Frankfurt também fizeram uso, em 
larga medida, do conceito de racionalidade na teoria crítica da 
civilização. Pode-se dizer que o objetivo primordial da Escola de 
Frankfurt é fazer uma crítica radical à racionalidade técnica 
do ocidente, que tem desencantado o mundo. 
 No seu livro “Eclipse da Razão”, publicado em 1947, 
Horkheimer define mais amplamente o conceito racionalidade 
instrumental. Ele distingue duas formas de razão: a razão 
subjetiva (interior) e razão objetiva (exterior). 
 A razão subjetiva (instrumental) é a faculdade que torna 
possível as nossas ações. É a faculdade de classificação, 
inferência e dedução, ou seja, é a faculdade que possibilita o 
“funcionamento abstrato do mecanismo de pensamento”.(Horkheimer, 1974, p. 11). Essa razão se relaciona com os meios 
e fins. Ela é neutra, formal, abstrata e lógico-matemática. “A 
razão subjetiva se revela como a capacidade de calcular 
probabilidades e desse modo coordenar os meios corretos com 
um fim determinado” (Horkheimer, 1974, p. 13). 
 Por sua vez, a razão objetiva (Logos), conhecida desde a 
época clássica da história da Grécia, era considerada o principal 
conceito da filosofia. A razão não é somente uma faculdade 
mental, mas é também do mundo objetivo. Existe uma ordem, 
uma harmonia por trás do mundo, uma racionalidade objetiva. A 
razão se manifesta nas relações entre os seres humanos, na 
organização da sociedade, em suas instituições, na natureza e no 
cosmo. As teorias de Platão, Aristóteles, o escolaticismo e o 
idealismo alemão se fundamentam sobre uma teoria objetiva da 
razão. 
 Durante a evolução do conhecimento a faculdade subjetiva 
do pensar foi tomando o lugar da razão objetiva. A faculdade 
subjetiva de pensar foi o instrumento crítico que dissolveu os 
conceitos da mitologia e da filosofia (razão objetiva) como mera 
superstição. A luta da razão subjetiva contra a mitologia e a 
filosofia, ao denunciá-las como falsa objetividade, teve que usar 
conceitos que reconheceu como válidos, como a lógica formal e a 
matemática. O resultado disso foi que nenhuma realidade 
particular pode ser vista como racional. A razão na busca de uma 
objetividade cada vez maior se formalizou. Em sua 
formalização a razão foi transformando o pensamento em um 
simples instrumento. 
 O livro “Dialética do Esclarecimento”, publicado em 1947, 
escrita a quatro mãos por Adorno e Horkheimer, também mostra-
nos como a razão emancipatória objetiva se converteu em razão 
instrumental subjetiva. O objetivo deste livro foi o de investigar a 
autodestruição da razão. Por que a humanidade através do 
progresso técnico e científico não alcançou sua maioridade e sim 
sucumbiu a um estado de barbárie? Sua tese principal nos revela 
o lado oculto do esclarecimento, sua história subterrânea. Para 
adorno e Horkheimer a razão não atingiu seu fim, pois a razão é 
em sua própria essência um mito: “O mito é esclarecimento, e o 
esclarecimento acaba por converter-se em mito”. Esses 
pensadores analisaram o conceito de razão em seu 
desdobramento dialético, que em sua evolução buscava se 
emancipar da mitologia e da metafísica conduzindo a sua 
autonomia e a sua autodeterminação. Contudo, essa razão 
onipotente, dominadora da natureza, emancipatória, que buscava 
submeter à natureza e a sociedade à objetividade da razão não 
atingiu seu fim. A razão se transformou em mera abstração, mero 
instrumento formal. “Razão significa triunfo da máquina, do 
trabalho, da natureza útil e grátis, razão mistificada que se 
realiza como razão instrumental, pela qual a natureza, o útil-grátis, 
é espoliado pela máquina e pelo trabalho. Mistificada porque é o 
lado abstrato da regularidade, da disciplina do trabalho legitimador 
dessa prática de pilhagem – prática do trabalho para o capital, da 
exploração dos homens para o capital”. (Matos, 1989, 130). 
 A grande consequência da racionalidade instrumental foi à 
perda da autonomia do indivíduo. A racionalidade técnica eliminou 
qualquer tentativa de ruptura. O aparato produtivo e as 
mercadorias se impõem ao sistema social como um todo. Os 
consumidores dos produtos e das formas de bem estar social 
tornaram-se prisioneiros do capital. Adorno e Horkheimer 
VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 
 
 
 
 
 
 
3 
 
CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) 
 detectaram uma civilização que chegou a uma dialética sem 
síntese. Nós vivemos na eterna contradição entre produtividade e 
destruição, dominação e progresso, prazer e infelicidade. Não 
houve a síntese libertadora de uma sociedade livre e feliz. 
 Bibliografía 
 ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do 
Esclarecimento. Rio de janeiro: Jorge Zarhar, 1986. 
 
CONHECIMENTO E RAZÃO INSTRUMENTAL 
 
Franklin Leopoldo e Silva 
Departamento de Filosofia 
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP 
 
Este texto trata de alguns aspectos que julgamos importantes 
para o entendimento da noção de razão instrumental. 
Focalizamos numa primeira parte alguns temas inscritos na 
fundação filosófica da modernidade, visando assim fornecer 
subsídios para a compreensão da história crítica da razão feita 
por Adorno e Horkheimer. Procuramos também tratar de pontos 
estratégicos para a abordagem dialética do Iluminismo, com a 
finalidade de esclarecer a necessidade, posta pelos autores, da 
consideração das contradições presentes no desenvolvimento da 
razão iluminista, tais como progresso/regressão e 
autonomia/dominação. 
Descritores: Iluminismo. Razão instrumental. História. Teoria. 
Crítica. 
 
Quem quer que ainda seja capaz de lançar um olhar crítico ao 
mundo contemporâneo não poderá certamente deixar de se 
surpreender ao comparar os resultados do processo histórico da 
modernidade com o projeto que se pode inferir das pretensões de 
nossos ancestrais fundadores. Bacon e Descartes situam-se 
nesta relação de paternidade exatamente porque propuseram os 
meios racionais de emancipação do homem em relação às forças 
da natureza e aos dogmas estabelecidos por instâncias de 
autoridade alheias ao domínio da pura razão. Tais meios racionais 
constituem os procedimentos de conhecimento da realidade em 
todos os seus aspectos. Conhecer emancipa porque o 
conhecimento traz consigo o domínio da realidade. Da submissão 
ao senhorio sobre a natureza é pois a trajetória que caracteriza a 
passagem do arcaico ao moderno, do primado do mundo exterior 
à primazia de um sujeito livre que se situa perante o mundo na 
posição de um juiz que é ao mesmo tempo um senhor. As duas 
atribuições vinculam-se ao saber cujo único instrumento é a 
razão. Afirma-se assim um poder indefinido de exploração 
intelectual da realidade que tem como consequência necessária o 
domínio técnico da natureza. 
Em princípio, nenhum elemento haveria neste quadro que 
pudesse causar estranheza ao homem do nosso século, 
habituado às conquistas tecnológicas derivadas do progresso da 
ciência e à marcha acelerada que caracteriza o domínio da terra 
por via das criações do engenho humano. Entretanto, se nos 
detivéssemos numa análise mais precisa deste pensamento que 
se constituiu na alvorada dos tempos modernos, duas coisas 
poderiam talvez causar inquietação. A primeira é o caráter utópico 
de certas propostas de organização social do trabalho científico 
que acompanham e mesmo ilustram a pretensão de domínio 
racional. Em Bacon, textos como a Nova Atlântida descrevem, na 
forma da utopia, uma civilização extremamente equilibrada, 
totalmente calcada na busca e organização do saber em todos os 
domínios, do que resulta o estado de felicidade desfrutado por 
todos os habitantes. O segundo motivo de inquietação deriva da 
maneira como Descartes pretendia integrar as várias partes que 
compõem a totalidade unitária do saber humano, definindo a 
vinculação do empreendimento teórico com as suas aplicações 
práticas através do termo sabedoria. A esta perfeita integração 
entre a teoria e a prática é assinalado o mesmo objetivo proposto 
por Bacon: a consecução da felicidade humana. Os ramos 
extremos da árvore que em Descartes representa o sistema do 
saber são a mecânica, a medicina e a moral, o que nos indica que 
o saber teórico se complementa na sua aplicação harmônica às 
três dimensões que concorrem, no ser humano, para a felicidade: 
o domínio técnico da natureza pelas artes mecânicas, a extinção 
das doenças e o prolongamento da vida e finalmente o domínio 
interno das paixões que deve levar à serenidade do espírito. 
Por que propósitos tão razoáveis aparecem hoje para nós como 
revestidos de um caráter quase bizarro? Simplesmente porque a 
história da modernidade mostrou a incompatibilidadeentre as 
duas partes do projeto: a autonomia da razão e a conquista da 
felicidade. Mas responder desta maneira implica também em 
constatar que uma harmonia inicial tornou-se historicamente um 
conflito. Com efeito, tanto para Descartes quando para Bacon, 
nada deveria opor o exercício da racionalidade à realização da 
felicidade, posto que no próprio sentido da organização racional 
do saber já estaria incluído o objetivo do bem-estar humano em 
todos os aspectos. Esta relação está pressuposta como 
verdadeira na própria gênese do projeto de emancipação racional, 
uma vez que o conhecimento só pode levar à realização da 
liberdade. A utopia baconiana não significa o relato do impossível, 
mas exatamente a representação literária do possível; e a noção 
cartesiana de sabedoria expressa simplesmente a necessidade 
de totalização harmônica de todas as dimensões da vida humana. 
Isto nos coloca diante de um problema singularmente difícil: 
explicar como a história encarregou-se de tornar falso algo que o 
pensamento instituiu como verdade fundamental. 
A direção em que esta questão deve ser pensada tende a agravá-
la sobremaneira, pois foi a trilha histórica seguida pela 
modernidade que aprofundou o conflito entre os elementos que se 
deveriam combinar; e este percurso histórico é nada menos que o 
progresso. 
* 
Nada mais óbvio do que a constatação de que a razão é fator de 
progresso. O que caracteriza o avanço histórico da modernidade 
é sobretudo o desenvolvimento da ciência e da técnica, tornado 
possível pelas perspectivas metafísicas e metodológicas 
instituídas e fundamentadas no século XVII, pelo trabalho de 
Galileu, Bacon e Descartes. A compreensão mais aprofundada do 
processo, no entanto, exige que se pergunte pelo tipo de 
racionalidade que se exerceu neste progresso. A distinção a ser 
feita corresponde às duas faces do que antes chamamos de 
projeto da modernidade. Vimos que, para conceber um 
conhecimento que levasse à realização da felicidade como 
consequência, tanto Bacon quanto Descartes tiveram de acoplar à 
atividade de conhecer o domínio da realidade, pois é a técnica 
dominadora que estabelece condições para o aprimoramento da 
vida. Num primeiro momento, a invenção e a consolidação dos 
meios de dominação proporcionados pelo conhecimento é tarefa 
de uma racionalidade instrumental; num segundo momento, o 
estabelecimento das finalidades a que tais meios deveriam servir 
para a consecução dos fins constitui o objetivo de uma 
racionalidade prática. Vê-se por aí que, num projeto de 
emancipação autêntico, as duas coisas são inseparáveis, embora 
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 coordenem suas diferenças no próprio processo de expansão 
racional. Dominar a natureza é apropriar-se, pelo conhecimento, 
dos meios que permitam colocá-la em harmonia com as 
finalidades humanas. O significado do predomínio da 
subjetividade na instauração da cultura moderna é a plena 
assunção do valor de que se devem revestir as finalidades 
humanas. A razão como medida de todas as coisas não tem a 
princípio um estatuto apenas lógico, mas também axiológico, que 
se expressa no reconhecimento do homem como valor, a partir de 
sua condição de ente racional. 
Assim a modernidade parece traduzir para termos puramente 
racionais uma combinatória de origem aristotélica: a razão teórica 
que conhece e por esta via cria os meios; e a razão prática (no 
sentido da fronesis aristotélica) que deve discernir os fins. Seria a 
completa integração destas duas perspectivas que resultaria no 
que Descartes chamou de Sabedoria. Mas há um elemento 
complicador na própria gênese deste projeto. O trabalho de 
fundamentação da atitude galilaica, levado a efeito por Descartes, 
e que constitui a elaboração das bases metafísicas do 
conhecimento em sentido moderno, tinha como um de seus 
alicerces uma idéia muito nítida, que aos olhos de Descartes 
aparecia como um pressuposto absolutamente necessário para 
que o conhecimento viesse a possuir um caráter sistemático: 
a unidade da razão. Compreende-se a preocupação do filósofo. 
Já que é preciso estabelecer um fundamento inquestionável sobre 
o qual repousará doravante todo o conhecimento, a consistência e 
a completude do sistema que assim se edificará depende da 
solidez e da unidade do seu princípio. Somente desta maneira o 
sujeito pode constituir, a partir do intelecto, a certeza que deve 
caracterizar a sua relação com o objeto. Renunciar à unidade da 
razão seria retornar às oscilações que marcavam uma concepção 
pré-metódica de conhecimento, a variação entre fundamento 
sensível e fundamento intelectual, que justamente havia suscitado 
a dúvida e a tarefa de reforma da Filosofia. Mas da unidade da 
razão seguem-se duas consequências necessárias: a unidade do 
método e a unidade do objeto. Como é a mesma razão que se 
aplica nos vários modos de conhecimento, e como se trata de 
estabelecer sempre o mesmo tipo de certeza cujo paradigma é a 
evidência matemática, só é possível conceber um único método. 
E como a objetividade é constituída a partir desta unidade 
metódica, segue-se que um único tipo de objeto é adequado a um 
único método. Pode-se continuar falando numa diversidade de 
objetos (a alma, Deus, os corpos), mas o conhecimento evidente 
supõe a redução desta diversidade de conteúdos a uma 
uniformidade intelectual. De alguma maneira é preciso abstrair da 
diversidade a unidade, para que haja correspondência entre 
método e objeto. É a própria unidade do paradigma que exige 
esta redução, já que a certeza matemática, isto é, eminentemente 
intelectual e que incide sobre entes abstratos, é o protótipo de 
evidência. É este o significado da matematização do mundo, ou 
do caráter matematizante do conhecimento enquanto tal. 
É esta unidade que prejudica, desde o início, a visão da diferença 
e da articulação entre o teórico e o prático. Descartes não põe em 
dúvida a diferença entre a Física e a Moral, mas a necessidade de 
conhecimento igualmente evidente em todos os domínios faz com 
que o conhecimento em moral deva seguir o mesmo paradigma 
do conhecimento físico. Ora, uma vez este modelo estabelecido, 
as coordenadas fundamentais do conhecimento estão 
definitivamente postas, uma vez que será este modelo que 
propiciará precisamente o progresso, já que ele é visto como o 
único que pode permitir o acesso à evidência teórica. O sentido 
último do progresso é a máxima expansão deste modelo. A 
delimitação crítica do conhecimento teórico feita por Kant se move 
ainda dentro destas coordenadas. A interdição do conhecimento 
metafísico, se de um lado restringe o horizonte da teoria, de outro 
reforça o caráter puramente - e formalmente - racional do 
fundamento da atividade cognitiva, que em Descartes ainda 
dependia de uma relação entre a razão humana e Deus como 
garantia das representações evidentes. É por isto que a 
depuração formal das estruturas lógicas do conhecimento em 
Kant opera como restritor do âmbito do conhecimento teórico, 
para melhor fundamentar a unidade do conhecimento. 
Com isto podemos avaliar como o progresso do conhecimento 
ocorre de maneira solidária a uma restrição do exercício da 
racionalidade teórica. O surgimento das novas ciências e a 
abertura de novos campos de objetividade subordinam-se à 
unidade do paradigma, já que o estatuto de cientificidade depende 
da conformação das novas realidades a uma definição prévia de 
conhecimento objetivo. Assim se consuma a superposição entre 
racionalidade e racionalidade instrumental ou técnica, 
permanecendo a ideia cartesiana de que a diversidade de 
conteúdos não pode implicar na quebra da homogeneidade da 
noção de objeto. Esta hegemonia da razão instrumental produz 
consequências de largo alcance quanto ao que se deve 
compreender por emancipação e autonomia como características 
da modernidade, e quanto à relação entre estas duas noções e a 
ideia deprogresso. 
* 
Com efeito, a partir do quadro acima traçado somos obrigados a 
relacionar duas ideias a princípio antagônicas: autonomia e 
subordinação. A realização da autonomia da razão resultou no 
estabelecimento de um modelo de racionalidade ao qual se 
subordina todo o conhecimento e que se põe como requisito do 
próprio exercício da razão. A hegemonia do paradigma, 
consolidada historicamente, implicou então na inversão do valor a 
princípio implícito na própria ideia de autonomia. A expansão da 
atividade racional - o progresso - fica sendo então a simples 
incorporação de novos conteúdos a um modelo formal de 
racionalidade que permanece invariável nas suas grandes linhas. 
O exemplo mais radical desta ideia de progresso científico é a 
epistemologia positiva e os critérios de cientificidade que são por 
ela estabelecidos. O reconhecimento da verdade científica como 
valor fica na inteira dependência da conformação do 
conhecimento ao modelo da objetividade físico-matemática. 
A consequência deste pressuposto não é apenas a adaptação da 
realidade aos critérios de objetividade, com a subsequente perda 
que isto possa acarretar no que concerne à adequação entre 
método e objeto. A consequência maior, que de alguma maneira 
já aparece em Descartes, é a dissolução da realidade no ato de 
sua transformação em objeto de conhecimento. É por isto que a 
flexibilização do modelo, ou de alguns de seus requisitos, não 
basta para fazer de uma nova adequação uma verdadeira 
apreensão da realidade mesma. Por exemplo, não basta, como 
fizeram os epistemólogos franceses do final do século passado, 
estabelecer graus de determinismo para garantir a adaptação do 
modelo físico-matemático a novas ciências, no intuito de reduzir 
assim a perda de realidade no processo de objetivação. Isto 
significa manter-se ainda no interior da perspectiva determinista, 
ampliando apenas a latitude de inserção da realidade no modelo 
de objetividade. 
É claro que estes problemas aparecem de maneira mais 
contundente no caso das ciências que têm por objeto o homem, 
sejam aquelas convencionalmente ditas "humanas", como a 
Sociologia e a História, sejam aquelas que pelo menos têm o 
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 homem entre os seus objetos, como é o caso da Psicologia. As 
questões que esta última suscita em termos de epistemologia e 
teoria da ciência são particularmente relevantes para um 
equacionamento crítico do problema da razão instrumental. 
Boa parte da crítica que se faz à Psicologia científica desde o final 
do século XIX até os anos 30 deste século pode ser remetida a 
um problema de fundo, que foi desdobrado em várias dificuldades 
de ordem epistemológica e de teoria do conhecimento. Trata-se 
da possibilidade de fazer do sujeito um objeto. De um lado o 
simples enunciado do problema já prenuncia a sua insolubilidade; 
de outro - e por isto mesmo - tal problema só é formulado a partir 
de uma posição crítica em relação à Psicologia científica que se 
praticava na época a que nos referimos. É de se notar que o 
caráter fundamental deste problema aparece na ampla gama de 
posições críticas que ele recobre. Num extremo, a absoluta 
interdição comteana de uma Psicologia científica, exatamente 
devida à impossibilidade de objetivar os conteúdos, demarcando-
lhes um território distinto da Biologia e da Física Social: a idéia de 
uma Psicologia científica contraria a própria noção de método 
científico. Num outro extremo, a crítica bergsoniana, que vê na 
objetivação dos conteúdos a dissolução inelutável da 
especificidade do psíquico. Aqui, a impossibilidade de uma 
Psicologia científica nos moldes tradicionais se deve ao caráter 
metafísico daquilo que deveria se constituir como o seu objeto: o 
próprio sujeito, ou o espírito. A diferença entre estas duas 
posições, que se inscrevem em campos filosóficos absolutamente 
opostos, é que Bergson propõe uma forma de conhecimento que, 
abandonando completamente os parâmetros do modelo 
tradicional, permitiria uma certa aproximação do psiquismo 
entendido como temporalidade interna ou duração. Neste sentido 
o "método" da Psicologia coincidiria parcial ou mesmo totalmente 
com o da Metafísica. É exatamente o caráter inalcançável do 
estrato subjetivo que leva Comte a pronunciar o seu interdito. 
Assim ambos coincidem de alguma maneira no resultado, embora 
divergindo radicalmente nos pontos de partida. 
A questão central, que de certo modo traduz o problema 
fundamental enunciado acima, é a da especificidade do "objeto" 
da Psicologia. A reivindicação desta especificidade, no caso de 
Bergson, obriga-o a abraçar a dura tarefa de defini-la. Este 
trabalho, sobre o qual não nos podemos deter aqui, nem mesmo 
para resumi-lo, produz resultados em duas instâncias. Na 
primeira, a que chamaríamos de epistemológica ou metodológica, 
a conclusão a que se chega é a de uma total inadequação entre 
método tradicional - modelo cartesiano filtrado pelo formalismo 
kantiano e retraduzido pelo positivismo - e o sujeito psicológico no 
estrato mais profundo de sua "vida interior", que para Bergson 
coincide mais propriamente com o psíquico. O caráter analítico do 
método, sua vocação categorial que se expressa na formulação 
de conceitos fixos que deveriam encerrar formalmente o objeto, 
delimitando com nitidez espacial os seus contornos e focalizando-
o, para tanto, de múltiplas perspectivas externas, redundaria 
numa aberração - algo como uma geometria da subjetividade. Na 
segunda instância, que poderíamos denominar de metafísica - o 
que em termos bergsonianos significa a realidade a ser estudada, 
a especificidade do psíquico é aproximadamente definida como a 
fluência temporal das vivências, impossível de ser captada nos 
moldes do realismo substancialista tradicional, já que se opõe à 
fixidez de uma coisa. Em ambos os casos o que temos é a 
oposição a pressupostos metodológicos e metafísicos e o que se 
impõe é o reconhecimento de que, no caso da Psicologia, o 
conhecimento não está para o objeto assim como o conceito está 
para a coisa, ou a lei para os fenômenos que regula. Isto significa 
a falência do modelo físico-matemático na Psicologia. 
Mas isto significa, ao mesmo tempo, entender as causas da 
aplicação por assim dizer espontânea deste modelo a uma 
realidade que lhe é tão adversa. Trata-se do triunfo histórico de 
um certo paradigma de racionalidade, que institui o seu objeto, 
constituindo-o como homogêneo aos esquemas intelectuais, 
mesmo ao preço do completo distanciamento da realidade a ser 
conhecida. É unicamente a força do instrumento que molda o seu 
produto. Isto indica - e por isto o exemplo da Psicologia é 
estratégico - não apenas o grau a que pode chegar o construto 
artificial no conhecimento, mas principalmente o abandono, por 
parte da razão instrumental, do sujeito, cuja emancipação e 
enaltecimento havia sido a tarefa mais insigne da própria razão, 
no nascimento da modernidade. 
* 
Para dar conta da complexidade deste processo é preciso 
compreender algo da história da razão, e assim tentar seguir um 
movimento que se caracteriza simultaneamente pelo progresso e 
pela regressão. Uma das contribuições básicas de Adorno e 
Horkheimer para a compreensão do processo histórico de 
desenvolvimento do Iluminismo foi chamar a atenção para a 
relação dialética entre estes dois termos, mostrando assim a 
necessidade de introduzir a consideração da contradição na 
história da razão e no processo emancipador cuja realização se 
daria ao longo desta própria história1. Ora, tendo em vista o que 
expusemos até aqui, não resulta de maneira alguma 
surpreendente que o trabalho de elucidação histórica levado a 
efeito pelos dois representantes da Escola de Frankfurt tenha tido 
como o maior mérito a produção de uma aporia, precisamente a 
indissociabilidade entre progresso e regressão que enunciamos 
há pouco. 
A aporia com que nos defrontamosem nosso trabalho revela-se 
assim como o primeiro objeto a investigar: a auto-destruição do 
esclarecimento. Não alimentamos dúvida nenhuma - e nisto 
consiste nossa petitio principii - de que a liberdade na sociedade é 
inseparável do pensamento esclarecedor. Contudo, acreditamos 
ter reconhecido com a mesma clareza que o próprio conceito 
deste pensamento, tanto quanto as formas históricas concretas, 
as instituições da sociedade com as quais está entrelaçado, 
contém o germe para a regressão que hoje tem lugar por toda 
parte. Se o esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão 
sobre este elemento regressivo, está selando seu próprio destino. 
Abandonando a seus inimigos a reflexão sobre o elemento 
destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado 
perde seu caráter superador e, por isto, também sua relação com 
a verdade. (Adorno & Horkheimer, 1986, p.13). 
O esforço de racionalização da natureza produziu o seu 
"desencantamento", isto é, o animismo natural foi substituído pela 
compreensão da articulação dos fenômenos, o que leva o 
entendimento a operar sobre eles. Enquanto a natureza aparece 
como um conjunto de forças que se situa além da compreensão 
humana, e com o qual o homem deve relacionar-se em termos de 
cumplicidade, conjuração, temor, identificação, apelo, o que se 
verifica é, por suposto, uma vinculação em que o ser humano se 
submete ao desconhecido, ainda que faça da natureza a matriz 
de representações míticas. Somente a racionalidade técnica 
permite operar com os fenômenos em termos de submetê-los ao 
poder humano. A diferença está precisamente neste fator: a 
dominação. Quando o sacerdote invoca as forças da natureza em 
benefício do homem, o que ele faz na verdade é tentar reverter o 
poder dominante destas forças, para que elas não se empenhem 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65641997000100002#1not
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 na destruição do universo humano. Completamente diferente é o 
caso da técnica, visto que aí a supremacia, o poder e a 
possibilidade de domínio situam-se do lado do homem. A 
natureza foi esvaziada de uma alma, isto é, de um poder que 
tanto podia auxiliar quanto aterrorizar. Por isto o progresso do 
conhecimento é o progresso do domínio e o Iluminismo é a 
passagem do mito à razão esclarecida. Mas, devido à 
identificação, já comentada, entre conhecimento e dominação, a 
instrumentação para o domínio acaba recobrindo a totalidade do 
que se entende por exercício da racionalidade. O limite do 
domínio é a inércia do dominado: assim o senhorio sobre a 
natureza se expressa racionalmente no caráter plenamente 
constituído do objeto. A natureza, e tudo que ela contém, passa 
de força a coisa. Há que se entender, no entanto, que este 
processo de reificação inscreve-se no âmago da racionalidade 
instrumental como a sua própria razão de ser. É desta forma que 
todo e qualquer objeto deve ser tratado como coisa. Não é difícil 
constatar então que a homologia formalmente exigida para que o 
instrumento modele seu produto faz com que fique estabelecida 
também uma íntima relação entre razão e coisa, racionalidade e 
reificação. É a expansão do reino do físico-inerte que constitui 
assim o triunfo da razão. Ora, o compromisso que assim se institui 
entre a atividade da razão e a passividade de um mundo de 
objetos redunda na completa identificação entre racionalidade e 
manipulação. 
O esclarecimento comporta-se com as coisas como o ditador se 
comporta com os homens. Este conhece-os na medida em que 
pode manipulá-los. O homem de ciência conhece as coisas na 
medida em que pode fazê-las. (Adorno & Horkheimer, 1986, 
p.24). 
Aqui adquire todo seu sentido o problema acima formulado e que 
exprimia o dilema da Psicologia: a possibilidade de fazer do 
sujeito um objeto. Quando este conhecimento instrumental volta-
se para a dimensão do humano, só pode tratá-la em termos de 
objeto manipulável. Surge então uma contradição insuperável no 
âmbito de qualquer conhecimento do homem enquanto sujeito; 
por isto a cientificidade regida pela razão instrumental deve 
necessariamente abandonar a consideração do sujeito e construir 
uma homologia fundamental entre o homem e qualquer outro 
objeto. É desta forma que o próprio conhecimento se dá como 
negação do sujeito, e a atividade da razão produz a passividade 
do sujeito racional enquanto objeto de conhecimento. A reificação 
do sujeito como única possibilidade de conhecê-lo o define, ipso 
facto, nos termos da alienação. O controle da natureza, que é a 
anulação de sua atividade, já que a racionalidade se confunde 
com a identidade, isto é, a estabilidade tautológica a que 
logicamente se deveria poder reduzir todos os fenômenos, 
estende-se assim ao sujeito quando este se torna tema de 
elucidação racional. Ora, esta representação reificada que o 
sujeito tem de si mesmo é que opera a regressão de uma 
pretensa emancipação a uma total submissão e controle, numa 
realidade histórico-social totalmente administrada pelos 
parâmetros funcionais da razão instrumental. 
É neste sentido que se pode falar em "auto-destruição do 
esclarecimento". A racionalidade técnica não é simplesmente 
aquela que se serve da técnica, mas aquela que se identifica com 
a técnica, isto é, identifica o meio como fim. Esta identificação 
entre parte e todo é resultado essencial do processo histórico de 
esclarecimento. O modelo objetivista triunfou na teoria da ciência 
como o único possível não porque seja o único racional, mas 
porque é o único em que a razão se mostra produtiva, isto é 
manipuladora: conhecer é saber fazer. Esta eficiência do saber se 
mostra no seu caráter pragmático. O pragmatismo da ciência não 
é elemento derivado, que a ela se acrescentaria de fora. Há uma 
intencionalidade pragmática originária na consciência intelectual, 
que foi expressa exatamente na identificação entre conhecer e 
dominar. É para controlar que se conhece. Esta característica não 
é apenas do saber científico, mas de todo saber, na medida em 
que sua finalidade é assegurar a sobrevivência. Neste sentido a 
praxis é o elemento motor do desejo de conhecer, daí 
anaturalidade deste desejo, afirmada desde Aristóteles. Foi este 
caráter pragmático intrínseco ao conhecimento que motivou as 
concepções de Bacon e de Descartes, nos termos de um possível 
casamento feliz entre a teoria e a prática. Mas na medida em que 
o mundo prático perdeu sua autonomia e a razão instrumental 
ganhou uma dimensão totalitária, a prática passou a ser 
entendida como derivação da teoria, mera aplicação técnica do 
conhecimento teórico-instrumental. Como a técnica existe, em 
princípio para satisfazer as necessidades humanas, estas 
passaram a ser compreendidas no âmbito da razão instrumental, 
a única que pode satisfazê-las através da aplicação técnica. Esta 
dissolução do mundo prático e sua subordinação à razão teórica 
definida como instrumental pode ser considerada outro elemento 
de regressão, pois o mundo prático seria aquele em que as 
finalidades humanas poderiam se constituir autonomamente. A 
esta dissolução do mundo prático corresponde a cegueira a que 
se referem os frankfurtianos: "o pensamento cegamente 
pragmatizado". A eficiência produtiva do pensamento instrumental 
estabelece um desequilíbrio entre a ação como simples e 
compulsória aplicação dos resultados do progresso e o 
discernimento racional das finalidades que deveriam governar 
esta atividade. Por isto a ação dominadora oriunda da tecnologia 
é tanto mais inócua do ponto de vista ético quanto mais se torna 
febril e constante. Isto porque a relação entre as necessidades 
humanas e a satisfação delas tornou-se um círculo operante 
dentro dos limites da razão instrumental, como o demonstra 
principalmente o papel do consumo como finalidade e ao mesmo 
tempo estímulo de reinício perpétuo da produção tecnológica. 
Assim seconstitui, pois, a aporia a que se referem Adorno e 
Horkheimer: a emancipação se converte em submissão, na 
medida em que o progresso da razão instrumental coincide com a 
regressão do humano à categoria de coisa. O impulso para a 
dominação da natureza nasceu do temor frente ao desconhecido. 
Os mitos e os rituais cumpriram primeiramente esta função, em 
que o homem, para controlar, se submetia. A ciência, ao 
desencantar a natureza, isto é, ao substituir a relação com as 
forças pela formalização metódica de índole matematizante, 
apaziguou a exterioridade, destituindo-a de vida. Mas o triunfo da 
instrumentalidade dominadora instaurou uma outra fonte de 
dominação, a própria razão enquanto essencialmente 
dominadora. Daí a tendência dos indivíduos a alienarem a 
liberdade em princípio conquistada nas diversas figuras da razão, 
ou mesmo em qualquer dos seus produtos, desde as descobertas 
científicas até o marketing eleitoral. A questão é que, tendo esta 
aporia se constituído no interior do movimento da razão 
emancipadora, ela não pode ser inteiramente avaliada pelos 
parâmetros teóricos do próprio Iluminismo. Daí a reivindicação, 
por parte de Adorno e Horkheimer, de uma teoria crítica que 
esteja dotada de instrumentos para entender este movimento 
complexo não apenas na linearidade do seu progresso, mas 
também nos meandros de suas contradições. O que a tradição 
cartesiana legou como modelo de teoria é algo dotado da 
economia de elementos e do esquematismo que caracterizam o 
raciocínio abstrato. O prestígio histórico das ciências exatas e 
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 naturais impôs às ciências do homem o mesmo paradigma, do 
que decorrem as dificuldades a que já aludimos. No entanto, o 
mais importante a considerar aqui é a presença da história na 
própria constituição do objeto destas ciências. O que a teoria 
crítica tem de diferente da teoria tradicional, para além da questão 
do método, é a consideração do caráter histórico da própria razão. 
Jamais chegaríamos a notar que a razão iluminista traz em si o 
seu contrário se a abordássemos a partir de sua definição 
puramente lógica e a-histórica. É a historicidade da razão que 
permite ver no seu desenvolvimento o entrelaçamento de fatores 
de diversas ordens que nos obrigam a considerar conjuntamente 
a racionalidade e a mitificação, o progresso e a regressão, a 
civilização e a barbárie. A ilusão da linearidade nos mostraria a 
civilização sucedendo à barbárie, a racionalidade sucedendo ao 
mito e o progresso como incompatível com o retorno a estágios 
primários de conhecimento e sociabilidade. Uma teoria crítica, que 
considera a totalidade das relações nas práticas humanas e não 
apenas a seleção de elementos que desenham o progresso 
linear, nos obriga a dialetizar o processo histórico, ao nos mostrar 
que qualquer realidade, na medida em que se afirma 
historicamente, traz em si aquilo que a nega. Mas tal visão supõe 
sujeitos produzindo concretamente suas práticas a partir de 
condições dadas. 
A teoria em sentido tradicional, cartesiano, como a que se 
encontra em vigor em todas as ciências especializadas, organiza 
a experiência à base de formulação de questões que surgem em 
conexão com a reprodução da vida dentro da sociedade atual. Os 
sistemas das disciplinas contêm os conhecimentos de tal forma 
que, sob circunstâncias dadas, são aplicáveis ao maior número 
possível de ocasiões. A gênese social dos problemas, as 
situações reais nas quais a ciência é empregada e os fins 
perseguidos em sua aplicação, são por ela mesma considerados 
exteriores. - A teoria crítica da sociedade, ao contrário, tem como 
objeto os homens como produtores de todas as suas formas 
históricas de vida. As situações efetivas, nas quais a ciência se 
baseia, não é para ela uma coisa dada, cujo único problema 
estaria na mera constatação e previsão segundo as leis da 
probabilidade. O que é dado não depende apenas da natureza, 
mas também do poder do homem sobre ela. (Horkheimer, 1989a, 
p.69). 
Este texto pode ser entendido a partir da formulação weberiana 
de uma dicotomia que pode ser dita básica na idéia moderna de 
teoria: a separação entre juízos de fato e juízos de valor. A teoria 
tradicional supõe a possibilidade de uma descrição neutra da 
realidade, mesmo que esta realidade seja psicológica, social ou 
histórica, isto é, mesmo naquilo que se refere ao homem. No 
processo de desencantamento que coincide com a progressiva 
racionalização do mundo, o que permitiu ao homem sair de uma 
relação animista com a natureza foi o distanciamento dos 
fenômenos naturais, estabelecido por via da mediação metódica, 
que passou a constituir então a medida da descrição objetiva da 
realidade. Neste sentido a posição tomada frente à realidade é a 
posição de sujeito de conhecimento, munido dos instrumentos 
que venham a permitir a representação mais adequada do 
mundo. Embora a adequação possa ser entendida como uma 
medida de avaliação da pertinência do conhecimento, trata-se de 
uma medida lógica, cuja finalidade é dispor todos os objetos na 
uniformidade em que eles devem aparecer para o sujeito, 
respeitando assim a unidade básica do modelo racional. Nesta 
perspectiva, não cabe ao sujeito julgar acerca da constituição das 
coisas, das relações entre os fenômenos e do sistema de 
produção de eventos reais, questionando a organização 
cosmológica em termos de valor, isto é, procurando discernir 
entre o bom e o mau na instância dos fatos. Este tipo de juízo não 
cabe dentro dos parâmetros de cientificidade, posto que não 
haveria meios de medir o seu grau de objetividade. É neste 
sentido que Horkheimer diz, no texto citado, que a gênese, a 
singularidade situacional e os fins perseguidos são considerados 
pela teoria tradicional como "exteriores", o que significa que não 
fazem parte do quadro formal de conhecimento, embora possam 
vir a ser tema de considerações extra-científicas, por exemplo, a 
"opinião" do cientista acerca de tais assuntos, formulada no 
entanto a partir de uma posição em que ele não se colocaria 
justamente como cientista. A hegemonia do modelo de teoria faz 
com que esta atitude tenha que ser reproduzida em todos os 
campos de conhecimento. 
Por que uma teoria crítica não pode deixar de considerar "a 
gênese social dos problemas, as situações reais nas quais a 
ciência é empregada e os fins perseguidos"? Porque tal teoria não 
parte da homogeneidade do dado, isto é, da uniformidade a 
priori concebida de tudo o que for considerado objeto. A razão 
disto é que, para a teoria crítica, a realidade é produzida pelos 
sujeitos enquanto agentes históricos. O que diz respeito ao 
homem nunca pode ser tomado como um dado natural. Tomar o 
homem como produtor das práticas que constituem a sua 
realidade é tirá-lo da esfera dos objetos físico-inertes, é 
considerar a impossibilidade de separar, no sujeito, o que ele é do 
que ele faz, entendendo que a ação humana se distingue da ação 
dos objetos naturais por ser dotada de intencionalidade. Com 
efeito, a noção de agente quando relacionada com a ação 
histórica não pode ser assimilada simplesmente a um processo de 
causalidade natural. Quando se diz que os homens são 
"produtores de todas as suas formas históricas de vida", não se 
pode deixar de considerar nesta produção uma intencionalidade 
racional e moral, que é a própria caracterização da 
ação histórica como ação humana; caso contrário não haveria 
como distinguir o processo histórico do processo natural. Isto 
significa que a instância do social não pode ser considerada 
como meio de atividade histórica da mesma maneira que se 
considera o meio natural como ambiente dos organismos em 
geral. E isto porque a organização do meio, no caso da relação 
entre o homem e a sociedade, depende da produção das práticas 
que vão estruturando e modificando este meio. 
Isto significa que quando se trata de conhecer

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