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LICITAÇÃO E CONTRATOS Thiago Oliveira da Silva Controle dos contratos públicos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a relevância do controle social nos contratos públicos. Descrever o controle interno dos contratos públicos. Definir o controle externo dos contratos públicos. Introdução A Administração Pública evoluiu com o passar do tempo. Em épocas me- dievais, os reis comandavam sem a supervisão de nenhum órgão, de forma que havia mandos e desmandos sem que houvesse punição. Com o passar do tempo, o Estado foi se modernizando, passando a ser gerenciado por representantes eleitos pelo povo. Com isso, a participação popular se tornou algo intrínseco à Administração. Em um Estado Democrático de Direito, o con- trole social pode e deve ser realizado para fiscalizar os atos governamentais, exigindo transparência e responsabilidade na execução de políticas públicas. Neste capítulo, você vai ler sobre a relevância do controle social nos contratos públicos. Você verá também os assuntos inerentes aos controles interno e externo, tendo como premissa o controle social exercido pela participação popular. 1 Relevância do controle social nos contratos públicos A gestão pública possui várias ramifi cações, seja na esfera política, social ou estrutural. Ainda assim, a mais conhecida nesse campo é a forma direta ou indireta, por meio das quais o setor público permeia a vida dos cidadãos. A forma direta está ligada ao sentido de autonomia e de prestação de serviços públicos ao Estado e a órgãos referentes ao poder federal, estadual e municipal. Por sua vez, a forma indireta caracteriza-se pela forma de descentralização, ou seja, o Estado repassa/transmite funções para outras pessoas jurídicas. Antes de falarmos propriamente do controle social, cabe entender que a Administração Pública é utilizada pelo Estado como forma de alcançar os objetivos traçados. Nesse sentido, passa a englobar o Estado moderno com atuação democrática da sociedade. Nas palavras de Mileski (2005, documento on-line), o Estado contemporâneo chegou à sua fase mais moderna: Com a evolução do Estado, não foram traçados somente novos parâmetros no relacionamento com a sociedade, posto que, em decorrência desses ino- vadores fatores de ação do Estado, também foram propiciados avanços para os sistemas de controle, com aprimoramento dos mecanismos de fiscalização e surgimento de novos meios de controle, no sentido de ser dada a transpa- rência necessária aos atos governamentais, de onde deflui o surgimento e o fortalecimento do controle social. Entendendo a Administração Pública como instrumento do Estado, o controle social dos contratos não surgiu com o advento da Lei nº. 8.666, de 21 de junho de 1993, ou da própria Constituição Federal em 1988 (BRASIL; 1988; 1993). Assim, o controle emergiu da necessidade de dar mais transparência aos atos governamentais, ou seja, surgiu com a evolução do Estado e de suas formas de aperfeiçoar a questão de transparência dos dados, informações, políticas públicas e qualquer outro ato realizado pelos governantes. Dessa maneira, dois pilares podem ser traçados para entendermos a atuação da sociedade moderna e da pró- pria Administração Pública sobre seus contratos: transparência e controle social. Nesse contexto, além da transparência e do controle social, podemos elencar a participação popular como eixo fundamental para que o Estado moderno pudesse, de fato, tornar-se um Estado Democrático de Direito. Sobre a parti- cipação popular como pilar, Moreira Neto (2000) afirma que participação e consensualidade são decisivas para as democracias contemporâneas, contribuindo para a governabilidade (eficiência), a contenção de abusos (legalidade), a atenção a todos os interesses (justiça), a tomada de decisões mais sábias e prudentes Controle dos contratos públicos2 (legitimidade), o desenvolvimento da responsabilidade das pessoas (civismo) e tornar os comandos estatais mais aceitáveis e facilmente obedecidos (ordem). É como uma escada rumo a tempos em que os governantes fossem, de fato, fiscalizados pelos seus atos. Assim, o Estado democrático surgiu com a necessidade de transparência e controle social. Nesse contexto, a transparência emergiu como uma espécie de obrigatoriedade na Administração Pública. Se fosse para elencar a transparência, ela seria colocada à frente do controle social, mas à frente em qual sentido? No sentido de que somente com a divulgação de seus atos, políticas públicas, política fiscal, enfim, de seu plano de governo, a população seria capaz de fazer frente aos seus objetivos. Assim, consequentemente um controle social poderia ser exercido. Mileski (2005) corrobora com esse pensamento quando cita que a parti- cipação popular só será relevante perante o Poder Público se o cidadão conhecer as políticas públicas idealizadas pelo governo e saber quais são de interesse coletivo. Na verdade, um tripé foi criado junto com o Estado Democrático de Direito: transparência; participação popular; controle social. Os três pilares — transparência, participação popular e controle social — influenciam tudo em relação ao controle dos contratos públicos. O primeiro princípio, inclusive, está previsto na Lei de Licitações (Lei nº. 8.666/1993) (BRASIL, 1993). Esse princípio não foi expresso na Constituição Federal, mas isso não tira o seu status de princípio basilar de toda a democracia. A transparência é relevante não somente para a sociedade, mas para, por exemplo, a fiscalização dos contratos públicos. Assim, dá à sociedade a sen- sação de que o Estado vem sendo, de fato, fiscalizado pelo poder maior de qualquer nação: o povo, mantendo sempre o público acima do privado. Essa questão legitima o que Martins Júnior (2010, p. 25) pontuou como: “[...] o caráter público da gestão administrativa leva em consideração, além da supremacia do público sobre o privado, a visibilidade e as perspectivas informativas e participativas, na medida em que o destinatário final é o público”. 3Controle dos contratos públicos No segundo pilar, está o controle social, que implica assegurar que a ad- ministração atue em consonância com os princípios que lhe são impostos pelo ordenamento jurídico; ou seja, uma visão exclusiva de legalidade, outro princípio que emergiu da Constituição Federal, que conceitua o controle como função estatal, que envolve ações de um poder sobre o outro e de um poder sobre ele mesmo na busca do equilíbrio. O controle social se conceitua nas suas diversas passagens oriundas da Constituição Federal (BRASIL, 1988, documento on-line): Art. 5º [...] XIV — é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional; [...] XXXIII — todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado; XXXIV — são a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas: a) o direito de petição aos Poderes Públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder; b) a obtenção de certidões em repartições públicas, para defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal; [...] Art. 29 [...] XII — cooperação das associações representativas no planejamento municipal; [...] Art. 225 Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Ao falarmos de contratos públicos, a Lei de Licitações (Lei nº. 8.666/1993) (BRASIL, 1993, documento on-line) também estabelece algumas formas de se efetivar o controle social: Art. 7º [...] § 8º Qualquer cidadão poderá requerer à Administração Pública os quantita- tivos das obras e preços unitários de determinada obra executada; [...] Art. 15 [...] § 6º Qualquer cidadão é parte legítima para impugnar preço constante do quadro geral em razão de incompatibilidade desse com o preço vigente no mercado; Controle dos contratos públicos4 [...] Art. 41 [...] § 1º Qualquer cidadão é parte legítima para impugnar edital de licitação por irregularidade na aplicação desta Lei, devendo protocolar o pedido até 5 (cinco) dias úteis antes da data fixada para a abertura dos envelopes de habilitação, devendo a Administração julgar e responder à impugnação em até 3 (três) dias úteis, sem prejuízo da faculdade prevista no § 1º do art. 113; [...] Art. 63 É permitido a qualquer licitante o conhecimento dos termos do contrato e do respectivo processo licitatório e, a qualquer interessado, a obtenção de cópia autenticada, mediante o pagamento dos emolumentos devidos. [...] Art. 113 O controle das despesas decorrentes dos contratos e demais instru- mentos regidos por esta Lei será feito pelo Tribunal de Contas competente, na forma da legislação pertinente, ficando os órgãos interessados da Admi- nistração responsáveis pela demonstração da legalidade e regularidade da despesa e execução, nos termos da Constituição e sem prejuízo do sistema de controle interno nela previsto. Várias são as passagens na Lei de Licitações, na Constituição Federal e em outras leis que dão poder ao cidadão. Cabe citar que, além do cidadão, como ator protagonista dessa questão, também o Tribunal de Contas e outros métodos de controles estão imbuídos de fazer essa fiscalização. 2 Controle interno da Administração Pública Diversos mecanismos de controle foram criados a fi m de fi scalizar os atos governamentais. Divididos em duas searas macro, podemos sintetizar os controles em interno e externo. Para Mello (1995), o controle como poder político é qualquer mecanismo por meio do qual o exercício das competências públicas seja fiscalizado, contido e, em caso de extravasamento, reprimido, responsabilizando-se quem nele haja estado incurso. A própria Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 (DECLARAÇÃO..., 2020, documento on-line), já entoava esse discurso: “[....] a sociedade tem direito de pedir conta a todo agente público de sua administração”. Benda (2001) complementa dizendo que é obrigação de todo governo prestar conta de suas atividades públicas, portanto, a sociedade deve ter à disposição os meios necessários para que essa fiscalização seja realizada. Sobre o papel do controle interno na Administração Pública, José Filho (2008, documento on-line) cita que, “[...] na administração pública, o Controle Interno 5Controle dos contratos públicos deve estar presente, atuando de forma preventiva, em todas as suas funções, administrativa, jurídica, orçamentária, contábil, financeira, patrimonial, de recursos humanos, dentre outras, na busca da realização dos objetivos a que se propõe”. No entanto, o conceito de controle interno ainda causa divergências entre os juristas, sendo que grande parte divide o controle em dois universos: sistema de controle interno; auditoria interna. No sistema de controle interno, compreendemos o controle como sistema. O controle contábil diz respeito à salvaguarda do patrimônio, ou seja, controle físico, controle de funcionários, estabelecimento de níveis hierárquicos, entre outros. Por sua vez, o controle administrativo visa atender às políticas estra- tégicas com vistas à eficiência operacional da organização. São instrumentos de controle administrativo, entre outros (CREPALDI, 2000): planejamento estratégico; metas de produção; sistemas de custos; controle de qualidade. A auditoria interna é um importante instrumento desenvolvido com técnicas próprias por membros permanentes, possuindo um leque de amplitude maior do que uma auditoria externa. A auditoria interna é explicada por José Filho (2008, documento on-line) como: Uma técnica utilizada pelo órgão central ou setorial, para avaliar a eficiência do Controle Interno, quanto a obediência às normas ou a obsolescência des- sas. A auditoria desenvolve trabalhos avaliativos, de forma mais ou menos profunda, em razão direta do julgamento feito sobre o Controle Interno, quanto à sua maior ou menor adequabilidade para a preservação dos ativos que deverá proteger. Controle dos contratos públicos6 Os conceitos de auditoria e de sistema de controle parecem se aliar, com muita semelhança, ao controle interno. José Filho (2008, documento on-line) coloca cada conceito em seu devido lugar, pontuando que a diferença entre sistema de controle interno, controle interno e auditoria interna resume-se ao seguinte: “Sistema é o funcionamento integrado dos Controles Internos; Controle Interno é o conjunto de meios de que se utiliza uma entidade pública para verificar se suas atividades estão se desencadeando como foram planejadas; e Auditoria Interna é uma técnica utilizada para checar a eficiência do Controle Interno”. A Constituição Federal (BRASIL, 1988, documento on-line) traz consigo mais clareza sobre o escopo do controle interno da Administração e os poderes envolvidos: Art. 70 A fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patri- monial da União e das entidades da administração direta e indireta, quanto à legalidade, legitimidade, economicidade, aplicação das subvenções e renúncia de receitas, será exercida pelo Congresso Nacional, mediante controle externo e pelo sistema de controle interno de cada Poder. [...] Art. 74 Os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário manterão, de forma integrada, sistema de controle interno com a finalidade de: I — avaliar o cumprimento das metas previstas no plano plurianual, a execução dos programas de governo e dos orçamentos da União; II — comprovar a legalidade e avaliar os resultados quanto à eficácia e efici- ência, da gestão orçamentária, financeira e patrimonial nos órgãos e entidades da administração federal bem como da aplicação de recursos públicos por entidades de direito privado; III — exercer o controle das operações de crédito, avais e garantias, bem como dos direitos e haveres da União; IV — apoiar o controle externo no exercício de sua missão institucional. § 1º Os responsáveis pelo controle interno, ao tomarem conhecimento de qualquer irregularidade ou ilegalidade, dela darão ciência ao Tribunal de Contas da União, sob pena de responsabilidade solidária. [...] O fato de a sociedade ter o controle social não exime o controle oficial por parte do governo: o controle instituído de forma oficial. Por isso, nos artigos referenciados da Constituição Federal (BRASIL, 1988), os três poderes são citados de forma clara. Isso deixa explícito que, mesmo o controle social sendo um mecanismo de fundamental importância para a fiscalização dos atos governamentais, o controle oficial (interno) continua preponderando, ou seja, tem sua autotutela preservada, no sentido da apuração de denúncias, 7Controle dos contratos públicos avaliação de programas, ou seja, ações voltadas no âmbito político, visando, é claro, uma boa gestão direcionada aos anseios da sociedade. Nesse ponto, o princípio da autotutela se interliga com o controle interno da Administração Pública. Segundo Cretella Júnior (1973, documento on-line): O conjunto de normas de direito público que rege a ação administrativa dirigida à vigilância dos próprios atos e dos bens públicos recebe o nome de regime jurídico da autotutela. Assim como o tutor fiscaliza a atividade e os bens do pupilo, mas há aqui um desdobramento entre sujeito ativo e passivo, exerce atividades tutelares sobre si mesma, policiando seus atos e seus bens. A auto- tutela, exceção no campo privatístico, é regra no direito público. Dela não pode a Administração prescindir. A guarda dos direitos e dos interesses legítimos é típica e exclusiva do Estado. [...]. Daí erige-se a autotutela como figura ou princípio típico administrativo, sem símile nos outros ramos da ciência jurídica. A autotutela vinculada à Administração Pública não é uma faculdade, mas um princípio atrelado à legalidade, ou seja, sempre que preciso, é obrigação do gestor público restaurar a regularidade do ato, podendo até mesmo revogar atos inconvenientes ou inoportunos e/ou anulando atos ilegais. A autotutela pode ser emanada quando observado algum fato pelos órgãos de controle interno ou quando solicitada de forma externa. Imaginemos uma repartição pública em que são realizadas, em média, 15 licitações por dia, ou seja, a equipe de licitações é grande e, por ela, passa uma centena de docu- mentos todos os dias. Em uma situação hipotética, imaginemos um contrato público firmado por meio de uma licitação e que o valor de determinado item foi firmado em R$ 1,00 a mais do que o fechado no procedimento licitatório. Esse documento passou pela equipe de licitações, auditoria interna e homologação da autoridade competente e nenhum desses setores observou o erro, que só foi constatado ao se emitir o primeiro empenho. Nesse caso, ao ser constatado o erro, usamos o princípio da autotutela, ou seja, mesmo que o erro seja emanado do setor público, nada impede que a Administração Pública volte atrás e corrija determinado erro, inclusive é obrigação de ofício, além disso, o erro estaria lesando o erário público. Controle dos contratos públicos8 3 Controle externo da Administração Pública Os poderes externos compreendem o Legislativo e Judiciário, bem como os Tribunais de Contas. O Quadro 1 apresenta os Poderes dentro da esfera governamental. Esfera/Poder Federal Estadual Municipal Legislativo (elabora as leis) Deputados federais e senadores Deputados estaduais Vereadores Executivo (executa as leis) Presidente e ministros Governador e secretários Prefeito e secretários Judiciário (julga as leis) Tribunais federais (Supremo Tribunal Federal e Superior Tribunal de Justiça) Tribunais estaduais — Quadro 1. Estrutura governamental Conforme Quadro 1, vinculados ao controle externo, podem ser incluídos o Poder Legislativo e o Poder Judiciário. Antes de definir os Poderes e suas atribuições, Guerra (2005, p. 108) apresenta o significado de controle externo: O controle externo é aquele desempenhado por órgão apartado do outro con- trolado, tendo por finalidade a efetivação de mecanismos, visando garantir a plena eficácia das ações de gestão governamental, porquanto a Adminis- tração Pública deve ser fiscalizada, na gestão dos interesses da sociedade, por órgão de fora de suas partes, impondo atuação em consonância com os princípios determinados pelo ordenamento jurídico, como os da legalidade, legitimidade, economicidade, moralidade, publicidade, motivação, impes- soalidade, entre outros. Mello (2010) exemplifica as funções típicas do Estado, conforme Quadro 2. 9Controle dos contratos públicos Fonte: Adaptado de Mello (2010). Legislativo Função típica: legislativa (elaboração de normas gerais e abstratas). Funções atípicas: administrativa (organização dos serviços internos) e jurisdicional (Senado julga PR nos crimes de responsabilidade). Judiciário Função típica: jurisdicional (aplicação da lei para solução de conflitos). Funções atípicas: administrativa (organização dos serviços internos) e legislativa (elaboração dos regimentos internos dos tribunais). Executivo Função típica: administrativa (aplicar a lei para prover, de maneira imediata e concreta, o interesse público). Função atípica: legislativa (p.ex., medidas provisórias); não exerce função jurisdicional típica, mas apenas sem definitividade. Quadro 2. Funções típicas do Estado O Poder Legislativo, em suas três esferas, possui prerrogativas de controle externo, podendo ser evocadas sempre que necessário, visando ao bom funcio- namento da máquina pública e respeitando sempre os princípios constitucionais. Somam-se aos Poderes Legislativo e Judiciário os Tribunais de Contas, que, há muitas décadas, têm atuação forte no controle externo. No entanto, a Constituição Federal (BRASIL, 1988, documento on-line) expôs, de forma clara e concisa, o seu papel de atuação: Nos termos dos artigos 70 e 71 da Constituição Federal de 1988 (CF88), o con- trole externo deve consistir da fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da administração pública federal, e está a cargo do Congresso Nacional, que o exerce com o auxílio do Tribunal de Contas da União — TCU. Ao controle externo compete lidar com questões de diversas instâncias, como as constantes mudanças ambientais, a evolução tecnológica, o ritmo acelerado da produção de informação, a complexidade do Estado e suas relações com a sociedade e, simultaneamente, com os anseios da população pela qualidade da administração pública. O controle externo visa comprovar a probidade da Administração e a regularidade da guarda e do emprego dos bens, valores e dinheiros públicos, assim como a fiel execução do orçamento. Esse controle é, por excelência, um controle político de legalidade contábil e financeira. É importante ressaltar que a CF88 instituiu, pelo artigo 74, que “qualquer cidadão, partido político, associação ou sindicato é parte legítima para, na forma de lei, denunciar irregularidades ou ilegalidades perante o Tribunal de Contas da União”. Dessa forma, a cidadania é fortalecida pela carta constitucional, consolidando um pacto entre o Estado e a sociedade civil (BRASIL, 2017, documento on-line). Controle dos contratos públicos10 O excerto extraído dos arts. 70 e 71 deixa claro a importância dos órgãos de controle externo, principalmente na fiscalização da aplicação dos recursos públicos e da legalidade dos atos públicos, no que tange às esferas contábil e financeira (BRASIL, 1988). A Constituição Federal valida amplas competências aos Tribunais de Contas. Em tese, qualquer ato administrativo pode ser examinado, bem como os elemen- tos componentes de sua formação, como autoridade, conformidade com a lei, economicidade alcançada e possíveis vícios considerados vitais para anulação/ revogação. Essas questões estão expressas no art. 71, IX, da Constituição Federal. Portanto, os Tribunais de contas possuem prerrogativas como (OLIVEIRA, 2018): iniciar procedimentos de fiscalização; determinar ações que julgam ser corretas; fazer valer o que foi expresso, sendo passível aplicar sanções/punições previstas em lei para quem não acatar suas determinações. Dentro da estrutura de órgãos no Estado brasileiro, nenhum outro órgão/ departamento — ou qualquer que seja sua denominação — possui capacidade técnico-operacional para fiscalizar a Administração Pública, como os Tribunais de Contas. Assim, sua atuação deve ser a mesma em qualquer uma das esferas, seja federal, estadual ou municipal. Um outro aliado da fiscalização dos atos governamentais é o Ministério Público, que, junto aos Tribunais de Contas, é considerado as primeiras trin- cheiras de combate à corrupção e aos desvios de condutas, que geralmente são constituídos por meio de contratos públicos. Os Ministérios Públicos, em geral, atuam nos papéis de fiscalização e em medidas corretivas, como o firmamento de termos de ajustamento de gestão (TAGs) ou termos de ajustes administrativos (TACs), ambos considerados acordos de cooperação para sanar irregularidades encontradas em processos (OLIVEIRA, 2018). O desafio de fiscalizar a Administração Pública nas suas mais variadas esferas e funções faz os Tribunais de Contas e os Ministérios Públicos atuarem com planejamento e inteligência em suas ações, principalmente porque os recursos são limitados e há um outro fator que, segundo Oliveira (2018, documento on-line), dificulta a atuação desses órgãos, que são as indicações políticas: A indicação política, seja pelo Parlamento, seja pelo chefe do Poder Executivo, tem servido a algumas aberrações na composição dos tribunais de contas bra- sileiros. Há conselheiros sem curso superior. Outros com formação totalmente divergente do exigido, como odontologia. Há ainda as bizarras indicações de 11Controle dos contratos públicos pessoas processadas por improbidade administrativa ou criminalmente por crimes contra a administração, até com condenação em segunda instância e há casos de compra de vaga de conselheiro mediante pagamento pela antecipação de aposentadoria de outro conselheiro, estando já acertado politicamente quem vai ocupar a cadeira de magistrado de contas. Quem se dispõe a pagar por vaga de conselheiro pretende obter retorno para seu criminoso investimento. Política é veneno para os tribunais de contas. Acabar com as indicações políticas é salvar os tribunais de contas e dar um grande passo no combate à corrupção. O enfrentamento dos Tribunais de Contas e dos Ministérios Públicos pode afastar as ações corruptivas realizadas por governantes, principalmente no ato de fiscalização dos contratos públicos e seus possíveis conluios realizados por pessoas de má-fé que desejam lesar a Administração Pública. Os Tribunais de Contas e o Ministério Público de Contas são, portanto, peças fundamentais no combate à corrupção nos contratos públicos. Se, porventura, essa primeira trincheira não estiver funcionando, certamente as demais instituições — como o Poder Judiciário e os órgãos de polícia — enfrentarão casos de corrupção em série, sem que possam enfrentá-los, uma vez que não possuem a capacidade técnica e operacional para realizar esse enfrentamento. Vimos aqui a relevância do controle social e dos pilares que lhe dão sus- tentação, como a transparência e a participação popular. Vimos também o controle interno, tendo como especificidade o poder que a Administração possui para rever ou até mesmo anular seus próprios atos, com vistas ao princípio da autotutela. Por fim, vimos o controle externo da Administração Pública, tendo como foco os Poderes Legislativo e Judiciário, bem como a forte atuação dos Tribunais de Contas no controle externo. BENDA, E. et al. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. BRASIL. Tribunal De Contas Da União. O Tribunal e as constituições. Brasília, 2017. Disponível em: https://portal.tcu.gov.br/museu-do-tribunal-de-contas-da-uniao/tcu-a-evolucao- -do-controle/tcu-e-as-constituicoes.htm. Acesso em: 23 jan. 2020. CREPALDI, S. A. Auditoria contábil: teoria e prática. São Paulo: Atlas, 2000. CRETELLA JÚNIOR, J. Da autotutela administrativa. Revista da Faculdade de Direito da USP, v. 68, n. 2, p. 107-132, 1973. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rfdusp/ article/view/66669. Acesso em: 23 jan. 2020. DECLARAÇÃO de direitos do homem e do cidadão — 1789. Biblioteca Virtual de Di- reitos humanos da USP, 2020. 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