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Prévia do material em texto

Francisco Maciel Silveira 
 
 
 
 
Exercícios de caligrafia literária: 
Saramago Quase 
 
 
 
“Abre teu olho. Só não enxergas por mantê-lo fechado às evidências.” 
(Livro do Desconcerto) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
São Paulo 
2012 
(2006) 
I. A Terra do Pecado (1947) 
 
Manuel Pelourinho 
(Doutor em Letras pela Sorbonne e diplomata. Autor de Punhos de renda, luvas de pelica.) 
 
 
“Se sabes ler, começa por soletrar as entrelinhas.” 
(Livro do Desconcerto) 
 
 
1. Homem de bom aviso 
 Abro a segunda edição de Terra do Pecado (Lisboa, Caminho, 1997), a reproduzir 
integralmente a primeira, saída pela Editorial Minerva em 1947. Logo à entrada um 
“Aviso”, no qual o autor, o Sr. José Saramago, dá notícia de como veio a lume o primeiro 
rebento de sua agora extensa prole literária. 
Nele, diz tratar-se à época de “um rapaz de 24 anos, calado, metido consigo”, 
“praticante de escrita nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa”, “tão 
cumpridor e pontual que à hora de começar o serviço já está sentado à pequena mesa em 
que trabalha”. Estava para nascer-lhe uma filha e “já havia plantado umas quantas árvores”. 
O “pouco mais que lhe resta para fazer na vida”  completude exigida pela trindade 
existencial de todos conhecida , já “que queria ser escritor”, naturalmente seria escrever 
um livro, pôr sua prática de escrita a serviço de mais altos desígnios. 
“Não sabe dizer como lhe veio depois a ideia de escrever a história de uma viúva 
ribatejana, ele que de Ribatejo saberia alguma coisa, mas de viúvas nada, e menos ainda, se 
existe o menos que nada, de viúvas novas e proprietárias de bens ao luar.” À procura de 
editor, “com notável atrevimento”, despacha os originais, “sem padrinhos, sem empenhos, 
sem recomendações”, para a Parceria António Maria Pereira. A Viúva  assim se intitulava 
a pretendente , por algum misterioso e inexplicável desvio, toma outra direção e vai ter à 
porta da Editorial Minerva. O editor, Sr. Manuel Rodrigues, deve ter-se engraçado com a 
narrativa, mas não com o título, que, “sem atractivo comercial, deveria ser substituído”. 
Não se cansasse o Autor à procura de outro, pois ali à mão, sacado da algibeira de seu faro 
editorial, tinha um: Terra do Pecado  título “a que nunca se há-de acostumar”. A alegria 
de ver-se publicado não foi capaz de fazê-lo esquecer “a derrota de ver trocado o nome a 
esse outro filho.” Conclui o “Aviso” dizendo que o livro lhe abrira as portas da literatura 
portuguesa, embora não tivesse sido um sucesso: “Realmente, a julgar pela amostra, o 
futuro não terá muito para oferecer ao autor de A Viúva”. 
Sinalizador, aí fica o “Aviso” para quem vá navegar por essas águas passadas. Não 
se perca o marinheiro de primeira viagem nessa travessia, nem passe à deriva, despercebido 
de faroletes e boias. Quais? 
Facho luminoso a varrer os abrolhos mal entrevistos à superfície do texto, esse falar 
o Sr. José Saramago de si mesmo em terceira pessoa. Modéstia? Afogar em pia batismal o 
Eu, umbigo de todas as vaidades? Exorcisar o desvanecimento de ter triunfado sobre o 
augúrio de que o futuro pouco teria “para oferecer ao autor de A Viúva”? Afinal, o texto do 
“Aviso” é de 1997, escrito, passados cinquenta anos da “pouco lustrosa” estreia por autor já 
então galardoado com cinco prestigiosos prêmios (Prêmio Internacional Literário Mondello, 
Itália, 1992; Prêmio Brancanti, Itália, 1992; Prêmio Vida Literária, Portugal, 1993; Prêmio 
Consagração SPA, Portugal, 1995; Prêmio Camões, 1995) concedidos pelo conjunto de 
uma obra que, então forte candidata ao Nobel (1998), forceja por esquecer A Viúva, quer 
dizer, Terra do Pecado,  “destinado a ter uma vida curta e praticamente sem memória” 1. 
Se descartada a razão acima, por psicologia de almanaque, avente-se outra, a 
explicar este ver-se o Sr. José Saramago a distância, falando de si próprio como outra e 
terceira pessoa, estranhando-se como fez H., em Manual de pintura e caligrafia (1977, p. 
31), ao rever-se em antigo retrato: “Quem sou eu-aquele?” Ora, ora, meus jovens, cinquenta 
(cinquenta e um?) anos distanciam um ser do outro. Rios de heraclitiana tinta correram sob 
a ponte que separa esse experimentado e premiado escriba de 1997 daquele autor incipiente 
(valha-nos aqui a homofonia) de 1947. 
A esta altura, seja por qualquer título (poesia, crônica, conto, romance, teatro), esse 
senhor de setenta e cinco anos deita um olhar terno e comovido sobre aquele rapaz de vinte 
e quatro anos, nele reconhecendo traços biográficos e (ainda?) psicológicos que são os seus: 
calado, introvertido, míope, “diminuta fortaleza física”, pai. Por um momento, heteronímica 
 
1. Reis, Carlos. “O escritor em construção”. In: Diálogos com José Saramago. Lisboa: Caminho, 1998, pp. 
e pessoanamente, esse senhor de setenta e cinco anos foi-o, outrora, agora. A ponto de, 
único instante no texto de “Aviso”, identificar-se e confundir-se com o outro que outrora 
foi:  “Neste ano de 1947 em que estamos nascer-lhe-á uma filha, a quem medievalmente 
dará o nome de Violante, e publicará o romance que tem andado a escrever, esse a que 
chamou A Viúva mas que vai aparecer à luz do dia com o título a que nunca se há-de 
acostumar”. Foi-o, outrora, agora, mas não reconhece seja aquele autor inexperto, e às 
vésperas da paternidade, pai do romancista que nasceria trinta anos depois (Manual de 
pintura e caligrafia, 1977). 2 Daí o distanciar-se, ao revê-lo no espelho do “Aviso”. 
Contudo, o tratá-lo, cinquenta anos transcorridos, como o outro, o homem 
duplicado, que, não obstante todas as semelhanças, ele, distanciando-se, recusa ser, o tratá-
lo assim nesse modo e termos não obscurece ou apaga o fato de, por todos os nomes e 
títulos, ter sido um “manga de alpaca”, “praticante de escrita”, tão cônscio da “escala 
hierárquica” que, “à hora de começar o serviço já está sentado à pequena mesa em que 
trabalha”. Da caverna do ser José Saramago viria a lume, mais tarde, sob a figura de um 
introvertido cinquentão amanuense do Registro Civil, aquele rapaz que fora. Embora não 
deseje a identificação, aquele inexperto jovem de 24 anos foi, quer queira ou não, o pai do 
romancista de Todos os nomes (1997) e O homem duplicado (2002). Machadianamente, o 
menino (aquele jovem autor inexperto de 24 anos) é, ao cabo, o pai do homem, esse Sr. 
José Saramago, que se revê da olímpica altura de seus consagrados setenta e cinco anos. 
Em verdade, o septuagenário, autor agora renomado, não reconhece ou não se 
identifica com ou se distancia daquele novel autor que um dia cometera o pecado de 
escrever A Viúva falto de vivência, saber ou experiência: “Não sabe dizer como lhe veio 
depois a ideia de escrever a história de uma viúva ribatejana, ele que de Ribatejo saberia 
alguma coisa, mas de viúvas nada, e menos ainda, se existe o menos que nada, de viúvas 
novas e proprietárias de bens ao luar.” 
 
 
 
11-27. 
2. “Que senhor é esse que escreveu esse livro? Eu sei lá quem é! Não sou eu...” Carlos Reis, Diálogos com 
José Saramago, Lisboa: Caminho, 1998, p. 41. Cf. página 35: “... aquele senhor escreveu aquele livro, mas 
não com a consciência de que se tinha preparado para ser escritor.” 
 
2. Reminiscências de alheia caligrafia 
Aquele jovem “praticante de escrita” exercitara sua caligrafia literária decalcando, 
às portas da primeira metade do século XX, moldes oitocentistas.3 Seu caderno de caligrafia 
era o Realismo/Naturalismo. A letra que lhe servia de modelo e lhe conduzia o pulso era a 
grafia de Eça de Queiroz, mas reconhece-se também o floreado de Júlio Dinis, sobretudo no 
enfoque dado à Natureza e àquele laborioso, ingênuo e servilcampesinato. 
Da memória literária, e não de um saber de experiência feito, erguera o romance. 
Cujo enredo há de despertar reminiscências na caverna de nossa memória. Enviuvando no 
primeiro capítulo, Maria Leonor sofrerá, ao longo dos restantes vinte e quatro, além dos 
efeitos psicofisiológicos de sua condição de fêmea ainda jovem submetida ao aguilhão da 
abstinência sexual, a ingerência tirânica de uma empregada disposta a zelar pela virtude da 
patroa. Oscilando da abulia à excitação, ao sabor de uma histeria diagnosticada por uma de 
suas empregadas como “falta de homem”, a personagem peleja contra a “teoria da 
fatalidade” orgânica. Graças ao inoportuno aparecimento de sua zelosa serviçal, Benedita 
(benedicta?), a viúva escapa de, com o cunhado, ali no chão do escritório, proceder 
“como fêmea pré-histórica, que se embrenhava no mato, berrando, ciosa pelo macho, e que se 
espojava depois na terra fecunda e negra. Eu era joguete das forças naturais do sexo, as mais misteriosas 
forças da vida, que são o anseio íntimo para a imortalidade dos deuses. Foi pensando isto que me acalmei: 
desde que fora tudo consequência duma causa de que me não era possível defender, sentia-me irresponsável 
como um cavalo que alguém guia para um abismo. Não me cabia responsabilidade na queda, alguém me 
impelia, alguém me guiava...” (pp. 183-184) 
Com  note-se  Os primeiros princípios, de Herbert Spencer, fortemente 
apertado contra o seio (cf. p. 183), a longa explicação acima é dada pela própria Maria 
Leonor, sinal de que, não obstante toda a evolução da espécie, continuamos a abrigar na 
caverna dos instintos naturais a pré-história do ser. De nada vale a Maria Leonor ser essa 
mulier sapiens, ao cabo vencida e subjugada pela “fêmea pré-histórica”. No leito de sua 
viuvez, esquecida da herbert-spenceriana evolução que a guindara de fêmea a mulher  
entenda-se: “representante de uma espécie distinta e superior, em que a posse animal foi 
adornada, crismada, enfeitada de palavras lindas, que a tornaram apresentável, capaz de não 
ofender os ouvidos mais castos e os sentimentos mais puros”, p. 183  , ei-la a sucumbir à 
 
3. “Aquele livro resulta do seguimento de leituras mal arrumadas e mal organizadas  e saiu aquilo.”, 
urgência naturalística do apetite genésico com o cura de seu corpo, o Dr. Viegas, 
cinquentão e velho amigo da família. Desta feita, a inoportuna, vigilante e benedicta 
serviçal não chega a tempo para salvar a virtude da viúva carente. Tacão da moralidade e 
religião castradoras do Evolucionismo, insultada em sua condição de solteirona, invicta e 
beata, Benedita calcará “a serpente horrível do Mal e do Pecado” (p. 285), anatematizando, 
por vergonhoso, o ato, consumado, ora vejam se tem cabimento, fora dos sacrossantos laços 
matrimoniais e ainda por cima no tálamo conjugal: 
“ Pois a senhora atreveu-se? Aqui dentro, no mesmo quarto e na mesma cama onde morreu seu 
marido!?... Mas que espécie de mulher sem vergonha é a senhora? E Deus não a matou, não lhe caiu um raio 
em cima, que os despedaçasse, quando se espojavam aí como dois cães.”(pp. 283-284). 
Escorraçada a fêmea pré-histórica sob os insultos e recriminações da serviçal, 
recompõe-se a mulher ataviada pela evolução da espécie. Viúva e mãe e educada à luz de 
princípios religiosos e morais, sobrevêm o arrependimento e o remorso: 
“A própria recordação do pecado, a lembrança de que se tinham pertencido quando ainda não tinham 
esse direito, ensombraria a vida de ambos: acabariam por odiar-se. E teria ela coragem de dizer aos filhos que 
ia casar-se com o médico? E o que diriam os criados, toda a gente da Quinta, toda a gente de Miranda”(p. 
288). 
Casar-se com Dr. Viegas para curar-se de suas carências, sob o beneplácito e 
permissão da ciosa empregada 4, não seria solução, posto que não o amava. “E ali, se lhe 
apresentou a outra solução: o salto nas trevas, o suicídio, a morte.” (p. 289) De que foi salva 
nas últimas linhas do romance pela morte do Dr. Viegas: 
“ Vínhamos informar a senhora de que o senhor doutor morreu. Encontraram-no no fundo do 
dique, com a charrette espatifada e o cavalo morto também. Deve ter caído...” 
Reticente final, umberto-ecoando que a obra se abra à cogitação do leitor. Acidente? 
Suicídio? A opção interpretativa traz implicações. A morte do Dr. Viegas por acidente é 
providencial demais em todos os sentidos. Além de salvar a viúva do cogitado suicídio 
(tresloucado e condenado gesto aos olhos da santa madre Igreja), a morte acidental do 
doutor conota o castigo do Senhor, raio a fulminar o Mal e o Pecado de que ele fora agente, 
ao sucumbir, num momento de fraqueza, aos apelos da Natureza. Já o suicídio, compelido 
seja pelo remorso, arrependimento ou pruridos moralistas, representaria a derrota de quem, 
 
reconhece o Sr. José Saramago. Id. ibid., p. 35. 
4. “ Não chore, minha senhora, não chore  gemeu Benedita.  Então, por amor de Deus, tudo se há-de 
como homem da ciência, se dizia defensor da natural simplicidade da vida. 
[Dr. Viegas, p. 248]: “Estava a pensar na minha teoria da simplicidade da vida e na inveja louca que 
tenho do apuro a que os homens das cavernas a tinham levado! Naquele tempo, era a grande Natureza a 
senhora de tudo. E não me parece que se tenha verificado a existência de Beneditas arreliadoras, de Leonores 
infelizes e, muito menos, de Viegas cirurgiões e conselheiros. Então, a machadinha de sílex resolvia quase 
todos os problemas e dificuldades... O pior foi que a evolução do teu Spencer deu cabo a tudo.” 
De fato, o evolucionismo de Spencer deu cabo da viúva e do Dr. Viegas, derrotados 
ambos pelas pressões e preconceitos da moralidade e religião castradoras, que, responsáveis 
pelo verniz civilizacional do homo sapiens, acabou transformando a aldeia global em que 
vivemos, e não só a Miranda do romance, na terra do pecado. Afinal, a evolução da espécie 
transformou o instinto sexual, uma das pulsões mais naturais de nossa pré-história, em 
anátema e pecado. 
Simplicidade 5 natural da pré-histórica espécie humana versus evolucionismo 
civilizacional e castrador da Cultura, Religião e consequente Moralidade constitui, pois, o 
conflito do livro. Adequado, portanto, o novo título dado pelo editor em substituição ao 
anterior, no mínimo anódino. Ao fim e ao cabo, segundo a óptica do romance, não 
assistimos todos numa Terra do Pecado, essa legada à nossa espécie pelo Evolucionismo? 
Se lhe considerarmos a pertinência, incompreensível não se tenha acostumado o Autor, ao 
longo de cinquenta anos, com o novo batismo. Ter-lhe-ia causado repugnância o sex appeal 
comercial de um título destinado a mexer com as zonas erógenas do reprimido inconsciente 
do potencial (e evoluído) leitor, voyeur ávido por frestar cenas de alcova? 
Lê-se na história de Maria Leonor a ilustração do mito de Eros e Psiché, cuja 
estatueta (aliás, simbolicamente, salva por Benedita de estilhaçar-se numa queda)6, convive, 
no quarto da viúva, com outra, uma “Virgem de porcelana, que afogava debaixo dos pés a 
serpente horrível do Mal e do Pecado” (p. 285). Óbvia a simbologia e adequada ao tema. 
Sabe-se que o mito de Eros e Psiché figura a submissão e cativeiro impostos à 
transcendência do espírito (Psiché = personificação da alma) pela sexualidade animal (Eros 
= expressão pervertida do amor) que anela apenas o prazer físico e não o sublimado gozo da 
esponsalícia união Carne/Espírito. A duras penas, impostas por Hera, deusa da pureza e do 
 
arranjar!... A senhora casa e tudo esquece...”(p.289) 
5. Em seu sentido primeiro: aquilo que, não sendo duplo ou múltiplo, não abriga desdobramentos conflituosos 
decorrentes da complexidade imposta pela Civilização. 
lar, Psiché (a Alma) libertar-se-á da cegueira, sedução e cativeiro a que a submete a 
sexualidade pervertida e banalizada de Eros 7. 
Sem grandes esforços exegéticos reconhecemos, na abulia depressiva de Maria 
Leonor, nos seus remorsos e arrependimentos após os fogachos eróticos, o conflito Eros 
versus Psiché. Na opressiva vigilância e abanões da benedicta serviçal (outra Virgem a 
esmagar sob e a seus pés a serpente horrível do Mal e do Pecado), lobrigamos a intervenção 
de Hera, a zelar pela pureza da patroa e do lar. Pertinente essa mistura dos maravilhosos 
cristão e pagão no conflito entre a Natureza e a Moral cristã. Metaforismos alegóricos que, 
seminais neste romance de estreia, prometem seara futura. 
Onde se reconhecem as caligrafias de Eça de Queiroz e Júlio Dinis no exercício da 
efabulação? Ambientado, à Júlio Dinis, num campo pletórico, regido pelo ciclo indômito e 
vital da Natureza, o romance transcorre num habitat onde, rescendente de símplice e 
pastoral romantismo, se trabalha e produz ao abrigo de afetuosas relações entre patrão e 
empregados, distante, pois, do panfletário maniqueísmo neorrealista em moda naqueles 
anos Quarenta. Tão afetuosas considerações irmanam superior e subalternos a tal ponto, que 
o inferno terreno de Maria Leonor decorre do imenso amor que lhe devota a serviçal 
Benedita, cheia de boas intenções. O conflito Natureza versus Moral (da viúva) é assistido 
por dois curas, um do corpo, o médico (Dr. Viegas), outro da alma (o padre Cristiano, que 
não se perca ele pelo nome), a lembrar-nos As pupilas do Sr. Reitor. Só que neste romance 
do jovem Saramago as pupilas vigilantes serão de uma reitora, Benedita,  benedicta, já se 
insinuou aqui. 
E é essa mesma Benedita que, cópia e simulacro de outra realidade, faz emergir da 
caverna da memória a reminiscência de outra infernal doméstica, a Juliana de O Primo 
Basílio (1878) do Eça de Queiroz. Não faltam, no conflito entre patroa e serviçal, cartas: 
três, que, contrariando a expectativa, não serão usadas para espezinhar ou martirizar a 
patroa. Enganosamente, o romance leva o leitor a esperar que Benedita calque seus tacões 
vingativos sobre Maria Leonor, que, não obstante loira, não será outra Luísa. Anjo da 
guarda da viúva, a empregada declara guerra não à sua estimada patroa, mas à fêmea que, 
 
6. Ver página 40. 
7. Ver, a propósito, Paul Diel - Le symbolisme dans la mythologie grecque, Paris: Petite Bibliothèque Payot, 
1966, pp. 132-135. 
presa do cio, forceja por vir à superfície das cavernas pré-históricas de suas pulsões e 
necessidades sexuais. “Guardiã da moralidade da casa” (p. 212), essa Hera doméstica passa 
a vigiá-la e a controlá-la, para evitar que, sob o influxo do ciclo vital da Natureza 8, venha a 
espojar-se no terra a terra pecado da carne. 
Lobriga-se em Terra do Pecado outro indício de que esse jovem de vinte quatro 
anos, em 1947, será o pai daquele septuagenário romancista consagrado, em 1997. Refiro-
me ao DNA recriativo das fontes e paradigmas que lhe regurgitam na memória. Surpreende-
se no romance aquilo que Gerard Genette chama genericamente de transtextualidade, ou 
seja, “tout ce qui le [o texto] met en relation, manifeste ou secrète, avec d’autres textes.” 
Mais especificamente, já que se trata de um tipo de transtextualidade, vislumbra-se, em 
Terra do Pecado, manifestações da hipertextualidade  entenda-se a especiosidade 
erudita: toda relação ou derivação resultante do enxerto ou união de um texto B (chamado 
hipertexto) a um texto A que lhe é anterior e serve de modelo (denominado hipotexto). Tal 
relação ou derivação pode ser tácita, “tel que B ne parle nullement de A, mais ne pourrait 
cependent existir tel quel sans A, dont il résulte au terme d’une opération que je qualifierai, 
provisoirement encore, de transformation, et qu’en conséquence il évoque plus ou moins 
manifestement, sans nécessairement parler de lui et le citer.”9 
Esbanjada, em erudito idioma, a conveniente citação, manifestação transtextual da 
voz da autoridade requerida num metatexto que se preze, localize-se a hipertextualidade 
murmurante no romance. Sob a tirânica vigilância das pupilas de um reitor de saias, Maria 
Leonor padece sob os tacões de Benedita, que, bem visto o transvestir, não passa de uma 
Juliana (lembram-se dela, com sua obsessão por botinas, em O Primo Basílio?) às avessas. 
Essa intertextualidade (as mais das vezes, do canto-contra paródico 10), entrevista no 
diálogo travado com a personagem Juliana de O Primo Basílio, há de marcar as obras 
posteriores do Sr. José Saramago, a confabular com Fernando Pessoa/Ricardo Reis (O ano 
 
8. Tempo cronológico o deste romance, em que Maria Leonor, o plantio e a colheita evolucionam segundo o 
relógio das estações: viúva no Inverno, desabrochar genesíaco na Primavera, calores do cio no Verão. 
9. Gerard Genette - Palimpsestes: la littérature au second degré, Paris: Éditions du Seuil, 1982, p. 12. Acerca 
de transtextualidade e hipertextualidade, id. ibid., pp. 7-14. 
10. “D’abord, l’étymologie: ôdè, c’est le chant; para: “le long de”, “à côté”; parôdein, d’où parôdia, ce serait 
(donc?) le fait de chanter à côté, donc le chanter faux, ou dans une autre voix, en contrechant  en 
contrepoint , ou encore de chanter dans un autre ton: déformer, donc, ou transposer une mélodie.” Gerard 
Genette, op. cit. , p. 17. 
da morte de Ricardo Reis, 1984), Alexandre Herculano (O cerco de Lisboa, 1988), Jung, 
Heidegger (Todos os nomes, 1997), Platão (A caverna, 2000), Plauto (O homem 
duplicado, 2002), para ficarmos só com alguns que de pronto me vieram à memória. 
 
3. Cassandra desmentida 
Diz velho ditado, suponho que de científica origem evolucionista: quem sai aos seus 
não degenera. Natural, portanto, que na caligrafia daquele jovem de vinte e quatro anos já 
se possa ver rascunhada a origem das letras futuras do romancista septuagenário. 
Para quem será futuro cultor de outra elocução, mais requintada no arabesco do 
barroquismo estilístico, soariam, cinquenta anos depois, (cabe a pergunta), soariam, 
cinquenta anos depois, imperdoáveis e irreconhecíveis seja a descrição (desbotada aquarela, 
florilégio de redação liceal), seja a adjetivação (já dessorada e flácida naqueles anos 
Quarenta), ─ uma e outra responsáveis pelos lugares-comuns que enxameiam em frases 
como 
“À flor da água surgiu a cabeça branca dum peixe, que lutava, desesperadamente, para se manter no 
seu elemento.” (p. 57); “... numa daquelas luminosas tardes com que o outono se despede do verão.” (p. 71); 
“Enquanto o foguete, lá em cima, vivia intensamente a sua vida fugaz, os olhos dos criados, das crianças, de 
todos seguiam-no extasiados.”(p. 88); “As noites tornaram-se claras e profundas, de uma limpidez 
transparente, rebrilhantes de estrelas sem conto, que só desapareciam horas altas, quando a Lua surgia do 
horizonte numa vermelhidão de sangue, que ia aclarando à medida que subia no céu, até se transformar num 
disco pálido, que vogava na frieza da noite, a caminho do outro lado da Terra.” (p. 92); “E as estrelas 
brilharam no céu, do lado do ocidente, como a mirar-se no espelho que surgia por detrás dos montes do outro 
ponto cardeal.”(p. 129); “E ficaram ambos, por segundos, com os olhos presos e as mãos unidas, num abraço 
de almas sólido e perfeito.”(p. 133); “Demorou-se uns instantes a ver duas andorinhas que traçavam no ar, 
com os seus corpinhos negros e alvadios, curvas de maravilhosa beleza, num enredar e desenredar constante, 
como embaraçadas numa teia invisível.”(p.137); “O perdigueiro... latindo para exprimir sua canina alegria.” 
(p. 267) 
Pinçadas ao correr dos olhos ou à vol d’oiseau (em homenagem às duas andorinhas 
saramaguianas com “seus corpinhos negros e alvadios”), todas as citações são resultado de 
rombudo lápis a calcar serôdios modelos de enunciação? Esquecido o Sr. José Saramago de 
que o mesmo Oitocentos lhe oferecia para decalque a grafia ironicamente elegante, 
parnasiano-flaubertiana, de um Eça-Fradique-Mendes-de-Queiroz à procura daquela prosa 
cuja ambição máxima seria captar e reproduzir o inefável? 
Por estes prismas, o da invenção e o da elocução  “Realmente, a julgar pela 
amostra, o futuro não terá muito a oferecer ao autor de A Viuva”. 
Ocorre que, por algum oculto desígnio (acaso? fado? predestinação?, que nome dar-
lhe?)11, o mesmo futuro se encarregou de desmentir o vaticínio. Que me lembre, o Sr. José 
Saramago (em O homem duplicado?) disse que não devemos jogar peras com o Destino. 
Sabido à protérvia, ele (o Destino, claro está) há de comer-lhe as boas e sumarentas peras, 
deixando-lhe as pecas. 
A roda da fortuna  a mesma que pôs o Sr. José-só, de Todos os nomes, à frente de 
sua para sempre perdida anima; a mesma que pôs Tertuliano Máximo Afonso às mãos de 
seu sósia, Daniel Santa-Clara , pois não é que a roda da fortuna houve de, por algum 
oculto desígnio, contrariar-lhe a previsão, comendo-lhe o peco A Terra do Pecado e 
reservando-lhe as sementes para peras vindouras. 
Ainda bem para ele, o Sr. José Saramago. Que não falou pela oracular e fatídica 
voz-Cassandra de D. Carolina, a mãe de outro Homem duplicado  este punido com a 
perda da identidade pretérita. 
(SP, 15/9/03 - 29/9/03) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
11. “Quis, porém, o acaso, muito mais exacto teria sido dizer que foi inevitável, uma vez que conceitos tão 
sedutores como fado, fatalidade ou destino não teriam cabimento neste discurso...”, O homem duplicado, p. 
97. 
 
II. O ano de 1993 (1975) 
 
Apolo Constantinos Jr. 
(Astrônomo e antropólogo, é autor de Vista do vermelho Marte, a Terra é um deserto humano.) 
 
“Toda Cassandra tem o Apolo e os incrédulos que merece.” 
(Provérbio sibilino) 
 
1. Mala sem alça 
Quando soou o telefone, não estava em ledo e cego engano, qual Inês, posto em 
sossego. Primeiro, porque, conhecendo o nome que tenho, me chamo de Apolo Constatinos 
Jr.; segundo, porque, astrônomo e antropólogo, a contemplar de minha janela alfred-
hitchcokiana indiscreta, com telescópios, lunetas e este binóculo, a conjunção dos astros e 
dos humanos, ora como pode alguém estar com seu quarto minguante posto em sossego. 
Imagine-se, pois, o mau humor com que fui atender aos apelos histéricos da sereia. 
Não vou transcrever a longa conversação telefônica. Toda ficção, por mais real ou 
científica que seja, tem que ter um fundo de verdade e eu não tinha um gravador ligado para 
apresentá-la a qualquer são juízo como prova. Fico, pois, no resumo. 
Tratava-se de um convite para escrever um ensaio acerca de O ano de 1993, do Sr. 
José Saramago. Ensaio que figuraria numa obra coletiva acerca de seu período dito 
formativo, aquele entre 1947 e 1980. Um seleto elenco de autores (palavras do 
Organizador) estava sendo convidado, cada um a cargo de um livro. Queria ele um volume 
bakhtinianamente polifônico, vozes diversas, contrastantes, conflitantes, em torno daquela 
fase pouco conhecida e menos ainda estudada (palavras dele). Meu nome viera à lembrança 
graças a Vista do vermelho Marte, a Terra é um deserto humano, uma obrinha que eu 
publicara à época em que, à procura de um bunker sobrevivente, andava interessado pela 
futurologia catastrófica de Asimov, Well e Orwells (explicação minha). Enfim, interessava? 
Claro que sim, não se fecha a janela a conjunções sejam astronômicas, antropológicas, 
sejam menos ainda astrológicas, e naquele momento, no céu, o Sol e Netuno estavam em 
conjunção, logo Mercúrio ingressará em Aquário e a Lua atingirá seu plenilúnio em 
Virgem. Tudo isso aí não disse, só pensei. O que disse foi  “Pinta algum leitinho pras 
crianças?”, meio de ordenhar o uísque meu de cada dia, já que sou celibatário e de 
bastardos, se os há, não tenho conhecimento. Juro, minha Rainha e Santa D. Isabel. 
Pergunte lá a seu esposo, meu Rei-Trovador D. Dinis, de quem sou fiel servidor. Ofereceu-
me ele (o Organizador, D. Isabel, não D. Dinis!) a ordenha de uma vaca sem medalha nem 
genealogia. Regatear por quê? Por econômico que seja o úbere, mais vale uma vaca no meu 
curral que uma boiada a engordar o pasto vizinho. 
Desligado o telefone, pus-me a arrumar minha bagagem de viajante rumo à 
h.g.welliana máquina do tempo. Estou no século XXI (precisamente, fins de janeiro de 
2005), mas devo regressar ao século XX, a O ano de 1993, publicado pelo Sr. José 
Saramago, em 1975. 
Leitor do Sr. José Saramago levantado do chão a partir de 1980, pouco (para não 
confessar que nada) sabia de sua lavra anterior, aquela que o Organizador, balizando-a entre 
1947 e 1980, chamara de “período formativo”. Qual, portanto, caro leitor, a primeira e 
urgente necessidade que se impunha a satisfazer? Claro, o amigo está coberto de razão, 
levantar a bibliografia do Sr. José Saramago, o que ele publicara ao longo daqueles trinta e 
três anos. E, para bem ou mal de meus pecados, lê-la, dos cascos ao chifres, expressão que, 
incoercível, saltou ao lombo destes teclados, sem dúvida inspirada por aquela vaca sem 
medalha nem genealogia que, bulímica, estou surrealisticamente a vê-la (juro) neste instante 
a ruminar as plantas e ervas que, árcade nostálgico, cultivo na varanda de meu apartamento, 
sobranceiro alcácer erguido bem na esquina da Avenida Ipiranga com o Boulevard São 
Luís. 
Alto lá, Sr. Ensaísta que atende pelo nome de Apolo, como aceita uma tarefa sem a 
menor bagagem intelectual para levá-la a cabo? Como há de cumpri-la? 
Indo à Biblioteca Municipal, sita à Praça D. José Gaspar. Se o amigo não sabe, de 
onde assisto à dita biblioteca é um pulo. Modo de dizer. O prozac que religiosamente tomo 
duas vezes ao dia me impede o salto suicida desta varanda. 
O leitor há de permitir aqui, pelo menos, um salto no tempo. (Valha-me o título de 
uma crônica inserida em Deste mundo e do outro, do Sr. José Saramago. Pago a César os 
direitos que, intertextualmente, lhe cabem). Há, pois, o leitor de me permitir um salto no 
tempo, como convém a todo ensaio-narrativo que (vade-retro, Tentação!) não presume ser 
uma lenga-lenga acadêmica. Salto ou acrobacia estilística possibilitando-me dizer-lhes que 
anoitecia quando, outro Jonas, embora por todos os nomes me chamem de Apolo 
Constantinos Jr., vi-me, a regurgitar de saber, expelido da Biblioteca Municipal. 
(Não sei por que me vi como Jonas quando saí daquele bibliográfico útero granítico. 
Registro a sensação esquizofrênica para uma séria conversa com minha analista. Que, além 
de portuguesa e peregrina leitora de Fernão Mendes Pinto, ainda me confessou uma tarde, 
trocadas as posições no sofá catártico, que o pai era um salazarista de quatro costados e 
cinco quinas. Conhecedor dos seis volumes que o Sr. Franco Nogueira dedicara ao 
maiúsculo Estadista (adjetivo lá dela), o pai quase os reproduzia de cor nos serões de sua 
aldeia, genuflexa, ora pois se calhar e calhou, ao sopé de Santa Comba do Dão.) 
Regurgitado da Biblioteca Municipal, trazia eu, portanto, ou por tão pouco, uma 
carga por saber, assentada num papelinho ufano de minha garatuja: Terra do Pecado 
(romance,1947); Os poemas possíveis (1966); Provavelmente alegria (poesia, 1970); Deste 
mundo e do outro (crônica, 1971); A bagagem do viajante (crônica, 1973); As opiniões 
que o DL teve (crônica, 1974); O ano de 1993 (sei eu lá o que seja, pelo menos por ora, 
mas é o que me cabe, 1975); Os apontamentos (crônica, 1976); Manual de caligrafia e 
pintura (romance, 1977); Objectoquase (contos, 1978); A noite (teatro, 1979); Que farei 
com este livro? (teatro, 1980); Levantado do chão (romance, 1980). 
O leitor perspicaz desconfia o quanto e o como lá vinha eu ajoujado sob a 
insustentável leveza do papelinho com a bibliografia do Sr. Saramago, aquela que, por 
desafogo do talento ou dever do ofício, lhe compunha o dito período formativo. Sem 
dúvida, convenhamos aqui entre nós, uma pena prolífica. Nem direi, parafraseando 
personagem de Guerras do alecrim e mangerona, que em abrindo a boca lhe choviam, 
àquela época, poemas, crônicas, romances, peças teatrais e conceitos aos borbotões. Treze 
títulos, Senhor, à tua ceia, muitas vezes edificam uma obra, mas, benza-o Deus, a do Sr. 
Saramago ainda estava, pasmem, a engatinhar sua formação. 
“Exercícios de caligrafia literária: Saramago quase, meu caro. Tanto que o título do 
volume em que você vai colaborar será exatamente esse  Exercícios de caligrafia 
literária: Saramago quase. E aí, interessa?” 
Quem não perceberia que, num flash-back, recuperei trecho, lá em cima mal 
transcrito, de minha conversa telefônica com o Organizador. Deguste-lhe a retórica e 
concorde comigo que ele já me sabia preso pelos chifres, os da vaca, claro fique, a que, sem 
medalha nem genealogia, haveria de me oferecer. Quando não nos vem a talho uma boiada, 
faça-se praça (a D. José Gaspar, lembram?) a cavaleiro do que nos cabe no lombo,  frase 
assim a modos de apotegma rococó, tão ao gosto das douradas talhas ad altarem linguae do 
Sr. Saramago (como virei a ficar sabendo na viagem de minhas leituras) e que, por desfastio 
do estilo, vem a pelo neste exato momento. 
Ajoujado sob a insustentável leveza do papelinho com a bibliografia do Sr. 
Saramago, pernas para que vos quero, se não para calcorrear universitárias bibliotecas, em 
demanda daquilo que se resguarda para os raros apenas: 
 De tão lido que é, coitado, foi para a encadernação. 
 E quando voltará ao acervo? 
 Só Deus sabe. 
Amigos, para que vos quero senão para me emprestar as raridades estilísticas 
daquele período formativo. Das letras que melhor companhia haveria senão a detentora dos 
autorais direitos do Sr. Saramago aqui no Brasil? E de caminho por que não recorrer a 
Portugal? Mãos à obra, portanto. 
 
2. Em busca de que tempo perdido? 
Quem tem boa memória há de lembrar-se que comecei a retouçar estas linhas em 
fins de janeiro de 2005. Estamos hoje, precisamente, numa segunda-feira, 25 de abril de 
2005. Ponhamos lá três meses de beneditino recolhimento a pascer os olhos no que o Sr. 
Saramago cultivara de 1947 a 1980, ciente do arame farpado que delimitava meu pascigo: 
Terra do Pecado (romance, 1947); Os poemas possíveis (1966); Provavelmente alegria 
(poesia, 1970); Deste mundo e do outro (crônica, 1971); A bagagem do viajante (crônica, 
1973); As opiniões que o DL teve (crônica, 1974); O ano de 1993, 1975); Os 
apontamentos (crônica, 1976). 
Nada de estender a gula dos olhos ao pasto dos outros. Segundo o Organizador, à 
exceção de O ano de 1993, os demais títulos outros hão de gramar. Portanto, Apolo 
Constantinos Jr., fica em teus limites, nada de fincar padrão em seara alheia. 
Assim sendo, nesses meses de claustral e beneditino recolhimento, corri olhos pela 
poesia e crônica do Sr. José Saramago, espécie e fôrma muito afins, considerando que 
prosa de cronista frequentemente lança um olhar poético sobre o quotidiano. Não se 
constituía exceção à regra a lavra saramaguiana. A registrar que o cronista Saramago, sob 
piscadelas poética e surreal, apresentava já uma óptica político-social que iria desenvolver-
se no ofício de editorialista: As opiniões que o DL teve (1974); Os apontamentos (1976). 
As opiniões que o Sr. Saramago teve (única cabeça pensante na redação?) pelo 
Diário de Lisboa correm pela “abertura” dos anos marcello-caetanistas de 1972-73. Já os 
apontamentos do Diário de Notícias são editoriais quase diários, de abril a 25 de novembro 
do ano de 1975, registrando como se foram fanando os cravos da Revolução de 25 de abril 
de 1974. 
Diria o senso comum, aqui trazido a (e de) propósito, já que do homem duplicado 
enquanto poeta e cronista tratamos: 
 Se, em 1980, fosses um sem-terra do Alentejo com foice à mão, haverias de saber 
que a seara de O ano de 1993 deitou semente tanto no veio ideológico dessas crônicas 
políticas como no veio poético das inscritas em Deste mundo e do outro (1971). Isso sem 
contar o discurso e imagens surrealizantes de alguns poemas inseridos em Provavelmente 
Alegria (1970), nomeadamente, “Passa no pensamento”, “A mesa é o primeiro objecto”, “É 
um livro de boa-fé”, “Protopoema”. 
Sei, ó senso comum, (afinal, já o disse a crítica especializada), que O ano de 1993 
trilha berma entre a poesia e a crônica em demanda da ficção  aquela prosa perdida n’a 
terra do pecado que foi, segundo reconhece Sr. José Saramago, o seu primeiro romance. E, 
de fato, o título O ano de 1993 já nos segreda alguma coisa, não é mesmo? Vindo a lume 
em 1975, O ano de 1993 promete futurologia que nos remete para o bojo da science fiction. 
Ainda mais se considerarmos que o título faz ressoar em nossa memória o 1984, de George 
Orwell  volume, aliás, que ainda inspirou os fragmentos 11 e 17 (respectivamente pp. 
30-31 e 41 da primeira edição, a de 1975, que tenho sob os óculos). E aí, senso comum, 
achas que estou equivocado? 
(Como o senso comum embatucou sem resposta, prossigo.) 
Quem já leu o romance de Orwell há de reconhecer no fragmento 11 de O ano de 
1993 uma nova versão para o Big Brother: 
“Só essas pessoas assistiram ao primeiro aparecimento do grande olho que iria passar a vigiar a 
cidade 
 Só esses o viram no seu primeiro tamanho 
Mas o sol verdadeiro subiu um pouco no horizonte a esfera de mercúrio dividiu-se em duas em 
quatro em oito em dezasseis, em trinta e duas em centenas de esferas que se espalharam por toda a parte 
Deslocavam-se no ar silenciosamente e continuavam a dividir-se até que houve tantas esferas quantos 
os habitantes da cidade 
Fora instituído o olho de vigilância individual, o olho que não dorme nunca 
Já o fragmento 17, a tratar da “guerra chamada do desprezo”, traz-nos à lembrança 
uma variante e releitura paródica do “programa do ódio” vociferado em 1984. (Chamo de 
variante e releitura paródica pois se trata de uma inversão do modelo. Enquanto no romance 
de George Orwell as manifestações de ódio e protesto se dirigem ao ordenador, visando a 
suscitar a reação de apoio dos ordenados, em O ano de 1993, comandado também por um 
ordenador, “o programa do ódio e das humilhações” visa a suscitar, além do terror, nossa 
simpatia e piedade pelos humanos ofendidos): 
Todos os animais do jardim foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas 
E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que 
jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas 
principais 
Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos 
mecanismos internos ligados aos ossos de circuitos electrónicos que não podiam errar 
E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do 
ódio e a memória das humilhações 
Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens 
Desperta memória do senso comum, um aficcionado de George Orwell, tendo lido O 
ano de 1993, poderia, aqui e a propósito, lembrar-me que o fragmento 12 (p. 32) propõe 
uma outra revolução dos bichos, à qual não falta uma blitz de pássaros à Hitchckok: 
Um dos resultados da catástrofe foi que de uma hora para outra os animais domésticos deixaram de o 
ser 
A primeira vítima de que houve notícia foi a mulher do governador escolhido pelo ocupante 
Quando o macaco amestrado que a divertia nas horas de aborrecimento a crucificou noportão do 
jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés 
Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas por gatos castrados de estimação em memória do 
atentado sofrido 
E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas pelo bicos agudos das aves que se atiravam dos 
ramos e das alturas como pedras 
Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se activamente ao cultivo de flores 
Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa 
carnívora 
Agradeço-lhe a pertinente lembrança, caro leitor. Mas não posso deixar de aduzir 
que aqui se trata também de inspiração e diálogo intratextual, uma vez que a ideia dessa tal 
revolução dos bichos, profetizada para 2968, seminalmente estava inscrita na crônica “Os 
animais doidos de cólera”, inserta em Deste mundo e do outro (1971). 
 
3. O ano de 1993: uma história de que futuro? 
A perspectiva futurante de O ano de 1993 não esconde, no título, o teor cronístico 
de uma história do futuro, sugerido, aliás, na epígrafe colhida em Fernão Lopes: “... porque 
screpvendo homem do que nom he certo, ou contara mais curto do que foi, ou fallara mais 
largo do que deve; mas mentira em este volume, he muito afastada da nossa voomtade.” 
Se bem entendo a senha, da perspectiva do presente em que está a viver e a escrever 
seu O ano de 1993, o Sr. José Saramago, tal qual redivivo Fernão Lopes, intentava poer em 
caronyca a história futura de nossa humanidade, perspetivando-a do contexto sócio-político 
português. Compreensível, tendo em conta que todo cronista é um historiador do dia a dia, a 
lembrar-nos que o presente, muitas vezes fruto peco do passado, não pode fazer-nos 
esquecer que o futuro pode ser amargo. 
A poesia ressoa e sabe também o livro. Diga-o a litania versicular, dando à mancha 
do texto um jeito de poema em prosa posto a serviço de um relato futurante, apocalíptico e 
distópico cujo argumento, não obstante fragmentário em sua recusa à linearidade, guarda 
um fio narrativo:  a retomada e reconstrução de um país que, seja pela defecção, 
alienação ou colaboracionismo de seus habitantes, fora gradativamente ocupado pela 
repressão, violência e consequente desumanização. Portanto, lê-se em O ano de 1993 
alegórica ficção científica, a que, como pede o gênero, não faltarão realismo e maravilhoso, 
vazados aqui ao jeito de poema em prosa. 
A que vem o experimentalismo da alegórica ficção científica inscrita em O ano de 
1993? O que a motiva? 
Tendo trilhado a poesia e a crônica, talvez estivesse o Sr. Saramago conjugando-as 
naquele 1975 à procura de um estilo e dicção que, próprios, viessem a caracterizar-lhe a 
futura aventura ficcional. (Note-se que a forma versicular do texto dispensa os sinais de 
pontuação, delegando-os ao fôlego e compreensão do leitor, achado encontrável em futuros 
textos do Autor.) 
Para além dessa motivação experimental, é preciso considerar o contexto que lhe 
gestava a alegórica ficção científica que dava a lume. Afinal, toda alegoria futurante da 
science fiction se nutre da potencialidade apocalíptica do presente. Elucubremos um pouco, 
como requer todo ensaísmo que se preza. 
A primeira edição de O ano de 1993 data, já o sabemos, de 1975. Sai, portanto, à 
época em que, de princípios de abril a 25 de novembro de 1975, no Diário de Notícias, o 
Sr. Saramago acompanhava com seus apontamentos o estiolar dos cravos do 25 de abril de 
1974. Estaria, pois, a registrar e a vaticinar, em sua alegoria futurante, o malogro da 
aventura que foi a Revolução dos Cravos? 
Não o creio. O sonho revolucionário do MFA, apoiado pelas intervenções de 
editorialista nas páginas do Diário de Notícias, morre exatamente em novembro de 1975, 
mês em que foi demitido do jornal e ano em que o livro foi publicado. Por mais automática 
que fosse a urgência daquela crônica vaticinante, surrealista seria pensar que a tenha 
composto ao longo de 1975. Mais plausível seria cogitar que a história do futuro inscrita 
em O ano de 1993 era a crônica da agonia do marcellismo (1970-1974). Sobretudo se lhe 
considerarmos a linguagem criptográfica (naturalmente imposta pela censura) e a alegoria 
futurante, ambas a registrarem a decomposição de uma terra “doente de peste”, ocupada e 
ditatorialmente oprimida. A ser correta a interpretação, poder-se-ia datar-lhe a redação entre 
os anos de 1972-74, ainda mais ponderando que nos anos de 1972-73 o Sr. Saramago 
diagnosticava nas páginas do Diário de Lisboa os estertores do Salazarismo. 
 Alto lá, Sr. Apolo Constantinos Jr.! Então é possível que o senhor, posto aqui a 
rasurar O ano de 1993 do Sr. Saramago, de quem sou fã de carteirinha, desconheça texto de 
eminente crítica, a Sra. Dra. Luciana Stegagno Picchio, saído no número 3 da revista 
Veredas, onde se lê, com todas as letras que, segundo testemunho do próprio Autor, o livro 
de que o Sr. Apolo trata, a saber, O ano de 1993, cito com as aspas devidas, “tinha tido a 
sua origem em 16 de março de 1974, um mês antes da revolução de 25 de abril, sob a 
profunda frustração sobrevinda à tentativa falhada de um pequeno grupo de militares de 
derrubar o governo e mudar o regime. Naquele próprio dia tinha sido escrito o primeiro dos 
trinta poemas que compõem o volume.” 
Sinceramente agradeço a aparição intempestiva da Sra. Dra. Cassandra de Troia 
(assim ela se me apresentou, “Muito prazer”, “Sempre à suas ordens”). Devo esclarecer, sob 
minha condição de Apolo, que se trata de uma “aparição intempestiva”, porque a secção 
Cartas à Redação: foro e desaforo dos leitores (ágora baktiniana deste Exercícios de 
caligrafia literária: Saramago quase) está ainda para ser criada. 
Para que não pareça totalmente ignorante, devo, outrossim, esclarecer que o 16 de 
março de 1974, dia em que o Sr. Saramago escreveu (conforme reza a Dra. Luciana 
Stegagno Picchio) “o primeiro dos trinta poemas que compõem o volume”, “sob a profunda 
frustração sobrevinda à tentativa falhada de um pequeno grupo de militares de derrubar o 
governo e mudar o regime”, aquele 16 de março de 1974, conhecido como o “Golpe das 
Caldas”, data, segundo me instruo em António Reis (“A Revolução do 25 de abril de 1974”, 
in História de Portugal, dirigida por José Hermano Saraiva, Publicações Alfa, volume 6, 
página 361), “uma precipitada tentativa de golpe por parte de um grupo de oficias próximos 
do general Spínola, que arranca das Caldas da Rainha com uma coluna sobre Lisboa a 16 de 
março. Rapidamente controlados, são presos ou transferidos algumas dezenas de oficiais”. 
De toda essa arenga acadêmico-bibliográfica fica-me a certeza de que em abril de 
1974 o livro ainda estava sendo redigido. Certeza confirmada ante qualquer título de 
protesto pelo fragmento 28. À página 65 da primeira edição que compulso (Editorial 
Futura), lê-se: 
“Uma após outra as cidades foram reconquistadas e de todos os lugares afluíam as hordas que outro 
nome começavam a merecer 
......................................................................................................... 
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque 
de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas 
............................................................................................................... 
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as 
cobras os ratos as aranhas da contagem somem no chão 
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as 
cabeças da gente da cidade 
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso 
dos escravos e com o suor dos escravos 
E arrancar pedra a pedra porque faltam explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito 
com as nuas mãos de cada um 
Paraque verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que 
ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles” 
Claramente se percebe, na euforia do relato e na intervenção do versiculista, o 
registro da incontida alegria de testemunhar e vazar, poeticamente, no preciso instante 
daquele 25 de abril de 1974, a derrota de uma ditadura que durara quase cinquenta anos. E 
de cujos escombros brotava, rubro cravo, a esperança de reconstrução de uma sociedade 
erguida sob o pedestal do Socialismo. Desse ângulo, é muito provável que a segunda 
epígrafe do livro, colhida em Diderot, tenha sido aposta aquando da publicação do livro, ou 
seja, entre, digamos lá, maio e qualquer outro mês ainda esperançoso (mas anterior ao 
fatídico novembro de 1975): “Mais il semble que ta voix est moins rauque et que tu parles 
plus librement.” Liberto do garrote da censura salazarista, natural que naquele período de 
1975 parecesse ao Sr. Saramago que a voz lhe saísse menos rouca por falar mais 
livremente. 
Ocorre que a rouquidão cavernosa e apocalíptica e profética do texto que vinha 
gestando (o futurante ano de 1993) pareceu ter cura em 25 de abril de 1974. Registrada a 
cura no fragmento 28, como vimos acima, o que fazer? 
Cassandra da escrita alheia, por todos os nomes que tenho (Apolo Constantinos Jr.), 
ouso retroativamente futurar o que pensou o Sr. Saramago naquele crucial 25 de abril de 
1974: 
 Cá estou a escrever um livro futurante, a denunciar, criptográfica e 
surrealistamente, a realidade do Portugal salazarista, quando de repente, contra todas as 
expectativas, irrompem os cravos da Revolução. Que fazer com o rebento? 
Autor que se preze é pai de prole que não lançará à roda dos enjeitados. Tendo já 
escrito àquela altura 28 fragmentos, mais dois, prenhes de esperança na reconstrução futura, 
poriam ponto final à gestação. Foi o que fez nosso Autor. 
No fragmento 29, pletórico de imagens facilmente decodificáveis, inscreve-se a 
renovação da vida ao sopro de “um grande vento” que arrastava os despojos do passado 
“para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror”. Lavada por lustral chuva, 
“a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem 
quando o sol se pôs.” “O dia amanheceu numa terra livre”, onde “os animais pastavam 
erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e 
ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do 
outono”. “Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal”. 
No último fragmento, o trigésimo, presidido pela anáfora “uma vez mais” a martelar 
sete dos dez segmentos, sugere-se o eterno retorno da vida, com sua maré montante e 
jusante de conquistas e fracassos, vitórias e derrotas, ação e fadiga. Apoteótico, não poderia 
faltar a esperançosa metáfora de uma criança, em cujas mãos (proclamam os esquecidos de 
Freud e da filogenia) está o futuro sem a sombra de passado tenebroso: 
“E uma criança objectiva se aproxima e estende as mãos para a sombra que fragilmente retém o 
cotorno ainda mas não já o cheiro do corpo sumido 
 Uma vez mais enfim o mundo o mundo algumas coisas feitas contadas tantas não e sabê-lo 
 Uma vez mais o impossível ficar ou a simples memória de ter sido 
 Consoante se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele 
esfolada”. 
Convenhamos que um sibilino epílogo. Pros raros apenas. 
 
4. Fazendo praça da República 
Já disse algures que, da açoteia onde moro e demoro, tenho privilegiada visão da 
Praça da República. De dia, claro está. À noite (quando, segundo pintam, todos os gatos e 
gatas são pardos), a dita praça é couto defeso. Caro turista, pater familia amigo, nem pense 
em passar por ali, a não ser que esteja o distinto à procura de emoções fortes, nefandas. Foi 
essa praça (quem desconhece?) batizada em homenagem à nossa República, proclamada 
(anotem aí, meninos e meninas) em 15 de novembro de 1889. Feitas as contas, nossa 
República veio à luz vinte anos e nove meses antes do parto da República portuguesa, 
ocorrida em 5 outubro de 1910. Efeméride lusitana que haveria de merecer homenagem, 
tanto que em Lisboa há uma Avenida 5 de Outubro... 
De atalaia na varanda, marulhava eu ao sabor on the rocks desses pensamentos, 
quando, aproveitando-se de minha happy hour, britanicamente iniciada às 17h00, lá me 
surde o bom senso a segredar, dando uma de Tirésias, desejoso de dissipar a cegueira deste 
ensaio: 
 Apolo, a Av. 5 de Outubro, 317-1°, não é o endereço da Editorial Futura? Aquela 
que publicou as primeiras edições de A bagagem do viajante, em 1973, As opiniões que o 
DL teve, em 1974, e O ano de 1993, em 1975? 
Apesar das buzinas que lá embaixo congestionavam o trânsito, ouvi o segredado 
cicio do inconsciente, esse Tirésias travestido de bom senso, e corri a pegar a primeira 
edição de O ano de 1993. Virada a capa, na página seguinte se lia, abaixo do nome do autor 
e do titulo: 
EDITORIAL FUTURA 
CARLOS & REIS, LDA 
 Av. 5 de Outubro, 317 - 1° 
 Lisboa 1975 
Também cifrada, por obra e desgraça dos longos anos de repressão e censura, a 
mensagem ali inscrita sob o codinome de uma Editora? Não me venham debitar aos vapores 
espirituosos de um legítimo scotch o insight da exegese que lhes anuncio como uma boa 
nova. Tenho a sustentar-me a inventiva do Sr. Saramago, capaz de abrir, galhofeiramente, a 
lavra ficcional posterior a 1980 com epígrafes colhidas em livros inexistentes. 
 Como? Nessa pele levantada da inventiva do Sr. Saramago se conclui haver 
debaixo dela a sombra pretérita de Jorge Luís Borges, cujas ficções de sua translúcida 
cegueira ensaiam a aparente lucidez e brilho de ficcionistas futuros? 
Confesso que a insistência desse Tirésias aqui emboscado me embatucou. Mais do 
que a aparição daquela Sra. Dra. Cassandra de Troia aflita em conquistar um espaço que 
(sei-o porque Apolo me chamam) só lhe será concedido como foro para, inclusive, 
desaforos no futuro próximo de capítulos seguintes. Como todo bom político embatucado, é 
hora de tergiversar, mudar o foco, lançar holofotes de proscênio sobre o Sr. Saramago, de 
quem aqui se trata e não de seus inspiradores ou modelares precursores. 
Assim sendo, ao gosto do Autor aqui em pauta  o Sr. José Saramago, lembre-se, e 
não Jorge Luís Borges , imaginemos que toda verdade histórica não passa de ficção. 
Imaginemos que, sita à Av. 5 de Outubro, a dita Editorial Futura, de Carlos & Reis Ltda., 
sob cuja égide se publicou a primeira edição de O ano de 1993, não obstante escriturada a 
verdade comercial ou fiscal de sua existência, imaginemo-la que, sendo Editorial Futura, 
esteja ela a serviço da mensagem inscrita na futurologia de O ano de 1993. Imagine-se, 
como propõe Georges Duby (e em sua esteira o Sr. José Saramago futuro), que, à falta de 
documentos, as lacunas e interstícios desse passado 1975, eu  como dublê do Revisor de 
O cerco de Lisboa  tenha de recriá-los ao sopro e ao fiat lux da subjetividade 
interpretativa e ficcional. 
Assim sendo, mero autor de um livrinho de ficção científica só lido pela família 
(relembre-se: Vista do vermelho Marte, a Terra é um deserto humano), ignorante da 
bibliografia crítica desse período formativo do Sr. Saramago, hei de preencher o passado 
1975, ano em que veio a lume O ano de 1993, lendo a marca 
EDITORIAL FUTURA 
CARLOS & REIS, LDA 
Av. 5 de Outubro, 317 - 1° 
Lisboa 1975 
sob óculos (devo confessar que sou míope) impressionistas. 
Brinquemos com a ideia de que é pertinente e significativo que uma obra de science 
fiction venha a lume sob a égide Futura de uma editora. Crônica poética engajada contra 
um tempo e regime ditatoriais (o Salazarismo em seus estertores marcello-caetanistas) cujo 
cesarismo temsuas raízes na monarquia, seja absolutista ou constitucional,  
naturalíssima, pois não?, a alusão à sociedade limitada (LDA.) de Carlos & Reis. Nesse 
ponto, o inconsciente, esse Tirésias travestido de bom senso, desconfiando de minha 
miopia, assentou no nariz aquilino meus óculos impressionistas e resolveu ser didático: 
a) sociedade limitada, aquela de natureza civil ou mercantil em que o Capital, com 
seu custo e benefício, se divide em partes por alíquotas, às quais se restringe a 
responsabilidade de participação dos sócios, ou seja, do status quo,  leia-se, da sociedade 
nela inserida; 
b) Carlos & Reis sugere a genealogia monárquica de um cesarismo que se vinha 
arrastando e capengando desde a Restauração de 1640. Carlos I (1863-1908), trigésimo 
segundo e penúltimo rei dos Reis de Portugal, foi aclamado em 1889. Morreu assassinado, 
juntamente com o príncipe herdeiro, Luís Filipe, em 1908, num atentado republicano. 
Sucedeu-lhe o infante D. Manuel, o segundo. Perceba lá a ironia do Destino, meu caro 
Apolo Constantinos Jr.: segundo a História, essa sibila enigmática, é sob o cetro desse 
secundário Manuel que, em 5 de outubro de 1910, a pompa e a circunstância monárquicas 
de uma sociedade limitada naufragam no areal de outro Alcácer-Quibir. O que não sabiam 
nem desconfiavam os republicanos vencedores é que esse Alcácer-Quibir do 5 de outubro 
de 1910 não passava de outro deserto de ideias e reformas. 
c) Tão desértico de ideias e reformas básicas foi o Alcácer-Quibir de 5 de outubro de 
1910, que a sociedade limitada do status quo propiciou o golpe do cesarismo militar em 
1928, soleira do cesarismo civil de Salazar a partir de 1932. 
Dada a lição de História, retirou-se o bom senso, esse Tirésias travestido de 
inconsciente, deixando-me às voltas com o endereço (ou a direcção, com se diz em 
Portugal) da Editorial Futura:  Av. 5 de Outubro, 317 - 1° Lisboa. 
O que fazer com essa direcção deixada por Tirésias, esse bom senso travestido de 
inconsciente? 
Brinquemos mais um pouco, leitor paciente, inspirados pela inventividade do Sr. 
Saramago. Percebo que o amigo, embevecido pelas alegorias e metáforas saramaguianas, é 
ávido de mistérios e arcanos. Atentemos, pois, no 317 - 1°. Se somarmos 3 + 1+ 7 e lermos 
aquele – 1 como sinal de diminuição, não é que chegaríamos a 10... Teríamos então uma 
Av. 5 de outubro de 10... 
Bebeu, pontificaria o bom senso (por todos os nomes Tirésias ou inconsciente?), se 
ainda aqui estivesse. 
Alto lá, nem tanto assim, ó Tirésias. Só algumas doses acima da humanidade, como 
receitaram Humphrey Bogart e Vinícius de Moraes. Ademais, se desejam um cânone 
etílico-interpretativo da realidade, brindemos a Baudelaire e Rimbaud que de simbolismos e 
simbologias entendiam, tanto que sugeriam o navegar no bateau ivre dos sentidos 
destrambelhados à busca de correspondências. Convenhamos que o 5 de outubro de 10 
(1910, entenda-se, conforme lá em cima assentou cabalística aritimética) abriu larga via, 
uma maiúscula Avenida, para o cesarismo ditatorial do golpe militar de 1928 e do Estado 
Novo salazarista. 
Mas, larga e maiúscula Avenida, o 5 de outubro republicano abriga também a 
direcção do discurso criptográfico da science fiction de O ano de 1993, do Sr. Saramago. É 
calcorreando essa Av. 5 de outubro que nosso Autor busca onde se perdeu o ideário 
democrático do republicanismo. E é em defesa desse ideário democrárico da República que 
cerra fileira na resistência contra o regime ditatorial do Estado Novo. Não podendo à altura 
em que inicia o texto (16/3/74, ensinou-me a Dra. Cassandra de Troia) extravasar seu 
protesto mais livremente, embuça o braço e punho revolucionários. Para pintar o quadro de 
um país doente e devastado pela peste do cesarismo, serve-lhe, a contragosto, a paleta do 
Surrealismo, empunhada às linhas iniciais do livro numa alusão a Salvador Dali: 
As pessoas estão sentadas numa paisagem de Dali com as sombras muito recortadas por causa de um 
sol que diremos parado 
(...) 
Não importa que Dali tivesse sido tão mau pintor se pintou a imagem necessária para os dias de 1993 
Por que tão mau pintor o Salvador Dali, embora tenha esboçado na memória da 
retina do Sr. Saramago “a imagem necessária para os dias” de O ano de 1993? Talvez 
porque, pondo a seu serviço o Capital, Salvador Dali se tenha distanciado do diletantismo 
marxista nutrido por alguns membros do movimento surrealista. Mas essa consideração 
marginal não importa. O que conta é que a coloração surrealista servia à alegoria 
apocalíptica da science fiction inscrita no livro. Ao contrário do epílogo de O ano de 1993, 
 onde “se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele 
esfolada” , levantada a pele surrealista do quadro saramaguiano, lobrigaríamos, sim, uma 
sombra,  a sombra engelhada do Neorrealismo. 
 
 5. O punho revolucionário do Surrealismo 
Convenhamos que extemporâneo (demodée, disse minha analista, quando lhe 
apresentei o problema estético que me tirava o sono apesar dos soporíferos receitados), sim, 
demodée o engajamento neorrealista naquele 1975. A não ser que o ataviá-lo sob a fantasia 
surrealista tivesse o intuito de inocular-lhe ares de modernidade vanguardista. 
Ao cabo, reciclagem de lições pretéritas, fazendo-as parecer expressão da mais pura 
novidade  decretei, ortodoxo, à minha analista. 
Uma vez mais trocadas as posições do sofá catártico, escapuliu-se ela de sob o peso 
de minha consideração, rumo ao banheiro (à casa de banho, disse ela lusitanamente), 
deixando-me às voltas com aquela história de reciclagem das lições pretéritas de 
Neorrelaismo e Surrealismo tornadas pelo Sr. José Saramago expressão da mais pura 
novidade. 
Uma vez mais só, abandonado por minha analista, entrincheirada na casa de banho, 
(como já o fizera aquele Tirésias, bom senso travestido de inconsciente?, ambos a carregar 
o botão do autoclismo, traduza-se, ambos a puxar a descarga da privada, querendo ver-se 
livre de quê?), uma vez mais só, vejo-me eu a tratar do braço revolucionário do Surrealismo 
a serviço de criptônico Neorrealismo em O ano de 1993. 
Ninguém desconhece que o Surrealismo engajou-se numa dupla revolução, ao lutar 
pela libertação do homem tanto no plano individual como no social. Para libertar o 
inconsciente e a imaginação humanos dos recalques interiores, receitava o divã de Freud. 
Para alforriar o homem da opressão e escravidão externas exercidas pela luta de classes, a 
doutrina marxista oferecia-se como solução, postulava André Breton. Afinal, como realizar 
o sonho acalentado da “grande transformação do mundo”, da “profunda revolução social”, 
se o homem não deixasse de ser escravo de si mesmo e dos outros homens? 
Por esse ângulo, é natural que o engajamento neorrealista do Sr. Saramago possa 
embuçar-se de Surrealismo. Ainda mais considerando que, no contexto português anterior 
ao 25 de abril, a militância política de cunho marxista propiciava certa irmandade entre 
Surrealismo e Neorrealismo ao exprimirem um e outro o engajamento contra a ordem 
social, política e ideológica então entronizada pelo Estado Novo. Servia-lhe, pois, a 
contento o punho revolucionário do Surrealismo,  punho de rendas filigranadas com o 
maravilhoso da science fiction, com a mistura do real e do irreal, do cotidiano e do 
fantástico. 
A estratégia consistiu em desvelar sua contemporaneidade (o contexto português 
estado-novista) à luz de um discurso em que a litania versicular, à São João, soava, na 
science fiction de O ano de 1993, como as trombetas de bíblico apocalipse. Como toda 
ficção futurante (ou será como todo apocalipse bíblico?) que se preze, transpôs para o por 
vir o fruto presente de um passado peco. Ambientou a ação (e sua dialética reação) num 
país em momento nenhum nomeado... 
Aqui entre nós, segredo de polichinelo. Quem, a não ser mais cego que o Tirésias de 
meu inconsciente, nãoreconheceria que se trata do Portugal salazarista? Basta ler, com 
olhos de ver, os fragmentos 4 (a tortura da “estátua”), 5 (a tratar do “lobos”, metáfora 
inscrita no engajamento neorrealista de Aquilino Ribeiro, em Quando os lobos uivam, e de 
Manuel da Fonseca, em Seara de vento, antes intitulada Tempo de lobos), 19 (as simpatias 
nazi-fascistas do Salazarismo, legíveis quando “Determinou o ordenador que todos fossem 
numerados na testa como no braço se fizera cinquenta anos antes em Auschwitz e outros 
lugares”). E já que a “ordenador” nos referimos, quem o Ordenador seria se não o Sr. 
Oliveira Salazar a proclamar em seus discursos “Ordem, ordem!” 
 
6. Divã catártico 
Sem ter trocado a posição no divã catártico, pedi à minha analista que lesse essas 
páginas, que me orientasse nessa exegese de O ano de 1993. 
Você já leu O ano de 1993? Na última sessão eu lhe emprestei o livro e pedi que 
lesse. Você leu? 
Li. 
E daí? Entendeu. 
Mais ou menos. 
Gostou do livro? 
Gostei. 
Por quê? 
Sei lá. Tem assim umas coisas que tocam fundo... A alegoria de um povo oprimido 
que se liberta... que se organiza para pôr fim a qualquer ditadura... 
Leu o ensaio que eu estou a escrever? 
Li. 
Entendeu? 
Assim assim. Você está dando uma no cravo e outra na ferradura. 
Na ferradura de quem? Espera aí. Agora quem não entendeu fui eu. 
Percebo que você não tem dormido. 
Tirésias, o cego a representar o bom senso de meu inconsciente, tem-me ditado esse 
ensaio. 
Os soníferos não têm funcionado? 
Dormir pra quê? 
É durante o sono que o inconsciente se mantém em vigília, a trabalhar. 
Só não a convido para dormir comigo porque seria uma ofensa. 
Ofensa a quê? 
Imagine que, convidada a dormir comigo, você não conseguisse me manter 
acordado a noite toda... 
Vamos ao que interessa. Trouxe-lhe uma preciosidade que vai servir para sua arenga 
com O ano de 1993. Trata-se de uma crítica do Sr. José Saramago ao romance Os mastins, 
de Álvaro Guerra. Crítica saída no número 1462, agosto de 1967, na revista Seara Nova. 
O ano de 1967? Socorro, Mnemósine! Ó memorioso Funes, por que não te ergues da 
paralisia imposta pelas ficções jorge-luis-borgianas em meu auxílio? 
Já não lhe disse que o melodrama faz mal à sua saúde? É açúcar demais para sua 
diabetes... 
 O ano de 1967?... Vou lembrar, vou lembrar... 1967... Um ano depois de ter 
publicado Os poemas possíveis, que são de 1966... Vinte anos depois de A terra do 
pecado... Quer dizer, com só dois livros publicados, bem no comecinho do tal período de 
formação... E daí? Que têm Os mastins do Álvaro Guerra com minha insônia? Já li Os 
mastins. Mas seus latidos nada têm a ver e a soar com o arreganhar de caninos e a baba 
hidrófoba da besta ladradora de meu inconsciente. 
Para você o que interessa nesse momento não é a crítica do romance, mas o que o 
Sr. José Saramago diz acerca do uso da alegoria. Você não anda às voltas e revoltas com a 
alegoria de O ano de 1993? Pois faça bom proveito da fotocópia que lhe trouxe. 
Onde você arrumou isso? 
Tenho minhas fontes bibliográficas. Ao contrário de você que não passa de um 
inconsciente, cego e surdo ao que já foi dito ou escrito. 
Você veio aqui só para me ofender? 
Não. Tanto que lhe trouxe essa fotocópia. 
Se queres a paz, prepara-te para a guerra. Não é assim que se traduz aquele ditado 
latino de Júlio César? Foi em De bello galico? Ah, sei lá... Vamos lá, deixa esse xerox de 
fidedignas fontes bibliográficas aí e façamos as pazes na cama. Quero ver se, apesar dos 
soníferos receitados, você me deixa acordado para os sentidos destrambelhados a noite 
inteira. 
Quer saber de uma coisa, Sr. Apolo Constantinos Jr., vá solenemente à merda com 
suas cantadas e seu umbilical marialvismo! 
Dito isso, com passos marciais de generala, retirou-se de minha sobranceira 
cobertura (sita, como já sabem, na esquina da Praça da República com o Boulevard São 
Luís) a psicóloga e psicoterapeuta Maria de Jesus Caetano Freire. Não tenho culpa de o pai 
dela, um salazarista de quatro costados (lembram-se?), ter-lhe dado o nome da governanta 
de cama, mesa e banho dos intestinos de Portugal no Palácio de São Bento. 
 
7. O xerox da alegoria 
Fico a indagar-me que recepção teria tido O ano de 1993 aos olhos da censura e do 
público, apesar de sua criptografia surrealista. Como o livro saiu em 1975, a censura 
salazar-marcello-caetanista estava já devidamente encarcerada a coçar o saco e a matar o 
tempo, segundo testemunho teatral do Sr. Cardoso Pires em Corpo delito – na sala de 
espelhos. Assim sendo, resta o público leitor. Qual? O Sr. Saramago ainda não tinha 
recebido o Óscar. Portanto, ninguém se veria obrigado a lê-lo para não incorrer na 
suposição de parvo ou iletrado. 
“Poetas por poetas sejam lidos”,  como o exigia, em seu “Arrazoado”, Filinto 
Elísio, por todos os nomes chamado Francisco Manuel do Nascimento no setecentismo 
neoclássico? Engajados por engajados sejam lidos? Curto circuito a promover o fogo-fátuo 
de incêndios revolucionários? 
Ao relatar, nos trinta fragmentos de seu poema em prosa, a história de um povo a 
lutar contra a opressão; ao pincelar, numa tela surrealista, a angústia, o medo e a esperança 
de um povo oprimido que pouco a pouco vence a resignação e organiza a resistência até à 
batalha decisiva que levará ao regresso da vida e da liberdade  convenhamos que a 
ideação de O ano de 1993, (imagem de quantos povos sofreram, e ainda sofrem, a tirania de 
regimes discricionários), ora, como negar que esse quadro nutre a pretensão de assumir ares 
universalizantes ao sopro da alegoria. 
Vislumbra-se aqui o travejamento que fará a fama e fortuna dos romances 
saramaguianos posteriores a 1980. Data a partir da qual sua ficção (tendo por charneira 
Jangada de Pedra, de 1986) assumirá, gradativamente, a feição de Jano, cabeça com duas 
faces, uma voltada para o Passado, outra para o Futuro. 
À face voltada para o Passado corresponderão suas revisões da História: Memorial 
do Convento, 1982; O ano da morte de Ricardo Reis, 1984; A história do cerco de 
Lisboa, 1988; O Evangelho, segundo Jesus Cristo, 1991). Na face voltada para o Futuro, a 
óptica da alegoria:  Ensaio sobre a cegueira, 1995; Todos os nomes, 1997; A caverna, 
2000; O homem duplicado, 2002; Ensaio sobre a lucidez, 2004. 
Saído nesse 2005, a reincidência teatral do Sr. Saramago, nomeada Don Giovanni 
ou o dissoluto absolvido, confirma que a dupla face ostentada por sua obra, dita pós-
moderna, condensa o viés intertextual de sua perspectiva, a dialogar seja com autoral 
Estória seja com autoritária História. Insiste o Sr. Saramago em encarnar o papel do Revisor 
de O cerco de Lisboa, desautorando o Passado, para que nele (o Passado ou Sr. Saramago?) 
releiamos a vida pregressa de modo a não cometermos, no Futuro, os mesmos erros. Aqui a 
lição que nos ensina a História, essa lembrança do esquecimento humano. 
Aliás, em termos de memória ou de criptomnésia, há de revelar-se espantoso seu 
autodidatismo. Vem-me à lembrança Funes, o memorioso, das Ficções de Jorge Luís 
Borges. Alusão ou analogia que logo corrijo, ao lembrar-me que, na elaboração de O ano de 
1993, o Sr. Saramago esqueceu-se do que um dia escreveu acerca da alegoria. No xerox 
deixado por minha psicoterapeuta, por todos os nomes Maria de Jesus Caetano Freire, lê-se 
(número 1462, agosto de 1967, da Seara Nova) o que então ele pensava acerca do recurso à 
alegoria: 
“Proposta para os historiadores da nossa cultura: como, quando e porquê [...] recorreu o artista ou o 
escritor português aos caminhos traversos da alegoria para exprimir a sua posição perante a sociedade em que 
viveu. [...] 
Claramente se vê que o uso de tal processo de expressão pressupõe ao dirigir-se ao leitor ou 
espectador, o conhecimento exterior do código empregado. Doutro modo, a mensagem era indecifrável, sem 
efeitos práticos imediatamente  reduzida, portanto, a mero exercíciode estilo cujas intenções só na mente 
do autor se definem. Este parece-nos ser o mais grave defeito da alegoria, a sua fraqueza orgânica. Daí que as 
obras que segundo as suas regras se estruturam sejam quase sempre circunstanciais, ressalvados aqueles raros 
casos em que a constância das circunstâncias as incorporou no acervo ideológico de gerações.” 
Transformaria o Sr. Saramago essa crítica à alegoria numa autocrítica a O ano de 
1993? 
Não teria ele, como escritor português, também recorrido “aos caminhos traversos 
da alegoria para exprimir a sua posição perante a sociedade em que viveu”? 
O “uso de tal processo de expressão” [a alegoria] em O ano de 1993 não 
pressuporia, “ao dirigir-se ao leitor ou espectador, o conhecimento exterior do código 
empregado”? Poetas por poetas sejam lidos ou engajados por engajados sejam lidos, nova 
versão do odi profanus vulgus? 
Desconhecendo o leitor o sentido criptográfico da alegoria, não seria a mensagem 
indecifrável, “sem efeitos práticos imediatamente  reduzida, portanto, a mero exercício 
de estilo cujas intenções só na mente do autor se definem” ? (Que se tratava de “mero 
exercício de estilo”, não tenho dúvida. Apetecia-me perguntar, em nome da exegese 
acadêmica, que intenções se definiam então na mente do Autor.) 
Obra estruturada segundo as regras da alegoria, não seria O ano de 1993 também 
circunstancial, natimorta à nascença, considerando que, nascida em 16 de março de 1974, já 
não teria mais razão de ser quarenta e quatro dias depois? 
Toda Cassandra tem o Apolo [Constatinos Jr.] e os incrédulos que merece. Assim 
sendo, aventuro-me a vaticinar que no vindouro foro (e desaforo) dos leitores,  Cartas à 
Redação há de chamar-se , alguma leitora, a cavalo do incêndio de Troia, há de contestar-
me. Pura e simplesmente dizendo que O ano de 1993 está ressalvado de todos os defeitos 
da alegoria por ser (e vai recitar a crítica saramaguiana) um daqueles “raros casos em que a 
constância das circunstâncias as incorporou no acervo ideológico de gerações.” Serei eu 
(cito agora o desaforo vindouro da minha leitora trojan horse ), serei eu “tão ignorante que 
não percebo que ainda hoje, em pleno século XXI, está inscrita n’ O ano de 1993 a imagem 
de quantos povos sofreram e sofrem, aqui e alhures, a tirania do neoliberalismo, esse punho 
rendado do selvagem Capitalismo?!” Praza aos céus que escapei do cajado e estaca  ?! 
 dos sinais de sua indignação. 
Ó deuses, onde o sonífero receitado por minha psicoterapeuta, a generala Maria de 
Jesus Caetano Freire? Ah, na gaveta da piniqueira, meu criado mudo, ao contrário dela. Ei-
lo aqui, revestido em sua brancura de antisséptico silêncio. Quem sabe, misturado com três 
doses de uísque acima da Humanidade, esse Morfeu encapsulado há de livrar-me do 
pesadelo apocalíptico de O ano de 1993. 
[SP, jan.-set./2005] 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cartas à Redação: foro e desaforo do leitor 
 
“Quem dá com a língua nos dentes, às vezes está à procura do siso.” 
(Incunábulo dos Apólogos) 
 
Têm chegado a esta redação cartas de leitores. Como esta redação quer-se um fórum 
democrático e polifônico, interessado, pois, em diversos e contrastantes pontos-de-vista, 
tornemo-la uma ágora passada, fazendo praça de que o espaço aqui aberto serve para 
manifestações e debate públicos, sempre saudáveis à liberdade de credos, sejam políticos, 
religiosos ou literários. 
Asim, com o intuito de acolher a opinião dos leitores, o diretor desta redação houve 
por bem chamar uma plenária com as bases operário-tipográficas, a fim de estabelecer 
critérios para, recebidas as missivas, divulgá-las. Depois de prolongada e rebarbativa 
discussão, tendo abandonado o plenário quase todo mundo, vá lá saber-lhes a razão, quase 
ninguém, ou seja, meia dúzia de gatos pingados, soberana vontade da classe e cidadão 
ausentes, votou e decidiu que: 
a) as cartas devem ser encaminhadas com assinatura e identificação. (Entenda-se por 
identificação: árvore genealógica, mapa astral, endereço com xerox comprovante de 
residência, e-mail e telefone do remetente. Correspondência sem identificação completa 
será desconsiderada. Garante-se sigilo absoluto. Nenhum risco, pois, de vazamento seja 
para repórteres investigativos seja para malas-diretas.); 
b) esta redação se reserva o direito de selecioná-las, além de resumi-las e copidescá-
las, para publicação. Tudo isso posto e disposto, democraticamente, com o único fito de 
zelar pela fiel observância dos princípios da ética. 
Ensaio também sobre a cegueira e sobre a lucidez, interessa a esta redação o que 
miopias impressionistas, hipermetropias acadêmicas, cataratas e olhos de lince podem 
enxergar no que leem. 
“Se sabes ler, começa por soletrar as entrelinhas.”  é a divisa desta redação, 
grafada em letra gótica, a subscrever, em caprichoso formato de lua-nova, seu emblema: 
uma luneta, a de Galileu  lembrança de que a hipertrofia da visão, diziam já os Barrocos, 
pode ajudar-nos a enxergar além das aparências assentes e aceitas por qualquer dogma dito 
indiscutível, seja religioso, político ou literário. “Pues ese cielo azul que todos vemos/ ni es 
cielo ni es azul. Lastima grande/ que no sea verdad tanta belleza.” São versos de um poeta 
espanhol, Lupércio Leonardo de Argensola (1559-1613), a falar da maquilagem ostentada 
pela “realidade” com o intuito de embair-nos os sentidos. 
Considera, pois, leitor(a), que a evidência de qualquer miopia, hipermetropia ou 
cegueira será sempre um ensaio sobre a lucidez. 
A Redação. 
 
Entulho do autoritarismo 
Quero registrar meu veemente protesto contra as normas que regulam a participação 
do leitor no fórum de debates instituído por essa Redação. As exigências feitas para a 
identificação do missivista são simplesmente absurdas. Não passam de piada sem a menor 
graça. Elas mais parecem aquelas requeridas por cadastros bancários para a abertura de 
simples e reles conta-corrente. Ademais, reservar-se a Redação o direito de selecionar, 
resumir e copidescar as cartas é a mais clara manifestação do entulho, para não dizer lixo, 
autoritário que ainda nos soterra. Deusdédit Protestante da Silva, Monte Santo de Minas 
(MG). 
 
Coisa de doido 
Ora, façam-me o favor. Só mesmo saída da cabeça de um maluco que mistura 
uísque com antidepressivo aquela interpretação dada para a Editorial Futura, Carlos & Reis 
Ltda., sita à Av. 5 de Outubro, 317 - 1°, que publicou O ano de 1993. Norberto Rosas, 
Franco da Rocha (SP). 
 
Maluco beleza 
Discordo do leitor Norberto Rosas (Coisa de doido). Pode ser coisa de maluco toda 
aquela interpretação sobre a Editorial Futura, mas foi uma beleza. Acaso o citado leitor 
desconhece ensinamento do poeta francês Rimbaud, o de que só navegando no bateau ivre 
dos sentidos destrambelhados temos as verdadeiras iluminações? Ah, caso o Sr. Norberto 
Rosas não saiba, bateau ivre (barco bêbado) é um poema do Rimbaud, autor também de uns 
poemas em prosa intitulados Illuminations. Sereno Ribas, Atibaia (SP). 
 
Confissões 
Eu sou aluna de um curso de Letras. Eu sou fã incondicional de Fernando Pessoa e 
José Saramago. Eu adoro o Álvaro de Campos que meu Professor diz ser Fernando Pessoa. 
Eu confesso que não entendo muito bem essa coisa de Álvaro de Campos ser Fernando 
Pessoa. Mas o que eu quero dizer mesmo é que fiquei fã incondicional do José Saramago 
porque o meu Professor defendeu uma de tese de mestrado falando sobre O Memorial do 
Convento. Quando ele dá aula sobre a literatura em Portugal [,] ele pede que a gente leia O 
memorial do convento. Eu li e adorei. Verdade que não tinha entendido quase nada. Além 
de ser escrito de um modo muito complicado, fazendo com que a gente tenha de prestar 
muita atenção para entender o que está sendo dito, o livro falava de uns tempos passados. A 
construção do Convento de Mafra no século XVIII, disse o meu Professor.Tão novinha, só 
tenho vinte e dois anos, como eu posso saber do que aconteceu bem lá longe no tempo. O 
meu Professor que tem uns olhos lindos, azuis de boneca, disse que [,] assim como ele [,] a 
gente também deveria ler outros livros do José Saramago. Então ele indicou A terra do 
pecado. Quando eu cheguei em casa com o livro, minha mãe viu o título e de jeito nenhum 
queria me deixar ler, pensando que se tratava de imoralidades. Muito religiosa, ela quer me 
manter sã e salva dos pecados que, segundo ela, já são muitos nesta nossa terra. Foi aí que 
eu dei para ela ler o trabalho que o Sr. Manuel Pelourinho escreveu sobre o livro. Quando 
ela viu que se tratava de uma história de amor muito triste, no final minha mãe também leu 
A terra do pecado e [,] assim como eu [,] ela chorou muito. Nós duas estávamos torcendo 
para que a Viúva se casasse com o Doutor. Tenho certeza que ambos iam ser muito felizes. 
O amor [,] quando é forte e verdadeiro [,] tudo vence, até mesmo os preconceitos sociais. 
Mas eu só escrevi isso para parabenizar a iniciativa de divulgar os livros pouco conhecidos 
do Sr. José Saramago. Agora mesmo estou de saída para procurar O ano de 1993. 
Annacélia Jimenez, Botucatu (SP). 
 
Cus de judas 
Moro onde Judas perdeu as botas e as cuecas. Sendo assim, pode parecer absurdo 
mas é natural que só agora, passado mais de um ano, pude ver, emprestado por meu 
cunhado, esse folhetim de nome Exercícios de caligrafia literária: Saramago quase. Ah, 
meu cunhado, é professor de História. Ele diz que é professor de Estórias. Deve ter suas 
razões para dizer isso assim, porque é um sujeito muito lido. Mas vamos aos finalmentes, 
como diria o Odorico Paraguaçu do Dias Gomes. Ao ler o folhetim Exercícios de caligrafia 
literária: Saramago quase, que muito me agradou, dei de cara com a coragem da 
manifestação do Sr. Deusdédit Protestante da Silva. Subscrevo ela [sic] inteiramente. De 
fato, é manifestação do entulho autoritário as exigências dessa Redação. Assim como foi 
expressão do lixo autoritário (reciclado, disse meu cunhado) toda essa história que andou 
correndo por aí de se criar um Conselho Federal de Jornalismo (CFJ) afim [sic] de 
“orientar, disciplinar e fiscalizar” a liberdade de informação, opinião e crítica. Será que 
alguém não percebeu que a criação do tal Conselho Federal de Jornalismo, posto no lixo 
graças a Deus, tinha uma única intenção (meu cunhado disse para pôr aqui dois pontos, 
então eu ponho): tentativa de amordaçar a Imprensa. Sabendo que a mentira tem pernas 
curtas e que a verdade chega sempre na frente, não é que os danados planejavam com o tal 
CFJ calar essas denúncias que [sic] saiu em tudo que é jornal sobre cuecas cheias de dólares 
e mensalões e mensalinhos ou caixa dois. Minha bota está sem sola, minhas cuecas (só 
tenho três) estão esgarçadas de tanto serem lavadas e secadas, mas, mesmo morando nos 
cus de Judas, ainda não perdi rumo nem aprumo. Apesar de atrasado, eu tinha que escrever 
isso para desabafar toda minha indignação. Mas antes tarde do que nunca. Tadeu 
Figueiras, Jeremoabo (BH). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
III. Manual de pintura e caligrafia (1977) 
 
 
F. Khom 
(Microempresário e latinista. Especializado em fotocópias e caligrafia, é autor de Instantâneos da 
alma em fotos, pinturas e caligrafias.) 
 
 
“Capricha no exercício de caligrafia. Terás a letra tão legível quanto a que te serve de modelo.” 
(Num Manual de Caligrafia, autoria anônima) 
 
 
1. De fotocópias e xerocópias 
Ut pictura poesis (ou, ressuscitando a morta língua: “Como a pintura, é a poesia”), 
isso, ipsis litteris, disse Horácio (Quintus Horatius Flaccus), há uma data de séculos atrás. 
Nascido na Apúlia, mais precisamente Venúsia, em 65 a.C., deve tê-lo dito (mais preciso é 
dizer deve tê-lo escrito), por volta de 10 a.C., em sua Epistola ad Pisones.12 Dedicada a 
Lúcio Pisão e a seus filhos, a referida carta expõe as ideias que Horácio tinha acerca da 
poesia, da criação literária e da formação do bom poeta. A páginas tantas, verso 361, 
aparece a dita frase Ut pictura poesis, a cunhar o símile que se tornará moeda corrente no 
(como se dizia antigamente) comércio artístico e crítico das Musas. Como se vê, bem antes 
de Colombo, Horácio tinha descoberto a América e posto o ovo de pé (quem de pé? o ovo? 
Horácio?) 
Perdoe o leitor minha hesitação ao escrever. Não domino a técnica (ars, traduzem os 
manuais clássicos de retórica) da caligrafia literária. Sou artifex (nome que os manuais 
clássicos de retórica dão aos artesãos) de outra arte. Temo pôr aqui o termo arte para o que 
faço. Será mesmo arte (no bom sentido) o que faço? Sou retratista. É, retratista. Tal qual o 
H., narrador de um “autobiográfico” romance do Sr. José Saramago, intitulado Manual de 
 
12. Verdade que nada de novo sob o sol. Plutarco atribui a Simônides (556-486 a.C.), uma data de séculos 
antes de Horácio, o adágio “a pintura é uma poesia muda; a poesia, uma pintura que fala.” 
pintura e caligrafia.13 
Nada de causar espanto a afirmação acima e a nota de rodapé, atento leitor. 
É natural, e data de séculos, dos arcanos ficcionais ou poéticos ou pictóricos, que 
romancistas e poetas e pintores, seja sob o disfarce de nomes outros ou elusivas iniciais, 
seja sob o retrato de outrem, se autobiografem ou se autorretratem. Nenhuma novidade dirá, 
pois, H., ao registrar, na página 79, “Quem retrata, a si mesmo se retrata.”, nem ao 
retoricamente indagar “Mas, quem escreve? Também a si escreverá?” A resposta é sabida 
há séculos. Afinal, todo texto ficcional, em prosa ou verso, é autorretrato da alma, do 
inconsciente de quem o escreve  negativo por revelar. Portanto, nada de buscar na vida 
civil traços fisionômicos ou semelhanças de um cotidiano tributável. De outra natureza a 
“autobiografia” a que se refere o Sr. José Saramago. A ela chegaremos, no momento azado. 
Há que respeitar cuidadosa andadura, que no andor o santo é de barro. 
Escrevi, antes da (ociosa? desnecessária?) digressão crítico-literária no parágrafo 
acima, que sou retratista. Tal qual o H., narrador de Manual de pintura e caligrafia, 
romance que o Sr. José Saramago considera, repito, talvez seu livro “mais autobiográfico”. 
Sou retratista, sem contudo ser pintor de retratos de membros da alta burguesia 
salazarista. Primeiro, porque estamos no Brasil. Somos nativistas desde meados do século 
XVI e não iríamos, por orgulho patriótico, deixar implantar aqui o fascismo salazarista. O 
fascismo, sim, por aqui andou, mas verde(-oliva)-amarelo, em patrióticas cores, que 
entreguistas não somos. Segundo, porque sou retratista de outras artes e manhas. Faço... 
Rigorosamente, seria tiro... Mas, se ponho “tiro” aqui neste papel, corto o efeito da frase... 
Vá lá então... Faço retratos 2x2, 3x4, 5x7. A dimensão depende da importância do 
documento. Ao cabo, figuro identidades. Simulacro fotóptico, a realidade do ser está na 
cara? A diferença é que H., o retratista de Manual de pintura e caligrafia, se serve de 
pincel, tintas, tela, para flagrar, retratar o modelo. Outra técnica (ars de kodaks e nikkons?) 
me serve, a de lentes, filtros, angulações. Não sou nenhum Sebastião Salgado, mas, cum 
grano salis, dou para o gasto. 
Em homenagem a Todos os nomes que temos, em homenagem ao pintor de retratos 
 
13. “O Manual de Pintura e Caligrafia provavelmente é um livro de aprendizagem; mas é também (e já o 
disse várias vezes) talvez o meu livro mais autobiográfico.” Carlos Reis, Diálogos com José Saramago, 
Lisboa: Caminho, p. 39. 
H., retenha-se que F. é o meu nome  o nome que tenho, não o que me deram. Meu pai foi 
lambe-lambe na Praça da República. Nos idos tempos em que, com roupa de domingo, as 
pessoas eternizavam o sorriso do passeio ensolarado antes da matinée nos cinemas da Av. 
Ipiranga. Se quemsai aos seus não degenera, herdei-lhe a profissão. De fé nos retratos, com 
ou sem retoque. E mais, força-me o orgulho profissional a dizer, progredi. Registre-se, 
nestas páginas que me ponho a escrever em gótica caligrafia, que sou proprietário da 
Fot’Óptica F. Khom.. Ofereço, portanto, a clientes e fregueses, também óculos, lentes, além 
de xerocópias, fotocópias, com ou sem reconhecimento de firmas. Mas meu ofício mesmo é 
retratar quem se põe diante de minhas lentes. As da câmera? As dos óculos? Óptica crítica 
esta minha Fot’Óptica F. Khom.? (Diga-se, de passagem, aproveitando o ensejo, meus 
problemas de visão corrijo-os com multifocais. Segundo popular adágio, em terra de cegos 
quem tem olhos mesmo míopes é rei. Errei?) 
A que vem tudo isso? Esta barafunda que começa a tratar de ut pictura poesis via 
Horatius Quintus Flaccus, passa, em subalterno rodapé, por um tal Simônides e desemboca 
num F., eu, este criado ao dispor de V. Exas., a falar da própria vida como se ela tivesse a 
importância clássica dum docere cum delectare, dando ganas no leitor de fazer a pergunta 
que Adelina calou, em Manual de pintura e caligrafia, quando o retratista H. lhe 
apresentou como “autobiografia” uma narrativa de viagem, a que fizera por plagas italianas, 
“Que pode haver na tua vida que valha o trabalho de contar?” (p. 115), ao que eu poderia 
responder, assumindo ares filosoficamente existencialistas, como fez H., “Creio que a nossa 
biografia está em tudo o que fazemos e dizemos, em todos os gestos, na maneira como nos 
sentamos, como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objeto do 
chão.” (p. 115), citando o Sr. José Saramago e, por trás dele, Sartre e, por trás de Sartre, 
Heidegger, esconde-esconde de fontes que, tácitas, nos nimbam a fronte com halo de 
originalidade, mas basta raspar o palimpsesto para irmos descobrindo caligrafias de 
outrem... 
“Por isso mesmo, meu caro Sr. F., ora faça-me o favor, a que vem toda esta 
digressão sem pés nem cabeça?” 
Faça-me o favor o Senhor. Digressão sem pés nem cabeça é alegoria mostrenga: 
basta visualizá-la na tela da retina, imaginar no afresco da mente  ut pictura poesis?, 
tronco-e-membros destituídos do que nos guia e conduz, os amputados pés e cabeça. Esta 
digressão aqui, caro leitor, lamento discordar, mas esta digressão tem pernas e não anda 
decapitada. Se, como pontifica o Sr. José Saramago, retratado no H. de seu Manual de 
pintura e caligrafia, toda narratio, seja ela qual for, é autobiografia, justifica-se que “eu-
aquele” (eu cá fora, a me pensar; aquele-lá, no texto que em letra gótica escrevo) me 
autorretrate para apresentar-me ao distinto leitor. E  ensaio de aprendizagem, à imagem e 
semelhança intertextual do “livro de aprendizagem” (favor, rever nota 13) que é o Manual 
de pintura e caligrafia  reconhecer-me, ao cabo tormentório da travessia, respondendo 
também a mesma pergunta que se fez H., na página 31: “Quem sou eu-aquele?” 
 
2. “Quem sou eu-aquele?” 
H. disse, à página 16 de seu (?) Manual de pintura e caligrafia, “Observo-me a 
escrever como nunca me observei a pintar.” Disfarçada versão do pessoano “quem em mim 
sente está pensando”, também eu, à imagem e semelhança de H. (mise en abîme cópia da 
cópia da cópia...), observo-me, agora a escrever nesta gótica caligrafia, como nunca me 
observei a fotografar quem quer que fosse. Não sei ainda por quê. Mas, quando H. apareceu 
na Fot’Óptica F. Khom., resolvi observá-lo  e observar-me a fotografar-lhe não a cara 
mas a alma, desconfiando que, na câmara escura, sob a película da persona que todos 
somos, outro ser haveria de revelar-se, ao revelá-lo. Precisava ele de fotos para segunda via 
da carteira de identidade, a original lhe fora furtada, e obscuramente me falava da 
necessidade também de uma fotocópia autenticada da declaração que certificava a 
incertidão de seu nascimento. Pois não é que descobrira, por obra e graça da pesquisa 
realizada pelo Sr. José-e-só (assim sem mais todos os nomes de um sobrenome), obscuro 
mas eficiente amanuense da Conservatória do Registro Civil, pois não é que o Sr. José-só, 
fio de Ariadne atado ao tornozelo, lhe desencavou dos kafkianos labirintos da 
Conservatória do Registro Civil uma certidão de nascimento que registrava uma data de 
nascimento, o seu, que não batia com a verdadeira data de seu nascimento. Tinha, portanto, 
ele duas datas de nascimento, uma real, outra fictícia. Só agora, sob os filtros e lentes desta 
minha caligrafia, currente calamo, recupero o tempo perdido naquela conversa jogada fora. 
Realmente, H. tinha duas datas de nascimento. Como personagem de 
“autobiográfico” romance, H., retratista de paleta, pincel e tela, era autorretrato do Sr. José 
Saramago, entidade civil nascida duas vezes 14. Numa data real, em outubro de 1922. Numa 
data, não fictícia, mas ficcional, em 1977: fruto temporão de romanesca árvore genealógica, 
a querer trazer, na boca de um ramalhoso discurso oral e neobarroco, o evangelho,  
entenda-se, etimologicamente, a boa nova, a novidade  da ficção. 
“Alto lá, Sr. escriba fotógrafo ou fotógrafo escriba! Como é possível H. aparecer-lhe 
na Foto’Óptica F. Khom., sita na desvairada pauliceia, quando português é ele, demorando 
ou assistindo, pois, noutra e distante plaga?” 
Simples. Então o caro e atento leitor não sabe que há uma data de séculos a 
realidade da ficção é a ficção da realidade? Pois H., retrato ficcional do Sr. José Saramago, 
redescobriu esse truísmo e pintou-o com feições e cores do mais puro ineditismo, ao longo 
das páginas 93-97 de seu Manual caligráfico-pictórico ou pictórico-caligráfico, enquanto 
copiava trechos de Defoe, Rousseau, Marguerite Yourcenar, à busca de “definir e marcar o 
grau de falsidade na verdade e de verdade na falsidade”, a consabida ambiguidade inata da 
ficção, “inclinado a afirmar que toda verdade é ficção”. Só que, armado nosso míope olhar 
com recursos da fotografia, como o emprego de raios infravermelhos, raios ultravioletas ou 
luz fosforecente, assim extraída a catarata de nosso olhar, leríamos, sob a literária pintura 
de H., palimpséstico retrato das Ficções jorge-luis-borgianas. 
Diz-me H. que andou pela Itália, a calcorrear ruas, museus, capelas. Viagem de 
estudo. Estudo de sua arte e de si mesmo, descobrindo-se nas imagens e matizes dos 
grandes pintores, sobretudo renascentistas e pré-renascentistas. Uma excursão que é, no 
fundo, uma incursão em si mesmo. Tanto que está a ensaiar sua “autobiografia em forma de 
narrativa de viagem”. Talvez esteja a querer impressionar-me. Marcar a distância que 
separa um retratista-pintor, artesão manual, de um lambe-lambe cuja arte da imagem e 
semelhança decorre não da habilidade artístico-mimética mas do vicário engenho de uma 
máquina que, ao cabo, tudo faz, substituindo e compensando minha (nossa?) ausência de 
talento visual e artesanal. 
 
14. “Quem retrata a si mesmo se retrata. Por isso, o importante não é o modelo mas o pintor, e o retrato só 
vale o que o pintor valer, nem um átomo mais. O Dr. Gachet que Van Gogh pintou, é Van Gogh, não é 
Gachet, e os mil trajos (veludos, plumas colares de ouro) com que Rembrandt se retratou, são meros 
expedientes para parecer que pintava outra gente ao pintar uma diferente aparência.” Manual de pintura e 
caligrafia, p. 79. 
Faça-me o favor, Sr. H., penso, enquanto lhe levanto o queixo, tempo exato de 
examinar-lhe as feições e ver se nelas descubro sob a pele-pergaminho as feições do Sr. 
José Saramago, cujas e que de retratos conheço. Não vá ele pensar que só a retratista da alta 
burguesia salazarista são permitidas vacances culturais. Também tenho minhas incursões e 
excursões culturais por museus e capelas. (Quem sabe um dia também venha a escrevê-las 
como existencialista e psicanalítico exercício de “autobiografia em forma de narrativa de 
viagem”.) Pois saibacá, continuo mentalmente a dizer-lhe enquanto lhe movo o rosto um 
pouco para a esquerda, saiba que, esta minha pessoa andou a calcorrear Barcelona  este 
(fui-o outrora agora) museu a céu aberto, com Gaudi e sua Sagrada Família: o mecena 
Güell de um Parque e Palácio, e Batló e Pedrera e Casa Vicens e companhia bela. E quem 
vai a Barcelona não pode deixar de ir a Figueres e visitar, no Carrer de Sant Pere, este ( fui-
o de novo outrora agora) Teatre Museu de Salvador Dali, onde revejo “A imagem 
desaparece” (de 1938) e “Gala desnuda mirando o mar que, a uma distância de 20 metros, 
se transforma no retrato de Abraão Lincoln” (de 1976). 
Segurando-lhe o queixo com a ponta dos dedos, movo-lhe agora a cabeça um 
poucochinho para a direita, talvez a buscar-lhe na face, de perfil, uma pinta, um sinal 
característico, pertencente ao Sr. José Saramago. Acaso o Sr. H., ilustre retratista, autor do 
autorretrato do Sr. José Saramago (não nos esqueçamos de que o retrato do Sr. Gachet 
autorretrato é de Van Gogh), desconheceria ele, o Sr. H., tais exemplos de palimpséstico 
retrato? Se desconhece, não conhece, então, na Plaça Reial, o prazer do arroz negro, a 
derreter no céu da boca o sabor dos frutos do Mar Mediterrâneo. 
Vamos lá a ver se, realmente, ut pictura descriptio. Afasto-me do Sr. H. e ponho-me 
a contemplar seu rosto a certa distância, como se fosse um autorretrato impressionista cujas 
feições nítidas, as do Sr. José Saramago?, se escondessem sob a massa e o borrão míopes 
do pontilhado. Ponho-me a certa distância do Sr. H. e, ao contemplá-lo, lembra-me estar a 
contemplar, no Teatre Museu de Salvador Dali, “A imagem desaparece”. Tela em que, 
contemplada também a certa distância, cremos enxergar o perfil de um rosto masculino com 
longos cabelos negros escorridos, cavanhaque, feição que me lembra Búfalo Bill. Contudo, 
à medida que nos aproximamos (por isso volto neste exato momento a aproximar-me do Sr. 
H.), a figura desaparece e outra surge. Ledo e cego engano meu pensar que, ao aproximar-
me correndo do Sr. H., haveria de surdir, delineada de sua imagem e feição, o Sr. José 
Saramago. Tem olhos e boca o Sr. H., (não se trata, afinal, de figura mostrenga), mas não 
tem bigode nem cavanhaque, masculinos adereços, fundamentais e distintivos, no retrato da 
“A imagem desaparece” de Salvador Dali e do Sr. José Saramago,  frase ambígua apenas 
por faltar uma vírgula, de cuja ausência só agora me dou conta. 
Em “A imagem desaparece” (leia-se agora aqui com vírgula) de Salvador Dali, de 
seus olhos, boca, bigode e cavanhaque (quanta ambiguidade num autorretrato pintado por 
outrem!), delineia-se outra figura  a de uma mulher, lendo uma carta, à luz de uma janela 
cuja cortina corrida é formada exatamente pelo longo e negro cabelo que, da ampla testa, 
escorre pela face esquerda do que parecera ser o perfil de Búfalo Bill. Duas imagens, 
sobrepostas, uma a engolfar a outra  talvez como quisera o Sr. José Saramago ao 
autorretrtar-se pela pena e pincel do Sr. H., que me olha um tanto enfadado, sem entender 
por que eu, um mero lambe-lambe não obstante o pomposo nome Foto’Óptica F. Khom., 
não comprimo logo o botão dessa maquineta, posta sobre um tripé encapuzado numa 
sotaina marrom-franciscana. 
Ora lá, pois, pronto, pensará ele lusitanamente, custa lá tanto assim sacar-me uma 
foto que documente, ut pictura poesis, nos balcões burocráticos, minha imagem à imagem e 
semelhança, literariamente autobiográfica à Pessoa, do compadre de meu nascimento, o Zé 
Saramago? 
Mal sabe o Sr. H. (heterônimo-fernando-pessoano-auto-retrato do Sr. José 
Saramago?) que, minha imagem sumida sob o franciscano manto, está a enquadrar-lhe o 
rosto desaparecido, já não sei se ortônimo ou heterônimo o rosto de que pessoa. Mal sabe o 
Sr. H. (segredo-lhe aqui a velha novidade do Evangelho segundo quem quer que seja) que, 
outra Verônica, de minha encapuzada sotaina-fraciscana, vejo-lhe, de ponta-cabeça, a testa 
e face porejarem suor de sangue, gotas de DNA que vou colher nesta toalhinha que sempre 
uso para não deixar brilhante reflexo na imagem de quem quer que eu venha a plasmar na 
foto. Enxugo-lhe, cuidadosamente, a face  para que permaneçam impressos na toalhinha 
os seus traços fisionômicos: do Sr. José Saramago no retrato que tiro de H., já que de uma 
autobiografia se trata esse Manual de pintura e caligrafia? 
Só sei que, sob o retrato do perfil masculino de “A imagem desaparece” de Salvador 
Dali (falhou-me outra vez a vírgula!), vai-se lobrigando uma mulher também vista de perfil: 
a cabeça, com um coque, formada pelo olho direito do homem; a curva do ombro, a 
espádua, o braço esquerdo estendido para frente como quem segura algo, tudo surdindo da 
curva adunca do nariz do homem, cuja grossa asa ainda lhe delineia um volumoso seio 
esquerdo; as mãos da mulher, nítidas, de longos dedos a segurar uma carta, nada mais são 
que o longo bigode do homem, de ponta levemente arqueada para cima; os longos fios do 
cavanhaque tecem-lhe uma saia que, descendo da cintura até a metade da coxa (o restante 
amputado pela moldura), lhe envelopam o ventre proeminente, abaulado, a sugerir uma 
gravidez. Imersa no perfil do homem (o pai de sua prenhez?), ei-la a rever-lhe mentalmente 
a imagem saudosa que se desprende da carta. 
Mas o tompe l´ oeil está a dizer-nos também outra imagem de macho e fêmea os 
criou, segundo a paixão da ausência presente na saudade. Atentando para o perfil pensativo 
do homem, nota-se que é do seu um tanto cabisbaixo olhar esquerdo, a um tempo ausente e 
fixo na distância, que começa a delinear-se a figura da mulher: primeiro sua cabeça (dela), 
pendida para a carta que lê, confunde-se ao globo ocular de (insisto em chamá-lo de) Búfalo 
Bill como imagem coagulada  ei-lo a rever-lhe a apagada nuca, o occipício, a testa larga 
que avança (parece que raspada) até quase o meio da caixa occipital; depois, seu (dela) 
tronco e membro superior desenhados pelo adunco nariz dele, a sugar aroma que se 
desprende do colo e do seio túrgido; já a boca do amado, fechada de modo a que se 
vislumbrem os lábios superior e inferior, tece tácito discurso: o bigode, marta de pincel, 
percorre-lhe o braço numa longa carícia que chega aos dedos longos da amada, talvez uma 
tocadora de seiscentista virginal; o lábio inferior do amado contorna-lhe a cintura, 
delineando-a, abraçando a linha do ventre grávido e dos quadris um tanto chatos, 
pundonorosamente a vesti-los com a saia (de palha?) do cavanhaque louro-esfiapado. 
Côncavo e convexo, yng e yang, macho e fêmea, amador(a) e coisa amada desentranham-se 
da ausência, como lembrança e saudade. 
Sendo pintor, natural que o Sr. H. saiba que a tela de Dali dialoga com a “Mulher de 
azul lendo uma carta”, de Vermeer, modelo cuja autoria não me deixa enganar a presença 
do mapa na parede, do assoalho em quadriculado jogo-de-damas. Aliás, de damas entregues 
ao jogo amoroso de cartas bem que entendia Vermmer. Que me confirmem “A Carta de 
Amor”, a “Rapariga lendo uma carta à janela”. Não me esqueça aquela “Senhora 
escrevendo uma carta”, claro que suspeita ou Vermeer não a poria escrevendo à luz de um 
vitral onde se estampa a figura da Temperança, cujos esquadro e freio à mão simbolizam, 
um, a retidão, outro, óbvio, o travão às intemperanças seja de cama ou mesa. Não bastasse 
tanta lição de moral, essa Senhora correspondente ainda tem às suas costas um quadro que 
retrata a descoberta de Moisés, salvo das águas, quando criança, símbolo corrente no 
Seiscentos dos casos amorosos secretos cujo resultado caía na roda dos enjeitados. 
Correspondência, diga-se, a que não faltava a cumplicidade alcoviteira do leva e traz, como 
é dado ver em “A Senhora e a Criada” ou em a “Senhora escrevendo uma carta e a Sua 
Criada”. 
Já aquele outro quadro de Salvador Dali que me veio à memória ─ “Gala desnuda 
mirando o mar que, a uma distância de 20 metros, se transformano retrato de Abraão 
Lincoln” ─, ocioso é descrever o que o título desnuda em termos de imagem palimpséstica. 
Abrãao Lincoln não poderia imaginar tamanha homenagem. Qual Vênus de Botticelli, ter 
seu rosto surdindo do mar e da alvinitente concha da nudez de Gala. 
Tudo isso mentalmente escre(re)via, enquanto, apontando-lhe a armada Nikon posta 
no tripé, focava o rosto de H. sentado num banquinho (o rosto de H. sentado num 
banquinho e de ponta-cabeça faz juz ao surrrealismo de Dali), e lhe dizia cheese, incentivo 
para aquele sorriso alvar que fica bem em qualquer documento. 
Sorria. Você está sendo filmado  dizia-lhe também, solidária, minha câmera de 
segurança. 
 
3. Revelação em uma hora 
É a promessa que se estampa, em letras coloridas e garrafais, na vitrine da 
Fot’Óptica F. Khom., chamariz para quem tem pressa de eternidade. No comércio e na 
prestação de serviços, promessa, assim como duplicata, é dívida. Dentro de uma hora, H. 
tornará para buscar suas fotos. Ficará satisfeito ao rever-se à sua imagem e semelhança, 
enquadrado nos espelhos 3x4 e 5x7. Só eu não ficarei satisfeito. A máquina reveladora está 
a cuspir tiras com o rosto de H., mas ela não foi em uma hora, nem hora nenhuma, capaz de 
revelar, surdindo das feições do fotografado, a imagem e retrato do Sr. José Saramago. 
Decididamente esta máquina cuspidora de simulacros não tem o engenho pictórico de 
Salvador Dali, este prestidigitador cujo talento mimético, habilidoso em desentranhar uma 
imagem de outra imagem, foi também capaz de fazer surdir Flaubert, escondido no 
palimpsesto da sonorosa blague le Surréalisme c’est Moi! 
 
4. Flaubert ce n’est pas moi 
Flaubert proclamou, quem não sabe?, “Bovary c’est moi”. Dalton Trevisan registrou 
em letras garrafais de título, quem o sabe?, Capitu sou eu. O Sr. H. não o disse, mas 
tacitamente em Manual de pintura e caligrafia, autobiográfico romance do Sr. José 
Saramago, lê-se “Saramago sou eu”. Pena que nesse mise en abîme intertextual não possa 
eu dizer Flaubert c’est moi. Não porque tal frase pudesse soar presunção de minha parte. 
Trata-se simplesmente de consciência de minha imperícia no trato e uso dos pincéis deste 
teclado de computador. 
Sete dias levei, os da bíblica criação, tentando, ut pictura descriptio, debuxar, 
delinear, traçar, desenhar, pintar, reproduzir, como se leu (visualizou?) linhas atrás, um 
quadro, de Salvador Dali, na presunção de que “A imagem desaparece”, como autorretrato-
a-meio-corpo de outrem, funcionasse como raios infravermelhos, raios ultravioletas ou luz 
fosforescente para desvelar, sob o palimpsesto da desaparecida imagem de H., o retrato do 
Sr. José-Saramago inscrito em Manual de pintura e caligrafia como ele próprio confessa 
(quem? o Sr. H.? o Sr. José Saramago?). 
Não obstante à la page, up-to-date, afinal a Fot’Óptica F. Khom. está apetrechada 
com os mais modernos equipamentos, começo a deprimir-me com a ideia de que não sou 
capaz de traçar, criticamente, caracteres literário-autobiográficos. Meu manual de caligrafia 
não traz o cursivo de Flaubert que, de sobrolho cerrado, me fita do retrato na parede, 
dependurado à frente desta mesa em que escrevo. As pontas curvadas de seu espesso bigode 
mais parecem dois pincéis de pelo de marta (não obstante Luise Collet se chamasse sua 
platônica amada). Na branca tela de meu inconsciente (tabula rasa?), movem-se os pincéis-
pelo-de-marta das pontas de seu bigode a grafar, em elegante cursivo, a seguinte mensagem: 
Palavras são tintas na paleta, à espera da pena, que semelha o 
pincel. Com a mistura das tintas, que são as palavras, pode-se debuxar, 
de forma mais ou menos nítida, dependendo da arte e do engenho, qualquer 
coisa encontrável na Natureza, seja ela agradável ou repugnante à ética 
e/ou aos sentidos. Com o recurso do substantivo, que é o traço mais ou 
menos vigoroso; com o concurso da cor, que é o adjetivo; com o discurso 
do verbo, que é o movimento ou ação que se insufla na imagem; com o 
sincopado das pinceladas, que é a pontuação , tudo se pode pintar, ao 
escrever ou descrever, transformando a poesia e a narração em pintura. Ut 
pictura poesis, diziam os clássicos, Simônides à frente, Horácio em 
seguida, empós Antônio Ferreira, o literário autorretrato português de 
Horácio. Queres mais exemplos pictórico-poéticos ou poético-pictóricos do 
velho símile “como a poesia, a pintura, como a pintura, a poesia”? Vá a 
outros e mais antigos manuais de pintura caligráfica ou de caligrafia 
pictórica. Leia Francisco de Holanda, do século XVI. Ou Manuel (quase 
disse Manual) Pires de Almeida, cujo manuscrito intitulado “Poesia e 
Pintura ou Pintura e Poesia” mostrará que tantas são as semelhanças entre 
a Pintura e a Poesia, que à Pintura chamaram Simônides, Plutarco e 
outros, tomando-o de Platão, poesia muda, e à poesia, pintura que fala. Ao 
cabo, glosas tão parafrásicas na semelhança, que os comentadores parece 
se autorretratarem um no outro. Autorretrato em outrem não é o teu 
problema? Pois durma com uma adivinha dessa. Boas noites. 
Que fazer, se não apagar a luz, pôr-me no berço e despertar o inconsciente, insone e 
operosa formiga. 
 
5. Primeiro exercício de cópia parafrásica 
Acordei cedo. Modo de dizer. Em verdade, dormi mal pois mal dormi, círculo 
vicioso das tenebrosas noites em claro que (Eureca!) consegui, ut pictura descriptio, 
debuxar com o palíndromo “dormi mal pois mal dormi”. A insone formiga do inconsciente 
insistia, trabalhando, em despertar a cigarra desta fábula (ou será apólogo?). Enquanto me 
barbeava (vou à liça diária de cara limpa), olhava meu autorretrato no espelho e vi-me (o 
que não faz a alerta e diligente memória do inconsciente?), vi-me inscrito em linhas e 
páginas do Manual de pintura e caligrafia. 
Autorretratado em quem, atento leitor, Em H., claro está, que, fiel leitor do Sr. José 
Saramago, acostumado a tais artes e manhas, Quem acostumado a tais artes e manhas, o fiel 
leitor ou o Sr. José Saramago, Engraçadinho, o fato é que, acostumado a ler o Sr. José 
Saramago, não me vais pegar a dormir no ponto da falta de sinais de interrogação, 
reticências, exclamação, dois pontos ou travessão. 
Exatamente, experto leitor. Vi-me H., autorretratado nas linhas que lhe traçavam a 
obsessão de descobrir quem o verdadeiro ser do outro. Ali estava eu, nas linhas das páginas 
20-21 e 61 de Manual de pintura e caligrafia, debuxado à imagem e semelhança de H.: 
“O meu trabalho vai agora ser outro: o de descobrir tudo na vida de S. e tudo relatar por escrito, 
distinguir entre o que é verdade de dentro e pele luzidia, entre a essência e a fossa, entre a unha tratada e a 
apara caída da mesma unha, entre a pupila azul-baço e a secreção seca que o espelho matinal denuncia no 
canto do olho. Separar, dividir, confrontar, compreender. Perceber. [...] Quando assento o aparo na curva 
interrompida de uma letra, de uma palavra, de uma frase, quando prossigo dois milímetros adiante de um 
ponto final, limito-me a prosseguir um movimento que vem de trás: este desenho é, ao mesmo tempo, o código 
e a decifração. Mas código e decifração de quê? Dos factos e da personalidade de S., ou de mim próprio? 
Quando resolvi começar este trabalho, julgo tê-lo feito [...] para descobrir a verdade de S. Ora que sei eu 
disso, da chamada verdade de S.? Quem é S. (esse)? Que é a verdade?, perguntou Pilatos. Que é, repito, a 
verdade de S.?” 
Se, onde apareceu grafado S., o leitor puser antes do S um J, substituindo, pois, esse 
S. por J.S., verá no esforço e obsessão desse H. o autorretrato do meu esforço e obsessão 
nestas linhas. H. deseja descobrir, sob a epiderme de S., o verdadeiro ser de seu modelo. Eu 
esforço-me por desvelar, sob a epiderme desse H., a vera-efígie de um J.S. que se confessa 
autobiografado ou autorretratado nesse H.: imagem que aqui, à Dali, começa a desapar-e-
ser. 
 
6. Segundo o exercício de cópia 
H. cita, às páginas 66-68de seu Manual de pintura e caligrafia, Francisco de 
Holanda, transcrevendo pequeno trecho dos “Diálogos de Roma” (segunda parte de Da 
Pintura Antigua), de onde destaco resposta de Messer Lactâncio Tollomei a Miguel 
Angelo: 
“E porventura com as vossas grandes imaginações não tereis tanto, como eu tenho, tentado na grande 
conformidade que têm as letras com a pintura (que a pintura com as letras, sim tereis); nem como são tão 
legítimas irmãs estas duas ciências que, apartada uma da outra, nenhuma delas fica perfeita, ainda que o 
presente tempo parece que as tem nalguma maneira separadas. [...] E daqui vem, senhor M. Ângelo, 
chamardes vós às vezes a um grande letrado ou pregador, discreto pintor, e ao grande debuxador chamais 
letrado”. 
Já a respeito de Francisco de Holanda copio o seguinte, colhido em Massaud 
Moisés, As Estéticas Literárias em Portugal - séculos XIV a XVIII (Lisboa: Caminho, 
1997, p. 82): 
“Nascido [Francisco de Holanda] em 1517 ou 1518, refez a trajectória de Sá de Miranda, viajando 
para a Itália com cerca de vinte anos, onde se demorou por três anos, no estimulante convívio de Miguel 
Ângelo e outras figuras do Renascimento peninsular. Em 1548 ou 1549, redigiu Da Pintura Antigua, no qual 
retrata a sua fascinante experiência romana. Em meio da segunda parte da obra, denominada “Diálogos de 
Roma”, emergem, como fruto natural de se confrontarem interlocutores eruditos e brilhantes, questões ligadas 
ao ideal clássico. [...] Incumbido de recolher documentos portugueses existentes nas bibliotecas de Madrid e 
do Escorial, Joaquim José Ferreira Gordo encontrou, nos fins do século XVII, o manuscrito de Da Pintura 
Antiga. E dele fez cópia, que depositou na Academia de Ciências de Lisboa, não sem antes relatar com 
minúcias os passos de sua missão ao estrangeiro, num memorial que se publicou em 1792. Mas foi preciso 
esperar um século para que a obra escrita de Francisco de Holanda viesse a público, graças a Joaquim de 
Vasconcelos. Em 1890-1892, saem as duas partes de Da Pintura Antiga, no semanário A Vida Moderna, do 
Porto. E em 1896, reproduzia-se na mesma cidade, em tiragem de 100 exemplares.” 
Copio não só para melhorar a caligrafia do estilo, mas para ilustração do leitor e 
sobretudo minha. Parafraseando o Sr. José Saramago, assentarei que copiar é olhar, ver, 
reparar. Como se estivéssemos diante de um quadro que atrai nossa vista para que lhe 
deitemos um olhar atento, que já é ver, levando-nos, atenção desperta, a reparar em seus 
significados.15 O que transcrevi de ou a propósito de Da Pintura Antiga figura aqui o 
quadro. Enquanto copiava, meu olhar passou a ver o que me escapara à primeira vista, 
levando-me a atentar numa antiga pintura que ali se delineava. 
Toda citação é voz alheia que fazemos nossa, é caligrafia alheia que subscrevemos 
como nossa, é identificação com o outro. Ao citar, ou transcrever, H. está apropriando-se de 
um discurso de Francisco de Holanda que, por sua vez, se apropria da voz e pensamento de 
um tal Messer Lactâncio Tollomei. Parecenças vislumbram-se, pois, entre H. e Francisco de 
Holanda e Messer Lactâncio Tollomei. Bem vistas as feições, um autorretrato do outro 
nessa colagem de citações. 
H., à imagem e semelhança do pintor e arquiteto Francisco de Holanda, foi viajor 
pela Itália, estimulante convívio com outros pintores e escultores do Renascimento. Não 
 
15. À minha amiga Dra Legenda Vaz Est agradeço o empréstimo da revista Ler, número 6, Primavera de 
1989, p. 16, de onde extraio a seguinte declaração do Sr. José Saramago: “Neste livro, na História do cerco 
de Lisboa, faço uma distinção entre olhar, ver e reparar. Eu penso que são três níveis de atenção: olhar, que é 
a mera função; ver, que é um olhar atento; e reparar, que é já uma atenção a uma dada coisa ou a um dado 
importa que, na crônica de viagem de H., as figuras de tais criadores surjam, 
palimpsesticamente ou vicariamente, sob outras figuras, enquadradas em telas ou 
petrificadas em estátuas. Lembre-se o que disse H.: o retrato do Dr. Gachet é autorretrato de 
Van Gogh. Logo, na óptica de H., mesmo a imagem do outro pode ser autorretrato de quem 
retrata. Desse prisma, a imagem de Francisco de Holanda, a calcorrear a Itália e privar com 
figuras do Renascimento, é autorretrato de H.. 
Um relato ou crônica de viagem constitui outro gênero que não autobiografia. 
Contudo H. considera suas narrativas de viagem à Itália como exercícios de autobiografia. 
Desta perspectiva, H. se vê autorretratado em Francisco de Holanda que, por seu turno, se 
autorretrata em Messer Tollomei, formulando questões (quem? H.? Tollomei?) em torno da 
semelhança entre pintura e poesia para proeminente figura do Renascimento, simplesmente 
Miguel Ângelo. 
Cuidado, leitor, não vá falsear o pé e precipitar-se nesse mise en abyme de 
semelhanças. Se tudo isso lhe parece confuso, debite a confusão não à minha imperícia de 
fotógrafo lambe-lambe às voltas com outra arte de retratos que é a Literatura, mas ao jogo 
de espelhos que o exercício da cópia propicia: H. autorretratado em Francisco de Holanda 
autorretratado em Messer Lactâncio Tollomei. 
À imagem e semelhança de Francisco-de-Holanda-Messer-Lactâncio-Tollomei em 
Da Pintura Antiga, H. glosa, sob a antiquíssima rubrica ut pictura poesis, tópicos que 
sempre preocuparam os ditos clássicos, de greco-romanos a setecentistas. 
(Copio de Poesia e Pintura ou Pintura e Poesia, tratado seiscentista de Manuel 
Pires de Almeida: “Grandes são as proporções, grandes as semelhanças, concordâncias, ou 
simpatias, que têm a tinta, e a cor, a pena, e o pincel... [...] E tanto se parecem entre si que 
escassamente se vê sua diversidade... [...] Simbolizam entre si como irmãs gêmeas, e 
parecem-se tanto, que quando se escreve se pinta, e quando se pinta se escreve.” 16) 
Subscrevendo Francisco-de-Holanda-Messer-Lactâncio-Tollomei (e Manuel Pires 
de Almeida), H. vai empenhar-se em demonstrar a “grande conformidade que têm as letras 
com a pintura”, apresentando as semelhanças, que repara no que outros já viram, entre a 
pintura e a poesia: 
 
fenómeno  passamos a reparar naquilo que só tínhamos visto, a ver aquilo que só tínhamos olhado.” 
à página 13, dirá que as palavras são “mais duras que os pincéis, mais iguais na cor 
do que as tintas”; à página 54, confessa brincar “com as palavras como se usasse as cores e 
as misturasse ainda na paleta”; à página 61, estabelecerá o símile papel/escrita = desenho 
novo; à página 97, constatará “que as diferenças não são muitas entre palavras que às vezes 
são tintas, e as tintas que não conseguem resistir ao desejo de quererem ser palavras”; à 
página 134 redescobrirá que “um verbo é uma cor, um substantivo um traço”; à p. 269, 
H.[omem] inspirado pelo amor de M.[ulher], tomado por que outras Illuminations?, não 
chegará a atribuir novas cores às vogais de Rimbaud, mas desvelará figuras e imagens 
inscritas na pele e memória hieroglífica das letras: 
“ ‘Meu amor’. Repetir estas duas palavras durante dez páginas, escrevê-las ininterruptamente, sem 
descanso, sem nenhuma clareira, primeiro devagar, letra a letra, desenhando as três colinas do m manuscrito, o 
laço frouxo do e como braços repousando, o profundo leito de rio que na letra u se cava, e depois o espanto ou 
grito do a sobre agora as ondas marinhas do outro m, o o que só pode ser este único e nosso sol, e enfim o r 
feito casa, ou telheiro, ou dossel.” 
Ressurjo à superfície das considerações e símiles de H. com o gosto do déjà vu no 
déjà lu e do déjà lu no déjà vu. Afinal, conforme se pode verificar mesmo a um simples 
olhar, nada de novo H. reparou no que outros viram a respeito do ut pictura poesis. A 
calcorrearmuseus e igrejas e capelas da renascentista Itália, como outro Francisco de 
Holanda e à imagem e semelhança de Messer Lactâncio Tollomei, H. propõe e desenvolve 
questões velhíssimas na não menos velhíssima fórmula do metarromance. Como se tudo 
isso tivesse sido visto pela primeira e inédita vez: técnica do trompe l’oeil que há de 
caracterizar os futuros romances desse S.[enhor] (autorretratado em H.?) José Saramago 17. 
 
7. Lição de anatomia 
“Um pincel, senhores, [...] um pincel é assim como um bisturi. Não é um bisturi, 
mas assim como um bisturi.” É a lição ou aula de anatomia que  apre(e)ndida em 
Rembrandt?  , H. nos ministra à página 273. Apre(e)ndida ou não em Rembrandt, sirva-
nos com tudo (e não contudo) a lição. 
 
16. Manuel Pires de Almeida - Poesia e Pintura ou Pintura e Poesia, SP: FAPESP/EDUSP, 2002, p. 69. 
17. Declaração do Sr. José Saramago em Ler, número 6, Primavera de 1989, p. 15: “Eu sei que aquilo que eu 
escrevo já foi escrito antes, como tudo o que hoje fazemos, salvo raras exceções, já foi feito há muito tempo, 
antes de nós. Tudo é assim na vida. Mas aquilo que talvez distinga os meus livros é o facto de parecer que eu 
Não sei por que o símile “assim como um bisturi é o pincel” trouxe-me, por 
associação de ideias gestadas no inconsciente, Rembrandt e os seus retratos de figurões da 
burguesia. Claro que bisturi lembra cirurgias, dissecações, e quem, com alguma memória 
pictórica, não se recordaria das lições de anatomia (psicológica?) de Rembrandt  
reminiscências de que platônica caverna? 
Impossibilitado de ir a Amsterdam e ver in loco os acervos do Mauritshuis e do 
Rijksmuseum, prosaicamente visito meu álbum de reproduções de Rembrandt Harmens van 
Hijn, nascido sob o signo de Câncer, em 15 de julho de 1606 e falecido em 4 de outubro de 
1669, amargando as reviravoltas da inexplicável Fortuna, que tragicamente o despenhou da 
glória e riqueza, rapinando em hasta pública seus bens e, o que é humilhante, seu talento. 
Leio-lhe a biografia e copio que seus quadros “são retratos psicológicos, magníficos, 
de uma beleza deslumbrante, de uma perspicácia assustadora  realmente assustadora para 
quem neles se via retratado. [...] Ele parece surpreender os cavalheiros em plena atividade, 
parece fotografá-los séculos antes da invenção da fotografia.” 
De algum modo, a cópia sempre é uma aprendizagem caligráfica. Acho agora que 
entendo por que a caverna platônica de meu inconsciente trouxe à luz reminiscências tanto 
da lição como da aula de anatomia de Rembrandt. Um lambe-lambe era ele, antes da 
invenção de kodaks e nikkons. Um cirurgião de almas, a manejar o pincel de seu olho-
bisturi. Rembrandt o tácito e inatingível paradigma de H., esse retratista de Ss., figurões do 
regime S.[alazarista]? 
Seja “Lição de Anatomia do Dr. Tulp” ou “Aula de Anatomia do Dr. Joan 
Dreyman”, o decrépito símile bisturi = pincel ainda se presta à Pintura, uma vez que o 
pincel não foi de todo demitido ou aposentado pela fotografia ou computação gráfica. Já 
anacrônico e absolutamente fora de moda seria eu dizer, na toada dos realistas e naturalistas 
oitocentistas, que em Literatura a pena é “assim como um bisturi”. A não ser que, trompe 
l’oeil, parecendo que estou a lançar um olhar inaugural e inédito, eu venha a inocular 
surpresa naquilo que, não obstante déjà vu no déjà lu, parece estar sendo visto pela primeira 
vez. 
Título: Primeira “Lição de Anatomia” à Dr. Tulp-Rembrandt. Para que o quadro 
 
olho as coisas pela primeira vez e poder, assim, traduzir a surpresa daquilo que é visto pela primeira vez.” 
desta minha “Lição de Anatomia” à Dr. Tulp-Rembrandt se complete, é preciso que pelo 
menos quatro leitores me emprestem um olhar de abismada atenção. Ex cathedra, com o 
polegar colado ao índice da mão esquerda, tal qual Dr. Tulp, vou pontuando o que reparo 
na dissecação de H., exumado de seu Manual de pintura e caligrafia por procuração 
literária, em busca do DNA de um romancista cognominado José Saramago no Registro 
Civil da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores). 
“Lição de Anatomia”, à Dr. Tulp-Rembrandt, com a mão direita a segurar a pena 
“assim como um bisturi”, disseco desse H.[omem] o texto. Levanto-lhe pele e carnes, 
exponho nervos e tendões  dos dedos ao cotovelo  de seu braço esquerdo. O sinistro 
braço da Comuna, dirão insepultos S.[alazaristas], lembrados de que Manual de pintura e 
caligrafia, saído em 1977, traduz manifesto, não obstante fora de época, engajamento à 
resistência nas figuras de M.[ulher, maiúscula, sim senhor!], seu pai e irmão Antônio. 
Como (todos?) sabem, passado em 1973, nos estertores do Salazarismo, e 
culminando com a queda do regime em 25 de abril de 1974, o metarromance de H., sob a 
legenda ut pictura poesis, é um romance de aprendizagem e renascimento. Aprendizagem 
de H., esse (S.?) pintor de naturezas mortas, tomando consciência de sua alienação, 
homenagem e sagração do S.[alazarismo] enquanto retratista anestesiado e alheado às 
expensas da alta burguesia apoiadora do Fascismo. Renascimento de H. ao sair das trevas 
medievais da vassalagem e feudal servidão ao S.[alazarismo] para a condição 
antropocêntrica de H.[omem, com maiúscula] fautor da H.[istória]. Sob a rubrica de 
“exercícios de autobiografia em forma de narrativa de viagem”, cinco capítulos (11, 14, 17, 
21 e 24) de Manual de pintura e caligrafia, dedicados às andanças de H. pela Itália 
renascentista, guardam um sentido simbólico: ao sol, luz e bênçãos do Renascimento, H. há 
de renascer H.[omem], completude do nome que tem, não do que lhe deram. 
Título: Segunda “Aula de Anatomia” à Dr. Joan-Deyman-Rembrandt. Por 
metonímia, dissecar Manual de pintura e caligrafia é o mesmo que autopsiar H., aqui 
estendido na mesa, a lembrar (repare-se) a composição do Cristo Morto, de Mantegna. 
Saltando logo aos olhos de quem olhar o quadro de Rembrandt pelo olho de minha câmera, 
veem-se os pés, cujas plantas, segundo a técnica do escorço, (reparem) dão a ilusão de que 
se projetam para fora da tela, como a querer expulsar-nos ou impedir-nos de adentrar os 
segredos da dissecação. Contudo nosso olhar forçosamente caminha de seus pés para o 
ventre, esviscerada caverna, e daí para a caixa torácica que em seguida nos leva ao rosto 
sereno, de um belo adormecido, quase sem testa, de modo que logo passamos à cabeça, cujo 
cérebro vai sendo examinado, impressão temos de que vai sendo penteado, em delicados 
gestos de haute coiffeur, pelo Dr. Joan-Deyman-Rembrandt, assistido à direita por um 
aluno, em cuja atenção posuda logo reparamos: dorso da mão direita apoiado nos quadris, 
(vejam-se-lhe), palma e dedos nítidos noutro escorço (repare-se), sequiosos por invadir o 
espaço cá fora que nos enquadra; já a mão canhota, sinistra, segura uma vasilha onde 
recolherá os ensinamentos desta aula de anatomia. 
 
8. A vasilha do aluno do Dr. Tulp-Joan-Deyman-Rembrandt 
“Via Manual de pintura e caligrafia, creio ter-se esventrado esse H. 
metonimicamente. Olhe-se, veja-se e repare-se. 
“No romance, H. irá pintar um segundo quadro de S., buscando, conforme se lê às 
páginas 12, 68-69, devassar-lhe o espírito, a alma, o coração, o cérebro. Enfim, as tripas, o 
por dentro, tentando responder à pergunta quem é esse S. Desforra de sua subalterna 
condição de retratista desses Ss. (Schutz-Staffel?) do Salazarismo, repinta-o com raiva. 
(Releiam-se, a propósito, pp. 49-50 do romance.) 
“Nestas notas de lição e aula de anatomia, registro a dissecação do braço esquerdo e 
do cérebro desse H., tentativa de esvisceração de sua alma e espírito.Enfim, das vísceras-
coração de seu por dentro. 
“Nenhum tremor noto nos delicados gestos cirúrgicos de haute coiffeur do Dr. Tulp-
Joan-Deyman-Rembrandt, que vai exercendo seu ofício sem descabelamentos de raiva. 
Nenhum motivo tem ele, o doutor, para desforrar-se ou alforriar-se desse H. Busca-se 
apenas responder à pergunta: quem é, verdadeiramente, realmente, esse H., que, por ser, 
confessamente, pseudônimo autor de um romance autobiográfico, esconde e disfarça o 
ortônimo de outra (outro?) pessoa. 
“Primeiro, em “Lição de Anatomia”, à Dr. Tulp-Rembrandt, sob os nervos e tendões 
do braço esquerdo, descobriu-se a veia, esclerosadamente neorrealista, do engajamento 
político de Manual de pintura e caligrafia. O romance, saído em 1977, deita, com três 
anos de atraso, cravos murchos no panteão do 25 de abril de 1974. Póstuma homenagem à 
morte da alienação desse H. e seu renascimento como H[omem] na hora h. (Não me 
perguntem como de futuras horas sabe o Dr. Tulp-Rembrandt. Sei apenas que, em segredo, 
trava relações e experiências alquímicas...) 
 “Segundo, em “Aula de Anatomia”, dissecou-se-lhe a caixa encefálica. Especial 
atenção dedicou o Dr. Joan-Deyman-Rembrandt ao lado direito do cérebro desse H. Quase 
ipsis verbis, parafrásico como deve ser todo atento aluno e copista, reproduzo os saberes e 
dizeres (alquímico-proféticos) do Dr. Joan-Deyman-Rembrandt que está a ditar-nos 
“ que sabido será, séculos mais tarde, que no lado direito do cérebro repousam as funções criativa 
e visual. Criativamente visual ou visualmente criativo, procurou ser esse H.[omem], ao desenvolver em seu 
Manual de pintura e caligrafia o velhíssimo tópico ut pictura poesis. Intertextualidade será o nome dado pela 
posteridade a esse diálogo (há séculos conhecido) de um texto com textos alheios. E parafrásica, dir-se-á, é a 
intertextualidade que, noutra ou doutra disfarçada forma, reproduz o conteúdo dos modelos com que dialoga. 
Repare-se que as reflexões desse H.[omem] sobre as semelhanças e parecenças entre pintura e literatura são 
palimpsestos de quantos (Simônides, Horácio, Francisco de Holanda Antônio Ferreira, Manuel Pires de 
Almeida) trataram do topos ut pictura poesis, ou seja, como a pintura é a poesia. Portanto, caligrafia e 
pensamento alheios, depositados no lado direito do cérebro desse H.[omem], à tona vieram e com a mão 
esquerda, que há pouco se dissecou, foram laboriosamente copiados, com floreios de novidade, à flor da tela 
branca  tabula rasa da virginal percepção de quantos leitores?  do Manual de pintura e caligrafia. 
Trompe l’oeil chama-se essa técnica de engano perceptivo-visual: Maniera pós-modernamente barroca de 
iludir-nos com a impressão da mais última novidade. Tenho dito.” 
“Quase ipsis verbis, parafrásico como deve ser todo atento aluno e copista, 
reproduzo neste manual, com a melhor pintura de minha caligrafia, o conteúdo da lição e 
aula de anatomia do Dr. Tulp-Joan-Deyman-Rembrandt, que, não obstante tenha dito 
aquele Tenho dito, ainda não tinha dito tudo, pois, lavadas as mãos, dirigia-se para a saída 
do anfiteatro quando, de repente, parou e, voltando-se para nós, concluiu teatralmente 
 “Dissecados o braço esquerdo e o lado direito do cérebro, ei-lo, esse H. (Ecce Homo?) renascido 
H.[omem] de suas vísceras de papel  Páscoa de outra ressurreição. Antecipada e prefigurada nesta sua 
posição de Cristo Morto, à Mantegna?” 
 
9. Auto de natal 
Subtítulo: A certidão de renascimento do romancista José Saramago. 
Entende-se seja autobiográfico o romance. Sob o autorretrato de H., o retrato do Sr. 
José Saramago. Ao cabo, um auto de natal esse Manual de pintura e caligrafia. 
Auto, em primeiro lugar, porque teatralmente se esconde, sob o pseudônimo e 
persona de esse H. narrador e retratista, a figura, o retrato, de um Autor. Truísmo 
consabido, assente em qualquer manual de teoria literária, mas que nesse romance se alça a 
motivo da criação, ao assentar o Sr. José Saramago, autor desse narrador H., que se trata de 
seu “livro mais autobiográfico”. (Reveja-se nota 13.) 
Auto, em segundo lugar, porque peças de um processo e registro escrito dos atos de 
um ser que se vai processando à procura de conhecer-se, descobrir-se. Donde tratar-se 
também de “um livro de aprendizagem”,  de H., anônima e criptográfica inicial, à 
completude de ser H.[omem]. 
E auto de Natal, porque tratará de um nascimento. Corrigindo, a tempo: de um 
Renascimento. Com maiúscula passe. Seja por seu significado epocal e cultural, seja pelo 
futuro sucesso literário do Autor que está a renascer. 
Quando, onde e como renascerá romancista urbi et orbi esse S[enhor], de nome 
S[aramago], vindo a lume, enquanto cidadão, em 16 de novembro de 1922. A tal pergunta 
nos convida Manual de pintura e caligrafia (1977), 30 anos passados de angustioso 
silêncio narrativo-ficcional imposto pelo falhanço do romance com que estreara  Terra 
do pecado (1947). 
Antes de Manual de pintura e caligrafia quem era esse S[enhor] S[aramago]? Um 
autor à procura de sua verdadeira vocação e talento. Melhor dizer, um autor à procura de si 
mesmo. Pois foi à procura de si mesmo que escreveu seu punhado de versos (Os poemas 
possíveis, 1966; Provavelmente alegria, 1970; O ano de 1993, 1975), confessionais, 
autobiografias da alma, do seu por dentro, na medida em que (romanticamente?) tenta 
explicar-se, revelar-se quem é.18 E foi ainda à procura de si mesmo que, n’A Capital, no 
Jornal do Fundão, no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias se dedicou ao exercício da 
 
18. “Devo dizer que me foi fácil fazer versos naquela altura: saíam com relativa facilidade, como poesias 
sinceras, de uma grande autenticidade, embora seja legítimo perguntar o que é que a autenticidade tem que ver 
com a poesia. Estava ali a tentar explicar-se uma pessoa: creio, aliás, que foi sempre essa a minha grande 
questão. Mesmo aí, nessa poesia, tratava-se menos de uma aventura poética do que do começo de uma 
tentativa, que se prolongou até hoje, de dizer ou de encontrar suficientes razões para eu dizer quem sou.” 
Diálogos com José Saramago, p. 110. 
crônica (Deste mundo e do outro, 1971; A bagagem do viajante, 1973; As opiniões que o 
D.L. teve, 1974; Os apontamentos, 1976): “acho que, para entender aquele que eu sou, há 
que ir às crónicas. As crónicas dizem tudo (e provavelmente mais do que a obra que veio 
depois) aquilo que eu sou como pessoa, como sensibilidade, como percepção das coisas, 
como entendimento do mundo: tudo isto está nas crónicas.” (É a confissão que se lê à 
página 42 de Diálogos com Saramago). 
Manual de pintura e caligrafia não haveria de fugir a esse diapasão 
“autobiográfico”, a ressoar insistentemente de 1966 a 1976, consideradas as datas de 
publicação de seus livros de poesia e crônica. Compreensível agora, por outro ângulo e a 
nova luz, que esse romance seja, como ele próprio confessa, “talvez o meu livro mais 
autobiográfico”. O esforço de H. em dissecar e captar o por dentro de S. corresponde, 
especularmente, ao esforço desse duplo e outro esse  S[enhor] S[aramago]  
escondendo-se para descobrir-se (p. 106), velando para revelar-se, à procura de si mesmo 
(procurem-se as aspas desta citação parafrásica às páginas 140 e 221) nessa “autobiografia 
dissimulada”. Por esta perspectiva, entende-se que, na óptica do narrador, “tudo é biografia, 
ou melhor, autobiografia”, conforme se lê à página 116 e se relê, noutros termos, à página 
169. 
Apenas mais um dentre os milhões de poetas que houve e há urbi et orbi; 
simplesmente um cronista a mais escondido em páginas diárias ou hebdomadárias, fadado a 
amarelecer ou dispersar-se no olvido do tempo, esse outro e duplo S., o S[enhor] 
S[aramago], ensaia o milagre da ressurreição nesse auto de natal que é Manual de pintura e 
caligrafia. Nada mais natural e revelador que, em sua primeira edição, o livrotraga como 
subtítulo “Ensaio de Romance”. Afinal, estava o Autor, nado-morto em Terra do pecado, a 
ensaiar sua ressurreição como romancista. (O subtítulo foi retirado a partir da segunda 
edição. Compreensível providência, pois, aquando da reedição do Manual de pintura e 
caligrafia, tendo já escrito outros romances (Levantado do chão, Memorial do Convento, 
O ano da morte de Ricardo Reis), não estava mais o Autor a ensaiar-se no romance ou 
como romancista 19.) 
 
 
19 Ver, a propósito, Diálogos com José Saramago, pp. 139-140. 
10. Renascimento. Sob a égide do Classicismo. 
 Em Manual de pintura e caligrafia, ao jornadear pela Itália renascentista, sabia-o 
H., à medida em que se desvelava e descobria, que Renascimento, a rigor e a caráter, só sob 
o clássico modelito greco-latino? 
Talvez. Inconsciente e intuitivamente. Insights. Como agora os tenho. A fotografar 
páginas que cito e recito do Manual de pintura e caligrafia e dos Diálogos com José 
Saramago. Eu à procura de que ou de quem? 
Pergunta retórica, tão ao gosto da eloquência dita clássica. Quem ainda continua a 
ler-me, sabe muito bem à demanda de que ou de quem estou, ao colher esse sangue, 
procurando determinar, mais que o RH, o DNA literário de um Autor. 
À Dali, procurei imagens de quem desaparece ser, sobre Ser. À Rembrandt, em lição 
e aula de anotomia, fazendo uso do lado direito, criativo-visual, de meu cérebro, procurei 
dissecar e esviscerar o Ser  H.[omem])  de quem parece ser. 
20h31, do dia 18 de dezembro de 2003. Estou prestes a fechar a Fot’Óptica F. 
Khom., saídos os funcionários. Estou a despedir-me da última cliente. Um belíssimo 
exemplar, aliás, de M.. Quem acaso me tivesse visto a fatografá-la, sessão de poses a 
lembrar o Blow Up de Antonioni, logo deduziria, se não fosse de todo desatento, que essa 
M.[ulher, com o devido maiúsculo], lindamente alienada, aqui veio para que lhe prepare um 
book. Sonha com o futuro de top model. Sem desdenhar, contudo, convites para posar nua e 
deslumbrar páginas de revistas masculinas ou calendários de oficinas e borracharias. 
22h36. Já em casa, recomeço por assentar, neste meu manual de pintura e caligrafia 
alheias, que Renascimento, a rigor, só em trajes clássicos. Ora, se de Renascimento e 
maniera aqui se vem tratando, natural que ambos o sejam sob o signo do Classicismo. 
Em seus exercícios de cópia, para afinar a caligrafia literária, H. (re)cita, à página 
96, Yourcenar:  “O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que pela primeira vez se 
lança um olhar inteligente sobre si mesmo.” 
Manual de pintura e caligrafia é o lugar de nascimento  em verdade e a rigor, 
renascimento  de um Autor. 
Se Manual de pintura e caligrafia, autodiegese debitada a H., é autobiográfico, 
esse narrador H. será platônico simulacro de um Autor, cujo S (“Ser”, ora, é elementar, 
meu caro Watson) vem revelado à luz garrafal das letras da capa:  Saramago. 
Logo, a lógica do silogismo impõe-me a pergunta: Manual de pintura e caligrafia 
é o verdadeiro lugar de (re)nascimento de um Autor, o Sr. José Saramago, que pela primeira 
vez lança um olhar inteligente sobre si mesmo enquanto ficcionista? 
Nado-morto em Terra do pecado, o Sr. José Saramago vem a renascer, pois, em 
Manual de pintura e caligrafia. E bem a caráter, ou de Renascimento não se trataria, a 
glosar tópicos do Classicismo. A começar, evoluir e terminar, como vimos, pelo batido e 
debatido ut pictura poesis  cerne de sua metarromanesca perquirição acerca da arte e 
criação literárias. A prosseguir, perguntando-se, a páginas tantas (p. 40), “sobre a 
controversa questão das vocações (nasce-se artista, ou vai-se para artista? a arte é mistério 
inefável ou meticulosa aprendizagem? )”  indagação, de passagem se diga, que também 
já se fizera Horácio, em sua Arte Poética: “Há quem discuta se o bom poema vem da arte se 
da natureza: cá por mim, nenhuma arte vejo sem rica intuição e tão-pouco serve o engenho 
sem ser trabalhado: cada uma destas qualidades se completa com as outras e amigavelmente 
devem todas cooperar.”, conforme copio da página 117 de uma edição bilíngue que 
consulto, da Livraria Clássica Editora, Lisboa, s/d. Tão controversa essa clássica questão de 
arte ou talento que vai retomá-la o quinhentista Antônio Ferreira, na “Carta XII a Diogo 
Bernardes”: “Questão foi já de muitos disputada/ S’obra em verso arte mais, se a natureza? 
Uma sem outra val ou pouco, ou nada.” 
(Alto lá, senhores. Nada de lapidar, sob a acusação de plagiário, o Sr. Antônio 
Ferreira. Versão portuguesa da epístola de Horácio é sua “Carta XII a Diogo Bernardes”. 
Logo, não se acanharia o espartano teórico e divulgador do aticismo clássico em terras lusas 
em reproduzir quase ipsis verbis os ensinamentos de Horácio, esse “grave censor das 
musas”  pois preceito e de rigor era, nas eras do Classicismo, o diálogo intertextual-
parafrásico com modelos, alçados a paradigmas do bem pensar e escrever.) 
Ai, a voragem do mise en abyme intertextual e do vórtice da paixão que entrevia ao 
fotografar M.  à Blow Up, relembre-se, de Antonioni. Cada vez mais fundo, num e noutro 
caso, somos atraídos... Isso era o que eu pensava, enquanto, pouco a pouco, desnudava 
minha lindamente alienada M. aos olhos de quem viesse a vê-la, fosse como top model, 
fosse como colírio de revistas masculinas ou de calendários em oficinas e borracharias e... 
trocas-de-óleo... E o olho de minha câmera revia, na artificial espontaneidade de suas poses, 
inscrever-se a imagem palimpséstica de mais um tópico clássico que o renascido autor Sr. 
José Saramago subscrevia. Claro que acerca do artificialismo e espontaneidade na 
(re)criação de que book seja: o tópico do limae labor et mora (que, ressuscitando da morta 
língua, significa o trabalho artesanal do texto ajudado pelo amadurecimento artístico-
censório do Tempo.) À página 127 do Manual de pintura e caligrafia, ao ponderar sobre a 
gala que mais apropriadamente reveste a elocução, natural espontaneidade ou artesanal 
artifício (“Se assim é, grandes desconfianças merece a espontaneidade, e trabalhados 
louvores mereceria o artifício, esse portanto arte...”), ei-lo, o Sr. José Saramago, a 
subscrever, com o parafrásico recurso de outros termos tradutórios, receita de Antônio 
Ferreira, que assim se lê naquela suprarreferida “Carta XII a Diogo Bernardes: 
 “Mas eu tomaria antes a dureza/ Daquele [verso], que o trabalho, e arte abrandou/ Que destouro a 
corrente e vã presteza [...] Necessário é, confesso, o artifício:/ Não afeitado; empece a tenra planta/ o muito 
mimo, o muito benefício.” 
Metalinguísticamente a escrever e pensar sobre o quê e como escreve, o Sr. José 
Saramago vai lançando sobre seu renascimento como romancista o olhar inteligente de 
quantos, séculos atrás, pensaram a arte do bem escrever. 
“Scribendi recte sapere est et principium et fons: Ser sabedor é o princípio e a fonte 
do bem escrever.”, preceitua Horácio, na já referida Arte Poética. E glosa-o Antônio 
Ferreira, na também já aqui citada “Carta XII a Diogo Bernardes”, ao subscrever que “Do 
bom escrever, saber primeiro é fonte./ Enriquece a memória de doutrina/ Do que um cante, 
outro ensine, outro te conte.” 
Princípios clássicos,  a ensinarem o diuturno estudo e exercício dos bons 
modelos, como dirá Correia Garção no século XVIII , adota-os o Sr. José Saramago, 
enriquecendo suas reflexões metarromanescas com a memória da doutrina alheia. A 
lembrar-nos inclusive, como já o ensinara Aristóteles, que a literatura, assim como a 
pintura, é mimese e, mais, meios de conhecimento da realidade seja interior ou exterior 
(pp.13, 20, 21, 61 de seu romance). Consideração que haveria de levar o Sr. José Saramago, 
sob a persona de H., a lançar um olhar sobre o foco-narrativo (pp. 113-114), subscrevendo 
o que sabido já é, basta lançarmos nós um olhar sobre qualquermanual de teoria literária, 
ou seja, que o foco de primeira pessoa, porque inerente à nossa humana limitação, é mais 
apropriado à autoescavação do que à dissecação e/ou sondagem dos outros, pois esta 
esvisceração demiúrgica do que beltrano e sicrano pensam ou sentem só é possível, mas não 
verossímil, se lançarmos mão da inverossimilhança inscrita na ubiquidade do todo-
poderoso narrador-onisciente, suposto dono da Verdade, esta, meus senhores e senhoras, 
sempre inalcançável (Cf. pp. 77-79). Basta consideramos quantas questionáveis Religiões e 
Filosofias por aí proliferam. Até mesmo a História, relato do que foi e aconteceu, segundo 
Aristóteles o disse ex cathedra em sua Arte Poética (tê-lo-ia mesmo dito?), não passaria de 
uma estória... da carochinha. Que não me deixem a mentir sozinho Michelet e Georges 
Duby , respectivamente avô e pai da dita Nova História, ambos persuadidos da 
subjetividade de qualquer discurso histórico, nascido da leitura das fontes e documentos, 
cujo trabalho de seleção implica a presença de um H.[omem], de um S.[ujeito], enfim, de 
um Eu, comprometido com a carga pessoal e com a carga ideológica de seu Tempo. 
 
11. Última demão 
Vou retirar a placa REVELAÇÃO EM UMA HORA que se estampa em letras 
coloridas na vitrine da Fot’Óptica F. Khom. De outra natureza, mais complexa e trabalhosa, 
é esta arte de retratar alguém ut pictura poesis. Há extamente oitenta e um dias (de 6/10 a 
25/12/03) estou a retocar este autorretrato do Sr. José Saramago inscrito nas feições 
caligráfico-pictóricas de H. 
Intermitências houve, diga-se a bem da verdade, ditadas por compromissos, mas de 
qualquer modo longo tempo levou esta revelação que, por fim, vem à luz num dia de Natal, 
na remansosa hora da digestão, findo o lauto almoço que comemora o indigente (segundo 
consta em evangelhos) nascimento de Cristo. Distribuídos os presentes, a quem coube a 
mirra? E o incenso? Só sei que a mim coube o ouro da revelação do autorretrato do Sr. José 
Saramago, efígie gravada nas feições palimpséstico-caligráfico-pictóricas de H. 
Cabalística coincidência, dirão os crédulos. Mistérios da epifania! 
Qual o quê! Engenhoso artifício, isso sim, decretarão, convictos, os cépticos, 
duvidando da verdade de minha informação. Afinal, a verdade, ora, a verdade não passa de 
conto da carochinha, como este aqui que o Sr-lambe-lambe-aí está engendrando, com o 
único fim de fazer coincidir a data desta revelação com essa história de auto de natal e 
ressurreição de um Autor como romancista. 
Mensagem papal, urbi et orbi, em nome da paz na terra aos homens de boa vontade, 
cada um fique com sua verdade e, sem beligerância, deixe passar a minha, pois a ela 
também tenho o direito, por mais relativa que seja. 
Passe, pois, este trocadilho com o livro de Francisco de Holanda:  De pintura 
antigua, já que matizado de clássica antiguidade, saiu-me o autorretrato do Sr. José 
Saramago inscrito nas feições palimpséstico-caligráfico-pictóricas de H. 
Exatamente como acima escrevi,  inspirado pela digestão de um divino arroz de 
pato,  comecei a última demão de meu retrato do romancista José Saramago. E, ainda 
sentindo no céu d boca o gosto celestial das fatias de parida impregnadas de vinho do Porto 
(que provém das caves de Vila Nova de Gaia), bebericando um brandy (nomeadamente o 
Croft, que muito me apetece), sob as nuvens etéreas de um charuto cubano (o fidelíssimo 
Coiba), assim prossigo, ao sabor das ideias: 
Auto de natal e anunciada páscoa de ressurreição literárias, creio ter-se revelado 
quando (em 1977), onde (em Manual de pintura e caligrafia) e como (à luz do 
Classicismo) renasceu romancista o Sr. José Saramago. 
Porque renascido à luz do Classicismo, entender-se-á o diálogo intertextual que 
travará em futuros romances com fontes e modelos, ora tácitos ora declarados. ( O ano da 
morte de Ricardo Reis, História do cerco de Lisboa, Todos os nomes, A Caverna, O 
homem duplicado. A pular décadas, cito-os apenas como adivinhas, para que o leitor se 
interesse em descobrir a que paradigmas  clássica homenagem ou clássica emulação?  
se arrimará o renascente romancista.) 
E porque renascido sob o signo do Classicismo... 
Antes de prosseguir, assente-se que por clássico entendo o magistério da 
Antiguidade greco-latina, fecundador dos princípios artísticos que nortearão, em Portugal, 
Classicismo, Maneirismo, Barroco e Neo-classicismo... Como veem não obstante lambe-
lambe... Corrigindo (bem-vinda tecla esta, a do delete): exatamente porque lambe-lambe, 
com o índice a percorrer seletas páginas bibliográficas, (oxalá não me venha o hábito leitor, 
à feição de O nome da rosa, envenenar-me), é que sei dessas coisas e loisas... Assim sendo, 
porque renascido sob o signo do Classicismo, compreender-se-lhe-á sua técnica criativa do 
trompe l’oeil  sua maniera de passar-nos a impressão de que está a lançar um olhar 
inédito e original sobre o déjà vu e o déjà lu. 
Ainda do berço desse auto de natal e de anunciada páscoa, que é Manual de pintura 
e caligrafia, nascerá o engajamento que, levantado do chão, servirá de bandeira a seus 
romances sobre a cegueira da condição humana. Ao cabo histórias ou memoriais de cercos 
sócio-político-econômicos, sua futura obra romanesca  metonimicamente encarnada em 
Raimundo Benvindo Silva?  há de travar também um diálogo intertextual com a História, 
procurando apagá-la (afinal, para que serve este sinal de nome deleatur?), corrigi-la, revê-
la. O que implica dizer tentar reescrevê-la. 
Ao contrário de H., não quero cobrir o retrato do romancista José Saramago com 
tinta negra, nem atirá-lo a um quarto de despejo, como se fosse obra que não merecesse 
contemplação. Afinal, contemplação quem não a merece? Mesmo que seja sob o bisturi, à 
Rembrandt, de esviscerante lupa. A corrigir a miopia impressionista do que não se 
contempla a justa e devida distância. 
 
[SP, 6/10/03 - 26/12/03] 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cartas à Redação: foro e desaforo do leitor 
 
“Quem dá com a língua nos dentes, às vezes está à procura do siso.” 
(Incunábulo dos Apólogos) 
 
 
SS (Schutz-Stafell = Servir e Salazar) 
Li com muito agrado o ensaio romanceado acerca de Manual de pintura e 
caligrafia. O ensaísta acaba por nos revelar que o Sr. José Saramago tem carradas de razão 
ao dizer que tudo já foi dito ou escrito sob a face da Terra; que a originalidade, não 
existindo, reside simplesmente numa nova maneira de apresentar o já visto ou o já lido. O 
Sr. F. Khom, fotógrafo de retratos 2x2, 3x4, 5x7, revela-se bem informado sobre a 
bibliografia em torno do tópico clássico ut pictura poesis que, com ares de ineditismo e 
orginalidade, foi parafrasicamente glosado pelo romancista José Saramago. Imperdoável, 
porém, que, ao ensaiar interpretações (e várias nos apresenta) em torno do sentido de S.,  
inicial do nome que tem no romance o senhor retratado por H. , o signatário do ensaio 
tenha se esquecido do mais óbvio. Aquele S., à feição de naja, uma naja tripudians, prestes 
a dar o bote, se refere e nos remete ao S inscrito na fivela do cinto da “Mocidade 
Portuguesa”: um S que duplamente significava “Servir” e “Salazar”. Ao cabo, um duplo e 
tácito S, a evocar o SS (Schutz-Stafell) da polícia política hitlerista. O ensaísta parece ter 
esquecido de trecho que se lê em Ano da morte de Ricardo Reis  “Se o filho de Lídia 
vier a nascer, se, tendo nascido, vingar, daqui por uns anos já poderá ir aos desfiles, ser 
lusito, fardar-se de verde e caqui, usar no cinto um S de servir e de Salazar, portanto duplo 
S, SS, estender o braço direito à romana, em saudação...” , trecho que, como se percebe, 
lhe dá o código para a interpretação do S. criptográfico. Legenda Vaz Est 
(legendavazest@literatura.com), São Paulo. 
 
Analfabetos funcionais 
Em 1995, quando o Sr. José Saramago recebeu o prêmio Camões, havia em Portugal 
5,5 milhões de analfabetosfuncionais numa população de 10 milhões de habitantes. Ou 
seja, a metade da população portuguesa era composta, pois, de pessoas incapazes de 
entender ou interpretar o que liam. Não consigo dormir ouvindo uma pergunta que não quer 
calar: Que parcela de 50% da população portuguesa concedeu ao Sr. José Saramago o 
prêmio Camões? Em 1998, quando o Sr. José Saramago recebeu o prêmio Nobel, qual a 
porcentagem de analfabetos funcionais compunha o júri sueco? E, a propósito: com tantos 
analfabetos funcionais não só em Portugal mas também no Brasil, quem é que entendeu 
esse rebuscado e pretensioso pastiche de crítica sobre Manual de pintura e caligrafia? 
Madre Tereza de São Tomé, São Tomé e Príncipe. 
 
Ler para crer 
Tal qual São Tomé eu é que precisei ler para crer que uma religiosa tenha escrito o 
que escreveu! Onde está o espírito religioso dessa Madre Tereza? É verdade que, a 180 
milhas da costa ocidental da África, ela está longe de ser uma Madre Tereza de Calcutá. 
Mas o incrível é que uma religiosa não demonstre a mais pequena humildade cristã e se 
mostre uma pessoa sem fé nos leres e saberes dos críticos. Eu não preciso ver para crer que 
essa Madre Tereza de São Tomé comete pelo menos cinco dos sete pecados capitais. É 
preguiçosa por não ler com a devida atenção a obra desse autor genial que é o Sr. José 
Saramago. Sendo avarenta na caridade, vaidosa, irada, além de invejosa, por que, para 
aliviar a alma do peso pecaminoso e amaro da carne, ela não procura seu confessor? Será 
que essa Madre teme a gula da luxúria? (Para não cometer o pecado da mentira, que tem 
carapaça e pernas curtas, como o cágado, e que na ida ou na volta sempre há-de ser 
alcançada pela lebre da verdade, confesso que isto que estou aqui a dizer foi escrito pelo 
meu homem, o Zé, natural de Freixo de Espada à Cinta, professor de primeiras letras e com 
uma espada, ai os meus pecados!, que lhe vem presa à cinta. É ele, o meu Zé, que me lê, 
serão adentro, os cordéis do Sr. José Saramago, dizendo sempre que o outro Zé, o Sr. José 
Saramago, trouxe o evangelho, ou seja, a boa nova, a novidade sobre a hipocrisia das 
crenças religiosas.) Lourdes de Fátima, Fátima (Portugal). 
 
 
 
 
IV. Objecto quase (1978) 
 
José Roberto Jauss Iser 
(Jornalista, enófilo e gourmet. Autor de Simpósio: como degustar um livro.) 
 
“Os enigmas da Esfinge sempre hão de revelar diabetes nos pés inchados de Édipo.” 
(Livro dos Arcanos) 
 
1. Às voltas com um título 
Valha-me, se o há, um Nosso Senhor dos Arcanos, para tirar-me deste crítico aperto. 
Sabido é que o Senhor cifrava suas escrituras com os mistérios insondáveis de 
metáforas e alegorias. Desvelar o que por Ele foi escrito direito em tortas linhas era tarefa 
que cabia a expertos exegetas ungidos pela inspiração que, obviamente, seria divina  
pentecostes capaz de abrir-lhes os miolos, inundando-os com a luz da revelação. Deve 
haver, pois, um padroeiro desses sábios charadistas, um Nosso Senhor dos Arcanos, que, 
devidamente invocado, venha livrar-me deste aperto em que me vejo, às voltas e 
reviravoltas com um título  objecto quase a tirar-me do sério. 
Uma pedra a mais no meio do caminho, José. E agora, seria inevitável perguntar. 
Só resta contorná-la, com cuidado, a sondar-lhe as arestas, não vá uma topada 
empecer a caminhada rumo à compreensão de sua matéria e essência. 
A que Objecto quase se refere o título desta coletânea de contos que tenho em 
mãos? Como ler a insólita conjunção de um substantivo (“objecto”) com um advérbio 
(“quase”) aí respingado com a coloração de adjetivo? “Quase objecto”, se assim fosse o 
título, soaria menos estranho a ouvidos gramaticais, acostumados a um quase que, 
antecedendo um substantivo, por pouco, por um triz, lhe rouba a completude e essência de 
Ser. 
Por outro lado, com que pontuada entonação, ó meu Nosso Senhor dos Arcanos, 
devo escandir esse Objecto quase. Estaria a afirmar, secamente, que o Ser é Objecto e, dada 
a pausa requerida pela expectação de uma vírgula, salvá-lo, por um fio de cabelo ou de 
Ariadne, da coisificação que o ameaçava:  Objecto, quase. Puxa, que alívio. Ou será que 
a indagar-me, a indagar-nos, mete-se ali um criptográfico (mas soante a ouvidos atentos) 
ponto de interrogação  Objecto?  para, ao longo do livro, conscientizar-me, 
conscientizar-nos, do perigo que corro ou corremos rumo à coisificação e que, graças à 
conscientização trabalhada pelas páginas do volume, serei, seremos, salvo(s)  Quase. 
Onanismo crítico esta circunvolução stanislavskiana de entoação e entonação  
Objecto, quase. Objecto? Quase.  à busca do sentido que nos empresta a oralidade, 
despida dos sinais gráficos de pontuação? 
Apenas sigo ensinamento do Sr. José Saramago, a dizer que a gente “só pode 
entender o texto se estiver dentro dele, se funcionar como alguém que está a colaborar na 
finalização que o livro necessita, que é a sua leitura.” 20 
(Aqui entre nós: esse axioma fenomenológico assentado por Roman Ingarden,  o 
de que o livro só se reatualiza e se completa na leitura , de verdade passou a truísmo. A 
tal ponto, que sua verdade, por tão evidente, se tornou trivial, ad usum delphini de 
escritores, intelectuais e acadêmicos. No rol dos escritores, pelo que se me lembra no 
momento, Sartre, José Cardoso Pires e nosso Sr. José Saramago professam-no e 
reproduzem-no. Já na onda dos acadêmicos, lembra-se-me que a evidência  o livro só se 
reatualiza e se completa na leitura  se transformou num oceano de tinta, maremoto a fazer 
transbordar a dita “Teoria da Recepção”. Que o digam a Escola de Constança e meus quase 
xarás Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, assim conhecidos por todos os nomes, enquanto 
me conheço pelos nomes José Roberto Jauss Iser, que me deram meu pai e minha mãe  
ambos a considerarem que os avoengos das famílias materna e paterna deveriam sobreviver, 
ad perpetuam rei memoriam, ou seja, para lembrança perpétua da coisa ou do fato, no 
tálamo conjugal. Constância de costumes, sem nada a ver com a Escola de Constança.) 
Como se percebe (ou não), pondo em prática a Teoria da Recepção, estou a tentar ler 
Objecto quase. Começando por abri-lo pelo título. Que, se não fosse rebuscado pelo 
preciosismo da sínquise, imediata e simplesmente nos levaria a dar ao “quase” seu sentido 
próprio,  ora, pá, pronto, pois , e ver o “objecto” em pauta livre e salvo, por pouco e 
por obra do demiurgo, nosso Sr. José Saramago, do perigo da coisificação. 
 
20. Carlos Reis, Diálogos com José Saramago, Lisboa: Caminho, 1998, pp. 101-102. 
Admitida esta singela hipótese de interpretação, cabe perguntar quem ou que é esse 
“objecto” escapo,  ôpa, “quase”, por um triz,  da reificação. 
Elementar, meu caro Watson, apetece-me aqui dizer em homenagem aos leitores 
ingleses desse Saramago quase. Ora, meus caros Watsons, esse Objecto quase, salvo da 
coisificação, é o ser humano. Ou não seria a de um H.[umanista]21 a crença político-
ideológica do Sr. José Saramago. 
Posto nesses termos elementar e sherlockianamente britânicos, clarifica-se que o 
tema central das narrativas reunidas em Objecto quase corre à conta do perigo que ameaça 
o Homem de reificar-se , presa e vítima de desumanas circunstâncias sócio-econômicas 
geradas pelo sistema capitalista. Natural, pois, que a epígrafe do volume seja retirada de A 
Sagrada Família, de K. Marx e F. Engels: “Se o homem é formado pelas circunstâncias, é 
necessário formar as circunstâncias humanamente.” 
Porque de importância para a compreensão da mundividência inscrita em Objecto 
quase, registre-se que a epígrafe de Marx e Engels não só permeia o volume, como ecoa no 
final do relato “Coisas”: “Não tínhamos outro remédio, quando as coisas éramos nós. Não 
voltarão os homens a ser postos no lugar das coisas.” (p.105) 
(A propósito: lê-seem Cadernos de Lanzarote, dia 15 de janeiro de 1995: “Contra 
mim falo: o melhor que às vezes os livros têm são as epígrafes que lhes servem de 
credencial e carta de rumos. Objecto Quase, por exemplo, ficaria perfeito se só contivesse a 
página que leva a citação de Marx e Engels. Lamentavelmente, a crítica salta por cima 
dessas excelências e vai aplicar suas lupas e os seus escalpelos ao menos merecedor que 
vem depois.”) 
Sem ter saltado, praza aos Céus, por cima da excelência dessa epígrafe 
saramaguiana para aplicar lupa e escalpelo “ao menos merecedor que vem depois”, assento 
que “Coisas” será o coração da coletânea, a que confluem as artérias representadas pelas 
narrativas “Embargo”, “Refluxo”, “Cadeira”, e as veias (poéticas) por que correm 
“Centauro” e “Desforra”. (Acabo de sugerir-lhes, novo julio-cortazariano Jogo de 
Amarelinha, uma ordem para a leitura das seis histórias que compõem Objecto quase.) 
 
 
21. Lembram-se de H.[omem], o pintor de Manual de pintura e caligrafia? Quem disse que inexiste o DNA 
2. Coisas em seu devido lugar 
Antes de qualquer outra coisa, chamemos a atenção para o fato de que os títulos 
remetem a substantivos concretos (“Coisas”, “Cadeira”, “Centauro”) e abstratos 
(“Embargo”, “Refluxo”, “Desforra”) que, despojados do artigo seja definido seja 
indefinido, se oferecem em sua essência de res. Estamos, pois, no âmbito do ser, da coisa, 
da substância, que, dotados de existência animada ou inanimada, podem ser reais ou 
imaginários; podem ser concretos, se tiverem substância própria, existindo per si, ou 
abstratos serão, se existirem, enquanto ação, estado ou qualidade, em função de outra coisa, 
ser ou substância. Ao cabo, estamos nas águas da teleologia, já que a realidade, composta 
de seres animados ou inanimados, concretos ou abstratos, reais ou imaginários, se nos 
apresenta como um sistema de relações entre meios e fins, circunstância a que não escapa o 
homem nela posto em causa. 
Dito isso, ponhamos “Coisas” em seu devido lugar. Trata-se, ao cabo, de uma 
fábula sócio-político-econômica passada num “país excelentemente administrado, as 
funções bem repartidas, o governo capaz e com grande experiência de transformação 
industrial.” (p. 76) Nesse espaço social, vive uma sociedade hierarquicamente organizada 
seja pelo poder econômico seja por uma misteriosa ascendência de casta. A população 
compõe-se de “cidadãos utentes”, ou seja, cidadãos cuja função social reside no uso e 
consumo de mercadorias e produtos postos à disposição por um “serviço de requisições 
especiais (sre)”. Na palma da mão direita (a marcar a direção ideológica do governo?), os 
“cidadãos utentes” trazem tatuadas em verde (a cor do fascismo? 22) letras de A a Z, 
identificadoras de sua precedência sócio-econômica. Naturalmente as precedências A e B 
ocupam a cabeça do governo central (gc). Já a precedência C põe-se como anelo e ambição 
possível dos comuns “cidadãos utentes”. Tanto que, na situação de crise em que se 
encontrará, o governo central (gc) oferecerá a possibilidade de promoção à precedência C a 
todos quantos venham a ajudar as autoridades no esclarecimento das catastróficas (e 
fantásticas) ocorrências que assolam o País. Subalterno funcionário do “serviço de 
 
literário? 
22. Em resposta à palavra de ordem governamental “Vigilância e mão aberta”, assim agiu a multidão: “Nasceu 
assim, ao mesmo tempo por toda a cidade, a prática mais imediata e rápida de reconhecimento e identificação: 
as pessoas não precisavam parar, passavam umas pelas outras, de braço estendido, dobrando a mão, pelo 
pulso, para cima, e exibindo a palma marcada com a letra da precedência.” (pp. 89-90) Quem não reconhece 
requisições especiais (sre)”, naturalmente humano e perdoável que o anônimo anti-herói do 
relato do Sr. José Saramago (embrião, na condição celibatária e na subalternidade, do Sr. 
José-sem-mais-apelidos de Todos os nomes?) aspire a escapar do gueto de sua condição 
social: 
“Seria grande azar seu se não conseguisse informações úteis ao governo (g), suficientemente úteis 
para lhe merecerem a precedência C. Nunca tivera ambições, mas agora chegara o momento de as ter com 
legítimo direito. A precedência C significaria, pelo menos, funções de muito maior responsabilidade no 
serviço de requisições (sr), significaria, quem sabe, transferência para um sector mais próximo do governo 
central (gc). Abriu a mão, viu o seu H, imaginou um C no lugar dele, saboreou a visão do enxerto de nova pele 
que lhe fariam.” (p. 80) 
Nesse pseudoparaíso tecnológico, em que tudo parecia funcionar à perfeição, 
instala-se a crise: a revolta dos “oumis”,  ou seja, dos “objectos, utensílios, máquinas e 
instalações” (p. 79), que, fugindo ao controle das autoridades e dos utentes, iniciam uma 
série de atentados e devastações terroristas que vão da guerrilha doméstica e urbana à 
guerra declarada e sem fronteiras. São portas que, ao fecharem-se automaticamente, ferem 
as mãos que julgam ter o domínio de fechá-las. São sofás que têm febres (em represália ao 
calor do corpo humano?) e são tratados por injeções subministradas de hora em hora, 
segundo o receituário do sm, ou seja, pelo serviço médico. São degraus que, (já não 
suportando o peso do tacão humano em seu sobe e desce social?), desaparecem, a exigir 
acrobacias circenses dos “cidadãos utentes”. São caixas de correio que, (rebeladas contra a 
incomunicabilidade humana?), somem num picar de olhos. São prédios que, num hausto 
vingativo, são sugados, assoalhando as ruas de cadáveres nus (despojados de suas vestes e 
bens, a todos iguala a morte?). A devastação inexorável e gradativa do espaço social urge 
medidas urgentes, drásticas, retaliativas contra o inimigo oculto e desconhecido: 
“Previnem-se todos os cidadãos utentes de que por ordem do estado-maior-general das forças 
armadas (emgfa) será bombardeado, a partir das sete horas da manhã, pelos meios da artilharia (a) e da 
aviação (a), o sector leste da cidade, como primeira medida de retaliação. Os cidadãos utentes que moram no 
sector a bombardear já foram retirados das suas casas, encontrando-se alojados em instalações 
governamentais, devidamente vigiadas. Serão indemnizados de todas as suas perdas materiais e de todos os 
incómodos morais que esta ordem inevitavelmente virá a causar. O governo (g) e o estador-maior-general das 
forças armadas (emgfa) garantem aos cidadãos utentes que o plano elaborado de contra-ataque será levado às 
suas últimas consequências.” (pp. 99-100) 
 
no gesto a saudação nazifascista? 
Embrionário Ensaio sobre a cegueira, o governo (g) e o estador-maior-general das 
forças armadas (emgfa) não esclarecerão (e nem a narrativa) a razão por que o contra-ataque 
retaliativo terá por alvo o setor leste da cidade. Uma vez mais temos que invocar o Nosso 
Senhor dos Arcanos e pedir-lhe que nos sopre a interpretação da criptográfica escritura do 
Sr. José Saramago. 
Ora, então óbvio não é que o setor Leste, naquele 1978, ano da publicação do livro, 
conota os países do leste europeu comunista. Afinal, camaradas, toda e qualquer insurreição 
contra o processo capitalista da reificação só poderia advir de uma banda ideológica sita 
num setor Leste. A bem da verdade, não posso deixar de assinalar que esse tal setor Leste 
será obscuramente concebido pela narrativa (saber-se-á apenas no final) como um espaço de 
resistência e salvação onde, num bosque (nostálgico fugere urbem?), se refugiaram 
“homens e mulheres que ali se tinham escondido desde que a revoltacomeçara, desde o 
primeiro oumi desaparecido” (p. 105). Natural que todos nus. Ou não seriam uma 
coletividade de renascentes adãos e evas, genealógica árvore de nova espécie humana. Se 
no tal bosque, emboscados, tramaram e resistiram contra a reificação já não lhes sei dizer, 
nem mesmo invocando meu Nosso Senhor dos Arcanos. Apagando os rastros da subversão 
e guerrilha desses adãos e evas sem folha de parreira nas partes pudendas, o relato não nos 
deixa pistas interpretativas que haveriam de levar à compreensão e solução do caso 
oferecido como de proveito e exemplo. Também, vamos lá, companheiras e companheiros, 
se o Sr. José Saramago tivesse trabalhado, cartesiana ou aristotelicamente, a 
verossimilhança da narrativa, como inseri-la na categoria do Fantástico e do Absurdo. Do 
fantástico absurdo que é, em sua proposta, o Homem, alienado e reificado, tornar-se objecto 
numa sociedade capitalista. 
Objecto quase assegura-nos o título do volume. Esperançosamente. Assim sendo, 
em “Coisas”, a fábula do Sr. José Saramago traz um final prenhe de humanismo otimista. 
Ao caos instalado sobrevirá, como já adiantei linhas acima, a promessa de novo cosmos  
à luz nascente de um Sol metaforicamente desgastado em termos literários. Por um triz, pá, 
quase, o setor Leste (insurreto e resistente?) não será objeto de um ataque fulminante. 
 Num passe de mágica, no preciso momento do bombardeio planejado, o hausto 
consumista daquela sociedade de “cidadãos utentes” há de sugar a cidade e parir uma nova 
comunidade nuinha em pelo, modelito a rigor de toda cosmogonia que se preze: 
“Mas nenhum tiro chegou a ser disparado. No preciso instante em que o oficial ia gritar: “Fogo!”, o 
microfone fugiu-lhe das mãos. Inexplicavelmente, os aviões fizeram uma curva apertada e voltaram para trás. 
Este foi apenas o primeiro sinal. Um silêncio absoluto espalmou-se sobre a planície. E de repente a cidade 
desapareceu. No lugar dela, a perder de vista, surgiu uma outra multidão de mulheres e homens nus, 
desentranhados do que fora a cidade. Desapareceram as peças de artilharia e de todas as outras armas, e os 
militares ficaram nus, rodeados pelos homens e pelas mulheres que antes tinham sido roupas e armas. Ao 
centro, a imensa nódoa escura da população da cidade. Mas também essa, no instante seguinte, se 
metamorfoseou e multiplicou. A planície tornou-se subitamente clara quando o Sol nasceu. Foi então que do 
bosque saíram todos os homens e mulheres que ali se tinham escondido desde que a revolta começara, desde 
o primeiro oumi desaparecido. E um deles disse:  Agora é preciso reconstruir tudo. E uma mulher disse: 
 Não tínhamos outro remédio, quando as coisas éramos nós. Não voltarão os homens a ser postos no lugar 
das coisas.” 
Como se vê, um happy end esperançoso, a apagar do mapa as circunstâncias 
desumanas a que estavam submetidos os “cidadão utentes” e a proclamar a urgência de 
“reconstruir tudo”, ou seja, de “formar as circunstâncias humanamente”, como propunha a 
epígrafe de Marx e Engels. 
Percebe-se que o relato de “Coisas” não chega a ser, rigorosamente, um conto. 
Trata-se, na verdade, de um embrião de romance, tantas são as fissuras na edificação da 
fábula, a exigirem preenchimento. Por que o setor Leste há de ser identificado como 
inimigo responsável pelas fantásticas catástrofes? (Verdade, e o leitor atento é testemunha, 
que aventei uma hipótese interpretativa, a que acrescento outra, qual seja tratar-se da falta 
de lucidez dos governantes, embrionando aqui a matéria do romance que o Sr. José 
Saramago dará a lume em 2004 sob o título de Ensaio sobre a lucidez.) Como se processa a 
gradativa humanização dos oumis (objetos, utensílios, máquinas e instalações)? Já que os 
insurretos e emboscados adãos e evas se contrapõem tão consciente e politicamente aos 
alienados “cidadãos utentes”, por que, só no epílogo, retirá-los de mágica cachola, quer 
dizer, cartola? Transformados em deus ex machina conveniente para proveito e exemplo do 
relato, não chegamos a conhecer-lhes a real motivação, nem como se deu a fuga, nem sob 
cuja liderança e ideal se emboscaram para a resistência. 
“Pergunte aos organizadores, Onde estão, quem são eles, Suponho que todos e 
ninguém, Tem de haver uma cabeça, isto não são movimentos que se organizem por si 
mesmos, a geração espontânea não existe, e muito menos em acções de massa com esta 
envergadura”. 
Assim, nos termos deste diálogo, me responderia Ensaio sobre a lucidez, à página 
138, passados vinte e seis anos sobre “Coisas”, a sugerir-nos que seminal e embrionária 
estava ali naquele relato de 1978 a ideia de uma resistência gerada espontaneamente, ou por 
palavras outras, tiradas ainda de Ensaio sobre a lucidez, página 166, “cada um decidiu por 
sua conta e a sós com sua consciência, não se deu fé de qualquer convocatória vinda de 
cima nem palavra de ordem que fosse preciso aprender de cor”. 
 Mesmo considerando que seja boa e legítima a resposta, ela não está clara nem 
presente em “Coisas”. Como persistem as lacunas na efabulação, fica-me a impressão de 
que estou diante de um plano (ou rascunho) de romance que, retirado da gaveta e rebocado 
aqui e ali, foi dado a lume como conto porque, afinal, resultou em 38 páginas. Não cabe 
aqui discutir o que é conto; tampouco engalfinhar-me contra os que defendem que o conto 
se mede pela extensão, sempre short, de páginas. Remeto o leitor à fruição de Poe, 
Machado de Assis, O. Henry, Tchecov, de cujas narrativas breves se podem extrair a 
estrutura e característica da fôrma conto, como o fez Massaud Moisés em A criação 
literária – prosa I (SP: Cultrix, décima-quinta edição, revista e atualizada em 1994). 
 
3. Refluxo dialético? 
O segundo relato, na ordem proposta pelo volume e na sugerida por este ensaio, 
pode, sem embargo, ser rotulado de conto. Intitulado “Embargo”, retira seu título dos 
empecilhos criados pelos árabes à exportação do petróleo. A ameaça de colapso no 
fornecimento de combustível começa a gerar ansiedade, medo e, naturalmente, desenfreada 
corrida aos postos de gasolina: 
“Este estúpido embargo. O pânico, as horas de espera, em filas de dezenas e dezenas de carros. Diz-
se que a indústria irá sofrer.” (p. 35) 
Às vésperas do Natal, tendo por pano de fundo aquela circunstância político-
econômica, trava-se o conflito entre dois “utentes”: um cidadão, anônimo como convém a 
um anti-herói, e seu carro. Num dia exemplar e definitivo para sua vida, como, aliás, 
requer a rigor todo conto, um homem vê-se preso, dominado e guiado por seu automóvel 
que, na pane e pânico de sua voracidade consumista, se dirige a todos os postos que ainda 
disponham de gasolina para abastecer-se, não obstante traga o tanque cheio: 
“O que estava a passar-se era absurdo. Nunca ninguém ficara preso desta maneira no seu próprio 
carro, pelo seu próprio carro. Tinha de haver um processo qualquer de sair dali.” (p. 41). 
A libertação só ocorrerá quando a gasolina se acabar e o carro já não encontre posto 
onde, mais do que reabastecer-se, venha compulsivamente a atestar o tanque, temeroso de 
ver-se privado de um produto tornado sua razão de ser. A exemplo de “Coisas”, a fábula 
alegórica remete a um outro “cidadão utente” dominado por um “oumi” insurreto que ganha 
vida própria à revelia do homem. Moral do relato, ainda à sombra da epígrafe tirada a A 
Sagrada Família, de Marx e Engels: se o homem e os “oumis” (lembre-se a sigla, 
“objectos, utensílios, máquinas e instalações”) são formados pelas circunstâncias, é 
necessário formar as circunstâncias sócio-político-econômicas humanamente. 
A terceira narrativa inscrita no volume, sob o título “Refluxo”, passa-se num país 
cujo rei, incomodado com a presença da morte, incapaz de suportar até mesmo “a simples 
vista de seu aparatos, acessórios e manifestações, seja a dor dos parentes ou os sinais 
mercantis do luto”, resolve construir no centro geométricodo reino um único e gigantesco 
cemitério de 100 quilômetros quadrados: 
“No dia em que o rei, oficialmente, por sua própria boca e voz, declarou que o país se encontrava 
limpo de morte (palavra sua), decretou-se feriado e festa nacional.” (p. 56) 
 O “Refluxo” de que trata a narrativa, diz respeito à Vida que, tendo sido apartada da 
Morte por decreto, busca, para sobreviver, a contiguidade do cemitério, instalando-se, ao 
longo dos seus muros, com cidades, comércio e indústria e serviços: 
“Quatro cidades se interpuseram assim entre o reino e o cemitério, cada uma virada ao seu ponto 
cardeal, quatro cidades inesperadas que começaram por chamar-se Cemitério-Norte, Cemitério-Sul, 
Cemitério-Oriente, Cemitério-Ocidente, mas que depois foram mais benignamente baptizadas e denominadas, 
pela ordem, Um, Dois, Três e Quatro, porquanto haviam sido vãs todas as tentativas para lhes atribuir nomes 
mais poéticos ou comemorativos. Estas quatro cidades eram quatro barreiras, quatro muralhas vivas de que o 
cemitério se rodeava e com elas se protegia. O cemitério representava cem quilómetros quadrados de quase 
silêncio e solidão, cercados pelo formigueiro exterior dos vivos, por gritos, buzinas, risos, palavras soltas, 
roncos de motores, pelo interminável sussurro das células.” (p. 62). 
Claro está que o cemitério único e gigantesco não conseguiu nivelar, pela morte, 
ricos e pobres. As diferenças sociais continuaram a manifestar-se dentro do cemitério e fora 
dele, reflexos dos pontos cardeais norteadores de classes: 
“Sendo a região de mais ricos do país a região Norte, esse lado do cemitério tomou, no seu modo 
monumental de ocupar o espaço, uma expressão social oposta, por exemplo, à do lado sul, que precisamente 
correspondia à região mais miserável. O mesmo se passava, no geral, quanto aos outros lados. Cada qual com 
seu igual. Embora de uma maneira menos definida, o lado de fora acompanhava o lado de dentro.” (p. 60) 
Não se pode regular, por decreto, em qualquer utopia que se conceba, a Vida, quanto 
mais a Morte  é o que interpreto, invocando uma vez mais meu Nosso Senhor dos 
Arcanos. Pois o inevitável haveria de acontecer: 
“Uma investigação sumária, mais tarde feita, apurou casos na própria periferia exterior da Cidade 
Dois, a mais pobre de todas, virada ao sul, como já foi dito: corpos enterrados em pequenos quintais 
familiares, por baixo de flores vivas que se renovavam todas as primaveras. Por esse mesmo tempo, como 
aquelas grandes invenções que em vários cérebros irrompem simultaneamente porque chegou o tempo do seu 
amadurecimento, em lugares pouco povoados do reino, certas pessoas decidiram, por muitas, diferentes e às 
vezes opostas razões, enterrar os mortos ali ao pé, no interior de grutas, ao lado de carreiros de florestas ou na 
encosta abrigada de montes. A fiscalização andava então muito menos activa e abundavam os funcionários 
que consentiam em deixar-se subornar. O serviço geral de estatística informou, de acordo com os registos 
oficiais, que estava a verificar-se uma acentuada baixa da mortalidade, o que, logicamente, começou por ser 
levado a crédito da política sanitária do governo, sob a suprema autoridade do rei. As quatro cidades do 
cemitério sentiram as consequências do menor fluxo de mortos. Certos negócios sofreram prejuízos, houve 
não poucas falências, algumas fraudulentas, e quando enfim se reconheceu que a real política de saúde, por 
excelente que fosse, não ia a caminho de conceder imortalidade, foi baixado um decreto ferocíssimo para 
reconduzir as populações à obediência. Não serviu de muito: após um breve fogacho de animação, as cidades 
estagnaram e decaíram. Devagar, tão devagar, o reino começou a repovoar-se de mortos.” (p. 63) 
Consuma-se assim o “Refluxo” que intitula a fábula. O próprio rei que 
ingenuamente pretendia banir e livrar-se da morte, já muito velho, sucumbe ante a visão (e 
aviso?) da ponta aguda de um cipreste, nascido num quintal, e escolhe ser enterrado na 
clareira de um bosque: 
“Arrastando o seu manto real, seguiu devagar por uma álea que ia dar ao coração fechado do bosque. 
Ali numa clareira se deitou, sobre as folhas secas se deitou, e estando deitado olhou o guarda que se ajoelhara, 
e disse antes de morrer: “Aqui.” (p. 64) . 
Saio da leitura do relato, achando tratar-se, que me valha meu Nosso Senhor dos 
Arcanos, 
a) de uma efabulação do princípio da dialética dos contrários, considerando que se 
entende por “refluxo” um movimento contrário e sucessivo a outro; 
b) de um libelo contra a voracidade do sistema capitalista, capaz de transformar até 
mesmo a morte, essa bíblica niveladora das diferenças sociais, em um excelente negócio, 
gerador de indústrias, produtos e serviços; 
c) da efabulação do existencialismo heideggeriano de que o homem é um ser-para-o-
fim (Sein-zum-Ende), fundamentalmente um ser para a morte (Sein-zum-Tode). 
As opções a) e b) talvez venham a traduzir o engajamento sócio-político do Sr. José 
Saramago. Quanto à opção c)... Bem, vamos a ver. Ao escolher ser enterrado fora do 
cemitério, ou seja, fora do âmbito de sua utopia, o velho rei sucumbe ante o fato de que 
todo projeto humano está na dependência da Morte, termo final de tudo, segundo 
Heidegger, pois a experiência mais pessoal e intransferível é a morte. O relato parece 
figurar, no sonho e decreto do rei, a situação do Ser (Dasein) que, sabendo-se um ser para a 
morte (Sein-zum-Tode) e temeroso de defrontar-se com ela, evita assumir a realidade que 
ela representa, refugiando-se numa existência inautêntica (sua utopia), para, dessa maneira, 
fugir à angústia suscitada pelo espectro sempre presente da Morte. 
Conto de ideia, entremostrando uma visão crítica, política e filosófica da existência, 
“Refluxo”, a exemplo de “Coisas”, anuncia um dos vetores da futura ficção do Sr. José 
Saramago: o ensaístico. Tanto que vemos em “Refluxo” o embrião heideggeriano (Sein-
zum-Ende, Sein-zum-Tode) que, profética Cassandra-Sibila sei, será desenvolvido 
posteriormente. Com cemitério kafkiano e tudo, em Todos os Nomes (1997). Com 
romântico e melodramático desfecho em Intermitências da Morte (2005). Mas isso são 
contos largos, para páginas outras. 
 
4. Ex-cathedra 
Falemos agora de “Cadeira”. Dos relatos enfeixados no volume é o de que mais 
gosto. Ouço nele balbuciarem a dicção e a maniera futuras do Sr. José Saramago. Em 
câmera lenta, a ressumar gozosa vingança, o narrador esmiuça o trabalho de sapa e 
conspiração de um voraz e subversivo caruncho a roer o madeirame do assento, da cadeira, 
da cathedra de um ditador (cathedra aqui cai bem, afinal, quem não o sabe?, professor 
universitário foi ele em Coimbra), fazendo-o desabar de podre e ferir a cabeça,  contusão 
que há de comprometer-lhe o cérebro, responsável por tê-lo feito o cabeça da Ditadura, 
segundo leio em História Concisa de Portugal, do Sr. José Hermano Saraiva, p. 351 de 
uma sétima edição saída em 1981, e peço licença para transcrever, não se pense que estou a 
inventar, pois de ponderação é o registro, levando em conta que já “...em 1929 era 
considerado como a única cabeça pensante da equipa de governantes da ditadura e como o 
homem forte do Governo”, cuja chefia, como presidente do Conselho de Ministros, veio a 
exercer por trinta e seis anos, de 1932 a 1968. Ironia do Destino essa de vir instalar-se a 
morte nos miolos do cabeça pensante e regente de uma ditadura. 
 A alegoria inscrita em “Cadeira” tem nome e assento na História. História, segundo 
os termos aristotélicos não do que poderia ter sido mas do que o foi no passado, de cuja 
veracidade não duvidou o Sr. José Saramago, como, no futuro, virá a fazer em romances 
cujo conto também não cabe aqui. E não duvidou talvez porque, nessa quadra da História, 
tivesse sido testemunha ocular e presencial dos fatos  essa, aliás, é a sugestão do 
narrador, a acompanhar, in loco, passo a passo, o desabar do velhoditador. Autópsia de 
uma queda, “Cadeira” registra a causa mortis do Salazarismo: o acidente vascular-cerebral 
que, para a saúde democrática de Portugal, vitimou Salazar em 1968, levando o regime 
discricionário às vascas de uma agonia cujo fim se dará em 25 de abril de 1974. 
Não sei muito bem por que a orelha do volume de Objecto quase, ao apresentar os 
relatos, cala tratar-se “Cadeira” de uma alegoria da queda do Salazarismo. Talvez queira dar 
a “Cadeira” uma universalidade emblemática acerca de quedas, por podres, de ditaduras. 
Ocorre que o relato está ancorado na realidade de um fato inscrito num tempo histórico bem 
português. O que o faz diferir da universalidade alegórico-emblemática de “Coisas”, 
“Refluxo”, “Embargo” e mesmo “Centauro”. Conto de personagem, só não reconhece, em 
“Cadeira”, a figura de Salazar e da agonia do Salazarismo quem for português 
desmemoriado ou não tiver navegado pelas águas da cultura lusíada. 
Afinal,  conta-nos a história de proveito para exemplos futuros , o velho que, a 
gozar férias de verão na residência oficial do Estoril, desmorona da cadeira em 7 de 
setembro de 1968, é natural de Santa Comba do Dão, onde veio a lume em 28 de abril de 
1889, encadernado talvez no marroquim de medievos missais. Verdade que velhos outros 
também terão nascido em Santa Comba, mas nenhum teve residência oficial de veraneio 
num forte à beira-Atlântico plantado, sito no aprazível Estoril, nem gozou trinta e seis anos 
de assento naquela cadeira prestes a desabar por obra e graça de carunchos antifascistas: 
“Vê-a de longe o velho que se aproxima e cada vez mais de perto a vê, se é que a vê, que de tantos 
milhares de vezes que ali se sentou a não vê já, e esse é que é o seu erro, sempre o foi, não reparar nas 
cadeiras em que se senta por supor que todas são de poder o que só ele pode. S. Jorge, santo, veria ali o 
dragão, mas esse velho é um falso devoto que se mancomunou, de gorra, com os cardeais patriarcas, e todos 
juntos, ele e eles, in hoc signo vinces.” (p. 20) 
Graças ao narrador hic et hoc, vemo-lo ainda (não o narrador, claro, mas o ditador) 
calçado no velho hábito das botas , hábito que não faz o monge mas que vem da época 
em que foi seminarista em Viseu, donde lhe adveio, a par da celibatária misoginia, talvez a 
aura de ascetismo e quase santidade incensada pela crença ingênua dos que viam nele, 
valha-nos Nossa Senhora de Fátima, um redentor, um assinalado. Afinal, se não fora ele um 
ungido das graças divinas, como explicar saísse ileso de um atentado a bomba em quatro de 
julho de 1937, obra de uma camarilha de trabalhadores anarquistas ou comunistas, segundo 
o jargão comprometido de uma imprensa vesga além de já amordaçada. 
Claro está, pá. Só se fores parvo ou incréu, não hás de entender. Pois não acabara de 
sair o homem de uma missa dominical. Além do mais, era dia de Santa Isabel, aquela santa 
CCC, entenda-se Cozinha, Criança e Capela, versão portuguesa do hitlerista KKK (küche, 
kind, kirche). Enfim, pronto, a santa de casa que fez milagre, sobretudo o de casar-se com o 
prolífico D. Dinis, aquele que, na toada de um samba brasileiro, também fazia cantares e 
filhos (bastardos) até mais tarde. Como era aquele quatro de julho de 1937 dia de Santa 
Isabel, ocorreu simplesmente mais um milagre das rosas. Embora... já o posso dizer, graças 
a Deus... embora não fosse flor que se cheire o aqui indigitado. 
Desculpe-se, pois, ao narrador comprometido meter-lhe o par de botas “para que se 
não soubesse que são bifurcados [os pés]” (p. 22), são licenças pouco poéticas concedidas a 
quem pinta o capeta, mas botas lembram tacão e tacão lembra pisar, calcar, esmagar, todas 
ditas duras ações de espezinhamento, cabíveis aqui no caso e biografia do velho. 
 A catadura também não desmente a figura. Registra-a o narrador bem de perto, para 
não deixar dúvida de quem o retrato sem retoque: 
“Vai a cair para trás. Aí vai. Aqui, mesmo em frente dele, lugar escolhido, podemos ver que tem o 
rosto comprido, o nariz adunco e afiado como um gancho que fosse também navalha, e se não se desse o caso 
de ter aberto a boca neste instante, teríamos o direito, aquele direito que tem toda e qualquer testemunha 
ocular, que por isso diz eu vi, de jurar que não há lábios nela.” (p. 21) 
Fisiognomonia diz-se da arte de conhecer o caráter das pessoas pelo traços 
fisionômicos, portanto, quem vê cara vê coração sim, errado anda por aí o adágio. Ah, 
senhores e senhoras, aquela boca sem lábios muita coisa quer dizer. Impressionou até uma 
senhora de nome Christine Garnier, fonte fidedigna e insuspeita pelo panegírico (resisti para 
não grafar panejirico) que, em remansosas Férias com Salazar (Lisboa: Fernando Pereira – 
Editor), tricotou desse velho que está a desabar, ela que também deixou para a posteridade 
o registro de que ele, “este chefe vestido com elegância” [...], “usa botas como um 
eclesiástico” (pp. 37 e 12), calando ela, contudo, a circunstância de o hábito das botas 
derivar também de um defeito congênito, um a mais em tantos. De sete léguas estas botas 
que já lá em cima estiveram e andam agora de volta. 
Enfim, toda e qualquer semelhança com o Sr. Antônio de Oliveira Salazar não terá 
sido mera coincidência. O homem aqui duplicado é o próprio. Suave, para o narrador, é esse 
mês de setembro dia sete do ano de 1968, a prenunciar o outono do patriarca, ferido de 
morte: 
“Aqui, na cabeça, neste sítio onde o cabelo aparece despenteado, é que foi a pancada. À vista, não 
tem importância. Uma ligeiríssima equimose, como de unha impaciente, que a raiz do cabelo quase esconde, 
não parece que por aqui a morte possa entrar. Em verdade, já está lá dentro. Que é isto? Iremos nós apiedar-
nos do inimigo vencido? É a morte uma desculpa, um perdão, uma esponja, uma lixívia para lavar crimes?” 
(p. 29) 
Conta-me agora a História, e não o conto do Sr. Saramago, inútil e ineficaz será 
operar o velho ditador às pressas. Santa Isabel ausenta-se, talvez preocupada em impedir 
novas cantadas de amor do insaciável D. Dinis, pai também da Universidade de Coimbra. 
Nossa Senhora de Fátima com certeza invocada foi pela Sra. Maria de Jesus Caetano Freire, 
mas só os desígnios divinos sabem por que a ubíqua mãe de Jesus fez ouvidos surdos às 
preces da fiel serviçal. Hemiplégico, o velho que desabou ex cahedra foi substituído na 
Presidência do Conselho de Ministros em 26 de setembro de 1968 por outro vulto de 
cadeira de onde também viria a desabar, o Dr. Marcelo Caetano, nomeado em 1933, à época 
do Estado Novo, professor de Direito Corporativo na Universidade de Lisboa, autor do 
“Estatuto do trabalhador”, cópia parafrásica da Carta del Lavoro de Mussolini, ora, vamos 
lá, dize com quem andas e dir-te-ei quem és. 
Conto ainda meu, imagino a dor com que os acólitos pouparam ao Dr. Salazar a 
notícia de que já não mais mandava nem desmandava. O velho que desabara da “Cadeira” 
do Sr. José Saramago morreu em vinte e sete de julho de 1970, às 9h15. Crente em que 
ainda era o dita dor de um Estado que, à beira dos cinquenta anos, já não podia ser mais 
Novo. Memento homo que és pó e que na vida nada dura. Nem mesmo uma coisa dita dura. 
Dando por findos os trâmites desse antecipado auto de exame cadavérico, que tal 
atendermos ao convite do narrador  “Vamos até à janela. Que me diz a este mês de 
setembro? Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim.” (p. 30)  e, como 
educados somos no gosto de boa prosa, responder-lhe que já se sente nesse ar translúcido 
que anuncia o outono um odor a cravos de não longínquo abril. 
 
5. Do bicho-homem 
Uma no cravo, outra na ferradura. Assim sou. Não sei disfarçar gostos ou desgostos. 
Quem vê minha cara, tratado de fisiognomonia, vê estampado, no riso, no sobrolho ou nas 
rugas, meu coração. Por isso, não sei ser político nem politicamente correto  não sei qual 
alternativa a pior. Não sou sagitário, mas a cavalgadura quehabita em minha parte terrestre 
e humana dispara coices a torto e a direito. Espero que mais a direito que a torto. 
Todo este introito ad altarem dei literário que há de tornar-se o Sr. José Saramago, 
levantado do chão de seu romance de 1980, para dizer que, ao ler “Centauro”,  penúltimo 
relato de Objecto quase , sá-de-mirandamente, comigo (sagitário quase) me desavim. 
Queria, anima(l) que há no bicho-homem que sou, sair edificado do bestiário (julio-
cortazariano?) inscrito no relato do Sr. José Saramago. Sou acaso descendente legítimo de 
Quíron, o sábio, o de brilhante inteligência, o que, segundo consta nos manuais de 
Mitologia, andou a lecionar música, moral, medicina, ou serei esgarçado galho de 
genealógica árvore que tem por raiz Folo, o hospitaleiro, odre de vinho ao inteiro dispor de 
V. Exa., mesmo que V. Exa. não venha a ser Hércules nem queira competir em bebedeiras 
com Dioniso. 
Do centauro Nesso não me cabe a carapuça nem a túnica, malgrado as dores que 
herdamos no lombo e na alma. Mesmo porque, valha-me Deus, Nesso é dado, na fábula do 
Sr. José Saramago, por brutalmente assassinado, costelas e espinha trituradas no abraço 
pouco amigável daquele Hércules supracitado, halterofilista capaz de incríveis façanhas, e 
doze foram elas, as conhecidas, a décima-terceira, segredo de iniciados, desvendo-a, é a de 
reduzir à condição de magrela e nanico qualquer Mr. Schawzenegger-Músculo. 
Ao desmontar do relato, à beira do precipício em que, seccionado da parte animal, 
me via jazer “metade de um homem”, ao cabo “um homem” (p. 127), ao desapear do 
“Centauro”, não queria calar-se a pergunta de que centauro dos que a Mitologia nos ilustra 
me fez o Sr. José Saramago descendente, ao tratar do bicho-homem que somos. Enfim, 
vínhamos os desamparados humanos no coice de que ilustre ascendência? 
A de todo centauro e a de nenhum em particular,  resposta com que logo me 
acode meu Nosso Senhor dos Arcanos, sacando magicamente da algibeira Le symbolisme 
dans la mithologie grecque, do Sr. Paul Diel, uma ediçãozinha já amarelada como convém 
à prosápia de nobiliário que se preze, da Payot, datada de 1966. Com a unha do mindinho, 
crescida garra vampiresca cuidadosamente manicurada, ei-lo, o nosso Senhor dos Arcanos, 
a sublinhar o que devo haurir, às páginas 23 e 26, para minha ilustração. E, discípulo 
obediente, sigo com os olhos, respectivamente, que “Les mythes, selon leur sens caché, 
traitent donc de deux thèmes: la cause première de la vie (le thème métaphysique) et la 
conduite sensée de la vie (le thème étique).” e que “Ainsi, le thème fondamental des mythes 
est l’ évolution non seulement de l’homme-individu, mais de l’espèce humaine. Et l’espèce 
humaine n’est elle-même qu’une forme évoluée des espèces animales.” 
Ah é? 
Nem mesmo as mulas, veículo metonímico (os autores pela obra?) da vetusta e 
ponderosa livraria daquele decaído anjo que foi Calisto Elói de Silas e Benevides de 
Barbuda,  o camiliano morgado de Agra de Freimas , nem mesmo aquelas cargas de 
saber poderiam ser mais providenciais e prestativas que Paul Diel, meu Nosso Senhor dos 
Arcanos, cujo livrinho acendeu candeias na escuridão de minha leitura do “Centauro” josé-
saramaguiano. Saio dessa fábula genealógica da humana espécie aliviado com a revelação 
de que bastardo não sou, nem descendente de um asno qualquer. 
 
6. Sabor à Montaigne 
Ainda às voltas com o lado animal e instintivo do ser humano deixa-nos “Desforra”, 
última narrativa de Objecto quase. Breve, conciso, sob fina casca poética, fechado em si 
como um ovo a guardar o mistério de um momento decisivo da vida, conto, enfim, na 
melhor tradição da fôrma,  de que vingança, desforço, desagravo ou despique, ao cabo, 
trata esse relato de cujo título (“Desforra”), desfolhando o dicionário, busco o sentido? 
Taí uma pergunta que não sei responder. Pelo menos por ora. Conversemos assim 
como quem não quer nada, rodeando o problema posto à mesa. Ensaio, desde os de 
Montaigne, criador da iguaria, é isso. Provar as ideias, saboreá-las, como faziam os suicidas 
provadores da comida real, augurando que venenos insidiosos não venham a interromper a 
degustação dessa culinária para os de bom gosto  ad usum delphini. 
Vi e ouvi incerta noite, num vídeo-cassete dedicado à visão e suas anomalias, que o 
Sr. José Saramago, frequentador do poleiro do Teatro São Carlos em Lisboa, bispava e 
cheirava o símbolo da Monarquia que lhe impedia a vista do palco  entenda-se a vista da 
ação. Um gosto para os olhos de quem assistia na e da plateia ou nos e dos camarotes, o 
símbolo da monarquia ex-reinante era, contudo, note-se, ponto cego para quem, no poleiro, 
queria alçar voos. Visto por dentro e à roda, o símbolo estava, no oco da corbeille, sujo, 
decrépito, carunchoso  outro Anaboim, irmão talvez daquele profícuo guerrilheiro da 
“Cadeira”, fizera seu destruidor trabalho de sapa. Duas faces tinha o tal símbolo: a que se 
via à superfície do por-fora e a que se descobria ao olhar o por-dentro. Diante de tal 
espetáculo de proveito e exemplo, disse o Sr. José Saramago que veio a aprender que 
temos, dando a volta, que ver à roda e perscrutar o interior das coisas. Para quem queira 
examiná-lo por dentro, o depoimento bem que se oferece como uma arte poética de sua 
intenção ficcional. 
Mais uma fatiazinha de lombo? Verdadeiro papo de anjo, meu caro. Um porco que 
foi criado e engordado para alguma consoada natalina e caiu-nos aqui no prato, por obra e 
graça da cozinha de Objecto quase. 
?! 
Entendo seu pasmo. Mas o livro de linhagem desse acepipe que lhe ofereço vem 
bem a talho, pois está no conto “Desforra”. Duvida? Leia então o que transcorre à página 
132: 
“Dois homens e uma mulher seguravam o porco. Outro homem, com uma faca ensanguentada, abria-
lhe um rasgo vertical no escroto. Na palha brilhava já um ovoide achatado, vermelho. O porco tremia todo, 
atirava gritos entre as queixadas que uma corda apertava. A ferida alargou-se, o testículo apareceu, leitoso e 
raiado de sangue, os dedos do homem introduziram-se na abertura, puxaram, torceram, arrancaram. A mulher 
tinha o rosto pálido e crispado. Desamarraram o porco, libertaram-lhe o focinho, e um dos homens baixou-se e 
apanhou os dois bagos, grossos e macios. O animal deu uma volta, perplexo, e ficou de cabeça baixa, arfando. 
Então o homem atirou-lhos. O porco abocou, mastigou sôfrego, engoliu. A mulher disse algumas palavras e 
os homens encolheram os ombros. Um deles riu. Foi nessa altura que viram o rapaz no limiar da porta. 
Ficaram todos calados e, como se fosse a única coisa que pudessem fazer naquele momento, puseram-se a 
olhar o animal que se deitara na palha, suspirando, com os beiços sujos do próprio sangue.” 
Notou aquele rapaz “no limiar da porta”, testemunha ocular da castração do porco? 
É o protagonista do conto, que se abre, conforme se lê ao longo de toda a página 131, 
exatamente assim: 
“O rapaz vinha do rio. Descalço, com as calças arregaçadas acima do joelho, as pernas sujas de lama. 
Vestia uma camisa vermelha, aberta no peito, onde os primeiros pelos da puberdade começavam a enegrecer. 
Tinha o cabelo escuro, molhado de suor que lhe escorria pelo pescoço delgado. Dobrava-se um pouco para a 
frente, sob o peso dos longos remos, donde pendiam fios verdes de limos ainda gotejantes. O barco ficou 
balouçando na água turva, e ali perto, como se o espreitassem, afloraram de repente os olhos globulosos de 
uma rã. O rapaz olhou-a, e ela olhou-o a ele. Depois a rã fez um movimento brusco e desapareceu. Um 
minuto mais e a superfície do rio ficou lisa e calma, e brilhante como os olhos do rapaz. A respiração do lodo 
desprendia lentas e moles bolhas de gás que a corrente arrastava. No calor espesso da tarde, os choupos altos 
vibraram silenciosamente, e, de rajada, flor rápida que do ar nascesse, uma ave azul passou rasando a água. O 
rapaz levantou a cabeça. No outrolado do rio, uma rapariga olhava-o, imóvel. O rapaz ergueu a mão livre e 
todo o seu corpo desenhou o gesto de uma palavra que não se ouviu. O rio fluía, lento.” 
O amigo, enquanto saboreia esse lombinho, há de convir que estamos diante de um 
conto prenhe de símbolos, recheado de proveito e exemplo talvez decifráveis num 
competente dicionário à Chevalier & Geerbrandt. Temos ali um rio que se há de atravessar 
a nado, pois na outra margem uma rapariga nua (sei-o, está à mostra, pois li o conto até o 
fim) marcou trovadoresco encontro com amigo. À nossa espera, não haveremos de recusar 
esse convite que se oferece ao fálico remo que carregamos pesado de nossa masculinidade, 
não é mesmo? Camisa vermelha aberta no peito, a sagrar os primeiros pelos negros da 
puberdade, haveremos de cumprir galhardamente nosso destino de macho: saciar o cilício e 
jejum de castradora castidade, quem duvida. As pernas sujas de lama diremos a ela,  que 
sequiosa e nua (e virgem ainda?) nos aguarda na outra margem , talvez provenham do 
impuro barro de que somos feitos: lodo borbulhante (“lentas e moles bolhas de gás que a 
corrente arrastava”) no curso do heraclitiano rio da vida. 
A “ave azul” que, na citação lá em cima, “passou rasando a água”? Confesso-lhe 
que não sou ornitólogo, nem fui asinha consultar um dicionário de símbolos à cata do 
sentido. Tampouco invoquei meu Nosso Senhor dos Arcanos. Poupei-o, o coitado anda 
muito ocupado a dar assessoria a críticos, mestrandos e doutorandos, além de pós-
doutorandos. 
Aquela rã de “olhos globulosos”? Ora, ela ali está,  como diz a contracapa de 
minha edição de Objecto quase,  a “escarnecer de ti”, de mim. O meu ilustre conviva já 
atentou em “Le désejeneur sur l’herbe”, aquela tela de Manet? Já pôs sua lupa nos 
meandros desse convescote ou piquenique na grama? Eu, por mim, prefiro traduzir, perdoe-
se o pão-pão-queijo-queijo da versão, como “De jejum no mato”. Já percorreu o meu ilustre 
conviva, com olhos despertos e expertos, aquele bucólico cenário em que dois conspícuos 
cavalheiros estão trajados até à alma, um deles, por sinal, com a bengala retraída na flácida 
mão? Chegou a reparar que, refestelados “sur l’herbe”, entretidos numa conversação de 
cunho talvez platônico, ambos estão em pose de ó-nem-te-ligo, não estamos-nem-aí ante o 
déjeuner (petit?, pequeno-almoço?) representado por duas moças que estão a acompanhá-
los? Uma, menos oferecida no alvinitente recato da roupa íntima, ei-la a refrescar-se de seus 
calores em águas que deveriam estar sendo revolvidas pelos cervos do monte, ou seja 
(entenda-se a medieval metáfora), por aqueles dois alheados cavalheiros. Outra, que dá pelo 
nome de Victorine Meurend, (quem não a conhece no meio e na roda?), nuinha em pelo, 
sentada de perfil, braço direito apoiado no joelho de modo a que o polegar e índice, em 
forquilha, lhe descansem o queixo, tendo-nos surpreendido aqui fora da tela a frestá-los, 
está a fitar-nos, olhar oblíquo de Capitu que nos sussurra  afinal quem vem salvar-nos, a 
mim e à minha incipiente colega no ofício, desse “De jejum no mato”, quando suposto era 
que seríamos o desjejum deles? Meu ilustre conviva nunca tinha desnudado nestes termos a 
tela de Manet? Então não percebeu que, estando de frente e de olho para a tela, ali bem no 
canto inferior e direito da moldura, bem no canto inferior e esquerdo do nosso olhar, uma rã 
dissimula-se, com olhos globulosos. 
Também ela, no quadro de Manet, a escarnecer de nós? 
Que sei eu das insídias da memória pictórica dos outros? Apenas me incomodam os 
insights que tenho da visão alheia... Sabia que o Sr. José Saramago diz ter composto um 
romance autobiográfico sob a pele palimpséstica de um tal H., que era pintor de retratos 
alheios? E também desconhecia que andou ele a colaborar num Dicionário da Pintura 
Universal? Nada estranhável, pois, que aflorem reminiscênicas pictóricas à tona da 
memória do Sr. José Saramago. Com certeza o amigo lembra da abertura de O Evangelho 
segundo Jesus Cristo. Apenas uma vaga lembrança? Releia-a então com olhos de enxergar. 
Aberto o olho às evidências, há-de enxergar, na abertura do citado romance, a descrição de 
cena estampada na tela “Crucificação de Cristo”, de Albert Dürer. Ah, as personagens 
principais de Ensaio sobre a cegueira trazem-lhe, platônica reminiscência do déjà vu, a 
parábola do seis cegos de Bruegel? Bem lembrado. 
Ut pictura poeisis et descriptio? Como pintura, procuram ser a poesia e a descrição 
romanesca do Sr. José Saramago? 
Olha que é isso mesmo o que nos ensina o Manual de pintura e caligrafia, a 
calcorrear modelos clássicos de letra alheia. 
... 
Mas diga lá. Estou a ouvi-lo, só fechei os olhos para melhor apreciar este vinho, 
uma delícia não é mesmo?, um português de 1985. Mantém-se encorpado, um terroir 
perfeito, capaz de tornar qualquer clichê sobre in vino veritas ou sobre quanto mais velho, 
melhor em verdade. Como? 
Se “olhos globulosos”, como os da primeira rã, tem o Sr. José Saramago ou se tem 
ele “olhos redondos sob as arcadas salientes” tais quais o da segunda rã, aquela que aparece 
à página 133 e cuja boca “ fechada fazia uma prega de escárnio”? 
Não conheço o Sr. José Saramago pessoalmente, nunca o vi vis-à-vis. Contudo, um 
amigo meu, dono da Fot’Óptica F. Khom, conhece-a?, pois bem esse amigo andou a 
retratá-lo e deixou-me aqui uma ampliação. Quer vê-la? À hora do café, do conhaque e do 
charuto... esse aqui é um Coiba dos puros, faz favor..., à hora ponderosa da digestão 
podemos entregar-nos aos fumos e vapores da imaginação e da contemplação. Volto já com 
o retrato. 
... 
Ei-lo. Não é que o amigo teve um insight. Atentando bem, não é que o Sr. José 
Saramago tem olhos globulosos, redondos sob as arcadas salientes desses óculos? 
E não lhe nota também uma prega de escárnio na boca fechada? 
Hum... deixe-me ver... É... Podem-se ver pregas de escárnio na boca fechada... 
E o que lhe está a grunhir o porco castrado no conto “Desforra”? 
Bem, já o porco... O porco castrado... Com certeza o amigo já leu Levantado do 
chão. Pois lá, a folhas tantas, página 145 de uma edição de 1982 da Difel, se a memória não 
me desampara, escrito está “que se queres conhecer o teu corpo abre o teu porco, porque 
iguais são.” A afirmação é ousada e herética? Põe em causa a sabedoria do criador? Não é 
que, sem o saber, o amigo está repetindo quase ipsis litteris o que, escrito, corre a continuar 
a citação feita? Em todo caso, se tanta gente o repete, verdade será que o criador, ao fazer o 
homem, fê-lo à imagem e semelhança do porco. Assim sendo, que tal vê-lo, o porco claro, 
não o criador, como signo de nossa chafurdosa animalidade, aquela que, a exemplo do 
“Centauro”, precisa ser extirpada para que nos tornemos razoavelmente humanos, capazes 
de formar humanamente as circunstâncias que nos formam. Talvez assim escapemos 
também da coisificação que, na óptica do Sr. José Saramago, nos espreita e ameaça, ao ver 
pelos olhos da epígrafe assinada pela sagrada família composta por Marx & Engels em 
Objecto quase. 
E a desforra a que alude o título do conto, de que desforra se trata? 
Simpósio e não um manual de inquisições literárias deveria ser o repasto aqui 
oferecido. Concorda que questões indigestas não caem bem à mesa? Ah... Soube-lhe bem a 
rabanada? Mais parecem fatias do céu, não é mesmo? Mais uma fatiazinha? Aqui está... 
Regale-se... Bem... A desforra a que alude o título do conto, de que desforra afinal se 
trata?... Respondo, desculpe, deixe-me terminar de mastigar a pergunta que contrário a 
qualquer manual de boas maneiras é falar de boca cheia... Creio tratar-se da desforra do 
rapaz, na puberdade, pondo a funcionar seus testículos antes que o freudiano super-ego do 
provincianismo social venha castrá-lo, como fizeram ao porco e àquela viúva de Terra do 
pecado. Afinal, depois de assistir ao espetáculo da emasculação, ele vai ao encontroda 
rapariga que o espera: “Então, o rapaz meteu-se à água e nadou para a outra margem, 
enquanto o vulto branco e nu da rapariga recuava para a penumbra dos ramos.” (p. 134) 
Belo epílogo, não é mesmo?, para a incipiência, o começo, de suas vidas. Auguremos que 
ambas as vidas não venham a tornar-se insossas. Que tal lhe soube o jantar? Algum prato 
sem o devido sabor? 
Estou a me lembrar das consoadas de serão na aldeia de meus avós. 
A Maria, minha cozinheira, tem mãos de fada e receitas divinas. Por todos os 
nomes, não é nenhuma Maria de Jesus Caetano Freire, mas serve a contento qualquer 
Marialva. Em Paris faria escola a ensinar uma substanciosa nouvelle cuisine portugaise. 
Maria, ó Maria, vem cá. Não seja caipira, mulher. Nosso amigo aqui quer cumprimentar o 
chef. 
Minha senhora, beijo-lhe as mãos de fada. Um verdadeiro banquete à Lúculo o seu 
jantar. 
Oxente, que luquilo quê, meu nome é Maria. 
!... 
Sua filha formou-se em Letras, não é?, quer fazer pós-graduação, defender tese 
sobre a ficção do Sr. José Saramago? Pois diga-lhe que comece por decifrar a primeira fase, 
aquela que vai de 1947 a 1979. A fase de seus exercícios de caligrafia literária, a fase de 
Saramago quase. Quem sabe ela ensaiará, com mais requintado sabor à Montaigne, uma 
interpretação de Objecto quase bem mais digerível e digestiva do que esta. Pronto, 
brindemos ao digesto que nos fará sua filha dessa primeira fase da obra saramaguiana. Que 
tal o charuto? Mais uma copiosa lágrima de conhaque? 
 
[SP, 18/3/04 – 10/5/04] 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cartas à Redação: foro e desaforo do leitor 
 
“Quem dá com a língua nos dentes, às vezes está à procura do siso.” 
(Incunábulo dos Apólogos) 
 
 
Saudação respeitosa 
A propósito da nota de rodapé 22 dessa Redação em torno do relato “Coisas” 
inserido em Objecto quase, quero manifestar a minha opinião discordante porque me vejo 
diante de uma leitura ideológica, comprometida e, permita dizer, jurassicamente comunista 
num Mundo, benza-o Deus, dominado pelo vitorioso neoliberalismo capitalista. Lá se lê 
que a saudação dos utentes com o braço estendido e a mão aberta ─ “quem não reconhece 
no gesto a saudação nazi-fascista?” Tenho engulhos diante da desinformação do ensaísta 
por ele não saber que a dita saudação com braço estendido e mão aberta era respeitosa 
reverência da “Mocidade Portuguesa” à proeminente figura do Sr. Oliveira Salazar, que 
Deus o tenha à direita em seu eterno e merecido descanso. O tal articulista ignora, pergunto 
eu, que antes das aulas ministradas à Mocidade Portuguesa havia um ritual de respeito e 
veneração em que tanto o professor quanto os alunos começavam o dia de pé, pois assim 
devemos estar ante a Pátria, fazendo uma saudação com o braço estendido e a mão aberta? 
O dito escrevinhador ignora que, após o professor perguntar três vezes “Quem vive?” e 
“Quem Manda?”, toda a classe, sursum corda, ou seja (para o entendimento do articulista e 
dessa Redação) com os corações dirigidos ao empíreo, todos os alunos gritavam o uníssono 
de seu credo  “Portugal! Portugal! Portugal! Salazar! Salazar! Salazar!”? Esse senhor, 
mais chegado pelo que vejo a uma pingoleta que a uma lição de História, então esse senhor 
desconhece o ritual a que reverentemente se entregavam os alunos antes de sentarem-se 
para as lições de como a elite, a nata, o escol daquela juventude havia de gerir os destinos 
futuros da Nação, quando seus próceres e maiores, jubilados pela Morte ou pelos anos de 
bons serviços prestados, abandonassem a coisa pública? Lamento que essa Redação acolha 
no seu seio tal desinformação, comprometida e engajada, claro está. Manuel Joaquim 
Hoffenmeister, natural de Santa Comba do Dão, agora residente em Santos (SP). 
 
Anta 
Em carta enviada a essa Redação, o leitor Manuel Joaquim Hoffenmeister, ele sim, 
parece ignorar que a “Mocidade Portuguesa” foi organizada em seu nascimento pelo então 
jovem professor Marcello Caetano, parafrásico carbono de Salazar, conforme muito bem 
assinalou essa Redação. O sr. Manuel Joaquim Hoffenmeister revela também uma santa 
ignorância ao ignorar que a “Mocidade Portuguesa” foi criada, em 1936, à imagem e 
semelhança das “Juventudes Hitlerianas”, que aliás se deslocaram de Hamburgo a Portugal 
para dar o exemplo de seu grito e lema nazifascita “Nós não somos nada.” Ignorando tanto, 
até hoje o sr. Manuel Joaquim Hoffenmeister insiste em ser nada além de uma anta. Em 
suma, um ignorante. Que Deus nos livre de uma epidemia desses antavírus! Atento 
Benevides (benevides@atentocom.br), Carapicuíba (SP). 
 
Absurdo kafkiano 
É inadmissível a falta de sensibilidade crítica do ensaísta que tratou do conto 
“Coisas” [in Objecto Quase]. Ele vê “fissuras” na construção da fábula, exigindo respostas 
lógicas para um monumental enredo alegórico que foi construído exatamente a explorar o 
absurdo kafkiano. Mas, na verdade, absurdo kafkiano é o tal ensaísta ser tão desinformado a 
ponto de não perceber isso e tentar desqualificar o relato desse grandioso autor que é o Sr. 
José Saramago. Frans Castelo, Praga (República Checa). 
 
Lição histórica 
Ao ler a análise do conto “Cadeira” [in Objecto Quase], percebo algumas 
incorreções históricas. O ensaísta escreve que o Sr. Oliveira Salazar sofreu aquele infausto 
acontecimento, a queda da cadeira, em 7 de setembro de 1968. Se o ensaísta tivesse 
conhecimento do livro Salazar – O último combate (1964-1970), sexto volume da 
biografia escrita pelo Sr. Franco Nogueira, saberia, tendo lido o referido volume da página 
391 à página 445, que (1) a queda da cadeira, aliás de lona, que se projetou para trás com o 
peso do Ilustre Estadista, ocorreu em 3 de agosto de 1968, um sábado; saberia que (2) os 
sintomas, intensas e prolongadas dores de cabeça resultantes do hematoma intracraniano 
subdural crônico, só se manifestaram um mês depois, em 4 de setembro de 1968; saberia, 
por fim, que 7 de setembro de 1968 é a data em que o Sr. Oliveira Salazar foi submetido, 
aos cuidados da equipe chefiada pelo eminente neurocirurgião Dr. António de Vasconcelos 
Marques, a uma operação cirúrgica, data também em que sai uma nota oficial do Governo. 
Seja por ter ouvido o boletim médico difundido pela Emissora Nacional, seja por se ter 
baseado em Oliveira Marques (que registra o acidente como acontecido nos “primeiros dias 
de setembro de 1968”), nada mais natural que o Sr. José Saramago, no conto, se refira à 
queda como ocorrida vagamente no princípio do outono, pois, não sendo ele historiador, 
goza da licença poética concedida à ficção. Inexplicável ou inadmissível é que o ensaísta, 
apresentado como enófilo, não vá se abeberar em fonte fidedigna, como o sexto volume da 
obra do Sr. Franco Nogueira, evitando assim a divulgação de dados históricos incorretos. 
Sem outra intenção que não a de contribuir modestamente para a correção histórica do 
infausto acontecimento que vitimará o Grande Estadista que foi o Sr. Oliveira Salazar, 
atenciosamente Suspicaz Clio da Costa, Barueri (SP). 
 
Aviso à Praça 
Os leitores querem saber quem foi esse (S?) Franco Nogueira, citado pelo Sr. 
Suspicaz Clio da Costa como dono único e absoluto da verdade? Foi um salazarista dos 
quatro costados. Tendo privado da amizade do Ditador, obviamente chegou a servi-lo como 
Ministro dos Negócios Estrangeiros, cuja pasta deixou em 6 de outubro de 1969. Sabem 
como é a história: aos amigos tudo, aos inimigos primeiro a PVDE [Polícia de Vigilância e 
de Defesa do Estado, 1933-1945], depois a PIDE [Polícia Internacional e de Defesa do 
Estado, 1945-1969] e por último a DGS [Direção Geral de Segurança, 1969-1974]. Afinal, 
longo, mais de quarenta anos [1933-1974] durou o Consulado do Terror salazarista em 
Portugal. Ah, antes que me esqueça: esse Franco Nogueira escreveu seis volumes para nos 
provar que seu biografado deveria figurar no panteão dos varões de Plutarco. Pode? 
EstalineMarques, Recife (PE). 
 
Exemplo histórico 
Os meus pais são portugueses, vieram para o Brasil em maio de 1974, e eu, que 
nasci aqui em São Paulo, sou professora de História no ensino secundário oficial. Os meus 
pais adoravam o Sr. Oliveira Salazar. Nós temos até um retrato dele na parede da sala, bem 
no meio do retrato dos meus avós paternos. Os meus pais sempre me disseram que o Sr. 
Oliveira Salazar foi o Pai da Pátria. O meu pai, professor da Mocidade Portuguesa, ele era 
um educador tão rígido que nunca nos deixou, minha mãe e eu (infelizmente, não tenho 
irmãos) vermos televisão, de modos que [sic] no serão, em vez de vermos a novela das oito, 
ele nos contava a vida e os feitos do Sr. Salazar. Ele morreu faz pouco tempo (meu pai, bem 
entendido, é que morreu faz pouco tempo.) Agora, sem o serão educativo do meu pai, 
minha mãe e eu ficamos grudadas no sofá diante da televisão, o que para mim é tempo que 
não posso perder, pois eu tenho que preparar as aulas ou então corrigir exercícios e provas. 
Como eu sou professora de História (eu acho que já eu disse isso) no ensino secundário 
oficial e precisava de uma literatura que, tão científica como a literatura médica que nosso 
médico do convênio vive citando para curar os achaques de minha mãe e meus, eu 
precisava de um livro que me contasse tintim por tintim a vida do Sr. Salazar. Não que eu 
duvidasse de meu pai, que Deus o tenha em sua glória, mas, vocês entendem?, eu precisava 
de uma literatura científica que baseasse minhas informações históricas. Por meio dessa 
Redação, graças ao Sr. Suspicaz Clio da Costa, eu vim a saber da biografia escrita em seis 
volumes pelo Sr. Franco Nogueira. Vocês não imaginam, além da alegria, o sacrifício que 
me custou o referido livro. Primeiro, eu não conseguia achar o livro. Quando eu achei, ele 
me custou os olhos da cara, pronto, pois, se calhar, uma fortuna que seria inacessível aos 
meus parcos proventos de professora do ensino secundário, se não tivesse o comércio 
inventado a compra por vezes em cheque pré-datado. Mas eu acho que nada disso vem ao 
caso. Ou é de pouca monta, como meu pai dizia, ao falar da relativa liberdade que havia 
durante o governo do Sr. Salazar. Ora, miúda, nada na vida é absoluto, tudo é relativo, 
inclusive a liberdade. Era assim, nesses exatos termos, que ele me respondia quando eu 
perguntava se Portugal na época do Sr. Salazar era um país democrático e pluripartidário, 
expressões que eu aprendi no meu curso de História. Mas isso também não vem ao caso. 
São casos pessoais de pouca monta. O que vem ao caso é eu agradecer ao Sr. Suspicaz Clio 
da Costa e dizer que, mesmo não tendo lido todos os seis volumes, eu li as páginas que ele 
indicou [pp. 391-445, do sexto volume] e que tratavam do acidente e da agonia lenta que 
vitimou o Sr. Salazar. O que vem, pronto, ao caso é eu dizer que o ilustre neurocirugião Dr. 
Antônio de Vasconcelos Marques, esse sim, por sua capacidade profissional e coragem, 
mereceria a atenção de algum biógrafo ou romancista. Diante daquele enorme problema, 
que não era só clínico mas também político, o Doutor Marques impôs a sua vontade e a sua 
ciência assumindo, imagine só, os riscos de uma operação que precisava de ser feita sem 
demora ou adiamentos à espera de milagre. Os seus boletins médicos, contrariando a 
vontade do Governo, só tinham compromisso com a verdade. Se for verdade o que li em 
Franco Nogueira, o Dr. Marques teria dito aos membros do Governo: “V. Exas. não nos 
peçam para dizer coisas que não sejam verdade porque nos recusaremos a assinar. Temos as 
nossas responsabilidades profissionais e há o dever de informar o país da verdade.” Eu fico 
imaginando o pânico causado com essa história de informar o País da verdade naquele 
momento crítico em que só a ficção, não é mesmo?, viria a calhar. Esse médico ele não era 
mesmo gira, pá? Tanto que, por não concordar com a piedosa farsa montada em torno do 
pobre moribundo, o Dr. Marques acabou por se demitir de suas funções. Lídia Antónia 
Pomar d’Horta Sobreiro de Oliveira, Santos (SP). 
 
Em nome da Democracia 
Xô, xô, Salazaristas! E ter quem ainda leia biógrafos salazaristas em nome da 
Verdade! Eu, em nome da Democracia, só queria saber como é que essa Redação reproduz 
manifestações como as de Suspicaz Clio da Costa e Lídia Antónia Pomar d’Horta Sobreiro 
de Oliveira. Dirceu Golbery Genoino da Costa e Silva, Brasília (DF). 
 
 Reminiscência 
Ao ler “Cadeira” [in Objecto quase], aquela história de um caruncho que vai roendo 
e corroendo o assento do Sr. Salazar no poder, não é que me lembrei de Barranco de cegos 
[1961], livro escrito pelo Sr. Alves Redol. Quem leu essa monumental novela vai se 
lembrar que na “Torre dos Quatro Ventos”, símbolo do mandonismo ditatorial do 
latifundiário Diogo Relvas, também um caruncho roía e roía, até que no epílogo [Livro 
Terceiro, O Livro das Horas Mortas], já morto e embalsamado, o vento e o sol da história 
vai [sic] reduzir esse embrião de Salazar a cinzas. Como toda epígrafe é sempre uma 
bússola que dá a direção dos intuitos do autor e nos ajuda a segui-lo em direção ao seu 
porto, bem que o Sr. José Saramago poderia ter antecedido “Cadeira” com a seguinte frase 
 “Para glória dos mortos honorários, Diogo Relvas ali ficava firme na sua cadeira, onde o 
caruncho roía, roía, impiedoso e malandrete.” (p. 426 da minha quarta edição de Barranco 
de cegos, 1973) Com esta reminiscência, tomo a liberdade de deixar aqui minha modesta e 
desinteressada contribuição para o cabal entendimento do conto do Sr. José Saramago. 
Modesto da Silva e Souza, modestodasilva@.com. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
V. A noite (1979) 
 
 
Ângelo Ruzzante de Pádua 
(Encenador e crítico teatral, autor de Luzes e trevas da ribalta) 
 
“Durante as noites, a luz apenas dorme. Cabe a ti despertá-la.” 
(Livro do Desconcerto) 
 
1. Cartaz 
 
 A Noite 
 de José Saramago 
 Pelo Grupo de Teatro de Campolide 
 Encenação de Joaquim Benite 
 Cenário de António Alfredo 
 Direcção Musical de Carlos Paredes 
 
Maio de 1979, noite primaveril, fresca. Pituitárias nostálgicas diriam que esta noite 
já nem de longe recende aos cravos de abril. Aqueles b(r)otados em 1974 à boca dos fuzis 
insurretos do MFA, sigla que fardara o Movimento das Forças Armadas contra a ditadura 
salazarista. À porta do teatro, conversa à toa, de quem deseja enganar ou amenizar a espera 
do parto. Quem esperou de 1928 a 1974 que se desse à luz a madrugada libertária do 25 de 
abril, entoada às 00h20 na senha-acalanto de “Grândola, Vila Morena”, palavra-de-ordem 
do major Otelo Saraiva de Carvalho sob a voz de Zeca Afonso, ora esses não haveriam de 
desesperar ante as portas fechadas de um teatro cujo palco simplesmente estava a ultimar o 
cenário da “redacção de um jornal, em Lisboa, na noite de 24 para 25 de abril de 1974”. 
Convenhamos que o cenário, neorrealisticamente concebido, com gabinete do 
Diretor, Redação, portas A, B, C, D, esta última dando para a Tipografia, entradas e saídas 
de uns espaços para outros, ação vista ou relatada num e noutros sítios, ─ convenhamos que 
cenário de tal envergadura não é coisa que se monte assim num leva essas secretárias e traz 
aqui aqueles sofás onde hão de sentar-se o Sr. Director e o Sr Administrador. Tampouco se 
monta aos berros de vai-lá-e-dá-cá as máquinas de escrever e aquele telefone, não me 
esqueça o telefone, ó José, afinal se trata de linha direta com o “exame prévio”, ora, então 
não sabes que “exame prévio” era o pomposo nome com que o anabatista Dr. Marcello, 
assim mesmo com dois ll, rebatizou a censura além do próprio nome, dando ares de que no 
Poder, em substituição ao Velho que desabara da “Cadeira”, tudo mudava de figura 
bastando mascarar com neollogismos a carantonha pretérita.Um palco assim, 
naturalisticamente engendrado, atulhado de acessórios para dar “a ilusão de realidade”, 
tenham paciência as senhoras e os senhores, bem que demora a montar. Esquecera-se talvez 
o novel (atenção, revisão, “novel” e não “Nobel”) teatrólogo de que a realidade no teatro é 
paupérrima ilusão consentida, contrato firmado com o espectador, dois paus bastam para 
fazer uma canoa ou uma jangada, de pedra que seja. Se o leitor, depois deste parágrafo de 
dúzia e meia de linhas (ou mais ou menos, depende da econômica e competente 
diagramação), chegou ao fim sem fôlego, dou-me por pago. Mimetizei o esforço e suor dos 
camaradas de apoio que, formigas-operárias dos bastidores, tipógrafos das rubricas, 
puseram a “redacção de um jornal” em cena e não serão chamados ao palco para receber os 
aplausos ou ovação, no final do espetáculo. 
Chegaram a dizer, não os formigas-operários dos bastidores mas acadêmicos outros, 
que o autor da peça era muito impositivo, nas rubricas, na marcação, ditatorial como o PCP 
estalinista do Sr. Álvaro Cunhal naqueles primórdios redentores de 1975 a 1978, cerceando 
assim a liberdade expressiva do diretor e dos atores. Intriga da oposição a insinuar 
subliminar dirigismo ideológico inscrito na minúcia da didascália, equívoco que o novel 
teatrólogo de então, anos mais tarde, em 1998, já Nobel, há de desfazer, dizendo-nos que 
esse texto secundário a reger a ação não passa de um ponto de apoio, “modos de orientação 
do escritor no acto de escrever”. Enfim, vamos e venhamos ainda mais no espaço cênico, 
não vá ele perder-se, “o autor precisa de saber onde está, como é que as coisas estão a 
funcionar imaginariamente num palco, para que tenha sentido a entrada, a saída, a presença, 
o que vem depois. O encenador é livre e sempre o seria evidentemente...” É o que se lê às 
páginas 115-116 dos Diálogos que o Sr. Carlos Reis travou com o Autor numa edição da 
Editora Caminho. 
A malta que está à porta do teatro não sabe dessas coisas que, sibila-cassandra, digo 
do alto de uma bibliografia passados o quê? dezenove? vinte anos?, tempo de uma 
maioridade que há de distinguir o novel dramaturgo do Nobel autor. Deixemo-los, pois, a 
gastar o tempo, enquanto o tempo não os gasta vincando-lhes rugas na credulidade e alma 
ainda juvenis. 
Quem o autor? 
Um estreante no gênero teatral. 
Nunca ouvi falar dele. 
Eu cá já li alguma coisa... 
Maior novidade é dizeres o que tu ainda não leste. 
Guarda a faca, Nuno, deixa a Norma falar. 
Claro, a Norma, sempre a Norma, afinal ela faz Letras... ou serás tu competente 
linguista?... enquanto eu gramo num torno mecânico... (Sr. Encenador, deve-se exigir do 
ator, nesta fala, stanislavskiana insinuação das competências linguisticas atribuídas ao 
defensor da Norma.) 
E tu, sem letras e uns copos a mais de bagaceira, começas a ficar inconveniente. 
Eu já li umas crônicas desse José Saramago na Capital e no Jornal do Fundão. 
E foi editorialista do Diário de Lisboa e do Diário de Notícias. No Diário de Lisboa 
pelos anos de 1972 e 1973. No Diário de Notícias, de princípios de abril de 1975 a 25 de 
novembro do mesmo ano. Data que pôs fim a todos os sonhos... 
Então um jornalista que anda a datilografar outras letras... (Um ou outro riso 
sufocado, porque escarninho, ante a literatice da frase.) 
Li que a ação da peça se passa nos bastidores de um jornal, na noite de 24 para a 
madrugada de 25 de abril de 1974. 
A noite de nossa Revolução Redentora... (Tom sonhador. Precisa mesmo esta 
“regência da ação”?) 
Estou eu cá a ver que Redenção foi essa... (Misto de enfado e raiva. Necessária a 
rubrica para saber o tom e quem falou?) 
Então o homem, como jornalista, tem lá sua experiência dos intestinos de um jornal 
durante o Salazarismo. 
Grande merda... 
Nuno, caluda. Deixa a Norma falar. 
Li uns poemas dele, saídos nos livros Os poemas possíveis e Provavelmente 
alegria. Mas penso que não se sai bem como poeta. Pelo menos eu cá não gostei. Não me 
apeteceu. 
E o gajo, Norminha, além das crônicas, dos editoriais e dos poemas tem mais 
alguma coisa escrita? 
Que eu saiba, já escreveu dois romances, Terra do pecado, Manual de pintura e 
caligrafia, um livro de contos, Objecto quase, e um voluminho de título O ano de 1993... 
Esse sim um objecto quase... Quase... sei eu lá o quê... É prosa, mas uma prosa poética... 
Gira, porreta... Não entendi nada, mas gostei... 
Isso é coisa bem da Norma... Não entende nada, gosta, e impõe o gosto... da Norma. 
Ficção científica esse tal ano de 1993? 
Olha que o homem tem lá costelas alegóricas no esqueleto... 
Depois de crônica, poesia, romance, conto... prosa poética... e agora teatro... penso 
que ele anda à procura de sua mais legítima expressão como escritor. 
Ah, como eu desejava ter uma filha como essa Norma... 
Pronto, aí está. Quando uma Norma fala, os outros baixam a orelha... 
......................................................................................................... 
Findo o entremez, maneira encontrada para distrair a espera ou expectativa, antecipo 
que quem foi assistir à peça teve, cada qual, a sua noite. Enfim, acabou sendo testemunha 
ocular e auditiva, segundo parecer da Associação de Críticos Portugueses, da “melhor peça 
de teatro portuguesa representada em 1979 (ex aequo)” 23. 
Ex aequo? 
Sim, senhor. Ex aequo. 
Caraças! 
 
 
 
23. É o que se lê em José Saramago – A Noite, segunda edição, Lisboa: Caminho, 1987: volume que 
compulso e cujas páginas cito. 
2. A noite de Maniqueu 
Vamos lá, Tio Zeca. Conte-nos como foi a peça. 
Olha que lhe pagamos assento de primeira. Como dizem lá os entendidos dessa 
coisa de teatro, um assento no ponto do rei. 
Acende o pavio do homem. 
Luzes, Ti Zeca, olha só, luzes a acender a candeia do copo. 
Tire-nos das trevas dess’A Noite. 
(Corta! Corta! Ora onde já se viu isso?! Dizem os manuais de boa caligrafia 
literário-ensaística que não se introduz assim ao deus-dará do acaso uma personagem, 
aqui no caso o Tio Zeca, sem a devida apresentação de praxe. Ora quem és?, por quem 
sois? Por mais familiar que seja o jeito com que lhe metemos na conversa, ninguém deseja 
que lhe venham de borzeguins ao leito, afinal biografias e genealogias são prezadas no 
comércio diário. Descortesia, pois, seria trazê-lo aqui à baila sem o verbete de um cartão 
de visita. Ainda mais levando em conta o papel que desempenhará com o cabedal de seus 
conhecimentos. 
Tio Zeca... ora... bem... Tio Zeca é natural da Azinhaga. Já que o Sr. José-e-só do 
kafkiano registro civil de Todos os nomes não me trouxe a certidão de nascimento, 
digamos, inventemos que Tio Zeca, natural da Azinhaga, veio a lume em 1916, dia 16 de 
novembro. Conta, pois, nesse maio de 1979, ainda 62 anos. Dizem que as paredes têm 
ouvidos e, acrescento eu, que são inconfidentes. Assim sendo, segredam elas, essas 
soalheiras paredes das repúblicas universitárias de Coimbra, que Tio Zeca se formou em 
Letras em 1941. Depois de queimadas as fitas na cerimônia de formatura, escafedeu-se ele 
rumo a seu cubículo, ao confessionário das quatro paredes,  não fossem os estúrdios 
colegas convocá-lo para a tuna dos fados e guitarradas e melodioso vinho, noite adentro e 
afora. Compromissado, outro compromisso tinha Tio Zeca. 
Algum encontro furtivo com rapariga que, andaluza e “liviana”, lhe tornara, por 
cinco anos a fio e pavio, mais leves e nada bocejantes as noites furtadas às águas do 
estudo? 
Lamento frustrar o prezado Dottore, acostumado aos enredos da fácil vida. Mal 
adentrou o desarrumado tugúrio de sua vida acadêmica, Tio Zeca prostrou-se, genuflexo, 
ante o retrato, pendurado em seu quartinho da República, do utópico e socialista Antero de 
Quental, de cuja poesia também se embriagava: haveria de sacrificar-lhe o diploma, 
oferecendo-o, agônica ironia, como ex-voto a Nossa Senhora de Fátima.Entenda-se lá 
isso? Quem conhece pelo menos uma das anterianas “Causas da decadência dos povos 
peninsulares” há de decifrar-lhe o ex-voto sacrificial. 
À boca pequena, só aqui entre nós, divulgam ainda os ouvidos tuberculosos das 
paredes de Coimbra que a insustentável leveza de ser Tio Zeca (socialista utópico? já 
comunista de rósea carteirinha naqueles anos de chumbo do Salazarismo?) não haveria de 
levá-lo a altos voos,  perdigão cujas penas, com risco de serem podadas nas enxovias da 
ditadura, não haveriam de alçá-lo a nenhuma alta torre. Tanto que nunca conseguiu ser 
aprovado em concursos ditos públicos para lecionar em liceus como professor de “ensino 
secundário”  entenda lá o Dottore como quiser as aspas do ensino sempre secundário. 
Por que “ditos públicos” os tais concursos? Ora, vamos lá, não se faça de ingênuo. Difícil 
perceber que as tais vagas públicas estavam já destinadas aos que privavam com o Poder, 
donde serem os aprovados privados  “privadas”, apetecia dizer  do status político 
reinante, de qualquer cor seja ele, verde ou vermelho? Assim sendo, porque sempre o é, na 
bacia das almas destinadas ao purgatório vivia Tio Zeca, a esmolar a sorte, a fortuna, o 
fado, o destino,  importa o nome que se dê à buena dicha a que, incréus, agnósticos, 
ateus ou pífios crentes sem fé, rezamos em segredo ao jogar na loteria desse totobola que é 
a vida? 
Que não me ouçam as soalheiras paredes, mas as preces do Tio Zeca, tácitas como 
deviam ser aos ouvidos dos camaradas ou companheiros(as), foram ouvidas. Um marialva 
das tunas do tempo coimbrão serviu-lhe de padrinho e sabido é, Dottore, que quem tem 
padrinho não há de morrer pagão. Não obstante tuberculosos ouvidos sempre atentos, as 
paredes coimbrãs não me segredaram o apelido do benfeitor. Faça-se, no entanto, justiça a 
quem fez o bem sem olhar a quem: lançando mão da cunha e lança do Pai em áfrica do 
Salazarismo, esse anônimo marialva das tunas do tempo coimbrão reabriu para nosso Tio 
Zeca as portas férreas da Universidade de Coimbra. Resumo da ópera, in nomine Dei, 
deram-lhe de mão beijada o cargo e função de bedel na Faculdade... das Letras. 
Gato escaldado com medo de água fria? tosquiada ovelha sem vocação para ser 
agnus dei de qualquer credo religioso ou político?, o certo é que Tio Zeca veio edificando 
sua vida de bedel das Letras, a vestir meio modelito de parvo vicentino, meio modelito 
mefistofélico de Dr. Faustus. Na commedia del’ arte que é a vida acadêmica, assim tipo 
meio Zanni, meio Dottore, como nós dois, aliás. E à feição de bedel das portas férreas de 
Coimbra, ora insinuava aos seus meninos como ler a ficção que é esta vida com seus 
autores, ora lhes fornecia seleta bibliografia para interpretá-los. De onde vinha tanto 
saber? Nem as paredes confessam. O que importa é que Tio Zeca se tornou para os 
meninos das Letras coimbrãs doutor honoris causa, das perdidas e das achadas. 
Honorificamente empossado o Tio Zeca no papel e função que ora aqui lhe cabe, podemos 
voltar à Noite de Maniqueu. Satisfeito, Dottore? 
Plenamente, meu caríssimo Zanni. 
 
2. A noite de Maniqueu 
Vamos lá, Tio Zeca. Conte-nos como foi a peça. 
Olha que lhe pagamos assento de primeira. Como dizem lá os entendidos dessa 
coisa de teatro, um assento no ponto do rei. 
Acende o pavio do homem. 
Luzes, Ti Zeca, olha só, luzes a acender a candeia do copo. 
Tire-nos das trevas dess’A Noite. 
Os meninos de Coimbra querem mesmo saber como foi A Noite e minha noite? 
Então, pinguem aqui mais um copioso pranto dessa bagaceira... Boa a danada... Cresta a 
alma... até esta minha alma precita... Se querem ouvir, caluda e chiton. Só me interrompam 
para reacender o pavio e chama do discurso. 
Combinado. 
Sabem lá vossas mercês o que é testemunhar A Noite de Maniqueu? Já vi que, pelo 
silêncio, vossas mercês têm no pelo menos toga e capelo que eu. Atenção, então. Maniqueu 
deriva do latim tardio manichaeu, ou seja, sectário de Mani ou Manes. Esse senhor aí foi 
um persa que, nascido no início do século III d.C. e falecido em Gundechahpuhr, no ano de 
273, preocupou-se com a existência (quando não coexistência) do Bem e do Mal e procurou 
explicá-los. Para a ingente e bizantina tarefa, Mani ou Manes perdeu o sono, a conceber que 
o universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis, inimigos 
figadais em eterna rixa e luta: um, essencialmente bom (Deus ou o bem absoluto), 
simbolizado pela luz; o outro, essencialmente mau (o Diabo ou o mal absoluto), 
encapuzado pelas trevas. Tal doutrina, tendo encontrado adeptos ou sectários, os 
maniqueus, assumiu ares de seita religiosa, propagou-se pela Índia, China, África, sul da 
Espanha e, graças à globalização do sectarismo, ficou sendo conhecida por “maniqueísmo” 
no mundo inteiro. 
Ó Ti Zeca, que tem isso a ver com a peça? 
Tudo. Tanto que fiz da história de Maniqueu prólogo das considerações que seguem, 
se é que vocês querem mesmo ouvi-las. 
Avante, Ti Zeca. Letras unidas jamais serão vencidas! 
Mais uma gotinha aqui para temperar a garganta. Deitar falação sempre seca a 
saliva. Como não quero adiantar a carroça às alimárias, comecemos pelo título. Os meninos 
sabem que a “acção passa-se na redacção de um jornal, em Lisboa, na noite de 24 para 25 
de abril de 1974”? E um jornal, como era comum na época, amordaçado e comprometido 
com os interesses da ditadura vigente. Tudo, ao cabo, notícia saída nos conformes do 
“Exame Prévio” do Dr. Marcelo. Assim sendo, A Noite do título traz ressonâncias para 
quem queira escutar. Já repararam que jornais, pelo vezo da própria natureza, têm mania de 
associar seus nomes ao Tempo? É um tal de andarmos às voltas com O Dia, O Diário de, A 
Tarde, A Semana... Não me espantaria que A Noite, título dessa peça que vocês me 
pagaram para ver, bem que poderia ser o nome desse jornal onde se passa a ação. 
Reprodutor das trevas do Salazarismo, natural que o jornal se chamasse A Noite. Longa 
noite, sabem os meninos, a durar 46 ou 42 anos, dependendo de quando datem seu começo, 
1928, 1932... Noite que parecia interminável não fosse, sugere também o título da peça, 
aquel’A Noite, a de 24 para 25 de abril, quando transcorre a ação. Noite da libertação. Claro 
que os meninos sabem que a senha do major Otelo Saraiva para a eclosão do movimento 
saiu, às 00h20 do dia 25, na voz de Zeca Afonso... (Cantarola.) “Grandôla, Vila Morena,/ 
Terra da fraternidade./ O povo é quem mais ordena/ Dentro de ti, ó cidade.” 
(Entusiasmados, os “seus meninos” cantam também, regidos por Ti Zeca.) 
Noite da renascença, de nossa renascença, não lhes parece simbolicamente adequado 
que o início das operações ecoasse exatamente pela Rádio Renascença?24 Para a história de 
Portugal, foi A Noite, inflexão que ouço soar no título da peça, sublinhando a importância 
daquela noite já raiada do rubor da aurora e dos cravos. 
Se me fiz compreender, o título da peça já é obra de Maniqueu. Nele temos, 
engalfinhados, xifópagos, o Bem e o Mal, a luz e as trevas. Diário da ditadura salazarista, A 
Noite, enquanto título do jornal amordaçado e/ou cooptado pelas trevas e mal do Estado 
Novo, há de digladiar-se contra A Noite revolucionária e redentora da luz, do bem, da 
renascença inscrita naquela madrugada do 25 de abril. Mais uma lágrima de bagaceira. Os 
olhos andam secos e quero carpir aquela noite-madrugada perdida. 
Atesta aí o tanque do Ti Zeca. 
O maniqueísmo que leio inscrito na sugestão xifópaga do título comprova-se nas 
personagens. De um lado, os mocinhos. Do outro, os bandidos. Rixa que se vinha 
arrastando faz tempo e cujo duelo se dará no raiar daquela madrugada. Além dos bandidos e 
mocinhos, além da turma do Bem e do Mal, havia também a turma da coluna do meio, do 
nem-estou-aí, do ó-nem-te-ligo, bastam-me o futebol e um transístor para ouvir os jogos e o 
resultado do Totobola. 
Aliás, nesse sentido, muito significativa, meus meninos,uma cena em que os dois 
contínuos, Rafael e Faustino, “aproximar-se-ão da boca de cena e falarão sobre apostas do 
Totobola, num diálogo à vontade...” 25 Salazar foi sábio, meninos. Sabia que religião, 
futebol e radinho de pilha são pão, circo e ópio para o povo. Prometeu um Estádio Nacional 
e cumpriu. Tanto que foi à inauguração26. Sei de fonte fidedigna que ouviu a Copa do 
Mundo de 1966 num transístor, rogando a Nossa Senhora de Fátima para que um negro 
moçambicano de nome Eusébio se transubstanciasse num negro brasileiro de apelido Pelé 
e, com a pátria nas chuteiras (qual pátria? Moçambique? Portugal?), enquanto a Metrópole 
fazia guerra à FRELIMO, quer dizer à Frente de Libertação de Moçambique, ele, o 
moçambicano Eusébio, que bombardeasse as esquadras inimigas e fizesse o milagre de 
tornar o selecionado lusíada Campeão do Mundo. Ah, como aquele título viria bem a 
calhar, ainda mais capitaneado por um negro moçambicano de nome Eusébio. Seria a 
 
24. Acerca do início das operações, ver Sebastião Nery – Portugal, um salto no escuro, RJ: Livraria 
Francisco Alves Editora S.A, 1975, pp. 63-64. 
25. A noite, p. 36. 
bênção da tese ultramarina salazarista de que Portugal era um Estado pluricontinental e 
plurirracial [Ti Zeca assume a partir das aspas tom tribunício, de palanque], “não sendo os 
territórios situados fora da Europa colônias, mas sim nossos parceiros e fornecedores 
comerciais, parcelas integrantes do território nacional português e como tal inalienáveis.” 
[Pausa teatral, expectante, do Ti Zeca. Como resposta, um silêncio de múrmuros e 
subterrâneos veios que não podem vir à tona.] Ora, que bem esperei, pra mal dos meus 
pecados, que ouvisse ainda hoje alguém berrar  “Portugal! Portugal! Portugal! Salazar! 
Salazar! Salazar!” 
Ó, Ti Zeca, assim vosmecê nos ofende... 
Só posso levar isso à conta de desaforo. Então não conheces os teus meninos? 
Desculpinha. Foi que me deixei levar pelo peso de uma história de chumbo cujo 
anzol teima em pescar por mares mortos. 
Avante com a peça, Ti Zeca. 
Onde é que parei mesmo? 
Num tal de Rafael e Faustino, os contínuos, a ouvirem, num transístor, peleja de 
futebol e o resultado do Totobola. 
Ora, pronto, lembrei. Antes que esqueça: nessa coluna do meio, além dos contínuos 
Rafael e Faustino, perfilhavam Pinto, o “redactor desportivo”, Cardoso, “redactor da 
cidade”, e Monteiro, um outro redator. 
No time do Bem aparecem escalados: um redator e copydesk das notícias locais, de 
nome Manuel Torres, ouçam-lhe no apelido a verticalidade e altanaria do caráter da 
resistência portuguesa; Cláudia, uma estagiária sonhadora, alma virginal no meretrício 
daquele imprensa prostituída ao Salazarismo; os obreiros da tipografia, Jerônimo, Afonso, 
Damião. Esses aí os do bem, outros Tom Mix, Buck Jones, Anobiuns, carunchos 
subversivos que, resistindo contra o status quo ditatorial, vinham solapando a “Cadeira”, 
aquele objecto quase trono eterno do Salazarismo. 
Já na horda dos bandidos, perfilam os vendidos ao sistema, os pusilânimes, as 
hienas e abutres que se alimentavam do cadaveroso corpo da nação portuguesa sob o regime 
ditatorial... 
 
26. Ver Sebastião Nery, op. cit., p. 87. 
(Calorosos aplausos e notas de elogio à retórica inflamada do Ti Zeca  
inaudíveis, é claro, os elogios porque sufocados pela ovação. O que uma boa bagaceira é 
capaz de incendiar.) 
... no bando das hienas e abutres, a camarilha de merda daquela imprensa cuja cor só 
poderia ser marrom: um tal Abílio Valadares, “chefe da Redacção”, (val’ lá dares tanto 
assim, ó inábil Abílio?); outro a querer ser unha e carne do diretor do jornal, um tal senhor 
de nome Máximo Redondo, metonímico e justo apelido para a balofa rotundidade estilística 
dos editoriais que, círculos viciosos, perpetra, como um intitulado “Cultura e águas turvas”, 
cuja leitura a peça vai impingir-nos para exemplificar os gases mentais de uma imprensa 
que tem o rabo preso 27. A completar o triângulo de amor à ditadura salazarista, o 
administrador dos interesses e compromissos do jornal com o poder entronizado, o Sr. 
Figueiredo, exagero se vir inscrito no nome o labéu da figueira, árvore genealógica dos 
traidores desde Judas? Mas não pensem que fica só nesse triângulo formado pelo Abílio 
Valadares, Máximo Redondo e Sr. Figueiredo o amor ao Mal. Infestam ainda o palco, a 
“secretária da Redacção”, Esmeralda, (a lembrar-nos o verde, cor-símbolo do Fascismo, 
estampado na camisa da Legião Portuguesa?) E a cacarejante Josefina, outra secretária, 
galinha enrustida, sem nenhuma finura. Mai-los os redatores Fonseca, responsável por ser a 
fonte seca das notícias da Assembleia salazarista; o Guimarães, “redactor do estrangeiro”, 
logo ele que no apelido alude à terra, Guimarães, onde, que O Bobo do Sr. Alexandre 
Herculano não me deixe mentir sozinho, Afonso Henriques na batalha de São Mamede, em 
24 de junho de 1128, derrotou a mãe entreguista, vade-retro Satanás, mai-los seus 
espanhóis, que os derrotamos também em 1383 e 1640. Pode um redator vendido ao 
estrangeiro chamar-se Guimarães, topônimo de onde nasceu Portugal? Nossa jangada de 
pedra, desprendida da angústia dessa ibérica península, tem outro rumo. O dos ares e 
maresias atlânticas. Assim sempre o foi, desde nosso Infante D. Henrique, sagrado no 
Promontório de Sagres, a fitar a distância do que fomos e somos, olho marejado do azul 
oceânico... 
(Estrondosas palmas acesas no rastilho da bagaceira. O rubor patriótico crepita 
em faces e nos gestos amplos, moscovitas, que entornam copos na goela e na mesa. Boas 
 
27. Ver A Noite, pp. 37-38. 
lembranças afagam Tio Zeca, enquanto aproveita para tomar fôlego. Pouco a pouco se vai 
adensando um silêncio expectante. Não é que ainda querem ouvi-lo?) 
O conflito maniqueísta fica visível em duas cenas. Uma no começo da peça, outra já 
perto do epílogo. Na do começo, o antagonismo Bem versus Mal se instala para gizar o 
conflito entre os obreiros da resistência e os vendidos ao sistema, quando Jerônimo, o chefe 
da tipografia, contesta a hierarquia, aliás muito prezada e cultivada no jornal, ao desafiar o 
autoritarismo ditatorial do chefe da redação, o tal Valadares, tomando-lhe as notícias 
enviadas pelo correspondente da Guarda. Parece que estou vendo de novo a cena em seus 
pormenores: 
“Valadares: Eu ainda não decidi definitivamente se a notícia sai ou não sai! 
Jerônimo: Está a dar o dito por não dito. Mas, sendo assim, ainda melhor! Se 
decidir que sai, só tem de me mandar avisar. Se decidir que não sai, no lixo estava, para o 
lixo vai. Até rimei... Mas antes ficarei a saber o que diz o correspondente da Guarda... 
Valadares: Vejam todos a questão que se está aqui a levantar por causa duma 
porcaria duma notícia!... 
Jerônimo: Não é por causa da notícia, é por causa das atitudes que o senhor toma. 
Aqui e lá dentro, se precisa que lho lembre. 
Valadares: E se eu participar de si à Administração? Fique sabendo que é a vontade 
que tenho... 
Jerônimo: Faça isso, faça. A pasmaceira é tanta nesta casa que até serviria para 
distrair a rapaziada. (Sai.) 
[Valadares fica sufocado. Os redactores vão reagir diversamente. Esmeralda 
(secretária da Redacção), Guimarães (redactor do estrangeiro), Fonseca (redactor 
parlamentar), Cardoso (redactor da cidade), e Josefina (sem responsabilidades 
particulares), estão claramente e explicitamente do lado de Valadares; Torres e Cláudia, a 
estagiária, apoiam silenciosamente o Chefe da Tipografia.]”28 
A apoteose maniqueísta já esta figura quase no final da peça. As trevas da noite que 
era aquele jornal vão dissipar-se com a notícia redigida pelo altaneiro Torres29 de que 
raiara a madrugada do 25 de abril. Cena porreira, gira mesmo, meninos de Coimbra. 
 
28. A Noite, pp. 26-27. 
Inclusive pela marcação balética da rubrica que o encenador obedeceu, seria ele adepto da 
teoria do “Teatro do Autor”? Recrio-lhes a cena, tintim por tintim nítida em minha 
memória. 
Afrontando os balofos protestos do diretor do jornal (─“Ordeno-lhe que me entregue 
esse papel! Olhe que se arrepende!”), uma vez mais Jerônimo, o contestatório chefe apache 
da tipografia, tira das mãos do altaneiro Torres a nota de que o golpe contra o Salazarismo e 
o parafrásico Marcelo Caetano já chegara às ruas e aos corações. Faltava apenas a 
confirmação do jornal, ardina do ontem que, saído na manhã que nasce, se quer futuro, 
embora não se saiba por quanto tempo. Jerônimo e seus camaradas da oficina, Afonso e 
Damião, retiram-se vitoriosos, levam a notícia de uma esperança: 
“Torres e Cláudia abraçam-se, rindo, ela também chora, ele lança palavras 
precipitadas, descreve o que viu, e não é nenhuma descrição que se aproveite: apenas um 
tropel de frases. Os restantes vagam, aturdidos. Sentam-se, estão de pé, não compreendem 
nada, já compreenderam tudo. Sabem que perderam. Mas nota-se uma espécie de 
movimento coloidal. Começam a formar-se grupos, há uma ondulação balética, e nesse 
passar e repassar os iguais encontram-se com os seus iguais. Perto do gabinete, reunidos, 
acabarão por se encontrar o Director, o Administrador, Fonseca, Guimarães, Josefina, 
Esmeralda. A meio caminho entre este grupo e o do meio, Valadares, como perdido no 
espaço. Ao centro estarão Pinto, Cardoso, Faustino, Monteiro, Rafael. No extremo, como 
vontade que precisamente se quis extrema, Torres e Cláudia. Neste entretanto, ouvem-se 
palmas e vivas, a alegria confirmada da Oficina.” 30 
Pronto, ganharam os mocinhos, Tom Mix, Buck Jones, os anobiuns do Bem. 
Ganharam a noite, primeira, de um jornal que amanheceria virgem, são e salvo dos estupros 
de um “Exame Prévio”, prevenção urologógica ou ginecológica contra os desvios fálicos ou 
uterinos de uma Nação insatisfeita 31. Grande final operístico, a lembrar o “Bolero” de 
Ravel (Tio Zeca vai regendo a orquestração de seu discurso...), a peça terminará ao som 
crescente da rotativa, linha melódica, compasso, sei lá, a marcar o ritmo do jogral entoado 
 
29. A noite, p. 112. 
30. A noite, pp. 113-114. 
31. Note-se que, em A noite, “Exame Prévio”, eufemismo criado por Marcello Caetano para a censura 
salazarista, é matéria de chacota, na página 30, identificada aos exames ginecológicos e urológicos 
aconselháveis com vistas a um saudável consórcio matrimonial. Não me venha, de borzeguins ao leito, um 
pelos partidos da direita, do centro, da esquerda: 
“(Começa a ouvir-se um barulho surdo, ainda longínquo, como um trovão no 
horizonte. Irá crescendo aos poucos, sem abafar as palavras derradeiras, e só depois da 
última se tornará atroador. É a rotativa. Pelo fundo, pela porta da tipografia, entram os 
operários, com Jerônimo, Damião e Afonso à frente.) 
Jerônimo: (Avançando com os companheiros na direção de Torres e Cláudia) A 
máquina já está a andar! 
Todos juntos: (Em tons diferentes) A máquina já está a andar! 
Grupo do Administrador: (Começando em surdina e alternando com o grupo de 
Torres) Há-de parar! Há-de parar! Há-de parar! Há-de parar! 
Grupo de Torres: (Mesmo jogo) Andar! Andar! Andar! Andar! (O ruído da 
rotativa cresce) 
Grupo de Pinto: (Ansiosamente) E se parar? E se parar? 
Grupo de Torres: (Levantando o punho cerrado e logo a seguir estendendo o 
braço obliquamente para o chão, com o dedo indicador apontando.) Tornará andar! (A 
frase será seca, cortada, decisiva, sem réplica.) 
(O barulho da rotativa cresce bruscamente, até se tornar insuportável. Corte súbito. 
Escuridão. Luz forte sobre o grupo de Torres.) 
Grupo de Torres: (Voz natural, mas intensa) Tornará a andar!” 32 
(Sem dúvida tomado pelo entusiasmo do próprio relato, “levantando o punho 
cerrado e logo a seguir estendendo o braço obliquamente para o chão, com o dedo 
indicador apontando”, Tio Zeca proclamará:) 
  E “FIM”, meninos! 
 (A frase também será “seca, cortada, decisiva”, mas não posso acrescentar que 
“sem réplica”. Pois não minto se lhes relatar que os meninos de Coimbra e mais uma 
curiosa audiência que se foi formando à medida que o Tio Zeca, já trepado numa mesa, 
tribunava, todos, uns em lágrimas, outros fungando copiosas corizas, alguns com olhos 
avermelhados, mas, enfim, todos, ressalvadas apenas as maiores ou menores expansões da 
emoção, todos, gorgomilo emocionado já se me embarga a voz do discurso, todos 
 
espermatozóide guerrilheiro fecundar um nossa-senhora-de-fátima-útero virginal. 
aplaudiram de pé Tio Zeca. Vade-retro, Satanás do Cepticismo. Não vou aqui dizer que tal 
e tamanha ovação não seja sincera, que não passa de pavloviana expressão de fingida 
inteligência ao fim dos espetáculos: não vá pensar a plateia, aplaudindo furiosamente de 
pé, que fui o único a não exultar, degustar e entender!) 
 
 
3. Didascálias 
Do grego didascalia, ensinamento. Posto em moeda corrente, didascalia = 
indicações cênicas ou rubricas. Quer dizer, instruções dadas pelo autor ao encenador e aos 
atores para a transposição cênica e interpretação do texto dramático. Facilmente 
indentificáveis pois grafadas as mais das vezes em itálico, não vá confundir o leitor a voz 
das personagens com a do autor  mera convenção gráfica, porque no fundo, aqui entre 
nós, não nos ouçam as soalheiras paredes, tudo é uma única e mesma voz, a do autor, 
fazendo uso das artes de sua ventriloquia. Esclarecido o termo, assente-se que algumas 
didascálias aqui (ou rubricas  garatujadas, criptográficas, ininteligíveis, como se quer 
toda rubrica ) são minhas, as do encenador desta pantomima crítica (ou desta commedia 
dell’ arte ensaística), a dar indicações para a interpretação do texto dramático que, aqui em 
pauta, é A noite, do Sr. José Saramago. 
Despenhado no mise en abyme deste meu texto, eis-me, com lentes multifocais, a 
ver (e a reproduzir-lhes) a visão emocionada e impressionista que Tio Zeca tem da óptica 
(hipermetrópica?) do autor de A noite. Comediante à Diderot (entenda-se: anestesiado de 
qualquer identificação com minha personagem), tendo-me decidido por esta pantomima 
crítica  ou commedia dell’ arte ensaística , natural seja que hão de os leitores, 
coadjuvantes desta encenação, ver-me aqui alternando a máscara, veste, discurso e indústria 
ou do precioso Dottore  com seu às vezes acaciano academicismo  ou do faminto e 
beberrão Zanni, criado esperto e espirituoso, condutor da intriga que se vai urdindo. 
Pago pelos já nossos conhecidos meninos de Coimbra, para, por piada ou partida, 
assistir, em assento privilegiado, o do ponto do Rei, o espetáculo daquel’ A noite do Sr. 
José Saramago, não poderia o Tio Zeca, por mais prodigiosa memória que tivesse (embora 
 
32. A noite, pp. 114-116. 
nos desse prova cabal dela a rever, ipsis litteris, cenas inteiras), não seria cabível pudesse 
ele assinalar detalhes (passe aqui o galicismo), sublinhar pormenores (por maiores que 
venham a sê-los na intenção compromissada), destacar de cor, vivo vermelho de sua 
empatia (no coração, o pulsar da memória?), minudências ou intenções de uma didascália. 
Façamos justiça, verdade creditada a seu favor,Tio Zeca assistiu à peça com a 
pormenorizada atenção que houvemos a oportunidade de testemunhar. Contudo, sem ter 
lido a primeira edição, saída pela Editora Caminho no mesmo ano de 1979, ou a segunda de 
1987, que tenho em mãos, inverossímil seria pôr-se ele aqui a esmiuçar as rubricas 
semeadas ao longo do texto com o intuito de nos provar seu ponto  ou seja, que A noite 
do Sr. José Saramago é uma peça maniqueísta ou, se preferirem seu colorido discurso, que 
se tratou de uma noite de Maniqueu aquela que lhe fora proporcionada pelos meninos de 
Coimbra. Assim sendo, em nome da verossimilhança e cumprindo minhas funções de 
Dottore e Zanni, asseguro-lhes que, aberta sob óculos multifocais a edição de 1987, as 
rubricas de A noite, para além do maniqueísmo que inscreve nas personagens, não 
conseguem disfarçar seja a tomada de partido do Autor seja o vezo narrativo-descritivo 
próprio de um ficcionista, mas incaracterístico num texto verdadeiramente teatral. 
Natural, seja por estar de olho no palco seja pela inflamação óptica do relato, que 
Tio Zeca, aquando da formação balética dos grupos de direita, de centro e de esquerda, não 
pudesse ler, na rubrica, que “os iguais encontram-se com seus iguais” (fraternidade e 
igualdade sem liberdade); que “no extremo, como vontade que precisamente se quis como 
extrema”, estarão Torres, Claudia e, logo em seguida, os obreiros da tipografia; e que os 
subservientes ao regime ou os alienados, vagando ali no palco aturdidos, “não 
compreenderam nada, já compreenderam tudo”. Olho vivo e perspicaz, Tio Zeca bem que 
lhes percebeu o aturdimento, não dos meninos de Coimbra mas das personagens, entendido 
seja, bons eram os atores, porém ler em seus movimentos e semblantes que, 
oximoristicamente, os de direita ou de centro “não compreenderam nada” e, 
simultaneamente, “já compreenderam tudo”, era exigir demais de seu memorial descritivo-
narrativo, a não ser que se concedesse a ele, Tio Zeca, mero assistente do visível e audível 
mas não do literariamente legível, as artes da obstetrícia psicológica, esse fórceps ou 
cesariana da onisciência autoral. 
Sabido é que toda peça, mesmo que não queira, acaba sendo serventuária (melhor 
seria “serviçal” pelas ressonâncias subservientes?) das rubricas do autor. Nelas, o foco-
narrativo, o ponto-de-vista do senhor-todo-poderoso. As rubricas (ou didascálias) de A 
noite do Sr. José Saramago não fogem à regra do compromisso ou engajamento que nelas 
se inscreve: tatuagem na pele das personagens e ação  apenas visível ou perceptível, 
nunca literariamente legível. 
Já na abertura do primeiro ato a descrição da redação deixa ver, na sugestão da 
atmosfera, o dedo do ficcionista e não do teatrólogo: “Profunda impressão de tédio, de 
rotina, de noite igual a outras.” Marasmo que, descontada a guerrilheira ação consignada 
pelo Autor ao Jerônimo-chefe-apache-da-tipografia, só será abalado no final desse mesmo 
primeiro ato, quando soar a senha de “Grândola, vila morena”. Na orquestração da rubrica 
do Sr. José Saramago, a criptográfica palavra-de-ordem do major Otelo Saraiva na voz de 
Zeca Afonso terá o teatral condão de ferir as cordas histéricas de Valadares, o preposto testa 
de ferro ou cabeça de bagre à cabeça da redação daquele jornal subserviente ao 
Salazarismo. 
(Acabo de reler o período anterior, fremente de indignada retórica. Cáspite, como 
rubricas, que vêm gizando personagens e ações, podem influenciar nosso ânimo a favor ou 
contra! Começo a entender agora toda a inflamação empática (e hepática) do Tio Zeca que, 
não obstante a clareza com que viu naquel’A noite a noite de Maniqueu, acabou 
partidariamente engolfado por ela. Caluda, Zanni e avante, Dottore! Meta aí dois pontos 
seguidos da citação que interessa, aquela a caracterizar a histeria autoritária do chefe da 
redação!): 
“Valadares (num berro): Faustino! 
(Faustino, que está na Redacção, dá um salto. Quer desligar o transístor, mas 
engana-se, e aumenta bruscamente o volume do som.) 
Voz do locutor: Grândola, vila morena! Terra da fraternidade / O povo é quem mais 
ordena/ Dentro de ti, ó cidade. 
(Ranger forte das botas na terra. A voz de José Afonso começa a cantar.) 
Valadares (Que primeiro pareceu aturdido, vem à boca de cena, desvairado, 
tapando os ouvidos): Desliga-me isso! 
(É um grito de quem não sabe, seria o grito de quem soubesse.) 
(Corte súbito do som. Escuridão.) 
FIM DO PRIMEIRO ACTO” 
(Andiamo via, Dottore. Sublinhe para os leitores a intromissão do Autor ao 
registrar que a ordem do Valadares “É um grito de quem não sabe, seria o grito de quem 
soubesse.” Diga-lhes que, ao cabo, se trata de uma notação sem nenhuma função cênica, 
invisível aos olhos da plateia, simplesmente a marcar a presença poeticamente sibilina do 
Demiurgo.) 
Não obstante uno, acabo de surpreender-me múltiplo: eu, Tio Zeca, Dottore e Zanni. 
Contudo, juro-lhes, genuflexo ad altarem dei desta commedia dell’arte ensaística, que não 
sou pessoa(s) a sofrer de esquizofrenia, ressalvada naturalmente aquela que acomete todo 
dramaturgo ou ficcionista. Aliás, neste livro polifônico (bakhtiniano?) que venho ajudando 
a engendrar, sou (sua bênção, Gil Vicente!) todo mundo e ninguém. Comediante à Diderot 
 leia-se: a(u)tor , são as vozes aliciantes da didascália que conformam e conduzem meu 
ser e ação. Assim como, páginas anteriores, guiaram a empatia hepática do Tio Zeca. 
Dito isso, crendo estar exorcizado do demônio da rubrica que me conduz... 
(Avante, Dottore, sem essas artimanhas de Zanni! Cumpra seu papel. Traga à 
colação trecho da rubrica que, à página 61, abre o segundo ato.) 
Pronto, Berzebu (ou serás Dinato?), já cá está:  “A Redacção está tranquila. Não 
é o tédio habitado do primeiro acto, é antes o abandono fatigado de alguma coisa que se 
acabou.” Uma vez mais a intervenção do narrador a colorir a atmosfera numa rubrica que 
pouco ou nada tem de funcional para o palco. Vislumbra-se a invasão de uma onisciência 
característica do discurso romanesco. O ficcionista sobrepõe-se ao dramaturgo. Podem, é 
certo, os atores passar-nos a impressão ou sensação do “abandono fatigado de alguma 
coisa”, mas não sabem as personagens ainda que coisa é essa “que se acabou”. Tanto que 
elas, direitistas, centristas ou esquerdistas, pensarão tratar-se de outro 16 de março, como se 
lê às páginas 68-69: 
“(Entra Torres pela porta C. Josefina junta-se apressadamente ao grupo dos 
homens. Murmuram. Sente-se que Torres faz um tremendo esforço para se dominar. É 
como um motor que procurasse reprimir a vibração que resulta do seu próprio 
movimento.) 
Torres: (Tenso, parando junto de Cláudia, mas sem a olhar) Vem comigo até à 
janela. Não digas nada, vem. 
(Torres chega-se à boca de cena. Cláudia aproxima-se e fica ao lado dele. Ambos 
muito direitos. Podem falar alto porque houve uma mudança de nível, um salto no tempo, a 
história moveu-se. Por enquanto ninguém os ouvirá na Redacção.) 
Torres: Vieram dizer-me que há deslocações de tropas em quase todo o país. Lisboa 
está a ser cercada. 
Cláudia: (Após um silêncio de voz estrangulada) Que tropas? Contra quem? Tem a 
certeza de que é verdade? 
Torres: Quem mo veio dizer, sabe o que diz. Desta vez, o governo vai-se abaixo. 
Cláudia: É outro 16 de março... 
Torres: Não creio. Agora é a sério.” 33 
Os grifos na didascália do Sr. José Saramago correm à minha conta. Visam a chamar 
a atenção para a inconveniente presença e part pris do Demiurgo, ainda mais considerando 
que A noite não se constrói como teatro épico, categoria que permite as intrusões e o 
didatismo engajado de um narrador-comentador. Que a rubrica oriente o ator para que nos 
faça sentir “que Torres faz um tremendo esforço para se dominar”, está ela a cumprir sua 
missão. Informar, contudo, que o esforço que vem fazendo para conter-se é o de um “motor 
que procurasse reprimir a vibração que resulta do seu próprio movimento” é notação 
despicienda,porque imperceptível para a plateia, e mais um sinal de que o ficcionista 
sobrepuja o dramaturgo, sufocando-o. Tendo-se devotado à crônica, poesia, conto e 
romance desde sua estreia em 1947 (com Terra do pecado), acostumado, pois, às efusões 
poéticas, dissertativas e narrativas, compreensível, mas não justificável, que o tom épico se 
 
33. “Toda a preparação técnica e militar do golpe ficou restrita a um número pequeno de oficiais. Com várias 
manobras de contra-informação, associadas à preocupação da Pide (agora Direção Geral de Segurança – 
DGS) com o anúncio das oposições clandestinas de um primeiro de maio ‘vermelho’, os revolucionários 
lograram apanhar o governo de surpresa no dia 25 de abril. Antes disso, outro fator, aparentemente uma 
derrota, auxiliou o efeito surpresa: o golpe falhado de 16 de março. Neste dia, uma coluna de soldados e 
oficiais sublevados saiu do regimento de infantaria 5, das Caldas da Rainha, e se dirigiu a Lisboa. Vendo-se 
isolados e sem apoio de outras unidades do exército, os revoltosos foram obrigados a retornar para serem 
presos. Liderada por oficiais milicianos e, supostamente, mais próxima do general Spínola, essa revolta apenas 
preparou o 25 de abril.” (Lincoln Secco, A Revolução dos Cravos, SP: Alameda, 2004, p. 116.) Ver também a 
obra já citada de Sebastião Nery, Portugal, um salto no escuro, pp. 56-58. 
imiscua e venha a contaminar essa primeira experiência teatral do Sr. José Saramago. 
Entendamo-nos, meninos de Coimbra. Trata-se A noite de uma experiência teatral 
que, obediente às angústias da unidade de tempo (“na noite de 24 para 25 de abril de 
1974”), de espaço (“redacção de um jornal, em Lisboa”) e de ação (conflito Mal, noite, 
trevas do Salazarismo, versus Bem, madrugada, renascença redentora), além de buscar a 
comunhão catártica dos espectadores na jogralesca cena final,  trata-se A noite, pronto, 
enfim, de uma peça que foi construída de acordo com a receita da dramática aristotélica. E 
não segundo a fórmula épica, brechtiana ou piscatoriana, em que pese o cunho 
politicamente engajado que se lhe imprimiu. 
Analise-se o outro trecho e ver-se-á que o engajamento político mais os vezos 
narrativo e o dissertativo retornam a assinalar a incipiência dramatúrgica do autor: 
“(Torres chega-se à boca de cena. Cláudia aproxima-se e fica ao lado dele. Ambos 
muito direitos. Podem falar alto porque houve uma mudança de nível, um salto no tempo, a 
história moveu-se.)” 
Busque-se num dicionário-sabe-tudo os sentidos para “direito” com sua teleologia 
adjetiva, substantiva ou adverbial. Com paciência (longo o verbete, meu caro Zanni,) 
haveremos de registrar, para além de uma postura “vertical”, “ereta”, significados outros 
(mais politicamente corretos?) para “direito” como : “que segue a linha reta”, “que segue 
uma determinada direção e não se desvia dela”, “reto, justo, equitativo, honrado, íntegro”... 
Chega ou precisa mais? Suficiente a coloração engajada de Torres e Cláudia, “ambos muito 
direitos”? Assim como o são, ainda segundo a peça, Jerônimo-o-chefe-apache-da-tipografia 
mais seus camaradas Afonso, Damião. 
Não estranha que, na apoteose da peça, orgástico epílogo de “Bolero” à Ravel, 
segundo Tio Zeca, a palavra final, definitiva, sem réplica, caberá ao “Grupo de Torres”  
e não, note, ao grupo do Torres. Direito, vertical, reto, justo, equitativo, honrado e íntegro 
será, na óptica do dramaturgo, o grupo de Torres formado pela guerrilheira resistência dos 
Tom Mix, dos Buck Jones, dos anobiuns, codinomes, assim como o podem ser Torres, 
Cláudia, Jerônimo, Afonso, Damião, nomes quase, mas os nomes que têm porque lhes deu 
o Autor ao batizar os obreiros do desabamento da “Cadeira”, da ex cathedra ditatorial de 
Salazar e seu, naquele 1974, parafrásico Marcello. 
Não se tratando de outro abortado 16 de março (traz Torres essa convicção, basta 
rever-se a rubrica grifada lá de cima), pode agora o grupo de Torres falar alto: “Podem falar 
alto porque houve uma mudança de nível, um salto no tempo, a história moveu-se.” 
A história moveu-se. Disse-o o Sr. José Saramago nessa peça de 1979 à orelha do 
encenador (nos bastidores?), aos olhos de quem viesse a lê-lo. Contudo, palavras ao vento 
porque inaudíveis na plateia, surda às efusões narrativas ou dissertativas de qualquer 
rubrica, por mais ponderosa ou engajada ou poética que possa ser. 
Não sei se tanta certeza têm os que foram à estreia de A noite  ou tem hoje o 
Autor, neste 16 de junho de 2004, data em que, Dottore até este momento exorcizado das 
intrigas inconvenientes do Zanni, assento estas precisas linhas. A dúvida inscrita nos 
períodos anteriores veio-me inoculando o Tio Zeca, aqui e ali, não obstante o vivo 
vermelho da emoção de seu testemunho. Verdade que hoje em Portugal podem falar alto. 
Verdade que houve uma mudança de nível, um salto no tempo, pois a história moveu-se, 
como sempre se move. Resta saber se neste junho de 2004, apesar de a história ter-se 
movido, houve realmente um salto no tempo, capaz de propiciar uma mudança de nível,  
e não Um salto no escuro de outra noite como, inconscientemente, antevira Sebastião Nery 
no título de seu livro, já aqui citado, saído em 1975, quando estava a fazer um ano o crianço 
da Revolução dos Cravos. 
(Zanni invade a cena desta commedia del’arte ensaística. Quer pegar a pau o 
Dottore, dar-lhe uma corrigenda, para que aprenda a não se deixar levar por digressões 
acacianas  imponderáveis, tamanha a leveza de seu ser filosófico. Não importa que a 
queda do muro de Berlim (9/11/1989) seja a vitória do Liberalismo oitocentista renascido, 
daí ser um Neoliberalismo triunfante; não importa que todo operário desde sempre tenha 
por anelo ser, no mínimo de seu salário, um pequeníssimo-burguês a serviço do selvagem 
mas triunfador Capitalismo... São verdades históricas (de peso acaciano) paridas desde o 
manifesto comunista de Marx... Tudo bem... Mas interromper o fluxo de consciência 
crítico-ensaísta, ah, isso não! E como fica o leitor, abandonado lá em cima, perdido o fio 
da meada-ariadne? Zanni sou eu, o criador das barafundas. Não me venha o Dottore, 
homem duplicado, roubar-me a identidade! Taí, gostei do foco desta rubrica num estilo 
indireto-livre. Voz de quem sou eu  o outro?) 
 
4. Dramaturgo involuntário 
Maniqueísta no enfoque engajado, minotauro dramatúrgico,  meio aristotélica na 
obediência às unidades de tempo, espaço e ação, meio brechtiana nas intervenções épicas e 
compromissadas das rubricas , assim saiu, para quem tenha olhos de ler, A noite, 
primeira experiência teatral do Sr. José Saramago, cujos dois atos, esclareceu-nos Tio Zeca, 
tratam, o primeiro, da noite do passado, o segundo, da aurora (sempre esperançosa) do 
futuro, ato em que o Sr. José Saramago propõe às gerações vindouras de um jornalismo por 
renascer a questão deontológica  Que fareis com esse vosso jornal?34 Ante injunções 
político-censórias da roda da fortuna, sempre incerta, imprevisível, a rotativa desse vosso 
jornal e da História há-de parar? E, se parar, senhores, que fareis com a rotativa desse vosso 
jornal e da História? Tornará a andar? 
Em A noite vai ganhando feição e corpo o compromisso cívico e político da 
literatura do Sr. José Saramago, cujos vagidos começaram a ouvir-se em Manual de 
pintura e caligrafia (1977) e nalguns relatos de Objecto quase (1978), como “Cadeira”, 
“Embargo”, “Refluxo”, “Coisas”. 
Sr. José Saramago: “O meu objectivo era falar do compromisso na literatura, 
melhor dizendo, do compromisso cívico e político (não necessariamente partidário) do 
autor com o tempo em que vive.” 35 
Só que uma epígrafe, como, por exemplo a de Objecto quase, tirada de A Sagrada 
Família de Marx e Engels, pode denunciar o compromisso partidário do engajamento 
cívico e político. Lembro-lhe, se me permite a impertinência, que todo engajamento cívicoe político sempre é partidário, não importa a cor do Partido. Juro que não vou disparar-lhe 
um “Então vossemecê agora quer fazer da literatura panfleto?”  , odienta pergunta que o 
Senhor abomina e que por delicadeza não faria, ainda mais considerando que A noite, 
escreveu-a o Senhor, não é verdade?, a pedido de Luzia Maria Martins, que o achou “capaz 
de escrever uma peça”, conforme se lê na dedicatória do volume que tenho em mãos. (Boa 
 
34. A mesma questão deontológica que um ano depois, em 1980, será título de uma outra peça, essa a respeito 
de Os Lusíadas : Que fareis com este livro? Ler, com olhos críticos de ver, sempre é um compromisso. A que 
este livro não se furta. 
35. Cadernos de Lanzarote, SP: Companhia das Letras, 1998, p. 409. 
companhia a dos amigos, sempre uma dádiva tê-los, a afagar-nos, com incentivo e elogio 
camaradas, o ego criativo.) Trazendo no currículo poesia, crônica, conto, romance, ainda 
mais tendo trabalhado no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias, de onde saíra em 
novembro de 1975, conhecedor, pois, dos intestinos da redação de um jornal, ora, vamos lá, 
por que não se aventurar pela escrita teatral compondo uma peça de teatro cujo tema ( 
Deontologia e Jornalismo, se bem o pesco) abre pauta para a discussão sobre liberdade de 
imprensa, censura, subserviência jornalística a interesses político-econômicos... 
Sr. José Saramago: “Disse-lhe [a Luzia Maria Martins] que não, primeiro porque 
nunca tinha feito teatro, não sabia como é que se fazia, nem nunca fui grande leitor de 
teatro. Mas passados dois dias, tive a ideia de que talvez a coisa fosse possível, desde que 
eu colocasse isso na noite de 24 para 25 de abril  e assim nasceu a peça. Entretanto, A 
noite não foi posta em cena pela Luzia Maria Martins, mas pelo Joaquim Benite.” 
Aí está a explicação para a incipiência dramatúrgica de A noite:  “ [...] nunca 
tinha feito teatro, não sabia como é que se fazia, nem nunca fui grande leitor de teatro.” 
Contudo, escrever e coçar  sabe-o tu, Zanni?  é só começar. Pruridos incoercíveis. 
Ainda mais quando, profissional das letras próprias ou alheias, precisamos escrevê-las ou 
traduzi-las para a sopa e o pão diários. Obras de pane lucrando, diz o latinório. 
(Pense bem, Dottore, no que vai dizer acerca dessa primeira experiência 
dramatúrgica do Sr. José Saramago. Não vá saltar-lhe à jugular da veia teatral. Não vá 
esquecer que já lhe justificou o fato e necessidade de tentar ser naquele 1979 um escritor 
profissional...) 
Em verdade nada direi. Deixarei que o digam por mim citações autocríticas do 
próprio Sr. José Saramago. Como vês, meu caro Zanni, estou a esforçar-me, procurando 
entender o que se passa na caverna do inconsciente do Sr. José Saramago nesses anos 
formativos de 1947 a 1979. Agora, por exemplo, não estou indo à jugular de sua veia 
teatral. Talvez porque meus caninos saibam-na carne de pescoço, diagnóstico aliás 
partilhado pelo próprio Autor. 
No dia 6 de junho de 1994, em página do segundo volume de Cadernos de 
Lanzarote, o Sr. José Saramago definiu-se como “dramaturgo involuntário”, “pedindo 
escusa às pessoas do ofício pelas vezes que me intrometi na sua área de trabalho sem ter 
para isso a justificação do talento”. 
E um “dramaturgo involuntário”,  esclarecerá ainda, desta feita em 1998 , 
porque (cito com devidas aspas) “Todas as peças de teatro que escrevi resultaram de 
convites e de propostas, desde A noite, que me foi pedida pela Luzia Maria Martins...” 
[...]”.36 Não obstante, deve ter tomado gosto pela experiência teatral. Tanto que reincidiu 
com Que farei com este livro? (1980), A segunda vida de Francisco de Assis (1987) e In 
nomine Dei (1993). De pane lucrando37 . 
Que profissional da escrita seria hipócrita ao ponto de dizer deste pão não comerei, 
deste vinho não beberei? Ora, vamos lá, Dottore, responda-me a isso? 
Não lhe respondo nada, Zanni. Deixo a resposta a cargo e responsabilidade do 
próprio fautor dos cometimentos teatrais: 
Sr. José Saramago [em diálogo com Carlos Reis]: “O que eu quero dizer é o 
seguinte: é que o facto de ter escrito quatro peças de teatro não só não me leva a considerar-
me dramaturgo, como não me dispõe a escrever qualquer outra coisa sob a forma teatral”. 
Gravou a resposta, Zanni? Amanuense de conta-corrente, a registrar livro de haveres 
e deveres literários, tomo a autocrítica do Sr. José Saramago, sua mea culpa... 
Não lhe parece, Dottore, que mea culpa é inadequado latim de igreja para autor que 
se diz ateu? 
Vá lá... Amanuense de conta-corrente, a registrar livro de haveres e deveres 
literários, tomo a autocrítica do Sr. José Saramago... Tomo-a... pronto... como palavra de 
compromisso assumido. Apesar do rosto escanhoado com que se nos mostra nos retratos, 
tomo-lhe a promessa como metonímico fio de barba antanha ─ a dos hirsutos tempos 
afonsinos. Acaso lhe enxergam, no nó frouxo da gravata, sinal do baraço com que Egas 
Moniz, homem de palavra, se apresentou a Afonso VII, o soberbo castelhano, para pagar 
dívida contraída e não passar por fementido? 38 Autor cuja ética, convicção e consciência 
não se põem em causa, não há, pois, que duvidar venha ele a sofrer a recidiva do febrão 
teatral. Com os votos de consolidado restabelecimento, ponhamos fim nisso tudo, meu caro 
 
36. Carlos Reis, Diálogos com José Saramago, pp. 113-114. 
37. Á época em que o Sr. Ângelo Ruzzante de Pádua escreveu este ensaio ainda não tinha vindo a lume a peça 
Don Giovanni ou o dissoluto absolvido, publicada em 2005. Contudo, o argumento de ser o Sr. José 
Saramago um “dramaturgo involuntário”, “sem a justificativa do talento” mas propenso a recaídas na tentação, 
mantém-se irretocável, creio eu. [Nota do Organizador] 
Zanni. 
Assim?... Um fim sem réplica, cortado, decisivo? Só lhe faltou levantar “o punho 
cerrado e logo a seguir estendendo o braço obliquamente para o chão, com o dedo 
indicador apontando” o Fim, decretar que esta discussão não tornará a andar? 
Caluda, Zanni! Minha frase de Dottore será, sim, seca, cortada, decisiva e sem 
réplica, como o cair do pano em A noite. Não compreendeste, Zanni, que faço parte do 
altaneiro grupo de Torres ─ o do saber sem discussão por mais óbvios que sejam os 
argumentos críticos e contrários? A Fé, seja credo religioso ou político, não admite 
discussão acerca da luz que dorme durante A noite. 
Que sentido tem então dizer ─ conforme se lê na epígrafe deste nosso ensaio ─ que 
nos cabe, como Zanni e Dottore, despertar a Luz de seu sono ou cochilo? 
 
 (24/5-15/7/04) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
38. Os Lusíadas, III, 35-41. 
 
Cartas à Redação: foro e desaforo do leitor 
 
“Quem dá com a língua nos dentes, às vezes está à procura do siso.” 
 (Incunábulo dos Apólogos) 
 
Maniqueísmo 
Parabenizo essa Redação por dizer, com todas as letras, que a peça A noite, dentre 
outros defeitos naturais a um autor pouco familiarizado com as lides teatrais, apresenta uma 
visão maniqueísta cujo anacronismo é inexplicável, considerando que, encenada em maio 
de 1979, ou seja, passados cinco anos da Revolução dos Cravos, já não tem cabimento o 
bombardeio do Bem contra o Mal do Salazarismo. Se tal engajamento tivesse vindo a lume 
na década de sessenta do passado século XX, anos áureos de uma resistência que nos deu 
peças de valor inestimável e paradigmático, como O Render dos Heróis (1960), de José 
Cardoso Pires, Felizmente há luar! (1961), de Sttau Monteiro, O Judeu (1966), de 
Bernardo Santareno, ainda vá lá, seriam compreensíveis a resistência antifascista e sua 
vermelhidãoinflamada,  características, aliás, bem captadas pelo crítico dessa Redação 
na figura “hepática e empática” do simpático Tio Zeca. Sou ator, encenador e não me 
considero um analfabeto funcional.[...] Apolo Dionísio da Silva, Santana do Livramento 
(BH). 
 
Paixão cega 
Amo de paixão José Saramago! Os invejosos que falam mal dele estão é morrendo 
de dor no epicôndilo. Maria Madalena da Paixão, Nova Jerusalém (PE). 
[Esta Redação vê-se obrigada a intervir, para esclarecer a telegráfica manifestação da leitora. Dor no 
epicôndilo significa em vernáculo vulgar “dor de cotovelo”. Parece a esta Redação que a leitora , que “ama de 
paixão” o Sr. José Saramago, se inspirou, parafrasicamente,  sem citar a fonte , em página de Cadernos 
de Lanzarote (3 de novembro de 1995) na qual se lê: “A epicondilite, aclaro para quem não sabe, é uma 
osteíte do epicôndilo, o qual epicôndilo, por sua vez, é a saliência mais externa da extremidade inferior do 
úmero. Por assim dizer, uma espécie de dor de cotovelo sem ciúmes...” Desculpe-se a intervenção. 
Necessária, contudo, para aclarar a “quem não sabe” o que é epicôndilo... Não venham lá dizer que esta 
Redação, dotada de prodigiosa memória e de ensaístas sobre a cegueira e a lucidez, desconhece a obra do Sr. 
José Saramago.] 
 
Solidariedade 
Voi là, c’ est la vie! Antes que alguma Sra. Lourdes de Fátima ou alguma Srta. (Srta. 
sem flor de laranjeira?) Maria Madalena da Paixão tire a espada à cinta para castrar, decepar 
rente, a OPINIÃO corajosamente VIRIL do leitor Apolo Dionísio da Silva (Maniqueismo), 
com ele (Apolo, é claro, e não com o Maniqueismo!) me solidarizo. Também me pergunto 
eu por que, tendo passado já cinco anos da Revolução dos Cravos (a peça A noite é de 
1979), o Sr. José Saramago insistiu no tom maniqueísta e panfletário contra um 
Salazarismo já morto e deposto. Por que o Sr. José Saramago, não procurou, como fez a 
peça Arraia-miúda de Jaime Gralheiro, sondar o naufrágio, em águas de batata e bacalhau, 
da Redentora de 25 de abril de 1974? “Para quem não sabe”,  ponho aqui as aspas 
devidas, pois reproduzo a bandarilha com que o Sr. José Saramago, olé, toureou, a 
propósito de “epicondilite”, nossa ignorância , “para quem não sabe”, para quem, 
desentendido, ainda não sabe, a peça Arraia-miúda de Jaime Gralheiro foi escrita durante o 
Verão Quente, em 1975, após seu autor ter sido corrido da Câmara Municipal de S. Pedro 
do Sul, onde, revolucionariamente [grifo do missivista], exercia as funções de Presidente da 
Primeira Comissão Administrativa depois do 25 de abril de 1974. E então? E então? Por 
que o Sr. José Saramago não fez de sua A noite o exame crítico da escuridão, do salto num 
escuro que foi dado pelos Cravos que brigaram com as Rosas da primaveril esperança de 
um povo sofrido? Sou também um encenador. Entendido, portanto, na matéria. Devo 
confessar que, antes de optar pelo palco, trabalhei num talho especializado no fabrico de 
salsichas de porco e vitela. Embora eu ainda goste muito de salsichas e salsichões, 
abandonei a profissão no talho, porque ela não me permitia exprimir livremente, 
amplamente, corajosamente e publicamente a minha personalidade de artista liberado. C’est 
la vie avec ses mistères! Querido Apolo Dionísio da Silva, estou sempre aberto e receptivo 
a profundas intervenções intelectuais. Meu e-mail é... 
[Os prezados leitores que me desculpem, mas a Redação vê-se obrigada, uma vez mais, a intervir 
nesta ágora, nesta praça pública de opiniões democráticas. Copidescando, como sempre faz em prol da 
correção e do estilo, a Redação cortou rente e cerce o seguimento da manifestação do Sr. Orfeu Greco de 
Sant’Anna, residente, diz ele, no bairro da Barra Funda (SP). Primeiro, cortou-a rente, porque esta ágora, 
embora praça pública das manifestações dos leitores, não se propõe a ser um chat entre internautas 
entendidos. Segundo, cortou-a cerce, porque esta Redação desconfia que Orfeu Greco de Sant’Anna se trata 
de um pseudônimo travestido na personagem “Encenador” inscrita em Guerra Santa (1967), de Luís de Sttau 
Monteiro. A tal personagem era também um entendido no embutir salsichas e salsichões, antes de se “exprimir 
livremente, amplamente, corajosamente e publicamente em sua personalidade de artista” liberado como 
encenador. Voi là, c’est la vie avec ses mistères!, sim senhor. Mistérios parafrásicos  regurgitar de fontes e 
paradigmas soantes e ressoantes  que esta Redação, pulo de gato escaldado na fria da intertextualidade 
linda-hutchoniana ou da polifonia baktiniana, põe em pelo.] 
 
Dos cravos murchos 
Quero dizer ao leitor Orfeu Greco de Sant’Anna que esse soberbo escritor que é o 
Sr. José Saramago sabe sim que os cravos da Revolução de 25 de abril murcharam faz 
tempo. Se o leitor fosse um pouquinho mais bem informado teria lido no site www.ipp-
uerj.net/outrobrasil/documento uma entrevista na qual o nosso Nobel faz um balanço em 
2004 dos trinta anos da chamada Revolução dos Cravos. Na referida entrevista leria que a 
“Revolução tinha um projeto”, “um projeto de socialismo claro. Mas não ficou nada disto. 
Hoje em Portugal podemos comemorar a revolução que acabou com a ditadura fascista e 
nos trouxe a democracia, mas evidentemente tenho de acrescentar que não ficaram 
rigorosamente nada daquelas ideias de transformações sociais. E, pior ainda, digamos que 
passamos de um momento histórico da vida portuguesa, onde as pessoas eram capazes de 
‘construir seu próprio futuro’ para um momento de apatia total.” O leitor Orfeu deveria era 
enfiar sua viola no saco e parar de dizer besteiras acerca da consciência política do Sr. José 
Saramago. Ubiratan Craveiro Rosas. Biracraro@.com. 
 
Memento homo quia Salazaris es et in Salazarem reverteris 
Percebo que uns leitores, na toada dos autores responsáveis pelos ensaios acerca de 
Manual de pintura e caligrafia (1977) e A Noite (1979), andam considerando anacrônico o 
engajamento desse estupendo autor que é o Sr. José Saramago, só porque ele insiste no 
combate à ditadura fascista do Salazarismo em obras publicadas depois da Revolução dos 
Cravos [25/4/1974]. Esses leitores acham que, no fundo, se trata de fuzilaria com balas de 
festim ou tiro a um alvo já morto e enterrado, não passando tal intervenção compromissada 
de mera pirotecnia de um engajamento festivo. Afinal, na perspectiva preconceituosa deles, 
pega bem e dá status de inteligência a qualquer autor ser gauche na vida. Como se José 
Saramago precisasse deste subterfúgio para impor-se como o melhor romancista da língua 
portuguesa, tão Imperador da Língua como o foi, noutro gênero de escritos, o 
Reverendíssimo Padre Antônio Vieira. Quero lembrar a esses Senhores que eles se 
esquecem (ou desconhecem) que a redentora Revolução do Cravos murchou, simplesmente 
murchou, dezenove meses depois de seu florescer. E murchou, em 25 de novembro de 
1975, quando os militares ditos profissionais de carreira (direita volver!, corre para onde 
sopram os ventos!), sob o comando do tenente-coronel Antônio Ramalho Eanes, correram e 
assumiram o poder, sob o pretexto de evitar um golpe da ala esquerda das Forças Armadas. 
Quero lembrar a esses Senhores que eles se esquecem que o contra-golpe militar da ala 
centro-direita deu repolhudos frutos. Nas eleições presidenciais de 27 de junho de 1976, 
substituída a lupina farda pelo cordeiro terno civil, Antônio Ramalho Eanes emerge da 
cartola das urnas como primeiro Presidente da República constitucionalmente eleito com 
61,5% dos votos. Lembram-se eles do major Otelo Saraiva de Carvalho? Claro que se 
lembram do major Otelo Saraiva, sob cuja voz de comando soou, às 00h20 do dia 25 de 
abril de 1974, a senha “Grandôla, Vila Morena”, de Zeca Afonso, cantiga a embalar o 
despertar de um povo... Pois bem. Naquela eleição (27 de junho de 1976), esmagadora 
maioria de portugueses não mais quis ouvir a voz de Zeca Afonso. Nem a de Otelo Saraiva.Tanto que, não obstante também substituída a lupina farda pelo cordeiro terno civil, Otelo 
Saraiva de Carvalho saiu tosquiado das urnas com 16,5% da vontade popular. 
Democraticamente venceu o inconsciente coletivo português: rural, colonialista, 
ultramontano (tão ultramontano que, trás ou além dos montes, está a léguas de distância da 
Teologia da Libertação!). Em duas palavras, venceu o reacionarismo retrógrado. Aquilo que 
esses leitores, sugestionados pelos ensaios acerca de Manual de pintura e caligrafia e A 
Noite, consideram anacronismo de um engajamento festivo trata-se, na verdade, de um 
lembrança: a de que Portugal, tendo enveredado pelos descaminhos da Direita ou do 
Centro, revela ter memória curta. O que esses senhores chamam de engajamento festivo e 
anacrônico é, de fato, um memento: Memento homo portucalensis quia Salazaris es et in 
Salazarem reverteris. Desculpem o latim, mas é que sou padre, coordenador da “Pastoral 
Ideológica da Fé Cega”. Pe. Robespierre Danton da Silva, SCJ, Itaici (SP). 
 
[Pulo de gato escaldado na fria da intertextualidade linda-hutchoniana ou da polifonia baktiniana, 
esta Redação põe em pelo que o sapiente latim do padre jesuíta Robespierre Danton da Silva (Memento 
homo portucalensis quia Salazaris es et in Salazarem reverteris) deve ter-se inspirado no “Sermão da 
Quarta-Feira de Cinza”, pregado por Antônio Vieira em Roma, no ano de 1672, na Igreja de Santo Antônio 
dos Portugueses. Nesse sermão, para quem não o saiba, o Padre Antônio Vieira nos dá sua clavis 
prophetarum, ou seja, em vernáculo cristão, sua chave dos profetas: o presente é, simultaneamente, o passado 
do futuro e o futuro do passado. Nosso querido leitor, o eclesiástico Robespierre Danton da Silva, 
coordenador da “Pastoral Ideológica da Fé Cega” e, deduz-se, acólito do estilo e profetismo vieiriano, deve 
estar preocupado com as recaídas centro-direita de Portugal: cobra a morder o próprio rabo, o presente 
português parece-lhe ser o futuro do passado salazarista. 
 Vestal da transparência e da ética intertextual, esta Redação confessa a todos os companheiros e 
companheiras que nos leem, que a imagem usada lá de cima, “cobra a morder o próprio rabo”, vazou, 
regurgitante reminiscência, de manifestação feita pela leitora Legenda Vaz Est  SS (Schutz-Stafell = Servir 
e Salazar)  , onde se lê: “Aquele S., à feição de naja, naja tripudians, prestes a dar o bote, se refere e nos 
remete ao S inscrito na fivela do cinto da ‘Mocidade Portuguesa’: um S que duplamente significava ‘Servir’ e 
‘Salazar’. Ao cabo, um duplo e tácito S, a evocar o SS (Schutz-Stafell) da polícia política hitlerista.”] 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
VI. Que farei com este livro? (1980) 
A edição de Os Lusíadas, segundo o olhar (aquilino) de Saramago 
 
Legenda Vaz Est e Samir Savon 
(Doutores em Letras pela USP. Coautores de Inquisições e disquisições literárias ) 
 
“Na leitura, os quatro-olhos têm a vantagem das lentes corretoras.” 
(Inquisições e disquisições literárias) 
 
 
1. Ler a dois olhos. 
Na cena final de Que farei com este livro?, peça do Sr. José Saramago vinda a 
lume em 1980, Camões, ao receber o primeiro exemplar impresso de Os Lusíadas, 
“segurando o livro com as duas mãos”, dirige-se ao público ( gente dura e ensurdecida?) 
nestes termos: 
 — “Que farei com este livro? ( Pausa. Abre o livro, estende ligeiramente os braços, 
olha em frente.) Que fareis com este livro? (Pausa.)” 
 
Façamo-la, a pausa, que assim pede o Sr. José Saramago: pausa para meditação 
profunda. Não vamos lançar à face de Camões qualquer leviana resposta. Melhor seria até 
que introjetássemos a pergunta camoniana e a repetíssemos, fazendo ecoar o título da obra 
que o Sr. José Saramago, estendendo também ligeiramente o braço, nos oferece: 
— Que farei com este livro? 
A resposta, primeira, óbvia, imediata, a uma tal pergunta que já pressupõe tenhamos 
o livro às mãos e ante os olhos é: — Lê-lo, ora pois! (Pausa para nova reflexão, após o quê 
completaremos:) E de preferência a dois olhos — adendo que, impertinente, já não é tão 
óbvio, como à primeira vista parece. Portanto, distingo um olho do outro. 
Com o olho direito, o de que Camões se viu privado sem nunca o ter sido de rei 
algum, ler-se-á segundo a visão do leitor inexperto. Com o esquerdo, único postigo de luz 
para a visão de Camões, ler-se-á segundo a óptica de um leitor experto — um camonólogo 
aquilino, digamos. 
 Não se pense que estou aqui a inventar um novo modo de ler. Antes, entro no jogo 
proposto pelo Sr. José Saramago. Afinal seu título, inquisidor da nossa consciência, não me 
obrigava a perguntar a mim mesmo Que farei com este livro? e, não sendo analfabeto ou 
ardente piromaníaco, nem parvo de todo, não obstante professor, só me ocorria responder 
“Lê-lo, ora pois!” 
Ademais, em cena fulcral da peça, primeiro quadro do segundo ato (pp. 105-106), a 
personagem Damião de Góis, a propósito da trama que empece a publicação de Os 
Lusíadas, não nos ensina que há pelo menos duas maneiras de ler? e que “a diferença 
[interpretativa e judicativa da leitura] estará nos olhos que o lerem” ? (p. 106) 
Via Damião de Góis, propôs o Sr. José Saramago o mote para ler seu texto, 
umberto-ecoando que obra, depois de aberta, admite distintas leitura, interpretação e 
valoração, conforme os olhos que o lerem. Aqui, no caso dessa glosa e escólio, dois: um 
direito — lembro —, o do leitor inexperto, e um esquerdo — relembro — experto, aquilino. 
Julgue cada um, à luz do que veremos, se destro foi o direito na leitura ou se foi o 
esquerdo quem destramente leu direito. 
 
2. Sob o olho direito do leitor inexperto. 
Tracemos o perfil do leitor inexperto. Tem suas luzes e brilho, tendo ou não lustrado 
os bancos acadêmicos. Gosta evidentemente de ler e o faz para dis-trair-se, na acepção 
ortega-y-gassetiana do termo, isto é, “para evadir-se, escapar, trazer-se a si mesmo deste 
mundo em que vive para outro irreal”, onde descansa da planura e chateza de sua vidinha, 
mas onde também vive uma vida vicária, enriquecendo-se com experiências que talvez 
nunca tivesse a oportunidade de experimentar (ORTEGA Y GASSET, José. A ideia do 
teatro, SP: Perspectiva, 1978, p 51). 
Manua — carinhoso apelido de Manuela — chama-se esse meu exemplar de leitor 
inexperto. Belo exemplar, por sinal, de mulher, desabrochada já aos vinte e poucos anos. 
Baste essa vagueza natalícia, que, cavalheiro, não cometerei a inconfidência de contar-lhe a 
idade exata. Tampouco darei o endereço. Suficiente saber que, lisboeta, reside no bairro do 
Castelo. 
Inútil esse cerco a Manua, curiosidade a desfiar ruas que dali descem: se acaso o 
domicílio é ali perto das Escadinhas de S. Crispim, se demora na Rua Milagre de Santo 
António, parede-meia com um Sr. Raimundo Benvindo Silva, revisor de profissão e cuja 
profissão levou tão a sério na releitura de certos originais, que reviu a História, metendo um 
não irreverente em verdade assente e aceite, amém de todos per omnia secula seculorum. 
Bastante também o saber que Manua tem o Liceu completo e a voracidade leitora 
das traças. Tirante as leituras infantojuvenis, o primeiro livro mesmo de que se lembra, 
perda da virgindade leitoral, foi um voluminho com as odes de Ricardo Reis. Não gostou 
daquele poeta posto em sossego contemplativo, à beira-mágoa e à beira-mundo, alienado 
demais para as inquietações de seu, dela, vago socialismo, a exigir um autor engajado, 
interveniente na realidade. Aquele foi para ela o ano da morte de Ricardo Reis. 
Coincidentemente, o ano do nascimento de sua admiração por um autor que, tal qual 
saramago, irrompia como que levantado do chão comum. 
Ah o modo como narra suas histórias, sem respeitar o convencionalismo de 
travessões, pontos e vírgulas, a voz das personagens confundida com a do narrador, a frasearredondada em curvas e volutas, enovelante, barrocamente pomposa nos andrajos da 
oralidade! Simpatizou imediatamente com as personagens femininas: fortes, decididas, 
guerreiras e vivandeiras, capazes de empreender o cerco às suas conquistas e enxergar o 
interior dos seres e das coisas. Fosse pós-graduanda haveria de engendrar dissertação ou 
tese sob o título “As personagens femininas em José Saramago”. Praza aos céus, longe está 
ela de querer ser Mestre ou Doutora. Quisesse, estaríamos nós condenados à galé de 
esbrugar-lhe os ossos do ofício acadêmico. Livre-a o Criador, per ominia secula seculorum, 
desta tentação mundana,  coleante serpente a oferecer-lhe a peca maçã da árvore da 
ciência. A docta ignorantia de Nicolau Cusa (1401-1464), o saber que nada sabemos, a 
ponto de não ter a resposta na ponta da língua  Que farei com este livro? , é o que nos 
convém por agora, ainda mais quando mareamos ao longo dessas ondas dantes navegadas 
por outros que a pré-ciência do Infante Navegador soube (h)enriquecer de bússola e 
sextante aquilinos. Vossa Mercê duvida? Quer que beije meus dedos indicadores, direito e 
esquerdo, um posto sobre o outro em forma de cruz? Que jure pelo bem-estar no Céu de 
alguma alminha querida? 
Ala, que quero ler para crer. 
Coleante serpente a oferecer-lhe a peca maçã da árvore de consabida ciência, a 
Manua, nossa inexperta leitora, fascinava-a também a releitura do passado, memorial do 
que fora esquecido em conventos-mafra ou omitido pelos compêndios históricos, 
lembrança do que poderia ter sido, a História ela mesma tão ficcional quanto a Literatura. 
Afinal, quem foi testemunha ocular e isenta dos fatos perdidos no Tempo? — nossa 
memória tão curta ou, guiada por interesses e conveniências, só capaz de lembrar o que 
interessa... 
Manua revela não ter memória curta. Conveniente talvez neste passo, pois capaz de 
lembrar com cortes o diálogo travado entre o Senhor Doutor e o Revisor no primeiro 
capítulo de História do cerco de Lisboa (p. 16): 
“[Revisor] Bem me queria a mim parecer que a história não é a vida real, literatura, sim, e nada mais, 
[Sr. Doutor] Mas a história foi vida real no tempo em que ainda não poderia chamar-se-lhe história, 
[Revisor] Tem certeza, senhor doutor, (...), Então o senhor doutor acha que a história e a vida real, 
[Sr. Doutor] Acho, sim, [Revisor] Que a história foi vida real, quero dizer, [Sr. Doutor] Não tenha a 
menor dúvida, [Revisor] Que seria de nós se não existisse o deleatur, suspirou o revisor.” 
 
Manua cita, ipsis verbis, sem o saber que seu Autor predileto, meditando sobre a 
natureza e relações entre a ficção e a História, apõe um NÃO garrafal na Arte poética de 
Aristóteles, dizendo que a História não é o que foi, mas o que poderia ter sido, “literatura, 
sim, e nada mais”, como ficou dito ali em cima pelo Revisor. A História também o campo 
de suposições de um narrador, “preocupado com a verossimilhança, mais do que com a 
verdade, que tem por inalcançável”, — acode-nos de novo Manua com as aspas e o grifo de 
sua memória a citar ali em cima trecho da página 198 de História do cerco de Lisboa. 
— A Literatura como revisão, releitura e reescritura da História! 
É o que decreta Manua, iluminada, sem dúvida, pela maneira peculiar com que lê os 
livros de seu Autor predileto. 
Sim, senhoras e senhores. Manua tem um modo (sui generis?) de ler os livros do Sr. 
José Saramago. Chova ou faça sol, frio faça ou calor, das seis às oito da manhã, Manua lê. 
Religiosa e ritualisticamente lê. 
O despertador esganiça-se, eriçando a madrugada sonolenta. Olhos fechados, sua 
mão tateia pela mesa de cabeceira. Primeiro desligá-la, a sereia histérica. Depois, avançar 
os dedos em direção ao livro, sente já o volume sob o cruassã que, dormido, ali repousa, 
pomo da árvore da ciência, à espera da inaugural mordida que Manua dará ainda com os 
olhos fechados. Mastigando vagarosamente o primeiro pedaço do cruassã, abre o livro na 
página marcada: ali tinham ficado seus olhos, pode abri-los agora, recuperada a visão. 
Jura que, lendo assim, nua (digo-lhes só agora, pois já puxou a coberta até o 
pescoço) e a manducar um cruassã, entra em comunhão com o espaço e tempo narrados, 
capaz de lobrigar as blimundas entranhas dos seres e dos fatos, da realidade, enfim, pois as 
nuvens que lhe toldam o dia a dia peganhento se dissipam como tíbias vontades. 
Por uma dessas casualidades próprias da ficção, Manua está a ler Que farei com este 
livro? Que nos conta a visão privilegiada, embora inexperta, de Manua? 
A ação da peça é a composição e publicação de Os Lusíadas. 
Não obstante a visão raio X do cruassã, não lhe ocorre perguntar se a índole do 
assunto é absolutamente nova, se o seu autor, sem exemplar a que se arrimasse nem norte 
que seguisse, também navegava por mares nunca dantes navegados, a exemplo do poema 
Camões, de Almeida Garrett. E não lhe ocorre perguntar porque nunca leu os dez cantos do 
cometimento garrettiano e se o prefácio lhe aflorou quase ipsis litteris no pensamento é 
porque no fundo da memória ressoou a voz fanhosa do professor do Liceu, a falar de 
novidades românticas e ossiânicas que o neoclássico Leitão Garrett queria introduzir nas 
letras e tretas portuguesas . 
E ademais, se os tivesse lido, poema e prefácio, seus olhos não haveriam de 
confundir alhos com bugalhos, porquanto, apesar de o assunto e motivo serem idênticos, 
Que farei com este livro? retrata outro Camões, antítese da garrettiana estátua tribunícia 
que, em Sintra, recita (imaginem!) dez cantos, 1102 oitavas-rimas (abababcc), 8.816 versos, 
em rigorosa e merceeira soma a lápis, para o embevecimento dos ouvidos moucos mas 
benevolentes de D. Sebastião. Fora nossa Manua versada em kristeviana e linda-
hutchoniana intertextualidades, diria que seu Autor predileto entoou, etimologicamente, 
uma para-ode, um canto paralelo e contra os dez cantos de Almeida Leitão Garrett. 
Em Que farei com este livro?, a “acção decorre em Almeirim e Lisboa, entre abril 
de 1570 e março de 1572, ou, com menor rigor cronológico, mas com maior exactidão 
factual, entre a chegada de Luís de Camões a Lisboa, vindo da Índia e Moçambique, e a 
publicação da primeira edição de Os Lusíadas”. 
As personagens, deduzirá Manua quando findar a leitura, encarnam a falta de rumo, 
perplexidade e apatia da Nação. 
À volta do rei, D. Sebastião, que uma única vez entra mudo em cena e sai calado, 
quase atropelando o genuflexo Camões que lhe pede a audiência de umas oitavas, as que 
dedicara a Sua Alteza (primeiro ato, quinto quadro, pp. 66-75), à roda do rei (pensa Manua, 
agarrando de volta o início que lá atrás ficara e de novo ficou, tantas as interrupções que lhe 
atravancam a leitura, como agora mesmo o crianço da vizinha, que berra a fome de matinal 
mamadeira), à órbita do rei (pronto!), gravita uma nobreza enfatuada e desvirilizada, um 
clero cúpido e hipócrita. Portanto, personagens menores, meros figurantes, quase todos 
despersonalizados, como o 1°, 2°, 3°, 4° Fidalgos, o Frade. 
Lembra-se Manua de episódios que lera n’Os Lusíadas: aquelas personagens foram 
as vergastadas por Camões em oitavas de alguns cantos. Tem preguiça de levantar-se, para 
conferir. Levaria tempo joeirar os cantos VI (95-99), VII (78-87), VIII (96-99). Ademais, 
faz frio e um denso nevoeiro fernando-pessoano envolve Lisboa, a exemplo do que 
acontece no primeiro e penúltimo quadros da peça, o Reino encoberto: mensagem do Sr. 
Saramago a rememorar a falta de horizontes e perspectiva da Nação naquela quadra 
histórica. Sem falar da peste que, factual, histórica, percorre albert-camusianamente os atos, 
gangrenando a sede do governo em Lisboa. (Verdade que pestes não incomodam Manua, só 
a peste do crianço que não para de berrar, quem pariu os seus que os embale Mateus?) 
No entanto, Manua registra que no rol da fidalguia há quatro exceções nomeadas, 
por razões óbvias: 
a) um meteóricoMiguel Dias (1° ato, 5° quadro), custódio a interceder em favor das 
pretensões editoriais de Camões; 
b) D. Francisca de Aragão, dama do paço, cuidando da publicação do poema, “mas 
porém, ah! que cuidados”, que são glosas de amor pelo poeta, anacronismo histórico o fato 
aí inserido por seu Autor predileto, licença ficcional de que Manua, suspirosa, não cuida, 
pois o amor nunca é anacrônico e tudo adentra com ou sem licença (tomara o amor em riste 
agora lhe invadisse a água-furtada com prazeres que ainda desconhece!); 
c) antagonistas enfatuados e prepotentes, a negar patrocínio na imprimissão de Os 
Lusíadas, o 3° Conde da Vidigueira, Vasco da Gama chamado que nem o avô mercante das 
Índias, e sua esposa D. Maria de Ataíde. 
Mas isso de personagens secundárias são minudências, nugas, responsáveis por 
quase levarem Manua a esquecer da luta que se trava pelo poder no rastro de D. Sebastião. 
A cavaleiro da situação, — justo termo pois de Ácteon em montarias cinegéticas e 
de cavalarias em África se tratava —, na rédea do poder, primam os irmãos Gonçalves da 
Câmara. Quão privados de el-rei já denuncia o sobrenome — da Câmara! Um Luís, 
confessor de D. Sebastião. Outro Martim, secretário de Estado, além de outras puridades e 
presidências e desembargos do Paço. 
Como nos compêndios de história que Manua foi obrigada a consultar no Liceu, 
ambos os jesuítas são, na peça, culpados pelas suspeitas misoginia e misogamia de D. 
Sebastião. 
Em 1572-1573 era enorme o descontentamento com os desvarios privados do rei e o 
despotismo público dos Câmaras, descalabros que inspiravam pasquins anônimos, como o 
que se lê da boca do Pe. Luís da Câmara em diálogo com o irmão Martim, no primeiro 
quadro do primeiro ato: 
“(Lê) El-rei nosso senhor, por fazer mercê a Luís Gonçalves e a Martim Gonçalves, e aos 
padres da Companhia, há por bem de não casar estes quatro anos, e de estar com eles abarregado. 
(Martim da Câmara ri).” 
 
E com ele na ocasião do dito também riu Manua. 
E rir-se-ia mais ainda, agora de íntima satisfação, se não ignorasse que seu Autor 
predileto, apoiado em fontes históricas, dramatizou, no referido quadro e ato, informação 
que assim se lê, por exemplo, em Vida ignorada de Camões, do Sr. Hermano Saraiva 
(Lisboa: Publicações Europa-América, primeira edição de 1978; cito pela segunda, de 1980, 
pp 382-383): 
 
“Quem exercia de fato o poder eram os dois irmãos Câmaras, o confessor Luís Gonçalves 
e o valido Martim Gonçalves, que de fidalgo obscuro fora elevado a escrivão da puridade, 
presidente do Desembargo, presidente da Mesa da Consciência, vedor da justiça. Era homem de 
feitio despótico e, escudado na proteção real, governava com mão dura. Grande parte da nobreza 
detestava-o e acusava-o a ele e ao irmão de estabelecerem o vácuo à volta de D. Sebastião, 
impedindo os nobres de se aproximarem dele. O povo, na sua simplicidade, acreditava que o rei era 
bom e que o que o fazia parecer mau eram os odiados Câmaras. Alguns pasquins que circularam 
por essa altura dão a medida do descontentamento reinante. Ninguém ousava falar abertamente, 
porque as críticas acabavam no desterro e na cadeia, mas circulavam papéis anônimos em que os 
Câmaras eram responsabilizados por não deixarem casar o rei, para o terem mais dependente, e 
onde se chegava a dizer que estavam amancebados com o jovem monarca” (Cf. Que farei com 
este livro?, primeiro quadro do primeiro ato). 
 
Partidos opostos, inimigos até, pois um autonomista e outra defensora de supeitosa 
união ibérica, mas os dois em busca de aliança que pusesse freio à influência e poder dos 
Câmaras — o tio e a avó de el-rei, o Cardeal D. Henrique e D. Catarina de Áustria, ambos 
preocupados com o desgoverno e o nebuloso rumo do Reino, império sangrado pelos 
desmandos e falcatruas da Índia, doença de que padece Portugal nos dizeres e mais tarde 
escreveres do soldado prático Diogo do Couto, não curando, por seu turno, a nobreza em 
outro remédio que não fosse a reconquista das praças de África, sul geográfico que, por 
desvario de bússola, dizem ser norte do sonho cavaleiroso de D. Sebastião. 
Isso é o que passa no Paço, pensa Manua, feliz por regurgitar frase na feição e estilo 
barroco (vieiriano?) de seu Autor predileto. 
Ressoante de fontes nossa memória? Uma informação, uma frase vêm à tona, de que 
profundas leituras não o sabemos?, mas já que vieram à tona cumpre salvá-las, repeti-las... 
isso é o que passa no paço... (e prosseguir na mesma toada a glosa)... frequentação também 
de personagens com mais passos... Como os viajados Damião de Góis, Diogo do Couto e 
Camões, esses dois matalotes recém-chegados à Pátria “metida no gosto da cobiça e na 
rudeza duma austera, apagada e vil tristeza”. 
São 8h00 no despertador de Manua, quando, em fevereiro de 1571, ali mesmo no 
bairro do Castelo, em casa de Damião de Góis, localizada no primeiro quadro do segundo 
ato, transcorre cena axial da peça. 
Basta contar os quadros que a compõem, o primeiro ato com sete, o segundo com 
oito, essa cena, portanto, bem no meio da peça, a dividi-la, tordesilhas de revelação e 
consciência: trata-se da apagada e vil tristeza do presente a empanar a memória gloriosa da 
heroicidade pretérita. Vassalos excelentes que ledos foram por várias vias, braços às armas 
(a)feitos e mente às Musas (Clio, Calíope e Euterpe) dada, ali estão reunidos Diogo do 
Couto, Camões e obviamente o dono da casa. 
Apressada pelo relógio (meu Deus são já 8h15!, divertida em outra realidade perdera 
a noção do tempo), Manua precisa deixar a cena em que se vê metida, fazer suas ablusões 
matinais, tomar café correndo e correndo descer os 134 degraus bem contados das 
Escadinhas de S. Crispim e esbaforida tomar o autocarro rumo ao trabalho, rosto e suor 
nosso de cada dia. 
— Com licença, Srs. do Couto, Camões e Góis, mas estou atrasadinha. Fiquem à 
vontade. A quitinete ao dispor de vossas mercês. Na geladeira há sardinhas cozidas e 
carapaus frescos, façam bom proveito. Adeusinho, até amanhã às seis. 
Reencontro religioso, ângelus matutino. Impossível revê-los à noite. Chega 
moidinha, caindo de sono, os olhos ardendo após a aula noturna de computação. O futuro 
sabe-o encoberto, ainda mais com esse nevoeiro que não levanta, Lisboa envolta num 
sudário, mas sonha-o — o futuro, não o sudário — em ilhas afortunadas (essas utopias 
turísticas com lugar ocêanico, acaso Lanzarote?) e não à margem ribeira das estantes do 
sebo “D. Sebastião”, onde moureja — Alcácer-Quibir de todas as suas pretensões de ter e 
haver. Daí, lança em África, o curso noturno de computação. 
No autocarro põe-se a imaginar como seriam Os Lusíadas escandidos a computador. 
Camões na gruta de Macau com um notebook de ultíssima geração... Ah quão mais fáceis 
seriam os acrescentamentos e emendas que a peça de seu Autor predileto dirá terem sido 
feitos, urdidos pela voz da consciência e pelo punho da censura inquisitorial. 
— Sr. Luís de Camões, deseja salvar as alterações para Documento 1, aqui nomeado 
Lusíadas nos dígitos requeridos para salvar como? Sim. Não. Cancelar. Ajuda. 
Bem que gostaria de responder Não, Sr. Bill Gates, e cancelar as alterações impostas 
pela pena do Censor. Mas ajuda, sim, a quem pedir, se todas as janelas fechadas, inclusive 
as deste autocarro? 
 
3. Sob o olho esquerdo do leitor aquilino. 
05h15 no Brasil. Exatamente onde Manua deixou seus olhos, primeiro quadro do 
segundo ato, tem os seus pousados, negros como sotaina, a Dra. Legenda Vaz Est. Já leu, 
releu e por essa altura anda treslendo Que farei com este livro?, de modo que assesta a lupa 
do olho esquerdo na dita cena, axial para a peça e para seus propósitos. 
Responsável por um curso em torno da dramaturgia portuguesa numa Faculdade 
pública de Letras, interessa-lhe a peça do Sr. José Saramago, a tratar da redação e 
publicação de Os Lusíadas. 
No rigor de togas e capelos, não é camonóloga a Doutora,mas tem um olho — aqui 
esquerdo — aquilino, inquisitorial. Tanto que suas notas de leitura, caligrafia pequena de 
minudências, fieira de formigas correntes, deita-as — antes de passá-las para os tipos de 
italiana Olivetti lexikon 80 — num canhenho que intitula “Manual de inquisições 
literárias”. Se espírita fosse, e não o é religiosamente, salvo o sincretismo brasileiro, pois 
bem, se kardecista fosse, acoimaria de carma suas inquisições, e pontificaria que nos 
séculos XVI ou XVII — que sabe de encarnações pretéritas? — outra saia pundonorosa e 
preta vestiu, batina chamada, censora de suspeitos cometimentos literários. Daí o mestrado 
e doutoramento em padres regrantes de heterodoxias, como Vieira e Manuel Bernardes. 
Antítese de Manua, que é cheiinha, sinuosa nas curvas, arredondada como um 
discurso barroco, a Dra. Legenda tem a objetividade e o gume da linha reta, a angulosidade 
agreste de Joões Cabrais e Gracilianos Ramos, o nariz, aquilino, de bedelho. 
E mais bedelhos somos nós, a bisbilhotar o “Manual de inquisições literárias” que 
a Dra. Legenda deixou aberto para as conveniências e inconveniências de nossa leitura. 
Acabou de sair a Doutora, apressada que nem Manua. O carro enguiçou na véspera, mora 
longe da faculdade, precisa pegar o trem, tem aulas a ministrar, e seu texto, na caderneta, 
sebenta de futuras aulas, rezará assim nos tipos de sua insubstituível (por computador 
algum) Olivetti lexikon 80: 
 
I. Peça: Que farei com este livro?, do Sr. José Saramago, 1 ed. de 
1980. Compulso a 2 ed., com prefácio de Luiz Francisco Rebello, Lisboa, 
Editorial Caminho, 1988. 
A ação da peça é a composição e publicação de Os Lusíadas, motivo 
idêntico ao de Camões. Canto paralelo no motivo, contudo contrário, 
quanto à visão, aos dez cantos do Sr. Almeida Garrett. 
 
II. Nodal o primeiro quadro do segundo ato. Aí estão reunidos Diogo 
do Couto, Camões, Damião de Góis. 
Quadro sintético do renascimento português: os soldados práticos 
Couto e Camões, “numa mão sempre a espada e noutra a pena”, faces da 
mesma moeda azinhavrada, cunham a efígie medievo-cavaleirosa do 
expansionismo. Camões representa a memória da virtu heroica que edificou 
o reino e dilatou a Fé e o Império. Couto, futuro guarda-mor da torre do 
Tombo de Goa, é a crônica da contemporaneidade chatim da Índia. Uomo 
universale,Damião de Góis é o velho Humanismo mal adaptado no 
renascimento português, alvo de constantes perseguições pela profissão de 
suspeitas doutrinas. (Cf., a propósito, Joaquim Barradas de Carvalho, O 
Renascimento português, Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1980, p. 
9, onde se lê: 
 
“Assim, haverá renascimentos mais ou menos humanistas. 
Haverá renascimentos nos quais o conceito de humanismo cobre quase 
inteiramente o conceito de renascimento. Haverá renascimentos nos 
quais o conceito de humanismo não cobre senão uma pequena parte, 
algumas vezes mesmo muito pequena, do conceito de renascimento. 
Ora, parece-nos que este último é indiscutivelmente o caso de 
Portugal”.) 
 
 
III. Antibrechtiano o olhar épico de Camões na distância da Índia: 
sua “história do antigo Portugal, mais a grande navegação”, nas aspas dos 
dizeres de Damião de Góis, entoam sonorosa idealização do passado e da 
heroicidade guerreiro-cavaleirosa. 
Parcial correção da óptica camoniana ao aproximar-se do Reino e 
confrontar-se com o presente. Os Lusíadas que, testemunho de Diogo do 
Couto, teriam sido limados em Moçambique, sofrem acrescentamentos, 
ditados pelo desencanto do nebuloso presente. 
 
IV. Nesse ponto começa a releitura saramaguiana de Os Lusíadas, via 
outras leituras. Em Lisboa, Camões teria acrescentado ao texto primitivo 
de seu poema estâncias e versos inspirados pela apagada e vil tristeza do 
presente (pp. 103-104): 
Damião de Góis: - Quando chegastes da Índia, era o vosso 
livro como hoje é? Não precisais responder. Tive aqui em minha 
casa o manuscrito, li-o com grande cuidado e atenção, mas de tanto 
não precisaria para distinguir, nas diferenças de tinta, os 
acrescentamentos escritos estando vós já em Portugal e por causa 
do que cá viestes encontrar. 
Camões: - Assim é. Lembrai-vos que de el-rei eu não sabia 
mais do que existir. Em Lisboa é que escrevi a dedicatória... 
Damião de Góis: - Que mais? 
Camões: - O final do canto V, também do sétimo, algumas 
oitavas do canto nono, outras no canto décimo... 
Damião de Góis: - E, se bem te conheço, ainda escreverás, se 
não foi escrito já, o bastante para amanhã se saber que os 
parentes de Vasco da Gama não cuidaram de honrar, como deviam, o 
fundador da casa da Vidigueira. 
Camões: - Escrito está, não duvides. 
Damião de Góis: - O que trouxestes da Índia, Luís Vaz, foi a 
história do antigo Portugal, mais a grande navegação. Tudo isso 
que acrescentastes são casos dos nossos dias de agora, deste tempo 
em que não sabemos para onde Portugal vai. 
 
Depreende-se do diálogo travado na peça que Camões teria 
acrescentado em Lisboa: 
a) a dedicatória, estâncias 6 a 18 no canto I; 
b) o final do canto V, ou seja, as estâncias 92 a 100, aguilhoado 
pela recusa do neto de Vasco da Gama em patrocinar a imprimissão do 
livro; 
c) o final do canto VII, isto é, as estâncias 78 a 87, acerca dos 
infortúnios que o perseguem (VII, 78-82) e do intuito de não empregar seu 
canto “em quem o não mereça” (VII,83-87); 
d) as “algumas oitavas do canto nono”, pela contemporaneidade do 
conteúdo, são as estâncias 26 a 29 (= as cavalarias cinegéticas do Acteon 
Sebastião) e o epifonema, estâncias 92-95, contra o ócio ignavo, a 
cobiça, a ambição, a prepotência; 
e) as “outras” oitavas acrescidas no canto décimo são as estâncias 
145-156 do epílogo, estrofes em que aconselha o soberano e propõe-se a 
cantar a aventura marroquina, e, possivelmente, a estância 119 do canto X 
(crítica aos jesuítas). 
 
V. Conforme a leitura ideológica que tiverdes, lembra Damião de 
Góis na peça (p. 106), tereis o entendimento dos versos camonianos. Se 
assim for, a apoteose, no epílogo, do expansionismo imperialista e 
guerreiro-cavaleiroso, como recuperação da pretérita e perdida virtu 
heroica, poderia depor Camões de sua estátua de Poeta da Pátria, na 
medida em que corresponsável pelo desastre de Alcácer-Quibir? 
Repensar o problema. Moderna bibliografia histórica mostra que a 
reconquista de Marrocos, menos que loucura de um rei delirante, era um 
projeto político-econômico que, gestado nas Cortes de 1562-63, atendia 
aos anseios não só da nobreza, mas de toda uma sociedade que projetava no 
monarca “as virtualidades da grei, as ideias de predestinação e de 
redentorismo”. (Ver Loureiro, Francisco de Sales. “D. Sebastião e 
Alcácer-Quibir”, in História de Portugal, dir. José Hermano Saraiva. 
Lisboa: Alfa, 1983, vol. IV, pp. 127-159.) Ecos, portanto, do pensamento 
e aspirações da Nação são as estrofes não só de Camões, mas também de 
Pedro de Andrade Caminha, Antônio Fereira, Diogo Bernardes e Diogo de 
Teive, chegando este último a sintetizar num hino dedicado a D. Sebastião 
os anseios da coletividade: “a África será subjugada” ”como é esperança e 
desejo de todos nós” (Id.ibid., p. 137-138). 
Aliás, a peça não responde com clareza a que ou a quem serviu a 
publicação de Os Lusíadas. Quebram-se as resistências do Paço para a 
imprimissão do livro. Graças a que ou a quem? Ao inquisidor-mor, o 
Cardeal D. Henrique, para cujos propósitos de oposição ao fusionismo 
ibérico defendido pela rainha-avó bem que servia a exaltação patriótica 
das armas e barões assinalados que edificaram o Reino e dilataram a Fé e 
o Império, embora, por outro lado, não lhe agradasse a exortação 
guerreiro-cavaleirosa à aventura marroquina? 
Na peça (p. 124), diz o censor inquisitorial (por todos os nomes, 
Frei Bartolomeu Ferreira) que revisou e julgou o poema “de acordo com o 
pensar da Santa e Geral Inquisição”. Qual esse pensar? Apenas defesa da 
fé ortodoxa e dos bonscostumes? Parece que não, a julgarmos por sua 
intromissão na edição dos Piscos ou dos Jesuítas, datada de 1584 e que 
reza assim: “o qual livro assim emendado como agora vai, não tem cousa 
contra a fé e os bons costumes”. 
Que entender de tal advertência? Que a edição princeps de 1572 
diferia da segunda edição revista em 1584? Ocorre que ambas as edições 
foram revisadas por ele ─ por todos os nomes, Frei Bartolomeu Ferreira. 
Portanto, a edição princeps, não sendo o “livro assim emendado como agora 
vai” em 1584, saíra ela em 1572 com cousas contrárias à fé e aos bons 
costumes? A que se devera essa complacência ou benevolência da primeira 
censura? 
Sem esboçar uma clara resposta, mas sugerindo que a licença de 
impressão do poema obedece a um certo “pensar da Santa e Geral 
Inquisição”, Que farei com este livro? quer levar-nos a considerar 
hipótese levantada pelo Sr. Hermano Saraiva de que Luís Vaz de Camões, 
criticando os irmãos Câmaras (VII, 84-85) e os jesuítas (X, 119), servira 
a propósitos políticos da Inquisição?: 
“A luz verde da Inquisição é, pois, bem compreensível. 
Camões serviu de instrumento seu [da Inquisição] na grande luta 
para a conquista do domínio político num reinado em que todos 
compreendiam que o rei era incapaz de governar por si” (Vida 
ignorada de Camões, p.386). 
 
VI. Nesse capítulo de aditamentos posteriores ao poema, menos que 
uma releitura direta de Os Lusíadas, a óptica do Sr. José Saramago vê 
pelos olhos de bibliografia dedicada a Camões. A tese dos 
acrescentamentos feitos em Lisboa é plausível, seja pelo soar parentético 
das estâncias, seja por constituirem epifonemas, contudo a ideia fora já 
defendida por: 
a) Aquilino Ribeiro — Luís de Camões. Fabuloso. Verdadeiro, Lisboa: 
Bertrand, 1974, vol II, p. 148: referência à inserção se não de todo o 
epílogo pelo menos das três estrofes finais (154-156): 
“o que nos induz a supor que o poeta não dera ainda a obra 
por conclusa, propondo-se acrescentá-la aqui e além, e retocá-la 
(...) ou que a vesânia heroica que grassava nas altas esferas do 
poder o contagiasse — e certos versos positivamente intercalados à 
última hora o atestam — e se reservasse para cantar a vitória 
sobre o Miramolim, com que D. Sebastião andava a sonhar desde que 
lhe fizeram entrega do Reino”. 
 
b) E defendida também por Hermano Saraiva — Vida ignorada de Camões 
(1 ed. 1978), às páginas 383-384 da 2ª edição de 1980 —, a sugerir que, 
além das estâncias 83-86 do canto VI e das estâncias 26-28, 93-95 do 
canto IX, referidos pela peça do Sr. Saramago, Camões teria inserido as 
estrofes 54-55 do canto VIII. A suposição de Hermano Saraiva baseia-se na 
semelhança entre as estâncias e as críticas que circulavam anonimamente 
em pasquins à época em que o poeta se encontrava em Lisboa: 
“Isso leva a concluir que as estâncias que visam os Câmaras 
(VII 84-85) e censuram o rei (VIII 54-55, IX 26-28) traduzem uma 
opinião que Camões conheceu em Lisboa precisamente pela altura em 
que o poema foi editado. É possível que se trate de estrofes 
intercaladas já na fase dos prelos, porque elas estão em 
contradição com o encarecimento incondicional traduzido noutras 
estrofes, designadamente no canto I, pois a coincidência entre a 
matéria dos panfletos e a de Os Lusíadas é tão flagrante que não 
pode ser casual. Camões foi um dos porta-vozes do descontentamento 
dos nobres contra o valido do rei”. 
 
VII. Tampouco é inédita a releitura do Sr. José Saramago no 
capítulo referente às emendas que o poema teria sofrido à mão do censor, 
Frei Bartolomeu Ferreira. 
Uma leitura atenta do segundo ato, quadros 2 e 4, a tratar das 
emendas sugeridas e/ou impostas ao poema pela censura inquisitorial, não 
se equivocaria ao dizer que o Sr. José Saramago teve por modelo dois 
conhecidos textos de Aquilino Ribeiro, a saber: Camões, Camilo, Eça e 
alguns mais (cuja primeira edição data de 1949) e Luís de Camões. 
Fabuloso. Verdadeiro (primeira edição em 1950). 
Os reparos que o censor, na peça saramaguiana, faz a passagens de 
Os Lusíadas são coincidentemente os mesmos encontrados nas páginas dos 
referidos livros de Aquilino Ribeiro: 
1. — Na peça (II,2 - p. 119), reparo do censor às estâncias 70-91 
do canto VI (a tempestade que se abate sobre a frota já próxima da 
Índia), defendendo-se Camões com a lembrança das estâncias 93-94 do mesmo 
canto (agradecimento de Vasco da Gama): 
“Frei Bartolomeu Ferreira: - Posto que de ambas as vezes me 
chocou aquele passo em que Vasco da Gama invoca a Divina Guarda 
para que o proteja e defenda no transe aflito em que está, e quem 
o ouve e lhe acode é Vénus. Dizei-me logo. Por que não fizestes 
vós intervir a Virgem, ainda por cima Domina Maris, Senhora do 
Mar? O trágico passo haveria de ter assim uma unção religiosa, um 
fervor, que dessa maneira lhe faltam, tudo se resolvendo entre 
ninfas que vão a seduzir os ventos, e assim acaba a tempestade. 
Que me dizeis a isto? 
Camões: - (...) Vindo eu a escrever de falsas religiões e 
falsos deuses, como poderia, sem cair em grave escândalo, e talvez 
pecado, chamar a terreiro a verdadeira fé? Basta que terminada a 
tempestade agradeça Vasco da Gama. E a quem agradece? Ao único e 
verdadeiro deus.” 
 
Em Luís de Camões. Fabuloso. Verdadeiro, pp. 138-139 do vol II, a 
propósito do “hibridismo mitológico de que padecem os Lusíadas, e de que 
pela certa Fr. Bartolomeu é responsável” (p. 135) lê-se a seguinte 
referência ao episódio da tormenta: 
“Na descrição da tormenta, estupenda de realidade, bate 
tonitruante a cólera dos deuses, movidos por Baco, mas não tarda o 
antídoto da intervenção cristã... Vasco da Gama invoca a 
misericórdia da 
 Divina Guarda, angélica, celeste, 
 Que o céu, o mar e terra senhoreias... (VI, 80) 
E como num tecido de mescla, com o fio de estopa cristão 
entrança-se o fio de ouro e cetim de Vénus, mandando as ninfas 
aplacar Bóreas e os furiosos deuses da tempestade, ao passo que 
brada o piloto de Melinde: 
— Terra é de Calecut, se não me engano! (VI, 92) 
O almirante cai de joelhos e dá graças, é claro que ao seu 
Deus (VI, 93)”. 
 
2. — Na peça(II, 2, p. 120),Camões defende a intervenção do 
maravilhoso pagão(seu concílio dos deuses: I, 20-41) 
“Imaginemos um concílio dos deuses que tivesse, em vez das 
divindades pagãs, Júpiter, Marte, Neptuno, Vénus, Baco, Mercúrio, 
os santos e as santas de nossa fé. Destes, quais os que ajudariam 
os portugueses na sua navegação? Mais grave ainda: quais os que 
estariam contra?” 
 
como se estivesse a responder a tácita reprovação do censor inscrita na 
página 128 de Camões. Fabuloso .Verdadeiro: 
“Desde que Frei Bartolomeu aceitasse aquela premissa, todo o 
aparato maravilhoso pedido à mitologia grega, receberia alvará de 
correr. Colocava-se ali o vau fatal. Bagas de suor deviam perlar a 
fronte angustiosa do poeta, e mentalmente decorreria em sua 
memória a estrofe heterodoxa: 
 Quando os deuses no Olimpo luminoso 
 Onde o governo está da humana gente... (I, 20) 
Até a estância LXV o revedor manteve o cenho reprovativo.” 
 
3. — O diálogo da peça do Sr. José Saramago com a fabulação e 
ideias do Sr. Aquilino Ribeiro prossegue, quando, ainda nesse segundo 
quadro do segundo ato (p. 121), Frei Bartolomeu verbaliza numa pergunta a 
Camões 
 
(Agora que sobre isto me fizeste pensar, outra pergunta 
ainda vos faço: por que não vos haveis servido de Satanás para 
inimigo dos portugueses e das suas obras? Mostraríeis, assim, uma 
vez mais, o triunfo da fé sobre as malícias do inimigo.) 
 
O discurso indireto-livre de seu pensamento já inscrito em Camões, 
Camilo, Eça e alguns mais, p.23: 
“A efabulação do poema cinca pela representação que nela têm 
os deuses do paganismo. A que vem Baco, quando a santa teologia 
tem melhor, incomparavelmente melhor, em Satanás e nas suas 
múltiplas prefigurações, Belzebut, Asmodeu, Lusbel, etc., etc.?” 
 
Interessante notarque a resposta de Camões, na peça (p. 121), e 
toda sua argumentação anterior, de respeito por não invocar em vão os 
santos nomes da teodiceia católica 
(“Se foi a armada a dilatar a fé, como encontraria eu santo 
ou santa para estorvar a navegação, como faz Baco? Então, sim, 
seria a minha obra contrária à nossa santa fé. 
E também ofenderia a lógica juntando Satanás ao panteão dos 
deuses romanos. Além disso, lembre-se Vossa Reverença de que 
Satanás é o extremo da fealdade. Queríeis que em estilo poético eu 
tratasse o Maligno, o adornasse enfim com as galas que a poesia 
sempre lança sobre as suas figuras? Melhor foi servir-me desta 
ficção dos deuses.”), 
 
bem que poderia ser retrucada por esta fala do Frei Bartolomeu, dita em 
Camões. Fabuloso. Verdadeiro, pp. 129-130: 
“Mas já lhe digo, gostaria que desse menos relevo ao papel 
que faz representar aos deseus pagãos. (...) Bem sei que me vem 
argumentar com o pitoresco... o velho guarda-roupa das musas... e 
a reserva respeitosa que exigem o Deus Todo-Poderoso e mais 
pessoas consagradas pela teodiceia” 
 
4. — Outro reparo do censor na peça, à página 122, atinge em cheio 
a Ilha dos Amores (IX, 52-92) — matéria, por sinal, do opúsculo Camões e 
o Frade na Ilha dos Amores, que, saído em 1946, serviu de base para os 
volumes já aqui citados em que Aquilino Ribeiro defende a tese de que o 
Frei Bartolomeu Ferreira deixou passar a ilha dos Amores, “em troca da 
enxertia no poema das sete últimas estâncias do canto IX (88-95), o 
sermão do apostolado; das estâncias 82,83,84 (do Canto X) ou a 
retractação; e das estâncias 108 à 119 (no Canto X) ou a lenda de S. 
Tomé. É convicção nossa que este ‘cão de S. Domingos’, como cada um se 
honrava de ser na ordem dominicana, interpretando macarronicamente o 
título, tenha deste jeito ferrado a dentuça no texto camoniano” (Camões, 
Camilo, Eça e alguns mais, p. 29). 
A peça do Sr. José Saramago, nesse capitulo aquiliniano de 
enxertias, alude, no final do segundo quadro do segundo ato, à 
intromissão censória na estância 82 do canto X: 
“Por hoje temos conversado. Ainda haveremos de examinar 
certos outros pontos, tenho algumas propostas de correcção a 
fazer-vos, é do vosso interesse que concordeis com elas. Conviria, 
dou-vos só este exemplo, que dissésseis, logo veremos em que passo 
do poema, que os deuses servem apenas para inspirar versos, e nada 
mais.” 
 
5. — O Frade e o Poeta reencontram-se no quarto quadro do segundo 
ato (pp. 138-145). Camões vem saber se o censor está satisfeito com as 
alterações feitas: 
“Não haverá mais que suprimir e acrescentar? Não terei mais 
que torcer o sentido para o sujeitar ao vosso desejo sem 
sacrificar insuportavelmente a minha intenção?” 
 
Frei Bartolomeu lê integralmente seu parecer. Transcrevendo-o ipsis 
verbis, o Sr. José Saramago quer chamar nossa atenção para o quê? Tratar-
se-á de mera informação para o leitor? Seria descabido pensar que lhe 
ressoa na memória lição do Sr. Aquilino Ribeiro? Exatamente aquela 
inscrita, por exemplo, à página 159 de Luís de Camões. Fabuloso. 
Verdadeiro: 
“Antes de mais nada permita-se-me repetir, depois de o ter 
explanado no livro Camões, Camilo, Eça e alguns mais, que a 
licença se encontra, mutatis mutandis, nas três estâncias do Canto 
X, 82, 83 ,84. De parte a parte empregam-se as mesmas palavras 
essenciais: ficção, fábula, deuses dos gentios, engenho, estilo 
poético, versos deleitosos, ciência humana, profética ciência, 
encerrando conceitos que são rotundamente idênticos”. 
 
VIII. Aí fica a leitura que o Sr. José Saramago fez da “composição 
e publicação” de Os Lusíadas. 
No que tange aos acrescentamentos inseridos já em Lisboa, sua 
versão coincide com as de Hermano Saraiva e Aquilino Ribeiro. 
Quanto às emendas e correções impostas pela censura inquisitorial 
sua óptica subscreve lição corrente entre os camonólogos (Gomes Amorim, 
D. Francisco Alexandre Lobo, Sebastião Mendo Trigoso, Francisco Evaristo 
Leoni, Pe. José Maria Rodrigues, Bowra), seguindo particularmente, e 
muito de perto, ideias e sugestões do Sr. Aquilino Ribeiro. 
 
IX. Conclusão: Que farei com este livro? , a tratar da composição e 
publicação de Os Lusíadas, revela-se, não obstante tácito, um diálogo 
intertextual — parafrásico — com alguns títulos da bibliografia histórica 
e crítico-ensaística dedicada a Camões, notadamente, Camões, Camilo, Eça 
e alguns mais e o segundo volume de Luís de Camões. Fabuloso. Verdadeiro, 
ambos do Sr. Aquilino Ribeiro. 
Quanto a ser um diálogo intertextual tácito, lamenta-se não tenha 
tido o Sr. José Saramago, em sua dramatização parafrásica, o cuidado de 
revelar fontes e paradigmas, como, por exemplo, o fez Bernardo Santareno 
em seu O Judeu. 
De cartas na mesa, o jogo intertextual. Nas “armas e barões 
assinalados” lê-se, palimpsestamente, as “armas virumque cano” 
vergilianos. De palimpsestos intertextuais também falou Correia Garção na 
“Dissertação Terceira” (1757): “mas quem imita deve fazer seu o que 
imita...” 
 
 
Cortado pela pressa com que a vimos sair, interrompe-se o pensamento da Dra. 
Legenda Vaz Est... Assim com reticências: suspensão de coisas que pairam no 
despenhadeiro do ar... 
Ícaro ou passarola a derreter sob sete-sóis? 
 
4. Conclusão: o olhar (ciclópico) da inteligência. 
Por licenças poético-mitológicas lutou Camões com o frade censor no enfoque 
aquilino, como se viu, do Sr. José Saramago. Não seja inútil a morte do poeta e permita-se 
a este escriba menor e (intertextualmente) epigonal um capítulo conclusivo sob a óptica 
maravilhosa do olhar ciclópico da inteligência — a sua, caro leitor(a) dessas mal digitadas 
linhas. (Perdoe-se o lugar-comum, mas, dependendo do texto em que se insere, pode 
parecer uma novidade originalíssima...) 
De olho direito e esquerdo falei. Falo agora daquele que está no meio da testa, 
chackra da inteligência, do intellegere, o ler por dentro e por entre linhas. 
 
No autocarro, rumo à sobranceira vista do bairro do Castelo, Manua está lendo Ler. 
Explico a redundância que não é gralha de digitação: Manua, de volta para casa, 
finda a aula de computação e o soporífero dia, espantou o sono, pois está a ler uma 
publicação trimestral de informação literária e editorial, intitulada Ler, que traz em seu 
número 6, primavera de 1989, destaque de capa, com foto e tudo, uma entrevista de seu 
Autor predileto, o Sr. José Saramago. Com uma caneta vermelha, sublinha, sacolejante, as 
seguintes passagens da entrevista: 
— “Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, como tudo o que hoje fazemos, 
salvo raras exceções, já foi feito há muito tempo, antes de nós. Tudo é assim na vida. Mas aquilo 
que talvez distinga os meus livros é o facto de parecer que eu olho as coisas pela primeira vez e 
poder, assim, traduzir a surpresa daquilo que é visto pela primeira vez” (p. 15). 
 
— “Neste livro, na História do cerco de Lisboa, faço uma distinção entre olhar, ver e 
reparar. Eu penso que são três níveis de atenção: olhar, que é a mera função; ver, que é um olhar 
atento; e reparar, que é já uma atenção a uma dada coisa ou a um dado fenómeno — passamos a 
reparar naquilo que só tínhamos visto, a ver aquilo que só tínhamos olhado” (p. 16). 
 
Dra. Legenda Vaz Est só anos mais tarde terá essa mesma revista em mãos, 
adquirida num alfarrabista de Lisboa. No hotel põe-se a folheá-la e topa com a entrevista 
concedida pelo Sr. José Saramago ao Sr. Francisco José Viegas. Chamam-lhe a atenção uns 
grifos vermelhos e tremidos a destacar certos trechos. Olha-os, procura vê-los mais de 
perto, precisa, porém, dos óculos para reparar no que dizem os grifos. 
Na agenda, letra miúda, fieira de formigas correntes, não obstante cansada, deita as 
seguintes perguntas — não vá mais tarde, no regresso ao Brasil, esquecer de transcrevê-las 
em seu “Manual de inquisições literárias”. Dirá a fieira miúda de insones formigas, depois 
de transposta parao tipos de sua insubstituível Olivetti lexikon 80: 
a) Quem, conhecendo a bibliografia camoniana e com olho aquilino, 
não repararia no que viu Que farei com este livro?, a propósito da 
composição e publicação de Os Lusíadas? 
b) Distingue-se Que farei com este livro?, dentre outros já saídos, 
pelo fato de parecer que o Sr. José Saramago deitou olhar inédito, isto 
é, olhou como se fosse pela primeira vez o problema da composição e 
publicação de Os Lusíadas? 
c) De acordo com sua distinção entre olhar, ver, reparar, em que 
alternativa se encaixaria Que farei com este livro?: 
viu coincidentemente aquilo que outros já tinham reparado? 
 ou 
reparou naquilo que outros já tinham visto anteriormente? 
 
Aqui o X do problema: 
No primeiro caso, a releitura epocal e bibliográfica do Sr. José 
Saramago pode muito bem soar como o marulhar inintencional de fontes onde 
teria haurido informações que lhe regurgitam, incoercíveis, na memória. 
No segundo caso, teria exercitado um diálogo intertextual tácito e 
parafrásico com certos paradigmas crítico-ensaísticos, nomeada e 
particularmente, com o Sr. Aquilino Ribeiro. 
Sob tal óptica, tem o Sr. José Saramago razão ao dizer que aquilo 
que “eu escrevo já foi escrito antes”. 
Confissão de que suas leituras intertextuais, — sejam elas 
regurgitar inintencional de ressoante memória ou atento reparo de 
paradigmas —, não passam de releituras parafrásicas? Só em Que farei com 
este livro?, a respeito de Os Lusíadas, ou noutros livros também? 
 
 
Densa névoa envolve lá fora o sono de Lisboa. 
Dra. Legenda Vaz Est pousa a caneta e, maneira de não enxergar o entrevisto por 
entre brumas, fecha os olhos. Inútil cortina negra: minúsculos pontos de luz, esvoaçando na 
escuridão, prenunciam-lhe o latejar de costumada enxaqueca. Apressa-se em tomar um 
Valium, mergulhar no aposento em trevas e ficar quietinha... Para sentir-se, assim sem mais 
nem menos, ir descendo rumo ao poço de um ascensor cujas portas se abrem em sombria 
sala onde dois homens assistem. 
Um, visivelmente nervoso, — mais, fora de si —, caminha pelo cômodo 
desorientado, gesticulando muito: 
— Sabemos que se tratou de procedimento deliberado por causa da maneira como 
escreveu o Não na prova. Com letras carregadas, bem desenhadas, em contraste com a sua 
caligrafia miúda, fieira de formigas correntes, ainda que clara de ler. (Cf. p. 83 de O cerco 
de Lisboa). 
O outro, sentado, ouve com o quietismo cabisbaixo de réu inquisitorial. 
 Chegada ao fundo do poço, (qual poço, bem que lhe apetecia perguntar, descerrada a 
porta do ascensor), Dra. Legenda, tendo ouvido o diálogo lá de cima, aperta os olhos 
doridos, para costumá-los às sombras. E não é que, sem nunca tê-los visto, só imaginado, 
reconhece o Frei Bartolomeu Ferreira, censor de Os lusíadas, no que caminha e gesticula. O 
sentado é Raimundo Benvindo Silva, o revisor da História em O Cerco de Lisboa . 
— Só pode ter sido uma perturbação momentânea. Fadiga, uma obliteração 
ocasional dos sentidos. É isso, passageira insanidade! Doutro modo, como explicar o que o 
senhor fez? Ter o desplante de apor um Não a verdade assente e aceita, unanimidade geral 
em qualquer bibliografia! 
— É... é que não se encontrava um facto novo, uma interpretação polêmica, um 
documento inédito, sequer uma releitura. Apenas mais uma repetição... (Cf. p. 39 de O 
Cerco de Lisboa) 
— E que farei com este livro que o senhor reviu? E que farei com este livro? 
A que livro se referem esses dois intrusos em meu sonho, a O cerco de Lisboa ou à 
peça sobre Camões, que acabei de rever e interpretar?  isso foi o que ainda conseguiu 
tartamudear a Dra. Legenda Vaz Est, antes de calar-se em profundo sono, aquele que não 
nos deixa a menor reminiscência platônica da realidade. 
 
Fossem os gritos energúmenos do Frei Bartolomeu Ferreira censurando o Sr. 
Raimundo Benvindo Silva, fossem estridências de incômodos silêncios abafados no 
inconsciente, o fato é que Manua, pontualmente às seis horas da manhã, desperta 
sobressaltada e abre os olhos para ler Ensaio sobre a cegueira. Sem ter dado, imagine! — 
ato falho? deliberado esquecimento? —, a in(augural) dentada no cruassã. 
Na crista da manhã — clarim e esporão —, eriça-se o Sol, espanejando rocio 
estrídulo e multicor. 
Faça-se a luz —, pensam os olhos jejunos (e bem abertos) de Manua. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cartas à Redação: foro e desaforo do leitor 
 
“Quem dá com a língua nos dentes, às vezes está à procura do siso.” 
 (Incunábulo dos Apólogos) 
 
De epígrafes 
Eu quero, mas ah eu quero mesmo!, como eu quero!, deixar registrado meu 
veemente protesto contra essa Redação. Só quero ver se meu protesto indignado vai ser 
publicado. Aliás, duvido, du-vi-de-o-dó! que ele venha a público. E sabem por que eu 
duvido? Porque eu vou denunciar que essa Redação está empenhada em desmerecer a obra 
genial do Sr. José Saramago. Os leitores ainda não perceberam que essa Redação com suas 
penas de aluguel vem insinuando, na calada sombra de suas entrelinhas, que nosso Nobel 
lusófono se apropria, sem aspas ou indicação bibliográfica, de ideias alheias? Se não 
perceberam, eu estou aqui a denunciar, alto e bom som, na verdade eu estou a pregar no 
deserto, porque eu não vou ser ouvida, o meu protesto não será publicado, du-vi-de-o-dó! 
Eu não vou poder mostrar aos Companheiros e Companheiras de meu Partido que eu sou de 
luta e que eu denunciei que essa Redação com suas línguas de trapo e aluguel parece 
desconhecer, como disse meu Orientador da Pós-Graduação (que faço) à Distância, que “a 
cozinha literária tem Lavoisier por chef”. Como aprendi com ele, com o meu Orientador da 
Pós-Graduação (que faço e bem) à Distância, continuo citando entre aspas o que ele me 
disse pois tenho tudo gravado em meu celular de última geração: 
  “A cozinha literária tem Lavoisier por chef. Ou seja, em matéria de literatura, 
nada se cria, tudo se copia e se transforma. Essa Redação, sob a capa do ‘Foro e desaforo do 
leitor’, anda de lupa em punho esquadrinhando as fontes e paradigmas que inspiram o 
genial diálogo intertextual travado pelo Sr. José Saramago; essa Redação que, PIDE ou 
PVDE ou DGS dos bons costumes intertextuais, anda interrogando a caverna das 
reminiscências do Sr. José Saramago, exigindo nome e endereço dos autores escondidos ou 
albergados por sua obra, como se nossa memória, por mais prodigiosa que fosse, pudesse 
lembrar a autoria divina ou humana de tudo que um dia vimos ou lemos; enfim, com base 
no exposto acima, essa Redação, por coerência ética, deveria ser menos descarada e dizer 
que as epígrafes que vem nos impingindo, ao longo deste texto, todas elas são tiradas de 
livros inexistentes  ou seja, trata-se de cópia, para não dizer plágio ou furto, da ideia das 
epígrafes de livros e autores inexistentes com que o Sr. José Saramago, inspirado em Jorge 
Luis Borges, nos brinda a inteligência.” 
Concordo com tudo isso que disse meu Orientador e gravado está em meu celular de 
última geração, instrumento indispensável, amiga, para quem faz Pós-Graduação e bem a 
distância. Por todos os nomes e genealogia exigidos por essa falsa ágora democrática, 
conheça essa redação o nome que tenho, não o que me deram: Blimunda Cassandra José, 
Palmas, (Tocantins) 
 
 Tudo é intertextual 
“Todo discurso, escrito ou falado, é intertextual, e apeteceria mesmo dizer que nada 
existe que não o seja. Ora, sendo isto, creio, uma evidência do quotidiano, o que ando a 
fazer nos meus romances é a procurar os modos e as formas de tornar essa intertextualidade 
geral literariamente produtiva, se me posso exprimir assim, usá-la como uma personagem 
mais, encarregada de estabelecer e mostrar nexos, relações, associações entre tudo e tudo.” 
Joséde Sousa Saramago, Titerroigatra (Canárias). 
 
Esclarecimento público 
[Esclarecemos ao distinto público leitor que as intervenções entre [ ] são de inteira responsabilidade 
da Redação. Algures, em algum canto desta ágora passada, pública praça de opiniões, já se disse que só 
intervimos, copidescando, em nome do Manual de Estilo e Redação que nos rege com parágrafos e incisos a 
cultuar essa Deusa que é a serena e escultural Forma. (Ave, Olavo, ave, Olave Bilac!) Uma vez que se antolha 
o ensejo, esclareça-se outrossim, e de uma vez por todas, que toda e qualquer opinião aqui exarada é de 
inteira responsabilidade do leitor interveniente ou do ensaísta. Ambos, pois aqui não se faz preconceituosa 
diferença, ambos, insistimos, abrigados sob a divisa “Se sabes ler, começa por soletrar as entrelinhas.”, que, 
em caprichosa caligrafia gótica e no formato de lua-nova, subscreve nosso símbolo, nosso logotipo, nossa 
marca  a luneta crítica à Galileu: lembrança de que a hipertrofia da visão é sempre um ensaio lúcido sobre a 
cegueira.] 
 
 Rol de coincidências 
Realmente um caso de prodigiosa memória (talvez fosse melhor dizer um caso 
prodigioso de criptomnésia), digno de ser estudado, é o caso do Sr. José Saramago com seu 
rol de coincidências intertextuais. Veja-se, repare-se e considere-se o que essa Redação 
apresentou ao analisar Terra do pecado, Manual de pintura e caligrafia e Que farei com 
este livro?. Tudo, já nesses exercícios de caligrafia literária do Sr. Saramago, um decalque 
floreado de letras alheias. Um mestre-cuca à Laviosier da cozinha literária (onde nada se 
cria, tudo se copia e transforma em prato requentado), o Sr. José Saramago (vítima de um 
prodigioso caso de criptomnésia), “com a mão posta sobre todas as escrituras sagradas, 
havidas e por haver”, há de jurar, com toda a candura, que não sabe de que fonte ou 
paradigma lhe veio a inspiração. Uma vez que, como ele diz, “todo discurso escrito ou 
falado, é intertextual”, nada mais natural que o Sr. José Saramago acredite “sinceramente 
ter interceptado muitos pensamentos que os céus destinavam a outro homem” (como se lê 
em epígrafe de O homem duplicado, tirada, será mesmo?, a Laurence Sterne) e que 
inscreva os tais pensamentos no “rol das coincidências”. Para que não se diga, 
levianamente, que levanto o caso e não mostro a prova, leia-se a seguinte passagem em 
Cadernos de Lanzarote, 29 de abril de 1995: “Para o rol das coincidências. Onésimo [trata-
se do Sr. Teotónio Almeida, professor na Brown University] tinha-me dito ontem: ‘Olhe 
que há uma passagem do segundo volume dos seus Cadernos que parece descender em 
linha directa de um livro de Kierkegaard. Vou ver se lhe consigo uma fotocópia.’ Prometeu 
e cumpriu. O livro é Either/Or, a página, na tradução publicada pela Pinceton University 
Press, é a 282, e diz assim: ‘A história pode ser traçada desde o princípio do mundo. Os 
deuses estavam aborrecidos, e por isso criaram o homem. Adão estava aborrecido porque 
estava só, e Eva foi criada. O aborrecimento deles cobriu o mundo e aumentou na 
proporção do aumento da população. Adão estava aborrecido sozinho; depois Adão e Eva 
aborreceram-se juntos; depois Adão e Eva e Caim e Abel aborreceram-se en famille; depois 
a população do mundo aumentou, e os povos aborreceram-se en masse.’ Ora, com a mão 
posta sobre todas as escrituras sagradas, havidas e por haver, juro que de Kierkegaard só li, 
há muitíssimos anos, O Desespero Humano, traduzido por Adolfo Casais Monteiro, na 
edição da Livraria Tavares Martins. Sendo assim, e jurado fica que assim é, como foi 
possível a este leigo em filosofias escrever o que está nas páginas 249 e 250 dos ditos 
segundos Cadernos? Responda quem puder.” Aí está o dito pelo dito, in nomine Dei, com 
todas as aspas requeridas. Responda quem puder como se explica esse rol de tantas 
coincidências. Severo de Morais, Butantã (SP). 
 
Pingo nos ihs! 
Parabenizo o Sr. Severo de Morais pela lúcida intervenção em Rol de 
Coincidências, pondo os pingos nos ihs da memória literária do Sr. Saramago: Ih, alguém 
já escreveu isso? Ih, outro já disse isso? Ih, essas ideias são de beltrano ou sicrano? Ora, 
pronto, pois, senhores, pinguem todos esses ihs num rol de coincidências. Amaro Cobra, 
Ourinhos (SP). 
 
Olho por olho 
Forca, fuzilamento, câmara de gás para esses senhores fariseus! É o que merecem, 
tentando encontrar argueiro nos olhos dos outros sem tirarem a trava dos próprios olhos. 
Divara Anabatista dos Santos, Cidade de Deus (RJ). 
 
Barranco de cegos 
Penso que todo ensaio sobre a lucidez é sempre um ensaio sobre e contra a cegueira 
generalizada. Já nos prevenia S. Mateus que quando um cego guia outros cegos, todos vêm 
a cair no barranco. Basta ver, reparar e considerar o quadro de Bruegel e a novela 
[Barranco de cegos} de Alves Redol. Delfos Sibilino Cortes, Mariana (MG). 
 
Paz na Terra 
[Esta Redação pede aos homens e (obviamente também) às mulheres de boa vontade que não se 
transforme esta ágora, praça pública de manifestações polifônicas e democráticas, em palco beligerante do 
fundamentalismo xiita de fés literárias.] 
 
Pleonasmo burro 
Sou professora de Língua Pátria no ensino fundamental. Ao ler Paz na Terra, me 
ocorreu uma dúvida. Tenho que ensinar figuras de linguagem para os meus alunos, um 
tópico gramatical e estilístico que essa Redação há de convir não é fácil de explicar para 
quem não tem a menor ideia do que é tópico, gramática, estilo e muito menos figura de 
linguagem. Mas eu tenho de ensinar, no ensino fundamental, o que é figura de linguagem. 
Essa Redação me entende, entende o meu problema? Na verdade, problema de todos os 
professores de Português que têm de ensinar o vernáculo com base na língua viva, aquela 
de jornais, revistas e, em último caso, livros. Invicta com toda honra, imaculada da 
conceição através do pecado carnal, e para não pensar em outras coisas que me levem a 
chafurdar na lama do evolucionismo spenceriano, como a Viúva heroína de A terra do 
pecado, concebi que todos os meus alunos são meus filhos por obra e graça do Espírito 
Santo. Um desses meus filhos, de apelido António Nobre, sonha em ser poeta, e bem disse 
ele em seus versos que toda mãe de poeta é virgem. Não é comovente esta homenagem que 
ele me fez, dedicando a mim aqueles versos num Dia das Mães? Mas nada disso tem a ver 
com minha entrada aqui, que só se deve ao fato de eu ter de ensinar figura de linguagem 
com base em jornal, revista e livro. Pois não é que, leitora assídua desse fórum dos leitores, 
me deparei com um pleonasmo que, me desculpe a Redação, parece burro, um pleonasmo 
assim do tipo subir pra cima, descer pra baixo, andar a pé. Trata-se da expressão, 
“fundamentalismo xiita de fés literárias”. Olhe, veja e repare que ponho na expressão as 
aspas devidas, o dito é alheio e sei, como professora de ensino fundamental, que devemos 
tributar a César o que é de César para não incorrer no risco da sonegação de fontes. Pois 
bem. Tendo essa Redação escrito “fundamentalismo xiita de fés literárias”, me veio a 
dúvida: todo fundamentalismo de qualquer seita ou crença, católica, protestante, judaica, 
islâmica ou literária, não é xiita? Conceição do Espírito Santo Dias, Ribeirão Pires (SP). 
 
Dúvidas metafísicas 
Tenho acompanhado com todo interesse e atenção esse fórum dos leitores ou, como 
diz a Redação, essa ágora pública e democrática. Tenho um rol imenso de dúvidas que 
gostaria de esclarecer, mas sei que não tenho espaço para apresentar todas elas. Por isso, só 
vou pedir o esclarecimento de duas delas. Primeira, o sr. Delfos Sibilino Cortes (Barranco 
de Cegos) está a favor, contra ou muito antes pelo contrário? Segunda... Bem, a segunda 
veio exatamente considerando o nome do sr. Delfos Sibilino, esquisito, que me fez prestar 
atenção no nome das pessoas que escrevem para essa Redação. Aqui entre nós, são uns 
nomesassim todos muito estranhos... Fico pensando na inspiração dos pais... Fico 
imaginando os pais diante do sr. José-e-só, (assim mesmo, sem mais sobrenomes), aquele 
servidor exemplar da Conservatória Geral do Registro Civil de todos os nomes e de todos 
os óbitos... Vejo esses pais debruçados no balcão e à frente do olhar espantado do sr. José-
e-só, pedindo que registrem o rebento com o nome de Severo de Morais, Divara Anabatista 
dos Santos, Amaro Cobra, Blimunda Cassandra José, Apolo Dionísio da Silva e outros 
mais, tudo muito, assim, como direi, misterioso?, não, tudo assim muito sibilino, fazendo 
com que pobres mortais como eu comecem a duvidar da existência civil, burocrática e 
burguesa deles... Aqui, enfim, minha segunda dúvida: esses nomes todos são o nome que de 
fato têm ou são o nome que lhes deu essa Redação? Esse pessoal todo existe mesmo ou a 
história deles não passa de ficção, essa revisora da verdade dos fatos, como sustenta o Sr. 
José Saramago? Agnes Maciel Cordeiro, Ponta Grossa (PR). 
 
Priscas eras 
Há muito tempo atrás, no tempo do era uma vez, das histórias da carochinha, 
quando fiz o Colegial numa escola pública, tempo em que as escolas públicas ainda não 
eram as privadas do ensino, tive aulas de latim e nelas aprendi que a expressão Delenda 
Cartago est significava “Cartago deve ser destruída”. O pai da Dra. Legenda Vaz Est é ou 
foi, se não latinista, pelo menos um contemporâneo de meus tempos colegiais já que deu à 
sua filha o nome que ela tem. Nome premonitório talvez, adivinhando que ela um dia seria 
camonóloga e um dia haveria de exigir que, em homenagem a seu nome Legenda Vaz Est, o 
Vaz (de Camões) deve ser lido. Além, é claro, de toda a bibliografia sobre esse Vate 
imortal, para que venhamos a entender quão aquilino (do latim aquilinu) é o olhar do Sr. 
José Saramago ao tratar da vida e obra de Camões. Simplício Scholessenwald da Silva, 
Caxias do Sul (RS). 
 
Ainda de epígrafes 
Não sei por que toda essa briga em torno das epígrafes postas pela Redação. Por que 
não lê-las como uma homenagem à inventividade do Sr. Saramago e ao seu exercício da 
intertextualidade como recurso criativo de sua ficção. Epígrafes são como abre-te-sésamo, 
palavra-chave para abrir as portas do tesouro. Epígrafes são para bom entendedor a meia 
palavra bastante. Epígrafes são epítome de volumes cujo sentido apreendemos, sem lê-los. 
Como se lê em Diálogos com José Saramago ( p 122): “Se calhar tudo isto é um pouco 
borgiano, suponho eu, com todo o jogo de referências e citações e de falsas citações, até.” 
Concordo com a leitora Blimunda Cassandra José (De epígrafes) que, fazendo Pós-
Graduação a distância, gravou em seu celular e registrou o ensinamento de seu Orientador, 
a dizer que a cozinha literária tem por chef Lavoisier, quer dizer, em termos de Literatura, 
nada se cria, tudo se copia e se transforma. Cândido Rousseau Buonavitta, Baturité (CE). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
VII. Levantado do chão (1980) 
 
 
Romeu Raneman da Silva 
(Membro da Academia Homeopática de Letras. Autor de Homeopatia: cura pelo sofrimento 
semelhante) 
 
“Similia similibus curentur.” 
(Princípio homeopático) 
 
 
1. Who’s afraid of Virginia Woolf ? 
O organizador de Exercícios de caligrafia literária: Saramago quase é meu 
paciente. (Afinal, quem não é paciente ao tratar-se com os recursos da Homeopatia.) Um 
dia, em meu consultório, sabedor de que, em minhas horas de lazer, aliás pouquíssimas, leio 
a ficção do Sr. José Saramago, autor que muito admiro, perguntou-me se eu não queria 
escrever um ensaio sobre Levantado do chão. Personalidade egocêntrica,  com 
autoestima e suscetibilidade exageradas, mescladas à crítica e à ironia, carapaças de seu 
tédio existencial, tanto que o trato com sulphur e arsenicun alb. em altas dinamizações uma 
vez por mês , eu só poderia considerar a proposta como gozação. Homeopata, natural que 
combatesse o sintoma inoculando-lhe veneno semelhante. Perguntei-lhe se ficaria satisfeito 
caso eu utilizasse o princípio homeopático da dose diminuta e do similia similibus curentur 
(“os semelhantes curam-se pelos semelhantes”). Espreguiçou-se na cadeira e ensaiou ares 
metafísicos, enquanto procurava algo no bolso do paletó. Após eu ter-lhe recusado a 
permissão de acender um charuto,  Mas é um Coiba legítimo, Em meu consultório nem 
pensar. , disse-me que sim, que tudo bem: 
 Afinal, meu caro Doutor, és mais doente do que eu. 
Expressão do princípio homeopático da dose diminuta e do similia similibus 
curentur, mandei-lhe então, em folha do receituário, caprichada a medicinal garatuja, o 
seguinte diagnóstico a propósito de Levantado do chão: 
  “... a fórmula rodeou-se de um barroquismo quase impenetrável, exemplo significativo de um 
estilo à procura de assunto...” (José Saramago, “Quem tem medo da cultura?”, in Os apontamentosOs apontamentosOs apontamentosOs apontamentos, 2 ed., 
Lisboa: Caminho, pp. 100-101) 
 
(Narciso a rever-se no próprio cursivo, confesso que fiquei orgulhoso de ter feito um 
curso de caligrafia.) 
 
[SP, 28/dez./2005] 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
VIII. Guia 
 
“Se sabes ler, começa por soletrar as entrelinhas.” 
(Livro do Desconcerto) 
 
 
Findo o périplo, eis que nos vemos às voltas com Tirésias, Bruegel e cavernas do 
Inconsciente. 
O título (Guia) surgiu sussurrado pelo Inconsciente  esse Tirésias que, cego, é 
simulacro do Senso Comum, conforme o vislumbrou Apolo Constantinos Jr., nosso 
preclaro colaborador. E com o título, imagem puxa imagem, projetou-se aos olhos desta 
Redação A parábola dos cegos (1568), de Pieter Bruegel. Convenhamos que um belo 
quadro, inspirado em palavras de Cristo, cujas vergastavam o lombo dos fariseus: “Se um 
cego guia outro cego, ambos despenharão no barranco.” 
Nunca o contemplou, essa Parábola dos cegos, de Bruegel? Então vale a pena vê-lo 
e repará-lo, deitando-lhe olhar crítico e inédito, exatamente aquela óptica adotada por 
Legenda Vaz Est e Samir Savon no exame de Que farei com este livro? Oxalá que esse 
olhar de Capitu oblíqua e dissimulada não o impeça de degustar o quadro de Bruegel ao 
sabor do que sempre faz José Roberto Jauss Iser, que, enófilo e gourmet, é autor, como se 
lembra Vossa Mercê, de Simpósio: como degustar um livro  ou uma pintura, acrescenta, 
agora, esta Redação. 
Tudo bem que esta Redação, foro e desaforo dos leitores, com seu lema e emblema 
 a luneta de Galileu (recordam-se?),  acabou propondo-se em ser também um ensaio 
sobre a cegueira com pretensões de alcançar a lucidez. Tanto nossa como a dos outros. Só 
espera esta Redação que não seja ela (a Redação ou a lucidez?), também farisaicamente, um 
cego a guiar outros cegos para o barranco ou fossa comum. Neste caso, o princípio 
homeopático Similia similibus curentur não fará o menor efeito, ─ esclarece-nos 
enfaticamente o Dr. Romeu Raneman da Silva 
Não tivesse o cego Tirésias, esse simulacro inconsciente do Senso Comum, 
adentrado, sem bater, as portas desta Redação, o epílogo com outra feição e figura 
emergiria. Saído das cavernas platônicas do Sr. José Saramago. Tipo assim: 
Nossa visita guiada terminou, senhoras e senhores. Não há mais o que fazer aqui  
nesta caverna do período formativo (1947-1980) da obra do Sr. José Saramago. 
Em suas paredes vimos inscritos os exercícios da caligrafia rupestre de um 
Saramago quase, gacho submetido à canga de incoercível vocação literária. São esboços, 
 alguns desenhos ainda toscos, outros com riscos e traços a futurar escorços e afrescos de 
talento. 
De qualquer modo, uma trajetória de tinta e três anos39 é o que se lê nos 
experimentos realizados com a poesia, a crônica, o conto, o teatro e o romance. Ao 
percorrê-los, iluminando os ossos e o ressequido palimpsesto em que se transformara a pele 
do seres e fatos de sua experiência literária, esperoque o foco de nossa lanterna tenha 
flagrado o vulto do Sr. José Saramago à boca da caverna, encandeado com os simulacros 
oferecidos pelo universo da ficção e em busca de uma dicção própria que viesse a ser 
inconfundível na exploração, à Ferdinad de Saussure, da língua e da fala. 
Mas não só, senhoras e senhores. Lobrigamos também, apesar da obscuridade, os 
traços e linhas futuros da ficção saramaguiana posterior a 1980: o diálogo intertextual (às 
vezes criptomnésico), o engajamento político e o gosto pelo fantástico e maravilhoso. Estes 
dois últimos ingredientes responsáveis por um ensaísmo ficcional que, às voltas com o 
ontológico e o ôntico, serão os germens das alegorias de Jangada de pedra, Todos os 
nomes, Ensaio sobre a cegueira, A caverna, O homem duplicado e Intermitências da 
morte. 
Ao cabo (tormentório?) do périplo, bem que apetece a esta Redação dizer, 
parafrasicamente, a exemplo de Cipriano Algor e do narrador José Saramago 40: 
 “[...] as provas estão aqui, cada qual tirará as conclusões que achar justas, eu já 
tirei as minhas.” 
Assim, o foco de nossa lanterna também volta ao seu lugar. 
 
39 Ora, vejam a ironia numinosa desse algarismo. 
40 Para melhor apreciar este banquete platônico, ver o diálogo aqui travado com A caverna, SP: Companhia 
das Letras, 2000, p. 333-334. 
E a escuridão também?41 
Ora, pergunte lá a José Roberto Jauss Iser, nosso colaborador e quase xará de Jauss 
e Iser, esses elucubradores de uma tal Teoria da Recepção. Afinal, aqui entre nós, como diz 
o lema e emblema desta Redação, inspirada na óptica da luneta de Galileu,  Se sabes ler, 
começa por soletrar as entrelinhas. (Livro do Desconcerto) 
(Ah,  esquecia-se a Redação de dizer , esse Livro do Desconcerto, inexistente, 
de inspiração jorge-luis-borgiana, é, como o sugeriu nosso leitor Cândido Rousseau 
Buonavitta [Ainda de epígrafes], uma homenagem intertextual à criatividade palimpséstica 
do Sr. José Saramago.) 
Ave, Lavoisier, nosso grande chef dos pratos reciclados e requentados da nouvelle 
cuisine literária, dita pós-moderna. 
 
[A Redação. 
Subscrita pelos ensaístas abaixo-assinados: 
Manuel Pelourinho 
Apolo Constantinos Jr. 
F. Khom 
José Roberto Jauss Iser 
Ângelo Ruzzante de Pádua 
Legenda Vaz Est e Samir Savon 
Romeu Raneman da Silva] 
 
[SP, 6-13/jan./2006] 
 
 
41 Leitor, inopinada e inoportunamente, saído de Cartas à Redação, foro de desaforos.

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