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1 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE HISTÓRIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO DOUTORADO EM HISTÓRIA SOCIAL DE SERTANISTAS DAS MATAS A ERUDITOS DA HISTÓRIA História paulista como reação à perda da hegemonia das famílias antigas na São Paulo do século XVIII LUIZ PEDRO DARIO FILHO Niterói, 2021 2 LUIZ PEDRO DARIO FILHO DE SERTANISTAS DAS MATAS A ERUDITOS DA HISTÓRIA História paulista como reação à perda da hegemonia das famílias antigas na São Paulo do século XVIII Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em História da Universidade Federal Fluminense como requisito para obtenção do título de Doutor em História. Área de concentração: História Moderna e Colonial Orientador: Dr. Ronald José Raminelli Niterói, 2021 3 Ficha catalográfica automática - SDC/BCG Gerada com informações fornecidas pelo autor Bibliotecário responsável: Debora do Nascimento - CRB7/6368 D218s Dario filho, Luiz Pedro De sertanistas das matas a eruditos da história : História paulista como reação à perda da hegemonia das famílias antigas na São Paulo do século XVIII / Luiz Pedro Dario filho ; Ronald José Raminelli, orientador. Niterói, 2021. 275 f. : il. Tese (doutorado)-Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2021. DOI: http://dx.doi.org/10.22409/PPGH.2021.d.09981052795 1. São Paulo colonial. 2. Bandeirantes paulistas. 3. Brasil colonial. 4. Produção intelectual. I. Raminelli, Ronald José, orientador. II. Universidade Federal Fluminense. Instituto de História. III. Título. CDD - 4 DE SERTANISTAS DAS MATAS A ERUDITOS DA HISTÓRIA História paulista como reação à perda da hegemonia das famílias antigas na São Paulo do século XVIII LUIZ PEDRO DARIO FILHO Resumo: Após a Guerra dos Emboabas houve colaboração da Coroa com os paulistas pela realização de novos descobrimentos minerais. O descobrimento de ouro em Cuiabá (1718) e Goiás (1725), no entanto, veio acompanhado de enorme fluxo de agentes mercantis portugueses que se enraizaram e enriqueceram na cidade de São Paulo. Se inicialmente esses mercadores optaram por casar a si e as suas filhas com membros das famílias paulistas, passaram, por volta da década de 1730, a optar por uniões matrimoniais no interior da comunidade mercantil. Apresentaremos o tensionamento que adveio desse processo, entre paulistas e homens de negócios portugueses, assim como as estratégias traçadas pelos grupos ao longo dos anos e o papel do Governador D. Luis Mascarenhas no conflito. Por fim, analisaremos também a ação dos comericantes portugueses, a partir da década de 1750, de registrar brasões de armas na Câmara Municipal de São Paulo e a reação das linhagens antigas de Piratininga a esse movimento. Pedro Taques de Almeida Paes Leme liderou a resistência à ação reinol e, após o confronto interno na municipalidade, voltaria sua atenção para debate intelectual mais amplo. Foi a partir de então que passou a se utilizar da documentação oficial e da narrativa histórica, junto de Frei Gaspar de Madre de Deus, em luta contra a lenda negra paulista e pela importância do reconhecimento das entradas dos sertanistas de São Paulo na conquista, construção e expansão territorial da América portuguesa. Palavras-chave: São Paulo colonial; Brasil colonial; Famílias paulistas; Século XVIII. 5 FROM SERTANISTAS OF THE FORESTS TO HISTORY SCHOOLERS São Paulo history as a reaction to the loss of hegemony of old families in 18th century São Paulo LUIZ PEDRO DARIO FILHO Abstract: After the Emboabas War, the Crown collaborated with the São Paulo population for new mineral discoveries. The discovery of gold in Cuiabá (1718) and Goiás (1725), however, was accompanied by a huge flow of Portuguese mercantile agents that took root and enriched the city of São Paulo. If initially these merchants opted to marry themselves and their daughters to members of the São Paulo families, they started, around the 1730s, to opt for matrimonial unions within the mercantile community. We will present the tension that resulted from this process, between São Paulo and Portuguese businessmen, as well as the strategies drawn up by the groups over the years and the role of Governor D. Luis Mascarenhas in the conflict. Finally, we will also analyze the action of Portuguese merchants, from the 1750s onwards, of registering coats of arms in the City Council of São Paulo and the reaction of ancient Piratininga lineages to this movement. Pedro Taques de Almeida Paes Leme led the resistance to the kingdom's action and, after the internal confrontation in the municipality, he would turn his attention to a broader intellectual debate. It was from then on that it started to use official documentation and historical narrative, together with Frei Gaspar de Madre de Deus, in the struggle against the black legend of São Paulo and for the importance of recognizing the entries of the sertanistas of São Paulo in the conquest, construction and territorial expansion of Portuguese America. Key-words: Colonial São Paulo; Colonial Brasil; Paulista families; XVIII century. 6 Agradecimentos Primeiramente à CAPES, por ter financiado a pesquisa e viabilizado a dedicação necessária para a sua realização. A minha família: Luiz Pedro Dario, Vera Lúcia Monteiro Dario e Diogo Monteiro Dario. Especialmente a minha mãe, Vera, que partiu em finais do ano passado, mas deixou tantos ensinamentos e boas sementes. Se hoje posso ler, escrever e pesquisar, é porque muito carinho e amor foi dedicado na minha formação. Essa tese é dedicada a ela. Ao meu orientador, Ronald Raminelli. Por mais de 10 anos de caminhada, que vem desde 2010, sempre com sua leitura atenta e críticas precisas. Agradeço sobretudo pela compreensão na reta final da escrita, onde precisei da sua atenção e esforço para que tudo fosse entregue dentro do prazo. Sua presença foi fundamental não só para o texto final, mas também para a minha formação como historiador. A Maria Aparecida Borrego, Antônio Jucá, Maria Fernanda Bicalho, José Carlos Vilardaga e Alberto Luiz Schneider, presentes nas minhas Bancas de Qualificação e Defesa. Suas sugestões abriram caminhos e clarearam os rumos da tese. E suas críticas foram decisivas para o amadurecimento da pesquisa e a construção final do texto. Sou muito grato pela leitura atenta e o auxílio prestado. A Maria Fernanda Bicalho, Marcelo Loureiro e Jacqueline Hermann, agradeço pelos cursos ministrados no PPGH-UFF e PPGHIS-UFRJ. As leituras e debates das quais participei em sala de aula foram centrais para o meu desenvolvimento como pesquisador e historiador. Foi um privilégio participar das discussões e aprender com opiniões distintas das minhas, sempre enriquecedoras. A todo corpo docente da História-UFF, instituição na qual aprendi tudo que sei hoje sobre a prática acadêmica de historiador. Sou um filho dessa casa, fato esse que enche o meu peito de orgulho. Agradeço por todas as oportunidades. Aos funcionários do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde sempre fui muito 7 bem atendido desde o Mestrado. A instituição foi um espaço produtivo para a leitura de obras antigas e fontes manuscritas. A Queren Hapuque Almeida e Paula Broda, que me auxiliaram com a pesquisa realizada em São Paulo. Sempre muito solícitas e prestativas na digitalização e fotocópia de obras e documentos. A Olívia Barros pela leitura atenta e correção ortográfica do texto. A Giovane Albino, pelas trocas intelectuais e auxílios mútuos ao longo da jornada de doutorado nessesúltimos 4 anos. A Raquel Cattini de Mello, pela companhia e força nos momentos derradeiros de escrita da tese. A Natália de Fátima Lacerda, pela presença, leitura e auxílio contínuo, desde tempos de mestrado. A Juliana Zeina Mansur, por todo suporte e carinho ao longo de todos os 4 anos de desenvolvimento da tese. A Diogo Serôa da Motta pela irmandade contínua e companhia em tempos de luto. Aos amigos: Rafael Soares Gonçalves, Arildo Júnior, David Levy, Wilson Paranhos, Cláudio Brandão, Giulia Luz e Michelle Paiva. 8 Sumário Lista de Tabelas e Figuras ................................................................................................. 9 Abreviações ...................................................................................................................... 10 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 11 Capítulo 1: O prenúncio de um século de ouro: o amanhecer do Setecentos paulista e o sonho minerador ............................................................................................................ 20 1.1 As oportunidades do Portugal restaurado .................................................... 25 1.2 Das minas dos Cataguases às minas de Cuiabá: o findar de um projeto e o (re)nascer de uma esperança ....................................................................................... 38 1.3 Considerações finais ................................................................................. 66 Capítulo 2: Uma cidade em conflito: a ascensão reinol e as transformações administrativas na São Paulo setecentista (1721-1748) ............................................................................ 69 2.1 Oportunidade e comércio: a intensa emigração dos filhos de Portugal para o Estado do Brasil no século XVIII ................................................................................ 74 2.2 São Paulo Setecentista: famílias tradicionais e ascensão reinol (1721-1747) ................. 85 2.3 O Governo de D. Luis Mascarenhas e a perda da autonomia da Capitania de São Paulo...................................................................................................104 2.4 Considerações finais ...................................................................................... 126 Capítulo 3: Autoafirmação local e a disputa pelas narrativas: Brasão de armas e justificação de nobreza na São Paulo setecentista (1748-1765) ......................................................... 129 3.1 Comerciantes reinóis e a São Paulo de meados do Setecentos: da teia mercantil à consolidação municipal (1748-1765) ........................................................... 134 3.2 Lugares de distinção das tradicionais famílias paulistas (1748-1765) .................... 147 3.3 Brasão de Armas e justificação de nobreza na São Paulo Setecentista .................. 172 3.4 Considerações finais ................................................................................ 189 Capítulo 4: “Socorrendo, Conquistando e Descobrindo”: a importância paulista para a formação da América portuguesa nas obras de Pedro Taques e Frei Gaspar de Madre de Deus... ........................................................................................................................... .192 4.1 A ascensão da História como instrumento do saber e da política ......................... 195 4.2 Paulistas vs Jesuítas no século XVIII: a contribuição de Charlevoix e a resposta paulista... ............................................................................................. 202 4.3 Genealogistas, mas também historiadores: Pedro Taques, Frei Gaspar e a crítica à história oficial da América portuguesa ......................................................... 224 4.4 Considerações finais...........................................................................243 CONCLUSÃO .............................................................................................. 246 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 256 9 Lista de Tabelas e Figuras Tabela I: Membros eleitos e de postos ocupados para juiz, vereador e procurador pelas principais famílias paulistas na Câmara Municipal (1721-1747) ............................................ 94 Tabela II: Progressão da eleição de membros da comunidade mercantil portuguesa para as funções de Juiz Ordinário, Vereador ou Procurador (1721-1747) ........................................... 99 Tabela III: Provedores da Santa Casa de Misericórdia (1748-1765).......................................141 Tabela IV: Cabedal de membros da elite paulista citados no censo de 1765...........................168 Tabela V: Cabedal de agentes mercantis consolidados nas principais instituições de poder da cidade e citados no censo de 1765............................................................................................170 Figura 1: Representação genealógica de Ignacio de Barros Rego...........................................151 Figura 2: Representação genealógica de José de Góes e Moraes (1676-1763).......................155 Figura 3: Representação genealógica de Francisco Pinto do Rego (1705-1775)....................158 Figura 4: Representação genealógica de Antonio Cunha de Abreu (?-1760) e João da Cunha Franco (1710-?)........................................................................................................................161 Figura 5: Representação genealógica de Bento de Toledo Piza (1720-1792) e Bernardo Guedes de Toledo ................................................................................................................................ 163 10 Abreviações ACMSP – Actas da Câmara Municipal de São Paulo RGCSP – Registro Geral da Câmara Municipal de São Paulo AHU – Arquivo Histórico Ultramarino Cx – Caixa D – Documento DI - Publicação Oficial de Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo BN – Biblioteca Nacional IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro RJ – Rio de Janeiro SP – São Paulo MT – Mato Grosso GO – Goiás 11 INTRODUÇÃO Em sua obra Paulística1, Paulo Prado reuniu em uma só edição alguns artigos que havia publicado no jornal "O Estado de São Paulo". Empresário e organizador da Semana de Arte Moderna em 1922, evento produzido em comemoração ao centenário da Independência do Brasil, o autor lançou o livro em 1925, ampliando o seu conteúdo em 1934. Seu enfoque era a história de São Paulo, desde os primeiros esforços de colonização e povoamento no século XVI até o ciclo do café no século XIX. Prado, que era envolvido com a produção cafeeira, tivera como mentor intelectual Capistrano de Abreu e viveu o ápice da produção historiográfica em torno dos bandeirantes paulistas. A própria São Paulo experimentara, assim como a elite cafeeira paulista, protagonismo econômico e político no período da República Velha (1889-1930), o que refletia, ao menos em parte, a construção dessa proeminência da figura do sertanista de São Paulo como um dos principais protagonistas da construção da nação brasileira2. A importância dos paulistas, nas palavras do próprio Capistrano de Abreu, vinha do seu protagonismo na conquista, expansão e consolidação de núcleos populacionais no interior da América portuguesa. Diferenciando os paulistas bandeirantes, que atacavam reduções indígenas e despovoavam o território – sendo nocivos para a formação do Brasil - dos paulistas conquistadores, o historiador cearense afirma que A attenção que não cabe aos bandeirantes reclamam-na de passagem os conquistadores, homens audazes, contratados pelos poderes publicos para pacificar certas regiões em que os naturaes apresentavam mais rija resistencia. Os conquistadores podiamcaptivar legalmente a indiada, recebiam vastas concessões territoriaes, iam autorizados a distribuir habitos e patentes aos companheiros mais 1 PRADO, Paulo. Paulística: história de São Paulo. Rio de Janeiro: Ariel, 1934. 2 Ilana Blaj realiza debate historiográfico sobre a produção historiográfica na São Paulo da primeira metade do século XX. A historiadora joga luz sobre a construção da imagem dos bandeirantes no período, associando a sua produção ao momento político vivido na primeira metade do Novecentos. Ver: BLAJ, Ilana. A trama das tensões: o processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo: Humanitas; FFLCH, USP; FAPESP, 2002, p. 39- 85. 12 esforçados. Estevão Ribeiro Bayão Parente, Mathias Cardoso, Domingos Jorge Velho e outros fixam este curioso typo; geralmente não tornavam á patria e deixaram signaes de sua passagem e herdeiros de seu sangue em Minas Geraes, na Bahia, em Alagôas e alhures3 Em expedições que ocorriam em nome da Coroa portuguesa, que incluíam a possibilidade legal de escravizar indígenas, os esforços desses sertanistas viabilizaram o povoamento de regiões remotas. Seu maior serviço, inclusive, teria sido ligar os rios Tietê e Paraíba do Sul ao rio São Francisco, fator considerado pelo autor essencial para a formação do que viria a ser o território brasileiro. O descobrimento do ouro, também protagonizado pelos homens de Piratininga, traria a força propulsora, no século XVIII, que atrairia súditos de todas as capitanias e do reino para o interior da América. Esse movimento sedimentaria as bases da conformação geográfica brasileira futura. Capistrano de Abreu, que era cearense e não teve trajetória ligada ao IHGB paulista4 e produção historiográfica comprometida com a exaltação do bandeirantismo5, fez parte de historiadores da primeira metade do século XX que, mesmo reconhecendo o lado nocivo de entradas militares paulistas no período colonial, exaltavam o fator determinante das ações dos paulistas de outrora para a construção do Brasil. Logo, suas ações, cultura e modo de vida deveriam 3 ABREU, J. Capistrano de. Caminhos antigos e povoamento do Brasil. 1ª ed. Edição da Sociedade Capistrano de Abreu, Livraria Briguiet, 1930, p. 63-64. 4 Lilia Moritz Schwarcz analisa o IHGB de São Paulo, fundado em 1894, que tinha como lema: " a História de São Paulo é a História do Brasil". A instituição possuía o objetivo consciente e deliberado de enfatizar a especificidade paulista como fator decisivo para a construção da nação brasileira. ver: SCHWARCS, Lilia Mortiz. O espetáculo das raças. Cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930). São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 127. 5 Autores como Affonso Taunay, Basílio de Magalhães, e Alfredo Ellis Júnior foram expoentes, nas primeiras décadas do século XX, de obras que exaltavam as ações e o passado paulista. Taunay teve excepcional fôlego arquivístico, reconstruindo a história das bandeiras paulistas a partir de esforço para compilar toda documentação existente sobre o tema. Magalhães, que também dividia, como Capistrano de Abreu, a expansão territorial brasileira em ciclos de Entradas (expedições oficiais) e Bandeiras (expedições espontâneas), via ambas como positivas. E colocava os paulistas como responsáveis por quase todo o ciclo das bandeiras, que auxiliaram na expansão territorial da América portuguesa para além do Tratado de Tordesilhas. O protagonismo paulista se devia às condições específicas onde a vila se desenvolveu, marcadas por singularidades mesológicas, étnicas e sociais. Se habituando à vida nas matas e a convivência com índios, teria surgido raça melhor aclimatada ao clima e solo brasileiro. Ellis Júnior, em obra clássica, enfatiza ainda mais a singularidade paulista, apresentando os mamelucos de São Paulo como raça biologicamente distinta da que se criou no litoral brasileiro. O cruzamento entre os portugueses e os indígenas do planalto, duas raças com alto grau de pureza, teria gerado novo grupo, responsável por grandes feitos e realizações na América portuguesa. Ver: TAUNAY, Affonso de E. História geral das bandeiras paulistas. São Paulo: Museu Paulistas, 1948. 12v; MAGALHÃES, Basílio de. Expansão geográfica do Brasil colonial. 4ª Ed. São Paulo: Ed. Nacional. INL, 1978, p. 56 e ELLIS JUNIOR, Alfredo. Os primeiros troncos paulistas. 2. ed. São Paulo, Ed. Nacional: Brasília, INL, 1976, p. 49. 13 ser estudadas como forma de entender não apenas São Paulo, mas também como parte da formação da própria nação brasileira. Retornando a Paulo Prado, sua obra, que teve ampla repercussão no período, representou esforço para sintetizar o passado paulista, seu fluxo evolutivo ao longo dos séculos e trazer inteligibilidade sobre episódios emblemáticos da sua história. Para isso, Prado apresenta um gráfico com uma linha que ascende e descende, pontuando o que seriam os momentos históricos vividos na Piratininga colonial. Foram nomeados 4 momentos, em ordem cronológica: ascensão, clímax, decadência e regeneração. A curva ascensional representa a consolidação do núcleo municipal, na segunda metade do século XVI, envolvendo a expansão colonizadora e a descoberta das minas durante o século XVII, onde haveria o clímax. Quando a ambição dos escavadores de ouro entra em ação em inícios do século XVIII, substituindo o ânimo guerreiro dos sertanistas, a linha começa a descender, alcançando a “degradação política, moral e physica dos tempos dos governadores capitães-generaes, em que na miséria extrema da província morria vergonhosamente a gloria do Paulista antigo”6. O Setecentos seria, então um século de degeneração social e decadência para os habitantes de São Paulo colonial. Esse movimento seria recuperado somente no século seguinte, novamente em linha ascendente, quando no Oitocentos se viu o renascer econômico com o ciclo do café que trouxe pujança e riqueza para cidade paulista, o que possibilitou a ela alcançar a centralidade política e econômica de inícios do século XX. Nossa pesquisa não se deterá no século XVII – o momento de “clímax” do passado paulista. Mas no século XVIII, seu momento de “degeneração”. A visão de um esvaziamento demográfico, que trouxe isolamento geográfico e decadência comercial para a São Paulo do século XVIII foi concepção defendida por outros importantes autores da primeira metade do Novecentos7. Essa visão, no entanto, passou a ser contestada a partir de finais da década de 19408. Ponto importante 6 PRADO, Paulo. Paulística. op. cit. p. XXV. 7 Caio Prado Jr. É um dos que defendeu a visão de uma São Paulo esvaziada demograficamente devido ao ciclo minerador. PRADO JR, Caio. “O fator geográfico na formação e no desenvolvimento da cidade de São Paulo”. In: PRADO JR, Caio. Evolução Política do Brasil e outros estudos. 3ªed. São Paulo, Brasiliense, 1975, pp. 104-106. 8 Sérgio Buarque de Holanda foi um dos primeiros a defender o século XVIII não como um período de decadência e miséria, mas um momento de transição. Onde o espírito de aventura dos sertanistas do século XVII ia se moldando a 14 de inflexão dessa visão tradicional se deu na obra de Alfredo Ellis Júnior e Myriam Ellis9, onde se enfatizou que essa queda demográfica, defendida em teses anteriores, não foi tão intensa, pois muitos paulistas voltaram à cidade depois da Guerra dos Emboabas. Os autores defenderam também a ideia de que a capitania, inclusive a sua capital, passou a investir na agricultura e na pecuária, se transformando em espécie de “retaguarda econômica” das Minas Gerais10. Fora isso, contingente considerável de portugueses acabaram por se mudar para São Paulo ainda na primeira metade do século XVIII. O aumento do número de agentes comerciais enrizados em Piratininga trouxe a possibilidade para que produtos advindos de trocas transatlânticas fossem transportados para a capitania através desse intermediário.Esse novo olhar abria as portas para retirar a São Paulo do século XVIII do estigma do abandono e pobreza, direcionando a visão historiográfica para uma municipalidade que foi se transformando, após a descoberta do ouro nas Minas Gerais, Cuiabá e Goiás, em território de produção para o abastecimento de mercado interno e zona de intenso trânsito comercial. Reforçava essa visão a tese de livre-docência de Maira Luiza Marcílio, defendida em 1974, que apresentou crescimento progressivo e ininterrupto da população na capitania e cidade de São Paulo desde finais do século XVII11. A intensificação da atividade comercial no planalto, ao longo do Setecentos, foi objeto de estudo de duas importantes obras na década de 1970. A percepção dessa mercantilização da cidade como sendo produto da chegada e atuação de mercadores portugueses que se enraizaram na São Paulo setecentista se apresentou nas obras de Elizabeth Kusnesof12 e Katia Abud13. Kunesof foi autora que percebeu os comerciantes lusos que migraram para o planalto como os principais uma ação de maior disciplina na produção agrícola e na atividade comercial. HOLANDA, Sergio Buarque. “Índios e Mamelucos na Expansão Paulista”. Anais do Museu Paulista, Separata do Volume XIII, 1949, p. 289. 9 ELLIS JR., Alfredo; ELLIS, Myriam. A economia paulista no século XVIII. São Paulo: Boletim da Civilização Brasileira, n. 11, 1950. 10 Alfredo Ellis Júnior e Myriam Ellis apresentam São Paulo como protagonista de dois ciclos para o abastecimento das minas: do muar e do açúcar. Ver: Id. Ibidem. p. 81-110 11 MARCÍLIO, Maria Luiza. Crescimento demográfico e evolução agrária paulista - 1700-1860. São Paulo: Hucitec/Edusp, 2000. p. 71. 12 KUSNESOF, Elizabeth Anne. Household economy and urban development: São Paulo: 1765 to 1836. Berkeley, University of California, 1976. 13 ABUD, Kátia. Autoridade e riqueza. Contribuição para o estudo da sociedade paulistana na segunda metade do século XVIII. São Paulo: FFLCH-USP, 1978 (dissertação de mestrado), 15 beneficiados do aumento no comércio que passava pela região ao longo do século XVIII. Para a autora, a estratégia desses principais agentes mercantis foi direcionar as fortunas originárias do comércio em lavouras canavieiras, na segunda metade do século. Abud, analisando os padrões de comportamentos desses portugueses, que atuavam em forma de clãs familiares na ascensão e domínio de cargos de poder na cidade, vê nessa estratégia de junção do comércio com a grande lavoura a principal responsável pela consolidação desses reinóis como grupo dominante da São Paulo setecentista. Entre 1760 e 1803, a proporção de comerciantes (ofício dominado por reinóis) ocupando cargos da câmara municipal paulista chegava a 60%14. Sobre a identidade desses homens de negócio portugueses - suas estratégias e círculos familiares - a tese de Maria Aparecida Borrego, defendida em 2008 e publicada em 2010, trouxe vasta e elucidadora pesquisa. Borrego analisou um grupo de 100 agentes mercantis que atuaram em São Paulo entre 1711 e 1765. Destes, 76 advinham de Portugal, sendo 55 da região do Minho. Apenas 7 tinham nascido na América lusa, sendo 5 deles paulistas.15 A historiadora constitui nomenclatura para todos os tipos de trocas e empresas comerciais onde esses homens estavam envolvidos, suas estratégias para se inserir nos principais órgãos de poder locais (Câmara, Santa Casa de Misericórdia, Juiz de Órfãos e Ordenanças), além do sucesso de alguns dos seus membros no pedido de mercês (7 familiares do Santo Ofício e 6 cavaleiros da Ordem de Cristo, todos reinóis). Além disso, Borrego relata os padrões de comportamento desses comerciantes portugueses. Se preferiram se aliar por casamento com as principais famílias da terra em inícios do século XVIII, a partir da década de 1730 em geral eles optaram por mudar de estratégia. O mercado matrimonial para eles se tornou cada vez mais fechado, privilegiando a endogamia dentro do grupo mercantil16. No que toca a perspectiva das famílias tradicionais de São Paulo no século XVIII, a obra 14 KUSNESOF, Elizabeth Anne. "A família na sociedade brasileira: parentesco, clientelismo e estrutura social (São Paulo: 1700-1980)". Revista Brasileira de História. São Paulo: v. 09, n. 17, set. 88/fev. 89, p. 47. Katia Abud confirma os dados, em pesquisa de recorte temporal similar. Ver: ABUD, Kátia. Op. Cit. p. 92. 15 BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. A teia Mercantil: Negócios e poderes em São Paulo colonial (1711- 1765). São Paulo: Alameda, 2010, p. 36. 16 Id. Ibidem. p. 179. 16 de Ilana Blaj, em tese defendida em 1995 e publicada em 200217, foi importante contribuição. A autora demonstrava que a força dessa mercantilização paulista já advinha de finais do século XVII, antes do descobrimento das minas. A relevância das lavouras paulista para o abastecimento do Rio de Janeiro e da região sul da América lusa é apontada como realidade socioeconômica desde a década de 1680. A mineração, com isso, não seria o elemento de gênese da mercantilização em São Paulo. O papel das minas foi, na realidade, de intensificação e dinamização dessa produção e comércio já existentes. As principais famílias de proprietários paulistas – Pires, Bueno, Camargo e Taques – foram as que mais se beneficiaram desse processo, estando em lugar privilegiado de riqueza e prestígio social em São Paulo na época da separação da Capitania de São Paulo das Minas Gerais, em 1720. O ponto de chegada da obra de Ilana Blaj é o ponto de partida da nossa pesquisa e tese. Como as pesquisas mais recentes tem evidenciado o fortalecimento de grupos paulistas desde finais do século XVII e o enriquecimento e penetração dos agentes mercantis portugueses nas principais instituições de poder da municipalidade ao longo do século XVIII, um dos nossos objetivos é jogar luz sobre a relação entre esses dois grupos. Sobretudo os tensionamentos já relatados pela historiografia, como da eleição de 1737 para a Câmara Municipal, onde a indisposição entre as partes nos possibilita ver melhor as oposições que se construíam e se enrijeciam no seio da sociedade paulista. A presença de um Governador habitando a cidade, a partir de 1721 com Rodrigo César de Menezes, é também enfrentada pela nossa pesquisa, no que ela representava para os grupos locais e o papel de interlocução que o cargo possuía das elites locais junto da Coroa portuguesa. E, por fim, trazemos o tema das trajetórias de Pedro Taques de Almeida Paes Leme e Frei Gaspar de Madre de Deus. E até como suas pesquisas históricas e a escrita de suas obras eram reflexo do tensionamento entre paulistas e mercadores reinóis na São Paulo setecentista, mas também de debates intelectuais maiores, envolvendo autores de fora do planalto. 17 BLAJ, Ilana. A trama das tensões: o processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo: Humanitas; FFLCH, USP; FAPESP, 2002 17 No primeiro capítulo da tese apresentaremos um debate historiográfico sobre os principais estudos da São Paulo colonial do século XVII, para entender como se deu a entrada do século XVIII na municipalidade. O enfoque principal, a partir de então, é entender a frustração da perda do monopólio das minas, após a Guerra dos Emboabas, e como a Coroa realiza esforço para manter os paulistas na sua órbita de influência, para que continuassem a realizar expedições visando novos descobrimentos. Com as descobertas de Cuiabá (1718), há a repartição da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro – que a partir de 1720 passa a se chamar Capitania Real de São Paulo - e a vinda de um Governador que passa a morar na cidade: Rodrigo César de Menezes. Passaremos então a analisar a chegada do Governador e as principais diretrizes régias que ele segue na sua atuação junto da elite local paulista até o descobrimento das minas de Goiás em 1725. A documentação analisada para a realização docapítulo foram as atas e registro geral da Câmara Municipal de São Paulo e os Documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo, de onde retiramos as cartas escritas e recebidas por César de Menezes no Governo de São Paulo. No segundo capítulo da tese analisaremos a chegada desses portugueses na cidade de São Paulo, de onde eles vinham e a conjuntura socioeconômica do local de onde eles partiam. O intuito inicial é o de mapear as motivações que conduziam as suas ações na cidade de São Paulo. Em seguida, apresentaremos a composição da Câmara Municipal, Santa Casa de Misericórdia e Ordenanças da cidade entre 1721 e 1747, analisando as principais famílias que compunham seus quadros. O intuito é apresentar o cenário do conflito na eleição do ano de 1737 na Câmara, que opôs paulistas e comerciantes portugueses e entender o que estava por trás do tensionamento. Em seguida analisaremos a chegada do Governador D. Luis Mascarenhas na cidade, a sombra que o governo de Gomes Freire de Andrada lançava sobre a política de fronteira de Mascarenhas e a sua participação em novo conflito eleitoral do Senado paulista no ano de 1747. A atuação do Governador paulista e a perda da autonomia da capitania de São Paulo, em 1748, foram decisivas para o enfraquecimento do controle das famílias tradicionais de São Paulo na Câmara e o principal objetivo do capítulo é analisar essa conjuntura histórica específica e o que levou a ela. Neste 18 capítulo as principais fontes analisadas são das atas e registros gerais da Câmara Municipal de São Paulo, documentos contidos no Arquivo Histórico Ultramarino, via Projeto Resgate, e documentação escrita e recebida pelos Governador contida nos Documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo. No terceiro capítulo iremos descrever, da parte reinol e das linhagens paulistas, os principais membros e famílias que participaram do cenário social e de poder em São Paulo entre 1748 e 1765. Realizamos esforço para mapear os súditos que mais estiveram presentes nas instituições de poder local, assim como de reconstruir, sobretudo no caso das famílias antigas de São Paulo, suas ligações familiares mais próximas. O enfoque principal do capítulo é o registro de mercês, brasões de armas e justificações de nobreza e limpeza de sangue por parte dos mercadores reinóis na Câmara Municipal a partir de 1751. Assim como da reação dos membros das famílias mais antigas de São Paulo, através principalmente do esforço de Pedro Taques de Almeida, que foi a Lisboa em 1755 e fez vasta pesquisa documental sobre as mercês e os títulos antigos passados sobre os antepassados paulistas. Nos utilizaremos das reconstruções dos grupos paulistas e reinóis, na primeira parte do capítulo, para entender melhor quem eram e o lugar social dos membros que tomaram a frente nessas estratégias de registro de mercês na Câmara Municipal. Para isso nos utilizamos da documentação contida nas atas e registro gerais da Câmara Munipal de São Paulo, nos documentos contidos no Arquivo Histórico Ultramarino, via Projeto Resgate, e nos brasões de armas registrados por Visconde de Sanche de Baena em sua obra Archivo heráldico-genealógico18. No quarto e último capítulo, analisaremos algumas das obras de Pedro Taques de Almeida Paes Leme e Frei Gaspar de Madre de Deus. O objetivo do capítulo é demonstrar o quanto a disciplina da História, ao longo do século XVIII, se fortaleceu como instrumento político. E de como a ascensão da prática da erudição, que valorizava o uso documental como elemento de validação do discurso histórico, e das Academias impactaram a vida letrada em Portugal e na América Portuguesa. A ida de Pedro Taques à Lisboa, em 1755, possibilitou a ele conviver com 18 BAENA, Visconde de Sanches de. Archivo heráldico-genealógico. Lisboa: Typographia Universal, 1872. 19 membros da Academia Real de História Portuguesa e aprender sobre a importância da história para a vida social e política do reino. Quando volta a São Paulo, em 1757, parte do seu propósito não é apenas fazer frente aos mercadores reinóis que buscam autoafirmação e domínio social através do registro de mercês na Câmara. Mas também construir um discurso histórico, fundamentado em documentação encontrada em arquivos na capitania e em Portugal, para combater a lenda negra paulista e para defender o papel das expedições militares dos sertanistas de São Paulo para a conquista e construção da América portuguesa. Ação essa construída junto a Frei Gaspar de Madre de Deus. Nesse capítulo, utilizaremos como fonte as obras História del Paraguay, do jesuíta francês Pedro Charlevoix, História da América Portuguesa, de Sebastião de Rocha Pitta, Memorias para a historia da capitania de São Vicente, hoje chamada de São Paulo e Noticias dos anos em que se descobrio o Brazil, de Frei Gaspar de Madre de Deus e Informação sobre as minas de S. Paulo e Noticia histórica da expulsão dos Jesuitas do Collegio de São Paulo de Pedro Taques de Almeida. 20 Capítulo 1: O prenúncio de um século de ouro: o amanhecer do Setecentos paulista e o sonho minerador Ao tomar posse como primeiro governador da recém-formada Capitania Real de São Paulo, em 6 de setembro de 1721, Rodrigo César de Menezes19 abraçou não somente a oportunidade de uma promissora carreira administrativa no ultramar português20, como também a responsabilidade de garantir os interesses da Coroa lusa no interior do Estado do Brasil. A separação da capitania de São Paulo da capitania de Minas Gerais, em 2 de dezembro de 1720 após a Revolta de Felipe dos Santos21, apresentou uma conjunção interessante para D. João V. Com os descobrimentos de ouro, em meados de 171822, nos sertões da América portuguesa, era necessário que algum esforço fosse realizado para fazer valer os interesses da Fazenda Real em regiões tão distantes geograficamente do seu controle – e parte considerável da incumbência delegada a Rodrigo César de Menezes passava por essa questão23. A conquista e a consolidação da soberania24 portuguesa no seu ultramar davam-se, em 19 Sobre a trajetória de Rodrigo César de Menezes no governo da Capitania de São Paulo, ver: SOUZA, Laura de Mello e. “Morrer em colônias: Rodrigo César de Menezes, entre o mar e o sertão”. In: O sol e a sombra: política e administração na América portuguesa do século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 284-326. 20 Mafalda Soares da Cunha, estudando a atuação de governadores no ultramar português, apresenta a hierarquização dos espaços no interior do império. Cargos como o de Governador, devido a sua importância para a Coroa, conferiam “enobrecimento” para os indivíduos que os ocupassem. Algumas localidades desses governos, pela sua relevância política, eram mais cobiçadas pelos postulantes que outras. Depois de governar São Paulo, Rodrigo César de Menezes serviu como Governador de Angola. Ver: CUNHA, Mafalda Soares da. “Governo e governantes do império português no Atlântico (século XVII)” In: BICALHO, Maria Fernanda e FERLINI, Vera Lúcia Amaral (orgs.) Modos de governar: ideias e práticas políticas no império português – séculos XVI-XIX. São Paulo: Alameda, 2005. 21 Sobre o governo de Dom Pedro de Almeida, o Conde de Assumar, e o levante de Vila Rica em 1720, ver: SOUZA, Laura de Mello e. “Teoria e prática do governo colonial: Dom Pedro de Almeida, conde de Assumar”. In: O sol e a sombra, op. cit., p. 185-252 e CAMPOS, Maria Verônica. “'Cavando a vinha...'. In: CAMPOS, Maria Verônica. Governo de mineiros: “de como meter as minas em uma moenda e beber-lhe o caldo dourado” 1693 a 1737. Tese de doutorado. São Paulo: USP, 2002, p. 168-259. 22 Em meados de 1718, Pascoal Moreira Cabral encontrou sinais de ouro no rio Caxipó, afluente do rio Cuiabá. Fundar-se-ia ali, posteriormente, a Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá. 23 A respeito de sua atuação como representante dos interessesrégios na região, ver: FERNANDES, Luis Henrique Menezes. Minas do Cuiabá, ilha dos sertões: considerações sobre o papel da metrópole na expansão dos domínios portugueses na América (1721-1728). Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências e Letras de Assis: Universidade Estadual Paulista, 2010. 24 Luisa Pereira, ao pensar o conceito de soberania para o antigo regime português, afirma que tal concepção bebia em uma tradição oriunda da idade média. Desde a Reconquista, construiu-se a ideia de que o poder dos soberanos e a sujeição dos vassalos advinha da prática da guerra justa. Ou seja, aquela era uma monarquia em expansão que precisava o tempo todo afirmar o seu poder através da guerra e da conquista militar, estimulando e remunerando os súditos que realizavam essa empresa. Ver: PEREIRA, Luisa Rauter. O conceito de soberania: dilemas e conflitos na construção e crise do Estado Imperial Brasileiro. INTELLÈCTUS (UERJ. ONLINE), v. 2, a. 9, 2010. p. 2-3. 21 grande medida, por meio das engrenagens da economia da mercê25. Remunerações régias em forma de ofícios civis e militares, sesmarias, patentes militares e títulos honoríficos, as mercês eram instrumentalizadas – tanto pela monarquia como por seus súditos – como forma de garantir seus interesses26. Desejosos de prestígio e ascensão social, os vassalos luso-brasileiros frequentemente recorriam aos serviços militares como forma de obtê-las, assim como a Coroa constantemente estimulava seus súditos a servir e assegurar os seus interesses, prometendo mercês como forma de remunerar seus serviços27. O caso de Rodrigo César de Menezes e das minas recém-descobertas em Cuiabá não era diferente. Poucos dias após assumir a função de governador, em 12 de setembro de 1721, César de Menezes enviou uma carta ao Conselho Ultramarino e a D. João V. Nela exaltava os descobrimentos realizados pelos paulistas, enfatizando que seria de “grande utilidade à Real Fazenda de Vossa Majestade, lhes deve conceder algumas mercês, principalmente do hábito de Cristo”28. Sobre a existência de criminosos e pessoas condenadas entre os descobridores, sugeria que a estratégia mais eficaz seria adotar a misericórdia a esses sertanistas de São Paulo. Portanto, a melhor solução seria “perdoar-lhes, em nome de Vossa Majestade, fazendo eles serviços com que mereçam semelhante graça”29. Em maio de 1722 o governador escreveu a alguns paulistas já estabelecidos na região, estimulando-os a servir. 25 Para o caso português, em obra clássica, Fernanda Olival apresenta a cultura política de prestação de serviços militares, e de remuneração régia por esses serviços, que estruturava a sociedade lusitana do período moderno. Ver: OLIVAL, Fernanda. As ordens militares e o Estado Moderno: honra, mercê e venalidade em Portugal (1641-1789). Lisboa: Estar, 2001. 26 Na governabilidade do seu império ultramarino, através da distribuição de mercês e privilégios pelos serviços prestados, a coroa remunerava os esforços de seus súditos. Essas remunerações reforçavam, ao mesmo tempo, os laços de sujeição e o sentimento de pertença a monarquia. Ver: FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima S.; BICALHO, Maria Fernanda. “Uma leitura do Brasil colonial: bases da materialidade e da governabilidade no Império”. Penélope. Revista de História e Ciências Sociais, n° 23, 2000, p. 75-79. 27 Ronald Raminelli afirma que, entre os séculos XVI e XVII, um dos mais constantes serviços prestados à Coroa portuguesa no seu ultramar eram as atividades militares, fosse na realização da conquista ou na consolidação da soberania portuguesa em regiões fronteiriças. Thiago Krause analisa, de forma pormenorizada, os serviços militares prestados – e remunerados – pelos súditos luso-brasileiros nas guerras da Restauração Pernambucana. Ver: RAMINELLI, R. J. Viagens Ultramarinas: monarcas, vassalos e governo a distância. 1. ed. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2008 e KRAUSE, Thiago. Em busca da honra: a remuneração dos serviços da guerra holandesa e os hábitos das Ordens Militares (Bahia e Pernambuco, 1641-1683). Dissertação de Mestrado. Niterói: Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, 2010. 28 “Sobre o descobrimento das novas minas de ouro em Cuiabá”. In: Arquivo do Estado de São Paulo. Publicação oficial de documentos interessantes para a História e costumes de São Paulo. v. XX. São Paulo: Typographia Aurora, 1896, v. XXXII, p. 12. 29 Id., ibid. 22 Enfatizava que o Rei “não deixará de premiar a Vossas Mercês, e eu concorrerei com tudo quanto puder, como o tempo lhe mostrará”30. Contudo, não apenas em alianças e cooperações se pautou a relação do governador com os sertanistas que se estabeleceram em Cuiabá. O caso dos irmãos João Leme e Lourenço Leme foi, nesse sentido, emblemático. Herdeiros de tradicional família paulista, os irmãos Leme possuíam densas relações de parentesco dentro da capitania de São Vicente31. Isso lhes possibilitava contar com um considerável contingente de escravos e agregados, o que os transformou em uma força política dentro da região dos descobrimentos32. A natural instabilidade do recém-fundado núcleo de povoamento minerador lhes possibilitou constantes interferências dentro do equilíbrio político de Cuiabá, de modo a garantir seus interesses nas nomeações para cargos e ofícios locais. Fora isso, há relatos sobre o constante envolvimento dos irmãos Leme em crimes dentro da região – com diversas acusações de violências e assassinatos33 –, sendo que grande parte dessas denúncias chegou até Rodrigo César de Menezes. Recém-chegado no governo da Capitania, o Governador estabeleceu tentativas para contar com a colaboração dos irmãos. Após um primeiro convite, rejeitado em 31 de maio de 1722, César de Menezes, em janeiro de 1723 – aproveitando visita de Lourenço e João a São Paulo para comprar mantimentos e escravos – escreveu aos irmãos convidando-os para irem à sede do governo34. Garantiu-lhes passagem segura até o seu encontro, com a liberdade de ir e vir portando 30 “Cópia de uma carta que se escreveu para as minas de Cuiabá a Lourenço Leme, Fernando Dias Falcão, João Antunes Maciel, Pascoal Moreira Cabral e Antônio Pires”. Publicação oficial de documentos interessantes[...] op. cit., v. XX, p. 33. 31 Um dos mais notórios bandeirantes do século XVII foi Fernão Dias Paes Leme, o “descobridor das esmeraldas”. Sobre a empresa realizada por Paes Leme junto ao Governo-Geral na década de 1670, que marcou a primeira grande cooperação entre sertanistas de São Paulo e oficiais régios em função dos descobrimentos de ouro e metais preciosos, ver: ANDRADE, Francisco Eduardo de. A invenção das Minas Gerais: empresas, descobrimentos e entrada nos sertões do ouro da América portuguesa. Belo Horizonte: Autêntica Editora/Editora PUC Minas, 2008. 32 João Fragoso apresenta como, dentro dos próprios serviços militares prestados à Coroa, os súditos mobilizavam não apenas familiares e aliados. Escravos, de origem indígena e africana, eram convocados e tinham um papel decisivo dentro dos combates. Esse contingente que as famílias conseguiam reunir em torno de si representava, dentro de contendas locais, não apenas força militar, como também influência política. Para mais detalhes, ver: FRAGOSO, J. L. R. “A nobreza vive em bandos: a economia política das melhores famílias da terra do Rio de Janeiro, século XVII”. Tempo. Revista do Departamento de História da UFF, Niterói, v. 8, n. 15, 2003, p. 11-35. 33 Laura de Mello e Souza traça brevemente um perfil desses sertanistas que atuavam dentro das regiões de fronteira da América lusa, citando o caso dos irmãos Leme. Ver: SOUZA, Laura de Mello e. O sol e a sombra. p. 292-297. 34 Washington Luís transcreveu as cartas. Ver: LUÍS, Washington. Capitania de São Paulo – governo de Rodrigo César de Menezes. São Paulo: Typ. Casa Garraux, 1918, p. 70-72. 23armas, o que foi aceito. Após o encontro, em reunião realizada junto aos oficiais da câmara de São Paulo e ao Ouvidor-Geral da Capitania, em 7 de maio de 1723, Lourenço Leme foi nomeado para o cargo de Provedor dos quintos régios, enquanto a João Leme foi concedida a patente de Sargento-mor das Minas. Os irmãos, contudo, rejeitaram a oferta. Justificavam sua negativa argumentando que o cargo de Sargento-mor das Minas era incompatível com a qualidade de João, visto que ele já havia ocupado cargo superior nas Minas Gerais. César de Menezes, recebendo a notícia, optou então por tornar João Leme Mestre de Campo Regente das Minas de Cuiabá em junho de 172335, cedendo à pressão dos sertanistas. O Governador, entretanto, mudou sua postura perante ambos ainda no ano de 1723. Instrumentalizando os recursos administrativos que o cargo lhe disponibilizava, decidiu retaliar os sertanistas que resistiam a cooperar com seu governo. Além disso, vindo da região de Cuiabá, Antônio Fernandes Abreu chegou em São Paulo trazendo acusações contra Lourenço e João. Abreu responsabilizava os irmãos pelo assassinato de seu pai, além de relatar diversas violências e desmandos cometidos por eles. Abriu-se um processo, conduzido por Cesar de Menezes e pelo ouvidor-geral Manoel de Mello Godinho Manso, o qual decretou a prisão imediata de ambos. Para realizar a diligência de capturá-los em Itu, foram convocados 35 homens da guarnição da fortaleza de Santos, além de soldados das ordenanças de Sorocaba, Santana da Parnaíba e Itu. A ordem de ataque foi dada por César de Menezes em 15 de setembro de 1723, sob a justificativa de “se evitarem as mortes, roubos e insolencias, que têm causado nas novas minas de Cuyabá”36. Todos os súditos da capitania foram convidados a cooperar na diligência, prometendo-se liberdade aos escravos ou criminosos que o capturassem, vivos ou mortos, assim como recompensa de 400$000 aos homens livres que o realizassem. Todos os esforços concentrados na perseguição produziram rápidos e eficientes resultados, com Lourenço Leme sendo morto em uma perseguição e João Leme preso e levado para ser julgado – e enforcado – em Salvador. Tudo isso antes mesmo do fim 35 As cartas enviadas pelos irmãos Leme negando a oferta de Rodrigo César de Menezes foram transcritas integralmente por Washington Luís. Ver: LUÍS, Washington, op. cit., p. 73-78. 36 O bando foi transcrito integralmente por Washington Luís. Ver: id. ibid., p. 88-90. 24 do ano de 172337. Episódio considerado emblemático pela historiografia bandeirante da primeira metade do século XX, a morte dos irmãos Leme representou, para muitos, o fim de uma era. O crepúsculo de um movimento que, no século XVII, acabaria por conquistar o que viria a ser parte considerável do território brasileiro dos séculos XIX e XX. Os bandeirantes paulistas, mais do que valorosos conquistadores, eram também um grupo dotado de cultura e identidade particular, forjadas dentro do isolamento geográfico do sertão americano. Profundamente autônomos na sua forma de gerir suas questões internas no que tocava a assuntos políticos, militares, da justiça e de administração comunitária, encontrariam no governo de Rodrigo Cesar de Menezes um obstáculo novo, que não conseguiriam ultrapassar. A autogestão das famílias tradicionais do planalto seria confrontada e inviabilizada ao longo de todo o século XVIII38. A máquina administrativa portuguesa far-se-ia sentir em São Paulo como nunca, mudando completamente a realidade sociopolítica da região. Chegava a hora da submissão bandeirante à Coroa lusa39. Ao longo deste primeiro capítulo lançaremos novas luzes sobre o que representou a chegada do governador Rodrigo César de Menezes para o governo da capitania. Após a segunda metade do século XVII, quando diversos serviços militares foram prestados pelos paulistas à Coroa lusa, a descoberta das Minas Gerais significou um marco não apenas para os interesses régios no interior do Estado do Brasil, mas também um momento de expectativa por parte dos súditos de São Paulo de terem seus esforços devidamente reconhecidos pelo rei. Logo após os primeiros anos de ocupação, no entanto, a Guerra dos Emboabas representou frustração e ruptura para as ambições dos homens do planalto. Veremos, entretanto, que a monarquia portuguesa continuou a se movimentar para garantir que os serviços daqueles vassalos continuassem a ser 37 Washington Luís relata o episódio e o destino dos irmãos Leme. Ver: id. ibid., p. 90-93. 38 Paulo Prado escreveu um capítulo específico sobre essa conjuntura. Ver: PRADO, Paulo. “Decadência”. In: PRADO, Paulo. Paulística: história de São Paulo. Rio de Janeiro: Ariel, 1934, p. 133-162. 39 Segundo a historiadora Laura de Mello e Souza, a repulsa a esse governador em particular se devia “ao fato de ter estabelecido o aparelho do Estado, pondo fim ao período de liberdade e autonomia dos habitantes de São Paulo. [...] Por cálculo, esse governador sufocou a altivez da alma sertanista e extirpou-lhe o espírito aventuroso, fazendo com que os antigos bandeirantes ficassem de rastros, ‘trêmulos e acobardados’, nas salas do Palácio”. Ver: SOUZA, Laura de Mello e. O sol e a sombra, op. cit., p. 293-294. 25 prestados, para que novas minas fossem descobertas e para que esperanças de remuneração continuassem neles vivas. A chegada de César de Menezes e a separação da Capitania de São Paulo das Minas Gerais representou, por essa óptica, não apenas esforço para domar a independência e a insubmissão paulista, como também um ato – como outros ao longo da década de 1710 – de incentivo para que os paulistas continuassem servindo e mantendo a expetativa quanto a tão almejada remuneração futura. 1.1 As oportunidades do Portugal restaurado A São Paulo do século XVII é recheada de histórias que misturam ficção e realidade. Episódios como a tentativa de “aclamação” de Amador Bueno, para tentar torná-lo uma espécie de “rei” paulista, entre o final de 1640 e o início 1641 é uma delas40. Apesar de não ter chegado a ocorrer, a aclamação chama a atenção para os seguintes tópicos: altivez de parte dos súditos de São Paulo; revelações sobre a vila, sobretudo sobre o comportamento atípico dos paulistas; e, em última instância, indicações de como funcionava a insubmissão dos súditos de São Paulo perante interesses que iam de encontro com os seus. E, se muito foi dito sobre fama dos bandeirantes paulistas por sua bravura e independência, – desbravando matas, submetendo grupos indígenas, descobrindo as minas e expandindo as fronteiras do Império português41 – pesquisas mais recentes têm apontado outras reflexões. Cada vez mais joga-se luz sobre a dinâmica do poder na monarquia lusa da época moderna e sobre o ethos nobiliárquico reproduzido pelos principais da terra que dominavam a vida sociopolítica das vilas e das cidades da América lusa. Esse processo indica os 40 O historiador Rodrigo Bentes Monteiro, dialogando com Luiz Felipe de Alencastro, consegue contextualizar esse ato de insubordinação paulista à rebeldia política que já existia na vila de São Paulo de Piratininga. Para ele, o caso da “aclamação” de Amador Bueno não representa algo que diz respeito à “mitologia bandeirante”, mas sim à cultura política e à realidade socioeconômica da localidade. Ver: MONTEIRO, Rodrigo Bentes. O rei no espelho: a monarquia portuguesa e a colonização da América, 1640-1720. São Paulo: Hucitec/FAPESP, 2002. p. 33-72 e ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 367-368. 41 A vastíssima historiografia apresenta e exalta as ações e os feitos dos bandeirantes paulistas. Três desses clássicos podem ser encontrados em: TAUNAY, Affonso de E. História geral das bandeiras paulistas. São Paulo: Museu Paulistas, 1948. 12v.; CORTESÃO, Jaime. Introdução à história das bandeiras. Lisboa:Horizonte, 1975. 2v; e, ELLIS JUNIOR, Alfredo. Os primeiros troncos paulistas. 2. ed. São Paulo, Ed. Nacional: Brasília, INL, 1976. 26 caminhos que a historiografia de São Paulo colonial vem tomando. Teses recentes vêm esclarecendo novas faces da administração monárquica e da natureza do poder em Portugal. No reino, o controle da Coroa sobre as elites locais – nos senhorios e municipalidades – era limitado42. No ultramar não seria muito diferente. Pesquisas vêm evidenciando que o rei não poderia fazer valer seu interesse em seu império sem prescindir de alianças com os poderes locais. A delegação de poder às elites locais era um dos mais importantes pilares de sustentação da monarquia portuguesa moderna43. No que toca ao ethos nobiliárquico, os senhores de engenho não possuíam condições de comprar títulos de nobreza. Contudo, devido à predominância de origem plebeia na maior parte das famílias e ao clima de informalidade no ultramar, deter terras, escravos, edifícios urbanos e rurais já fazia com que muitos se vissem como nobres, atuando como uma espécie de aristocracia estribada na riqueza e no poder. Comandando vasta clientela, que muitas vezes se organizava em bandos armados, muitos agiam como fidalgos do reino, mesmo sem possuir os papéis que lhes garantissem tal posição44. Ou seja, muitas das características utilizadas anteriormente para descrever os súditos paulistas, como altivez, poder de negociação e razoável nível de autonomia na gestão de assuntos locais, tornaram-se características próprias da vida administrativa de todo o ultramar português45. Fora isso, o aprofundamento na compreensão social do que alguns momentos históricos significaram para a vida dos vassalos ultramarinos vem enriquecendo o entendimento histórico sobre motivações e orientações antes ocultas. Para o caso paulista, especificamente, a União 42 HESPANHA, António Manuel. Às vésperas do Leviathan: instituições e poder político – Portugal – séc. XVII. Lisboa: AMH, 1986 (tese apresentada na FCSH da UNL), 2 v. 43 George Felix Cabral, analisando a Recife do século XVIII, fala que a colaboração entre elite local e Governadores nomeados pelo Rei era desejada por parte dos principais da terra, assim como por parte da Coroa. Thiago Krause afirma o mesmo para a elite baiana do século XVII. Ver: SOUZA, George Félix Cabral de. Elite y ejercicio del poder en el Brasil colonial: la Cámara municipal de Recife (1710-1822). Tesis (Doctorado en História) – Departamento de História, Universidad de Salamanca, 2007 e KRAUSE, Thiago. A Formação de uma nobreza ultramarina: Coroa e elites locais na Bahia seiscentista. Tese de doutorado, Rio de Janeiro: PPGHIS/UFRJ, 2015. 44 Nobrezas do Novo Mundo: Brasil e ultramar hispânico, século XVII e XVIII. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015. p. 23-24; 119-120. 45 Evaldo Cabral de Mello apresenta como a açucarocracia pernambucana, após a expulsão dos holandeses, procurou renegociar o pacto político com Portugal. Ressalta, inclusive, a percepção contratualista de poder que eles enunciaram. Ver: MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro Veio: o imaginário da restauração pernambucana. São Paulo: Alameda, 2008, p. 89-92. 27 Ibérica e a Restauração monárquica de 1640 são exemplos substanciais. A União Ibérica é um tema que tem sido revisitado por historiadores nas últimas décadas. Tanto no Brasil quanto no estrangeiro, as seis décadas de inserção de Portugal na órbita dos Habsburgo têm gerado reflexões sobre a sociedade que foi gestada naquele momento46. Alianças firmadas, redes comerciais montadas e mudanças administrativas implementadas somam num conjunto de acontecimentos que afetou profundamente a vida e sociedade da América lusa47. A realidade sociopolítica da década de 1640 carregava muito das ações, das políticas e da cultura institucional que a monarquia espanhola trouxe consigo e que implementou no mundo ultramarino português48. São Paulo não passaria incólume a esse processo: a pesquisa de José Carlos Vilardaga demonstra uma sociedade paulista marcadamente afetada pelos interesses e pelas intervenções dos Habsburgo. O descobrimento de minas no interior da capitania de São Vicente era um real propósito da Coroa espanhola, que investiu na empresa com a fixação na capitania de membros da armada de D. Diego49. A vinda do Governador-Geral Francisco de Souza com a sua comitiva para morarem em São Paulo, após a notícia de achados minerais, modificou significativamente a dinâmica interna da vila50. Dotado de um projeto minerador que visava reproduzir na capitania o 46 Para uma visão detalhada a respeito do quadro institucional e político de Portugal no tempo da União Ibérica, ver: BOUZA ALVAREZ, Fernando. Portugal no tempo dos Filipes: política, cultura e representações (1580- 1668). Lisboa: Edições Cosmos, 2000. 47 Redes clientelares e de matrimônio foram firmadas. Um exemplo clássico é o do governador Salvador Corrêa de Sá e Benevides, que era casado com uma rica criolla espanhola e possuía conexões comerciais e familiares em Potosí e Buenos Aires. Para mais detalhes, ver: BOXER, Charles R. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola. São Paulo: Companhia Editora Nacional-Edusp, 1973. 48 Guida Marques cita reformas político-administrativas que envolviam não apenas Portugal, como também o Brasil. Houve alargamento da rede de oficiais da Coroa, com a criação de oficiais do tipo comissarial e a criação da Junta da Fazenda Real em 1612. Ver: MARQUES, Guida. “O Estado do Brasil na União Ibérica”. In: Penélope. Fazer e desfazer a história., n. 27, 2002, p. 7-19. 49 Felipe II montou armada em 1581, logo após a anexação de Portugal, comandada pelo almirante asturiano Diego Flores Valdés. A ela competiria a descrição dos portos e das capitanias do Brasil e a fortificação do estreito de Magalhães. Contudo, após passar pelo Rio de Janeiro, e com dificuldades para chegar no Estreito, Valdés decidiu ancorar em São Vicente em 15 de abril de 1583. Lá chegando, fez alianças com autoridades locais, ajudou a terminar o forte de Barra Mansa. Parte da sua armada decidiu se enraizar na capitania, inclusive seu sobrinho Miranda, que se casou com a filha do capitão-mor Jerônimo Leitão. O motivo da aliança e desse enraizamento foi justificado, em carta a Coroa espanhola em julho de 1584, na qual descrevia a parte sul do Brasil como dotada de portos importantes, além de deter inúmeras riquezas e grande potencial de minas de ouro e prata. Para maiores detalhes, ver: VILARDAGA, José Carlos. São Paulo na órbita do Império dos Felipes: conexões castelhanas de uma vila da América Portuguesa durante a União Ibérica (1580-1640). 2010.Tese (Doutorado em História Social) – Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. p. 44-62. 50 José Carlos Vilardaga trata da jornada de D. Francisco de Sousa em São Paulo. Ver: VILARDAGA, op. cit. p. 254- 270. 28 modelo de Potosí, a intenção do Governador era forjar um núcleo que integrava o tripé mineração- agricultura-metalurgia para viabilizar um polo autossustentável de extração e escoamento de ouro. Para isso, expedições militares para o sertão foram realizadas, com o intuito de apresar índios para trabalharem no projeto como mão-de-obra excedente. Técnicas de entrada no sertão e de guerra aos gentios foram aprimoradas, assim como a logística e o conhecimento necessário para sobreviver durante essas expedições. Fora isso, a agricultura de trigo foi incentivada, o que fez com que São Paulo fosse uma das maiores abastecedoras do produto para outros polos da América lusa ao longo de todo o século XVII. Mesmo o projeto minerador tendo fracassado, o efeito dinamizador que a fixação do governador-geral teve na vila produziu impactos naquela sociedade, incentivando o apresamento de índios e a produção agrícola para o mercado interno do Estado do Brasil. Por fim,os ataques às reduções jesuíticas nas décadas de 1620-30 não se justificavam apenas através da psicologia dos homens do planalto, mas pelo acirramento da disputa pelo controle da mão de obra indígena com os inacianos e por uma conjuntura econômica favorável de mercado consumidor no Nordeste, que as famílias paulistas almejavam aproveitar51. A Restauração Portuguesa de dezembro de 1640, representando rompimento abrupto com o período anterior, foi momento de virada histórica para Portugal. Após 60 anos de União Ibérica, a sublevação de nobres portugueses, que reivindicava a autonomia do reino, encontrava resistências internas cuja superação não era certa52. A inserção de diversos setores lusos dentro das malhas do governo Filipino foi profunda, e o sentimento de pertencimento à Espanha foi nutrido ao longo de mais de uma geração53. Nem todos desejavam aquele rompimento 51 Luiz Felipe de Alencastro argumenta que a invasão holandesa em Pernambuco, somada à tomada de Angola pelos holandeses, que limitou o acesso aos escravos e o saque de navios portugueses no Atlântico, fizeram com que o Nordeste fosse atingido por uma crise de produção e abastecimento. Nesse contexto, os súditos de São Paulo foram importantes no socorro àquelas capitanias com mantimentos. Ver: ALENCASTRO, Luiz Felipe. O trato dos viventes, op. cit. p. 194-196. 52 VALLADARES, Rafael Ramírez. "El Brasil y las Indias españolas durante la sublevación de Portugal (1640-1668)”. In: Cuadernos de Historia Moderna, No. 14, Madrid: Editorial Complutense, 1993. 53 Apesar da insatisfação com a política fiscal implementada pelo Conde-Duque de Olivares, não havia consenso em relação à legitimidade do movimento Restaurador dentro da própria nobreza portuguesa. Mafalda Soares da Cunha argumenta que pouco menos da metade da aristocracia lusitana optou por Madrid ou teve posições profundamente ambíguas face à cisão com a Monarquia Hispânica. Ver: CUNHA, Mafalda Soares da. “Os insatisfeitos das honras. Os aclamadores de 1640”. In: SOUZA, Laura de Mello e, FURTADO, Júnia Ferreira e BICALHO, Maria Fernanda (orgs.). O Governo dos Povos. São Paulo: Alameda, 2009, p. 486. 29 institucional. Além disso, o inevitável confronto militar com a Espanha e Holanda54, essa última detentora de parte da capitania de Pernambuco, agravavam a situação. Inimigos externos e internos colocavam diversas travas a um movimento germinado, pelo menos em parte, por uma questão conjuntural, de pressão fiscal submetida pelo Conde-Duque de Olivares55. Ou seja, o movimento de Restauração era passível de sucumbir logo nos seus primeiros passos, nada pequenos, dentro daquela conjuntura histórica de meados do século XVII. Os riscos eram inúmeros. Portanto, as ações da Coroa portuguesa para produzir lealdade e legitimidade passaram a ocupar parte dos estudos sobre esse período. Os efeitos de tal processo na historiografia brasileira vieram à tona em uma questão de tempo, assim como um dos relevantes pontos relacionados a esse fenômeno, o que tratava sobre os súditos de São Paulo. Profundamente renovado a partir da década de 1990, o olhar de historiadores sobre o planalto paulista tem se nutrido de obras que marcaram a produção historiográfica do período, como a que se refere ao acúmulo de excedente comercial pelos colonos56. Contudo, foi justamente a conscientização a respeito de uma Coroa portuguesa necessitada de serviços militares e de lealdade no pós-Restauração que abriu a porta para a retirada definitiva de São Paulo das matas profundas do isolamento geográfico e cultural que historiadores da primeira metade do século XX a inseriram. Isso deveu-se, sobretudo, ao fato de o império ter concentrado cada vez mais as suas 54 Ronaldo Vainfas apresenta Antonio Vieira como homem influente na corte de D. João IV e como ele chegou a defender, em 1647, a compra de Pernambuco pelos holandeses, dada a incapacidade portuguesa de realizar a guerra aos holandeses na América. Ver: VAINFAS, Ronaldo. Antônio Vieira: jesuíta do Rei. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 55 A política implementada pelo Conde-Duque de Olivares para romper com a insoliedariedade fiscal dos reinos que compunham a Monarquia espanhola encontrou fortíssimas resistências. Ver: BERNAL, Antonio Miguel. España, proyecto inacabado. Costes / benefícios del Império. Madrid: Fundación Carolina – Centro de Estúdios Hispânicos e Iberoamericanos – Marcial Pons, 2005. 56 No que toca à acumulação de excedente comercial pelas famílias enraizadas no Brasil, John M. Monteiro e Luiz Felipe de Alencastro retiraram a São Paulo colonial da cultura de subsistência e a inseriram no abastecimento do mercado interno brasileiro. Alencastro fala do abastecimento, por parte dos súditos de São Paulo, às capitanias do Nordeste na época da ocupação holandesa. Monteiro fala sobre a agricultura de trigo que se desenvolveu em São Paulo do século XVII, fonte desse abastecimento, produzindo excedente comercial controlado pelas famílias de São Paulo. Ambos quebraram a lógica de isolamento econômico que imperava sobre a ótica historiográfica da primeira metade do século XX, defendida por autores como Paulo Prado e Basílio de Magalhães, inserindo a vila/cidade paulista nos circuitos econômicos de abastecimento interno da América lusa. Ver: MONTEIRO, John M. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994; ALENCASTRO, Luiz Felipe. O trato dos viventes, op. cit., p. 194-196; PRADO, Paulo. Paulística: história de São Paulo. Rio de Janeiro: Ariel, 1934 e MAGALHÃES, Basílio de. Expansão geographica do Brasil Colonial. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935. 30 atenções econômicas na região do Atlântico Sul, principalmente na relação Brasil-Angola57. Assim, América lusa passou, a partir da Restauração, a ganhar uma nova conotação e importância para Portugal. Obras como as de Pedro Puntoni58, Francisco de Andrade59, Marcio Santos60, Ilana Blaj61, Adriana Romeiro62 e Silvana Godoy63, todas fundamentais por lançarem olhares mais complexos e profundos sobre a relação Portugal-São Paulo, analisam a importância da atração de paulistas, que buscavam a tão almejada remuneração régia, para a órbita de influência da Coroa através de serviços militares. Esses estudos têm como ponto de partida as guerras realizadas pelos sertanistas paulistas na segunda metade do Seiscentos – e da sua importância para a construção daquela monarquia64. Além disso, tais estudiosos colocaram foco 57 ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes, op. cit. 58 Pedro Puntoni apresenta a estratégia da monarquia portuguesa de incentivar a interiorização de súditos nas capitanias do nordeste, através do estabelecimento da pecuária, para diversificar a economia colonial na segunda metade do século XVII. Contudo, a expansão produziu conflitos com índios tapuias estabelecidos no interior dessas capitanias, gerando conflito conhecido como Guerra dos Bárbaros, onde os sertanistas de São Paulo foram convocados pela Coroa para participar do confronto, tendo protagonismo em vitórias importantes. Ver: PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo: Hucitec/Edusp/Fapesp, 2002. 59 Francisco de Andrade demonstra como a economia das mercês foi um instrumento utilizado tanto pela Coroa lusa como pelos seus súditos de São Paulo para fomentar expedições que visavam o achado de ouro e minerais preciosos. Ver: ANDRADE, Francisco Eduardo de. A invenção das Minas Gerais: empresas, descobrimentos e entrada nos sertões do ouro da América portuguesa. Belo Horizonte: Autêntica Editora/Editora PUC Minas, 2008. 60 Marcio Santos apresenta a descontinuidade na qual a ocupação da fronteira da América lusa foi realidade, no recorte temporal entre 1640 e 1750, em ação incentivada pela Coroa. Os paulistas, que tinham não apenasserviços militares para prestar, mas também terras para ocupar com fazendas de gado, foram os protagonistas de episódios analisados pelo historiador. Ver: SANTOS, Marcio. Fronteiras do sertão baiano: 1640-1750. Tese de Doutorado em História Social. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2010. 61 Ilana Blaj, analisando a formação da elite de São Paulo entre o final do século XVII e o início do XVIII, argumenta que os serviços prestados para a Coroa portuguesa no período foram parte recorrente do ethos nobiliárquico reproduzido pelas famílias locais. Ver: BLAJ, Ilana. A trama das tensões: o processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo: Humanitas; FFLCH, USP; FAPESP, 2002. P. 322-338. 62 Adriana Romeiro, apresentando um renovado olhar sobre o conflito emboaba, enfatiza a importância para os paulistas dos serviços prestados para a Coroa lusa na segunda metade do Seiscentos. Investiga também como muitos governadores enfatizavam a sede que os principais da terra de São Paulo possuíam por mercês e privilégios. Os Regimentos das Minas de 1700 e 1702, devido às próprias reivindicações dos homens do Planalto, privilegiava-os na concessão de datas e no controle de postos militares. Ver: ROMEIRO, Adriana. Paulistas e emboabas no coração das minas: ideias, práticas e imaginário político no século XVIII. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008. 63 Silvana Godoy apresenta a importância dos serviços prestados pela família Pedroso de Barros para a Coroa lusa no período na guerra contra os holandeses, na década de 1640, culminando em seu enriquecimento e posse da maior quantidade de escravos indígenas do planalto. Ver: GODOY, Silvana Alves de. Mestiçagem, guerras de conquista e governo dos índios. A vila de São Paulo na construção da monarquia portuguesa na América. Séculos XVI e XVII). Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de História, Programa de Pós-Graduação em História Social, 2017. P. 179-186. 64 Em minha dissertação investiguei como a colaboração São Paulo-Portugal foi decisiva, na segunda metade do século XVII, para a construção da soberania lusa nas fronteiras da América portuguesa. Ver: DARIO FILHO, Luiz. P. Lealdade em construção: a (re)inserção de São Paulo nas malhas administrativas do Império português (1641-1698). Dissertação de Mestrado. Niterói: Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, 2016. 31 na conjuntura, assim como em suas demandas específicas, como fatores decisivos na definição de um cenário sociopolítico bastante diferente daquele da primeira metade do século. Com base nisso, podemos compreender que, além de São Paulo não estar isolado economicamente do mercado colonial, não havia também isolamento político e militar. A inserção dessa vila no mundo cultural do antigo regime português existia, apesar da interação não ser tão frequente como nas regiões litorâneas e de estar mais ligada às necessidades do momento político, econômico e militar pelo qual a monarquia passava. Uma questão importante para a compreensão dessa inserção paulista nas malhas administrativas e militares da monarquia lusa é o papel que o Conselho Ultramarino ganhou na arquitetura de conselhos e tribunais portugueses da segunda metade do século XVII. Salvador Correa de Sá e Benevides, em uma carta ao Rei, defendia o papel do Conselho Ultramarino, criado em 1643, dentro da engrenagem administrativa do ultramar luso. Para ele, o tribunal conferiria estímulo e condições que favoreceriam os serviços prestados pelos súditos que lá estavam. Dava, inclusive, como exemplo “que havendo muito que se tinha encarregado ao governador geral o descobrimento das esmeraldas, se não pôs em execução, senão agora, que se remeteram as ordens pelo Conselho Ultramarino ao governador do Rio de Janeiro”65. Ou seja, de acordo com sua argumentação, muitos dos súditos tinham receio de prestar serviços para a monarquia por temerem que seus esforços não fossem reconhecidos, ou que fossem simplesmente apropriados por autoridades com maior reputação e prestígio. Apesar disso, a função daquele Conselho era a de fornecer voz e possibilidade institucional de escuta e negociação, funcionando como um tribunal de mediação e de fornecimento de segurança jurídica mínima aos vassalos do ultramar que tanto investiam suas fazendas em serviços régios66. Por conseguinte, o papel do Conselho era fundamental, inclusive para as ambições da própria Coroa portuguesa de garantir a sua soberania 65 AHU, Rio de Janeiro, Castro e Almeida, Cx. 3, Doc. 519. 66 LOUREIRO, Marcello. Iustitiam Dare. A gestão da monarquia pluricontinental: Conselhos Superiores, pactos, articulações e o governo da monarquia pluricontinental portuguesa (1640-1668). Rio de Janeiro, Tese (Doutorado), Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2014, p. 441-442. 32 no Estado do Brasil. O caso do descobrimento das minas, citado por Corrêa de Sá e Benevides em 1646, é interessante para compreender a história de São Paulo. Em 1605, D. Francisco de Souza foi a Madri, arregimentando o seu projeto de integração de São Paulo à região paraguaia e fomentando seu projeto minerador no planalto. Tendo costurado densa rede de apoio entre as principais famílias paulistas da época, ele sofria acusações na Corte, muitas das quais buscavam desacreditar sua empreitada e destituí-lo da autoridade que possuía. Sua intenção, chegando em Madrid em 1606, foi de arquitetar sua defesa, reivindicando a criação do governo da Repartição Sul do Brasil – o que conseguiria, sendo nomeado Governador – e mais mercês e patentes de postos militares e civis para distribuir e fortalecer a sua rede de apoio local. Voltou a São Paulo triunfante, em 1609, com o direito de conceder 20 hábitos da ordem de Cristo e armar mais cem cavaleiros67. Contudo, a morte abrupta do governador, em 1611, encerrou o projeto, sendo desfeitas já em 1612 as mudanças administrativas por ele requisitadas. De forma repentina, as minas de Jaraguá, Viraçoiba e Vuturana desaparecem da documentação paulista, assim como os esforços para dar prosseguimento ao projeto minerador. José Carlos Vilardaga afirma que o cenário foi também de derrota para os súditos de São Paulo. Já sem garantia de mercês e de terem os seus serviços remunerados, ainda mais depois da reversão repentina das medidas conquistadas por D. Franscisco de Souza na Corte, a colaboração para o projeto minerador já não lhes interessava. Vilardaga conclui, inclusive, que parte do vulgo “orgulho” e rebeldia paulista teriam nascido da presença e da atuação do governador na região, que colocou a vila como lugar de prestígio no império Filipino. Além disso, a insubmissão seria oriunda da frustração, derivada do inesperado e rápido fim do sonho dourado da transformação desses homens em uma elite imperial68. Em suma, a postura de altivez e resistência dos paulistas 67 VILARDAGA, José Carlos. São Paulo na órbita do Império dos Felipes: conexões castelhanas de uma vila da América Portuguesa durante a União Ibérica (1580-1640). 2010.Tese (Doutorado em História Social) – Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. p. 165. 68 Id., ibid. p. 180-187. 33 aos interesses da Coroa espanhola e a seus representantes teria origem no sentimento de injustiça de como suas demandas foram ignorados nesse episódio. Um caso similar ocorreu em outubro de 164969 quando, nas atas da Câmara de São Paulo, circulavam novas notícias de descobrimento de ouro, agora na vila de Paranaguá. Em 28 de novembro de 1651, D. João IV escreveu para a vila comentando as amostras de pedras enviadas para Lisboa e estimulando novos achados70. Já em 1652, Salvador Corrêa de Sá e Benevides, nomeado oficialmente governador das minas da RepartiçãoSul da América lusa, nomeou o seu primo, Pedro de Souza Pereira, já provedor e contador da Real Fazenda do Rio de Janeiro, ao cargo de administrador das Minas71. Souza Pereira chegara na vila em 22 de setembro de 1652, apresentando a carta patente e preparando a construção de novo projeto minerador72. Contudo, buscando ter mais controle sobre a região mineradora, a Coroa também fez pressão pela restituição do Colégio jesuítico em São Paulo. A expulsão dos jesuítas da região, em meados de 1640, antes Restauração portuguesa, e o acirramento pela disputa da mão de obra indígena na vila serviriam para “dividir” os colonos, dando mais espaços para a monarquia atuar na região73. O resultado, no entanto, não foi o esperado. A restituição do Colégio jesuítico em 14 de maio de 1653, ao qual famílias poderosas como os Camargo eram contrárias, acabou por produzir uma tensão demasiadamente grande em São Paulo, rachando-a entre facções e fazendo com que o projeto minerador fosse abandonado, assim como em 1612. Incomodados e sentindo-se prejudicados com o excesso de intervenção externa, os grupos do planalto provavelmente deixaram de ver os descobrimentos como algo que os beneficiasse. O papel de atuação como mediador e produtor de segurança jurídica do Conselho Ultramarino, descrito por Corrêa de Sá e Benevides como sendo de um tribunal em que os súditos 69 ACVSP. Vol. 5, p. 389-390. 70 RGCSP. Vol. 2, p. 368-369. 71 Id., p. 343-344. 72 Id., ibid., p. 347. 73 Trabalhei o tema na minha dissertação. DARIO FILHO, Luiz. P. Lealdade em construção: a (re)inserção de São Paulo nas malhas administrativas do Império português (1641-1698). Dissertação de Mestrado. Niterói: Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, 2016. p. 73-89. 34 ultramarinos pudessem ter voz e poder de negociação, só se concretizaria de fato a partir da década de 167074, quando a proeminência daquele Conselho cresceu dentro da arquitetura administrativa e jurídica lusa. Uma resolução régia de outubro de 1671 fez correr pelo Conselho Ultramarino a administração de todos os contratos e as fazendas da conquista, exceto da Índia. Fora isso, o Conselho seria o responsável pelo envio de armas, pólvora, balas, munições e demais itens para a sua defesa militar. Houve também dispositivo regimental, de março de 1676, que colocou sérias restrições sobre as patentes militares passadas pelos Governadores-gerais do Brasil, derrogando ao tribunal a exclusividade para deliberar sobre esse tipo de consulta através do seu procedimento concursal75. O fortalecimento das suas prerrogativas fez com que o Conselho Ultramarino se tornasse uma peça-chave na condução política das guerras no Brasil no final do século XVII. Os súditos de São Paulo, com histórico de tensionamentos – e até mesmo rompimento de serviços prestados à monarquia por não se sentirem escutados e respeitados nas suas reivindicações – seriam um dos grupos que se beneficiariam desse novo cenário. Após convocação, em 23 de outubro de 1668, pelo Governador-Geral Alexandre de Souza Freire, o terço paulista formado por Estevão Ribeiro Baião Parente e seu adjunto Braz Rodrigues de Arzão, chegou a Bahia em junho de 1671. Como remuneração pelo serviço prestado na guerra contra os tapuias, foram prometidas sesmarias, patentes militares e todos os índios conquistados – aos quais os paulistas teriam direito como escravos. Baião Parente assumiu o comando-geral das tropas, recebendo a patente de “governador da conquista dos bárbaros” e sua empresa não tardou a render vitórias. Em 22 de fevereiro de 1673, o Governador-Geral Afonso Furtado de Castro de Mendonça escreveu à vila, comentando os sucessos da expedição76. Em um parecer escrito ao Rei, 74 Até a década de 1660, seus pareceres não eram acatados pelo monarca, explicitando um papel secundário para o Conselho na trama política lusitana. Essa é a conclusão da tese de Edval de Souza Barros. Ver: BARROS, Edval de Souza. Negócios de tanta importância: o Conselho Ultramarino e a disputa pela condução da guerra no Atlântico e no Índico (1643-1661). Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ. Rio de Janeiro: UFRJ, 2004, p. 344. 75 CRUZ, Miguel Dantas da. O Conselho Ultramarino e a administração militar do Brasil (da Restauração ao Pombalismo): política, finanças e burocracia. Tese de doutoramento apresentada ao Programa Interuniversitário de História. Lisboa: ISCTE, 2013, p. 111-114 e p. 256-277. 76 O episódio encontra-se descrito em: PUNTONI, Pedro. A Guerra dos bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo: Hucitec/Edusp/Fapesp, 2002. p. 111-115. 35 o secretário do Conselho Ultramarino, Manuel Barreto, descreveu as vitórias da empresa militar. O terço paulista, entre os anos de 1672 e 1673, “com mais de 400 pessoas brancas, fóra Mamalucos e Indios [ído] a dar guerra ao gentio barbaro, que senhoreava o reconcavo, e tinha feito crueis estragos, e hostilidades com seos moradores”. Alcançando vários sucessos, “destruirão as nações dos Tapuyas, Tupis, Bagayos e Maracás, deixando aquellas terras livres”77. Referendando os serviços militares realizados pelo sertanista de São Paulo e atuando como mediador junto ao monarca, o Conselho Ultramarino ensaiava um protagonismo maior como um tribunal que desse voz à narrativa dos vassalos do ultramar português. No dia 19 de maio de 1674, Baião Parente recebeu mercês graças aos seus serviços prestados na conquista, dentre elas a donataria de uma vila a ser criada, com o mínimo de 80 moradores e uma igreja: assim foi fundado, na região do Médio Paraguaçu, o núcleo povoador de Santo Antônio da Conquista78. Na Guerra aos Palmares, encabeçada por Domingos Jorge Velho, o Conselho Ultramarino assumiu ainda mais essa função mediadora. Domingos Jorge Velho, no ano de 168779, firmou contrato de guerra junto ao governador de Pernambuco, João da Cunha Sotto-Mayor. No contrato estavam estipulados os termos em que a Guerra aos palmarinos seria realizada, bancada exclusivamente pelos recursos dos paulistas, assim como a remuneração régia sobre a qual o grupo teria direito em caso de vitória. Estavam listadas sesmarias, patentes militares, Hábitos da Ordem de Cristo e escravos feitos em batalha. O contrato foi referendado pelo Conselho Ultramarino no ano de 1693, praticamente sem alterações80. Após ter sua tropa deslocada para a guerra do Açu em 1689, Jorge Velho retornou a Pernambuco em 1691 para o confronto aos quilombos onde, em 1694, conquistou a vitória final. Terminado o conflito, no mesmo ano de 1694, o governador da 77 Afonso de E. Taunay transcreve a carta, mas não estipula a data. Ver: TAUNAY, Affonso de E. História geral das bandeiras paulistas, Op. Cit. v. 5, p. 44-45. 78 Marcio Santos descreve a fundação e a trajetória da povoação. Ver: SANTOS, Márcio. Fronteiras do sertão baiano. Op. Cit. p. 233-235. 79 Os capítulos do contrato se encontram em: ENNES, Ernesto. As guerras nos Palmares: subsídios para a sua história. Prefácio de Afonso de E. Taunay. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. Documento n. 34, p. 238-241. 80 Uma única mudança deu-se na questão dos quintos régios sobre os escravos feitos na guerra, que antes ficariam com os paulistas. O Rei decidiu, em 1693, que não renunciaria a eles. Ver: ENNES, Ernesto. As guerras nos Palmares. Op. Cit. Documentos n. 34 e 35, p. 238-245. 36 capitania de Pernambuco, Caetano de Mello e Castro, escreveu ao monarca afirmando que o contrato deveria ser anulado. Argumentou, utilizando-se da lenda negra paulista81, que os sertanistas de São Paulo não seriam confiáveis, e que ele mesmo teve que ir ao campo de batalha para ajudar no confronto, pois os “os Paulistas não satisfizerão as obrigaçoiz do dito contrato em que a mais principal, foy fazerem a ditaguerra eles só a sua custa”82. Por isso, o contrato deveria ser cancelado e apenas um Hábito de Cavaleiro da Ordem de Cristo deveria ser dado a Domingos Jorge Velho, pelo seu esforço. Jorge Velho, no mesmo ano de 1694, escreveu ao Rei contra- argumentado Mello e Castro. Apresentou um parecer extenso, através do seu procurador Bento Sorreal Camiglio, narrando o pedido do Governo-Geral para que “fosse acudir a capitania do Rio grande q- a infestava no Assu, e piranhas, o tapuia levantado yandui”83 antes de ir aos Palmares, o que não estava descrito dentro do contrato de guerra. Por isso a necessidade de ajuda na batalha final contra Zumbi e seu exército, no ano de 1694. A carta do governador chegou primeiro ao Conselho Ultramarino, que deliberou favoravelmente a seu pedido de anulação do contrato de guerra. Mas, logo após ler a carta e as reivindicações apresentada por Bento Sorreal Camiglio, o colegiado optou, em 27 de janeiro de 169584, por dar ganho de causa para Domingos Jorge Velho, acompanhando uma deliberação do Procurador da Fazenda85. O Rei seguiu o parecer do Conselho e manteve os termos firmados em 1687, e depois referendados em 1693, sem alterações. É interessante perceber que nesse parecer apresentado pelo Conselho Ultramarino, em 27 de janeiro de 1695, o conselheiro Bernardim Freyre de Andrade enfatizou a importância de se “guardar as capitulações que com ellez fez o Governador João da Cunha Sotto Mayor”. Argumentava que os capítulos eram válidos, e que o 81 Série de atributos infames definidos para os paulistas, dentre os quais constavam, com frequência a acusação de mestiçagem indígena e judaica, e de serem súditos insubordinados, rebeldes. Grande parte deles foi forjado pelos padres jesuítas paraguaios e espanhóis na época das expedições militares que atacaram as reduções jesuíticas do Guairá e Tape nas décadas de 1620 e 1630. Ver: ROMEIRO, Adriana. Paulistas e emboabas no coração das minas. op cit. p. 125-130. 82 A carta se encontra em: ENNES, Ernesto. As guerras nos Palmares. Op. Cit. Documento n. 25, p. 197-198. 83 A carta se encontra em: ENNES, Ernesto. As guerras nos Palmares. Op. Cit. Documento n. 28, p. 204-207. 84 O parecer se encontra em: ENNES, Ernesto. As Guerras nos Palmares. Op. Cit. Documento n. 33, p. 233-237. 85 O documento se encontra em: ENNES, Ernesto. As Guerras nos Palmares. Op. Cit. Documento n. 37, p. 252-257. 37 rei não deveria faltar com o que prometia aos seus vassalos, pois isso poderia desmotivá-los a continuar na guerra. Além disso, por os paulistas serem “conhecidamente os mais capazes de sogeitar a obbediencia de domínio de Vossa Magestade os mocambos dos negros, e Tapuyas bravos, e não haver para este efeito outros como eles”, deveriam ser, particularmente, favorecidos. Em um parecer final sobre as mercês, que seriam em sua quase totalidade do contrato, agraciadas aos paulistas86, o Procurador da Fazenda, no final de 1697, afirmou que “os Paulistas são a melhor, ou a única defensa, q- tem os povos do Brazil contra os inimigos do sertão”. A guerra aos Palmares apenas teria demonstrado isso, visto que o conflito fora concluído através “do seu valor, e experiencia”. Com isso, os suplicantes seriam “dignos de toda a honra, e mercê”, sendo o monarca obrigado a “remunerar os serviços, q- se lhe fazem por divida /não civil/ mas moral”87. Mesmo maculados com a lenda negra e tendo inimigos no alto escalão administrativo colonial, o qual procuravam utilizar para obterem vantagens políticas junto à monarquia, os sertanistas de São Paulo tiveram no Conselho Ultramarino um espaço de escuta e negociação perante seus pleitos e suas reivindicações. Em uma conjuntura na qual a Coroa portuguesa necessitava urgentemente de serviços militares para garantir sua soberania nas regiões remotas do seu império, os paulistas representavam um grupo com experiência militar de extrema utilidade. Assim, o Conselho Ultramarino, fortalecido em suas prerrogativas a partir da década de 1670, atuou como lugar de recepção, leitura e reflexão sobre a utilidade daquele grupo para o mundo 86 No que toca à implementação dessas mercês, alguns dados já foram levantados em pesquisas recentes. Foi distribuído um total de 89 sesmarias entre as áreas do São Francisco e a vila de Porto Calvo. Dos paulistas, um total de 27 homens recebeu terra, que foram doadas sendo efetivadas, juridicamente, entre os anos de 1702 e 1727. Com isso, é possível concluir que um número relevante de paulistas, com suas respectivas famílias, optou por se enraizar na capitania. Muitos destes, inclusive, serviram no terço do Palmar, criado para policiar a região no período posterior à destruição dos mocambos. Domingos Jorge Velho, por exemplo, recebendo data de terra de seis léguas, criou o arraial de Nossa Senhora das Brotas, que, posteriormente, gerou o que é hoje o município de Atalaia. Faltam, contudo, pesquisas pormenorizadas sobre a trajetória desses homens dentro da região e sobre a vila que teria sido fundada através da concessão régia. Há citações historiográficas de que os atuais municípios de Anadia e Viçosa teriam sido produto das sesmarias concedidas aos paulistas pela guerra aos Palmares, mas que ainda carecem de comprovação documental mais concreta. Em relação aos Hábitos das Ordens Militares, infelizmente ainda não há pesquisas sobre os nomes apontados por Domingos Jorge Velho e os processos que tomaram corpo, posteriormente, na Mesa de Consciência e Ordens. Ver: Dimas Marques apresenta dados sobre as remunerações régias ao terço paulista. Ver: MARQUES, Dimas Bezerra. Pelo bem de meus serviços, rogo-lhe esta mercê, p. 116-119. 87 Documento sem data. O parecer se encontra em: ENNES, Ernesto. As Guerras nos Palmares. Documento n. 53, p. 311-316. 38 português do período. Isso ocorreu tanto na Guerra dos Bárbaros, contra os índios tapuias, como na Guerra contra o quilombo dos Palmares. A segurança jurídica fornecida pelo contrato de guerra de 1687, posteriormente referendado no Conselho em 1693, foi decisiva para o desfecho da questão favorável aos soldados de Piratininga. Tal fato demonstra que a arquitetura institucional da monarquia lusa em fins do século XVII dava mais espaços para que os paulistas tivessem seus serviços reconhecidos pela Coroa, tendo acesso, ao menos nesses casos, à remuneração régia e à ascensão social almejada desde o início do século XVII. A Restauração portuguesa e os serviços militares prestados no Nordeste representaram uma oportunidade socioeconômica bem-vinda para alguns dos vassalos de São Paulo. Constavam entre as remunerações régias sesmarias, aquisição de escravos, patentes e postos militares, os quais, apesar de não significar muito, os estimulava a continuar servindo através das armas, procurando demonstrar o seu valor e estima como leais súditos do Rei. As expedições militares visando o descobrimento das minas de ouro nos sertões americanos representaram uma etapa que ocorria em paralelo às guerras no Nordeste, a partir de 1670. Na década de 1690, com a descoberta das minas dos Cataguases, tem-se o advir de um século XVIII recheado de oportunidades para os paulistas. Desejosos de poder e prestígio, há a possiblidade de ascensão como uma elite imperial, sustentada no poder do ouro e no prestígio dos cargos e das mercês – sonho esse almejado por seus antepassados quase um século antes. Seria, finalmente, a hora da justiça régia e divina se realizar, ou seria apenas mais uma ilusão? 1.2 Das minas dos Cataguases às minas de Cuiabá: o findar de um projeto e o (re)nascer de uma esperança Não apenas do levante militar nasceu a Restauração portuguesa de 1640. Os sessenta anos de dominação castelhana sobre Portugal e seu império (1580-1640) deixou profundas raízes de vassalagem e lealdade em diversos grupos de súditos lusitanos. Nem todos eram contrários à forma de governo e às políticas adotadas pelosHabsburgo. Fazia-se, então, urgente não apenas restaurar 39 a monarquia pelas armas, mas também restaurar o sentido de lealdade e de pertencimento na maior quantidade possível de membros da comunidade política do reino e no ultramar. Logo, a narrativa e o discurso político forjados para confrontar e deslegitimar a atuação do Conde-Duque de Olivares – o poderoso valido do rei Felipe IV – necessitava dialogar com a ideologia cristã dominante na Península Ibérica de então. O ato de rompimento precisava ser legítimo dentro da sensibilidade e da cultura política da época. A tradição filosófica da Segunda Escolástica, dominante no pensamento ibérico da primeira metade do século XVII, forneceu a base ideológica para a narrativa oficial daquele rompimento institucional. Segundo esse método de pensamento crítico, o poder que emanava de Deus recaía diretamente sobre a natureza humana, e não sobre os governantes. O Estado e o Direito, produtos dos consensos produzidos pela experiência cívica, formariam o que o pensamento da época classificava como Corpo Místico do reino, cujas partes tinham função e autonomia próprias que precisavam ser preservadas para o seu bom funcionamento88. Ao Rei, como cabeça desse organismo, cabia a aplicação da justiça e a conservação das suas funções, não uma condução de governo absoluto e autocrático89. A ação do Conde-Duque de Olivares, sob a óptica dessa sensibilidade política, foi classificada como crime de tirania contra o próprio Corpo Místico do reino. Ao adotar políticas de cunho autoritário, sem consultas e diálogo com os órgãos deliberativos lusitanos, o valido feriu a natureza do pacto político que havia unido Portugal à monarquia espanhola em 158090. Com isso, abriu-se espaço para a Restauração portuguesa. A legitimação do crime de tirania para o rompimento institucional com os Habsburgo teve 88 Segundo Luís Torgal, Maquiavel, com o livro O príncipe, abriu as portas para o laicismo no pensamento e nas práticas políticas europeias do século XVI. Entretanto, a Península Ibérica era demasiadamente cristianizada no período para assimilar essas novas ideias em sua totalidade. Nesse contexto, as concepções jurídico-políticas de S. Tomás de Aquino foram bastante influentes dentro do pensamento político português da época, instituindo concepções do direito e do Estado pensadas em termos teológicos. Ver: TORGAL, Luis Reis. Ideologia política e teoria do Estado na restauração. Coimbra: Biblioteca Geral da Universidade, v. 1, 1982, p. 11-14. 89 HESPANHA, António Manuel. Às vésperas do Leviathan, op. cit. 90 A política implementada pelo Conde-Duque de Olivares para romper com a insolidariedade fiscal dos reinos que compunham a Monarquia espanhola encontrou fortíssimas resistências. Ver: BERNAL, Antonio Miguel. España, proyecto inacabado. Costes / benefícios del Império. Madrid: Fundación Carolina – Centro de Estúdios Hispânicos e Iberoamericanos - Marcial Pons, 2005. Para um olhar mais atento para o caso português dentro do Império espanhol: ÁLVAREZ, Fernando Bouza. Portugal no tempo dos Filipes. Política, cultura, representações (1581-1668). Lisboa: Cosmos, 2000. 40 profunda influência na mentalidade política portuguesa da segunda metade do século XVII. A prática da governabilidade passou a ver a ideia de obediência (por parte dos súditos) – sobretudo em momentos de tensionamento – associada a uma ideia de justiça (por parte do Rei). Caso governasse justamente, respeitando os usos e os costumes locais, o monarca seria devidamente obedecido. Caso contrário, se cometesse atos considerados como usurpação de bens e direitos tradicionais de seus súditos, o ato de se rebelar se mostraria como um caminho legítimo. Não à toa, entre 1641 e 1688, dezenas de alterações de múltiplas formas tomaram o império português. Nas costas da América, África e Ásia ocorreram, no mínimo, uma dezena de insurreições envolvendo motins de soldados, conjura de fidalgos, rebeliões antifiscais e antijesuíticas91. Todas essas rebeliões eram quase sempre resolvidas com deposição de govenador, vice-rei ou capitão- general. A segunda metade do Seiscentos, que vinha na esteira do processo de emancipação lusitano frente à monarquia hispânica - que se justificou através da prática da tirania e do mau governo - acabou por ver nascer uma cultura política na qual o direito à resistência virou prática recorrente, mesmo que desencorajada pela Coroa. O imaginário político convocado para legitimar a Restauração Portuguesa também se fez presente nos argumentos utilizados pelos súditos em seu pleito por mercês e remunerações régias no ultramar92. Isso se explica pelo fato de que a ideologia política da Segunda Escolástica estava ligada a uma moral cristã de governo, que via o Rei como pai, e os súditos como seus filhos. Nessa dinâmica de governabilidade, o reino e o ultramar eram uma comunidade compreendida como continuações da Casa real. Nela, o pai e os filhos possuíam deveres e obrigações mútuas, e esperava-se do primeiro – que era servido – liberalidade, justiça, magnificência, memória e 91 Os casos são apresentados e debatidos em detalhes por Luciano Figueiredo. Também é discutido pelo estudioso o processo que a Coroa lusa teve que passar de “aprendizado da rebelião” para o governo do seu império. Ver: FIGUEIREDO, Luciano. “O império em apuros: notas para o estudo das alterações ultramarinas e das práticas políticas no império colonial português, séculos XVII e XVIII”. In: FURTADO, Júnia (org.). Diálogos oceânicos: Minas Gerais e as novas abordagens para uma história do Império Ultramarino Português. Belo Horizonte: HUMANITAS, 2001, p. 197-254. 92 Evaldo Cabral de Mello demonstra as raízes do pensamento da Segunda Escolástica na concepção contratualista da elite pernambucana em sua relação com a monarquia portuguesa a partir da segunda metade do século XVII. Ver: MELLO, Evaldo Cabral de. A fronda dos mazombos. São Paulo: Ed. 34, 2003, p. 160-163. 41 gratidão; do segundo – que era servidor – fidelidade, lealdade e sacrifício. Tais deveres políticos estavam profundamente permeados por valores morais, como graça, piedade, misericórdia e gratidão. Nessa dinâmica, os vassalos deveriam prestar auxilium et consilium ao soberano na conquista, na ocupação e no governo ultramarino. Já o monarca, na sua liberalidade, deveria reconhecer e remunerar os serviços prestados em sua graça93. Em uma sociedade estruturada de forma arraigada e natural a partir da noção de desigualdade social94, na qual se esperava do monarca a conservação de ordens e estatutos, a liberalidade régia era um dos elementos da governabilidade que possuía mais peso95, já que era uma das pouquíssimas formas de ascender socialmente a que os súditos podiam recorrer a fim se distinguir e nobilitar a si e a sua família. A Reconquista portuguesa, estruturada dentro da lógica dos serviços prestados ao monarca em troca da remuneração régia, estabeleceu o marco inicial do que viria a ser uma alta fidalguia portuguesa, e, como já dito, tinha como principal símbolo de sua honra o serviço prestado ao Rei. Esse ethos nobiliárquico foi reproduzido desde os primórdios da expansão ultramarina por diversas famílias de origem plebeia, conduzindo suas ações e propósitos de ascensão social. Muitos dedicavam a vida, organizando seus recursos e fazendas, para prestar serviços militares para a Coroa96, pois o sonho da ascensão e da distinção social através desse tipo de prática era um dos traços mais enraizados da psicologia dos vassalos portugueses da época moderna. Tal intenção estava atrelada diretamente a toda uma normativa invocada sobre o papel da justiça régia no período posterior à Restauração Portuguesa de 1640, o que permeou o universo dos serviços militares no império e suas reivindicações remuneratórias ao longo de todo o século. 93 CARDIM, Pedro. “Governo” e “Política” no Portugal de seiscentos:o olhar do jesuíta António Vieira. Penélope: Revista de História e Ciências Sociais, n. 28, p. 61-63, 2003. 94 RAMINELLI, Ronald. Viagens Ultramarinas: monarcas, vassalos e governo a distância. São Paulo: Alameda, 2008, p. 21-22. 95 Fernanda Olival apresenta a cultura política de prestação de serviços militares e de remuneração régia no Portugal do antigo regime. E de como essa era uma dinâmica que permeava e estruturava a sociedade lusitana do período. Ver: OLIVAL, Fernanda. As ordens militares e o Estado Moderno: Honra, Mercê e Venalidade em Portugal (1641-1789). Lisboa: Estar, 2001. 96 Caso emblemático é o de Fernão Dias Paes, que além de ter realizado a empresa para os descobrimentos com seus próprios recursos, ainda faleceu na empresa. Ver: ANDRADE, Francisco Eduardo de. A invenção das Minas Gerais: empresas, descobrimentos e entrada nos sertões do ouro da América portuguesa. Belo Horizonte: Autêntica Editora/Editora PUC Minas, 2008. p. 57-80. 42 A Câmara de Olinda, ainda durante a realização da guerra de expulsão dos holandeses da capitania, enviou uma carta ao Rei em 1651. A conquista de Pernambuco e sua “entrega à Coroa”, que teria ocorrido através dos recursos dos principais da terra, em palavras do discurso construído por eles, lhes daria direitos específicos. Eram reivindicadas redefinições dentro do vínculo entre Portugal e Pernambuco, a partir das seguintes demandas: os cargos públicos – exército, administração e igreja – deveriam ser reservados para os naturais da terra; redução da cobrança de tributos; e escolha do Governador a ocorrer sempre no seio da elite local97. A petição era fundamentada na concepção de que o serviço prestado na guerra, mesmo sem o apoio inicial de Portugal, demonstrava a especial fidelidade dos moradores da capitania à Coroa. A questão acabou também por fundamentar, no discurso político utilizado pela oligarquia local, uma concepção contratualista de poder, a qual colocava os pernambucanos como súditos políticos da monarquia portuguesa. Ou seja, esses homens submetiam-se à Coroa por sua própria vontade, ao contrário dos demais vassalos portugueses do ultramar, que seriam seus súditos naturais. A monarquia portuguesa, no entanto, não atendeu às exigências da Câmara de Olinda. A importância econômica crescente que a região do Atlântico Sul tinha para Portugal era um entrave fundamental para a concessão de tais privilégios. Já na década de 1660, o Rei passou a escolher o governador a partir da nobreza cortesã do reino, e não mais entre membros das famílias dos restauradores pernambucanos. Ademais, toda a tributação permaneceu pesada e inalterada desde o período da guerra contra os holandeses. Isso, contudo, não impediu que a concepção contratualista de poder, que exigia a obrigatoriedade da remuneração justa pelo serviço prestado, se presentificasse em outras partes do território americano na segunda metade do Seiscentos. Evaldo Cabral de Mello, ao estudar os fatos ocorridos em Pernambuco, cita também o caso de São Paulo98. Profundamente marcados no imaginário ibérico pela lenda negra disseminada pelos 97 MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro Veio: o imaginário da restauração pernambucana. São Paulo: Alameda, 2008, p. 92. 98 Evaldo Cabral de Mello demonstra as raízes do pensamento da segunda escolástica na concepção contratualista que a elite pernambucana desenvolveu na sua relação com a monarquia portuguesa a partir da segunda metade do século XVII, além de demonstrar como esse caso também se reproduziu em outras partes da América lusa, como São Paulo. Ver: MELLO, Evaldo Cabral de. A fronda dos Mazombos. São Paulo: Ed. 34, 2003, p. 160-163. 43 jesuítas a partir da década de 1630, que os estigmatizavam não só pelo perfil bárbaro e anticristão, mas também pela insubordinação, os paulistas desenvolveram postura fortemente altiva nas negociações com a monarquia portuguesa no pós-Restauração. Há dois casos emblemáticos que demonstram o tom reivindicativo e contratualista das petições dos homens de São Paulo na segunda metade do século XVII. Ambos ocorreram em um intervalo de tempo próximo, na década de 1690, após diversos serviços militares terem sido prestados pelos homens do planalto nas guerras no Nordeste. O primeiro deles é o de Domingos Jorge Velho, em 1694, em caso já citado anteriormente neste capítulo, no qual o seu procurador, Bento Sorrel Camiglio, enviou representação para o Rei reivindicando que o contrato de guerra redigido em 1687 e confirmado em 1693 não fosse anulado, como pretendia o governador de Pernambuco, Caetano de Castro Caldas. O principal ponto do seu argumento era que a participação na guerra no Rio Grande contra os tapuias, em 1689, ocorrera com os seus próprios recursos, o que não constava no contrato de guerra. Quando o terço paulista chegou aos Palmares, no final de 1692, as condições não eram as mesmas de quando o contrato fora formado em 1687, e por isso a guerra não pôde ser mantida sem a ajuda do governo local. Assim, conforme a alegação enviada ao Rei, a manutenção da guerra deveu-se exclusivamente à especial fidelidade e à dedicação do terço paulista à Coroa lusa, que socorreu a povoação em estado de emergência militar mesmo sem que isso constasse no contrato. Por isso, devido a todo o esforço dedicado “como as obrigações dos contratos são mútuas, e recebem sua lei de convenção das partes, segue-se que por qualquer delas que falte ao convenido [sic], fica o contrato quebrado e nulo para aquela das partes que faltou, ora esta foi Vossa Majestade”99. O Procurador de Domingos Jorge Velho afirmou, então, que se houve alguma quebra no contrato firmado, teria sido a partir da ação do Rei, por não o honrar em sua integridade; nenhuma 99 Todo o documento foi descrito por Ernesto Ennes. Ver: ENNES, Ernesto. As guerras nos Palmares: subsídios para a sua história. Prefácio de Afonso de E. Taunay. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938, p. 213-221. Para uma análise mais pormenorizada sobre o episódio envolvendo o governador de Pernambuco e Domingos Jorge Velho, ver: DARIO FILHO, Luiz. P. Lealdade em construção: a (re)inserção de São Paulo nas malhas administrativas do Império português (1641-1698). Dissertação de Mestrado. Niterói: Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, 2016. p. 149-172. 44 quebra contratual teria ocorrido a partir das ações do sertanista, que teria feito mais em termos de deslocamento e ação militar – com seus próprios recursos e perdendo valiosos combatentes no caminho – do que estava estipulado nos termos do acordo. O segundo caso emblemático ocorreu na Guerra dos Bárbaros, em 1695, quando o Mestre de Campo paulista Matias Cardoso, que substituiu Jorge Velho na batalha do Açu em 1691, abandonou o campo de batalha no Rio Grande, mesmo com a guerra inacabada. Ele e seus homens, ao debandarem da guerra, afirmaram que não haviam recebido os soldos e as peças prometidas previamente, quando acertaram os termos para realizar o serviço junto ao Governo Geral. Com isso, decidiram partir para o Rio São Francisco e se dedicaram à criação de gado100. A altivez do discurso dos sertanistas de São Paulo justifica-se, como afirma Adriana Romeiro, em parte devido ao seu topos identitário – o conjunto de práticas e costumes particulares que foram sendo reproduzidos e reafirmados no planalto paulista ao longo de todo o século XVI e XVII101. Contudo, acreditamos que não apenas isso justificava e orientava as ações dos paulistas, as quais espelhavam também, visto o caso pernambucano, tanto o imaginário do seu tempo, como também suas feridas e insucessos passados. Desde os tempos de D. Francisco de Souza e do fracasso do projeto minerador do início do século, foi-se construindo uma percepção local de que os esforços e as fazendas investidas em um projeto imperial – mesmo que de grande porte– não eram garantia de remuneração régia futura. Isso foi nutrindo o entendimento de que se devia buscar o máximo de garantias possíveis antes de envolver todos os seus recursos em um serviço régio. Ademais, o imaginário da Restauração deu a esses paulistas instrumentos retóricos para pressionar a monarquia, que ainda se via frágil e dependente dos serviços militares de tais homens para garantir a sua soberania territorial na América. 100 Pedro Puntoni narra as dificuldades passadas por Matias Cardoso na guerra do Rio Grande. Em janeiro de 1692, por meio de seu procurador, o mestre de campo paulista reivindicou o pagamento de soldos atrasados. Além disso, fez entrada aos índios do Ceará em novembro de 1693, onde foi gravemente ferido e perdeu seu filho no campo de batalha. Com base nesses acontecimentos, optou por se retirar da guerra pouco tempo depois. Ver: PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros, op. cit., p. 160-163. 101 Adriana Romeiro cita carta do governador das Minas, o Conde de Assumar, em 1717, na qual ele narra seu primeiro encontro com os paulistas e os descreve com profundo estranhamento sobre seus costumes e comportamento. Ver: ROMEIRO, Adriana. Paulistas e emboabas no coração das minas, op. cit., p. 234-235. 45 É nesse contexto que a possibilidade do descobrimento das minas de ouro atuou como um divisor de águas para a Coroa portuguesa, que necessitava dos recursos que os descobrimentos traziam para os seus cofres, fosse através da tributação ou do dinamismo comercial (escravos e mercadorias). Tal fato também seria marcante para os paulistas, visto que a empresa dos descobrimentos trazia à tona o antigo sonho da conquista da riqueza e do prestígio imperial, que as mercês, o controle das datas minerais e dos postos administrativos lhes possibilitariam. Cartas escritas pelo rei incentivando os paulistas ao descobrimento vêm desde 1664, quando Afonso VI escreveu convidando Fernando de Camargo, Fernão Dias Paes, Lourenço Castanho Taques, Guilherme Pompeu de Almeida e Fernão Paes de Barros para prestarem serviços na empresa dos descobrimentos minerais. Houve, inclusive já naquela época, a eleição do baiano Agostinho Barbailho Bezerra como Governador e Administrador das Minas de São Paulo, mesmo que a iniciativa não tenha levado a organização de expedições militares para o descobrimento no período. A matéria voltou à pauta em 1671, quando o príncipe regente D. Pedro II escreveu novamente a diversos paulistas pedindo que formassem tropas para a empresa. Coube a Fernão Dias Paes Leme organizar a expedição que partiu em 1674, tendo o rei nomeado D. Rodrigo de Castelo Branco, Fidalgo da Casa Real, para acompanhá-lo como Provedor e Administrador Geral das Minas. Diversas cartas foram trocas entre Fernão Dias e D. Pedro, assim como patentes foram passadas102. A expedição, que não rendeu frutos e ainda acabou por fazer vítima o próprio Fernão Dias, foi seguida de outras empresas e iniciativas privadas por parte dos súditos da capitania de São Vicente na década posterior. A principal consequência desse movimento, incentivado pelo poder real e que aos poucos fora abraçado pelos súditos locais, deu-se na década de 1690, com o descobrimento das minas dos Cataguases103. 102 LEME, Luiz Gonzaga da Silva. Genealogia paulistana. São Paulo: Duprat, 1903-1905. v. 2, p. 452-454. 103 Garcia Paes Leme, filho de Fernão Dias Paes Leme, armou novas expedições de descobrimento de minerais preciosos na década de 1680. No final da década seguinte, após a consolidação da empresa mineradora, o bandeirante esforçou-se junto à Corte portuguesa para que os descobrimentos oficializados fossem vistos como uma continuação das empresas realizadas pelo seu pai. Com isso, almejava ser remunerado pelos serviços do seu pai e que ele, por sua parte, continuava a prestar para a monarquia. Com isso, foi nomeado e remunerado como o primeiro Guarda-mor das Minas, sendo um dos primeiros a receber sesmarias, direitos de cobrança sobre passagem de rio e datas minerais. Ver: ANDRADE, Francisco Eduardo de. A invenção das Minas Gerais, op. cit., p. 77-78. 46 Os primeiros a se enraizarem na região foram os vassalos das vilas de São Paulo e Taubaté. No entanto, foi apenas a partir da nomeação de Artur de Sá e Meneses para o cargo de governador do Rio de Janeiro, em 1697, que o núcleo minerador começou a ganhar forma. Em viagens efetuadas para as Minas em 1698 e 1699, o governador conseguiu, através da garantia de mercês e recompensas, concretizar uma sólida aliança com os descobridores, convencendo-os a declarar o ouro que já vinha sendo explorado nos sertões do Cataguases104. O núcleo colonial mineiro consolidou-se definitivamente com a publicação do Regimento de 1700 – que viria acompanhado do de 1702105 – que definia os termos políticos e jurídicos que serviriam de base estrutural para a organização daquela sociedade. Reformulando por completo a velha legislação vigente nos domínios português, o Regimento em muito contribuía para a consolidação da dominação dos homens do planalto, com penas leves para crimes cometidos dentro da localidade – como o desvio dos quintos – e a concessão para os descobridores e para os seus acompanhantes da prioridade sobre as datas minerais a serem repartidas antes dos aventureiros de outras partes106. O principal objetivo de Sá e Meneses para a região era claro: trazer os homens do planalto e, consequentemente, os descobrimentos, para à esfera de influência da Coroa. O governador fez a primeira tentativa bem- sucedida no intuito de impor algum tipo de controle metropolitano sobre as minas. Contudo, o próprio Regimento de 1700, aquele que havia viabilizado a estruturação do controle e domínio paulista nas Minas, indiretamente forneceu condições para que polos de poder externos às redes de influência paulista se instaurassem e prosperassem na região mineradora. Esse Regimento inviabilizava o comércio entre as Minas e a Bahia, obrigando o abastecimento comercial ocorrer pelo Rio de Janeiro, além de limitar a quantidade de escravos direcionados a suprir a mão de obra do novo núcleo colonizador para o número de duzentos por ano107. As 104 ROMEIRO, Adriana. Paulistas e emboabas no coração das minas: idéias, práticas e imaginário político no século XVIII. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, p. 50-51. 105 Adriana Romeiro apresenta, com detalhes, os dois Regimentos. Ver: Idem. Ib. p. 58-67. 106 ANDRADE, Francisco Eduardo de. A invenção das Minas Gerais, op. cit. p. 268 107 ROMEIRO, Adriana. Paulistas e emboabas no coração das minas, op. cit. p. 59-62. 47 medidas tinham como principal objetivo fazer com que a economia nordestina não fosse prejudicada e esvaziada pela sociedade que estava emergindo dentro das Minas, garantindo que as mercadorias e a mão de obra não fossem direcionadas em exclusividade para o mercado de maior poder aquisitivo que nascia na região sul da América Portuguesa. Essa circunstância abriu margem para que o preço desses duzentos negros vendidos “oficialmente” fosse exorbitante e garantisse a ascensão econômica de atravessadores da praça do Rio de Janeiro que não haviam estabelecido alianças com os homens do planalto. Portanto, isso favoreceu o comércio ilegal de escravos e de mercadorias vindas do Nordeste, os quais muitas vezes fugiam também do controle paulista. No ano de 1706, Francisco do Amaral Gurgel, colono natural do Rio de Janeiro, recebeu do governador D. Fernando de Lancastre a patente de capitão-mor de Ouro Preto. Além dessa medida, que claramente desafiava o controle e domínio paulista na região, Amaral Gurgel também foi arrematante do contrato das carnes de 1701 – contrato este que representava uma verdadeira “mina de ouro” ao responsável, devido aos lucros certos e seguros que lhe conferia. Por expirar em 1706, a nova arrematação que aconteceria no ano seguinte chamava a atenção dos homenspoderosos da região. Isso incluía o próprio governador do Rio de Janeiro, D. Fernando de Lencastre, que formava “sociedade” com Amaral Gurgel, frei Francisco de Meneses, Manuel Nunes Viana e Sebastião Pereira Aguillar108. Contudo, o plano não saiu da forma por eles desejada. Com a arrematação confirmada pelo governador em carta ao Rei em 1707, um levante paulista capitaneado por Domingos da Silva Monteiro e Bartolomeu Bueno Feio tomou as ruas da região mineradora e, após a ameaça de se eleger um procurador que defendesse seus direitos em Lisboa frente as tiranias de D. Fernando, o governador pareceu oscilar e cancelou o contrato das carnes. Esse levante paulista contra a medida arbitrária do governador, mais do que um ato de hostilidade ao que eles consideravam preços ilícitos e monopólios lesivos à população local – 108 Id., ibid., p. 133-134. 48 prática esta constante dentro da sociedade planaltina109 –, revela também a frustração dos homens do planalto com a sua falta de controle sobre a economia e o comércio da localidade. A constituição de polos de poder e de redes clientelares entre os forasteiros já era mais do que uma simples ameaça à soberania paulista na região. A oposição ganhava contornos reais e concretos, e o próprio levante em si representou uma tentativa por parte dos homens do planalto de tentarem, através da força, intimidar e reprimir seus adversários. No entanto, o esforço não foi suficiente. Apesar da anulação do contrato representar a vitória dos planaltinos, acabou também por revelar um outro lado da questão, que significava justamente o oposto. Bartolomeu Bueno Feio e Domingos da Silva Monteiro acabaram presos e retirados da região de Rio das Velhas pelo reinol Manuel Nunes Viana, evidenciando que a justiça e o controle social já fugiam das mãos dos grupos paulistas. O ano seguinte, 1708, foi marcado por diversas provocações e confrontos entre esses grupos. A guerra veio, sem demora, antes mesmo de começar o ano de 1709. O conflito, que não se estenderia até 1710, acabou com a vitória emboaba e a consolidação de novos grupos dominantes na região. Desde o início da exploração, como vimos, o controle sobre minas foi tratado pelos súditos de São Paulo como um direito de conquista. Sonho antigo da Coroa lusa e das famílias da capitania de São Vicente, os descobrimentos foram percebidos, na narrativa paulista, como serviço prestado ao Rei pelos principais homens da capitania. Reforçava essa versão o fato de que o Rei havia prometido remunerar, na década de 1670, pelo ouro e metais preciosos fossem encontrados, o terço formado por Fernão Dias Paes para o descobrimento das esmeraldas – descobrimento esse que acabou por não ocorrer110. Apesar das promessas de hábitos de ordem militar e de foros de fidalguia firmadas por Artur de Sá e Menezes que pouco se cumpriram111, os Regimentos de 1700 109 John Manuel Monteiro trabalha o episódio envolvendo Bartolomeu Fernandes de Faria, quem em 1710 representou um protesto político contra alta do preço do sal. O paulista, com 200 de seus índios, desceu até a vila de Santos e arrombou o local onde o sal do monopólio estava armazenado, levando o mineral de volta a São Paulo para repartir entre os súditos do planalto. Ver: MONTEIRO, John M. Tupis, tapuias e historiadores: estudos de História Indígena e do Indigenismo. Tese de Livre-Docência, IFCH-Unicamp, 2001, p. 79-81. 110 ANDRADE, Francisco Eduardo de. A invenção das Minas Gerais, op. cit., p. 57-80. 111 Ver tabela de mercês régias para as Minas transcrita por Francisco Eduardo de Andrade, ibid. p. 355-358. 49 e 1702 davam aos paulistas primazia na distribuição de datas e postos na região mineradora. Isso leva-nos a crer que a Coroa corroborava com essa conduta. No entanto, essa prioridade não significava, na prática, o controle absoluto sobre as patentes e as terras das minas. O conflito na região das Minas Gerais teve feitos diretos na vila de São Paulo. No dia 1º de abril de 1709, a Câmara municipal realizou uma sessão em caráter emergencial, com a presença e a assinatura de 117 súditos paulistas. Nela, os oficiais eleitos para cumprir a vereação do ano relataram que tiveram que intervir para aplacar o furor e o ímpeto do povo lá reunido. A multidão requeria q elles em cummum, e geralmente requerião que nomeavão e erão contentes, e querião ao Capitão Amador Bueno da Veiga por cabo mayor desta villa de Sam Paulo com todos os poderes necessarios para a deffença della em todas as occazions que se offerecerem de sua deffença e serco112. Cientes do levante que ocorrera nas Minas através de alguns paulistas que de lá saíram em retirada, os habitantes do planalto temiam por uma invasão em seu território. Por isso, no início de abril daquele ano, cerca de 3-4 meses após o levante tomar corpo, os moradores, em caráter emergencial, nomearam Amador Bueno da Veiga como Cabo Maior e chefe militar oficial da municipalidade – o que foi decidido, pela defesa e para o bem comum, até que o Governador da capitania ou o Rei dissessem o contrário. Só que antes mesmo de um pronunciamento oficial da Coroa, com o agravamento do conflito e com a aproximação de uma vitória militar dos forasteiros nas minas, quatro meses depois, em 22 de agosto de 1709, a Câmara voltou a se reunir sobre o assunto. Nessa reunião foi discutido um requerimento apresentado por Amador Bueno, renunciando o cargo de Juiz de Órfãos, porque iria viajar às minas. A justificativa para a sua partida era que “por bem da patria, e como cabo mayor della corria por sua conta zellar de todo o 112 ACCSP, v. 8, p. 192. 50 bem commum della”113. Afirmava Bueno que iria em tom pacífico, levando quem pudesse, pois havia de combater os descaminhos dos quintos régios e as alterações feitas pelos levantados. A Câmara voltou a realizar uma sessão dois dias depois, em 24 de agosto de 1709. Nela, os oficiais da instituição mandam chamar Amador Bueno para tratar do seu requerimento. Solicitou-se que ele, mesmo indo, cumprisse e guardasse as ordens que do Governador viesse a receber. E que, caso realizasse o contrário do que lhe fosse imposto, prestaria contas com o tribunal divino. A isso, Amador Bueno assegurou que, da sua parte, prometia cumprir e guardar as ordens do Governador, e que “o seu animo, era entroduzir aos seus naturais naquella sua antiga posse, o que havia de fazer por meyos licitos, em ton pacifico”114. Apesar da retórica pacifista na sessão camarária, sabemos hoje que não foi bem assim que as coisas aconteceram durante a viagem de Bueno da Veiga às minas. O terço armado pelo cabo não só se envolveu em conflito armado na sua chegada, no qual foi derrotado, como na estrada que percorreu até chegar ao local da batalha, ocasião em que encontrou com o recém-empossado governador do Rio de Janeiro, Antônio de Albuquerque. Nomeado em julho daquele ano115, Albuquerque avistou os paulistas na região Guaratinguetá e os avisou sobre a importância de se retirarem para as suas terras e de esperarem pelas ordens régias, evitando dar prosseguimento à contenda. Tal aviso foi ignorado pelo grupo armado, que continuou sua marcha116. Esse desdobramento da guerra emboaba na vila de São Paulo é importante, pois indica o sentimento que ali já predominava antes mesmo da batalha final. A última fala de Amador Bueno da Veiga é emblemática, pois trata as minas como posse dos paulistas e revela o sentimento de espoliação que muitos daqueles súditos compartilhavam. Não à toa ele havia sido eleito Cabo Maior e protetor militar da municipalidade após uma sessão ordinária tumultuada na Câmara 113 Id., p. 197. 114 Id., p. 201. 115 ROMEIRO, Adriana. Paulistas e emboabas no coração das minas, op. cit., p. 288. 116 Adriana Romeiro afirma, narrando o episódio pela óptica do Governador, o seu espanto ao encontrar o terço paulista. O exército era composto por várias tropas de gente,oficiais e cabos eleitos em patentes de mestre de campo, sargento-mor e capitães. Tratava-se de pouco mais de dois mil homens, quando se somavam negros e índios da terra. Ver: ROMEIRO, Adriana. Paulistas e emboabas no coração das Minas, op. cit., p. 299-300. 51 Municipal, que contou com a presença de 117 homens das principais famílias locais. Sua fala e indignação, para além de expressão individual de inconformidade, revela também o estado de espírito de parte considerável dos membros daquela comunidade. Soma-se a isso o fato de que a formação do terço militar para a proteção da vila e, posteriormente, para a realização de uma expedição militar contra as Minas, não teve oposições no Senado da Câmara. Apenas foi dado um aviso por parte dos oficiais eleitos – e não por nenhum dos membros da população –, para que houvesse prudência e parcimônia nas suas ações. E isso foi feito provavelmente porque os vereadores e o juiz ordinário temiam o pior em termos de retaliação régia caso o ato militar fosse condenado pelo Rei. Coube à Coroa, ciente do peso que a guerra e a perda dos seus privilégios nas minas traziam para os vassalos de Piratininga, fazer concessões às famílias da região. Ao ser empossado Governador da nova capitania de São Paulo e Minas de Ouro, em 12 de junho de 1710, Antonio de Albuquerque tinha como principal responsabilidade pacificar o conflito. No dia 7 de julho ele convocou uma junta geral dentro da vila de São Paulo. Ao iniciá-la, leu uma carta enviada pelo Rei, D. João V, na qual o monarca afirmava que para reparo da attenuação della ocasionada com as inquietações das minas, e sua alteração não podiam duvidar em obedecer ao dito Senhor em continuarem com o mesmo commercio, e continuação ás minas, e sua asistencia, mas na certeza de que se conservariam as que nellas assistiam, com justiça, e sem vexação alguma occasionada pelos forasteiros117. A preocupação principal do soberano luso, como é possível perceber, era que as minas (sua ocupação e abastecimento) não fossem afetadas pela contenda que lá se estabeleceu. Para isso, o monarca garantiu, com carta escrita de seu próprio punho, que aos paulistas fosse feita justiça, 117 O documento encontra-se transcrito por Affonso de E. Taunay. Ver: TAUNAY, Affonso de E. História geral das bandeiras paulistas. São Paulo: Museu Paulistas, 1948, v. 9, p. 607. 52 sem prejuízo frente ao levante realizado pelos forasteiros. Como descobridores das minas que foram não se poderia impedir o quererem voltar às suas casas os que lá se achavam nas Minas e poderem tratar de suas conveniencias. Em tudo o mais se remettiam ao encargo com que estava o novo Governador de os proteger, e amparar em tudo o que fosse mais conveniente para o seu aumento e o socego em que queriam viver, como tão leaes vassalos como se prezavam de ser118. Com os ressentimentos provocados pelo conflito, a preocupação do Rei com a reação dos paulistas era evidente. Assim, colocou o governador Antônio de Albuquerque a seu serviço, para garantir o regresso pacífico destes para a região das minas. A estratégia para pacificar a região passava, dessa forma, não pela punição direta dos envolvidos, mas pela garantia da manutenção da soberania portuguesa nas Minas. Sem recursos e sem exército, a Coroa via-se em uma situação em que era obrigada a, antes de condenar o ocorrido, garantir que a contenda realmente fosse resolvida. Por isso, não apenas pela leitura da carta régia foi marcado o trabalho dessa junta reunida por Antônio de Albuquerque. Houve também um esforço para tratar de questões locais que incomodavam os homens de governança da vila. Tratava-se do abastecimento do sal, que parte da população se queixava de que os contratadores o exploravam. Reclamou-se também da abertura de um novo caminho para as Minas, pelo Rio de Janeiro, onde ocorria muito descaminho de ouro, indicando-se que apenas devesse ser mantido o caminho de São Paulo. Reivindicou-se que São Paulo fosse elevada de vila a cidade, tornando-se capital da nova capitania criada. Pediu-se, ainda, a fundação de um Bispado na região. O novo governador prometeu que interviria junto ao Rei 118 Id., p. 608. 53 para que as demandas paulistas fossem atendidas119. O Bispado não se concretizaria, mas a elevação do estatuto de São Paulo de vila para cidade foi analisada pelo Conselho Ultramarino entre 1710 e 1711, sendo confirmada, com prontidão, por D. João V em 11 de junho de 1711, tornando-a capital da nova capitania. É interessante perceber que os oficiais da câmara de São Paulo buscaram se beneficiar da presença do governador para terem essas demandas atendidas, assim como da circunstância da derrota militar e da expulsão da região mineradora, de modo a reivindicar antigos pedidos e obter vantagens junto ao Rei. Observando a postura da Coroa de enviar Antônio de Albuquerque, recém- empossado, para a vila a fim de realizar uma junta geral e de ler uma carta régia com um discurso não repressivo, os homens de governança do planalto perceberam que havia um espaço de negociação, e buscaram aproveitá-lo. Tendo perdido o monopólio sobre os postos e sobre as terras, além de terem sido expulsos de certas regiões das Minas Gerais, os paulistas agora viam a sua vila natal transformada em uma cidade, elevada a centro administrativo da nova capitania mineradora. Perdia-se ali, ganhava-se aqui – como era costume na cultura política ibérica entre Rei (pai) e súditos (filhos) ultramarinos. Nada disso apagou, contudo, a ferida deixada pela perda da guerra e pela impossibilidade de os paulistas controlarem as minas. Em contrapartida, no que dizia respeito aos interesses por parte da Coroa, havia o desejo de estimular os sertanistas de Piratininga a continuarem com os descobrimentos. O investimento dos paulistas no descobrimento de novas regiões com minas de ouro e de metais preciosos, então, continuou. A documentação do Registro Geral da Câmara de São Paulo da década de 1710 aponta que esses homens buscavam novas minas onde pudessem exercer o controle e o monopólio de terras, cargos e patentes. Em 27 de outubro de 1713, Sebastião Pinheiro Raposo reportou à Câmara notícias sobre um sítio com esmeraldas, local que teria visitado na companhia de Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias Paes. Pinheiro Raposo ofereceu-se para explorá-la, com o que o govenador concordou. Em caso de descoberta, o governo ofereceria 119 Ibid. 54 tença, hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo e foro de cavaleiro fidalgo da Casa Real para o seu filho, Antonio Raposo Tavares120. Em 15 de novembro de 1715, há registro de uma carta escrita pelo Vice-Rei do Estado do Brasil aos oficiais da Câmara de São Paulo falando sobre descobrimentos de minas nas regiões do Pitanguy e Pará. Sem informar quem seriam os descobridores, dava duas provisões. Uma dizia respeito aos dízimos a serem cobrados, e a outra trazia instruções a pleitos ordinários de crimes121. Em 6 de setembro de 1717, o Governador Pedro de Almeida, Conde de Assumar, escreveu à Câmara encarregando Amador Bueno da Veiga da diligência de novos descobrimentos de ouro122. Quinze dias depois, em 21 de setembro, ele passava provisão a Amador Bueno para nomear oficiais para o novo descobrimento, para melhor governo e administração das Minas123. As Minas de Cuiabá inserem-se, então, dentro de um contexto de intensa procura por novos descobrimentos. Isso tanto por parte da Coroa, desejosa de aumentar os ganhos da Fazenda Real, quanto dos paulistas, que não queriam deixar morrer suas ambições socioeconômicas atravessadas pelo conflito emboaba. Em 31 de outubro de 1719, discutiu o Conselho Ultramarino: que uns sertanistas da mesma comarca [de São Paulo] tinham feito um descobrimento no sertão que dava esperanças de grandezas de ouro e que este era em um sítio mui perto do de Paraguai, e tão vizinho de ondeassistem castelhanos, que poucos dias antes ou depois tiveram os ditos sertanistas fala com eles124 Quando Rodrigo César de Menezes tomou posse como Governador da Capitania Real de São Paulo, em setembro de 1721, já havia se passado três anos dos mais novos descobrimentos 120 RGCSP, v. 4, p. 103-104. 121 RGCSP, v. 4, p. 180-182. 122 RGCSP, v. 4, p. 241-242. 123 RGCSP, v. 4, p. 270-71. 124 O documento encontra-se citado em: FERNANDES, Luis Henrique Menezes. Minas do Cuiabá, ilha dos sertões, op. cit., p. 7. 55 minerais no centro-sul da América lusa. Existia na corte a expectativa que as minas encontradas nos arredores do rio Cuiabá fossem tão grandiosas como as das Minas Gerais, o que César de Menezes veio a reforçar em cartas ao rei em 1722125 e 1724126. Em 20 de novembro de 1724 escreve ao Vice-Rei do Brasil narrando Agora posso sem o menor escrupulo segurar a V. Exa. que as minas de Cuyabá são minas permanentes, q assim o prometem as grandezas dos modernos descobrimentos, q se fizerão, e pello tempo adiante avultarão mais127 A carta afirmava ainda que seria enviada uma frota com cinco arrobas de ouro, advinda dos quintos das novas minas, que já rendia frutos concretos. A garantia dos novos descobrimentos e do ouro para os cofres régios trazia benefícios e responsabilidades. Especialmente por as minas se localizarem, como se discutiu no Conselho Ultramarino, em região próxima da fronteira da América espanhola. Vale lembrar que o histórico de altivez e insubordinação dos paulistas contava com o episódio da (quase) aclamação do Amador Bueno em 1640, na qual parte dos súditos que moravam na vila de São Paulo eram espanhóis e ameaçavam não reconhecer a Restauração portuguesa128. Tal fato foi relembrado explicitamente pelo Governador em carta ao Rei, no dia 20 de dezembro de 1722. Em seu relato, afirmava estar preocupado por as minas “não estarem em muita distância dos castelhanos”. Havia boatos de que os paulistas teriam chegado a “prenunciar [o que não é fácil de averiguar] que, se Vossa Majestade os não premiasse, se sujeitariam a quem lhos faça […] e porque honrando-os e perdoando-os Vossa Majestade, não só ficarão contentes, 125 Sobre a abundância do ouro nas minas do Cuiabá e conveniência da abertura de um caminho para elas. Documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo, v. 32, p. 13. 126 Enviando [ao rei] notícias das minas de Cuiabá. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 32, p. 54. 127 Registro de uma carta escrita ao excelentíssimo senhor Vice-Rei. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 20, p. 132. 128 Tratamos sobre a “aclamação” de Amador Bueno na nota 22. 56 mas sujeitos”129. A preocupação do Governador fazia sentido. À circunstância de aproximação geográfica somava-se não apenas o histórico dos homens de São Paulo, cuja lenda negra falava por si, mas também à ferida aberta com a perda do monopólio das datas, cargos e mercês nas Minas Gerais. Sabendo dos interesses que os descobrimentos causavam no afluxo de reinóis e de agentes da Coroa portuguesa nas Minas do início do século, a pressão pelo controle da região aurífera recém- descoberta não deveria ser pouca. Assim, havia muita pressão para que o Governador remunerasse os paulistas e garantisse o controle do grupo sobre os ofícios e as terras atribuídos na região. Em uma carta escrita ainda em dezembro de 1722 ao Vice-Rei, relatou Rodrigo César de Menezes que o ânimo destes homens estava bastantemente empedernido, concorrendo o seu avesso gênio para lho fazer endurecer mais, e os que se acham no novo descobrimento [de Cuiabá] lhe excediam, pois publicavam que ainda tinham as feridas frescas do que nas Minas Gerais experimentaram, porque havendo sido os descobridores, foram os que sem honra nem riqueza ficaram, e porque assim não consentiriam passasse àquelas minas ninguém, alargando-se alguns a mais, dizendo que se os apertassem, dariam obediência a quem lhes atendesse, pois até aqui o não haviam devido a Sua Majestade, e como se não acham em muita distância dos castelhanos, se fazia este particular bastantemente vidrento130 A este relato, escrito no final do ano de 1722, soma-se outro, mais antigo, de 22 de abril do mesmo ano. Nele, Rodrigo César de Menezes afirmava já ter alertado o Vice-Rei – que era seu irmão, Vasco Fernandes César de Menezes – sobre o temor dos súditos de São Paulo de serem ignorados em suas reivindicações socioeconômicas no que dizia respeito às minas descobertas. 129 Dando mais noticias sobre as minas de Cuyabá e do que lá se passa. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 32, p. 58-59. 130 Para o Senhor Vice-Rei. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 20, p. 35-36. 57 Tal posição consta explícita na carta: os paulistas, “os primeiros descobridores das Minas Gerais, eram hoje os únicos que se achavam pedindo uma esmola, e que agora, sendo também destas [Minas de Cuiabá], lhe sucederia o mesmo”131. Logo, para que os interesses régios fossem garantidos na região, era necessário dar provas aos homens do planalto de que a história a partir de então seria diferente, ou de que, pelo menos num primeiro momento, não só de promessas se fariam as ações e as decisões da Corte. O governo de São Paulo – para viabilizar o núcleo colonial recém-fundado em Cuiabá – precisava atender as demandas daqueles sertanistas, de modo a alcançar seu objetivo final, que era o de engrandecer a fazenda real portuguesa através do recolhimento do quinto. Tal situação fica clara nessa mesma carta, de abril de 1722. Nela, o Governador paulista trata sobre a escolha dos ocupantes para os cargos de Guarda-Mor das Minas e Capitão-Mor das Minas – respectivamente, Pascoal Moreira Cabral e Fernando Dias Falcão. Apesar de a decisão ter sido tomada de forma independente pelos sertanistas descobridores, que tocavam a empresa, César de Menezes preferiu não se opor aos nomes indicados. Afirmou que aceitava “a eleição por ora, assim por entender estava bem feita, como por ser necessário levar aquela gente com algum temperilho, porque em semelhantes ocasiões é o que mais vence”132. A opção pela prudência parecia ser o mais razoável ao governante, pois a composição junto aos paulistas, mesmo tendo que tolerar o caráter altivo e insubordinado presente em algumas das decisões do grupo, era, na sua opinião, a melhor estratégia a seguir. Prudência essa que a Coroa parecia compartilhar, visto que, em 9 de julho de 1723, impediu que o Secretário do Governo de São Paulo aumentasse seus próprios ordenados a partir da criação de um novo imposto sobre o tráfego a Cuiabá. Um novo tributo seria um motivo “grande gravamem para os Paulistas que foram para as ditas minas q por esta concideração não tem logar a defirir se a vossa reprezentação”133. Ou seja, o aumento de imposto teria que vir de outro lugar 131 Registro de uma carta escrita ao Vice-Rei do Estado. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 20, p. 22. 132 Id., ibid., p. 20. 133 Carta Régia proibindo que o secretário do governo de São Paulo tenha os seus ordenados elevados por meio de um imposto sobre os que iam a Cuiabá. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 18, p. 80. 58 que não fosse da criação de uma nova taxa que pudesse desencorajar os paulistas a prestarem os seus serviços. Outro caminho que revela a cautela com a qual foram tratados os paulistas naquele momento pelas autoridades régias foi o esforço de Rodrigo César de Menezes para que muitos deles fossem perdoados por seus crimes. Para a cooptação desses sertanistas, em um momento histórico delicado de tensionamento nas relações com a monarquia lusa, compreendia-se o poder régio como misericordioso em suas ações e intenções. Outra força importante nesse sistema era a necessidade que a Coroa tinha dos serviços dos paulistas e da sua lealdade para a exploração das minas.Sobre os irmãos Lourenço Leme e João Leme, no caso narrado na introdução desse capítulo, a situação marcada pela tentativa de cooptá-los – antes de resolver prendê-los – explicita exatamente essa visão e essa estratégia. Denunciados por diversos crimes cometidos em Cuiabá, os Leme ainda se negavam a conformar com o Governador, sempre pedindo mais do que lhes era proposto. Em mais uma carta ao seu irmão, Vice-Rei do Estado do Brasil, no dia 23 de julho de 1723, o Governador defende que é necessário cuidar muito em contentar estes homens, principalmente aos dois que vieram, porque de outra sorte se desmancharia o que está feito, porque voltando para aquelas minas com o séquito que nelas tem, e o mais que se lhe havia de agregar, por se não compor esta capitania mais que de homens criminosos, fugindo sempre de seguir o partido de El-Rei, e sujeitando-se ao pior, sem dúvida resultariam irremediáveis as consequências134. Todo o esforço valia para evitar a irremediável consequência de não fazer aquelas minas prosperarem. Mesmo que, segundo as palavras do próprio Governador, houvesse casos de tomar decisões como aquela, onde “he preciso fazer do ladrão fiel”. O caso dos irmãos Leme, contudo, 134 Registro de uma carta escrita para o Vice-Rei. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 20, p. 67-68. 59 acabou saindo do seu controle: no fim, optou-se por fazer da sua punição um caso exemplar de afirmação do poder régio na Capitania, ainda no mesmo ano de 1723. A documentação, no entanto, não aponta para alterações dos paulistas em relação a sua decisão. A rapidez da captura e da prisão dos irmãos indica, ao contrário, uma possível colaboração entre diversos poderes – civil, jurídico e militar – para resolver a questão. O próprio genealogista Pedro Taques de Almeida Paes Leme, quando apresenta a história dos irmãos Leme em sua obra, condena as suas ações. Acusa-os de terem sequestrado três mulheres - filhas bastardas de João Cabral - para serem suas concubinas. Quando decidiram pelo sequestro de uma quarta filha, dessa vez legítima, João Cabral decidiu por tirar a própria vida. Outra morte implicada aos irmãos pelo genealogista foi a de Antonio Fernandes Abreu, sobrinho de famoso sertanista paulista, homônimo seu, que participou da expedição militar aos Palmares na tropa de Domingos Jorge Velho135. Se o caminho seguido por Rodrigo César de Menezes até ali era o da prudência na condução dos assuntos administrativos, justamente por ter consciência da altivez local, isso ocorrera apenas pela necessidade. Possivelmente, depois de muito tentar a colaboração, não vislumbrou uma alternativa de conduta devido à disputa e ao constante desafio que os Leme faziam da sua autoridade. Deve-se ressaltar que o caso em nada mudou a política do Governador quanto à concessão de perdões como forma de remunerar serviços e de gerar fidelidade dos súditos de São Paulo. Fernando Dias Falcão, eleito Capitão-mor das minas, recebeu perdão régio diretamente da pessoa do Governador, no dia 13 de janeiro de 1724. Na carta concedendo o benefício, dizia ao paulista que “lhe perdoo em nome do dito Senhor Rei os crimes q tiver, por ter faculdade para o fazer do dito Senhor”136. A autoridade para conceder perdão já havia sido utilizada anteriormente, em 1723, no caso de Luis Pedroso de Barros, que ficou responsável pela construção da estrada que ligaria São Paulo a Cuiabá. Em outra carta ao Vice-Rei, Rodrigo César de Menezes relatou o porquê do 135 Pedro Taques de Almeida afirma que as ações de Lourenço e João Leme eram das atitudes mais indignas que podem realizar os vassalos portugueses. O autor trata dos dois irmãos no título da família Leme de sua genealogia. Ver: LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarquia paulistana, histórica e genealógica. 5ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980, tomo III, p. 22-35. 136 Registro de um perdão e ordem que se passou ao capitão-mor Fernando Dias Falcão. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 13, p. 10. 60 perdão, defendendo “a grande utilidade que se segue à Fazenda Real no serviço que este homem e os seus sócios procuram fazer, achando-se nele e nos mais não só capacidade, mas inteligência e posses”137. O caso de Luis Pedroso de Barros é relevante não apenas pelo perdão que lhe fora concedido ou pela forma que fora cooptado, mas também pelo esforço realizado por César de Menezes para remunerá-lo por um serviço que considerava essencial para a consolidação das minas de Cuiabá. Disse o Governador a Pedroso de Barros, em 23 de março de 1725, que atendendo ao quanto vossa Mercê se faz – não só pela sua pessoa, mas pelo útil serviço que fez na abertura do caminho, de que por mim foi encarregado – acredor da dita honra e mercê que El Rei, nosso Senhor, costuma distribuir aos beneméritos, lhe faço mercê de um hábito de Cristo.138 O processo de habilitação para que Barros recebesse um Hábito da Ordem de Cristo passava não só pela vontade régia, mas pela aprovação da Mesa de Consciência e Ordens em Lisboa. Contudo, em sua retórica para justificar a concessão da desejada remuneração ao paulista, com direito a 50$ réis de tença, o Governador afirmou que a ordem régia acabava por incluir/celebrar os moradores das cidades e das vilas da capitania, “atendendo a hua, e outra couza fosse servido premialos, e honralos, e vendo o dito Senhor a justa reprezentação, q lhe fis se dignou, rezolvendo pudesse prometer em seu nome a merce”. Nesse caso específico, o processo correu bem, visto que, em 8 de maio, Luis Pedroso de Barros, já em posse do cargo de Sargento- mor das Minas de Cuiabá, renunciou à mercê do Hábito da Ordem de Cristo em nome do Mestre de Campo Manoel Dias, seu sobrinho, que receberia a mercê em seu lugar. Como não tinha filhos, 137 Registro de uma carta que se escreveu ao Excelentíssimo Senhor Vice-Rei. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 20, p. 70-71. 138 Registro de uma carta que se escreveu a Luis Pedroso de Barros, com a mercê do hábito de Cristo... Documentos interessantes [...] op. cit., 20, p. 156. 61 transferiu a honra a seu descendente mais próximo, que também era o responsável por introduzir “gado e cavalgaduras” na região139. Rodrigo César de Menezes sabia da importância das mercês e das remunerações régias para os súditos da capitania de São Paulo. Como já analisamos, a autoridade estava ciente do passado recente das Minas Gerais, do histórico de ressentimentos e das frustrações pelos quais os paulistas passaram em relação à expectativa perante as mercês que se achavam merecedores e que – na visão deles – lhes foram arrancadas (pelos reinóis) e posteriormente negadas (pela Coroa). Menezes reconhecia que “só os paulistas foram os que tem feito descobrimentos, pela sua capacidade e largo conhecimento que tem destes sertões”140. A remuneração, porém, não era apenas uma questão de merecimento, mas de necessidade. Entendendo a grande limitação que a distância entre Cuiabá e São Paulo exercia sobre a liberdade dos sertanistas, além de ter ciência de que máquina burocrática que operava era incapaz de impor reais limites às ações daqueles súditos, César de Menezes enfatizava ao rei a importância das mercês. No dia 6 de fevereiro de 1722, cerca de cinco meses depois de tomar posse, afirmou que como a distância em que daqui se acham é grande, e com bastante poder se lhes não pode fazer mal algum, e é certo que nesta casta de gente e em tal caso tem mais lugar a indústria do que a força, espero que Vossa Majestade não dilate essa resolução [de recompensá-los], porque entendo é só o para o que olham141 Por meio dessa estratégia, João Antunes Maciel, um dos descobridores das minas de Cuiabá, posteriormente eleito Guarda-mor da mesma, recebeu, em 2 de março de 1724, o Hábito 139 Sobre a recompensa devida pela abertura do caminho para Cuiabá. Documentosinteressantes [...], op. cit., v. 32, p. 158. 140 Sobre o sossego nas minas do Cuiabá.... Documentos interessantes [...], op. cit., v. 32, p. 51. 141 Sobre a abundância de ouro nas minas do Cuiabá e conveniência da abertura de um caminho para elas. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 32, p. 16. 62 da Ordem de Cristo, com direito a cinquenta mil réis de tença por ano142. Outro caso similar ocorreu quando o Governador, em uma carta ao Rei no dia 5 de setembro de 1722, pediu para que se conservasse Domingos da Silva Monteiro como cobrador de impostos na Casa do Registro do Rio Grande, “pela sua fidelidade e préstimo, e o honre com um hábito de Cristo, com aquelas mercês que costuma fazer aos que tão fiel e desinteressadamente procedem”143. Diversos vassalos da capitania receberam cartas de César de Menezes, que os incentivavam a realizar empresas e expedições de descobrimentos. Exemplo disso é um documento idêntico escrito a Brás Mendes e a outros oito súditos da região, em junho de 1723, estimulando-os a servir na descoberta de minas e, caso algum obtivessem sucesso, “experimentará Vossa Mercê não só os aumentos, mas honras; prêmio que não costuma [o Rei] negar aos que lealmente o servem”144. Fez o mesmo em outubro do mesmo ano, quando escreveu a Pascoal Moreira e outros 4 paulistas, afirmando que sabia de seu zelo, préstimo e cuidados em tudo “aquilo que pertence ao serviço de El-Rei, nosso senhor, como o aumento da sua Real Fazenda, espero que Vossa Mercê não só continue com o mesmo, mas com o seu exemplo faça com que os mais o imites”145. O incentivo constante aos moradores da capitania de São Paulo para que prestassem serviços ao Rei, com promessas de mercês e controles das minas – seus postos, terras e datas – criou um ambiente favorável à colaboração e às realizações de empresas militares. Com alguns daqueles vassalos, mesmo que poucos e ainda em período inicial, recebendo mercês e controlando os principais ofícios da administração de Cuiabá, a confiança entre o Governador e a elite local pôde ser construída e solidificada. Esse era o ambiente encontrado por Bartholomeu Bueno da Silva quando optou por dar prosseguimento a expedição que seu pai realizara décadas antes, mas que havia sido malsucedida devido aos perigos 142 Carta escrita ao coronel João Antunes Maciel em 2 de março de 1724. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 20, p. 93. 143 Sobre a criação do Registro do Rio Grande. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 32, p. 26. 144 Registro de uma carta que se escreveu a Brás Mendes, assistente nas novas minas do Cuiabá, sobre procurar o aumento da Fazenda Real e sossego dos moradores que se acham naquele novo descobrimento. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 20, p. 61-62. 145 Registro de uma carta que se escreveu ao guarda-mor das minas do Cuiabá Pascoal Moreira Cabral, que também serviu de registro das que se escreveram a Domingos Rodrigues do Prado, Manuel Caminha, Domingos Soares e Felipe de Campos, todos moradores das ditas minas. Documentos interessantes [...], op. cit., v. 20, p. 77-78. 63 e às dificuldades. Bartholomeu Bueno da Silva era homônimo de seu pai, Bartholomeu Bueno, famoso sertanista bandeirante, conhecido na historiografia como Anhanguera – em tupi, “diabo velho” –, devido à fama que possuía de apresador de índios146. Bartholomeu Bueno, o filho, foi citado em uma carta régia de 13 de fevereiro de 1721, escrita por D. João V ao governador da capitania, Rodrigo César de Menezes. Na missiva, o monarca afirmou que Bueno da Silva, junto com João Leite da Silva Ortiz (seu genro) e Domingos Rodrigues do Prado (também seu genro), trouxera notícias de metais preciosos “pelos centros dessa America”. Haveria também na região, porém, povo gentio bárbaro que precisava ser enfrentado. Súditos tinham escrito ao El-Rey carta régia oferecendo-se para combatê-los e conquistá-los. Ao Governador, o Rei pedia que se verificasse a procedência dos vassalos, suas condições de realizar a empresa, e que, caso fossem de confiança, que lhes passasse regimento e os ajudasse no cumprimento da diligência147. César de Menezes passou, em 30 de junho de 1722, regimento para a empresa militar, com quatorze capítulos148. Ao Rei escrevia, em 3 de setembro de 1722, informando que havia enviado Bartolomeu Bueno e João Leite para a conquista daqueles sertões, pois eram pessoas importantes da capitania, ricos e com grande conhecimento do sertão149. Havia uma história – na qual é difícil discernir entre o que é real e o que é mito – que dizia que Bartholomeu Bueno tinha acompanhado o pai, o famoso Anhanguera, em uma jornada àqueles sertões no combate aos índios da nação Goyá, quando tinha apenas doze anos de idade (o que teria ocorrido por volta de 1684). Em 1722, já com quase cinquenta anos de idade, incentivado pelas descobertas das Minas de Cuiabá e com uma maior colaboração da Coroa, decidira revisitar o caminho que fora anteriormente traçado com o seu pai. Segundo tal relato, a região habitada pelo povo gentio possuía valiosas minas de ouro e prata150. Contudo, no início de 1725, mais de dois 146 Azevedo Marques é quem narra a história, transcrita pelo organizador da coletânea, Antonio de Toledo Pizza. Ver: Documentos interessantes [...], op. cit., v. 12, p. 60. 147 Documentos interessantes [...], op. cit., v. 12, p. 60. 148 Id. p. 53-59. 149 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 3, doc. 250. 150 Documentos interessantes [...], op. cit., v. 12, p. 60. 64 anos após a partida, não havia notícias sobre a expedição militar liderada por Bueno da Silva. Em 3 de abril, Rodrigo Cesar de Menezes afirmou que havia obtido informações com o Marquês de Abrantes de que cinco homens que compunham a tropa haviam se apartado dela; desesperados, foram encontrados passando necessidade. Havia a informação também de “doze índios fugidos, dos vinte que lhe havia dado para o acompanharem, e o que dizem combina com o que o Marquez de Abrantes me participou”. Sob essas circunstâncias, e tendo sido assegurado por outros sertanistas de que havia outro e prata naquele sertão, decidiu o Governador socorrer a tropa de Bartholomeu, com gente e pólvora151. Em 10 de abril escreveu carta à Câmara municipal de São Paulo, alegando que não se podia negar ajuda ao sertanista, que estaria em apuros, com poucas forças para resistir a multidão de gentios que enfrentava152. Em uma carta régia de 24 de setembro de 1725, D. João V aprovou o socorro enviado pelo Governador ao sertão de Goiás153. O retorno de Bartholomeu Bueno a São Paulo se deu em outubro do mesmo ano. Em uma carta do Governador ao Rei, no dia 27 de outubro de 1725, narrou que o sertanista ficara três anos e dois mezes sem poder acertar a paragem que buscava, por haver quarenta anos que tinha visto, de cujo dilatado tempo se seguiu dificultar-se o que a fantasia lhe facilitava, e sem embargo de se ver diminuído de forças, por se lhe haver morrido e desertado a maior parte de gente que o acompanhava, não afrouxou a diligencia, porque, como valoroso, constante e leal vassalo de Vossa Magestade, desprezou evidentes perigos que trazia diante dos olhos, assim pela multidão de gentio bárbaro que continuamente se avizinhava com ele154 Elogiava, por fim, as ações do seu genro, João Leite da Silva Ortiz, que perdeu vinte e dois 151 Idem, p. 61. 152 Documentos interessantes [...], op. cit., v. 20, p. 165-166. 153 Documentos interessantes [...], op. cit., v. 13, p. 168-170. 154 Id. v. 12, p. 64. 65 escravos no conflito com os índios. Recomendou a ambos, por fim, as mercês que “Vossa majestade costuma distribuir com os beneméritos”. Sesmarias foram passadas para a região com prontidão, em 2 de julho de 1726, com o Bartholomeu Bueno da Silva e João Leite da Silva Ortiz adquirindo seis léguas de terra, que ficavam, cada uma, com passagens de riosem seu interior. Os dois e suas famílias teriam também o controle sobre as passagens sobre os rios Iguatibaia, Jaguari, Rio Pardo, Rio Grande, Rio das Velhas, Rio Parnaíba, Rio Meia Ponte e Rio dos Pasmados. Renunciaram ao direito de passagem de dois, dos rios Mogi e Sapucaí, deixando para que suas passagens fossem administradas por Bartholomeu Paes de Abreu, irmão de João Leite e pai do genealogista Pedro Taques Paes Leme155. Ansiando e desejando mercês e remunerações régias pelos seus serviços prestados ao Rei desde o início do século XVII, as principais famílias do planalto viveram, ao longo do século XVII, num cenário de altos e baixos. Se o projeto minerador de D. Francisco de Souza havia sido abandonado de forma abrupta pela monarquia espanhola, junto com o sonho de se tornarem uma elite imperial, na segunda metade do Seiscentos a monarquia portuguesa necessitada de serviços militares nos sertões americanos representou uma oportunidade que os sertanistas souberam aproveitar. A descoberta de ouro nos sertões dos Cataguases, na década de 1690, significou, nesse contexto, o resgate do principal anseio de uma ambiciosa elite: ter o monopólio de mercês, cargos e terras nas minas recém-descobertas, além de ascensão de grupo dominante, de influência em todo império luso. Contudo, a realidade guardava tonalidades mais cinzas do que as projeções idealizadas pelos súditos de São Paulo. Privilegiados nos regimentos das minas de 1700 e 1702, o grupo paulista perdeu o controle sobre as Minas para reinóis e forasteiros que, auxiliados por autoridades nomeadas pelo Rei, conseguiram desestabilizar o monopólio paulista, adquirindo para si terras, cargos e riqueza mineral. A quebra do monopólio e a guerra emboaba ocorrida na sequência sepultou o sonho do ouro paulista, deixando ressentimentos e feridas abertas no seio da oligarquia 155 Id., p. 64-65. 66 local. Quanto à Coroa, coube ao recém-nomeado Governador Antônio de Albuquerque tentar uma composição com a Câmara de São Paulo que encontrasse formas de amenizar as dores e minimizar os danos deixados pelo conflito. A elevação da vila ao estatuto de cidade, capital da nova Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, veio acompanhada da única saída possível para a crise: continuar com as expedições para a realização de novos descobrimentos minerais no interior da América lusa. Para a monarquia, o ato representava a oportunidade de continuar aumentando a arrecadação régia e a manutenção da lealdade do único grupo que se mostrava capaz de realizar a empresa. Para os paulistas, mesmo que marcados pelas frustrações recentes, significava a renovação do sonho do ouro, do enriquecimento, e do recebimento de mercês e remunerações régias. A descoberta das minas de Cuiabá, em 1718, representou apenas o primeiro passo nesse processo de reconciliação. Após a chegada do governador Rodrigo César de Menezes e a emancipação territorial das Minas Gerais criou-se o espaço para a reconstrução do elo de confiança entre as partes. O comprometimento do Governador em agradar os paulistas (com promessas) e cooptá-los (com mercês, mesmo que pontuais) – sendo esse o único caminho para a consolidação do núcleo minerador – viabilizou que novos horizontes pudessem ser construídos, tanto nas possibilidades em expansão do Estado do Brasil, quanto com a descoberta de Cuiabá e Goiás. Tal comprometimento de Menezes, como se viu neste capítulo, estava atrelado às oportunidades econômicas e sociais que ambicionavam os súditos paulistas, sedentos de glória, riqueza e reconhecimento social que se achavam merecedores. 1.3 Considerações finais A segunda metade do século XVII foi um momento histórico marcado por redefinições. Restaurada a monarquia portuguesa em 1640, uma imensidão de possibilidades apresentou-se para os súditos do ultramar, assim como uma infinitude de oportunidades. Segundo Evaldo Cabral de Mello, a Restauração Pernambucana frente aos holandeses marcaria o tom da relação política entre a capitania e Lisboa a partir de 1654. A conquista de Pernambuco e sua “entrega à Coroa”, em 67 palavras do discurso construído pelos principais da terra, lhes daria direitos específicos. Com o tempo, passaram a almejar uma capitania de Pernambuco com um status diferenciado perante as demais capitanias, onde a câmara de Olinda exerceria lugar de proeminência e os governadores seriam necessariamente escolhidos entre os membros das importantes famílias da região. Contudo, a Coroa portuguesa, em vista da crescente importância econômica que a região do Atlântico Sul vinha ganhando a partir da Restauração, não cedeu às demandas da elite local. Da ferida narcísica gerada através da negação dos privilégios e da indiferença do Rei aos serviços prestados pela oligarquia olindense à monarquia portuguesa, nasceu o sentimento e discurso nativistas, que seria convocado e reforçado pela elite local em diversas situações de crise com a Coroa ao longo do século XVIII156. De forma análoga, a relação entre os principais da terra de São Paulo e a monarquia portuguesa também foi marcada por tensionamentos e insatisfações. Como vimos, nenhum grupo militar da América lusa foi, do ponto de vista militar, tão eficiente e requisitado na segunda metade do século XVII quanto os sertanistas paulistas: eficazes na arte militar colonial, sua presença na Guerra dos Bárbaros, dos Palmares e nos descobrimentos minerais foi decisiva para as ambições régias daquele período. Só que a importância, a competência bélica e os serviços prestados não representaram, sob a ótica paulista, a recepção do reconhecimento e do valor que se achavam merecedores. Tal falta de acolhida teria sido aguda, sobretudo, no que tocou a fundação do núcleo minerador dos Cataguases, onde, se em um primeiro momento lhes fora garantido pela Coroa o controle quase que total das minas, a realidade se mostrou oposta a isso, o que abriu espaço, como em Pernambuco, para uma ferida narcísica. Assim, sustentou-se um sentimento de negação dos privilégios pelos quais tanto lutaram – às custas do seu sangue, vidas e fazendas – que lhes foram retirados pela invasão reinol e pela negligência régia em lhes garantir o que haviam conquistado. Contudo, ao contrário de Pernambuco, o ressentimento paulista veio acompanhado de um esforço por parte de D. João V para que houvesse uma reconciliação entre as partes. Seja pelo 156 MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro Veio, op. cit. 68 interesse da Coroa em descobrir novas minas de ouro e prata para o aumento da fazenda real, ou pelo medo de como os paulistas poderiam reagir caso fossem tratados com indiferença, a documentação é clara em demonstrar que houve real intenção na construção de um espaço de escuta e colaboração. Isso ocorreu tanto no momento posterior ao conflito emboaba, com a formação da Junta na municipalidade por parte do Governador Antônio de Albuquerque, quanto no contínuo estímulo para que os paulistas servissem e descobrissem novas minas. Outro ponto de destaque é o papel central que o Governador Rodrigo César de Menezes ocupou, esforçando- se para incentivar os descobrimentos, remunerar os serviços e ocupar o sertão em uma relação de real colaboração. Assim, viu-se nascer na elite municipal paulista, quando separada do território das Minas Gerais e podendo vislumbrar não apenas as dores do passado, mas de interesses futuros, um sentimento de esperança. Uma esperança atravessada por feridas passadas e pelo receio de novas decepções. Mas, ainda sim, uma esperança. Cabe agora analisar a composição camarária e a realidade social da cidade paulista de 1721 a 1747, ano em que a capitania perdeu sua autonomia. Teriam as principais famílias paulistas da segunda metade do século XVII ficado na vila ou ido para as minas? Caso tenham partido, quem ocupou o seu lugar? Quais grupos teriam realmente se beneficiado desse novo momento?69 Capítulo 2: Uma cidade em conflito: a ascensão reinol e as transformações administrativas na São Paulo setecentista (1721-1748) No dia 1º de dezembro de 1736, os oficiais da Câmara Municipal de São Paulo reuniram- se para, na presença do Ouvidor-geral da comarca, João Rodrigues Campello, realizar a eleição dos membros que ocupariam os cargos da instituição no ano seguinte, 1737. Como de costume, um menino aleatório que passava na rua em frente ao Senado foi escolhido e colocado para escolher um dos pelouros157 que ficavam guardados no cofre do prédio. Ao abri-lo, saíram os nomes dos oficiais eleitos. Foram eles158: Domingos Gonçalves da Cunha e José de Góes e Moraes para juízes; Domingos Barreto de Lima, Balthazar de Godoy Moreira e José Barbosa Pires para vereadores; Francisco Barbosa (último sobrenome rasurado) para Procurador159. Juízes e vereadores eleitos, todos os identificáveis eram membros de família antigas do planalto paulista. Francisco Barbosa, o Procurador eleito, por estar nas Minas e não se encontrar mais na cidade, teve eleição revogada. Uma nova eleição em barrete foi realizada para o cargo de Procurador, para a qual foi eleito o português José da Silva Ferrão. A eleição, no entanto, sofreria mais alterações. No dia 10 de dezembro houve outra reunião entre os oficiais camarários, na qual foi proposta um novo sufrágio de barrete, mas dessa vez para o cargo de juiz, visto que o nome de José de Góes e Moraes teve “impedimento”160. Para o seu lugar, foi eleito o português Manoel Antunes Belém de Andrade. No mesmo dia, tomou posse como almotacé Pedro Taques Pires, influente membro das famílias tradicionais de Piratininga161. Sua eleição como almotacé, cargo simbolicamente de pouco prestígio – mas útil para a apresentação de questões judiciais162 – no mesmo dia da revogação da eleição de José de Góes e 157 Para maiores detalhes sobre como se realizava o processo eleitoral, ver: BOXER, Charles. O império marítimo português (1415-1825). São Paulo: Cia das Letras, 2002, p. 287. 158 Entre parênteses estão os nomes das famílias às quais os eleitos pertenciam. 159 ACMSP, v. 10, p. 494-495. 160 A ata da câmara não releva o porquê do impedimento. Ver: id., p. 496. 161 Já havia exercido o cargo de Juiz Ordinário da Câmara nos anos de 1723 e 1724. Fora eleito também para o cargo de Procurador, em 1731. 162 Entre as responsabilidades do almotacé, estavam: fiscalizar o abastecimento de víveres da cidade; receber as multas impostas pela Câmara aos moradores; resolver pequenas questões judiciais de maneira ágil e rápida; fiscalizar os pesos 70 Moraes não foi coincidência. Em 24 de dezembro, através da ação do ouvidor-geral Campello, Domingos Barreto de Lima e José Barbosa Pires tiveram suas eleições para o posto de vereador também embargadas163. Foi convocada, dessa forma, um novo pleito em barrete para substituí-los. Foram eleitos para ocuparem o cargo dois portugueses: Bartolomeu de Freitas Esmeraldo (20 votos) e André Alvares de Castro (17 votos). Logo, o que parecia uma eleição dominada pelas famílias tradicionais de São Paulo, em um período de 24 dias, acarretou um controle quase completo de portugueses sobre os cargos da instituição no ano de 1737. Pedro Taques Pires, após a decisão do Ouvidor, decidiu agir. Junto a João de Siqueira Preto, apresentou um requerimento na Câmara, em 28 de dezembro. Requeriam que o Alvará firmado pelo governador-geral conde Athouguia e as famílias Pires e Camargo em 1655 – que obrigava as eleições camarárias a dividir os seus cargos de forma igualitária entre membros das duas facções – fosse aplicado para a eleição realizada no final daquele ano. O acordo, realizado com objetivo de colocar fim ao conflito entre as duas famílias na vila 80 anos antes, foi recuperado com intuito completamente distinto da sua intenção original: no século XVII, sua função foi a de pacificar uma vila militarmente instável no período posterior a Restauração portuguesa de 1640164; já na década de 1730, sua função foi a de tentar marginalizar os portugueses que ascendiam economicamente na urbe e que ensaiavam uma maior inserção em sua principal instituição de poder165. Assim, como nenhum deles pertencia à família Pires e Camargo, eles estariam, necessariamente, excluídos do processo eleitoral caso o acordo entrasse em vigor. O Ouvidor João Rodrigues Campello, contudo, não deu seguimento ao requerimento e manteve a eleição da forma e medidas utilizadas pelos estabelecimentos de comércio. Para maiores detalhes, ver: REZENDE, Claudia de A. “Os Almotacés e o Exercício da Almoçataria na Vila de São Paulo (1765-1800)”. Cantareira (UFF), v. 25, 2016, p. 200- 213. 163 As atas da câmara não explicam as razões oferecidas pelo ouvidor para o embargo. Ver: ACMSP, v. 10, p. 499. 164 Trabalhei o episódio no segundo capítulo da minha dissertação. Ver: DARIO FILHO, L. P. Lealdade em construção: A (re)inserção de São Paulo nas malhas administrativas do Império português (1641-1698). Dissertação de Mestrado. Niterói: Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, 2016, p. 117-118 165 Maria Aparecida Borrego apresenta a trajetória desses comerciantes portugueses em São Paulo do século XVIII. Ela comenta a utilização do Alvará por parte das famílias paulistas. Ver: BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. A teia Mercantil: Negócios e poderes em São Paulo colonial (1711-1765). São Paulo: Alameda, 2010, p. 149. 71 como se encontrava. O governador de São Paulo, António Luís de Távora, o 4º Conde de Sarzedas, por se encontrar ausente nas Minas de Goiás, não permitiu aos súditos insatisfeitos a possibilidade de recorrer dessa decisão, deixando ao Ouvidor o poder e a autoridade para encaminhar a eleição. A questão arrastou-se por todo o ano de 1737. Pedro Taques Pires recorreu ao mestre de campo Antonio Pires de Avilla, que se encontrava na Vila de Santos, pedindo auxílio no embate junto ao Ouvidor. Avilla escreveu uma carta, em 10 de janeiro de 1737, à Câmara, ameaçando prender os oficiais eleitos caso não entregassem os seus cargos. Campello reagiu, mas, em um primeiro momento, perdeu a disputa para Pedro Taques Pires. Todos os portugueses eleitos no ano anterior foram destituídos até 28 de janeiro de 1737, cabendo ao Ouvidor reconhecer o Alvará do Conde de Athouguia de 1655, mandando que “se observasse o dito termo na forma que nelle se continua”166. No final do ano, entretanto, a situação apresentava uma outra configuração. Em 29 de novembro de 1737, Gomes Freire tomou posse como Governador-interino da capitania e, em uma das suas primeiras ações, decidiu soltar Pedro Taques Pires, que se encontrava preso através da ação do Ouvidor167. Em dezembro, Campello recebeu um parecer favorável da Relação da Bahia, no qual se definia que os vereadores portugueses depostos em janeiro deveriam exercer suas ocupações168. O debate em torno desse Alvará, por sinal, não era novo na cidade. Em 17 de julho de 1723, o Governador Rodrigo César de Menezes, adotando uma postura de colaboração com a elite paulista que realizava novos descobrimentos minerais no interior da América lusa169, renovou a Provisão régia sancionada em 1655170. O controle sobre os membros eleitos da Câmara Municipal 166 Affonso Taunay transcreve diversos documentos sobre a disputa, narrando os acontecimentos do ano de 1737 em: TAUNAY, Affonso de E. História da cidade de São Paulo no século XVIII. São Paulo: Imprensa Oficial, tomo III, 1931, p. 56-68. 167 Não há referências ao motivo ou data da prisão de Pedro Taques ao longo do ano de 1737. A referência é apenas sobre a sua soltura. Ver: id., ibid., p. 66. 168 Affonso Taunay descreve o documento. Ver: id., ibid., p. 67. 169 Rodrigo César de Menezes foi nomeado Governador da Capitania Real de São Paulo em 1721, em conjuntura onde a viabilização das minas de Cuiabá,descobertas em 1718, era essencial para os interesses econômicos da Coroa. Fora isso, sertanistas como Bartolomeu Bueno se ofereciam para realizar novos descobrimentos, o que resultou com o descobrimento de novas minas em Goiás. Debatemos o assunto no capítulo passado. 170 A confirmação passada por César de Menezes pode ser vista na documentação do Arquivo Histórico Ultramarino. Ver: AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 17, doc. 1656. 72 sempre foi razão de preocupação e de desejo de controle por parte dos habitantes mais antigos de São Paulo. Quando o assunto voltou à pauta, no tensionamento vivido em 1737, ele não era novidade para os membros da comunidade portuguesa que se encontram embarreirados pela sua convocação. A tensão e a disputa entre portugueses e paulistas pelo controle da São Paulo do século XVIII teve forte presença na historiografia a partir do final da década de 1970. Katia Abud e Elizabeth Kusnesof171 demonstram o quanto os filhos de Portugal foram enriquecendo e ocupando postos de poder local – da Câmara, Misericórdia e Ordenanças – com o intuito de sobrepujar as antigas famílias de Piratininga. A polarização desse embate, no entanto, vem sendo relativizada. Evidências documentais demonstram o quanto esses grupos não eram fechados, e enfatizam, inclusive, a existência da união matrimonial entre comerciantes portugueses e membros das famílias antigas do planalto172. Havia, dessa forma, confronto pelo controle municipal entre diversos blocos, não homogêneos, dos quais faziam parte, em todos eles, as linhagens de Portugal e de Piratininga. A pesquisa de doutorado de Maria Aparecida Borrego173 aprofundou o olhar sobre essa problemática. Como veremos ao longo do capítulo, se a estratégia de se casarem com as famílias mais antigas da terra era comum entre mercadores portugueses que se enraizaram na região entre o final do Seiscentos e o início do Setecentos, esse quadro mudou com o passar das décadas. Borrego, abordando a comunidade mercantil portuguesa na São Paulo do século XVIII, demonstra o quanto a opção por alianças matrimoniais endogâmicas passou a ser a principal estratégia de alguns dos grupos desses mercadores. Os que adotaram essa conduta eram, em sua imensa maioria, os que conseguiram adentrar nos postos de maior prestígio das instituições de poder local174, 171 KUSNESOF, Elizabeth. Social nobility and imobility in urban change. São Paulo, 1765 to 1820. San Francisco: congresso f American Historical Association, 1974 e ABUD, Katia Maria. O sangue intimorato e as nobilíssimas tradições: a construção de um símbolo paulista, o bandeirante. 1 ed. Cuiabá-MT: EdUFMT, 2019. 172 MONT SERRATH, Pablo Oller. São Paulo restaurada: administração, economia e sociedade numa capitania colonial (1765-1802). São Paulo: Alameda, 2016, p. 184-185. 173 BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. A teia mercantil, op. cit. 174 Dos 5 membros da comunidade mercantil reinol que alcançaram o posto de juiz ordinário da Câmara Municipal, 4 eram casados no ceio da comunidade mercantil reinol e apenas um, Manuel José Da Cunha, havia se unido em 73 rivalizando com as linhagens mais antigas e causando tensões, como as do ano de 1737. A resistência das famílias tradicionais ao grupo de mercadores, contudo, não era suficiente para embarreirar suas ambições. A ascensão social dos homens de negócio reinóis ocorreu de forma progressiva e ininterrupta, tornando-os, então, parte do grupo dominante na São Paulo do século XVIII. Neste capítulo pretendemos contribuir com essa discussão. A polêmica em torno da eleição para a Câmara Municipal voltou a ser alvo de debate público e de tensão com o Ouvidor-Geral em 1747, apenas dez anos após o tensionamento de 1737. O cenário seria similar no que diz respeito às linhagens antigas de Piratininga monopolizando a eleição e impedindo a candidatura – e até mesmo a participação – de membros da comunidade portuguesa no pleito. O equilíbrio de poderes na região, no entanto, era distinto do de 1737, já que o Governador da capitania, D. Luis Mascarenhas, se colocou ao lado das antigas famílias de Piratininga contra o magistrado e os homens de negócio reinóis. Apesar de vitoriosos na manutenção da eleição de 1747, a queda do Governador no ano seguinte abriu caminho para que Gomes Freire, rival político de D. Mascarenhas e recém-empossado do cargo em 1748, procurasse colaboração com o Ouvidor-Geral e com as famílias portuguesas residentes em São Paulo. Tal fato afetou equilíbrio de poder interno na municipalidade. Almejamos, assim, demonstrar neste capítulo que antes de ser um processo progressivo e inevitável, a ascensão ao poder da comunidade mercantil reinol na municipalidade foi parte de uma disputa política interna na cidade que teve no ano de 1748 momento decisivo. A mudança abrupta de Governador, que passaria a residir fora da municipalidade, foi um elemento central que enfraqueceu as famílias tradicionais na sua luta contra a consolidação reinol no Senado paulista ao longo da década seguinte. Para isso, em um primeiro momento, apresentaremos o intenso afluxo de comerciantes portugueses para o Estado do Brasil entre o final do século XVII e o início do século XVIII, matrimônio com mulher pertencente à família Camargo, linhagem importante de Piratininga. Ver: id., ibid., p. 150- 151. 74 observando motivações, interesses, ambições e expectativas. Em seguida, analisaremos a composição social da Câmara de São Paulo entre 1721 e 1747. Listaremos as principais famílias que controlavam o cenário sociopolítico local, averiguando sua relação de continuidade com as linhagens que dominavam o cenário municipal na segunda metade do século XVII. Em paralelo, averiguaremos o crescimento da participação portuguesa na instituição, na Santa Casa de Misericórdia e na importante função de Capitão-mor das Ordenanças da cidade. Ainda, analisaremos também a trajetória e a queda de D. Luis Mascarenhas e o projeto político da Coroa para a capitania durante o período. Assim como sua relação do Governador com as famílias mais antigas de São Paulo no conflito travado contra o Ouvidor-Geral Domingos da Rocha. Demonstraremos as consequências dessa conjuntura que, mesmo que indiretamente, beneficiavam a comunidade mercantil reinol na municipalidade. Por fim, examinaremos como o ensaio de cooperação e interdependência com as famílias mais antigas de São Paulo reforçado pela atuação de Rodrigo César de Menezes entre 1721 e 1728 – analisado no capítulo anterior desta tese – representou mais um esforço de cooptação dos sertanistas em um momento específico de necessidade da Coroa do que de fato uma política sistemática aplicada pelo governo régio na região durante as décadas seguintes. 2.1 Oportunidade e comércio: a intensa emigração dos filhos de Portugal para o Estado do Brasil no século XVIII José de Góes e Moraes, filho de Pedro Taques de Almeida, foi um dos paulistas mais poderosos e proeminentes da primeira metade do século XVIII. Capitão-mor da cidade de São Paulo, assim como seu pai, conseguiu uma sesmaria em 1717 em Curitiba, para construção de currais de gado e fazendas175. Antes, já havia adquirido terras nos dois lados do Caminho Novo para as Minas Gerais para a prática da pecuária e para o abastecimento de viajantes que transitavam 175 A concessão foi dada em conjunto a ele e seus primos, João Gonçalves Figueira e João Pedroso em 18/10/1713. Ver: RGCSP, v. 4, p. 436-438. 75 para o território mineiro176. O enriquecimento através desses negócios lhe possibilitou, em 1717, arrematar por 300 mil réis o contrato de bebidas para cidade de São Paulo, monopólio comercial que manteve até 1720177. Além disso, comprometeu-se a financiar a construção da cadeia local, em função do arremate. Dentre os mais ricos cidadãos de Piratininga do período, o seu caso é curioso, pois amealhou tamanha fortuna que,em 1708, chegou a oferecer ao Marquês de Cascaias, donatário da capitania de São Vicente, a quantidade de 40 mil cruzados para comprar a Capitania. Apesar do negócio não ter obtido sucesso, a proposta foi oficial e chegou a ser considerada178. Casos como o de Góes e Moraes vêm ajudando a historiografia de São Paulo colonial, desde meados do século XX, a contestar a visão de esvaziamento demográfico, isolamento e decadência comercial da São Paulo do século XVIII – enfatizada por autores da primeira metade do Novecentos179. John M. Monteiro, em tese publicada no final da década de 1980, apresenta uma sociedade paulista capaz de acumular certo nível de riqueza nas mãos de algumas famílias, o que fazia dela profundamente desigual e estratificada desde a segunda metade do século XVII180. Muriel Nazzari, em obra de 1991, confirma a existência de riqueza do planalto do século XVIII, embora, assim como concluiu Monteiro, afirmasse que ela se concentrava nas mãos de poucas famílias181. Fora isso, em tese de livre docência de 1974, Maria Luiza Marcílio aponta para um 176 “Carta de sesmaria dada ao capitão-mór José de Gôes de Moraes por D. Fernando Martins Mascarenhas de Lancastro”, 18/06/1706. In: Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo. São Paulo, Casa Vanorden, vol. 52, 1930. 177 No dia 29 de janeiro de 1717 o assunto foi discutido na Câmara. Ver: ACMSP. v. 8, p. 381-382. Ilana Blaj também analisa a jornada de José de Góes e Moraes. Ver: BLAJ, Ilana. Agricultores e comerciantes em São Paulo no início do século XVIII: o processo de sedimentação da elite paulistana. Revista Brasileira de História. [online]. v. 18, n. 36, p. 281-296, 1998. 178 Suely Robles de Queiroz analisa o caso. Ver: QUEIROZ, Suely Robles Reis de Queiroz. José de Góis e Morais: o paulista que quase comprou São Paulo. Revista de História (USP), v. 42, n. 86., p. 373-387, 1971. Para o relato do genealogista Pedro Taques de Almeida Paes Leme, primo de segundo grau de José de Góes e Moraes, ver: LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarquia paulistana, histórica e genealógica. 5ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980. p. 152-153. 179 Paulo Prado e Caio Prado Jr. defendem essa visão: PRADO, Paulo. Paulística: história de São Paulo. Rio de Janeiro: Ariel, 1934 e PRADO JR, Caio. “O fator geográfico na formação e no desenvolvimento da cidade de São Paulo”. In: PRADO JR, Caio. Evolução política do Brasil e outros estudos. 3ªed. São Paulo: Brasiliense, 1975. p. 104-106. 180 John Monteiro apresenta uma sociedade paulista no Seiscentos que reproduzia a lógica escravista com os índios, na qual famílias como dos Pires, Bueno e Camargo conseguiram acumular poder e riqueza. Ver: MONTEIRO, John M. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 181 Muriel Nazarri trata sobre a presença e a instrumentalização do dote dentro das estratégias sociais das famílias que habitaram São Paulo entre os séculos XVII e XIX. Ver: NAZARRI, Mueirl. O desaparecimento do dote: mulheres, família e mudança social em São Paulo, Brasil, 1600-1900. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 76 crescimento demográfico de 400% na população local no século XVIII. Logo, o que se percebe é um crescimento demográfico na região, o que nos indica uma sociedade que crescia e se dinamizava economicamente, sobretudo no seu comércio com a região das Minas182. Ilana Blaj, seguindo os caminhos abertos por Sérgio Buarque de Holanda183 e Richard Morse184, aponta para uma crescente mercantilização já no Seiscentos paulista. Segundo a autora185, as lavouras do planalto abasteciam o Rio de Janeiro e a região sul da América lusa desde 1680. A mineração não teria, dessa forma, viabilizado essa mercantilização em São Paulo. Ações mercantis já existiam antes dos descobrimentos, tendo as Minas o papel de intensificar e dinamizar a produção e o comércio já existentes, transformando o planalto numa importante região de entreposto comercial. Famílias paulistas já estabelecidas na região desde o século XVII, como era o caso dos Taques Pompeus, do qual José de Góes e Moraes era membro, foram beneficiadas por esse processo, dominando o comércio e o prestígio local na época da separação da Capitania de São Paulo da capitania das Minas Gerais, em 1720. Tal período foi o momento economicamente mais próspero e politicamente mais consolidado que as famílias tradicionais de Piratininga viveram até ali. A contribuição da autora, no entanto, restringe-se até a segunda década do século XVIII. Logo, a documentação com a qual trabalhou ainda não denunciava o intenso movimento de imigração e ascensão social de comerciantes portugueses na cidade ao longo da primeira metade do Setecentos paulista. Elizabeth Kusnesof, em uma pesquisa mais antiga, que abarcou todo o século XVIII, vê os comerciantes reinóis que migraram para o planalto como os principais beneficiados dessa 182 Maria Luiza Marcílio trata com detalhes sobre a transformação demográfica de São Paulo do Setecentos. Ver: MARCÍLIO, Maria Luiza. Crescimento demográfico e evolução agrária paulista (1700-1836). São Paulo: Hucitec/Edusp, 2000. 183 Para Sérgio Buarque de Holanda, o século XVIII vê a transição do espírito de aventura do bandeirante para uma ação mais disciplinadora da vida da produção agrícola e do comércio. Ver: HOLANDA, Sergio Buarque. “Índios e Mamelucos na Expansão Paulista”. Anais do Museu Paulista, Separata do Volume XIII, 1949, p. 289. 184 Morse é um dos primeiros a afirmar que o século XVIII vê a transição do bandeirante marcial e seminômade para o fazendeiro patriarcal na cidade de São Paulo. VER: MORSE, Richard. Formação econômica de São Paulo (de comunidade à metrópole). 2ª ed., São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1970. p. 35. 185 BLAJ, llana. A trama das tensões: o processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo: Humanitas; FFLCH, USP; FAPESP, 2002. 77 mercantilização da região ao longo do século XVIII, já que eles capitalizaram com o abastecimento das minas, passando a direcionar as fortunas originárias do comércio em lavouras canavieiras a partir de 1765186. Fora isso, tais homens tiveram uma presença cada vez maior sobre as instituições políticas da cidade na segunda metade do Setecentos, como aponta a pesquisa de Kátia Abud187. Alfredo Ellis Júnior fala de uma “avalanche” de portugueses invadindo São Paulo ao longo do Setecentos188. Mas, afinal, quem eram esses portugueses? De onde vinham? Como conduziam seus negócios e suas estratégias sociais em Portugal e no ultramar de forma tão eficaz e próspera? A forte presença dos imigrantes portugueses no período não se resumia a São Paulo, mas englobava toda a América lusa, atuando, sobretudo, no abastecimento comercial de cidades e vilas após o descobrimento das Minas. O estudo sobre a presença e a importância desses homens vem ganhando cada vez mais relevância no debate historiográfico sobre o século XVIII do império português. Ana Silvia Scott189 afirma que a pouca ênfase sobre esse grupo em pesquisas anteriores deve-se a alguns fatores específicos, como o fato de dominarem a língua e auxiliarem, dentro da sua própria comunidade, na chegada de membros da mesma região portuguesa, o que lhes dava uma autonomia singular na comparação a outros imigrantes. Também não precisavam recorrer a canais oficiais de recepção de emigrantes, devido ao domínio linguístico e ao uso de sobrenomes similares aos das famílias já enraizadas na terra, o que os tornavam difíceis de serem identificados. Sobre a origem dessas pessoas, Jorge Miguel Pedreira190 analisa o fortalecimento da burguesia portuguesa – sobretudo a classe de comerciantes de grosso trato – na segunda metade 186 KUSNESOF, Elizabeth Anne. “A família na sociedade brasileira: parentesco, clientelismo e estrutura social (São Paulo: 1700-1980)”.In: Revista Brasileira de História. São Paulo: v. 9, n. 17, set. 1988/fev. 1989, p. 47. 187 ABUD, Kátia Maria. Autoridade e riqueza. Contribuição para o estudo da sociedade paulistana na segunda metade do século XVIII. Dissertação de Mestrado. São Paulo, FFLCH-USP, 1978. 188 Alfredo Ellis Júnior foi um dos precursores em apresentar a sociedade paulista do século XVIII como um lugar de dinamização comercial devido ao seu papel de abastecimento à região mineradora. Ver: JÚNIOR, Alfredo Ellis. A economia paulista no século XVIII: o ciclo do muar o ciclo do açúcar. São Paulo: Academia Paulista de Letras, 1979. 189 SCOTT, Ana. S. V. “A imigração portuguesa para o Brasil a partir de uma perspectiva microanalítica”. In: História Unisinos, v. 11, 2007, p. 119. 190 PEDREIRA, Jorge Miguel. “Os negociantes de Lisboa na segunda metade do século XVIII: padrões de recrutamento e percursos sociais”. Análise Social. Lisboa, v. XXVII, n. 116-117 (2º e 3º), p. 407-40, 1992. 78 do século XVIII e aponta para a existência de um grupo de perfil particular de recrutamento e reprodução do qual saía a maioria dos homens de negócio em Portugal por, no mínimo, três gerações – ou seja, desde o final do século XVII. Possuíam características bastante singulares como o alto grau de renovação e parte considerável de seu contingente (35%) vindo da região do Minho, no norte de Portugal. Se levarmos em consideração os que tinham pais ou avôs minhotos, o número sobe para 49%. Outro ponto importante que os caracterizava era o fato de que os que decidiram sair de suas terras e se lançar na vida comercial tinham pais e avós trabalhando, em grande parte, em lavouras ou ofícios urbanos de menor prestígio, como sapateiros e pedreiros. A ascensão social desses “garotos”, que saíam de casa com a idade entre 12-18 anos, dava- se geralmente de duas formas: iam para cidades como Lisboa ou Porto, onde começavam como caixeiros dentro de negócios de parentes (tios, irmãos, primos ou vizinhos), podendo prosperar ou não, dentro da empresa; ou iam para o ultramar, sendo a América portuguesa e suas inúmeras vilas e cidades portuária os locais preferidos para desembarque. Nessas regiões, assim como nas cidades de Lisboa e Porto, eram recebidos e abrigados por rostos familiares, onde começavam sua trajetória de aprendizado no ofício mercantil. Os laços familiares e de solidariedade são enfatizados pelo autor como fatores cruciais para o sucesso da renovação desse grupo. Podiam ascender, atuando como representantes comerciais de homens de negócio de grosso trato em outras paragens, distintas das que os receberam inicialmente. A volta para o reino e um posterior enraizamento na praça comercial de Lisboa dependia do grau de prosperidade que alcançavam em seus negócios. Em outro artigo191, Scott, buscando respostas sobre essa migração constante e ininterrupta por todo o Setecentos, analisa a estrutura da família portuguesa na região do Alto Minho. Diferente do sul português, em comparação à região do Alentejo, a taxa de nupcialidade era baixa, assim como a idade média de casamento era mais alta (25/28 contra 20/21 anos). Soma-se a isso taxas 191 SCOTT, A. S. V. “Velhos Portugueses ou Novos Brasileiros: reflexões sobre a família luso-brasileira setecentista” In: PERARO, Maria Adenir Peraro; BORGES, Fernando Tadeu de (org.). Mulheres e famílias no Brasil. Cuiabá: Carlini & Caniato, 2005. p. 15-35. 79 mais altas de bastardos, configurando um sistema familiar que a autora descreve como troncal. Neste modelo, devido à escassez de terras e de recursos na região, a estratégia de concentrar a herança em apenas um dos filhos, desprovendo os demais, era utilizada como forma de não fragmentar o patrimônio e de não correr o risco de perdê-lo. Logo, era comum que apenas um dos filhos se casasse, consequentemente, sendo alto o número de relações não oficiais e de filhos ilegítimos. Essa conjuntura socioeconômica acabou produzindo o que se tornou uma emigração em massa da região, onde os filhos não herdeiros procuravam oportunidades fora da região para não viver à sombra do irmão privilegiado pela herança. Esse movimento era, então, uma válvula de escape para a população excedentária masculina, que ficava sem contrapartida no sistema de repartição do patrimônio familiar. Júnia Ferreira Furtado192 foi uma das primeiras historiadoras brasileiras a enfrentar, de forma sistemática, o perfil dos comerciantes, mercadores e homens de negócio das Minas Gerais ao longo do século XVIII. A autora demonstra como a comunidade mercantil da região era dominada por homens vindos de Portugal. Sua pesquisa confirma, inclusive, os dados apresentados por Pedreira, que indicam que a maioria desses comerciantes vinham do norte português (77,4%193). Carla Maria Carvalho de Almeida analisa as mesmas Minas Gerais que Furtado, contudo, seu enfoque não se dá na comunidade mercantil como um todo, mas apenas nos mais abastados da região. Analisando de forma pormenorizada o grupo, em uma listagem dá a ver que a imensa maioria dos homens ricos das Minas de 1756 vieram de Portugal (83,9%), dos quais 77,9% vieram da sua região norte194. Avanete Pereira195, para a Bahia, e Helen Osório196, para o 192 FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio: a interiorização da metrópole e o comércio das minas setecentistas. São Paulo: Hucitec, 2006. 193 Ibid. p. 154. 194 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. Ricos e pobres em Minas Gerais: produção e hierarquização social no mundo colonial, 1750-1822. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2010, p. 179. 195 SOUSA, Avanete Pereira. Poder local, cidade e atividades econômicas (Bahia, século XVIII). Tese (Doutorado em História) – Departamento de História, FFLCH, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2003. p. 82-83. 196 Helen Osório demonstra, inclusive, que esse perfil se repetia na cidade de Buenos Aires, onde a comunidade comercial era dominada quase que exclusivamente por comerciantes vindos da região norte da Espanha (sobretudo da região Basca). Ver: OSÓRIO, Helen. “Comerciantes do Rio Grande de São Pedro: formação, recrutamento e negócios de um grupo mercantil da América Portuguesa”. In: Revista Brasileira de História – Brasil, Brasis. São Paulo: ANPUH/Fapesp/Humanitas, n. 39, v. 20, p. 105-106, 2001. 80 Rio Grande de São Pedro, também comprovam a presença de portugueses do norte com forte presença demográfica, enriquecidos e com o domínio das comunidades comerciais de sua localidade. Sobre as estratégias relacionais estabelecidas pelos adventícios portugueses no Brasil, autores vêm analisando as opções matrimoniais para investigar como se dava a sua integração na sociedade luso-brasileira. A endogamia dentro do seio da comunidade mercantil era possível através da vinda constante, ao longo de todo o século XVIII, de jovens, em sua maioria do norte de Portugal que, ao serem recebidos por algum aparentado ao chegar na América lusa, trabalhavam como caixeiros e aprendizes do ofício mercantil. Dos homens que prosperaram, não eram poucos os que acabavam por se casar dentro do seio da própria família que o recebeu. No tocante a casamentos realizados exclusivamente no seio da comunidade mercantil, Jorge Pedreira afirma que era uma estratégia frequentemente utilizada pelos homens de negócio como forma de fortalecer a coesão do grupo e os seus interesses mercantis. Em Lisboa, na segunda metade do setecentos, ele observou que 33% dos casamentos ocorriam dentro do seio mercantil. Esse percentual era de 35%197 para o Rio Grande de São Pedro, entre 1780-1825, e de 32%198 para a Bahia, entre 1680-1725. Carla Almeida, apesar de não apresentar o percentual endogâmico dentro do seu grupo estudado, discorre sobre as estratégias endogâmicas no interior da elite comerciante por ela investigada199. Seus dados demonstram que uniões com elementos das famílias tradicionais da localidade também ocorriam com frequênciae eram a estratégia seguida pelos homens de negócio como um mecanismo de ascensão socioeconômica e como forma de acesso a postos políticos e militares. Em relação a São Paulo, Maria Aparecida Borrego analisa a inserção de um grupo de 100 agentes mercantis que lá atuou entre 1711 e 1765200. Sua pesquisa ateve-se aos homens que 197 PEDREIRA, Jorge Miguel, op. cit., p. 111-113. 198 FLORY, Rae. Bahian Society in the midcolonial period: the sugar planters, tabacco growers, merchantes and artisans of Salvador and the Reconcavo, 1680-1725. Austin: University of Texas, 1978. p. 229-237. 199 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de, op. cit., p. 201-216. 200 BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. A teia Mercantil, op. cit., p. 55-56. 81 participaram das instituições de poder municipal de São Paulo e que apareciam na documentação, em algum momento, envolvidos em atividades mercantis como mercadores, vendeiros, taverneiros, caixeiros, mascates, indivíduos que viviam “de seus negócios” e “de suas agências”, proprietários de fazenda seca e os comprometidos com o transporte de escravos. Nesse contingente, os portugueses formavam mais de 90% do corpo mercantil por ela localizado e 60% deles vinha da região norte de Portugal201. No que toca a estratégias desses comerciantes em alianças matrimoniais, Borrego averigua que 30% dos agentes analisados na pesquisa optaram por desposar filhas de sujeitos diretamente atrelados à lide comercial. Contudo, quando levamos em consideração a inserção de cunhados, primos e avôs das desposadas na teia mercantil, esse número sobe para 60%202, e é consideravelmente superior a todos os casos abordados anteriormente na Bahia, em Lisboa e no Rio Grande. A historiadora, dialogando diretamente com as conclusões da obra de Muriel Nazzari203, afirma que foi apenas no início do século XVIII, no começo do fluxo imigratório de portugueses para a América lusa, que os comerciantes procuraram desposar filhas da elite agrária paulista – o que, se ocorria, era devido às possibilidades sociais de melhor integração social à comunidade e às vantagens econômicas dos dotes trazidos através da aliança matrimonial para os seus negócios. Com o passar do tempo, no entanto, suas transações mercantis bem-sucedidas os fortaleceram economicamente e lhes possibilitaram uma maior inserção política e social nas instituições de poder da cidade. Além disso, o casamento com filhas das famílias tradicionais paulistas deixou de ser a única opção de inserção social em São Paulo, e muitos dos portugueses recém-chegados na cidade preferiram a aliança matrimonial com filhas, irmãs, primas ou netas de homens portugueses envolvidos com a teia mercantil local. Reforça essa tese o fato de que poucos desses reinóis passavam seu ofício para seus descendentes (Borrego encontrou apenas um caso), e o afluxo de 201 Destes, 76 advinham de Portugal, sendo 55 da região do Minho. Apenas 7 tinham nascido na América lusa, sendo 5 deles paulistas. BORREGO, Maria Aparecia Menezes, op. cit., p. 55-56. 202 Ibidem, p. 240-241. 203 NAZARRI, Muriel. O desaparecimento do dote: mulheres, famílias e mudança social em São Paulo, Brasil, 1600- 1900. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 82 portugueses – parentes ou conhecidos – para São Paulo, constante ao longo de todo o século XVIII, tinha por finalidade permitir o início da carreira. Grande parte desses imigrantes eram englobados pelas famílias pertencentes ao comércio local para herdar, através do casamento com filhas, netas, irmãs e netas dessas mercadores, parte dos contatos e dos comércios acumulados pelos parentes das noivas. As razões de a comunidade mercantil portuguesa em São Paulo fechar suas estratégias matrimoniais mais em si mesma do que nas demais regiões pode também refletir a conjuntura sociopolítica do período. Como vimos no início do capítulo, a oposição entre paulistas e reinóis, que ganhou dimensões dramáticas ao longo do embate emboaba, encontrou ecos também dentro da cidade de São Paulo, e isso bem antes do episódio ocorrido no final de 1736. Já em 3 de outubro de 1722, o recém-empossado governador, Rodrigo César de Menezes, informou ao rei D. João V que, logo ao tomar posse, providenciara a saída para a Bahia e para o Rio de Janeiro dos estrangeiros “que pelo distrito andavam negociando em prejuízo dos seus vassalos”204. O Rei, em resposta à carta de César de Menezes, autorizou que ele desse execução ao pedido. No mesmo ano, ainda antes, em 24 de abril de 1722205, o próprio rei D. João V havia enviado uma carta confirmando a execução do Alvará régio promulgado pelo Governador-Geral, o Conde de Autoguia, em 1655, que garantia a repartição dos cargos da Câmara municipal entre os membros das famílias Pires e Camargo. O documento voltou a ser confirmado pelo monarca em 17 de julho de 1723, pedindo a Rodrigo César de Menezes que “nas eleições, se respeitasse infalivelmente o que estava estabelecido nas provisões”206. Outra questão que revela a articulação de famílias tradicionais do planalto para restringir o acesso de reinóis ao Senado, foi o episódio envolvendo a tentativa da criação do cargo de juiz de fora em São Paulo, em 1735. O governo ultramarino português que, desde a sua criação, transferiu parte das responsabilidades e da autonomia para o governo local através das Câmaras 204 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 3, doc. 280. 205 BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. A teia Mercantil, op. cit., p. 149. 206 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 17, doc. 1656. 83 municipais207, passou a instituir, a partir do século XVII, em certas vilas e cidades, a função de juiz de fora para atuar dentro da câmara208. O ofício de juiz de fora se originou na baixa Idade Média em Portugal, criado para resolver questões locais que necessitvam de instâncias externas. Como era um oficial letrado, fomentava a aplicação do direito oficial na localidade, o que era, pelo menos em teoria, elemento de desagregação da autonomia do sistema jurídico-politico local. Por ser um oficial de “fora”, externo inicialmente às relações internas de poder e influência, funcionava como fator novo no equilíbrio de poder local209. Arno e Maria Wehling enfatizavam que, além das atribuições judiciais, o juiz de fora frequentemente atuou como administrador de bens de defuntos, ausentes e órfãos. Fora isso, mantinha autoridade civil em diferentes situações, presidindo a câmara municipal em ocasiões críticas210. Maria Fernanda Bicalho, trabalhando com a criação do cargo na Câmara do Rio de Janeiro em 1701, afirma que o período de virada do Seiscentos para o Setecentos viu crescer a vontade da Coroa de cercear o exacerbado poder político e econômico da Câmara. Que a presença de um juiz de fora no Senado era forma de um maior enquadramento político administrativo que a Coroa buscava implementar desde o período posterior à Restauração211. No caso paulista, em 30 de abril de 1735, “homens bons e cidadãos da cidade de São Paulo” enviaram representação ao Rei sobre o fato de que “seus antecessores acharam conveniente a nomeação de um juiz de fora da cidade”. Contudo, argumentavam que a criação do novo cargo 207 A delegação de poder às elites locais era um dos mais importantes pilares de sustentação da monarquia portuguesa moderna. Os casos de Recife (século XVIII) e Salvador (século XVII), analisados, respectivamente, por George Felix Cabral e Thiago Krause, demonstram que a colaboração entre a elite local e os governadores nomeados pelo rei era desejada por parte dos principais da terra, assim como por parte da Coroa. Ver: SOUZA, George Félix Cabral de. Elite y ejercicio del poder en el Brasil colonial: la Cámara municipal de Recife (1710-1822). Tesis (Doctorado en História) – Departamento de História, Universidad de Salamanca, 2007 e KRAUSE, Thiago. A formação de uma nobreza ultramarina: Coroa e elites locais naBahia seiscentista. Tese de doutorado, Rio de Janeiro: PPGHIS/UFRJ, 2015. 208 Maria Fernanda Bicalho analisa a função do juiz de fora. Ver: BICALHO, Maria Fernanda. “As câmaras ultramarinas e o governo do Império”. In: FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima Silva; Bicalho, Maria Fernanda (org). O Antigo Regime nos trópicos: A dinâmica imperial portuguesa. (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. p. 200. 209 SIMÕES, Mariane Alves. Entre o juiz ordinário e o juiz de fora: execução da justiça local e as ações cíveis de Mariana na primeira metade do século XVIII. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Juiz de Fora, Instituto de Ciências Humanas, 2020, p. 146-149. 210 WEHLING, Arno; WEHLING, Maria José. Justiça ordinária e justiça administrativa no Antigo Regime – O caso do brasileiro. RIHGB, a. 172, n. 452, jul./set. 2011. 211 BICALHO, Maria Fernanda Baptista. As Câmaras Municipais no Império português: O exemplo do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de História, v. 18, n.36, São Paulo, 1998. 84 iria afetar o rendimento municipal em duzentos mil réis, o que seria um ônus maior do que o custo gasto para a realização de festas reais dentro da cidade. Fora isso, afirmavam que o Governador – cujo nome não citam – concedera um alvará, confirmado por D. João V, pedindo que o membro de uma das duas famílias, dos Pires ou Camargo, para que servisse nesse lugar de juiz de fora. Terminaram o requerimento pedindo para, caso o cargo fosse criado, que se mantivesse o que constava no alvará212. O documento continha um total de 41 assinaturas. Delas, 18 diziam-se membros da família Pires. Já os outros 23 identificavam-se se como membros da família Camargo. O documento encerra-se com o Conselho Ultramarino pedindo que o conselheiro Diogo de Mendonça Corte Real analisasse o conteúdo da Representação; contudo, não há nele a resolução final tomada. Como sabemos que o cargo de juiz de fora jamais foi criado na cidade, suspeitamos que a pressão do grupo, apesar de a nomeação de um dos membros das duas famílias ao posto não ter sido atendida, acabou desestimulando a Coroa a instituir o posto em Piratininga, já que isso poderia causar um ônus político à administração central em uma região economicamente importante devido às descobertas de minerais preciosos. Desconhecemos a existência de documento que garantiria às famílias Pires e Camargo a eleição de juiz de fora. No entanto, é possível que tenham se valido de retórica como forma de desestimular a Coroa a criar o cargo. Isso não refuta a realidade de que a utilização de tal alvará era um precioso instrumento político nas mãos dos súditos na tentativa de se opor a ascensão econômica e social dos filhos de Portugal no planalto. Não parece acidental que o documento tenha surgido em 1735, às vésperas do tensionamento vivido no final de 1736. A oposição entre os paulistas e os mercadores reinóis já ganhava contornos e não demoraria a entrar em ebulição. O fluxo constante de reinóis em São Paulo deu-se ao longo do todo o Setecentos, dominando o comércio e atuando de maneira próspera na cidade. Os portugueses optavam em cerca de 60% pela ligação matrimonial com membros da comunidade mercantil, cujos membros 212 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 11, doc. 1108. 85 viam na conexão com reinóis uma estratégia recorrente no seu enraizamento em Piratininga. Se os primeiros portugueses que chegaram optaram pelo casamento com membros das principais famílias paulistas, as gerações seguintes viam nas práticas endogâmicas dentro do próprio grupo mercantil um caminho mais seguro e próspero. Os paulistas, resistentes à penetração dos filhos de Portugal na municipalidade desde o início da década de 1720, começaram a se organizar contra a ascensão social dos reinóis à Câmara na década seguinte. Mas qual seria então o nível da participação portuguesa nas instituições de poder local? O que elas revelam sobre os interesses e a atuação dessa comunidade mercantil em São Paulo? Os descobrimentos de minerais preciosos nas Minas Gerais, Cuiabá e Goiás afetou o controle das antigas famílias paulistas hegemônicas na municipalidade? É sobre isso que trabalharemos no subtítulo a seguir. 2.2 São Paulo Setecentista: famílias tradicionais e ascensão reinol (1721-1747) A expansão e a conquista territorial portuguesa na América proporcionaram o estabelecimento e a consolidação das elites coloniais. A concessão de mercês e privilégios, como as atribuições de cargos civis e militares para conquistadores, era a forma de a monarquia portuguesa fortalecer a sua soberania na região213. Ao mesmo tempo em que eram nomeados para tais postos, esses homens influentes enraizavam o seu poder na localidade através da atuação e do controle de instituições transplantadas de Portugal, como o Senado da Câmara Municipal214 e a Santa Casa de Misericórdia. A Câmara, em particular, era um órgão fundamental para gerência da economia, fiscalização e defesa local215. Famílias de súditos articulavam seus interesses, dessa forma, em torno do acúmulo de riquezas, mercês e poder, ao mesmo tempo em que gerenciavam 213 É o caso envolvendo a liberalidade régia e a economia das mercês, sobre as quais já tratamos anteriormente neste capítulo. 214 Charles Boxer defende que as Câmaras e as Santas Casas de Misericórdia garantiram uma continuidade institucional e administrativa no ultramar português. Ver: BOXER, Charles. O Império marítimo português (1415-1825). São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 215 Maria Fernanda Bicalho apresenta o caso da Câmara Rio de Janeiro. Ver: BICALHO, Maria Fernanda. As câmaras municipais no Império português: o exemplo do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de História, v. 18, n. 36, São Paulo, 1998. 86 o controle e o aumento do seu domínio através de sua atuação na Câmara. A instituição era parte fundamental para estratégias de ampliação de patrimônio e de influência por parte das famílias do ultramar, que utilizavam suas prerrogativas para garantir seus interesses216. Para além dos interesses socioeconômicos, o Senado também era um espaço privilegiado de negociação com a Coroa. Cartas envolvendo questões relativas ao governo local (administração, fiscalização, defesa, escravidão etc.) eram constantemente trocadas entre oficiais camarários e autoridades portuguesas (Governadores, Vice-Rei, Rei, Conselho Ultramarino)217. Isso possibilitava aos seus membros, as famílias que conseguiam construir hegemonia e controle institucional, ter razoável nível de autogoverno e participação na dinâmica política imperial. A administração municipal no antigo regime também possuía importante dimensão representativa. Antonio Maravall afirma que, no período Moderno, os comportamentos, práticas e valores da alta nobreza ibérica – seu ethos nobiliárquico – passaram a ser uma espécie de espelho para a sociedade218. A alta fidalguia, por ser “pura de sangue”, reunia as “melhores qualidades” e detinha o monopólio da honra: era o modelo a ser reproduzido. Os membros da Terceiro Estado pautavam-se no mesmo código de conduta da nobreza titulada, reproduzindo o padrão de se verem como herdeiros de qualidades e purezas de seus antepassados, desempenhando cargos da República, pertencendo a confrarias ilustres e vivendo ao modo da nobreza. Mesmo que muitas vezes os feitos de seus ascendentes não tivessem comparação aos da alta nobreza do reino, a informalidade do ultramar conferia a esses homens espaço para que atuassem como nobres, mesmo que os papéis não sustentassem tal condição219. Com isso, os principais da terra do ultramar português atuavam em instituições locais – Câmara Municipal e Misericórdia – como forma de 216 João Fragoso trata da apropriação por famílias fluminenses de cargos da administração régia e do controle sobre a economia do Rio de Janeiro através da Câmara, apresentando o processo de formaçãoda primeira elite colonial carioca entre o final do Quinhentos e o início do Seiscentos. Ver: FRAGOSO, João. A nobreza da República: notas sobre a formação da primeira elite senhorial do Rio de Janeiro. Topoi, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, jan./jun. 2000, p. 45-122. 217 Em uma coletânea lançada recentemente, historiadores analisam as trocas e o conteúdo dessa comunicação política. Ver: FRAGOSO, J; MONTEIRO, N. G. (org.). Um reino e suas repúblicas no Atlântico: comunicações políticas entre Portugal, Brasil e Angola nos séculos XVII e XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. 218 MARAVALL, José Antonio. Poder, honor y elites em el siglo XVII. Madri: Siglo XXI, 1989. p. 38-39. 219 RAMINELLI, Ronald. Nobrezas do Novo Mundo: Brasil e ultramar hispânico, século XVII e XVIII. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015. p. 24. 87 confirmação de poder e prestígio, além do pertencimento às ordens religiosas de maior reputação na localidade. Assentos em festas e procissões religiosas eram disputados, pois demarcavam hierarquias e lugares de honra. A eleição e a participação em postos das Companhias de Ordenanças – como de capitão-mor – também contavam como símbolos de prestígio e afirmação social. Outra questão importante é a compreensão do lugar da família no mundo Moderno português. José Damião Rodrigues, em tese sobre a nobreza de São Miguel no século XVIII220, demonstra sua importância dentro das sociedades pré-industriais. A família era a pedra basilar da sociedade, ou seja, o elemento primordial de produção de identidade dos indivíduos. Por meio dela compreendia-se quem se é no mundo por ser filho (neto) ou filha (neta) de alguém. Herdava- se dos ancestrais sua reputação, (des)prestígio, (des)valor social, honra ou falta dela. Ou seja, a carga valorativa de como se era visto naquele mundo estava menos ligada ao mérito individual que à carga simbólica de valor social que a família conferia221. A ligação de sangue e sobrenome que um indivíduo carregava, desde o nascimento, forneciam a base identitária de como o mundo - e ele próprio - o percebiam e o classificavam. As famílias também operavam como um instrumento de poder. Atuando em forma de empresa222, suas estratégias giravam em torno de racionalização, conservação e ampliação do patrimônio (material e imaterial), e os lugares que os familiares ocupavam naquela sociedade eram elementos definidores das suas estratégias futuras, das quais todos os seus membros (e agregados) faziam parte. A relevância do valor no mundo de uma pessoa passava primordialmente pelo critério do que ela deixaria de herança para o engrandecimento do seu grupo familiar: se havia contribuído ou não para a ascensão, e a consequente apreciação social de todos os seus membros. A cosmologia social do mundo estamental tinha na família seu centro gravitacional, que era o 220 ROGRIGUES, J. D. São Miguel no século XVIII: casa, elites e poder. Ponta Delgada: Instituto Cultural de Ponta Delgada, 2003, v. 2, p. 601-605. 221 Outra autora a trabalhar o tema, só que de forma mais teórica é Françoise Zonabend. Ver: ZONADBEND, F. Olhar etnográfico sobre o parentesco. In: BURGUIÈRE, A. História da família. v. I. Lisboa: Terramar, 1996, p. 13-66. 222 Pierre Bourdieu trata da importância da família como empresa na gestação do mundo burocrático europeu. Ver: BOURDIEU, P. Razões práticas. Campinas: Papirus Editora, 1996. p. 124-133. 88 ponto de partida de grande parte das motivações dos súditos portugueses, e movia suas intenções, valores, sonhos e estratégias no mundo do antigo regime luso. Em São Paulo do século XVIII, o caso não seria diferente. Na historiografia paulista, o tema da formação de uma elite e de sua atuação municipal vem sendo revisitado por obras recentes. A visão de uma região isolada, fundada e reproduzida em um regime democrático – sem distinção de classe social223 – vem sendo contestada224. Já a questão da autogestão paulista, enfatizada na historiografia como traço da sua singularidade cultural225, também vem sendo relativizada, mesmo que indiretamente. Pesquisas envolvendo os demais núcleos coloniais da América portuguesa vêm apresentando uma cultura política na qual as decisões locais possuíam mais peso e influência no governo municipal do que se pensava anteriormente. Teses das últimas duas décadas têm demonstrado que o rei não poderia fazer valer seu interesse em seu império sem prescindir de alianças com os poderes locais. A delegação de poder às elites locais era um dos mais importantes pilares de sustentação da monarquia portuguesa226, o que lhes conferia um razoável nível de autonomia em suas decisões. Em resumo, 223 ELLIS JÚNIOR, Alfredo. Capítulos da história social de S. Paulo. São Paulo: Ed. Nacional, 1944. p. 225-226. 224 John M. Monteiro aponta para a irrefutabilidade da existência de um sistema escravista na São Paulo colonial, onde o regime de produção, por mais que fosse voltado para o mercado interno do Estado do Brasil, era estruturado em modelos similares aos do litoral. A escravidão indígena era sistemática e naturalizada, havendo forte crivo de distinção social no seio da sociedade paulista. Ilana Blaj apresenta uma São Paulo que reproduzia a cultura política do antigo regime português, com a formação de elites coloniais que não apenas tinham na terra e na posse de escravos a base da sua riqueza e valor social, mas também prestavam serviços par a coroa portuguesa como forma de obtenção de mercês de signos de distinção social. José Carlos Vildardaga, no que toca o tema do isolamento paulista, faz importante contribuição historiográfica. Ao analisar a vila de São Paulo no período da União Ibérica o historiador evidencia a profunda relação que a região estabeleceu com as vilas do Paraguay, estabelecendo com elas estreitos laços de migração e de trocas comerciais. Ver: MONTEIRO, John M. Monteiro Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994; BLAJ, Ilana. A trama das tensões: o processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo: Humanitas; FFLCH, USP; FAPESP, 2002 e Vilardaga, José Carlos. São Paulo na órbita do Império dos Felipes: conexões castelhanas de uma vila da América Portuguesa durante a União Ibérica (1580-1640). Tese (Doutorado em História Social). São Paulo: Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, 2010. 225 Paulo Prado é um dos estudiosos que mais enfatiza a atitude de independência própria dos paulistas: esta “semente de independência, de vida livre, e de falar alto e forte, germinou e frutificou durante dois séculos na história paulista”. Ver: PRADO, Paulo. Paulística: história de São Paulo. Rio de Janeiro: Ariel, 1934. p. 24. 226 George Felix Cabral, analisando a Recife do século XVIII, argumenta que a colaboração entre elite local e os governadores nomeados pelo rei era desejada por parte dos principais da terra, assim como por parte da Coroa. Thiago Krause afirma o mesmo para a elite baiana do século XVII. Ver SOUZA, George Félix Cabral de. Elite y ejercicio del poder en el Brasil colonial: la Cámara municipal de Recife (1710-1822). Tesis (Doctorado en História) – Departamento de História, Universidad de Salamanca, 2007 e KRAUSE, Thiago. A Formação de uma nobreza ultramarina: Coroa e elites locais na Bahia seiscentista. Tese de doutorado, Rio de Janeiro: PPGHIS/UFRJ, 2015. 89 a cultura política reproduzida em Piratininga, apesar das particularidades locais227, não diferia tanto das demais regiões do império luso. O contexto histórico da São Paulo da virada do século XVII para o século XVIII, no entanto, era definitivamente singular. O interesse pelos descobrimentos de metais preciosos – seus postos, sesmarias e oportunidades econômicas – exerciam papel de atração sobre os súditos paulistas: sobretudo para as linhagens já socialmentee economicamente estabelecidas, que possuíam recursos para organizar expedições para encontrar metais preciosos ou, no caso de os achados já terem ocorrido, de se estabelecerem com a sua parentela na nova região. A descoberta das Minas Gerais e a ambição socioeconômica gerada no planalto intensificou o trânsito e o deslocamento – alguns em definitivo – de paulistas para as minas. O constante incentivo da Coroa para que os descobrimentos continuassem a acontecer, como os de Cuiabá e Goiás, apenas deu continuidade a esse anseio dos descobrimentos. Muriel Nazzari afirma que, dos 86 inventários por ela analisados para a São Paulo do século XVIII, 17 (19,76%) possuíam descendência nas Minas. Isso indica que aqueles que, mesmo optando por ficar em Piratininga, 1 em cada 5 paulistas viram ao menos um de seus filhos partirem e se enraizarem nos descobrimentos. Exclui-se do resultado, como fica evidente, os súditos de São Paulo que migraram com toda a família e que não foram computados em sua pesquisa. Ou seja, o movimento de atração que o ouro exercia sobre os paulistas se alastrou por, no mínimo, toda a primeira metade do Setecentos. Nazzari afirma que esse movimento migratório, com uma intensidade maior do que as expedições militares realizadas no século anterior, dava-se devido ao esforço dos homens de Piratininga de preservar seus direitos exclusivos à descoberta das minas frente aos recém-chegados228. 227 O fato de a mão de obra utilizada nas lavouras paulistas ter sido predominantemente indígena fazia com que a dinâmica de abastecimento fosse diferente daquela do litoral. Empresas militares precisavam ser organizadas com constância para suprir a demanda por escravos nas propriedades do planalto, construindo em São Paulo uma cultura militar que a diferiria da costa. O ressentimento pelas promessas não cumpridas de mercês, desde o início do século XVII – como trabalhamos no primeiro capítulo – também enraizou nos súditos da região uma postura altiva e desconfiada em negociações junto ao Rei ao longo do todo o século XVII. Sobre a necessidade constante de realizar entradas militares visando o aprisionamento indígena no interior da América, ver: Monteiro, John M. Negros da Terra, op. cit.; e HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 228 NAZARRI, Muriel. O desaparecimento do dote: mulheres, famílias e mudança social em São Paulo, Brasil, 1600- 1900. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 86-87. 90 Tudo isso é relevante para que compreendamos que a vila/cidade de São Paulo do final do Seiscentos e do início do Setecentos estava, demograficamente, em mutação. Muitos vassalos que lá cresceram na segunda metade do século XVII acabaram por se mudar, transferindo suas riquezas e patrimônios para outras regiões. No entanto, alguns permaneceram em São Paulo, como grande parte da sua família, conforme analisaremos a seguir. Fora outros que, após insucessos, invariavelmente voltavam. O contexto histórico da descoberta das minas criou diversas possibilidades de migração e ascensão social para a oligarquia local, ficando difícil delimitar a real razão da opção de ficar na municipalidade ou tentar a sorte nos descobrimentos. Ao analisarmos a composição camarária de São Paulo entre 1721 e 1747, não possuímos o interesse de apenas averiguar a continuidade ou não de famílias tradicionais do Seiscentos paulista no poder, mas sim de analisar as novas famílias que ascenderam a esses postos, além de pensar suas conexões no interior da municipalidade. A seguir, vamos apresentar um breve esboço historiográfico sobre as principais famílias que compunham a oligarquia paulista da segunda metade do século XVII. Faremos isso com intuito de apenas fornecer contexto histórico para que melhor compreendamos o que a composição camarária (1721-47) nos apontará em seguida. O conflito entre as famílias Pires e Camargo ao longo da década de 1650, que teve como motivo a expulsão (1640) e a restituição (1653) do colégio jesuítico em São Paulo, é um marco na historiografia da São Paulo colonial. O embate, que envolvia o desejo de controle da mão de obra indígena das aldeias paulistas, que os Camargo e sua parentela controlaram ao longo da década de 1640 na ausência jesuítica, ficou famoso pela intervenção do Governador-Geral do Brasil, o conde de Athouguia, que emitiu um parecer em 1655 que obrigava os ofícios da câmara municipal a serem divididos igualitariamente, por todos os anos, entre membros das duas famílias229. Como já vimos, o episódio foi também interessante para nomear os dois grupos – Pires e Camargo – como lideranças locais, famílias ricas, influentes e com capital político para demarcar o controle camarário em acordo consentido não apenas entre 229 Trabalhei com o episódio em minha dissertação. Ver: DARIO FILHO, L. P., op. cit., p. 117-118. 91 ambas as partes, mas entre todos os principais da terra. Outra família de proeminência, sobretudo a partir da metade do século, foi a Bueno da Ribeira. Entre 1679 e 1682 os moradores da vila e dos bairros rurais de São Paulo contribuíram para o donativo real, um imposto levantado pelas câmaras do império luso. Por ser uma contribuição que tinha como parâmetro o cabedal do contribuinte, o número de escravos determinava a quantia a ser paga, já que a contribuição era arrolada através dos bairros. O historiador John M. Monteiro analisou os dados desses donativos e averiguou a contribuição média de cada um230. Os bairros mais ricos, a partir da contribuição média e do nível de concentração de riqueza, eram: Atibaia, Antonio Bueno, Barueri e Juqueri231. Juqueri era uma região dominada pela família Pires, onde os irmãos Salvador Pires de Medeiros e João Pires eram os maiores produtores de trigo de todo planalto. Barueri e Atibaia eram regiões onde predominavam a ação da família Camargo, sendo Atibaia o mais novo e rico povoamento, advindo de sesmaria passada em nome de Fernão de Camargo na década de 1640. O bairro Antonio Bueno teve desenvolvimento semelhante. Originou-se em 1627, em sesmaria a Amador Bueno da Ribeira, que teve nove filhos, sete dos quais se estabeleceram no bairro que, a partir de 1650, teve ocupação maciça. Em 1679, os principais contribuintes eram Amador Bueno, o moço, Antônio Bueno (segundo filho de Amador Bueno da Ribeira e que deu nome ao bairro), Balthazar da Costa da Veiga (família Prado) e Matheus de Siqueira (família Siqueira Mendonça). Os dois últimos citados eram genros de Amador Bueno (filho). O poder e a influência econômica da família Bueno pode ser demonstrada em sua capacidade de cooptar membros de famílias paulistas que ascendiam socialmente para o seu bando na segunda metade do século XVII. Isso se dava sobretudo através do casamento com suas filhas e da contribuição no dote. Balthazar da Costa da Veiga, da família Prado, casou-se com Maria 230 A tabela se encontra em: MONTEIRO, John M. Negros da Terra, op. cit., p. 192. 231 Id., ibib., op. cit., p. 196-199. 92 Bueno de Mendonça, filha de Amador Bueno e neta de Amador Bueno da Ribeira232. Essa união representou um passo importante para a família Prado consolidar-se socialmente na São Paulo do século XVIII, como veremos a seguir, e ter participação militar importante na Guerra dos Emboabas. Balthazar era pai de Amador Bueno da Veiga, eleito pela Câmara municipal em 1709 como Cabo-mor do exército paulista, o qual marchou para a região do Rio das Mortes para vingar a derrota paulista no confronto emboaba233. Muitos associam Bueno da Veiga à família Bueno, pois era bisneto de Amador Bueno da Ribeira e possuía seu sobrenome. Mas ele pertencia à família Prado, como o seu pai, e sua proeminência política e militar, apesar de ser em parte fruto do capital político de seu bisavô, acabou por beneficiar a sua linhagem paterna. Outras das maiores contribuições do Donativo Realde 1679 foram de Antonio Ribeiro de Moraes (família Moraes), com contribuição em 1679 de 4$100, e Domingos da Silva Guimarães (português), com contribuição de 3$500. Ambos também eram ligados matrimonialmente aos Buenos e foram morar no bairro Antonio Bueno após as núpcias234. A tese de Silvana Godoy, defendida em 2016235, trabalhou os principais da terra de São Paulo do final dos Seiscentos através da quantidade de índios cativos deixados pelos súditos paulistas em seus inventários e testamentos. Sua obra chama a atenção para a família Pedroso de Barros, pouco trabalhada na obra de John M. Monteiro. Eles formavam o grupo que mais deteve posse de escravos indígenas a partir da segunda metade do século XVII. Perderam sua hegemonia apenas na década de 1660, mas recuperaram-na logo em seguida, mantendo-a até a virada do século. Sebastião Paes de Barros detinha na data do seu inventário/testamento, sozinho, 307 232 Para mais informações sobre Balthazar da Costa da Viega, ver: LEME, Luiz Gonzaga da Silva. Genealogia paulistana. São Paulo: Duprat, 1903-1905. v. 3, p. 202-203. 233 Após a notícia sobre o revés paulista no embate, a Câmara Municipal de São Paulo se reuniu no dia 1º de abril de 1709 e nomeou Amador Bueno da Veiga como Cabo Maior protetor da vila. Poucos meses depois, em agosto do mesmo ano, Bueno da Veiga organiza terço e parte para as Minas Gerais. Trabalhei o episódio no primeiro capítulo da tese. 234 Outro caso é o de Francisco de Camargo, que se casou com a irmã de Amador e detinha vasta propriedade de trigo, sendo um dos mais ricos senhores de moinho da capitania. Contudo, após morrer sem deixar herdeiros em 1672, deixou o patrimônio para seu irmão, Marcelino Camargo, que se tornou um dos maiores proprietários de terra e índios de São Paulo do final do século. Ver: MONTEIRO, John M. Negros da Terra, op. cit., p. 200-201. 235 GODOY, Silvana Alves de. Mestiçagem, guerras de conquista e governo dos índios. A vila de São Paulo na construção da monarquia portuguesa na América. Séculos XVI e XVII). Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de História, Programa de Pós Graduação em História Social, 2017 93 ameríndios cativos. A maior capacidade de arregimentar índios por essa família, segundo a autora, deveu-se a dois motivos principais. O primeiro era a estratégia da família de utilizar relações parentais estruturadas não apenas na tradição católica (monogamia), mas também na cultura indígena (poligamia). Alguns membros dessa família, como Pedro Vaz de Barros, optaram por não se casar, alargando suas redes de parentesco com os ameríndios através de relações não matrimoniais com índias e mestiças, assim como por filhos bastardos. Através dos laços consanguíneos, aumentavam os indígenas e os mestiços que adentravam na sua parentela236. O segundo motivo foram os serviços que Valentim de Barros e Luiz Pedroso de Barros prestaram na guerra aos holandeses entre 1638-1648237, o que lhes possibilitou o aumento de patrimônio e a obtenção de escravos por butins. Num período em que a riqueza das famílias era medida pela posse de terras e escravos, os Pedroso de Barros eram certamente um dos grupos mais proeminentes da região. Isso não se refletiu, no entanto, na participação dessa família nos postos da administração e que conferiam distinção social na vila paulista. Silvana Godoy acredita que isso pode se justificar pelo fato da sua ascensão se dar apenas na segunda metade do século, após a participação na Restauração Pernambucana, e devido ao fato de Valentim de Barros e Luiz Pedroso de Barros, que participaram das guerras de expulsão dos holandeses, terem se casado no Nordeste com mulheres de enriquecida família baiana238. Isso indica que as estratégias da família poderiam estar não na consolidação municipal em São Paulo, mas no deslocamento para outras regiões. Não à toa, foi um dos grupos paulistas que mais tomou parte no conflito contra os forasteiros nas Minas Gerais239. Como já dito, o ponto de partida da nossa análise é a Câmara Municipal de São Paulo. 236 Id., ibid., p. 450-456. 237 Id., ibid., p. 179-182. 238 Id., ibid., p. 180-185. 239 Adriana Romeiro narra episódio do tensionamento que permeava o contexto histórico das Minas Gerais antes do levante emboaba. Nele, Manuel Nunes Viana e Jerônimo Pedroso se encontraram no adro da igreja do Caeté, após a missa de domingo, e discutiram em torno de uma espingarda emprestada. Outro episódio de tensão envolvendo membro da família foi quando Valentim Pedroso confronta o superintendente das Minas José Vaz Pinto sobre uma devassa que desejava tirar por um homicídio que havia acontecido. Ver: ROMEIRO, Adriana. Paulistas e os Emboabas no coração das Minas, op. cit., p. 90-92. 94 Nosso recorte temporal, de 1721-1747, contém o período de 27 anos de atuação camarária. A composição interna do colegiado era alterada anualmente nas funções de juiz, vereador, procurador, escrivão, almotacé e, periodicamente, alcaides. Eram eleitos, por ano, dois juízes ordinários, de três a quatro vereadores e um procurador, responsável pelas finanças da câmara240. Os almotacés e alcaides não eram eleitos, assumindo por meio de indicação dos oficiais camarários. Deteremos a nossa análise nas nomeações para as funções de juiz, vereador e procurador, por serem as que mais interessavam os súditos locais. Devido à sua capacidade de intervenção direta em esferas da economia, da defesa e da fiscalidade, esses acabavam sendo os postos que os principais da terra preferiam controlar. Houve nomeações que ocorriam ao longo do ano, para substituição de oficiais que adoeciam ou que se ausentavam. Mas como eram eleições de suplência, preferimos não contabilizar esses nomes. Optamos por trabalhar com os nomes escolhidos nas eleições realizadas no final do ano anterior ao mandato, cujas assinaturas constavam na posse, em janeiro do ano vigente em que exerciam as suas funções. Nossos dados advêm do cruzamento de nomes dos eleitos e dos escritos nas Atas da Câmara Municipal com as famílias presentes na obra do genealogista Luiz Gonzaga da Silva Leme241. Para a composição do quadro dos portugueses, que não se encontram listados na obra de Gonzaga, foram utilizados dados presentes na tese da historiadora Maria Aparecida Borrego242. Nesses 27 anos de vereação, 139 pessoas foram eleitas para a função de juiz ordinário, vereador ou procurador, e foram realizadas 193 nomeações para essas funções ao longo do período. Tabela 1 - membros eleitos e de postos ocupados para juiz, vereador e procurador pelas principais famílias paulistas na Câmara Municipal (1721-1747) 243 240 William Funchal apresenta a dinâmica administrativa de eleição em São Paulo do século XVIII: FUNCHAL, William de Andrade. Governo local em uma Capitania sem governador (São Paulo em 1748-1765). Dissertação de Mestrado - Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. 2016. P. 91-105. 241 LEME, Luiz Gonzaga da Silva. Genealogia paulistana. São Paulo: Duprat, 1903-1905. 9v. 242 BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. A teia Mercantil., op. cit. 243 Dados retirados das Atas da Câmara de São Paulo. Ver: ACMSP, op. cit., v. 9-15. 95 Família Membros eleitos Percentual (%) Postos ocupados Percentual (%) Camargo 15 10,79 18 9,32 Siqueira Mendonça 8 5,75 16 8,29 Prado 12 8,63 12 6,21 Pires 7 5,03 11 5,69 Furquim 7 5,03 11 5,69 Moraes 4 2,87 9 4,66 Bueno 7 5,03 8 4,14 Toledo Piza 4 2,87 8 4,14 Cubas 5 3,59 6 3,10 Dias 3 2,15 6 3,10 Leme 5 3,59 5 2,59 Godoy 3 2,15 5 2,59 Carvoeiro 4 2,87 4 2,07 Cunha Gago 3 2,15 3 1,55 Maciel 2 1,43 3 1,55 Raposo Góes 1 0,72 3 1,55 Garcia Velho 2 1,43 2 1,03 Taques 2 1,43 2 1,03 Martins Bonilha 2 1,43 2 1,03 Alvarenga 2 1,43 2 1,03 Rodrigues Lopes 1 0,72 2 1,03 Horta 1 0,72 2 1,03 Pedroso de Barros 1 0,72 1 0,51 Gaya 1 0,721 0,51 Jorge Velho 1 0,72 1 0,51 96 Freitas 1 0,72 1 0,51 Arias de Aguirre 1 0,72 1 0,51 Tenório 1 0,72 1 0,51 Lara 1 0,72 1 0,51 Não identificada 16 11,51 18 9,32 Portugueses 16 11,51 28 14,50 Total 139 100% 193 100% A primeira evidência que fica clara na amostragem é que não houve, de fato, uma hegemonia familiar na Câmara municipal paulista da primeira metade do século XVIII. Em nosso recorte temporal, foram registrados membros de 29 famílias, e, na genealogia na qual nos baseamos para realizar a base de dados, existe um total de 54 famílias envolvidas, numa compilação que parte de meados do século XVI e vai até o final do século XIX. Ou seja, nos 27 anos abrangidos por nossa pesquisa (1721-1747), verifica-se a presença de mais de 50% das famílias que compõem o estudo genealógico realizado por Luiz Gonzaga Leme. E, por mais que se tenha famílias com mais participantes e nomeações do que outras, o resultado é visivelmente pulverizado. A linhagem Camargo é a única que ultrapassa 10% na quantidade de membros eleitos para as funções camarárias do período. Contudo, como é possível averiguar em seguida, esse grupo familiar não consegue alcançar os dois dígitos quando levamos em consideração o percentual de postos ocupados. Os Camargo, os Pires e os Bueno, como era de se esperar, têm presença significativa na amostragem. A riqueza, a influência e o capital político do século anterior garantiam aos seus descendentes não apenas lugar de prestígio na municipalidade, mas condições de atrair, para si e para sua descendência, outras famílias no mercado matrimonial da cidade244. O caso da família 244 José Damião Rodrigues aborda a importância do dote em sociedades pré-industriais. Dotes eram antecipações da “legítima”, ou seja, a parte que a filha recebia, com a morte de seus progenitores. Eles possuíam papel decisivo no 97 Prado, citado anteriormente neste capítulo com Balthazar da Costa da Veiga que se aliou por matrimônio com a família Bueno, é um desses. Os Siqueira Mendonça, a segunda família com maior número de postos ocupados em nossa pesquisa, tiveram trajetória similar. A família, advinda da vila de Santos, onde controlava os ofícios de tabelião, de escrivão da câmara e de órfãos, se estabeleceu em São Paulo no início do século XVII245. Contudo, foi apenas depois da união de Lourenço de Siqueira Mendonça com Maria Bueno, em meados do século, que ocorreu uma maior penetração da linhagem nos espaços institucionais mais importantes da municipalidade. Maria era filha de Jerônimo Bueno e sobrinha de Amador Bueno da Ribeira. Lourenço era tio-avô de Domingos Gonçalves da Cunha, o segundo paulista com mais nomeações em nossa amostragem. Domingos foi nomeado Vereador em 1726 e 1732, e Juiz Ordinário em 1737 e 1747. Casado com Marianna Cardoso de Camargo, a associação matrimonial com a família Camargo certamente também não fez nenhum mal às suas ambições, assim como as da sua família. O caso da família Furquim é semelhante. Apesar de sua ascensão social ter se consolidado apenas no final do século XVII, os Furquim já se encontravam em São Paulo em 1610 com loja de fazenda. Contudo, apenas conseguiram adentrar na principal instituição de poder municipal paulista através da atuação de Estevão da Cunha de Abreu246. Seu casamento com Messia da Silva e Castro, filha de Catharina Rodrigues e neta de João Pires, foi o ponto de inflexão na jornada da família na municipalidade. Seus filhos Antonio da Cunha de Abreu (Juiz ordinário em 1732 e 1744), Pedro Dias da Silva (Vereador em 1723 e Juiz Ordinário em 1728), Claudio Furquim de Abreu (Juiz Ordinário em 1722), Manoel Dias de Abreu (Vereador em 1724, 1737 e 1738) e Estevão da Cunha de Abreu (Vereador em 1726) contabilizam nove nomeações apenas entre si. jogo de alianças matrimoniais e de circulação de bens. Quanto maior a sua riqueza e possibilidade de oferecer dote, maior a condição de o indivíduo ser um ator importante no mercado matrimonial para atrair alianças de famílias com as quais almejasse cooptar proximidade para o seu o círculo de influência. Ver: ROGRIGUES, J. D. São Miguel no século XVIII: casa, elites e poder, op. cit., v. 2, p. 631-632. 245 Sobre o estabelecimento da família Siqueira Mendonça em São Paulo, ver: LEME, Luiz Gonzaga da Silva. Genealogia paulistana, op. cit., v. 7, p. 470-471. 246 Sobre o enraizamento da família Furquim em Piratininga e sobre Estevão da Cunha Abreu, ver: id. ibid., op. cit., v. 6, p. 237-238. 98 Antonio da Cunha de Abreu ainda foi, na década de 1750, nomeado Capitão-mor das Ordenanças da cidade, como veremos no próximo capítulo. Nenhum súdito paulista, entretanto, teve mais nomeações para postos na Câmara Municipal do que Pedro Taques Pires. Pivô do conflito contra a eleição dos mercadores reinóis em 1737, como vimos na introdução deste capítulo, Taques Pires foi eleito para as funções de Procurador em 1731 e de Juiz Ordinário em 1723, 1724, 1738 e 1742, totalizando cinco mandatos. Era filho de João Pires Rodrigues e neto de João Pires247. Seu pai, falecido em 1708, foi casado com Branca de Almeida, filha de Lourenço Castanho Taques, um dos maiores ricos credores de São Paulo no século XVII248. Capital político e econômico não faltavam a Pedro Taques Pires, assim como influência e iniciativa para fazer uso de suas riquezas contra ações que poderiam ameaçar o controle das principais famílias tradicionais de São Paulo na municipalidade. Entretanto, a ameaça enfrentada por Taques Pires não parecia ser fácil de ser superada. Quando olhamos para a tabela, percebemos que o maior número de nomeações para postos na Câmara Municipal entre o ano de 1721 e 1747 não se encontra em nenhuma linhagem antiga de Piratininga, mas em portugueses – a maioria deles comerciantes249 - os quais somavam 28 mandatos exercidos por um total de 16 homens. O número é considerável, pois não estamos levando em consideração as funções menos importantes da Câmara Municipal, como de almotacé, visto como porta de entrada para grupos e famílias que almejavam ascender socialmente na instituição. São considerados na tabela os cargos que tinham importância e distinção social na cidade, com possibilidade de intervenção direta em esferas da defesa, economia e fiscalidade local. 247 Sobre o núcleo da família de Pedro Taques Pires, ver: Idem. ib. op. cit. v. 2, p. 172-176. 248 Silvana Godoy apresenta a lista nominal dos maiores credores de São Paulo no recorte de 1638-1699. Ver: GODOY, Silvana Alves de. Mestiçagem, guerras de conquista e governo dos índios, op. cit., p. 235. 249 Dos 16 portugueses que foram eleitos, 13 eram homens de negócio presentes na base de dados de Maria Aparecida Borrego: André Alvares de Castro (Vereador em 1737), Francisco de Sales Ribeiro (Procurador em 1742), Manuel Luiz Ferraz (Procurador em 1722 e Vereador em 1730 e 1738), Manuel José da Cunha (Procurador em 1738, Vereador em 1740 e 1741 e Juiz em 1744), Manuel de Oliveira Cardoso (Procurador em 1739 e Vereador 1742), Gaspar de Mattos (Vereador em 1727 e 1733), Antonio Xavier Garrido (Procurador em 1733 e Vereador em 1734), José da Silva Ferrão (Procurador em 1737 e Juiz em 1735 e 1739), Manuel de Macedo (Vereador em 1742), Mathias da Costa Figueiredo (Procurador em 1744), Alexandre Monteiro de Sampaio (Procurador em 1744), Agostinho Nogueira da Costa (Vereador em 1744) e José de Moraes Franco (Procurador em 1745). Ver: BORREGO, Maria Aparecida. A teia mercantil. Op. cit. p. 145-146. 99 O ano de 1737 foi emblemático, inclusive, pois pela primeira vez ocorreu uma eleição que conferiu mandato para quatro portugueses. Manoel Antunes Belém de Andrade para Juiz Ordinário, Bartolomeu de Freitas Esmeraldo e André Alvares de Castro como Vereadores, e José da Silva Ferrão como Procurador. Salientamos que Alvares de Castro e José Ferrão eram membros da comunidade mercantilreinol em São Paulo. O controle lusitano sobre o Senado talvez fosse a razão da intervenção de Pedro Taques Pires. Mas a intervenção foi eficaz? Sabemos que, juridicamente, tal ação foi revertida pela Relação da Bahia ainda no final de 1737, mas teria ela intimidado os homens de negócio de Portugal? Quando analisamos um quadro sobre a progressão da participação dos portugueses através das décadas, vemos que o ano de 1737, ao invés de significar um freio dos interesses dos portugueses na Câmara, representou, na verdade, um momento de virada favorável e de maior constância e acesso às funções por eles desejadas: Tabela 2 - Progressão da eleição de membros da comunidade mercantil portuguesa para as funções de Juiz Ordinário, Vereador ou Procurador (1721-1747) Período Membros eleitos Total de pessoas eleitas Percentual Postos ocupados Total de postos nomeados Percentual 1721-30 2 66 3,03% 3 70 4,28% 1731-40 9 62 14,51% 14 79 19,72% 1741-47 8 42 19,04% 9 44 20,45% Como podemos perceber, tanto o número de membros eleitos quanto o de postos ocupados por portugueses cresceu em termos percentuais ao longo das décadas. Não há nenhum sinal de retrocesso, e há casos como os de Manuel José da Cunha, homem de negócios reinol, que cumpriu quatro mandatos em um período de 7 anos, todos posteriores a 1737. Foi Procurador em 1738, 100 Vereador em 1740 e 1741 e Juiz Ordinário em 1744. Manuel de Oliveira Cardoso, um dos mais ricos e proeminentes habitantes da São Paulo da segunda metade do Setecentos250, também viu sua ascensão acontecer na Câmara depois do tensionamento provocado por Pedro Taques Pires, sendo eleito Procurador em 1739 e Vereador em 1742. O período posterior a 1737, inclusive, é aquele em que se concentra o maior número de mandatos cumpridos por membros da comunidade mercantil portuguesa. Concentram-se 20 (71,42%) dos 28 mandatos no período entre 1737 e 1747. Contudo, contrariando a tendência do aumento da participação de homens de negócio de Portugal na Câmara Municipal, as eleições de 1746 e 1747 não apresentaram nenhum dos seus membros entre os principais postos eleitos. Isso seria sinal de um novo momento ou de mais um tensionamento dos portugueses com as famílias tradicionais das quais se avizinhava? Voltaremos ao tema na parte final deste capítulo. O posto de Provedor da Santa Casa de Misericórdia era a função que carregava não apenas um peso de prestígio simbólico, mas também de utilidade e de poder econômico. Por serem instituições que angariavam doações de caridade, administravam um fundo de recursos que podia ter utilidade de empréstimo para vassalos da localidade. O posto de Provedor era o mais alto da hierarquia da instituição, o que dava ao nomeado o poder de decisão sobre a utilização desses recursos, exercendo papel similar ao de um credor dentro da comunidade251. Em São Paulo, em nosso recorte temporal de 1721-1747, 20 foram as pessoas eleitas para a função, somando um total de 26 nomeações252. Como na Câmara Municipal, não há concentração da função em nenhuma família antiga do planalto. Já no caso dos mercadores portugueses, sua presença lá foi ainda mais 250 Manuel de Oliveira Cardoso participou do arremate do Contrato de Dízimos da Capitania em cinco ocasiões, entre as décadas de 1760 e 1780. Fora isso, monopolizou em suas mãos a função da Capitão-Mor da Companhia das Ordenanças da cidade no mesmo período. Analisaremos o seu caso no próximo capítulo. 251 As Misericórdias, por serem instituições que angariavam doações de caridade, administravam um fundo de recursos que poderiam ter utilidade de empréstimo para vassalos da localidade. O posto de Provedor era o mais alto da hierarquia da instituição, o que dava ao nomeado poder de decisão sobre a utilização desses recursos. Sobre a importância do cargo de Provedor em São Paulo ver: BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. A teia mercantil, op. cit., p. 51-54. 252 Tais dados constam nas tabelas elaboradas por Glauco Carneiro e Laime Mesgravis. Ver: MESGRAVIS, Laima. A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo: 1599(?) – 1884: contribuição ao estudo da assistência social no Brasil. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1976. p. 78-81; e CARNEIRO, Glauco. O poder da misericórdia – A Santa Casa na história de São Paulo. São Paulo: s/e., v. 1, 1986. p. 218-221. 101 forte do que na Câmara: foram seis (30%) os comerciantes portugueses nomeados para o ofício em 9 (34,61%) anuências. Só Manuel Luís Ferraz foi nomeado para o cargo por quatro vezes seguidas, entre 1728 e 1732. A inserção sistemática da comunidade mercantil na instituição ocorreu, no entanto, apenas na década de 1740, em uma trajetória similar ao que ocorreu na Câmara Municipal. Todos os mandatos entre 1742 e 1747 foram ocupados por cinco diferentes mercadores de Portugal253. Os únicos dois nomes que se repetem das famílias tradicionais de São Paulo no posto de Provedor da Misericórdia nesse recorte temporal são os de Dom Simão de Toledo Piza, para as anuências de 1721-22 e 1737-38 e José de Góes e Moraes, para as anuências de 1722-23 e 1725- 26. Sinal não apenas da força política dessas famílias na cidade, mas também de seu poderio econômico. Dom Simão era cunhado de Pedro Taques Pires e José de Góes e Moraes o primogênito da família Taques Pompeus254. Não à toa, ambos também foram, no recorte da pesquisa, os únicos paulistas eleitos para a função de Capitão-mor das Companhias de Ordenanças da cidade, a base da milícia local. As Ordenanças eram serviços militares não remunerados e o seu comandante-geral (o Capitão-mor) era o responsável por recrutar e treinar a tropa. O mandato desses capitães-mores durava três anos e sua eleição era realizada pelo governador da capitania, após a apresentação de uma lista tríplice através dos oficiais da câmara municipal255. A função, com isso, representava não apenas status e distinção social, mas também responsabilidade de recrutamento e mobilização das tropas, sendo, portanto, um cargo inviável para alguém sem autoridade política na localidade. O fato de a eleição ocorrer a partir de uma lista apresentada pela Câmara também dava ao colegiado faculdade propositiva sobre esses nomes, que eram apresentados em ordem de preferência. 253 Foram eles, em ordem cronológica: Matias da Silva, José da Silva Ferrão, André Alvares de Castro, Miguel Alvares Ferreira e Tomé Alvares de Castro. Ver: BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. A teia mercantil, op. cit. p. 152- 153. 254 Narramos um pouco da trajetória de José de Góes e Moraes no início deste capítulo. 255 Para maiores detalhes sobre a criação das Companhias de Ordenança em dezembro de 1570 por D. Sebastião, ver: MELLO, Christiane Figueiredo Pagano de. Forças militares no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: E-paper, 2009. p. 34- 41. 102 Dom Simão de Toledo e José de Góes e Moraes, apesar de serem os únicos súditos nascidos em São Paulo a assumirem o posto entre 1721 e 1747, controlaram a função, revezando-se no posto por cerca de 20 anos. No dia 24 de setembro de 1721, quando Dom Simão de Toledo Piza assumiu a função de Capitão-mor das Ordenanças256, era José de Góes e Moraes que estava no cargo no triênio anterior. Em 1726, D. Simão ainda se encontrava na função, provavelmente reeleito em 1724257. Já em 1734, era novamente José de Goés e Moraes que se estava no ofício, recebendo ordens dos vereadores para examinar o estado de uma ponte na cidade258. Em 17 de dezembro de 1738 vemos outra vez Dom Simão de Toledo Piza no posto, avalizando a eleição de Manoel Antunes Belem de Andrade para o cargo de Juiz de Órfãos da Câmara259. Essa hegemonia foi quebrada apenas em 30 de junho de 1742, quando o mercador português Manoel Mendes de Almeida recebeu a patente de Capitão-mor das Ordenanças do Governador Dom Luis Mascarenhas260. Logo, o movimento percebido tanto na Câmara Municipal quanto na SantaCasa de Misericórdia se repetiu nas Companhias de Ordenanças de São Paulo. É visível a ascensão de membros da comunidade portuguesa nessas instituições, mesmo após o tensionamento presenciado na Câmara em 1737. Tal escalada parece refletir uma sociedade onde o equilíbrio de poder estaria mudando de mãos. A primeira metade do século XVIII foi um momento de mutação demográfica para a cidade de São Paulo. O descobrimento de minerais preciosos em Minas Gerais, Cuiabá e Goiás trouxe para os súditos da região desejadas possibilidades econômicas e sociais. Esse fenômeno abriu espaço para um movimento de migração que afetou as famílias do planalto, incluindo as mais abastadas. Uma das consequências desse processo foi que a composição da Câmara Municipal paulista – importante órgão de representação e poder da municipalidade – não revelou hegemonia de poucas famílias em relação às demais, como existia no século XVII; apresentou, na 256 ACMSP, v. 9, p. 86. 257 Id., ibid., p. 429. 258 Id., v. 10, p. 386. 259 Id., v. 11, p. 168-169. 260 Id., ibid., p. 424-425. 103 verdade, um quadro oposto, com composição mais heterogênea e diversificada. Laços matrimoniais com as famílias dos Pires, Camargo e Bueno possibilitaram a outras famílias, como Siqueira Mendonça, Prado e Furquim, a ascensão social e a consolidação de seu espaço na municipalidade. Essa maior abertura, como vimos, trazia também possibilidades sociais para os mercadores lusos que se estabilizaram em São Paulo na primeira metade do século XVIII. O aumento na representação na Câmara e nas demais instituições de poder locais aconteceu de forma gradual, a partir da década de 1720. O tensionamento e a intervenção de Pedro Taques Pires para embarreirar a eleição de 1737, na qual os portugueses acabaram por controlar 4 dos 5 principais ofícios da Câmara Municipal, revelou o incômodo por parte das famílias tradicionais em relação a essa maior representação. A ação de Taques Pires, no entanto, mostrou-se infrutífera, já que a comunidade mercantil reinol recrudescia sua presença em todas as instituições nos anos seguintes. Foi somente no biênio de 1746-47, no qual nenhum mercador português foi eleito na Câmara Municipal, que essa tendência pareceu frear. No próximo subtítulo, analisaremos o governo de D. Luis Mascarenhas em São Paulo, entre 1739 e 1748. Enfatizaremos sua atuação em favor das famílias tradicionais da região frente ao Ouvidor-Geral Domingos da Rocha e a membros da comunidade mercantil reinol na eleição camarária de 1747. A ascensão de Gomes Freire como Governador não apenas do Rio de Janeiro, mas das Minas Gerais e de todo o litoral sul do Estado do Brasil, a partir de 1738, marcou um momento de mudança na política imperial da Coroa portuguesa. Pressionado pelos maus resultados de seus esforços para atender às expectativas régias em sua política de fronteira, D. Mascarenhas dependia da colaboração dos grupos mais fortes da municipalidade para se sustentar no poder. Contudo, foi justamente o tensionamento com o Ouvidor-Geral que ocasionou o desgaste final que marcou o fim do seu Governo. Sua queda representou vitória não apenas para Gomes Freire, que teve caminho aberto para anexar a capitania de São Paulo ao seu governo, mas também para os mercadores reinóis de São Paulo, aos quais o Governador recém-empossado se 104 alinhou em relação ao embate de 1747, defendendo o Ouvidor-Geral e se posicionando contra os grupos mais antigos de Piratininga. Ao contrário de D. Luis, que para governar optou pela aliança com as linhagens tradicionais de São Paulo, Gomes Freire abriu caminho – após todo o tensionamento de 1747 e a queda do governo anterior – para a consolidação camarária e municipal dos ricos homens de negócio reinóis que ascendiam socialmente na São Paulo colonial. 2.3 - O Governo de D. Luis Mascarenhas e a perda da autonomia da Capitania de São Paulo No dia 6 de novembro de 1737, em uma sessão ordinária da Câmara Municipal de São Paulo, os oficiais daquele ano começaram os trabalhos tratando de uma questão corriqueira261. Votavam a eleição de oficiais eleitos para a função de cabos gerais para a construção do caminho do mar, que ligaria São Paulo a Cubatão. Esse caminho era importante, pois facilitava a conexão do planalto com a cidade de Santos, sede portuária da capitania e importante local de fortaleza e reduto de tropas regulares para a defesa contra invasores estrangeiros. A construção da estrada, no entanto, seria ainda fonte de diversos debates e impasses no Senado paulista ao longo de toda a segunda metade do Setecentos. Apenas no final do século XVIII262, no governo de Bernardo José de Lorena, a obra foi concluída. O tema, apesar de importante, estava longe de ser a mais urgente pauta debatida naquele dia. Uma questão atípica e extraordinária foi apresentada e demandou a atenção dos vereadores e do juiz ordinário presentes: foi solicitado que se passasse um edital para anunciar aos moradores dessa cidade a chegada do “escelentisimo sr general Gomes Freire de Andrada”. Ordenava-se que fossem colocadas luminárias durante três dias em reconhecimento “dalegria e gosto com que o Recebem os moradores dessa cappitania”, e que fossem chamados à Câmara os homens de negócio e os oficiais mecânicos da municipalidade para com eles se assentar a fatura sobre os arcos que 261 ACMSP, v. 11, p. 80-81. 262 O calçamento do caminho foi concluído apenas no governo de Bernardo José de Lorena, em 1792, e recebeu o nome de “Calçada do Lorena”. Ronaldo Capel narra o processo de finalização da obra. Ver: CAPEL, Ronaldo. O Governo de Bernardo José de Lorena na Capitania de São Paulo: aspectos políticos e econômicos (1788-1797). São Paulo: Programa de Pós-Graduação em História Econômica – USP, 2015. p. 96-98. 105 seriam armados para a cerimônia de entrada do governador em São Paulo. Na sessão camarária de 9 de novembro, Luis de Abreu Leitão Antunes foi nomeado como responsável pela hospedagem do Governador, e José da Silva Ferrão ficou imbuído da função de fazer o pallio onde se costumava tomar posse o “esizelentisimo senhor general desta capitania”263. Gomes Freire já havia, no final de 1735, anexado a capitania de Minas Gerais ao Rio de Janeiro, ação que já dava sinais não só sobre as intenções do Governador, mas também do projeto político-administrativo que seu governo representava. A ocupação do Governo da Capitania de São Paulo, após o falecimento do Conde de Sarzedas em 1737, ocorreu pouco tempo depois264. Em uma carta que escreveu ao Rei no final daquele ano, Gomes Freire discorreu longamente sobre os motivos que justificavam a sua ação. Afirmava que no Colégio desta cidade se abriram vias de sucessão do governo de S. Paulo e deveu ser Sua Majestade servido eu entrasse na substituição dele, o que de alguma forma embaraçava a estada presente da guerra ou armistício e a continuada ruína de saúde de Martinho de Mendonça [...] resolvo passar a cidade de São Paulo e tomada a posse do governo e dadas neles as providências precisas para apagar qualquer novidade que se tenha ateado sobre a sucessão contextada entre o governador de Santos e o tenente general Luiz de Sá me recolherei sem demora a este porto.265 A crise sucessória que tomou a Capitania com a morte de seu governante foi o fato que motivou suas ações, segundo Gomes Freire. Outros pontos, como a instabilidade que tomava conta de São Paulo, também eram enfatizados: a pobreza vivida pelos seus moradores e os conflitos 263 ACMSP, v. 11, p. 82. 264 Vitor Hugo Abril relata o episódio. Ver: ABRIL, Victor Hugo. “Os modos de governar de Gomes Freire de Andrada na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”. Em Tempo de Histórias, a. 12, p. 179-180, 2008. 265 Carta de 1737. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, cx. 745, pct. 01, fol. 260. 106 enfrentados no seio das elites locais eram questões quecriavam a necessidade da presença de um governante para serem solucionadas. A passagem de súditos para a Colônia de Sacramento também era colocada como motivo de preocupação, pois precisava ser mais bem controlada para que houvesse ordem tanto na paz quanto na guerra. Na Carta Régia de 11 de agosto de 1738 para Gomes Freire, D. João V tratou dos planos do Governador. O monarca estava de acordo com a criação de uma fortificação na ilha de Santa Catarina e de um forte núcleo de povoamento em Rio Grande de São Pedro. Portanto, mandou separar Santa Catarina e a vila de Rio Grande da capitania de São Paulo, anexando-as ao Rio de Janeiro. Sobre a necessidade de as minas de Goiás e Cuiabá terem um governo particular, ficando subordinadas às Minas Gerais (ou seja, à Gomes Freire), o Rei não deu o aval, por o Conselho Ultramarino não possuir mapas precisos sobre a região. O monarca ainda indicou que Freire de Andrada, agora Governador interino de São Paulo, devia lhe passar os mapas com as divisões que gostaria de realizar266. Esse documento é importante por demonstrar de forma clara a estratégia do Governador do Rio de Janeiro. Chegando à capital fluminense em 1733 e assumindo o controle das Minas Gerais no final de 1735, o projeto político que conduzia as ações de Gomes Freire possuía ambição de unir o centro-sul da América portuguesa sob o controle administrativo da capitania do Rio de janeiro. O documento deixa claro que, desde 1737, seu objetivo era o de desmembrar e submeter a Capitania de São Paulo à sua jurisdição. Foi bem-sucedido com a anexação de Santa Catarina e do Rio Grande de São Pedro em 1738, mas o controle de toda a região mineradora e de fronteira com o império espanhol apenas viria a se concretizar dez anos depois, em 1748. Tudo isso ocorreu, pois, no governo de D. João V (1706-1750) – sobretudo a partir da década de 1720 – viu-se reproduzir novas estratégias de governabilidade. Passou a ganhar força na Corte uma visão de Estado que vislumbrava alcançar uma maior racionalidade no controle político-administrativa do 266 DI, v. 47, p. 110. 107 império267. A concepção ideológica de governo régio do século XVII – que bebia na tradição da segunda escolástica –fundamentava-se em uma moral cristã de governo. Nele, o Rei era concebido como pai e os súditos como seus filhos. Sua relação era marcada por deveres e obrigações mútuas. O monarca, que era servido, devia tratar os súditos com justiça, liberalidade e gratidão. Dos súditos, que deviam servir, era esperado lealdade e sacrifício. O vínculo era atravessado por uma sensibilidade política atravessada por valores morais, como misericórdia, graça e gratidão. Os vassalos ultramarinos tinham a obrigação de representarem o poder atribuído pelo monarca a eles nas conquistas, com serviço militar e administrativo, e o monarca deveria reconhecer a ação desses súditos, sendo a remuneração régia e a justiça distributiva fortes pilares de sustentação desse elo268. A vitalidade desse imaginário continuou presente no Setecentos, mas a ele se juntavam outros elementos e demandas sociais. O século XVIII viu crescer, dentro das obrigações da monarquia, a necessidade de promover o “bem comum” de seus vassalos. O bem comum era entendido não apenas como a garantia de justiça distributiva e de estímulo ao serviço régio, mas também como de defesa militar dos súditos. A descoberta das Minas, a riqueza que adveio delas e os perigos de invasões passaram a ser discutidos com mais frequência no Conselho Ultramarino, sobretudo após a invasão francesa no Rio de janeiro em 1711269. A intensificação dessa discussão aumentou a sensibilidade sobre a insegurança na proteção territorial do Estado do Brasil, que se tornou central para a noção da governabilidade imperial portuguesa270. Outro tema debatido, referente aos perigos internos que 267 RIBEIRO, M. S. Manutenção da justiça, racionalidade administrativa e 'razão de Estado' no Império luso, século XVIII: a gestão de Gomes Freire de Andrada, Rio de Janeiro e centro-sul da América portuguesa. Locus (UFJF), v. 24, p. 40, 2018. 268 CARDIM, Pedro. “Governo” e “Política” no Portugal de seiscentos: o olhar do jesuíta António Vieira. Penélope: Revista de História e Ciências Sociais, n. 28, p. 61-63, 2003. 269 Para mais detalhes sobre o episódio, ver: SANTOS, Fábio Lobão Marques dos. Entre honras, heróis e covardes: invasões francesas e disputas político-familiares (Rio de Janeiro, século XVIII). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2012. 270 Sobre isso, Laura de Mello e Souza cita o parecer do conselheiro Antônio Rodrigues da Costa, de 1732, e o discurso sobre os perigos que Portugal tinha de perder as Minas – fosse pelos inimigos internos e externos que se apresentavam na conjuntura histórica do período, fosse simplesmente pela riqueza ser mal guardada. Ver: SOUZA, Laura de Mello. O sol e a sombra. Op. cit. p. 105-108. 108 sofriam as Minas e o Estado do Brasil, era a relação dos súditos com os Governadores e os Ministros escolhidos pelo Rei. Ressentidos do controle exercido pelos dominantes, era fundamental que os Governadores escolhidos atentassem ao trato e à negociação política com os membros da elite local. Dessa forma, era imprescindível enviar representantes régios ao ultramar que procurassem sempre manter um bom regime com os vassalos, com uma correta administração da justiça271. Esse é o contexto histórico, na década de 1730, na qual se deu a escolha de Gomes Freire de Andrada para a administração da capital fluminense272. Logo após a chegada de Gomes Freire no Estado do Brasil, entre 1735-37, os espanhóis fundaram a cidade de Montevidéu, estabelecendo cerco hispânico sobre a Colônia do Santíssimo Sacramento e o território português273. Logo, não foi à toa que, assim que tomou posse do governo de São Paulo, em 1737, uma das primeiras ações de Gomes Freire foi a de assegurar a presença portuguesa no extremo sul do Brasil. Assumindo a jurisdição de Governador da Capitania, garantiu a ocupação definitiva do Continente do Rio Grande274 em 1737 para, logo em seguida, desmembrar essa mesma região e anexá-la à Capitania do Rio de Janeiro. A ocupação do território era estratégica para a Coroa portuguesa, pois, em sua compreensão, retirava parte da pressão colocada pela Coroa espanhola na fronteira sul. Como Sacramento encontrava-se em situação de vulnerabilidade, ocupar a região entre Santa Catarina e o Rio Grande colocava obstáculos entre os espanhóis e o restante da América portuguesa, e fornecia garantia militar mínima para as Minas de Cuiabá e Goiás. Colocar todo o litoral sul do Estado do Brasil sob a jurisdição da marinha e do 271 Id., ibid., p. 43. 272 A cidade do Rio de Janeiro viveu um crescimento exponencial de sua demografia e economia após os descobrimentos das Minas, por ser uma das principais encruzilhadas comerciais do império português, participando ativamente no abastecimento das áreas mineradoras. A mobilização de mais de 30 mil pessoas que se direcionaram para as Minas por volta da década de 1710 possuía no município o seu principal porto de entrada. A vitória emboaba no conflito com os paulistas, em 1709, consolidou a entrada de homens de negócio cariocas e baianos no comércio local, gerando aumento progressivo da circulação de capital na cidade, fortalecendo o sistema de crédito e o acúmulo de riqueza na capitania ao longo de todo o século XVIII. Para um quadro mais completo sobre o crescimento econômico da cidade na primeira metade do século XVIII, ver: SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá de. Na curva do tempo: a economia fluminense na primeira metade do século XVIII. Mnemosine Revista, v. 1, p. 134-152, 2011. 273 RIBEIRO, M. S. Gomes Freire de Andrada e os conflitos pela demarcação de fronteiras meridionais nas Américas: redes de poder e estratégias de ação na segunda metade dos Setecentos.Navigator (Rio de Janeiro), v. 9, p. 78, 2013. 274 Região localizada entre Santa Catarina e o rio da prata. Ver: KÜHN, Fábio. Breve história do Rio Grande do Sul. 3ª ed. Porto Alegre: Leitura XXI, 2007. p. 50, nota de rodapé nº 5. 109 governo fluminense era, então, uma forma de resguardar a defesa para possíveis investidas futuras dos espanhóis275. Quanto à outra recomendação da Corte portuguesa para os Governantes ultramarinos, a de integrar com justiça e parcimônia as questões da elite local para evitar tensionamentos desnecessários, Gomes Freire esforçou-se para compor e se harmonizar com os grupos dominantes da cidade de São Paulo. Uma carta enviada ao Rei, em 1737, avisava sobre o tensionamento vivido no corpo da elite local paulista. De certo, referia-se à intervenção de Pedro Taques Pires na eleição da Câmara Municipal no final de 1737 visto que, como tratamos na introdução do capítulo, foi o próprio Gomes Freire quem mandou soltar Taques Pires no final de 1737, depois da Relação da Bahia ter dado parecer favorável à eleição dos membros da comunidade mercantil do planalto. Seu esforço para harmonizar as animosidades locais pode ser percebido também na sua chegada a municipalidade, anunciada em novembro de 1737, mas que ocorreu apenas em 20 de janeiro de 1739, para que o cortejo ocorresse junto da procissão de São Sebastião. O Governador fez questão que fosse preparado um cerimonial festivo de recepção e um anúncio do seu governo, onde os membros da elite local teriam locais estipulados para se sentar, assumindo posicionamentos específicos, e alguns até mesmo tendo protagonismo ao portarem estandartes e símbolos que os distinguissem dos demais276. As Atas da Câmara Municipal não relatam nenhum cerimonial similar ao ocorrido com a 275 Já no final de 1738, após a fundação do forte de São Miguel, entre a Lagoa Mangueira e a Mirim, homens de diversas regiões se dirigiram para Rio Grande de São Pedro, estimulados pela distribuição de terras do governo. Os que se estabeleceram na região de Viamão possuíam patente militar, o que revela esforço da Coroa não apenas no povoamento do local, mas também para garantir engajamento dos novos moradores na defesa do território. Para maiores detalhes, ver: ALDEN, Dauril. Royal Government in Colonial Brazil. University of California: Press Berkeley and Los Angeles, 1968, p. 79; e KÜHN, Fábio. Gente da Fronteira: família, sociedade e poder no sul da América portuguesa – século 18. Tese de doutorado apresentada ao PPGH-UFF, Niterói/RJ, 2006. p. 105. 276 Emmanuel Le Roy Ladurie analisa a ideologia do grupo restrito de membros da Corte que viviam com o rei Luís XIV. Naquele universo, a questão das categorias e das hierarquias era uma questão central, assim como a importância dos sinais materiais ou simbólicos que demarcam as gradações que existiam em seu interior. Até mesmo os assentos, sua ordem e o tipo de cadeiras, eram importantes, pois materializavam as hierarquias descendentes de uma realidade onde a disputa pelo status e pela distinção social era voraz. Ao Rei, encontrando-se no meio desse frágil equilíbrio, qualquer movimento e ação em direção a algum grupo ou família era importante pois poderia conferir o mínimo de vantagem para os distinguir socialmente de seus pares. Tal realidade, mesmo que em menor grau, era reproduzida em diversas partes do reino na cultura estamental do antigo regime. Ver: LADURIE, Emmanuel Le Roy .“A Hierarquia e as categorias”. In: Saint Simon ou o sistema de Corte. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. 110 chegada de um Governador na cidade, nem mesmo com Rodrigo César de Menezes277. A convocação para participar do cortejo aconteceu em no dia 17 de janeiro. Nela, em sessão cuja presidência ficou nas mãos do Ouvidor-Geral da Capitania dr. João Rodrigues Campello278, foram convocados os mercadores e os homens de negócio da municipalidade para comparecer na sessão, e a eles foi perguntado se desejavam participar da cerimônia de recepção do Governador. Respondeu-se que “uniformemente q elles estavão promptos, e com a mayor vontade de concorrerem para o custumado recebimento e cortejo do Senhor General, em razão de o apptecerem com a mayor ancia para conservação destes povos”279. Em seguida, na mesma sessão, apresentou-se o formato no qual o cerimonial iria ocorrer. Seriam levantados quatro arcos, “hum nos quatro cantos: outro na Mizericordia: outro asima da Matris: outro a esquina do Collegio [dos jesuítas]”. Portanto, havia instruções sobre em qual dos Arcos cada grupo dos mercadores deveria se posicionar. A atenção dada a eles, sendo convocados e orientados sobre o seu lugar no cortejo, não parece ser aleatória. Havia um esforço, capitaneado pelo Ouvidor-Geral da capitania, para construir um lugar de representação para o grupo dos comerciantes e mercadores locais. Esse espaço foi criado sem sinal algum de resistência por parte das famílias antigas do planalto, o que deixa a compreensão de que um acordo sobre o assunto já tivesse sido acertado com antecedência, envolvendo inclusive alguma ação conciliatória do então governador Gomes Freire de Andrada. Grande parte dos lugares de proeminência no festejo foram ocupados por membros de famílias antigas de Piratininga. O estandarte na hora do cerimonial seria portado pelo Capitão-mor das Ordenanças em exercício na municipalidade, D. Simão de Toledo Piza (família Toledo Piza). Para o posto de segurar o pallio na chegada do Governador-General, foram escolhidos: Antonio da Cunha de Abreu (família Furquim), José de Góes e Moraes (família Taques Pompeus), D. Simão de Toledo Piza e Diogo de Toledo Piza (família Toledo Piza). Para estar com o pallio ao 277 Rodrigo César de Menezes assumiu o governo em 1721 após a separação de São Paulo das Minas Gerais. Com a separação, o nome da Capitania mudou. 278 O mesmo que atuou na eleição de 1736 contra a ação de Pedro Taques Pires. 279 ACMSP, v. 11, p. 183-184. 111 longo do cortejo: Diogo de Toledo Piza, Claudio Furquim (família Furquim), Manoel de Góes Cardoso (família Carvoeiro), José Pinto Guedes (família Moraes) e Francisco Xavier Garcia (família Tenório). Para segurar a charola: Manoel José da Cunha (português), Estevão Raposo da Silveira (família Raposo Góes), Antonio Vaz de Oliveira (origem não identificada, aliança matrimonial com a família Garcia Velho) e Francisco Pinheiro de Sepeda (português). Portanto, tem-se um total de 14 nomeações, sendo apenas duas (14,28%) delas de portugueses. A comunidade de comerciantes reinol, que se viu representada como corpo nos arcos formados ao redor do cortejo, teve que se contentar com uma participação reduzida no núcleo central da representação hierárquica da cerimônia. Já as famílias mais antigas do planalto, que concordaram com a participação de toda a comunidade de mercadores portugueses no evento, tiveram o seu protagonismo exaltado e reconhecido no palco central onde ocorreu a procissão. Esse acordo conformou ambos os grupos e apaziguou as animosidades vividas no início de 1737. É visível, dessa forma, a atenção que o Governador interino deu ao assunto, ainda mais quando se evidencia que já no mês seguinte, em fevereiro, outro governador seria nomeado para o posto. Ciente dos atritos e das querelas que tomavam a municipalidade na disputa interna entre mercadores portugueses e famílias antigas, Gomes Freire – provavelmente sabendo da sua substituição eminente na Corte – fez questão de manter a sua ida a São Paulo e a realização do cerimonial para harmonizar a região e facilitar a colaboração daqueles súditos em futuras demandas da Coroa portuguesa280. No dia 12 de fevereiro de 1739, D. Luis Mascarenhas foi nomeado Governador para a Capitania de São Paulo, destituindo o Governador fluminense da função. Não se sabe o porquê da 280 Thiago Krause, ao estudar o caso da Câmara de Salvador, afirma que, emboraem graus muito variáveis, os Governadores-Gerais defenderam interesses locais e estabeleceram relações de cooperação com a elite baiana. Krause argumenta ainda que, sem as redes e sistemas locais de autoridade, os governadores encontravam-se impotentes perante suas possibilidades de atuação. Com isso, a cooperação entre as partes era algo esperado e desejado dentro das dinâmicas locais de poder da América portuguesa: “Discordâncias à parte, todos desejavam proteger a economia açucareira e defender a capitania de invasores, e o respeito formal à autoridade régia era universal”. Pensamos que nos casos dos Governadores de Capitania de São Paulo valia o mesmo: ter a colaboração da elite local significava capital político para o ministro régio. Ver: KRAUSE, Thiago. A formação de uma nobreza ultramarina: Coroa e elites locais na Bahia seiscentista. Tese de doutorado, Rio de Janeiro: PPGHIS/UFRJ, 2015. p. 283. 112 atitude do Rei, visto que não se tem acesso a documentos que relatem as motivações por trás da indicação de Mascarenhas ao governo. Mas a proposta de Gomes Freire, de submissão da capitania de São Paulo e das minas de Goiás e Cuiabá à capitania do Rio de Janeiro não foi acatada na Corte. Isso não mudava, no entanto, a estratégia da Coroa portuguesa para as áreas de fronteira da região centro-sul da América lusa. O interesse continuava a ser o de ocupar demograficamente essas áreas, promovendo o seu povoamento e dinamizando a sua conexão, sobretudo comercial, com as demais regiões da Capitania. Em relação a isso, D. Mascarenhas seria constantemente cobrado. Entre setembro de 1739 e maio de 1740 D. Mascarenhas trocou cartas com o Vice-rei do Brasil, o Conde das Galveas. Delas, tivemos acesso a última, de 22 de maio de 1740, onde o Governador relatou o estado em que se encontrava a capitania. Segundo sua descrição, o estado dos descobrimentos não havia melhorado, visto que as ações dos particulares não vinham sendo profícuas. O problema da distância geográfica também era complexo, visto que existia dentro do território por ele administrado séria dificuldade em promover o abastecimento de mantimentos nas áreas mineradoras. Argumentou que orientou os súditos que realizavam entradas para o sertão sobre a necessidade de fazer roças antes de se estabelecer na atividade mineradora, caso eles de fato almejassem se enraizar nos núcleos de povoamento daquelas regiões. Terminou a carta pedindo ajuda ao Vice-Rei para que, com sua influência na Corte, o ajudasse a “povoar esta conquistar e estabelecer este Imperio na Grandeza e opulência”281. No mesmo dia escreveu uma carta a Gomes Freire, mas fez um relato mais breve. Nela confirmou o que havia dito ao Vice-Rei do Estado do Brasil que as minas e os descobrimentos de ouro não tiveram até a data sinais de melhoramento282. A agilidade com que Gomes Freire de Andrada agiu em relação a região sul do Brasil, incentivando a imigração e o povoamento ao longo de todo o ano de 1738, pressionava D. Luis Mascarenhas e a sua atuação na fronteira oeste da Capitania de São Paulo. A estratégia de povoar 281 DI, v. 66, p. 46. 282 Id., ibid., p. 47-48. 113 para defender continuou presente, talvez com urgência ainda maior, visto que as minas de Cuiabá e Goiás tinham mais importância para Portugal que a vila de Rio Grande e que a Colônia de Sacramento. Fora isso, a proximidade da ocupação hispânica no Paraguai deixava aquela fronteira tão vulnerável a uma invasão quanto à região sul. Tais tópicos preocupavam D. Luis de Mascarenhas, como se vê em uma carta ao Ouvidor-Geral do Mato Grosso, João Gonçalves Pereira, no dia 14 de outubro de 1742. Já tendo reprimido o oficial anteriormente por ter autorizado uma troca comercial entre súditos locais e membros da aldeia hispânica de São Rafael, o Governador soube de intenções de moradores que estavam armando canoas para descer o rio Paraguai283. Mascarenhas reprovou com veemência a ação do magistrado e, em uma carta do mesmo dia endereçada ao Vice-Rei do Estado do Brasil, desabafou sobre a situação. No relato ao Vice-Rei, revelava também que recebera dias antes uma carta do Secretário de Estado Antonio Guedes Pereira. Nela, ao saber do intercâmbio de comércio com membros da aldeia de São Rafael, Guedes Pereira alertava ao Governador de São Paulo sobre o perigo de haver, por parte de Castela, algum rompimento diplomático284. Pressionado, D. Luis novamente decorre sobre a dificuldade do abastecimento de mantimentos em Cuiabá, o que seria a causa de os vassalos estabelecerem intercâmbio comercial com povoados da região hispânica. Em dezembro de 1742, em carta enviada a Gomes Freire de Andrade, a situação não parecer ter se alterado. Relata sobre cartas que chegaram a ele, vindas de Lisboa, que orientavam sobre como proceder se "qualquer rompeimento, que da parte de Castella possa haver"285. Contudo, o Governador estava pessimista sobre a capacidade de Goiás e de Mato Grosso se defenderem, caso a paz se rompesse. Seria necessário gente regrada, povoação murada e entrincheirada e a existência de sobras de mantimentos. Só assim para que a defesa da região pudesse sobreviver. Acrescentava que, além disso, era impreterível a construção de alguma fortificação perto do rio Paraguay e a necessidade 283 DI, v. 66, p. 63 284 Pressionado, D. Luis novamente decorre sobre a dificuldade do abastecimento de mantimentos em Cuiabá, o que seria a causa de os vassalos estabelecerem intercâmbio comercial com povoados da região hispânica. Ver: id., ibid., p. 63-66. 285 Idem. Ib. p. 74. 114 de lançar edital com urgência para atrair homens pobres a ocupar o território, com promessas de terras e isenções fiscais. Não encontramos cartas sobre a situação entre os anos de 1743 e 1744. A pressão em cima do Governador de São Paulo, no entanto, não pareceu diminuir quando chegamos ao ano de 1745. Em 20 de maio de 1745, Mascarenhas enviou carta ao Ouvidor-Geral do Mato Grosso, Antunes Nogueira, tratando de súditos portugueses que desejavam, mais uma vez, passar para as terras de Castela. O conteúdo da carta mostra o desanimo de Mascarenhas com a questão. Pois ele próprio tratou o problema como algo que não se conseguia encontrar solução, provavelmente se refereindo aos esforços mal sucedidos entre 1742 e 1744. Ademais, tornando a situação da fronteira ainda mais delicada e instável, padres de Castela tinham fundado missões na parte de ocupação portuguesa do território. Sobre esse assunto, o Governador de São Paulo deixava claro para o Ouvidor- Geral do Mato Grosso que as aldeias precisavam ser extintas imediatamente286. Essa conjuntura fez com que a relação entre D. Luis Mascarenhas e Gomes Freire de Andrada se deteriorasse. Em janeiro de 1747, em uma carta de Gomes Freire ao Vice-Rei, o Governador do Rio de Janeiro dizia que D. Mascarenhas passou a ignorá-lo, deixando de responder suas correspondências287, e que esse processo de indiferença já ocorria há alguns anos. Tal evidente desgaste enfraquecia a posição do Governador de São Paulo na Corte, assim como seus insucessos no projeto de povoamento e de defesa do extremo oeste do Estado do Brasil. Contudo, curiosamente, o episódio final que colocaria fim no seu posto como Governador da Capitania de São Paulo não ocorreu na fronteira da capitania, mas em seu núcleo central, na cidade de São Paulo de Piratininga. O fim de Mascarenhas veio de um conflito que teve com o Ouvidor- Geral Domingos da Rocha, em uma circunstância em que a elite local precisava de um aliado para resistir às ações do Ouvidor. D. Mascarenhas, que já tinha dificuldades em sua política na fronteira, viu na aliança com as famílias antigas do Planalto uma oportunidade de fortalecer um importante 286 Id., ibid., p. 120. 287 Carta do general do Rio de Janeiro ao conde de Galvêas. Arquivo Nacional. Coleção Secretaria do Estado do Brasil: Correspondência dos governadoresdo Rio de Janeiro com diversas autoridades, cód. 84, v. 11 (1743-1749), p. 179. 115 pilar de sustentação para o seu governo. A aplicação da justiça sempre foi uma das principais preocupações da Coroa na América portuguesa. O tamanho territorial da conquista demandava a criação de diferentes instituições capazes de ajudar o Rei em sua administração e fiscalização. Os Ouvidores-Gerais eram oficiais da justiça que assumiam seus postos através de nomeação régia e que representavam o poder central nas comarcas. Seu ofício era envolto em uma áurea centralizadora, de forte caráter fiscalizador288. Logo, não era raro que a sua atuação produzisse conflito com a Câmara Municipal, uma das principais instituições a ser fiscalizada, como vimos no caso do Ouvidor-Geral Campello no embate da eleição de 1737 com Pedro Taques Pires. Domingos da Rocha assumiu o cargo na municipalidade em 1744 e, desde então, adotou uma postura de enfrentamento junto aos oficiais do Senado. Sua atuação foi marcada por um constante ímpeto fiscalizador. Desde a impugnação da nomeação de Procurador que se encontrava em situação irregular, passando por restrições jurídicas sobre a forma de dar prosseguimento a processos criminais na Câmara, chegando ao embargo no processo eleitoral, o Ouvidor-Geral foi um oficial régio engajado na execução das suas orientações para a aplicação da justiça289. Um caso emblemático de atuação de um Ouvidor deu-se em meados de 1746: na sessão de 11 de junho, Domingos da Rocha apresentou um requerimento sobre a necessidade de se respeitar a ordem de assentos dos vereadores na Câmara, na qual o primeiro lugar deveria sempre ser ocupado pelo membro mais velho290. Rocha referia-se a Bernardo Guedes de Toledo, que apesar de ser mais novo do que José Rodrigues da Silva Horta, colocava-se como o mais velho entre os Vereadores, tendo o direito a substituir o posto de Juiz Ordinário nas sessões em que os juízes estivessem impedidos de estarem presentes. Os oficiais da Câmara tentaram argumentar, dando exemplo de precedentes anteriores, como na situação em que o Coronel Francisco Pinto do 288 MELLO, Isabele de Matos Pereira de. Magistrados a serviço do rei: a administração da justiça e os ouvidores gerais na comarca do Rio de Janeiro (1710-1790). 2013. 360 f. Tese (Doutorado em História) – Departamento de História, Universidade Federal Fluminense Niterói, 2013, p. 80-81. 289 William Funchal relata alguns desses episódios. Ver: FUNCHAL, William, op. cit., p. 70-78. 290 RGCSP, v. 8, p. 220-221. 116 Rego, sendo o mais novo dos eleitos, ainda assim ocupou o lugar do mais velho, ou em outra eleição, em que Francisco Pinheiro de Sépeda, sendo o mais velho dos vereadores, ocupou o último lugar do assento291. Os dois exemplos citados pela Câmara são emblemáticos sobre a forma como a dinâmica interna da Câmara, apesar de ter que respeitar a eleição anual, possuía formas costumeiras de construir a sua própria hierarquia interna. Francisco de Sépeda, reinol envolvido no embate em torno da eleição de 1737292, apesar de ser o mais velho no ano da sua eleição não era considerado o primeiro lugar entre os vereadores. Já Francisco Pinto do Rego, vindo de uma importante família de Santos e casado com a filha do Capitão-mor José de Góes e Moraes293, ocupou o primeiro lugar entre os vereadores em seu ano de eleição, mesmo sendo ele o mais novo entre eles. No caso da eleição de 1746, Bernardo Guedes de Toledo era sobrinho do Capitão-mor Simão de Toledo Piza294 e, mesmo mais novo, assumiu um lugar hierarquicamente superior ao de José Rodrigues da Silva Horta. Em relação a essa querela, apesar dos protestos da Câmara, o Ouvidor-Geral seria duro em suas imposições. No dia 6 de julho a questão já estava em debate no Conselho Ultramarino295 que, no mesmo dia, discutiu em Lisboa a defesa do Senado paulista296. O argumento dos oficiais era de que os Ouvidores não deviam se envolver em operações da Câmara Municipal, que só poderia receber ordens do Governador da Capitania. O ganho da questão foi dado ao Ouvidor, o que obrigou a Câmara a realizar uma nova eleição ainda no mês de julho de 1746297. O episódio revela que um dos alvos de Domingos da Rocha era o direito costumeiro 291 Id., ibid., p. 222. 292 Sépeda esteve envolvido com a tensa eleição de 1737 e foi um dos que elaboraram um requerimento que foi enviado para Lisboa em 1747. Ver: AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 17, doc. 1656. 293 Francisco Pinto do Rego era casado com Escolastica Ribeiro Góes e Moraes e ainda foi Capitão-mor das Ordenanças de São Paulo, Provedor da Santa Casa de Misericórdia e um dos principais membros da elite paulista na segunda metade do século XVIII. Discutiremos melhor a sua trajetória e a da sua família no próximo capítulo. 294 Bernardo Guedes de Toledo seria ainda Vereador em 1750 e 1753, assim como Juiz Ordinário em 1764. Analisaremos a sua família no próximo capítulo. 295 AHU, Mendes Golvea, caixa 16, doc. 1601 296 AHU, Mendes Golvea, caixa 17, doc. 1602. 297 Affonso Taunay narra o episódio de forma detalhada. Ver: TAUNAY, Affonso de E. História da cidade de São Paulo no século XVIII. Op. cit. v. I, 1ª parte, p. 42-44. 117 reproduzido em São Paulo, ou seja, as adaptações que a vivência da Câmara Ultramarina, em sua reprodução segundo os interesses locais, foi realizando ao longo do tempo. O magistrado parecia engajado em intervir nas práticas locais, sobretudo nos pluralismos políticos e jurídicos que observava. Sua ação visava que as leis reproduzidas na Câmara paulista se harmonizassem ao funcionamento do corpo jurídico-administrativo português, o que era um desafio para a elite local de Piratininga. O episódio de tensionamento seguinte, no final de 1746, colocou em pauta questões antigas na Câmara: a eleição municipal e o esforço de parte das famílias antigas da municipalidade de restringir a participação de mercadores portugueses na instituição. Como vimos ao longo deste capítulo, a década de 1740 representou a ascensão social dos membros da comunidade mercantil reinol na Câmara e nas demais instituições da municipalidade – pelo menos até a composição da Câmara Municipal de 1746, que pela primeira vez em mais de uma década não contava com a representação de mercadores portugueses que moravam na cidade. Em novembro de 1746, abriu-se o último dos pelouros existente no cofre do Senado, para retirar os nomes dos eleitos para formar o corpo camarário de 1747. Saíram os nomes de José Rodrigues da Silva Horta (paulista) e José de Sá. Ambos os nomes foram embargados pelo ouvidor Dr. Domingos Luiz da Rocha: Horta pois já havia servido na câmara no ano que findara; e José de Sá porque “se achava criminoso”. Os membros do Senado, contudo, tomaram as rédeas do processo eleitoral para si. Consideraram apenas o nome de José de Sá como impugnado, elegeram Inácio de Barros Rego para o seu lugar, e optaram por manter a eleição de José Rodrigues da Silva Horta, pois a questão de ter servido no ano anterior seria “sem importância”298. Na sessão de abertura do ano de 1737, no entanto, o Ouvidor interveio e exigiu que fosse realizada nova votação, invalidando a anterior. Argumentava ele que, segundo as Ordenanças do reino, competiria somente a ele a realização de novas eleições municipais, para garantir a lisura do processo299. O tensionamento que já vinha desde meados de 1746 escalonou rápido na virada para o 298 O episódio se encontra narrado por Affonso Taunay em: Id., ibid., p. 44-48. 299 RGCSP, v. 8, p. 337. 118 ano de 1747. Mais tarde, em fevereiro de 1749, ao justificar todo o embate no Conselho Ultramarino, o Ouvidor-Geral contou mais detalhes sobre a eleição no final de 1746. Disse que, ao mandar publicar o edital para a eleição de barrete (2ª eleição), os oficiais da Câmara tomaram a frente do processo, excluindo da votação alguns dos homens bons da cidadeaptos a participar. Inácio de Barros Rego, inclusive, teria mandado embora todos os “filhos do reino que estavam para votar”300. Não à toa, no dia 2 de janeiro de 1747, Domingos da Rocha registrou na Câmara uma petição do negociante reinol Mathias da Costa Figueiredo, a qual pedia a nulidade da eleição ocorrida no final do ano anterior. No mesmo dia, o magistrado registrou um alvará régio, datado de 6 de maio de 1649. Nele constava uma deliberação do Rei sobre um conflito que ocorreu na comarca de Vianna, mas que, segundo as palavras do soberano, valeria para todas as comarcas sob seu domínio. Afirmava que em todas as vilas onde não houvesse juiz de fora e que se encontrasse em desordem, seria necessário realizar ato de correição por parte dos Ouvidores/Corregedores. E que os oficiais das Câmaras que não acatassem a essa correição, seriam punidos301. Impotentes perante as intervenções do Ouvidor-Geral e não desejando realizar nova eleição, os oficiais eleitos da Câmara recorreram ao Governador da Capitania no dia 6 de janeiro302. A resposta veio logo, no dia 7 de janeiro, e o Governador, sem consultar o Ouvidor sobre o conflito e a eleição, colocou-se favorável ao interesse das famílias antigas da cidade303. Mesmo assumindo um tom que desejava evitar confrontos, falando sobre a prudência do Ouvidor, D. Mascarenhas apresentou-se de um lado na querela do qual não poderia mais voltar atrás. O Ouvidor aceitou a decisão do Governador e deu posse aos oficiais no mesmo dia 7 de janeiro304. No entanto, não desistiu da Correição305 que prometeu no dia 2 de janeiro daquele mesmo ano, ao 300 A defesa de Domingos da Rocha veio numa de carta de fevereiro de 1749. Ver: AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 19, doc. 1843. 301 RGCSP, v. 8, p. 340-341. 302 Afirmavam que a eleição de barrete havia sido legal, sem impedimento algum, mas que a intervenção do Ouvidor- Geral no pleito estava causando grande desordem. Ver: id., ibid., p. 360-361. 303 Id., ibid., p. 360-361. 304 O episódio encontra-se narrado por Affonso Taunay em: TAUNAY, Affonso de E., op. cit., v. I, 1ª parte, p. 44-48. 305 Uma das principais atribuições dos Ouvidores-Gerais era realização de correições anuais. Cabia a eles percorrer toda a comarca, realizando sindicâncias para verificar o andamento da administração realizada pelas Câmaras. Eram espécies de inspirações anuais, que deveriam ser feitas fisicamente, nas quais os Ouvidores tratavam com os 119 registrar o Alvará régio na Câmara Municipal. Em uma carta de 12 de março, endereçada ao Governador, os oficiais da Câmara afirmaram que o Ouvidor-Geral veio ao Senado e apresentou uma Correição306. Em 18 de março de 1747 temos uma carta de D. Luis Mascarenhas registrada na Câmara Municipal, na qual afirma que o monarca lhe ordenou que não resolvesse as dúvidas dos oficiais sem primeiro ter em mãos o relato do Ouvidor Geral para ler. Contudo, o Governador afirmou que “a paixão do dito ministro contra esse Senado se fez tão manifesta como eu presenciei, ordeno a vossas mercês que interinamente não dêm cummprimento a capitulo algum dos que o doutor ouvidor geral deixou em correção”307. A Correição realizada por Domingos da Rocha possuía oito capítulos; neles havia alguns pontos que o Governador contestou no dia 6 de abril308. O primeiro capítulo exigia que o Senado contasse com um assessor e dez advogados nos auditórios – o que Mascarenhas contestou, sobretudo a presença do acessor que “he certo q eeste não aconselhará cousa q não seja conforme com a paixão do Ouvidor”309. O segundo, sobre direcionar sempre os recursos que sobrassem no Conselho para a aplicação de obras, D. Luis considerou excessivo, pois se os recursos da Câmara não fossem suficientes para realizar uma obra específica, o Conselho Municipal não precisaria ser obrigado a guardar o dinheiro para essa obra, podendo utilizá-la para outras coisas. Sobre o sétimo capítulo, no qual constava que qualquer carta direcionada ao Rei teria que ser ditada por um juiz, D. Mascarenhas afirmou que isso feria o direito do Senado de enviar representações de queixas para o monarca em relação aos Generais e Ministros régios, o que seria um cerceamento de seu direito de autorrepresentação. Por fim, o oitavo capítulo discorria sobre a anulação da concessão do Privilégio dos oficiais da Câmara do Porto para São Paulo. Passada por uma ordem real em 17 de janeiro de 1715, mas jamais vereadores de assuntos relacionados ao bem comum. Ver: MELLO, Isabele de Matos Pereira De. Magistrados a serviço do rei, op. cit., p. 193. 306 RGCSP, v. 8, p. 363. 307 Id., ibid., p. 382. 308 Não tive acesso ao documento inicial do Ouvidor, apenas à resposta do Governador. Com isso, poderia discorrer aqui apenas sobre os pontos por ele contestados. O documento é de 5 de abril de 1747. Ver: DI, v. 66, p. 179-181. 309 DI, Vol v. 66, p. 179. 120 confirmada pelo monarca, o Ouvidor afirmou que os paulistas não poderiam mais se utilizar desse privilégio. O Governador defendia ser contrário a decisão, pois a não confirmação dos privilégios não seria culpa dos homens bons da cidade, e eles não deveriam ser punidos por algo que não seria da responsabilidade deles. A reforma jurídico-administrativa que o Ouvidor-Geral procurava implementar na Câmara Municipal de São Paulo era significativa. Os pontos contestados iam na direção de restringir as liberdades locais, sobretudo o primeiro e o sétimo capítulos, que colocavam um assessor para comparecer em todas as sessões ordinárias – com claro intuito de coagir os oficiais da Câmara – e um juiz para regular toda a documentação produzida no Senado para ser enviada ao Rei. Estabelecer obrigações de como utilizar os recursos que sobravam nos cofres da Câmara (segundo capítulo) seria retirar o direito de decisão local sobre como gerir a administração municipal; já anular o privilégio da Câmara do Porto conferidos à Câmara de São Paulo (oitavo capítulo) significaria diminuir o status e o peso político do Senado paulista no cenário político e representativo do ultramar português. Desde a sua chegada em São Paulo, imbuído com o propósito de fiscalizar e reformar a administração camarária, procurando restringir práticas costumeiras e uniformizar a sua ação à prática do reino, o que vemos nesses capítulos é algo ainda mais radical. Contudo, mesmo que sua ação e retórica tenha sido motivada em parte pelo ressentimento com a forma como foi conduzida a eleição no final de 1746, os capítulos falam também das orientações que Domingos da Rocha havia recebido na Corte ao assumir o cargo. Tais preceitos, de fato, orientaram suas ações na municipalidade desde 1744. Ao conflitar tão abertamente com o Ouvidor, D. Luis Mascarenhas colocou-se não apenas contra o magistrado, mas contra todos os interesses da Corte que estavam por trás da nomeação do Ouvidor-Geral, três anos antes. Os capítulos terceiro, quarto, quinto e sexto da Correição, aos quais D. Luis não se opôs, foram aceitos na Câmara em abril. Contudo, Domingos da Rocha voltou a registrar em uma carta na instituição, no dia 26 de maio de 1747, acusações contra o Governador de atropelar as ações da 121 edilidade. Voltava-se, então, a questionar a eleição e, consequentemente, as ações do Governador em conluio com os oficiais da instituição, “ocasionando escrúpolo ao povo de ser nulo ou não tudo pelos ditos vereadores feito”310. A insistência do Ouvidor-Geral era reflexo não apenas da sua teimosia, mas também do interesse de ao menos parte da comunidade mercantil portuguesa, excluída da eleição anterior. Contudo, ao lado dos oficiais eleitos continuava a defesa de D. Mascarenhas. Em 27 de junho o Governador enviou requerimento ao Rei, anexando quatro cartas, duas provisões, dois ofícios e os capítulos de Correição do juiz da Ouvidoria311. Em agosto escreveu à Câmara, informando que ordenara ao Ouvidor anão prosseguir com a devassa da eleição312. A discussão sobre a composição camarária de 1747, que se alongou por todo o ano, se encerrou ali, com a vitória local do grupo das famílias antigas de São Paulo e de D. Luis Mascarenhas frente ao Ouvidor-Geral e a comunidade mercantil portuguesa. O triunfo local, entretanto, não significou necessariamente uma conquista em Lisboa, ao menos no que dizia respeito às ambições dos grupos envolvidos no longo prazo. O tensionamento vivido na municipalidade reverberou na Corte. Em 11 de abril de 1747, dez anos depois da eleição para os mandatos de 1737, os requerimentos escritos pelos mercadores reinóis no período foram debatidos no Conselho Ultramarino. Os relatos produzidos pelos mercadores reinóis Bartolomeu de Freitas Esmeraldo, André Alvares de Castro e Francisco Pinheiro de Cepeda no início de 1737, relatando como foram impedidos de participar da eleição municipal, foram colocados em consideração, e narravam o modo como ocorrera a eleição, a injustiça que teriam passado os três súditos e as ameaças por eles sofridas. No texto estava descrito que o mestre de campo Antônio Pires de Avila, com aval do Governador da praça de Santos, amotinou a cidade com uma tropa que contava com um sargento, dez soldados e mais cinquenta membros do seu terço. Os portugueses que participaram da eleição tiveram que se refugiar no convento de São Francisco, impedidos de participar do pleito. Tudo isso com o “pretexto de que as famílias dos Pires e 310 RGCSP, v. 8, p. 388-389. 311 AHU, ACL, CU 023, cx. 3, doc. 221. 312 RGCSP, v. 8, p. 394-395. 122 Camargos, no ano de 1655, tinham alcançado provisão para que só eles servissem na Câmara”313. Entretanto, argumentavam que ali havia famílias tão dignas ou mais que aquelas, pelo que pedem que, não atendendo à provisão, por não haver fundamento para ela, ordene que se observe, nas eleições, a lei do Reino e, no que toca à administração da justiça, pelo regimento, que não se deve intrometer o governador, e que os suplicantes sejam restituídos a seus empregos314 O surgimento desse debate no Conselho Ultramarino não foi aleatório, visto que a data de sua discussão coincidia com a realização da Correição que o Ouvidor-Geral procurava implementar em São Paulo. Os documentos analisados no Tribunal régio advinham de Domingos da Rocha que, em uma provável fiscalização da documentação camarária de dez ano atrás, encontrou os requerimentos e os enviou para Lisboa. A situação em muito se assemelhava ao que havia ocorrido no final de 1746 quando, segundo o relato do Ouvidor-Geral Domingos da Rocha, Inácio de Barros Rego mandou embora todos os “filhos do reino que estavam para votar”. O episódio de 1737 jogou luz sobre o de 1747 que, acompanhado de todo o embate vivido ao longo daquele ano, fortalecia a narrativa do Ouvidor-Geral e da comunidade mercantil de que os interesses particulares em São Paulo muitas vezes se sobrepunham ao interesse do bem comum da cidade. Já desgastado com os insucessos da sua atuação na fronteira extremo oeste da capitania de São Paulo, D. Luis Mascarenhas protagonizou, ao longo de todo 1747, mais um episódio em que sua atuação fora criticada na corte lisboeta. Sua posição, apresentada de forma aberta e com veemência no confronto com o Ouvidor-Geral, enfraquecera o magistrado nomeado pelo Rei e 313 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, Cx.cx. 17, Doc.doc. 1656. 314 Id., ibid. 123 que intervinha na Câmara paulista segundo interesses da Corte. Somada a isso, havia a oposição crescente de Gomes Freire – e toda sua rede clientelar em Lisboa – à sua atuação na região da fronteira centro-sul do Estado do Brasil. Assim, o governo de Mascarenhas alcançou ponto de inflexão no ano seguinte. Em 9 de maio de 1748, o rei D. João V emitiu uma ordem que determinava a criação de dois novos Governos, um nas Minas de Goiás e outro nas de Cuiabá, e considerava “ser desnecessário que haja mais em São Paulo governador com patente de capitão- general”315. Tem-se, portanto, uma vitória política do Governador fluminense, que viu seu projeto, o qual defendia há mais de 10 anos, prosperar sob o custo das ambições de D. Luis Mascarenhas. O Governador deposto resistiu à decisão, e retornou ao reino apenas em 1749, colocando a responsabilidade de sua queda na conspiração de Gomes Freire316. Não foram apenas os planos e as ambições de D. Mascarenhas que foram afetados. As famílias tradicionais de São Paulo, após todo o embate com Domingos da Rocha em 1747 e a perda da autonomia da capitania em 1748, também sentiriam o revés, que veio a afetar a dinâmica local. O Ouvidor-Geral pediu, em 20 de janeiro de 1749, a revogação das provisões concedidas às famílias Pires e Camargo pelo alvará de 1655. Argumentava que, como as desavenças entre as famílias, que deu origem ao acordo no século anterior, estava extinta, ela não se fazia mais necessária. Deveriam concorrer às eleições todos os homens de posse de São Paulo, já que era uma cidade composta “por muitos habitantes do reino”317. Após uma consulta ao Procurador da Coroa, o Conselho Ultramarino deliberou concordar com o parecer do Ouvidor, revogando as provisões do Alvará e retirando das famílias mais antigas de São Paulo aquela preciosa ferramenta jurídica de pressão política pelo controle camarário. Nesse episódio revelou-se outro fato que também fez o equilíbrio de poder desfavorecer as linhagens mais antigas. Domingos da Rocha, ao apresentar a sua defesa em 10 de fevereiro de 315 Carta de D. João a Gomes Freire de Andrada. DI, v. 73, p. 151-153. 316 Em 28 de fevereiro de 1749, Gomes Freire escreveu a D. Luis Mascarenhas procurando refutar a ideia de que ele havia conspirado contra o ex-governador. Para isso, o Governador fluminense constrói uma ordem cronológica dos acontecimentos que ocorreram, colocando-se na posição apenas de receptor de ordens e decisões régias. Ver: DI, v. 47, p. 125-127. 317 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 18, doc. 1820. 124 1749 em Lisboa, foi defendido, em carta, pelo então Governador Gomes Freira de Andrada. A carta reforçava a narrativa do Ouvidor de que a eleição no final de 1746 – para formar a edilidade de 1747 – teria sido manipulada pelos filhos da terra, liderados por Inácio Barros Rego. Ou seja, nessa manifestação, referente ao controle da Câmara Municipal, já havia sinais de que a ascensão de Gomes Freire como Governador de São Paulo em 1748 não traria posição favorável às famílias antigas do planalto. Antes favorecidas pela atuação do Governador D. Luis Mascarenhas, que fornecia contraponto à ação do Ouvidor na eleição, o alinhamento de Gomes Freire com Dr. Domingos da Rocha oferecia poucas brechas de negociação aos paulistas no assunto e em sua ambição de controle camarário. Na esteira desse movimento, o comerciante português André de Alvares de Castro318, habilitado como cavaleiro da Ordem de Cristo em 1742, foi à Câmara municipal em 31 de março de 1751 com o intuito de registrar a sua mercê na instituição, assim como as de seus 5 filhos – Caetano Alvares de Castro, Joaquim Manuel da Silva Castro e João Alves de Castro e José Ignacio da Silva Castro – todos agraciados com o foro de cavaleiros fidalgos e com o hábito da Ordem de Cristo pelo Rei. Além disso, registrou o Brasão de Armas da linhagem dos Castros, para ter direito ao uso da honra das armas pelo merecimento de seu serviço319. Seu irmão, Mathias Alves Vieira de Castro, fez o mesmo quatro meses depois, em julho de 1751, registrando no Senado a mercê de cavaleiro professo na Ordem de Cristo (1748), bem como a confirmação da mercê do Rei do Brasão de Armas também para a família Vieira320. Por terem apresentado na Câmara toda a documentação, com a assinatura da concessão régia, André e Mathias afirmaram seu lugar social: não eram mais dois jovens irmãos, pobres, vindos da região doMinho, no norte de Portugal, tentando do zero a vida comercial da América Lusa; passaram a ser membros da baixa nobreza 318 André Alvares de Castro foi um dos membros eleitos e destituídos na eleição de 1737 que escreveu os requerimentos sobre o episódio debatidos no Conselho Ultramarino em 1747. 319 Toda a documentação encontra-se em: RGCSP. v. 10, p. 73-84. 320 Mathias chegou ao Senado também com uma carta régia lhe concedendo o Brasão referente à família dos Vieiras, pois ambos, os Vieiras e os Castros, vinham de famílias nobres em Portugal, da região do Porto – onde seus pais e avós tratavam-se na lei da nobreza, utilizando cavalos, armas, criados e escravos, servindo todos em cargos nobres e honoríficos do Conselho. Ver: RGCSP. v. 10, p. 95-101. 125 imperial portuguesa, cavaleiros professos da Ordem de Cristo, com lugar garantido através da remuneração régia não apenas para si, mas para toda a sua descendência, por meio da obtenção do Brasão de Armas. Favorecidos por uma conjuntura política na qual o Governador lhes era favorável e interferia menos na cidade – por morar agora na “longínqua” Rio de Janeiro – os homens de negócio reinóis encontraram terreno aberto para iniciar novo capítulo da luta pelo controle municipal e camarário. Pertencentes a uma comunidade enriquecida e já presente nas instituições de poder locais, não aceitavam mais se aliar ou se submeter – fosse através do matrimônio ou da rede de clientela – às famílias tradicionais de São Paulo. O momento era de se autoafirmarem como os verdadeiros principais da terra, a elite local que governaria São Paulo na segunda metade do século XVIII. Adepta de uma noção de governabilidade que colocava ênfase no controle territorial e na defesa das fronteiras a partir da década de 1730, a monarquia portuguesa passou a escolher ministros e representantes régios no ultramar que estivessem alinhados com o seu projeto imperial. Gomes Freire de Andrada, nomeado em 1733 para o governo do Rio de Janeiro, era representante desse novo momento. Não por acidente, a Capitania das Minas Gerais foi anexada ao seu governo em 1735 e, com o falecimento do Governador de São Paulo, Conde de Serzedas, em 1737, assumiu o governo interino da capitania. Grande parte do seu esforço se deu para viabilizar o povoamento e a ocupação da fronteira sul da América lusa, ameaçada pela ocupação hispânica da região de Montevidéu. A nomeação de D. Luis Mascarenhas para o governo de São Paulo, em 1739, tinha o intuito de continuar essa política, focando na ocupação, proteção e dinamização da fronteira oeste da capitania, sobretudo das minas de Goiás e Mato Grosso. A atuação de D. Mascarenhas no extremo oeste do Estado do Brasil, no entanto, foi pouco eficaz. Incapaz de atrair imigrantes para povoar e dinamizar o comércio da região, passando inclusive por incertezas no que tocava o controle da fronteira com o território espanhol, o Governador viu sua posição no cargo se fragilizar com o passar dos anos, sobretudo porque Gomes Freire, dotado de favor na Corte e ambicionando deter o controle sobre toda a região desde 1737, 126 representava uma sombra da qual o Governador de São Paulo não conseguia se desvencilhar. A solução encontrada por D. Luis para se sustentar no posto passou a ser o fortalecimento de sua aliança com a elite local da cidade de São Paulo em sua disputa com o então Ouvidor-Geral Domingos da Rocha. Necessitada de apoio do Governador para evitar a intervenção do magistrado nas práticas costumeiras do Senado, inclusive para frear a ascensão reinol na instituição ao longo da década de 1740, os oficiais do ano de 1747 atuaram em conjunto com D. Mascarenhas para manter o controle e autonomia local. A estratégia, no entanto, acabou tendo um efeito contrário ao desejado pelo Governador. Enfraquecendo o já frágil suporte que recebia na Corte, visto que a atuação do Ouvidor-Geral representava também interesses cortesãos na fiscalização de São Paulo, D. Luis foi destituído da função em maio de 1748. Isso valeu também para as famílias tradicionais de São Paulo. Apostando no tensionamento para frear o ímpeto fiscalizador e reformista do Ouvidor-Geral, tais famílias acabaram por ver ascender um novo governo na região – de Gomes Freire de Andrada – que estava menos disposto a alianças que as privilegiassem, abrindo espaço político à rica comunidade reinol que ascendia socialmente na São Paulo da década de 1740. 2.4 Considerações finais A separação da Capitania Real de São Paulo das Minas Gerais, ocorrida em 1720, representou um sopro de esperança em uma década que havia se iniciado como perdida para os paulistas. O levante emboaba e a perda do monopólio das Minas – privilégio prometido pela Coroa como recompensa pelos descobrimentos – eram amenizados com a descoberta das Minas de Cuiabá e com o estabelecimento do Governador Rodrigo César de Menezes na região. A colaboração que o novo ministro régio costurou com a elite local, incentivando novos descobrimentos e atuando junto às autoridades em Lisboa pela remuneração dos serviços prestados pelos paulistas, abriu um novo horizonte de expectativas no coração dos ambiciosos sertanistas de Piratininga. A descoberta das minas de Goiás, em 1725, apenas confirmou que um cenário de 127 colaboração entre a Coroa e os súditos do planalto poderia ser novamente possível. As famílias de São Paulo sentiam-se escutadas em suas demandas e a Coroa parecia compreender que a aliança entre as partes seria o caminho mais próspero para o povoamento e a colonização do interior do Estado do Brasil. A década de 1730, no entanto, apresentou um cenário distinto. A presença de uma maior racionalidade na noção de governabilidade imperial, pensando sobretudo a defesa territorial do Estado do Brasil, foi mudando aos poucos a noção de como a monarquia projetava a realidade político-administrativa da América portuguesa. A ascensão de Gomes Freire como Governador do Rio de Janeiro, bem como a sua atuação ao assumir interinamente a Capitania de São Paulo em 1737, foi, nesse cenário, um marco de tal mudança de mentalidade. O tom a partir daquele momento era outro, mais voltado para a eficácia da política de povoação, dinamização e defesa das regiões da fronteiras centro-sul da colônia. A ascensão e queda de D. Luis Mascarenhas no Governo da Capitania em parte ensinou que seu insucesso na ocupação e defesa das fronteiras enfraqueceu o Governador, mas também demonstrou que a aliança dos governadores com os clãs mais antigos da terra já não era mais sinônimo ou garantia de um bom governo em São Paulo. Na primeira metade do século XVIII, os mercadores reinóis, que enriqueciam, adentraram nas principais instituições de poder e optaram por estratégias endogâmicas de alianças matrimoniais, acabaram por fazer um contraponto a esse controle municipal das linhagens tradicionais – contraponto esse capaz de exercer pressão política cada vez maior na hegemonia das famílias antigas de São Paulo na municipalidade. Para as linhagens paulistas, a perda da autonomia da capitania representou um duro golpe. A tensão vivida na eleição de 1737 era o prenúncio da década de 1740, na qual a comunidade mercantil reinol ingressava ainda mais nas instituições de poder local e o controle dos paulistas se via cada vez mais ameaçado. Contudo, essa passagem de poder de um grupo ao outro não ocorreu de forma progressiva, orgânica e ininterrupta. A presença de um Governador habitado na cidade, como ocorreu de Rodrigo César de Menezes a D. Luis de Mascarenhas, era a garantia de que eles 128 teriam a quem recorrer em momentos de crise, fazendo valer sua força, seus costumes e o seu capital político. Além disso, o uso do Alvará de 1655 funcionava como instrumento jurídico para embargar eleições, quando vissem seu controle ameaçado. Perder a presença de um Governador residindo na cidade e o direitode utilizar o Alvará para controlar a composição camarária, a partir de 1748, pesou na disputa de poder local, pois eram instrumentos essenciais para a manutenção do equilíbrio anterior, no qual as famílias mais antigas da municipalidade conseguiam manter sua hegemonia, mesmo que às custas de um tensionamento constante. No próximo capítulo analisaremos o que se sucedeu à estratégia reinol de registrar suas mercês e brasões de armas na Câmara Municipal. Seria um ato isolado dos irmãos Castro ou uma prática que se tornaria comum na São Paulo da década de 1750? No que isso poderia interferir no já tensionado equilíbrio interno municipal? Trataremos sobre como as famílias tradicionais do planalto reagiram a essa mudança de cenário. Observaremos também como o esforço do genealogista Pedro Taques Paes Leme, que foi a Portugal recolher documentação referente às mercês de seus antepassados a partir de 1755, se enquadrou dentro da disputa local da São Paulo setecentista. 129 Capítulo 3: Autoafirmação local e a disputa pelas narrativas: Brasão de armas e justificação de nobreza na São Paulo Setecentista (1748-1765) No dia primeiro de outubro de 1763, o Coronel Francisco Pinto do Rego apresentou-se na sessão da Câmara Municipal de São Paulo. Trazia em mãos um documento datado de 10 de maio de 1704, assinado pelo rei D. Pedro II, que conferia ao seu avô materno, Diogo Pinto do Rego, – Capitão-mor de Santos no final do século XVII – a comprovação de nobreza e limpeza de sangue. O extenso documento, de mais de 22 páginas, transcrevia o processo no qual Diogo e seus irmãos, Manuel Pinto do Rego e Antonio Pinto do Rego, juntaram testemunhas para comprovar que eram filhos de Antonio Pinto do Rego e Izabel do Rego, originários da cidade de Lisboa, assim como seus avós paternos e maternos, todos cristãos velhos e livres de “raça de mouro, judeu, mulato, ou qualquer infecta nação”. Também havia ênfase no fato de que o avô materno de Diogo, Manuel Paes da Costa, fora Capitão-mor em Angola e que o outro avô de Diogo, Luiz Pinto do Rego, fora capitão dos Privilegiados das Sete Casas e Almoxarife Juiz dos Diretos Reais das Três Casas321. A intenção de Francisco Pinto do Rego, ao levar essa documentação à Câmara em 1763 praticamente sessenta anos depois da sua emissão, foi esclarecida quando seu irmão, o Mestre de Campo dos auxiliares Diogo Pinto do Rego (homônimo do avô de ambos), apresentou outra documentação no senado paulista em 5 de março de 1766. Era uma comprovação de mercê passada a ele pelo rei D. José I, em 13 de julho de 1750, pelos serviços prestados pelo seu avô paterno, José Monteiro Cortez, que era cavaleiro fidalgo da Casa Real. Na carta, o monarca fez Diogo Pinto do Rego (o neto que registrava a mercê em São Paulo no ano de 1766) Escudeiro Fidalgo, com 450 reis de moradia por mês, acrescentando-se a essa mercê a de Cavaleiro Fidalgo, com 300 réis de moradia ao mês. A essa quantia – se somada, de 750 réis ao mês – adicionava-se a de um alqueire de cevada por dia, devido aos serviços do seu avô, visto que seu pai não pôde desfrutar do benefício322. 321 O documento encontra-se em: RGCSP, v. 10, p. 522-544. 322 O documento encontra-se em: RGCSP, v. 11, p. 233-234. 130 A capitania de São Paulo foi um intenso polo de atração para homens vindos de Portugal após a descoberta das Minas. Região de entreposto comercial, que era ponto de passagem do comércio do sul (gado vacum, cavalar e bovino) e litorâneo (escravos e mercadorias) com a região mineradora, não foram raros os casos de reinóis, sobretudo homens envolvidos com o comércio, que se estabeleceram na capital paulista. A primeira metade do século XVIII foi marcada por esse movimento imigratório, que transformou profundamente a composição social da cidade, fazendo emergir dentro dela famílias de reinóis que enriqueceram e passaram a se fortalecer socialmente no interior do planalto. Essa comunidade mercantil, que em um primeiro momento adotou a estratégia de se aliar por matrimônio às famílias tradicionais da cidade de São Paulo323, passaram a se reproduzir, a partir da década de 1720, em grande parte através da chegada constante de comerciantes portugueses, que, caso prosperassem no comércio, se casavam no interior do grupo. Esses indivíduos, como vimos no capítulo anterior, acumularam riqueza e prestígio, e, não estando mais subordinados à influência das linhagens mais antigas da municipalidade, passaram, então, a competir com elas pela ocupação de órgãos tradicionais de poder administrativo e militar de Piratininga. Alguns deles, inclusive, conseguiram alcançar a graça régia com remunerações como as de familiares do Santo Ofício e dos Cavaleiros da Ordem de Cristo. Após a primeira metade do século XVIII, marcada pelo enriquecimento e pela ascensão social desses homens de negócio vindos de Portugal324, a segunda metade do Setecentos paulista 323 Maria Aparecida Borrego, corroborando com as conclusões da obra de Muriel Nazarri, afirma que no início do século XVIII, no começo do fluxo imigratório de portugueses para a América lusa, os comerciantes desposaram filhas da elite agrária paulista, devido às possibilidades sociais de melhor integração social à comunidade e às vantagens econômicas para os seus negócios que os dotes traziam. Com o passar do tempo, no entanto, suas transações mercantis bem-sucedidas os fortaleceram economicamente e lhes possibilitaram uma maior inserção política e social nas instituições de poder da cidade. Assim, o casamento com filhas das famílias tradicionais paulistas deixou de ser a única opção de inserção social em São Paulo, e muitos dos portugueses recém-chegados na cidade preferiram a aliança matrimonial com filhas, irmãs, primas ou netas de homens portugueses envolvidos com a teia mercantil local. Ver: BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. A teia mercantil: negócios e poderes em São Paulo colonial (1711-1765). São Paulo: Alameda, 2010; e NAZARRI, Muriel. O desaparecimento do dote: mulheres, famílias e mudança social em São Paulo, Brasil, 1600-1900. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 324 Após o descobrimento das minas, um alto número de portugueses ligados ao comércio se fixou em São Paulo ao longo de todo o século XVIII. Diversos deles enriqueceram, com alguns conseguindo adentrar nos principais órgãos de poder da cidade. Maria Aparecida Borrego realiza estudo minucioso da teia mercantil formada por esses mercadores na cidade ao longo do século. Para maiores detalhes. Ver: BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. A teia mercantil, op. cit. 131 foi marcada por uma questão particular: o registro e a comprovação de nobreza desse grupo na Câmara Municipal de São Paulo. Em um território onde muitos desses portugueses possuíam origem familiar humilde325 e procuravam se consolidar socialmente como membros da nobreza local, as petições envolvendo a questão da limpeza de sangue e os brasões de armas estavam na ordem do dia: cada família fazia o que estava em suas mãos para conseguir se afirmar socialmente através dessas ferramentas. Esse era o caso dos irmãos Diogo Pinto do Rego e Francisco Pinto do Rego326. Eram filhos de pai português, mas nasceram em Santos, o que colocava a origem social dos irmãos como questionável de ser “limpa de sangue” e isenta de histórico de trabalho manual. Como a mercê régia passada a Diogo em 1750 estava ligada aos serviços do seu avô paterno, José Monteiro Cortez, a sua origem materna deve ter sido naturalmente questionada dentro da cidade. Por isso o esforço do seu irmão, Francisco Pinto do Rego, de encontrar o documento de 1704, comprovando a limpeza de sangue do seu avô materno, Diogo Pinto do Rego, homônimo do seu irmão. Esta era a prova que ambos precisavam, pois comprovava a nobreza e a limpeza do sangue da família da sua mãe através de uma carta régia. Isso também fazia com que a mercê de CavaleiroFidalgo, concedida 13 anos antes, não fosse apenas letra morta dentro da vida social paulista. Francisco Pinto do Rego, apesar de não haver registros na documentação da Câmara Municipal de São Paulo, provavelmente também recebeu a mesma mercê que o seu irmão, Diogo, em 1750, visto que após apresentar o documento que comprovava a limpeza de sangue do seu avô, em 1763, foi chamado logo depois, pelos membros da Câmara, pelo título de Cavaleiro Fidalgo. Trata-se do mesmo título que seu irmão reivindicaria três anos depois, em 1766. A família Pinto do Rego, que na década de 1740 se estabeleceu na cidade de São Paulo, firmou aliança matrimonial com uma das mais importantes famílias tradicionais paulistas, as Taques Pompeus327. Francisco casou-se com Escolástica Ribeira Góes e Moraes, filha de José de 325 Grande parte desses comerciantes, advindos da região do Minho e estabelecidos em diversas praças da América lusa, saíam de casa ainda jovens, com cerca de 12-18 anos de idade. Trabalhei o tema no segundo capítulo da tese. 326 Apresentamos a trajetória da família Pinto do Rego no segundo capítulo desta tese. 327 Taques era uma rica e influente família paulista desde meados do século XVII. Lourenço Castanho Taques, por exemplo, foi o segundo maior credor da vila no Seiscentos. Maiores detalhes sobre a família, assim como sua ligação com os Pinto do Rego, são apresentados no segundo capítulo desta tese. Sobre a composição das dívidas ativas no 132 Góes e Moraes, um dos paulistas mais ricos e importantes do século XVIII328. Escolástica era prima de primeiro grau do genealogista Pedro Taques de Almeida Paes Leme, neta de Pedro Taques de Almeida e bisneta de Lourenço Castanho Taques. O registro da comprovação de nobreza e limpeza de sangue no Senado paulista por parte de Diogo Pinto do Rego e de Francisco Pinto do Rego – ligados por casamento ao grupo das famílias mais antigas do planalto – insere-se em um movimento de reação à ação dos mercadores reinóis que, desde o início da década de 1750, adotavam a estratégia de registrar brasão de armas e mercês na tradicional instituição de poder local para se autoafirmarem como a elite local. O conflito entre as linhagens antigas de Piratininga e os homens de negócio de Portugal enraizados na municipalidade, como vimos no capítulo anterior, já foi tema de diversos debates na historiografia de São Paulo setecentista. O tema do registro de brasão de armas, da confirmação de nobreza e das mercês de antepassados como instrumento de disputa de poder entre os grupos na Câmara Municipal, no entanto, é um elemento que ainda não foi trabalhado. Esta será a principal temática do nosso capítulo. O período de 1748 a 1765, no qual a capitania de São Paulo esteve administrativamente subordinada ao Rio de Janeiro, criou certa distância geográfica entre o então governador da capitania, Gomes Freire de Andrada, e as disputas locais do planalto – fator inédito desde a fundação da capitania de São Paulo e Minas de Ouro em 1711, que teve como capital a cidade paulista. A presença do Governador sempre foi um elemento preponderante no equilíbrio interno de autoridade local, sobretudo após a fixação de Rodrigo César de Menezes329, seja na colaboração e aliança com a elite local ou na decisão sobre disputas entre os súditos paulistas e homens de negócio lusos, como ficou claro na atuação de D. Luis Mascarenhas330. A ausência de patrimônio deixado no inventário de Lourenço Castanho Taques, ver: GODOY, Silvana Alves de. Mestiçagem, guerras de conquista e governo dos índios. A vila de São Paulo na construção da monarquia portuguesa na América. Séculos XVI e XVII. Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de História, Programa de Pós-Graduação em História Social, 2017. p. 235. 328 Para maiores detalhes sobre a vida de José de Góes e Moraes, ver: QUEIROZ, Suely Robles Reis de Queiroz. José de Góis e Morais: o paulista que quase comprou São Paulo. Revista de História (USP). v. 42, n. 86, p. 373-387, 1971. 329 Governadores entre 1711 e 1720, como o Conde de Assumar, passavam grande parte do seu mandato nas Minas Gerais. A casa onde morou o Conde se encontra até hoje preservada no município de Mariana. 330 A eleição de 1747 foi marcada pela intervenção do Ouvidor-Geral da capitania, Domingos da Rocha, que acusou o pleito de ter sido fraudado; o Ouvidor possuía apoio de membros da comunidade mercantil, que se sentia alijada do 133 um capitão-general e de um governador habitando a cidade deixava um vácuo de poder que interferira nesse mesmo equilíbrio, espaço esse que a comunidade mercantil portuguesa procurou fazer uso na sua atuação no Senado já em 1751, como veremos mais à frente. Para discorrer sobre esse tema, abordaremos primeiramente a composição dos grupos reinóis e dos grupos paulistas que dominavam o cenário de poder municipal entre 1748 e 1765. Listaremos os membros de cada grupo que mais se destacaram no exercício de funções municipais, assim como procuraremos analisar as famílias às quais eles estavam associados, e traçaremos, sobretudo para o caso dos súditos das linhagens tradicionais de São Paulo, uma análise genealógica mais aprofundada. Trabalharemos também com os censos realizados em 1765 e 1767, para compararmos os principais membros desses grupos e registros de patrimônio. A intenção de apresentar esses dados na primeira parte do capítulo é a de dar nome e um pouco de textura social e genealógica para os indivíduos que aparecerão no último subtítulo, quando abordaremos os súditos que participaram do registro de brasão de armas, de confirmação de nobreza, de mercês e de limpeza de sangue na Câmara Municipal. Veremos que o controle quase total do comércio por parte dos homens de negócio portugueses deu-lhes uma posição privilegiada no acúmulo de riqueza, criando uma considerável distância socioeconômica frente aos paulistas. Suas mercês e a contínua presença nos postos administrativos e militares da cidade apenas conferiram um capital simbólico e político a um grupo que, na realidade financeira da municipalidade, tinha um protagonismo consolidado desde as décadas de 1740-50. A ausência de um governador que habitasse Piratininga apenas abriu espaço para esse grupo realizasse um embate mais contundente na única frente onde se encontravam em desvantagem: o reconhecimento local como elite da São Paulo setecentista. Descendentes de sertanistas que prestaram serviços e realizaram importantes empresas para a monarquia portuguesa na segunda metade do Seiscentos, as famílias mais antigas do planalto utilizavam instrumentos do processo eleitoral. D. Luis Mascarenhas ficou contra o Ouvidor-Geral, e acabou por ser um elemento decisivo para a manutenção dos eleitos em suas funções. O assunto foi tratado no último subtítulo do capítulo 2 desta tese. 134 direito costumeiro – como no caso do Alvará de 1655331 – para frequentemente controlarem a composição camarária e impedirem a consolidação do controle da comunidade mercantil reinol sobre a instituição. O registro dos portugueses de suas mercês e de seus títulos de distinção social no Senado para sua autoafirmação local, no entanto, desencadeou respostas por parte das famílias tradicionais, tendo como protagonista o paulista Pedro Taques de Almeida Paes Leme. Sua ida a Portugal em 1755 para reunir documentos que procurassem responder à iniciativa reinol na Câmara acabou, mesmo que indiretamente, dando início a uma jornada que transformou não apenas a sua vida, mas iniciou uma compilação genealógica que marcou a história da São Paulo colonial. 3.1 Comerciantes reinóis e a São Paulo de meados do Setecentos: da teia mercantil à consolidação municipal (1748-1765) O processo de expansão do império luso, o qual envolveu diversos continentes, acabou por produzir a interiorização do povoamento e a extensão da atividade do comércio. Surgiramdaí, consequentemente, práticas e teias comerciais mais complexas. Novas rotas de longo alcance criaram-se, impactando diversos níveis da sociedade e envolvendo inúmeros grupos sociais. O avanço tecnológico, como nos meios de transporte terrestre e marítimos, auxiliou nesse processo: surgiram instalações portuárias, expansão de mercados e cadeias de comando dentro da teia mercantil (mercadores, corretores, empresários de transporte, viajantes de comércios, marinheiros, tropeiros, caixeiros etc.). À medida que a sociedade portuguesa se expandia e se diversificava – no reino e ultramar – as oportunidades de comércio de pequeno, médio e grande porte se apresentavam, atraindo súditos interessados em tentar a sorte nesse ofício332. 331 O Alvará foi firmado pelo Governador-Geral Conde Athouguia e as famílias Pires e Camargo em 1655, e obrigava as eleições camarárias a dividirem os seus cargos de forma igualitária entre os membros das duas facções. O acordo, realizado com objetivo de colocar fim no conflito entre as duas famílias na vila em meados do século XVII, foi constantemente reivindicado por membros de linhagens tradicionais de São Paulo, com um intuito completamente distinto do de sua intenção original. No século XVII, sua função era pacificar uma vila militarmente instável no período posterior a Restauração portuguesa de 1640. Já no século XVIII, sua função era a de procurar marginalizar os portugueses que ascendiam economicamente na urbe e que ensaiavam uma inserção maior sobre sua principal instituição de poder. O assunto foi trabalhado no capítulo 2 desta tese. 332 A historiadora Júnia Ferreira Furtado apresenta um cenário, na virada do século XVII para o século XVIII, no qual o comércio ligando as praças ultramarinas do império português já se encontrava bastante desenvolvido. Ver: FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio: a interiorização da metrópole e o comércio das minas setecentistas. São Paulo: Hucitec, 2006, p. 20-22. 135 Um exemplo é o caso de Pernambuco da segunda metade do século XVII. Na esteira da crise do preço do açúcar, após a expulsão holandesa de 1654, viu-se ascender na capitania a figura do negociante reinol enraizado na praça de Recife. Com uma maior presença demográfica na cidade a partir da década de 1660, esses homens eram recrutados entre os escalões subalternos do reino, como artesãos e camponeses advindos sobretudo da região norte de Portugal. Envolvidos no início do século XVIII em conflitos com a elite açucareira de Olinda, eles forneciam crédito para o financiamento de empreitadas dos senhores de engenho, adiantando o capital de giro que faria a empresa açucareira acionar as suas engrenagens de produção e recuperar a sua vitalidade. O enriquecimento desses portugueses e a sua progressiva rivalidade com a açucarocracia olindense só foram possíveis pelo considerável excedente comercial que os mercadores reinóis conseguiram acumular ao longo do tempo através do comércio de grosso trato333. Portugal, apesar do seu império se fundar em diversos tipos de trocas comerciais desde o século XV, via a sociedade reservar aos que praticavam o ofício de mercador preconceitos enraizados de séculos anteriores. A função era constantemente associada aos cristãos novos e a pessoas com defeito mecânico. Mesmo com nobres portugueses, do clero a fidalgos, envolvidos em transações comerciais, havia antipatia com o ofício - sobretudo do pequeno comerciante – considerada prática de menor prestígio334. Isso fez com que diversas famílias antigas, nas municipalidades do Estado do Brasil, se utilizando da regra do Regimento de 1611, pedissem pela exclusão do pleito eleitoral na Câmara Municipal de pessoas com "defeito mecânico". Por elas desempenharem atividades manuais no comércio335. O comércio e suas atividades agregadas, como o crédito, eram, no entanto, a mola mestra que impulsionava a realização de expedições 333 MELLO, Evaldo Cabral de. A fronda dos mazombos. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 143-144. 334 George Felix Cabral apresenta, de forma resumida, a antipatia em relação ao ofício do pequeno comerciante em toda a Europa Ocidental. Ver: SOUZA, George F. Cabral de. Tratos & mofatras: o grupo mercantil do Rece colonial (c. 1654-c.1759). 2ª ed. Recife: ed. UFPE, 2020. p. 229. 335 No Rio de Janeiro, em 1730, enviou queixas ao Rei de pessoas eleitas na municipalidade que queriam desempenhar atividades manuais no comércio. Ver: BICALHO, M. F. B. “As representações da Câmara do Rio de Janeiro ao monarca e as demonstrações de lealdade dos súditos coloniais, séculos XVII e XVIII”, In: VIEIRA , Alberto (Coord.). O município no mundo português. Atas do Seminário Internacional realizado em Funchal, de 26 a 30 de outubro de 1998, Funchal: Centro de Estudos de História do Atlântico/ Secretaria Regional do Turismo e Cultura, 1998, p. 526. 136 territoriais. Assim como o financiamento empresas agrícolas, como deixa clara o caso pernambucano. Como se sabe, o fortalecimento da burguesia e de setores comerciais, por alguns creditada às medidas administrativas da segunda metade do século XVIII, teria se dado antes da ascensão de Pombal ao poder336, havendo um desenvolvimento econômico e comercial que o precedeu. Posteriormente, uma das principais preocupações do ministro foi a codificação do estatuto dos comerciantes. Isso ocorreu num momento em que se procurava afirmar, dentro do vocabulário social vigente daquela sociedade, a separação entre os comerciantes grossistas e os que vendiam a retalho. Esse ímpeto em distingui-los nominalmente revelava, na realidade, não uma vontade de estimular o fortalecimento de uma burguesia comercial em Portugal, mas o de distinguir, com objetivo de enobrecer os negociantes de grosso trato com grandes cabedais que já existiam no reino. Os comerciantes grossistas, por dinamizarem a economia imperial, eram bem quistos na Corte junto aos ministros régios. Existia, no século das Luzes, uma tendência a ver atividades que promoviam riqueza para a nação como “profissões nobres”. A partir de D. José I, ocorreu a nobilitação crescente de comerciantes e, no Portugal do final do Setecentos, vemos a mercancia em grosso trato compatível com a patente de nobreza337. A separação do comércio grosso do miúdo, em termos institucionais de nomenclatura, tratava-se, então, de uma necessidade social daquele período, já que a atividade de pequeno comércio, por sua associação direta com o exercício mecânico, não era compatível com a condição de nobreza. O alargamento da concepção de nobreza em Portugal do século XVIII para englobar a noção de riqueza – processo intensificado a partir do reinado de D. José I – marcou um momento 336 Segundo o historiador Jorge Pedreira, o fortalecimento dessa burguesia comercial se deu -se bem antes da ascensão de Pombal ao poder. O autor trata, inclusive, dedas formas de recrutamento no interior do corpo mercantil português desde o final do século XVII. Ver: PEDREIRA, Jorge Miguel, op. cit., p. 408-426. 337 Ronald Raminelli enfatiza que a ciência, o comércio e a navegação, que encontraram forte desenvolvimento no século XVIII, passaram a se tornar negócios de Estado, pois eram atividades vistas como dinamizadoras da economia portuguesa, que geravam poder e riqueza. Ver: RAMINELLI, Ronald. Nobrezas do Novo Mundo: Brasil e ultramar hispânico, século XVII e XVIII. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015, p. 105. 137 histórico quando os serviços militares contavam menos. Cada vez mais os impedimentos mecânicos relacionados ao trato mercantil foram abolidos e, em na lei de 30 de agosto de 1770, o comércio foi declarado uma profissão “nobre, necessária e proveitosa”338. Ministros, oficiais de guerra e oficiais de justiça poderiam atuar junto às Companhias Gerais ou às sociedades mercantis sem que isso atingisse a condição de sua nobreza hereditária.A riqueza passava, dessa forma, cada vez mais a ser vista como um mecanismo seguro para obtenção de nobreza. Nobreza essa, no entanto, civil e não hereditária, a qual ascendia através do desígnio régio, sobretudo da concessão de mercês de Hábitos de Ordens militares e foros de fidalguia. Desde o final do século XVII havia comerciantes em Lisboa pleiteando o reconhecimento régio da nobreza de seu ofício339. A mácula do ofício mecânico ainda os assombrava, destituindo- os da dignidade necessária para o reconhecimento social almejado. O esforço para ascender socialmente e afastar-se da origem humilde fez com que muitos abraçassem o ofício, criando uma estratificação social no seio da comunidade dos que praticavam a mercancia. Existiam homens de negócio que estavam entre os mais ricos do reino, detentores de imensas fortunas, assim como outros pobres, que morriam endividados e quase sem patrimônio. Para atrair os bem-sucedidos para investirem suas fortunas nos cofres régios, Pombal criou a Companhia do Grão-Pará e Maranhão. Aos compradores de 10 ações de 400$000 do capital da Companhia, poderiam tomar o hábito da Ordem de Cristo, sendo perdoados pelos seus ofícios mecânicos. A gratificação também servia aos que colocassem oito arrobas de ouro na casa de fundição das Minas Gerais. A riqueza então, mesmo na América lusa, abria caminhos para o enobrecimento. Não raro a tática desses mercadores era, uma vez enriquecidos, a de recorrer a estratégias de efetiva nobilitação340. Englobava-se nesse processo não só os títulos de cavaleiros das Ordens Militares e os foros de 338 Id., ibid., p. 121. 339 Segundo Júnia Ferreira Furtado, os homens de negócio, desde o final do século XVII, começavam a se organizar para melhor defender seus interesses. Por viverem em um mundo fundamentado na pureza de sangue e na lógica senhorial, procuravam copiar a nobreza e se confundir com ela. A compra de ofícios e de títulos foi a principal estratégia, bem recebida pela Coroa, pois funcionava como financiamento para seus empreendimentos. FURTADO, Júnia Ferreira, op. cit., p. 37. 340 RAMINELLI, Ronald. Nobrezas do Novo Mundo, op. cit., p. 125-126. 138 fidalguia, mas também o desejo de ocupar todos os espaços tradicionalmente dominados pela nobreza local: pleiteavam ingresso à Inquisição, como familiares do Santo Ofício, e participação nas instituições de poder local, como as câmaras municipais, a Santa Casa de Misericórdia e as ordens religiosas locais de prestígio341. É nessa conjuntura, de meados do século das Luzes, que se dará a nossa análise sobre os comerciantes portugueses que chegaram, se enraízam e prosperam no planalto paulista. Esses homens reproduziram o ethos social de um grupo que procurava na prática comercial e no enriquecimento formas de ascender socialmente e se dignificar. Como já visto, eles vinham predominantemente da região do Minho, no norte de Portugal, com o sonho de acumular fortuna, ingressar nas tradicionais instituições de poder locais e, em caso de obtenção de sucesso nessa nada fácil jornada, reivindicar remunerações régias para enobrecer sua linhagem e descendência. A base de dados dos mercadores reinóis em São Paulo montada pela historiadora Maria Aparecida Borrego, no intervalo temporal entre 1711-1765342, será o nosso ponto de partida. Em sua pesquisa, a historiadora já abriu grande parte do caminho para análise dos dados que apresentaremos nesse primeiro subtítulo, e que serão, por nossa parte, colocados em uma perspectiva analítica mais pormenorizada. Tem-se o objetivo de esmiuçá-los ainda mais, para que, ao trazermos os dados de famílias paulistas, seja possível tirar conclusões mais concretas sobre o quadro social da cidade entre 1748 e 1765. Comecemos pela composição social da Câmara Municipal paulista no recorte temporal mencionado. Como já demonstramos no segundo capítulo desta tese, a composição interna da Câmara alterava-se anualmente nas funções de juiz, vereador, procurador, escrivão, almotacé e, periodicamente, alcaides. A eleição anual era realizada para a nomeação de dois juízes ordinários, 341 George Felix Cabral, ao trabalhar com o caso de Recife no século XVIII, apresenta uma boa descrição a respeito da importância dessas instituições e habilitações para os signos de prestígio na cultura política do antigo regime português. Ver: SOUZA, George Félix Cabral de. Elite y ejercicio del poder en el Brasil colonial: la Cámara municipal de Recife (1710-1822). Tesis (Doctorado en História) – Departamento de História, Universidad de Salamanca, 2007. 342 Utilizaremos o trabalho da historiadora em citações ao longo de todo os subtítulos, já que sua obra, fruto da sua pesquisa de doutorado, fornece-nos os dados e as trajetórias dos agentes mercantis portugueses enraizados em São Paulo. Ver: BORREGO, Maria Aparecida de Menezes, op. cit. 139 de três a quatro vereadores e de um procurador. Os almotacéis e os alcaides não eram eleitos; assumia-se o posto através de indicação de funcionários eleitos pelo Senado343. Como realizamos no segundo capítulo, trabalharemos com os nomes eleitos para Juiz Ordinário, Vereadores e Procuradores. Sua eleição representava a condição de prestígio e o valor social de um determinado indivíduo (e de sua família) na São Paulo daquele período, pela possibilidade de intervenção em esferas de decisão administrativas, jurídicas, comerciais e fiscais. Outra orientação que repetiremos aqui é que utilizaremos os nomes dos oficiais eleitos que assinaram a ata em janeiro do ano vigente do exercício de seus cargos. Nomes que surgiram ao longo do ano, para substituir oficiais que se ausentaram ou adoeceram, não foram contabilizados em nossa pesquisa. Entre 1748 e 1765, 167 homens foram nomeados para as funções de juiz, vereador, procurador, escrivão e almotacé. Desses, 40 (23,95%) eram envolvidos em alguma atividade comercial. Neste mesmo período, um total de 266 nomeações foram realizadas, sendo 71 (26,69%) delas feitas a comerciantes. Quando se trata do processo eleitoral abarcando apenas as funções de juiz ordinário, vereador e procurador, cargos com maior prestígio e peso político, temos um total de 95 pessoas nomeadas para os cargos. Dentre elas, apenas 31 (32,63%) eram agentes de comércio. O total de nomeações realizadas no período para esses cargos foi de 122, sendo 40 delas (32,78%) realizadas em nome de homens pertencentes à teia mercantil344. Dos comerciantes presentes na base de dados e que ocuparam postos na instituição apenas um, Bento do Amaral (Juiz Ordinário em 1753), era paulista; todos os demais, portugueses. Nesse recorte temporal, os números evidenciam que, longe de ser apenas um grupo social postulante à ascensão social dentro da vila, o grupo de comerciantes reinóis conseguiu furar a resistência das famílias tradicionais de São Paulo e consolidar seu lugar social na Câmara Municipal. A situação é acentuada se considerarmos a eleição para os cargos de juiz, vereador e procurador, já que um 343 William Funchal apresenta a dinâmica administrativa de eleição em São Paulo do século XVIII: FUNCHAL, William de Andrade. Governo local em uma Capitania sem governador (São Paulo em 1748-1765). Dissertação de Mestrado – Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. 2016, p. 91-105. 344 Fonte: ACMSP, v. 12-15; e BORREGO, Maria Aparecida de Menezes, op. cit., p. 145-146. 140 terço das nomeações foram destinadas a esses comerciantes portugueses. Oito deles foram eleitos para um desses cargos em duas vezes ou mais vezes, conforme a lista a seguir: - Agostinho Duarte do Rego (Vereador em 1752, Procurador em 1748); - Antônio Francisco de Sá (Vereador em 1761 e 1762); - Francisco de Salles Ribeiro (Juiz Ordinário em 1763, Vereador em 1748); - José Gonçalves Coelho (Procurador em 1764 e 1765); - José Rodrigues Pereira (Juiz Ordinário em 1755, Vereador eProcurador em 1750 e 1752); - Lopo dos Santos Serra (Vereador em 1758, Procurador em 1753); - Manuel de Magalhães Cruz (Vereador em 1761, Procurador em 1757); - Salvador Marques Brandão (Vereador em 1757, Procurador em 1752). Outra questão importante é a eleição de 1751, na qual ocorreu a escolha de três membros da comunidade mercantil portuguesa no Senado. Nesse ano foram eleitos na Câmara: André Alvares de Castro (Vereador), Manuel de Oliveira Cardoso (Vereador) e Manuel Francisco Vaz (Procurador). A família Castro e Cardoso, como veremos a seguir, faziam parte do núcleo mais nobre dos homens de negócio portugueses na municipalidade. André e Manuel eram Cavaleiros da Ordem de Cristo. Manuel Cardoso exerceu também o cargo de Provedor da Santa Casa de Misericórdia, e monopolizou do início da década de 1760 até o final da década de 1780 a função da Capitão-mor das Ordenanças da cidade. O controle de três dos seis cargos mais importantes na Câmara em 1751 – ano em que o Capitão-mor das Ordenanças era o comerciante português Manuel Mendes de Almeida – representou um momento importante na estratégia de utilizar a instituição legislativa para autoafirmação do seu grupo como parte da nobreza local na São Paulo setecentista, como veremos mais à frente. A Santa Casa de Misericórdia foi, igualmente, um lugar de poder e distinção social na hierarquia da sociedade paulista do século XVIII. O cargo da provedoria da Santa Casa deveria ser ocupado por um homem rico e de proeminência sociopolítica, pois um dos seus papéis era o de angariar os fundos de doações caritativas junto à comunidade. Maria Aparecida Borrego, citando 141 Glauco Carneiro, revela que não raro, em São Paulo, os provedores acabavam por arcar com todos os gastos anuais da Misericórdia, o que acabou por atrair homens de comércio abastados de Portugal para a função: a necessidade de ser detentor de recursos econômicos acabava abrindo, portanto, a possibilidade para membros da teia mercantil reinol ascenderem ao posto de Provedor, assumindo a direção da instituição. Vejamos quem ocupou o posto no recorte temporal proposto por esta pesquisa: Tabela 3 – Provedores da Santa Casa de Misericórdia (1748-1765)345 Ano compromissal Provedor Local de nascimento 1748-1749 Miguel Alvares Ferreira Portugal 1749-1750 Manuel de Oliveira Cardoso Portugal 1750-1751 Lopo dos Santos Serra Portugal 1751-1752 Matias Alvares Vieira de Castro Portugal 1752-1753 Francisco de Sales Ribeiro Portugal 1753-1754 Dr. Luís de Campos Portugal (não pertencia à teia mercantil)346 1754-1755 D. Frei Antônio de Madre de Deus Galvão Portugal (não pertencia à teia mercantil) 1755-1756 D. Frei Antônio de Madre de Deus Galvão Portugal (não pertencia à teia mercantil) 345 Os nomes constam na obra de Glauco Carneiro. Ver: CARNEIRO, Glauco. O poder da misericórdia – a Santa Casa na história de São Paulo. São Paulo: s/e., v. 1, 1986. p. 221-223. 346 Dr. Luis de Campos é citado em um documento do Conselho Ultramarino de 1775 como natural da vila de Manteigas, na região da Beira. Ver: AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 30, doc. 2718. 142 1756-1757 D. Frei Antônio de Madre de Deus Galvão Portugal (não pertencia à teia mercantil) 1757-1758 Francisco Pinto do Rego Santos 1758-1759 Manuel de Faria Couto Portugal 1759-1760 Manuel José de Sampaio Portugal 1760-1761 Salvador Marques Brandão Portugal 1761-1762 Manuel de Oliveira Cardoso Portugal 1762-1763 Jeronimo da Costa Guimarães Portugal 1763-1764 Inácio de Barros Rego São Paulo (?) 1764-1765 Tomé de Rabelo Pinto Portugal Fonte: CARNEIRO, Glauco. O poder da misericórdia – a Santa Casa na história de São Paulo. São Paulo: s/e., v. 1, 1986. O que mais chama a atenção nesses dados é o fato de que apenas dois dos nomes citados tinham nascido na Capitania (11,76%): Francisco Pinto do Rego e Inácio de Barros Rego. Quanto aos reinóis, eles ocuparam 15 vezes (88,23%) a função, sendo o Provedor da Misericórdia um homem ligado à teia mercantil em 10 vezes (58,82%). E desses 10, apenas dois, Jeronimo da Costa Guimarães e Manuel de Faria Couto, não ocuparam, neste recorte temporal, o cargo de juiz, vereador ou procurador da Câmara de São Paulo. Isso nos indica que os outros oito eram homens já consolidados nas principais instituições de poder de São Paulo do século XVIII. Os reinóis terem o controle praticamente hegemônico sobre a função da Provedoria da Santa Casa de Misericórdia é também um forte sinal de que estavam entre os homens mais ricos daquela sociedade. 143 Nas Companhias de Ordenanças de São Paulo, base da estrutura da milícia local, havia um único comandante, que era o Capitão-mor. As Ordenanças eram serviços militares não remunerados, e o seu comandante-geral era o responsável pelo recrutamento e pelo treinamento da tropa. Seus mandatos duravam três anos e sua eleição era realizada pelo governador da capitania, após a apresentação de uma lista tríplice através dos oficiais da câmara municipal347. A função, com isso, representava não apenas status e distinção social, mas também responsabilidade de recrutamento e de mobilização das tropas, sendo o cargo inviável para alguém sem autoridade política na localidade. O fato de a eleição dar-se a partir de lista apresentada pela Câmara também facultava a ela a propositiva sobre esses nomes, que eram apresentados em ordem de preferência. Em nosso recorte temporal não há registro de todas as eleições de capitães-mores no planalto. Com isso, a pesquisa procurou na documentação das Atas da Câmara Municipal todos os nomes que vieram precedidos da alcunha de capitães-mores. Em 27 de agosto de 1749, José de Góes e Moraes, membro de tradicional família paulista, encontrava-se no posto348. Em 17 de junho de 1750, vemos no cargo Manuel Mendes de Almeida349, comerciante português que já havia assumido a função em julho de 1742350. Em 10 de março de 1753 ocorreu o processo eleitoral para o posto de Capitão- mor sendo descrito nas Atas, no qual o paulista Francisco Pinto do Rego foi escolhido pela Câmara para a função, seguido dos nomes de José de Góes e Moraes (mais uma vez) e José da Silva Ferrão, comerciante português351. O eleito assumiu em 1754. Não há menção sobre a eleição de 1756, com o tema voltando à pauta apenas em 23 de novembro de 1759, quando se falou da necessidade de se eleger nova pessoa para a função352. Na ata de 19 de abril de 1760, é revelado que Antonio da Cunha de Abreu, paulista, era o atual Capitão-mor. Contudo, havia falecido no início do ano, sendo 347 Para maiores detalhes sobre a criação das Companhias de Ordenança em dezembro de 1570 por D. Sebastião, ver: MELLO, Christiane Figueiredo Pagano de. Forças militares no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: e-paper, 2009, p. 34- 41. 348 ACMSP, v. 13, p. 87. 349 ACMSP, v. 13, p. 175. 350 ACMSP, v. 11, p. 424. 351 ACMSP, v. 13, p. 404-405. 352 ACMSP, v. 14, p. 266-267. 144 necessária nova eleição, da qual saiu eleito Manuel de Oliveira Cardoso, comerciante português, em 8 de novembro de 1760353. Dos 5 homens eleitos para o posto de Capitão-mor, dentro do nosso recorte temporal, três eram paulistas: José de Goés e Moraes, Francisco Pinto do Rego e Antonio da Cunha de Abreu. Antonio, apesar de não ter cumprido o mandato devido ao seu falecimento, será computado, pois passou pelo processo eleitoral, através da lista tríplice e nomeação do Governador, o que é um sinal do prestígio pessoal e de sua família na localidade. Os outros dois eleitos foram os portugueses Manuel Mendes de Almeida e Manuel de Oliveira Cardoso. Ainda se tem o caso de José da Silva Ferrão, português que foi o terceiro mais votado na eleição de 1753. Portanto, mais uma vez, vemos o quanto a representatividade e a importância reinol cresciam dentro das instituições de poder paulista, inclusive nas de naturezamilitar, as quais demandavam autoridade social irrevogável de seus eleitos sobre a comunidade. Mendes de Almeida, que já havia sido eleito para a função em 1742, reafirmou sua autoridade em São Paulo em ao vencer mais uma eleição entre o final da década de 1740 e o início da de 1750. E Manuel de Oliveira Cardoso, que já havia aparecido como sargento-mor eleito nas Ordenanças da cidade em março de 1739354, ascendeu ao posto de Capitão-mor no início da década de 1760355. Outra estratégia para a obtenção de reconhecimento social na cidade era a habilitação como familiar do Santo Ofício. Sete foram os agentes mercantis que reivindicaram a habilitação entre 1730 e 1750: João Francisco Lustosa (1731), João Afonso Esteves (1743), Francisco Pinto de Araújo (1744), João Alvares Ramos (1748), Jerônimo de Castro Guimarães (1750), Manuel de Magalhães Cruz (1753) e Pascoal Alves de Araújo (1755), todos portugueses, advindos da região do Minho. Eles recorreram ao título de familiar do Santo Ofício como forma de comprovar serem 353 ACMSP, v. 14, p. 314. 354 ACMSP, v. 11, p. 198. 355 Cardoso continuou no posto por 28 anos, até 1788. Os dados foram retirados das citações existentes nas Atas da Câmara Municipal. Ver: ACMSP, v. 14-18. 145 cristãos velhos e demonstrarem que possuíam sangue limpo e livre de mácula, com o intuito de poderem melhor adentrar no seio da sociedade paulista356. A mercê de habilitação como Cavaleiro da Ordem de Cristo, como falamos anteriormente, representava um passo além na vida e na carreira do suplicante, já que para tal mérito se investigava não apenas a pureza de sangue, mas também a mácula mecânica de sua vida, o que fazia com que fosse necessário que os requerentes já tivessem se desvinculado do passado como caixeiros ou mercadores de loja aberta. Recebê-la significava que foi prestado serviço ao rei, sendo remunerado com a insígnia - símbolo honorífico e capital simbólico - e uma tença anual357. Foram sete os comerciantes reinóis que reivindicaram mercês: Manuel Veloso (1736), André Alvares de Castro (1742), Manuel de Oliveira Cardoso (1746), Matias Alvares Vieira de Castro (1748), José da Silva Ferrão (1758), José Rodrigues Pereira (1763) e Francisco Pereira Mendes (1749). As ocupações de progenitores (pais e avós) e o envolvimento com a prática mercantil foram, como esperado, problemas para os requerentes nos processos de julgamento. Em seu favor, mencionavam o serviço prestado ao monarca, listando atuações na Câmara Municipal e nas Companhias de Ordenança. Como dispensa para os impedimentos mecânicos, recorreram ao mecanismo criado de levar oito arrobas de ouro às Casas de Fundição da América lusa. Fora isso, como meio de confirmar a habilitação, tiveram que pagar donativos para socorro de soldados na Índia ou sustento de obras, cujos valores variavam entre 240$000 a 600$000. Quando aprovados, passaram a receber uma tensa anual de 12$000, valor muito inferior ao que havia sido gasto para receber a mercê. Isso demonstra como o Hábito de Cavaleiro da Ordem de Cristo era um poderoso símbolo de poder e distinção social para a família daqueles súditos358. 356 No interrogatório levantado na colônia e/ou em Lisboa sobre o requerente, inquiriu-se a respeito de: sua vida atual e pregressa; sua prisão e a penitência do próprio, de seus pais e avós; se possuía bons procedimentos, de vida e costumes; se vivia limpamente e com bom trato; qual cabedal possuía; se do seu negócio tirava lucros para se sustentar; e se possuía algum filho ilegítimo. Ao ser habilitado, após o inquérito ser realizado, ficava então comprovado a boa conduta cristã e condução da família do súdito. Ver: BORREGO, Maria Aparecida de Menezes, op. cit., p. 173-178. 357 Olival apresenta a cultura política de prestação de serviços militares na monarquia portuguesa, e o que tal trabalho significava para aquela sociedade. Ver: OLIVAL, Fernanda. As ordens militares e o Estado Moderno: Honra, mercê e venalidade em Portugal (1641-1789). Lisboa: Estar, 2001. 358 Maria Aparecida Borrego cita alguns exemplos de como a exibição desses signos era importante para aqueles comerciantes que se enraizaram em São Paulo. Ver: BORREGO, Maria Aparecida de Menezes, op. cit., p. 178-187. 146 Quanto à estratégia matrimonial utilizada pelos reinóis cavaleiros da Ordem de Cristo como forma de otimizar suas condições de obtenção de riqueza e prestígio em sua jornada pessoal no planalto, nenhum deles optou pelo casamento com mulheres ligadas às famílias antigas da terra. Dos sete, seis se casaram com filhas ou netas de portugueses ligados à prática comercial já enraizados em São Paulo. Apenas André Alvares de Castro não seguiu esse caminho, optando por desposar Ângela Eufrásia da Silva, natural de Santos. Entre os sete, inclusive, existiam relações parentais próximas. Matias Alvares Vieira de Castro, irmão de André Alvares de Castro, era também casado com Francisca Maria Xavier de Matos, enteada de José da Silva Ferrão. Já José Rodrigues Pereira era casado com Ana de Oliveira Montes, neta de Manuel Veloso359. A teia mercantil que ligava esses homens era extensa, abarcando também diversos outros nomes citados aqui, que participaram dos cargos na Câmara, nas Ordenanças e na Santa Casa de Misericórdia. O quadro paulista assemelha-se aos do Recife e do Rio de Janeiro, duas importantes praças comerciais do império luso de meados do século XVIII, onde um contingente considerável de comerciantes reinóis se estabeleceu. Com o crescimento dos negócios, esses homens esforçavam- se pela obtenção de signos de afirmação social que compensassem suas marcas humildes. Uma vez ricos e estabelecidos, passavam a se tornar receptores de jovens portugueses que, caso prosperassem, casavam-se com filhas de homens de negócios já enraizados na comunidade, aumentando a coesão interna da comunidade mercantil. Com riqueza, distinção social e ininterrupta chegada de conterrâneos, fortaleceram-se internamente na cidade, adentraram as principais instituições de poder e rivalizaram com membros das elites tradicionais da capitania360. 359 Borrego apresenta, em um gráfico de seu livro, uma árvore genealógica com todas as ligações parentais entre os agentes mercantis que aparecem em sua pesquisa. Algumas famílias são estudadas de forma pormenorizada no quinto capítulo da obra da estudiosa. Ver: id., p. 235-293. 360 Para os casos do Recife e do Rio de Janeiro ver, respectivamente, os estudos de George Felix Cabral e Antônio Jucá: SOUZA, George Félix Cabral de. Elite y ejercicio del poder en el Brasil colonial: la Cámara municipal de Recife (1710-1822). Tesis (Doctorado en História) – Departamento de História, Universidad de Salamanca, 2007, p. 380- 383; JUCÁ, Antonio. “Famílias e negócios: a formação da comunica mercantil carioca na primeira metade do setecentos”. In: FRAGOSO, João Luís R., ALMEIDA, Carla Maria C., SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá (org.). Conquistadores e negociantes: histórias das elites no Antigo Regime nos trópicos. América lusa, século XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 242-245. 147 No próximo item deste capítulo trabalharemos a trajetória das linhagens mais antigas de São Paulo no recorte temporal de 1748-1765. Veremos o que a documentação indica sobre os paulistas de maior proeminência: seu protagonismo social, suas trajetórias e sua riqueza. Por fim, ao verificar os dados contidos nos censos de 1765 e 1767, compararemos a posição socioeconômica dos principais representantes dos paulistas com a dos agentes mercantis reinóis mais enriquecidos e enobrecidos. 3.2 Lugares de distinção das tradicionais famílias paulistas (1748-1765) Ilana Blaj foi historiadora precursora por apontar para o fato de que os paulistas, já no final do século XVII, teciam redes comerciais conectadas aos mercados do Rio de Janeiro, Santos e sul da América lusa. Sua pesquisaevidenciou que a produção agrícola na cidade abastecia – com trigo, milho e gado – esses polos regionais de consumo, sendo a descoberta do ouro a ocasião aproveitada por eles para aumentarem a sua produção e comércio junto às áreas mineradoras361. São Paulo, contudo, longe de ter vivido o seu clímax econômico ou social no final do século XVII, encontrava na produção e no abastecimento das Minas Gerais, nas duas primeiras décadas do Setecentos, a maior oportunidade de crescimento e de protagonismo econômico da sua história até então, transformando-se em um entreposto comercial privilegiado que ligava o Rio de Janeiro e Santos às comarcas das Minas Gerais, Cuiabá e Goiás. A autora vê a São Paulo do século XVIII como a principal retaguarda econômica das minas, e a elite paulista, que vinha enriquecendo e concentrando grande parte das riquezas e das oportunidades políticas e econômicas municipais, como a que mais se beneficiou desse processo. A pesquisa de Blaj, no entanto, não avança para além de 1720. E, como já evidencia a historiografia nas obras de Alfredo Ellis Júnior362 e Affonso de E. Taunay363, havia um contingente considerável de reinóis que se estabeleceu na cidade ao longo do século XVIII e que precisava ser 361 BLAJ, Ilana. A trama das tensões: o processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo: Humanitas; FFLCH, USP; FAPESP, 2002, p. 199-208. 362 JÚNIOR, Alfredo Ellis, op. cit. 363 Affonso Taunay é outro famoso historiador que vê, a partir da terceira década do século XVIII, grande contingente de portugueses chegando em São Paulo. Ver: TAYNAY, Affonso de E. História da cidade de São Paulo no século XVIII. São Paulo: Imprensa Oficial, t. I, 1931, p. 41. 148 analisado. Soma-se a isso a realidade apresentada por nós nos capítulos anteriores sobre muitos dos súditos paulistas, que ao invés de voltarem para São Paulo depois da derrota na Guerra dos Emboabas, optaram por continuar a servir à Coroa em expedições que buscavam descobrimentos de minerais preciosos. Desse movimento foram descobertas e fundadas vilas em Cuiabá e em Goiás. Nessas empresas, diversos membros das principais famílias de São Paulo se deslocavam, os quais detinham recursos e escravos para lhes auxiliarem na empreitada. A composição camarária era outra evidência desse trânsito contínuo, já que muitas das principais famílias que controlavam a instituição no século XVII, como Bueno e Camargo, não detinham mais sua hegemonia, permitindo que famílias antes periféricas, como as Prado, Siqueira Mendonça e Furquim, adentrassem mais nos círculos de poder. Além disso, como vimos, os portugueses ingressaram nas Companhias de Ordenanças, e dois deles foram eleitos capitães-mores. Ainda, exerceram quase a metade dos cargos de Provedores da Santa Casa de Misericórdia – o que ocorreu entre 1721-1748, antes da entrada na segunda metade do século XVIII, onde se tornaram predominantes no posto entre 1748-1765. Mas quem, então, eram os paulistas que ficaram e prosperaram no planalto? A historiografia do século XX, que via o século XVIII como um período de decadência do movimento bandeirante, pouco enfatizou os homens da cidade paulista do Setecentos. Sem marcar a história nacional como os sertanistas paulistas do Seiscentos – que fizeram deslocamentos geográficos homéricos, a descoberta de minerais preciosos e as guerras que acabaram por definir a consolidação da colonização do nordeste –, os súditos de São Paulo do século seguinte acabaram por não cativar tanto a atenção dos historiadores do período. Logo, quem eram esses paulistas? Existiam, como no caso dos portugueses, conexões familiares entre si? Quais famílias assumiram o protagonismo político e social na cidade? Por não termos acessos aos inventários da época364, vamos trabalhar com o que as principais instituições de poder têm a falar sobre esses personagens. 364 Os inventários estão entre os documentos embargados pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo. Para mais detalhes, ver: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/site/acervo/fora_circulacao. 149 Tentaremos isolar quem eram os mais proeminentes nomes que as fontes do período nos apresentam para, após esse destaque, traçar sua árvore genealógica e suas conexões verticais (com os patriarcas paulistas do século XVII) e horizontais (entre alguns deles próprios). Comecemos pela Câmara Municipal: em complemento à base de dados de comerciantes presentes na Câmara realizada no subtítulo anterior desta tese, todos os súditos que foram eleitos no período da pesquisa para o cargo de juiz ordinário, vereador e procurador e que não estavam envolvidos com o comércio totalizavam 64 (67,36%) pessoas, dentro das 95 eleitas para uma das três funções365. E, das 122 nomeações realizadas, 82 (67,21%) foram em nome de algum desses membros. Infelizmente não temos os dados a respeito da procedência de todos esses sujeitos; portanto, não há como afirmar a quantidade exata, entre eles, de homens que nasceram na cidade de São Paulo. Contudo, isso não importa tanto nesta pesquisa, pois o nosso objetivo foi apenas o de isolar os membros mais proeminentes desse recorte temporal, para assim focarmos neles a nossa análise. Para isso, consideraremos aqui apenas aqueles que foram eleitos para três mandados no período de nosso recorte temporal, tendo, obrigatoriamente, servido em um desses anos como juiz ordinário, o cargo de maior importância e prestígio do Senado366, e que tivesse exercido a função juiz ordinário, vereador ou procurador em três anos distintos. Isso faz com que nossa base de análise saia das 64 pessoas para apenas três sujeitos: Bento de Toledo Piza (Juiz ordinário em 1762 e 1765, Vereador em 1764), Bernardo Guedes de Toledo (Juiz Ordinário em 1764, Vereador em 1750 e 1753), João da Cunha Franco (Juiz ordinário em 1759 e 1760, Vereador em 1749 e 1754). 365 Actas da Câmara Municipal de São Paulo. São Paulo, Publicações do Arquivo Municipal de São Paulo, Divisão do Arquivo Histórico, 1562-1822, v. 12-15. 366 Isabele Pereira de Mello afirma que o Antigo Regime foi marcado pela concepção jurisdicionalista de poder. Nela, a justiça era considera necessária para boa governança e conservação da República. Cabia ao rei ser o responsável supremo por essa justiça, zelando pela boa administração e pelo equilíbrio. Nessa estrutura jurídica, a Câmara Municipal era um órgão de atuação em primeira instância, onde o desempenho do juiz ordinário – e depois o juiz de fora – tinha papel fundamental. Por terem a função não apenas de administrar os assuntos locais, mas também parte do que representava a justiça local, os juízes eram os cargos de maior importância na eleição camarária. Ver: MELLO, Isabele de Matos Pereira de. Os ministros da justiça na América portuguesa: ouvidores-gerais e juízes de fora na administração colonial (séc. XVIII). Revista de História (São Paulo), São Paulo, n. 171, jul./dez., 2014. 150 Na Santa Casa de Misericórdia, dois membros da elite de São Paulo foram eleitos no recorte temporal de 1748 e 1765 para o cargo de Provedor: Francisco Pinto do Rego (1757-1758) e Inácio de Barros Rego (1763-1764)367. Ignacio, que também foi Vereador em 1747 e 1764, foi quem fez frente ao Ouvidor Dr. Domingos Luiz da Rocha nas eleições de 1747368, e que, segundo as palavras do próprio magistrado, impediu os reinóis da vila de votarem na eleição de barrete para o posto de vereador. Francisco Pinto do Rego, apesar de não haver sido eleito para nenhum mandato na Câmara, foi eleito para o posto de Capitão-mor da cidade em 1753, como descrito no subtítulo passado. Considerando a já mencionada condição de proeminência política necessária a qualquer ocupante de um cargo de responsabilidades militares, podemos concluir que ambos eram, então, membros da elite paulista. Os outros dois homens citados como eleitos para o cargo de Capitão- mor de SãoPaulo foram: José de Góes e Moraes (1749)369 e Antonio Cunha de Abreu (1760)370. Temos então os nomes de sete homens que eram indiscutivelmente membros proeminentes da elite social do planalto paulista entre 1748 e 1765: - Antonio da Cunha Abreu (Capitão-mor em 1760); - Bento de Toledo Piza (Juiz ordinário em 1762 e 1765, Vereador em 1764); - Bernardo Guedes de Toledo (Juiz ordinário em 1764, Vereador em 1750 e 1753); - Francisco Pinto do Rego (Capitão-mor em 1753 e Provedor da Misericórdia em 1757-58); - Ignacio de Barros Rego (Provedor da Misericórdia em 1763-64, Vereador em 1764); - João da Cunha Franco (Juiz ordinário em 1759 e 1760, Vereador em 1749 e 1754); - José de Góes e Moraes (Capitão-mor em 1749). Entre esses homens, há algumas ligações familiares. Antonio da Cunha Abreu era pai de João da Cunha Franco, o que nos levará a apresentar aqui parte da genealogia da família Furquim, 367 CARNEIRO, Glauco, op. cit., p. 222-223. 368 Ignacio foi um dos envolvidos na polêmica eleição de 1747, na qual o Ouvidor-Geral tentou impugnar o pleito e, devido a intervenção do então Governador de São Paulo, D. Luis Mascarenhas, foi malsucedido. Inácio foi depois acusado pelo Ouvidor Rocha de ter impedido os portugueses de participarem da eleição. Tal tema foi trabalhado no último subtítulo do capítulo 2 desta tese. 369 Actas da Câmara Municipal de São Paulo, op. cit., v. 13, p. 87. 370 Actas da Câmara Municipal de São Paulo, op. cit., v. 14, p. 314. 151 das quais ambos faziam parte. Bento de Toledo Piza era primo de Bernardo Guedes de Toledo, fazendo-se necessária uma apresentação da árvore genealógica da família Toledo Piza, que, como visto no segundo capítulo desta tese, foi uma das que ascendeu ao longo do século XVIII em São Paulo. José de Góes e Moraes era sogro de Francisco Pinto do Rêgo, unindo a família Pinto do Rego com a família Taques Pompeus. Dessa última participam também: Pedro Taques de Almeida, pai de José de Góes e Moraes e Capitão-mor de São Paulo no início do século XVIII; Pedro Taques Pires, o maior opositor da ascensão de comerciantes reinóis na cidade ao longo do Setecentos, como vimos no capítulo anterior; e Pedro Taques de Almeida Paes Leme, o famoso genealogista. Logo, ao tratar dessas quatro famílias, trabalharemos com seis dos membros da elite local aqui citados, além de irmãos, primos e parentes pertencentes a essas linhagens que também possuíram destaque político. Por fim, tem-se o caso peculiar de Ignacio de Barros Rego, o único da lista que possui ascendência desconhecida, pois dados de seus pais e avós não se encontram nas obras de nenhum genealogista que trabalhamos ao longo da pesquisa. Apesar de não sabermos suas origens, sabemos sua estratégia no mercado matrimonial da cidade, pois se uniu a uma das famílias mais ricas do Seiscentos paulista: os Pedroso de Barros. Comecemos por ele a nossa análise. 3.2.1 - Ignacio de Barros Rego Figura 1 – Representação genealógica de Ignacio de Barros Rego 152 Fonte: LEME, Luiz Gonzaga da Silva. Genealogia paulistana. São Paulo: Duprat, 1903-1905. 9v. Ignacio de Barros Rego aparece pela primeira vez na documentação do Arquivo Histórico Ultramarino, como Tabelião público, em 2 de julho de 1736371. Consta novamente no posto em 30 de janeiro de 1738372. Como já visto, acabou eleito Vereador na polêmica eleição de 1747, quando confrontou o Ouvidor Dr. Domingos Luiz, servindo também no mesmo posto em 1764. Foi Provedor da Santa Casa da Misericórdia entre 1763-64 e, depois, foi eleito juiz ordinário em 1769. Sua figura circulava entre os principais espaços de poder e de influência na São Paulo do século XVIII. Fora isso, sua postura frente aos reinóis, enfrentando inclusive o Ouvidor com riscos de punição em 1747, demonstra que era um dos membros da elite paulista que mais tomava a frente nessa oposição. Sua ascensão aos cargos da Câmara Municipal e da Santa Casa de Misericórdia ao longo da década de 1760 indica uma acumulação de prestígio, tornando-se um sujeito que conseguiu ascender socialmente na cidade, acumulando riqueza373 e influência política. 371 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 2, doc. 1146. 372 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 12, doc. 1185. 373 Como tratado anteriormente neste capítulo, o posto de Provedor da Santa Casa de Misericórdia era ocupado, preferencialmente, por pessoas que possuíam riqueza, visto que em alguns anos os provedores eram convidados a arcar com os custos da própria instituição. BORREGO, Maria Aparecida de Menezes, op. cit., p. 151-157. Pedro Vaz de Barros Luiz Pedroso de Barros Maria de Araújo Angela de Siqueira Pedro Taques de Almeida Sebastião Paes de Barros Lucrécia Barros Antonio Pedroso de Barros Pedro Vaz de Barros Rosa Leite de Barros Ignacio de Barros Rego Valentim de Barros 153 Ignacio de Barros Rego era filho de Custodio de Barros Rego e Francisca Luiz374. Desconhecemos, contudo, as origens de Custodio e Francisca: não se sabe de que família vieram, se eram originais da capitania, de outras praças da América portuguesa ou do reino. O que sabemos, contudo, é que o casamento de Ignacio de Barros Rego deu-se com uma das mais ricas famílias paulistas do século XVII, a Pedroso de Barros, a qual no Setecentos, apesar de muitos de seus membros terem tentado a sorte em outras paragens – como as Minas Gerais –, continuava dispondo de recursos e patrimônio. Seu patriarca, Pedro Vaz de Barros (1580-1644), chegou em São Paulo no início do século XVII, assumindo a função de Capitão-mor na década de 1600. Falecido em 1644, foi casado com Luzia Leme (1600-1655) e deixou oito, entre filhos e filhas, como seus herdeiros. O que mais chama a atenção nessa família é a quantidade de escravos indígenas que eles conseguiram arregimentar375, número consideravelmente superior aos das demais famílias do Seiscentos paulista. Isso se devia não apenas à riqueza acumulada por Pedro Vaz de Barros em vida376 ou ao dote matrimonial proveniente do casamento com Luzia Leme377, filha de Fernando Dias Paes e Lucrecia Leme, mas sim às ações e aos serviços militares realizados pelos seus filhos, que aumentaram o patrimônio e a quantidade de escravos na família. Valentim de Barros (?- 1651) participou como alferes na infantaria da companhia do Mestre de Campo Antônio Raposo Tavares, que socorreu Pernambuco frente aos holandeses na década de 1640, e atuou na guerra junto da 374 LEME, Luiz Gonzaga da Silva. Genealogia paulistana. São Paulo: Duprat, 1903-1905. v. 3, p. 463. 375 John M. Monteiro demonstra que, como a lei portuguesa por diversos momentos proibiu a escravização de ameríndios, os colonos criaram uma brecha jurídica para manter o seu cativeiro. Para isso, lançaram mão da categoria de “administrados”, para poder passar os índios como patrimônio para a sua dependência, fugindo da nomenclatura da escravidão. Isso fez com que, indiretamente, o patrimônio arrolado no inventário nem sempre representasse a real riqueza e opulência desses senhores. , Ppois não se precificava os índios escravizados, às vezes presentes em centenas, contidos no seu inventário. Por isso, medir a quantidade de índios de uma fazenda às vezes fala mais sobre a riqueza e o prestígio daqueles súditos do que propriamente o monte-mor contido no seu inventário após a sua morte. Ver: MONTEIRO, John M. Negros da tTerra. Op. Cit., op. cit. 376 Silvana Godoy afirma que, em 1610, Pedro Vaz de Barros conseguiu escravizar 500 índios em 1610. Ver: GODOY, Silvana Alves de. Mestiçagem, guerras de conquista e governo dos índios. A vila de São Paulo na construção da monarquia portuguesa na América. Séculos XVI e XVII). Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de História, Programa de Pós-Graduação em História Social, 2017. p. 179. 377 Quando morreu, Luzia Leme, em 1655, deixou em seu inventário 216 índios,170 cabeças de gado, 600 mil réis em dinheiro contado, 25 alqueires de são e 1.100 alqueires de farinha de trigo. Id., ibid., p. 180. 154 armada montada pelo Marquês de Montalvão378. Valentim de Barros deixou, em seu testamento, 125 índios para serem repartidos na herança. O genealogista Luiz Gonzaga da Silva Leme afirma que Sebastião Paes de Barros (?-1674), irmão de Valentim e filho de Pedro Vaz de Barros, prestou serviços militares para a Coroa portuguesa em Tocantins e no Maranhão, junto ao governador Antonio de Albuquerque Coelho. Sebastião morreu em 1674, deixando 307 índios379. Lucrécia Pedroso de Barros (1622-1648), irmã de Valentim e Sebastião, como vemos na Figura 1, faleceu na década de 1640 e deixou 103 índios380 em seu inventário. Nascida em uma família rica, acabou atraindo casamento com o português Antonio de Almeida Pimentel, que após o seu falecimento, foi morar na Bahia381. Já Antonio Pedroso de Barros (?-1652), também irmão de Valentim, Lucrécia e Sebastião, preferiu um casamento dentro das famílias de São Paulo. Uniu- se a Maria Pires de Medeiros, filha de Salvador Pires, patriarca do clã Pires. Deixou 315 índios escravos. Seu primogênito foi Pedro Vaz de Barros (1646-1695), que tinha negócios na Bahia e no Rio de Janeiro, deixando 48 escravos indígenas382. Pedro era pai de Jerônimo Pedroso de Barros (1684-1758), quem, migrado para as Minas Gerais na década de 1700, foi um dos principais paulistas envolvidos no conflito Emboaba antes mesmo de completar 30 anos de idade. Além disso, foi protagonista de uma disputa contra Manuel Nunes Viana, um dos estopins que levou à guerra383. Jerônimo Pedroso de Barros casou-se pela segunda vez com Francisca Romeiro Velho Cabral, firmando residência nas Minas Gerais, mesmo após o conflito. A filha do casal, Rosa Leite de Barros, seria a esposa de Ignacio de Barros Rego em 1750, logo após o conflito causado pela eleição de 1747. 378 Id., ibid., p. 180-181. 379 Id., ibid., p. 253-254. 380 Id., ibid., p. 253. 381 LEME, Luiz Gonzaga da Silva, op. cit., v. 3, p. 511. 382 GODOY, Silvana Alves de. Mestiçagem, guerras de conquista e governo dos índios, op. cit., p. 254. 383 O famoso episódio refere-se ao caso de uma espingarda que certo forasteiro, apadrinhado de Nunes Viana, pegou emprestada de um paulista da rede clientelar de Pedroso. O paulista, após receber a notícia do desaparecimento de sua arma, não aceitava recompensa em troca que não fosse a própria espingarda. Romeiro, esmiuçando a cultura política do período, afirma que em um ambiente marcado pelo tensionamento e pela disputa de prestígio público, um pequeno fato poderia ser o estopim para um confronto armado. Jerônimo Pedroso de Barros destaca-se por ser o chefe da rede clientelar, ao qual os paulistas recorreram para fazer frente a Manuel Nunes Viana, o que demonstra o poder e o prestígio do paulista frente aos seus pares. Ver. ROMEIRO, Adriana, op. cit., p. 91-94. 155 A ascensão de Ignacio de Barros Rego deu-se após o episódio da eleição e o seu casamento. Teria sido isso coincidência ou um produto do ingresso oficial na elite dos principais da terra através da aliança matrimonial? Não sabemos com certeza, mas a ideia do laço matrimonial como porta de entrada no círculo fechado da elite local parece ser uma hipótese razoável. Aliado a uma das famílias mais ricas e poderosas da história de São Paulo, Ignacio, demonstrando-se um membro leal das principais linhagens paulistas no embate contra os reinóis, recebeu um dote considerável, adentrando as principais redes de parentesco do planalto. Não à toa seria Vereador, Juiz Ordinário e Provedor da Santa Casa de Misericórdia na década de 1760, após a união ter se consolidado. Sua jornada, apesar de pouco documentada antes de 1747, o alçou a posições sociais maiores que seus antepassados alcançaram, e fez dele um dos principais membros daquela elite. Por último, falemos de Luiz Pedroso de Barros. Irmão de Valentim de Barros, Antonio Pedroso de Barros, Sebastião Paes de Barros e Lucrécia de Barros. O paulista participou dos serviços militares prestados por Valentim de Barros no Nordeste, frente aos holandeses. Como demonstra a Figura 1, casou-se com Leonor da Siqueira, membro da elite baiana, voltando a São Paulo na década de 1650. Teve com ela, duas filhas, que, não sem razão, atraíram para o casamento dois irmãos de uma das famílias mais ricas da São Paulo do século XVII: a Taques Pompeus. Maria de Araújo384 casou-se com Lourenço Castanho Taques, o moço, e Angela de Siqueira, em seu segundo casamento, casou-se com Pedro Taques de Almeida. Lourenço e Pedro eram irmãos, filhos de Lourenço Castanho Taques, o segundo maior credor e um dos homens mais ricos da São Paulo do século XVII. Pedro Taques de Almeida foi pai de José de Goes e Moraes, Capitão-mor de São Paulo em 1749 e membro da elite local do período. Na sequência, estudaremos essa família. 3.2.2 - José de Góes e Moraes Figura 2 – Representação genealógica de José de Góes e Moraes (1676-1763) 384 Maria de Araújo deixou, em seu inventário, um patrimônio avaliado em mais de 2 contos de réis. Ver: GODOY, Silvana Alves de, op. cit., p. 235. 156 Fonte: LEME, Luiz Gonzaga da Silva. Genealogia paulistana. São Paulo: Duprat, 1903-1905. 9v. Lourenço Castanho Taques (1609-1671) foi um dos mais proeminentes paulistas do século XVII. Filho de Pedro Taques (1570 (?) – 1644), oficial português que veio para São Paulo junto da comitiva que acompanhava o governador D. Francisco de Souza no início dos Seiscentos385, Lourenço era, de acordo com inventários e testamentos analisados por Silvana Godoy em sua tese, o segundo maior credor da vila de São Paulo do século XVII, deixando, após seu falecimento, um patrimônio de quase 3 contos de réis (2$950.910). O mesmo ocorreu com Pedro Vaz de Barros, que deixou uma prole extensa – eram 10 entre filhos e filhas – e bem-sucedida em seu acúmulo de patrimônio, tendo alguns deles protagonismo na São Paulo do século XVIII. Pedro Taques de Almeida (?-1724) era o terceiro filho de Lourenço Castanho Taques. Pedro ocupou posto de Provedor e Contador da Fazenda Real da capitania de São Vicente. Exerceu também a função de Juiz da Alfândega. Capitão da fortaleza de Vera Cruz, na vila de São Paulo ocupou o cargo de Capitão-mor entre 1684-1687. O casamento com Angela de Siqueira, filha do rico Luiz Pedroso de Barros, como demonstrado no item anterior, apenas ajudou a consolidar a riqueza e o status social que herdara de seu pai. Não bastando isso, Pedro Taques de Almeida era 385 LEME, Luiz Gonzaga da Silva, op. cit., v. 4, 231-233. Lourenço Castanho Taques Pedro Taques de Almeida Leonor de Siqueira Pais Pedro Taques de Almeida Paes Leme José de Góes e Moraes Escolástica Ribeira Góes e Moraes Francisco Pinto do Rêgo Branca de Almeida Pedro Taques Pires Lourenço Castanho Taques, o moço 157 Cavaleiro Fidalgo da Casa Real386. Ou seja, filho de um dos homens mais ricos da São Paulo do século XVII, Pedro Taques de Almeida foi um proeminente membro da elite paulista da virada do século XVII para o século XVIII. Além disso, foi pai de José de Góes e Moraes (1676-1763), seu primogênito. A riqueza de José de Góes e Moraes, como vimos no capítulo anterior, vinha não apenas da sua herança, mas do fato de conseguir terras no caminho das Minas e em Curitiba para plantio e para a prática da pecuária. Foi dono de 3 grandes fazendas de criação de gado nos campos de Curitiba, além de ter sido Guarda-mor das minas de Paranapanema, com patente passada em 1718387. Em termos de representação política, foi eleito pela primeira vez Capitão-mor de São Paulo em 14 de março de 1711388, sendo que em 1749 encontrava-se eleito no mesmo posto novamente, com quase 73 anos de idade; ainda, foi o segundo mais votado para exercer mais uma vez a função em 1753. Foi Provedor daSanta Casa de Misericórdia no ano de 1722-23389, e Juiz Ordinário pela primeira vez em 1715, voltando a ocupar o posto em 1741. Esteve envolvido na polêmica eleição tratada na introdução deste capítulo, na qual, em 1737, foi eleito Juiz Ordinário e depois teve sua eleição embargada pelo ouvidor João Rodrigues Campello. Presença de prestígio e riqueza na São Paulo do século XVIII, José de Góes e Moraes talvez represente a pessoa mais poderosa das famílias tradicionais São Paulo até o nosso recorte final, no ano de 1765. Falecido em 1763, com 86 anos de idade, sua jornada, passou por todas as instituições de poder em São Paulo, e foi única em termos de distinção social na cidade. Dois primos de José de Góes de Moraes também seriam proeminentes paulistas do Setecentos. Pedro Taques Pires (?-?), primo de primeiro grau de José de Góes e Moraes, era filho de Branca de Almeida (1648-1714), irmã de Pedro Taques de Almeida, e José Rodrigues, da família Pires. Taques Pires, como vimos no capítulo 2, foi um dos paulistas mais comprometidos 386 Sobre Pedro Taques de Almeida, Luiz Gonzaga Leme escreve sobre sua trajetória, feitos e postos ocupados. Ver: id., ibid., v. 4, p. 258. 387 Id., ibid., v. p. 259. 388 QUEIROZ, Suely Robles Reis de Queiroz. “José de Góis e Morais: o paulista que quase comprou São Paulo”, op. cit., p. 381. 389 CARNEIRO, Glauco. Op. Cit., op. cit., p. 218. 158 em fazer frente à ascensão dos comerciantes reinóis na Câmara Municipal. O outro primo de José de Góes e Moraes é Pedro Taques de Almeida Paes Leme (1714-1777), o famoso genealogista, filho de Leonor de Siqueira Paes (?-?) e neto de Pedro Taques de Almeida. Em suas obras não foram poucos os momentos em que Pedro Taques de Almeida Paes Leme exaltou a nobreza das famílias antigas de São Paulo frente a estirpe dos “filhos de Portugal”, narrando inclusive injúrias e injustiças390 cometidas pelos reinóis. Ou seja, vem da família Taques o basilar representante dos principais da terra de São Paulo no Setecentos, na figura de José de Góes e Moraes, assim como vem da mesma família dois dos principais opositores da ascensão social dos agentes mercantis reinóis na cidade, nas figuras de Pedro Taques Pires e Pedro Taques de Almeida Paes Leme. José de Góes e Moraes teve quatro filhas e um filho. Uma de suas filhas, Escolástica Ribeiro Góes e Moraes, casou-se com Francisco Pinto do Rego, Coronel de auxiliares de Mogi das Cruzes e de Jacareí. Como vimos anteriormente, Francisco Pinto do Rego foi um dos principais membros da elite de São Paulo do recorte temporal entre 1748 e 1765. Vamos à sua família. 3.2.3 - Francisco Pinto do Rego Figura 3 – Representação genealógica de Francisco Pinto do Rego (1705-1775) 390 O tio de Pedro Taques, João Leite da Silva Ortiz, irmão de seu pai, foi um dos sertanistas envolvidos nas descobertas das minas de Goiás, nomeado o primeiro Guarda-Mor daquelas minas no final da década de 1720. Contudo, João Leite da Silva Ortiz sofreu revés nos seus pleitos, perdendo o posto e as sesmarias conseguidas. Em uma viagem a Lisboa, onde buscava reaver suas mercês, acabou envenenado em 1730. Pedro Taques de Almeida afirmava que a morte de Ortiz teria sido obra do então governador de São Paulo, Antônio da Silva Caldeira Pimentel, que aliado a interesses reinóis, buscava desalojar os paulistas do controle das minas de Goiás. ver: TAUNAY, Affonso de E. História da cidade de São Paulo no século XVIII, São Paulo: Imprensa Oficial, t. III, 1931. p 15-17. 159 Fonte: LEME, Luiz Gonzaga da Silva. Genealogia paulistana. São Paulo: Duprat, 1903-1905. 9v. Não se sabe ao certo a data em que o português Diogo Pinto do Rego (?-?) chegou na capitania de São Vicente no século XVII. O que se sabe é que, em 1677 ele recebeu a patente de Capitão-mor Governador de São Vicente e São Paulo da Coroa. Era filho de Antonio Pinto do Rego, natural de Lisboa. Nasceu na freguesia de Magdalena, em Lisboa, e serviu militarmente em Portugal, nas áreas de fronteira, como Capitão de Infantaria, o mesmo cargo ocupado por seu irmão, Luiz Pinto do Rego391. Militar de carreira, estabeleceu-se em Santos, onde foi Juiz Ordinário em 11 de abril de 1701392. Na cidade, sua filha, Anna Pinto da Silva (?-?) casou-se com um homem também bem-sucedido na carreira militar, André Cursino de Mattos (?-?), português natural de Cascais. André Cursino de Mattos aparece, em janeiro de 1713, já como Capitão de Infantaria paga da praça de Santos393 em uma petição na qual solicitava ao Rei que lhe fosse concedida a propriedade do ofício de escrivão da Ouvidoria-geral de São Paulo, posteriormente confirmada. Em um documento de 11 de novembro de 1720, Cursino de Mattos aparece também como governante da fortaleza de Santo Amaro da Barra, documento esse que também revela que era 391 LEME, Luiz Gonzaga da Silva, op. cit., v. 2, p. 188-189. 392 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 1, doc. 61. 393 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 1, doc. 107. Diogo Pinto do Rego Anna Pinto da Silva André Cursino de Mattos Diogo Pinto do Rego Francisco Pinto do Rego Escolástica Ribeiro Góes e Moraes 160 filho do ex-governador e mestre de campo da praça de Santos, José Monteiro de Mattos394. A Coroa lhe deu o direito de renunciar, em nome de seu filho primogênito Diogo Pinto do Rego, à propriedade do ofício de escrivão da Ouvidoria de São Paulo em 10 de setembro de 1738395, sinal de que, na época, ambos já se encontravam morando na cidade. Diogo Pinto do Rego (1709-1768) constava como escrivão da Ouvidoria-Geral da cidade de São Paulo em 17 de junho de 1732396, cargo esse que continuou exercendo até o final da década de 1750. Como Mestre-de-campo dos auxiliares de Santos, aparece na documentação pela primeira vez em 5 de setembro de 1738397. Casou-se com Maria Caetana de Araújo, filha do Provedor da Fazenda da vila de Santos, Timóteo Corrêa de Góes398, unindo as duas das mais ricas famílias da localidade. A mudança e o enraizamento em São Paulo parecem consolidados na década de 1740, na qual, nos anos de 1740-41 e 1741-42, Diogo exerceu o cargo de Provedor da Santa Casa de Misericórdia da cidade399, sinal de riqueza e de desejo de inserção no seio dos principais da terra da localidade. Tal ambição também aparece clara na estratégia matrimonial de seu irmão, Francisco. Francisco Pinto do Rego (1705-1775), aparece na documentação como Capitão-mor em 27 de janeiro de 1727 da vila de Jararei400. Foi também Coronel dos auxiliares de Mogi das Cruzes e Jacareí, além de ter ocupado o posto de tesoureiro da Casa de Fundição de São Paulo em 27 de janeiro de 1756401. Serviu também como tesoureiro dos Defuntos e Ausentes em 2 de novembro de 1753402 e foi o mais votado, nesse mesmo ano, para exercer a função de Capitão-mor em Piratininga, como falamos anteriormente. Segundo o genealogista Luiz Gonzaga da Silva Leme, 394 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 2, doc. 165. 395 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 13, doc. 1239. 396 Apesar de seu pai só ter passado oficialmente a patente para Diogo em 1738, Diogo já aparece na função 6 anos antes. Ver: AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 8, doc. 850. 397 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 13, doc. 1265. 398 Timóteo era meio-irmão de José de Góes e Moraes. Ambos eram filhos da mesma mãe, Angela de Siqueira (filha de Luiz Pedroso de Barros), mas de casamentos diferentes. Ver: LEME, Luiz Gonzaga da Silva, op. cit., v. 3, p. 480. 399 CARNEIRO, Glauco, op. cit., p. 220. 400 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 5, doc. 604. 401 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 21, doc. 2068. 402 AHU, São Paulo, Alfredo Mendes Gouveia, cx. 20, doc. 2011. 161 foi reconhecido como Cavalheiro Fidalgo da Casa Real em 1750403. Casou-se com Escolastica Ribeiro Góes e Moraes em 1741, no mesmo período em que seu irmão