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VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE FILOSOFIA Prof. Márcio Michiles ESCOLAS FILOSOFICAS GREGAS INTRODUÇÃO São várias as ciências que tem o homem como objeto de estudo, desde a antropologia, estudo direto, ou a história, geografia, biologia, psicologia e a Filosofia e a Sociologia, não é a toa que áreas de estudo reservam tanto tempo para o estudo multifacetado do homem, somos um incrível animal sem qualidades especiais que deu certo e dominou as relações sobre a terra. Sem entrarmos no confronto direto entre a visão evolucionista e a criacionista, vamos aceitar apenas que o homem evolui, e o faz a cada segundo de sua existência. Como diria Heráclito “Ninguém desce duas vezes o mesmo rio”. Trabalhar o diferencial do homem, sua evolução através do trabalho, o manual de sua sobrevivência que lhe deu condição de dinamizar o cérebro e coloca-lo a frente das demais espécies tornou-se uma obseção, não digo apenas entender o funcionamento do cérebro mas sua dialética perene entre a razão e a emoção. O Homem passa a se entender como ser grupal a partir dos bandos e da formação das primeiras aldeias, vivia-se um período historicamente chamado de Pré-História, passagem do paleolítico para o Neolítico, e ali estava o homem frágil diante de uma realidade adversa da sobrevivência. No filme a Era do Gelo I, a saga mostra a tentativa de uma Preguiça, um Mamute e um Tigre Dente de Sabre, em devolver um bebê humano a seu bando, é bem identificado a fragilidade do Bebê e os cuidados do “falso bando de animais” em defender o pequeno humano, em um determinado momento esta fragilidade é abordada e dito que um dia ele dominaria o mundo. Os animais demonstram no filme, razão e sentimentos aflorados e inteligência para mudar ações e o próprio ambiente, que são vistas como propriedades humanas. Nesta dinamização do cérebro o homem formou aldeias e montou civilização, construindo e garantindo sua sobrevivência que em alguns momentos subjugando e aniquilando outras espécies e mesmo a própria espécie humana em nome da garantia de vida ou a melhora para o seu grupo mais próximo. A guerra tornou-se um elemento peculiar de garantia de vida, os mais fortes e às vezes mais sábios montavam verdadeiras estruturas aplicadas a morte do inimigo, que passava a ser assim chamado apenas por também tentar sobreviver e garantir uma melhora na vida da sua comunidade. Esta “Arte da Guerra” dominou o espírito de legiões, do Oriente ao Ocidente a busca pelo domínio do Mundo era uma constante na mente de líderes, faraós, imperadores, reis e ou mesmo místicos que prometiam uma vida melhor assim que dominassem ao inimigo. Como sabemos milhares de pessoas morreram ao longo da história na tentativa de seguir ao líder que desenvolveu a ideia de melhoria e paz para os povos vencedores, afinal como diria Machado de Assis em seu escrito “Quincas Borba”, “Ao vencedor as batatas”. E bem verdade que a vitória em algumas vezes trouxe não apenas a paz ao celeiro dos vencedores, mas também a glória, a arte, a luxuria, ao vermos Roma em seu momento Imperial (especialmente na Dinastia Júlio-Claudiana), pode-se constatar isso. O preço da guerra sempre é muito alto e ao poucos a diplomacia política fundamentada estruturalmente na Grécia Antiga, passou a tomar espaço em todo o mundo, aliado a isso algumas técnicas de produção e comércio passaram a influir na dinâmica de vida dos homens. O homem se desenvolvia e junto com ele sua habilidade de contornar a adversidades naturais e especialmente humanas. Neste contexto os sábios, passam a ser valorizados, homens que tinham uma habilidade suprema em conhecer aos demais, articulistas, negociadores, sagazes na habilidade humana. Os sábios passam a ser tão respeitados em algumas culturas comparando-se aos próprios deuses, o que dizer quando o conhecimento se aliou da religião, das crenças, como foi o caso da Idade Média Ocidental, o universo conspirava sob uma única liderança, os temores inexplicáveis e as condutas racionais eram tratados da mesma forma, sob a óptica, ou melhor, “A luz da fé” cristã. Não há paz na mente humana, o rio dos saberes é turbulento, mesmo em momento onde tudo parecia estar em paz, o homem se obstinava de outras carências e reiniciava a “Roda viva”, e se deparava com mudanças significavas para o seu bem estar social, do renascimento ao iluminismo a mente humana viveu a galopes, VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 2 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) muitos saberes foram expressos, muitas guerras e muitas melhorias também, inventos por todas as áreas e o homem cada vez mais distante de sua natural fragilidade. A “luz se fez” e o homem passou a dominar todos os espaços, a ciência a ocupar lugar cada vez mais de destaque, a contemporaneidade determinou que guerras, torturas e morte seriam abomináveis, mesmo ainda fazendo uso constante das mesmas, o capital torna-se o novo signo de obstinação, ao homem que detiver o capital financeiro é dado o poder dentre os demais, os ícones do passado são apenas referências de valores e tradições efêmeras em muitas culturas. Agora a nova onda da busca pela sobrevivência, poder, glória e luxuria estão acentuadas no acumulo de capital pessoal e dos Estados políticos da contemporaneidade. Se no passado o homem matava para sobreviver e para melhorar de vida, por que hoje seria diferente? Na verdade as formas de conquista se diluíram e utilizam-se de técnicas cada vez mais aperfeiçoadas para garantir o amplo desenvolvimento do Ser ou do Estado em detrimento de outro, e a cada dia se usa mais o saber, a ciência, a lógica, e a emoção para garantir espaço e dominação sobre o outro, se isso não for o suficiente, bom as armas e a guerra ainda podem garantir “as batatas”. “Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. (...) ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.” Machado de Assis em Quincas Borba Entender essa dinâmica do Homem tornou-se necessário, como vimos quanto mais saber (Sophia) o homem tinha, mais êxito teria em suas relações e foi assim que a conquista perene do saber ganhou forma e adeptos, eram os “amantes do saber”, os filósofos. Os primeiros filósofos gregos em especial a partir de Sócrates, passam a rediscutir o pensamento humano com bases mais sólidas que os discursos mitológicos ou mesmo teológicos até então aceitos pelas comunidades e usam também uma forma de organizar o pensamento, chamadas na época de escolas, como podemos identificar abaixo. Os Pré-Socráticos Pode-se afirmar que foi a primeira corrente de pensamento, surgida na Grécia Antiga por volta do século VI a.C. Os filósofos que viveram antes de Sócrates se preocupavam muito com o Universo e com os fenômenos da natureza. Buscavam explicar tudo através da razão e do conhecimento científico. Podemos citar, neste contexto, os físicos Tales de Mileto, Anaximandro, Anaximenes, Xenófanes e Heráclito, que formavam a escola Jônica, os elementos da natureza (Água, Ar, Fogo e Terra), ganharam força nessa escola, acreditavam que havia uma formação do universo e dos próprios seres vivos através desses elementos. Pitágoras desenvolve seu pensamento defendendo a ideia de que tudo preexiste a alma, já que esta é imortal, tendosegundo se acredita, forte influência de conceitos egípcios, a religião tornava-se assim importante para o filósofo. Mas indiscutivelmente, foi com a crença de que o número é o elemento básico explicativo da realidade e mantenedor da harmonia do cosmos. O pensamento de Pitágoras configura a escola Italiana. Demócrito e Leucipo defendem a formação de todas as coisas, a partir da existência dos átomos, fundando assim a escola atominsta, onde a realidade consiste em átomos e no vazio, sendo gerado por uma aproximação e repulsão dos átomos neste ambiente e com isso surgiria além do movimento os fenômenos naturais. O Período Clássico – Socráticos, Sofistas, Platônicos e Aristotélicos. Os séculos V e IV a.C. na Grécia Antiga foram de grande desenvolvimento cultural e científico. O esplendor de cidades como Atenas, e seu sistema político democrático, proporcionou o terreno propício para o desenvolvimento do pensamento. É a época dos sofistas e do grande pensador Sócrates. Os sofistas, entre eles Górgias, Leontinos e Abdera, defendiam uma educação, cujo objetivo máximo seria a formação de um cidadão pleno, preparado para atuar politicamente para o crescimento da cidade. Dentro desta proposta pedagógica, os jovens deveriam ser preparados para falar bem (retórica), pensar e manifestar suas qualidades artísticas. Sócrates começa a pensar e refletir sobre o homem, buscando entender o funcionamento do Universo dentro de uma concepção científica. Para ele, a verdade está ligada ao bem moral do ser humano. Ele não deixou textos ou outros documentos, desta forma, só podemos conhecer as ideias de Sócrates através dos relatos deixados por Platão. Platão foi discípulo de Sócrates e defendia que as ideias formavam o foco do conhecimento intelectual. Os pensadores teriam a função de entender o mundo da realidade, separando-o das aparências. Outro grande sábio desta época foi Aristóteles que desenvolveu os estudos de Platão e Sócrates. Foi Aristóteles quem desenvolveu a lógica dedutiva clássica, como forma de chegar ao conhecimento científico. A sistematização e os métodos devem VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 3 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) ser desenvolvidos para se chegar ao conhecimento pretendido, partindo sempre dos conceitos gerais para os específicos. O Período Pós-Socrático – Término com a queda de Roma Ocidental. Está época vai do final do período clássico (320 a.C.) até o começo da Era Cristã, dentro de um contexto histórico que representa o final da hegemonia política e militar da Grécia. Ceticismo: de acordo com os pensadores céticos, a dúvida deve estar sempre presente, pois o ser humano não consegue conhecer nada de forma exata e segura. Epicurismo: os epicuristas, seguidores do pensador Epicuro, defendiam que o bem era originário da prática da virtude. O corpo e a alma não deveriam sofrer para, desta forma, chegar-se ao prazer. Estoicismo: os sábios estóicos como, por exemplo Marco Aurélio e Sêneca, defendiam a razão a qualquer preço. Os fenômenos exteriores a vida deviam ser deixados de lado, como a emoção, o prazer e o sofrimento. A análise básica do nascimento da estrutura filosófica termina na Idade Antiga, é obvio que com o advento da Idade Média Ocidental, uma nova forma de entender o saber, o pensamento e as ações humanas no ocidente irá ganhar corpo, a Igreja Cristã que crescera muito em fins da Idade Antiga, comandaria o novo cenário neste momento. É fundamental perceber que o homem, ainda hoje tem como forte orientação estrutural da sua racionalidade norteada pelos pensamentos gregos e adaptados a sua realidade de mundo. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 4 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM Questão 01 (Uel 2013) Leia o texto a seguir. Tudo isso ela [Diotima] me ensinava, quando sobre as questões de amor [eros] discorria, e uma vez ela me perguntou: – que pensas, ó Sócrates, ser o motivo desse amor e desse desejo? A natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre e ficar imortal. E ela só pode assim, através da geração, porque sempre deixa um outro ser novo em lugar do velho; pois é nisso que se diz que cada espécie animal vive e é a mesma. É em virtude da imortalidade que a todo ser esse zelo e esse amor acompanham. (Adaptado de: PLATÃO. O Banquete. 4.ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p.38-39. Coleção Os Pensadores.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o amor em Platão, assinale a alternativa correta. a) A aspiração humana de procriação, inspirada por Eros, restringe-se ao corpo e à busca da beleza física. b) O eros limita-se a provocar os instintos irrefletidos e vulgares, uma vez que atende à mera satisfação dos apetites sensuais. c) O eros físico representa a vontade de conservação da espécie, e o espiritual, a ânsia de eternização por obras que perdurarão na memória. d) O ser humano é idêntico e constante nas diversas fases da vida, por isso sua identidade iguala-se à dos deuses. e) Os seres humanos, como criação dos deuses, seguem a lei dos seres infinitos, o que lhes permite eternidade. Questão 02 (Uncisal 2012) O período pré-socrático é o ponto inicial das reflexões filosóficas. Suas discussões se prendem a Cosmologia, sendo a determinação da physis (princípio eterno e imutável que se encontra na origem da natureza e de suas transformações) ponto crucial de toda formulação filosófica. Em tal contexto, Leucipo e Demócrito afirmam ser a realidade percebida pelos sentidos ilusória. Eles defendem que os sentidos apenas capturam uma realidade superficial, mutável e transitória que acreditamos ser verdadeira. Mesmo que os sentidos apreendam “as mutações das coisas, no fundo, os elementos primordiais que constituem essa realidade jamais se alteram.” Assim, a realidade é uma coisa e o real outra. Para Leucipo e Demócrito a physis é composta a) pelas quatro raízes: o úmido, o seco, o quente e o frio. b) pela água. c) pelo fogo. d) pelo ilimitado. e) pelos átomos. Questão 03 (Ufsj 2012) Sobre o princípio básico da filosofia pré-socrática, é CORRETO afirmar que a) Tales de Mileto, ao buscar um princípio unificador de todos os seres, concluiu que a água era a substância primordial, a origem única de todas as coisas. b) Anaximandro, após observar sistematicamente o mundo natural, propôs que não apenas a água poderia ser considerada arché desse mundo em si e, por isso mesmo, incluiu mais um elemento: o fogo. c) Anaxímenes fez a união entre os pensamentos que o antecederam e concluiu que o princípio de todas as coisas não pode ser afirmado, já que tal princípio não está ao alcance dos sentidos. d) Heráclito de Éfeso afirmou o movimento e negou terminantemente a luta dos contrários como gênese e unidade do mundo, como o quis Catão, o antigo. Questão 04 (Enem 2012) TEXTO I Anaxímenes de Mileto disse que o ar é o elemento originário de tudo o que existe, existiu e existirá, e que outras coisas provêm de sua descendência. Quando o ar se dilata, transforma-se em fogo, ao passo que os ventos são ar condensado. As nuvens formam- se a partir do ar por feltragem e, ainda mais condensadas, transformam-se em água. A água, quando mais condensada, transforma-se em terra, e quando condensada ao máximo possível, transforma-se em pedras. BURNET, J. A aurora da filosofia grega. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006 (adaptado). TEXTO II Basílio Magno, filósofo medieval, escreveu: “Deus, como criador de todas as coisas, está no princípiodo mundo e dos tempos. Quão parcas de conteúdo se nos apresentam, em face desta concepção, as especulações contraditórias dos filósofos, para os quais o mundo se origina, ou de algum dos quatro elementos, como ensinam os Jônios, ou dos átomos, como julga Demócrito. Na verdade, dão a impressão de quererem ancorar o mundo numa teia de aranha”. GILSON, E.; BOEHNER, P. História da Filosofia Cristã. São Paulo: Vozes, 1991 (adaptado). Filósofos dos diversos tempos históricos desenvolveram teses para explicar a origem do universo, a partir de uma explicação racional. As teses de Anaxímenes, filósofo grego antigo, e de Basílio, filósofo medieval, têm em comum na sua fundamentação teorias que a) eram baseadas nas ciências da natureza. b) refutavam as teorias de filósofos da religião. c) tinham origem nos mitos das civilizações antigas. d) postulavam um princípio originário para o mundo. e) defendiam que Deus é o princípio de todas as coisas. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 5 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) Questão 05 (Enem 2012) Para Platão, o que havia de verdadeiro em Parmênides era que o objeto de conhecimento é um objeto de razão e não de sensação, e era preciso estabelecer uma relação entre objeto racional e objeto sensível ou material que privilegiasse o primeiro em detrimento do segundo. Lenta, mas irresistivelmente, a Doutrina das Ideias formava-se em sua mente. ZINGANO, M. Platão e Aristóteles: o fascínio da filosofia. São Paulo: Odysseus, 2012 (adaptado). O texto faz referência à relação entre razão e sensação, um aspecto essencial da Doutrina das Ideias de Platão (427–346 a.C.). De acordo com o texto, como Platão se situa diante dessa relação? a) Estabelecendo um abismo intransponível entre as duas. b) Privilegiando os sentidos e subordinando o conhecimento a eles. c) Atendo-se à posição de Parmênides de que razão e sensação são inseparáveis. d) Afirmando que a razão é capaz de gerar conhecimento, mas a sensação não. e) Rejeitando a posição de Parmênides de que a sensação é superior à razão. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 6 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO Questão 01 No centro da imagem, o filósofo Platão é retratado apontando para o alto. Esse gesto significa que o conhecimento se encontra em uma instância na qual o homem descobre a a) suspensão do juízo como reveladora da verdade. b) realidade inteligível por meio do método dialético. c) salvação da condição mortal pelo poder de Deus. d) essência das coisas sensíveis no intelecto divino. e) ordem intrínseca ao mundo por meio da sensibilidade. Questão 02 Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros, naturais e não necessários; outros, nem naturais nem necessários, mas nascidos de vã opinião. Os desejos que não nos trazem dor se não satisfeitos não são necessários, mas o seu impulso pode ser facilmente desfeito, quando é difícil obter sua satisfação ou parecem geradores de dano. EPICURO DE SAMOS. “Doutrinas principais”. In: SANSON, V. F. Textos de filosofia. Rio de Janeiro: Eduff, 1974. No fragmento da obra filosófica de Epicuro, o homem tem como fim a) alcançar o prazer moderado e a felicidade. b) valorizar os deveres e as obrigações sociais. c) aceitar o sofrimento e o rigorismo da vida com resignação. d) refletir sobre os valores e as normas dadas pela divindade. e) defender a indiferença e a impossibilidade de se atingir o saber. Questão 03 Tales foi o iniciador da reflexão sobre a physis, pois foi o primeiro filósofo a afirmar a existência de um princípio originário e único, causa de todas as coisas que existem, sustentando que esse princípio de tudo é a água. Tudo se origina a partir dela. Essa proposta é importantíssima [...] podendo com boa dose de razão ser qualificada como a primeira proposta filosófica daquilo que se costuma chamar de começo da formação do universo. REALE, Giovanni. História da filosofia. São Paulo: Loyola, 1990. A passagem do mito à filosofia iniciou-se com os pré-socráticos. O primeiro deles foi Tales de Mileto, que iniciou o estudo da cosmologia. A cosmologia é definida como: a) A investigação racional do agir humano b) A investigação acerca da origem e da ordem do mundo c) O estudo do belo na arte d) O estudo do estado civil e natural e seu ordenamento jurídico Questão 04 “Há, porém, algo de fundamentalmente novo na maneira como os Gregos puseram a serviço do seu problema último – da origem e essência das coisas – as observações empíricas que receberam do Oriente e enriqueceram com as suas próprias, bem como no modo de submeter ao pensamento teórico e casual o reino dos mitos, fundado na observação das realidades aparentes do mundo sensível: os mitos sobre o nascimento do mundo.” Fonte: JAEGER, W. Paideia. Tradução de Artur M. Parreira. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 197. Com base no texto e nos conhecimentos sobre a relação entre mito e filosofia na Grécia, é correto afirmar: a) Em que pese ser considerada como criação dos gregos, a filosofia se origina no Oriente sob o influxo da religião e apenas posteriormente chega à Grécia. b) A filosofia representa uma ruptura radical em relação aos mitos, representando uma nova forma de pensamento plenamente racional desde as suas origens. c) Apesar de ser pensamento racional, a filosofia se desvincula dos mitos de forma gradual. d) Filosofia e mito sempre mantiveram uma relação de interdependência, uma vez que o pensamento filosófico necessita do mito para se expressar. e) O mito já era filosofia, uma vez que buscava respostas para problemas que até hoje são objeto da pesquisa filosófica. Questão 05 A relação entre mito e logos pode ser ilustrada a partir do seguinte fragmento do poema Sobre a Natureza de Parmênides. “E a deusa me acolheu benévola, e na sua a minha mão direita tomou, e assim dizia e me interpelava: ó jovem, companheiro de aurigas imortais, tu que assim conduzido chegas à nossa morada. salve! Pois não foi mau destino que te mandou perlustrar esta via (pois ela está fora da senda dos homens)...” Os Pré -Socráticos. Trad. de José Cavalcante de Souza. 1ª ed. São Paulo: Abril Cultural. 1973, p. 147. (Os Pensadores) Após ler o fragmento, analise a reIação mito- logos nas origens da filosofia. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 7 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA Questão 01: Resolução: Resposta: Alternativa B Questão 02: Resolução: Resposta: Alternativa A Questão 03: Resolução: Resposta: Alternativa B Questão 04: Resolução: . Resposta: Alternativa C Questão 05: Resolução: A filosofia é um produto grego e está relacionada com uma determinada estrutura social, econômica e cultural do período. Nessa estrutura, o mito possui um papel fundamental como estruturante da cultura simbólica daquele povo. A filosofia nasce a partir de problemas que antes eram resolvidos segundo o pensamento mitológico. Longe de ser uma ruptura radical, o distanciamento da filosofia em relação aos mitos se dá de maneira gradual. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE FILOSOFIA Prof. Márcio Michiles SUJEITO E OBJETO DO OCNHECIMENTO Introdução Nós temos a forte impressão que o real existe fora de nós, que o mundo é tal como o vemos, mas na verdade a realidade não existe como algo externo ao indivíduo.A realidade é um dado interno. Não sabemos como o mundo é na verdade. Nossa percepção não o percebe como ele é em si mesmo. Nós só conseguimos perceber a realidade de forma coerente e coesa porque os estímulos do mundo externo são transformados por nossos sentidos. Desse modo, transformamos vibrações em sons, reações químicas em cheiros, fótons em imagens, ondas eletromagnéticas em cores. O mundo em si não tem cheiro, cor, sabor, sons ou uma forma definida. Não podemos dizer que o céu é azul, uma vez chamamos de azul certas ondas eletromagnéticas que, ao serem captadas pelos olhos, são transmitidas pelos nervos ópticos causando a impressão de azul em nosso cérebro. O aparelho visual humano percebem radiações eletromagnéticas dentro de um espectro de comprimento de onda que vai de aproximadamente 380 nanômetros até 780 nanômetros. Contudo, é necessário que essas ondas sejam captadas por nossa retina e sejam transformadas por nosso cérebro em um estímulo mental, que chamamos cor.Da mesma forma, sentimos o doce, o amargo, o azedo, o ácido, por causa das papilas gustativas, que são receptores do paladar da língua, produzindo a partir das propriedades químicas do objeto um estímulo mental, que chamamos sabor. Não podemos dizer, também, que o mundo que nos cerca produz sons. O que existe são ondas que se propagam no ar. Para que essas ondas sejam transformadas em sons é necessário que tenham sido captadas por nossos ouvidos e sejam transformadas em um estímulo mental, que denominamos som. Hoje, já podemos responder uma velha pergunta filosófica: há som quando uma árvore desaba numa floresta, se não tiver alguém para ouvir? É claro que não, uma vez que a queda da árvore produz ondas no ar, mas essas ondas só produzem sons se forem captadas por um ser vivo que possa transformá-las em estímulos sonoros. Essas questões sobre a percepção do real nos remetem a um velho problema da filosofia: a relação entre sujeito e objeto. Há três vertentes que procuram esclarecer essa relação: o realismo, o idealismo e o criticismo kantiano. Em cada uma delas há um modo peculiar de compreender a realidade. A primeira vertente, o realismo, se refere ao primado do objeto. O ponto de partida para o conhecimento são as coisas, tal como elas se encontram no mundo. A representação que fazemos do real depende dos objetos. O conhecimento se estabelece como adequação. Os nossos conceitos e ideias se adequam as coisas. Dessa forma, o mundo é tal como o vemos e percebemos. A palavra latina que designa coisas é res. Esta resposta primordial, e até diria primitiva, natural, leva na história da metafísica o nome de realismo, da palavra latina res. À pergunta: quem existe? Responde o homem naturalmente: existem as coisas – res – e esta resposta é o fundo essencial do realismo metafísico” (Morente, 1980). Para o realismo, o mundo possui uma inteligibilidade que pode ser compreendida pela razão. A partir da reflexão podemos formar conceitos ou noções das coisas, procurando conhecer suas estruturas. Assim, o conhecimento reflete na mente a realidade. Essa é uma posição ingênua, uma vez que acreditamos naquilo que percebemos por nossos sentidos. Acreditamos na percepção humana como uma instância capaz de captar as estruturas da realidade como elas são em si mesmas. É como se os nossos sentidos fossem o espelho do mundo. Percebemos um mundo acabado, pronto, estável, com uma estrutura determinada, que pode ser compreendida pela razão. Toda filosofia até o século XVI foi realista, uma vez que todo conhecimento tinha como postulado a existência das coisas. Do mesmo modo, o senso comum é realista, pois acredita na existência das coisas como elas são em si mesmas. Muitos séculos demorou até que a humanidade mudasse seu modo de pensar. Foi somente no mundo moderno que a filosofia começou a estudar os modos ou as estruturas subjetivas do conhecimento. Foi a partir daí que surgiu um novo modo de conhecer e pensar a realidade: o idealismo. A segunda vertente surge no mundo moderno. Ao contrário do realismo, o idealismo se refere ao primado do sujeito. O sujeito surge para a filosofia moderna como um ser pronto e acabado, que contém em si certas estruturas fixas. É a partir dessas estruturas que podemos conhecer o real. O real, nesse sentido, é determinado pelas estruturas que subjaz no indivíduo. O real somente se constitui a partir do eu. Ao contrário do realismo, “o idealismo considerará, preferentemente, o conhecimento como uma atividade que vai do sujeito às coisas, como uma atividade elaboradora de conceitos, ao final de cuja elaboração surge a realidade das coisas” (Morente, 1980, p.68). Desse modo, o conhecimento não é mais determinado pelo objeto, mas pelo sujeito. A capacidade de conhecer depende da subjetividade do indivíduo, do “eu penso”. O maior representante do idealismo foi o filósofo francês René Descartes (1596-1650). Foi ele que tornou a subjetividade o fundamento do sujeito do conhecimento. Em seu livro, “Discurso do método”, ao duvidar de toda a realidade e de todo saber produzido em sua época, ele partiu em busca de um axioma que pudesse servir de fundamento a todo conhecimento, uma verdade primeira indubitável. A partir da dúvida Descartes chegou a uma verdade certa e segura, ao “eu penso”: “cogito ergo sum”. Se duvido, eu penso; se penso, eu existo. A partir dessa verdade ele deduz a realidade do eu e do mundo. Em seu ponto de vista, o ser humano já nasce com certos conhecimentos universais e necessários capazes de conhecer a realidade. Esses conhecimentos já estão no indivíduo. Por exemplo, sabemos que todo triângulo têm três lados ou que duas paralelas são equidistante intuitivamente, não precisamos demonstrar VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 2 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) empiricamente essas verdades, uma vez que elas são inatas. Sem esses conhecimentos ou princípios a priori seria impossível conhecer a realidade. O eu cartesiano é puro pensamento (res cogitans). O pensamento é o lugar da verdade, é o puro intelecto, pois é por meio dele que adquirimos as idéias claras e distintas. É esse puro intelecto que se torna o núcleo do conhecimento. A terceira vertente, o criticismo kantiano, vai buscar um meio termo entre o realismo e o idealismo. Chama-se criticismo, porque o filósofo alemão Emmanuel Kant fez uma crítica da razão, traçando os limites daquilo que podemos conhecer. Em sua opinião, o conhecimento se dá como relação entre o sujeito e o objeto, entre um ser cognoscente e um objeto cognoscível. É dessa relação que surge o conhecimento. O conhecimento é uma síntese entre o objetivo e o subjetivo. Para Kant, todo nosso conhecimento começa na experiência, mas nem todo ele provém da experiência. O real não é algo externo ao indivíduo, mas este o produz no interior de si mesmo. Somos nós que através de certas faculdades a priori, estabelecidos independentes da experiência, organizamos e damos sentido e coerência ao real. A razão seria essa capacidade que o ser humano tem, partindo de princípios a priori, representar e conhecer o mundo. Desse modo, o conhecimento só lida com fenômenos. O mundo aparece como representação para o sujeito que o conhece. Conhecer é o ato pelo qual o pensamento apreende o objeto ou o torna presente, esforçando-se para formar uma representação que exprime perfeitamente este objeto. Na teoria kantiana, para conhecer é preciso se distinguir a matéria, isto é, o objeto; e a forma, ou seja, a maneira pela qual conhecemos o objeto. A matéria é aquilo que no fenômeno corresponde à sensação. Já a forma do fenômeno é aquilo que faz com que a diversidade do fenômeno seja ordenada na intuição, através de certas relações. Há duas formas, portanto,a priori do conhecimento: a sensibilidade e o entendimento. A sensibilidade é a capacidade de receber representações graças à maneira pela qual somos afetados pelos objetos. É mediante a sensibilidade que os objetos nos são dados, só ela nos fornece intuições. A intuição é aquilo que se torna consciente de maneira imediata. Quando imaginamos, por exemplo, um objeto qualquer em nossa mente. Quando alguém nos diz cadeira, intuímos de forma imediata em nossa mente. A sensibilidade intui os objetos pela percepção dos sentidos, organizando o material sensível em uma relação espaço-temporal. Tempo e espaço são formas a priori do sentir, que organizam as intuições que temos da realidade. O tempo e o espaço não existem fora do sujeito, são categorias que não pertencem à realidade, mas fazem parte da interioridade do sujeito. Para Newton, tempo e espaço são entes reais absolutos. Para Leibniz, são apenas determinações ou relações das coisas em si mesmas. Já para Kant, são determinações ou relações inerentes apenas à forma da intuição. Espaço e tempo não são propriedades das coisas e nem se originam da observação do mundo exterior. Pelo contrário, aquilo que entendemos como realidade pressupõe o espaço e o tempo. Por sua vez, para que haja o conhecimento é necessário também o entendimento, ou seja, a faculdade que sintetiza em conceitos as intuições da sensibilidade. A causalidade, a unidade, a forma, e a relação, que percebemos nas coisas, não são atributos delas, mas são atributos da nosso entendimento. O entendimento possui as formas de relacionar as coisas como causa e efeito, substância, atributo, unidade, pluralidade. Essas formas são os predicados de toda experiência possível. É o entendimento que produz esse mundo organizado que representamos o em nossa mente. Assim, percebemos um mundo organizado, estritamente conexo, segundo a ordem causal. Em outras palavras, só podemos ter a experiência do real pela conjugação da sensibilidade (que nos dá os objetos) e do entendimento (que pensa esses objetos). É assim que surge a representação da realidade em nossa mente. Com o criticismo kantiano o problema do sujeito e objeto chega a um impasse, pois não podemos conhecer de forma absoluta a realidade em si mesma. Não podemos conhecer o mundo a nossa volta, uma vez que o real é produzido pelo sujeito que conhece. O mundo surge como representação, como fenômeno. Saber o que é a realidade em si não é mais possível. O Modelo Empirista Descartes teve suas ideias rebatidas imediatamente por Thomas Hobbes (1588-1679) que, através de padre Marin Mersenne (1588-1648), encaminhou as dúvidas que fazem parte da obra cartesiana Objeções e Respostas (1641). Em seguida, os chamados empiristas ingleses, John Locke, George Berkeley (1685-1753) e David Hume, formularam ideias opostas às de Descartes. Locke criticou a existência de ideias inatas, argumentando que apenas a experiência seria a única fonte de conhecimento possível. No seu Ensaio acerca do Entendimento Humano (1690), a mente foi descrita como algo semelhante a um papel em branco a ser preenchido com o conhecimento adquirido pela experiência -a famosa tábula rasa. A partir da percepção e sensação das coisas, as ideias poderiam ser desenvolvidas em progressão, das primárias às secundárias, das simples às complexas, de modo que fosse possível se associar umas com as outras. O ser pensante era capaz de produzir abstrações e generalizações com a interação dessas ideias extraídas da experiência Ao contrário de Locke, Berkeley tentou mostrar que a ideia de uma substância material só era passível de entendimento por causa da existência de um ser percipiente. Toda confusão em torno das ideias surgia por causa da incompreensão da condição dos seres sensíveis, cuja concepção dependia necessariamente da percepção do sujeito. Isto é, tais seres substratos só poderiam ser entendidos como aqueles que são percebidos e que para existirem precisariam de um espírito que os percebessem. A mente que percebe e experimenta é a única que torna possível o conhecimento das sensações e das ideias. Todo equívoco envolvendo essa concepção se daria por conta da linguagem; do abuso das palavras que das ideias particulares visam encontrar ideias gerais abstratas. Para Berkeley, nem todos nomes VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 3 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) significam ideias. A propriedade de uma coisa particular não permitiria a conclusão de que tal atributo compusesse a uma outra coisa com o mesmo nome em todos aspectos diferente. Por exemplo, da soma interna dos ângulos de um triângulo ser 180°, não se conclui que um isósceles seja igual ao triângulo retângulo ou escaleno . Portanto, a ideia que se tem de uma coisa não poderia ser separada de sua percepção, uma ideia abstrata jamais surgiria de uma particular. Sob outro aspecto, em vez de atacar inicialmente o modo de conceber as ideias, Hume criticou a noção de causalidade vinculada entre dois eventos que costumeiramente se sucedem um ao outro. Como é sabido, ele demonstrou não haver motivos fortes para se construir uma relação necessária entre eventos particulares que periodicamente ocorreram no passado e sua generalização para eventos semelhantes no presente e no futuro. Somente o hábito justificaria a correlação feita entre dois acontecimentos em tempos sucessivos, mas distintos um do outro. A racionalidade, portanto, não poderia ser ancorada nessa aparente regularidade dos fenômenos naturais. Nesse sentido, a mente humana, concebida por Hume, resume-se à capacidade de combinar, transpor, aumentar ou diminuir os dados fornecidos através dos sentidos, pela experiência. Sem supor o agenciamento de uma entidade incorporada, “todos os materiais do pensamento -dizia Hume- derivam da sensação interna ou externa; só a mistura e composição destas dependem da mente e da vontade” . Apenas três princípios seriam suficientes para a conexão entre as ideias: semelhança, contiguidade e causação. E todas as operações da alma seriam geradas pelo hábito como um instinto natural . Todas essas objeções empíricas abrangiam questões quanto à natureza da experiência sensorial, a classificação dos objetos, o papel da linguagem e o estatuto do ser consciente. Tais questões ainda são comuns a ciência cognitiva em seu estágio inicial . A Síntese Fundacional de Kant Quando Kant se pôs a escrever sua Crítica da Razão Pura (1781), ele se encontrava diante dessas duas correntes filosóficas. A primeira, idealista, defendida pelo cartesianos e pelo filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) que rebatia Locke dizendo que não havia nada na mente humana que não tivesse passado pelos sentidos, a não ser o próprio intelecto e suas paixões . Segundo essa tendência, o pensamento em geral poderia organizar e revelar todas as possibilidades de conhecimento. Os empiristas constituíam o segundo ponto de vista pelo qual o pensamento era apenas o instrumento de reflexão ou elaboração da experiência física. Para eles, as afirmações e provas a priori dos princípios universais da razão pura não passavam de tautologias que nada acrescentavam ao entendimento da mente e do mundo. Ao invés de comprometer-se com uma dessas duas correntes, Kant tentou, então, estabelecer os limites das posições empiristas e racionalistas, propondo uma interpretação crítica da razão. A postulação de um juízo sintético a priori reconhecia que o conhecimento tinha como fonte a experiência, sendo portanto sintético, mas sua necessidade era estabelecida a priori pela razão especulativa. Kant, tal como Descartes, concebia a mente como uma entidade ativa do entendimento -o eu transcendental- capaz de moldar e organizar as sensações e asideias, transformando a aparente desordem da experiência num pensamento estruturado. Embora não fosse apta a conhecer a si mesmo, dada as limitações da razão em conhecer coisas em si, o eu transcendental seria capaz de obter o conhecimento possível da experiência, como fenômeno. Através dos conceitos puros da sensibilidade -espaço e tempo- a mente poderia construir afirmações verdadeiras sobre o mundo. Portanto, o conhecimento proviria da experiência sensorial dos fenômenos naturais e seriam organizados segundo categorias do pensamento -quantidade, qualidade, relação e modalidade. Como tais, os conceitos sensíveis puros não seriam construídos por imagens dos objetos, mas por esquemas transcendentais produzidos pela imaginação sem recorrer à intuição singular. O esquema nada mais seria do que uma representação geral de um conceito criada como figura pela imagina. No jargão da ciência cognitiva, os esquemas funcionariam como “representações mentais”, sendo uma interpretação intelectual da experiência sensorial. Pode-se entender, assim, esses esquemas como uma maneira de relacionar as representações com o mundo físico e a estrutura inata da mente. Contudo, ao apontar as limitações do conhecimento, Kant condenou a possibilidade de uma psicologia empírica fornecer algum resultado válido, pois a mente jamais poderia conhecer-se a si mesma, devido a impossibilidade dela realizar experiência espaciais e temporais sobre si. Por conta disso, durante os anos que se seguiram, a psicologia cognitiva teve de enfrentar mais este obstáculo posto por Kant VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 4 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM Questão 01 (Enem PPL 2012) Assentado, portanto, que a Escritura, em muitas passagens, não apenas admite, mas necessita de exposições diferentes do significado aparente das palavras, parece-me que, nas discussões naturais, deveria ser deixada em último lugar. GALILEI, G. Carta a Benedetto Castelli. In: Ciência e fé: cartas de Galileu sobre o acordo do sistema copernicano com a Bíblia. São Paulo: Unesp, 2009. (adaptado) O texto, extraído da carta escrita por Galileu (1564-1642) cerca de trinta anos antes de sua condenação pelo Tribunal do Santo Oficio, discute a relação entre ciência e fé, problemática cara no século XVII. A declaração de Galileu defende que a) a bíblia, por registrar literalmente a palavra divina, apresenta a verdade dos fatos naturais, tornando-se guia para a ciência. b) o significado aparente daquilo que é lido acerca da natureza na bíblia constitui uma referência primeira. c) as diferentes exposições quanto ao significado das palavras bíblicas devem evitar confrontos com os dogmas da Igreja. d) a bíblia deve receber uma interpretação literal porque, desse modo, não será desviada a verdade natural. e) os intérpretes precisam propor, para as passagens bíblicas, sentidos que ultrapassem o significado imediato das palavras. Questão 02 (Enem 2013) TEXTO I Há já de algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui duvidoso e incerto. Era necessário tentar seriamente, uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente a fim de estabelecer um saber firme e inabalável. DESCARTES, R. Meditações concernentes à Primeira Filosofia. São Paulo: Abril Cultural, 1973 (adaptado). TEXTO II É de caráter radical do que se procura que exige a radicalização do próprio processo de busca. Se todo o espaço for ocupado pela dúvida, qualquer certeza que aparecer a partir daí terá sido de alguma forma gerada pela própria dúvida, e não será seguramente nenhuma daquelas que foram anteriormente varridas por essa mesma dúvida. SILVA, F. L. Descartes: a metafísica da modernidade. São Paulo: Moderna, 2001 (adaptado). A exposição e a análise do projeto cartesiano indicam que, para viabilizar a reconstrução radical do conhecimento, deve-se a) retomar o método da tradição para edificar a ciência com legitimidade. b) questionar de forma ampla e profunda as antigas ideias e concepções. c) investigar os conteúdos da consciência dos homens menos esclarecidos. d) buscar uma via para eliminar da memória saberes antigos e ultrapassados. e) encontrar ideias e pensamentos evidentes que dispensam ser questionados. Questão 03 (Enem 2013) Até hoje admitia-se que nosso conhecimento se devia regular pelos objetos; porém todas as tentativas para descobrir, mediante conceitos, algo que ampliasse nosso conhecimento, malogravam- se com esse pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento. KANT, I. Crítica da razão pura. Lisboa: Calouste-Gulbenkian, 1994 (adaptado). O trecho em questão é uma referência ao que ficou conhecido como revolução copernicana na filosofia. Nele, confrontam-se duas posições filosóficas que a) assumem pontos de vista opostos acerca da natureza do conhecimento. b) defendem que o conhecimento é impossível, restando-nos somente o ceticismo. c) revelam a relação de interdependência entre os dados da experiência e a reflexão filosófica. d) apostam, no que diz respeito às tarefas da filosofia, na primazia das ideias em relação aos objetos. e) refutam-se mutuamente quanto à natureza do nosso conhecimento e são ambas recusadas por Kant. Questão 04 (Uel 2015) Leia o texto a seguir. É pois manifesto que a ciência a adquirir é a das causas primeiras (pois dizemos que conhecemos cada coisa somente quando julgamos conhecer a sua primeira causa); ora, causa diz-se em quatro sentidos: no primeiro, entendemos por causa a substância e a essência (o “porquê” reconduz-se pois à noção última, e o primeiro “porquê” é causa e princípio); a segunda causa é a matéria e o sujeito; a terceira é a de onde vem o início do movimento; a quarta causa, que se opõe à precedente, é o “fim para que” e o bem (porque este é, com efeito, o fim de toda a geração e movimento). Adaptado de: ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. De Vincenzo Cocco. São Paulo: Abril S. A. Cultural, 1984. p.16. (Coleção Os Pensadores.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema, assinale a alternativa que indica, corretamente, a ordem em que Aristóteles apresentou as causas primeiras. a) Causa final, causa eficiente, causa material e causa formal. b) Causa formal, causa material, causa final e causa eficiente. c) Causa formal, causa material, causa eficiente e causa final. d) Causa material, causa formal, causa eficiente e causa final. e) Causa material, causa formal, causa final e causa eficiente. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 5 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) Questão 05 (Ufu 2012) O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem como incompatíveis entre si [...]. HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito. Petrópolis: Vozes, 1988. Com base em seus conhecimentos e na leitura do texto acima, assinale a alternativa correta segundo a filosofia de Hegel. a) A essência do real é a contradição sem interrupção ou o choque permanente dos contrários. b) As contradições são momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários.c) O universo social é o dos conflitos e das guerras sem fim, não havendo, por isso, a possibilidade de uma vida ética. d) Hegel combateu a concepção cristã da história ao destituí-la de qualquer finalidade benevolente. EXERCÍCIOS DE FICAÇÃO Questão 01 (Unesp 2015) IHU On-Line – A medicalização de condutas classificadas como “anormais” se estendeu a praticamente todos os domínios de nossa existência. A quem interessa a medicalização da vida? Sandra Caponi – A muitas pessoas. Em primeiro lugar ao saber médico, aos psiquiatras, mas também aos médicos gerais e especialistas. Interessa muito especialmente aos laboratórios farmacêuticos que, desse modo, podem vender seus medicamentos e ampliar o mercado de consumidores de psicofármacos de modo quase indefinido. Porém, esse interesse seria irrelevante se não existisse uma demanda social que aceita e até solicita que uma ampla variedade de comportamentos cotidianos ingresse no domínio do patológico. Um exemplo bastante óbvio é a escola. Crianças com problemas de comportamento mais ou menos sérios hoje recebem rapidamente um diagnóstico psiquiátrico. São medicadas, respondem à medicação e atingem o objetivo social procurado. Essas crianças que tomam ritalina ou antipsicóticos ficam mais calmas, mais sossegadas, concentradas e, ao mesmo tempo, mais tristes e isoladas. www.ihuonline.unisinos.br. Adaptado. Podemos considerar como uma importante implicação filosófica da medicalização da vida a) a incorporação do conhecimento científico como meio de valorização da autonomia emocional e intelectual. b) a institucionalização de procedimentos de análise e de cura psiquiátrica absolutamente objetivos e eficientes. c) a proliferação social de conhecimentos e procedimentos médicos que pressupõem a patologização da vida cotidiana. d) a contribuição eticamente positiva da psiquiatrização do comportamento infantil e juvenil na esfera pedagógica. e) o caráter neutro do progresso científico em relação a condicionamentos materiais e a demandas sociais. Questão 02 (Ueg 2013) A ciência desconfia da veracidade de nossas certezas, de nossa adesão imediata às coisas, da ausência de crítica e da falta de curiosidade. Por isso, onde vemos coisas, fatos e acontecimentos, a atitude científica vê problemas e obstáculos, aparências que precisam ser explicadas. CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2003. p. 218. Com base na afirmação precedente pode-se afirmar que: a) a ciência, ao contrário do senso comum, é um conhecimento objetivo, quantitativo e generalizador, que se opõe ao caráter dogmático e subjetivo do senso comum. b) a ciência domina o imaginário contemporâneo. Isso significa que, cada vez mais, confiamos no testemunho de nossos sentidos que promovem uma adesão acrítica à realidade dada. c) a ciência existe para confirmar nossas certezas cotidianas, utilizando um pensamento assistemático que despreza o trabalho da razão. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 6 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) d) a rigor, a ciência complementa o senso comum, mas banindo os obstáculos e problemas observados por nossa percepção imediata das coisas. Questão 03 (Unb 2012) O emplasto Um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se- me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cambalhotas. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te. Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas e, enfim, nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória. Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem e, consequentemente, a sua mais genuína feição. Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto. Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Obra completa, v. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992, p. 514-5 (com adaptações). A frase “Decifra-me ou devoro-te” remete ao enigma da esfinge, consagrado na tragédia grega Édipo Rei, de Sófocles. A formulação de um enigma envolve jogos de palavras e associações semânticas ambíguas e paradoxais, que parecem conduzir a respostas impossíveis ou absurdas. A decifração de um enigma está associada, portanto, a grande capacidade de raciocínio e de reflexão e, não menos, a domínio das palavras e da língua. Assim, quem decifra um enigma será considerado um ser superior, de saber excepcional, cujas palavras serão respeitadas e seguidas. Com relação às questões envolvidas na decifração de um enigma e ao tema a que o texto de Machado de Assis se reporta, assinale a opção correta. a) A resolução, pelo narrador, da situação enigmática demandou o processo de uma ideia em evolução e, assim, a resposta, ou seja, a invenção do emplasto Brás Cubas, não encerra ambiguidade nem paradoxo, ao contrário do que ocorre com os demais enigmas. b) O poder intelectual do narrador evidencia-se em ações de relevância humanitária, o que, como enfatiza o próprio narrador, alcança reconhecimento em instâncias de representação política. c) A reação do narrador a comentários dos tios sinaliza que o embate entre tipos e âmbitos de poder é resolvido pelo saber. d) O episódio da resolução do enigma evoca um momento vitorioso de Brás Cubas no que se refere à sua capacidade de admitir sentimentos passionais por meio de argumentação racional. Questão 04 ANALISE A PERCEPÇÃO DA FILOSOFIA DUALISTA E O METODO CARTESIANO DE DESCARTES. Questão 05 COMO IMMANUEL KANT DESENVOLVEU SUA PERCEPÇAO DE CONHECIMENTO E SUA NOÇAO DE JUÍZO DE RAZAO VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 7 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA Questão 01: Resolução: Resposta: Alternativa C Questão 02: Resolução: Resposta: Alternativa A Questão 03: Resolução: Resposta: Alternativa C Questão 04: Resolução: Como exemplo da radicalidade indicada pelo prof. Franklin Leopoldo e Silva, vale mencionar que Descartes inicia a segunda meditação com a metáfora de um homem submerso, ele diz: “a meditação que fiz ontem encheu-me de tantas dúvidas, que doravante não está mais em meu alcance esquecê-las. E, no entanto, não vejo de que maneira poderia resolvê-las; e, como se de súbito tivesse caído em águas muito profundas, estou de tal modo surpreso que não posso nem firmarmeus pés no fundo, nem nadar para me manter à tona”. Essa metáfora expõe um homem de mãos atadas; voltar para a situação anterior é impossível, porém manter-se no meio do caminho também. A única opção é manter-se trilhando o caminho da dúvida sistemática e generalizada, esperando desse modo alcançar algum ponto firme o suficiente para ser possível apoiar os pés, e nadar de volta para a superfície. Mantendo-se nesse caminho, o filósofo busca o ponto que irá inaugurar uma cadeia de razões da qual ele não poderá duvidar. O chão desse mar no qual o filósofo está submerso é esta única coisa da qual ele não pode duvidar, mesmo se o gênio maligno estiver operando. Tal certeza radical é a certeza sobre o fato de que se o gênio maligno perverte meus pensamentos, ele nunca poderia perverter o próprio fato de que eu devo estar pensando para que ele me engane. Penso, existo é a nova raiz que nutre a modernidade. Questão 05: Resolução: Primeiro, distingamos entre os tipos de juízos que Kant considera sermos capazes de fazer. Eles são três: 1) juízos analíticos (ou aqueles juízos nos quais já no sujeito encontramos o predicado, ou seja, juízos tautológicos e, por conseguinte, dos quais não se obtém nenhum tipo de conhecimento); 2) juízos sintéticos a posteriori (ou aqueles juízos nos quais a experiência sensível está presente e se faz parte decisiva do julgamento, ou seja, juízos particulares e contingentes); e 3) juízos sintéticos a priori (ou aqueles juízos nos quais o predicado não está contido no sujeito e a experiência não constitui alguma parte decisiva do conteúdo, ou seja, juízos nos quais se obtém conhecimento sobre algo, porém sem que a experiência seja relevante para a conclusão obtida, o que faz desse tipo de juízo universal e necessário). Segundo, lembremos que Kant afirmava que a matemática e a física realizam justamente o último tipo de juízo mencionado. Ele, então, se perguntava se a metafísica também não era capaz de realizar esse tipo de juízo. Para solucionar esta questão: “é possível uma metafísica baseada em juízos sintéticos a priori?”, o filósofo irá modificar o ponto de vista da investigação se inspirando em Copérnico, isto é, considerando o objeto não através daquilo que a experiência sensível expõe, porém a partir da possibilidade de a faculdade mesma de conhecer constituir a priori o objeto – o astrônomo fez algo similar quando, em vez de calcular o movimento dos corpos celestes através dos dados da experiência sensível, calculou esses movimentos através da suposição de que o próprio observador (o homem sobre a Terra) se movia. Esse a priori que Kant formula se encontra nas formas da sensibilidade, nas categorias do entendimento e no esquematismo, isto é, na sua filosofia transcendental, ou na sua filosofia sobre as condições de possibilidade do próprio conhecimento. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE FILOSOFIA Prof. Márcio Michiles GÊNERO FILOSÓFICO Gênero: Suas transformações sociais ao longo dos séculos Conceituar gênero é caminhar por uma trilha que ainda está se construindo e tem muito a ver com política e teoria. Nesse sentido, o próprio conceito de gênero foi fruto tanto de discussões políticas quanto teóricas. Normalmente associado ao estudo das relações entre homens e mulheres pelas ciências humanas, ele ajudou a despertar o interesse da historiografia em compreender a multiplicidade de identidades femininas ao longo da história. A definição mas corrente de gênero é a que o considera uma categoria relacional, ou seja, gênero é entendido como estudo das relações sociais entre homens e mulheres, e como essas relações são organizadas em diferentes sociedades, épocas e culturas. Os pesquisadores que utilizam essa categoria de análise fazem questão de frisar que no campo das relações homem e mulher há uma distinção entre a esfera biológica, que é o sexo propriamente dito e suas características físicas, e a esfera social e cultural, que é a identidade do gênero. Assim, não há uma essência masculina ou uma essência feminina imutáveis e determinadas por características biológicas. O que há são construções sociais e culturais que fazem que homens e mulheres sejam educados e socializados para ocupar posições políticas e sociais distintas, normalmente cabendo aos homens as posições hierárquicas mais elevadas, enquanto às mulheres são reservadas as posições menos privilegiadas. Desse modo, o conceito de gênero tem muito a ver com a forma como são percebidas as relações de poder entre homens e mulheres. Segundo ele, as identidades masculina e feminina são construções sociais e culturais que impõem aos sexos condutas, práticas, espaços de poder e anseios diferentes. Tudo isso baseado nas distinções que a própria sociedade constrói para o feminino e o masculino, e não em diferenças naturalmente predeterminadas entre homens e mulheres. Historicamente, o conceito de gênero surgiu para se contrapor a uma visão que enfatizava as diferenças biológicas, ou sexuais, entre homens e mulheres, que acabava naturalizando a dominação masculina. A nova categoria veio enfatizar que a natureza não explica, e muito menos determina, a relação entre os sexos. São os componentes sociais e culturais que interferem mais decisivamente na maneira pela qual os gêneros se relacionam, não havendo papéis fixos para homens e mulheres em nenhuma esfera social. A categoria de gênero tem uma história que se inicia com o movimento feminista, nas décadas de 1960 e 1970. Este, em sua luta política, percebeu que tinha de construir uma História das mulheres, pois só assim explicaria a subordinação feminina e seus mecanismos e divulgaria a resistência e a luta de muitas mulheres no decorrer da história. Construir esse passado era, assim, um ato político fundamental para a afirmação do movimento no presente. Logo, foram as próprias mulheres que levantaram o véu do silêncio na história, pois, até então, o preconceito da historiografia produzida por homens não reconhecia que elas faziam parte da história. Havia, nesse período, uma conexão estreita entre o fazer político e o fazer intelectual. Assim, até os anos 1970, História das mulheres foi um campo majoritariamente feminino, já que os homens marginalizavam seus escritos. Dessa forma, as historiadoras e demais estudiosas, ligadas ao movimento feminista, construíram uma “história feminina” paralela à “história dos homens”. No entanto, com as mudanças que ocorreram no próprio movimento feminista e na concepção de História a partir dos últimos anos da década de 1970, a produção historiográfica ocidental se afastou da política. Esse rompimento conferiu maior legitimidade acadêmica ao saber histórico produzido pelas (e sobre) as mulheres, e agora também por homens. Foi nesse momento que surgiu, na década de 1980, a categoria gênero, elaborada como um termo aparentemente neutro e desvinculado da ideologia feminista que usava a “perigosa” ideia de História das mulheres. A polêmica, no entanto, continua: fazer uma História das mulheres ou uma História de gênero? Historiadores e historiadoras que defendem o uso da categoria gênero afirmam que não há uma identidade única para o que se chama genericamente mulheres, por isso a ideia de gênero auxilia na compreensão da diversidade das condições femininas ao longo da história, sobretudo quando relacionadas aos homens. Ou seja, há muitos tipos de mulheres diferentes ao longo da história, que possuem condições sociais distintas dependendo de numerosos fatores, como a cor da pele, a etnia, a classe, a idade etc., e elas devem ser estudadas em relação aos homens, e não de forma isolada. Os defensores de uma História das mulheres ressaltam, por seu turno, que gênero não explica tudo e não se pode ir logo fazendo umahistória das relações sociais entre homens e mulheres quando ainda se ignora muito da história das próprias mulheres. Há, contudo, posições menos ortodoxas que fazem uso da categoria gênero associada a outras categorias, como raça e classe, pois a desigualdade não se dá apenas entre homens e mulheres, como um bloco homogêneo. Entre as mulheres, há negras, brancas, índias, judias, árabes, mulatas, ricas e pobres, entre muitas outras diferenciações que precisam ser pensadas. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 2 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) O termo gênero não deve ser entendido como sinônimo de mulher/mulheres ou de sexo, uma vez que essa categoria de análise não combina com determinações biológicas. Mas isso não quer dizer que, na prática, as pessoas não acreditem em determinações biológicas. Para essas pessoas, a própria diferenciação física entre homem e mulher já justifica a dominação masculina ou as diferenças sociais entre homens e mulheres. Uma coisa é o conceito, que visa à superação de visões estreitas e estereotipadas em relação às condutas das pessoas, e outra é a forma como, no cotidiano, essas pessoas percebem o corpo. No cotidiano, o comum é as pessoas tomarem as diferenças biológicas como justificativa das diferenças sociais. Ou seja, elas naturalizam as práticas de dominação que sequer são percebidas, exatamente porque aparecem como “evidentes” demais. No entanto, a História não deve ficar restrita aos papéis de gênero, à diferenciação entre a identidade masculina e a feminina, mas perceber que a opressão de gênero pode estar associada a outros tipos de opressão social. Por último, é preciso lembrar que os papéis sociais de gênero são mutáveis, e homens e mulheres podem, ao longo do tempo e dependendo da sociedade em que estão inseridos, apresentar práticas e comportamentos diferenciados. Enfatizando ou não a categoria gênero, atualmente dispomos de vasta produção historiográfica relativa à História das mulheres no Brasil. Marco na ampliação das publicações sobre o tema foi a coletânea organizada em 1997 por Mary Del Priore, intitulada História das mulheres no Brasil. Sexualidade, honra feminina, prostituição, família, trabalho e cotidiano são apenas algumas das faces de instigantes estudos realizados por especialistas nessa área, que compõem a coletânea. Escravas, índias, senhoras, mulheres forras, imigrantes, operárias, escritoras, entre tantas outras, tiveram suas histórias contadas por historiadoras e historiadores que ousaram levantar a poeira dos documentos para abordar essa temática que ajuda a compor um quadro bem mais completo e rico da história do Brasil. Na sala de aula, devemos estar sempre atentos para mostrar que a dominação masculina e a violência de gênero estão baseadas em percepções de gênero desenvolvidas e alimentadas por diversos mecanismos do meio social: pela escola, pela própria família, na vida profissional e assim por diante. Em suma, a dominação de gênero (que pode ter uma face bem sutil e invisível), quase sempre, é incorporada pelas mulheres dominadas, devido à forma como as instituições sociais são constituídas e as imagens que elas transmitem. No meio escolar, devemos nos acautelar para não reproduzirmos preconceitos arraigados em livros didáticos, filmes, músicas e em outras linguagens. É fundamental estimular nas alunas e nos alunos uma conduta de suspeita perante os discursos produzidos nos mais diversos meios de comunicação, analisando, por exemplo, como os filmes e as novelas apresentam as ideias de feminilidade e masculinidade. Alemanha cria “terceiro gênero” para registro de recém- nascidos Atualizado em 20 de agosto, 2013 - 06:07 (Brasília) 09:07 GMT Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130820_a lemanha_terceirosexo_dg.shtml Pais de recém-nascidos hermafroditas na Alemanha podem optar por gênero 'indefinido' A partir de 1º de novembro, a Alemanha oferecerá aos pais três opções para registrar seus filhos: "masculino", "feminino" e "indefinido". A nova lei foi aprovada em maio, mas seu teor só foi divulgado agora. Com isso, a Alemanha passa a ser o primeiro país europeu a oficializar o terceiro gênero. Essa mudança é uma opção para pais de bebês hermafroditas, que nascem fisicamente com ambos os sexos. A nova legislação abre a possibilidade de a criança, ao se tornar adulta, escolher posteriormente se prefere ser definida como homem ou mulher. Ou mesmo seguir com o sexo indefinido pelo resto da vida. Questões indefinidas Na Alemanha, alguns jornais disseram que a mudança é uma "revolução legal". No entanto, a lei não prevê como a escolha do sexo indefinido é refletida em documentos como o passaporte, onde existe apenas escolha entre "M" e "F". A revista alemã de direito familiar FamRZ sugere que a opção de sexo indefinido seja marcada com a letra "X". A nova lei é amparada em uma decisão do tribunal constitucional alemão que estabeleceu que pessoas que se sentem profundamente identificadas com um determinado gênero têm o direito de escolher seu sexo legalmente. Outro assunto ainda a ser definido é matrimônio. A lei alemã só permite atualmente casamentos entre homens e mulheres, o que não contempla pessoas de gêneros indefinidos. http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130820_alemanha_terceirosexo_dg.shtml http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130820_alemanha_terceirosexo_dg.shtml VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 3 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) Poucos países no mundo possuem legislações sobre terceiro sexo. A Austrália aprovou uma lei há seis semanas, mas desde 2011 os australianos já têm o direito de identificar-se com o sexo "X" no passaporte. Na Nova Zelândia, isso é possível desde 2012. O correspondente da BBC na Alemanha, Demian McGuiness, afirma que ainda há outros pontos em aberto. No caso de uma pessoa de sexo indefinido ser presa, em qual presídio ela seria detida? O grupo de direitos de pessoas transgêneros Trangender Europe vê avanços na legislação alemã, mas reivindica mais mudanças. "É [uma mudança] lógica, mas não é uma lei tão progressista como gostaríamos que fosse", disse Richad Köhler, do Transgender Europe. Ele diz que a lei só contempla bebês que tiveram diagnóstico médico de hermafroditismo. A entidade quer que as pessoas possam ter o direito de deixar a opção de gênero em branco, sem precisar se quer se declarar "indefinido". VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 4 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM Questão 01 01 “Em geral, o feminismo veio demonstrar que a opressão tem muitas faces, uma das quais é a opressão das mulheres por via da discriminação sexual. Ao privilegiar a opressão de classe, o marxismo secundarizou e, no fundo, ocultou a opressão sexual e, nessa medida, o seu projeto emancipatório ficou irremediavelmente truncado. [...] Se para as feministas marxistas, a primazia explicativa das classes é admissível desde que seja articulada com o poder e a política sexual, para a maioria das correntes feministas não é possível estabelecer, em geral, a primazia das classes sobre o sexo ou sobre outro fator de poder e de desigualdade e algumas feministas radicais atribuem mesmo a primazia explicativa ao poder sexual.” (SOUZA S., Boaventura. Pela mão de Alice, o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1996. p. 41.) De acordo com o texto, é correto afirmar: a) A teoria marxista das classes, como explicação das relações de gênero, é o fundamento dos movimentosfeministas. b) Ao priorizar a opressão de classe, o marxismo eclipsou a opressão feminina, destituindo-a de sua relevância social. c) As feministas marxistas defendem a primazia do poder sexual sobre a de classes. d) O feminismo radical, ao explicitar a discriminação sexual como forma de opressão, fortaleceu o entendimento marxista da sociedade. e) O projeto emancipatório das feministas teve significativo impulso após a adoção do marxismo enquanto modelo explicativo da opressão feminina. Questão 02 02 Leia o texto a seguir, que remete ao debate sobre questões de gênero. A violência contra a mulher acontece cotidianamente e nem sempre ganha destaque na imprensa, afirmou a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Nilcéa Freire [...]. “Quando surgem casos, principalmente com pessoas famosas, que chegam aos jornais, é que a sociedade efetivamente se dá conta de que aquilo acontece cotidianamente e não sai nos jornais. As mulheres são violentadas, são subjugadas cotidianamente [...]”, afirmou a ministra. [...] “Eliza morreu porque contrariou um homem que achou que lhe deveria impor um castigo. Ela morreu como morrem tantas outras quando rompem relacionamentos violentos”, disse a ministra. (“Violência contra as mulheres é diária”, diz ministra, Agência Brasil, Brasília, 11 jul. 2010.) Com base no texto e nos conhecimentos socioantropológicos sobre o tema, é correto afirmar: a) Questões de gênero são definidas a partir da classe social, razão pela qual são mais presentes nas camadas populares do que entre as elites. b) As identidades sociais masculina e feminina são configuradas a partir de características biológicas imutáveis presentes em cada um. c) As diferenças de gênero são determinadas no terreno econômico, daí o fato de serem produto da sociedade capitalista. d) As experiências socialistas do século XX demonstram que nelas as questões de gênero são resolvidas de modo a estabelecer a igualdade real entre homens e mulheres. e) As relações de gênero são construídas socialmente e favorecem, nas condições históricas atuais, a dominação masculina. Questão 03 — Diga lá, menina, o que é que você quer ser quando crescer? Eu quero ser dona de casa atuante ou mulher de milionário. Dona de casa atuante ou mulher de milionário. (Jorge Ben Jor). Na estrofe da letra de Jorge Ben Jor e na imagem acima, pode-se observar um modelo de socialização da mulher, em que a imitação torna-se um ótimo momento de interação infantil de gênero. Sobre as relações de gênero, é correto afirmar: a) O conceito de gênero se refere às condições de origem psicológicas e biológicas. b) A discussão sobre a violência doméstica não deve entrar em pauta nas discussões sobre gênero. c) A desigualdade entre homens e mulheres é historicamente construída, ou seja, não é uma desigualdade natural. d) A discussão sobre a identidade corporal e a sexualidade feminina não fazem parte das análises sobre questões de gênero. e) A visão feminina é constantemente romântica, e, por isso, deve-se ater ao direito à maternidade, mas não à igualdade de condições no trabalho. Questão 04 As brincadeiras de menino, em geral, envolvem atividades ao ar livre, como bicicleta, pipa ou skate. As meninas brincam de casinha. Isso é comum porque, antigamente, era papel do homem sair de casa para trabalhar, enquanto às mulheres cabiam os cuidados com o lar”, constata a pedagoga Maria Angela Barbato Carneiro, coordenadora do Núcleo de Cultura, Estudos e Pesquisas do Brincar da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. ECHEVERRIA, Malu. Brincadeira não tem sexo: meninos e meninas podem — e devem — brincar do que tiverem vontade. In: Revista Crescer. ed. 139, jun. 2005. [online] Disponível em: <http://super.abril.com.br/ superarquivo/2003/conteudo_275078.shtml>. Acesso em: 29 jan. 2009. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 5 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) Sobre o processo de socialização e as relações de gênero, é correto afirmar: a) O termo “sexo” distingue as diferenças anatômicas, e o termo “gênero”, as diferenças fisiológicas entre homens e mulheres. b) As relações de gênero são universais e não dependem da construção que cada cultura tem em relação às diferenças sexuais. c) O processo de socialização disciplina os corpos quanto aos modos de agir, porém esse aprendizado não interfere nos modos de ser dos sujeitos sociais. d) O gênero é uma construção social que, através de organismos sociais, como a família e a mídia, atribui papéis e identidades sociais a homens e mulheres. e) As brincadeiras de crianças, assim como o modo como se comportam, demonstram que os papéis sociais são definidos antes mesmo do encontro com as instituições sociais. Questão 05 A charge acima, presente nas redes sociais, faz uma brincadeira com a construção dos estereótipos do homem e da mulher perfeitos. Ainda que esses estereótipos não condigam necessariamente com a realidade, a sociologia se interessa por analisá-los porque a) contribuem para a emancipação da mulher. b) estimulam homens e mulheres a tornarem-se cada vez mais perfeitos. c) são extremamente prejudiciais para as crianças, pois as constrangem a fantasiarem um conto de fadas impossível de ser vivido. d) são construídos a partir do olhar científico. e) fazem parte da representação coletiva da sociedade, demonstrando a forma como homens e mulheres se projetam nas relações de gênero. EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO Questão 01 Uma mãe canadense defendeu a decisão tomada por ela e por seu marido de manter em segredo o sexo de seu filho mais novo, para dar à criança a oportunidade de desenvolver a sua identidade sexual por conta própria. A decisão tomada por Kathy Witterick, 38 anos, e David Stocker, 39, de não revelar o gênero de seu bebê Storm, de quatro meses de idade, gerou uma avalanche de reações – positivas e negativas – após reportagem do jornal “Toronto Star”, publicada nesta semana [28.05.2011]. (www.g1.globo.com. Adaptado.) De acordo com o texto, pode-se afirmar que: a) O ponto de vista adotado pela mãe canadense pressupõe a adoção do determinismo biológico no campo da sexualidade. b) O fato descrito pela reportagem revela a influência da fé religiosa nos padrões comportamentais contemporâneos. c) Sob o ponto de vista moral, a decisão tomada pelo casal canadense expressa um perfil conservador. d) O fato em questão revela que, para os pais da criança canadense, identidade sexual é um tema pertencente exclusivamente à esfera da autonomia individual. e) A postura adotada pelos pais da criança em questão revela intolerância no campo das diferenças sexuais. Questão 02 Na obra Grande Sertão: veredas, Guimarães Rosa apresenta dois personagens Riobaldo e Diadorim numa relação inusitada de atração. A trama se desenvolve como uma relação entre pessoas do mesmo sexo. As semelhanças nas aparências escondem, porém, diferenças de origem biológica, porque se trata de uma mulher (Diadorim) que se passa socialmente por homem. Escrita em 1956, essa obra de Guimarães Rosa trata de uma temática extremamente contemporânea, que é a) a superação do conceito de sexo, biologicamente herdado, pelo conceito de transexualidade, como categoria cientificamente possível. b) a superação do conceito de sexo, de natureza biológica, pelo conceito de gênero, de natureza sociocultural. c) a superação do conceito de sexo, de origem natural, pelo conceito de opção sexual, de natureza individual. d) a superação do conceito de sexo, de viés anatômico, pelo conceito de homossexualidade. Questão 03 O conceito de gênero tem como objetivo explicitar que as diferenças entre homens e mulheres não são apenas de ordem física ou biológica.Antes disso, as relações de gênero estão diretamente relacionadas às características atribuídas a cada sexo pela sociedade e sua cultura. Sobre o conceito de gênero, é correto afirmar que a) o conceito de gênero começa a ser utilizado de forma mais ampla no final da década de 1970 por pesquisadoras interessadas em compreender o fenômeno do feminismo e o processo de opressão sofrido pelas mulheres naquele momento histórico. b) os estudos de Margareth Mead sobre a importância da cultura na determinação dos papéis sociais e nos usos e costumes de homens e mulheres pouco contribuíram para o desenvolvimento do conceito. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 6 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) c) os estudos contemporâneos sobre as relações de gênero apresentam uma completa ruptura com as concepções desenvolvidas por Joan Scott a respeito da temática que, em sua teoria, previa uma grande importância para o conceito ao não restringi-lo a história das mulheres. d) em uma sociedade democrática e com uma ampla liberdade sexual o conceito de gênero não é representativo, pois sua sustentação está centrada exclusivamente nos conflitos entre os sexos. e) os estudos realizados por Georg Simmel sobre a história da família e sobre o impacto do dinheiro nas relações entre os sexos demonstram que a organização das estruturas de parentesco não possuem relação com as concepções históricas do conceito de gênero. Questão 04 A construção do masculino e do feminino em uma sociedade, no entanto, varia de acordo não somente com seu conjunto de normas instituídas, mas principalmente por tradições, valores e subjetividades, materializadas pela existência de indicadores que traduzem as desigualdades vivenciadas pela população, apesar dos pactos, tratados e resoluções construídas na direção da promoção de igualdade. BICALHO, P. P. G. et al. Os direitos sexuais e o enfrentamento da violência sexual. Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 24, n.1, 2012, p. 36. A respeito das desigualdades de gênero, assinale a alternativa correta. a) As desigualdades de gênero, no Brasil, são maiores que nos outros países mais desenvolvidos. b) A igualdade entre homens e mulheres existe, uma vez que está presente na Constituição. c) Há diversas instituições, normas e condutas das pessoas que expressam as desigualdades de gênero. d) A população deve ser vista como uma totalidade não fragmentada para que as desigualdades deixem de existir. e) Somente uma ética da tolerância é capaz de estimular condutas da desigualdade. Questão 05 A República Islâmica do Irã abençoa e incentiva operações de troca de sexo, em nome de uma política que considera todo cidadão não heterossexual como espírito nascido no corpo errado. Com ao menos 50 cirurgias por ano, o país é recordista mundial em mudança de sexo, após a Tailândia. Oficialmente, gays não existem no país. Ficou famosa a frase do presidente Mahmoud Ahmadinejad dita a uma plateia de estudantes nos EUA em 2007, de que “não há homossexuais no Irã”. A homossexualidade nem consta da lei. Mas sodomia é passível de execução. […] Uma transexual operada confidenciou um sentimento amplamente compartilhado em silêncio: “Não teria mutilado meu corpo se a sociedade tivesse me aceitado do jeito que eu nasci”. (Samy Adghirny. Operação antigay. Folha de S.Paulo, 13.01.2013.) O incentivo a cirurgias de troca de sexo no Irã é motivado por a) tabus sexuais decorrentes do fundamentalismo religioso hegemônico naquele país. b) critérios de natureza científica que definem o que é uma “sexualidade normal”. c) uma política governamental fundamentada em princípios liberais de cidadania. d) influências ocidentais ocasionadas pelo processo de globalização cultural pela internet. e) pressões exercidas pelos movimentos sociais homossexuais pelo direito à cirurgia. Questão 06 A relação de gênero e um dos temas mais discutidos da sociedade, ao longo do tempo. Analise a questão de gênero e relacione com os conflitos culturais. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 7 CURSO ANUAL DE HISTÓRIA DO BRASIL – (Prof. Márcio Michiles) RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA Questão 01: Resolução: Resposta: Alternativa D Questão 02: Resolução: Resposta: Alternativa B Questão 03: Resolução: Resposta: Alternativa A Questão 04: Resolução: . Resposta: Alternativa C Questão 05: Resolução: Resposta: Alternativa A Questão 06: Resolução: É de consenso nas ciências sociais considerar que o gênero é uma construção social que os indivíduos incorporam desde criança, quando são colocados em contato com as instituições sociais. É nessa socialização que os indivíduos apreendem os papéis sociais que cada gênero deve desempenhar na sociedade. Tais papéis são naturalizados e, assim, as pessoas passam a considerar que é “natural” que o homem vá trabalhar e a mulher fique em casa. Ainda que haja diferenças anatômicas entre homens e mulheres, tais diferenças não são suficientes para explicar as diferenças sociais entre gêneros. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA Prof. Márcio Michiles FILOSOFIA – LINGUAGEM A IMPORTÂNCIA DA LINGUAGEM Na abertura da sua obra Política, Aristóteles afirma que somente o homem é um “animal político”, isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais, escreve Aristóteles, possuem voz (phone) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e, com ela, exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum esses valores é o que torna possível a vida social e política e, dela, somente os homens são capazes. Segue a mesma linha o raciocínio de Rousseau no primeiro capítulo do Ensaio sobre a origem das línguas: A palavra distingue os homens dos animais; a linguagem distingue as nações entre si. Não se sabe de onde é um homem antes que ele tenha falado. Escrevendo sobre a teoria da linguagem, o linguista Hjelmslev afirma que “a linguagem é inseparável do homem, segue-o em todos os seus atos”, sendo “o instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base mais profunda da sociedade humana.” Prosseguindo em sua apreciação sobre a importância da linguagem, Rousseau considera que a linguagem nasce de uma profunda necessidade de comunicação: Desde que um homem foi reconhecido por outro como um ser sensível, pensante e semelhante a si próprio, o desejo e a necessidade de comunicar-lhe seus sentimentos e pensamentos fizeram-no buscar meios para isso. Gestos e vozes, na busca da expressão e da comunicação, fizeram surgir a linguagem. Por seu turno, Hjelmslev afirma que a linguagem é “o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta contra a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador.” A linguagem, diz ele, está sempre à nossa volta, sempre pronta a envolver nossos pensamentos e sentimentos, acompanhando-nos em toda a nossa vida. Ela não é um simples acompanhamento do pensamento, “mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento”, é “o tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de geração a geração”. A linguagem é, assim, a forma propriamente humana da comunicação, da relação com o mundo e com os outros, da vida social e política, do pensamentoe das artes. No entanto, no diálogo Fedro, Platão dizia que a linguagem é um pharmakon. Esta palavra grega, que em português se traduz por poção, possui três sentidos principais: remédio, veneno e cosmético. Ou seja, Platão considerava que a linguagem pode ser um medicamento ou um remédio para o conhecimento, pois, pelo diálogo e pela comunicação, conseguimos descobrir nossa ignorância e aprender com os outros. Pode, porém, ser um veneno quando, pela sedução das palavras, nos faz aceitar, fascinados, o que vimos ou lemos, sem que indaguemos se tais palavras são verdadeiras ou falsas. Enfim, a linguagem pode ser cosmético, maquiagem ou máscara para dissimular ou ocultar a verdade sob as palavras. A linguagem pode ser conhecimento- comunicação, mas também pode ser encantamento-sedução. Essa mesma idéia da linguagem como possibilidade de comunicação-conhecimento e de dissimulação-desconhecimento aparece na Bíblia judaico-cristã, no mito da Torre de Babel [Gn 11.1-9], quando Deus lançou a confusão entre os homens, fazendo com que perdessem a língua comum e passassem a falar línguas diferentes, que impediam uma obra em comum, abrindo as portas para todos os desentendimentos e guerras. A pluralidade das línguas é explicada, na Escritura Sagrada, como punição porque os homens ousaram imaginar que poderiam construir uma torre que alcançasse o céu, isto é, ousaram imaginar que teriam um poder e um lugar semelhante ao da divindade. “Que sejam confundidos”, disse Deus. A FORÇA DA LINGUAGEM Podemos avaliar a força da linguagem tomando como exemplo os mitos e as religiões. A palavra grega mythos, como já vimos, significa narrativa e, portanto, linguagem. Trata-se da palavra que narra a origem dos deuses, do mundo, dos homens, das técnicas (o fogo, a agricultura, a caça, a pesca, o artesanato, a guerra) e da vida do grupo social ou da comunidade. Pronunciados em momentos especiais – os momentos sagrados ou de relação com o sagrado -, os mitos são mais do que uma simples narrativa; são a maneira pela qual, através das palavras, os seres humanos organizam a realidade e a interpretam. O mito tem o poder de fazer com que as coisas sejam tais como são ditas ou pronunciadas. O melhor exemplo dessa força criadora da palavra mítica encontra-se na abertura da Gênese, na Bíblia judaico- cristã, em que Deus cria o mundo do nada, apenas usando a linguagem: “E Deus disse: faça-se!”, e foi feito. Porque Ele disse, foi feito. A palavra divina é criadora. Também vemos a força realizadora ou concretizadora da linguagem nas liturgias religiosas. Por exemplo, na missa cristã, o celebrante, pronunciando as palavras “Este é o meu corpo” e “Este é o meu sangue”, realiza o mistério da Eucaristia, isto é, a encarnação de Deus no pão e no vinho. Também nos rituais indígenas e africanos, os deuses e heróis comparecem e se reúnem aos mortais quando invocados pelas palavras corretas, pronunciadas pelo celebrante. A linguagem tem, assim, um poder encantatório, isto é, uma capacidade para reunir o sagrado e o profano, trazer os deuses e as forças cósmicas para o meio do mundo, ou, como acontece com os místicos em oração, tem o poder de levar os humanos até o interior do sagrado. Eis por que, em quase todas as religiões, existem profetas e oráculos, isto é, pessoas escolhidas pela divindade para transmitir mensagens divinas aos humanos. Esse poder encantatório da linguagem aparece, por exemplo, quando vemos (ou lemos sobre) rituais de feitiçaria: a feiticeira ou o feiticeiro tem a força para fazer coisas acontecerem VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 2 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) pelo simples fato de, em circunstâncias certas, pronunciarem determinadas palavras. É assim que, nas lendas sobre o rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda, os feiticeiros Merlin e Morgana decidem o destino das guerras, pronunciando palavras especiais dotadas de poder. Também nos contos infantis há palavras poderosas (“Abre-te, Sésamo!”, “Shazam!”) e encantatórias (“Abracadabra”). Essa dimensão maravilhosa da linguagem da infância é explorada de maneira belíssima pelo cineasta Federico Fellini no filme Oito e Meio, quando a personagem adulta pronuncia as palavras “Asa Nisa Nasa”, trazendo de volta o passado. As palavras assumem o poder contrário também, isto é, criam tabus. Ou seja, há coisas que não podem ser ditas porque, se forem, não só trazem desgraças, como ainda desgraçam quem as pronunciar. As palavras-tabus existem nos contextos religiosos de várias sociedades (por exemplo, em muitas sociedades não se deve pronunciar a palavra “demônio” ou “diabo”, porque este aparece; em vez disso se diz “o cão”, “o demo”, “o tinhoso”). As palavras-tabus não existem apenas na esfera religiosa, mas também nos brinquedos infantis, quando certas palavras são proibidas a todos os membros do grupo, sob pena de punição para quem as pronunciar. Existem, ainda, palavras-tabus na vida social, sob os efeitos da repressão dos costumes, sobretudo os que se referem a práticas sexuais. Assim, para certos grupos sociais de nossa sociedade e mesmo para nossa sociedade inteira, até os anos 60 do século passado, eram proibidas palavras como puta, homossexual, aborto, amante, masturbação, sexo oral, sexo anal, etc. Tais palavras eram pronunciadas em meios masculinos e em locais privados ou íntimos. Também palavras de cunho político tendem a tornar-se quase tabus: revolucionário, terrorista, guerrilheiro, socialista, comunista, etc. O poder mágico-religioso da palavra aparece ainda num outro contexto: o do direito. Na origem, o direito não era um código de leis referentes à propriedade (de coisas ou bens, do corpo e da consciência), nem referentes à vida política (impostos, constituições, direitos sociais, civis, políticos), mas era um ato solene no qual o juiz pronunciava uma fórmula pela qual duas partes em conflito fariam a paz. O direito era uma linguagem solene de fórmulas conhecidas pelo árbitro e reconhecidas pelas partes em litígio. Era o juramento pronunciado pelo juiz e acatado pelas partes. Donde as expressões “Dou minha palavra” ou “Ele deu sua palavra”, para indicar o juramento feito e a “palavra empenhada” ou “palavra de honra”. É por isso também que, até hoje, nos tribunais, se faz o(a) acusado(a) e as testemunhas responderem à pergunta: “Jura dizer a verdade, somente a verdade, nada além da verdade?”, dizendo: “Juro”. Razão pela qual o perjúrio – dizer o falso, sob juramento de dizer o verdadeiro – é considerado crime gravíssimo. Nas sociedades menos complexas do que a nossa, isto é, nas sociedades que são comunidades, onde todos se conhecem pelo primeiro nome e se encontram todos os dias ou com frequência, a palavra dada e empenhada é suficiente, pois, quando alguém dá sua palavra, dá sua vida, sua consciência, sua honra e assume um compromisso que só poderá ser desfeito com a morte ou com o acordo da outra parte. É por isso que, nos casamentos religiosos, em que os noivos fazem parte da comunidade, basta que digam solenemente ao celebrante “Aceito”, para que o casamento esteja concretizado. Independentemente de acreditarmos ou não em palavras místicas, mágicas, encantatórias ou tabus, o importante é que existam, pois sua existência revela o poder que atribuímos à linguagem. Esse poder decorre do fato de que as palavras são núcleos, sínteses ou feixes de significações, símbolos e valores que determinam o modo como interpretamos as forças divinas, naturais, sociais e políticas e suas relações conosco. A OUTRA DIMENSÃO DA LINGUAGEM Para referir-se à palavra e à linguagem, os gregos possuíam duas palavras: mythos e logos. Diferentemente do mythos,logos é uma síntese de três palavras ou idéias: fala/palavra, pensamento/idéia e realidade/ser. Logos é a palavra racional do conhecimento do real. É discurso (ou seja, argumento e prova), pensamento (ou seja, raciocínio e demonstração) e realidade (ou seja, os nexos e ligações universais e necessários entre os seres). É a palavra-pensamento compartilhada: diálogo; é a palavra-pensamento verdadeira: lógica; é a palavra-pensamento de alguma coisa: o “logia” que colocamos no final de palavras como cosmologia, mitologia, teologia, ontologia, biologia, psicologia, sociologia, antropologia, tecnologia, filologia, farmacologia, etc. Do lado do logos desenvolve-se a linguagem como poder de conhecimento racional e as palavras, agora, são conceitos ou idéias, estando referidas ao pensamento, à razão e à verdade. Essa dupla dimensão da linguagem (como mythos e logos) explica por que, na sociedade ocidental, podemos comunicar-nos e interpretar o mundo sempre em dois registros contrários e opostos: o da palavra solene, mágica, religiosa, artística, e o da palavra leiga, científica, técnica, puramente racional e conceitual. Não por acaso, muitos filósofos das ciências afirmam que uma ciência nasce ou um objeto se torna científico quando uma explicação que era religiosa, mágica, artística, mítica cede lugar a uma explicação conceitual, causal, metódica, demonstrativa, racional. A ORIGEM DA LINGUAGEM Durante muito tempo a Filosofia preocupou-se em definir a origem e as causas da linguagem. Uma primeira divergência sobre o assunto surgiu na Grécia: a linguagem é natural aos homens (existe por natureza) ou é uma convenção social? Se a linguagem for natural, as palavras possuem um sentido próprio e necessário; se for convencional, são decisões consensuais da sociedade e, nesse caso, são arbitrárias, isto é, a sociedade poderia ter escolhido outras palavras para designar as coisas. Essa discussão levou, séculos mais tarde, à seguinte conclusão: a linguagem como capacidade de expressão dos seres humanos é natural, isto é, os humanos nascem com uma aparelhagem física, anatômica, nervosa e cerebral que lhes permite expressarem-se pela palavra; mas as línguas são convencionais, VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 3 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) isto é, surgem de condições históricas, geográficas, econômicas e políticas determinadas, ou, em outros termos, são fatos culturais. Uma vez constituída uma língua, ela se torna uma estrutura ou um sistema dotado de necessidade interna, passando a funcionar como se fosse algo natural, isto é, como algo que possui suas leis e princípios próprios, independentes dos sujeitos falantes que a empregam. Perguntar pela origem da linguagem levou a quatro tipos de respostas: 1. a linguagem nasce por imitação, isto é, os humanos imitam, pela voz, os sons da Natureza (dos animais, dos rios, das cascatas e dos mares, do trovão e do vulcão, dos ventos, etc.). A origem da linguagem seria, portanto, a onomatopéia ou imitação dos sons animais e naturais; 2. a linguagem nasce por imitação dos gestos, isto é, nasce como uma espécie de pantomima ou encenação, na qual o gesto indica um sentido. Pouco a pouco, o gesto passou a ser acompanhado de sons e estes se tornaram gradualmente palavras, substituindo os gestos; 3. a linguagem nasce da necessidade: a fome, a sede, a necessidade de abrigar-se e proteger-se, a necessidade de reunir-se em grupo para defender-se das intempéries, dos animais e de outros homens mais fortes levaram à criação de palavras, formando um vocabulário elementar e rudimentar, que, gradativamente, tornou-se mais complexo e transformou-se numa língua; 4. a linguagem nasce das emoções, particularmente do grito (medo, surpresa ou alegria), do choro (dor, medo, compaixão) e do riso (prazer, bem-estar, felicidade). Citando novamente Rousseau em seu Ensaio sobre a origem das línguas: Não é a fome ou a sede, mas o amor ou o ódio, a piedade, a cólera, que aos primeiros homens lhes arrancaram as primeiras vozes… Eis por que as primeiras línguas foram cantantes e apaixonadas antes de serem simples e metódicas. Assim, a linguagem, nascendo das paixões, foi primeiro linguagem figurada e por isso surgiu como poesia e canto, tornando-se prosa muito depois; e as vogais nasceram antes das consoantes. Assim como a pintura nasceu antes da escrita, assim também os homens primeiro cantaram seus sentimentos e só muito depois exprimiram seus pensamentos. Essas teorias não são excludentes. É muito possível que a linguagem tenha nascido de todas essas fontes ou modos de expressão, e os estudos de Psicologia Genética (isto é, da gênese da percepção, imaginação, memória, linguagem e inteligência nas crianças) mostra que uma criança se vale de todos esses meios para começar a exprimir-se. Uma linguagem se constitui quando passa dos meios de expressão aos de significação, ou quando passa do expressivo ao significativo. Um gesto ou um grito exprimem, por exemplo, medo; palavras, frases e enunciados significam o que é sentir medo, dão conteúdo ao medo. O QUE É A LINGUAGEM? A linguagem é um sistema de signos ou sinais usados para indicar coisas, para a comunicação entre pessoas e para a expressão de idéias, valores e sentimentos. Embora tão simples, essa definição da linguagem esconde problemas complicados com os quais os filósofos têm-se ocupado desde há muito tempo. Essa definição afirma que: 1. a linguagem é um sistema, isto é, uma totalidade estruturada, com princípios e leis próprios, sistema esse que pode ser conhecido; 2. a linguagem é um sistema de sinais ou de signos, isto é, os elementos que formam a totalidade linguística são um tipo especial de objetos, os signos, ou objetos que indicam outros, designam outros ou representam outros. Por exemplo, a fumaça é um signo ou sinal de fogo, a cicatriz é signo ou sinal de uma ferida, manchas na pele de um determinado formato, tamanho e cor são signos de sarampo ou de catapora, etc. No caso da linguagem, os signos são palavras e os componentes das palavras (sons ou letras); 3. a linguagem indica coisas, isto é, os signos linguísticos (as palavras) possuem uma função indicativa ou denotativa, pois como que apontam para as coisas que significam; 4. a linguagem tem uma função comunicativa, isto é, por meio das palavras entramos em relação com os outros, dialogamos, argumentamos, persuadimos, relatamos, discutimos, amamos e odiamos, ensinamos e aprendemos, etc.; 5. a linguagem exprime pensamentos, sentimentos e valores, isto é, possui uma função de conhecimento e de expressão, sendo neste caso conotativa, ou seja, uma mesma palavra pode exprimir sentidos ou significados diferentes, dependendo do sujeito que a emprega, do sujeito que a ouve e lê, das condições ou circunstâncias em que foi empregada ou do contexto em que é usada. Assim, por exemplo, a palavra água, se for usada por um professor numa aula de química, conotará o elemento químico que corresponde à fórmula H2O; se for empregada por um poeta, pode conotar rios, chuvas, lágrimas, mar, líquido, pureza, etc.; se for empregada por uma criança que chora pode estar indicando uma carência ou necessidade como a sede. A definição nos diz, portanto, que a linguagem é um sistema de sinais com função indicativa, comunicativa, expressiva e conotativa. No entanto, essa definição não nos diz várias coisas. Por exemplo, como a fala se forma em nós? Por que a linguagem pode indicar coisas externas e também exprimir idéias (internas ao pensamento)? Por que a linguagem pode ser diferente quando falada pelo cientista, pelo filósofo, pelo poeta ou pelo político? Como a linguagem pode ser fonte de engano, de mal-entendido,de controvérsia ou de mentira? O que se passa exatamente quando dialogamos com alguém? O que é escrever? E ler? Como podemos aprender uma outra língua? Na resposta a várias dessas perguntas, vamos encontrar uma divergência que já encontramos quando estudamos a razão, a verdade, a percepção ou a imaginação, qual seja, a diferença entre empiristas e intelectualistas. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 4 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) EMPIRISTAS E INTELECTUALISTAS DIANTE DA LINGUAGEM Para os empiristas, a linguagem é um conjunto de imagens corporais e mentais formadas por associação e repetição e que constituem imagens verbais (as palavras). As imagens corporais são de dois tipos: motoras e sensoriais. As imagens motoras são as que adquirimos quando aprendemos a articular sons (falar) e letras (escrever), graças a mecanismos anatômicos e fisiológicos. As imagens sensoriais são as que adquirimos quando, graças aos nossos sentidos, à fisiologia de nosso sistema nervoso, sobretudo a de nosso cérebro, aprendemos a ouvir (compreender sons e vozes) e a reconhecer a grafia dos sons (ler). As imagens verbais são aprendidas por associação, em função da freqüência e repetição dos sinais externos que estimulam nossa capacidade motriz e sensorial. A palavra ou imagem verbal é uma síntese de imagens motoras e sensoriais armazenadas em nosso cérebro. O que levou a essa concepção empirista da linguagem foi o estudo médico de “perturbações da linguagem”: a afasia (incapacidade para usar e compreender todas as palavras disponíveis na língua); a agrafia (incapacidade para escrever ou para escrever determinadas palavras); a surdez verbal (ouvir as palavras sem conseguir compreendê-las) e a cegueira verbal (ler sem conseguir entender). Os médicos que estudaram essas perturbações concluíram que estavam relacionadas com lesões no cérebro e que, portanto, a linguagem era um fenômeno físico (anatômico e fisiológico) do qual não temos consciência (desconhecemos suas causas), mas de cujos efeitos temos consciência, isto é, falamos, ouvimos, escrevemos, lemos e compreendemos o sentido das palavras. A linguagem seria uma soma de causas físicas e de efeitos psíquicos cujos átomos ou elementos seriam as imagens verbais associadas. Os intelectualistas, porém, apresentam uma concepção muito diferente desta. Embora aceitem que a possibilidade para falar, ouvir, escrever e ler esteja em nosso corpo (anatomia e fisiologia) afirmam que a capacidade para a linguagem é um fato do pensamento ou de nossa consciência. A linguagem, dizem eles, é apenas a tradução auditiva, oral, gráfica ou visível de nosso pensamento e de nossos sentimentos. A linguagem é um instrumento do pensamento para exprimir conceitos e símbolos, para transmitir e comunicar idéias abstratas e valores. A palavra, dizem eles, é uma representação de um pensamento, de uma idéia ou de valores, sendo produzida pelo sujeito pensante que usa os sons e as letras com essa finalidade. O pensamento puro seria silencioso ou mudo e formaria, para manifestar-se, as palavras. Duas provas poderiam confirmar essa concepção da linguagem: o fato de que o pensamento procura e inventa palavras; e o fato de que podemos aprender outras línguas, porque o sentido de duas palavras diferentes em duas línguas diferentes é o mesmo e tal sentido é a idéia formada pelo pensamento para representar ou indicar as coisas. A grande prova dos intelectualistas contra os empiristas foi a história de Helen Keller. Nascida cega, surda e muda, Helen Keller aprendeu a usar a linguagem sem nunca ter visto as coisas e as palavras, sem nunca ter escutado ou emitido um som. Se a linguagem dependesse exclusivamente de mecanismos e disposições corporais, Helen Keller jamais teria chegado à linguagem. Mas chegou. E chegou quando compreendeu a relação simbólica entre duas expressões diferentes: numa das mãos, sentia correr a água de uma torneira, enquanto a outra mão, na qual segurava uma agulha, guiada por sua professora, ia traçando a palavra água; quando se tornou capaz de compreender que uma mão traduzia o que a outra sentia, tornou-se capaz de usar a linguagem. Assim, a linguagem, longe de ser um mecanismo instintivo e biológico, seria um fato puro da inteligência, uma atividade intelectual simbólica e de compreensão, uma pura tradução de pensamentos. As concepções empirista e intelectualista, apesar de suas divergências, possuem dois pontos em comum: 1. ambas consideram a linguagem como sendo fundamentalmente indicativa ou denotativa, isto é, os signos linguísticos ou as palavras servem apenas para indicar coisas; 2. ambas consideram a linguagem como um instrumento de representação das coisas e das idéias, ou seja, as palavras têm apenas uma função ou um uso instrumental representativo. Esses dois pontos de concordância fazem com que, para as duas correntes filosóficas, os aspectos conotativos ou a função conotativa da linguagem seja considerada algo perturbador e negativo. Em outros termos, o fato de que a comunicação verbal se realize com as palavras assumindo sentidos diferentes, dependendo de quem fala e ouve, escreve e lê, do contexto e das circunstâncias em que as enunciamos, é considerado perturbador porque, afinal, as coisas são sempre o que elas são e as idéias são sempre o que elas são, de modo que as palavras deveriam ter sempre um só e mesmo sentido para indicar claramente as coisas e representar claramente as idéias. Por esse motivo, periodicamente, aparecem na Filosofia correntes filosóficas que se preocupam em “purificar” a linguagem para que ela sirva docilmente às representações conceituais. Tais correntes julgam que a linguagem perfeita para o pensamento é a das ciências e, particularmente, a da matemática e a da física. PURIFICAR A LINGUAGEM Uma dessas correntes filosóficas desenvolveu-se no século passado com o nome de positivismo lógico. Os positivistas lógicos distinguiram duas linguagens: 1. a linguagem natural, isto é, aquela que usamos todos os dias e que é imprecisa, confusa, mescla de elementos afetivos, volitivos, perceptivos e imaginativos; 2. a linguagem lógica, isto é, uma linguagem purificada, formalizada (ou seja, com enunciados sem conteúdo e avaliadores do conteúdo das linguagens científicas e filosóficas), inspirada na matemática e sobretudo na física. Essa linguagem obedecia a princípios e regras lógicas precisas e funcionava por meio de operações chamadas cálculos simbólicos (semelhantes às operações da matemática), que permitiam avaliar com exatidão se um enunciado era verdadeiro ou falso. Dava-se ênfase à sintaxe lógica dos enunciados, que asseguraria a verdade representativa e indicativa da linguagem. A conotação foi afastada. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 5 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) A linguagem lógica era uma metalinguagem, isto é, uma segunda linguagem que falava sobre língua natural e sobre linguagem científica para saber se os enunciados delas eram verdadeiros ou falsos. Assim, por exemplo, na linguagem comum e diária dizemos: “O livro é de autoria de José Antônio Silva” e, na metalinguagem lógica, diremos: “A proposição ‘O livro é de autoria de José Antônio Silva’ é uma proposição verdadeira se e somente se forem preenchidas as condições x, y, z”. No entanto, descobriu-se, pouco a pouco, que havia expressões linguísticas que não possuíam caráter denotativo nem representativo, e, apesar disto, eram verdadeiras. Descobriu-se também que havia inúmeras formas de linguagem que não podiam ser reduzidas aos enunciados lógicos e tipo matemático e físico. Descobriu-se,ainda, que a linguagem usa certas expressões para as quais não existe denotação. Por exemplo, as preposições e as conjunções só têm existência na linguagem e não na realidade. Além disso, descobriu-se que a redução da linguagem ao cálculo simbólico ou lógico despojava de qualquer verdade e de qualquer pretensão ao conhecimento a ontologia, a literatura, a história, bem como várias ciências humanas, isto é, todas as linguagens que são profundamente conotativas, para as quais a multiplicidade de sentido das palavras e das coisas é sua própria razão de ser. CRÍTICA AO EMPIRISMO E AO INTELECTUALISMO As concepções empiristas e intelectualistas também sofreram sérias críticas dos estudiosos da linguagem no campo da psicologia. Os psicólogos Goldstein e Gelb fizeram estudos aprofundados da afasia e descobriram situações curiosas. Por exemplo, ordena-se a um afásico: “Coloque nesta pilha todas as fitas azuis que você encontrar nesta caixa”. O afásico inicia a separação. Ao encontrar uma fita azul-claro ele a coloca na pilha das fitas azuis, conforme lhe foi dito, mas também passa a colocar ali fitas verde-claro, rosa-claro e lilás-claro. Os dois psicólogos observaram, assim, que a palavra azul não formava uma categoria ou uma idéia geral para o afásico e que, portanto, seu problema de linguagem era também um problema de pensamento. No entanto, do ponto de vista cerebral ou anatômico, a parte do cérebro destinada à inteligência estava perfeita, sem nenhuma lesão. Com isso, compreendeu-se que os empiristas estavam enganados e que a linguagem não é um mero conjunto de imagens verbais, mas é inseparável de uma visão mais global da realidade e inseparável do pensamento. Esses estudos, porém, não reforçaram a concepção intelectualista, como poderíamos supor. De fato, basta tentarmos imaginar o que seria um pensamento puro, mudo, silencioso para compreendermos que não seria nada, não pensaria nada. Não pensamos sem palavras, não há pensamento antes e fora da linguagem, as palavras não traduzem pensamentos, mas os envolvem e os englobam. É justamente por isso que a criança aprende a falar e a pensar ao mesmo tempo, pois, para ela, uma coisa se torna conhecida e pensável ao receber um nome. Como escreveu Merleau-Ponty, a linguagem é o corpo do pensamento. A LINGUÍSTICA E A LINGUAGEM Durante o século XIX, o estudo da linguagem ou linguística tinha como preocupação encontrar a origem da linguagem e das línguas, considerando o estado presente ou atual de uma língua como resultado ou efeito de causas situadas no passado. A linguagem era estudada sob duas perspectivas: a da filologia, que buscava a história das palavras pelo estudo das raízes, com o propósito de chegar a uma única língua original, mãe ou matriz de todas as outras; e a da gramática comparada, que estudava comparativamente as línguas existentes com o propósito de encontrar famílias linguísticas e chegar à língua-mãe original. Nesses estudos, retomava-se a discussão sobre o caráter natural ou convencional da linguagem. Também era comum aos filólogos e gramáticos a idéia de que as línguas se transformam no tempo e que as transformações eram causadas por fatores extralinguísticos (migrações, guerras, invasões, mudanças sociais e econômicas, etc.). Tais estudos, porém, viram-se diante de problemas que não conseguiam resolver. Um desses problemas foi o aparecimento do estudo das flexões (tempos verbais, maneira de indicar o plural e o singular, aumentativos e diminutivos, declinações), revelando que as línguas mudavam por razões internas e não por fatores externos. Essa descoberta teve resultados curiosos. Um deles, aparecido na Alemanha, tomava as flexões como prova de que cada povo tem uma língua diferente porque esta exprimiria o caráter ou o espírito do povo. Haveria línguas doces e propícias aos sentimentos profundos (como a alemã); línguas rudes e mais voltadas para a prosa e a guerra (como o latim), etc. Em suma, cada estudioso inventava o “caráter da língua” segundo as fantasias e ideologias de sua nação e dos nacionalismos da época. A partir do século XX, uma nova concepção da linguagem foi elaborada pela linguística e seus pontos principais são: a linguagem é constituída pela distinção entre língua e fala ou palavra: a língua é uma instituição social e um sistema, ou uma estrutura objetiva que existe com suas regras e princípios próprios, enquanto a fala ou palavra é o ato individual de uso da língua, tendo existência subjetiva por ser o modo como os sujeitos falantes se apropriam da língua e a empregam. Assim, por exemplo, temos a língua portuguesa e a palavra ou fala de Camões, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, a sua e a minha; a língua é uma totalidade dotada de sentido no qual o todo confere sentido às partes, isto é, as partes não existem isoladas nem somadas, mas apenas pela posição e função que o todo da língua lhes dá e seu sentido vem dessa posição e dessa função. Assim, por exemplo, os signos r e l só existem nas línguas onde a diferença desses sons tem uma função importante para diferenciar sentidos, motivo pelo qual não operam significativamente em chinês e em japonês (ou seja, os chineses usam l indiferentemente para todas as palavras, sejam elas em l ou r; os japoneses usam r indiferentemente para todas as palavras, sejam elas em l ou r). Os signos são os elementos da língua; são valores e não coisas ou entidades, isto é, são o que valem por sua posição e por sua diferença com relação aos demais signos; numa língua, distinguem-se signo e significado, ou VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 6 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) significante e significado: o signo é o elemento verbal material da língua (r, l, p, b, q, g, por exemplo), enquanto o significado são os conteúdos ou sentidos imateriais (afetivos, volitivos, perceptivos, imaginativos, evocativos, literários, científicos, retóricos, filosóficos, políticos, religiosos, etc.) veiculados pelos signos; o significante é uma cadeia ou um grupo organizado de signos (palavras, frases, orações, proposições, enunciados) que permitem a expressão dos significados e garantem a comunicação; a relação dos signos ou significantes com as coisas é convencional e arbitrária, mas, uma vez constituída a língua como sistema de relações entre signos/significantes e significados, a relação com as coisas indicadas, nomeadas, expressadas ou comunicadas torna-se uma relação necessária para todos os falantes da língua. Assim, por exemplo, a distinção entre pa e ba, pata e bata é convencional, mas uma vez fixada pela língua, torna-se necessária e inquestionável; como as partes (signos ou significantes) de uma língua recebem seu sentido e sua função pelo lugar que o todo da língua lhes confere, essas partes distinguem-se umas das outras apenas por suas diferenças, e a língua é uma estrutura constituída por diferenças internas ou por oposições pertinentes entre os signos. Por exemplo, em português, existem os signos p e b, d e t porque suas diferenças são pertinentes para o sentido das palavras (dizer pata e bata, dente e tente é dizer sentidos diferentes); também existe a oposição pertinente entre o r e o l, mas tal oposição ou diferença não existe em japonês e em chinês e por isso, como vimos, tais signos não existem nessas línguas. Por relação com sua própria língua, quando um japonês fala o português, é levado a usar sempre o r (que corresponde a um som ou signo diferencial existente em japonês, isto é, faz sentido em japonês) e a substituir o l por r. Quando um chinês fala o português ocorre exatamente o contrário, prevalece o l porque este som e signo tem relação com o todo da língua chinesa,e o r não. Em inglês, não existe o signo- som ão e, assim, quando um inglês fala o português, tende a usar an e am porque são signos-sons que fazem sentido em inglês. A língua, portanto, é feita dessas diferenças internas e por isso se diz que os signos são diacríticos e que a língua é uma estrutura diacrítica; a língua é um código (conjunto de regras que permitem produzir informação e comunicação) e se realiza através de mensagens, isto é, pela fala/palavra dos sujeitos que veiculam informações e se comunicam de modo específico e particular (a mensagem possui um emissor, aquele que emite ou envia a mensagem, e um receptor, aquele que recebe e decodifica a mensagem, isto é, entende o que foi emitido); o sujeito falante possui duas capacidades: a competência (isto é, sabe usar a língua) e a performance (isto é, tem seu jeito pessoal e individual de usar a língua); a competência é a participação do sujeito em uma comunidade linguística e a performance são os atos de linguagem que realiza; a língua se realiza em duas dimensões: a sincronia, ou seja, o todo da língua tomado na simultaneidade ou no seu estado atual ou presente; e a diacronia, ou seja, a língua vista sucessivamente, através de suas mudanças no tempo ou de sua história; a língua é inconsciente, isto é, nós a falamos sem ter consciência de sua estrutura, de suas regras e seus princípios, de suas funções e diferenças internas; vivemos nela e com ela e a empregamos sem necessidade de conhecê-la cientificamente. Alguns exemplos poderão ajudar-nos a compreender todos esses pontos. Uma língua é como um jogo de xadrez: é um todo no qual cada peça tem seu sentido, seu lugar e sua função por diferença ou por oposição às demais peças. O jogo é uma convenção ou um código com suas regras próprias, princípios e leis, e cada partida é a maneira como jogadores individuais usam e interpretam as regras, leis e princípios gerais do jogo (a diferença entre os jogadores e os sujeitos falantes é que estes falam a língua respeitando o código, mas sem conhecê-lo conscientemente, enquanto os jogadores precisam conhecer o código para poder jogar). O jogo existe antes e depois de cada partida. Cada partida rearranja o tabuleiro e chega a resultados diferentes, mas as regras do jogo são sempre as mesmas. Em cada partida, os jogadores podem jogar porque conhecem o código e porque sabem interpretar os lances um do outro, respondendo a cada um deles. A linguística veio mostrar algo muito interessante e que explica por que falar uma língua estrangeira ou traduzir um texto estrangeiro não são coisas simples como julgavam os intelectualistas. Por exemplo, em inglês, é possível dizer “The man I love ”. Quando traduzimos para o português temos: “O homem que amo”. Observamos que, em inglês, parece “faltar” uma palavra: o “que”. Notamos também que em inglês parece “sobrar” uma palavra: o “I”, o “eu”, que não usamos na frase em português. Para um inglês, evidentemente, não falta e nem sobra nada. Este sentimento de falta ou sobra mostra que a diferença entre o inglês e o português não é de vocabulário, mas de estrutura linguística. No caso da tradução da palavra inglesa cheese e da palavra francesa fromage para o português, queijo, temos a impressão de que passamos sem problema de uma língua para outra. Mas não é o caso. Quando um inglês usa cheese, ele está se referindo ou a algo leitoso e cremoso, quase sem gosto, ou a algo mais duro e forte, que se pode comer sem outra coisa. O francês, por seu turno, ao dizer fromage estará pensando em queijos muito diferentes, dependendo da região onde mora, da hora e do dia em que vai comer o queijo, sempre acompanhado de pão e vinho. Para um inglês e para um francês, queijo jamais poderia ser imaginado junto com um doce, enquanto para nós, brasileiros, queijo (de Minas, prato, requeijão baiano) vai bem com goiabada ou com doce de leite, com o pão com manteiga e o café com leite. Assim dizer cheese não é dizer fromage nem queijo; dizer fromage não é dizer cheese nem queijo; dizer queijo não é dizer cheese nem fromage. Esse segundo exemplo explica o que os lingüistas querem dizer quando afirmam que o momento da criação de um signo (cheese, fromage, queijo) é arbitrário ou convencional, mas, uma vez criado, passa a ter um sentido necessário naquela língua (cheese é cheese e não é fromage nem queijo). Esse exemplo nos mostra também que uma língua é algo social, histórico, determinado por condições específicas de uma sociedade e de uma cultura. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 7 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) A EXPERIÊNCIA DA LINGUAGEM Dizer que somos seres falantes significa dizer que temos e somos linguagem, que ela é uma criação humana (uma instituição sociocultural), ao mesmo tempo em que nos cria como humanos (seres sociais e culturais). A linguagem é nossa via de acesso ao mundo e ao pensamento, ela nos envolve e nos habita, assim como a envolvemos e a habitamos. Ter experiência da linguagem é ter uma experiência espantosa: emitimos e ouvimos sons, escrevemos e lemos letras, mas, sem que saibamos como, experimentamos sentidos, significados, significações, emoções, desejos, idéias. Após o caminho feito até aqui, podemos voltar à definição inicial que demos da linguagem e nela fazer alguns acréscimos. Em primeiro lugar, teremos que especificar melhor que tipo de signo é o signo linguístico. Por que uma palavra é diferente, por exemplo, da fumaça que indica fogo? Ou, se se preferir, qual é a diferença entre a fumaça-signo-de-fogo, que vejo, e a palavra fumaça, que pronuncio ou escuto? A fumaça é uma coisa que indica outra coisa (fogo). A palavra fumaça, porém, é um símbolo, isto é, algo que indica, representa, exprime alguma coisa que é de natureza diferente dela. O símbolo é um análogo (a bandeira simboliza a nação, por exemplo) e não um efeito da coisa indicada, representada ou exprimida. O símbolo verbal ou palavra me reenvia a coisas que não são palavras: coisas materiais, idéias, pessoas, valores, seres inexistentes, etc. A linguagem é simbólica e, pelas palavras, nos coloca em relação com o ausente. A linguagem é, pois, inseparável da imaginação. Em segundo lugar, temos que especificar melhor as várias funções que atribuímos à linguagem (indicativa ou denotativa, comunicativa, expressiva, conotativa) e para isso precisamos indagar com o que a linguagem se relaciona e nos relaciona. Evidentemente, diremos que a linguagem nos relaciona com o mundo e com os outros seres humanos. Mas como se dá essa relação? Essa pergunta, como vimos, era central para o Positivismo Lógico. Por seus erros e acertos, ele foi responsável pelo surgimento de uma nova disciplina filosófica, a Filosofia da Linguagem, intimamente ligada às investigações lógicas, transformando-se com elas e graças a elas. A grande preocupação da Filosofia da Linguagem resume-se numa pergunta: As palavras realmente dizem as coisas tais como são? Descrevem e explicam verdadeiramente a realidade? Tradicionalmente, dizia-se que a linguagem possuía a forma de uma relação binária, isto é, entre dois termos: signo verbal <-> coisa indicada (realidade) signo verbal <-> idéia, conceito, valor (pensamento) No entanto, é possível perceber que essa relação binária não nos explica por que uma palavra ou um signo verbal indica alguma coisa ou alguma idéia, pois, se ele fosse simplesmente denotativo ou indicativo e dual, não poderia haver o fenômeno da conotação, isto é, uma mesma palavra indicando coisas e idéias diferentes. Tomemos um exemplo a que já nos referimos várias vezes em outros capítulos e que foi muito trabalhado pelo filósofo alemão Frege. “Estrela da manhã” e “estrelada tarde” indicam Vênus. Mas falar na estrela d’alva, na estrela da tarde, na estrela matutina e na estrela vespertina não é a mesma coisa, ainda que todas essas expressões se refiram a Vênus. Em cada uma dessas expressões, o sentido de Vênus muda e esse sentido é expresso pelas palavras que se referem ao mesmo planeta. Assim, as palavras indicam-denotam alguma coisa, mas também a conotam, isto é, referem-se aos sentidos dessa coisa. Imaginemos ou recordemos a leitura de um romance. Começamos a ler entendendo tudo o que o escritor escreveu porque referimos suas palavras a coisas que já conhecemos, a idéias que já possuímos e ao vocabulário comum entre ele e nós. Pouco a pouco, porém, o livro vai ganhando espessura própria, percebemos as coisas de outra maneira, mudamos idéias que já tínhamos, vemos surgir pessoas (personagens) com vida própria e história própria, sentimos que as palavras significam de um modo diferente daquele com o qual estamos habituados a usá-las todo dia. Uma realidade foi criada e penetramos em seu interior exclusivamente pelas mãos do escritor. Como isso é possível? Como as palavras poderiam criar um mundo, se elas apenas fossem sinais para indicar coisas e idéias já existentes? Com o romance descobrimos que as palavras se referem a significações, inventam significações, criam significações. Imaginemos ou recordemos um diálogo. Quantas vezes conversando com alguém, dizemos: “Puxa! Eu nunca tinha pensado nisso!”, ou então: “Você sabe que, agora, eu entendo melhor uma idéia que tinha, mas que não entendia muito bem?”, ou ainda: “Você me fez compreender uma coisa que eu sabia e não sabia que sabia”. Como essas frases são possíveis? É que a linguagem tem a capacidade especial de nos fazer pensar enquanto falamos e ouvimos, nos faz compreender nossos próprios pensamentos tanto quanto os dos outros que falam conosco. Ela nos faz pensar e nos dá o que pensar porque se refere a significados, tanto os já conhecidos por outros quanto os já conhecidos por nós, bem como os que não conhecíamos por estarmos conversando. Esses exemplos nos levam a considerar a linguagem sob uma forma ternária: palavra ou signo significante <-> sentido ou significação; significado ↔ realidade ou mundo (coisas, pessoas) e instituições sociais, políticas, culturais O mundo suscita sentidos e palavras, as significações levam à criação de novas expressões linguísticas, a linguagem cria novos sentidos e interpreta o mundo de maneiras novas. Há um vai-e- vem contínuo entre as palavras e as coisas, entre elas e as significações, de tal modo que a realidade, o pensamento e a linguagem são inseparáveis, suscitam uns aos outros e interpretam-se uns aos outros. A linguagem: refere-se ao mundo através das significações e, por isso, podemos nos relacionar com a realidade através da palavra; relaciona-se com sentidos já existentes e cria sentidos novos e, por isso, podemos nos relacionar com o pensamento através das palavras; exprime e descobre significados e, por isso, podemos nos comunicar e nos relacionar com os outros; em o poder de suscitar significações, de evocar recordações, de imaginar o novo ou o inexistente e, por isso, a literatura é possível. A linguagem revela nosso corpo como expressivo e significativo, os corpos dos outros como expressivos e significativos, as coisas como expressivas e significativas, o mundo como dotado de sentido e o pensamento como trabalho de VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 8 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) descoberta do sentido. As palavras têm sentido e criam sentido. Como escreve Merleau-Ponty: A palavra, longe de ser um simples signo dos objetos e das significações, habita as coisas e veicula significações. Naquele que fala, a palavra não traduz um pensamento já feito, mas o realiza. E aquele que escuta recebe, pela palavra, o próprio pensamento. A linguagem não traduz imagens verbais de origem motora e sensorial, nem representa idéias feitas por um pensamento silencioso, mas encarna as significações. LINGUAGEM SIMBÓLICA E LINGUAGEM CONCEITUAL A diferença entre linguagem simbólica e linguagem conceitual é o que deve interessar-nos agora. Fundamentalmente, a linguagem simbólica opera por analogias (semelhanças entre palavras e sons, entre palavras e coisas) e por metáforas (emprego de uma palavra ou de um conjunto de palavras para substituir outras e criar um sentido poético para a expressão). A linguagem simbólica realiza-se principalmente como imaginação. A linguagem conceitual procura evitar a analogia e a metáfora, esforçando-se para dar às palavras um sentido direto e não figurado ou figurativo. Isso não quer dizer que a linguagem conceitual seja puramente denotativa. Pelo contrário, nela a conotação é essencial, mas não possui uma natureza imaginativa ou imagética. A linguagem simbólica (dos mitos, da religião, da poesia, do romance, do teatro) e a linguagem conceitual (das ciências, da filosofia) diferem sob os seguintes aspectos: A linguagem simbólica é fortemente emotiva e afetiva, enquanto a linguagem conceitual procura falar das emoções e dos afetos sem se confundir com eles e sem se realizar por meio deles; A linguagem simbólica oferece sínteses imediatas (imagens), enquanto a linguagem conceitual procede por desconstrução analítica e reconstrução sintética dos objetos, fazendo com que acompanhemos cada passo da análise e da síntese; A linguagem simbólica nos oferece palavras polissêmicas, isto é, carregadas de múltiplos sentidos simultâneos e diferentes, tanto sentidos semelhantes e em harmonia, quanto sentidos opostos e contrários; a linguagem conceitual procura diminuir ao máximo a polissemia e a conotação, buscando fazer com que cada palavra tenha um sentido próprio e que seus diferentes sentidos dependam do contexto no qual é empregada; a linguagem simbólica leva-nos para dentro dela, arrasta-nos para seu interior pela força de seu sentido, de suas evocações, de sua beleza, de seu apelo emotivo e afetivo; a linguagem conceitual busca convencer-nos e persuadir-nos por meio de argumentos, raciocínios e provas. A linguagem simbólica fascina e seduz; a linguagem conceitual exige o trabalho lento do pensamento; a linguagem simbólica nos dá a conhecer o mundo criando um outro, análogo ao nosso, porém mais belo ou mais terrível do que o nosso, mais justo ou mais violento do que o nosso, mais antigo ou mais novo do que o nosso, mais visível ou mais oculto do que o nosso; a linguagem conceitual busca dizer o nosso mundo, decifrando seu sentido, ultrapassando suas aparências e seus acidentes; a linguagem simbólica, privilegiando a memória e a imaginação, nos diz como as coisas ou os homens poderiam ter sido ou poderão ser, voltando-se para um possível passado ou para um possível futuro; a linguagem conceitual busca dizer o nosso presente, fala do necessário, determinando suas causas ou motivos e razões; procura também as linhas de força de suas transformações e o campo dos possíveis, como possibilidade objetiva e não apenas desejada ou sonhada. RESUMINDO… A linguagem em sentido amplo (isto é, englobando língua, fala e palavra) é constituída por quatro fatores fundamentais: 1. fatores físicos (anatômicos, neurológicos, sensoriais), que determinam para nós a possibilidade de falar, escutar, escrever e ler; 2. fatores socioculturais, que determinam a diferença entre as línguas e entre as línguas dos indivíduos. Assim, o português e o inglês correspondem a sociedades e culturas diferentes, bem como a linguagem de Machado de Assis e de Guimarães Rosa correspondem a momentos diferentes da cultura no Brasil; 3. fatores psicológicos (emocionais, afetivos, perceptivos,imaginativos, lembranças, inteligência) que criam em nós a necessidade e o desejo da informação e da comunicação, bem como criam nossa capacidade para a performance linguística, seja ela cotidiana, artística, científica ou filosófica; 4. fatores linguísticos propriamente ditos, isto é, a estrutura e o funcionamento da linguagem que determinam nossa competência e nossa performance enquanto seres capazes de criar e compreender significações. Esses fatores nos dizem por que existe linguagem e como ela funciona, mas não nos dizem o que é a linguagem. É a perspectiva fenomenológica que nos orienta para sabermos não só o que é a linguagem, mas também qual é seu papel fundamental no conhecimento: a linguagem não é mecanismo psicomotor (os fatores 1 e 3 apresentam as condições biológicas e psicológicas para haver linguagem, mas não qual é a natureza da experiência da palavra); a linguagem não é simples relação binária entre signo e coisa, signo e idéia, mas é uma relação ternária, na qual os signos são símbolos que veiculam significações; a linguagem não traduz pensamentos, mas participa ativamente da formação e formulação das idéias e dos valores; a linguagem é uma forma de nossa experiência total de seres que vivem no mundo e com outros; é uma dimensão de nossa existência; a linguagem, como a percepção e a imaginação, pode comprazer-se no já dado, já dito e já pensado, no instituído e estabelecido, ficando escrava dos preconceitos e das ideologias, pois, como disse Platão, ela pode ser remédio, veneno e máscara. Pode bloquear nosso conhecimento e pode produzir desconhecimento (mentira, desinformação). É, assim, nosso meio de acesso ao mundo, aos outros e à verdade, mas também o instrumento do engano, do falso e da mentira; a linguagem cria, interpreta e decifra significações, podendo fazê-lo miticamente ou logicamente, magicamente ou racionalmente, simbolicamente ou conceitualmente. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 9 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM Questão 01 “Para referir-se à palavra e à linguagem, os gregos possuíam duas palavras: mythos e lógos. Diferentemente do mythos, lógos é uma síntese de três ideias: fala/palavra, pensamento/ideia e realidade/ser. Lógos é a palavra racional em que se exprime o pensamento que conhece o real. É discurso (ou seja, argumento e prova), pensamento (ou seja, raciocínio e demonstração) e realidade (ou seja, as coisas e os nexos e as ligações universais e necessárias entre os seres). [...] Essa dupla dimensão da linguagem (como mythos e lógos) explica por que, na sociedade ocidental, podemos comunicar-nos e interpretar o mundo sempre em dois registros contrários e opostos: o da palavra solene, mágica, religiosa, artística e o da palavra leiga, científica, técnica, puramente racional e conceitual.” (CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2011, p. 187- 188). A partir do texto, assinale a(s) alternativa(s) correta(s). 01) O mythos é uma linguagem que comunica saberes e conhecimentos. 02) As coisas próprias do domínio religioso são inefáveis, ou seja, não podem ser pronunciadas e ditas pela linguagem humana. 04) O mythos não possui o mesmo poder de convencimento e de persuasão que o lógos. 08) O lógos é, ao mesmo tempo, o exercício da razão e sua enunciação para os seres humanos. 16) O lógos é muito mais do que a palavra, é a expressão das qualidades essenciais do ser, a possibilidade de conhecer as coisas nos seus fundamentos primeiros. Questão 02 Um dos principais problemas de nosso tempo diz respeito à linguagem: seus limites, suas vinculações, em suma, sua capacidade de traduzir em signos as coisas. A esse respeito, o filósofo francês Merleau-Ponty afirma: “A palavra, longe de ser um simples signo dos objetos e das significações, habita as coisas e veicula significações. Naquele que fala, a palavra não traduz um pensamento já feito, mas o realiza. E aquele que escuta recebe, pela palavra, o próprio pensamento” (In: CHAUI, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2011, p. 196). A partir do trecho citado, assinale a(s) alternativa(s) correta(s). 01) A palavra torna real um pensamento por meio da fala, conferindo-lhe existência. 02) A palavra não consegue expressar a totalidade do objeto enunciado. 04) A palavra, ouvida ou escrita, é o pensamento manifesto em sua realidade. 08) A palavra faz uma mediação entre as coisas e o pensamento. 16) A palavra vincula-se intimamente aos objetos reais, pois é parte do ser desse objeto. Questão 03 “Na abertura de sua obra Política, Aristóteles afirma que somente o homem é um ‘animal político’, isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais, escreve Aristóteles, possuem voz (phoné) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (lógos) e, com ela, exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum esses valores é o que torna possível a vida social e, dela, somente os homens são capazes.” (CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 14ª edição. São Paulo: Ática, 2011, p. 185). A partir dessa reflexão sobre o homem e a linguagem, assinale o que for correto. 01) O homem se distingue dos animais porque possui linguagem simbólica, isto é, capaz de estabelecer ligações entre os signos e as coisas. 02) Expressões artísticas, como a pintura, a fotografia e a dança, não podem ser consideradas formas de linguagens. 04) A linguagem é um instrumento político, pois o domínio da linguagem culta é uma forma de segregação entre distintas classes sociais. 08) A Lógica se distingue da linguagem natural porque não se ocupa com a significação dos conteúdos do pensamento, mas sim com sua expressão formal. 16) Palavras “tabu” são aquelas proibidas de serem pronunciadas, sob pena de punição, como forma de reforçar laços sociais e reprimir costumes. Questão 04 Considerando que a linguagem verbal é um dos principais elementos constitutivos do mundo cultural porque nos permite transcender a experiência vivida, é correto afirmar: a) O signo verbal tem a capacidade de apresentar para a consciência o respectivo objeto que se encontra ausente. b) O nome não tem relação alguma com seu referente. c) A relação entre significante e significado do signo verbal é aleatória e transcendental d) A cultura é um processo transcendental da constituição do imaginário popular. e) O signo verbal é extraído da realidade por meio de um processo de abstração. Questão 05 “A linguagem é um sistema de signos ou sinais usados para indicar as coisas, para a comunicação entre as pessoas e para a expressão de ideias, valores e sentimentos.” (CHAUI, Marilena. Convite à filosofia, p.151.) Através de leis que podem ser conhecidas, a linguagem constitui um tema privilegiado para a filosofia desde o seu surgimento até nossos dias. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 10 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) Sobre o exposto, assinale o que for correto. 01) Na Poética e na Retórica, Aristóteles fixa as formas e usos da linguagem como resposta ao fenômeno da Torre de Babel, aperfeiçoando a comunicação entre as pessoas. 02) O positivismo lógico da Escola de Viena é o movimento contrário às filosofias de conteúdo “oculto” e “profundo”, tendo em vista a clareza dos conceitos através da análise da linguagem. 04) Chama-se linguagem denotativa aquela que designa diretamente as coisas, e linguagem conotativa aquela em que a palavra adquire significados implícitos para além do vínculo direto e imediato que mantém com os objetos da realidade. 08) Chama-se sincroniada linguagem a sua parte atual ou presente, e diacronia da linguagem o estudo das transformações que ela recebe ao longo do tempo. 16) Platão, no Crátilo, estabelece as duas teses que comandam a questão sobre a origem das línguas, a saber: a tese de que os nomes são naturais e adequados às coisas, e a tese de que os nomes são arbitrários e escolhidos pela convenção humana. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 11 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO Questão 01 Leia o texto a seguir. Em A Câmara Clara: Nota sobre a Fotografia, Roland Barthes investiga, como espectador e não como fotógrafo, a estrutura da fotografia como sistema, como código: a linguagem fotográfica, portanto. E aponta um paradoxo: a imagem fotográfica é uma cópia do real e uma ficção. No que se refere à “emoção” de sujeito olhado e de sujeito que olha uma foto-retrato, o autor argumenta: “diante da objetiva, faço pose; então, sou, ao mesmo tempo, aquele que eu me julgo, aquele que eu gostaria que me julgassem, aquele que o fotógrafo me julga e aquele de que ele se serve para exibir sua arte. Assim, a fotografia é o advento de mim mesmo como outro, uma dissociação astuciosa da consciência de identidade; a fotografia transforma o sujeito em objeto.” Roland Barthes. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 22-3 (com adaptações). Com base no que está proposto acerca de retrato/fotografia no trecho acima, redija um texto, na modalidade padrão da língua portuguesa, apresentando sua visão sobre a seguinte questão: um rosto na foto-retrato — realidade ou ficção? TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Questão 02 Leia o texto a seguir. O ser humano, no decorrer da sua existência na face da terra e graças à sua capacidade racional, tem desenvolvido formas de explicação do que há no intuito de estabelecer um nexo de sentido entre os fenômenos e as experiências por ele vivenciados. Essas vivências, à medida que são passíveis de expressão através das construções simbólicas contidas na linguagem, apresentam um caráter eminentemente social. (HANSEN, Gilvan. Modernidade, Utopia e Trabalho. Londrina: Edições Cefil, 1999. p.13.) Com base na obra Molhe Espiral, no texto e nos conhecimentos sobre o pensamento de Habermas, assinale a alternativa correta. a) A linguagem, em razão de sua dimensão material, inviabiliza a (re)produção simbólica da sociedade. b) As construções simbólicas se valem do apreço instrumental e do valor mercantil. c) A importância do simbólico na sociedade decorre de sua adequação aos parâmetros funcionais e técnicos. d) A dimensão simbólica da sociedade é inerente à forma como o homem assegura sentido à realidade. e) A forma de expressão dos elementos simbólicos na arena social deve atender a uma utilidade prática. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES Se a recente antropologia estrutural está certa (e suas hipóteses, de fato, elaboram as suposições de Leibniz e Herder), esses modelos de parentesco, essas convenções de mútua identificação que subjazem a toda sociedade humana, dependem vitalmente da disponibilidade e desenvolvimento da linguagem. A passagem do homem de um estado natural para um estado cultural – o principal ato isolado de sua história – está em todos os pontos entrelaçados com suas faculdades de fala. Os tabus do incesto e os consequentes sistemas de parentesco que tornam possível a definição e a sobrevivência biossocial de uma comunidade não precedem a linguagem. Muito provavelmente desenvolvem-se com ela e através dela. Não podemos proibir o que não podemos nomear. As regras de casamento exogâmico ou endogâmico só podem ser formuladas e – o que não é menos importante – transmitidas onde existam adequada sintaxe e taxionomia verbal. Fonte: Steiner, George. Extraterritorial: a literatura e a revolução da linguagem. São Paulo: Companhia das Letras/Secretaria de Estado da Cultura, 1990. p. 69/70. Questão 03 No texto, I. a expressão "sintaxe" pode ser tomada como sinônimo de "regras de combinação". II. a reflexão do autor se dá acerca da importância da linguagem proposicional. III. "nomear" pode ser considerado como uma atividade linguística de predicação. Está(ão) correta(s) a) apenas I. b) apenas II. c) apenas III. d) apenas II e III. e) I, II e III. Questão 04 Segundo o texto, I. o autor considera a linguagem como uma condição apenas suficiente para a passagem do homem de um estado natural para um estado cultural. II. os estudos recentes de antropologia estrutural conflitam com as especulações filosóficas de Leibniz e Herder. III. a capacidade de nomeação é uma condição necessária para o estabelecimento de interdição social. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 12 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) Está(ão) correta(s) a) apenas I. b) apenas II. c) apenas III. d) apenas I e II. e) apenas II e III. Questão 05 Em filosofia, quando se trata dos tipos de conhecimento, costuma- se distinguir três tipos diferentes: o conhecimento proposicional (saber que), o conhecimento como habilidade (saber como) e o conhecimento como familiaridade (saber de). De acordo com as afirmações a seguir, relativas ao livro Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, pode-se dizer que se trata de conhecimento I. Crianças, bandidos, gurus sertanejos e loucos povoam a galeria de personagens dos contos. II. A unidade do conjunto é garantida por um narrador- protagonista de primeira pessoa, que se repete em todos os contos. III. Ao incorporar, na escrita, cacoetes e construções da fala, os contos privilegiam os sons e estruturas que, em várias passagens, rompem com o padrão culto da linguagem. a) como habilidade apenas. b) proposicional apenas. c) como familiaridade apenas. d) proposicional e como habilidade. e) como familiaridade e como habilidade. Questão 06 A linguagem verbal é um sistema de símbolos que permite aos seres humanos ultrapassarem os limites da experiência vivida e organizar essa experiência sob forma abstrata, conferindo sentido ao mundo. Assinale o que for correto. 01) A linguagem humana, da mesma forma que as linguagens de computador, é altamente estruturada e, por isso, inflexível; não fosse assim, a comunicação entre as pessoas seria impossível. 02) A linguagem oral é o único meio à disposição do homem para sua comunicação e o estabelecimento de relações com os outros indivíduos. 04) A formação do mundo cultural depende fundamentalmente da linguagem. Pela linguagem, o homem deixa de reagir somente ao presente imediato, podendo pensar o passado e o futuro e, com isso, construir o seu projeto de vida. 08) Os nomes são símbolos ou representações dos objetos do mundo real e das entidades abstratas. Como representações, os nomes têm o poder de tornar presente para nossa consciência o objeto que não está dado aos sentidos. 16) O homem é a única espécie animal dotada da capacidade de linguagem mediante a palavra e faz uso de símbolos, isto é, refere-se às coisas por meio de signos convencionados, enquanto na linguagem de outros animais os signos são índices. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 13 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA Questão 01: Resolução: A questão propõe ao aluno uma reflexão apurada a respeito da realidade da fotografia. Podendo assumir duas posições, o aluno pode argumentar que sim,que é real um rosto na foto- retrato (afinal, há instrumentos objetivos e científicos que produzem essa imagem); ou que não, que o rosto ali presente é uma ficção, uma imagem resultante de uma objetivação sempre parcial e incompleta de um sujeito que não existe na fotografia, mas somente além dela. Resposta: Alternativa Questão 02: Resolução: Resposta: Alternativa D Questão 03: Resolução: Resposta: Alternativa E Questão 04: Resolução: . Resposta: Alternativa C Questão 05: Resolução: Resposta: Alternativa B Questão 06: Resolução: 04 + 08 + 16 = 28. Resposta: Alternativa VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE FILOSOFIA Prof. Márcio Michiles ÉTICA E MORAL A Ética e a Moral Conceituando e distinguindo a ética da moral. No contexto filosófico, ética e moral possuem diferentes significados. A ética está associada ao estudo fundamentado dos valores morais que orientam o comportamento humano em sociedade, enquanto a moral são os costumes, regras, tabus e convenções estabelecidas por cada sociedade. Os termos possuem origem etimológica distinta. A palavra “ética” vem do Grego “ethos” que significa “modo de ser” ou “caráter”. Já a palavra “moral” tem origem no termo latino “morales” que significa “relativo aos costumes”. Ética é um conjunto de conhecimentos extraídos da investigação do comportamento humano ao tentar explicar as regras morais de forma racional, fundamentada, científica e teórica. É uma reflexão sobre a moral. Moral é o conjunto de regras aplicadas no cotidiano e usadas continuamente por cada cidadão. Essas regras orientam cada indivíduo, norteando as suas ações e os seus julgamentos sobre o que é moral ou imoral, certo ou errado, bom ou mau. No sentido prático, a finalidade da ética e da moral é muito semelhante. São ambas responsáveis por construir as bases que vão guiar a conduta do homem, determinando o seu caráter, altruísmo e virtudes, e por ensinar a melhor forma de agir e de se comportar em sociedade. Fonte: http://www.significados.com.br/etica-e-moral/ Fonte: http://1to1center.wordpress.com/page/2/ Os valores éticos de uma sociedade estão sempre sendo colocados a crivo como pode-se ver nessas imagens, frequentemente somos colocados diante de situações nas quais a nossa decisão depende daquilo que consideramos bom, justo ou moralmente correto. Toda vez que isso ocorre, estamos diante de uma decisão que envolve um julgamento moral, a partir do qual vamos orientar nossa ação. O Ser Humano é segundo o próprio Aristóteles o único capaz de distinguir o certo do errado, o bem do mal, o bom do ruim. “Os homens são bons de um modo apenas, porém são maus de muitos modos” (Aristóteles, Ética a Nicomaco) Muitos foram os filósofos que versaram sobre a Ética e a Moral, os termos escolhidos para a apresentação são bases para o desenvolvimento das ideias. DESENVOLVENDO A TEMÁTICA Ética Tema complexo, a ética envolve ao mesmo tempo reflexões metafísicas e reflexões sobre os problemas concretos da vida cotidiana. O Dicionário de filosofia, de Nicola Abbagnano, define ética como a ciência da moral, ou ciência da conduta, que possui duas concepções fundamentais: uma que considera a ética uma ciência do fim para o qual a conduta dos homens deve ser orientada; e outra que se preocupa menos com o fim e mais com a investigação das questões que impulsionam a conduta humana. A primeira concepção busca entender qual a finalidade da vida, afirmando que o ideal para o qual o homem se dirige é a felicidade. Nessa perspectiva, Aristóteles defendeu que os atos do homem racional devem ser virtuosos para que ele alcance a felicidade. Em sua obra Ética a Nicômaco, Aristóteles propôs que a alma moderada e racional deve evitar os extremos (o excesso e a deficiência) se quiser evitar o comportamento vicioso. Sua lista de virtudes inclui coragem, temperança, liberalidade, magnanimidade, mansidão, franqueza e justiça, sendo esta última considerada a maior de todas. Essa concepção foi desenvolvida por numerosos outros pensadores ocidentais. A Idade Média, por exemplo, permaneceu fiel a ela com São Tomás de Aquino, que imaginou Deus como o fim último do homem, princípio esse do qual deriva sua doutrina da felicidade e da virtude. Já para Hegel, que segue a mesma concepção, o Estado era o objetivo da conduta humana. Esse Estado é a totalidade ética, o ápice do que ele designa como eticidade. Mesmo criticando a moral vigente no século XIX, também Nietzsche propôs uma doutrina que, estruturalmente, mantinha a noção de ética como ciência do fim. Mas para ele, novas virtudes eram necessárias para substituir as antigas e assim formar o super-homem, virtudes que diriam sim à vida e ao mundo: altivez, alegria, saúde, amor sexual, inimizade, guerra, vontade forte, disciplina intelectual, entre outras. Como esse filósofo inverteu toda a moralidade então vigente, fruto da religião e da tradição, costuma-se dizer que Nietzsche é VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 2 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) imoralista. Certamente, a postura nietzschiana quanto à ética é profundamente distinta da ocidental-cristã. Já a segunda concepção da ética investiga as motivações das ações humanas, e não essas ações propriamente. Alguns filósofos chegaram a dizer que o móvel da conduta dos homens (o que os faz seguirem regras) era o desejo de sobreviver; outros que a motivação humana era o prazer; outros, ainda, que era a autoconservação. Mas a definição de ética como ciência da moral não é aceita por todos. Nelson Saldanha, em seu livro Ética e História, pensa ser um equívoco definir ética como ciência. O autor recusa-se a aceitar a ética como um modelo abstrato de normas categóricas e prescritivas e dá a entender que não há apenas uma ética, mas éticas diferentes conforme os distintos agrupamentos humanos. Segundo essa definição, ética é um conceito histórico e relativo, isto é, histórica e socialmente situado. Mas o autor distingue a moral e a ética universais, inerentes ao ser humano, das experiências éticas específicas de cada contexto histórico. De forma mais abrangente, Saldanha define ética como o conjunto de todas as formas de normatividade vigentes nos agrupamentos humanos. Conceito que concilia, assim, a postura mais universal de que todos os seres humanos têm ética e a postura histórica, que diferencia as múltiplas experiências éticas de diferentes culturas. Segundo o filósofo Manfredo Araújo de Oliveira, são três os pressupostos fundamentais para o conhecimento da ética: o primeiro diz que o homem é o único ser que precisa constituir-se como ser, justificando seus atos e decisões, e como o homem é o ser da decisão, a ética é uma questão eminentemente humana. Segundo, a ética diz respeito não apenas ao homem em sua transcendência e universalidade, mas ao homem em sua historicidade e particularidade, tornando-se um tema tanto da Filosofia quanto da História. Por último, a ética, sobretudo a chamada ética prática, diz respeito à vida de todos nós, quando deparamos com situações em que temos de tomar decisões para resolver problemas como o aborto, a eutanásia, o tratamento dispensado aos animais a responsabilidade de ajudar os pobres, entre outras situações. O conceito de ética se relaciona aos conceitos afins de problema ético e de ação ética. Peter Singer define um problema ético como aquele que exige do indivíduo um confrontamento, uma escolha séria e racional a ser tomada. Para o autor, os juízos éticos são universalizáveis, e além dissoa ação verdadeiramente ética é aquela que pode ser justificada não apenas pelos interesses do indivíduo que a executa, mas também pelos interesses dos outros sobre quem essa ação recai. Ou seja, não estamos agindo eticamente quando só nossos interesses estão envolvidos. Isso é fundamental para se pensar as nossas responsabilidades para com os outros, sejam eles parentes, amigos, membros de nossa própria comunidade ou pessoas distantes. A dimensão racional da ética, entretanto, não significa que há correspondência perfeita entre razão e ética. Se a ação ética envolve uma racionalidade que lhe fundamenta, a ação racional não envolve necessariamente a ética. Uma pessoa egoísta pode fundamentar racionalmente ações não éticas. Um investidor da bolsa de valores, por exemplo, pode praticar uma ação racional com respeito aos fins que almeja, mas as considerações de cunho ético podem passar bem longe dessa ação. Para Singer, as pessoas costumam confundir ética com moralismo proibitivo, sobretudo em questões relativas à sexualidade e ao prazer; outras a encaram como um sistema ideal, nobre na teoria, mas inaplicável na realidade; há ainda quem pense que a ética só tem sentido do ponto de vista religioso (agir corretamente é seguir os mandamentos divinos); por fim, há aqueles que adotam o relativismo e o subjetivismo em questões éticas, negando a possibilidade concreta de princípios éticos de validade universal. O autor refuta todas essas visões: primeiro, a ética não é moralismo sexual, pois mesmo na era da aids o ato sexual em si não envolve nenhuma questão moral específica, embora envolva considerações gerais, como honestidade, prudência, preocupação com os outros; segundo, a ética não é uma cartilha, um sistema de normas simples e práticas do tipo Não minta, Não roube, Não mate (normas simples como essas não resolvem a complexidade da vida); terceiro, ética e religião não são termos necessariamente sinônimos, e o comportamento ético, em si, não precisa do respaldo da autoridade divina ou da religião para se efetivar. Platão já argumentava: se os deuses aprovam algumas ações, isso ocorre porque elas já são boas em si mesmas, e não porque os deuses as aprovaram. A ética, do ponto de vista da Filosofia e da História, apela para a liberdade e a autonomia do ser racional, e não para a autoridade divina ou religiosa. Quarto, dizer que a ética é relativa a uma sociedade específica é certo, por um lado, e falso, por outro, pois princípios mais gerais podem ter validade universal; por fim, a ética não é subjetiva porque os juízos éticos estão sujeitos à crítica e à razão, não sendo ações puramente individuais de um sujeito isolado. Singer acredita que a razão exerce importante papel nas decisões éticas, e a ética é universal. Esses argumentos são interessantes e polêmicos, sobretudo em uma época como a que vivemos, em que a razão e a ideia de uma ética universalizante vêm sendo desacreditadas. A própria Filosofia ocidental pós- moderna, como indica Manfredo Araújo de Oliveira, vem falando do fim da Razão, que estaria dando lugar a uma pluralidade de razões fragmentárias, situadas historicamente. Os teóricos pós- modernos encaram a pluralidade não apenas como um fato, mas como um valor que liberta o homem do totalitarismo de uma ética universal etnocêntrica. Por fim, alertam para o risco de determinados valores de uma cultura específica se tornarem universais de modo arbitrário e postulam a necessidade de éticas particulares. Ou seja, a negação da Razão, pela pós- modernidade, implica a negação da Ética como conjunto de princípios universais da conduta humana. A pós-modernidade está ligada a um profundo senso histórico, pensando o Homem (e a ética) em sua particularidade. Se, por um lado, tal conduta ajuda a desconstruir o etnocentrismo da ciência, que considera os valores ocidentais oriundos do Iluminismo universais, por outro, o relativismo pós- VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 3 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) moderno levado a extremos não responde aos principais problemas éticos do mundo contemporâneo. Se todos os governos e povos julgarem que sua ética particular está correta em si mesma, e não tem relação com a ética de outros povos e governos, jamais haverá consensos estáveis sobre temas como a preservação do meio ambiente, a ajuda humanitária aos países pobres, as ações de violência contra os direitos humanos, relações comerciais mais justas, entre outros temas da agenda política mundial. Não há como negar o pluralismo cultural que existe no mundo e mesmo nos países, assim como não é possível negar as raízes históricas da ética de cada povo, mas isso não significa que devemos renunciar ao princípio do homem em sua universalidade. O grande projeto que a humanidade precisa colocar no Terceiro Milênio, segundo sugere Sergio Paulo Rouanet, é o de reconquistar a universalidade perdida do homem. Esse projeto não deve resultar na imposição de valores ocidentais a outros povos. A humanidade precisa encontrar nas particularidades de cada cultura o elemento universal para a construção de uma ética para toda a humanidade. Nesse sentido, os professores de História do ensino Fundamental e Médio devem se preocupar com a ética nas escolas, estimulando ações éticas quanto aos problemas do mundo contemporâneo e discutindo o tema no dia a dia. As escolas também precisam estar envolvidas com projetos educativos sobre questões éticas, pois as instituições de ensino interessadas apenas em cumprir programas curriculares podem perder de vista a dimensão formativa do homem como ser ético e político. A ética, já dizia Aristóteles, é uma reflexão que tem como ponto de partida a vida histórica dos homens e busca melhorar a práxis, que é a prática social consciente. Ou seja, a ética não é uma reflexão estritamente metafísica, uma vez que busca efetivar- se historicamente como ações virtuosas. Esse sentido da ética relacionada à práxis humana implica o estabelecimento de relação entre os homens, no sentido de que as nossas escolhas diante de problemas éticos afetam os outros, e não dizem respeito unicamente ao agente da decisão. Esse sentido comunitário, engendrado no conceito aristotélico, precisa ser retomado e discutido na contemporaneidade. A precariedade da formação filosófica da maioria dos historiadores brasileiros é responsável pelo desconhecimento de obras fundamentais de autores como Aristóteles e Nietzsche. Mas muitas ferramentas didáticas e paradidáticas estão à disposição dos profissionais de ensino. Uma boa sugestão para o trabalho em sala de aula é desenvolver a discussão da ética em linguagem acessível aos alunos. Um caminho pode ser o debate filosófico em torno da série de tv norte-americana, bastante conhecida no Brasil, Os Simpsons. Por meio de uma perspectiva bem- humorada sobre um programa de TV popular, os professores e estudantes do Ensino Médio podem começar a conhecer o pensamento filosófico de pensadores como Aristóteles e Nietzsche, assim como adentrar discussões sobre ética, moral e virtude. O trabalho interdisciplinar entre História, Filosofia e Sociologia deve ser tentado, adotando temas importantes da atualidade, como aids, terrorismo, guerras, fundamentalismo, religião, ciência, entre outros. Moral Moral trata-se de um conjunto de valores, normas e noções sobre o que é certo ou errado, proibido e permitido, dentro de uma determinada sociedade. Numa breve definição de moral, podemos dizer que se trata do conjunto de valores, de normas e de noções do que é certo ou errado, proibido e permitido, dentro de uma determinada sociedade, de uma cultura. Como sabemos, as práticas positivas de um código moral são importantespara que possamos viver em sociedade, fato que fortalece cada vez mais a coesão dos laços que garantem a solidariedade social. Do contrário, teríamos uma situação de caos, de luta de todos contra todos para o atendimento de nossas vontades. Assim, moral tem a ver com os valores que regem a ação humana enquanto inserida na convivência social, tendo assim um caráter normativo. A moral diz respeito a uma consciência coletiva e a valores que são construídos por convenções, as quais são formuladas por uma consciência social, o que equivale dizer que são regras sancionadas pela sociedade, pelo grupo. Segundo Émile Durkheim, um dos pensadores responsáveis pela origem da Sociologia no final do século XIX, a consciência social é fruto da coletividade, da soma e inter-relação das várias consciências individuais. Dessa forma, as mais diferentes expressões culturais possuem diferentes sistemas morais para organização da vida em sociedade. Prova disso está nas diferenças existentes entre os aspectos da cultura ocidental e oriental, em linhas gerais. Basta avaliarmos o papel social assumido pelas mulheres quando comparamos brasileiras e afegãs, assim como aquele assumido pelos anciãos nas mais diferentes sociedades, o gosto ou desinteresse pela política. Devemos sempre ter em mente que a moral, por ser fruto da consciência coletiva de uma determinada sociedade e cultura, pode variar através da dinâmica dos tempos. Ao partirmos então da ideia de que a moral é construída culturalmente, algumas “visões de mundo” ganham status de verdade entre os grupos sociais e, por isso, muitas vezes são “naturalizadas”. Essa naturalização de uma visão cultural é o que dificulta conseguirmos distinguir entre juízo de fato (análise imparcial) e de valor (fruto da subjetividade), o que pode ser uma armadilha que nos leva ao desenvolvimento de preconceitos em relação ao que nos é estranho e diferente. Considerar o outro ou o próximo é um aspecto fundamental à moralidade. Dessa forma, uma preocupação constante no debate sobre ética e moral se dá no sentido de evitar a violência em todas as suas possíveis expressões (física ou psíquica), bem como o caos social. Os valores éticos (ou morais) se oferecem, portanto, como expressão e garantia de nossa condição de seres humanos ou de sujeitos racionais e agentes livres, proibindo moralmente a violência e favorecendo a coesão social, isto é, a “ligação” entre as pessoas em sociedade. Porém, considerando- se que o código moral é constituído pela cultura, a violência não é VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 4 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) vista da mesma forma por todas as culturas. Numa cultura, ao definir o que é mau ou violento, automaticamente defini-se o que é bom. Logo, a noção de violação, profanação e discriminação variam de uma cultura para outra. Contudo, em todas se tem a noção do que é a violência. Assim, tanto os valores como a ideia de virtude são fundamentais à vida ética e, dessa forma, evitam a violência, o ato imoral ou antiético. Ser virtuoso, em linhas gerais, significa desejar e saber colocar em prática ações éticas, isto é, moralmente louváveis. A noção de bem e mal ou bom e mau é fundamental para que calculemos uma forma de fugir do sofrimento, da dor, alcançando a felicidade de forma virtuosa. Contudo, é importante lembrar que fins éticos requerem meios éticos, o que nos faz deduzir que a famosa expressão “todos os fins justificam os meios” não é válida quando se busca ser virtuoso. Se em nosso código moral consideramos o roubo como algo imoral, roubar seria assim um meio injustificável para se alcançar qualquer coisa, ainda que isso fosse feito em nome de algum valor moral. A simples existência da moral não significa a presença explícita de uma ética, entendida como filosofia moral, isto é, uma reflexão que discuta, problematize e interprete o significado dos valores morais. Ao contrário disso, as sociedades tendem a naturalizar seus valores morais ao longo das gerações, isto é, ocorre uma aceitação -generalizada. Ética de Kant Kant A moral Kantiana exclui a ideia de que possamos ser regidos se não por nós próprios. É a pessoa humana, ela própria, que é a medida e a fonte do dever. O homem é criador dos valores morais, dirige ele próprio a sua conduta. Como para Rousseau, será para Kant a consciência a fonte dos valores. Mas não se trata de uma consciência instintiva e sentimental; A Consciência moral para Kant é a própria Razão. Assim, a moral de Kant é uma moral racional: a regra da moralidade é estabelecida pela razão – O Princípio do dever é a pura Razão. A regra da ação não é uma lei exterior a que o homem se submete, mas é uma lei que a razão, Atividade Legisladora, impõe à sensibilidade. Nestas condições, o homem, no ato moral, é ao mesmo tempo, Legislador e Súbdito. É uma ética formal, vazia de conteúdo, na medida em que: 1º - não estabelece nenhum bem ou fim que tenha que ser alcançado 2º - não nos diz o que temos que fazer, mas apenas como devemos atuar O que interessa é a intenção, a coerência entre a ação e a lei, e não o fim. A ética Kantiana possui uma Forma e não um conteúdo à essa forma necessária é a Universalidade: O racional é o Universal. Kant critica as éticas tradicionais por serem: a) empíricas – cujo conteúdo é extraído da experiência e portanto não permite leis universais. b) os preceitos das éticas materiais são hipotéticos ou condicionais (meios para atingir um fim. c) as éticas materiais são heterónomas – a lei moral é recebida, não radica na razão. A vontade é determinada a atuar deste ou daquele modo por desejo ou inclinação. Na base da moral Kantiana está presente um determinado conceito de Homem. - O homem é um ser que se auto-regula a si mesmo, que se auto- determina em liberdade. - O homem possui neste sentido um poder absoluto – a sua razão autônoma e livre determina a sua própria lei. - O homem é um destino, isto é, um ser que tem que fazer-se a si mesmo – Personalização – “ao homem cabe o destino moral da personalização.” - Mas o homem, em virtude da sua constituição, participa também do mundo sensível, da animalidade. - O homem é um ser dividido dentro de si próprio. Por um lado é um Ser Empírico, enquanto livre arbítrio que pode ou não agir segundo a representação da lei moral. Por outro lado é um Ser Inteligível, na medida em que leva em si um tipo de Causalidade Livre, que se impõe como exigência absoluta e incondicional. O Homem como Ser Moral à Autonomamente à Lei Moral O que é a Lei Moral? A lei moral é para Kant, Universal, Necessária e «apriori», pois o seu fundamento não poderia ter sido tirado da experiência onde existem muitas inclinações e desejos contraditórios. A lei moral fundamenta-se na liberdade da Razão e tem origem na consciência moral, isto é, na razão autônoma. A lei moral é a lei que o homem enquanto ser racional e livre descobre em si mesmo como correspondendo à sua natureza. É uma lei intrínseca da razão. É a existência da moralidade no homem – A Personalidade – que o identifica com Deus: “Maximamente pessoa e ideal de existência personalizada, isto é, absolutamente causadora de si”. No homem a Lei Moral afirma-se como um Dever e assume a forma de Imperativo Categórico. DEVER – O que é então o dever para Kant? “A necessidade de uma ação por puro respeito à lei” “O valor moral de uma ação não radica pois em qualquer fim a atingir, mas apenas na máxima, no motivo que determina a sua realização, quando este motivo é o dever. Uma ação feita por dever tem o seu valor moral, não nofim que através dela se queira alcançar, mas na máxima pela qual ela resultou: não depende pois da realidade do objeto, mas apenas meramente do princípio do querer”. Para Kant “uma ação não é obrigatória porque é boa, é boa porque é obrigatória”. Para Kant o Dever é o Bem: A Boa Vontade é a Vontade de agir por Dever. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 5 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) A Lei Moral que se impõe por Dever assume a Forma de Imperativo Categórico. O imperativo categórico, ou da moralidade, determina a ação independentemente de todo o fim a atingir e tem o seu fundamento apenas na consciência moral. O imperativo moral é categórico (e não hipotético) sem qualquer condição. Respeita à forma e princípio donde resulta a ação (“o valor da ação moral ... vem do princípio da vontade que o produziu”) isto é a Intenção, se assim não fosse, as suas determinações ficariam sujeitas à possibilidade material de realizar a ação apreciando-lhe as consequências, então não seria categórico. Essa forma necessária é a Universalidade: O Racional é o Universal. A vontade não se determina só por leis, mas por fins, mas os fins subjetivos são relativos e só podem fundar imperativos hipotéticos. Só um fim em si pode fundar um imperativo categórico, só o homem é fim em si e tem valor absoluto, é pessoa; os objetos ou seres irracionais têm valor relativo, são coisas. Se o homem é fim em si, a sua vontade só pode estar ao serviço da razão; a vontade moral é, pois, autônoma, e há heteronomia sempre que o ser racional obedece a um móvel exterior à Razão. A lei moral é um imperativo e obriga o homem ao Dever. O próprio princípio da moral à limite prático constituído por impulsos sensíveis que leva à finitude de quem deve realizá-la . A moralidade não é racionalmente necessária de um Ser Infinito que se identifica com a Razão, mas sim a racionalidade possível de um ser que tanto pode assumir como não assumir a Razão como guia de conduta. Aqui está a Raiz da exigência paradoxal de que o homem como sujeito de Liberdade valha como Número – mas afirmando- se como Número o homem não anula a sua natureza sensível – o Ser Fenômeno. A sua numeralidade mobiliza a sua fenomenalidade. O mundo suprassensível que estabelece no ato da sua liberdade, é a forma da própria natureza sensível. Mas o sujeito moral enquanto Número não deixa se ser fenômeno – a sensibilidade, e como tal nunca se identifica com a Razão, a moralidade nunca é conformidade completa de vontade com lei moral, nunca é Santidade. Fonte: http://afilosofiadaintegracao.blogspot.com.br/2009/03/etica- de-kant.html VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 6 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM Questão 01 No contexto da cultura ocidental e na história do pensamento político e filosófico, as considerações sobre a necessidade de valores morais prévios na organização do Estado e das instituições sociais sempre foi um tema fundamental devido à importância, para esse tipo de questão, dos conceitos de bem e de mal, indispensáveis à vida em comum. Diante desse fato da história do pensamento político e filosófico, a afirmação de Espinosa, segundo a qual “Se os homens nascessem livres, não formariam nenhum conceito de bem e de mal, enquanto permanecessem livres” (ESPINOSA, 1983, p. 264), quer dizer o seguinte: a) O homem é, por instinto, moralmente livre, fato que condiciona sua ideia de ética social. b) Assim como o indivíduo é anterior à sociedade, a liberdade moral antecede noções como bem e mal. c) Os valores morais que servem de base para nossa socialização são tão naturais quanto nossos direitos. d) Não poderíamos falar de bem e de mal se não nos colocássemos além da liberdade natural. e) Não há nenhum vínculo necessário entre viver livre e saber o que são bem e mal. Questão 02 “Como toda lei prática representa uma ação possível como boa e por isso como necessária para um sujeito praticamente determinável pela razão, todos os imperativos são fórmulas da determinação da ação que é necessária segundo o princípio de uma vontade boa de qualquer maneira. No caso da ação ser apenas boa como meio para qualquer outra coisa, o imperativo é hipotético; se a ação é representada como boa em si, por conseguinte, como necessária numa vontade em si conforme à razão como princípio dessa vontade, então o imperativo é categórico”. Kant Considerando o pensamento ético de Kant e o texto acima, é correto afirmar que a) o imperativo hipotético representa a necessidade prática de uma ação como subjetivamente necessária para um ser determinável pelas inclinações. b) o imperativo categórico representa a necessidade prática de uma ação como meio para se atingir um fim possível ou real. c) os imperativos (hipotético e categórico) são fórmulas de determinação necessária, segundo o princípio de uma vontade que é boa em si mesma. d) o imperativo categórico representa a ação como boa em si mesma e como necessária para uma vontade em si conforme a razão. e) o imperativo hipotético declara a ação como objetivamente necessária independentemente de qualquer intenção ou finalidade da ação. Questão 03 “... a função própria do homem é um certo modo de vida, e este é constituído de uma atividade ou de ações da alma que pressupõem o uso da razão, e a função própria de um homem bom é o bom e nobilitante exercício desta atividade ou a prática destas ações [...] o bem para o homem vem a ser o exercício ativo das faculdade da alma de conformidade com a excelência, e se há mais de uma excelência, em conformidade com a melhor e a mais completa entre elas. Mas devemos acrescentar que tal exercício ativo deve estender-se por toda a vida, pois uma andorinha só não faz verão (nem o faz um dia quente); da mesma forma, um dia só, ou um curto lapso de tempo, não faz um homem bem-aventurado e feliz”. Aristóteles. Considerando o texto citado e o pensamento ético de Aristóteles, seguem as afirmativas abaixo: I. O bem mais elevado que o ser humano pode almejar é a eudaimonia (felicidade), havendo uma concordância geral de que o bem supremo para o homem é a felicidade, e que bem viver e bem agir equivale a ser feliz. II. A eudaimonia (felicidade) é sempre buscada por si mesma e não em função de outra coisa, pois o ser humano escolhe o viver bem como a mais elevada finalidade e por nada além do próprio viver bem. III. Definindo a eudaimonia (felicidade) a partir da função própria da alma racional e do exercício ativo das faculdades da alma em conformidade com a excelência (virtude) conclui-se que, aos seres humanos, só é possível levar uma vida constituída por momentos de felicidade decorrentes da satisfação dos desejos e paixões que não se subordinam à atividade racional. IV. A eudaimonia (felicidade) é um certo modo de vida constituído de uma atividade ou de ações por via da razão e conforme a ela, sendo o bem melhor para o homem o exercício ativo das faculdades da alma em conformidade com a excelência (virtude), que deve estender-se por toda a vida. V. A excelência (virtude) humana, como realização excelente da tarefa humana, reside no exercício ativo da racionalidade, pois a função própria de um homem bom é o bom e nobilitante exercício desta atividade ou na prática destas ações em conformidade com a virtude, sendo este o bem humano supremo e a última finalidade desiderativa humana. Das afirmativas feitas acima a) somente a afirmação I está incorreta. b) somente a afirmação III está incorreta. c) as afirmações III e V estão corretas. d) as afirmaçõesI e III estão corretas. e) as afirmações II, III e IV estão corretas. Questão 04 Elaborada nos anos de 1980, em um contexto de preocupações com o meio ambiente e o risco nuclear, a Ética do Discurso buscou reorientar as teorias deontológicas que a antecederam. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 7 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) Um exemplo está contido no texto a seguir. De maior gravidade são as consequências que um conceito restrito de moral comporta para as questões da ética do meio ambiente. O modelo antropocêntrico parece trazer uma espécie de cegueira às teorias do tipo kantiano, no que diz respeito às questões da responsabilidade moral do homem pelo seu meio ambiente. (HABERMAS, Jürgen. Comentários à Ética do Discurso. Trad. de Gilda Lopes Encarnação. Lisboa: Instituto Piaget, 1999, p.212.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre a Ética do Discurso, é correto afirmar que a ética a) abrange as ações isoladas das pessoas visando adequar-se às mudanças climáticas e às catástrofes naturais. b) corresponde à maneira como o homem deseja construir e realizar plenamente a sua existência no planeta. c) compreende a atitude conservacionista que o sistema econômico adota em relação ao ambiente. d) implica a instrumentalização dos recursos tecnológicos em benefício da redução da poluição. e) refere-se à atitude de retorno do homem à vida natural, observando as leis da natureza e sua regularidade. Questão 05 “Uma moral racional se posiciona criticamente em relação a todas as orientações da ação, sejam elas naturais, autoevidentes, institucionalizadas ou ancoradas em motivos através de padrões de socialização. No momento em que uma alternativa de ação e seu pano de fundo normativo são expostos ao olhar crítico dessa moral, entra em cena a problematização. A moral da razão é especializada em questões de justiça e aborda em princípio tudo à luz forte e restrita da universalidade.” (HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. v. I. Trad. Flávio Beno Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. p. 149.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre a moral em Habermas, é correto afirmar: a) A formação racional de normas de ação ocorre independentemente da efetivação de discursos e da autonomia pública. b) O discurso moral se estende a todas as normas de ações passíveis de serem justificadas sob o ponto de vista da razão. c) A validade universal das normas pauta-se no conteúdo dos valores, costumes e tradições praticados no interior das comunidades locais. d) A positivação da lei contida nos códigos, mesmo sem o consentimento da participação popular, garante a solução moral de conflitos de ação. e) Os parâmetros de justiça para a avaliação crítica de normas pautam-se no princípio do direito divino. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 8 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO Questão 01 Autonomia da vontade é aquela sua propriedade graças à qual ela é para si mesma a sua lei (independentemente da natureza dos objetos do querer). O princípio da autonomia é, portanto: não escolher senão de modo a que as máximas da escolha estejam incluídas simultaneamente, no querer mesmo, como lei universal. KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 1986, p. 85. De acordo com a doutrina ética de Kant: a) O Imperativo Categórico não se relaciona com a matéria da ação e com o que deve resultar dela, mas com a forma e o princípio de que ela mesma deriva. b) O Imperativo Categórico é um cânone que nos leva a agir por inclinação, vale dizer, tendo por objetivo a satisfação de paixões subjetivas. c) Inclinação é a independência da faculdade de apetição das sensações, que representa aspectos objetivos baseados em um julgamento universal. d) A boa vontade deve ser utilizada para satisfazer os desejos pessoais do homem. Trata-se de fundamento determinante do agir, para a satisfação das inclinações. Questão 02 Ao declarar que “a moral e a religião pertencem inteiramente à psicologia do erro”, Nietzsche pretendeu a) destruir os caminhos que “a psicologia utiliza para negar ou afirmar a moral e a religião”. b) criticar essa necessidade humana de se vincular a valores e instituições herdados, já que “o Homem é forjado para um fim e como tal deve existir”. c) denunciar o erro que tanto a moral quanto a religião cometem ao confundir “causa com efeito, ou a verdade com o efeito do que se considera como verdade”. d) comprovar que “a moral e a religião estão no imaginário coletivo, mas para se instalarem enquanto verdade elas precisam ser avalizadas por uma ciência institucionalizada”. Questão 03 As histórias, resultado da ação e do discurso, revelam um agente, mas este agente não é autor nem produtor. Alguém a iniciou e dela é o sujeito, na dupla acepção da palavra, mas ninguém é seu autor. ARENDT, Hannah. A condição humana. Apud SÁTIRO, A.; WUENSCH, A. M. Pensando melhor – iniciação ao filosofar. São Paulo: Saraiva, 2001. p. 24. A filósofa alemã Hannah Arendt foi uma das mais refinadas pensadoras contemporâneas, refletindo sobre eventos como a ascensão do nazismo, o Holocausto, o papel histórico das massas etc. No trecho citado, ela reflete sobre a importância da ação e do discurso como fomentadores do que chama de “negócios humanos”. Nesse sentido, Arendt defende o seguinte ponto de vista: a) a condição humana atual não está condicionada por ações anteriores, já que cada um é autor de sua existência. b) a necessidade do ser humano de ser autor e produtor de ações históricas lhe tira a responsabilidade sobre elas. c) o agente de uma nova ação sempre age sob a influência de teias preexistentes de ações anteriores. d) o produtor de novos discursos sempre precisa levar em conta discursos anteriores para criar o seu. Questão 04 A produção de mercadorias e o consumismo alteram as percepções não apenas do eu como do mundo exterior ao eu; criam um mundo de espelhos, de imagens insubstanciais, de ilusões cada vez mais indistinguíveis da realidade. O efeito refletido faz do sujeito um objeto; ao mesmo tempo, transforma o mundo dos objetos numa extensão ou projeção do eu. É enganoso caracterizar a cultura do consumo como uma cultura dominada por coisas. O consumidor vive rodeado não apenas por coisas como por fantasias. Vive num mundo que não dispõe de existência objetiva ou independente e que parece existir somente para gratificar ou contrariar seus desejos. (Christopher Lasch. O mínimo eu, 1987. Adaptado.) Sob o ponto de vista ético e filosófico, na sociedade de consumo, o indivíduo a) estabelece com os produtos ligações que são definidas pela separação entre razão e emoção. b) representa a realidade mediante processos mentais essencialmente objetivos e conscientes. c) relaciona-se com as mercadorias considerando prioritariamente os seus aspectos utilitários. d) relaciona-se com objetos que refletem ilusoriamente seus processos emocionais inconscientes. e) comporta-se de maneira autônoma frente aos mecanismos publicitários de persuasão. Questão 05 Leia. Em um documento rubricado pela Rede Global de Academias de Ciência (IAP), um grupo de pensadores da comunidade científica com sede em Trieste (Itália) que engloba 105 academias de todo o mundo alerta pela primeira vez sobre os riscos do consumo nos países do Primeiro Mundo e a falta de controle demográfico, principalmente nas nações em desenvolvimento. Na declaração da comunidade científica se indica que as pautas de consumo exacerbado do Primeiro Mundo estão se deslocandoperigosamente para os países em desenvolvimento: os milhões de telefones celulares e toneladas de “junk food” que invadem os lares pobres são claros indicadores dessa problemática. A ausência nos países pobres de políticas de planejamento familiar ou de prevenção de gravidezes precoces acaba de configurar um sombrio cenário de superpopulação. “Trata-se de dois problemas convergentes que pela primeira vez analisamos de forma conjunta”, afirma García Novo. (Francho Barón. El País, 16.06.2012. Adaptado.) VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 9 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) Um dos problemas relatados no texto está relacionado com a) a supremacia de tendências estatais de controle sobre a economia liberal. b) o aumento do nível de pobreza nos países subdesenvolvidos. c) a hegemonia do planejamento familiar nos países do Terceiro Mundo. d) o declínio dos valores morais e religiosos na era contemporânea. e) o irracionalismo das relações de consumo no mundo atual. Questão 06 A filosofia, no que tem de realidade, concentra-se na vida humana e deve ser referida sempre a esta para ser plenamente compreendida, pois somente nela e em função dela adquire seu ser efetivo. VITA, Luís Washington. Introdução à Filosofia, 1964, p. 20. Sobre esse aspecto do conhecimento filosófico, é CORRETO afirmar que a) a consciência filosófica impossibilita o distanciamento para avaliar os fundamentos dos atos humanos e dos fins aos quais eles se destinam. b) um dos pontos fundamentais da filosofia é o desejo de conhecer as raízes da realidade, investigando-lhe o sentido, o valor e a finalidade. c) a filosofia é o estudo parcial de tudo aquilo que é objeto do conhecimento particular. d) o conhecimento filosófico é trabalho intelectual, de caráter assistemático, pois se contenta com as respostas para as questões colocadas. e) a filosofia é a consciência intuitiva sensível que busca a compreensão da realidade por meio de certos princípios estabelecidos pela razão. Questão 07 Texto 1 Sobre o estupro coletivo de uma estudante de 23 anos em Nova Déli, o advogado que defende os suspeitos declarou: “Até o momento eu não vi um único exemplo de estupro de uma mulher respeitável”. Sobre esta declaração, o advogado garantiu que não tentou difamar a vítima. “Eu só disse que as mulheres são respeitadas na Índia, sejam mães, irmãs, amigas, mas diga-me que país respeita uma prostituta?!” (Advogado de acusados de estupro na Índia denuncia confissão forçada. http://noticias.uol.com.br. Adaptado.) Texto 2 Na Índia, a violência contra as mulheres tomou uma nova e mais perversa forma, a partir do cruzamento de duas linhas: as estruturas patriarcais tradicionais e as estruturas capitalistas emergentes. Precisamos pensar nas relações entre a violência do sistema econômico e a violência contra as mulheres. (Vandana Shiva, filósofa indiana. No continuum da violência. O Estado de S.Paulo, 12.01.2013. Adaptado.) Os textos referem-se ao fato ocorrido na Índia em dezembro de 2012. Pela leitura atenta dos textos, podemos afirmar que: a) segundo a filósofa, fatos como esse explicam-se pela confluência de fatores históricos e econômicos de exclusão social. b) para a filósofa, a violência contra as mulheres na Índia deve- se exclusivamente ao neoliberalismo econômico. c) as duas interpretações sugerem que a prevenção de tais atos violentos depende do resgate de valores religiosos. d) sob a ótica do advogado, esse fato ocorreu em virtude do desrespeito aos direitos humanos. e) as duas interpretações limitam-se a reproduzir preconceitos de gênero socialmente hegemônicos naquele país. Questão 08 Quanto à deliberação, deliberam as pessoas sobre tudo? São todas as coisas objetos de possíveis deliberações? Ou será a deliberação impossível no que tange a algumas coisas? Ninguém delibera sobre coisas eternas e imutáveis, tais como a ordem do universo; tampouco sobre coisas mutáveis, como os fenômenos dos solstícios e o nascer do sol, pois nenhuma delas pode ser produzida por nossa ação. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2007. (adaptado). O conceito de deliberação tratado por Aristóteles é importante para entender a dimensão da responsabilidade humana. A partir do texto, considera-se que é possível ao homem deliberar sobre a) coisas imagináveis, já que ele não tem controle sobre os acontecimentos da natureza. b) ações humanas, ciente da influência e da determinação dos astros sobre as mesmas. c) fatos atingíveis pela ação humana, desde que estejam sob seu controle. d) fatos e ações mutáveis da natureza, já que ele é parte dela. e) coisas eternas, já que ele é por essência um ser religioso. Questão 09 Na obra de Aristóteles, a Ética é uma ciência prática, concepção distinta da de Platão, referida a um tipo de saber voltado à ação. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles destaca uma excelência moral determinante para a constituição de uma vida virtuosa. Esta excelência moral tão importante é VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 10 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE FIXAÇÃO Questão 01: Resolução: Resposta: Alternativa A Questão 02: Resolução: Resposta: Alternativa C Questão 03: Resolução: Resposta: Alternativa C Questão 04: Resolução: . Resposta: Alternativa D Questão 05: Resolução: Resposta: Alternativa E Questão 06: Resolução: Resposta: Alternativa B Questão 07: Resolução: Resposta: Alternativa A Questão 08: Resolução: Resposta: Alternativa C Questão 09: Resolução: A ética aristotélica é uma reflexão específica sobre os costumes. Este trabalho de Aristóteles é extremamente inovador, pois Platão nunca tratou os costumes desta maneira. Diferentemente de Aristóteles, Platão investiga alguns costumes específicos, mas não fala especificamente deles. Na República, por exemplo, ele critica a religião da cidade, mas isto simplesmente porque a religião da cidade fornece um modelo ruim de deuses irracionais, ou seja, Platão não está preocupado com o costume religioso, mas com o fato de a religião se mostrar ser um princípio político que fundamentaria mal o costume. Já Aristóteles investiga justamente o costume e o procedimento através do qual um bom costume é estabelecido – a religião e a teologia já não é uma preocupação de Aristóteles. Não por outro motivo, a prudência é extremamente importante para o discípulo de Platão, quer dizer, o que importaria seriam as preleções em política pelas quais o sujeito toma consciência da variedade das ações que os homens realizam, e passa a escolher e justificar de maneira racional as suas próprias. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA Prof. Márcio Michiles ESTADO E CONTRATO SOCIAL INTRODUÇÃO - NICOLAU MAQUIAVEL Nicolau Maquiavel, Nasceu na cidade italiana de Florença em 3 de maio de 1469 e morreu, na mesma cidade, em 21 de junho de 1527. Maquiavel, foi historiador, diplomata, filósofo, estadista e político italiano da época do Renascimento, Filho de pais pobres, Maquiavel desde cedo se interessou pelos estudos. Aos sete anos de idade começou a aprender latim. Logo depois passou a estudar ábaco e língua grega antiga. Aos 29 anos de idade, ingressou na vida política, exercendo o cargo de secretário da Segunda Chancelaria da República de Florença. Porém, com a restauração da família Médici ao poder, Maquiavel foi afastado da vida pública. Nesta época, passou a dedicar seu tempo e conhecimentos para a produçãode obras de análise política e social. Maquiavel parece não ter tido uma posição política clara. Quando os Médicis retomaram o governo, continuou a trabalhar incansavelmente para cair nas boas graças da família. O que prova que, ou era extraordinariamente ambicioso, ou acreditava de fato no serviço do estado, não lhe importando o grupo ou o partido político que detinha as rédeas do governo. Os Médicis, de qualquer maneira, nunca confiaram inteiramente nele, já que tinha sido um funcionário importante da república. Feito prisioneiro, torturaram-no em 1513 acabando por ser banido para a sua propriedade em San Casciano, mas esta atuação dos Médicis não o impediu de tentar novamente ganhar as boas graças da família. Foi durante o seu exílio em San Casciano, quando tentava desesperadamente regressar à vida pública, que escreveu as suas principais obras: Os discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, O Príncipe, A História de Florença, e duas peças. Muitas destas obras, como O Príncipe, foram escritas com a finalidade expressa de conseguir uma nomeação para o governo dos Médicis. A extraordinária novidade, tanto dos Discursos como do Príncipe, foi a separação da política da ética. A tradição ocidental, exatamente como a tradição chinesa, ligava tanto a ciência como a atividade política à ética. Aristóteles tinha resumido esta posição quando definiu a política como uma mera extensão da ética. A tradição ocidental, via a política em termos claros, de certo e errado, justo e injusto, correto e incorreto, e assim por diante. Por isso, os termos morais usados para avaliar as ações humanas eram os termos empregues para avaliar as ações políticas. Maquiavel foi o primeiro a discutir a política e os fenômenos sociais nos seus próprios termos sem recurso à ética ou à jurisprudência. De fato pode-se considerar Maquiavel como o primeiro pensador ocidental de relevo a aplicar o método científico de Aristóteles e de Averróis à política. Fê-lo observando os fenômenos políticos, e lendo tudo o que se tinha escrito sobre o assunto, e descrevendo os sistemas políticos nos seus próprios termos. Para Maquiavel, a política era uma única coisa: conquistar e manter o poder ou a autoridade. Tudo o resto - a religião, a moral, etc. -- que era associado à política nada tinha a ver com este aspecto fundamental - tirando os casos em que a moral e a religião ajudassem à conquista e à manutenção do poder. A única coisa que verdadeiramente interessa para a conquista e a manutenção do poder manter é ser calculista; o político bem sucedido sabe o que fazer ou o que dizer em cada situação. Com base neste princípio, Maquiavel descreveu no Príncipe única e simplesmente os meios pelos quais alguns indivíduos tentaram conquistar o poder e mantê-lo. A maioria dos exemplos que deu são falsos. De fato, o livro está cheio de momentos intensos, já que a qualquer momento, se um governante não calculou bem uma determinada ação, o poder e a autoridade que cultivou tão assiduamente fogem-lhe de um momento para o outro. O mundo social e político do Príncipe é completamente imprevisível, sendo que só a mente mais calculista pode superar esta volatilidade. Maquiavel, tanto no Príncipe como nos Discursos, só tece elogios aos vencedores. Por esta razão, mostra admiração por figuras como os Papa Alexandre VI e Júlio II devido ao seu extraordinário sucesso militar e político, sendo eles odiados universalmente em toda a Europa como papas ímpios. A sua recusa em permitir que princípios éticos interferissem na sua teoria política marcou-o durante todo o Renascimento, e posteriormente, como um tipo de anti-Cristo, como mostram as muitas obras com títulos que incluíam o nome anti-Maquiavel. Em capítulos como «De que modo os príncipes devem cumprir a sua palavra» cap. XVIII) Maquiavel afirma que todo o julgamento moral deve ser secundário na conquista, consolidação e manutenção do poder. A resposta à pergunta formulada mais acima, por exemplo, é que: «Todos concordam que é muito louvável um príncipe respeitar a sua palavra e viver com integridade, sem astúcias nem embustes. Contudo, a experiência do nosso tempo mostra-nos que se tornaram grandes príncipes que não ligaram muita importância à fé dada e que souberam cativar, pela manhã, o espírito dos homens e, no fim, ultrapassar aqueles que se basearam na lealdade». Pode ajudar na compreensão de Maquiavel imaginar que não está a falar sobre o estado em termos éticos mas sim em termos cirúrgicos. É que Maquiavel acreditava que a situação italiana era desesperada e que o estado Florentino estava em perigo. Em vez de responder ao problema de um ponto de vista ético, Maquiavel preocupou-se genuinamente em curar o estado VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 2 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) para o tornar mais forte. Por exemplo, ao falar sobre os povos revoltados, Maquiavel não apresenta um argumento ético, mas cirúrgico: «os povos revoltados devem ser amputados antes que infectem o estado inteiro.» O único valor claro na obra de Maquiavel é a virtú (virtus em Latim), que é relacionado normalmente com «virtude». Mas de fato, Maquiavel utiliza-a mais no sentido latino de «viril», já que os indivíduos com virtú são definidos fundamentalmente pela sua capacidade de impor a sua vontade em situações difíceis. Fazem isto numa combinação de caráter, força, e cálculo. Numa das passagens mais famosas do Príncipe, Maquiavel descreve qual é a maneira mais apropriada para responder a volatilidade do mundo, ou à Fortuna, comparando-a a uma mulher: «la fortuna é donna». Maquiavel refere-se à tradição do amor cortesão, onde a mulher que constitui o objecto do desejo é abordada, cortejada e implorada. O príncipe ideal para Maquiavel não corteja nem implora a Fortuna, mas ao abordá-la agarra-a virilmente e faz dela o que quer. Esta passagem, já escandalosa na época, representa uma tradução clara da ideia renascentista do potencial humano aplicado à política. É que, de acordo com Pico della Mirandola, se um ser humano podia transformar-se no que quisesse, então devia ser possível a um indivíduo de caráter forte pôr ordem no caos da vida política. Thomas Hobbes Thomas Hobbes foi um filósofo que nasceu (em Wesport 5/4/1588) e faleceu na Inglaterra (em Hardwick Hall, 4/12/1679). Hobbes ficou sob os cuidados do seu tio, visto que seu pai, um vigário, teve de ir embora depois de participar de uma briga na porta da igreja onde trabalhava. Estudou em Magdalen Hall de Oxford e, em 1608, foi trabalhar com a família Cavendish como mentor de um de seus filhos, a quem acompanhou pelas suas viagens pela França e Itália entre 1608 e 1610. Quando seu aluno morreu, em 1628, voltou à França, desta vez para se tutor do filho de Gervase Clifton. Permaneceu na França até 1631, quando os Cavendish o solicitaram novamente para ser mentor de outro dos seus filhos. Em 1634, acompanhado de seu novo aluno, realizou outra viagem ao continente, ocasião que aproveitou para conversar com Galileu Galilei e outros pensadores e cientistas da época. Em 1637, voltou à Inglaterra, mas a situação política, que anunciava a guerra civil, o levou a abandonar seu país e a estabelecer-se em Paris em 1640. Pouco tempo antes, Hobbes tinha feito circular entre seus amigos um exemplar manuscrito de sua obra: Elementos da lei natural e política, apresentados em dois tratados distintos, foram editados em 1650. Em 1651, abandonou a França e voltou à Inglaterra, levando consigo o manuscrito do Leviatã, sua obra mais conhecida e que seria editada em Londres, naquele ano. Os contatos que Hobbes teve com cientistas de sua época, que foram decisivos para a formação de suas ideias filosóficas, o levaram a fundir sua preocupaçãocom problemas sociais e políticos com seu interesse pela geometria e o pensamento dos filósofos mecanicistas. Seu pensamento político pretende ser uma aplicação das leis da mecânica aos campos da moral e da política. As leis que regem o comportamento humano, segundo Hobbes, são as mesmas que regem o universo e são de origem divina. De acordo com elas, o homem em estado natural é antissocial por natureza e só se move por desejo ou medo. Sua primeira lei natural, que é a autoconservação, o induz a impor-se sobre os demais, de onde vem uma situação de constante conflito: a guerra de todos contra todos, na qual o homem é um lobo para o homem. Para poder construir uma sociedade é necessário, portanto, que cada indivíduo renuncie a uma parte de seus desejos e chegue a um acordo mútuo de não aniquilação com os outros. Trata-se de estabelecer um contrato social, de transferir os direitos que o homem possui naturalmente sobre todas as coisas em favor de um soberano dono de direitos ilimitados. Este monarca absoluto, cuja soberania não reside no direito divino, mas nos direitos transferidos, seria o único capaz de fazer respeitar o contrato social e garantir, desta forma, a ordem e a paz, exercendo o monopólio da violência que, assim, desapareceria da relação entre indivíduos. Hobbes não se contentou em rejeitar o direito divino do soberanos, fez tábua rasa de todo o edifício moral e político da Idade Média. A soberania era em Hobbes a projeção no plano político de um individualismo filosófico ligado ao nominalismo, que conferia um valor absoluto à vontade individual. A conclusão das deduções rigorosas do pensador inglês era o gigante Leviatã, dominando sem concorrência a infinidade de indivíduos, de que tinha feito parte inicialmente, e que tinham substituído as suas vontades individuais à dele, para que, pagando o preço da sua dominação, obtivessem uma proteção eficaz. Indivíduos que estavam completamente entregues a si mesmos nas suas atividades normais do dia-a-dia. Infinidade de indivíduos, porque não se encontra em Hobbes qualquer referência nem à célula familiar, nem à família alargada, nem tão pouco aos corpos intermédios existentes entre o estado e o indivíduo, velhos resquícios da Idade Média. Hobbes refere-se a estas corporações no Leviatã, mas para as criticar considerando- as «pequenas repúblicas nos intestinos de uma maior, como vermes nas entranhas de um homem natural». Os conceitos de «densidade social» e de «interioridade» da vida religiosa ou espiritual, as noções de sociabilidade natural do homem, do seu instinto comunitário e solidário, da sua necessidade de participação, são completamente estranhos a Hobbes. É aqui que Hobbes se aproxima de Maquiavel e do seu empirismo radical, ao partir de um método de pensar rigorosamente dedutivo. A humanidade no estado puro ou natural era uma selva. A humanidade no estado social, constituído por sociedades civis ou políticas distintas, por estados soberanos, não tinha que recear um regresso à selva no relacionamento entre indivíduos, a partir do momento em que os benefícios consentidos do poder absoluto, em princípio ilimitado, permitiam ao homem deixar de ser um lobo para os outros homens. Aperfeiçoando a tese de Maquiavel, Hobbes defende que o poder não é um simples fenômeno de força, mas uma força institucionalizada canalizada para o direito (positivo), - «a razão em acto» de R. Polin - construindo assim a primeira teoria moderna do Estado. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 3 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) Deste Estado, sua criação, os indivíduos não esperam a felicidade mas a Paz, condição necessária ao prosseguimento da felicidade. Paz que está subordinada a um aumento considerável da autoridade - a do Soberano, a da lei que emana dele. Mas, mesmo parecendo insaciável, esta invenção humana com o nome de um monstro bíblico, não reclama o homem todo. De fato, em vários aspectos o absolutismo político de Hobbes aparece como uma espécie de liberalismo moral. Hobbes mostra-se favorável ao desenvolvimento, sob a autoridade ameaçadora da lei positiva, das iniciativas individuais guiadas unicamente por um interesse individual bem calculado, e por um instinto racional aquisitivo. Jean Bodin Jean Bodin nasceu em Angers, França 1530, e faleceu em Laon, também na França em 1596, foi um jurista francês, membro doParlamento de Paris e professor de Direito em Toulouse. Também adepto da teoria do direito divino dos reis, Jean Bodin tornou se conhecido como o Procurador Geral do Diabo devido a sua incansável perseguição a feiticeiras e hereges Ele é considerado por muitos o pai da Ciência Política devido a sua teoria sobre soberania. Baseou-se nesta mesma teoria para afirmar que a legitimação do poder do homem sobre a mulher e da monarquia sobre a gerontocracia. Além de preocupar-se com questões de ordem política, Bodin também era um famoso perseguidor das manifestações heréticas de sua época. Sua ação contra valores religiosos considerados anticristãos acabou deixando-o conhecido como “procurador do Diabo”. Entre suas principais obras damos destaque espacial à “República”. Convivendo com os intensos conflitos religiosos que tomaram conta da França do século XVI, Bodin vai dedicar boa parte de sua reflexão política à questão da soberania. Nesse sentido, um dos mais marcantes valores pregados pelo seu pensamento consiste em defender a indivisibilidade da soberania. Segundo o autor, um sistema político em que a delegação de poderes se institui enquanto prática comum promove a diluição da soberania necessária a um governo estável. Além disso, Bodin acredita que a idéia de um governo misto gera uma falsa impressão de que não há a ação de um setor politicamente soberano. Para confirmar essa idéia ele toma como exemplo as práticas políticas instituídas no interior da República romana. De acordo com sua interpretação, o fato da população romana ter o direito de indicar quais pessoas ocupariam os cargos de magistratura, não limita os diversos poderes concedidos a esses mesmos representantes políticos. Dessa maneira, Jean Bodin não aceita a possibilidade de uma forma de governo pautada na ausência de soberania. Caso não haja um setor politicamente soberano, seja minoritário ou majoritário, qualquer governo acaba se transformando em um verdadeiro regime de natureza anárquica. Por isso esse pensador francês vai pensar no “estado” que a soberania assume em diferentes contextos políticos, para assim, julgar qual a classificação mais adequada ao seu tipo de governo. No momento em que a hegemonia é assumida pela figura do príncipe, temos a instalação de uma monarquia. Em experiências onde a soberania é assumida pela grande maioria da população, acredita o pensador que o estado é popular. Por fim, caso haja um grupo minoritário controlando as instituições políticas, haveria a formação de um regime aristocrático. Além disso, Bodin também vai admitir que cada tipo de estado assuma diferentes formas de governo. Em uma monarquia, por exemplo, ele pode admitir que o rei tenha uma forma de governo democrática ao permitir que diferentes grupos sociais participem da administração pública. Ao mesmo tempo, quando a monarquia restringe a participação popular ou concentra as decisões nas mãos do rei, o governo passa a ganhar traços claramente despóticos. Dessa maneira, Bodin oferece meios para analisar de forma diversa os mais diferentes estados. Por fim, sua obra se sustenta veementemente na idéia de que seria impossível conceber um governo pautado em grupos igualitariamente favorecidos. Ao naturalizar as desigualdades,Bodin começa a levantar argumentos onde indica que a desigualdade e a presença de um indivíduo soberano não se tratam de um costume socialmente constituído, mas uma forma claramente perceptível em diferentes manifestações de ordenação da natureza. Dessa forma, Jean Bodin também utiliza uma argumentação de traço fortemente religioso para defender o regime monárquico. Segundo o próprio autor, “todas as leis da natureza nos guiam para a monarquia; seja observando esse pequeno mundo que é nosso corpo, seja observando esse grande mundo, que tem um soberano Deus; seja observando o céu, que tem um só Sol”. Por isso, esse teórico absolutista será considerado um dos defensores do “direito divino dos reis”. Jacque Bossuet Jacques Bossuet foi um Orador francês, nascido em 1627 e falecido em 1704, considerado uma das personalidades mais influentes em assuntos religiosos, políticos e culturais da França da segunda metade do século XVII. Oriundo de uma família de magistrados, formou-se em Teologia, permanecendo como cônego em Metz até 1669. Com uma extraordinária vocação para a oratória, ganhou fama com os seus sermões. Bossuet concebeu o príncipe como um agente envolvido por uma auréola de sacralidade e de mistério. A soberania verticalizada do monarca, que estaria em comunhão com a vontade mantenedora do mundo, faria da realeza um instrumento de intervenção divina. Isso ocorreria para orientar a sociedade política, sempre no sentido da realização do bem público. Como afirmou Mircea Eliade, em O sagrado e o profano, nenhum mundo é possível sem a verticalidade, e essa dimensão por si só evoca a transcendência. Bossuet enxergava a solução dos problemas políticos que afligiam a sociedade na ação do soberano. Na Política extraída das Sagradas Escrituras, tanto quanto no VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 4 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) Discursos sobre a história universal, há uma grande esperança colocada sobre a figura protetora do príncipe. O príncipe virtuoso nos preceitos da fé cristã seria a chave de toda a ação política, que não somente estimularia e asseguraria a paz entre os homens, como também levaria ao império absoluto da religião do Deus verdadeiro. Nesse sentido, os textos de Bossuet formam sempre um denso catálogo dos valores morais que o soberano deveria perseguir, do mesmo modo que encerram o elenco dos vícios, em relação aos quais o monarca deveria estabelecer uma prudente distância. Não é demais lembrar que a ordem do mundo repousava sobre seus ombros, segundo a crença do escritor. Do príncipe, Deus exigiria uma prestação de contas mais severa. Assim, a temática do rei- artífice da salvação pública é a chave para se compreender a função da realeza no pensamento político de Bossuet. A presença da realeza sagrada estimularia a ordem e a estabilidade no reino, inibindo os impulsos destrutivos provocados pela inveja e pela tendência natural dos homens para a violência. Como vemos, o piedoso Bossuet não está tão distante do ímpio Hobbes, ao menos em matéria referente à concepção da natureza humana. Essas infiltrações hobbesianas são muito comuns na Politique. No entanto, a favor de Aristóteles – e, portanto, contra Hobbes –, ele acreditava que a sociabilidade era um impulso natural entre os homens. Mas a sua visão cristã da história levava-o a considerar que os homens foram desnaturados pelo pecado. Daí a necessidade de um poder soberano aos quais tinham de se submeter. Então, na ausência mesmo que temporária da realeza, liberar-se-ia o velho espírito desagregador entre os homens, que levaria muito depressa às idolatrias e ao caos. Isso fez Bossuet refletir que, na época do bezerro de ouro, “Tudo era Deus, exceto Deus mesmo”. O medo da desagregação do corpo político e o problema da insegurança induzem os povos a cercarem seus reis de cuidado. Como ele afirmou na Política extraída das Sagradas Escrituras, o príncipe é um bem público e cada um deve estar muito preocupado em conservá-lo. A vida do príncipe é vista como a salvação de todo o povo. É uma infelicidade a um Estado ser privado dos conselhos e da sabedoria de um príncipe experimentado e ser submetido a novos senhores que, frequentemente, aprendem a ser sábios à custa do povo. Absoluto não é Arbitrário O bispo teve o cuidado de separar o que ele denominou de gouvernement absolu (governo absoluto), no qual os súditos gozam de eficaz proteção de uma autoridade ligada às tradições e pelo que é ditado da razão, do outro, o gouvernement arbitraire (o governo arbitrário ou tirânico), no qual todo os súditos são escravos sacrificados a um déspota que não se orienta pela lei e pelos costumes, mas sim pelo capricho e pelo ato discricionário. Ao fundir a teologia com a política, Bossuet foi considerado pelos tratadistas como um pensador superado no seu próprio século, mas isto não impediu que sua influência se projetasse por muito tempo, estendendo-se inclusive para o século XIX adentro servindo como alimento ideológico aos tradicionalistas reacionários da Espanha (primeiro com D.Fernando VII e depois com D.Carlos) e Portugal (o príncipe D. Miguel, apoiado por D.Carlota Joaquina). Em contraposição ao ‘Leviatã’ de Hobbes, o entendimento da Monarquia Absoluta de Bossuet está longe de aceitar a existência aterradora de um estado-gigante exercendo seu poder uniforme sobre uma massa de indivíduos isolados. O Monarca Absoluto dele é um sol, mais ilumina e atrai do que oprime. É a estrela- maior de uma constelação formada por uma hierarquia de vassalos e súditos ligados pelo respeito comum aos antigos costumes e às instituições estabelecidas, da mesma forma como as leis gravitacionais de Newton explicavam a conformidade do Cosmo num todo equilibrado e harmônico. Interessa ainda ressaltar a famosa passagem de advertência que Bossuet faz aos príncipes, alertando-os para a sua mortalidade: ‘Vocês são filhos do Todo-Poderoso’, escreveu ele, ‘é ele quem estabelece vosso poder pelo bem do governo humano. Mas ó deuses de lama e pó, vocês morrem como homens’. Assim, depois da monarquia francesa ter afastado os ingleses do continente, de ter neutralizado e depois banidos para sempre os huguenotes e conseguido domesticar e enquadrar a nobreza feudal, ela estava pronta para assumir ares divinos, encontrando na pessoa de Luis XIV a sua melhor personificação. A nobre linhagem da monarquia francesa Bossuet fez mais ainda. Num ensaio anterior ao Politique, intitulado Discours sur l´Histoire Universelle (Discurso sobre a História Universal, 1678-1681) discorre sobre as várias etapas vencidas pela história desde os tempos de Adão até Carlos Magno, associando o reino de Luis XIV a uma linhagem de eventos extraordinários que marcaram a humanidade desde a Criação. É um enorme afresco que partindo do primeiro homem passa por Noé e o dilúvio, por Abraão, Moisés, pela queda de Tróia, pela fundação do Templo por Salomão, pela fundação de Roma por Rômulo, por Ciro e a reconstrução do Templo de Jerusalém, pela vitória definitiva de Cipião sobre Cartago, pelo nascimento de Jesus Cristo, pela adesão de Constantino ao cristianismo e, por último, culmina no estabelecimento de um novo império por parte de Carlos Magno. A monarquia francesa dos Bourbon é, por conseguinte, a herdeira legitima e estágio derradeiro desta gigantesca epopéia que remonta aos primeiros momentos da humanidade e aos patriarcas fundadores da sociedade, sendo que a França - produto direto de patrocinadores eméritos e daquele grande conquistador, tendo igual valor aos da antiguidade - tem como missão ‘superá-los a todos em piedade, em sabedoria e na justiça’.(*) (*) Certamente foi esta identificação de Luis XIV com os feitos épicos dos príncipes do passado, exaltada por Bossuet, quem inspirou o pintor Charles Le Brun a compor os magníficos painéis de Versalhes que explicitamente fazem a associação das campanhas militares do Rei-Sol com as façanhas dos conquistadores antigos. L u i s X I V VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 5 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) O Rei-Máquina Para abastecer as 50 fontes, os canais e mais de 600 chafarizes espalhados pelos jardins de Versalhes, foi preciso conceber um sistema especial de irrigação e abastecimento de água. O projeto do Marly-la-machine foi então levado a efeito por obra do arquiteto Jules Hardouin Mansart (que continuou conduzindo Versalhes depois da morte do arquiteto Le Vau) e do pintor Charles le Brun que, entre 1682 e 1687, construíram um engenhoso aparelho de sucção de água colocado à beira do Rio Sena. Dali ele bombeava o necessário colina acima para um conjunto de reservatórios de onde a água, aproveitando-se das leis gravitacionais, tomava o caminho dos jardins. Inspirando-se naquele perfeito maquinismo é que Jean-Marie Apostolidès, professor em Harvard, escreveu o ensaio Le roi- machine (O rei-máquina,1993) analisando a estruturação do poder estatal de Luis XIV. Do mesmo modo que o engenho de Marly-la-machine regava as árvores e as plantas e fazia jorrar tudo em Versalhes, assim os ideólogos do Direito Divino entendiam a função do monarca. Dele era a força que provia o reino, inundando-o com a prosperidade e o bem estar geral. Esta simetria do Estado Monárquico com uma máquina perfeita e com a racionalidade em geral, por igual foi decorrente de um século que se deixou fascinar pelos novos engenhos que brotavam em todas as partes. Não foi sem motivos que os dois maiores pensadores da França dedicaram-se à matemática (Descartes) e até ao invento da máquina de calcular (Pascal): era o espírito do tempo. Fonte: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/politica/2009/05/15/000.htm As estruturas monárquicas ganharam força e com o tempo declinaram, as amarras postas aos burguesas que garantiam certa tranquilidade aos reis foram gradativamente sendo minadas e a política passou a ser discutida como elemento de propriedade das massas, ora na Inglaterra do século XVII e ou na França do século XVIII, os centros de debates ou mesmo as escolas norteavam uma nova forma de pensar. A liberdade era a bola da vez. Laissez-faire, laissez-passer, le monde fait peur lui même. Fonte: http://histria-cma- canoas.blogspot.com.br/2011/07/iluminismo-revolucao-no-campo- das.html Os pensadores Iluministas se seguravam no desejo pela liberdade e nos desmandos do Rei e da Igreja para garantir que todas as pessoas pudessem sair do jugo e da opressão do Estado e poder compor as estruturas políticas da Nação. Essa corrente filosófica surgida na Europa do século XVII, vinha para abalar a Igreja e o poder Absoluto do Rei, o maior problema era a resistência do próprio povo, acostumado a ser guiado pelo poder absoluto, manteve as amarras por décadas. Vejamos os principais pensadores: - John Locke (1632-1704), ele acreditava que o homem adquiria conhecimento com o passar do tempo através do empirismo; Considerado um dos mais importantes pensadores da doutrina liberal, John Locke nasceu em 1632, na cidade de Wrington, Somerset, região sudoeste da Inglaterra. Era filho de um pequeno proprietário de terras que serviu como capitão da cavalaria do Exército Parlamentar. Mesmo tendo origem humilde, seus pais tiveram a preocupação de dar ao jovem Locke uma rica formação educacional que o levou ao ingresso na academia científica da Sociedade Real de Londres. Antes desse período de estudos na Sociedade Real, Locke já havia feito vários cursos e frequentado matérias que o colocaram em contato com diversas áreas ligadas às Ciências Humanas. Refletindo a possibilidade de integração dos saberes, o jovem inglês nutriu durante toda a sua vida um árduo interesse por áreas distintas do conhecimento humano. Apesar de todo esse perfil delineado, não podemos sugerir que Locke sempre teve tendências de faceta liberal. Quando começou a se interessar por assuntos políticos, Locke inicialmente defendeu a necessidade de uma estrutura de governo centralizada que impedisse a desordem no interior da sociedade. Sua visão conservadora e autoritária se estendia também ao campo da religiosidade, no momento em que ele acreditava que o monarca deveria interferir nas opções religiosas de seus súditos. Contudo, seu interesse pelo campo da filosofia modificou paulatinamente suas opiniões. Um dos pontos fundamentais de seu pensamento político se transformou sensivelmente quando o intelectual passou a questionar a legitimidade do direito divino dos reis. A obra que essencialmente trata desse assunto é intitulada “Dois Tratados sobre o Governo” e foi publicada nos finais do século XVII. Em suas concepções, Locke defendia o estabelecimento de práticas políticas que não fossem contra as leis naturais do mundo. Além disso, esse proeminente pensador observou muitos de seus interesses no campo político serem tematizados no interior de seu país quando presenciou importantes acontecimentos referentes à Revolução Inglesa. Em sua visão, um poder que não garantisse o direito à propriedade e à proteção da vida não poderia ter meios de legitimar o seu exercício. Ainda sob tal aspecto, afirmou claramente que um governo que não respeitasse esses direitos deveria ser legitimamente deposto pela população. No que se refere à propriedade, Locke se utiliza de argumentos de ordem teológica para defender a sua própria existência. Segundo ele, o mundo e o homem são frutos do trabalho divino e, por isso, devem ser vistos como sua propriedade. Da mesma forma, toda riqueza que o homem fosse capaz de obter por meio de seu esforço individual deveriam ser, naturalmente, de sua propriedade. Interessado em refletir sobre o processo de obtenção do conhecimento e a importância da educação para o indivíduo, Locke foi claro defensor do poder transformador das instituições de ensino. De acordo com seus ensaios, o homem nascia sem dominar nenhuma forma de conhecimento e, somente com o passar dos anos, teria a capacidade de acumulá-lo. A partir dessa premissa é que o autor britânico acreditava que as mazelas eram socialmente produzidas e poderiam ser superadas pelo homem. O reconhecimento do legado de Locke ocorreu quando ele ainda era vivo. Durante a vida, teve a oportunidade de ocupar importantes cargos administrativos e exerceu funções de caráter diplomático. Na Inglaterra, chegou a ocupar o cargo de membro VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 6 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) do Parlamento e defendeu o direito dessa instituição indicar os ministros que viessem a compor o Estado. Respeitado por vários outros representantes do pensamento liberal, John Locke faleceu em 1704, na cidade de Oates, Inglaterra. - Voltaire (1694-1778), ele defendia a liberdade de pensamento e não poupava crítica a intolerância religiosa; Voltaire é um dos grandes nomes do Iluminismo e seus escritos se caracterizam pela ironia, vivacidade e polêmica, especialmente contra as injustiças e a superstição. É um filósofo deísta, ou seja, admite a existência de Deus, mas nega a qualquer igreja o direito de ser o seu representante. Defende o que ele chama de religião natural e vê Deus como um ser distante do mundo, responsável somente pela sua criação e que não interfere na história doshomens. Além disso, é considerado como cético, laico e anticlerical. Em seu pensamento político Voltaire não acreditava que as nações de sua época estivessem prontas para se tornarem democráticas e também não defendia a república, pois pensava que o povo não estava pronto para assumir esses dois modos de governo. Não via com bons olhos a oligarquia e defendia uma monarquia absoluta esclarecida. Em algumas de suas obras defende a liberdade política e critica a intolerância religiosa, tendo por mote a igualdade, justiça e tolerância. Foi contra a tortura, a pena de morte, a vivisseção e a crueldade imposta aos animais de criação, tinha ainda simpatia pelo vegetarianismo. Os homens selvagens são livres e os civilizados tem que ser tratados com igualdade pela lei, pois muitas vezes são escravos da guerra e da injustiça. Economicamente defende os primórdios do pensamento liberal. Em suas viagens pela Holanda e Inglaterra ficou admirado com a tolerância religiosa, a liberdade de expressão de novas ideias políticas, científicas e filosóficas difundida nesses países. Se impressiona também com as novas descobertas científicas de Newton e o empirismo de Locke. Desses dois autores ele tira sua defesa da pesquisa científica baseada na experimentação e na busca de leis comuns que explicassem os mais diversos fenômenos naturais. Seguidor do empirismo, Voltaire defende a pesquisa científica sem a obediência e a dependência das verdades religiosas. Voltaire acredita na existência de Deus e diz que se existe um relógio é porque existe também um relojoeiro, ou seja, a prova da existência de Deus está na organização e na disposição do universo, se existe uma obra é porque existe o artesão, o idealizador e construtor dessa obra, esse artesão é Deus, criador desse universo. Segundo ele, se Deus não existisse teríamos que inventá-lo, pois toda natureza grita que ele existe. O Deus de Voltaire é o grande arquiteto dessa máquina de funcionamento perfeito que é o universo. O Deus de Voltaire não divide as pessoas nem é a causa da intolerância, é um Deus universal, da mesma forma que a razão é comum a todos os homens. Crer em Deus é acreditar em algo evidente, mas a evidência da existência de Deus é possibilitada pela razão e não pela fé. Deus fez o universo, mas não intervêm mais nele, e, portanto o homem é um ser livre. O filósofo critica os textos bíblicos e coloca em dúvida a sua fundamentação histórica e a legitimidade moral de boa parte deles. Foram grandes as críticas de Voltaire à Igreja Católica que ele considera infame, supersticiosa, ridícula, absurda, suja de sangue e responsável pelo fanatismo e pela intolerância religiosa. Em substituição à Igreja Católica ele defende uma religião natural baseada em uma moral natural, tolerante e que busca unir os homens espiritualmente respeitando as diferenças culturais. Por outro lado Voltaire é também contrário ao materialismo, ao espiritualismo e ao ateísmo. Considera esse último destruidor das virtudes humanas, diz que para uma sociedade é melhor ter uma religião falsa do que não ter nenhuma. Critica ainda o Islã, também pelo seu fanatismo. Para ele a filosofia é o espírito crítico que vai contrapor a tradição para poder diferenciar o que verdadeiro do que é falso. - Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), ele defendia a ideia de um estado democrático sob os princípios da Vontade Geral (maioria); Rousseau era antes de tudo um filósofo especulativo, que criou um sistema contraditório, e tentou ser uma perversão do dogma católico do pecado original. Para ele, o homem nasce naturalmente bom, no mesmo estado de graça do casal original da Bíblia, mas se a Bíblia afirma que a curiosidade do homem em provar do fruto da árvore do bem e do mal foi a causa da sua queda, Rousseau atribui a tendência do homem para o mal à vida em sociedade. Rousseau não apresenta provas da sua tese, e suas teorias perigosas começam aí. Rousseau identifica o mal com a necessidade que o homem tem de criar novas necessidades, que são fontes de outras privações; com a desigualdade, que é fruto da propriedade privada; e com a escravatura, mesmo no sentido do rei absoluto. Rousseau inverte a filosofia Tomista que havia declarado que a natureza humana é boa no sentido metafísico, mas não no sentido histórico. O homem para São Tomás não é bom no seu começo. Rousseau confunde natureza metafísica com o sentido histórico, dizendo que o homem é bom em sua origem histórica, e que a pureza foi concedida a ele por Deus, sendo necessária a sua volta. Na teologia católica, o homem nasce livre em sua razão, mas sua ação fica limitada pela vida em sociedade; já em Rousseau, a liberdade é um ato puro e perfeição pura de humanidade. Na filosofia católica, os homens em sua natureza individual não são iguais de maneira alguma. A cada um Deus concedeu dons variados de inteligência e na ordem da Graça. Quanto à justiça, os homens são iguais perante à lei, mas a cada um cabe um tipo de pena adequado à seu crime, nesse ponto a justiça deve ser desigual. Na filosofia de Rousseau, a igualdade deve ser imposta pelo Estado de uma maneira absoluta para compensar as desigualdades sociais. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 7 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) A Política e o Estado em Rousseau Aqui entra suas ideias de contrato social e da Vontade Geral. O homem é livre, e é proibido renunciar a essa liberdade. Mas Rousseau prega que a família e as corporações são um crime, dessa forma só existe o indivíduo. A Vontade Geral é aquela que propõe o bem comum, e faz surgir um novo ser que é muito bom: o deus-Estado. Como a Direita e a Esquerda herdaram às ideias de Rousseau O surgimento do deus-estado é fruto do pensamento da maioria, sendo que essa maioria nas assembleias manifesta a Vontade Geral; cabe, portanto à minoria reconhecer que errou e deve se submeter à maioria. O indivíduo quando reconhece que é a minoria e errou, sacrifica sua liberdade individual, dessa forma todo o interesse individual desaparece, e consequentemente todas as desigualdades sociais. Mesmo com o estatismo, a liberdade, para Rousseau, permanece inalterada. Como notou Bertrand Russell, Hitler é fruto de Rousseau. Stalin também, mesmo que o filósofo inglês não tenha dito isso. O povo é bom, mas precisa de um líder que o esclareça. A vontade geral é a única fonte da lei, do bem e do mal, do certo e do errado. Se a maioria, por exemplo, declarar que o aborto é bom, e não um crime, isso é lei, e para Rousseau, os que são contrários a essa decisão devem ser separados da sociedade, e em último caso, até mortos. Quem governará a cidade? Será o guia, responde Rousseau, que deverá ser um super-homem, que irá transcender a natureza humana para aperfeiçoá-la. Esse resumo da filosofia de Rousseau pode ser aplicado tanto a alguns esquerdistas, como alguns direitistas da nossa época. Eles não toleram a existência de uma oposição; todos devem se submeter à sua vontade, inclusive a assembleia e o judiciário. Existe a necessidade do guia que conduza o povo, e esse deve ter características messiânicas. Daí esse culto irracional que existiu como continua a existir a tantos líderes do mundo moderno. “O Contrato Social” é apontada como a obra prima deste autor e nela ele expõe o conceito de contrato social. A definição de contrato social apresentada por Rousseau diz que este é um Pacto de Associação e não de submissão entre os membros de uma sociedade, ou seja, o contrato social é um acordo entre os indivíduos para que seja possívela criação de uma sociedade, ano de fundo necessário à criação e surgimento de um Estado. A liberdade está inerente na lei livremente aceita. É a partir da análise da obra “O contrato Social” que verificamos a profunda distinção entre a definição de contrato social de Rousseau, e as definições apresentadas por Hobbes e Locke, como teremos oportunidade de ver em outra altura. Para Rousseau, o homem é naturalmente bom e é a sociabilização que o degenera, este tema ele discute na obra: “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” (1755) VONTADE GERAL Rousseau introduz um elemento fundamental para a manutenção e bom funcionamento do Estado, qual seja, a vontade geral. Esta surge do conflito entre os interesses individuais e vontades particulares dos cidadãos. A vontade geral distingue-se da vontade de todos e neste sentido o autor escreve: “Há, às vezes, diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta só atende ao interesse comum, enquanto a outra olha o interesse privado, e não é senão uma soma das vontades particulares. Porém, tirando estas mesmas vontades, que se destroem entre si, resta como soma dessas diferenças a vontade geral.” (Rousseau, 1980 : 32) A vontade geral é, portanto, a busca do interesse comum somando as diferenças dos interesses particulares. Na esteira do pensamento rousseauniano temos a noção de democracia participativa. Para o autor, os Estados de pequenas dimensões garantem a participação efetiva de seus cidadãos o que por sua vez garante a liberdade e a igualdade entre esses homens (dois aspectos fundamentais para Rousseau). - Montesquieu (1689-1755), ele defendeu a divisão do poder político em Legislativo, Executivo e Judiciário; O Espírito das Leis, o mais importante livro de Montesquieu publicado em 1748 quando o autor tinha cinquenta e nove anos, é produto de um pensamento elaborado na primeira metade do século XVIII, obra de um pensador, único na sua época, que considerava os problemas políticos em si mesmos, sem ideias pré-concebidas sobre o espírito e a natureza. Para o pensamento ocidental, desde os sofistas gregos até aos filósofos de princípio do século XVIII, a diversidade das leis demonstrava a instabilidade da justiça humana, sendo que só no direito natural, comum a todas as sociedades, se podia encontrar a unidade original do direito. Mas para Montesquieu o problema não se colocava, já que para ele «a infinita diversidade de leis e costumes humanos não eram produto unicamente das suas fantasias». O método de Montesquieu consistiu em examinar as leis positivas nas suas relações entre si, mostrando que, pela sua própria natureza, determinadas leis tanto implicavam como excluíam outras. Havia, por isso, entre as leis positivas, relações naturais de exclusão e de inclusão, dirigidas não pela arbitrariedade de um homem ou de uma assembleia, mas pela necessidade das coisas. É por isso que que a obra mais famosa de Montesquieu, ocupando-se unicamente das leis positivas, excluindo qualquer investigação sobre as leis naturais, começa pela célebre formulação - «As leis, no seu significado mais lato, são relações necessárias que derivam da natureza das coisas. Há uma razão primitiva, e as leis são as relações que se encontram entre os vários seres, e das relações destes seres entre si.» Estas afirmações estavam de acordo com a ideia da existência de leis universais comuns a toda a humanidade, defendidas pelos racionalistas, mas vão mais além já que em Montesquieu existe um encadeamento entre elas, que faz com que uma determinada forma de governo implique uma legislação específica; assim como a variedade geográfica, a moral, o comércio, a religião acabam por modificar as leis. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 8 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) Mas, para Montesquieu a vida política de um país não é determinada por uma qualquer fatalidade, já que os homens são livres e «enquanto seres inteligentes violam constantemente as leis que Deus estabeleceu, modificando também as que eles próprios criaram.» Nessa base, as relações que se estabelecem entre os diferentes tipos de leis de uma sociedade, não são nem inexoráveis nem independentes da vontade humana; de facto Montesquieu nunca afirmou que um fator geográfico como o clima determinasse a constituição das sociedades, mesmo que muitos dos seus leitores o tenham concluído. O objetivo de Montesquieu é descobrir modelos de sociedade que inspirem os legisladores. Sociedades que são muitas vezes apresentadas como instrumentos mecânicos - uma comparação típica do século XVIII - que foram criados e modificados pelo engenho humano e de acordo com relações de necessidade que foram sendo estabelecidas ao longo dos tempos. Modelos que, por terem um desenvolvimento temporal, podem ser analisados por meio da indução histórica, e também da dedução que ilumine o carácter natural e a conveniência dessas relações. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 9 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM Questão 01 Ao pensar como deve comportar-se um príncipe com seus súditos, Maquiavel questiona as concepções vigentes em sua época, segundo as quais consideravam o bom governo depende das boas qualidades morais dos homens que dirigem as instituições. Para o autor, “um homem que quiser fazer profissão de bondade é natural que se arruíne entre tantos que são maus. Assim, é necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso segundo a necessidade”. Maquiavel, O Príncipe, São Paulo: Abril cultural, Os Pensadores, 1973, p.69. Sobre o pensamento de Maquiavel, a respeito do comportamento de um príncipe, é correto afirmar que: a) a atitude do governante para com os governados deve estar pautada em sólidos valores éticos, devendo o príncipe punir aqueles que não agem eticamente. b) o Bem comum e a justiça não são os princípios fundadores da política; esta, em função da finalidade que lhe é própria e das dificuldades concretas de realizá-la, não está relacionada com a ética. c) o governante deve ser um modelo de virtude, e é precisamente por saber como governar a si próprio e não se deixar influenciar pelos maus que ele está qualificado a governar os outros, isto é, a conduzi-los à virtude. d) o Bem supremo é o que norteia as ações do governante, mesmo nas situações em que seus atos pareçam maus. e) a ética e a política são inseparáveis, pois o bem dos indivíduos só é possível no âmbito de uma comunidade política onde o governante age conforme a virtude. Questão 02 Nasce daqui uma questão: se vale mais ser amado que temido ou temido que amado. Responde-se que ambas as coisas seriam de desejar; mas porque é difícil juntá-las, é muito mais seguro ser temido que amado, quando haja de faltar uma das duas. Porque dos homens se pode dizer, duma maneira geral, que são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ávidos de lucro, e enquanto lhes fazes bem são inteiramente teus, oferecem-te o sangue, os bens, a vida e os filhos, quando, como acima disse, o perigo está longe; mas quando ele chega, revoltam-se. MAQUIAVEL, N. O príncipe. Rio de Janeiro: Bertrand, 1991. A partir da análise histórica do comportamento humano em suas relações sociais e políticas, Maquiavel define o homem como um ser a) munido de virtude, com disposição nata a praticar o bem a si e aos outros. b) possuidor de fortuna, valendo-se de riquezas para alcançar êxito na política. c) guiado por interesses, de modo que suas ações sãoimprevisíveis e inconstantes. d) naturalmente racional, vivendo em um estado pré-social e portando seus direitos naturais. e) sociável por natureza, mantendo relações pacíficas com seus pares. Questão 03 Étienne de La Boétie em sua obra “O discurso da servidão voluntária” apresenta os tipos de governantes tiranos. São eles: a) o tirano que obtém o poder pela força das armas, aquele que obtém o poder por sucessão e aquele que obtém o poder por vontade de Deus. b) o tirano que obtém o poder por meio de eleições, o que obtém o poder pela força das armas e o que obtém o poder por vontade de Deus. c) o tirano que obtém o poder pela força das armas, aquele que obtém o poder por sucessão e aquele que obtém o poder através de uma revolução. d) o tirano que obtém o poder por meio de eleições, aquele que obtém o poder pelas forças das armas e aquele que obtém o poder por sucessão. e) o tirano que obtém o poder pela força das armas, aquele que obtém o poder através de uma revolução e aquele que obtém o poder por meio de eleições. Questão 04 O homem natural é tudo para si mesmo; é a unidade numérica, o inteiro absoluto, que só se relaciona consigo mesmo ou com seu semelhante. O homem civil é apenas uma unidade fracionária que se liga ao denominador, e cujo valor está em sua relação com o todo, que é o corpo social. As boas instituições sociais são as que melhor sabem desnaturar o homem, retirar-lhe sua existência absoluta para dar-lhe uma relativa, e transferir o eu para a unidade comum, de sorte que cada particular não se julgue mais como tal, e sim como uma parte da unidade, e só seja percebido no todo. ROUSSEAU, J. J. Emílio ou da Educação. São Paulo: Martins Fontes, 1999. A visão de Rousseau em relação à natureza humana, conforme expressa o texto, diz que a) o homem civil é formado a partir do desvio de sua própria natureza. b) as instituições sociais formam o homem de acordo com a sua essência natural. c) o homem civil é um todo no corpo social, pois as instituições sociais dependem dele. d) o homem é forçado a sair da natureza para se tornar absoluto. e) as instituições sociais expressam a natureza humana, pois o homem é um ser político. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 10 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) Questão 05 Thomas Hobbes é considerado um dos maiores filósofos políticos da Idade Moderna, até Hegel. Escreveu obras políticas fundamentais para a compreensão do Estado Moderno. Sua obra mais conhecida é O Leviatã (1651). Seguindo o pensamento de Hobbes, assinale a alternativa incorreta sobre Hobbes e o seu pensamento. a) Para Hobbes o poder do soberano não é absoluto. O poder do governante tem que ser limitado. Ou o poder é limitado, ou continuamos na condição de guerra. b) Thomas Hobbes é considerado um filósofo contratualista, pois se trata de um pensador que viveu entre o século XVI e XVIII, e que afirmava que a origem do Estado e/ou sociedade está num contrato. c) Para Hobbes, o poder do Estado tem que ser pleno, absoluto. A autoridade do poder de um rei deve resolver todas as pendências e arbitrar qualquer decisão. d) Segundo Hobbes, do Estado derivam todos os direitos a quem o poder soberano é conferido mediante o consentimento do povo reunido. e) Sua teoria contratual afirma o princípio de preservação da vida na base da política e sustenta a ideia da criação e da manutenção do poder soberano no ato de linguagem implicado na estrutura representativa do pacto político. EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO Questão 01 O Absolutismo como forma de governo esteve presente na península Ibérica, na França e na Inglaterra, tendo impactado e influenciado as maiores economias de seu tempo. Seus pensadores mais conhecidos e suas teorias foram: a) Nicolau Maquiavel e sua teoria de que o indivíduo estava subordinado ao Estado; Thomas Hobbes, criador da teoria do Contrato; Jacques Bossuet e Jean Bodin, que defenderam que o Rei era um representante divino. b) Nicolau Maquiavel e a teoria do Contrato; Thomas Hobbes e a teoria da supremacia do Rei como representante divino; Jacques Bossuet e Jean Bodin, que defenderam a subordinação do indivíduo ao Estado. c) Maquiavel, Jacques Bossuet e Jean Bodin, cujas teorias só se diferenciaram na aplicabilidade teológica, bem como Thomas Hobbes, que preconizou o indivíduo como senhor de seus direitos. d) Maquiavel e Thomas Hobbes, que conceberam o Contrato Social, Jacques Bossuet, que estabeleceu o conceito de individualismo primordial, e Jean Bodin, que defendeu a primazia da esfera governamental. Questão 02 (Unicamp 2012) “O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros. O que se crê senhor dos demais não deixa de ser mais escravo do que eles. (...) A ordem social, porém, é um direito sagrado que serve de base a todos os outros. (...) Haverá sempre uma grande diferença entre subjugar uma multidão e reger uma sociedade. Sejam homens isolados, quantos possam ser submetidos sucessivamente a um só, e não verei nisso senão um senhor e escravos, de modo algum considerando-os um povo e seu chefe. Trata-se, caso se queira, de uma agregação, mas não de uma associação; nela não existe bem público, nem corpo político.” (Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social. [1762]. São Paulo: Ed. Abril, 1973, p. 28,36.) No trecho apresentado, o autor a) argumenta que um corpo político existe quando os homens encontram-se associados em estado de igualdade política. b) reconhece os direitos sagrados como base para os direitos políticos e sociais. c) defende a necessidade de os homens se unirem em agregações, em busca de seus direitos políticos. d) denuncia a prática da escravidão nas Américas, que obrigava multidões de homens a se submeterem a um único senhor. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 11 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) Questão 03 A importância do argumento de Hobbes está em parte no fato de que ele se ampara em suposições bastante plausíveis sobre as condições normais da vida humana. Para exemplificar: o argumento não supõe que todos sejam de fato movidos por orgulho e vaidade para buscar o domínio sobre os outros; essa seria uma suposição discutível que possibilitaria a conclusão pretendida por Hobbes, mas de modo fácil demais. O que torna o argumento assustador e lhe atribui importância e força dramática é que ele acredita que pessoas normais, até mesmo as mais agradáveis, podem ser inadvertidamente lançadas nesse tipo de situação, que resvalará, então, em um estado de guerra. RAWLS, J. Conferências sobre a história da filosofia política. São Paulo: WMF, 2012 (adaptado). O texto apresenta uma concepção de filosofia política conhecida como a) alienação ideológica. b) microfísica do poder. c) estado de natureza. d) contrato social. e) vontade geral. Questão 04 “Através dos princípios de um direito natural preexistente ao Estado, de um Estado baseado no consenso, de subordinação do poder executivo ao poder legislativo, de um poder limitado, de direito de resistência, Locke expôs as diretrizes fundamentais do Estado liberal.” Bobbio. Considerando o texto citado e o pensamento político de Locke, seguem as afirmativas abaixo: I. A passagem do estado de natureza para a sociedade política ou civil, segundo Locke, é realizada mediante um contrato social, através do qual os indivíduos singulares, livres e iguais dão seu consentimento para ingressar no estado civil. II. O livre consentimento dos indivíduospara formar a sociedade, a proteção dos direitos naturais pelo governo, a subordinação dos poderes, a limitação do poder e o direito à resistência são princípios fundamentais do liberalismo político de Locke. III. A violação deliberada e sistemática dos direitos naturais e o uso contínuo da força sem amparo legal, segundo Locke, não são suficientes para conferir legitimidade ao direito de resistência, pois o exercício de tal direito causaria a dissolução do estado civil e, em consequência, o retorno ao estado de natureza. IV. Os indivíduos consentem livremente, segundo Locke, em constituir a sociedade política com a finalidade de preservar e proteger, com o amparo da lei, do arbítrio e da força comum de um corpo político unitário, os seus inalienáveis direitos naturais à vida, à liberdade e à propriedade. V. Da dissolução do poder legislativo, que é o poder no qual “se unem os membros de uma comunidade para formar um corpo vivo e coerente”, decorre, como consequência, a dissolução do estado de natureza. Das afirmativas feitas acima a) somente a afirmação I está correta. b) as afirmações I e III estão corretas. c) as afirmações III e IV estão corretas. d) as afirmação II e III estão corretas. e) as afirmações III e V estão incorretas. Questão 05 Porque as leis de natureza (como a justiça, a equidade, a modéstia, a piedade, ou, em resumo, fazer aos outros o que queremos que nos façam) por si mesmas, na ausência do temor de algum poder capaz de levá-las a ser respeitadas, são contrárias a nossas paixões naturais, as quais nos fazem tender para a parcialidade, o orgulho, a vingança e coisas semelhantes. HOBBES, Thomas. Leviatã. Cap. XVII. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 103. Em relação ao papel do Estado, Hobbes considera que: a) O seu poder deve ser parcial. O soberano que nasce com o advento do contrato social deve assiná-lo, para submeter-se aos compromissos ali firmados. b) A condição natural do homem é de guerra de todos contra todos. Resolver tal condição é possível apenas com um poder estatal pleno. c) Os homens são, por natureza, desiguais. Por isso, a criação do Estado deve servir como instrumento de realização da isonomia entre tais homens. d) A guerra de todos contra todos surge com o Estado repressor. O homem não deve se submeter de bom grado à violência estatal. Questão 06 Em filosofia política, o contratualismo visa à construção de uma “teoria racional sobre a origem e o fundamento do Estado e da sociedade política”. O modelo contratualista é “... construído com base na grande dicotomia ‘estado (ou sociedade) de natureza / estado (ou sociedade) civil’” (cf. BOBBIO), sendo que a passagem do estado de natureza para o estado civil ocorre mediante o contrato social. Considerando o texto acima e as diferentes teorias contratualistas, é INCORRETO afirmar que a) o ponto de partida, no pensamento contratualista, para a análise da origem e fundamento do Estado, é o estado político historicamente existente, cujo princípio de legitimação de sua efetividade histórica é o consenso. b) os elementos constitutivos do estado de natureza são indivíduos singulares, livres e iguais uns em relação aos outros, VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 12 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) sendo o estado de natureza um estado no qual reinam a igualdade e a liberdade. c) para o contratualismo, a sociedade política, em contraposição a qualquer forma de sociedade natural, encontra seu princípio de fundamentação e legitimação no consenso dos indivíduos participantes do contrato social. d) diferentemente de Locke, que concebe o estado de natureza como um “estado de relativa paz, concórdia e harmonia”, para Hobbes, o estado de natureza é um estado de guerra generalizada, de todos contra todos, de insegurança e violência. e) a passagem do estado de natureza para o estado civil ocorre mediante uma ou mais convenções, ou seja, mediante “um ou mais atos voluntários e deliberados dos indivíduos interessados em sair do estado de natureza”, e ingressar no estado civil. Questão 07 As monarquias absolutistas se consolidaram na Europa entre os séculos XVI e XVIII por meio de instrumentos como a racionalização das instituições burocráticas e o estabelecimento de sistemas jurídicos, baseados no antigo Direito Romano e nas tradições germânicas. Também nessa época surge a filosofia política moderna, que contribuiu para o processo de legitimação das monarquias, ao fundamentar racionalmente o dever dos cidadãos perante o Estado e a concentração de poderes na figura do soberano. Sobre o Estado Absolutista moderno, assinale o que for correto. 01) O filósofo inglês John Locke formulou a tese de que, no estado de natureza, os homens viviam em permanente estado de guerra, o que gerava insegurança, anarquia e miséria. No seu entendimento, o Estado Absolutista surgiu para fazer cessar essa “guerra de todos contra todos”. Em troca de segurança, os indivíduos teriam aceitado uma espécie de “servidão voluntária” face ao poder real. 02) O Estado Absolutista foi consolidado na Inglaterra com a Ascensão de Jorge III, da dinastia de Hanover, no final do século XVI. 04) O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), em sua obra Leviatã (1651), afirma que todos os indivíduos, em sua condição natural, têm igual poder de realizar o que desejam. Porém esse poder é voluntariamente transferido para o Estado, por meio do contrato social, para o benefício de todos. 08) O cardeal Richelieu, espécie de primeiro-ministro de Luiz XIII, deu passos importantes para a consolidação do poder absolutista na França. Entre seus feitos estão: a criação do corpo de intendentes, servidores que ocupavam cargos não vendáveis e que fiscalizavam as províncias; a redução do poder da alta nobreza; a consolidação de um exército permanente e a extinção do poder militar dos protestantes, arrebatando-lhes a fortaleza militar de La Rochelle. 16) No Estado Absolutista, o soberano encontra-se submetido às mesmas leis que os demais cidadãos, a fim de restringir o poder do governo central. Questão 08 O filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) diz no Contrato Social: “A passagem do estado natural ao estado civil produz no homem uma mudança notável, substituindo em sua conduta o instinto pela justiça, e conferindo às suas ações a moralidade que anteriormente lhes faltava. [...] O que o homem perde pelo contrato social é a liberdade natural e um direito ilimitado a tudo que o tenta e pode alcançar; o que ganha é a liberdade civil e a propriedade de tudo o que possui.” (ROUSSEAU, Jean-Jacques. Contrato Social. In: Antologia de textos filosóficos. Curitiba: SEED-PR, 2009, p. 606-607.) A partir desse trecho, que reproduz uma concepção clássica da filosofia política contratualista, é correto afirmar que: 01) A opção pelo contrato social ocorre porque não há garantias jurídicas no estado natural. 02) O estado natural é pautado por condutas instintivas porque não há limitações cívicas ou legais. 04) O contrato social garante mais liberdade civil porque os homens agem moralmente. 08) A liberdade civil não é uma conquista para os homens porque eles perdem seu maior bem, a liberdade instintiva. 16) O estado natural é inseguro e injusto porque não há homens moralmente corretos. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 13 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA – (Prof. Márcio Michiles) RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA Questão 01:Resolução: Resposta: Alternativa A Questão 02: Resolução: Resposta: Alternativa A Questão 03: Resolução: Resposta: Alternativa C Questão 04: Resolução: Resposta: Alternativa E Questão 05: Resolução: Resposta: Alternativa B Questão 06: Resolução: Resposta: Alternativa A Questão 07: Resolução: 04 + 08 = 12. Resposta: Alternativa Questão 08: Resolução: 01 + 02 + 04 = 07. Resposta: Alternativa VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE FILOSOFIA Prof. Márcio Michiles LIBERDADE Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, desde que não prejudique outra pessoa, é a sensação de estar livre e não depender de ninguém. Liberdade é também um conjunto de ideias liberais e dos direitos de cada cidadão. Liberdade é classificada pela filosofia, como a independência do ser humano, o poder de ter autonomia e espontaneidade. A liberdade é um conceito utópico, uma vez que é questionável se realmente os indivíduos tem a liberdade que dizem ter, se com as mídias ela realmente existe, ou não. Diversos pensadores e filósofos dissertaram sobre a liberdade como Sartre, Descartes, Kant, Marx e outros. No meio jurídico, existe a liberdade condicional, que é quando um indivíduo que foi condenado por algo que cometeu, recebe o direito de cumprir toda, ou parte de sua pena em liberdade, ou seja, com o direito de fazer o que tiver interesse, mas de acordo com as normas da justiça. Existe também a liberdade provisória, que é atribuída a um indivíduo com cunho temporário. Pode ser obrigatória, permitida (com ou sem fiança) e vedada (em certos casos como o alegado envolvimento em crime organizado). A liberdade de expressão é a garantia e a capacidade dada a um indivíduo, que lhe permite expressar as suas opiniões e crenças sem ser censurado. Apesar disso, estão previstos alguns casos em que se verifica a restrição legítima da liberdade de expressão, quando a opinião ou crença tem o objetivo discriminar uma pessoa ou grupo específico através de declarações injuriosas e difamatórias. Com origem no termo em latim libertas, a palavra liberdade também pode ser usada em sentido figurado, podendo ser sinônimo de ousadia, franqueza ou familiaridade. Ex: Como você chegou tarde, eu tomei a liberdade de pedir o jantar para você. A liberdade pode consistir na personificação de ideologias liberais. Faz parte do lema "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", criado em 1793 para expressar valores defendidos pela Revolução Francesa, uma revolta que teve um impacto enorme nas sociedades contemporâneas e nos sistemas políticos da atualidade. No âmbito da música, várias obras foram dedicadas ou inspiradas pelo conceito de liberdade. Um exemplo é o Hino da Proclamação da República do Brasil, escrito por Medeiros de Albuquerque: "Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!" Liberdade e Ética. De acordo com a ética, a liberdade está relacionada com responsabilidade, uma vez que um indivíduo tem todo o direito de ter liberdade, desde que essa atitude não desrespeite ninguém, não passe por cima de princípios éticos e legais. Segundo a filosofia, liberdade é o conjunto de direitos de cada indivíduo, seja ele considerado isoladamente ou em grupo, perante o governo do país em que reside; é o poder qualquer cidadão tem de exercer a sua vontade dentro dos limites da lei. Diversos filósofos estudaram e publicaram suas obras sobre a liberdade como Marx, Sartre, Descartes, Kant e outros. Para Descartes a liberdade é motivada pela decisão do próprio indivíduo, mas muitas vezes essa vontade depende de outros fatores, como dinheiro ou bens materiais. Em geral vou tentar abordar a visão de liberdade de alguns filósofos em destaque: SÓCRATES Sócrates, nasceu entre 470/469 a.C época em que os gregos enfrentam as Guerras Médicas onde o Mar Egeu passa a ser um mar “helênico”. Atenas assume nesse período a hegemonia da Grécia onde já está instituído o governo democrático além da forte influência dos chamados “sofistas” que usavam o jogo da linguagem para difundirem seus pensamentos acerca de temas como justo, belo, bom mediante pagamento, passando assim a seculariza a filosofia buscando-a por seu valor utilitário, negando assim, o absolutismo da verdade, pois concebem a verdade como uma criação do homem, uma construção histórica, uma convenção social, e atribuem essas características aos conceitos sobre Direito, Liberdade, Bem-estar, etc. A partir daí surge a figura de Sócrates que vem para romper e quebrar esses paradigmas existentes, reposicionando a atividade lógica (constituindo uma cr ítica aos sofistas) em que a verdade só pode ser alcançada senão por uma certeza e opinião, conceito e preconceito. Fundando assim a ontologia da “descoberta do ser” concentrando sua filosofia no “conhecer-se a si mesmo” tentando assim instigar o indivíduo a pensar por si mesmo. Deste ponto começa nossa pesquisa acerca de como esse indivíduo relaciona-se com essa “liberdade de expressão”, mediante o pensamento de liberdade para Sócrates, fazendo uma breve análise entre o julgamento de Sócrates e a formação dos Estados Democráticos e por fim fazer uma análise da necessidade e objetivo da fortificação da liberdade de expressão na atualidade. Para começar nosso estudo de antemão torna-se necessário analisar as várias concepções que se tem no mundo antigo de liberdade e mesmo de indivíduo. Partindo deste ponto chegamos a três concepções principais expostos por Gigon a seguir: A primeira é a concepção em que se tem a liberdade como forma de vida do Estado e do indivíduo no Estado e na sociedade. Já a segunda é a que concebe a liberdade como pressuposto de toda ação eticamente responsável e, por isso, serão consideradas sobretudo as limitações que, justamente, de muitos lados, restringem essa liberdade. E na terceira, perguntar-se-á como, na perspectiva cosmológica e teológica, pode-se afirmar a liberdade da ação humana. Tanto na antiguidade quanto na atualidade, a concepção de “liberdade” é considerada um fim intrínseco a VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 2 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) realidade, tanto do indivíduo como da sociedade em que ele vive, e por consequência também influência a história mundial no âmbito de seu conjunto. No mundo antigo “cidadão era aquele que tinha o direito e a competência para emitir opiniões sobre todos os assuntos da cidade, de ouvir todas as opiniões diferentes e de discutir todas elas para poder decidir e votar” (CHAUI, 2002, p.203). Vale ressalvar, nem todos eram considerados cidadãos, e por consequência nem todos tinham o direito a chamada “liberdade” aqui está era para aquele grupo de indivíduos que conseguiram superar o domínio da Zoe e se encontravam no chamado domínio da Bios, que seria uma forma de vida idealizada, no qual o âmbito principal seria a questão da política do bem viver que poderia ser discutida. Para falarmos sobre democracia no mundo antigo precisamos antes explanar o que seria a democracia, e assim chegar ao sentido que seus limites sociais implicam. Para os indivíduos desse período a autarquia seria a forma ideal de poder, já que ela significa, em primeiro lugar, a pretensão de poder satisfazer a todas as necessidades físicas por suas próprias forças ou sem depender do serviço prestado por um estranho, no que toca ao indivíduo, a autarquia pode traduzir a tentativa de contar integralmente consigo mesmo para sua sobrevivência física representando assim sua importância como expressão da independência espiritualdo indivíduo, onde o mesmo basta- se a si próprio e não precisa da presença de qualquer outro homem. Atualmente, o termo democracia diz respeito “a um governo pelo povo seja direto ou representativo” e o termo república geralmente é usado para se referir a “um sistema político onde um chefe de estado é eleito por um tempo limitado, oposto de uma monarquia constitucional”. Mas se a forma ideal de governo seria uma monarquia, e neste viés a democracia seria uma forma de governo não ideal, qual a contribuição de Sócrates para a sua instauração na atualidade? Sócrates não tentou nem ao mesmo se defender ao invés disso lutou até o seu fim para defender suas ideias, o que o fez até o último minuto da sua vida. Depois disto, se passado mais de 24 séculos pouco refletimos sobre a grandiosidade do ato desse ilustre pensador que marcou o pensamento filosófico. Com sua determinação de preferir ser condenado a deixar de filosofar, “Eu nunca deixarei de pensar”, Sócrates estabeleceu as bases da luta pelo direito a manifestação de pensamentos e defesa dos mesmos, a chamada liberdade de expressão, que influenciada junto com os ideais iluministas contribuiu para a formação das atuais democracias. Com a posição de Sócrates a filosofia ganhou vida. Além de deixar também um dos maiores legados as sociedades contemporâneas democráticas: o exemplo de luta pelo direito de expor suas ideias e pensamentos e defendê- los. Sócrates morreu injustamente, porém, em defesa do pensamento e da verdade. DESCARTES Para o filósofo René Descartes (1596-1650), age com mais liberdade quem melhor compreende as alternativas que precedem a escolha. Dessa premissa, decorre o silogismo lógico de que, quanto mais evidente a veracidade de uma alternativa, maiores as chances de ela ser escolhida pelo agente. Nesse sentido, a inexistência de acesso à informação afigura-se óbice à identificação da alternativa com maior grau de veracidade. ESPINOZA Para Espinoza (1632-1677), a liberdade possui um elemento de identificação com a natureza do "ser". Nesse sentido, ser livre significa agir de acordo com sua natureza. É mediante a liberdade que o Homem se exprime como tal e em sua totalidade. Esta é também, enquanto meta dos seus esforços, a sua própria realização. Tendemos a associar a fruição da liberdade a uma determinação constante e inescapável. Contudo, os ditames de nossa vida estão sendo realizados a cada passo que damos: assim, a deliberação está também a cargo da vontade humana (na qual se inserem as leis físicas e químicas, biológicas e psicológicas). Diretamente associada à ideia de liberdade, está a noção de responsabilidade, vez que o ato de ser livre implica assumir o conjunto dos nossos atos e saber responder por eles. GOTTFRIED WILHELM LEIBNIZ Para Leibniz (1646-1716), o agir humano é livre a despeito do princípio de causalidade que rege os objetos do mundo material. “A ação humana é contingente, espontânea e refletida. Ou seja, ela é tal que poderia ser de outra forma (nunca é necessária) e, por isso, contingente. É espontânea porque sempre parte do sujeito agente que, mesmo determinado, é responsável por causar ou não uma nova série de eventos dentro da teia causal. É refletida porque o homem pode conhecer os motivos pelos quais age no mundo e, uma vez conhecendo-os, lidar com eles de maneira livre. ” KANT Segundo Kant, liberdade está relacionado com autonomia, é o direito do indivíduo dar suas próprias regras, que devem ser seguidas racionalmente. Essa liberdade só ocorre realmente, através do conhecimento das leis morais e não apenas pela própria vontade da pessoa. Kant diz que a liberdade é o livre arbítrio e não deve ser relacionado com as leis. SCHOPENHAUER Para Arthur Schopenhauer (1788-1860), a ação humana não é absolutamente livre. Todo o agir humano, bem como todos os fenômenos da natureza, até mesmo suas leis, são níveis de objetivação da coisa em si kantiana que o filósofo identifica como sendo puramente vontade. Para Schopenhauer, o homem é capaz de acessar sua realidade por um duplo registro: o primeiro, o do fenômeno, onde todo o existente reduz-se, nesse nível, a mera representação. No nível essencial, que não se deixa apreender pela intuição VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 3 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) intelectual, pela experiência dos sentidos, o mundo é apreendido imediatamente como vontade, Vontade de Vida. Nesse caso, a noção de vontade assume um aspecto amplo e aberto, transformando-se no princípio motor dos eventos que se sucedem na dimensão fenomênica segundo a lei da causalidade. O homem, objeto entre objetos, coisa entre coisas, não possui liberdade de ação porque não é livre para deliberar sobre sua vontade. O homem não escolhe o que deseja, o que quer. Logo, não é livre - é absolutamente determinado a agir segundo sua vontade particular, objetivação da vontade metafísica por trás de todos os eventos naturais. O que parece deliberação é uma ilusão ocasionada pela mera consciência sobre os próprios desejos. É poder viver sem ninguém mandar. BAKUNIN Bakunin (1814-1876) não se referia a um ideal abstrato de liberdade, mas a uma realidade concreta baseada na liberdade simétrica de outros. Liberdade consiste no "desenvolvimento pleno de todas as faculdades e poderes de cada ser humano, pela educação, pelo treinamento científico, e pela prosperidade material". Tal concepção de liberdade é "eminentemente social, porque só pode ser concretizada em sociedade," não em isolamento. Em um sentido negativo, liberdade é "a revolta do indivíduo contra todo tipo de autoridade, divina, coletiva ou individual." MARX Marx Influenciado por Hegel, nos Manuscritos econômico- filosóficos e em A ideologia Alemã, Karl Marx (1818-1883) entende a liberdade humana como a constante criação prática pelos indivíduos de circunstâncias objetivas nas quais despontam suas faculdades, sentidos e aptidões (artísticas, sensórias, teóricas. Ele, assim, critica as concepções metafísicas da liberdade. Para ele, não há liberdade sem o mundo material no qual os indivíduos manifestam na prática sua liberdade junto com outras pessoas, em que transformam suas circunstâncias objetivas de modo a criar o mundo objetivo de suas faculdades, sentidos e aptidões. Ou seja, a liberdade humana só pode ser encontrada de fato pelos indivíduos na produção prática das suas próprias condições materiais de existência. Desse modo, se os indivíduos são privados de suas próprias condições materiais de existência, isto é, se suas condições objetivas de existência são propriedade privada (de outra pessoa, portanto), não há verdadeira liberdade, e a sociedade se divide em proletários e capitalistas. Sob o domínio do capital, a manifestação prática da vida humana, a atividade produtiva, se torna coerção, trabalho assalariado; as faculdades, habilidades e aptidões humanas se tornam mercadoria, força de trabalho, que é vendida no mercado de trabalho, e a vida humana se reduz à mera sobrevivência. Marx diz que as várias liberdades parciais que existem no capitalismo - por exemplo, a liberdade econômica (de comprar e vender mercadorias), a liberdade de expressão ou a liberdade política (decidir quem governa) - pressupõem que a separação dos homens com relação as suas condições de existência seja mantida, pois, caso essa separação seja atacada pelos homens em busca de sua liberdade material fundamental, todas essas liberdades parciais são suspensas (ditadura) para restabelecer o capitalismo. Mas, se a luta dos indivíduos privados de suas condições de existência (proletários) tiver êxito e se eles conseguirem abolir a propriedade privada dessas condições, seria instaurado o comunismo, queele entende como a associação livre dos produtores. SARTRE Para Jean-Paul Sartre (1905-1980), a liberdade é a condição ontológica do ser humano. O homem é, antes de tudo, livre. O homem é livre mesmo de uma essência particular, como não o são os objetos do mundo, as coisas. Livre a um ponto tal que pode ser considerado a brecha por onde o Nada encontra seu espaço na ontologia. O homem é nada antes de definir-se como algo, e é absolutamente livre para definir-se, engajar-se, encerrar- se, esgotar a si mesmo. O tema da liberdade é o núcleo central do pensamento do filósofo francês e resume toda a sua doutrina. Sua tese é: a liberdade é absoluta ou não existe. Sartre recusa todo determinismo e mesmo qualquer forma de condicionamento. Assim, ele recusa Deus e inverte a tese de Lutero; para este, a liberdade não existe justamente porque Deus tudo sabe e tudo prevê. Mas como, para Sartre, Deus não existe, a liberdade é absoluta. E recusa também o determinismo materialista: se tudo se reduzisse à matéria, não haveria consciência e não haveria liberdade. Qual é, então, o fundamento da liberdade? É o nada, o indeterminismo absoluto. Agora entende-se melhor a má-fé: a tendência a ser termina sendo a negação da liberdade. Se o fundamento da consciência é o nada, nenhum ser consegue ser princípio de explicação do comportamento humano. Não há nenhum tipo de essência - divina, biológica, psicológica ou social - que anteceda e possa justificar o ato livre. É o próprio ato que tudo justifica. Por exemplo: de certo modo, eu escolho inclusive o meu nascimento. Por quê? Se eu me explicasse a partir de meu nascimento, de uma certa constituição psicossomática, eu seria apenas uma sucessão de objetos. Mas o homem não é objeto, ele é sujeito. Isso significa que, aqui e agora, a cada instante, é a minha consciência que está "escolhendo", para mim, aquilo que meu nascimento foi. O modo como sou meu nascimento é eternamente mediado pela consciência, ou seja, pelo nada. A falsificação da liberdade, ou a má-fé, reside precisamente na invenção dos determinismos de toda espécie, que põem no lugar do nada o ser. A liberdade humana revela-se na angústia. O homem angustia-se diante de sua condenação à liberdade. O homem só não é livre para não ser livre, está condenado a fazer escolhas, e a responsabilidade de suas escolhas é tão opressiva que surgem escapatórias através das atitudes e paradigmas de má-fé, onde o homem aliena-se de sua própria liberdade, mentindo para si mesmo através de condutas e ideologias que o isentem da responsabilidade sobre as próprias decisões. GUY DEBORD No livro A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord (1931- 1994), ao criticar a sociedade de consumo e o mercado, afirma que a liberdade de escolha é uma liberdade ilusória, pois escolher é sempre escolher entre duas ou mais coisas prontas, isto é, predeterminadas por outros. Uma sociedade como a capitalista, onde a única liberdade que existe socialmente é a liberdade de escolher qual mercadoria consumir, impede que os indivíduos sejam livres na sua vida cotidiana. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 4 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) A vida cotidiana na sociedade capitalista se divide em tempo de trabalho (que é não livre, submetido à hierarquia de administradores e às exigências de lucro impostas pelo mercado) e tempo de lazer (onde os indivíduos têm uma liberdade domesticada que é escolher entre coisas que foram feitas sem liberdade durante o tempo de trabalho da sociedade). Assim, a sociedade da mercadoria faz da passividade (escolher, consumir) a liberdade ilusória que se deve buscar a todo o custo, enquanto que, de fato, como seres ativos, práticos (no trabalho, na produção), somos não livres. Referências Bibliográficas: MIRANDA Theobaldo. Manual da Filosofia. 15º, São Paulo, 1970, p.311, 398-456. SARTRE Jean. Todo humanismo é um existêncialismo. 2º, São Paulo, 1990, p.31-42. Coleção Os Pensadores - Vol XXXV - Manuscritos Econômico- Filosóficos e Outros Textos Escolhidos - Karl Marx- seleção por José Arthur Giannotti. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 5 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM Questão 01 Para que não haja abuso, é preciso organizar as coisas de maneira que o poder seja contido pelo poder. Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo, exercesse esses três poderes: o de fazer leis, o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as divergências dos indivíduos. Assim, criam-se os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, atuando de forma independente para a efetivação da liberdade, sendo que esta não existe se uma pessoa ou grupo exercer os referidos poderes concomitantemente. MONTESQUIEU, B. Do espírito das leis. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (adaptado). A divisão e a independência entre os poderes são condições necessárias para que possa haver liberdade em um Estado. Isso pode ocorrer apenas sob um modelo político em que haja a) exercício de tutela sobre atividades jurídicas e políticas. b) consagração do poder político pela autoridade religiosa. c) concentração do poder nas mãos de elites técnico-científicas. d) estabelecimento de limites aos atores públicos e às instituições do governo. e) reunião das funções de legislar, julgar e executar nas mãos de um governante eleito. Questão 02 A angústia, para Jean-Paul Sartre, é : a) tudo o que a influência de Shopenhauer determina em Sartre: a certeza da morte. O Homem pode ser livre para fazer suas escolhas, mas não tem como se livrar da decrepitude e do fim. b) a nadificação de nossos projetos e a certeza de que a relação Homem X natureza humana é circunstancial, objetiva, e pode ser superada pelo simples ato de se fazer uma escolha. c) a certificação de que toda a experiência humana é idealmente sensorial, objetivamente existencial e determinante para a vida e para a morte do Homem em si mesmo e em sua humanidade. d) consequência da responsabilidade que o Homem tem sobre aquilo que ele é, sobre a sua liberdade, sobre as escolhas que faz, tanto de si como do outro e da humanidade, por extensão. Questão 03 Leia o excerto abaixo e assinale a alternativa que relaciona corretamente duas das principais máximas do existencialismo de Jean-Paul Sartre, a saber: I. “a existência precede a essência” II. “estamos condenados a ser livres” Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Por outro lado, se Deus não existe, não encontramos já prontos, valores ou ordens que possam legitimar a nossa conduta. [...] Estamos condenados a ser livres. Estamos sós, sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz. SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. 3ª. ed. S. Paulo: Nova Cultural, 1987. a) Se a essência do homem, para Sartre, é a liberdade, então jamais o homem pode ser, em sua existência, condenado a ser livre, o que seria, na verdade, uma contradição. b) A liberdade, em Sartre, determina a essência da natureza humana que, concebida por Deus, precede necessariamente a sua existência. c) Para Sartre, a liberdade é a escolha incondicional, à qual o homem, como existência já lançada no mundo, está condenado, e pela qual projeta o seu ser ou a sua essência. d) O Existencialismo é, para Sartre, um Humanismo, porque aexistência do homem depende da essência de sua natureza humana, que a precede e que é a liberdade. Questão 04 Jean-Paul Sartre (1905 – 1980) encontrou um motivo de reflexão sobre a liberdade na obra de Dostoiévski Os irmãos Karamazov: “se Deus não existe, tudo é permitido”. A partir daí teceu considerações sobre esse tema e algumas consequências que dele podem ser derivadas. [...] tudo é permitido se Deus não existe e, por conseguinte, o homem está desamparado porque não encontra nele próprio nem fora dele nada a que se agarrar. Para começar, não encontra desculpas. [...] Estamos sós, sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz. SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 9 (coleção “Os Pensadores”). Com base em seus conhecimentos sobre a filosofia existencialista de Sartre e nas informações acima, assinale a alternativa correta. a) Porque entende que somos livres, Sartre defendeu uma filosofia não engajada, isto é, uma filosofia que não deve se importar com os acontecimentos sociais e políticos de seu tempo. b) Para Sartre, a angústia decorre da falta de fé em Deus e não do fato de sermos absolutamente livres ou como ele afirma “o homem está condenado a ser livre”. c) As ações humanas são o reflexo do equilíbrio entre o livre- arbítrio e os planos que Deus estabelece para cada pessoa, consistindo nisto a verdadeira liberdade. d) Para Sartre, as ações das pessoas dependem somente das escolhas e dos projetos que cada um faz livremente durante a vida e não da suposição da existência e, portanto, das ordens de Deus. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 6 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) Questão 05 Para Sartre, “o Homem é livre, o Homem é liberdade”. Com relação a tal princípio, é CORRETO afirmar que o homem é: a) “a expressão de que tudo é permitido por meio da liberdade e que provém da existência de Deus”. b) “um animal político no sentido aristotélico e por isso necessita viver a liberdade política em comunidade”. c) “um ser que depende da liberdade divina e necessita que o futuro esteja inscrito no céu”. d) “condenado a ser livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo que faz”. EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO Questão 01 Baseando-se nos textos e no comentário apresentados a seguir: “Hitler considerava que a propaganda sempre deveria ser popular, dirigida às massas, desenvolvida de modo a levar em conta um nível de compreensão dos mais baixos. 'As grandes massas', dizia ele, 'têm uma capacidade de recepção muito limitada, uma inteligência modesta, uma memória fraca'. Por isso mesmo, a propaganda deveria restringir-se a pouquíssimos pontos, repetidos incessantemente […]. Tudo interessa no jogo da propaganda: mentiras, calúnias; para mentir, que seja grande a mentira, pois assim sendo, 'nem passará pela cabeça das pessoas ser possível arquitetar uma tão profunda falsificação da verdade.” LENHARO, Alcir. Nazismo: “o triunfo da vontade”. 6ª. ed., São Paulo: Ática, 1998, p. 47-48. “Eu vivo em tempos sombrios. Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, Uma testa sem rugas é sinal de indiferença. Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia. Que tempos são esses, Quando falar sobre flores é quase um crime, Pois significa silenciar sobre tanta injustiça? [...]”. Trecho de “Aos que virão depois de nós”, de Bertolt Brecht, 193?. Uma das características marcantes do nazismo – que colocou em cheque tanto a liberdade, a democracia e a dignidade humana, quanto os movimentos socialistas e comunistas – foi a disseminação de uma ideologia de extrema direita, de tradição xenófoba, nacionalista e antissemita, por uso sistemático e ostensivo dos modernos meios de informação e comunicação com o objetivo expresso de silenciar, controlar e conduzir as “massas” - daí a importância de Brecht dizer “Eu vivo em tempos sombrios”. Exemplos, aliás, desta prática – dadas às devidas proporções e aos contextos distintos – ainda persistem em nossos dias. Assinale a alternativa INCORRETA. a) É possível afirmar que, em ambos os textos, encontra-se presente a referência histórica às práticas de violência e dominação, levadas a cabo pelo governo alemão através de Adolf Hitler, também conhecido como “Führer”. b) O conteúdo da poesia de Bertolt Brecht nada tem a ver com o processo histórico de ascensão ao poder de Adolf Hitler e do regime nazista em 1933, haja vista o motivo de sua escrita ser uma crítica veemente ao comunismo de Stálin na então União Soviética. c) Uma das razões principais para que Hitler defendesse o uso “repetitivo” dos modernos meios de comunicação da época – especialmente, as rádios – estava na capacidade que eles tinham de conquistar as “massas” a qualquer custo, inclusive ao custo da liberdade de expressão. d) Existe uma identificação entre o que denuncia a poesia de Brecht e a passagem analítica do texto de Lenharo, ao citar trechos de Mein Kümpf, de Hitler, na medida em que o silenciamento repressivo que anula o direito ao livre pensar crítico VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 7 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) corresponderia ao bombardeio massivo de valores, símbolos e ideias caras ao nazismo, como a propaganda dirigida às massas. e) A presença em nossa contemporaneidade de movimentos e grupos de extrema direita, que defendem a ausência de conhecimento crítico, a excessiva limitação da liberdade de pensamento e expressão e o preconceito contra questões de gênero, sexualidade e etnia guardam relativa ligação com a ideologia nazista. Questão 02 Gilberto Cotrim (2006. p. 212), ao tratar da pós-modernidade, comenta as ideias de Michel Foucault, nas quais “[...] as sociedades modernas apresentam uma nova organização do poder que se desenvolveu a partir do século XVIII. Nessa nova organização, o poder não se concentra apenas no setor político e nas suas formas de repressão, pois está disseminado pelos vários âmbitos da vida social [...] [e] o poder fragmentou-se em micropoderes e tornou-se muito mais eficaz. Assim, em vez de se deter apenas no macropoder concentrado no Estado, [os] micropoderes se espalham pelas mais diversas instituições da vida social. Isto é, os poderes exercidos por uma rede imensa de pessoas, por exemplo: os pais, os porteiros, os enfermeiros, os professores, as secretarias, os guardas, os fiscais etc.” Fonte: COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: história e grandes temas. São Paulo: Saraiva, 2006. (adaptado) Pelo exposto por Gilberto Cotrim sobre as ideias de Foucault, a principal função dos micropoderes no corpo social é interiorizar e fazer cumprir a) o ideal de igualdade entre os homens. b) o total direito político de acordo com as etnias. c) as normas estabelecidas pela disciplina social. d) a repressão exercida pelos menos instruídos. e) o ideal de liberdade individual. Questão 03 “Discursos sobre o sexo não se multiplicaram fora do poder ou contra ele, porém, lá onde ele se exercia e como meio para seu exercício: criaram-se em todo canto incitações a falar; em toda parte, dispositivos para ouvir e registrar procedimentos para observar, interrogar e formular. Desenfurnam-no e obrigam-no a uma existência discursiva”. Trecho de História da Sexualidade, Vol. I – "A Vontade de Saber" in Sociologia em Movimento (p. 503). Tendo como referência os estudos sobre sexualidade em “A Vontade de Saber”, no qualo autor se propõe a analisar os discursos de verdade em torno da sexualidade, é CORRETO afirmar sobre essa obra que a) o objetivo principal da obra foi fazer uma história das condutas, comportamentos e práticas sexuais das sociedades ocidentais. b) o tema principal do livro são os problemas de censura e de liberdade sexual nas sociedades ocidentais. c) em “A Vontade de Saber”, o discurso sobre repressão sexual moderna é criticado por ocultar a proliferação de discursos a respeito da sexualidade. d) Foucault demonstra que os discursos sobre a sexualidade apenas descrevem a natureza reprodutiva humana e não se articulam com quaisquer relações de poder. e) em “A Vontade de Saber”, o autor defende a existência de uma verdade sobre o sexo que está escondida nos discursos sobre sexualidade. Questão 04 Os estudos realizados por Michel Foucault (1926-1984) apresentam interfaces que corroboram para estudos em diversas áreas de conhecimento, entre as quais a Filosofia, Ciências Sociais, Pedagogia, Psiquiatria, Medicina e Direito. Em 1975, Foucault publicou a obra “Vigiar e Punir: história da violência das prisões”, na qual propunha uma nova concepção de poder, a qual abandonava alguns postulados que marcaram a posição tradicional da esquerda do período. Sobre a concepção de poder foucaultiana, é CORRETO afirmar. a) Só exerce poder quem o possui, por se tratar de um privilégio adquirido pela classe dominante que detém o poder econômico. b) O poder está centralizado na figura do Estado e está localizado no próprio aparelho de Estado, que é o instrumento privilegiado do poder. c) Todo poder está subordinado a um modo de produção e a uma infraestrutura, pois o modo como a vida econômica é organizada determina a política. d) O poder tem como essência dividir os que possuem poder (classe dominante) daqueles que não têm poder (classe dos dominados). e) O poder não remete diretamente a uma estrutura política, ao uso da força ou a uma classe dominante: as relações de poder são móveis e só podem existir quando os sujeitos são livres e há possibilidade de resistência. Questão 05 A rebelião ocorrida na penitenciária de Cascavel/PR em agosto de 2014 remete ao passado e à história da repressão, especificamente na passagem do período das punições à vigilância. O estudo mais representativo sobre a história das prisões é Vigiar e Punir de Michel Foucault. Sobre as prisões atuais, tendo como referência essa obra, é CORRETO afirmar. a) Na prisão, os delinquentes não são úteis nem econômica nem politicamente para o sistema. b) O objetivo das prisões é reeducar os delinquentes, ensinando- lhes uma profissão que possa ser exercida ao saírem da prisão. c) A prisão impede a reincidência e permite a correção do delinquente. d) A prisão, para Foucault, longe de transformar os criminosos em gente honesta, serve apenas para fabricar novos delinquentes. e) A função da prisão é retirar os criminosos de circulação e do convívio social, e nada mais. Questão 06 Leia o texto a seguir: Tendo em vista que um dos principais sujeitos da sociedade civil organizada são os movimentos sociais, é importante registrar que os movimentos pela educação têm caráter histórico, são processuais e ocorrem, portanto, dentro e fora de escolas e em outros espaços institucionais. As lutas pela educação envolvem a VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 8 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) luta por direitos e são parte da construção da cidadania. Movimentos sociais pela educação abrangem questões tanto de conteúdo escolar quanto de gênero, etnia, nacionalidade, religiões, portadores de necessidades especiais, meio ambiente, qualidade de vida, paz, direitos humanos, direitos culturais etc. Esses movimentos são fontes e agências de produção de saberes. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104- 40362006000100003 Acesso em: junho 2015. A Educação é considerada um aspecto integrador do indivíduo com o grupo social e funciona como um instrumento de transmissão do patrimônio cultural de uma sociedade. No texto, a forma de transmissão da educação é denominada de a) Revolucionária. b) Sistemática. c) Burocrática. d) Informal. e) Isolada. Questão 07 7 “A liberdade religiosa tem como contrapartida, de fato, uma pacificação do pluralismo das visões de mundo cujos custos se mostraram desiguais. Até aqui, o Estado liberal só exige dos que são crentes entre seus cidadãos que dividam a sua identidade, por assim dizer, em seus aspectos públicos e privados. São eles que têm de traduzir as suas convicções religiosas para uma linguagem secular antes de tentar, com seus argumentos, obter o consentimento das maiorias. É assim que, quando querem reclamar o estatuto de portador de direitos fundamentais para os óvulos fecundados fora do corpo materno, os católicos e protestantes procuram hoje (talvez prematuramente) traduzir a imagem e semelhança a Deus da criatura humana para a linguagem secular do direito constitucional. Mas a procura por argumentos voltados à aceitação universal só não levará a religião a ser injustamente excluída da esfera pública, e a sociedade secular só será privada de importantes recursos para a criação de sentido, caso o lado secular se mantenha sensível para a força de articulação das linguagens religiosas. Os limites entre os argumentos seculares e religiosos são inevitavelmente fluidos. Logo, o estabelecimento da fronteira controversa deve ser compreendido como uma tarefa cooperativa em que se exija dos dois lados aceitar também a perspectiva do outro. (...) O senso comum democraticamente esclarecido não é algo singular, mas algo que descreve a constituição mental de uma esfera pública com muitas vozes”. HABERMAS, Jürgen. Fé e saber. Editora São Paulo: Unesp, 2013, p. 15-16. Uma vez que “os limites entre os argumentos seculares e religiosos são inevitavelmente fluidos”, qual é, segundo Habermas, a exigência básica para que ocorra um trabalho cooperativo entre as tradições religiosas e a tradição secular do Estado liberal? Por quê? Questão 08 Leia. Escola pública do DF começa a testar chip para monitorar alunos Por meio de um chip fixado no uniforme, uma turma de 42 estudantes do primeiro ano do ensino médio tem suas entradas e saídas monitoradas no CEM (Centro de Ensino Médio) 414 de Samambaia, cidade-satélite do Distrito Federal. O projeto, que começou a funcionar no dia 22 de outubro, manda mensagem por celular aos pais ou responsáveis pelos alunos, informando o horário de entrada e saída da escola. Segundo a diretora do CEM, a medida foi tomada para aumentar a permanência dos alunos nas salas de aula. "Os professores dos últimos horários reclamam que muitos alunos costumam sair antes do término das aulas. Por mais que a escola tente manter o controle, eles dão um jeito de sair da escola". Fonte: Folha on-line. 30 out. 2012. Adaptado. Disponível em: <http://folha.com/no1177555>. Acesso em 30 out. 2012. O texto apresenta uma forma de controle de estudantes dentro da instituição escolar. Esse tipo de instrumento está vinculado a qual lógica apresentada pelo filósofo Michel Foucault? a) Emancipação, que tem como fundamento tornar os estudantes sujeitos autônomos. b) Panoptismo, que tem intenção de controlar, mas também de tornar mais produtivos os corpos observados. c) Regime de verdade, que faz com que a Escola esteja comprometida com a emancipação humana. d) Luta de Classes, que torna tensa a relação entre estudantes e professores. e) Violência simbólica, que agride o sujeito através da linguagem. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 9CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA Questão 01: Resolução: Resposta: Alternativa b Questão 02: Resolução: Resposta: Alternativa C Questão 03: Resolução: Resposta: Alternativa C Questão 04: Resolução: . Resposta: Alternativa E Questão 05: Resolução: Resposta: Alternativa D Questão 06: Resolução: Resposta: Alternativa D Questão 07: Resolução: Para Habermas, a sociedade secular não está livre da perspectiva religiosa, ou seja, as decisões que são tomadas no âmbito secular devem estar abertas a escutar todos os que resistirem a uma decisão, pois o Estado liberal possui fundamentos morais alicerçados exatamente naqueles que resistem e contestam as decisões seculares. Mesmo na sociedade utilitarista ainda não houve a libertação das tradições religiosas, se fazendo necessário ter cuidados nas decisões, pois segundo o filósofo, o que a sociedade secular determina, não elimina de fato aquilo que ela considera uma perturbação. Sendo assim, como os limites são fluídos, a chave para o trabalho cooperativo entre as tradições religiosas e a tradição secular no estado liberal está alicerçada no diálogo, que visa o desenvolvimento do consenso. Resposta: Alternativa Questão 08: Resolução: Resposta: Alternativa B VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE FILOSOFIA Prof. Márcio Michiles ALIENAÇÃO Na vida cotidiana, na ciência ou na filosofia, o conceito de alienação assume diversos papéis e significados. No entanto, estes significados podem ser vistos como variações de um mesmo significado amplo, alienação como o ato pelo qual alguém torna-se estranho ou outro alguém ou a algo. O resultado de tal ato, seja de alguém em relação a algo ou o oposto, também é chamado de alienação. Neste sentido, alienação é: transformar propriedades, relações e ações humanas em propriedades e ações de coisas, que são independentes do homem. Outra interpretação é a de que a alienação é um afastamento de si mesmo, um processo através do qual o homem pensa a si, através de suas ações, como estranho a sua própria natureza, vendo-se como "coisa" (retificação), afastando-se da natureza humana. Em termos de sociedade, a alienação é um conceito abordado e desenvolvido por vários teóricos clássicos e contemporâneos como uma condição nas relações sociais manifestada por um baixo grau de integração, ou de valores comuns, e um elevado grau de distanciamento ou isolamento entre indivíduos, ou ainda entre um indivíduo e um grupo de pessoas, em um ambiente de convivência. O conceito tem muitos usos específicos dependendo da disciplina que o utiliza, mas em geral pode se referir tanto a um estado psicológico pessoal (subjetiva) como a um tipo de relação social (objetivamente). Filosoficamente, o conceito de alienação foi elaborado pela primeira vez pelo filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Segundo Hegel, a alienação é uma característica essencial do homem (a mente finita). A alienação se dá por meio da produção de coisas, para expressar-se em objetos, sejam coisas físicas, produtos culturais ou instituições sociais. A isto Hegel chamou objetificação, que segundo o filósofo é uma forma de alienação. Os objetos produzidos pelo homem tornam-se estranhos ao próprio homem, ao assumirem sua própria forma e função. Alguns autores têm defendido que o conceito de alienação pode ser encontrado, em sua primeira forma no Velho Testamento, quando este apresenta o conceito de idolatria. De acordo com outros no entanto, a doutrina cristã do pecado original e da redenção pode ser considerada como uma primeira versão da doutrina da alienação, de forma semelhante a exposta por Hegel. No entanto, já que Hegel vê a natureza como uma forma auto- alienada da Mente Absoluta (ou Espírito Absoluto, ou ainda Deus), o mais provável é que a fonte do conceito de alienação de Hegel se encontre em Platão, quando este apresenta sua interpretação do mundo natural como uma imagem imperfeita do mundo das Ideias. Para Platão a psique da alma humana é uma relação tripartida entre a razão, a emoção e os sentidos. Um ser humano só atingiria a harmonia psicológica e felicidade através de uma alma capaz de equilibrar estes três aspectos. Esta ordem ideal desenvolve-se não só no plano psicológico, mas também social e politico. Na República, Platão defende que na Polis ideal haveria uma harmonia semelhante, em que cada membro está em acordo com o todo, de forma que os membros de cada classe comportam-se adequadamente. Neoplatônicos, como Plotino, forçam essa noção em um sentido mais ontológico. De acordo com Plotino, a alma deve ser devidamente sintonizada com o Bom (Uno). Por esta razão, sempre que a alma dirige a sua razão, o desejo, ou a atenção para coisas inferiores isto resulta em uma forma de alienação. A despeito das influências anteriores, Hegel, Ludwig Feuerbach e Karl Marx, foram os três primeiros a apresentar uma elaboração explicita do conceito de alienação e cuja interpretação é base para as discussões sobre o conceito, seja em filosofia, sociologia ou psicologia. Referências bibliográficas: HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do espírito. (tradução Paulo Meneses). 5º ed. Petrópolis: Vozes. 2008. PLATÃO. A República. (trad. Enrico Corvisieri) São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Col. Os Pensadores). PLOTINO. Enneadi. Traduzione, introduzione, note e bibliografia di G. Faggin. Presentazione e iconografia plotiniana di G. Reale. Milano: Bompiani, 2000. REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da filosofia. /Il pensiero occidentale dalle origini adoggi. Trad. São Paulo: Paulinas, v.1, 1990, 693 p. CONCEITO DE ALIENAÇÃO Na filosofia política, fala-se de alienação para designar a condição do trabalhador que, à semelhança de uma peça de engrenagem, integra a estrutura de uma unidade de produção sem ter nenhum poder de decisão sobre sua própria atividade nem direitos sobre o que produz. Transcendendo o âmbito da produção, a alienação se estende às decisões políticas sobre o destino da sociedade, das quais as grandes massas permanecem alijadas, e mesmo ao âmbito das vontades individuais, orientadas pela publicidade e pelos meios de comunicação de massas. O conceito de alienação tem raízes no pensamento de Hegel e Karl Marx, mas cabe destacar uma importante observação complementar, a de Ludwig Feuerbach, mestre de Marx, para quem as formas paroxísticas da alienação humana seriam o êxtase e o arrebatamento religiosos. Para Hegel, a alienação é um processo essencial pelo qual a consciência ainda ingênua, convencida de que a realidade do mundo é independente dela mesma, chega a tornar-se consciência de si. Essa transformação da consciência em consciência de si é descrita na Phänomenologie des Geistes (1807; Fenomenologia do espírito). Para Hegel, o concreto reside na unidade dos termos contraditórios que entram em confronto. Cada termo é a negação de seu próprio oposto, sendo o movimento interno do sujeito a "negação da negação". A luta desses opostos é mortal, pois o ser de cada um deles está no outro, que o desafia e nega. A posse de si mesmo fica assim condicionada à destruição do outro, que detém a verdade e o absoluto. Concebida nesses termos, a alienação é, portanto, além de profunda, necessariamente intrínseca e primordial: o ser de cada indivíduo não reside em si próprio e sim em seu oposto, no qual corre o risco de se diluir. http://www.infoescola.com/filosofos/platao/ http://www.infoescola.com/biografias/karl-marx/ VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 2 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) Para Marx, a alienação refere-se a uma situação resultante dos fatores materiais dominantesda sociedade, caracterizada por ele sobretudo no sistema capitalista, em que o trabalho humano se processa de modo a produzir coisas que imediatamente são separadas dos interesses e do alcance de quem a produziu, para se transformarem, indistintamente, em mercadorias. http://www.estudantedefilosofia.com.br/conceitos/alienacao.php TRABALHO ALIENADO Para Marx existe sim o trabalho alienado. Este seria o trabalho que a sociedade industrial criou, a sociedade dominada pela produção de mercadorias. O trabalho que rompe a ligação entre o homem e sua atividade vital. Marx descreveu algumas características do trabalho alienados: * a alienação e o caráter fortuito do trabalho em relação ao sujeito trabalhador; * a alienação e o caráter fortuito do trabalho em relação ao objeto dele; * a determinação absoluta do trabalhador pelas necessidades, já que o trabalho (...) não tem para ele outro significado que ser uma fonte de satisfação de suas necessidades, enquanto ele só existe para elas como escravo de suas necessidades. Segundo Karl Marx, quanto mais o operário produz, menos ele custa para a economia e consequentemente mais ele Se desvaloriza, chegando ao ponto de se tornar uma mercadoria do capitalismo; este visaria somente o lucro e geraria a sede de riquezas e a guerra entre cobiças, a concorrência. Quanto mais o operário produzir, mais ele está valorizando o mundo das coisas e desvalorizando o mundo dos homens, tornando-se tanto mais pobre quanto mais riquezas ele produzir. O operário recebe primeiro o trabalho, e depois o meio de subsistência, sendo em primeiro lugar operário e depois pessoa física, tornando-o assim escravo de seu próprio trabalho. A Economia Política esconde a alienação na essência do trabalho porque ela não considera a relação direta entre o operário (trabalho) e a produção. É certo que o trabalho produz maravilhas para os ricos e a privação para o operário. O trabalho transforma o operário numa máquina que não consegue afirmar-se e não se sente à vontade, um infeliz. O operário não desempenha uma atividade física e intelectual livre, mas mortifica seu corpo e arruína seu espírito. O homem não se sente mais livremente ativo senão em suas funções animais, transformando-se bestial. Sua vida perde o sentido, pois o homem passa a fazer de sua própria vida simplesmente um meio de subsistência, invertendo com isso a relação que teria com o trabalho, desta forma o trabalho alienado termina por alienar do homem seu próprio gênero. Marx chega a seguinte conclusão: se o produto do trabalho é alienado do trabalhador, por ser algo exterior a ele, a ponto de não lhe pertencer, deve ser então propriedade de outro, que não é evidentemente quem o produziu, nem os deuses e muito menos a natureza, como pensavam os antigos, então logicamente deve ser outro homem que tomou dele aquilo que deveria lhe pertencer. LAZER ALIENADO O processo de alienação na sociedade industrial afeta também a utilização do tempo livre destinado ao lazer. A indústria cultural e de diversão vende peças de teatro, filmes, livros, shows, jornais e revistas como qualquer outra mercadoria. E o consumidor alienado compra seu lazer da mesma maneira como compra seu sabonete. Consome os “filmes da moda” e frequenta os “lugares badalados” sem um envolvimento autêntico com o que faz. Agindo desse modo, muitos se esforçam e fingem que estão se divertindo, pensam que estão se divertindo, querem acreditar que estão se divertindo. Na verdade, “através da máscara da alegria se esconde uma crescente incapacidade para o verdadeiro prazer. http://gustavohbo.wordpress.com/2009/02/10/lazer-alienado/ CONSUMO ALIENADO Num mundo em que predomina a produção alienada, também o consumo tende a ser alienado. A produção em massa tem por corolário o consumo de massa. O problema da sociedade de consumo é que as necessidades são artificialmente estimuladas, sobretudo pelos meios de comunicação de massa, levando os indivíduos a consumirem de maneira alienada. A organização dicotômica do trabalho a que nos referimos - pela qual se separam a concepção e a execução do produto - reduz as possibilidades de o empregado encontrar satisfação na maior parte da sua vida, enquanto se obriga a tarefas desinteressantes. Daí a importância que assume para ele a necessidade de se dar prazer pela posse de bens. "A civilização tecnicista não é uma civilização do trabalho, mas do consumo e do "bem-estar". O trabalho deixa, para um número crescente de indivíduos, de incluir fins que lhe são próprios e torna-se um meio de consumir, de satisfazer as "necessidades" cada vez mais amplas."(O. Friedmann, Sete estudos sobre o homem e a técnica, p. 147.) Vimos que na sociedade pós-industrial a ampliação do setor de serviços desloca a ênfase da produção para o consumo de serviços. Multiplicam-se as ofertas de possibilidade de consumo. A única coisa a que não se tem escolha é não consumir! Os centros de compras se transformam em "catedrais do consumo", verdadeiros templos cujo apelo ao novo torna tudo descartável e rapidamente obsoleto. Vendem-se coisas, serviços, idéias. Basta ver como em tempos de eleição é "vendida" a imagem de certos políticos... A estimulação artificial das necessidades provoca aberrações do consumo: montamos uma sala completa de som, sem gostar de música; compramos biblioteca " a metro" deixando volumes "virgens" nas estantes; adquirimos quadros famosos, sem saber apreciá-los (ou para mantê-los no cofre). A obsolescência dos objetos, rapidamente postos fora de moda", exerce uma tirania invisível, obrigando as pessoas a comprarem a televisão nova, o refrigerador ou o carro porque o design se tornou antiquado ou porque uma nova engenhoca se mostrou "indispensável". E quando bebemos Coca-Cola porque "E emoção pra valer!", bebemos o slogan, o costume norte-americano, imitamos os jovens cheios de vida e alegria. Com o nosso paladar é que menos bebemos... Como o consumo alienado não é um meio, mas um fim em si, torna-se um poço sem fundo, desejo nunca satisfeito, um sempre http://www.estudantedefilosofia.com.br/conceitos/alienacao.php http://gustavohbo.wordpress.com/2009/02/10/lazer-alienado/ VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 3 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) querer mais. A ânsia do consumo perde toda relação com as necessidades reais do homem, o que faz com que as pessoas gastem sempre mais do que têm. O próprio comércio facilita tudo isso com as prestações, cartões de crédito, liquidações e ofertas de ocasião "dia das mães" etc. Mas há um contraponto importante no processo de estimulação artificial do consumo supérfluo - notado não só na propaganda, mas na televisão, nas novelas -, que é a existência de grande parcela da população com baixo poder aquisitivo, reduzida apenas ao desejo de consumir. O que faz com que essa massa desprotegida não se revolte? Há mecanismos na própria sociedade que impedem a tomada de consciência: as pessoas têm a ilusão de que vivem numa sociedade de mobilidade social e que, pelo empenho no trabalho, pelo estudo, há possibilidade de mudança, ou seja, "um dia eu chego la E se nao chegam, "é porque não tiveram sorte ou competência". Por outro lado, uma série de escapismos na literatura e nas telenovelas fazem com que as pessoas realizem suas fantasias de forma imaginária, isto sem falar na esperança semanal da Loto, Sena e demais loterias. Além disso, há sempre o recurso ao ersatz, ou seja, a imitação barata da roupa, da jóia, do bule da rica senhora. O torvelinho produção-consumo em que está mergulhado o homem contemporâneo impede-o de ver com clareza a própria exploração e a perda da liberdade, de tal forma se acha reduzido na alienação ao que Marcuse chama de unidimensionandade (ou seja, a uma só dimensão). Ao deixar de ser o centro de si mesmo, o homem perde a dimensãode contestação e crítica, sendo destruída a possibilidade de oposição no campo da política, da arte, da moral. Por isso, nesse mundo não há lugar para a filosofia, que é, por excelência, o discurso da contestação. In: FILOSOFANDO, INTRODUÇÃO À FILOSOFIA. ARANHA, M. L. A e MARTINS, M. H. P. São Paulo: Moderna, 1993, 2.ed ALIENAÇÃO Capaz de ameaçar o trabalho e a consciência humana desde seus primórdios, a alienação afeta principalmente o homem do mundo moderno, em que as relações sociais se tornam cada vez mais determinadas por seu aspecto mercantil ou econômico- financeiro. Alienação é a condição psico-sociológica de perda da identidade individual ou coletiva decorrente de uma situação global de falta de autonomia. Encerra portanto uma dimensão objetiva -- a realidade alienante -- e a uma dimensão subjetiva -- o sentimento do sujeito privado de algo que lhe é próprio. O conceito de alienação é comum a vários domínios do saber. Em psicologia e psiquiatria, fala-se de alienação para designar o estado mental da pessoa cuja ligação com o mundo circundante está enfraquecida. Em antropologia, a alienação é o estado de um povo forçado a abandonar seus valores culturais para assumir os do colonizador. Em sociologia e comunicação, discute-se a alienação que a publicidade e os meios de comunicação suscitam, dirigindo a vontade das massas, criando necessidades de consumo artificiais e desviando o interesse das pessoas para atividades passivas e não participativas. Em filosofia política, fala-se de alienação para designar a condição do trabalhador que, à semelhança de uma peça de engrenagem, integra a estrutura de uma unidade de produção sem ter nenhum poder de decisão sobre sua própria atividade nem direitos sobre o que produz. Transcendendo o âmbito da produção, a alienação se estende às decisões políticas sobre o destino da sociedade, das quais as grandes massas permanecem alijadas, e mesmo ao âmbito das vontades individuais, orientadas pela publicidade e pelos meios de comunicação de massas. HISTÓRICO O conceito de alienação tem raízes no pensamento de Hegel e Karl Marx, mas cabe destacar uma importante observação complementar, a de Ludwig Feuerbach, mestre de Marx, para quem as formas paroxísticas da alienação humana seriam o êxtase e o arrebatamento religiosos. Para Hegel, a alienação é um processo essencial pelo qual a consciência ainda ingênua, convencida de que a realidade do mundo é independente dela mesma, chega a tornar-se consciência de si. Essa transformação da consciência em consciência de si é descrita na Phänomenologie des Geistes (1807; Fenomenologia do espírito). Para Hegel, o concreto reside na unidade dos termos contraditórios que entram em confronto. Cada termo é a negação de seu próprio oposto, sendo o movimento interno do sujeito a "negação da negação". A luta desses opostos é mortal, pois o ser de cada um deles está no outro, que o desafia e nega. A posse de si mesmo fica assim condicionada à destruição do outro, que detém a verdade e o absoluto. Concebida nesses termos, a alienação é, portanto, além de profunda, necessariamente intrínseca e primordial: o ser de cada indivíduo não reside em si próprio e sim em seu oposto, no qual corre o risco de se diluir. Para Marx, a alienação refere-se a uma situação resultante dos fatores materiais dominantes da sociedade, caracterizada por ele sobretudo no sistema capitalista, em que o trabalho humano se processa de modo a produzir coisas que imediatamente são separadas dos interesses e do alcance de quem a produziu, para se transformarem, indistintamente, em mercadorias. Marx, situando o homem na raiz da história (o homem concreto, que define com o trabalho sua relação com seus semelhantes e com a natureza), inverte a dialética hegeliana. De acordo com a dialética de Marx, o processo de alienação leva o ser genérico do homem -- expresso pelo trabalho -- a converter-se em instrumento de sua sobrevivência, o que ocorre, primeiro, na relação do produtor com o produto e, em seguida, na relação do produtor com os consumidores do produto. A alienação transforma o operário em escravo de seu objeto, mas o processo não se detém aí, já que o trabalho é mercadoria que produz bens de consumo para outrem. Na verdade, ocorre a alienação do homem perante o próprio homem: ao produzir um bem que não lhe pertence, o homem propicia o jugo daquele que não produz sobre a produção e o produto, deixando assim que o outro, alheio à produção, se aproprie dela. Dá-se assim a "reificação" ou coisificação social, ou seja, a conversão de todas as relações sociais em formas de mercadorias, que abrangeriam o próprio homem, desse modo já submerso na fantasmagoria das relações entre as coisas. Sintetizando-se o problema, a alienação seria ocasionada pela VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 4 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) divisão de trabalho e, de outro lado, pela separação entre o trabalho e o produto dele resultante. Os reflexos alienatórios seriam inevitáveis tanto na filosofia como nas instituições políticas e sociais, na religião, na literatura e nas artes. FILOSOFIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA Pensadores marxistas, muitas vezes desligados das principais correntes da tradição materialista-dialética retomaram os conceitos de alienação e reificação. György Lukács, por exemplo, fala de um mundo cristalizado de coisas e relações "coisísticas", ressaltando que a forma de mercadoria assume uma universalidade objetiva e subjetiva-objetiva, o que significa que todos os objetos são avaliados e trocados como mercadorias. O fenômeno da alienação se estende da fábrica a todos os setores da sociedade. Louis Althusser postula que a teoria da alienação implica uma retomada humanista e ideológica dos Manuscritos projetada na doutrina não-humanista do fetichismo de O capital. O brasileiro José Artur Gianotti fala mesmo no desaparecimento dos conceitos marxistas de mercadoria e de fetiche da mercadoria. No existencialismo marxista de Sartre também está presente o conceito de alienação, assim como no pensamento de Herbert Marcuse, voltado principalmente para a alienação alimentada pelos meios de comunicação. Na linha de Marcuse, os demais pensadores da Escola de Frankfurt -- Walter Benjamin e Theodor Adorno principalmente -- tratam a questão da arte como produto industrial e do objeto de arte como mercadoria. Atualmente, o que se entende como trabalho humano abstrato nada mais é do que o princípio real do processo efetivo da produção de quaisquer mercadorias. Nenhuma teoria pode modificar ou negar a situação básica produtora de alienação, inerente ao modo capitalista de produção, assim como o conceito de trabalho abstrato está indissoluvelmente ligado aos meios de produção desse sistema. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 5 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM Questão 01 No Brasil, a origem do funk e do hip-hop remonta aos anos 1970, quando da proliferação dos chamados “bailes black” nas periferias dos grandes centros urbanos. Embalados pela black music americana, milhares de jovens encontravam nos bailes de final de semana uma alternativa de lazer antes inexistente. Em cidades como o Rio de Janeiro ou São Paulo, formavam-se equipes de som que promoviam bailes onde foi se disseminando um estilo que buscava a valorização da cultura negra, tanto na música como nas roupas e nos penteados. No Rio de Janeiro ficou conhecido como “Black Rio”. A indústria fonográfica descobriu o filão e, lançando discos de “equipe” com as músicas de sucesso nos bailes, difundia a moda pelo restante do país. DAYRELL, J. A música entra em cena: o rap e o funk na socialização da juventude. Belo Horizonte: UFMG, 2005. A presença da cultura hip-hopno Brasil caracteriza-se como uma forma de a) lazer gerada pela diversidade de práticas artísticas nas periferias urbanas. b) entretenimento inventada pela indústria fonográfica nacional. c) subversão de sua proposta original já nos primeiros bailes. d) afirmação de identidade dos jovens que a praticam. e) reprodução da cultura musical norte-americana. Questão 02 Leia o texto a seguir. A sociedade, com sua regularidade, não é nada externa aos indivíduos; tampouco é simplesmente um “objeto oposto” ao indivíduo; ela é aquilo que todo indivíduo quer dizer quando diz “nós”. Mas esse “nós” não passa a existir porque um grande número de pessoas isoladas que dizem “eu” a si mesmas posteriormente se une e resolve formar uma associação. As funções e as relações interpessoais que expressamos com partículas gramaticais como “eu”, “você”, “ele” e “ela”, “nós” e “eles” são interdependentes. Nenhuma delas existe sem as outras e a função do “nós” inclui todas as demais. Comparado àquilo a que ela se refere, tudo o que podemos chamar “eu”, ou até “você”, é apenas parte. ELIAS, N. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. p.57. O modo como as diferentes perspectivas teóricas tratam da noção de identidade vincula-se à clássica preocupação das Ciências Sociais com a questão da relação entre indivíduo e sociedade. Com base no texto e nos conhecimentos da sociologia histórica, de Norbert Elias, assinale a alternativa que apresenta, corretamente, a noção de origem do indivíduo e da sociedade. a) O indivíduo forma-se em seu “eu” interior e todos os outros são externos a ele, seguindo cada um deles o seu caminho autonomamente. b) A origem do indivíduo encontra-se na racionalidade, conforme a perspectiva cartesiana, segundo a qual “penso, logo existo”. c) A sociedade origina-se do resultado diretamente perceptível das concepções, planejamentos e criações do somatório de indivíduos ou organismos. d) A sociedade forma-se a partir da livre decisão de muitos indivíduos, quando racional e deliberadamente decide-se pela elaboração de um contrato social. e) A sociedade é formada por redes de funções que as pessoas desempenham umas em relação às outras por meio de sucessivos elos. Questão 03 Texto 1 A ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros (PT), acusa a polícia e os frequentadores de shoppings de discriminar jovens negros nos “rolezinhos”. “As manifestações são pacíficas. Os problemas são derivados da reação de pessoas brancas que frequentam esses lugares e se assustam com a presença dos jovens.” Para ela, a liminar que autorizou os shoppings a barrar clientes “consagra a segregação racial” e dá respaldo ao que a PM “faz cotidianamente”: associar negros ao crime. (Medo de “rolezinho” é reação de brancos, diz ministra. Folha de S.Paulo, 16.01.2014.) Texto 2 Não se percebia, originalmente, nenhuma motivação de classe ou de “raça” nos rolezinhos. Agora, sim, grupos de esquerda, os tais “movimentos sociais” e os petistas estão tentando tomar as rédeas do que pretendem transformar em protesto de caráter político. Se há, hoje, espaços de fato públicos, são os shoppings. As praças de alimentação, por exemplo, são verdadeiras ágoras da boa e saudável democratização do consumo e dos serviços. Lá estão pobres, ricos, remediados, brancos, pretos, pardos, jovens, velhos, crianças... (Reinaldo Azevedo. “Rolezinho e mistificações baratas”. Folha de S. Paulo, 17.01.2014. Adaptado.) O confronto dos dois textos permite afirmar que a) o texto 1 elogia o caráter democrático da sociedade brasileira, enquanto o texto 2 assume uma posição elitista. b) ambos criticam a manipulação do desejo exercida pela publicidade e pelo marketing na sociedade de consumo. c) o texto 1 aborda o tema pelo viés da segregação racial, enquanto o texto 2 critica a manipulação da opinião pública. d) ambos tratam os “rolezinhos” como resultado histórico e material da luta de classes na sociedade brasileira. e) ambos tratam as manifestações como protestos de natureza ideológica contra os processos de exclusão social. Questão 04 Sobre o conceito de alienação, é correto afirmar: a) é um conceito de Émile Durkheim, que expressa a situação na qual um indivíduo perde sua identidade, vivendo uma relação social na qual há ausência de regras e normas. b) é um conceito de Karl Marx, que significa que o trabalhador perde o controle do seu processo de trabalho e do seu produto, VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 6 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) gerando um estranhamento em relação a ele, devido à existência da propriedade privada. c) é um conceito de Karl Marx, que revela o processo de inversão da realidade pela falsa consciência, trocando o determinante pelo determinado, a essência pela aparência, a causa pelo efeito, tal como fizeram os ideólogos alemães. d) é um conceito de Max Weber, que traduz para linguagem sociológica o processo de racionalização e burocratização da vida moderna, no qual a calculabidade dos fatores técnicos, a quantificação, a hierarquia e o sigilo são as características principais. Questão 05 Os preconceitos fazem parte da vida em sociedade e resistem às mudanças, muitas vezes alimentando as desigualdades e a exclusão social, conforme trecho da música A carne dos compositores Seu Jorge, Marcelo Yuca e Wilson Capellette. A carne mais barata do mercado é a carne negra que vai de graça ‘pro’ presídio E para debaixo de plástico que vai de graça ‘pro’ subemprego E ‘pros’ hospitais psiquiátricos A carne mais barata do mercado é a carne negra Que fez e faz história Segurando esse país no braço O cabra aqui não se sente revoltado Porque o revólver já está engatilhado E o vingador é lento Mas, muito bem intencionado E esse país vai deixando todo mundo preto e o cabelo esticado... Seu Jorge; Marcelo Yuca e Ulisses Cappelletti. “A Carne”. In: Farofa Carioca, Moro no Brasil. Rio de Janeiro: independente, 1998. Os conceitos sociológicos apresentados no trecho da composição A carne são os seguintes: a) acomodação, discriminação racial, exploração do trabalho. b) institucionalização, igualdade social, politização. c) marginalização, industrialização, socialização. d) democracia, cidadania, desigualdade social. e) estigma, flexibilização, modernização. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 7 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO Questão 01 Analise a imagem a seguir O quadro pretende mostrar os habitantes do continente americano e seus costumes, contudo os ameríndios aparecem com feições apolíneas e cabelos anelados. Nesta representação, como em muitas outras, os personagens mais se assemelham aos europeus do que propriamente aos povos da América. O quadro, assim, acaba nos dizendo mais sobre o olhar do próprio europeu do que sobre aqueles que procurava retratar. A identidade dos grupos humanos é uma característica fundamental para a criação de um “nós coletivo” que, ao mesmo tempo, identifica e diferencia os grupos entre si. Sobre a identidade, considere as afirmativas a seguir. I. A identidade possui natureza estática, daí perpassar as gerações e os subgrupos que se originam a partir de um tronco comum. II. Como em um jogo de espelhos, a identidade é construída a partir das representações que os grupos fazem dos outros, o que permite que enxerguem a si mesmos. III. A herança genética dos diferentes grupos humanos impede transformações de identidade, posto que delimita a abrangência das respectivas culturas. IV. A identidade supõe um processo de resignificação das diferenças entre os grupos sociais em função de um determinado contexto. Estãocorretas apenas as afirmativas: a) I e II. b) I e III. c) II e IV. d) I, III e IV. e) II, III e IV. Questão 02 A formação cultural do Brasil tem como eixo central a miscigenação. Autores, como por exemplo Gilberto Freire, destacaram que a mistura de raças/etnias europeias, africanas e indígenas configuraram nossos hábitos, valores, hierarquias, estilos de vida, manifestações artísticas, enfim, a maioria das dimensões da nossa vida social, política, econômica e cultural. Entretanto, outros pensadores consideravam-na um aspecto negativo em nossa formação e tentaram ressaltar as origens europeias de algumas regiões, como o intelectual paranaense Wilson Martins afirmou: Assim é o Paraná. Território que, do ponto de vista sociológico, acrescentou ao Brasil uma nova dimensão, a de uma civilização original construída com pedaços de todas as outras. Sem escravidão, sem negro, sem português e sem índio, dir-se-ia que a sua definição não é brasileira. Inimigo dos gestos espetaculares e das expansões temperamentais, despojado de adornos, sua história é a de uma construção modesta e sólida e tão profundamente brasileira que pôde, sem alardes, impor o predomínio de uma ideia nacional a tantas culturas antagônicas. E que pôde, sobretudo, numa experiência magnífica, harmonizá-las entre si, num exemplo de fraternidade humana a que não ascendeu à própria Europa, de onde elas provieram. Assim é o Paraná. (MARTINS, W. Um Brasil diferente: ensaio sobre fenômenos de aculturação no Paraná. 2. ed. São Paulo: T. A Queiroz, 1989. p. 446.) O preconceito em relação às origens africanas e indígenas criou uma ambiguidade no processo de autoafirmação dos indivíduos em relação às suas origens. Assinale a alternativa em que a árvore genealógica relatada por um indivíduo evidencia esse sentimento de ambiguidade em relação à formação social brasileira. a) Meu avô paterno, filho de italianos, casou-se com uma filha de índios do interior de Minas Gerais; meu avô materno, filho de português casado com uma negra, casou-se com uma filha de portugueses. Apesar de saber que sou fruto de uma mistura, dependendo do lugar em que estou, destaco uma dessas descendências: na maioria das vezes, digo que descendo de portugueses e/ou de italianos; raramente digo que descendo de negros e índios, quando o faço é porque terei alguma vantagem. b) Meu avô paterno, filho de negros, casou-se com uma filha de índios do Paraná; meu avô materno, filho de português casado com uma espanhola, casou-se com uma filha de italianos. Sempre destaco que sou brasileiro acima de tudo, pois descendo de negros, índios e europeus. Essa afirmação ajuda-me a obter vantagens em diferentes lugares, pois a identidade brasileira tem sido assumida com clareza pelo estado e pelo povo ao longo da história. c) Meus avós maternos são filhos de italianos e os avós paternos são filhos de imigrantes alemães. Eu casei com uma negra, mas meus filhos serão, predominantemente, brancos. Tenho orgulho dessa descendência que é predominante nas diferentes regiões do Brasil. Costumo destacar que o Brasil é diferente, é branco e negro e eu descendo de famílias italianas e alemãs, assim como meu filho. Esse traço cultural revela a grandeza do país e a firmeza de nossa identidade cultural. d) Meu avô paterno, filho de índios do Paraná, casou-se com uma filha de índios do Rio Grande Sul; meu avô materno, filho de negros, casou-se com uma filha de negros. Gosto de afirmar que sou brasileiro, pois índios, portugueses e negros formam nossa identidade nacional. e) Meu avô paterno, filho de poloneses, casou-se com uma filha de índios do Paraná; meu avô materno, filho de ucranianos, casou-se com uma filha de poloneses. Como sou paranaense, costumo destacar que o Paraná tem miscigenação semelhante as das outras regiões do Brasil: aqui temos índios, europeus e negros. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 8 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) Questão 03 A alienação política marcou a história da sociedade brasileira, conforme retratada no fragmento do poema “Analfabeto Político” de autoria de Bertolt Brecht O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro Que se orgulha e estufa o peito Dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil Que da sua ignorância política Nascem a prostituta, o menor abandonado, O assaltante e o pior de todos os bandidos, Que é político vigarista, pilantra, corrupto. E lacaio das empresas nacionais e multinacionais. SOUZA, S. M. R. de. Um outro olhar: filosofia. São Paulo: FTD, 1995, p. 154. Explique o conceito de alienação política e suas implicações para o exercício da cidadania, relacionando-as aos versos de Brecht. Questão 04 Analise os fragmentos a seguir. Fundamental para os estudos históricos na atualidade, o texto se refere ao conceito de a) gênero. b) patriarcado. c) empoderamento. d) matriarcado. e) feminismo. Questão 05 Cada cultura tem suas virtudes, seus vícios, seus conhecimentos, seus modos de vida, seus erros, suas ilusões. Na nossa atual era planetária, o mais importante é cada nação aspirar a integrar aquilo que as outras têm de melhor, e a buscar a simbiose do melhor de todas as culturas. A França deve ser considerada em sua história não somente segundo os ideais de Liberdade- Igualdade-Fraternidade promulgados por sua Revolução, mas também segundo o comportamento de uma potência que, como seus vizinhos europeus, praticou durante séculos a escravidão em massa, e em sua colonização oprimiu povos e negou suas aspirações à emancipação. Há uma barbárie europeia cuja cultura produziu o colonialismo e os totalitarismos fascistas, nazistas, comunistas. Devemos considerar uma cultura não somente segundo seus nobres ideais, mas também segundo sua maneira de camuflar sua barbárie sob esses ideais. (Edgard Morin. Le Monde, 08.02.2012. Adaptado.) No texto citado, o pensador contemporâneo Edgard Morin desenvolve a) reflexões elogiosas acerca das consequências do etnocentrismo ocidental sobre outras culturas. b) um ponto de vista idealista sobre a expansão dos ideais da Revolução Francesa na história. c) argumentos que defendem o isolamento como forma de proteção dos valores culturais. d) uma reflexão crítica acerca do contato entre a cultura ocidental e outras culturas na história. e) uma defesa do caráter absoluto dos valores culturais da Revolução Francesa. Questão 06 TEXTO I Ela acorda tarde depois de ter ido ao teatro e à dança; ela lê romances, além de desperdiçar o tempo a olhar para a rua da sua janela ou da sua varanda; passa horas no toucador a arrumar o seu complicado penteado; um número igual de horas praticando piano e mais outra na sua aula de francês ou de dança. Comentário do Padre Lopes da Gama acerca dos costumes femininos [1839] apud SILVA, T. V. Z.Mulheres, cultura e literatura brasileira. Ipotesi — Revista dos Estudos Literários, Juiz de Fora, v. 2. n. 2, 1998. TEXTO II As janelas e portas gradeadas com treliças não eram cadeias confessas, positivas; mas eram, pelo aspecto e pelo seu destino, grande gaiolas, onde os pais e maridos zelavam, sonegadas à sociedade, as filhas e as esposas. MACEDO, J.M. “Memória da Rua do Ouvidor [1878]”. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 20 maio 2013 (adaptado). A representação social do feminino comum aos dois textos é o(a) a) submissão de gênero, apoiada pela concepção patriarcal de família. b) acesso aos produtos de beleza,decorrência da abertura dos portos. c) ampliação do espaço de entretenimento, voltado às distintas classes sociais. A sociologia, a antropologia e outras ciências humanas lançaram mão [dessa] categoria para demonstrar e sistematizar as desigualdades socioculturais existentes entre mulheres e homens, que repercutem na esfera da vida pública e privada de ambos os sexos, impondo a eles papéis sociais diferenciados que foram construídos historicamente e criaram polos de dominação e submissão. Impõe-se o poder masculino em detrimento dos direitos das mulheres, subordinando-as às necessidades pessoais e políticas dos homens, tornando-as dependentes. Portanto, [esse] termo pode ser entendido como um instrumento, como uma lente de aumento que facilita a percepção das desigualdades sociais e econômicas entre mulheres e homens, que se deve à discriminação histórica contra as mulheres. Esse instrumento oferece possibilidades mais amplas de estudo sobre a mulher, percebendo a em sua dimensão relacional com os homens e o poder. Como uso desse instrumento, pode-se analisar o fenômeno da discriminação sexual e suas imbricações relativas à classe social, às questões étnico- raciais, intergeracionais e de orientação sexual. TELES, Maria Amélia de Almeida & MELLO, Mônica. O que é violência contra a mulher. São Paulo: Brasiliense, 2003. p. 16-17. (adaptado) VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 9 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) d) proteção da honra, medida pela disputa masculina em relação às damas da corte. e) valorização do casamento cristão, respaldado pelos interesses vinculados à herança. Questão 07 Leia o texto a seguir: Agregado (...) de pessoas que ocupam determinado espaço físico. Possui as seguintes características: é desordenada, descontrolada, anônima, desinibida; pode ser fanática e constituída de unidades uniformes; os fins e os sentimentos estão enquadrados pelo mais baixo denominador comum; a interação manifesta-se em termos de emoções generalizadas; os participantes adquirem segurança e poder; apresenta uma ideia fixa; pode dar expressão aos motivos inconscientes, reforçados pelo caráter cumulativo e circular de interexcitação. Disponível em: <http://www.prof2000.pt/users/dicsoc/soc_m.html#> A que tipo de agregado social esse texto se refere? a) Massa b) Multidão c) Liderança institucional d) Estamento e) Difusão cultural Questão 08 Texto 1 O professor não se aproveitará da audiência cativa dos estudantes para promover os seus próprios interesses, opiniões ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias. Ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa – isto é com a mesma profundidade e seriedade –, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito. O professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções. www.programaescolasempartido.org. Adaptado. Texto 2 Ciências sempre incluem controvérsias, mesmo física e química. Se não ensinamos isso também, ensinamos errado. E o mesmo vale para história e sociologia – o professor precisa ensinar Karl Marx, mas também Adam Smith e Émile Durkheim. Mas o conhecimento que precisa ser passado é essencialmente científico – o que não inclui o criacionismo, que é uma teoria religiosa. Com todo respeito, mas família é família, e sociedade é sociedade: a família pode ter crenças de preconceito homofóbico ou contra a mulher, por exemplo, e não se pode deixar que um jovem nunca seja exposto a um ponto de vista diferente desses. Ele tem que ser exposto a outros valores. Renato Janine Ribeiro. https://educacao.uol.com.br, 21.07.2016. Adaptado. O confronto entre os dois textos permite concluir corretamente que a) ambos atribuem a mesma importância à fé religiosa e à ciência como fundamentos educativos. b) ambos defendem o relativismo no campo dos valores morais, valorizando a aceitação das diferenças. c) as duas abordagens valorizam a doutrinação ideológica do professor sobre o aluno no campo educativo. d) o texto 1 assume uma posição moralmente conservadora, enquanto o texto 2 defende uma educação pluralista. e) o texto 1 é contrário a preconceitos morais, enquanto o texto 2 denuncia o cientificismo na educação. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 10 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) RESOLUÇÕES DAS QUESTÕES DE CASA Questão 01: Resolução: Resposta: Alternativa C Questão 02: Resolução: Resposta: Alternativa A Questão 03: Resolução: A alienação política, na ótica de Brecht, corresponde ao desinteresse do indivíduo de participar da vida pública de sua comunidade. Assim, por se interessar somente em questões fúteis ou privadas, ele delega tudo aquilo que é do interesse comum a outras pessoas. Isso causa uma perda de cidadania, na medida em que os direitos políticos não são exercidos e que os direitos civis e sociais não são reivindicados. Resposta: Alternativa Questão 04: Resolução: . Resposta: Alternativa A Questão 05: Resolução: Resposta: Alternativa D Questão 06: Resolução: Resposta: Alternativa A Questão 07: Resolução: Resposta: Alternativa B Questão 08: Resolução: Resposta: Alternativa D VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE FILOSOFIA Prof. Márcio Michiles RAZAO INSTRUMENTAL A RAZÃO INSTRUMENTAL Razão instrumental é um conceito reconhecido no pensamento filosófico e cientifico desenvolvido por Max Horkheimer através do surgimento da teoria critica juntamente com Adorno. Horkheimer atuou como diretor do instituto de pesquisa social, sendo o primeiro a formular conceitualmente a chamada teoria critica. O conceito de razão instrumental é sobremaneira relevante na obra de Habermas como crítica ao cientificismo e ao positivismo, porque somente uma razão com um fim em si mesma tem por característica a verdadeira racionalidade, sendo razões como meios para determinados fins, uma racionalidade subordinada de certa forma alienada. Esta racionalidade dos meios é denominada de instrumental, conforme define REPA (2008, p. 19): A racionalidade instrumental define-se por ser estritamente formal. Não importam os conteúdos das ideias e dos princípios que possam ser considerados racionais, mas a forma como essas ideias e princípios podem ser utilizados para a obtenção de um fim qualquer. Ou seja, a racionalidade instrumental, formal caracteriza-se, antes de tudo, pela relação entre meios e fins. Ela só diz respeito aos meios, aos critérios de eficácia na escolha dos meios para atingir os fins, sejam eles quais forem. Assim, no que tange as ciências, de certa forma toda ela tem um objetivo implícito, no âmbito da manipulação ou do interesse, caracterizando-a como uma prática instrumental, desta forma Habermas produzirá uma critica a teoria das ciências positivas. O que nos interessa aqui é como a sociedade moderna se comporta frente à instrumentalização da razão, direcionada pelas mídias, pela era da informação acrítica, pelo mercado de consumo, enfim, questões relevantes uma vez que dependendo o grau de alienação que se estabelece ao sujeito acaba por ser tornar um mero objeto, entre tantos, podemos destacar o trabalho, quando visto apenas como forma de produção. Esta forma de alienação resulta em uma colonização por um sistema que diminuio mundo da vida, esta colonização também se verifica na esfera econômica legitimada, pois o sistema como um todo permeia nas relações entre sujeito e objeto. O sistema que colonializa as razões cognoscentes, o faz por certa legitimação instrumental, ou seja, convence o ser que atua no mundo da vida, na esfera comumente aceita como publica, oprimindo sua vocação para uma “práxis” emancipatória. Desta feita, alienados e ou oprimidos servem como meio prático para se alcançar um fim, seja ele qual for, como um hedonismo capitalista, que para sua auto preservação, dilacera a livre deliberação do sujeito. Assim, percebemos as premissas do que Habermas chamaria de agir estratégico. O agir comunicativo distingue-se, portanto, do agir estratégico pelo fato de uma coordenação de ações bem sucedida não se apoiar sobre a racionalidade orientada para fins dos planos de ação sempre individuais, mas sobre a força racionalmente motivadora de realizações de entendimento, ou seja, sobre uma racionalidade que se manifesta nas condições em que um consenso pode ser alcançado de um modo comunicativo. (HABERMAS, 2004, p. 85). Vamos tentar demonstrar como isto se dá com um exemplo do próprio Habermas, porém tentarei simplifica-lo no intuito de uma melhor compreensão. Suponhamos que um sujeito X, que promete doar uma pequena quantia em dinheiro para um sujeito Y, não obstante, este se utiliza da quantia fornecida para junto de um sujeito Z, praticar um assalto, através da compra de uma arma, por exemplo, com a quantia fornecida. Ora, o sujeito Y se beneficiou do agir estratégico, uma vez, que se tivesse revelado para X o verdadeiro propósito, presume-se que este não seria condizente com tal ação. Agora se Y tivesse revelado sua meta, haveria um consenso em deliberar para o bem ou para o mal, este é o agir comunicativo o que se utiliza da razão para o entendimento não como um instrumento e ou estratégia para determinado fim. Vamos abrir um parêntese aqui para ação em si do agir comunicativo, fazendo um gancho a um conceito Kantiano, a saber; o da “boa vontade”. Para Kant não há nada que possa validar algo como o bem em si. Por exemplo, a beleza não pode ser caracterizada com bem em si porque pode ser usada para o mal, em quantas ocasiões já não presenciamos e ou tivemos conhecimento de caso que se utilizaram da beleza para sedução de alguém, o que dizemos do poder, pode ser caracterizado como bem em si, a história já nos tem dado a resposta, a força, fama, o dinheiro, enfim não há nada no mundo que caracterize o bem em si, exceto, a “boa vontade”. Ora, Kant dirá que a boa vontade é o bem em si, uma vez que vai em direção oposta ao desejo. Destarte, a importância do conceito de desejo e vontade da teoria Kantiana, na teoria de Habermas, no momento o que nos interessa é que o conceito de boa vontade é imanente ao dever, e para que uma ação tenha efeito de entendimento mutuo a boa vontade precisa ser utilizada. Não obstante, temos uma divergência entre Kant e Habermas, o primeiro pensa o individuo que age pelo imperativo categórico como capaz de decidir por si só quais são as regras morais que qualquer um possa seguir, o segundo pensa que em uma sociedade, as regras morais são estabelecidas dentro de uma comunidade de falantes. No entanto, fica clara a atividade que caberá ao mundo da vida, a oscilação entre agir estratégico e agir comunicativo, a “práxis” instrumental e a valoração do sujeito. REFERÊNCIAS: REPA, Luís Sergio, PINZANI, Alessandro. REVISTA MENTE E CEREBRO: Fundamentos para a compreensão contemporânea da psique. Editora Duetto, São Paulo, 2008. A faculdade subjetiva do pensar é a razão, ou seja, é a faculdade que julga, discerne, compara, relaciona, calcula, ordena e coordena os meios com os fins. Essa faculdade tornou-se em sua evolução um instrumento formal. A razão não é apenas a VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 2 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) faculdade interior do homem, mas ela se personificou nos próprios objetos deste mundo. A razão tornou-se racionalidade. Ela está presente no aparelho produtivo, no aparelho tecnológico e cientifico, nas instituições políticas, no hospital, na escola, no trânsito e na mídia. Em todos os empreendimentos humanos há a relação calculada entre meios e fins. A operação, a coordenação, a ordem, o sistema, o cálculo, a busca da unidade define a racionalidadade em sua eficácia. O primeiro pensador que desvelou o fenômeno da racionalidade no mundo ocidental foi Max Weber. Weber em seu livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, publicado em 1905, diagnosticou que a característica fundamental específica da sociedade ocidental é a racionalização. Ele entende a racionalização como uma “regularização da ação humana” na busca de certos fins específico. Em seus estudos, ele percebeu que no ocidente ocorreram fenômenos culturais dotados de “desenvolvimento universal” em seu valor e significado. Por exemplo, a ideia de um estado racionalmente organizado como uma entidade política, com uma constituição racionalmente redigida, um direito racionalmente ordenado, uma administração orientada por regras racionais e com funcionários especializados somente existiu no ocidente. Da mesma forma, a apropriação capitalista racionalmente efetuada e calculada em termos de capital. Tudo sendo feito em termos de balanço, onde a ação individual das partes, baseada no cálculo, só existiu no ocidente. O que weber faz “é postular como racional toda a ação que se baseia no cálculo, na adequação de meios e fins, procurando obter com um mínimo de dispêndios um máximo de efeitos desejados, evitando-se ou minimizando-se todos os efeitos colaterais indesejados”. (FREITAG, 1994, p.90). Para Weber o conceito de “racionalização” se desenvolveu principalmente pelas ciências ocidentais em suas possibilidades técnicas. “Essa racionalização intelectualista (…) devemos à ciência e à técnica-científica” (Weber, 1993, p.30). O desenvolvimento de uma ciência racional fundamentada em princípios racionais e no método científico é um produto do ocidente. A astronomia fundamentada matematicamente; a geometria demonstrada através da prova racional; as ciências naturais fundamentada na observação e no método experimental; a medicina desenvolvida empiricamente com fundamentos biológicos e bioquímicos é uma descoberta da cultura ocidental. Esse processo de racionalização das ciências atingiu todas as esferas da vida social e tornou o “mundo desencantado”. Tudo o que existe poderia ser explicado pelo conhecimento racional. O mundo deixou de ser misterioso. Apesar de a racionalização ter começado com as ciências, foi somente com os protestantes que ela adquiriu valor e significado. Foi graças à ética protestante que a racionalidade tornou-se universal, impulsionando o capitalismo. Com os protestantes o capitalismo ganhou consistência, assumiu formas e direções. Foi com o protestantismo que surgiu a organização capitalista assentada no trabalho livre. Os membros da escola de Frankfurt também fizeram uso, em larga medida, do conceito de racionalidade na teoria crítica da civilização. Pode-se dizer que o objetivo primordial da Escola de Frankfurt é fazer uma crítica radical à racionalidade técnica do ocidente, que tem desencantado o mundo. No seu livro “Eclipse da Razão”, publicado em 1947, Horkheimer define mais amplamente o conceito racionalidade instrumental. Ele distingue duas formas de razão: a razão subjetiva (interior) e razão objetiva (exterior). A razão subjetiva (instrumental) é a faculdade que torna possível as nossas ações. É a faculdade de classificação, inferência e dedução, ou seja, é a faculdade que possibilita o “funcionamento abstrato do mecanismo de pensamento”.(Horkheimer, 1974, p. 11). Essa razão se relaciona com os meios e fins. Ela é neutra, formal, abstrata e lógico-matemática. “A razão subjetiva se revela como a capacidade de calcular probabilidades e desse modo coordenar os meios corretos com um fim determinado” (Horkheimer, 1974, p. 13). Por sua vez, a razão objetiva (Logos), conhecida desde a época clássica da história da Grécia, era considerada o principal conceito da filosofia. A razão não é somente uma faculdade mental, mas é também do mundo objetivo. Existe uma ordem, uma harmonia por trás do mundo, uma racionalidade objetiva. A razão se manifesta nas relações entre os seres humanos, na organização da sociedade, em suas instituições, na natureza e no cosmo. As teorias de Platão, Aristóteles, o escolaticismo e o idealismo alemão se fundamentam sobre uma teoria objetiva da razão. Durante a evolução do conhecimento a faculdade subjetiva do pensar foi tomando o lugar da razão objetiva. A faculdade subjetiva de pensar foi o instrumento crítico que dissolveu os conceitos da mitologia e da filosofia (razão objetiva) como mera superstição. A luta da razão subjetiva contra a mitologia e a filosofia, ao denunciá-las como falsa objetividade, teve que usar conceitos que reconheceu como válidos, como a lógica formal e a matemática. O resultado disso foi que nenhuma realidade particular pode ser vista como racional. A razão na busca de uma objetividade cada vez maior se formalizou. Em sua formalização a razão foi transformando o pensamento em um simples instrumento. O livro “Dialética do Esclarecimento”, publicado em 1947, escrita a quatro mãos por Adorno e Horkheimer, também mostra- nos como a razão emancipatória objetiva se converteu em razão instrumental subjetiva. O objetivo deste livro foi o de investigar a autodestruição da razão. Por que a humanidade através do progresso técnico e científico não alcançou sua maioridade e sim sucumbiu a um estado de barbárie? Sua tese principal nos revela o lado oculto do esclarecimento, sua história subterrânea. Para adorno e Horkheimer a razão não atingiu seu fim, pois a razão é em sua própria essência um mito: “O mito é esclarecimento, e o esclarecimento acaba por converter-se em mito”. Esses pensadores analisaram o conceito de razão em seu desdobramento dialético, que em sua evolução buscava se emancipar da mitologia e da metafísica conduzindo a sua autonomia e a sua autodeterminação. Contudo, essa razão onipotente, dominadora da natureza, emancipatória, que buscava submeter à natureza e a sociedade à objetividade da razão não atingiu seu fim. A razão se transformou em mera abstração, mero instrumento formal. “Razão significa triunfo da máquina, do trabalho, da natureza útil e grátis, razão mistificada que se realiza como razão instrumental, pela qual a natureza, o útil-grátis, é espoliado pela máquina e pelo trabalho. Mistificada porque é o lado abstrato da regularidade, da disciplina do trabalho legitimador dessa prática de pilhagem – prática do trabalho para o capital, da exploração dos homens para o capital”. (Matos, 1989, 130). A grande consequência da racionalidade instrumental foi à perda da autonomia do indivíduo. A racionalidade técnica eliminou qualquer tentativa de ruptura. O aparato produtivo e as mercadorias se impõem ao sistema social como um todo. Os consumidores dos produtos e das formas de bem estar social tornaram-se prisioneiros do capital. Adorno e Horkheimer VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 3 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) detectaram uma civilização que chegou a uma dialética sem síntese. Nós vivemos na eterna contradição entre produtividade e destruição, dominação e progresso, prazer e infelicidade. Não houve a síntese libertadora de uma sociedade livre e feliz. Bibliografía ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de janeiro: Jorge Zarhar, 1986. CONHECIMENTO E RAZÃO INSTRUMENTAL Franklin Leopoldo e Silva Departamento de Filosofia Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP Este texto trata de alguns aspectos que julgamos importantes para o entendimento da noção de razão instrumental. Focalizamos numa primeira parte alguns temas inscritos na fundação filosófica da modernidade, visando assim fornecer subsídios para a compreensão da história crítica da razão feita por Adorno e Horkheimer. Procuramos também tratar de pontos estratégicos para a abordagem dialética do Iluminismo, com a finalidade de esclarecer a necessidade, posta pelos autores, da consideração das contradições presentes no desenvolvimento da razão iluminista, tais como progresso/regressão e autonomia/dominação. Descritores: Iluminismo. Razão instrumental. História. Teoria. Crítica. Quem quer que ainda seja capaz de lançar um olhar crítico ao mundo contemporâneo não poderá certamente deixar de se surpreender ao comparar os resultados do processo histórico da modernidade com o projeto que se pode inferir das pretensões de nossos ancestrais fundadores. Bacon e Descartes situam-se nesta relação de paternidade exatamente porque propuseram os meios racionais de emancipação do homem em relação às forças da natureza e aos dogmas estabelecidos por instâncias de autoridade alheias ao domínio da pura razão. Tais meios racionais constituem os procedimentos de conhecimento da realidade em todos os seus aspectos. Conhecer emancipa porque o conhecimento traz consigo o domínio da realidade. Da submissão ao senhorio sobre a natureza é pois a trajetória que caracteriza a passagem do arcaico ao moderno, do primado do mundo exterior à primazia de um sujeito livre que se situa perante o mundo na posição de um juiz que é ao mesmo tempo um senhor. As duas atribuições vinculam-se ao saber cujo único instrumento é a razão. Afirma-se assim um poder indefinido de exploração intelectual da realidade que tem como consequência necessária o domínio técnico da natureza. Em princípio, nenhum elemento haveria neste quadro que pudesse causar estranheza ao homem do nosso século, habituado às conquistas tecnológicas derivadas do progresso da ciência e à marcha acelerada que caracteriza o domínio da terra por via das criações do engenho humano. Entretanto, se nos detivéssemos numa análise mais precisa deste pensamento que se constituiu na alvorada dos tempos modernos, duas coisas poderiam talvez causar inquietação. A primeira é o caráter utópico de certas propostas de organização social do trabalho científico que acompanham e mesmo ilustram a pretensão de domínio racional. Em Bacon, textos como a Nova Atlântida descrevem, na forma da utopia, uma civilização extremamente equilibrada, totalmente calcada na busca e organização do saber em todos os domínios, do que resulta o estado de felicidade desfrutado por todos os habitantes. O segundo motivo de inquietação deriva da maneira como Descartes pretendia integrar as várias partes que compõem a totalidade unitária do saber humano, definindo a vinculação do empreendimento teórico com as suas aplicações práticas através do termo sabedoria. A esta perfeita integração entre a teoria e a prática é assinalado o mesmo objetivo proposto por Bacon: a consecução da felicidade humana. Os ramos extremos da árvore que em Descartes representa o sistema do saber são a mecânica, a medicina e a moral, o que nos indica que o saber teórico se complementa na sua aplicação harmônica às três dimensões que concorrem, no ser humano, para a felicidade: o domínio técnico da natureza pelas artes mecânicas, a extinção das doenças e o prolongamento da vida e finalmente o domínio interno das paixões que deve levar à serenidade do espírito. Por que propósitos tão razoáveis aparecem hoje para nós como revestidos de um caráter quase bizarro? Simplesmente porque a história da modernidade mostrou a incompatibilidadeentre as duas partes do projeto: a autonomia da razão e a conquista da felicidade. Mas responder desta maneira implica também em constatar que uma harmonia inicial tornou-se historicamente um conflito. Com efeito, tanto para Descartes quando para Bacon, nada deveria opor o exercício da racionalidade à realização da felicidade, posto que no próprio sentido da organização racional do saber já estaria incluído o objetivo do bem-estar humano em todos os aspectos. Esta relação está pressuposta como verdadeira na própria gênese do projeto de emancipação racional, uma vez que o conhecimento só pode levar à realização da liberdade. A utopia baconiana não significa o relato do impossível, mas exatamente a representação literária do possível; e a noção cartesiana de sabedoria expressa simplesmente a necessidade de totalização harmônica de todas as dimensões da vida humana. Isto nos coloca diante de um problema singularmente difícil: explicar como a história encarregou-se de tornar falso algo que o pensamento instituiu como verdade fundamental. A direção em que esta questão deve ser pensada tende a agravá- la sobremaneira, pois foi a trilha histórica seguida pela modernidade que aprofundou o conflito entre os elementos que se deveriam combinar; e este percurso histórico é nada menos que o progresso. * Nada mais óbvio do que a constatação de que a razão é fator de progresso. O que caracteriza o avanço histórico da modernidade é sobretudo o desenvolvimento da ciência e da técnica, tornado possível pelas perspectivas metafísicas e metodológicas instituídas e fundamentadas no século XVII, pelo trabalho de Galileu, Bacon e Descartes. A compreensão mais aprofundada do processo, no entanto, exige que se pergunte pelo tipo de racionalidade que se exerceu neste progresso. A distinção a ser feita corresponde às duas faces do que antes chamamos de projeto da modernidade. Vimos que, para conceber um conhecimento que levasse à realização da felicidade como consequência, tanto Bacon quanto Descartes tiveram de acoplar à atividade de conhecer o domínio da realidade, pois é a técnica dominadora que estabelece condições para o aprimoramento da vida. Num primeiro momento, a invenção e a consolidação dos meios de dominação proporcionados pelo conhecimento é tarefa de uma racionalidade instrumental; num segundo momento, o estabelecimento das finalidades a que tais meios deveriam servir para a consecução dos fins constitui o objetivo de uma racionalidade prática. Vê-se por aí que, num projeto de emancipação autêntico, as duas coisas são inseparáveis, embora VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 4 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) coordenem suas diferenças no próprio processo de expansão racional. Dominar a natureza é apropriar-se, pelo conhecimento, dos meios que permitam colocá-la em harmonia com as finalidades humanas. O significado do predomínio da subjetividade na instauração da cultura moderna é a plena assunção do valor de que se devem revestir as finalidades humanas. A razão como medida de todas as coisas não tem a princípio um estatuto apenas lógico, mas também axiológico, que se expressa no reconhecimento do homem como valor, a partir de sua condição de ente racional. Assim a modernidade parece traduzir para termos puramente racionais uma combinatória de origem aristotélica: a razão teórica que conhece e por esta via cria os meios; e a razão prática (no sentido da fronesis aristotélica) que deve discernir os fins. Seria a completa integração destas duas perspectivas que resultaria no que Descartes chamou de Sabedoria. Mas há um elemento complicador na própria gênese deste projeto. O trabalho de fundamentação da atitude galilaica, levado a efeito por Descartes, e que constitui a elaboração das bases metafísicas do conhecimento em sentido moderno, tinha como um de seus alicerces uma idéia muito nítida, que aos olhos de Descartes aparecia como um pressuposto absolutamente necessário para que o conhecimento viesse a possuir um caráter sistemático: a unidade da razão. Compreende-se a preocupação do filósofo. Já que é preciso estabelecer um fundamento inquestionável sobre o qual repousará doravante todo o conhecimento, a consistência e a completude do sistema que assim se edificará depende da solidez e da unidade do seu princípio. Somente desta maneira o sujeito pode constituir, a partir do intelecto, a certeza que deve caracterizar a sua relação com o objeto. Renunciar à unidade da razão seria retornar às oscilações que marcavam uma concepção pré-metódica de conhecimento, a variação entre fundamento sensível e fundamento intelectual, que justamente havia suscitado a dúvida e a tarefa de reforma da Filosofia. Mas da unidade da razão seguem-se duas consequências necessárias: a unidade do método e a unidade do objeto. Como é a mesma razão que se aplica nos vários modos de conhecimento, e como se trata de estabelecer sempre o mesmo tipo de certeza cujo paradigma é a evidência matemática, só é possível conceber um único método. E como a objetividade é constituída a partir desta unidade metódica, segue-se que um único tipo de objeto é adequado a um único método. Pode-se continuar falando numa diversidade de objetos (a alma, Deus, os corpos), mas o conhecimento evidente supõe a redução desta diversidade de conteúdos a uma uniformidade intelectual. De alguma maneira é preciso abstrair da diversidade a unidade, para que haja correspondência entre método e objeto. É a própria unidade do paradigma que exige esta redução, já que a certeza matemática, isto é, eminentemente intelectual e que incide sobre entes abstratos, é o protótipo de evidência. É este o significado da matematização do mundo, ou do caráter matematizante do conhecimento enquanto tal. É esta unidade que prejudica, desde o início, a visão da diferença e da articulação entre o teórico e o prático. Descartes não põe em dúvida a diferença entre a Física e a Moral, mas a necessidade de conhecimento igualmente evidente em todos os domínios faz com que o conhecimento em moral deva seguir o mesmo paradigma do conhecimento físico. Ora, uma vez este modelo estabelecido, as coordenadas fundamentais do conhecimento estão definitivamente postas, uma vez que será este modelo que propiciará precisamente o progresso, já que ele é visto como o único que pode permitir o acesso à evidência teórica. O sentido último do progresso é a máxima expansão deste modelo. A delimitação crítica do conhecimento teórico feita por Kant se move ainda dentro destas coordenadas. A interdição do conhecimento metafísico, se de um lado restringe o horizonte da teoria, de outro reforça o caráter puramente - e formalmente - racional do fundamento da atividade cognitiva, que em Descartes ainda dependia de uma relação entre a razão humana e Deus como garantia das representações evidentes. É por isto que a depuração formal das estruturas lógicas do conhecimento em Kant opera como restritor do âmbito do conhecimento teórico, para melhor fundamentar a unidade do conhecimento. Com isto podemos avaliar como o progresso do conhecimento ocorre de maneira solidária a uma restrição do exercício da racionalidade teórica. O surgimento das novas ciências e a abertura de novos campos de objetividade subordinam-se à unidade do paradigma, já que o estatuto de cientificidade depende da conformação das novas realidades a uma definição prévia de conhecimento objetivo. Assim se consuma a superposição entre racionalidade e racionalidade instrumental ou técnica, permanecendo a ideia cartesiana de que a diversidade de conteúdos não pode implicar na quebra da homogeneidade da noção de objeto. Esta hegemonia da razão instrumental produz consequências de largo alcance quanto ao que se deve compreender por emancipação e autonomia como características da modernidade, e quanto à relação entre estas duas noções e a ideia deprogresso. * Com efeito, a partir do quadro acima traçado somos obrigados a relacionar duas ideias a princípio antagônicas: autonomia e subordinação. A realização da autonomia da razão resultou no estabelecimento de um modelo de racionalidade ao qual se subordina todo o conhecimento e que se põe como requisito do próprio exercício da razão. A hegemonia do paradigma, consolidada historicamente, implicou então na inversão do valor a princípio implícito na própria ideia de autonomia. A expansão da atividade racional - o progresso - fica sendo então a simples incorporação de novos conteúdos a um modelo formal de racionalidade que permanece invariável nas suas grandes linhas. O exemplo mais radical desta ideia de progresso científico é a epistemologia positiva e os critérios de cientificidade que são por ela estabelecidos. O reconhecimento da verdade científica como valor fica na inteira dependência da conformação do conhecimento ao modelo da objetividade físico-matemática. A consequência deste pressuposto não é apenas a adaptação da realidade aos critérios de objetividade, com a subsequente perda que isto possa acarretar no que concerne à adequação entre método e objeto. A consequência maior, que de alguma maneira já aparece em Descartes, é a dissolução da realidade no ato de sua transformação em objeto de conhecimento. É por isto que a flexibilização do modelo, ou de alguns de seus requisitos, não basta para fazer de uma nova adequação uma verdadeira apreensão da realidade mesma. Por exemplo, não basta, como fizeram os epistemólogos franceses do final do século passado, estabelecer graus de determinismo para garantir a adaptação do modelo físico-matemático a novas ciências, no intuito de reduzir assim a perda de realidade no processo de objetivação. Isto significa manter-se ainda no interior da perspectiva determinista, ampliando apenas a latitude de inserção da realidade no modelo de objetividade. É claro que estes problemas aparecem de maneira mais contundente no caso das ciências que têm por objeto o homem, sejam aquelas convencionalmente ditas "humanas", como a Sociologia e a História, sejam aquelas que pelo menos têm o VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 5 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) homem entre os seus objetos, como é o caso da Psicologia. As questões que esta última suscita em termos de epistemologia e teoria da ciência são particularmente relevantes para um equacionamento crítico do problema da razão instrumental. Boa parte da crítica que se faz à Psicologia científica desde o final do século XIX até os anos 30 deste século pode ser remetida a um problema de fundo, que foi desdobrado em várias dificuldades de ordem epistemológica e de teoria do conhecimento. Trata-se da possibilidade de fazer do sujeito um objeto. De um lado o simples enunciado do problema já prenuncia a sua insolubilidade; de outro - e por isto mesmo - tal problema só é formulado a partir de uma posição crítica em relação à Psicologia científica que se praticava na época a que nos referimos. É de se notar que o caráter fundamental deste problema aparece na ampla gama de posições críticas que ele recobre. Num extremo, a absoluta interdição comteana de uma Psicologia científica, exatamente devida à impossibilidade de objetivar os conteúdos, demarcando- lhes um território distinto da Biologia e da Física Social: a idéia de uma Psicologia científica contraria a própria noção de método científico. Num outro extremo, a crítica bergsoniana, que vê na objetivação dos conteúdos a dissolução inelutável da especificidade do psíquico. Aqui, a impossibilidade de uma Psicologia científica nos moldes tradicionais se deve ao caráter metafísico daquilo que deveria se constituir como o seu objeto: o próprio sujeito, ou o espírito. A diferença entre estas duas posições, que se inscrevem em campos filosóficos absolutamente opostos, é que Bergson propõe uma forma de conhecimento que, abandonando completamente os parâmetros do modelo tradicional, permitiria uma certa aproximação do psiquismo entendido como temporalidade interna ou duração. Neste sentido o "método" da Psicologia coincidiria parcial ou mesmo totalmente com o da Metafísica. É exatamente o caráter inalcançável do estrato subjetivo que leva Comte a pronunciar o seu interdito. Assim ambos coincidem de alguma maneira no resultado, embora divergindo radicalmente nos pontos de partida. A questão central, que de certo modo traduz o problema fundamental enunciado acima, é a da especificidade do "objeto" da Psicologia. A reivindicação desta especificidade, no caso de Bergson, obriga-o a abraçar a dura tarefa de defini-la. Este trabalho, sobre o qual não nos podemos deter aqui, nem mesmo para resumi-lo, produz resultados em duas instâncias. Na primeira, a que chamaríamos de epistemológica ou metodológica, a conclusão a que se chega é a de uma total inadequação entre método tradicional - modelo cartesiano filtrado pelo formalismo kantiano e retraduzido pelo positivismo - e o sujeito psicológico no estrato mais profundo de sua "vida interior", que para Bergson coincide mais propriamente com o psíquico. O caráter analítico do método, sua vocação categorial que se expressa na formulação de conceitos fixos que deveriam encerrar formalmente o objeto, delimitando com nitidez espacial os seus contornos e focalizando- o, para tanto, de múltiplas perspectivas externas, redundaria numa aberração - algo como uma geometria da subjetividade. Na segunda instância, que poderíamos denominar de metafísica - o que em termos bergsonianos significa a realidade a ser estudada, a especificidade do psíquico é aproximadamente definida como a fluência temporal das vivências, impossível de ser captada nos moldes do realismo substancialista tradicional, já que se opõe à fixidez de uma coisa. Em ambos os casos o que temos é a oposição a pressupostos metodológicos e metafísicos e o que se impõe é o reconhecimento de que, no caso da Psicologia, o conhecimento não está para o objeto assim como o conceito está para a coisa, ou a lei para os fenômenos que regula. Isto significa a falência do modelo físico-matemático na Psicologia. Mas isto significa, ao mesmo tempo, entender as causas da aplicação por assim dizer espontânea deste modelo a uma realidade que lhe é tão adversa. Trata-se do triunfo histórico de um certo paradigma de racionalidade, que institui o seu objeto, constituindo-o como homogêneo aos esquemas intelectuais, mesmo ao preço do completo distanciamento da realidade a ser conhecida. É unicamente a força do instrumento que molda o seu produto. Isto indica - e por isto o exemplo da Psicologia é estratégico - não apenas o grau a que pode chegar o construto artificial no conhecimento, mas principalmente o abandono, por parte da razão instrumental, do sujeito, cuja emancipação e enaltecimento havia sido a tarefa mais insigne da própria razão, no nascimento da modernidade. * Para dar conta da complexidade deste processo é preciso compreender algo da história da razão, e assim tentar seguir um movimento que se caracteriza simultaneamente pelo progresso e pela regressão. Uma das contribuições básicas de Adorno e Horkheimer para a compreensão do processo histórico de desenvolvimento do Iluminismo foi chamar a atenção para a relação dialética entre estes dois termos, mostrando assim a necessidade de introduzir a consideração da contradição na história da razão e no processo emancipador cuja realização se daria ao longo desta própria história1. Ora, tendo em vista o que expusemos até aqui, não resulta de maneira alguma surpreendente que o trabalho de elucidação histórica levado a efeito pelos dois representantes da Escola de Frankfurt tenha tido como o maior mérito a produção de uma aporia, precisamente a indissociabilidade entre progresso e regressão que enunciamos há pouco. A aporia com que nos defrontamosem nosso trabalho revela-se assim como o primeiro objeto a investigar: a auto-destruição do esclarecimento. Não alimentamos dúvida nenhuma - e nisto consiste nossa petitio principii - de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor. Contudo, acreditamos ter reconhecido com a mesma clareza que o próprio conceito deste pensamento, tanto quanto as formas históricas concretas, as instituições da sociedade com as quais está entrelaçado, contém o germe para a regressão que hoje tem lugar por toda parte. Se o esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão sobre este elemento regressivo, está selando seu próprio destino. Abandonando a seus inimigos a reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu caráter superador e, por isto, também sua relação com a verdade. (Adorno & Horkheimer, 1986, p.13). O esforço de racionalização da natureza produziu o seu "desencantamento", isto é, o animismo natural foi substituído pela compreensão da articulação dos fenômenos, o que leva o entendimento a operar sobre eles. Enquanto a natureza aparece como um conjunto de forças que se situa além da compreensão humana, e com o qual o homem deve relacionar-se em termos de cumplicidade, conjuração, temor, identificação, apelo, o que se verifica é, por suposto, uma vinculação em que o ser humano se submete ao desconhecido, ainda que faça da natureza a matriz de representações míticas. Somente a racionalidade técnica permite operar com os fenômenos em termos de submetê-los ao poder humano. A diferença está precisamente neste fator: a dominação. Quando o sacerdote invoca as forças da natureza em benefício do homem, o que ele faz na verdade é tentar reverter o poder dominante destas forças, para que elas não se empenhem http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65641997000100002#1not VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 6 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) na destruição do universo humano. Completamente diferente é o caso da técnica, visto que aí a supremacia, o poder e a possibilidade de domínio situam-se do lado do homem. A natureza foi esvaziada de uma alma, isto é, de um poder que tanto podia auxiliar quanto aterrorizar. Por isto o progresso do conhecimento é o progresso do domínio e o Iluminismo é a passagem do mito à razão esclarecida. Mas, devido à identificação, já comentada, entre conhecimento e dominação, a instrumentação para o domínio acaba recobrindo a totalidade do que se entende por exercício da racionalidade. O limite do domínio é a inércia do dominado: assim o senhorio sobre a natureza se expressa racionalmente no caráter plenamente constituído do objeto. A natureza, e tudo que ela contém, passa de força a coisa. Há que se entender, no entanto, que este processo de reificação inscreve-se no âmago da racionalidade instrumental como a sua própria razão de ser. É desta forma que todo e qualquer objeto deve ser tratado como coisa. Não é difícil constatar então que a homologia formalmente exigida para que o instrumento modele seu produto faz com que fique estabelecida também uma íntima relação entre razão e coisa, racionalidade e reificação. É a expansão do reino do físico-inerte que constitui assim o triunfo da razão. Ora, o compromisso que assim se institui entre a atividade da razão e a passividade de um mundo de objetos redunda na completa identificação entre racionalidade e manipulação. O esclarecimento comporta-se com as coisas como o ditador se comporta com os homens. Este conhece-os na medida em que pode manipulá-los. O homem de ciência conhece as coisas na medida em que pode fazê-las. (Adorno & Horkheimer, 1986, p.24). Aqui adquire todo seu sentido o problema acima formulado e que exprimia o dilema da Psicologia: a possibilidade de fazer do sujeito um objeto. Quando este conhecimento instrumental volta- se para a dimensão do humano, só pode tratá-la em termos de objeto manipulável. Surge então uma contradição insuperável no âmbito de qualquer conhecimento do homem enquanto sujeito; por isto a cientificidade regida pela razão instrumental deve necessariamente abandonar a consideração do sujeito e construir uma homologia fundamental entre o homem e qualquer outro objeto. É desta forma que o próprio conhecimento se dá como negação do sujeito, e a atividade da razão produz a passividade do sujeito racional enquanto objeto de conhecimento. A reificação do sujeito como única possibilidade de conhecê-lo o define, ipso facto, nos termos da alienação. O controle da natureza, que é a anulação de sua atividade, já que a racionalidade se confunde com a identidade, isto é, a estabilidade tautológica a que logicamente se deveria poder reduzir todos os fenômenos, estende-se assim ao sujeito quando este se torna tema de elucidação racional. Ora, esta representação reificada que o sujeito tem de si mesmo é que opera a regressão de uma pretensa emancipação a uma total submissão e controle, numa realidade histórico-social totalmente administrada pelos parâmetros funcionais da razão instrumental. É neste sentido que se pode falar em "auto-destruição do esclarecimento". A racionalidade técnica não é simplesmente aquela que se serve da técnica, mas aquela que se identifica com a técnica, isto é, identifica o meio como fim. Esta identificação entre parte e todo é resultado essencial do processo histórico de esclarecimento. O modelo objetivista triunfou na teoria da ciência como o único possível não porque seja o único racional, mas porque é o único em que a razão se mostra produtiva, isto é manipuladora: conhecer é saber fazer. Esta eficiência do saber se mostra no seu caráter pragmático. O pragmatismo da ciência não é elemento derivado, que a ela se acrescentaria de fora. Há uma intencionalidade pragmática originária na consciência intelectual, que foi expressa exatamente na identificação entre conhecer e dominar. É para controlar que se conhece. Esta característica não é apenas do saber científico, mas de todo saber, na medida em que sua finalidade é assegurar a sobrevivência. Neste sentido a praxis é o elemento motor do desejo de conhecer, daí anaturalidade deste desejo, afirmada desde Aristóteles. Foi este caráter pragmático intrínseco ao conhecimento que motivou as concepções de Bacon e de Descartes, nos termos de um possível casamento feliz entre a teoria e a prática. Mas na medida em que o mundo prático perdeu sua autonomia e a razão instrumental ganhou uma dimensão totalitária, a prática passou a ser entendida como derivação da teoria, mera aplicação técnica do conhecimento teórico-instrumental. Como a técnica existe, em princípio para satisfazer as necessidades humanas, estas passaram a ser compreendidas no âmbito da razão instrumental, a única que pode satisfazê-las através da aplicação técnica. Esta dissolução do mundo prático e sua subordinação à razão teórica definida como instrumental pode ser considerada outro elemento de regressão, pois o mundo prático seria aquele em que as finalidades humanas poderiam se constituir autonomamente. A esta dissolução do mundo prático corresponde a cegueira a que se referem os frankfurtianos: "o pensamento cegamente pragmatizado". A eficiência produtiva do pensamento instrumental estabelece um desequilíbrio entre a ação como simples e compulsória aplicação dos resultados do progresso e o discernimento racional das finalidades que deveriam governar esta atividade. Por isto a ação dominadora oriunda da tecnologia é tanto mais inócua do ponto de vista ético quanto mais se torna febril e constante. Isto porque a relação entre as necessidades humanas e a satisfação delas tornou-se um círculo operante dentro dos limites da razão instrumental, como o demonstra principalmente o papel do consumo como finalidade e ao mesmo tempo estímulo de reinício perpétuo da produção tecnológica. Assim seconstitui, pois, a aporia a que se referem Adorno e Horkheimer: a emancipação se converte em submissão, na medida em que o progresso da razão instrumental coincide com a regressão do humano à categoria de coisa. O impulso para a dominação da natureza nasceu do temor frente ao desconhecido. Os mitos e os rituais cumpriram primeiramente esta função, em que o homem, para controlar, se submetia. A ciência, ao desencantar a natureza, isto é, ao substituir a relação com as forças pela formalização metódica de índole matematizante, apaziguou a exterioridade, destituindo-a de vida. Mas o triunfo da instrumentalidade dominadora instaurou uma outra fonte de dominação, a própria razão enquanto essencialmente dominadora. Daí a tendência dos indivíduos a alienarem a liberdade em princípio conquistada nas diversas figuras da razão, ou mesmo em qualquer dos seus produtos, desde as descobertas científicas até o marketing eleitoral. A questão é que, tendo esta aporia se constituído no interior do movimento da razão emancipadora, ela não pode ser inteiramente avaliada pelos parâmetros teóricos do próprio Iluminismo. Daí a reivindicação, por parte de Adorno e Horkheimer, de uma teoria crítica que esteja dotada de instrumentos para entender este movimento complexo não apenas na linearidade do seu progresso, mas também nos meandros de suas contradições. O que a tradição cartesiana legou como modelo de teoria é algo dotado da economia de elementos e do esquematismo que caracterizam o raciocínio abstrato. O prestígio histórico das ciências exatas e VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência 7 CURSO ANUAL DE FILOSOFIA – (Prof. Márcio Michiles) naturais impôs às ciências do homem o mesmo paradigma, do que decorrem as dificuldades a que já aludimos. No entanto, o mais importante a considerar aqui é a presença da história na própria constituição do objeto destas ciências. O que a teoria crítica tem de diferente da teoria tradicional, para além da questão do método, é a consideração do caráter histórico da própria razão. Jamais chegaríamos a notar que a razão iluminista traz em si o seu contrário se a abordássemos a partir de sua definição puramente lógica e a-histórica. É a historicidade da razão que permite ver no seu desenvolvimento o entrelaçamento de fatores de diversas ordens que nos obrigam a considerar conjuntamente a racionalidade e a mitificação, o progresso e a regressão, a civilização e a barbárie. A ilusão da linearidade nos mostraria a civilização sucedendo à barbárie, a racionalidade sucedendo ao mito e o progresso como incompatível com o retorno a estágios primários de conhecimento e sociabilidade. Uma teoria crítica, que considera a totalidade das relações nas práticas humanas e não apenas a seleção de elementos que desenham o progresso linear, nos obriga a dialetizar o processo histórico, ao nos mostrar que qualquer realidade, na medida em que se afirma historicamente, traz em si aquilo que a nega. Mas tal visão supõe sujeitos produzindo concretamente suas práticas a partir de condições dadas. A teoria em sentido tradicional, cartesiano, como a que se encontra em vigor em todas as ciências especializadas, organiza a experiência à base de formulação de questões que surgem em conexão com a reprodução da vida dentro da sociedade atual. Os sistemas das disciplinas contêm os conhecimentos de tal forma que, sob circunstâncias dadas, são aplicáveis ao maior número possível de ocasiões. A gênese social dos problemas, as situações reais nas quais a ciência é empregada e os fins perseguidos em sua aplicação, são por ela mesma considerados exteriores. - A teoria crítica da sociedade, ao contrário, tem como objeto os homens como produtores de todas as suas formas históricas de vida. As situações efetivas, nas quais a ciência se baseia, não é para ela uma coisa dada, cujo único problema estaria na mera constatação e previsão segundo as leis da probabilidade. O que é dado não depende apenas da natureza, mas também do poder do homem sobre ela. (Horkheimer, 1989a, p.69). Este texto pode ser entendido a partir da formulação weberiana de uma dicotomia que pode ser dita básica na idéia moderna de teoria: a separação entre juízos de fato e juízos de valor. A teoria tradicional supõe a possibilidade de uma descrição neutra da realidade, mesmo que esta realidade seja psicológica, social ou histórica, isto é, mesmo naquilo que se refere ao homem. No processo de desencantamento que coincide com a progressiva racionalização do mundo, o que permitiu ao homem sair de uma relação animista com a natureza foi o distanciamento dos fenômenos naturais, estabelecido por via da mediação metódica, que passou a constituir então a medida da descrição objetiva da realidade. Neste sentido a posição tomada frente à realidade é a posição de sujeito de conhecimento, munido dos instrumentos que venham a permitir a representação mais adequada do mundo. Embora a adequação possa ser entendida como uma medida de avaliação da pertinência do conhecimento, trata-se de uma medida lógica, cuja finalidade é dispor todos os objetos na uniformidade em que eles devem aparecer para o sujeito, respeitando assim a unidade básica do modelo racional. Nesta perspectiva, não cabe ao sujeito julgar acerca da constituição das coisas, das relações entre os fenômenos e do sistema de produção de eventos reais, questionando a organização cosmológica em termos de valor, isto é, procurando discernir entre o bom e o mau na instância dos fatos. Este tipo de juízo não cabe dentro dos parâmetros de cientificidade, posto que não haveria meios de medir o seu grau de objetividade. É neste sentido que Horkheimer diz, no texto citado, que a gênese, a singularidade situacional e os fins perseguidos são considerados pela teoria tradicional como "exteriores", o que significa que não fazem parte do quadro formal de conhecimento, embora possam vir a ser tema de considerações extra-científicas, por exemplo, a "opinião" do cientista acerca de tais assuntos, formulada no entanto a partir de uma posição em que ele não se colocaria justamente como cientista. A hegemonia do modelo de teoria faz com que esta atitude tenha que ser reproduzida em todos os campos de conhecimento. Por que uma teoria crítica não pode deixar de considerar "a gênese social dos problemas, as situações reais nas quais a ciência é empregada e os fins perseguidos"? Porque tal teoria não parte da homogeneidade do dado, isto é, da uniformidade a priori concebida de tudo o que for considerado objeto. A razão disto é que, para a teoria crítica, a realidade é produzida pelos sujeitos enquanto agentes históricos. O que diz respeito ao homem nunca pode ser tomado como um dado natural. Tomar o homem como produtor das práticas que constituem a sua realidade é tirá-lo da esfera dos objetos físico-inertes, é considerar a impossibilidade de separar, no sujeito, o que ele é do que ele faz, entendendo que a ação humana se distingue da ação dos objetos naturais por ser dotada de intencionalidade. Com efeito, a noção de agente quando relacionada com a ação histórica não pode ser assimilada simplesmente a um processo de causalidade natural. Quando se diz que os homens são "produtores de todas as suas formas históricas de vida", não se pode deixar de considerar nesta produção uma intencionalidade racional e moral, que é a própria caracterização da ação histórica como ação humana; caso contrário não haveria como distinguir o processo histórico do processo natural. Isto significa que a instância do social não pode ser considerada como meio de atividade histórica da mesma maneira que se considera o meio natural como ambiente dos organismos em geral. E isto porque a organização do meio, no caso da relação entre o homem e a sociedade, depende da produção das práticas que vão estruturando e modificando este meio. Isto significa que quando se trata de conhecer