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1 Júlia Morbeck – @med.morbeck ANATOMIA VESICAL ↠ A bexiga é um órgão de armazenamento de urina com a capacidade de acomodar grandes elevações no volume urinário com pouco ou nenhum aumento na pressão intravesical (HOFFMAN et al., 2014). ↠ A parede da bexiga é composta de múltiplas camadas: mucosa, submucosa, muscular e adventícia (HOFFMAN et al., 2014). ↠ O epitélio vesical, denominado uroepitélio, consiste em camadas celulares distintas. A mais superficial é a camada de células de transição, e supõe-se que sua impermeabilidade seja responsável pela barreira primária urina-plasma (HOFFMAN et al., 2014). ↠ A função normal do trato urinário requer integração dos sistemas nervosos central e periférico. O sistema nervoso periférico contém as divisões somática e autonômica. Dessas, o componente somático inerva os músculos estriados, enquanto o autonômico inerva a musculatura lisa (HOFFMAN et al., 2014). ↠ O sistema nervoso autônomo controla o movimento involuntário e é subdividido em simpático e parassimpático. O sistema simpático faz a mediação dos efeitos nos órgãos-alvo por meio de epinefrina e norepinefrina, atuando nos receptores alfa ou beta adrenérgicos. O parassimpático atua por meio da ligação da acetilcolina aos receptores muscarínicos ou nicotínicos. Na pelve, as fibras autônomas que inervam as vísceras pélvicas cursam nos plexos superior e inferior do nervo hipogástrico (HOFFMAN et al., 2014). A estimulação de receptores b-adrenérgicos na cúpula vesical resulta em relaxamento da musculatura lisa e auxilia no armazenamento da urina. Por outro lado, os receptores alfa- adrenérgicos predominam na base da bexiga e na uretra. Esses receptores são estimulados pela norepinefrina, que dá início a uma cascata de eventos que preferencialmente leva à contração uretral e ajuda no armazenamento de urina e na continência. Esses efeitos de alfa-estimulação são a base do tratamento da IUE com imipramina, um antidepressivo tricíclico com propriedades agonistas adrenérgicas (HOFFMAN et al., 2014). Quando o momento para o esvaziamento vesical se aproxima, reduz-se a estimulação simpática e desencadeia-se a estimulação parassimpática. Especificamente, impulsos neurais transmitidos pelos nervos pélvicos estimulam a liberação da acetil- colina, levando à contração do músculo detrusor. Junto com a estimulação do detrusor, a acetilcolina também estimula receptores na A cúpula da bexiga é rica em receptores muscarínicos parassimpáticos (M) e em receptores b-adrenérgicos simpáticos (beta). O colo vesical contém maior densidade de receptores simpáticos a-adrenérgicos (alfa). 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck uretra, levando ao relaxamento do trato de saída para permitir a micção (HOFFMAN et al., 2014). Os subtipos de receptor M2-M3 foram identificados como os predominantemente responsáveis pela contração da musculatura lisa do detrusor. Assim, o tratamento com medicamentos antagonistas muscarínicos reduz a contração do detrusor para melhorar a continência. Especificamente, fármacos para continência tendo como alvo apenas o receptor M3 são mais eficazes ao mesmo tempo em que minimizam a ativação dos demais receptores muscarínicos e os efeitos colaterais (HOFFMAN et al., 2014). DEFINIÇÃO ↠ Define-se incontinência urinária como perda involuntária de qualquer volume de urina. Além da uretra, é possível haver extravasamento de urina de fontes extrauretrais, como fístulas ou malformações congênitas do trato urinário inferior (HOFFMAN et al., 2014). Define-se incontinência urinária aos esforços (IUE) como perda involuntária de urina relacionada com esforço físico ou com espirro ou tosse. A incontinência urinária de urgência é a perda involuntária de urina acompanhada ou imediatamente precedida por sensação de necessidade iminente de urinar (HOFFMAN et al., 2014). ↠ Um quadro relacionado – a bexiga hiperativa – é descrito como urgência urinária com ou sem incontinência, geralmente acompanhado por aumento da frequência urinária diurna e por nictúria (HOFFMAN et al., 2014). CONTINÊNCIA: capacidade de armazenar urina associada à possibilidade conveniente e socialmente aceitável de esvaziamento voluntário. De acordo com as diretrizes da International Continence Society, a incontinência urinária é um sintoma, um sinal e uma alteração no estado de saúde (HOFFMAN et al., 2014). EPIDEMIOLOGIA ↠ Entre as pacientes ambulatoriais com incontinência urinária, a condição mais comum é a IUE, que representa 29 a 75% dos casos. A incontinência urinária de urgência responde por até 33% dos casos de incontinência, e o restante é atribuído a formas mistas (HOFFMAN et al., 2014). ↠ A incontinência urinária pode prejudicar significativamente a qualidade de vida, levando a rompimento de relações sociais, distúrbios psicológicos, por vergonha e frustração, hospitalizações por problemas cutâneos e infecção do trato urinário, assim como internação em instituições de idosos (HOFFMAN et al., 2014). Apenas 25% das mulheres afetadas procuram atendimento FATORES DE RISCO 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck IDADE ↠ A prevalência de incontinência parece aumentar gradualmente durante a vida adulta jovem (HOFFMAN et al., 2014). ↠ A incontinência não deve ser entendida como uma consequência normal do envelhecimento. Entretanto, diversas alterações fisiológicas do trato urinário inferior relacionadas com a idade podem predispor à incontinência, à hiperatividade vesical ou a outras dificuldades miccionais (HOFFMAN et al., 2014). Em mulheres, a redução pós-menopáusica nos níveis de estrogênio resulta em atrofia do selo mucoso uretral, perda de complacência e irritação vesical que predispõem às incontinências de esforço e de urgência (HOFFMAN et al., 2014). OBESIDADE ↠ Teoricamente, o aumento na pressão intra-abdominal que coincide com um aumento do IMC resulta em pressão intravesical proporcionalmente mais alta. Essa pressão aumentada supera a pressão de fechamento uretral e leva à incontinência (HOFFMAN et al., 2014). MENOPAUSA ↠ Supõe-se que a deficiência estrogênica com atrofia urogenital resultante seja responsável, em parte, pelos sintomas sensório-urinários após a menopausa (HOFFMAN et al., 2014). GESTAÇÃO E PARTO ↠ Os efeitos do parto sobre a incontinência podem resultar de lesão direta da musculatura pélvica e dos tecidos conectivos de ligamento. Além disso, o dano de nervos por trauma ou lesão de estiramento pode resultar em disfunção da musculatura pélvica (HOFFMAN et al., 2014). Em um estudo epidemiológico de grande porte, foram identificados parâmetros de parto vaginal que podem afetar o risco de incontinência urinária mais tarde na vida. Primeiro, o peso ao nascer maior ou igual a 4.000 g aumentou o risco de todos os tipos de incontinência urinária. Em segundo lugar, o parto cesariano talvez tenha efeito protetor de curto prazo para prevenção de incontinência urinária (HOFFMAN et al., 2014). TABAGISMO E DOENÇA PULMONAR CRÔNICA ↠ Teoricamente, a tosse crônica dos fumantes leva a aumento persistente na pressão intra-abdominal e a síntese de colágeno é reduzida por efeitos antiestrogênicos do tabagismo (HOFFMAN et al., 2014). DIAGNÓSTICO ANAMNESE • Número de micções e de absorventes usados por dia, tipo de absorvente utilizado, frequência de troca e grau de saturação do absorvente → fornecem informação sobre a intensidade dos sintomas e seus efeitos sobre a atividade da paciente. • Investigar as circunstâncias nas quais ocorrem as perdas de urina e as manobras específicas que as ocasionam. • Perda urinária aos esforços – graduar os esforços. • Consegue chegar até o banheiro – diferenciar urgência miccional de incontinência. • Quanto ingere de líquidos no dia. •Uso de diuréticos e medicações. • Patologias descompensadas (DM2, ICC). • Consumo excessivo de café e álcool. • Radioterapia – pode causar fibrose dos tecidos e ligamentos. • Lesões em assoalho pélvico. • Tabagismo. • Tosse crônica. • Ritmo intestinal. Com a anamnese, em geral é possível agrupar os sintomas e classificá-los entre aqueles associados com maior frequência à IUE ou à incontinência urinária de urgência. Em alguns casos, ocorre sobreposição significativa de queixas dos dois grupos, o que pode refletir concomitância de IUE e incontinência urinária de urgência, ou seja, incontinência urinária mista. Por essas razões, a identificação de padrões é útil e pode direcionar os exames diagnósticos, assim como a terapia empírica inicial (HOFFMAN et al., 2014). 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck DIÁRIO MICCIONAL: as pessoas são instruídas a registrar durante três a sete dias o volume e tipo de líquido ingerido por via oral, o volume de urina a cada micção, os episódios de perda urinária e os desencadeantes dos episódios de incontinência. A cada período de 24 horas, as mulheres também devem registrar o período de sono e vigília. Isso possibilita uma descrição precisa dos padrões de micção voluntária noturna, assim como denurese. Ainda que o ideal sejam cinco a sete dias de documentação, três dias podem ser suficientes para determinar a tendência geral de incontinência (HOFFMAN et al., 2014). EXAME FÍSICO Inspeção geral e avaliação neurológica ↠ O exame físico completo de uma paciente com incontinência deve incluir avaliação neurológica detalhada do períneo (HOFFMAN et al., 2014). ↠ A avaliação neurológica inicia-se com a tentativa de provocar o reflexo bulbocavernoso. Nessa manobra, um dos lábios maiores é tocado com um cotonete. Normalmente, ambos os lábios se contraem da mesma forma. A via aferente desse reflexo é o ramo clitoridiano do nervo pudendo, a via eferente é conduzida pelo ramo hemorroidário inferior do nervo pudendo. Esse reflexo é integrado na medula espinal entre S2 e S4. Assim, a ausência de reflexo pode indicar déficit neurológico central ou periférico (HOFFMAN et al., 2014). ↠ Em segundo lugar, a contração circunferencial normal do esfíncter anal, coloquialmente denominada “piscadela anal”, deve-se seguir ao toque da pele perianal com um cotonete. A atividade do esfíncter uretral externo requer pelo menos algum grau de inervação intacta entre S2 e S4, e esse reflexo anocutâneo é integrado neste nível neurológico medular. Assim, a ausência de contração pode indicar déficits nessa distribuição neurológica (HOFFMAN et al., 2014). Exame ginecológico • Hiperemia, corrimento. ↠ Exame bimanual e retovaginal: Em geral, essa parte do exame pélvico revela menos pistas diagnósticas para causas subjacentes de incontinência. No entanto, o exame bimanual pode revelar massa pélvica ou útero aumentado por leiomiomas ou adenomiomatose. Essas condições podem causar incontinência em razão de aumento da pressão externa transmitida à bexiga. Além disso, a impactação de fezes é facilmente identificada pelo toque retal (HOFFMAN et al., 2014). Avaliação da sustentação pélvica ↠ Avaliação de prolapso de órgão pélvico. O prolapso de órgão pélvico (POP) geralmente é acompanhado por insuficiência de sustentação da uretra. Por exemplo, mulheres com prolapso significativo com frequência são incapazes de esvaziar completamente a bexiga em razão de obstrução uretral (HOFFMAN et al., 2014). EXAMES COMPLEMENTARES Exame de urina e urocultura ↠ Em todas as mulheres com incontinência urinária, deve-se excluir a possibilidade de infecção urinária e de patologias do trato urinário (HOFFMAN et al., 2014). Estudo urodinâmico ↠ Caso o tratamento conservador inicial não seja bem- sucedido e se esteja antecipando a necessidade de tratamento cirúrgico, deve-se buscar uma avaliação objetiva. Adicionalmente, se os sintomas e os achados físicos forem incongruentes, também se devem solicitar estudos urodinâmicos (UDS, de urodynamic study) objetivos, utilizando método cistométrico simples ou multicanal (HOFFMAN et al., 2014). ↠ O objetivo da urodinâmica é reproduzir sintomas enquanto faz medições precisas para identificar as causas subjacentes aos sintomas e quantificar os processos fisiopatológicos relacionados (FEBRASGO, 2018). INDICAÇÕES ↠ Indicações do estudo urodinâmico de acordo com o Comitê de Urodinâmica da ICS: (FEBRASGO, 2018). • Quando os resultados podem mudar a conduta, como antes da maioria dos tratamentos invasivos para incontinência urinária; • Após falha do tratamento, se for necessária mais informação para planejar terapia adicional; 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck • Como parte da avaliação inicial e de longo prazo em alguns tipos de disfunção neurogênica do trato urinário inferior; • Em “incontinência complicada”, como incontinência recidivada ou com sintomas miccionais significantes. IMPORTANTE: Teste urodinâmico considerado padrão pela International Continence Society (ICS) inclui urofluxometria com resíduo pós- miccional, cistometria transuretral e estudo de fluxo e pressão, sendo todos os testes realizados no paciente em sua posição preferida ou mais usual, confortavelmente sentado e/ou em pé, se possível fisicamente (FEBRASGO, 2018) UROFLUXOMETRIA ↠ Avalia de maneira inicial o esvaziamento vesical. É um exame barato e rápido que necessita apenas do aparelho de urofluxometria, porém isoladamente não define a causa da disfunção miccional (FEBRASGO, 2018). ↠ Uma urofluxometria deve informar pelo menos o fluxo máximo, o volume urinado e o volume pós-miccional (FEBRASGO, 2018). Esse exame nos informa sobre a capacidade da paciente de esvaziar a bexiga, podendo identificar mulheres com retenção urinária e outros tipos de disfunção miccional. Presumindo que a paciente inicie o exame com sua bexiga confortavelmente cheia com 200 mL ou mais, a maioria das pacientes pode esvaziar a bexiga em 15 a 20 segundos com taxa de fluxo acima de 20 mL/s. Taxas máximas de fluxo inferiores a 15 mL/s, com volume urinário acima de 200 mL, são geralmente consideradas excessivamente baixas (eliminação lenta) (HOFFMAN et al., 2014). ↠ O bom esvaziamento vesical determina uma curva de fluxo suave, com alta amplitude em forma de sino (FEBRASGO, 2018). ↠ Quaisquer outras formas, como curvas planas, assimétricas ou com múltiplos picos (flutuante e/ou intermitente), indicam micção anormal, mas não é específico para sua causa. Diminuição da força contrátil do detrusor e/ou aumento constante da pressão uretral resultará em fluxo mais baixo e curva de fluxo plana. Obstrução constritiva (por exemplo, estenose de uretra), com lúmen reduzido, resulta em curva de fluxo em platô. Obstrução acompanhada com aumento da pressão de abertura uretral mostra curva de fluxo achatada e assimétrica, com uma parte final que declina lentamente (FEBRASGO, 2018). RESÍDUO PÓS-MICCIONAL: O resíduo pós-miccional consiste no volume residual que persiste na bexiga imediatamente após uma micção normal. Pode ser aferido por meio da passagem de sonda uretral após a fluxometria livre, durante o exame urodinâmico ou pela medida por meio do ultrassom (FEBRASGO, 2018). Cistometrografia ↠ Após a urofluxometria, procede-se à cistometrografia para determinar se a paciente apresenta incontinência urinária aos esforços urodinâmica (IUEU) ou hiperatividade do detrussor (HD) ao exame urodinâmico (HOFFMAN et al., 2014). ↠ Adicionalmente, o exame nos informa sobre os volumes vesiculares limiares a partir dos quais a paciente percebe a capacidade vesical. A sensação retardada ou sensação de bexiga cheia apenas com grande volume podem indicar neuropatia. Por outro lado, a sensibilidade vesical extrema sugere distúrbios sensórios, como cistite intersticial(HOFFMAN et al., 2014). ↠ Para a realização da cistometrografia, um cateter é inserido via transuretral até abexiga, e um segundo cateter é posicionado na vagina ou no reto. Com a paciente sentada, a bexiga é preenchida com solução salina normal em temperatura ambiente, e a paciente é solicitada a tossir a intervalos regulares. Adicionalmente, durante a fase de enchimento, são anotados os volumes nos quais ocorre o primeiro desejo de urinar e a capacidade vesical máxima. A partir das leituras de pressão, é possível identificar HD e/ou IUEU (HOFFMAN et al., 2014). Após a cistometrografia, uma vez que tenham sido instilados aproximadamente 200 mL de solução salina, determina-se a pressão do ponto de vazamento. Solicita-se à paciente que realize manobra de Valsalva, a pressão gerada pelo esforço é medida e procura-se por evidências de perda de urina. Caso seja observado vazamento com pressão gerada menor ou igual a 60 cmH2O, os critérios para o diagnóstico de deficiência intrínseca do esfíncter estarão presentes (HOFFMAN et al., 2014). FLUXOMETRIA DE PRESSA ̃O ↠ Essa avaliação em geral se segue à cistometrografia e é similar à urofluxometria realizada no início do exame urodinâmico. Pede-se à paciente para urinar em um grande recipiente colocado sobre um sensor de peso calibrado (HOFFMAN et al., 2014). 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ A taxa máxima de fluxo e o resíduo pós-miccional são novamente registrados. Semelhante ao que ocorre com a urofluxometria, os dados de saída da instrumentação urodinâmica produzem uma representação gráfica da micção. De qualquer modo, a paciente atualmente tem instalado um cateter com microtransdutor na bexiga, que fornece informação adicional sobre a pressão do detrussor durante a micção, inclusive no ponto de velocidade máxima de fluxo (HOFFMAN et al., 2014). ↠ Esse dado é particularmente útil em mulheres que tenham esvaziamento vesical incompleto, uma vez que a fluxometria de pressão pode indicar tanto um quadro obstrutivo elevação da pressão máxima do detrussor com baixa velocidade de fluxo quanto insuficiência de contratilidade do detrussor (baixa pressão do detrussor com baixa velocidade de fluxo) (HOFFMAN et al., 2014). BEXIGA HIPERATIVA ↠ A bexiga hiperativa é uma síndrome que se caracteriza pela urgência miccional (não fisiológica), usualmente acompanhada de aumento da frequência urinária e de noctúria, na ausência de fatores infecciosos, metabólicos ou locais (FEBRASGO, 2018). ↠ A bexiga hiperativa compromete sobremaneira a qualidade de vida, causando isolamento social, queda de produtividade, vergonha, frustração, ansiedade e baixa autoestima (FEBRASGO, 2018). TRATAMENTO ↠ O tratamento comportamental refere-se ao conjunto de técnicas que têm por objetivo promover mudanças nos hábitos da paciente e que influenciam os sintomas das disfunções do assoalho pélvico, a fim de minimizá-los ou eliminá-los. Inclui orientações quanto à ingesta hídrica, treinamento vesical, treinamento dos músculos do assoalho pélvico (exercícios perineais) e educação sobre o trato urinário inferior (FEBRASGO, 2018). • Redução em torno de 25% na ingesta hídrica promove melhora significativa na frequência urinária, urgência miccional e noctúria. Além disso, estudos prospectivos demonstraram que a redução da ingestão de líquidos nas horas que antecedem o sono reduz de forma significativa os episódios de noctúria e melhora a qualidade de vida. • A ingestão excessiva de cafeína demonstrou ser um fator de risco independente para aumentar a hiperatividade do detrusor. Assim sendo, torna- se importante que a paciente evite o consumo excessivo dessa substância, presente no café, chá-preto, refrigerantes à base de cola e chocolates. Preconiza-se também a diminuição do consumo de frutas cítricas, de vinagre e de bebidas alcoólicas em excesso. • O treinamento vesical tem por objetivo fazer com que a paciente readquira o controle sobre o reflexo da micção, deixando de experimentar episódios de urgência e de urgeincontinência. O intervalo inicial entre as micções é fixo, de acordo com o diário miccional de cada paciente. Esse intervalo inicial é, então, gradualmente aumentado, de tal forma que a paciente alcance um intervalo confortável de 2 a 4 horas entre as micções. • Os exercícios perineais têm sido indicados para tratar a bexiga hiperativa, mas sua real eficácia e mecanismo de ação ainda não estão bem estabelecidos. O objetivo principal é ensinar à paciente como e quando contrair a musculatura do assoalho pélvico, reduzindo a sensação de urgência e adquirindo a capacidade de alcançar o banheiro ↠ O tratamento farmacológico é a segunda linha de tratamento da bexiga hiperativa. Os anticolinérgicos são os medicamentos mais utilizados e, idealmente, devem Teste urodinâmico. A cistometrografia é apresentada nas partes A, B e C. A. Em uma paciente com função normal, observe que a provocação com tosse ou manobra de Valsalva não induz aumento anormal na pressão do detrussor. B e C. Em uma paciente com hiperatividade do detrussor e incontinência urinária aos esforços urodinâmica. Primeiro, a atividade espontânea do detrussor leva a aumento na leitura da pressão vesical sem que a paciente tenha tossido ou realizado manobra de Valsalva. Segundo, um episódio de tosse isoladamente leva à perda involuntária de urina, independentemente de atividade do detrussor, D. Fluxometria de pressão. Com capacidade máxima e sob comando, é gerada contração do detrussor dando início à micção 7 Júlia Morbeck – @med.morbeck ser indicados como adjuvantes ao tratamento comportamental e fisioterapêutico (FEBRASGO, 2018). ↠ No Brasil temos quatro anticolinérgicos disponíveis, todos com nível 1 de evidência clínica e grau de recomendação A: oxibutinina, tolterodina, darifenacina e solifenacina (FEBRASGO, 2018). • O cloridrato de oxibutinina é uma amina terciária, com ação anticolinérgica, antiespasmódica e anestésica local. É agente antimuscarínico não seletivo, com afinidade de 7 a 12 vezes maior por receptores M1 e M3 em relação aos demais receptores muscarínicos. Possui maior afinidade pelas parótidas do que pela bexiga. Os metabólitos ativos são responsáveis por mais de 90% da ação anticolinérgica após administração oral. • O tartarato de tolterodina é uma amina terciária, antagonista competitivo da acetilcolina, com a mesma afinidade pelos diferentes subtipos de receptores muscarínicos. Apresenta afinidade tecidual pela bexiga cerca de duas vezes maior do que a da oxibutinina. Além disso, sua afinidade pela bexiga é aproximadamente oito vezes maior do que pelas parótidas, o que reduz de forma importante a incidência de boca seca. Por ser pouco lipossolúvel, apresenta baixo potencial para atravessar a barreira hematoencefálica. • O bromidrato de darifenacina é uma amina terciária, com afinidade 60 vezes maior pelo receptor M3 em relação ao M2, e muito pouca afinidade pelo subtipo M1. Essas características reduzem efeitos colaterais relacionados à cognição (por ação em receptores M1) e cardíacos (por ação em receptores M2), sendo bem tolerada inclusive em pacientes com mais de 65 anos. • O outro anticolinérgico disponível no Brasil é o succinato de solifenacina. Assim como a darifenacina, sua ação anticolinérgica se dá predominantemente sobre os receptores M3. Apresenta ação 40 vezes menor sobre as glândulas salivares em comparação à oxibutinina e 79 vezes menor em relação à tolterodina, o que reduz consideravelmente a incidência de boca seca. OBS.: Diversos autores referem que os estrogênios tópicos (via vaginal) melhoram os sintomas de bexiga hiperativa, bem como diminuem os episódios de infecção urinária em mulheres na pós-menopausa (FEBRASGO, 2018). INCONTINÊNCIAURINÁRIA DE ESFORÇO ↠ A incontinência urinária de esforço (IUE), em sua forma mais comum, é definida como toda perda de urina decorrente de algum esforço físico como pular, correr e tossir, e está relacionada à hipermobilidade da uretra ou à deficiência do esfíncter. Tal afecção compromete de maneira importante a qualidade de vida, determinando limitações físicas, sociais e emocionais, inclusive com aumento significativo dos sintomas depressivos (FEBRASGO, 2018). Fatores de risco: lesão de nervos e/ou musculatura, tabagismo, excesso de pressão intra-abdominal, hiperestrogenismo. TRATAMENTO • Retirar os fatores de risco modificáveis; • Pressário e cones vaginais; Os cones vaginais representam uma forma simples e prática de fortalecer a musculatura do assoalho pélvico. São dispositivos com forma e volume semelhantes, e pesos variando de 20 a 70 ou de 20 a 100 gramas. De acordo com o peso, recebem um número que varia de um a cinco ou de um a nove, respectivamente. Identifica-se qual o cone mais pesado que a paciente consegue reter na vagina durante 1 minuto, com ou sem contração voluntária dos músculos do assoalho pélvico. Diz-se ser cone ativo ou passivo, respectivamente. A sensação de o cone sair da vagina promove contração involuntária (reflexa) da musculatura do assoalho pélvico, com o objetivo de mantê-lo em sua posição original (FEBRASGO, 2018). Os cones vaginais estão particularmente indicados nos casos leves e moderados de IUE, com índices de sucesso que variam de 60% a 78% (FEBRASGO, 2018). • Farmacológico: estrogênios tópicos. Referências FEBRASGO. Febrasgo - Tratado de Ginecologia. Grupo GEN, 2018. HOFFMAN, Barbara L.; SCHORGE, John O.; HALVORSON, Lisa M.; et al. Ginecologia de Williams. Grupo A, 2014.