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Teoria da História
Aula 1: Conceitos fundamentais
Apresentação
Um dos principais objetivos desta disciplina é oferecer ao historiador em formação um repertório conceituai rico, além de
fazê-lo compreender criticamente as diversas alternativas teóricas e metodológicas que se abrem como escolhas aos
historiadores pro�ssionais.
O uso de conceitos na História é uma questão adicional que será esclarecida nesta aula introdutória.
Objetivos
Compreender o que é teoria, o que é metodologia, e como estas instâncias devem interagir no trabalho
historiográ�co.
Conhecer conceitos importantes como o de paradigma, escola histórica e campo histórico.
Identi�car alternativas teóricas e metodológicas, assim como variados campos históricos pertinentes aos múltiplos
objetos de estudo.
Teoria e metodologia são dimensões essenciais para qualquer tipo de conhecimento, e a História não é exceção.
Uma base teórica adequada e uma metodologia e�caz são vitais para a concretização de qualquer pesquisa bem sucedida e
para a sua posterior exposição de resultados, seja em forma de texto (artigos ou livros) ou de comunicação oral (palestras,
seminários).
Quando lemos um bom livro de História, ou de qualquer outro campo de saber, mesmo sem perceber começamos a dialogar
com a teoria implícita na obra; e, se o texto consegue nos convencer de sua veracidade e coerência, isso também se dá porque
o historiador soube demonstrar adequadamente suas ideias e lidar com uma boa metodologia.
É hora, então, de compreendermos com maior precisão o que signi�cam essas duas expressões: teoria e metodologia.
Teoria
Uma teoria corresponde a uma determinada maneira de ver as coisas, ou,
por assim dizer, a uma certa "visão de mundo" (BARROS, 2010, p.44).
A origem etimológica da palavra "teoria", no antigo idioma dos �lósofos gregos, relacionava-se precisamente ao verbo "ver".
Quando, na vida cotidiana, conversamos com uma outra pessoa sobre determinado assunto, não é raro lhe dirigirmos a
seguinte pergunta: “Qual é a sua teoria sobre isso?". Quando fazemos isso, estamos simplesmente querendo saber como o
nosso interlocutor "vê" determinada questão, como ele concebe determinado problema, ou o que ele pensa sobre algo.
Uma teoria é, de fato, um certo modo de ver as coisas, ou de conceber um determinado tema que está em pauta.
Podemos desenvolver teorias sobre a crise econômica, sobre as comoções sociais nos países árabes nesta segunda década do
século XXI, ou sobre a ocorrência do Nazismo na Alemanha da segunda metade do século XX.01
Quando respondemos de maneira especi�ca a essas perguntas, começamos a nos aproximar, dependendo de nossas
respostas, de certos modos teóricos de pensar a História.
Podemos também assumir teorias, ou então incorporar certos vieses teóricos, acerca de todo um campo de saber. Assim, se
pensarmos neste campo de conhecimento e de práticas de pesquisa que é a História, podemos começar a responder de
determinado modo certas perguntas sobre o ofício do historiador, sobre a natureza da história ou sobre o que deve buscar o
historiador no seu universo de estudos.
02
Paradigmas
Existe uma palavra muito utilizada para essas diferentes maneiras de conceber um campo de conhecimento como a História: o
paradigma.
Os paradigmas correspondem exatamente a estas maneiras especí�cas de conceber a História . A palavra "paradigma"
também pode ser entendida como "modelo“, ou seja, o paradigma é um modelo que passa a ser aceito pelos praticantes de
determinado campo de saber, mesmo que, no interior do modelo, haja variações e, obviamente, as contribuições pessoais e
mais especi�cas de cada um.
Existem muitos paradigmas historiográ�cos, ou seja, diferentes maneiras de ver ou de pensar a própria História.
Na disciplina "Introdução ao Estudo de História", ministrada no primeiro semestre deste curso de graduação. pudemos entrar
em contato com alguns destes paradigmas, embora nem sempre referidos com esta designação.
Exemplo
O materialismo histórico, um paradigma surgido a partir de meados do século XIX, e que até hoje permanece como uma
alternativa teórica importante para os historiadores, é um exemplo de paradigma historiográ�co. Há outros, como o Positivismo
e o Historicismo.
Os historiadores, portanto, possuem muitas alternativas teóricas à sua disposição quando se trata de escolher o seu modelo ou
a sua concepção de História, e é possível mesmo combinar alguns dos paradigmas disponíveis de modo a produzir novas
alternativas teóricas.
É importante compreender que um paradigma corresponde a uma certa maneira de ver as coisas quando se trata de
História.
Ao optar por um paradigma ou por outro, ou ao compor o seu viés teórico de uma determinada maneira, o historiador
começa a enxergar as coisas de determinada forma, a fazer à história certas perguntas (e não outras), a buscar certos
problemas singulares no vasto universo de questões que podem ser examinadas...
Ou seja, ao fazer suas opções paradigmáticas ou teóricas, os historiadores estabelecem certos patamares que lhes
possibilitam determinados pontos de vista.
 Fonte: Freepik
Um historiador in�uenciado signi�cativamente pelo paradigma do materialismo histórico, por exemplo, irá buscar enxergar na
História os con�itos entre estes grandes grupos sociais que são as "classes sociais“, pois esse conceito é basilar para o
materialismo histórico (mais adiante, sobre o que é um conceito).
Um historiador que aceita certos parâmetros proporcionados pelo paradigma do materialismo histórico também passa a se
preocupar, em primeiro plano, com as condições materiais e objetivas que afetam a sociedade que está sendo examinada, ou
seja, com o seu "modo de produção" , que é outro conceito importante para este paradigma.
Não é nossa intenção retomar a discussão acerca dos paradigmas ou dos seus conceitos fundamentais. Nesta aula, queremos
apenas evocar o fato de que, ao plano da teoria, pertencem tanto os "paradigmas" (as maneiras especi�cas de conceber a
História) como os "conceitos" (expressões importantes que adquirem certos sentidos neste campo de saber).
Por ora, o que nos interessa é a compreensão de que uma teoria corresponde a uma certa maneira de se aproximar de um
objeto de estudo, de propor a este de estudo algumas perguntas especí�cas, de nele buscar enxergar certos aspectos que se
tornaram visíveis ou pensáveis precisamente porque nos municiamos de determinado instrumental teórico.
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A partir de certos diálogos com estes ou aqueles paradigmas
existentes, e a partir da instrumentalização destes ou daqueles
conceitos em nossas análises, o historiador começa a construir um
certo viés teórico que poderá ajudá-lo na sua caminhada em busca da
compreensão dos problemas históricos que ele elegeu para seu
objeto de estudo.
A noção de paradigma tem sido empregada com sentidos variados por diferentes autores. Por isso, é preciso indagar com
cuidado em qual sentido a palavra está sendo empregada quando lemos este ou aquele autor.
Ciro Flamarion Cardoso, em seu livro Domínios da História, dá ao conceito de paradigma um sentido mais abrangente. O autor
de�ne o paradigma como uma matriz mais ampla de pressupostos adotados peia ampla maioria de praticantes de um
determinado campo de saber, considerando que no interior deste megaparadigma existem diferentes correntes teóricas a
serem consideradas, mesmo que contrastantes entre si com relação a alguns aspectos.
De tempos em tempos, pode surgir um novo paradigma contestando os pressupostos fundamentais do paradigma dominante.
Dessa forma, a História de um campo de saber mais poderia se assemelhar a um grande confronto de paradigmas
dominantes.
A ideia de que a História de um campo de saber consistiria em uma luta de vida ou morte entre paradigmas que querem se
a�rmar como dominantes foi aventada pela primeira vez por Thomas Kuhn, no livro A estrutura das revoluções cientí�cas
(1962). No entanto, em outra oportunidade, Kuhn admitiu a ideia de que as Ciências Sociaise Humanas (entre elas, a História)
poderiam ser multiparadigmáticas , ou seja, não haveria paradigmas dominantes, e sim paradigmas concorrentes que se
oferecem como alternativas aos praticantes de cada campo de saber.
Para resolver certos problemas que �caram pendentes na primeira noção de paradigma que havia instrumentalizado, Thomas
Kuhn acrescentou mais tarde uma nova noção, a de "matriz disciplinar", que equivaleria precisamente a este megaparadigma
ou a esse conjunto de pressupostos que, em uma instância mais abrangente, seria aceito por quase todos os praticantes de
um campo de saber, até que um dia surgissem novas modi�cações na matriz disciplinar do campo em questão.
Matriz disciplinar
A noção de "matriz disciplinar" funciona bem para a História, pois podemos entender que ela abarcaria aqueles elementos e
pressupostos que seriam aceitos por todos ou quase todos historiadores, deixando para os "paradigmas" os diversos
posicionamentos fundamentais que podem ser escolhidos por cada um dos historiadores.
Em seu livro Razão histórica (1983), o historiador alemão Jörn Rüsen adaptou o conceito de matriz disciplinar para se referir a
um sistema mais amplo que envolve a prática pro�ssional de todos os historiadores. Esse conceito articula certas formas de
apresentação, carências e funções de orientação, posturas metodológicas e perspectivas orientadoras da experiência do
passado (RUSEN, 2001).
Também podemos utilizar esse conceito para dar conta dos elementos mínimos que os historiadores concordariam em atribuir
à História como um campo especi�co de saber, por exemplo: di�cilmente um historiador discordará do pressuposto de que as
fontes históricas constituem a base empírica necessária para os historiadores se conectarem com uma outra época, e
tampouco qualquer historiador discutiria que o tempo é uma categoria basilar para a História.
Constituem elementos mínimos da matriz disciplinar da História esses e outros aspectos, tais como a "intenção de verdade“ e a
construção de um conhecimento verdadeiro (mesmo que haja discordâncias com relação à possibilidade ou não de se chegar
a uma "verdade" única em História, aspecto que, aliás, constituiu objeto de disputa paradigmática entre positivistas e
historicistas desde o século XIX.
A matriz disciplinar pode, portanto, ser entendida como a instância mais
abrangente, que �xa alguns pressupostos que di�cilmente seriam objeto de
transgressão ou discordância entre os praticantes de um campo, e, no
interior deste universo mais amplo regido por uma certa matriz disciplinar
consensualmente aceita, podem surgir paradigmas diversi�cados.
Ao falar sobre o conceito de paradigma, Ciro Flamarion Cardoso, em seu livro Domínios da História, não se refere aos diversos
modelos que, no interior de uma matriz disciplinar, oferecem-se aos historiadores como escolhas.
O conceito de paradigma está sendo empregado por Cardoso em um sentido mais abrangente. Ele nos fala de um paradigma
iluminista ancorado nos pressupostos de racionalidade e cienti�cidade, e voltado para a busca de máxima inteligibilidade
possível – que teria se estabelecido no século XVIII e atravessado o século XIX e XX com bastante sucesso.
Apenas nas últimas décadas do século XX teria surgido um outro paradigma para questionar este grande modelo, que seria o
paradigma pós-moderno .1
Método
Se a Teoria está ligada ao verbo "ver", a Metodologia deve ser associada ao verbo "fazer".
O Método, ou a necessidade de uma metodologia, surge quando alguém está diante de uma tarefa qualquer a ser executada.
Pode ser uma tarefa mais simples, como preparar uma refeição ou planejar uma viagem, ou pode ser uma operação mais
complexa, que podemos exempli�car com a própria pesquisa em quaisquer dos seus campos de conhecimento.
Um historiador pode tender a enxergar o seu campo de saber de uma determinada maneira e possuir teorias sobre certos
problemas especí�cos. No entanto, quando de passa à ação, ao fazer historiográ�co, à necessidade de empreender
especi�camente uma pesquisa, ele começa a lançar mão de procedimentos metodológicos.
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/esteh1/aula1.html
Na História, como campo de saber que tem as suas próprias
especi�cidades, as diversas metodologias disponíveis aos historiadores
costumam se relacionar ao trabalho com as fontes históricas em seus
diversos momentos.
2
A fonte histórica, desta maneira, adquire uma centralidade importante para a metodologia.
Escolher adequadamente as fontes que irão ser importantes para a compreensão de determinado problema histórico, agrupá-
las de acordo com certos critérios, eleger certas perguntas e certos parâmetros de análise para incidirem sobre as fontes,
buscar nelas certos aspectos e não outros, propor modos especí�cos de analisá-las são operações que fazem parte da
metodologia.
Na História Oral, que é uma modalidade historiográ�ca na qual os historiadores precisam produzir as suas próprias
fontes a partir de entrevistas. As técnicas de entrevista e os procedimentos de análise dos discursos orais ocupam
uma posição metodológica fundamental no quadro de ações a serem efetivadas pelos historiadores.
Se, por outro lado, o historiador estiver lidando com imagens, precisará buscar metodologias adequadas para a
percepção e análise das imagens. Se é de textos que ele lança mão, poderá se municiar de procedimentos para
analisar os discursos que os perpassam. A Metodologia, na prática historiográ�ca, relaciona-se visceralmente com as
fontes históricas.
 Fonte: Unsplash
Outro procedimento metodológico importante, sobretudo em pesquisas de maior fôlego, é o planejamento da pesquisa através
de um instrumento metodológico que é denominado projeto de pesquisa. Não é ainda a ocasião de discutir como se faz um
projeto de pesquisa e quais os diversos capítulos que compõem este tipo de texto, mas também podem ser indicados artigos
sobre o assunto (BARROS, 2005).
Por ora, queremos salientar apenas que faz parte da Metodologia o planejamento da pesquisa, envolvendo inúmeros aspectos
que vão da delimitação mais precisa do tema à constituição das fontes acompanhada da escolha de técnicas para a sua
análise.
A Metodologia refere-se a tudo o que envolve o "fazer da história", da
mesma forma que a Teoria se relaciona a tudo o que se refere ao "conceber
a história".
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/esteh1/aula1.html
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"Ver" (no sentido de conceber) e "Fazer" são os dois gestos fundamentais que constituem a Teoria e a Metodologia, e que se
irmanam de modo a permitir realização de um bom trabalho historiográ�co (BARROS, 2011). É da interação entre teoria e
metodologia que se produz ciência, e isto também ocorre com a História, particularmente a partir do momento em que os
historiadores passaram a reivindicar para o seu campo de saber um estatuto de cienti�cidade.
É da interação entre teoria e metodologia que se produz ciência, e isto também ocorre com a História, particularmente a partir
do momento em que os historiadores passaram a reivindicar para o seu campo de saber um estatuto de cienti�cidade.
Quando discutimos os aspectos teóricos e metodológicos
de que um historiador lança mão em suas pesquisas e na
elaboração de suas análises, começamos a compreender
um pouco a identidade deste historiador.
Um historiador se de�ne pelo que ele pensa (sua teoria) e
pelo modo como ele faz o que faz (sua metodologia). Por
isso, o pertencimento a determinado paradigma (como o
positivismo, o historicismo, o materialismo histórico ou
qualquer outro) ou, ao menos, o diálogo com certas
proposições relacionadas a determinadas correntes
teóricas, pode se tornar um aspecto importante da
identidade de um historiador.
Por outro lado, existe uma outra noção que também pode
ajudar a compor a identidade dos historiadores. Referimo-
nos à noção de "escolas históricas". Vamos entender agora
o que é uma “escola histórica", uma vez que esse conceito
também aparecerá emdiversos momentos nas próximas
aulas e em outras disciplinas relacionadas à Teoria da
Historia ou à Historiogra�a.
 Fonte: Freepik
Escola histórica
Para uma compreensão mais precisa do conceito de "escola histórica", vamos recorrer a um artigo de José D'Assunção Barros
(2010) no qual essa noção é discutida.
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“Uma “Escola” – fora a noção mais vulgar que se refere
exclusivamente a instituições de Ensino – pode ser entendida
no sentido de uma “corrente de pensamento”, sempre que
ocorre um padrão ou programa mínimo perceptível no
trabalho de grupo formado por um número signi�cativo de
praticantes de determinada atividade ou de produtores de
certo tipo de conhecimento.”
- Barros, 2010
Para que se possa falar em escola histórica, é ainda importante que haja uma constante intercomunicação entre estes
praticantes, a constituição de identidade em comum e a consolidação de meios para a difusão das ideias do grupo, como é o
caso de Revistas especializadas controladas por seus membros ou programas veiculados em mídias diversas.
As "escolas" podem apresentar uma referência sincrónica – relacionada a autores ou praticantes de uma mesma época – e
uma referência diacrônica, no sentido de que a "escola" pode se estender no tempo e abarcar sucessivas gerações, ou ser por
elas reivindicada.
No decorrer de sua própria história, a Historiogra�a conheceu muitas "escolas históricas”. Algumas eram entendidas como
"escolas" pelos seus próprios praticantes, outras foram classi�cadas como escolas independentemente de seus componentes.
Embora não seja uma regra, boa parte
das escolas históricas conhecidas até
hoje relacionaram-se a espacialidades
especí�cas, não raro se referindo a
países a que pertenciam os
historiadores que nela se viram
incluídos.
No século XIX, podemos lembrar a
"Escola Alemã", que abarcava
historiadores alemães ligados ao
paradigma historicista, e para o século
XX é possível falar em uma "Escola
Marxista Inglesa“, que reunia
historiadores marxistas do Reino Unido
que se vinculavam à Revista Past and
Present e que propunham certas
renovações no corpo teórico-prático do
Materialismo Histórico, a começar por
uma importância maior à dimensão da
cultura nas análises históricas.

A constituição de escolas históricas em
torno de revistas tem sido comum na
historiogra�a. O movimento de
historiadores franceses do século XX
que �cou conhecido como Escola dos
Annales, por exemplo, teve como
principal instrumento de divulgação de
seu trabalho a revista de mesmo nome.
Muitos também enxergam como uma
"escola" os historiadores ligados à micro
História italiana, que apresenta uma
base nos Quaderni Storici, embora,
nesse caso, os próprios historiadores
envolvidos não se vejam deste modo.
Para que se tenha uma "Escola Histórica", o principal é a ocorrência de certo padrão comum entre seus participantes ou outro
elemento qualquer que seja forte o su�ciente para estabelecer uma unidade. Isso pode se dar através do Método, de uma
determinada perspectiva teórica, de uma certa maneira de enfrentar os dilemas historiográ�cos da época ou mesmo do
pertencimento a determinado paradigma historiográ�co.
Todavia, conforme diversos exemplos conhecidos demonstram, é preciso diferenciar claramente os conceitos de paradigma e
de escolas, uma vez que estas noções não se superpõem. Na verdade, o que traz identidade a uma escola é uma espécie de
"programa" em comum e pode ou não ocorrer uma unidade paradigmática entre os membros de uma mesma escola histórica.
1
Escolas Históricas
Podem ou não se inserir no interior de um paradigma
especi�co e podem ocorrer mesmo que historiadores de
uma mesma escola se relacionem a paradigmas distintos.
2
Paradigma
Pode também abarcar diversas escolas. É oportuno lembrar
o caso do Historicismo, que encontrou difusão não apenas
na Escola Alemã, como também entre diversos outros
historiadores que por vezes se viram agrupados, no século
XIX, em diversas escolas historicistas nacionais.
Quando nos referimos ao "programa" em comum que deve caracterizar uma escola histórica, é oportuno ressaltar que nem
sempre é fácil encontrar elementos em comum quando se discute o trabalho de um grupo de historiadores vinculados a uma
Revista ou Instituição. Discute-se, por exemplo, se a chamada "Escola dos Annales" era mesmo uma escola (BURKE, 1990), se
constituía um "movimento historiográ�co", se chegou a apresentar algo que pudesse ser entendido como um "novo paradigma
historiográ�co" ou se na verdade abrigava dois ou mais paradigmas.
Há mesmo os que rejeitam a ideia de que a Escola dos Annales teria produzido a tão propalada ruptura na historiogra�a
francesa, como é o caso de Jean Glénisson que, em ensaio de 1965 sobre a historiogra�a francesa contemporânea, chega a
falar de uma "tranquila evolução" da historiogra�a francesa "desde cem anos".
Essa tese é defendida por Stoianovich no decorrer de seu estudo sobre os Annales.
Leitura
Para saber mais sobre a historiogra�a francesa contemporânea, leia:
IGGERS, Georg G. New directions in european historiography. Middletown: Wesleyan University Press, 1984. p.31.
GLÉNISSON, Jean. L'historiographie française et ses realisations. Comité Francais de Sciences Historiques - la Recherche
Historique en France de 1940 a 1965. Paris: CNRS, 1965. p.x-xi. STOIANOVICH, Train. French historical method - the
Annales Paradigm. Ithaca/London: Cornell University Press, 1976.
De todo modo, apesar das habituais di�culdades classi�catórias, o espírito
de grupo que determinados historiadores terminam por constituir,
trabalhando para uma �nalidade comum, frequentemente é forte o
su�ciente para que se crie a ideia de uma "Escola".
Clique nos botões para ver as informações.
Marc Bloch e Lucien Febvre, à parte certos pontos em comum que se referiam às criticas contra a historiogra�a francesa
tradicional representada pelos metódicos, apresentavam in�uências e estilos historiográ�cos distintos, mas isso não
impediu que erigissem um dos movimentos mais bem sucedidos da historiogra�a contemporânea.
Sua unidade, além de estratégias bem calculadas para a conquista de um espaço institucional, foi assegurada por um
programa mínimo, dentro do qual podemos destacar aspectos como a ideia da "interdisciplinaridade", a multiplicação de
interesses historiográ�cos para além do "político“ e a necessidade de opor radicalmente uma "História-problema" a uma
historiogra�a que consideravam factual (BARROS, 2010-d, p.1-5).
Marc Bloch e Lucien Febvre 
François Dosse (1987), em um livro no qual procura diferenciar a Escola dos Annales dos historiadores franceses mais
recentes , considerava ainda como elemento identitário fundamental dos Annales o seu empenho em realizar o projeto
de uma História Total, distintamente da fragmentação historiográ�ca que seria a principal característica da Nouvelle
Histoire (uma "história em migalhas", segundo Dosse).
François Dosse 
3
José Carlos Reis (2003, p.195-201) acrescenta que os historiadores dos Annales – de Marc Bloch e Lucien Febvre a
Fernando Braudel e Ernst Labrousse, entre outros – teriam outro traço em comum, que foi a edi�cação de uma nova
forma de conceber o tempo (um tempo estrutural, capaz de articular diferentes durações e ritmos históricos). Todos estes
elementos podem ser assinalados como um programa em comum que traria uma certa identidade aos historiadores da
escola dos Annales.
José Carlos Reis 
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/esteh1/aula1.html
Mas a verdade é que, no interior destes parâmetros, os historiadores dos Annales desenvolveram diversi�cadas formas de
trabalho (metodologias) e variadas visões sobre a História (teorias). Apenas para dar um exemplo, o historiador
econômico Ernst Labrousse pertencia ao grupo que �cou conhecido como Escola dos Annates, mas no que se refere ao
aspecto teórico identi�cava-se com o paradigma do Materialismo Histórico (isso também ocorrerá com o historiador das
mentalidades MichelVovelle). Enquanto isso, seu amigo e contemporâneo Fernando Braudel incorporou in�uências
teóricas da antropologia estrutural de Lévi-Strauss, entre outras, e podemos encontrar em Marc Btoch uma certa
combinação de in�uências historicistas e positivistas, neste último caso através de diálogos com correntes teóricas
relacionadas à sociologia durkheimiana.
Ernst Labrousse e Fernando Braudel 
Com esses exemplos, podemos ter uma boa ideia de que uma escola histórica pode conter dentro de si uma certa diversidade
de posicionamentos teóricos e de tendências metodológicas.
Outro ponto importante a ressaltar é que, face ao sucesso ou projeção de um determinado grupo que tenha constituído ou
�cado conhecido como uma "Escola", não raramente surgem os herdeiros, os que se postulam como continuadores da escola
em questão, mesmo que já tenham se distanciado dos aspectos que uni�cavam a escola historiográ�ca na sua origem.
Não é incomum que se estabeleçam polêmicas acerca da continuidade ou descontinuidade de um determinado grupo de
historiadores em relação a outro grupo anterior que seja evocado como elemento identitário importante. Podemos dar o
exemplo da notária polêmica sobre a continuidade ou descontinuidade entre o arco que abrange as duas primeiras gerações da
chamada Escola dos Annales (1930-1968), e a chamada Nouvelle Histoire, que reúne novos historiadores franceses em torno
da mesma Revista dos Annales, que um dia fora fundada por Marc Bloch e Lucien Febvre.

1
Os historiadores ligados à Nouvelle Histoire seriam mesmo
legítimos herdeiros dos Annales tal como propõe Peter
Burke em seu livro A Escola dos Annales Revolução Francesa
da Historiogra�a (1990)?

2
Ou, tal como propõe François Dosse, há muito mais uma
ruptura entre a Escola dos Annales e esta outra corrente,
que a partir das últimas décadas do século XX tende a
desenvolver o que foi por muitos chamado de "Uma História
em Migalhas"?
Se a polêmica existe, o que se percebe é que o gesto de se autoinscrever em uma "Escola Histórica” também está
frequentemente relacionado aos mecanismos formadores de identidade, à imagem que determinado grupo pretende projetar
de si mesmo.
Os próprios historiadores da Novelle Histoire tendem a desejar reforçar essa vinculação com as gerações de Marc Bloch e de
Braudel. Eis aqui um exemplo de que o pertencimento a uma "escola" é também uma construção da qual podem participar os
próprios sujeitos envolvidos.
François Dosse sustenta, ao longo de todo o seu ensaio de 1987, a ruptura entre os historiadores franceses que muitos
consideram como uma “Terceira geração dos Annales” e o autêntico movimento dos Annales.
Leitura
Para saber mais sobre a Escola doa Annales, leia:
DOSSE, Francois. A história em migalhas dos Annales à nova história. Campinas: Papirus. 1992. p. 249-259.
Conceitos
Nossa última discussão conceitual importante corresponderá à própria compreensão sobre o que é um conceito. Os
historiadores precisam utilizar conceitos todo o tempo, pois, ao iniciarem suas pesquisas sobre problemas históricos
especí�cos e ao desenvolverem suas análises sobre os mesmos, necessitam se aproximar dos seus objetos de estudo a partir
de uma certa perspectiva.
Na verdade, os historiadores constroem os seus objetos de estudo a partir de certas perspectivas, pois não encontram dados
de antemão. Nesse sentido, os conceitos desempenham um papel fundamental, de modo que será importante entender o que
é um conceito como instrumento de elaboração teórica.
Os comentários a seguir, destinados a esclarecer em linhas gerais o que são os conceitos e corno utilizá-los na História, foram
baseados no livro O projeto de pesquisa em História, de José D'Assunção Barros (BARROS, 2005).
De acordo com este autor, um conceito pode ser entendido como uma
formulação abstrata e geral, ou pelo menos como uma formulação passível
de generalização, que o indivíduo pensante utiliza para tornar alguma coisa
inteligível nos seus aspectos essenciais ou fundamentais, para si mesmo e
para outros.
Visto desta forma, o conceito constitui uma espécie de órgão para a percepção ou para a construção de um conhecimento
sobre a realidade, mas que se dirige não para a singularidade do objeto ou evento isolado, e sim para algo que liga um objeto ou
evento a outros da mesma natureza, ao todo no qual se insere ou ainda a uma qualidade de que participa.
Um conceito, conforme se vê, favorece a certo modo de ver as coisas, e, por isso, o situamos atrás como um dos aspectos que
fazem parte do ambiente da Teoria.
Muito frequentemente, os conceitos correspondem a categorias gerais que buscam de�nir classes de objetos e de fenômenos
dados ou construídos, e seu objetivo maior é o de sintetizar o aspecto essencial ou as características existentes em comum
entre estes objetos ou fenômenos. Assim, a Revolução Francesa ou a Revolução Americana não podem ser consideradas
conceitos, mas "revolução" sim.
Da mesma forma, o conceito de "modo de produção", particularmente importante para o materialismo histórico, pode encontrar
um desdobramento no "modo de produção asiático" ou no "modo de produção feudal": mas, por outro lado, não faz sentido
dizer que se pretende conceituar o modo de produção feudal em uma certa região da Europa medieval.
O que se está fazendo nesse último caso é, na verdade, descrever uma situação social especí�ca, que pode até mesmo se
enquadrar naquilo que habitualmente se de�ne como "modo de produção feudal", mas que nesta espécie de operação (a
descrição de um fenômeno) virá misturada com singularidades diversas que não fazem parte do âmbito conceitual.
Atividade
1- Explique a diferença entre teoria e metodologia.
Notas
Pós-moderno1
O conceito de pós-modernismo é extremamente polissêmico e não o discutiremos neste momento, notando-se ainda que há
muita polêmica sobre quem poderia ser classi�cado como pós-moderno no universo das Ciências Sociais e Humanas.
Apenas para exempli�car, di�cilmente os �lósofos marxistas ligados à Escola de Frankfurt –uma escola vinculada ao
materialismo histórico, mas que incorpora in�uências diversas como a Psicanálise – aceitaria, para si mesmos, a designação
de pós-modernos.
Fontes históricas2
Na disciplina Introdução ao ensino de História, vimos que a fonte histórica é essencial para a pesquisa histórica, pois é por meio
dessas fontes que os historiadores conseguem estabelecer um ponto de contato com outras épocas, com sociedades e
processos que não estão mais presentes senão a partir de certos vestígios que podem ser textos, objetos, imagens, memórias.
Esses vestígios, resíduos de uma época anterior, ou discursos que nos chegaram de uma outra época através de inúmeros
textos e outros tipos de materiais, são precisamente as fontes históricas a partir das quais os historiadores podem iniciar a sua
caminhada para a compreensão de outras épocas e de processos que aconteceram na História.
Historiadores franceses mais recentes3
Postulam ser herdeiros da Escola dos Annales. São os mesmo que, na história da historiogra�a, são agregados sob a
denominação Nouve�e Histoire.
Referências
ÜSEN, Jörn. Razão Histórica – Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Trad. Estevão de Rezende Martins.
Brasília: Ed. UNB, 2001.
Próxima aula
A multiplicidade de campos históricos na historiogra�a atual.
O debate sobre a crise dos paradigmas na historiogra�a.
A existência de vários caminhos historiográ�cos que se oferecem à escolha dos historiadores.
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