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Traumas Raquimedulares MED 101 - BASES MORFOFUNCIONAIS DA MEDICINA I DEPARTAMENTO DE MEDICINA E ENFERMAGEM – DEM MONITORA: VIVIANE GIORI CÔCO - VIVIANE.COCO@UFV.BR PROFESSOR COORDENADOR: VANDERSON ESPERIDIÃO ANTÔNIO – ESPERIDIAO@UFV.BR Plano de apresentação 01. Introdução 02. Anatomia macroscópica 03. Anatomia microscópica 04. Aplicações clínicas 05. Casos clínicos Plano de apresentação 01. Introdução 02. Anatomia macroscópica 03. Anatomia microscópica 04. Aplicações clínicas 05. Casos clínicos Introdução O estudo das lesões que acometem o Sistema Nervoso Central (SNC) é essencial para o conhecimento desse sistema; A correlação entre a localização anatômica da lesão e seu respectivo sintoma e/ou sinal clínico é um dos processos mais utilizados para entender a funcionalidade de cada segmento do sistema nervoso central; A medula é o maior condutor de informações que sai e entra no encéfalo através dos nervos espinhais. Por isso, lesões nessa região do sistema nervoso estão associadas a graves deficiências motoras, sensitivas e autonômicas. Plano de apresentação 01. Introdução 02. Anatomia macroscópica 03. Anatomia microscópica 04. Aplicações clínicas 05. Casos clínicos Generalidades A medula é um cone de tecido nervoso localizado no canal medular; Seus limites são: Superior: bulbo, na base do osso occipital Inferior: nível da vértebra L2 Possui 31 nervos espinais, sendo distribuídos da seguinte maneira: 8 cervicais, 12 torácicos, 5 lombares, 5 sacrais e 1 coccígeo; Apresenta 2 intumescências: cervical (plexo cervical/braquial) e lombar (plexo lombossacral); A medula também é envolta por meninges e líquor, de maneira semelhante ao restante do SNC. Estrutura geral medular Substância cinzenta Na medula, a substância cinzenta está envolta pela substância branca; Tem forma de H ou de borboleta; A coluna lateral aparece apenas na coluna torácica e parte da lombar (T1-L2); A coluna anterior é mais dilatada na região das intumescências cervical e lombar. Substância branca Funículo anterior: entre a fissura mediana anterior e o sulco lateral anterior; Funículo lateral: entre os sulcos lateral anterior e lateral posterior; Funículo posterior: entre o sulco lateral posterior e o sulco mediano posterior. Cortes axiais de medula Formação do nervo espinal Cada nervo espinal é formado por uma raiz ventral (motora), uma raiz dorsal (sensitiva), a qual possui um gânglio; Raiz ventral: sulco lateral anterior; Raiz dorsal: sulco lateral posterior; No gânglio espinal, estão os corpos de neurônios sensitivos, dos quais o prolongamento central forma a raiz e o periférico forma o nervo; Todo nervo espinal é misto. Segmento medular Segmento medular é a parte da medula com a qual um determinado nervo faz conexão; Durante o desenvolvimento embrionário, há um afastamento desses segmentos de suas vértebras correspondentes; Para descobrir qual segmento corresponde à topografia de cada vértebra, temos: Entre C2-T10 SM = processo espinhoso + 2 T11 E T12 São os 5 segmentos lombares L1 São os 5 segmentos sacrais Dermátomos Dermátomo é o território cutâneo inervado por fibras de uma única raiz dorsal; O dermátomo recebe o nome da raiz que o inerva; É importante conhecer esse território, uma vez que o local do sintoma pode indicar o segmento medular lesado; APLICAÇÃO: O herpes-zóster é uma doença que lesa as raízes dorsais e se manifesta como aparecimento de dores e vesículas na pele de todo o território envolvido. Sistema Nervoso Autônomo Simpático Fibras pré-ganglionares T1-L2 Sistema toracolombar Parassimpático Fibras pré-ganglionares Tronco encefálico S2-S4 Sistema craniossacral Vascularização Artéria espinhal anterior: vasculariza as colunas e funículos anterior e lateral; Artérias espinhais posteriores direita e esquerda: vascularizam a coluna e funículo posterior; Artérias radiculares anterior e posterior: anastomosam-se, respectivamente, com as espinhais anteriores e posteriores. Plano de apresentação 01. Introdução 02. Anatomia macroscópica 03. Anatomia microscópica 04. Aplicações clínicas 05. Casos clínicos Núcleos - Coluna anterior Grupo medial Existem em toda a extensão da medula; Inervam a musculatura do esqueleto axial. Grupo lateral Aparecem apenas na região das intumescências; Inervam a musculatura do esqueleto apendicular; Neurônios mediais: musculatura proximal dos membros; Neurônios laterais: musculatura distal (mãos e pés). Núcleos - Coluna posterior Núcleo torácico Existe apenas na região torácica e lombar alta (L1-L2); Está relacionado à propriocepção inconsciente. Substância gelatinosa Está presente em toda a medula; É chamada de portão da dor, já que está envolvida na via de analgesia; Recebe fibras da raiz dorsal, do tronco encefálico e ramos colaterais dos fascículos grácil e cuneiforme; Envia as fibras para o trato espinotalâmico lateral. Núcleos - Coluna lateral A coluna lateral está contida na substância cinzenta intermédia lateral; Está presente entre os segmentos de T1-L2; Está relacionada com o sistema nervoso simpático; Contém as neurônios radiculares viscerais, ou seja, as fibras pré-ganglionares do simpático. Tratos descendentes do Funículo anterior Corticoespinal anterior Tem origem no córtex motor; Motricidade voluntária axial e proximal dos membros superiores; Termina a nível da medula torácica; Cruza na comissura branca, fazendo sinapse com o neurônio motor do lado oposto. Teto espinhal Tem origem no colículo superior; Orientação sensorial motora da cabeça; Sua função está mais limitada a reflexos. Reticuloespinhal pontino Tem origem na formação reticular pontina; Contração da musculatura extensora de MMII; para promover equilíbrio contra a gravidade. Reticuloespinhal bulbar Tem origem na formação reticular bulbar; Relaxamento da musculatura extensora de MMII . Vestibuloespinais lateral e medial Tem origem no núcleo vestibular lateral; Ajustes posturais para manutenção do equilíbrio. Lateral Tem origem no núcleo vestibular medial; Ajustes posturais da cabeça e tronco. Medial Tratos ascendentes do Funículo anterior Espinotalâmico anterior São axônios de neurônios cordonais de projeção localizados na coluna posterior; Cruzam o plano mediano a nível medular; As fibras vão em direção ao tálamo; Levam impulsos de pressão e tato protopático. Tratos descendentes do Funículo lateral Corticoespinhal lateral Tem origem no córtex motor; Cruzam o plano mediano na decussação das pirâmides; O trato diminui em sentido descendente; Sua principal função é a motricidade somática. Corticoespinhal lateral Qual os sintomas de uma lesão na linha azul? E quais os sintomas de uma lesão na linha verde? O que acontece se a lesão ocorrer na linha amarela? Síndrome do neurônio motor superior Ocorre nas situações em que há lesão do neurônio de primeira ordem; Cursa com paralisia espástica (hipertonia e hiperreflexia) e sinal de Babinski presente; Lesão suprapiramidal: sintomas contralaterais; Lesão infrapiramidal: sintomas ipsilaterais. Sinal de Babinski Síndrome do neurônio motor inferior Ocorre nas situações em que há lesão do de terceira ordem; Cursa com paralisia flácida, com perda do tônus e dos reflexos, seguida por hipotrofia da respectiva musculatura; É ipsilateral. Rubroespinhal Tem origem no núcleo rubro no mesencéfalo; Cruzam o plano mediano ainda no mesencéfalo; Não passa pelas pirâmides; Motricidade voluntária da musculatura distal dos membros. Tratos ascendentes do Funículo lateral Espinotalâmico lateral Tem origem na coluna posterior; Cruzam o plano mediano na comissura branca; Chega ao tálamo; Leva informações de temperatura e dor. Espinocerebelar anterior Tem origem na coluna posterior e substância cinzenta intermédia; Vai até o cerebelo pelo pedúnculo cerebelar superior; Pode ser direto ou cruzado na medula; Leva informações de propriocepção inconsciente e da atividade elétrica do trato corticoespinhal. Espinocerebelarposterior Tem origem na coluna posterior (núcleo torácico); Vai até o cerebelo pelo pedúnculo cerebelar inferior; É direto; Leva informações de propriocepção inconsciente. Tratos ascendentes do Funículo posterior Fascículos grácil e cuneiforme São formados pelos prolongamentos centrais dos neurônios dos gânglios sensitivos; Vão até o bulbo; É direto; Leva informações de propriocepção consciente, tato epicrítico e sensibilidade vibratória; Grácil: MMII e parte inferior do tronco; Cuneiforme: MMSS e parte superior do tronco. Plano de apresentação 01. Introdução 02. Anatomia macroscópica 03. Anatomia microscópica 04. Aplicações clínicas 05. Casos clínicos Lesão nas raízes Raiz dorsal: perda total de sensibilidade no respectivo dermátomo; Raiz ventral: fraqueza, atonia e perda de reflexos nos músculos afetados (Neurônio motor inferior). Poliomielite Vírus destrói os neurônios motores da coluna anterior; Os músculos dos MMII são geralmente mais afetados do que os dos MMSS; Pode levar à morte caso haja paralisia dos músculos respiratórios; Cursa com síndrome do neurônio motor inferior. Tabes dorsalis Consequência da neurossífilis, causa lesão da raiz dorsal; Afeta especialmente a parte medial das raízes, que contêm as fibras para os fascículos grácil e cuneiforme; Sintomas: perda de tato epicrítico, propriocepção consciente e sensibilidade vibratória; Com o avanço pode causar outros déficits de sensibilidade. Hemissecção da medula Também conhecida como Síndrome de Brown- Séquard; Lesa todos os tratos de um dos lados medulares; Os sintomas são diferenciados pelos que se manifestam do mesmo lado da lesão ou do lado oposto. Trato espinotalâmico lateral; Trato espinotalâmico anterior Lesão no 10° segmento medular direito Acontece pela lesão da raiz dorsal do segmento afetado Grácil e cuneiforme; Trato corticoespinhal e rubroespinhal Paralisia flácida > lesão dos neurônios da coluna anterior IPSILATERAL CONTRALATERAL Por que não há perda completa do tato? Siringomielia Forma-se uma cavidade no canal central da medula; Destruição da comissura branca e substância cinzenta intermédia; Lesa os dois tratos espinotalâmicos laterais; Perda de sensibilidade térmica e dolorosa em ambos os lados nos respectivos dermátomos; Dissociação sensitiva: perda de sensibilidade térmica e dolorosa sem que haja perda tátil e proprioceptiva. Transeção da medula Inicialmente, cursa com choque medular, que contém as seguintes características: Perda total de sensibilidade, movimento e tônus de todos os segmentos abaixo do nível da lesão; Retenção de urina e fezes; Perda de função erétil. Depois de um tempo, o choque medular é extinguido e ocorrem sintomas bilaterais da síndrome de Brown- Séquard. Compressão medular Ocorre por conta de câncer, em geral; Compressão de dentro para fora (tumor na medula): preservação sacral; Compressão de fora para dentro: sintomas iniciais nos dermátomos sacrais. Cordotomias Consiste na secção cirúrgica do trato espinotalâmico lateral para alívio de dor crônica em caso de tumores malignos; Deve ser feita a secção no trato espinotalâmico lateral acima e do lado oposto ao da lesão; Vai ocorrer perda de sensibilidade térmica e dolorosa abaixo do segmento operado, contralateralmente. OBS: em caso de dor visceral, devem ser seccionados ambos os tratos espinotalâmicos, uma vez que as fibras que conduzem esse impulso podem seguir vias diretas e cruzadas. Plano de apresentação 01. Introdução 02. Anatomia macroscópica 03. Anatomia microscópica 04. Aplicações clínicas 05. Casos clínicos Caso 1 Estudante do sexo masculino de 20 anos de idade celebrou sua aprovação em uma prova tomando várias cervejas em uma festa. A caminho de casa, ele bateu de frente com seu automóvel contra uma ponte. Ao exame físico no prontosocorro, constatou-se que ele sofrera fratura com luxação da nona vértebra torácica com sinais e sintomas de lesão grave da medula espinal. Ele apresentava paralisia do neurônio motor superior da perna esquerda. Ele também perdera a sensação musculoarticular da perna esquerda. Na avaliação da sensibilidade cutânea, ela tinha uma faixa de hiperestesia cutânea estendendo-se em volta da parede abdominal no lado esquerdo ao nível do umbigo. Logo abaixo da faixa, havia uma faixa estreita de anestesia e analgesia. No lado direito, havia analgesia total, termoanestesia e perda parcial da sensação tátil da pele da parede abdominal abaixo do nível do umbigo e envolvendo toda a perna direita. QUAL O NÍVEL MEDULAR LESIONADO? CLASSIFIQUE O TIPO DA LESÃO. EXPLIQUE OS SINAIS APRESENTADOS. Caso 1 Estudante do sexo masculino de 20 anos de idade celebrou sua aprovação em uma prova tomando várias cervejas em uma festa. A caminho de casa, ele bateu de frente com seu automóvel contra uma ponte. Ao exame físico no prontosocorro, constatou-se que ele sofrera fratura com luxação da nona vértebra torácica com sinais e sintomas de lesão grave da medula espinal. Ele apresentava paralisia do neurônio motor superior da perna esquerda. Ele também perdera a sensação musculoarticular da perna esquerda. Na avaliação da sensibilidade cutânea, ela tinha uma faixa de hiperestesia cutânea estendendo-se em volta da parede abdominal no lado esquerdo ao nível do umbigo. Logo abaixo da faixa, havia uma faixa estreita de anestesia e analgesia. No lado direito, havia analgesia total, termoanestesia e perda parcial da sensação tátil da pele da parede abdominal abaixo do nível do umbigo e envolvendo toda a perna direita. QUAL O NÍVEL MEDULAR LESIONADO? CLASSIFIQUE O TIPO DA LESÃO. EXPLIQUE OS SINAIS APRESENTADOS. Soma-se 2 ao número da vértebra. T11. Nível lesionado Hemissecção de medula à esquerda a nível de T11. Tipo de lesão Síndrome do neurônio motor superior: lesão do trato cortipoespinhal e do rubroespinhal. Perda de sensação musculoarticular: fascículo grácil. Faixa de hiperestesia: irritação da medula acima do local da lesão (T10). Faixa de anestesia e analgesia: lesão da raiz dorsal deste dermátomo. Analgesia, termoanestesia e perda parcial da sensação tátil: lesão dos tratos espinotalâmicos. Sinais presentes Caso 2 Homem de 60 anos de idade entrou no ambulatório de neurologia, e o médico prestou atenção especial à sua marcha. O paciente levantava os pés desnecessariamente alto e os projetava no solo com força excessiva. Enquanto esperava pela consulta, observou-se que ele permanecia em pé com os pés muito afastados. Ao ser inquirido, o paciente afirmou que estava com dificuldade crescente para deambular e começara a usar uma bengala, especialmente quando caminhava ao ar livre no escuro. O médico solicitou que o paciente se levantasse, juntasse os pés e calcanhares e fechasse os olhos. O paciente imediatamente começou a oscilar, e o enfermeiro teve de segurá-lo para evitar uma queda. Na continuação do exame, o paciente mostrou perda da sensação musculoarticular nas duas pernas e era incapaz de detectar qualquer sensação vibratória quando um diapasão em vibração era colocado sobre cada um dos maléolos mediais. Não havia outras perdas sensitivas. QUAIS TRATOS ESTÃO SENDO AFETADOS? QUAL É A DOENÇA PRESENTE? Caso 2 Homem de 60 anos de idade entrou no ambulatório de neurologia, e o médico prestou atenção especial à sua marcha. O paciente levantava os pés desnecessariamente alto e os projetava no solo com força excessiva. Enquanto esperava pela consulta, observou-se que ele permanecia em pé com os pés muito afastados. Ao ser inquirido, o paciente afirmou que estava com dificuldade crescente para deambular e começara a usar uma bengala, especialmente quando caminhava ao ar livre no escuro. O médico solicitou que o paciente se levantasse, juntasse os pés e calcanhares e fechasse os olhos. O paciente imediatamente começou a oscilar, e o enfermeiro teve de segurá-lo para evitar uma queda. Na continuação do exame, o paciente mostrou perda da sensação musculoarticular nas duas pernas e era incapaz de detectar qualquer sensação vibratória quando um diapasãoem vibração era colocado sobre cada um dos maléolos mediais. Não havia outras perdas sensitivas. QUAIS TRATOS ESTÃO SENDO AFETADOS? QUAL É O DIAGNÓSTICO? Fascículo grácil. Trato afetado Tabes dorsalis. Diagnóstico Referências NETTER. Atlas de Anatomia Humana. Elsevier. 7º Ed, 2019; MACHADO. A. Neuroanatomia Funcional. Atheneu. 3a Ed, 2014; https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2837917/mod_resource/content/1/mm.pdf; TORTORA, G. J. Princípios de anatomia humana. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. MOORE, K.L.; PERSAUD, T. V. N. Embriologia Clínica. Elsevier. 10a Ed, 2016; Cem Bilhões de Neurônios: Conceitos fundamentais de neurociência. Rio de Janeiro: Atheneu, 2004; SNELL R S. Neuroanatomia Clínica. Guanabara. 7a Ed, 2010; GUYTON, A.C. HALL; J.E. Tratado de Fisiologia Médica. Elsevier. 13a Ed. Rio de Janeiro, 2017; BLUMENFELD, H. (2010). Neuroanatomy Through Clinical Cases (2rd ed.). Sinauer; Obrigada pela atenção!