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1 FDDHI – 2-2022 – 7º TERMO B Caso clínico para estudo: uma criança com deficiência de complemento. ALUNO: Leonardo Augusto Felipe RA: 41912110 TURMA: 7 termo B Tommy é um menino de 4 anos de idade, cujo peso corporal encontra-se no baixo para seu grupo etário. Desde um ano de idade vinha sendo repetidamente hospitalizado por infecções no ouvido médio e mastoidite por vários microrganismos como Staphylococcus aureus, Proteus vulgaris e Pseudomonas aeruginosa, sendo tratado com sucesso por antibióticos. O avô, um médico, sugeriu que fosse efetuada uma avaliação de seu estado imunológico. Seus exames laboratoriais mostraram hematócrito normal, contagem de leucócitos e plaquetas normais, bem como testes de coagulação sanguínea normais. Seu nível sérico de IgG era de 915 mg/dl, de IgA era de 475 mg/dl e de IgM era de 135 mg/dl (todos normais). Após injeção de toxóide tetânico seu título de anticorpos elevou de 0,25 para 8 unidades/ml. Ele apresentou reação intradérmica positiva aos antígenos de Candida e de caxumba. Seu soro foi incapaz de lisar eritrócitos sensibilizados com anticorpos específicos (teste do complemento lítico) e os níveis de C3 eram de 27 mg/dl (VN = 97-204 mg/dl), indicando defeito no sistema complemento, especificamente do componente C3. Questões: 1. (1,25) Como o sistema complemento pode ser ativado? O sistema complemento (SC) é o principal mediador humoral do processo inflamatório junto aos anticorpos. Está constituído por um conjunto de proteínas, tanto solúveis no plasma como expressas na membrana celular, e é ativado por diversos mecanismos por três vias, a clássica, a alternativa e a MB- lectina. A deficiência dos componentes iniciais da via clássica pode estar associada com saúde normal, doença dos colágenos ou infecções. As deficiências de C3 ou de proteínas reguladoras de C3 frequentemente levam a infecções severas. As deficiências de componentes da via alternativa ou da via efetora comum podem acarretar infecções, particularmente por Neisseria spp. A deficiência de inibidor de C1 causa angioedema. Sua ativação tanto pela via clássica como pela via alternativa leva à formação do complexo lítico de membrana (CLM), que destrói células. A opsonização leva ao reconhecimento das moléculas do SC pelos receptores para complemento nos fagócitos e pelas imunoglobulinas. A ativação da via clássica do SC é iniciada pela ligação de C1q à porção Fc (fragment crystalline) de uma imunoglobulina. A via alternativa é ativada continuamente na fase fluída em pouca intensidade; na presença de um ativador exógeno, esta é amplificada. Isso inicia uma cascata de eventos proteolíticos, resultando na formação de C5 convertase da via clássica e alternativa, que cliva a molécula de C5 em C5b e C5a. O C5b liga-se, por sua vez, a C6, C7 e C8 para formar o complexo C5b-8. 2. (1,25) Quais são os principais produtos gerados durante a ativação do complemento e quais seus efeitos biológicos? Todas as três vias levam à formação de C3 convertase, que cliva C3 em C3a e C3b. O C3b depositado na superfície dos microrganismos liga-se ao CR1, CR3 e CR4 dos neutrófilos e macrófagos para opsonizar a fagocitose. 2 C3a, C5a e C4a estimulam os mastócitos a liberar histamina e a contração do músculo liso. A formação de complexos de ataque à membrana (C5 a C9) promove a lise celular e destrói os microrganismos. O C3b nos complexos imunes liga-se ao CR1 nos glóbulos vermelhos, e o ic é eliminado da circulação quando os glóbulos vermelhos passam pelo fígado e baço. 3. (1,25) Como é e como é feita a regulação da ativação do complemento? Para controlar a atividade do SC, há inibidores endógenos regulados pela própria citólise. Quando C3b reconhece a célula do hospedeiro, essas proteínas reguladoras, que têm uma afinidade por C3b, se ligam a ele e impedem a sua ação. A cascata é interrompida imediatamente e as células autólogas são protegidas do ataque do SC. Outro mecanismo que dificulta o reconhecimento das células do hospedeiro pelas proteínas do complemento é a existência de uma proteína chamada de properdina. A properdina é responsável pela estabilização da C3-convertase da via alternativa e possui uma afinidade pela célula do microrganismo, mas uma baixa afinidade pelas células naturais do hospedeiro. Quando há suspeita de imunodeficiência em alguns indivíduos, deve-se investigar outras causas mais comuns como HIV e deficiência de auto anticorpos, pois as deficiências do complemento não são muito prevalentes. 4. (1,25) Cite as principais deficiências de complemento, indicando suas consequências clínicas. Foram descritas várias deficiências em muitas proteínas do C, sendo a maioria atribuída por mutações genéticas. Deficiência das células NK há infecções fatais ou disseminas causadas pelo vírus herpes zoster. Deficiência dos fagócitos possuem manifestações como abscessos cutâneos e profundos, tipo infecções respiratórias, neurológicas e do sistema retículo- endotelial por estafilococos, bactérias Gram negativas e fungos. Deficiência da resposta celular tem como infecções graves por patógenos intracelulares. Deficiência de complemento C3 tem susceptibilidade a infecções bacterianas, devido à ausência de opsonização e inabilidade de utilizar a via do ataque da membrana. Deficiência combinada tem infecções oportunistas do primeiro ao terceiro mês de vida, susceptibilidade a infecções que podem evoluir para septicemia. Deficiência da resposta humoral tem manifestação como primariamente infecções sino-pulmonares por bactérias extracelulares encapsuladas e, secundariamente, infecções gastrintestinais por enterovírus e a Giárdia Lamblia. Deficiência de complemento- componentes terminais ocorrem infecções por Neisseria, LES e glomerulenefrite. 3 5. (1,25) Por que a deficiência de C3 é mais grave que as demais deficiências do complemento? Pois o C3 é o mais abundante dos componentes do complemento no plasma. O C3 participa de numerosos mecanismos efetores responsáveis pela inflamação e defesa do hospedeiro. Consequentemente, a deficiência de C3 leve a distúrbios múltiplos e graves, incluindo doença por imunocomplexo, resposta imune prejudicada, quimiotaxia prejudicada, opsonofagocitose reduzida e atividade bactericida sérica anormal, Estando associada a infecções frequentes e graves por bactérias piogênicas que podem ser fatais devido o papel central de C3 na opsonização, aumento da fagocitose e destruição desses organismos. 6. (1,25) Indique as metodologias utilizadas nos testes que avaliam a função imunológica de complemento (dosagem de complemento total - teste de lise de eritrócitos sensibilizados - e dosagem de componentes do complemento – C3). Explique o princípio da IDRS. Dosagem de complemento total: enzimaimunoesaio Teste de lise de eritrócitos sensibilizados: ensaio lítico (reação de fixação do complemento) Dosagem de C3 método: nefelometria Princípio de IDRS: Baseia-se na difusão de substâncias solúveis por movimentos moleculares ao acaso em meio gelificado, como o ágar ou gel de agarose. Enquanto as moléculas de anticorpos e/ou antigenos estão livres, ocorre a difusão no meio. No momento em que ocorre a interação entre as moléculas, são formados imunocomplexos de elevado peso molecular que, devido ao tamanho, ficam imobilizados no gel, o que permite visualizar o imunocomplexo em decorrência da formação de turvação nítida visível a olho nu, o imunoprecipitado. Uma quantidade padronizada de anticorpo específico é incorporada ao meio gelificado, e a mistura, alocada sobre uma placa ou lâmina. Após a gelificação, são feitos orifícios no ágar para se colocar o antígeno em volumes precisos e a amostra- padrão com concentrações conhecidas do antígeno. O antígeno difunde-se de acordo com seu tamanho molecular e encontra o anticorpo imobilizado no gel, formando o imunocomplexo.À medida que aumenta a concentração de antígeno no gel, o precipitado se dissolve (zona de excesso de antígeno) e o antígeno migra mais, encontrando novas moléculas de anticorpo. Após algumas horas de difusão, atinge-se a zona de equivalência e forma-se um halo bem definido de precipitado. O tempo para difusão depende do coeficiente de difusão da molécula antigénica. 7. (1,25) No caso de estudo o autor diz que o soro de Tommy foi incapaz de lisar eritrócitos sensibilizados com anticorpos específicos (teste do complemento lítico). O que indica esse resultado? Indica deficiência ou anormalidade nas proteínas do sistema complemento, aumentando infecçoes ou atividade imune 8. (1,25) Como pode ser tratada a deficiência do componente C3 do complemento? 4 Pode ser usado de diversas formas, de acordo com a doença como terapia com imunoglobulina; tratamento agressivo das infecções estabelecidas e precauções de infecções em hospitalizados; transplante de medula óssea ou terapia com células-tronco; terapia de reposição enzimática; terapia gênica, reposição de Ig, profilaxia antibiótica e antifúngica Bibliografia: - Stites, Daniel P.; Terr, Abba I.; Parslow, Tristam G.; Voeux, Patricia Josephine, Imunologia médica. Editora(s) Guanabara Koogan. - Abbas, A.K.; Lichtman, A.H.; Shiv, P. Imunologia Celular e Molecular, 6º ed., Elsevier, Rio de Janeiro, 2008. - Ferreira et al. Doenças associadas à deficiência do sistema complemento. Arch. Health. Sci. 2019 jan-mar: 26(1):62-66. Disponível em: http://www.cienciasdasaude.famerp.br/index.php/racs/article/view/1397/789 http://www3.unoeste.br/site/biblioteca/consulta/informix/maisinfo.asp?TitCodigo=37300 http://www.cienciasdasaude.famerp.br/index.php/racs/article/view/1397/789 5 SISTEMA COMPEMENTO - RESUMO O sistema complemento compreende várias proteínas (mais de 20), presentes na circulação, nos líquidos biológicos e ligadas a membranas. Essas proteínas são produzidas por várias células incluindo, hepatócitos, macrófagos e células epiteliais do intestino. Algumas dessas proteínas se ligam a imunoglobulinas ou a componentes de membrana das células, outras são proenzimas, que quando ativadas, clivam outras proteínas do complemento. Elas atuam em cascata, cada forma enzimaticamente ativa gerada atua como catalisador da próxima. A clivagem enzimática de proteínas do complemento libera fragmentos com importantes atividades biológicas como recrutamento e ativação de células infamatórias, aumento da permeabilidade vascular, opsonização (facilitação da fagocitose) e lise de bactérias. A regulação da ativação do complemento é realizada pelas proteínas reguladoras de fase fluída (presentes nos líquidos biológicos do hospedeiro) e pelas proteínas reguladoras de membrana (presentes nas células do hospedeiro). O sistema complemento tem capacidade de discriminar entre o próprio e não próprio, por meio de moléculas reguladoras presentes nos tecidos do hospedeiro. As proteínas do complemento recebem denominações variadas, as proteínas da via clássica são designadas pela letra C seguida de um número (C1 a C9). Os fragmentos gerados da clivagem são designados pela letra e pelo número seguido da letra minúscula a ou b. As proteínas da via alternativa são denominadas fatores, por exemplo, Fator B, FB ou B. As proteínas reguladoras são denominadas de diferentes maneiras, pela abreviação do nome, como por exemplo, o fator de aceleração do decaimento (DAF). O sistema complemento pode ser ativado de por três vias (via clássica, via alternativa e via MB-lectina). Apenas a ativação da via clássica requer a presença de anticorpo, é ativada pelo complexo Ag-Ac, sendo importante na imunidade adaptativa, enquanto que as outras duas vias são importantes na imunidade inata. A via alternativa é ativada por determinados produtos bacterianos, como o LPS de Gram-negativos, ac. teicóico de Gram-positivos ou zimozan das paredes de leveduras. A via de lectinas é ativada através da ligação de lectina ligante da manose (dos macrófagos) à manose da superfície do patógeno. Todas as três vias levam a formação de C3 convertase, que cliva C3 em C3a e C3b. O C3b ou e iC3b depositado sobre a superfície de microrganismos, se ligam ao CR1, CR3 e CR4 dos neutrófilos e macrófagos, opsonizando para fagocitose. O C3a e também C5a e C4a estimulam a liberação de histamina pelos mastócitos e a contração do músculo liso. O C5a é também qumioatraente para neutrófilos e ativa o metabolismo oxidativo dessas células. A formação do complexo de ataque à membrana (C5 a C9) promove a lise de células e destrói microrganismos. O C3b em imunocomplexos liga-se ao CR1 de eritrócitos, e os ic são eliminados da circulação, quando os eritrócitos passam pelo baço e fígado. Foram descritas várias deficiências em muitas proteínas do C, sendo a maioria, atribuída a mutações genéticas. Os defeitos na ativação da via alternativa do C, resultam em infecções piogênicas e vasculite. Os defeitos na ativação da via clássica têm sido associados ao LES, à glomerulonefrite, às infecções piogênicas e vasculite. A deficiência de C3 acarreta susceptibilidade a infecções bacterianas, devido à ausência de opsonização e inabilidade de utilizar a via do ataque à membrana. As anormalidades na formação do complexo de ataque à membrana estão associadas a infecções disseminadas por Neisseria, ao LES e à glomerulonefrite. 6 As deficiências nas proteínas reguladoras do C estão associadas a uma ativação anormal e a uma grande variedade de anormalidades clínicas. O EANH (edema angioneurótico hereditário) é uma deficiência autossômica dominante do inibidor de C1, que se manifesta por ataques itermitentes agudos de edema da pele das mucosas. A hemoglobinúria paroxística noturna é uma hemólise intravascular mediada pelo C, causada por deficiências nos reguladores de proteínas integrais de membrana, o DAF (fator de aceleração de decaimento), O HRF (fator de restrição homólogo) e a proteína CD59. As anormalidades no fator I ou fator H resultam em ativação desregulada da via clássica, com consumo de C3 e estão associadas a infecções piogênicas e glomerulonefrite.