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1 Isadora Silva Clínica Médica Endocardite infecciosa A endocardite infecciosa (EI) é uma infecção que compromete a superfície endocárdica do coração, incluindo valvas cardíacas, cordas tendíneas (estruturas valvares), áreas de defeitos septais, endocárdio mural e até mesmo dispositivos eletrônicos implantados. Não é uma doença extremamente comum, possui sintomas inespecíficos e pode levar a fenômenos tromboembólicos. É uma doença fatal quando não tratada e pode causar graves complicações neurológicas. EPIDEMIOLOGIA Pode ser causada por uso de drogas injetáveis, próteses valvares, uso de marca-passo e febre reumática (no Brasil tem grande significância). FATORES DE RISCO Compreendem: 1- Idade acima de 60 anos 2- Sexo masculino 3- Uso de drogas injetáveis 4- Dentição deficiente ou infecção dentária 5- Doença valvular: doença cardíaca reumática, prolapso da válvula mitral, valvopatia aórtica. 6- Cardiopatias congênitas 7- Válvula cardíaca protética e implante de válvula transcateter 8- História de endocardite infecciosa prévia 9- Dispositivo intravascular 10- Hemodiálise crônica 11- Implante de dispositivo eletrônico cardíaco 12- Internação hospitalar 13- Imunodeprimidos CLASSIFICAÇÃO Pode ser classificada de acordo com a evolução clínica: AGUDA: se desenvolve em períodos de dias a semanas (menos de 6 meses de duração). É caracterizada por picos de febre, toxemia, taquicardia, fadiga e dano progressivo as estruturas cardíacas. Subaguda: se desenvolve ao longo de semanas ou meses (mais de 6 meses). Os sintomas geralmente são vagos. Outro meio de classificação é pelo local de infecção: Endocardite de valva nativa: aguda e subaguda Endocardite de valva protética: precoce ou tardia. 2 Isadora Silva FISIOPATOLOGIA Normalmente o coração possui um mecanismo de defesa que não permite a fixação de bactérias na parede endotelial. No entanto, quando acontece qualquer lesão, seja valvar ou endotelial, existe uma aderência de fibrinas e plaquetas na superfície de colágeno subjacente e criam um trombo estéril, que é a endocardite trombótica não bacteriana. Logo mais, essa região fica sem proteção, e com recorrentes quadros de bacteremia levam a colonização do trombo e dão continuidade à deposição de fibrina e agregação plaquetária, que se desenvolve em vegetação infectada madura, a partir daí vai formar a lesão vegetante. Lesão valvar/ endotelial Deposição local de fibrina e plaquetas Vegetação trombótica não bacteriana Bacteremia transitória Colonização e aderência de bactérias Destruição valvar, invasão local Se um êmbolo séptico do trombo se fragmentar e soltar pode ir para a circulação sistêmica. As manifestações clínicas da endocardite infecciosa são altamente variáveis, podendo apresentar-se como quadro agudo progressivo, subagudo ou crônico, com sintomas inespecíficos. SINTOMAS A febre é o sintoma mais comum podendo estar associada a calafrios, anorexia e perda de peso. Outros sintomas gerais incluem: mal-estar, cefaleia, mialgias, atralgias, sudorese noturna, dor abdominal, dispneia, tosse e dor pleurítica. Sopros estão presentes em 85% dos pacientes. Além disso, os pacientes podem apresentar esplenomegalia, petéquias, hemorragias subungueais e na conjuntiva, Manifestações clínicas também podem ser vistas: 1- Lesões de Janeway (embolização): máculas eritematosas não dolorosas nas palmas das mãos e planta dos pés. 2- Nódulos de Osler (imunológicos): nódulos violáceos subcutâneos dolorosos, principalmente nas polpas digitais das mãos e dos pés. 3 Isadora Silva 3- Hemorragias Splinter: hemorragia no leito ungueal em formas de lascas 4- Manchas de Roth (imunológicos): lesões hemorrágicas exsudativas e edematosas da retina com centros pálidos As complicações podem aparecer como sintomas durante a apresentação inicial da EI: Complicações cardíacas: insuficiência valvular e insuficiência cardíaca Complicações neurológicas: AVC embólico, hemorragia intracerebral, abcesso cerebral Êmbolos sépticos: infarto dos rins, baço e outros órgãos. Infecção metastática: osteomelite vertebral, artrite séptica e abcesso do psoas Reação imunológica sistêmica: glomerulonefrite difusa. AGENTES ETIOLÓGICOS Algumas têm maior resistência ao sistema imune. Os tipos bacterianos mais comuns são: 1- Estreptococos viridans: cavidade oral 2- Estreptococos gallatycus: neoplasia intestinal 3- Estafilococos aureus: pele 4- Bactéria do grupo Hack 5- Fungos (cândida). DIAGNÓSTICO Deve ser suspeitado em pacientes com febre, com sopro audível, associado a fatores de risco relevantes. Os critérios aceitos para o diagnóstico da EI são os critérios modificados de Duke: LEMBRAR DO MNEMÔNICO: “CÊS PIFEM” Maiores: 1- Cultura positivo 2- Ecocardiograma (vegetação) 3- Sopro novo Menores 1- Predisposição (cardíacas) 2- Imunológicos 3- Febre 4- Embólicos 5- Microrganismos atípicos Fechamos o diagnóstico com: 2 critérios maiores/ 1 maior e 3 menores/ 5 menores. Exames complementares: Laboratório geral, ECG, radiografia de tórax, USG de abdome, TC. Devemos observar se o paciente fez tratamento dentário recente, porque é uma porta de entrada para a bacteremia. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: febre reumática, mixoma atrial, endocardite de Libman-Sacks, endocardite trombótica não bacteriana. 4 Isadora Silva TRATAMENTO O tratamento deve ser feito com antibióticos intravenosos bactericidas e por tempo prolongado. Geralmente em alguns casos a hemocultura demora em até 10 dias para sair o resultado, dessa forma, quando o paciente não pode esperar esse tempo para o tratamento vamos começar o tratamento empírico até saída do resultado. A duração do tratamento é de acordo com o tipo valvar e geralmente é a nível hospitalar e endovenosa: 1- Valva nativa: 2 a 6 semanas. Oxacilina, ampicilina, gentamicina. 2- Valva protética: 6 semanas. Vancomicina, rifampicina, gentamicina Gentamicina tem efeitos ototóxicos e nefrotóxicos. AGENTE INFECCIOSO ANTIBIÓTICO Estreptococos Ceftriaxone ou penincilina g cristalina Estreptococos resistente Ceftriaxone + gentamicina Estafilococos Oxacilina Estafilococos (alergia) Vancomicina (não é primeira opção porque é forte) Enterococos 1- Ampicilina + ceftriaxone 2- Vancomicina Fungo Anfotericina B OBS: todos os pacientes devem realizar hemoculturas em uma ou duas semanas após a terapia para assegurar que não estejam apresentando bacteremia persistente. A INDICAÇÃO CIRURGICA deve ser feita com objetivo de tirar uma lesão vegetante grande. O tempo ideal para a realização da cirurgia vai ser determinada por fatores que incluem sintomas do paciente, grau de complicação e controle da infecção. Deve ser realizada quando: 1- Insuficiência cardíaca aguda secundária a endocardite 2- Hemocultura positiva persistente após antibioticoterapia 3- Prevenção de tromboembolismo (vegetações maiores, episódios embólicos prévios). PROFILAXIAS Só tem indicação para profilaxia de acordo com as últimas diretrizes internacionais, aqueles pacientes com alto risco que vão realizar os seguintes procedimentos: Manipulação do tecido gengival ou dos dentes Perfuração de mucosa tanto oral quanto do trato respiratório Cirurgia para implante de valvas cardíacas protéticas. No entanto, nossa diretriz brasileira indica que temos ruim higiene bucal e que a profilaxia é recomendada para praticamente todo pacientes com risco para EI (endocardite prévia, portadores de prótese, transplantecom valvopatia) que serão submetidos a 5 Isadora Silva procedimentos com risco de bacteremia, principalmente os dentários, gastrointestinais e geniturinários.