Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO 
CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÕES 
DEPARTAMENTO DE LETRAS 
CURSO DE LICENCIATURA EM LETRAS - ESPANHOL 
 
 
 
 
 
 
 
ESTUDO DA CANÇÃO “O QUE É, O QUE É?” DE GONZAGUINHA 
NUMA PERSPECTIVA SEMÂNTICO-TEXTUAL E SOCIOINTERACIONISTA 
 
 
 
 
 
 
Recife, 
2021 
 
 
 
 
 
 
 
ESTUDO DA CANÇÃO “O QUE É, O QUE É?” DE GONZAGUINHA 
NUMA PERSPECTIVA SEMÂNTICO-TEXTUAL E SOCIOINTERACIONISTA 
 
 
Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras Espanhol, da Universidade 
Federal de Pernambuco, como requisito parcial para aprovação na disciplina 
Compreensão e Produção de Texto em Língua Portuguesa. 
 
Docente: Profa. Dra. Dilma Tavares Luciano 
 
Discentes: Caroline Rosa Silva 
 Eduarda Vitória Alves da Silva 
 Edvaldo José da Silva 
 Emilly Victória Silva de Araújo 
 
 
 
 
 
Recife, 
2021 
1 Introdução 
Para nortear nossa análise da canção “O que é o que é de Gonzaguinha, adotamos 
uma concepção interacional de leitura, na qual os interlocutores atuam cooperativa e 
dialogicamente, já que se constituem como sujeitos do ato comunicativo mediado pelo 
texto que, nesta perspectiva, assume o lugar da interação verbal. Assim, por ser construída 
coletivamente, a leitura pressupõe um trabalho de compreensão, o que supera a tarefa de 
decodificação, pois no seu processamento estão imbricadas a cooperação entre produtor 
e leitor e a indissociável articulação do texto com o contexto sociocultural em que é 
produzido. 
Desse modo, a construção do sentido de um texto não se limita apenas à percepção 
pelo leitor de seus aspectos estruturais e de suas informações explícitas, mas que ele 
mobilize uma série de conhecimentos prévios e faça inferências ao texto, através de 
estratégias sociocognitivas. Essa atuação ativa do leitor durante o processamento da 
leitura que, segundo Bakhtin (1992), interage com o texto responsivamente, leva-o a uma 
postura de concordância ou discordância parcial ou total do que o texto informa. Nessa 
atividade interacional, ele procede mecanismos de completude de ideias implícitas, bem 
como de adaptação daquelas cuja compreensão não se construa tão facilmente. 
A partir dessas considerações, constatamos que o texto informa muito mais do que 
nele é apresentado objetivamente, uma vez que, para a sua compreensão se efetivar, 
ocorre o concurso continuo dos seus interlocutores: o autor com a sua 
intenção/intencionalidade de comunicar algo lançando mão de escolhas discursivas para 
que isso se consolide; por sua vez, o leitor, construindo o sentido do lê, valendo-se de 
estratégias sociocognitivas e metacognitivas, ao mobilizar diversos conhecimentos para 
cumprir a aceitação/aceitabilidade da proposta comunicativa do autor do texto. (KOCH, 
2014). 
Desse modo, nosso objetivo, neste estudo, é abordar os aspectos envolvidos no 
processamento do texto em tela, quais sejam: os conhecimentos linguísticos (co-textuais) 
e os conhecimentos enciclopédicos ou de mundo (contextuais). Quanto à motivação para 
nossa escolha deste texto como objeto de estudo, deve-se ao fato de esta canção apresentar 
uma variedade de propriedades textuais e discursivas e, por isso, viabilizar que os 
conhecimentos teóricos trabalhados no âmbito da Disciplina Leitura e Produção de Texto 
em Língua Portuguesa, base deste trabalho, fossem explorados a partir de sua análise, 
bem como pela sua atualidade, considerando a mensagem de otimismo por ela 
transmitida, já que se constitui numa obra de arte que, como tal, é atemporal, ainda que 
tenha sido produzida no período de pós-ditadura no Brasil como um “manifesto” de 
entusiasmo e otimismo às pessoas, para elas acreditarem num porvir mais próspero no 
país decorrente das mudanças que se anunciavam naquele momento. 
1 Conhecimentos linguísticos (co-textuais) 
De acordo com Koch e Elias (2007), os conhecimentos linguísticos são aqueles 
de natureza léxico-gramatical constantes da materialidade linguística presentes na 
superfície do texto. Já Marcuschi (2008), denomina-os de conhecimentos co-textuais 
que, segundo o autor, são evocados cognitivamente, durante o processamento da leitura 
do texto, a partir das pistas léxicas nele fornecidas, bem como dos elementos linguístico-
gramaticais integrantes de sua tessitura. Na canção em estudo, são mobilizados para o seu 
processamento/compreensão pelo interlocutor, quando de sua leitura, os seguintes 
conhecimentos linguísticos: 
1.1 Conhecimentos gramaticais (morfossintáticos) e lexicais 
 O texto está escrito em Língua Portuguesa, código compartilhado pelo locutor e 
interlocutor. Desse modo, ambos possuem conhecimentos gramaticais e lexicais 
suficientes para cumprirem a intencionalidade e aceitabilidade do texto. 
1.2 Conhecimentos relacionados ao gênero e à tipologia do texto 
 Esses conhecimentos, de acordo com Koch (2007), denominam-se interacionais e 
superestruturais. Ao mobilizá-los no ato de leitura, o interlocutor possibilita a 
identificação do gênero ao qual pertence o texto lido. De acordo com a autora, à medida 
que ativados esses conhecimentos, cognitivamente, processam-se frames na memória do 
leitor denominados de modelos de situação e modelos episódicos. Tais modelos que, a 
priori, são particularizados, já que decorrem do repertório de experiências do 
leitor/interlocutor nas suas interações cotidianas, tornam-se gerais por serem 
compartilhados de forma comum pelos integrantes de sua comunidade linguística, ou 
seja, pelos participantes do contexto sociocultural ao qual ele pertence. 
 Para Bakhtin (2011), uma vez que a língua consiste numa ação social, os sujeitos 
não podem prescindir dela para estabelecerem suas interações comunicativas, 
consideradas as condições históricas em que se dão tais relações. A partir dessa visão, o 
autor opõe-se a duas concepções: o objetivismo abstrato e o subjetivismo individualista. 
À primeira, por esta não conceber a língua como capaz de evoluir em decorrência do 
tempo e desconsiderar que ela só se realiza em situações reais de uso. À segunda, por não 
levar em conta aspectos contextuais implicados na relação responsiva do falante com os 
seus interlocutores, antes considerando-o como o foco principal dos estudos linguísticos. 
Desse modo, para o autor, “a interação verbal social constitui a realidade fundamental da 
língua e seu modo de existência encontra-se na comunicação que, por sua vez, vincula-se 
à situação social imediata e ampla” (RODRIGUES, 2005, p. 154). 
Segundo o autor, a língua se concretiza pelo uso de enunciados orais e escritos 
produzidos pelos sujeitos participantes dos mais variados campos de atuação humana. 
Tais enunciados resultam das necessidades e propósitos próprios que cada área possui e 
são constituídos por três elementos indissociáveis e determinados pelas características 
específicas de cada esfera comunicativa: o conteúdo temático; o estilo; a construção 
composicional. Como cada área de uso da língua (estética, educacional, jurídica, 
religiosa, acadêmica, cotidiana, etc.) tem suas particularidades individuais, cria, de acordo 
com suas demandas sociais, seus gêneros do discurso, definidos como “tipos 
relativamente estáveis de enunciados” (BAKHTIN, 2011 [1979], p. 262). 
Segundo Bakhtin (2011), dada à diversidade e complexidade das atividades que 
há em cada campo de atuação humana, a riqueza de variedade dos gêneros do discurso é 
infinita, inesgotável e dinâmica, na medida em que incorpora ao seu repertório novos 
gêneros e/ou transmuta aqueles nela já existentes para adequá-los às necessidades sociais 
que surgem. Daí, decorre, segundo o teórico, a extrema heterogeneidade dos gêneros 
discursivos orais e escritos. Todavia, tal heterogeneidade não se constitui num óbice ao 
estudo dos gêneros do discurso, uma vez que esse traço não os torna enunciados vazios e 
abstratos e, consequentemente, inviáveispara serem estudados, mas, pelo contrário, 
contribui para se formular uma categorização dos gêneros do discurso em primários e 
secundários de acordo com a complexidade que os caracterize, como o fazemos, agora, 
com a canção em tela. 
Para Bakhtin (2011 [1979]), os enunciados são constituídos seguindo o princípio 
dialógico da linguagem, uma vez que estabelecem relações de sentido específicas, a partir 
dos pontos de vista neles levantados. Ocorrem, então, ligações entre os enunciados que 
se imprimem em todas as suas dimensões: no conteúdo temático; na estrutura 
composicional; no estilo. Desse modo, o tema do enunciado determina tanto a sua 
estrutura quanto o seu estilo, levando-se em consideração a intenção do locutor diante do 
seu objeto do discurso, bem como dos discursos de outrem que tratem sobre ele, em face 
dos quais o locutor posiciona-se concordando ou discordando. Assim argumenta o autor: 
 
[...] o estilo é indissociavelmente vinculado a unidades temáticas determinadas 
e, o que é particularmente importante, a unidades composicionais: tipo de 
estruturação e de conclusão de um todo de relação entre locutor e os outros 
parceiros da comunicação verbal (BAKHTIN, 2011 [1979], p. 284). 
 
 De acordo com Bakhtin (2011 [1979]), embora o estilo seja indissociável do 
enunciado, pode ser estudado de maneira separada, já que a “estilística da língua” 
constitui uma matéria própria e independente, cujo estudo só faz sentido se estiver 
diretamente atrelado ao caráter dos gêneros do discurso. A partir dessa concepção, o autor 
afirma ser infrutífero qualquer estudo linguístico dissociado de uma profunda abordagem 
sobre as modalidades dos gêneros do discurso, uma vez que a língua(gem) se realiza pelo 
uso deles. E, assim como o gênero do discurso se constitui social, histórica e 
culturalmente, o estilo nele impresso não é, apenas, produto da individualidade de seu 
locutor, mas um produto desses fatores. 
Com base nos postulados de Bakhtin sobre as dimensões constitutivas dos gêneros 
do discurso, Rojo (2005) argumenta que 
 
o fluxo discursivo das esferas cristaliza historicamente um conjunto de gêneros 
mais apropriados a esses lugares e relações, viabilizando regularidades nas 
práticas sociais de linguagem. Esses gêneros, por sua vez, refletirão este 
conjunto possível de temas e de relações nas formas estilos de dizer e de 
enunciar. O que torna, entretanto, os textos e discursos irrepetíveis é o fato de 
esses aspectos da situação, assim como seu tempo e lugar histórico-sociais, 
serem eles próprios irrepetíveis, garantindo a cada enunciado seu caráter original 
(ROJO, 2005, p. 197). 
 
 Para o autor, o parâmetro que determina as três dimensões dos gêneros do 
discurso são as situações reais em que eles são produzidos, bem como a apreciação 
valorativa feita pelo seu locutor quanto aos seus temas e interlocutores no momento da 
enunciação. Por isso, para além de questões de estrutura e textualidade, os enunciados só 
podem ser produzidos com referência aos fatores do contexto de produção. 
 Enquanto gênero discursivo/textual, na perspectiva de Bakhtin (1992); 
Marcuschi (2008), Rojo (2005), este texto integra o rol dos gêneros secundários, pois se 
materializa pelo sincretismo de elementos linguísticos e musicais e, dependendo do seu 
uso efetivo numa situação de interação verbal concreta, ele pode estar configurado tanto 
na modalidade oral quanto escrita da língua. Compreende, pois, uma letra de 
música/canção que está presente em diversas esferas sociais como religiosas, políticas, 
artístico-musical, cotidianas, atendendo às mais diversas necessidades da sociedade, e 
possui os seguintes elementos: 
a) estrutura composicional - quando escrita, verbalmente, constrói-se em 57 
versos, alguns deles rimados e 25 estrofes, tendo como ritmo o samba. 
b) estilo - podemos destacar as seguintes escolhas linguístico-discursivas feitas pelo 
locutor: 
 Adota como título uma frase interrogativa típica das brincadeiras infantis, cujo 
objetivo é a adivinhação, a decifração de um enigma - “O que é o que é?”. Neste 
caso, o enigma é a definição do que é a vida. Com essa pergunta-título, o 
locutor/enunciador evoca outras vozes que constituem as possíveis respostas a 
esse questionamento inicial, deixando inscrito desde então, o caráter polifônico 
que imprimiria no seu enunciado. 
 Assume um posicionamento que quebra a expectativa do leitor/interlocutor pela 
adoção da resposta das crianças para uma questão existencial, universal e 
complexa: 
o que é a vida 
o que é? (9ª estrofe) 
É a vida, é bonita 
E é bonita (1ª estrofes) 
 
Note-se a ingenuidade pueril que o locutor trata por “pureza”, pois, quando uma 
criança é indagada sobre algo de que goste, que considere bom, geralmente, a resposta é 
essa: 
é bonita 
E é bonita. 
Essa pureza/simplicidade se constrói pelo uso do verbo “ser” seguido do adjetivo 
“bonita”, o que imprime uma verossimilhança no discurso, já que não se pode esperar a 
formulação de enunciados complexos e sofisticados por crianças. Desse modo, a estrutura 
morfossintática do enunciado é simples: SD + VL + PS (sujeito desinencial + Verbo de 
ligação + Predicativo do sujeito). Essa estrutura básica é, segunda a teoria gerativista de 
aquisição da linguagem decorrente da competência linguística, segundo a qual a pessoa 
nasce com um dispositivo a que Chomsky (1972) apud Kenedy (2013) denomina de 
Gramática Universal, ou seja, possui uma predisposição genético-mental para a aquisição 
da língua com uma estrutura lógica comum a todas as línguas. 
 Opta por empregar na construção dos enunciados verbos em sua forma nominal 
de infinitivo - viver, ter e ser. Esta tríade verbal contém a dicotomia ter x ser e 
levanta a discussão para o interlocutor sobre qual destas duas dimensões consiste 
em viver cujo sentido é ser feliz. Essa binaridade aparece nos versos: 
Viver e não ter a vergonha 
De ser feliz 
Ao longo de todo o texto, o locutor supervaloriza o “ser” em detrimento do “ter”. 
E o verbo “ser” assume um valor ontológico que excede aquele que a gramática 
tradicional lhe confere e o sentido dicionarizado que possui, pois está imbricado pelo 
contexto sócio-histórico e cultural que amálgama o sentido atingido pela enunciação em 
que está inserido, conforme defende Bakhtin (1992). 
 Emprego das seguintes figuras de linguagem: 
Figuras Semânticas 
 metáforas 
Ela é a batida de um coração 
Ela é uma doce ilusão 
[...] é um divino/Mistério profundo 
É um nada no mundo 
É uma gota, é um tempo/Que nem dá um segundo 
É o sopro do criador/Numa atitude repleta de amor 
 
 Catacrese 
Ela é a batida de um coração 
 Sinestesia 
Ela é a batida de um coração 
Ela é uma doce ilusão 
 
 Figuras de sintaxe ou de construção 
 Polissíndetos 
Cantar, e cantar, e cantar 
Essa escolha do locutor em repetir o conectivo coordenativo aditivo - e - deixa 
implícita a ideia de persistência, perseverança, resiliência, ou seja, em continuar cantando, 
a despeito das circunstâncias adversas que possam surgir. Mas não “Cantar, e cantar, e 
cantar” qualquer coisa, mas sim “A beleza de ser um eterno aprendiz”. 
Somos nós que fazemos a vida 
Como der, ou puder, ou quiser 
 Com o uso do conectivo coordenativo alternativo (de escolha/exclusão) - ou - o 
locutor divide a opinião sobre a responsabilidade de viver e ser feliz com o interlocutor, 
cujas escolhas implicarão para o alcance deste status quo. Que ele seja feliz: i) do jeito 
que der; ii) do jeito que puder; iii) do jeito que quiser. Observa-se que o tempo e modo 
verbais utilizados são o futuro do subjuntivo, o que implica em condições hipotéticas e 
mutantes decorrentes de escolhas e não situações fixas e estanques como as que seriam 
representadas pelo uso do modo indicativo. 
 Anáfora e paralelismo sintático 
E a pergunta roda 
E a cabeça agita 
 Elipse 
É um nada no mundo (A vida) 
É uma gota,é um tempo (A vida) 
[...] é um divino/Mistério profundo (A vida) 
É um nada no mundo (A vida) 
 
 Figuras de pensamento 
 Antíteses 
Você diz que é luta e prazer 
Ela é maravilha ou é sofrimento? 
Ela é alegria ou lamento? 
 Apóstrofe 
Ah, meu Deus! 
 
 Com essa invocação, o locutor revela o alvo de sua fé e motivador da manutenção 
de sua confiança na melhora das condições de vida do país, ou seja, aquele que o faz 
cantar sempre - Deus - (com D maiúsculo). Ele demonstra, também, o seu credo na ideia 
de divindade concebida pela tradição judaico-cristã. 
Figuras fonéticas ou sonoras 
 Aliteração 
Só saúde e sorte 
 
 
c) Conteúdo temático - Segundo Freitas (2021), esta canção - O que é, o que é? integra 
o álbum Caminhos do coração, de 1982. Consiste num samba de cunho engajado-
esperançoso composto a partir das respostas dadas por outros músicos e pessoas de todas 
as idades ao locutor nos camarins e à porta dos teatros onde ele se apresentava, em 
conversas que ele mantinha em torno da seguinte questão (que não é uma pergunta 
retórica): 
o que é a vida 
o que é? (9ª estrofe) 
Dentre as várias respostas conseguidas, o locutor identificou-se com a das crianças 
por julgá-la resultante da pureza que lhes caracteriza e inspirá-lo a acreditar na vida, ainda 
que o contexto sócio-político e econômico não fosse favorável nem ideal: 
É a vida, é bonita 
E é bonita (1ª estrofes) 
 
 Segundo Freitas (2021), a opção do locutor pela resposta das crianças, em 
detrimento das demais, deu-se porque ele teve a intenção de imprimir no texto uma visão 
menos racionalizada da vida, desconstruindo, poeticamente, as percepções mais intuitivas 
típicas dos adultos e, ao mesmo tempo, permitindo-se uma experiência mais sensorial, 
valendo-se da evasão que essa atitude de determinação proporciona: 
Cantar, e cantar, e cantar 
Então, o tema do texto centra-se nas muitas visões sobre a vida (essência da) ou o 
ato de viver evocadas pelas diversas vozes que nele são enunciadas. 
 
1.3 Conhecimentos sobre os critérios de textualidade 
 Para a construção deste tópico, recorremos às contribuições da Linguística Textual 
(LT) que, a partir dos anos 1960, atribui um caráter científico ao estudo do texto, tendo 
como percussores Beaugrande e Dressler (1981). Aqui, no Brasil, os pressupostos da LT 
foram retomados e reformulados por diversos autores, a exemplo de Fávero e Koch 
(1983) e Marcuschi (1983). 
 Segundo Fávero e Koch (1983), os estudos textuais têm sido desenvolvidos a 
partir de três vertentes teóricas, que são as seguintes: as teorias do texto; as gramáticas do 
texto; a análise transfrástica. As teorias do texto mantêm seu foco de estudo na explicação 
das noções sobre texto e interessa-se, também, pelas condições contextuais e pragmático-
discursivas em que se dão a sua produção e recepção, o que, segundo essa perspectiva, 
influi, sobremaneira, na interpretação do texto. Por sua vez, a gramática do texto atribui 
um papel relevante ao falante por reconhecer ser ele o detentor de competência linguística 
para processar os sentidos atingidos pelo texto durante a sua interpretação dos seus 
enunciados. Já a análise transfrástica interessa-se por apontar as regularidades que 
ocorrem na construção textual que superam os limites do enunciado. 
A partir dos anos de 1990, os estudos da LT assumiram um caráter 
sociocognitivista que concebia o texto e o contexto numa perspectiva sociointeracionista. 
Essa concepção baseia-se na natureza dialógica que caracteriza a linguagem humana, cujo 
fomentador foi Bakhtin (1992 [1929]). Segundo o autor, ao usar a língua em suas infinitas 
interações comunicativas, o ser humano o faz em razão do outro, de modo que a sua 
identidade se constrói, dinamicamente, nessa relação marcada pela alteridade. 
 Assim, para essa linha teórica da LT, a linguagem decorre das relações 
interacionais e dialógicas dos sujeitos ao usarem a língua, não sendo possível admitir a 
ideia de que o sentido de um texto seja construído, apenas, a partir de sua materialidade 
linguística nem tampouco somente se se considerar o momento em que se processa a 
interação verbal. Então, deve-se levar em conta, também, o contexto sociocognitivo 
imbricado na produção textual. 
 Tomando por base essa última concepção de estudo do texto, algumas abordagens 
no âmbito da LT vêm sendo desenvolvidas, a exemplo das perspectivas analítico-
descritivas, daquelas que estudam o discurso a partir dos princípios da referenciação e das 
que concebem o texto como um discurso. 
Sobre a referenciação textual, Cavalcante, Pinheiro, Lins e Lima (2010) 
argumentam que esse fenômeno linguístico consiste num processo responsável pela 
(re)construção de referentes que ocorrem de forma subjacente ao texto, quando de sua 
leitura. Nesse processamento sociocognitivo e interaciona-discursivo, os referentes se 
constroem não apenas como decorrentes dos índices sintático-semânticos e lexicais, mas 
compreendem o próprio objeto do discurso, na medida em que se configuram como 
conhecimentos relevantes e essenciais que são mobilizados pelos interlocutores da 
enunciação integrantes do entorno sociocultural e discursivo em que ela se dá. 
 Para Beaugrande e Dressler (1983), o texto consiste num evento comunicativo 
composto por recursos linguísticos e ações sociocognitivas, ou seja, para além de ser um 
construto linguístico-frasal, constitui um acontecimento comunicativo inserido num 
contexto mediado pela linguagem, cujo sentido se processa pelos seus interlocutores 
interacional e cooperativamente. 
 Beaugrande e Dressler (1981); Marcuschi (2008), Fávero e Koch (1983) postulam 
que um texto para se constituir como uma unidade de sentido precisa atender aos critérios 
representados no esquema seguinte: 
 
 Fatores responsáveis pela textualidade 
 Convém ressaltar a importância do conhecimento sobre os fatores da textualidade 
para a consolidação da compreensão textual, pois eles inserem-se na categoria dos 
conhecimentos interacionais e são responsáveis, segundo Koch e Elias (2017), pela 
postura metacognitiva do leitor frente ao texto, uma vez que ele se torna sujeito do ato 
de ler, na medida em que promove um auto monitoramento de sua leitura e lança mão de 
estratégias para “desatar os nós” com os quais se deparar no processamento do texto, ou 
seja, envida esforços no sentido de buscar meios cognitivos que o levem a concretizar a 
sua compreensão. 
a) Intencionalidade - Centra-se no locutor/enunciador do texto, cujo trabalho resulta 
das intenções por ele pretendidas quando da construção discursiva. Suas metas/objetivos, 
previamente estabelecidos se concretizarão, caso o enunciado produzido satisfaça os 
critérios de coesão, coerência, o que implica que ele considere a situação real de 
comunicação em que o texto está inserido, ou seja, os elementos contextuais envolvidos. 
Fávero e Koch (1983), baseadas nos postulados da Pragmática, defendem que a 
intencionalidade atribui ao discurso um valor ilocutório, por ter, na sua produção, a 
cooperação dos interlocutores, isto é, concorrem para a sua produção o autor/locutor com 
as intenções pressupostas e o receptor/leitor, apercebendo-se de tais objetivos e aceitando-
os. 
Com essa canção, o seu locutor apresenta, pelo menos, quatro intenções/objetivos 
revelados ao longo do texto: 
 cantar um samba apesar das circunstâncias adversas 
Mas isso não impede (circunstância adversa) 
Cantar, e cantar, e cantar (propósito/intenção) 
 
 construir um discurso que abarcasse algumas das diversas opiniões possíveis 
sobre o que é a vida, evidenciadas pelas muitas vozes que respondem à pergunta 
revelada no título do texto e em alguns dos seus versos: 
O que é, o que é? 
o que é a vida 
o que é? (9ª estrofe) 
As opiniões sobre o que é a vida enunciadas pelas vozes presentes no discurso são: 
Ela é a batida de um coração 
Ela é uma doce ilusãoÉ um nada no mundo 
É uma gota, é um tempo/Que nem dá um segundo 
[...] é um divino/Mistério profundo 
É o sopro do criador/Numa atitude repleta de amor 
 
 expor seu posicionamento frente ao tema daquilo em que consiste a vida 
Eu fico com a pureza 
Da resposta das crianças 
É a vida, é bonita 
E é bonita 
 
 despertar, no interlocutor, a consciência e a percepção de que a situação 
socioeconômica e política do país não era satisfatória: 
Eu sei, eu sei 
Que a vida devia ser bem melhor 
 
 
 incentivar o interlocutor, numa perspectiva engajada, a ser otimista e a acreditar 
nas mudanças pelas quais o Brasil passava naquele momento: 
E será. 
b) Aceitabilidade - Este fator, cujo foco encontra-se no leitor/interlocutor, compreende 
a sua contrapartida no processamento textual por meio da leitura, diante da 
intencionalidade prevista pelo locutor/enunciador. Relaciona-se, assim, à recepção 
responsiva que este promove dos conhecimentos evocados pelo texto numa relação 
interacional de negociação mútua (FÁVERO e KOCH, 1983). Ao interpretar essa canção, 
o interlocutor se dá conta dos seguintes elementos implícitos: 
 relevância e pertinência temáticas - informações condizentes com o contexto, 
pois o texto aborda, poeticamente, o fim da ditadura e as perspectivas alimentadas 
pela pelas pessoas sobre a vida: se estavam otimistas ou pessimistas, esperançosas 
ou desiludidas, confiantes ou incrédulas nas mudanças que se anunciavam naquele 
momento. 
Ela é uma doce ilusão (pessimismo) 
Ela é maravilha (otimismo/confiança) ou é sofrimento? 
(pessimismo/incredulidade/desilusão) 
Ela é alegria (otimismo/confiança) ou lamento? (pessimismo/desilusão) 
 
 atendimento aos princípios da coesão e coerência - a unidade discursiva em que 
se constitui este texto foi construída pelo emprego de elementos coesivos como a 
repetição, a elipse, a referenciação endofórica anafórica, o paralelismo estrutural, 
a lexicalização impressa pelo uso dos operadores argumentativos ou conectores 
lógico-semânticos, da modalização e da pressuposição. Esses elementos serão 
analisados na canção mais adiante na seção específica sobre a coesão. 
c) Informatividade - Este fator de textualidade centra-se no texto e refere-se à 
abrangência informacional que o texto apresenta. Através dele, evidencia-se, no 
texto, o seu grau de (in)previsibilidade, ou seja, quanto mais previsível for o texto, 
menos informativo ele será, porém quanto menos previsível ele for, tende a 
apresentar mais informações novas e, consequentemente, despertar um maior 
interesse do interlocutor que promoverá a sua recepção atendendo às 
intencionalidades nele estabelecidas pelo locutor. 
Esta canção possui um nível informacional equilibrado, pois articula, 
harmonicamente, elementos que já são do repertório do interlocutor com aqueles 
que o locutor visou acrescentá-lo, ou seja, as informações dadas. Segundo Koch 
(2014), o processamento mental das informações dadas é imediato, enquanto que 
das informações criadas exige-se um trabalho cognitivo maior por parte do 
interlocutor/leitor. 
 Como informações dadas (previsíveis), reconhecemos: o código em que está 
escrita a canção que é a língua portuguesa; os conhecimentos sobre o estilo/gênero 
musical samba; o gênero do discurso em que se configura o texto. 
 Como informações criadas (imprevisíveis), podemos apontar: a diversidade de 
visões em torno do tema canção - o que é a vida?, num contexto de pós-ditadura 
militar num país marcado pela censura e por várias restrições, o que, naturalmente, 
contribuía, sobremaneira, para as opiniões a esse respeito versassem em torno do 
pessimismo e da desilusão, aspecto já abordado neste estudo. 
d) Situacionalidade - Este critério de textualidade tem o contexto como foco e diz 
respeito à adequação que o locutor/autor precisa proceder, levando em conta a 
situação comunicativa a ser mediada pelo texto. Relaciona-se, também, ao grau 
de (in)formalidade que será impresso no discurso, a partir dos aspectos 
contextuais envolvidos na sua produção. É o que a LT denomina de “registro” 
(KOCH, 2014). 
Por tratar-se de um samba, o registro empregado pelo locutor adequa-se à situação 
comunicativa. Ele emprega uma linguagem de acordo com o contexto 
sociodiscursivo em que este gênero se insere: com repetições típicas da 
modalidade oral da língua; desvio proposital da norma gramatical; emprego de 
frases curtas; recurso à gíria; uso de expressão/locução interjetiva popular 
consagrada no falar dos locutores. 
Eu sei, eu sei (repetição típica da modalidade oral) 
Que a vida devia ser bem melhor (desvio gramatical proposital - devia por 
deveria) 
É a vida, é bonita/E é bonita (frases curtas) 
Diga lá, meu irmão (gíria) 
Ah, meu Deus! (expressão popular) 
d) Intertextualidade - De acordo com Koch (2014), consiste num fenômeno 
linguístico que resulta da apropriação de um texto já existente para a elaboração 
de outro, de modo que, o texto-matriz serve de base à produção de um novo texto 
denominado de intertexto. Essa intertextualidade pode ocorrer de forma direta, 
com a citação de trechos de outros textos ou indireta/implícita com referências 
que apontam para o texto tomado. 
No texto em estudo, seu locutor recorreu à Bíblia Sagrada, especificamente, ao 
Livro de Gênesis 2:7 para compor os versos seguintes: 
É o sopro do criador/Numa atitude repleta de amor (intertexto) 
E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego 
da vida (texto-matriz) 
 
É possível, também, estabelecermos o diálogo intertextual entre essa canção e o 
poema “Consoada” de Manuel Bandeira, conforme se observa nos trechos seguintes: 
[...] a vida/ Sempre desejada/Por mais que esteja errada/Ninguém quer a morte 
(intertexto) 
Quando a Indesejada das gentes chegar/(Não sei se dura ou caroável),/talvez eu tenha 
medo./Talvez sorria, ou diga:/— Alô, iniludível! (texto-matriz) 
 
e) Coerência - Este critério, também, foca-se no texto. Koch e Travaglia (1989) 
postulam que a coerência textual (ou conectividade conceitual) é considerada um 
dos fatores essenciais da textualidade, já que implica, diretamente, na construção 
do sentido que se visa atingir no texto. Para além dos recursos lógico-semânticos 
nele utilizados, encontram-se embricados fatores cognitivos, cuja ativação faz-se 
necessária para que a partilha de conhecimentos mediadas por ele entre 
locutor/enunciador e leitor/locutor se consolide. Desse modo, um texto para ser 
coerente prescinde de uma harmonia tal entre suas partes que resulte numa 
unidade de sentido, ou seja, um todo sem ilogicidade nem contradições que 
possam comprometer sua compreensão. A canção em tela, conforme já 
demonstrado neste estudo, atende ao princípio da coerência textual. 
 
f) Coesão - Segundo Koch (2007), a coesão é construída através de mecanismos 
linguísticos, indicações na estrutura superficial do texto, o que garante a sua 
unidade formal, expressa na organização sucessiva de suas partes e possibilitam 
as relações de sentido nele estabelecidas. Na canção em estudo, identificamos os 
seguintes procedimentos coesivos, cujos sentidos ou valores lógico-semânticos 
para serem construídos carecem da ativação/mobilização de vários conhecimentos 
linguísticos: 
Eu sei, eu sei (repetição) 
Cantar, e cantar, e cantar (repetição) 
E será! (elipse - bem melhor) 
Mas isso não impede [...] (referenciação endofórica anafórica - a vida devia ser 
bem melhor) 
Ela é a batida de um coração/Ela é uma doce ilusão (referenciação endofórica 
anafórica pronominal - a vida) 
E a pergunta roda/E a cabeça agita (paralelismo estrutural) 
Ela é a batida de um coração/Ela é uma doce ilusão (paralelismo estrutural) 
Mas isso não impede (operador argumentativo adversativo que contrapõe 
argumentos orientados para conclusões contrárias) 
Sempre desejada/Por mais que esteja errada/Ninguém quer a morte (operador 
argumentativoconcessivo que contrapõe argumentos orientados para conclusões 
contrárias) 
E a pergunta roda/E a cabeça agita (operadores argumentativos aditivos somados em 
favor de uma conclusão) 
Que a vida devia ser bem melhor (verbo auxiliar modal ou modalizador) 
Eu sei, eu sei (verbo modalizador de atitude proposicional) 
É uma gota, é um tempo/Que nem dá um segundo (operador argumentativo do tipo 
lógico, que estabelece entre as orações a relação de restrição ou delimitação - 
pronome relativo) 
Mas isso não impede/Que eu repita (pressuposição por negação - fica 
pressuposto que os fatos citados anteriormente constituiriam motivos de 
impedimento ao locutor). 
Como der, ou puder, ou quiser (emprego do operador argumentativo de 
disjunção pelo conectivo alternativo com valor exclusivo, ou um ou outro, 
mas nunca os dois) 
Como der, ou puder, ou quiser (operador lógico-argumentativo de modo) 
 
2 Conhecimentos de mundo ou enciclopédicos (contextuais) 
De acordo com Koch e Elias (2017), esses conhecimentos constitutivos do 
repertório do interlocutor, encontram-se arquivados em sua memória e são decorrentes de 
suas diversas experiências e interações socioculturais nas mais variadas situações de sua 
vida. São ativados/mobilizados, dinâmica e ativamente, por meio de estratégias 
sociocognitivas e metacognitivas de leitura quando do processamento/compreensão do 
texto. 
Sobre os conhecimentos de mundo ou enciclopédicos, denominados por 
Marcuschi (2008) de contextualidade, que são mobilizados no 
processamento/compreensão deste texto, na canção “O que é, o que é?”, reconhecemos: 
 
2.1 Informações históricas sobre o momento político e social em que essa canção foi 
lançada. 
Ah, meu Deus! 
Eu sei, eu sei 
Que a vida devia ser bem melhor 
E será! 
Nesses trechos, fica clara a intenção do locutor de despertar no interlocutor a 
consciência e percepção de que a situação socioeconômica e política do país não era 
satisfatória: 
Eu sei, eu sei 
Que a vida devia ser bem melhor 
Contudo, ele demonstra o seu otimismo e fé nas mudanças pelas quais o Brasil 
passava naquele momento: 
E será. 
Essa crença esperançosa do locutor faz jus à conjuntura sociocultural e política 
em que se deu o lançamento da canção que coincide com o fim da ditadura militar em 
1982, no fim do governo Figueiredo, foram realizadas eleições diretas pela primeira vez 
no país para todos os cargos públicos eleitorais (de vereadores a governadores). Essas 
eleições foram o pontapé inicial para o movimento Diretas Já que aconteceu nos dois 
anos seguintes. 
2.2 Noções de estilos musicais e movimentos artístico-musicais com suas 
características e propósitos em dado momento histórico-cultural 
De acordo com Freitas (2021), Gonzaguinha, o locutor deste texto, integrava o 
segundo momento da Bossa Nova (inspirada em uma visão popular e nacionalista, este 
grupo fez uma crítica das influências do jazz norte-americano na bossa nova e propôs sua 
reaproximação com compositores do morro, como o sambista Zé Ketti), ou seja, ele 
compunha a Segunda Geração de músicos deste movimento músico-cultural. Foram 
artistas que empreenderam esforços para a valorização do samba, numa posição mais 
nacionalista e conciliatória que deu origem ao movimento chamado MPB (Música 
Popular Brasileira). 
2.3 Conhecimentos sobre o locutor do texto, ou seja, o cantor/autor da canção 
 O locutor deste texto foi Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, conhecido, 
popularmente como Gonzaguinha. Ele nasceu no morro de São Carlos, no bairro Estácio 
no Rio de Janeiro, em 22/09/1945 e faleceu em Renascença, Paraná, no dia 29/04/1991, 
após sofrer um acidente de carro na estrada. Além de cantor, era compositor. Era filho de 
Luiz Gonzaga, o Rei do Baião e da cantora e dançarina Odaléia Guedes dos Santos. O 
artista ficou órfão de mãe com dois anos de idade. Suas composições foram gravadas e 
regravadas por diversos artistas brasileiros ao longo dos últimos anos. 
 
Considerações finais 
 Pela conclusão deste estudo propedêutico, que partiu da análise da canção “O que 
é, o que é?”, de Gonzaguinha, vimos, ancorados nos pressupostos da Linguística Textual, 
na teoria bakhtiniana sociointeracionista dos gêneros discursivos, bem como nas 
contribuições de autores que fomentaram pesquisas fundadas no processamento 
sociocognitivo e metacognitivo do texto, quais são os conhecimentos mobilizados durante 
a leitura para a construção pelo leitor da compreensão textual. 
 Vislumbramos, com base no aparato teórico consultado, de que mecanismos o 
interlocutor de um texto lança mão para construir o seu sentido, ou seja, quais 
conhecimentos precisa ativar cognitivamente para consolidar esse processo. Percebemos, 
também, quão complexo é o ato de ler e compreender um texto, bem como a interatividade 
que caracteriza essa atividade, direta e indissociavelmente, vinculada ao seu contexto de 
produção. 
 Constatamos, também, o quanto a canção analisada constitui um texto 
discursivamente amplo, na medida em que nos serviu de base para análise de diversos 
elementos linguísticos, textuais, estilístico-poéticos e que se encontravam no seu entorno, 
perceptíveis pelas inferências construídas quando de sua leitura e pelo acionamento 
cognitivo dos conhecimentos prévios necessários para a sua compreensão. 
 Por fim, cabe-nos dizer que esta é apenas uma das análises possíveis desta canção 
que, como qualquer outra obra de arte, não esgota seu conteúdo e profundidade por mais 
que seja estudada sob diferentes pretensões teóricas e que, como um bem artístico-
cultural, é atemporal e, por isso, sua mensagem aplica-se ao contexto em que estamos 
inseridos atualmente, como também a qualquer tempo em que seja considerada. 
 
REFERÊNCIAS 
 
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo, Martins Fontes, 1992. 
 
CAVALCANTE, M. M.; PINHEIRO, C. L.; LINS, M. da P. P.; LIMA, G. Dimensões 
textuais nas perspectivas sociocognitiva e interacional. In: BENTES, A. C.; LEITE, M. 
Q. (Orgs.) Linguística de texto e Análise da conversação: panorama das pesquisas no 
Brasil. São Paulo: Cortez, 2010. 
 
BEAUGRANDE, Robert de; DRESSLER, Wolfgang. Einfuhrung in die Textlinguistic. 
Tubigen: Max Niemeyer, 1981. 
 
CHOMSKY, N. Aquisição e uso da linguagem. In: Linguística Cartesiana. Petrópolis: 
Editora Vozes limitada, tradução portuguesa, 1972. 
 
FÁVERO, Leonor Lopes; KOCK, Ingedore Villaça. Introdução à Linguística Textual. 
São Paulo: Cortez, 1983. 
 
FREITAS, Beatriz Pacheco. Gonzaguinha, o eterno aprendiz: a arte de recomeçar de 
um guerreiro menino. Rio de Janeiro, 2021. Dissertação de Mestrado – Departamento 
de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 
 
KENEDY, E. Curso básico de linguística gerativa. São Paulo: Contexto, 2013. 
 
KOCH, Ingedore; ELIAS, Vanda. Ler e compreender: os sentidos do texto. São Paulo: 
Contexto, 2017. 
 
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. São Paulo: Contexto, 2007. 
 
_____________. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 2014. 
 
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. 
São Paulo: Parábola Editorial, 2008. 
_____________. Linguística de Texto: o que é e como se faz. Recife: Universidade 
Federal de Pernambuco, 1983. 
RODRIGUES, Rosângela Hammes. Os gêneros do discurso na perspectiva dialógica 
da linguagem: a abordagem de Bakhtin. In: MEUER, J. L.; BONINI, Adair; MOTA-
ROTH, Désirée (Org.). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: EDUC, 2005. 
 
ROJO, Roxane. Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas. 
In: MEUER, J. L.; BONINI, Adair; MOTA-ROTH, Désirée (Org.). Gêneros: teorias, 
métodos, debates. São Paulo: EDUC, 2005. 
 
TRAVAGLIA, Luiz Carlos; KOCH, Ingedore Villaça. Texto e coerência. 1a. ed. São 
Paulo: Cortez, 1989. 
 
ANEXO: 
Canção “O que é, o que é? de Gonzaguinha 
 
Eu fico com a pureza 
Da resposta das criançasÉ a vida, é bonita 
E é bonita 
Viver e não ter a vergonha 
De ser feliz 
Cantar, e cantar, e cantar 
A beleza de ser um eterno aprendiz 
Ah, meu Deus! 
Eu sei, eu sei 
Que a vida devia ser bem melhor 
E será! 
Mas isso não impede 
Que eu repita 
É bonita, é bonita 
E é bonita 
Viver e não ter a vergonha 
De ser feliz 
Cantar, e cantar, e cantar 
A beleza de ser um eterno aprendiz 
Ah, meu Deus! 
Eu sei, eu sei 
Que a vida devia ser bem melhor 
E será! 
Mas isso não impede 
Que eu repita 
É bonita, é bonita 
E é bonita 
E a vida, e a vida o que é? 
Diga lá, meu irmão 
Ela é a batida de um coração 
Ela é uma doce ilusão 
Êh! Ôh! 
E a vida 
Ela é maravilha ou é sofrimento? 
Ela é alegria ou lamento? 
O que é? O que é, meu irmão? 
Há quem fale que a vida da gente 
É um nada no mundo 
É uma gota, é um tempo 
Que nem dá um segundo 
Há quem fale que é um divino 
Mistério profundo 
É o sopro do criador 
Numa atitude repleta de amor 
Você diz que é luta e prazer 
Ele diz que a vida é viver 
Ela diz que melhor é morrer 
Pois amada não é e o verbo é sofrer 
Eu só sei que confio na moça 
E na moça eu ponho a força da fé 
Somos nós que fazemos a vida 
Como der, ou puder, ou quiser 
Sempre desejada 
Por mais que esteja errada 
Ninguém quer a morte 
Só saúde e sorte 
E a pergunta roda 
E a cabeça agita 
Eu fico com a pureza 
Da resposta das crianças 
É a vida, é bonita 
E é bonita 
Viver e não ter a vergonha 
De ser feliz 
Cantar, e cantar, e cantar 
A beleza de ser um eterno aprendiz 
Ah, meu Deus! 
Eu sei, eu sei 
Que a vida devia ser bem melhor 
E será! 
Mas isso não impede 
Que eu repita 
É bonita, é bonita 
E é bonita 
Viver e não ter a vergonha 
De ser feliz 
Cantar, e cantar, e cantar 
A beleza de ser um eterno aprendiz 
Ah, meu Deus! 
Eu sei, eu sei 
Que a vida devia ser bem melhor 
E será! 
Mas isso não impede 
Que eu repita 
É bonita, é bonita 
E é bonita 
Viver e não ter a vergonha 
De ser feliz 
Cantar, e cantar, e cantar 
A beleza de ser um eterno aprendiz 
Ah, meu Deus! 
Eu sei, eu sei 
Que a vida devia ser bem melhor 
E será! 
Mas isso não impede 
Que eu repita 
É bonita, é bonita 
E é bonita 
Viver e não ter a vergonha 
De ser feliz

Mais conteúdos dessa disciplina