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Francisco Maciel Silveira Exercícios de caligrafia literária: Saramago Quase “Abre teu olho. Só não enxergas por mantê-lo fechado às evidências.” (Livro do Desconcerto) São Paulo 2012 (2006) I. A Terra do Pecado (1947) Manuel Pelourinho (Doutor em Letras pela Sorbonne e diplomata. Autor de Punhos de renda, luvas de pelica.) “Se sabes ler, começa por soletrar as entrelinhas.” (Livro do Desconcerto) 1. Homem de bom aviso Abro a segunda edição de Terra do Pecado (Lisboa, Caminho, 1997), a reproduzir integralmente a primeira, saída pela Editorial Minerva em 1947. Logo à entrada um “Aviso”, no qual o autor, o Sr. José Saramago, dá notícia de como veio a lume o primeiro rebento de sua agora extensa prole literária. Nele, diz tratar-se à época de “um rapaz de 24 anos, calado, metido consigo”, “praticante de escrita nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa”, “tão cumpridor e pontual que à hora de começar o serviço já está sentado à pequena mesa em que trabalha”. Estava para nascer-lhe uma filha e “já havia plantado umas quantas árvores”. O “pouco mais que lhe resta para fazer na vida” completude exigida pela trindade existencial de todos conhecida , já “que queria ser escritor”, naturalmente seria escrever um livro, pôr sua prática de escrita a serviço de mais altos desígnios. “Não sabe dizer como lhe veio depois a ideia de escrever a história de uma viúva ribatejana, ele que de Ribatejo saberia alguma coisa, mas de viúvas nada, e menos ainda, se existe o menos que nada, de viúvas novas e proprietárias de bens ao luar.” À procura de editor, “com notável atrevimento”, despacha os originais, “sem padrinhos, sem empenhos, sem recomendações”, para a Parceria António Maria Pereira. A Viúva assim se intitulava a pretendente , por algum misterioso e inexplicável desvio, toma outra direção e vai ter à porta da Editorial Minerva. O editor, Sr. Manuel Rodrigues, deve ter-se engraçado com a narrativa, mas não com o título, que, “sem atractivo comercial, deveria ser substituído”. Não se cansasse o Autor à procura de outro, pois ali à mão, sacado da algibeira de seu faro editorial, tinha um: Terra do Pecado título “a que nunca se há-de acostumar”. A alegria de ver-se publicado não foi capaz de fazê-lo esquecer “a derrota de ver trocado o nome a esse outro filho.” Conclui o “Aviso” dizendo que o livro lhe abrira as portas da literatura portuguesa, embora não tivesse sido um sucesso: “Realmente, a julgar pela amostra, o futuro não terá muito para oferecer ao autor de A Viúva”. Sinalizador, aí fica o “Aviso” para quem vá navegar por essas águas passadas. Não se perca o marinheiro de primeira viagem nessa travessia, nem passe à deriva, despercebido de faroletes e boias. Quais? Facho luminoso a varrer os abrolhos mal entrevistos à superfície do texto, esse falar o Sr. José Saramago de si mesmo em terceira pessoa. Modéstia? Afogar em pia batismal o Eu, umbigo de todas as vaidades? Exorcisar o desvanecimento de ter triunfado sobre o augúrio de que o futuro pouco teria “para oferecer ao autor de A Viúva”? Afinal, o texto do “Aviso” é de 1997, escrito, passados cinquenta anos da “pouco lustrosa” estreia por autor já então galardoado com cinco prestigiosos prêmios (Prêmio Internacional Literário Mondello, Itália, 1992; Prêmio Brancanti, Itália, 1992; Prêmio Vida Literária, Portugal, 1993; Prêmio Consagração SPA, Portugal, 1995; Prêmio Camões, 1995) concedidos pelo conjunto de uma obra que, então forte candidata ao Nobel (1998), forceja por esquecer A Viúva, quer dizer, Terra do Pecado, “destinado a ter uma vida curta e praticamente sem memória” 1. Se descartada a razão acima, por psicologia de almanaque, avente-se outra, a explicar este ver-se o Sr. José Saramago a distância, falando de si próprio como outra e terceira pessoa, estranhando-se como fez H., em Manual de pintura e caligrafia (1977, p. 31), ao rever-se em antigo retrato: “Quem sou eu-aquele?” Ora, ora, meus jovens, cinquenta (cinquenta e um?) anos distanciam um ser do outro. Rios de heraclitiana tinta correram sob a ponte que separa esse experimentado e premiado escriba de 1997 daquele autor incipiente (valha-nos aqui a homofonia) de 1947. A esta altura, seja por qualquer título (poesia, crônica, conto, romance, teatro), esse senhor de setenta e cinco anos deita um olhar terno e comovido sobre aquele rapaz de vinte e quatro anos, nele reconhecendo traços biográficos e (ainda?) psicológicos que são os seus: calado, introvertido, míope, “diminuta fortaleza física”, pai. Por um momento, heteronímica 1. Reis, Carlos. “O escritor em construção”. In: Diálogos com José Saramago. Lisboa: Caminho, 1998, pp. e pessoanamente, esse senhor de setenta e cinco anos foi-o, outrora, agora. A ponto de, único instante no texto de “Aviso”, identificar-se e confundir-se com o outro que outrora foi: “Neste ano de 1947 em que estamos nascer-lhe-á uma filha, a quem medievalmente dará o nome de Violante, e publicará o romance que tem andado a escrever, esse a que chamou A Viúva mas que vai aparecer à luz do dia com o título a que nunca se há-de acostumar”. Foi-o, outrora, agora, mas não reconhece seja aquele autor inexperto, e às vésperas da paternidade, pai do romancista que nasceria trinta anos depois (Manual de pintura e caligrafia, 1977). 2 Daí o distanciar-se, ao revê-lo no espelho do “Aviso”. Contudo, o tratá-lo, cinquenta anos transcorridos, como o outro, o homem duplicado, que, não obstante todas as semelhanças, ele, distanciando-se, recusa ser, o tratá- lo assim nesse modo e termos não obscurece ou apaga o fato de, por todos os nomes e títulos, ter sido um “manga de alpaca”, “praticante de escrita”, tão cônscio da “escala hierárquica” que, “à hora de começar o serviço já está sentado à pequena mesa em que trabalha”. Da caverna do ser José Saramago viria a lume, mais tarde, sob a figura de um introvertido cinquentão amanuense do Registro Civil, aquele rapaz que fora. Embora não deseje a identificação, aquele inexperto jovem de 24 anos foi, quer queira ou não, o pai do romancista de Todos os nomes (1997) e O homem duplicado (2002). Machadianamente, o menino (aquele jovem autor inexperto de 24 anos) é, ao cabo, o pai do homem, esse Sr. José Saramago, que se revê da olímpica altura de seus consagrados setenta e cinco anos. Em verdade, o septuagenário, autor agora renomado, não reconhece ou não se identifica com ou se distancia daquele novel autor que um dia cometera o pecado de escrever A Viúva falto de vivência, saber ou experiência: “Não sabe dizer como lhe veio depois a ideia de escrever a história de uma viúva ribatejana, ele que de Ribatejo saberia alguma coisa, mas de viúvas nada, e menos ainda, se existe o menos que nada, de viúvas novas e proprietárias de bens ao luar.” 11-27. 2. “Que senhor é esse que escreveu esse livro? Eu sei lá quem é! Não sou eu...” Carlos Reis, Diálogos com José Saramago, Lisboa: Caminho, 1998, p. 41. Cf. página 35: “... aquele senhor escreveu aquele livro, mas não com a consciência de que se tinha preparado para ser escritor.” 2. Reminiscências de alheia caligrafia Aquele jovem “praticante de escrita” exercitara sua caligrafia literária decalcando, às portas da primeira metade do século XX, moldes oitocentistas.3 Seu caderno de caligrafia era o Realismo/Naturalismo. A letra que lhe servia de modelo e lhe conduzia o pulso era a grafia de Eça de Queiroz, mas reconhece-se também o floreado de Júlio Dinis, sobretudo no enfoque dado à Natureza e àquele laborioso, ingênuo e servilcampesinato. Da memória literária, e não de um saber de experiência feito, erguera o romance. Cujo enredo há de despertar reminiscências na caverna de nossa memória. Enviuvando no primeiro capítulo, Maria Leonor sofrerá, ao longo dos restantes vinte e quatro, além dos efeitos psicofisiológicos de sua condição de fêmea ainda jovem submetida ao aguilhão da abstinência sexual, a ingerência tirânica de uma empregada disposta a zelar pela virtude da patroa. Oscilando da abulia à excitação, ao sabor de uma histeria diagnosticada por uma de suas empregadas como “falta de homem”, a personagem peleja contra a “teoria da fatalidade” orgânica. Graças ao inoportuno aparecimento de sua zelosa serviçal, Benedita (benedicta?), a viúva escapa de, com o cunhado, ali no chão do escritório, proceder “como fêmea pré-histórica, que se embrenhava no mato, berrando, ciosa pelo macho, e que se espojava depois na terra fecunda e negra. Eu era joguete das forças naturais do sexo, as mais misteriosas forças da vida, que são o anseio íntimo para a imortalidade dos deuses. Foi pensando isto que me acalmei: desde que fora tudo consequência duma causa de que me não era possível defender, sentia-me irresponsável como um cavalo que alguém guia para um abismo. Não me cabia responsabilidade na queda, alguém me impelia, alguém me guiava...” (pp. 183-184) Com note-se Os primeiros princípios, de Herbert Spencer, fortemente apertado contra o seio (cf. p. 183), a longa explicação acima é dada pela própria Maria Leonor, sinal de que, não obstante toda a evolução da espécie, continuamos a abrigar na caverna dos instintos naturais a pré-história do ser. De nada vale a Maria Leonor ser essa mulier sapiens, ao cabo vencida e subjugada pela “fêmea pré-histórica”. No leito de sua viuvez, esquecida da herbert-spenceriana evolução que a guindara de fêmea a mulher entenda-se: “representante de uma espécie distinta e superior, em que a posse animal foi adornada, crismada, enfeitada de palavras lindas, que a tornaram apresentável, capaz de não ofender os ouvidos mais castos e os sentimentos mais puros”, p. 183 , ei-la a sucumbir à 3. “Aquele livro resulta do seguimento de leituras mal arrumadas e mal organizadas e saiu aquilo.”, urgência naturalística do apetite genésico com o cura de seu corpo, o Dr. Viegas, cinquentão e velho amigo da família. Desta feita, a inoportuna, vigilante e benedicta serviçal não chega a tempo para salvar a virtude da viúva carente. Tacão da moralidade e religião castradoras do Evolucionismo, insultada em sua condição de solteirona, invicta e beata, Benedita calcará “a serpente horrível do Mal e do Pecado” (p. 285), anatematizando, por vergonhoso, o ato, consumado, ora vejam se tem cabimento, fora dos sacrossantos laços matrimoniais e ainda por cima no tálamo conjugal: “ Pois a senhora atreveu-se? Aqui dentro, no mesmo quarto e na mesma cama onde morreu seu marido!?... Mas que espécie de mulher sem vergonha é a senhora? E Deus não a matou, não lhe caiu um raio em cima, que os despedaçasse, quando se espojavam aí como dois cães.”(pp. 283-284). Escorraçada a fêmea pré-histórica sob os insultos e recriminações da serviçal, recompõe-se a mulher ataviada pela evolução da espécie. Viúva e mãe e educada à luz de princípios religiosos e morais, sobrevêm o arrependimento e o remorso: “A própria recordação do pecado, a lembrança de que se tinham pertencido quando ainda não tinham esse direito, ensombraria a vida de ambos: acabariam por odiar-se. E teria ela coragem de dizer aos filhos que ia casar-se com o médico? E o que diriam os criados, toda a gente da Quinta, toda a gente de Miranda”(p. 288). Casar-se com Dr. Viegas para curar-se de suas carências, sob o beneplácito e permissão da ciosa empregada 4, não seria solução, posto que não o amava. “E ali, se lhe apresentou a outra solução: o salto nas trevas, o suicídio, a morte.” (p. 289) De que foi salva nas últimas linhas do romance pela morte do Dr. Viegas: “ Vínhamos informar a senhora de que o senhor doutor morreu. Encontraram-no no fundo do dique, com a charrette espatifada e o cavalo morto também. Deve ter caído...” Reticente final, umberto-ecoando que a obra se abra à cogitação do leitor. Acidente? Suicídio? A opção interpretativa traz implicações. A morte do Dr. Viegas por acidente é providencial demais em todos os sentidos. Além de salvar a viúva do cogitado suicídio (tresloucado e condenado gesto aos olhos da santa madre Igreja), a morte acidental do doutor conota o castigo do Senhor, raio a fulminar o Mal e o Pecado de que ele fora agente, ao sucumbir, num momento de fraqueza, aos apelos da Natureza. Já o suicídio, compelido seja pelo remorso, arrependimento ou pruridos moralistas, representaria a derrota de quem, reconhece o Sr. José Saramago. Id. ibid., p. 35. 4. “ Não chore, minha senhora, não chore gemeu Benedita. Então, por amor de Deus, tudo se há-de como homem da ciência, se dizia defensor da natural simplicidade da vida. [Dr. Viegas, p. 248]: “Estava a pensar na minha teoria da simplicidade da vida e na inveja louca que tenho do apuro a que os homens das cavernas a tinham levado! Naquele tempo, era a grande Natureza a senhora de tudo. E não me parece que se tenha verificado a existência de Beneditas arreliadoras, de Leonores infelizes e, muito menos, de Viegas cirurgiões e conselheiros. Então, a machadinha de sílex resolvia quase todos os problemas e dificuldades... O pior foi que a evolução do teu Spencer deu cabo a tudo.” De fato, o evolucionismo de Spencer deu cabo da viúva e do Dr. Viegas, derrotados ambos pelas pressões e preconceitos da moralidade e religião castradoras, que, responsáveis pelo verniz civilizacional do homo sapiens, acabou transformando a aldeia global em que vivemos, e não só a Miranda do romance, na terra do pecado. Afinal, a evolução da espécie transformou o instinto sexual, uma das pulsões mais naturais de nossa pré-história, em anátema e pecado. Simplicidade 5 natural da pré-histórica espécie humana versus evolucionismo civilizacional e castrador da Cultura, Religião e consequente Moralidade constitui, pois, o conflito do livro. Adequado, portanto, o novo título dado pelo editor em substituição ao anterior, no mínimo anódino. Ao fim e ao cabo, segundo a óptica do romance, não assistimos todos numa Terra do Pecado, essa legada à nossa espécie pelo Evolucionismo? Se lhe considerarmos a pertinência, incompreensível não se tenha acostumado o Autor, ao longo de cinquenta anos, com o novo batismo. Ter-lhe-ia causado repugnância o sex appeal comercial de um título destinado a mexer com as zonas erógenas do reprimido inconsciente do potencial (e evoluído) leitor, voyeur ávido por frestar cenas de alcova? Lê-se na história de Maria Leonor a ilustração do mito de Eros e Psiché, cuja estatueta (aliás, simbolicamente, salva por Benedita de estilhaçar-se numa queda)6, convive, no quarto da viúva, com outra, uma “Virgem de porcelana, que afogava debaixo dos pés a serpente horrível do Mal e do Pecado” (p. 285). Óbvia a simbologia e adequada ao tema. Sabe-se que o mito de Eros e Psiché figura a submissão e cativeiro impostos à transcendência do espírito (Psiché = personificação da alma) pela sexualidade animal (Eros = expressão pervertida do amor) que anela apenas o prazer físico e não o sublimado gozo da esponsalícia união Carne/Espírito. A duras penas, impostas por Hera, deusa da pureza e do arranjar!... A senhora casa e tudo esquece...”(p.289) 5. Em seu sentido primeiro: aquilo que, não sendo duplo ou múltiplo, não abriga desdobramentos conflituosos decorrentes da complexidade imposta pela Civilização. lar, Psiché (a Alma) libertar-se-á da cegueira, sedução e cativeiro a que a submete a sexualidade pervertida e banalizada de Eros 7. Sem grandes esforços exegéticos reconhecemos, na abulia depressiva de Maria Leonor, nos seus remorsos e arrependimentos após os fogachos eróticos, o conflito Eros versus Psiché. Na opressiva vigilância e abanões da benedicta serviçal (outra Virgem a esmagar sob e a seus pés a serpente horrível do Mal e do Pecado), lobrigamos a intervenção de Hera, a zelar pela pureza da patroa e do lar. Pertinente essa mistura dos maravilhosos cristão e pagão no conflito entre a Natureza e a Moral cristã. Metaforismos alegóricos que, seminais neste romance de estreia, prometem seara futura. Onde se reconhecem as caligrafias de Eça de Queiroz e Júlio Dinis no exercício da efabulação? Ambientado, à Júlio Dinis, num campo pletórico, regido pelo ciclo indômito e vital da Natureza, o romance transcorre num habitat onde, rescendente de símplice e pastoral romantismo, se trabalha e produz ao abrigo de afetuosas relações entre patrão e empregados, distante, pois, do panfletário maniqueísmo neorrealista em moda naqueles anos Quarenta. Tão afetuosas considerações irmanam superior e subalternos a tal ponto, que o inferno terreno de Maria Leonor decorre do imenso amor que lhe devota a serviçal Benedita, cheia de boas intenções. O conflito Natureza versus Moral (da viúva) é assistido por dois curas, um do corpo, o médico (Dr. Viegas), outro da alma (o padre Cristiano, que não se perca ele pelo nome), a lembrar-nos As pupilas do Sr. Reitor. Só que neste romance do jovem Saramago as pupilas vigilantes serão de uma reitora, Benedita, benedicta, já se insinuou aqui. E é essa mesma Benedita que, cópia e simulacro de outra realidade, faz emergir da caverna da memória a reminiscência de outra infernal doméstica, a Juliana de O Primo Basílio (1878) do Eça de Queiroz. Não faltam, no conflito entre patroa e serviçal, cartas: três, que, contrariando a expectativa, não serão usadas para espezinhar ou martirizar a patroa. Enganosamente, o romance leva o leitor a esperar que Benedita calque seus tacões vingativos sobre Maria Leonor, que, não obstante loira, não será outra Luísa. Anjo da guarda da viúva, a empregada declara guerra não à sua estimada patroa, mas à fêmea que, 6. Ver página 40. 7. Ver, a propósito, Paul Diel - Le symbolisme dans la mythologie grecque, Paris: Petite Bibliothèque Payot, 1966, pp. 132-135. presa do cio, forceja por vir à superfície das cavernas pré-históricas de suas pulsões e necessidades sexuais. “Guardiã da moralidade da casa” (p. 212), essa Hera doméstica passa a vigiá-la e a controlá-la, para evitar que, sob o influxo do ciclo vital da Natureza 8, venha a espojar-se no terra a terra pecado da carne. Lobriga-se em Terra do Pecado outro indício de que esse jovem de vinte quatro anos, em 1947, será o pai daquele septuagenário romancista consagrado, em 1997. Refiro- me ao DNA recriativo das fontes e paradigmas que lhe regurgitam na memória. Surpreende- se no romance aquilo que Gerard Genette chama genericamente de transtextualidade, ou seja, “tout ce qui le [o texto] met en relation, manifeste ou secrète, avec d’autres textes.” Mais especificamente, já que se trata de um tipo de transtextualidade, vislumbra-se, em Terra do Pecado, manifestações da hipertextualidade entenda-se a especiosidade erudita: toda relação ou derivação resultante do enxerto ou união de um texto B (chamado hipertexto) a um texto A que lhe é anterior e serve de modelo (denominado hipotexto). Tal relação ou derivação pode ser tácita, “tel que B ne parle nullement de A, mais ne pourrait cependent existir tel quel sans A, dont il résulte au terme d’une opération que je qualifierai, provisoirement encore, de transformation, et qu’en conséquence il évoque plus ou moins manifestement, sans nécessairement parler de lui et le citer.”9 Esbanjada, em erudito idioma, a conveniente citação, manifestação transtextual da voz da autoridade requerida num metatexto que se preze, localize-se a hipertextualidade murmurante no romance. Sob a tirânica vigilância das pupilas de um reitor de saias, Maria Leonor padece sob os tacões de Benedita, que, bem visto o transvestir, não passa de uma Juliana (lembram-se dela, com sua obsessão por botinas, em O Primo Basílio?) às avessas. Essa intertextualidade (as mais das vezes, do canto-contra paródico 10), entrevista no diálogo travado com a personagem Juliana de O Primo Basílio, há de marcar as obras posteriores do Sr. José Saramago, a confabular com Fernando Pessoa/Ricardo Reis (O ano 8. Tempo cronológico o deste romance, em que Maria Leonor, o plantio e a colheita evolucionam segundo o relógio das estações: viúva no Inverno, desabrochar genesíaco na Primavera, calores do cio no Verão. 9. Gerard Genette - Palimpsestes: la littérature au second degré, Paris: Éditions du Seuil, 1982, p. 12. Acerca de transtextualidade e hipertextualidade, id. ibid., pp. 7-14. 10. “D’abord, l’étymologie: ôdè, c’est le chant; para: “le long de”, “à côté”; parôdein, d’où parôdia, ce serait (donc?) le fait de chanter à côté, donc le chanter faux, ou dans une autre voix, en contrechant en contrepoint , ou encore de chanter dans un autre ton: déformer, donc, ou transposer une mélodie.” Gerard Genette, op. cit. , p. 17. da morte de Ricardo Reis, 1984), Alexandre Herculano (O cerco de Lisboa, 1988), Jung, Heidegger (Todos os nomes, 1997), Platão (A caverna, 2000), Plauto (O homem duplicado, 2002), para ficarmos só com alguns que de pronto me vieram à memória. 3. Cassandra desmentida Diz velho ditado, suponho que de científica origem evolucionista: quem sai aos seus não degenera. Natural, portanto, que na caligrafia daquele jovem de vinte e quatro anos já se possa ver rascunhada a origem das letras futuras do romancista septuagenário. Para quem será futuro cultor de outra elocução, mais requintada no arabesco do barroquismo estilístico, soariam, cinquenta anos depois, (cabe a pergunta), soariam, cinquenta anos depois, imperdoáveis e irreconhecíveis seja a descrição (desbotada aquarela, florilégio de redação liceal), seja a adjetivação (já dessorada e flácida naqueles anos Quarenta), ─ uma e outra responsáveis pelos lugares-comuns que enxameiam em frases como “À flor da água surgiu a cabeça branca dum peixe, que lutava, desesperadamente, para se manter no seu elemento.” (p. 57); “... numa daquelas luminosas tardes com que o outono se despede do verão.” (p. 71); “Enquanto o foguete, lá em cima, vivia intensamente a sua vida fugaz, os olhos dos criados, das crianças, de todos seguiam-no extasiados.”(p. 88); “As noites tornaram-se claras e profundas, de uma limpidez transparente, rebrilhantes de estrelas sem conto, que só desapareciam horas altas, quando a Lua surgia do horizonte numa vermelhidão de sangue, que ia aclarando à medida que subia no céu, até se transformar num disco pálido, que vogava na frieza da noite, a caminho do outro lado da Terra.” (p. 92); “E as estrelas brilharam no céu, do lado do ocidente, como a mirar-se no espelho que surgia por detrás dos montes do outro ponto cardeal.”(p. 129); “E ficaram ambos, por segundos, com os olhos presos e as mãos unidas, num abraço de almas sólido e perfeito.”(p. 133); “Demorou-se uns instantes a ver duas andorinhas que traçavam no ar, com os seus corpinhos negros e alvadios, curvas de maravilhosa beleza, num enredar e desenredar constante, como embaraçadas numa teia invisível.”(p.137); “O perdigueiro... latindo para exprimir sua canina alegria.” (p. 267) Pinçadas ao correr dos olhos ou à vol d’oiseau (em homenagem às duas andorinhas saramaguianas com “seus corpinhos negros e alvadios”), todas as citações são resultado de rombudo lápis a calcar serôdios modelos de enunciação? Esquecido o Sr. José Saramago de que o mesmo Oitocentos lhe oferecia para decalque a grafia ironicamente elegante, parnasiano-flaubertiana, de um Eça-Fradique-Mendes-de-Queiroz à procura daquela prosa cuja ambição máxima seria captar e reproduzir o inefável? Por estes prismas, o da invenção e o da elocução “Realmente, a julgar pela amostra, o futuro não terá muito a oferecer ao autor de A Viuva”. Ocorre que, por algum oculto desígnio (acaso? fado? predestinação?, que nome dar- lhe?)11, o mesmo futuro se encarregou de desmentir o vaticínio. Que me lembre, o Sr. José Saramago (em O homem duplicado?) disse que não devemos jogar peras com o Destino. Sabido à protérvia, ele (o Destino, claro está) há de comer-lhe as boas e sumarentas peras, deixando-lhe as pecas. A roda da fortuna a mesma que pôs o Sr. José-só, de Todos os nomes, à frente de sua para sempre perdida anima; a mesma que pôs Tertuliano Máximo Afonso às mãos de seu sósia, Daniel Santa-Clara , pois não é que a roda da fortuna houve de, por algum oculto desígnio, contrariar-lhe a previsão, comendo-lhe o peco A Terra do Pecado e reservando-lhe as sementes para peras vindouras. Ainda bem para ele, o Sr. José Saramago. Que não falou pela oracular e fatídica voz-Cassandra de D. Carolina, a mãe de outro Homem duplicado este punido com a perda da identidade pretérita. (SP, 15/9/03 - 29/9/03) 11. “Quis, porém, o acaso, muito mais exacto teria sido dizer que foi inevitável, uma vez que conceitos tão sedutores como fado, fatalidade ou destino não teriam cabimento neste discurso...”, O homem duplicado, p. 97. II. O ano de 1993 (1975) Apolo Constantinos Jr. (Astrônomo e antropólogo, é autor de Vista do vermelho Marte, a Terra é um deserto humano.) “Toda Cassandra tem o Apolo e os incrédulos que merece.” (Provérbio sibilino) 1. Mala sem alça Quando soou o telefone, não estava em ledo e cego engano, qual Inês, posto em sossego. Primeiro, porque, conhecendo o nome que tenho, me chamo de Apolo Constatinos Jr.; segundo, porque, astrônomo e antropólogo, a contemplar de minha janela alfred- hitchcokiana indiscreta, com telescópios, lunetas e este binóculo, a conjunção dos astros e dos humanos, ora como pode alguém estar com seu quarto minguante posto em sossego. Imagine-se, pois, o mau humor com que fui atender aos apelos histéricos da sereia. Não vou transcrever a longa conversação telefônica. Toda ficção, por mais real ou científica que seja, tem que ter um fundo de verdade e eu não tinha um gravador ligado para apresentá-la a qualquer são juízo como prova. Fico, pois, no resumo. Tratava-se de um convite para escrever um ensaio acerca de O ano de 1993, do Sr. José Saramago. Ensaio que figuraria numa obra coletiva acerca de seu período dito formativo, aquele entre 1947 e 1980. Um seleto elenco de autores (palavras do Organizador) estava sendo convidado, cada um a cargo de um livro. Queria ele um volume bakhtinianamente polifônico, vozes diversas, contrastantes, conflitantes, em torno daquela fase pouco conhecida e menos ainda estudada (palavras dele). Meu nome viera à lembrança graças a Vista do vermelho Marte, a Terra é um deserto humano, uma obrinha que eu publicara à época em que, à procura de um bunker sobrevivente, andava interessado pela futurologia catastrófica de Asimov, Well e Orwells (explicação minha). Enfim, interessava? Claro que sim, não se fecha a janela a conjunções sejam astronômicas, antropológicas, sejam menos ainda astrológicas, e naquele momento, no céu, o Sol e Netuno estavam em conjunção, logo Mercúrio ingressará em Aquário e a Lua atingirá seu plenilúnio em Virgem. Tudo isso aí não disse, só pensei. O que disse foi “Pinta algum leitinho pras crianças?”, meio de ordenhar o uísque meu de cada dia, já que sou celibatário e de bastardos, se os há, não tenho conhecimento. Juro, minha Rainha e Santa D. Isabel. Pergunte lá a seu esposo, meu Rei-Trovador D. Dinis, de quem sou fiel servidor. Ofereceu- me ele (o Organizador, D. Isabel, não D. Dinis!) a ordenha de uma vaca sem medalha nem genealogia. Regatear por quê? Por econômico que seja o úbere, mais vale uma vaca no meu curral que uma boiada a engordar o pasto vizinho. Desligado o telefone, pus-me a arrumar minha bagagem de viajante rumo à h.g.welliana máquina do tempo. Estou no século XXI (precisamente, fins de janeiro de 2005), mas devo regressar ao século XX, a O ano de 1993, publicado pelo Sr. José Saramago, em 1975. Leitor do Sr. José Saramago levantado do chão a partir de 1980, pouco (para não confessar que nada) sabia de sua lavra anterior, aquela que o Organizador, balizando-a entre 1947 e 1980, chamara de “período formativo”. Qual, portanto, caro leitor, a primeira e urgente necessidade que se impunha a satisfazer? Claro, o amigo está coberto de razão, levantar a bibliografia do Sr. José Saramago, o que ele publicara ao longo daqueles trinta e três anos. E, para bem ou mal de meus pecados, lê-la, dos cascos ao chifres, expressão que, incoercível, saltou ao lombo destes teclados, sem dúvida inspirada por aquela vaca sem medalha nem genealogia que, bulímica, estou surrealisticamente a vê-la (juro) neste instante a ruminar as plantas e ervas que, árcade nostálgico, cultivo na varanda de meu apartamento, sobranceiro alcácer erguido bem na esquina da Avenida Ipiranga com o Boulevard São Luís. Alto lá, Sr. Ensaísta que atende pelo nome de Apolo, como aceita uma tarefa sem a menor bagagem intelectual para levá-la a cabo? Como há de cumpri-la? Indo à Biblioteca Municipal, sita à Praça D. José Gaspar. Se o amigo não sabe, de onde assisto à dita biblioteca é um pulo. Modo de dizer. O prozac que religiosamente tomo duas vezes ao dia me impede o salto suicida desta varanda. O leitor há de permitir aqui, pelo menos, um salto no tempo. (Valha-me o título de uma crônica inserida em Deste mundo e do outro, do Sr. José Saramago. Pago a César os direitos que, intertextualmente, lhe cabem). Há, pois, o leitor de me permitir um salto no tempo, como convém a todo ensaio-narrativo que (vade-retro, Tentação!) não presume ser uma lenga-lenga acadêmica. Salto ou acrobacia estilística possibilitando-me dizer-lhes que anoitecia quando, outro Jonas, embora por todos os nomes me chamem de Apolo Constantinos Jr., vi-me, a regurgitar de saber, expelido da Biblioteca Municipal. (Não sei por que me vi como Jonas quando saí daquele bibliográfico útero granítico. Registro a sensação esquizofrênica para uma séria conversa com minha analista. Que, além de portuguesa e peregrina leitora de Fernão Mendes Pinto, ainda me confessou uma tarde, trocadas as posições no sofá catártico, que o pai era um salazarista de quatro costados e cinco quinas. Conhecedor dos seis volumes que o Sr. Franco Nogueira dedicara ao maiúsculo Estadista (adjetivo lá dela), o pai quase os reproduzia de cor nos serões de sua aldeia, genuflexa, ora pois se calhar e calhou, ao sopé de Santa Comba do Dão.) Regurgitado da Biblioteca Municipal, trazia eu, portanto, ou por tão pouco, uma carga por saber, assentada num papelinho ufano de minha garatuja: Terra do Pecado (romance,1947); Os poemas possíveis (1966); Provavelmente alegria (poesia, 1970); Deste mundo e do outro (crônica, 1971); A bagagem do viajante (crônica, 1973); As opiniões que o DL teve (crônica, 1974); O ano de 1993 (sei eu lá o que seja, pelo menos por ora, mas é o que me cabe, 1975); Os apontamentos (crônica, 1976); Manual de caligrafia e pintura (romance, 1977); Objectoquase (contos, 1978); A noite (teatro, 1979); Que farei com este livro? (teatro, 1980); Levantado do chão (romance, 1980). O leitor perspicaz desconfia o quanto e o como lá vinha eu ajoujado sob a insustentável leveza do papelinho com a bibliografia do Sr. Saramago, aquela que, por desafogo do talento ou dever do ofício, lhe compunha o dito período formativo. Sem dúvida, convenhamos aqui entre nós, uma pena prolífica. Nem direi, parafraseando personagem de Guerras do alecrim e mangerona, que em abrindo a boca lhe choviam, àquela época, poemas, crônicas, romances, peças teatrais e conceitos aos borbotões. Treze títulos, Senhor, à tua ceia, muitas vezes edificam uma obra, mas, benza-o Deus, a do Sr. Saramago ainda estava, pasmem, a engatinhar sua formação. “Exercícios de caligrafia literária: Saramago quase, meu caro. Tanto que o título do volume em que você vai colaborar será exatamente esse Exercícios de caligrafia literária: Saramago quase. E aí, interessa?” Quem não perceberia que, num flash-back, recuperei trecho, lá em cima mal transcrito, de minha conversa telefônica com o Organizador. Deguste-lhe a retórica e concorde comigo que ele já me sabia preso pelos chifres, os da vaca, claro fique, a que, sem medalha nem genealogia, haveria de me oferecer. Quando não nos vem a talho uma boiada, faça-se praça (a D. José Gaspar, lembram?) a cavaleiro do que nos cabe no lombo, frase assim a modos de apotegma rococó, tão ao gosto das douradas talhas ad altarem linguae do Sr. Saramago (como virei a ficar sabendo na viagem de minhas leituras) e que, por desfastio do estilo, vem a pelo neste exato momento. Ajoujado sob a insustentável leveza do papelinho com a bibliografia do Sr. Saramago, pernas para que vos quero, se não para calcorrear universitárias bibliotecas, em demanda daquilo que se resguarda para os raros apenas: De tão lido que é, coitado, foi para a encadernação. E quando voltará ao acervo? Só Deus sabe. Amigos, para que vos quero senão para me emprestar as raridades estilísticas daquele período formativo. Das letras que melhor companhia haveria senão a detentora dos autorais direitos do Sr. Saramago aqui no Brasil? E de caminho por que não recorrer a Portugal? Mãos à obra, portanto. 2. Em busca de que tempo perdido? Quem tem boa memória há de lembrar-se que comecei a retouçar estas linhas em fins de janeiro de 2005. Estamos hoje, precisamente, numa segunda-feira, 25 de abril de 2005. Ponhamos lá três meses de beneditino recolhimento a pascer os olhos no que o Sr. Saramago cultivara de 1947 a 1980, ciente do arame farpado que delimitava meu pascigo: Terra do Pecado (romance, 1947); Os poemas possíveis (1966); Provavelmente alegria (poesia, 1970); Deste mundo e do outro (crônica, 1971); A bagagem do viajante (crônica, 1973); As opiniões que o DL teve (crônica, 1974); O ano de 1993, 1975); Os apontamentos (crônica, 1976). Nada de estender a gula dos olhos ao pasto dos outros. Segundo o Organizador, à exceção de O ano de 1993, os demais títulos outros hão de gramar. Portanto, Apolo Constantinos Jr., fica em teus limites, nada de fincar padrão em seara alheia. Assim sendo, nesses meses de claustral e beneditino recolhimento, corri olhos pela poesia e crônica do Sr. José Saramago, espécie e fôrma muito afins, considerando que prosa de cronista frequentemente lança um olhar poético sobre o quotidiano. Não se constituía exceção à regra a lavra saramaguiana. A registrar que o cronista Saramago, sob piscadelas poética e surreal, apresentava já uma óptica político-social que iria desenvolver- se no ofício de editorialista: As opiniões que o DL teve (1974); Os apontamentos (1976). As opiniões que o Sr. Saramago teve (única cabeça pensante na redação?) pelo Diário de Lisboa correm pela “abertura” dos anos marcello-caetanistas de 1972-73. Já os apontamentos do Diário de Notícias são editoriais quase diários, de abril a 25 de novembro do ano de 1975, registrando como se foram fanando os cravos da Revolução de 25 de abril de 1974. Diria o senso comum, aqui trazido a (e de) propósito, já que do homem duplicado enquanto poeta e cronista tratamos: Se, em 1980, fosses um sem-terra do Alentejo com foice à mão, haverias de saber que a seara de O ano de 1993 deitou semente tanto no veio ideológico dessas crônicas políticas como no veio poético das inscritas em Deste mundo e do outro (1971). Isso sem contar o discurso e imagens surrealizantes de alguns poemas inseridos em Provavelmente Alegria (1970), nomeadamente, “Passa no pensamento”, “A mesa é o primeiro objecto”, “É um livro de boa-fé”, “Protopoema”. Sei, ó senso comum, (afinal, já o disse a crítica especializada), que O ano de 1993 trilha berma entre a poesia e a crônica em demanda da ficção aquela prosa perdida n’a terra do pecado que foi, segundo reconhece Sr. José Saramago, o seu primeiro romance. E, de fato, o título O ano de 1993 já nos segreda alguma coisa, não é mesmo? Vindo a lume em 1975, O ano de 1993 promete futurologia que nos remete para o bojo da science fiction. Ainda mais se considerarmos que o título faz ressoar em nossa memória o 1984, de George Orwell volume, aliás, que ainda inspirou os fragmentos 11 e 17 (respectivamente pp. 30-31 e 41 da primeira edição, a de 1975, que tenho sob os óculos). E aí, senso comum, achas que estou equivocado? (Como o senso comum embatucou sem resposta, prossigo.) Quem já leu o romance de Orwell há de reconhecer no fragmento 11 de O ano de 1993 uma nova versão para o Big Brother: “Só essas pessoas assistiram ao primeiro aparecimento do grande olho que iria passar a vigiar a cidade Só esses o viram no seu primeiro tamanho Mas o sol verdadeiro subiu um pouco no horizonte a esfera de mercúrio dividiu-se em duas em quatro em oito em dezasseis, em trinta e duas em centenas de esferas que se espalharam por toda a parte Deslocavam-se no ar silenciosamente e continuavam a dividir-se até que houve tantas esferas quantos os habitantes da cidade Fora instituído o olho de vigilância individual, o olho que não dorme nunca Já o fragmento 17, a tratar da “guerra chamada do desprezo”, traz-nos à lembrança uma variante e releitura paródica do “programa do ódio” vociferado em 1984. (Chamo de variante e releitura paródica pois se trata de uma inversão do modelo. Enquanto no romance de George Orwell as manifestações de ódio e protesto se dirigem ao ordenador, visando a suscitar a reação de apoio dos ordenados, em O ano de 1993, comandado também por um ordenador, “o programa do ódio e das humilhações” visa a suscitar, além do terror, nossa simpatia e piedade pelos humanos ofendidos): Todos os animais do jardim foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas principais Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos mecanismos internos ligados aos ossos de circuitos electrónicos que não podiam errar E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do ódio e a memória das humilhações Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens Desperta memória do senso comum, um aficcionado de George Orwell, tendo lido O ano de 1993, poderia, aqui e a propósito, lembrar-me que o fragmento 12 (p. 32) propõe uma outra revolução dos bichos, à qual não falta uma blitz de pássaros à Hitchckok: Um dos resultados da catástrofe foi que de uma hora para outra os animais domésticos deixaram de o ser A primeira vítima de que houve notícia foi a mulher do governador escolhido pelo ocupante Quando o macaco amestrado que a divertia nas horas de aborrecimento a crucificou noportão do jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas por gatos castrados de estimação em memória do atentado sofrido E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas pelo bicos agudos das aves que se atiravam dos ramos e das alturas como pedras Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se activamente ao cultivo de flores Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora Agradeço-lhe a pertinente lembrança, caro leitor. Mas não posso deixar de aduzir que aqui se trata também de inspiração e diálogo intratextual, uma vez que a ideia dessa tal revolução dos bichos, profetizada para 2968, seminalmente estava inscrita na crônica “Os animais doidos de cólera”, inserta em Deste mundo e do outro (1971). 3. O ano de 1993: uma história de que futuro? A perspectiva futurante de O ano de 1993 não esconde, no título, o teor cronístico de uma história do futuro, sugerido, aliás, na epígrafe colhida em Fernão Lopes: “... porque screpvendo homem do que nom he certo, ou contara mais curto do que foi, ou fallara mais largo do que deve; mas mentira em este volume, he muito afastada da nossa voomtade.” Se bem entendo a senha, da perspectiva do presente em que está a viver e a escrever seu O ano de 1993, o Sr. José Saramago, tal qual redivivo Fernão Lopes, intentava poer em caronyca a história futura de nossa humanidade, perspetivando-a do contexto sócio-político português. Compreensível, tendo em conta que todo cronista é um historiador do dia a dia, a lembrar-nos que o presente, muitas vezes fruto peco do passado, não pode fazer-nos esquecer que o futuro pode ser amargo. A poesia ressoa e sabe também o livro. Diga-o a litania versicular, dando à mancha do texto um jeito de poema em prosa posto a serviço de um relato futurante, apocalíptico e distópico cujo argumento, não obstante fragmentário em sua recusa à linearidade, guarda um fio narrativo: a retomada e reconstrução de um país que, seja pela defecção, alienação ou colaboracionismo de seus habitantes, fora gradativamente ocupado pela repressão, violência e consequente desumanização. Portanto, lê-se em O ano de 1993 alegórica ficção científica, a que, como pede o gênero, não faltarão realismo e maravilhoso, vazados aqui ao jeito de poema em prosa. A que vem o experimentalismo da alegórica ficção científica inscrita em O ano de 1993? O que a motiva? Tendo trilhado a poesia e a crônica, talvez estivesse o Sr. Saramago conjugando-as naquele 1975 à procura de um estilo e dicção que, próprios, viessem a caracterizar-lhe a futura aventura ficcional. (Note-se que a forma versicular do texto dispensa os sinais de pontuação, delegando-os ao fôlego e compreensão do leitor, achado encontrável em futuros textos do Autor.) Para além dessa motivação experimental, é preciso considerar o contexto que lhe gestava a alegórica ficção científica que dava a lume. Afinal, toda alegoria futurante da science fiction se nutre da potencialidade apocalíptica do presente. Elucubremos um pouco, como requer todo ensaísmo que se preza. A primeira edição de O ano de 1993 data, já o sabemos, de 1975. Sai, portanto, à época em que, de princípios de abril a 25 de novembro de 1975, no Diário de Notícias, o Sr. Saramago acompanhava com seus apontamentos o estiolar dos cravos do 25 de abril de 1974. Estaria, pois, a registrar e a vaticinar, em sua alegoria futurante, o malogro da aventura que foi a Revolução dos Cravos? Não o creio. O sonho revolucionário do MFA, apoiado pelas intervenções de editorialista nas páginas do Diário de Notícias, morre exatamente em novembro de 1975, mês em que foi demitido do jornal e ano em que o livro foi publicado. Por mais automática que fosse a urgência daquela crônica vaticinante, surrealista seria pensar que a tenha composto ao longo de 1975. Mais plausível seria cogitar que a história do futuro inscrita em O ano de 1993 era a crônica da agonia do marcellismo (1970-1974). Sobretudo se lhe considerarmos a linguagem criptográfica (naturalmente imposta pela censura) e a alegoria futurante, ambas a registrarem a decomposição de uma terra “doente de peste”, ocupada e ditatorialmente oprimida. A ser correta a interpretação, poder-se-ia datar-lhe a redação entre os anos de 1972-74, ainda mais ponderando que nos anos de 1972-73 o Sr. Saramago diagnosticava nas páginas do Diário de Lisboa os estertores do Salazarismo. Alto lá, Sr. Apolo Constantinos Jr.! Então é possível que o senhor, posto aqui a rasurar O ano de 1993 do Sr. Saramago, de quem sou fã de carteirinha, desconheça texto de eminente crítica, a Sra. Dra. Luciana Stegagno Picchio, saído no número 3 da revista Veredas, onde se lê, com todas as letras que, segundo testemunho do próprio Autor, o livro de que o Sr. Apolo trata, a saber, O ano de 1993, cito com as aspas devidas, “tinha tido a sua origem em 16 de março de 1974, um mês antes da revolução de 25 de abril, sob a profunda frustração sobrevinda à tentativa falhada de um pequeno grupo de militares de derrubar o governo e mudar o regime. Naquele próprio dia tinha sido escrito o primeiro dos trinta poemas que compõem o volume.” Sinceramente agradeço a aparição intempestiva da Sra. Dra. Cassandra de Troia (assim ela se me apresentou, “Muito prazer”, “Sempre à suas ordens”). Devo esclarecer, sob minha condição de Apolo, que se trata de uma “aparição intempestiva”, porque a secção Cartas à Redação: foro e desaforo dos leitores (ágora baktiniana deste Exercícios de caligrafia literária: Saramago quase) está ainda para ser criada. Para que não pareça totalmente ignorante, devo, outrossim, esclarecer que o 16 de março de 1974, dia em que o Sr. Saramago escreveu (conforme reza a Dra. Luciana Stegagno Picchio) “o primeiro dos trinta poemas que compõem o volume”, “sob a profunda frustração sobrevinda à tentativa falhada de um pequeno grupo de militares de derrubar o governo e mudar o regime”, aquele 16 de março de 1974, conhecido como o “Golpe das Caldas”, data, segundo me instruo em António Reis (“A Revolução do 25 de abril de 1974”, in História de Portugal, dirigida por José Hermano Saraiva, Publicações Alfa, volume 6, página 361), “uma precipitada tentativa de golpe por parte de um grupo de oficias próximos do general Spínola, que arranca das Caldas da Rainha com uma coluna sobre Lisboa a 16 de março. Rapidamente controlados, são presos ou transferidos algumas dezenas de oficiais”. De toda essa arenga acadêmico-bibliográfica fica-me a certeza de que em abril de 1974 o livro ainda estava sendo redigido. Certeza confirmada ante qualquer título de protesto pelo fragmento 28. À página 65 da primeira edição que compulso (Editorial Futura), lê-se: “Uma após outra as cidades foram reconquistadas e de todos os lugares afluíam as hordas que outro nome começavam a merecer ......................................................................................................... E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas ............................................................................................................... Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos as aranhas da contagem somem no chão Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos E arrancar pedra a pedra porque faltam explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um Paraque verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles” Claramente se percebe, na euforia do relato e na intervenção do versiculista, o registro da incontida alegria de testemunhar e vazar, poeticamente, no preciso instante daquele 25 de abril de 1974, a derrota de uma ditadura que durara quase cinquenta anos. E de cujos escombros brotava, rubro cravo, a esperança de reconstrução de uma sociedade erguida sob o pedestal do Socialismo. Desse ângulo, é muito provável que a segunda epígrafe do livro, colhida em Diderot, tenha sido aposta aquando da publicação do livro, ou seja, entre, digamos lá, maio e qualquer outro mês ainda esperançoso (mas anterior ao fatídico novembro de 1975): “Mais il semble que ta voix est moins rauque et que tu parles plus librement.” Liberto do garrote da censura salazarista, natural que naquele período de 1975 parecesse ao Sr. Saramago que a voz lhe saísse menos rouca por falar mais livremente. Ocorre que a rouquidão cavernosa e apocalíptica e profética do texto que vinha gestando (o futurante ano de 1993) pareceu ter cura em 25 de abril de 1974. Registrada a cura no fragmento 28, como vimos acima, o que fazer? Cassandra da escrita alheia, por todos os nomes que tenho (Apolo Constantinos Jr.), ouso retroativamente futurar o que pensou o Sr. Saramago naquele crucial 25 de abril de 1974: Cá estou a escrever um livro futurante, a denunciar, criptográfica e surrealistamente, a realidade do Portugal salazarista, quando de repente, contra todas as expectativas, irrompem os cravos da Revolução. Que fazer com o rebento? Autor que se preze é pai de prole que não lançará à roda dos enjeitados. Tendo já escrito àquela altura 28 fragmentos, mais dois, prenhes de esperança na reconstrução futura, poriam ponto final à gestação. Foi o que fez nosso Autor. No fragmento 29, pletórico de imagens facilmente decodificáveis, inscreve-se a renovação da vida ao sopro de “um grande vento” que arrastava os despojos do passado “para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror”. Lavada por lustral chuva, “a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs.” “O dia amanheceu numa terra livre”, onde “os animais pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono”. “Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal”. No último fragmento, o trigésimo, presidido pela anáfora “uma vez mais” a martelar sete dos dez segmentos, sugere-se o eterno retorno da vida, com sua maré montante e jusante de conquistas e fracassos, vitórias e derrotas, ação e fadiga. Apoteótico, não poderia faltar a esperançosa metáfora de uma criança, em cujas mãos (proclamam os esquecidos de Freud e da filogenia) está o futuro sem a sombra de passado tenebroso: “E uma criança objectiva se aproxima e estende as mãos para a sombra que fragilmente retém o cotorno ainda mas não já o cheiro do corpo sumido Uma vez mais enfim o mundo o mundo algumas coisas feitas contadas tantas não e sabê-lo Uma vez mais o impossível ficar ou a simples memória de ter sido Consoante se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele esfolada”. Convenhamos que um sibilino epílogo. Pros raros apenas. 4. Fazendo praça da República Já disse algures que, da açoteia onde moro e demoro, tenho privilegiada visão da Praça da República. De dia, claro está. À noite (quando, segundo pintam, todos os gatos e gatas são pardos), a dita praça é couto defeso. Caro turista, pater familia amigo, nem pense em passar por ali, a não ser que esteja o distinto à procura de emoções fortes, nefandas. Foi essa praça (quem desconhece?) batizada em homenagem à nossa República, proclamada (anotem aí, meninos e meninas) em 15 de novembro de 1889. Feitas as contas, nossa República veio à luz vinte anos e nove meses antes do parto da República portuguesa, ocorrida em 5 outubro de 1910. Efeméride lusitana que haveria de merecer homenagem, tanto que em Lisboa há uma Avenida 5 de Outubro... De atalaia na varanda, marulhava eu ao sabor on the rocks desses pensamentos, quando, aproveitando-se de minha happy hour, britanicamente iniciada às 17h00, lá me surde o bom senso a segredar, dando uma de Tirésias, desejoso de dissipar a cegueira deste ensaio: Apolo, a Av. 5 de Outubro, 317-1°, não é o endereço da Editorial Futura? Aquela que publicou as primeiras edições de A bagagem do viajante, em 1973, As opiniões que o DL teve, em 1974, e O ano de 1993, em 1975? Apesar das buzinas que lá embaixo congestionavam o trânsito, ouvi o segredado cicio do inconsciente, esse Tirésias travestido de bom senso, e corri a pegar a primeira edição de O ano de 1993. Virada a capa, na página seguinte se lia, abaixo do nome do autor e do titulo: EDITORIAL FUTURA CARLOS & REIS, LDA Av. 5 de Outubro, 317 - 1° Lisboa 1975 Também cifrada, por obra e desgraça dos longos anos de repressão e censura, a mensagem ali inscrita sob o codinome de uma Editora? Não me venham debitar aos vapores espirituosos de um legítimo scotch o insight da exegese que lhes anuncio como uma boa nova. Tenho a sustentar-me a inventiva do Sr. Saramago, capaz de abrir, galhofeiramente, a lavra ficcional posterior a 1980 com epígrafes colhidas em livros inexistentes. Como? Nessa pele levantada da inventiva do Sr. Saramago se conclui haver debaixo dela a sombra pretérita de Jorge Luís Borges, cujas ficções de sua translúcida cegueira ensaiam a aparente lucidez e brilho de ficcionistas futuros? Confesso que a insistência desse Tirésias aqui emboscado me embatucou. Mais do que a aparição daquela Sra. Dra. Cassandra de Troia aflita em conquistar um espaço que (sei-o porque Apolo me chamam) só lhe será concedido como foro para, inclusive, desaforos no futuro próximo de capítulos seguintes. Como todo bom político embatucado, é hora de tergiversar, mudar o foco, lançar holofotes de proscênio sobre o Sr. Saramago, de quem aqui se trata e não de seus inspiradores ou modelares precursores. Assim sendo, ao gosto do Autor aqui em pauta o Sr. José Saramago, lembre-se, e não Jorge Luís Borges , imaginemos que toda verdade histórica não passa de ficção. Imaginemos que, sita à Av. 5 de Outubro, a dita Editorial Futura, de Carlos & Reis Ltda., sob cuja égide se publicou a primeira edição de O ano de 1993, não obstante escriturada a verdade comercial ou fiscal de sua existência, imaginemo-la que, sendo Editorial Futura, esteja ela a serviço da mensagem inscrita na futurologia de O ano de 1993. Imagine-se, como propõe Georges Duby (e em sua esteira o Sr. José Saramago futuro), que, à falta de documentos, as lacunas e interstícios desse passado 1975, eu como dublê do Revisor de O cerco de Lisboa tenha de recriá-los ao sopro e ao fiat lux da subjetividade interpretativa e ficcional. Assim sendo, mero autor de um livrinho de ficção científica só lido pela família (relembre-se: Vista do vermelho Marte, a Terra é um deserto humano), ignorante da bibliografia crítica desse período formativo do Sr. Saramago, hei de preencher o passado 1975, ano em que veio a lume O ano de 1993, lendo a marca EDITORIAL FUTURA CARLOS & REIS, LDA Av. 5 de Outubro, 317 - 1° Lisboa 1975 sob óculos (devo confessar que sou míope) impressionistas. Brinquemos com a ideia de que é pertinente e significativo que uma obra de science fiction venha a lume sob a égide Futura de uma editora. Crônica poética engajada contra um tempo e regime ditatoriais (o Salazarismo em seus estertores marcello-caetanistas) cujo cesarismo temsuas raízes na monarquia, seja absolutista ou constitucional, naturalíssima, pois não?, a alusão à sociedade limitada (LDA.) de Carlos & Reis. Nesse ponto, o inconsciente, esse Tirésias travestido de bom senso, desconfiando de minha miopia, assentou no nariz aquilino meus óculos impressionistas e resolveu ser didático: a) sociedade limitada, aquela de natureza civil ou mercantil em que o Capital, com seu custo e benefício, se divide em partes por alíquotas, às quais se restringe a responsabilidade de participação dos sócios, ou seja, do status quo, leia-se, da sociedade nela inserida; b) Carlos & Reis sugere a genealogia monárquica de um cesarismo que se vinha arrastando e capengando desde a Restauração de 1640. Carlos I (1863-1908), trigésimo segundo e penúltimo rei dos Reis de Portugal, foi aclamado em 1889. Morreu assassinado, juntamente com o príncipe herdeiro, Luís Filipe, em 1908, num atentado republicano. Sucedeu-lhe o infante D. Manuel, o segundo. Perceba lá a ironia do Destino, meu caro Apolo Constantinos Jr.: segundo a História, essa sibila enigmática, é sob o cetro desse secundário Manuel que, em 5 de outubro de 1910, a pompa e a circunstância monárquicas de uma sociedade limitada naufragam no areal de outro Alcácer-Quibir. O que não sabiam nem desconfiavam os republicanos vencedores é que esse Alcácer-Quibir do 5 de outubro de 1910 não passava de outro deserto de ideias e reformas. c) Tão desértico de ideias e reformas básicas foi o Alcácer-Quibir de 5 de outubro de 1910, que a sociedade limitada do status quo propiciou o golpe do cesarismo militar em 1928, soleira do cesarismo civil de Salazar a partir de 1932. Dada a lição de História, retirou-se o bom senso, esse Tirésias travestido de inconsciente, deixando-me às voltas com o endereço (ou a direcção, com se diz em Portugal) da Editorial Futura: Av. 5 de Outubro, 317 - 1° Lisboa. O que fazer com essa direcção deixada por Tirésias, esse bom senso travestido de inconsciente? Brinquemos mais um pouco, leitor paciente, inspirados pela inventividade do Sr. Saramago. Percebo que o amigo, embevecido pelas alegorias e metáforas saramaguianas, é ávido de mistérios e arcanos. Atentemos, pois, no 317 - 1°. Se somarmos 3 + 1+ 7 e lermos aquele – 1 como sinal de diminuição, não é que chegaríamos a 10... Teríamos então uma Av. 5 de outubro de 10... Bebeu, pontificaria o bom senso (por todos os nomes Tirésias ou inconsciente?), se ainda aqui estivesse. Alto lá, nem tanto assim, ó Tirésias. Só algumas doses acima da humanidade, como receitaram Humphrey Bogart e Vinícius de Moraes. Ademais, se desejam um cânone etílico-interpretativo da realidade, brindemos a Baudelaire e Rimbaud que de simbolismos e simbologias entendiam, tanto que sugeriam o navegar no bateau ivre dos sentidos destrambelhados à busca de correspondências. Convenhamos que o 5 de outubro de 10 (1910, entenda-se, conforme lá em cima assentou cabalística aritimética) abriu larga via, uma maiúscula Avenida, para o cesarismo ditatorial do golpe militar de 1928 e do Estado Novo salazarista. Mas, larga e maiúscula Avenida, o 5 de outubro republicano abriga também a direcção do discurso criptográfico da science fiction de O ano de 1993, do Sr. Saramago. É calcorreando essa Av. 5 de outubro que nosso Autor busca onde se perdeu o ideário democrático do republicanismo. E é em defesa desse ideário democrárico da República que cerra fileira na resistência contra o regime ditatorial do Estado Novo. Não podendo à altura em que inicia o texto (16/3/74, ensinou-me a Dra. Cassandra de Troia) extravasar seu protesto mais livremente, embuça o braço e punho revolucionários. Para pintar o quadro de um país doente e devastado pela peste do cesarismo, serve-lhe, a contragosto, a paleta do Surrealismo, empunhada às linhas iniciais do livro numa alusão a Salvador Dali: As pessoas estão sentadas numa paisagem de Dali com as sombras muito recortadas por causa de um sol que diremos parado (...) Não importa que Dali tivesse sido tão mau pintor se pintou a imagem necessária para os dias de 1993 Por que tão mau pintor o Salvador Dali, embora tenha esboçado na memória da retina do Sr. Saramago “a imagem necessária para os dias” de O ano de 1993? Talvez porque, pondo a seu serviço o Capital, Salvador Dali se tenha distanciado do diletantismo marxista nutrido por alguns membros do movimento surrealista. Mas essa consideração marginal não importa. O que conta é que a coloração surrealista servia à alegoria apocalíptica da science fiction inscrita no livro. Ao contrário do epílogo de O ano de 1993, onde “se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele esfolada” , levantada a pele surrealista do quadro saramaguiano, lobrigaríamos, sim, uma sombra, a sombra engelhada do Neorrealismo. 5. O punho revolucionário do Surrealismo Convenhamos que extemporâneo (demodée, disse minha analista, quando lhe apresentei o problema estético que me tirava o sono apesar dos soporíferos receitados), sim, demodée o engajamento neorrealista naquele 1975. A não ser que o ataviá-lo sob a fantasia surrealista tivesse o intuito de inocular-lhe ares de modernidade vanguardista. Ao cabo, reciclagem de lições pretéritas, fazendo-as parecer expressão da mais pura novidade decretei, ortodoxo, à minha analista. Uma vez mais trocadas as posições do sofá catártico, escapuliu-se ela de sob o peso de minha consideração, rumo ao banheiro (à casa de banho, disse ela lusitanamente), deixando-me às voltas com aquela história de reciclagem das lições pretéritas de Neorrelaismo e Surrealismo tornadas pelo Sr. José Saramago expressão da mais pura novidade. Uma vez mais só, abandonado por minha analista, entrincheirada na casa de banho, (como já o fizera aquele Tirésias, bom senso travestido de inconsciente?, ambos a carregar o botão do autoclismo, traduza-se, ambos a puxar a descarga da privada, querendo ver-se livre de quê?), uma vez mais só, vejo-me eu a tratar do braço revolucionário do Surrealismo a serviço de criptônico Neorrealismo em O ano de 1993. Ninguém desconhece que o Surrealismo engajou-se numa dupla revolução, ao lutar pela libertação do homem tanto no plano individual como no social. Para libertar o inconsciente e a imaginação humanos dos recalques interiores, receitava o divã de Freud. Para alforriar o homem da opressão e escravidão externas exercidas pela luta de classes, a doutrina marxista oferecia-se como solução, postulava André Breton. Afinal, como realizar o sonho acalentado da “grande transformação do mundo”, da “profunda revolução social”, se o homem não deixasse de ser escravo de si mesmo e dos outros homens? Por esse ângulo, é natural que o engajamento neorrealista do Sr. Saramago possa embuçar-se de Surrealismo. Ainda mais considerando que, no contexto português anterior ao 25 de abril, a militância política de cunho marxista propiciava certa irmandade entre Surrealismo e Neorrealismo ao exprimirem um e outro o engajamento contra a ordem social, política e ideológica então entronizada pelo Estado Novo. Servia-lhe, pois, a contento o punho revolucionário do Surrealismo, punho de rendas filigranadas com o maravilhoso da science fiction, com a mistura do real e do irreal, do cotidiano e do fantástico. A estratégia consistiu em desvelar sua contemporaneidade (o contexto português estado-novista) à luz de um discurso em que a litania versicular, à São João, soava, na science fiction de O ano de 1993, como as trombetas de bíblico apocalipse. Como toda ficção futurante (ou será como todo apocalipse bíblico?) que se preze, transpôs para o por vir o fruto presente de um passado peco. Ambientou a ação (e sua dialética reação) num país em momento nenhum nomeado... Aqui entre nós, segredo de polichinelo. Quem, a não ser mais cego que o Tirésias de meu inconsciente, nãoreconheceria que se trata do Portugal salazarista? Basta ler, com olhos de ver, os fragmentos 4 (a tortura da “estátua”), 5 (a tratar do “lobos”, metáfora inscrita no engajamento neorrealista de Aquilino Ribeiro, em Quando os lobos uivam, e de Manuel da Fonseca, em Seara de vento, antes intitulada Tempo de lobos), 19 (as simpatias nazi-fascistas do Salazarismo, legíveis quando “Determinou o ordenador que todos fossem numerados na testa como no braço se fizera cinquenta anos antes em Auschwitz e outros lugares”). E já que a “ordenador” nos referimos, quem o Ordenador seria se não o Sr. Oliveira Salazar a proclamar em seus discursos “Ordem, ordem!” 6. Divã catártico Sem ter trocado a posição no divã catártico, pedi à minha analista que lesse essas páginas, que me orientasse nessa exegese de O ano de 1993. Você já leu O ano de 1993? Na última sessão eu lhe emprestei o livro e pedi que lesse. Você leu? Li. E daí? Entendeu. Mais ou menos. Gostou do livro? Gostei. Por quê? Sei lá. Tem assim umas coisas que tocam fundo... A alegoria de um povo oprimido que se liberta... que se organiza para pôr fim a qualquer ditadura... Leu o ensaio que eu estou a escrever? Li. Entendeu? Assim assim. Você está dando uma no cravo e outra na ferradura. Na ferradura de quem? Espera aí. Agora quem não entendeu fui eu. Percebo que você não tem dormido. Tirésias, o cego a representar o bom senso de meu inconsciente, tem-me ditado esse ensaio. Os soníferos não têm funcionado? Dormir pra quê? É durante o sono que o inconsciente se mantém em vigília, a trabalhar. Só não a convido para dormir comigo porque seria uma ofensa. Ofensa a quê? Imagine que, convidada a dormir comigo, você não conseguisse me manter acordado a noite toda... Vamos ao que interessa. Trouxe-lhe uma preciosidade que vai servir para sua arenga com O ano de 1993. Trata-se de uma crítica do Sr. José Saramago ao romance Os mastins, de Álvaro Guerra. Crítica saída no número 1462, agosto de 1967, na revista Seara Nova. O ano de 1967? Socorro, Mnemósine! Ó memorioso Funes, por que não te ergues da paralisia imposta pelas ficções jorge-luis-borgianas em meu auxílio? Já não lhe disse que o melodrama faz mal à sua saúde? É açúcar demais para sua diabetes... O ano de 1967?... Vou lembrar, vou lembrar... 1967... Um ano depois de ter publicado Os poemas possíveis, que são de 1966... Vinte anos depois de A terra do pecado... Quer dizer, com só dois livros publicados, bem no comecinho do tal período de formação... E daí? Que têm Os mastins do Álvaro Guerra com minha insônia? Já li Os mastins. Mas seus latidos nada têm a ver e a soar com o arreganhar de caninos e a baba hidrófoba da besta ladradora de meu inconsciente. Para você o que interessa nesse momento não é a crítica do romance, mas o que o Sr. José Saramago diz acerca do uso da alegoria. Você não anda às voltas e revoltas com a alegoria de O ano de 1993? Pois faça bom proveito da fotocópia que lhe trouxe. Onde você arrumou isso? Tenho minhas fontes bibliográficas. Ao contrário de você que não passa de um inconsciente, cego e surdo ao que já foi dito ou escrito. Você veio aqui só para me ofender? Não. Tanto que lhe trouxe essa fotocópia. Se queres a paz, prepara-te para a guerra. Não é assim que se traduz aquele ditado latino de Júlio César? Foi em De bello galico? Ah, sei lá... Vamos lá, deixa esse xerox de fidedignas fontes bibliográficas aí e façamos as pazes na cama. Quero ver se, apesar dos soníferos receitados, você me deixa acordado para os sentidos destrambelhados a noite inteira. Quer saber de uma coisa, Sr. Apolo Constantinos Jr., vá solenemente à merda com suas cantadas e seu umbilical marialvismo! Dito isso, com passos marciais de generala, retirou-se de minha sobranceira cobertura (sita, como já sabem, na esquina da Praça da República com o Boulevard São Luís) a psicóloga e psicoterapeuta Maria de Jesus Caetano Freire. Não tenho culpa de o pai dela, um salazarista de quatro costados (lembram-se?), ter-lhe dado o nome da governanta de cama, mesa e banho dos intestinos de Portugal no Palácio de São Bento. 7. O xerox da alegoria Fico a indagar-me que recepção teria tido O ano de 1993 aos olhos da censura e do público, apesar de sua criptografia surrealista. Como o livro saiu em 1975, a censura salazar-marcello-caetanista estava já devidamente encarcerada a coçar o saco e a matar o tempo, segundo testemunho teatral do Sr. Cardoso Pires em Corpo delito – na sala de espelhos. Assim sendo, resta o público leitor. Qual? O Sr. Saramago ainda não tinha recebido o Óscar. Portanto, ninguém se veria obrigado a lê-lo para não incorrer na suposição de parvo ou iletrado. “Poetas por poetas sejam lidos”, como o exigia, em seu “Arrazoado”, Filinto Elísio, por todos os nomes chamado Francisco Manuel do Nascimento no setecentismo neoclássico? Engajados por engajados sejam lidos? Curto circuito a promover o fogo-fátuo de incêndios revolucionários? Ao relatar, nos trinta fragmentos de seu poema em prosa, a história de um povo a lutar contra a opressão; ao pincelar, numa tela surrealista, a angústia, o medo e a esperança de um povo oprimido que pouco a pouco vence a resignação e organiza a resistência até à batalha decisiva que levará ao regresso da vida e da liberdade convenhamos que a ideação de O ano de 1993, (imagem de quantos povos sofreram, e ainda sofrem, a tirania de regimes discricionários), ora, como negar que esse quadro nutre a pretensão de assumir ares universalizantes ao sopro da alegoria. Vislumbra-se aqui o travejamento que fará a fama e fortuna dos romances saramaguianos posteriores a 1980. Data a partir da qual sua ficção (tendo por charneira Jangada de Pedra, de 1986) assumirá, gradativamente, a feição de Jano, cabeça com duas faces, uma voltada para o Passado, outra para o Futuro. À face voltada para o Passado corresponderão suas revisões da História: Memorial do Convento, 1982; O ano da morte de Ricardo Reis, 1984; A história do cerco de Lisboa, 1988; O Evangelho, segundo Jesus Cristo, 1991). Na face voltada para o Futuro, a óptica da alegoria: Ensaio sobre a cegueira, 1995; Todos os nomes, 1997; A caverna, 2000; O homem duplicado, 2002; Ensaio sobre a lucidez, 2004. Saído nesse 2005, a reincidência teatral do Sr. Saramago, nomeada Don Giovanni ou o dissoluto absolvido, confirma que a dupla face ostentada por sua obra, dita pós- moderna, condensa o viés intertextual de sua perspectiva, a dialogar seja com autoral Estória seja com autoritária História. Insiste o Sr. Saramago em encarnar o papel do Revisor de O cerco de Lisboa, desautorando o Passado, para que nele (o Passado ou Sr. Saramago?) releiamos a vida pregressa de modo a não cometermos, no Futuro, os mesmos erros. Aqui a lição que nos ensina a História, essa lembrança do esquecimento humano. Aliás, em termos de memória ou de criptomnésia, há de revelar-se espantoso seu autodidatismo. Vem-me à lembrança Funes, o memorioso, das Ficções de Jorge Luís Borges. Alusão ou analogia que logo corrijo, ao lembrar-me que, na elaboração de O ano de 1993, o Sr. Saramago esqueceu-se do que um dia escreveu acerca da alegoria. No xerox deixado por minha psicoterapeuta, por todos os nomes Maria de Jesus Caetano Freire, lê-se (número 1462, agosto de 1967, da Seara Nova) o que então ele pensava acerca do recurso à alegoria: “Proposta para os historiadores da nossa cultura: como, quando e porquê [...] recorreu o artista ou o escritor português aos caminhos traversos da alegoria para exprimir a sua posição perante a sociedade em que viveu. [...] Claramente se vê que o uso de tal processo de expressão pressupõe ao dirigir-se ao leitor ou espectador, o conhecimento exterior do código empregado. Doutro modo, a mensagem era indecifrável, sem efeitos práticos imediatamente reduzida, portanto, a mero exercíciode estilo cujas intenções só na mente do autor se definem. Este parece-nos ser o mais grave defeito da alegoria, a sua fraqueza orgânica. Daí que as obras que segundo as suas regras se estruturam sejam quase sempre circunstanciais, ressalvados aqueles raros casos em que a constância das circunstâncias as incorporou no acervo ideológico de gerações.” Transformaria o Sr. Saramago essa crítica à alegoria numa autocrítica a O ano de 1993? Não teria ele, como escritor português, também recorrido “aos caminhos traversos da alegoria para exprimir a sua posição perante a sociedade em que viveu”? O “uso de tal processo de expressão” [a alegoria] em O ano de 1993 não pressuporia, “ao dirigir-se ao leitor ou espectador, o conhecimento exterior do código empregado”? Poetas por poetas sejam lidos ou engajados por engajados sejam lidos, nova versão do odi profanus vulgus? Desconhecendo o leitor o sentido criptográfico da alegoria, não seria a mensagem indecifrável, “sem efeitos práticos imediatamente reduzida, portanto, a mero exercício de estilo cujas intenções só na mente do autor se definem” ? (Que se tratava de “mero exercício de estilo”, não tenho dúvida. Apetecia-me perguntar, em nome da exegese acadêmica, que intenções se definiam então na mente do Autor.) Obra estruturada segundo as regras da alegoria, não seria O ano de 1993 também circunstancial, natimorta à nascença, considerando que, nascida em 16 de março de 1974, já não teria mais razão de ser quarenta e quatro dias depois? Toda Cassandra tem o Apolo [Constatinos Jr.] e os incrédulos que merece. Assim sendo, aventuro-me a vaticinar que no vindouro foro (e desaforo) dos leitores, Cartas à Redação há de chamar-se , alguma leitora, a cavalo do incêndio de Troia, há de contestar- me. Pura e simplesmente dizendo que O ano de 1993 está ressalvado de todos os defeitos da alegoria por ser (e vai recitar a crítica saramaguiana) um daqueles “raros casos em que a constância das circunstâncias as incorporou no acervo ideológico de gerações.” Serei eu (cito agora o desaforo vindouro da minha leitora trojan horse ), serei eu “tão ignorante que não percebo que ainda hoje, em pleno século XXI, está inscrita n’ O ano de 1993 a imagem de quantos povos sofreram e sofrem, aqui e alhures, a tirania do neoliberalismo, esse punho rendado do selvagem Capitalismo?!” Praza aos céus que escapei do cajado e estaca ?! dos sinais de sua indignação. Ó deuses, onde o sonífero receitado por minha psicoterapeuta, a generala Maria de Jesus Caetano Freire? Ah, na gaveta da piniqueira, meu criado mudo, ao contrário dela. Ei- lo aqui, revestido em sua brancura de antisséptico silêncio. Quem sabe, misturado com três doses de uísque acima da Humanidade, esse Morfeu encapsulado há de livrar-me do pesadelo apocalíptico de O ano de 1993. [SP, jan.-set./2005] Cartas à Redação: foro e desaforo do leitor “Quem dá com a língua nos dentes, às vezes está à procura do siso.” (Incunábulo dos Apólogos) Têm chegado a esta redação cartas de leitores. Como esta redação quer-se um fórum democrático e polifônico, interessado, pois, em diversos e contrastantes pontos-de-vista, tornemo-la uma ágora passada, fazendo praça de que o espaço aqui aberto serve para manifestações e debate públicos, sempre saudáveis à liberdade de credos, sejam políticos, religiosos ou literários. Asim, com o intuito de acolher a opinião dos leitores, o diretor desta redação houve por bem chamar uma plenária com as bases operário-tipográficas, a fim de estabelecer critérios para, recebidas as missivas, divulgá-las. Depois de prolongada e rebarbativa discussão, tendo abandonado o plenário quase todo mundo, vá lá saber-lhes a razão, quase ninguém, ou seja, meia dúzia de gatos pingados, soberana vontade da classe e cidadão ausentes, votou e decidiu que: a) as cartas devem ser encaminhadas com assinatura e identificação. (Entenda-se por identificação: árvore genealógica, mapa astral, endereço com xerox comprovante de residência, e-mail e telefone do remetente. Correspondência sem identificação completa será desconsiderada. Garante-se sigilo absoluto. Nenhum risco, pois, de vazamento seja para repórteres investigativos seja para malas-diretas.); b) esta redação se reserva o direito de selecioná-las, além de resumi-las e copidescá- las, para publicação. Tudo isso posto e disposto, democraticamente, com o único fito de zelar pela fiel observância dos princípios da ética. Ensaio também sobre a cegueira e sobre a lucidez, interessa a esta redação o que miopias impressionistas, hipermetropias acadêmicas, cataratas e olhos de lince podem enxergar no que leem. “Se sabes ler, começa por soletrar as entrelinhas.” é a divisa desta redação, grafada em letra gótica, a subscrever, em caprichoso formato de lua-nova, seu emblema: uma luneta, a de Galileu lembrança de que a hipertrofia da visão, diziam já os Barrocos, pode ajudar-nos a enxergar além das aparências assentes e aceitas por qualquer dogma dito indiscutível, seja religioso, político ou literário. “Pues ese cielo azul que todos vemos/ ni es cielo ni es azul. Lastima grande/ que no sea verdad tanta belleza.” São versos de um poeta espanhol, Lupércio Leonardo de Argensola (1559-1613), a falar da maquilagem ostentada pela “realidade” com o intuito de embair-nos os sentidos. Considera, pois, leitor(a), que a evidência de qualquer miopia, hipermetropia ou cegueira será sempre um ensaio sobre a lucidez. A Redação. Entulho do autoritarismo Quero registrar meu veemente protesto contra as normas que regulam a participação do leitor no fórum de debates instituído por essa Redação. As exigências feitas para a identificação do missivista são simplesmente absurdas. Não passam de piada sem a menor graça. Elas mais parecem aquelas requeridas por cadastros bancários para a abertura de simples e reles conta-corrente. Ademais, reservar-se a Redação o direito de selecionar, resumir e copidescar as cartas é a mais clara manifestação do entulho, para não dizer lixo, autoritário que ainda nos soterra. Deusdédit Protestante da Silva, Monte Santo de Minas (MG). Coisa de doido Ora, façam-me o favor. Só mesmo saída da cabeça de um maluco que mistura uísque com antidepressivo aquela interpretação dada para a Editorial Futura, Carlos & Reis Ltda., sita à Av. 5 de Outubro, 317 - 1°, que publicou O ano de 1993. Norberto Rosas, Franco da Rocha (SP). Maluco beleza Discordo do leitor Norberto Rosas (Coisa de doido). Pode ser coisa de maluco toda aquela interpretação sobre a Editorial Futura, mas foi uma beleza. Acaso o citado leitor desconhece ensinamento do poeta francês Rimbaud, o de que só navegando no bateau ivre dos sentidos destrambelhados temos as verdadeiras iluminações? Ah, caso o Sr. Norberto Rosas não saiba, bateau ivre (barco bêbado) é um poema do Rimbaud, autor também de uns poemas em prosa intitulados Illuminations. Sereno Ribas, Atibaia (SP). Confissões Eu sou aluna de um curso de Letras. Eu sou fã incondicional de Fernando Pessoa e José Saramago. Eu adoro o Álvaro de Campos que meu Professor diz ser Fernando Pessoa. Eu confesso que não entendo muito bem essa coisa de Álvaro de Campos ser Fernando Pessoa. Mas o que eu quero dizer mesmo é que fiquei fã incondicional do José Saramago porque o meu Professor defendeu uma de tese de mestrado falando sobre O Memorial do Convento. Quando ele dá aula sobre a literatura em Portugal [,] ele pede que a gente leia O memorial do convento. Eu li e adorei. Verdade que não tinha entendido quase nada. Além de ser escrito de um modo muito complicado, fazendo com que a gente tenha de prestar muita atenção para entender o que está sendo dito, o livro falava de uns tempos passados. A construção do Convento de Mafra no século XVIII, disse o meu Professor.Tão novinha, só tenho vinte e dois anos, como eu posso saber do que aconteceu bem lá longe no tempo. O meu Professor que tem uns olhos lindos, azuis de boneca, disse que [,] assim como ele [,] a gente também deveria ler outros livros do José Saramago. Então ele indicou A terra do pecado. Quando eu cheguei em casa com o livro, minha mãe viu o título e de jeito nenhum queria me deixar ler, pensando que se tratava de imoralidades. Muito religiosa, ela quer me manter sã e salva dos pecados que, segundo ela, já são muitos nesta nossa terra. Foi aí que eu dei para ela ler o trabalho que o Sr. Manuel Pelourinho escreveu sobre o livro. Quando ela viu que se tratava de uma história de amor muito triste, no final minha mãe também leu A terra do pecado e [,] assim como eu [,] ela chorou muito. Nós duas estávamos torcendo para que a Viúva se casasse com o Doutor. Tenho certeza que ambos iam ser muito felizes. O amor [,] quando é forte e verdadeiro [,] tudo vence, até mesmo os preconceitos sociais. Mas eu só escrevi isso para parabenizar a iniciativa de divulgar os livros pouco conhecidos do Sr. José Saramago. Agora mesmo estou de saída para procurar O ano de 1993. Annacélia Jimenez, Botucatu (SP). Cus de judas Moro onde Judas perdeu as botas e as cuecas. Sendo assim, pode parecer absurdo mas é natural que só agora, passado mais de um ano, pude ver, emprestado por meu cunhado, esse folhetim de nome Exercícios de caligrafia literária: Saramago quase. Ah, meu cunhado, é professor de História. Ele diz que é professor de Estórias. Deve ter suas razões para dizer isso assim, porque é um sujeito muito lido. Mas vamos aos finalmentes, como diria o Odorico Paraguaçu do Dias Gomes. Ao ler o folhetim Exercícios de caligrafia literária: Saramago quase, que muito me agradou, dei de cara com a coragem da manifestação do Sr. Deusdédit Protestante da Silva. Subscrevo ela [sic] inteiramente. De fato, é manifestação do entulho autoritário as exigências dessa Redação. Assim como foi expressão do lixo autoritário (reciclado, disse meu cunhado) toda essa história que andou correndo por aí de se criar um Conselho Federal de Jornalismo (CFJ) afim [sic] de “orientar, disciplinar e fiscalizar” a liberdade de informação, opinião e crítica. Será que alguém não percebeu que a criação do tal Conselho Federal de Jornalismo, posto no lixo graças a Deus, tinha uma única intenção (meu cunhado disse para pôr aqui dois pontos, então eu ponho): tentativa de amordaçar a Imprensa. Sabendo que a mentira tem pernas curtas e que a verdade chega sempre na frente, não é que os danados planejavam com o tal CFJ calar essas denúncias que [sic] saiu em tudo que é jornal sobre cuecas cheias de dólares e mensalões e mensalinhos ou caixa dois. Minha bota está sem sola, minhas cuecas (só tenho três) estão esgarçadas de tanto serem lavadas e secadas, mas, mesmo morando nos cus de Judas, ainda não perdi rumo nem aprumo. Apesar de atrasado, eu tinha que escrever isso para desabafar toda minha indignação. Mas antes tarde do que nunca. Tadeu Figueiras, Jeremoabo (BH). III. Manual de pintura e caligrafia (1977) F. Khom (Microempresário e latinista. Especializado em fotocópias e caligrafia, é autor de Instantâneos da alma em fotos, pinturas e caligrafias.) “Capricha no exercício de caligrafia. Terás a letra tão legível quanto a que te serve de modelo.” (Num Manual de Caligrafia, autoria anônima) 1. De fotocópias e xerocópias Ut pictura poesis (ou, ressuscitando a morta língua: “Como a pintura, é a poesia”), isso, ipsis litteris, disse Horácio (Quintus Horatius Flaccus), há uma data de séculos atrás. Nascido na Apúlia, mais precisamente Venúsia, em 65 a.C., deve tê-lo dito (mais preciso é dizer deve tê-lo escrito), por volta de 10 a.C., em sua Epistola ad Pisones.12 Dedicada a Lúcio Pisão e a seus filhos, a referida carta expõe as ideias que Horácio tinha acerca da poesia, da criação literária e da formação do bom poeta. A páginas tantas, verso 361, aparece a dita frase Ut pictura poesis, a cunhar o símile que se tornará moeda corrente no (como se dizia antigamente) comércio artístico e crítico das Musas. Como se vê, bem antes de Colombo, Horácio tinha descoberto a América e posto o ovo de pé (quem de pé? o ovo? Horácio?) Perdoe o leitor minha hesitação ao escrever. Não domino a técnica (ars, traduzem os manuais clássicos de retórica) da caligrafia literária. Sou artifex (nome que os manuais clássicos de retórica dão aos artesãos) de outra arte. Temo pôr aqui o termo arte para o que faço. Será mesmo arte (no bom sentido) o que faço? Sou retratista. É, retratista. Tal qual o H., narrador de um “autobiográfico” romance do Sr. José Saramago, intitulado Manual de 12. Verdade que nada de novo sob o sol. Plutarco atribui a Simônides (556-486 a.C.), uma data de séculos antes de Horácio, o adágio “a pintura é uma poesia muda; a poesia, uma pintura que fala.” pintura e caligrafia.13 Nada de causar espanto a afirmação acima e a nota de rodapé, atento leitor. É natural, e data de séculos, dos arcanos ficcionais ou poéticos ou pictóricos, que romancistas e poetas e pintores, seja sob o disfarce de nomes outros ou elusivas iniciais, seja sob o retrato de outrem, se autobiografem ou se autorretratem. Nenhuma novidade dirá, pois, H., ao registrar, na página 79, “Quem retrata, a si mesmo se retrata.”, nem ao retoricamente indagar “Mas, quem escreve? Também a si escreverá?” A resposta é sabida há séculos. Afinal, todo texto ficcional, em prosa ou verso, é autorretrato da alma, do inconsciente de quem o escreve negativo por revelar. Portanto, nada de buscar na vida civil traços fisionômicos ou semelhanças de um cotidiano tributável. De outra natureza a “autobiografia” a que se refere o Sr. José Saramago. A ela chegaremos, no momento azado. Há que respeitar cuidadosa andadura, que no andor o santo é de barro. Escrevi, antes da (ociosa? desnecessária?) digressão crítico-literária no parágrafo acima, que sou retratista. Tal qual o H., narrador de Manual de pintura e caligrafia, romance que o Sr. José Saramago considera, repito, talvez seu livro “mais autobiográfico”. Sou retratista, sem contudo ser pintor de retratos de membros da alta burguesia salazarista. Primeiro, porque estamos no Brasil. Somos nativistas desde meados do século XVI e não iríamos, por orgulho patriótico, deixar implantar aqui o fascismo salazarista. O fascismo, sim, por aqui andou, mas verde(-oliva)-amarelo, em patrióticas cores, que entreguistas não somos. Segundo, porque sou retratista de outras artes e manhas. Faço... Rigorosamente, seria tiro... Mas, se ponho “tiro” aqui neste papel, corto o efeito da frase... Vá lá então... Faço retratos 2x2, 3x4, 5x7. A dimensão depende da importância do documento. Ao cabo, figuro identidades. Simulacro fotóptico, a realidade do ser está na cara? A diferença é que H., o retratista de Manual de pintura e caligrafia, se serve de pincel, tintas, tela, para flagrar, retratar o modelo. Outra técnica (ars de kodaks e nikkons?) me serve, a de lentes, filtros, angulações. Não sou nenhum Sebastião Salgado, mas, cum grano salis, dou para o gasto. Em homenagem a Todos os nomes que temos, em homenagem ao pintor de retratos 13. “O Manual de Pintura e Caligrafia provavelmente é um livro de aprendizagem; mas é também (e já o disse várias vezes) talvez o meu livro mais autobiográfico.” Carlos Reis, Diálogos com José Saramago, Lisboa: Caminho, p. 39. H., retenha-se que F. é o meu nome o nome que tenho, não o que me deram. Meu pai foi lambe-lambe na Praça da República. Nos idos tempos em que, com roupa de domingo, as pessoas eternizavam o sorriso do passeio ensolarado antes da matinée nos cinemas da Av. Ipiranga. Se quemsai aos seus não degenera, herdei-lhe a profissão. De fé nos retratos, com ou sem retoque. E mais, força-me o orgulho profissional a dizer, progredi. Registre-se, nestas páginas que me ponho a escrever em gótica caligrafia, que sou proprietário da Fot’Óptica F. Khom.. Ofereço, portanto, a clientes e fregueses, também óculos, lentes, além de xerocópias, fotocópias, com ou sem reconhecimento de firmas. Mas meu ofício mesmo é retratar quem se põe diante de minhas lentes. As da câmera? As dos óculos? Óptica crítica esta minha Fot’Óptica F. Khom.? (Diga-se, de passagem, aproveitando o ensejo, meus problemas de visão corrijo-os com multifocais. Segundo popular adágio, em terra de cegos quem tem olhos mesmo míopes é rei. Errei?) A que vem tudo isso? Esta barafunda que começa a tratar de ut pictura poesis via Horatius Quintus Flaccus, passa, em subalterno rodapé, por um tal Simônides e desemboca num F., eu, este criado ao dispor de V. Exas., a falar da própria vida como se ela tivesse a importância clássica dum docere cum delectare, dando ganas no leitor de fazer a pergunta que Adelina calou, em Manual de pintura e caligrafia, quando o retratista H. lhe apresentou como “autobiografia” uma narrativa de viagem, a que fizera por plagas italianas, “Que pode haver na tua vida que valha o trabalho de contar?” (p. 115), ao que eu poderia responder, assumindo ares filosoficamente existencialistas, como fez H., “Creio que a nossa biografia está em tudo o que fazemos e dizemos, em todos os gestos, na maneira como nos sentamos, como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objeto do chão.” (p. 115), citando o Sr. José Saramago e, por trás dele, Sartre e, por trás de Sartre, Heidegger, esconde-esconde de fontes que, tácitas, nos nimbam a fronte com halo de originalidade, mas basta raspar o palimpsesto para irmos descobrindo caligrafias de outrem... “Por isso mesmo, meu caro Sr. F., ora faça-me o favor, a que vem toda esta digressão sem pés nem cabeça?” Faça-me o favor o Senhor. Digressão sem pés nem cabeça é alegoria mostrenga: basta visualizá-la na tela da retina, imaginar no afresco da mente ut pictura poesis?, tronco-e-membros destituídos do que nos guia e conduz, os amputados pés e cabeça. Esta digressão aqui, caro leitor, lamento discordar, mas esta digressão tem pernas e não anda decapitada. Se, como pontifica o Sr. José Saramago, retratado no H. de seu Manual de pintura e caligrafia, toda narratio, seja ela qual for, é autobiografia, justifica-se que “eu- aquele” (eu cá fora, a me pensar; aquele-lá, no texto que em letra gótica escrevo) me autorretrate para apresentar-me ao distinto leitor. E ensaio de aprendizagem, à imagem e semelhança intertextual do “livro de aprendizagem” (favor, rever nota 13) que é o Manual de pintura e caligrafia reconhecer-me, ao cabo tormentório da travessia, respondendo também a mesma pergunta que se fez H., na página 31: “Quem sou eu-aquele?” 2. “Quem sou eu-aquele?” H. disse, à página 16 de seu (?) Manual de pintura e caligrafia, “Observo-me a escrever como nunca me observei a pintar.” Disfarçada versão do pessoano “quem em mim sente está pensando”, também eu, à imagem e semelhança de H. (mise en abîme cópia da cópia da cópia...), observo-me, agora a escrever nesta gótica caligrafia, como nunca me observei a fotografar quem quer que fosse. Não sei ainda por quê. Mas, quando H. apareceu na Fot’Óptica F. Khom., resolvi observá-lo e observar-me a fotografar-lhe não a cara mas a alma, desconfiando que, na câmara escura, sob a película da persona que todos somos, outro ser haveria de revelar-se, ao revelá-lo. Precisava ele de fotos para segunda via da carteira de identidade, a original lhe fora furtada, e obscuramente me falava da necessidade também de uma fotocópia autenticada da declaração que certificava a incertidão de seu nascimento. Pois não é que descobrira, por obra e graça da pesquisa realizada pelo Sr. José-e-só (assim sem mais todos os nomes de um sobrenome), obscuro mas eficiente amanuense da Conservatória do Registro Civil, pois não é que o Sr. José-só, fio de Ariadne atado ao tornozelo, lhe desencavou dos kafkianos labirintos da Conservatória do Registro Civil uma certidão de nascimento que registrava uma data de nascimento, o seu, que não batia com a verdadeira data de seu nascimento. Tinha, portanto, ele duas datas de nascimento, uma real, outra fictícia. Só agora, sob os filtros e lentes desta minha caligrafia, currente calamo, recupero o tempo perdido naquela conversa jogada fora. Realmente, H. tinha duas datas de nascimento. Como personagem de “autobiográfico” romance, H., retratista de paleta, pincel e tela, era autorretrato do Sr. José Saramago, entidade civil nascida duas vezes 14. Numa data real, em outubro de 1922. Numa data, não fictícia, mas ficcional, em 1977: fruto temporão de romanesca árvore genealógica, a querer trazer, na boca de um ramalhoso discurso oral e neobarroco, o evangelho, entenda-se, etimologicamente, a boa nova, a novidade da ficção. “Alto lá, Sr. escriba fotógrafo ou fotógrafo escriba! Como é possível H. aparecer-lhe na Foto’Óptica F. Khom., sita na desvairada pauliceia, quando português é ele, demorando ou assistindo, pois, noutra e distante plaga?” Simples. Então o caro e atento leitor não sabe que há uma data de séculos a realidade da ficção é a ficção da realidade? Pois H., retrato ficcional do Sr. José Saramago, redescobriu esse truísmo e pintou-o com feições e cores do mais puro ineditismo, ao longo das páginas 93-97 de seu Manual caligráfico-pictórico ou pictórico-caligráfico, enquanto copiava trechos de Defoe, Rousseau, Marguerite Yourcenar, à busca de “definir e marcar o grau de falsidade na verdade e de verdade na falsidade”, a consabida ambiguidade inata da ficção, “inclinado a afirmar que toda verdade é ficção”. Só que, armado nosso míope olhar com recursos da fotografia, como o emprego de raios infravermelhos, raios ultravioletas ou luz fosforecente, assim extraída a catarata de nosso olhar, leríamos, sob a literária pintura de H., palimpséstico retrato das Ficções jorge-luis-borgianas. Diz-me H. que andou pela Itália, a calcorrear ruas, museus, capelas. Viagem de estudo. Estudo de sua arte e de si mesmo, descobrindo-se nas imagens e matizes dos grandes pintores, sobretudo renascentistas e pré-renascentistas. Uma excursão que é, no fundo, uma incursão em si mesmo. Tanto que está a ensaiar sua “autobiografia em forma de narrativa de viagem”. Talvez esteja a querer impressionar-me. Marcar a distância que separa um retratista-pintor, artesão manual, de um lambe-lambe cuja arte da imagem e semelhança decorre não da habilidade artístico-mimética mas do vicário engenho de uma máquina que, ao cabo, tudo faz, substituindo e compensando minha (nossa?) ausência de talento visual e artesanal. 14. “Quem retrata a si mesmo se retrata. Por isso, o importante não é o modelo mas o pintor, e o retrato só vale o que o pintor valer, nem um átomo mais. O Dr. Gachet que Van Gogh pintou, é Van Gogh, não é Gachet, e os mil trajos (veludos, plumas colares de ouro) com que Rembrandt se retratou, são meros expedientes para parecer que pintava outra gente ao pintar uma diferente aparência.” Manual de pintura e caligrafia, p. 79. Faça-me o favor, Sr. H., penso, enquanto lhe levanto o queixo, tempo exato de examinar-lhe as feições e ver se nelas descubro sob a pele-pergaminho as feições do Sr. José Saramago, cujas e que de retratos conheço. Não vá ele pensar que só a retratista da alta burguesia salazarista são permitidas vacances culturais. Também tenho minhas incursões e excursões culturais por museus e capelas. (Quem sabe um dia também venha a escrevê-las como existencialista e psicanalítico exercício de “autobiografia em forma de narrativa de viagem”.) Pois saibacá, continuo mentalmente a dizer-lhe enquanto lhe movo o rosto um pouco para a esquerda, saiba que, esta minha pessoa andou a calcorrear Barcelona este (fui-o outrora agora) museu a céu aberto, com Gaudi e sua Sagrada Família: o mecena Güell de um Parque e Palácio, e Batló e Pedrera e Casa Vicens e companhia bela. E quem vai a Barcelona não pode deixar de ir a Figueres e visitar, no Carrer de Sant Pere, este ( fui- o de novo outrora agora) Teatre Museu de Salvador Dali, onde revejo “A imagem desaparece” (de 1938) e “Gala desnuda mirando o mar que, a uma distância de 20 metros, se transforma no retrato de Abraão Lincoln” (de 1976). Segurando-lhe o queixo com a ponta dos dedos, movo-lhe agora a cabeça um poucochinho para a direita, talvez a buscar-lhe na face, de perfil, uma pinta, um sinal característico, pertencente ao Sr. José Saramago. Acaso o Sr. H., ilustre retratista, autor do autorretrato do Sr. José Saramago (não nos esqueçamos de que o retrato do Sr. Gachet autorretrato é de Van Gogh), desconheceria ele, o Sr. H., tais exemplos de palimpséstico retrato? Se desconhece, não conhece, então, na Plaça Reial, o prazer do arroz negro, a derreter no céu da boca o sabor dos frutos do Mar Mediterrâneo. Vamos lá a ver se, realmente, ut pictura descriptio. Afasto-me do Sr. H. e ponho-me a contemplar seu rosto a certa distância, como se fosse um autorretrato impressionista cujas feições nítidas, as do Sr. José Saramago?, se escondessem sob a massa e o borrão míopes do pontilhado. Ponho-me a certa distância do Sr. H. e, ao contemplá-lo, lembra-me estar a contemplar, no Teatre Museu de Salvador Dali, “A imagem desaparece”. Tela em que, contemplada também a certa distância, cremos enxergar o perfil de um rosto masculino com longos cabelos negros escorridos, cavanhaque, feição que me lembra Búfalo Bill. Contudo, à medida que nos aproximamos (por isso volto neste exato momento a aproximar-me do Sr. H.), a figura desaparece e outra surge. Ledo e cego engano meu pensar que, ao aproximar- me correndo do Sr. H., haveria de surdir, delineada de sua imagem e feição, o Sr. José Saramago. Tem olhos e boca o Sr. H., (não se trata, afinal, de figura mostrenga), mas não tem bigode nem cavanhaque, masculinos adereços, fundamentais e distintivos, no retrato da “A imagem desaparece” de Salvador Dali e do Sr. José Saramago, frase ambígua apenas por faltar uma vírgula, de cuja ausência só agora me dou conta. Em “A imagem desaparece” (leia-se agora aqui com vírgula) de Salvador Dali, de seus olhos, boca, bigode e cavanhaque (quanta ambiguidade num autorretrato pintado por outrem!), delineia-se outra figura a de uma mulher, lendo uma carta, à luz de uma janela cuja cortina corrida é formada exatamente pelo longo e negro cabelo que, da ampla testa, escorre pela face esquerda do que parecera ser o perfil de Búfalo Bill. Duas imagens, sobrepostas, uma a engolfar a outra talvez como quisera o Sr. José Saramago ao autorretrtar-se pela pena e pincel do Sr. H., que me olha um tanto enfadado, sem entender por que eu, um mero lambe-lambe não obstante o pomposo nome Foto’Óptica F. Khom., não comprimo logo o botão dessa maquineta, posta sobre um tripé encapuzado numa sotaina marrom-franciscana. Ora lá, pois, pronto, pensará ele lusitanamente, custa lá tanto assim sacar-me uma foto que documente, ut pictura poesis, nos balcões burocráticos, minha imagem à imagem e semelhança, literariamente autobiográfica à Pessoa, do compadre de meu nascimento, o Zé Saramago? Mal sabe o Sr. H. (heterônimo-fernando-pessoano-auto-retrato do Sr. José Saramago?) que, minha imagem sumida sob o franciscano manto, está a enquadrar-lhe o rosto desaparecido, já não sei se ortônimo ou heterônimo o rosto de que pessoa. Mal sabe o Sr. H. (segredo-lhe aqui a velha novidade do Evangelho segundo quem quer que seja) que, outra Verônica, de minha encapuzada sotaina-fraciscana, vejo-lhe, de ponta-cabeça, a testa e face porejarem suor de sangue, gotas de DNA que vou colher nesta toalhinha que sempre uso para não deixar brilhante reflexo na imagem de quem quer que eu venha a plasmar na foto. Enxugo-lhe, cuidadosamente, a face para que permaneçam impressos na toalhinha os seus traços fisionômicos: do Sr. José Saramago no retrato que tiro de H., já que de uma autobiografia se trata esse Manual de pintura e caligrafia? Só sei que, sob o retrato do perfil masculino de “A imagem desaparece” de Salvador Dali (falhou-me outra vez a vírgula!), vai-se lobrigando uma mulher também vista de perfil: a cabeça, com um coque, formada pelo olho direito do homem; a curva do ombro, a espádua, o braço esquerdo estendido para frente como quem segura algo, tudo surdindo da curva adunca do nariz do homem, cuja grossa asa ainda lhe delineia um volumoso seio esquerdo; as mãos da mulher, nítidas, de longos dedos a segurar uma carta, nada mais são que o longo bigode do homem, de ponta levemente arqueada para cima; os longos fios do cavanhaque tecem-lhe uma saia que, descendo da cintura até a metade da coxa (o restante amputado pela moldura), lhe envelopam o ventre proeminente, abaulado, a sugerir uma gravidez. Imersa no perfil do homem (o pai de sua prenhez?), ei-la a rever-lhe mentalmente a imagem saudosa que se desprende da carta. Mas o tompe l´ oeil está a dizer-nos também outra imagem de macho e fêmea os criou, segundo a paixão da ausência presente na saudade. Atentando para o perfil pensativo do homem, nota-se que é do seu um tanto cabisbaixo olhar esquerdo, a um tempo ausente e fixo na distância, que começa a delinear-se a figura da mulher: primeiro sua cabeça (dela), pendida para a carta que lê, confunde-se ao globo ocular de (insisto em chamá-lo de) Búfalo Bill como imagem coagulada ei-lo a rever-lhe a apagada nuca, o occipício, a testa larga que avança (parece que raspada) até quase o meio da caixa occipital; depois, seu (dela) tronco e membro superior desenhados pelo adunco nariz dele, a sugar aroma que se desprende do colo e do seio túrgido; já a boca do amado, fechada de modo a que se vislumbrem os lábios superior e inferior, tece tácito discurso: o bigode, marta de pincel, percorre-lhe o braço numa longa carícia que chega aos dedos longos da amada, talvez uma tocadora de seiscentista virginal; o lábio inferior do amado contorna-lhe a cintura, delineando-a, abraçando a linha do ventre grávido e dos quadris um tanto chatos, pundonorosamente a vesti-los com a saia (de palha?) do cavanhaque louro-esfiapado. Côncavo e convexo, yng e yang, macho e fêmea, amador(a) e coisa amada desentranham-se da ausência, como lembrança e saudade. Sendo pintor, natural que o Sr. H. saiba que a tela de Dali dialoga com a “Mulher de azul lendo uma carta”, de Vermeer, modelo cuja autoria não me deixa enganar a presença do mapa na parede, do assoalho em quadriculado jogo-de-damas. Aliás, de damas entregues ao jogo amoroso de cartas bem que entendia Vermmer. Que me confirmem “A Carta de Amor”, a “Rapariga lendo uma carta à janela”. Não me esqueça aquela “Senhora escrevendo uma carta”, claro que suspeita ou Vermeer não a poria escrevendo à luz de um vitral onde se estampa a figura da Temperança, cujos esquadro e freio à mão simbolizam, um, a retidão, outro, óbvio, o travão às intemperanças seja de cama ou mesa. Não bastasse tanta lição de moral, essa Senhora correspondente ainda tem às suas costas um quadro que retrata a descoberta de Moisés, salvo das águas, quando criança, símbolo corrente no Seiscentos dos casos amorosos secretos cujo resultado caía na roda dos enjeitados. Correspondência, diga-se, a que não faltava a cumplicidade alcoviteira do leva e traz, como é dado ver em “A Senhora e a Criada” ou em a “Senhora escrevendo uma carta e a Sua Criada”. Já aquele outro quadro de Salvador Dali que me veio à memória ─ “Gala desnuda mirando o mar que, a uma distância de 20 metros, se transformano retrato de Abraão Lincoln” ─, ocioso é descrever o que o título desnuda em termos de imagem palimpséstica. Abrãao Lincoln não poderia imaginar tamanha homenagem. Qual Vênus de Botticelli, ter seu rosto surdindo do mar e da alvinitente concha da nudez de Gala. Tudo isso mentalmente escre(re)via, enquanto, apontando-lhe a armada Nikon posta no tripé, focava o rosto de H. sentado num banquinho (o rosto de H. sentado num banquinho e de ponta-cabeça faz juz ao surrrealismo de Dali), e lhe dizia cheese, incentivo para aquele sorriso alvar que fica bem em qualquer documento. Sorria. Você está sendo filmado dizia-lhe também, solidária, minha câmera de segurança. 3. Revelação em uma hora É a promessa que se estampa, em letras coloridas e garrafais, na vitrine da Fot’Óptica F. Khom., chamariz para quem tem pressa de eternidade. No comércio e na prestação de serviços, promessa, assim como duplicata, é dívida. Dentro de uma hora, H. tornará para buscar suas fotos. Ficará satisfeito ao rever-se à sua imagem e semelhança, enquadrado nos espelhos 3x4 e 5x7. Só eu não ficarei satisfeito. A máquina reveladora está a cuspir tiras com o rosto de H., mas ela não foi em uma hora, nem hora nenhuma, capaz de revelar, surdindo das feições do fotografado, a imagem e retrato do Sr. José Saramago. Decididamente esta máquina cuspidora de simulacros não tem o engenho pictórico de Salvador Dali, este prestidigitador cujo talento mimético, habilidoso em desentranhar uma imagem de outra imagem, foi também capaz de fazer surdir Flaubert, escondido no palimpsesto da sonorosa blague le Surréalisme c’est Moi! 4. Flaubert ce n’est pas moi Flaubert proclamou, quem não sabe?, “Bovary c’est moi”. Dalton Trevisan registrou em letras garrafais de título, quem o sabe?, Capitu sou eu. O Sr. H. não o disse, mas tacitamente em Manual de pintura e caligrafia, autobiográfico romance do Sr. José Saramago, lê-se “Saramago sou eu”. Pena que nesse mise en abîme intertextual não possa eu dizer Flaubert c’est moi. Não porque tal frase pudesse soar presunção de minha parte. Trata-se simplesmente de consciência de minha imperícia no trato e uso dos pincéis deste teclado de computador. Sete dias levei, os da bíblica criação, tentando, ut pictura descriptio, debuxar, delinear, traçar, desenhar, pintar, reproduzir, como se leu (visualizou?) linhas atrás, um quadro, de Salvador Dali, na presunção de que “A imagem desaparece”, como autorretrato- a-meio-corpo de outrem, funcionasse como raios infravermelhos, raios ultravioletas ou luz fosforescente para desvelar, sob o palimpsesto da desaparecida imagem de H., o retrato do Sr. José-Saramago inscrito em Manual de pintura e caligrafia como ele próprio confessa (quem? o Sr. H.? o Sr. José Saramago?). Não obstante à la page, up-to-date, afinal a Fot’Óptica F. Khom. está apetrechada com os mais modernos equipamentos, começo a deprimir-me com a ideia de que não sou capaz de traçar, criticamente, caracteres literário-autobiográficos. Meu manual de caligrafia não traz o cursivo de Flaubert que, de sobrolho cerrado, me fita do retrato na parede, dependurado à frente desta mesa em que escrevo. As pontas curvadas de seu espesso bigode mais parecem dois pincéis de pelo de marta (não obstante Luise Collet se chamasse sua platônica amada). Na branca tela de meu inconsciente (tabula rasa?), movem-se os pincéis- pelo-de-marta das pontas de seu bigode a grafar, em elegante cursivo, a seguinte mensagem: Palavras são tintas na paleta, à espera da pena, que semelha o pincel. Com a mistura das tintas, que são as palavras, pode-se debuxar, de forma mais ou menos nítida, dependendo da arte e do engenho, qualquer coisa encontrável na Natureza, seja ela agradável ou repugnante à ética e/ou aos sentidos. Com o recurso do substantivo, que é o traço mais ou menos vigoroso; com o concurso da cor, que é o adjetivo; com o discurso do verbo, que é o movimento ou ação que se insufla na imagem; com o sincopado das pinceladas, que é a pontuação , tudo se pode pintar, ao escrever ou descrever, transformando a poesia e a narração em pintura. Ut pictura poesis, diziam os clássicos, Simônides à frente, Horácio em seguida, empós Antônio Ferreira, o literário autorretrato português de Horácio. Queres mais exemplos pictórico-poéticos ou poético-pictóricos do velho símile “como a poesia, a pintura, como a pintura, a poesia”? Vá a outros e mais antigos manuais de pintura caligráfica ou de caligrafia pictórica. Leia Francisco de Holanda, do século XVI. Ou Manuel (quase disse Manual) Pires de Almeida, cujo manuscrito intitulado “Poesia e Pintura ou Pintura e Poesia” mostrará que tantas são as semelhanças entre a Pintura e a Poesia, que à Pintura chamaram Simônides, Plutarco e outros, tomando-o de Platão, poesia muda, e à poesia, pintura que fala. Ao cabo, glosas tão parafrásicas na semelhança, que os comentadores parece se autorretratarem um no outro. Autorretrato em outrem não é o teu problema? Pois durma com uma adivinha dessa. Boas noites. Que fazer, se não apagar a luz, pôr-me no berço e despertar o inconsciente, insone e operosa formiga. 5. Primeiro exercício de cópia parafrásica Acordei cedo. Modo de dizer. Em verdade, dormi mal pois mal dormi, círculo vicioso das tenebrosas noites em claro que (Eureca!) consegui, ut pictura descriptio, debuxar com o palíndromo “dormi mal pois mal dormi”. A insone formiga do inconsciente insistia, trabalhando, em despertar a cigarra desta fábula (ou será apólogo?). Enquanto me barbeava (vou à liça diária de cara limpa), olhava meu autorretrato no espelho e vi-me (o que não faz a alerta e diligente memória do inconsciente?), vi-me inscrito em linhas e páginas do Manual de pintura e caligrafia. Autorretratado em quem, atento leitor, Em H., claro está, que, fiel leitor do Sr. José Saramago, acostumado a tais artes e manhas, Quem acostumado a tais artes e manhas, o fiel leitor ou o Sr. José Saramago, Engraçadinho, o fato é que, acostumado a ler o Sr. José Saramago, não me vais pegar a dormir no ponto da falta de sinais de interrogação, reticências, exclamação, dois pontos ou travessão. Exatamente, experto leitor. Vi-me H., autorretratado nas linhas que lhe traçavam a obsessão de descobrir quem o verdadeiro ser do outro. Ali estava eu, nas linhas das páginas 20-21 e 61 de Manual de pintura e caligrafia, debuxado à imagem e semelhança de H.: “O meu trabalho vai agora ser outro: o de descobrir tudo na vida de S. e tudo relatar por escrito, distinguir entre o que é verdade de dentro e pele luzidia, entre a essência e a fossa, entre a unha tratada e a apara caída da mesma unha, entre a pupila azul-baço e a secreção seca que o espelho matinal denuncia no canto do olho. Separar, dividir, confrontar, compreender. Perceber. [...] Quando assento o aparo na curva interrompida de uma letra, de uma palavra, de uma frase, quando prossigo dois milímetros adiante de um ponto final, limito-me a prosseguir um movimento que vem de trás: este desenho é, ao mesmo tempo, o código e a decifração. Mas código e decifração de quê? Dos factos e da personalidade de S., ou de mim próprio? Quando resolvi começar este trabalho, julgo tê-lo feito [...] para descobrir a verdade de S. Ora que sei eu disso, da chamada verdade de S.? Quem é S. (esse)? Que é a verdade?, perguntou Pilatos. Que é, repito, a verdade de S.?” Se, onde apareceu grafado S., o leitor puser antes do S um J, substituindo, pois, esse S. por J.S., verá no esforço e obsessão desse H. o autorretrato do meu esforço e obsessão nestas linhas. H. deseja descobrir, sob a epiderme de S., o verdadeiro ser de seu modelo. Eu esforço-me por desvelar, sob a epiderme desse H., a vera-efígie de um J.S. que se confessa autobiografado ou autorretratado nesse H.: imagem que aqui, à Dali, começa a desapar-e- ser. 6. Segundo o exercício de cópia H. cita, às páginas 66-68de seu Manual de pintura e caligrafia, Francisco de Holanda, transcrevendo pequeno trecho dos “Diálogos de Roma” (segunda parte de Da Pintura Antigua), de onde destaco resposta de Messer Lactâncio Tollomei a Miguel Angelo: “E porventura com as vossas grandes imaginações não tereis tanto, como eu tenho, tentado na grande conformidade que têm as letras com a pintura (que a pintura com as letras, sim tereis); nem como são tão legítimas irmãs estas duas ciências que, apartada uma da outra, nenhuma delas fica perfeita, ainda que o presente tempo parece que as tem nalguma maneira separadas. [...] E daqui vem, senhor M. Ângelo, chamardes vós às vezes a um grande letrado ou pregador, discreto pintor, e ao grande debuxador chamais letrado”. Já a respeito de Francisco de Holanda copio o seguinte, colhido em Massaud Moisés, As Estéticas Literárias em Portugal - séculos XIV a XVIII (Lisboa: Caminho, 1997, p. 82): “Nascido [Francisco de Holanda] em 1517 ou 1518, refez a trajectória de Sá de Miranda, viajando para a Itália com cerca de vinte anos, onde se demorou por três anos, no estimulante convívio de Miguel Ângelo e outras figuras do Renascimento peninsular. Em 1548 ou 1549, redigiu Da Pintura Antigua, no qual retrata a sua fascinante experiência romana. Em meio da segunda parte da obra, denominada “Diálogos de Roma”, emergem, como fruto natural de se confrontarem interlocutores eruditos e brilhantes, questões ligadas ao ideal clássico. [...] Incumbido de recolher documentos portugueses existentes nas bibliotecas de Madrid e do Escorial, Joaquim José Ferreira Gordo encontrou, nos fins do século XVII, o manuscrito de Da Pintura Antiga. E dele fez cópia, que depositou na Academia de Ciências de Lisboa, não sem antes relatar com minúcias os passos de sua missão ao estrangeiro, num memorial que se publicou em 1792. Mas foi preciso esperar um século para que a obra escrita de Francisco de Holanda viesse a público, graças a Joaquim de Vasconcelos. Em 1890-1892, saem as duas partes de Da Pintura Antiga, no semanário A Vida Moderna, do Porto. E em 1896, reproduzia-se na mesma cidade, em tiragem de 100 exemplares.” Copio não só para melhorar a caligrafia do estilo, mas para ilustração do leitor e sobretudo minha. Parafraseando o Sr. José Saramago, assentarei que copiar é olhar, ver, reparar. Como se estivéssemos diante de um quadro que atrai nossa vista para que lhe deitemos um olhar atento, que já é ver, levando-nos, atenção desperta, a reparar em seus significados.15 O que transcrevi de ou a propósito de Da Pintura Antiga figura aqui o quadro. Enquanto copiava, meu olhar passou a ver o que me escapara à primeira vista, levando-me a atentar numa antiga pintura que ali se delineava. Toda citação é voz alheia que fazemos nossa, é caligrafia alheia que subscrevemos como nossa, é identificação com o outro. Ao citar, ou transcrever, H. está apropriando-se de um discurso de Francisco de Holanda que, por sua vez, se apropria da voz e pensamento de um tal Messer Lactâncio Tollomei. Parecenças vislumbram-se, pois, entre H. e Francisco de Holanda e Messer Lactâncio Tollomei. Bem vistas as feições, um autorretrato do outro nessa colagem de citações. H., à imagem e semelhança do pintor e arquiteto Francisco de Holanda, foi viajor pela Itália, estimulante convívio com outros pintores e escultores do Renascimento. Não 15. À minha amiga Dra Legenda Vaz Est agradeço o empréstimo da revista Ler, número 6, Primavera de 1989, p. 16, de onde extraio a seguinte declaração do Sr. José Saramago: “Neste livro, na História do cerco de Lisboa, faço uma distinção entre olhar, ver e reparar. Eu penso que são três níveis de atenção: olhar, que é a mera função; ver, que é um olhar atento; e reparar, que é já uma atenção a uma dada coisa ou a um dado importa que, na crônica de viagem de H., as figuras de tais criadores surjam, palimpsesticamente ou vicariamente, sob outras figuras, enquadradas em telas ou petrificadas em estátuas. Lembre-se o que disse H.: o retrato do Dr. Gachet é autorretrato de Van Gogh. Logo, na óptica de H., mesmo a imagem do outro pode ser autorretrato de quem retrata. Desse prisma, a imagem de Francisco de Holanda, a calcorrear a Itália e privar com figuras do Renascimento, é autorretrato de H.. Um relato ou crônica de viagem constitui outro gênero que não autobiografia. Contudo H. considera suas narrativas de viagem à Itália como exercícios de autobiografia. Desta perspectiva, H. se vê autorretratado em Francisco de Holanda que, por seu turno, se autorretrata em Messer Tollomei, formulando questões (quem? H.? Tollomei?) em torno da semelhança entre pintura e poesia para proeminente figura do Renascimento, simplesmente Miguel Ângelo. Cuidado, leitor, não vá falsear o pé e precipitar-se nesse mise en abyme de semelhanças. Se tudo isso lhe parece confuso, debite a confusão não à minha imperícia de fotógrafo lambe-lambe às voltas com outra arte de retratos que é a Literatura, mas ao jogo de espelhos que o exercício da cópia propicia: H. autorretratado em Francisco de Holanda autorretratado em Messer Lactâncio Tollomei. À imagem e semelhança de Francisco-de-Holanda-Messer-Lactâncio-Tollomei em Da Pintura Antiga, H. glosa, sob a antiquíssima rubrica ut pictura poesis, tópicos que sempre preocuparam os ditos clássicos, de greco-romanos a setecentistas. (Copio de Poesia e Pintura ou Pintura e Poesia, tratado seiscentista de Manuel Pires de Almeida: “Grandes são as proporções, grandes as semelhanças, concordâncias, ou simpatias, que têm a tinta, e a cor, a pena, e o pincel... [...] E tanto se parecem entre si que escassamente se vê sua diversidade... [...] Simbolizam entre si como irmãs gêmeas, e parecem-se tanto, que quando se escreve se pinta, e quando se pinta se escreve.” 16) Subscrevendo Francisco-de-Holanda-Messer-Lactâncio-Tollomei (e Manuel Pires de Almeida), H. vai empenhar-se em demonstrar a “grande conformidade que têm as letras com a pintura”, apresentando as semelhanças, que repara no que outros já viram, entre a pintura e a poesia: fenómeno passamos a reparar naquilo que só tínhamos visto, a ver aquilo que só tínhamos olhado.” à página 13, dirá que as palavras são “mais duras que os pincéis, mais iguais na cor do que as tintas”; à página 54, confessa brincar “com as palavras como se usasse as cores e as misturasse ainda na paleta”; à página 61, estabelecerá o símile papel/escrita = desenho novo; à página 97, constatará “que as diferenças não são muitas entre palavras que às vezes são tintas, e as tintas que não conseguem resistir ao desejo de quererem ser palavras”; à página 134 redescobrirá que “um verbo é uma cor, um substantivo um traço”; à p. 269, H.[omem] inspirado pelo amor de M.[ulher], tomado por que outras Illuminations?, não chegará a atribuir novas cores às vogais de Rimbaud, mas desvelará figuras e imagens inscritas na pele e memória hieroglífica das letras: “ ‘Meu amor’. Repetir estas duas palavras durante dez páginas, escrevê-las ininterruptamente, sem descanso, sem nenhuma clareira, primeiro devagar, letra a letra, desenhando as três colinas do m manuscrito, o laço frouxo do e como braços repousando, o profundo leito de rio que na letra u se cava, e depois o espanto ou grito do a sobre agora as ondas marinhas do outro m, o o que só pode ser este único e nosso sol, e enfim o r feito casa, ou telheiro, ou dossel.” Ressurjo à superfície das considerações e símiles de H. com o gosto do déjà vu no déjà lu e do déjà lu no déjà vu. Afinal, conforme se pode verificar mesmo a um simples olhar, nada de novo H. reparou no que outros viram a respeito do ut pictura poesis. A calcorrearmuseus e igrejas e capelas da renascentista Itália, como outro Francisco de Holanda e à imagem e semelhança de Messer Lactâncio Tollomei, H. propõe e desenvolve questões velhíssimas na não menos velhíssima fórmula do metarromance. Como se tudo isso tivesse sido visto pela primeira e inédita vez: técnica do trompe l’oeil que há de caracterizar os futuros romances desse S.[enhor] (autorretratado em H.?) José Saramago 17. 7. Lição de anatomia “Um pincel, senhores, [...] um pincel é assim como um bisturi. Não é um bisturi, mas assim como um bisturi.” É a lição ou aula de anatomia que apre(e)ndida em Rembrandt? , H. nos ministra à página 273. Apre(e)ndida ou não em Rembrandt, sirva- nos com tudo (e não contudo) a lição. 16. Manuel Pires de Almeida - Poesia e Pintura ou Pintura e Poesia, SP: FAPESP/EDUSP, 2002, p. 69. 17. Declaração do Sr. José Saramago em Ler, número 6, Primavera de 1989, p. 15: “Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, como tudo o que hoje fazemos, salvo raras exceções, já foi feito há muito tempo, antes de nós. Tudo é assim na vida. Mas aquilo que talvez distinga os meus livros é o facto de parecer que eu Não sei por que o símile “assim como um bisturi é o pincel” trouxe-me, por associação de ideias gestadas no inconsciente, Rembrandt e os seus retratos de figurões da burguesia. Claro que bisturi lembra cirurgias, dissecações, e quem, com alguma memória pictórica, não se recordaria das lições de anatomia (psicológica?) de Rembrandt reminiscências de que platônica caverna? Impossibilitado de ir a Amsterdam e ver in loco os acervos do Mauritshuis e do Rijksmuseum, prosaicamente visito meu álbum de reproduções de Rembrandt Harmens van Hijn, nascido sob o signo de Câncer, em 15 de julho de 1606 e falecido em 4 de outubro de 1669, amargando as reviravoltas da inexplicável Fortuna, que tragicamente o despenhou da glória e riqueza, rapinando em hasta pública seus bens e, o que é humilhante, seu talento. Leio-lhe a biografia e copio que seus quadros “são retratos psicológicos, magníficos, de uma beleza deslumbrante, de uma perspicácia assustadora realmente assustadora para quem neles se via retratado. [...] Ele parece surpreender os cavalheiros em plena atividade, parece fotografá-los séculos antes da invenção da fotografia.” De algum modo, a cópia sempre é uma aprendizagem caligráfica. Acho agora que entendo por que a caverna platônica de meu inconsciente trouxe à luz reminiscências tanto da lição como da aula de anatomia de Rembrandt. Um lambe-lambe era ele, antes da invenção de kodaks e nikkons. Um cirurgião de almas, a manejar o pincel de seu olho- bisturi. Rembrandt o tácito e inatingível paradigma de H., esse retratista de Ss., figurões do regime S.[alazarista]? Seja “Lição de Anatomia do Dr. Tulp” ou “Aula de Anatomia do Dr. Joan Dreyman”, o decrépito símile bisturi = pincel ainda se presta à Pintura, uma vez que o pincel não foi de todo demitido ou aposentado pela fotografia ou computação gráfica. Já anacrônico e absolutamente fora de moda seria eu dizer, na toada dos realistas e naturalistas oitocentistas, que em Literatura a pena é “assim como um bisturi”. A não ser que, trompe l’oeil, parecendo que estou a lançar um olhar inaugural e inédito, eu venha a inocular surpresa naquilo que, não obstante déjà vu no déjà lu, parece estar sendo visto pela primeira vez. Título: Primeira “Lição de Anatomia” à Dr. Tulp-Rembrandt. Para que o quadro olho as coisas pela primeira vez e poder, assim, traduzir a surpresa daquilo que é visto pela primeira vez.” desta minha “Lição de Anatomia” à Dr. Tulp-Rembrandt se complete, é preciso que pelo menos quatro leitores me emprestem um olhar de abismada atenção. Ex cathedra, com o polegar colado ao índice da mão esquerda, tal qual Dr. Tulp, vou pontuando o que reparo na dissecação de H., exumado de seu Manual de pintura e caligrafia por procuração literária, em busca do DNA de um romancista cognominado José Saramago no Registro Civil da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores). “Lição de Anatomia”, à Dr. Tulp-Rembrandt, com a mão direita a segurar a pena “assim como um bisturi”, disseco desse H.[omem] o texto. Levanto-lhe pele e carnes, exponho nervos e tendões dos dedos ao cotovelo de seu braço esquerdo. O sinistro braço da Comuna, dirão insepultos S.[alazaristas], lembrados de que Manual de pintura e caligrafia, saído em 1977, traduz manifesto, não obstante fora de época, engajamento à resistência nas figuras de M.[ulher, maiúscula, sim senhor!], seu pai e irmão Antônio. Como (todos?) sabem, passado em 1973, nos estertores do Salazarismo, e culminando com a queda do regime em 25 de abril de 1974, o metarromance de H., sob a legenda ut pictura poesis, é um romance de aprendizagem e renascimento. Aprendizagem de H., esse (S.?) pintor de naturezas mortas, tomando consciência de sua alienação, homenagem e sagração do S.[alazarismo] enquanto retratista anestesiado e alheado às expensas da alta burguesia apoiadora do Fascismo. Renascimento de H. ao sair das trevas medievais da vassalagem e feudal servidão ao S.[alazarismo] para a condição antropocêntrica de H.[omem, com maiúscula] fautor da H.[istória]. Sob a rubrica de “exercícios de autobiografia em forma de narrativa de viagem”, cinco capítulos (11, 14, 17, 21 e 24) de Manual de pintura e caligrafia, dedicados às andanças de H. pela Itália renascentista, guardam um sentido simbólico: ao sol, luz e bênçãos do Renascimento, H. há de renascer H.[omem], completude do nome que tem, não do que lhe deram. Título: Segunda “Aula de Anatomia” à Dr. Joan-Deyman-Rembrandt. Por metonímia, dissecar Manual de pintura e caligrafia é o mesmo que autopsiar H., aqui estendido na mesa, a lembrar (repare-se) a composição do Cristo Morto, de Mantegna. Saltando logo aos olhos de quem olhar o quadro de Rembrandt pelo olho de minha câmera, veem-se os pés, cujas plantas, segundo a técnica do escorço, (reparem) dão a ilusão de que se projetam para fora da tela, como a querer expulsar-nos ou impedir-nos de adentrar os segredos da dissecação. Contudo nosso olhar forçosamente caminha de seus pés para o ventre, esviscerada caverna, e daí para a caixa torácica que em seguida nos leva ao rosto sereno, de um belo adormecido, quase sem testa, de modo que logo passamos à cabeça, cujo cérebro vai sendo examinado, impressão temos de que vai sendo penteado, em delicados gestos de haute coiffeur, pelo Dr. Joan-Deyman-Rembrandt, assistido à direita por um aluno, em cuja atenção posuda logo reparamos: dorso da mão direita apoiado nos quadris, (vejam-se-lhe), palma e dedos nítidos noutro escorço (repare-se), sequiosos por invadir o espaço cá fora que nos enquadra; já a mão canhota, sinistra, segura uma vasilha onde recolherá os ensinamentos desta aula de anatomia. 8. A vasilha do aluno do Dr. Tulp-Joan-Deyman-Rembrandt “Via Manual de pintura e caligrafia, creio ter-se esventrado esse H. metonimicamente. Olhe-se, veja-se e repare-se. “No romance, H. irá pintar um segundo quadro de S., buscando, conforme se lê às páginas 12, 68-69, devassar-lhe o espírito, a alma, o coração, o cérebro. Enfim, as tripas, o por dentro, tentando responder à pergunta quem é esse S. Desforra de sua subalterna condição de retratista desses Ss. (Schutz-Staffel?) do Salazarismo, repinta-o com raiva. (Releiam-se, a propósito, pp. 49-50 do romance.) “Nestas notas de lição e aula de anatomia, registro a dissecação do braço esquerdo e do cérebro desse H., tentativa de esvisceração de sua alma e espírito.Enfim, das vísceras- coração de seu por dentro. “Nenhum tremor noto nos delicados gestos cirúrgicos de haute coiffeur do Dr. Tulp- Joan-Deyman-Rembrandt, que vai exercendo seu ofício sem descabelamentos de raiva. Nenhum motivo tem ele, o doutor, para desforrar-se ou alforriar-se desse H. Busca-se apenas responder à pergunta: quem é, verdadeiramente, realmente, esse H., que, por ser, confessamente, pseudônimo autor de um romance autobiográfico, esconde e disfarça o ortônimo de outra (outro?) pessoa. “Primeiro, em “Lição de Anatomia”, à Dr. Tulp-Rembrandt, sob os nervos e tendões do braço esquerdo, descobriu-se a veia, esclerosadamente neorrealista, do engajamento político de Manual de pintura e caligrafia. O romance, saído em 1977, deita, com três anos de atraso, cravos murchos no panteão do 25 de abril de 1974. Póstuma homenagem à morte da alienação desse H. e seu renascimento como H[omem] na hora h. (Não me perguntem como de futuras horas sabe o Dr. Tulp-Rembrandt. Sei apenas que, em segredo, trava relações e experiências alquímicas...) “Segundo, em “Aula de Anatomia”, dissecou-se-lhe a caixa encefálica. Especial atenção dedicou o Dr. Joan-Deyman-Rembrandt ao lado direito do cérebro desse H. Quase ipsis verbis, parafrásico como deve ser todo atento aluno e copista, reproduzo os saberes e dizeres (alquímico-proféticos) do Dr. Joan-Deyman-Rembrandt que está a ditar-nos “ que sabido será, séculos mais tarde, que no lado direito do cérebro repousam as funções criativa e visual. Criativamente visual ou visualmente criativo, procurou ser esse H.[omem], ao desenvolver em seu Manual de pintura e caligrafia o velhíssimo tópico ut pictura poesis. Intertextualidade será o nome dado pela posteridade a esse diálogo (há séculos conhecido) de um texto com textos alheios. E parafrásica, dir-se-á, é a intertextualidade que, noutra ou doutra disfarçada forma, reproduz o conteúdo dos modelos com que dialoga. Repare-se que as reflexões desse H.[omem] sobre as semelhanças e parecenças entre pintura e literatura são palimpsestos de quantos (Simônides, Horácio, Francisco de Holanda Antônio Ferreira, Manuel Pires de Almeida) trataram do topos ut pictura poesis, ou seja, como a pintura é a poesia. Portanto, caligrafia e pensamento alheios, depositados no lado direito do cérebro desse H.[omem], à tona vieram e com a mão esquerda, que há pouco se dissecou, foram laboriosamente copiados, com floreios de novidade, à flor da tela branca tabula rasa da virginal percepção de quantos leitores? do Manual de pintura e caligrafia. Trompe l’oeil chama-se essa técnica de engano perceptivo-visual: Maniera pós-modernamente barroca de iludir-nos com a impressão da mais última novidade. Tenho dito.” “Quase ipsis verbis, parafrásico como deve ser todo atento aluno e copista, reproduzo neste manual, com a melhor pintura de minha caligrafia, o conteúdo da lição e aula de anatomia do Dr. Tulp-Joan-Deyman-Rembrandt, que, não obstante tenha dito aquele Tenho dito, ainda não tinha dito tudo, pois, lavadas as mãos, dirigia-se para a saída do anfiteatro quando, de repente, parou e, voltando-se para nós, concluiu teatralmente “Dissecados o braço esquerdo e o lado direito do cérebro, ei-lo, esse H. (Ecce Homo?) renascido H.[omem] de suas vísceras de papel Páscoa de outra ressurreição. Antecipada e prefigurada nesta sua posição de Cristo Morto, à Mantegna?” 9. Auto de natal Subtítulo: A certidão de renascimento do romancista José Saramago. Entende-se seja autobiográfico o romance. Sob o autorretrato de H., o retrato do Sr. José Saramago. Ao cabo, um auto de natal esse Manual de pintura e caligrafia. Auto, em primeiro lugar, porque teatralmente se esconde, sob o pseudônimo e persona de esse H. narrador e retratista, a figura, o retrato, de um Autor. Truísmo consabido, assente em qualquer manual de teoria literária, mas que nesse romance se alça a motivo da criação, ao assentar o Sr. José Saramago, autor desse narrador H., que se trata de seu “livro mais autobiográfico”. (Reveja-se nota 13.) Auto, em segundo lugar, porque peças de um processo e registro escrito dos atos de um ser que se vai processando à procura de conhecer-se, descobrir-se. Donde tratar-se também de “um livro de aprendizagem”, de H., anônima e criptográfica inicial, à completude de ser H.[omem]. E auto de Natal, porque tratará de um nascimento. Corrigindo, a tempo: de um Renascimento. Com maiúscula passe. Seja por seu significado epocal e cultural, seja pelo futuro sucesso literário do Autor que está a renascer. Quando, onde e como renascerá romancista urbi et orbi esse S[enhor], de nome S[aramago], vindo a lume, enquanto cidadão, em 16 de novembro de 1922. A tal pergunta nos convida Manual de pintura e caligrafia (1977), 30 anos passados de angustioso silêncio narrativo-ficcional imposto pelo falhanço do romance com que estreara Terra do pecado (1947). Antes de Manual de pintura e caligrafia quem era esse S[enhor] S[aramago]? Um autor à procura de sua verdadeira vocação e talento. Melhor dizer, um autor à procura de si mesmo. Pois foi à procura de si mesmo que escreveu seu punhado de versos (Os poemas possíveis, 1966; Provavelmente alegria, 1970; O ano de 1993, 1975), confessionais, autobiografias da alma, do seu por dentro, na medida em que (romanticamente?) tenta explicar-se, revelar-se quem é.18 E foi ainda à procura de si mesmo que, n’A Capital, no Jornal do Fundão, no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias se dedicou ao exercício da 18. “Devo dizer que me foi fácil fazer versos naquela altura: saíam com relativa facilidade, como poesias sinceras, de uma grande autenticidade, embora seja legítimo perguntar o que é que a autenticidade tem que ver com a poesia. Estava ali a tentar explicar-se uma pessoa: creio, aliás, que foi sempre essa a minha grande questão. Mesmo aí, nessa poesia, tratava-se menos de uma aventura poética do que do começo de uma tentativa, que se prolongou até hoje, de dizer ou de encontrar suficientes razões para eu dizer quem sou.” Diálogos com José Saramago, p. 110. crônica (Deste mundo e do outro, 1971; A bagagem do viajante, 1973; As opiniões que o D.L. teve, 1974; Os apontamentos, 1976): “acho que, para entender aquele que eu sou, há que ir às crónicas. As crónicas dizem tudo (e provavelmente mais do que a obra que veio depois) aquilo que eu sou como pessoa, como sensibilidade, como percepção das coisas, como entendimento do mundo: tudo isto está nas crónicas.” (É a confissão que se lê à página 42 de Diálogos com Saramago). Manual de pintura e caligrafia não haveria de fugir a esse diapasão “autobiográfico”, a ressoar insistentemente de 1966 a 1976, consideradas as datas de publicação de seus livros de poesia e crônica. Compreensível agora, por outro ângulo e a nova luz, que esse romance seja, como ele próprio confessa, “talvez o meu livro mais autobiográfico”. O esforço de H. em dissecar e captar o por dentro de S. corresponde, especularmente, ao esforço desse duplo e outro esse S[enhor] S[aramago] escondendo-se para descobrir-se (p. 106), velando para revelar-se, à procura de si mesmo (procurem-se as aspas desta citação parafrásica às páginas 140 e 221) nessa “autobiografia dissimulada”. Por esta perspectiva, entende-se que, na óptica do narrador, “tudo é biografia, ou melhor, autobiografia”, conforme se lê à página 116 e se relê, noutros termos, à página 169. Apenas mais um dentre os milhões de poetas que houve e há urbi et orbi; simplesmente um cronista a mais escondido em páginas diárias ou hebdomadárias, fadado a amarelecer ou dispersar-se no olvido do tempo, esse outro e duplo S., o S[enhor] S[aramago], ensaia o milagre da ressurreição nesse auto de natal que é Manual de pintura e caligrafia. Nada mais natural e revelador que, em sua primeira edição, o livrotraga como subtítulo “Ensaio de Romance”. Afinal, estava o Autor, nado-morto em Terra do pecado, a ensaiar sua ressurreição como romancista. (O subtítulo foi retirado a partir da segunda edição. Compreensível providência, pois, aquando da reedição do Manual de pintura e caligrafia, tendo já escrito outros romances (Levantado do chão, Memorial do Convento, O ano da morte de Ricardo Reis), não estava mais o Autor a ensaiar-se no romance ou como romancista 19.) 19 Ver, a propósito, Diálogos com José Saramago, pp. 139-140. 10. Renascimento. Sob a égide do Classicismo. Em Manual de pintura e caligrafia, ao jornadear pela Itália renascentista, sabia-o H., à medida em que se desvelava e descobria, que Renascimento, a rigor e a caráter, só sob o clássico modelito greco-latino? Talvez. Inconsciente e intuitivamente. Insights. Como agora os tenho. A fotografar páginas que cito e recito do Manual de pintura e caligrafia e dos Diálogos com José Saramago. Eu à procura de que ou de quem? Pergunta retórica, tão ao gosto da eloquência dita clássica. Quem ainda continua a ler-me, sabe muito bem à demanda de que ou de quem estou, ao colher esse sangue, procurando determinar, mais que o RH, o DNA literário de um Autor. À Dali, procurei imagens de quem desaparece ser, sobre Ser. À Rembrandt, em lição e aula de anotomia, fazendo uso do lado direito, criativo-visual, de meu cérebro, procurei dissecar e esviscerar o Ser H.[omem]) de quem parece ser. 20h31, do dia 18 de dezembro de 2003. Estou prestes a fechar a Fot’Óptica F. Khom., saídos os funcionários. Estou a despedir-me da última cliente. Um belíssimo exemplar, aliás, de M.. Quem acaso me tivesse visto a fatografá-la, sessão de poses a lembrar o Blow Up de Antonioni, logo deduziria, se não fosse de todo desatento, que essa M.[ulher, com o devido maiúsculo], lindamente alienada, aqui veio para que lhe prepare um book. Sonha com o futuro de top model. Sem desdenhar, contudo, convites para posar nua e deslumbrar páginas de revistas masculinas ou calendários de oficinas e borracharias. 22h36. Já em casa, recomeço por assentar, neste meu manual de pintura e caligrafia alheias, que Renascimento, a rigor, só em trajes clássicos. Ora, se de Renascimento e maniera aqui se vem tratando, natural que ambos o sejam sob o signo do Classicismo. Em seus exercícios de cópia, para afinar a caligrafia literária, H. (re)cita, à página 96, Yourcenar: “O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que pela primeira vez se lança um olhar inteligente sobre si mesmo.” Manual de pintura e caligrafia é o lugar de nascimento em verdade e a rigor, renascimento de um Autor. Se Manual de pintura e caligrafia, autodiegese debitada a H., é autobiográfico, esse narrador H. será platônico simulacro de um Autor, cujo S (“Ser”, ora, é elementar, meu caro Watson) vem revelado à luz garrafal das letras da capa: Saramago. Logo, a lógica do silogismo impõe-me a pergunta: Manual de pintura e caligrafia é o verdadeiro lugar de (re)nascimento de um Autor, o Sr. José Saramago, que pela primeira vez lança um olhar inteligente sobre si mesmo enquanto ficcionista? Nado-morto em Terra do pecado, o Sr. José Saramago vem a renascer, pois, em Manual de pintura e caligrafia. E bem a caráter, ou de Renascimento não se trataria, a glosar tópicos do Classicismo. A começar, evoluir e terminar, como vimos, pelo batido e debatido ut pictura poesis cerne de sua metarromanesca perquirição acerca da arte e criação literárias. A prosseguir, perguntando-se, a páginas tantas (p. 40), “sobre a controversa questão das vocações (nasce-se artista, ou vai-se para artista? a arte é mistério inefável ou meticulosa aprendizagem? )” indagação, de passagem se diga, que também já se fizera Horácio, em sua Arte Poética: “Há quem discuta se o bom poema vem da arte se da natureza: cá por mim, nenhuma arte vejo sem rica intuição e tão-pouco serve o engenho sem ser trabalhado: cada uma destas qualidades se completa com as outras e amigavelmente devem todas cooperar.”, conforme copio da página 117 de uma edição bilíngue que consulto, da Livraria Clássica Editora, Lisboa, s/d. Tão controversa essa clássica questão de arte ou talento que vai retomá-la o quinhentista Antônio Ferreira, na “Carta XII a Diogo Bernardes”: “Questão foi já de muitos disputada/ S’obra em verso arte mais, se a natureza? Uma sem outra val ou pouco, ou nada.” (Alto lá, senhores. Nada de lapidar, sob a acusação de plagiário, o Sr. Antônio Ferreira. Versão portuguesa da epístola de Horácio é sua “Carta XII a Diogo Bernardes”. Logo, não se acanharia o espartano teórico e divulgador do aticismo clássico em terras lusas em reproduzir quase ipsis verbis os ensinamentos de Horácio, esse “grave censor das musas” pois preceito e de rigor era, nas eras do Classicismo, o diálogo intertextual- parafrásico com modelos, alçados a paradigmas do bem pensar e escrever.) Ai, a voragem do mise en abyme intertextual e do vórtice da paixão que entrevia ao fotografar M. à Blow Up, relembre-se, de Antonioni. Cada vez mais fundo, num e noutro caso, somos atraídos... Isso era o que eu pensava, enquanto, pouco a pouco, desnudava minha lindamente alienada M. aos olhos de quem viesse a vê-la, fosse como top model, fosse como colírio de revistas masculinas ou de calendários em oficinas e borracharias e... trocas-de-óleo... E o olho de minha câmera revia, na artificial espontaneidade de suas poses, inscrever-se a imagem palimpséstica de mais um tópico clássico que o renascido autor Sr. José Saramago subscrevia. Claro que acerca do artificialismo e espontaneidade na (re)criação de que book seja: o tópico do limae labor et mora (que, ressuscitando da morta língua, significa o trabalho artesanal do texto ajudado pelo amadurecimento artístico- censório do Tempo.) À página 127 do Manual de pintura e caligrafia, ao ponderar sobre a gala que mais apropriadamente reveste a elocução, natural espontaneidade ou artesanal artifício (“Se assim é, grandes desconfianças merece a espontaneidade, e trabalhados louvores mereceria o artifício, esse portanto arte...”), ei-lo, o Sr. José Saramago, a subscrever, com o parafrásico recurso de outros termos tradutórios, receita de Antônio Ferreira, que assim se lê naquela suprarreferida “Carta XII a Diogo Bernardes: “Mas eu tomaria antes a dureza/ Daquele [verso], que o trabalho, e arte abrandou/ Que destouro a corrente e vã presteza [...] Necessário é, confesso, o artifício:/ Não afeitado; empece a tenra planta/ o muito mimo, o muito benefício.” Metalinguísticamente a escrever e pensar sobre o quê e como escreve, o Sr. José Saramago vai lançando sobre seu renascimento como romancista o olhar inteligente de quantos, séculos atrás, pensaram a arte do bem escrever. “Scribendi recte sapere est et principium et fons: Ser sabedor é o princípio e a fonte do bem escrever.”, preceitua Horácio, na já referida Arte Poética. E glosa-o Antônio Ferreira, na também já aqui citada “Carta XII a Diogo Bernardes”, ao subscrever que “Do bom escrever, saber primeiro é fonte./ Enriquece a memória de doutrina/ Do que um cante, outro ensine, outro te conte.” Princípios clássicos, a ensinarem o diuturno estudo e exercício dos bons modelos, como dirá Correia Garção no século XVIII , adota-os o Sr. José Saramago, enriquecendo suas reflexões metarromanescas com a memória da doutrina alheia. A lembrar-nos inclusive, como já o ensinara Aristóteles, que a literatura, assim como a pintura, é mimese e, mais, meios de conhecimento da realidade seja interior ou exterior (pp.13, 20, 21, 61 de seu romance). Consideração que haveria de levar o Sr. José Saramago, sob a persona de H., a lançar um olhar sobre o foco-narrativo (pp. 113-114), subscrevendo o que sabido já é, basta lançarmos nós um olhar sobre qualquermanual de teoria literária, ou seja, que o foco de primeira pessoa, porque inerente à nossa humana limitação, é mais apropriado à autoescavação do que à dissecação e/ou sondagem dos outros, pois esta esvisceração demiúrgica do que beltrano e sicrano pensam ou sentem só é possível, mas não verossímil, se lançarmos mão da inverossimilhança inscrita na ubiquidade do todo- poderoso narrador-onisciente, suposto dono da Verdade, esta, meus senhores e senhoras, sempre inalcançável (Cf. pp. 77-79). Basta consideramos quantas questionáveis Religiões e Filosofias por aí proliferam. Até mesmo a História, relato do que foi e aconteceu, segundo Aristóteles o disse ex cathedra em sua Arte Poética (tê-lo-ia mesmo dito?), não passaria de uma estória... da carochinha. Que não me deixem a mentir sozinho Michelet e Georges Duby , respectivamente avô e pai da dita Nova História, ambos persuadidos da subjetividade de qualquer discurso histórico, nascido da leitura das fontes e documentos, cujo trabalho de seleção implica a presença de um H.[omem], de um S.[ujeito], enfim, de um Eu, comprometido com a carga pessoal e com a carga ideológica de seu Tempo. 11. Última demão Vou retirar a placa REVELAÇÃO EM UMA HORA que se estampa em letras coloridas na vitrine da Fot’Óptica F. Khom. De outra natureza, mais complexa e trabalhosa, é esta arte de retratar alguém ut pictura poesis. Há extamente oitenta e um dias (de 6/10 a 25/12/03) estou a retocar este autorretrato do Sr. José Saramago inscrito nas feições caligráfico-pictóricas de H. Intermitências houve, diga-se a bem da verdade, ditadas por compromissos, mas de qualquer modo longo tempo levou esta revelação que, por fim, vem à luz num dia de Natal, na remansosa hora da digestão, findo o lauto almoço que comemora o indigente (segundo consta em evangelhos) nascimento de Cristo. Distribuídos os presentes, a quem coube a mirra? E o incenso? Só sei que a mim coube o ouro da revelação do autorretrato do Sr. José Saramago, efígie gravada nas feições palimpséstico-caligráfico-pictóricas de H. Cabalística coincidência, dirão os crédulos. Mistérios da epifania! Qual o quê! Engenhoso artifício, isso sim, decretarão, convictos, os cépticos, duvidando da verdade de minha informação. Afinal, a verdade, ora, a verdade não passa de conto da carochinha, como este aqui que o Sr-lambe-lambe-aí está engendrando, com o único fim de fazer coincidir a data desta revelação com essa história de auto de natal e ressurreição de um Autor como romancista. Mensagem papal, urbi et orbi, em nome da paz na terra aos homens de boa vontade, cada um fique com sua verdade e, sem beligerância, deixe passar a minha, pois a ela também tenho o direito, por mais relativa que seja. Passe, pois, este trocadilho com o livro de Francisco de Holanda: De pintura antigua, já que matizado de clássica antiguidade, saiu-me o autorretrato do Sr. José Saramago inscrito nas feições palimpséstico-caligráfico-pictóricas de H. Exatamente como acima escrevi, inspirado pela digestão de um divino arroz de pato, comecei a última demão de meu retrato do romancista José Saramago. E, ainda sentindo no céu d boca o gosto celestial das fatias de parida impregnadas de vinho do Porto (que provém das caves de Vila Nova de Gaia), bebericando um brandy (nomeadamente o Croft, que muito me apetece), sob as nuvens etéreas de um charuto cubano (o fidelíssimo Coiba), assim prossigo, ao sabor das ideias: Auto de natal e anunciada páscoa de ressurreição literárias, creio ter-se revelado quando (em 1977), onde (em Manual de pintura e caligrafia) e como (à luz do Classicismo) renasceu romancista o Sr. José Saramago. Porque renascido à luz do Classicismo, entender-se-á o diálogo intertextual que travará em futuros romances com fontes e modelos, ora tácitos ora declarados. ( O ano da morte de Ricardo Reis, História do cerco de Lisboa, Todos os nomes, A Caverna, O homem duplicado. A pular décadas, cito-os apenas como adivinhas, para que o leitor se interesse em descobrir a que paradigmas clássica homenagem ou clássica emulação? se arrimará o renascente romancista.) E porque renascido sob o signo do Classicismo... Antes de prosseguir, assente-se que por clássico entendo o magistério da Antiguidade greco-latina, fecundador dos princípios artísticos que nortearão, em Portugal, Classicismo, Maneirismo, Barroco e Neo-classicismo... Como veem não obstante lambe- lambe... Corrigindo (bem-vinda tecla esta, a do delete): exatamente porque lambe-lambe, com o índice a percorrer seletas páginas bibliográficas, (oxalá não me venha o hábito leitor, à feição de O nome da rosa, envenenar-me), é que sei dessas coisas e loisas... Assim sendo, porque renascido sob o signo do Classicismo, compreender-se-lhe-á sua técnica criativa do trompe l’oeil sua maniera de passar-nos a impressão de que está a lançar um olhar inédito e original sobre o déjà vu e o déjà lu. Ainda do berço desse auto de natal e de anunciada páscoa, que é Manual de pintura e caligrafia, nascerá o engajamento que, levantado do chão, servirá de bandeira a seus romances sobre a cegueira da condição humana. Ao cabo histórias ou memoriais de cercos sócio-político-econômicos, sua futura obra romanesca metonimicamente encarnada em Raimundo Benvindo Silva? há de travar também um diálogo intertextual com a História, procurando apagá-la (afinal, para que serve este sinal de nome deleatur?), corrigi-la, revê- la. O que implica dizer tentar reescrevê-la. Ao contrário de H., não quero cobrir o retrato do romancista José Saramago com tinta negra, nem atirá-lo a um quarto de despejo, como se fosse obra que não merecesse contemplação. Afinal, contemplação quem não a merece? Mesmo que seja sob o bisturi, à Rembrandt, de esviscerante lupa. A corrigir a miopia impressionista do que não se contempla a justa e devida distância. [SP, 6/10/03 - 26/12/03] Cartas à Redação: foro e desaforo do leitor “Quem dá com a língua nos dentes, às vezes está à procura do siso.” (Incunábulo dos Apólogos) SS (Schutz-Stafell = Servir e Salazar) Li com muito agrado o ensaio romanceado acerca de Manual de pintura e caligrafia. O ensaísta acaba por nos revelar que o Sr. José Saramago tem carradas de razão ao dizer que tudo já foi dito ou escrito sob a face da Terra; que a originalidade, não existindo, reside simplesmente numa nova maneira de apresentar o já visto ou o já lido. O Sr. F. Khom, fotógrafo de retratos 2x2, 3x4, 5x7, revela-se bem informado sobre a bibliografia em torno do tópico clássico ut pictura poesis que, com ares de ineditismo e orginalidade, foi parafrasicamente glosado pelo romancista José Saramago. Imperdoável, porém, que, ao ensaiar interpretações (e várias nos apresenta) em torno do sentido de S., inicial do nome que tem no romance o senhor retratado por H. , o signatário do ensaio tenha se esquecido do mais óbvio. Aquele S., à feição de naja, uma naja tripudians, prestes a dar o bote, se refere e nos remete ao S inscrito na fivela do cinto da “Mocidade Portuguesa”: um S que duplamente significava “Servir” e “Salazar”. Ao cabo, um duplo e tácito S, a evocar o SS (Schutz-Stafell) da polícia política hitlerista. O ensaísta parece ter esquecido de trecho que se lê em Ano da morte de Ricardo Reis “Se o filho de Lídia vier a nascer, se, tendo nascido, vingar, daqui por uns anos já poderá ir aos desfiles, ser lusito, fardar-se de verde e caqui, usar no cinto um S de servir e de Salazar, portanto duplo S, SS, estender o braço direito à romana, em saudação...” , trecho que, como se percebe, lhe dá o código para a interpretação do S. criptográfico. Legenda Vaz Est (legendavazest@literatura.com), São Paulo. Analfabetos funcionais Em 1995, quando o Sr. José Saramago recebeu o prêmio Camões, havia em Portugal 5,5 milhões de analfabetosfuncionais numa população de 10 milhões de habitantes. Ou seja, a metade da população portuguesa era composta, pois, de pessoas incapazes de entender ou interpretar o que liam. Não consigo dormir ouvindo uma pergunta que não quer calar: Que parcela de 50% da população portuguesa concedeu ao Sr. José Saramago o prêmio Camões? Em 1998, quando o Sr. José Saramago recebeu o prêmio Nobel, qual a porcentagem de analfabetos funcionais compunha o júri sueco? E, a propósito: com tantos analfabetos funcionais não só em Portugal mas também no Brasil, quem é que entendeu esse rebuscado e pretensioso pastiche de crítica sobre Manual de pintura e caligrafia? Madre Tereza de São Tomé, São Tomé e Príncipe. Ler para crer Tal qual São Tomé eu é que precisei ler para crer que uma religiosa tenha escrito o que escreveu! Onde está o espírito religioso dessa Madre Tereza? É verdade que, a 180 milhas da costa ocidental da África, ela está longe de ser uma Madre Tereza de Calcutá. Mas o incrível é que uma religiosa não demonstre a mais pequena humildade cristã e se mostre uma pessoa sem fé nos leres e saberes dos críticos. Eu não preciso ver para crer que essa Madre Tereza de São Tomé comete pelo menos cinco dos sete pecados capitais. É preguiçosa por não ler com a devida atenção a obra desse autor genial que é o Sr. José Saramago. Sendo avarenta na caridade, vaidosa, irada, além de invejosa, por que, para aliviar a alma do peso pecaminoso e amaro da carne, ela não procura seu confessor? Será que essa Madre teme a gula da luxúria? (Para não cometer o pecado da mentira, que tem carapaça e pernas curtas, como o cágado, e que na ida ou na volta sempre há-de ser alcançada pela lebre da verdade, confesso que isto que estou aqui a dizer foi escrito pelo meu homem, o Zé, natural de Freixo de Espada à Cinta, professor de primeiras letras e com uma espada, ai os meus pecados!, que lhe vem presa à cinta. É ele, o meu Zé, que me lê, serão adentro, os cordéis do Sr. José Saramago, dizendo sempre que o outro Zé, o Sr. José Saramago, trouxe o evangelho, ou seja, a boa nova, a novidade sobre a hipocrisia das crenças religiosas.) Lourdes de Fátima, Fátima (Portugal). IV. Objecto quase (1978) José Roberto Jauss Iser (Jornalista, enófilo e gourmet. Autor de Simpósio: como degustar um livro.) “Os enigmas da Esfinge sempre hão de revelar diabetes nos pés inchados de Édipo.” (Livro dos Arcanos) 1. Às voltas com um título Valha-me, se o há, um Nosso Senhor dos Arcanos, para tirar-me deste crítico aperto. Sabido é que o Senhor cifrava suas escrituras com os mistérios insondáveis de metáforas e alegorias. Desvelar o que por Ele foi escrito direito em tortas linhas era tarefa que cabia a expertos exegetas ungidos pela inspiração que, obviamente, seria divina pentecostes capaz de abrir-lhes os miolos, inundando-os com a luz da revelação. Deve haver, pois, um padroeiro desses sábios charadistas, um Nosso Senhor dos Arcanos, que, devidamente invocado, venha livrar-me deste aperto em que me vejo, às voltas e reviravoltas com um título objecto quase a tirar-me do sério. Uma pedra a mais no meio do caminho, José. E agora, seria inevitável perguntar. Só resta contorná-la, com cuidado, a sondar-lhe as arestas, não vá uma topada empecer a caminhada rumo à compreensão de sua matéria e essência. A que Objecto quase se refere o título desta coletânea de contos que tenho em mãos? Como ler a insólita conjunção de um substantivo (“objecto”) com um advérbio (“quase”) aí respingado com a coloração de adjetivo? “Quase objecto”, se assim fosse o título, soaria menos estranho a ouvidos gramaticais, acostumados a um quase que, antecedendo um substantivo, por pouco, por um triz, lhe rouba a completude e essência de Ser. Por outro lado, com que pontuada entonação, ó meu Nosso Senhor dos Arcanos, devo escandir esse Objecto quase. Estaria a afirmar, secamente, que o Ser é Objecto e, dada a pausa requerida pela expectação de uma vírgula, salvá-lo, por um fio de cabelo ou de Ariadne, da coisificação que o ameaçava: Objecto, quase. Puxa, que alívio. Ou será que a indagar-me, a indagar-nos, mete-se ali um criptográfico (mas soante a ouvidos atentos) ponto de interrogação Objecto? para, ao longo do livro, conscientizar-me, conscientizar-nos, do perigo que corro ou corremos rumo à coisificação e que, graças à conscientização trabalhada pelas páginas do volume, serei, seremos, salvo(s) Quase. Onanismo crítico esta circunvolução stanislavskiana de entoação e entonação Objecto, quase. Objecto? Quase. à busca do sentido que nos empresta a oralidade, despida dos sinais gráficos de pontuação? Apenas sigo ensinamento do Sr. José Saramago, a dizer que a gente “só pode entender o texto se estiver dentro dele, se funcionar como alguém que está a colaborar na finalização que o livro necessita, que é a sua leitura.” 20 (Aqui entre nós: esse axioma fenomenológico assentado por Roman Ingarden, o de que o livro só se reatualiza e se completa na leitura , de verdade passou a truísmo. A tal ponto, que sua verdade, por tão evidente, se tornou trivial, ad usum delphini de escritores, intelectuais e acadêmicos. No rol dos escritores, pelo que se me lembra no momento, Sartre, José Cardoso Pires e nosso Sr. José Saramago professam-no e reproduzem-no. Já na onda dos acadêmicos, lembra-se-me que a evidência o livro só se reatualiza e se completa na leitura se transformou num oceano de tinta, maremoto a fazer transbordar a dita “Teoria da Recepção”. Que o digam a Escola de Constança e meus quase xarás Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, assim conhecidos por todos os nomes, enquanto me conheço pelos nomes José Roberto Jauss Iser, que me deram meu pai e minha mãe ambos a considerarem que os avoengos das famílias materna e paterna deveriam sobreviver, ad perpetuam rei memoriam, ou seja, para lembrança perpétua da coisa ou do fato, no tálamo conjugal. Constância de costumes, sem nada a ver com a Escola de Constança.) Como se percebe (ou não), pondo em prática a Teoria da Recepção, estou a tentar ler Objecto quase. Começando por abri-lo pelo título. Que, se não fosse rebuscado pelo preciosismo da sínquise, imediata e simplesmente nos levaria a dar ao “quase” seu sentido próprio, ora, pá, pronto, pois , e ver o “objecto” em pauta livre e salvo, por pouco e por obra do demiurgo, nosso Sr. José Saramago, do perigo da coisificação. 20. Carlos Reis, Diálogos com José Saramago, Lisboa: Caminho, 1998, pp. 101-102. Admitida esta singela hipótese de interpretação, cabe perguntar quem ou que é esse “objecto” escapo, ôpa, “quase”, por um triz, da reificação. Elementar, meu caro Watson, apetece-me aqui dizer em homenagem aos leitores ingleses desse Saramago quase. Ora, meus caros Watsons, esse Objecto quase, salvo da coisificação, é o ser humano. Ou não seria a de um H.[umanista]21 a crença político- ideológica do Sr. José Saramago. Posto nesses termos elementar e sherlockianamente britânicos, clarifica-se que o tema central das narrativas reunidas em Objecto quase corre à conta do perigo que ameaça o Homem de reificar-se , presa e vítima de desumanas circunstâncias sócio-econômicas geradas pelo sistema capitalista. Natural, pois, que a epígrafe do volume seja retirada de A Sagrada Família, de K. Marx e F. Engels: “Se o homem é formado pelas circunstâncias, é necessário formar as circunstâncias humanamente.” Porque de importância para a compreensão da mundividência inscrita em Objecto quase, registre-se que a epígrafe de Marx e Engels não só permeia o volume, como ecoa no final do relato “Coisas”: “Não tínhamos outro remédio, quando as coisas éramos nós. Não voltarão os homens a ser postos no lugar das coisas.” (p.105) (A propósito: lê-seem Cadernos de Lanzarote, dia 15 de janeiro de 1995: “Contra mim falo: o melhor que às vezes os livros têm são as epígrafes que lhes servem de credencial e carta de rumos. Objecto Quase, por exemplo, ficaria perfeito se só contivesse a página que leva a citação de Marx e Engels. Lamentavelmente, a crítica salta por cima dessas excelências e vai aplicar suas lupas e os seus escalpelos ao menos merecedor que vem depois.”) Sem ter saltado, praza aos Céus, por cima da excelência dessa epígrafe saramaguiana para aplicar lupa e escalpelo “ao menos merecedor que vem depois”, assento que “Coisas” será o coração da coletânea, a que confluem as artérias representadas pelas narrativas “Embargo”, “Refluxo”, “Cadeira”, e as veias (poéticas) por que correm “Centauro” e “Desforra”. (Acabo de sugerir-lhes, novo julio-cortazariano Jogo de Amarelinha, uma ordem para a leitura das seis histórias que compõem Objecto quase.) 21. Lembram-se de H.[omem], o pintor de Manual de pintura e caligrafia? Quem disse que inexiste o DNA 2. Coisas em seu devido lugar Antes de qualquer outra coisa, chamemos a atenção para o fato de que os títulos remetem a substantivos concretos (“Coisas”, “Cadeira”, “Centauro”) e abstratos (“Embargo”, “Refluxo”, “Desforra”) que, despojados do artigo seja definido seja indefinido, se oferecem em sua essência de res. Estamos, pois, no âmbito do ser, da coisa, da substância, que, dotados de existência animada ou inanimada, podem ser reais ou imaginários; podem ser concretos, se tiverem substância própria, existindo per si, ou abstratos serão, se existirem, enquanto ação, estado ou qualidade, em função de outra coisa, ser ou substância. Ao cabo, estamos nas águas da teleologia, já que a realidade, composta de seres animados ou inanimados, concretos ou abstratos, reais ou imaginários, se nos apresenta como um sistema de relações entre meios e fins, circunstância a que não escapa o homem nela posto em causa. Dito isso, ponhamos “Coisas” em seu devido lugar. Trata-se, ao cabo, de uma fábula sócio-político-econômica passada num “país excelentemente administrado, as funções bem repartidas, o governo capaz e com grande experiência de transformação industrial.” (p. 76) Nesse espaço social, vive uma sociedade hierarquicamente organizada seja pelo poder econômico seja por uma misteriosa ascendência de casta. A população compõe-se de “cidadãos utentes”, ou seja, cidadãos cuja função social reside no uso e consumo de mercadorias e produtos postos à disposição por um “serviço de requisições especiais (sre)”. Na palma da mão direita (a marcar a direção ideológica do governo?), os “cidadãos utentes” trazem tatuadas em verde (a cor do fascismo? 22) letras de A a Z, identificadoras de sua precedência sócio-econômica. Naturalmente as precedências A e B ocupam a cabeça do governo central (gc). Já a precedência C põe-se como anelo e ambição possível dos comuns “cidadãos utentes”. Tanto que, na situação de crise em que se encontrará, o governo central (gc) oferecerá a possibilidade de promoção à precedência C a todos quantos venham a ajudar as autoridades no esclarecimento das catastróficas (e fantásticas) ocorrências que assolam o País. Subalterno funcionário do “serviço de literário? 22. Em resposta à palavra de ordem governamental “Vigilância e mão aberta”, assim agiu a multidão: “Nasceu assim, ao mesmo tempo por toda a cidade, a prática mais imediata e rápida de reconhecimento e identificação: as pessoas não precisavam parar, passavam umas pelas outras, de braço estendido, dobrando a mão, pelo pulso, para cima, e exibindo a palma marcada com a letra da precedência.” (pp. 89-90) Quem não reconhece requisições especiais (sre)”, naturalmente humano e perdoável que o anônimo anti-herói do relato do Sr. José Saramago (embrião, na condição celibatária e na subalternidade, do Sr. José-sem-mais-apelidos de Todos os nomes?) aspire a escapar do gueto de sua condição social: “Seria grande azar seu se não conseguisse informações úteis ao governo (g), suficientemente úteis para lhe merecerem a precedência C. Nunca tivera ambições, mas agora chegara o momento de as ter com legítimo direito. A precedência C significaria, pelo menos, funções de muito maior responsabilidade no serviço de requisições (sr), significaria, quem sabe, transferência para um sector mais próximo do governo central (gc). Abriu a mão, viu o seu H, imaginou um C no lugar dele, saboreou a visão do enxerto de nova pele que lhe fariam.” (p. 80) Nesse pseudoparaíso tecnológico, em que tudo parecia funcionar à perfeição, instala-se a crise: a revolta dos “oumis”, ou seja, dos “objectos, utensílios, máquinas e instalações” (p. 79), que, fugindo ao controle das autoridades e dos utentes, iniciam uma série de atentados e devastações terroristas que vão da guerrilha doméstica e urbana à guerra declarada e sem fronteiras. São portas que, ao fecharem-se automaticamente, ferem as mãos que julgam ter o domínio de fechá-las. São sofás que têm febres (em represália ao calor do corpo humano?) e são tratados por injeções subministradas de hora em hora, segundo o receituário do sm, ou seja, pelo serviço médico. São degraus que, (já não suportando o peso do tacão humano em seu sobe e desce social?), desaparecem, a exigir acrobacias circenses dos “cidadãos utentes”. São caixas de correio que, (rebeladas contra a incomunicabilidade humana?), somem num picar de olhos. São prédios que, num hausto vingativo, são sugados, assoalhando as ruas de cadáveres nus (despojados de suas vestes e bens, a todos iguala a morte?). A devastação inexorável e gradativa do espaço social urge medidas urgentes, drásticas, retaliativas contra o inimigo oculto e desconhecido: “Previnem-se todos os cidadãos utentes de que por ordem do estado-maior-general das forças armadas (emgfa) será bombardeado, a partir das sete horas da manhã, pelos meios da artilharia (a) e da aviação (a), o sector leste da cidade, como primeira medida de retaliação. Os cidadãos utentes que moram no sector a bombardear já foram retirados das suas casas, encontrando-se alojados em instalações governamentais, devidamente vigiadas. Serão indemnizados de todas as suas perdas materiais e de todos os incómodos morais que esta ordem inevitavelmente virá a causar. O governo (g) e o estador-maior-general das forças armadas (emgfa) garantem aos cidadãos utentes que o plano elaborado de contra-ataque será levado às suas últimas consequências.” (pp. 99-100) no gesto a saudação nazifascista? Embrionário Ensaio sobre a cegueira, o governo (g) e o estador-maior-general das forças armadas (emgfa) não esclarecerão (e nem a narrativa) a razão por que o contra-ataque retaliativo terá por alvo o setor leste da cidade. Uma vez mais temos que invocar o Nosso Senhor dos Arcanos e pedir-lhe que nos sopre a interpretação da criptográfica escritura do Sr. José Saramago. Ora, então óbvio não é que o setor Leste, naquele 1978, ano da publicação do livro, conota os países do leste europeu comunista. Afinal, camaradas, toda e qualquer insurreição contra o processo capitalista da reificação só poderia advir de uma banda ideológica sita num setor Leste. A bem da verdade, não posso deixar de assinalar que esse tal setor Leste será obscuramente concebido pela narrativa (saber-se-á apenas no final) como um espaço de resistência e salvação onde, num bosque (nostálgico fugere urbem?), se refugiaram “homens e mulheres que ali se tinham escondido desde que a revoltacomeçara, desde o primeiro oumi desaparecido” (p. 105). Natural que todos nus. Ou não seriam uma coletividade de renascentes adãos e evas, genealógica árvore de nova espécie humana. Se no tal bosque, emboscados, tramaram e resistiram contra a reificação já não lhes sei dizer, nem mesmo invocando meu Nosso Senhor dos Arcanos. Apagando os rastros da subversão e guerrilha desses adãos e evas sem folha de parreira nas partes pudendas, o relato não nos deixa pistas interpretativas que haveriam de levar à compreensão e solução do caso oferecido como de proveito e exemplo. Também, vamos lá, companheiras e companheiros, se o Sr. José Saramago tivesse trabalhado, cartesiana ou aristotelicamente, a verossimilhança da narrativa, como inseri-la na categoria do Fantástico e do Absurdo. Do fantástico absurdo que é, em sua proposta, o Homem, alienado e reificado, tornar-se objecto numa sociedade capitalista. Objecto quase assegura-nos o título do volume. Esperançosamente. Assim sendo, em “Coisas”, a fábula do Sr. José Saramago traz um final prenhe de humanismo otimista. Ao caos instalado sobrevirá, como já adiantei linhas acima, a promessa de novo cosmos à luz nascente de um Sol metaforicamente desgastado em termos literários. Por um triz, pá, quase, o setor Leste (insurreto e resistente?) não será objeto de um ataque fulminante. Num passe de mágica, no preciso momento do bombardeio planejado, o hausto consumista daquela sociedade de “cidadãos utentes” há de sugar a cidade e parir uma nova comunidade nuinha em pelo, modelito a rigor de toda cosmogonia que se preze: “Mas nenhum tiro chegou a ser disparado. No preciso instante em que o oficial ia gritar: “Fogo!”, o microfone fugiu-lhe das mãos. Inexplicavelmente, os aviões fizeram uma curva apertada e voltaram para trás. Este foi apenas o primeiro sinal. Um silêncio absoluto espalmou-se sobre a planície. E de repente a cidade desapareceu. No lugar dela, a perder de vista, surgiu uma outra multidão de mulheres e homens nus, desentranhados do que fora a cidade. Desapareceram as peças de artilharia e de todas as outras armas, e os militares ficaram nus, rodeados pelos homens e pelas mulheres que antes tinham sido roupas e armas. Ao centro, a imensa nódoa escura da população da cidade. Mas também essa, no instante seguinte, se metamorfoseou e multiplicou. A planície tornou-se subitamente clara quando o Sol nasceu. Foi então que do bosque saíram todos os homens e mulheres que ali se tinham escondido desde que a revolta começara, desde o primeiro oumi desaparecido. E um deles disse: Agora é preciso reconstruir tudo. E uma mulher disse: Não tínhamos outro remédio, quando as coisas éramos nós. Não voltarão os homens a ser postos no lugar das coisas.” Como se vê, um happy end esperançoso, a apagar do mapa as circunstâncias desumanas a que estavam submetidos os “cidadão utentes” e a proclamar a urgência de “reconstruir tudo”, ou seja, de “formar as circunstâncias humanamente”, como propunha a epígrafe de Marx e Engels. Percebe-se que o relato de “Coisas” não chega a ser, rigorosamente, um conto. Trata-se, na verdade, de um embrião de romance, tantas são as fissuras na edificação da fábula, a exigirem preenchimento. Por que o setor Leste há de ser identificado como inimigo responsável pelas fantásticas catástrofes? (Verdade, e o leitor atento é testemunha, que aventei uma hipótese interpretativa, a que acrescento outra, qual seja tratar-se da falta de lucidez dos governantes, embrionando aqui a matéria do romance que o Sr. José Saramago dará a lume em 2004 sob o título de Ensaio sobre a lucidez.) Como se processa a gradativa humanização dos oumis (objetos, utensílios, máquinas e instalações)? Já que os insurretos e emboscados adãos e evas se contrapõem tão consciente e politicamente aos alienados “cidadãos utentes”, por que, só no epílogo, retirá-los de mágica cachola, quer dizer, cartola? Transformados em deus ex machina conveniente para proveito e exemplo do relato, não chegamos a conhecer-lhes a real motivação, nem como se deu a fuga, nem sob cuja liderança e ideal se emboscaram para a resistência. “Pergunte aos organizadores, Onde estão, quem são eles, Suponho que todos e ninguém, Tem de haver uma cabeça, isto não são movimentos que se organizem por si mesmos, a geração espontânea não existe, e muito menos em acções de massa com esta envergadura”. Assim, nos termos deste diálogo, me responderia Ensaio sobre a lucidez, à página 138, passados vinte e seis anos sobre “Coisas”, a sugerir-nos que seminal e embrionária estava ali naquele relato de 1978 a ideia de uma resistência gerada espontaneamente, ou por palavras outras, tiradas ainda de Ensaio sobre a lucidez, página 166, “cada um decidiu por sua conta e a sós com sua consciência, não se deu fé de qualquer convocatória vinda de cima nem palavra de ordem que fosse preciso aprender de cor”. Mesmo considerando que seja boa e legítima a resposta, ela não está clara nem presente em “Coisas”. Como persistem as lacunas na efabulação, fica-me a impressão de que estou diante de um plano (ou rascunho) de romance que, retirado da gaveta e rebocado aqui e ali, foi dado a lume como conto porque, afinal, resultou em 38 páginas. Não cabe aqui discutir o que é conto; tampouco engalfinhar-me contra os que defendem que o conto se mede pela extensão, sempre short, de páginas. Remeto o leitor à fruição de Poe, Machado de Assis, O. Henry, Tchecov, de cujas narrativas breves se podem extrair a estrutura e característica da fôrma conto, como o fez Massaud Moisés em A criação literária – prosa I (SP: Cultrix, décima-quinta edição, revista e atualizada em 1994). 3. Refluxo dialético? O segundo relato, na ordem proposta pelo volume e na sugerida por este ensaio, pode, sem embargo, ser rotulado de conto. Intitulado “Embargo”, retira seu título dos empecilhos criados pelos árabes à exportação do petróleo. A ameaça de colapso no fornecimento de combustível começa a gerar ansiedade, medo e, naturalmente, desenfreada corrida aos postos de gasolina: “Este estúpido embargo. O pânico, as horas de espera, em filas de dezenas e dezenas de carros. Diz- se que a indústria irá sofrer.” (p. 35) Às vésperas do Natal, tendo por pano de fundo aquela circunstância político- econômica, trava-se o conflito entre dois “utentes”: um cidadão, anônimo como convém a um anti-herói, e seu carro. Num dia exemplar e definitivo para sua vida, como, aliás, requer a rigor todo conto, um homem vê-se preso, dominado e guiado por seu automóvel que, na pane e pânico de sua voracidade consumista, se dirige a todos os postos que ainda disponham de gasolina para abastecer-se, não obstante traga o tanque cheio: “O que estava a passar-se era absurdo. Nunca ninguém ficara preso desta maneira no seu próprio carro, pelo seu próprio carro. Tinha de haver um processo qualquer de sair dali.” (p. 41). A libertação só ocorrerá quando a gasolina se acabar e o carro já não encontre posto onde, mais do que reabastecer-se, venha compulsivamente a atestar o tanque, temeroso de ver-se privado de um produto tornado sua razão de ser. A exemplo de “Coisas”, a fábula alegórica remete a um outro “cidadão utente” dominado por um “oumi” insurreto que ganha vida própria à revelia do homem. Moral do relato, ainda à sombra da epígrafe tirada a A Sagrada Família, de Marx e Engels: se o homem e os “oumis” (lembre-se a sigla, “objectos, utensílios, máquinas e instalações”) são formados pelas circunstâncias, é necessário formar as circunstâncias sócio-político-econômicas humanamente. A terceira narrativa inscrita no volume, sob o título “Refluxo”, passa-se num país cujo rei, incomodado com a presença da morte, incapaz de suportar até mesmo “a simples vista de seu aparatos, acessórios e manifestações, seja a dor dos parentes ou os sinais mercantis do luto”, resolve construir no centro geométricodo reino um único e gigantesco cemitério de 100 quilômetros quadrados: “No dia em que o rei, oficialmente, por sua própria boca e voz, declarou que o país se encontrava limpo de morte (palavra sua), decretou-se feriado e festa nacional.” (p. 56) O “Refluxo” de que trata a narrativa, diz respeito à Vida que, tendo sido apartada da Morte por decreto, busca, para sobreviver, a contiguidade do cemitério, instalando-se, ao longo dos seus muros, com cidades, comércio e indústria e serviços: “Quatro cidades se interpuseram assim entre o reino e o cemitério, cada uma virada ao seu ponto cardeal, quatro cidades inesperadas que começaram por chamar-se Cemitério-Norte, Cemitério-Sul, Cemitério-Oriente, Cemitério-Ocidente, mas que depois foram mais benignamente baptizadas e denominadas, pela ordem, Um, Dois, Três e Quatro, porquanto haviam sido vãs todas as tentativas para lhes atribuir nomes mais poéticos ou comemorativos. Estas quatro cidades eram quatro barreiras, quatro muralhas vivas de que o cemitério se rodeava e com elas se protegia. O cemitério representava cem quilómetros quadrados de quase silêncio e solidão, cercados pelo formigueiro exterior dos vivos, por gritos, buzinas, risos, palavras soltas, roncos de motores, pelo interminável sussurro das células.” (p. 62). Claro está que o cemitério único e gigantesco não conseguiu nivelar, pela morte, ricos e pobres. As diferenças sociais continuaram a manifestar-se dentro do cemitério e fora dele, reflexos dos pontos cardeais norteadores de classes: “Sendo a região de mais ricos do país a região Norte, esse lado do cemitério tomou, no seu modo monumental de ocupar o espaço, uma expressão social oposta, por exemplo, à do lado sul, que precisamente correspondia à região mais miserável. O mesmo se passava, no geral, quanto aos outros lados. Cada qual com seu igual. Embora de uma maneira menos definida, o lado de fora acompanhava o lado de dentro.” (p. 60) Não se pode regular, por decreto, em qualquer utopia que se conceba, a Vida, quanto mais a Morte é o que interpreto, invocando uma vez mais meu Nosso Senhor dos Arcanos. Pois o inevitável haveria de acontecer: “Uma investigação sumária, mais tarde feita, apurou casos na própria periferia exterior da Cidade Dois, a mais pobre de todas, virada ao sul, como já foi dito: corpos enterrados em pequenos quintais familiares, por baixo de flores vivas que se renovavam todas as primaveras. Por esse mesmo tempo, como aquelas grandes invenções que em vários cérebros irrompem simultaneamente porque chegou o tempo do seu amadurecimento, em lugares pouco povoados do reino, certas pessoas decidiram, por muitas, diferentes e às vezes opostas razões, enterrar os mortos ali ao pé, no interior de grutas, ao lado de carreiros de florestas ou na encosta abrigada de montes. A fiscalização andava então muito menos activa e abundavam os funcionários que consentiam em deixar-se subornar. O serviço geral de estatística informou, de acordo com os registos oficiais, que estava a verificar-se uma acentuada baixa da mortalidade, o que, logicamente, começou por ser levado a crédito da política sanitária do governo, sob a suprema autoridade do rei. As quatro cidades do cemitério sentiram as consequências do menor fluxo de mortos. Certos negócios sofreram prejuízos, houve não poucas falências, algumas fraudulentas, e quando enfim se reconheceu que a real política de saúde, por excelente que fosse, não ia a caminho de conceder imortalidade, foi baixado um decreto ferocíssimo para reconduzir as populações à obediência. Não serviu de muito: após um breve fogacho de animação, as cidades estagnaram e decaíram. Devagar, tão devagar, o reino começou a repovoar-se de mortos.” (p. 63) Consuma-se assim o “Refluxo” que intitula a fábula. O próprio rei que ingenuamente pretendia banir e livrar-se da morte, já muito velho, sucumbe ante a visão (e aviso?) da ponta aguda de um cipreste, nascido num quintal, e escolhe ser enterrado na clareira de um bosque: “Arrastando o seu manto real, seguiu devagar por uma álea que ia dar ao coração fechado do bosque. Ali numa clareira se deitou, sobre as folhas secas se deitou, e estando deitado olhou o guarda que se ajoelhara, e disse antes de morrer: “Aqui.” (p. 64) . Saio da leitura do relato, achando tratar-se, que me valha meu Nosso Senhor dos Arcanos, a) de uma efabulação do princípio da dialética dos contrários, considerando que se entende por “refluxo” um movimento contrário e sucessivo a outro; b) de um libelo contra a voracidade do sistema capitalista, capaz de transformar até mesmo a morte, essa bíblica niveladora das diferenças sociais, em um excelente negócio, gerador de indústrias, produtos e serviços; c) da efabulação do existencialismo heideggeriano de que o homem é um ser-para-o- fim (Sein-zum-Ende), fundamentalmente um ser para a morte (Sein-zum-Tode). As opções a) e b) talvez venham a traduzir o engajamento sócio-político do Sr. José Saramago. Quanto à opção c)... Bem, vamos a ver. Ao escolher ser enterrado fora do cemitério, ou seja, fora do âmbito de sua utopia, o velho rei sucumbe ante o fato de que todo projeto humano está na dependência da Morte, termo final de tudo, segundo Heidegger, pois a experiência mais pessoal e intransferível é a morte. O relato parece figurar, no sonho e decreto do rei, a situação do Ser (Dasein) que, sabendo-se um ser para a morte (Sein-zum-Tode) e temeroso de defrontar-se com ela, evita assumir a realidade que ela representa, refugiando-se numa existência inautêntica (sua utopia), para, dessa maneira, fugir à angústia suscitada pelo espectro sempre presente da Morte. Conto de ideia, entremostrando uma visão crítica, política e filosófica da existência, “Refluxo”, a exemplo de “Coisas”, anuncia um dos vetores da futura ficção do Sr. José Saramago: o ensaístico. Tanto que vemos em “Refluxo” o embrião heideggeriano (Sein- zum-Ende, Sein-zum-Tode) que, profética Cassandra-Sibila sei, será desenvolvido posteriormente. Com cemitério kafkiano e tudo, em Todos os Nomes (1997). Com romântico e melodramático desfecho em Intermitências da Morte (2005). Mas isso são contos largos, para páginas outras. 4. Ex-cathedra Falemos agora de “Cadeira”. Dos relatos enfeixados no volume é o de que mais gosto. Ouço nele balbuciarem a dicção e a maniera futuras do Sr. José Saramago. Em câmera lenta, a ressumar gozosa vingança, o narrador esmiuça o trabalho de sapa e conspiração de um voraz e subversivo caruncho a roer o madeirame do assento, da cadeira, da cathedra de um ditador (cathedra aqui cai bem, afinal, quem não o sabe?, professor universitário foi ele em Coimbra), fazendo-o desabar de podre e ferir a cabeça, contusão que há de comprometer-lhe o cérebro, responsável por tê-lo feito o cabeça da Ditadura, segundo leio em História Concisa de Portugal, do Sr. José Hermano Saraiva, p. 351 de uma sétima edição saída em 1981, e peço licença para transcrever, não se pense que estou a inventar, pois de ponderação é o registro, levando em conta que já “...em 1929 era considerado como a única cabeça pensante da equipa de governantes da ditadura e como o homem forte do Governo”, cuja chefia, como presidente do Conselho de Ministros, veio a exercer por trinta e seis anos, de 1932 a 1968. Ironia do Destino essa de vir instalar-se a morte nos miolos do cabeça pensante e regente de uma ditadura. A alegoria inscrita em “Cadeira” tem nome e assento na História. História, segundo os termos aristotélicos não do que poderia ter sido mas do que o foi no passado, de cuja veracidade não duvidou o Sr. José Saramago, como, no futuro, virá a fazer em romances cujo conto também não cabe aqui. E não duvidou talvez porque, nessa quadra da História, tivesse sido testemunha ocular e presencial dos fatos essa, aliás, é a sugestão do narrador, a acompanhar, in loco, passo a passo, o desabar do velhoditador. Autópsia de uma queda, “Cadeira” registra a causa mortis do Salazarismo: o acidente vascular-cerebral que, para a saúde democrática de Portugal, vitimou Salazar em 1968, levando o regime discricionário às vascas de uma agonia cujo fim se dará em 25 de abril de 1974. Não sei muito bem por que a orelha do volume de Objecto quase, ao apresentar os relatos, cala tratar-se “Cadeira” de uma alegoria da queda do Salazarismo. Talvez queira dar a “Cadeira” uma universalidade emblemática acerca de quedas, por podres, de ditaduras. Ocorre que o relato está ancorado na realidade de um fato inscrito num tempo histórico bem português. O que o faz diferir da universalidade alegórico-emblemática de “Coisas”, “Refluxo”, “Embargo” e mesmo “Centauro”. Conto de personagem, só não reconhece, em “Cadeira”, a figura de Salazar e da agonia do Salazarismo quem for português desmemoriado ou não tiver navegado pelas águas da cultura lusíada. Afinal, conta-nos a história de proveito para exemplos futuros , o velho que, a gozar férias de verão na residência oficial do Estoril, desmorona da cadeira em 7 de setembro de 1968, é natural de Santa Comba do Dão, onde veio a lume em 28 de abril de 1889, encadernado talvez no marroquim de medievos missais. Verdade que velhos outros também terão nascido em Santa Comba, mas nenhum teve residência oficial de veraneio num forte à beira-Atlântico plantado, sito no aprazível Estoril, nem gozou trinta e seis anos de assento naquela cadeira prestes a desabar por obra e graça de carunchos antifascistas: “Vê-a de longe o velho que se aproxima e cada vez mais de perto a vê, se é que a vê, que de tantos milhares de vezes que ali se sentou a não vê já, e esse é que é o seu erro, sempre o foi, não reparar nas cadeiras em que se senta por supor que todas são de poder o que só ele pode. S. Jorge, santo, veria ali o dragão, mas esse velho é um falso devoto que se mancomunou, de gorra, com os cardeais patriarcas, e todos juntos, ele e eles, in hoc signo vinces.” (p. 20) Graças ao narrador hic et hoc, vemo-lo ainda (não o narrador, claro, mas o ditador) calçado no velho hábito das botas , hábito que não faz o monge mas que vem da época em que foi seminarista em Viseu, donde lhe adveio, a par da celibatária misoginia, talvez a aura de ascetismo e quase santidade incensada pela crença ingênua dos que viam nele, valha-nos Nossa Senhora de Fátima, um redentor, um assinalado. Afinal, se não fora ele um ungido das graças divinas, como explicar saísse ileso de um atentado a bomba em quatro de julho de 1937, obra de uma camarilha de trabalhadores anarquistas ou comunistas, segundo o jargão comprometido de uma imprensa vesga além de já amordaçada. Claro está, pá. Só se fores parvo ou incréu, não hás de entender. Pois não acabara de sair o homem de uma missa dominical. Além do mais, era dia de Santa Isabel, aquela santa CCC, entenda-se Cozinha, Criança e Capela, versão portuguesa do hitlerista KKK (küche, kind, kirche). Enfim, pronto, a santa de casa que fez milagre, sobretudo o de casar-se com o prolífico D. Dinis, aquele que, na toada de um samba brasileiro, também fazia cantares e filhos (bastardos) até mais tarde. Como era aquele quatro de julho de 1937 dia de Santa Isabel, ocorreu simplesmente mais um milagre das rosas. Embora... já o posso dizer, graças a Deus... embora não fosse flor que se cheire o aqui indigitado. Desculpe-se, pois, ao narrador comprometido meter-lhe o par de botas “para que se não soubesse que são bifurcados [os pés]” (p. 22), são licenças pouco poéticas concedidas a quem pinta o capeta, mas botas lembram tacão e tacão lembra pisar, calcar, esmagar, todas ditas duras ações de espezinhamento, cabíveis aqui no caso e biografia do velho. A catadura também não desmente a figura. Registra-a o narrador bem de perto, para não deixar dúvida de quem o retrato sem retoque: “Vai a cair para trás. Aí vai. Aqui, mesmo em frente dele, lugar escolhido, podemos ver que tem o rosto comprido, o nariz adunco e afiado como um gancho que fosse também navalha, e se não se desse o caso de ter aberto a boca neste instante, teríamos o direito, aquele direito que tem toda e qualquer testemunha ocular, que por isso diz eu vi, de jurar que não há lábios nela.” (p. 21) Fisiognomonia diz-se da arte de conhecer o caráter das pessoas pelo traços fisionômicos, portanto, quem vê cara vê coração sim, errado anda por aí o adágio. Ah, senhores e senhoras, aquela boca sem lábios muita coisa quer dizer. Impressionou até uma senhora de nome Christine Garnier, fonte fidedigna e insuspeita pelo panegírico (resisti para não grafar panejirico) que, em remansosas Férias com Salazar (Lisboa: Fernando Pereira – Editor), tricotou desse velho que está a desabar, ela que também deixou para a posteridade o registro de que ele, “este chefe vestido com elegância” [...], “usa botas como um eclesiástico” (pp. 37 e 12), calando ela, contudo, a circunstância de o hábito das botas derivar também de um defeito congênito, um a mais em tantos. De sete léguas estas botas que já lá em cima estiveram e andam agora de volta. Enfim, toda e qualquer semelhança com o Sr. Antônio de Oliveira Salazar não terá sido mera coincidência. O homem aqui duplicado é o próprio. Suave, para o narrador, é esse mês de setembro dia sete do ano de 1968, a prenunciar o outono do patriarca, ferido de morte: “Aqui, na cabeça, neste sítio onde o cabelo aparece despenteado, é que foi a pancada. À vista, não tem importância. Uma ligeiríssima equimose, como de unha impaciente, que a raiz do cabelo quase esconde, não parece que por aqui a morte possa entrar. Em verdade, já está lá dentro. Que é isto? Iremos nós apiedar- nos do inimigo vencido? É a morte uma desculpa, um perdão, uma esponja, uma lixívia para lavar crimes?” (p. 29) Conta-me agora a História, e não o conto do Sr. Saramago, inútil e ineficaz será operar o velho ditador às pressas. Santa Isabel ausenta-se, talvez preocupada em impedir novas cantadas de amor do insaciável D. Dinis, pai também da Universidade de Coimbra. Nossa Senhora de Fátima com certeza invocada foi pela Sra. Maria de Jesus Caetano Freire, mas só os desígnios divinos sabem por que a ubíqua mãe de Jesus fez ouvidos surdos às preces da fiel serviçal. Hemiplégico, o velho que desabou ex cahedra foi substituído na Presidência do Conselho de Ministros em 26 de setembro de 1968 por outro vulto de cadeira de onde também viria a desabar, o Dr. Marcelo Caetano, nomeado em 1933, à época do Estado Novo, professor de Direito Corporativo na Universidade de Lisboa, autor do “Estatuto do trabalhador”, cópia parafrásica da Carta del Lavoro de Mussolini, ora, vamos lá, dize com quem andas e dir-te-ei quem és. Conto ainda meu, imagino a dor com que os acólitos pouparam ao Dr. Salazar a notícia de que já não mais mandava nem desmandava. O velho que desabara da “Cadeira” do Sr. José Saramago morreu em vinte e sete de julho de 1970, às 9h15. Crente em que ainda era o dita dor de um Estado que, à beira dos cinquenta anos, já não podia ser mais Novo. Memento homo que és pó e que na vida nada dura. Nem mesmo uma coisa dita dura. Dando por findos os trâmites desse antecipado auto de exame cadavérico, que tal atendermos ao convite do narrador “Vamos até à janela. Que me diz a este mês de setembro? Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim.” (p. 30) e, como educados somos no gosto de boa prosa, responder-lhe que já se sente nesse ar translúcido que anuncia o outono um odor a cravos de não longínquo abril. 5. Do bicho-homem Uma no cravo, outra na ferradura. Assim sou. Não sei disfarçar gostos ou desgostos. Quem vê minha cara, tratado de fisiognomonia, vê estampado, no riso, no sobrolho ou nas rugas, meu coração. Por isso, não sei ser político nem politicamente correto não sei qual alternativa a pior. Não sou sagitário, mas a cavalgadura quehabita em minha parte terrestre e humana dispara coices a torto e a direito. Espero que mais a direito que a torto. Todo este introito ad altarem dei literário que há de tornar-se o Sr. José Saramago, levantado do chão de seu romance de 1980, para dizer que, ao ler “Centauro”, penúltimo relato de Objecto quase , sá-de-mirandamente, comigo (sagitário quase) me desavim. Queria, anima(l) que há no bicho-homem que sou, sair edificado do bestiário (julio- cortazariano?) inscrito no relato do Sr. José Saramago. Sou acaso descendente legítimo de Quíron, o sábio, o de brilhante inteligência, o que, segundo consta nos manuais de Mitologia, andou a lecionar música, moral, medicina, ou serei esgarçado galho de genealógica árvore que tem por raiz Folo, o hospitaleiro, odre de vinho ao inteiro dispor de V. Exa., mesmo que V. Exa. não venha a ser Hércules nem queira competir em bebedeiras com Dioniso. Do centauro Nesso não me cabe a carapuça nem a túnica, malgrado as dores que herdamos no lombo e na alma. Mesmo porque, valha-me Deus, Nesso é dado, na fábula do Sr. José Saramago, por brutalmente assassinado, costelas e espinha trituradas no abraço pouco amigável daquele Hércules supracitado, halterofilista capaz de incríveis façanhas, e doze foram elas, as conhecidas, a décima-terceira, segredo de iniciados, desvendo-a, é a de reduzir à condição de magrela e nanico qualquer Mr. Schawzenegger-Músculo. Ao desmontar do relato, à beira do precipício em que, seccionado da parte animal, me via jazer “metade de um homem”, ao cabo “um homem” (p. 127), ao desapear do “Centauro”, não queria calar-se a pergunta de que centauro dos que a Mitologia nos ilustra me fez o Sr. José Saramago descendente, ao tratar do bicho-homem que somos. Enfim, vínhamos os desamparados humanos no coice de que ilustre ascendência? A de todo centauro e a de nenhum em particular, resposta com que logo me acode meu Nosso Senhor dos Arcanos, sacando magicamente da algibeira Le symbolisme dans la mithologie grecque, do Sr. Paul Diel, uma ediçãozinha já amarelada como convém à prosápia de nobiliário que se preze, da Payot, datada de 1966. Com a unha do mindinho, crescida garra vampiresca cuidadosamente manicurada, ei-lo, o nosso Senhor dos Arcanos, a sublinhar o que devo haurir, às páginas 23 e 26, para minha ilustração. E, discípulo obediente, sigo com os olhos, respectivamente, que “Les mythes, selon leur sens caché, traitent donc de deux thèmes: la cause première de la vie (le thème métaphysique) et la conduite sensée de la vie (le thème étique).” e que “Ainsi, le thème fondamental des mythes est l’ évolution non seulement de l’homme-individu, mais de l’espèce humaine. Et l’espèce humaine n’est elle-même qu’une forme évoluée des espèces animales.” Ah é? Nem mesmo as mulas, veículo metonímico (os autores pela obra?) da vetusta e ponderosa livraria daquele decaído anjo que foi Calisto Elói de Silas e Benevides de Barbuda, o camiliano morgado de Agra de Freimas , nem mesmo aquelas cargas de saber poderiam ser mais providenciais e prestativas que Paul Diel, meu Nosso Senhor dos Arcanos, cujo livrinho acendeu candeias na escuridão de minha leitura do “Centauro” josé- saramaguiano. Saio dessa fábula genealógica da humana espécie aliviado com a revelação de que bastardo não sou, nem descendente de um asno qualquer. 6. Sabor à Montaigne Ainda às voltas com o lado animal e instintivo do ser humano deixa-nos “Desforra”, última narrativa de Objecto quase. Breve, conciso, sob fina casca poética, fechado em si como um ovo a guardar o mistério de um momento decisivo da vida, conto, enfim, na melhor tradição da fôrma, de que vingança, desforço, desagravo ou despique, ao cabo, trata esse relato de cujo título (“Desforra”), desfolhando o dicionário, busco o sentido? Taí uma pergunta que não sei responder. Pelo menos por ora. Conversemos assim como quem não quer nada, rodeando o problema posto à mesa. Ensaio, desde os de Montaigne, criador da iguaria, é isso. Provar as ideias, saboreá-las, como faziam os suicidas provadores da comida real, augurando que venenos insidiosos não venham a interromper a degustação dessa culinária para os de bom gosto ad usum delphini. Vi e ouvi incerta noite, num vídeo-cassete dedicado à visão e suas anomalias, que o Sr. José Saramago, frequentador do poleiro do Teatro São Carlos em Lisboa, bispava e cheirava o símbolo da Monarquia que lhe impedia a vista do palco entenda-se a vista da ação. Um gosto para os olhos de quem assistia na e da plateia ou nos e dos camarotes, o símbolo da monarquia ex-reinante era, contudo, note-se, ponto cego para quem, no poleiro, queria alçar voos. Visto por dentro e à roda, o símbolo estava, no oco da corbeille, sujo, decrépito, carunchoso outro Anaboim, irmão talvez daquele profícuo guerrilheiro da “Cadeira”, fizera seu destruidor trabalho de sapa. Duas faces tinha o tal símbolo: a que se via à superfície do por-fora e a que se descobria ao olhar o por-dentro. Diante de tal espetáculo de proveito e exemplo, disse o Sr. José Saramago que veio a aprender que temos, dando a volta, que ver à roda e perscrutar o interior das coisas. Para quem queira examiná-lo por dentro, o depoimento bem que se oferece como uma arte poética de sua intenção ficcional. Mais uma fatiazinha de lombo? Verdadeiro papo de anjo, meu caro. Um porco que foi criado e engordado para alguma consoada natalina e caiu-nos aqui no prato, por obra e graça da cozinha de Objecto quase. ?! Entendo seu pasmo. Mas o livro de linhagem desse acepipe que lhe ofereço vem bem a talho, pois está no conto “Desforra”. Duvida? Leia então o que transcorre à página 132: “Dois homens e uma mulher seguravam o porco. Outro homem, com uma faca ensanguentada, abria- lhe um rasgo vertical no escroto. Na palha brilhava já um ovoide achatado, vermelho. O porco tremia todo, atirava gritos entre as queixadas que uma corda apertava. A ferida alargou-se, o testículo apareceu, leitoso e raiado de sangue, os dedos do homem introduziram-se na abertura, puxaram, torceram, arrancaram. A mulher tinha o rosto pálido e crispado. Desamarraram o porco, libertaram-lhe o focinho, e um dos homens baixou-se e apanhou os dois bagos, grossos e macios. O animal deu uma volta, perplexo, e ficou de cabeça baixa, arfando. Então o homem atirou-lhos. O porco abocou, mastigou sôfrego, engoliu. A mulher disse algumas palavras e os homens encolheram os ombros. Um deles riu. Foi nessa altura que viram o rapaz no limiar da porta. Ficaram todos calados e, como se fosse a única coisa que pudessem fazer naquele momento, puseram-se a olhar o animal que se deitara na palha, suspirando, com os beiços sujos do próprio sangue.” Notou aquele rapaz “no limiar da porta”, testemunha ocular da castração do porco? É o protagonista do conto, que se abre, conforme se lê ao longo de toda a página 131, exatamente assim: “O rapaz vinha do rio. Descalço, com as calças arregaçadas acima do joelho, as pernas sujas de lama. Vestia uma camisa vermelha, aberta no peito, onde os primeiros pelos da puberdade começavam a enegrecer. Tinha o cabelo escuro, molhado de suor que lhe escorria pelo pescoço delgado. Dobrava-se um pouco para a frente, sob o peso dos longos remos, donde pendiam fios verdes de limos ainda gotejantes. O barco ficou balouçando na água turva, e ali perto, como se o espreitassem, afloraram de repente os olhos globulosos de uma rã. O rapaz olhou-a, e ela olhou-o a ele. Depois a rã fez um movimento brusco e desapareceu. Um minuto mais e a superfície do rio ficou lisa e calma, e brilhante como os olhos do rapaz. A respiração do lodo desprendia lentas e moles bolhas de gás que a corrente arrastava. No calor espesso da tarde, os choupos altos vibraram silenciosamente, e, de rajada, flor rápida que do ar nascesse, uma ave azul passou rasando a água. O rapaz levantou a cabeça. No outrolado do rio, uma rapariga olhava-o, imóvel. O rapaz ergueu a mão livre e todo o seu corpo desenhou o gesto de uma palavra que não se ouviu. O rio fluía, lento.” O amigo, enquanto saboreia esse lombinho, há de convir que estamos diante de um conto prenhe de símbolos, recheado de proveito e exemplo talvez decifráveis num competente dicionário à Chevalier & Geerbrandt. Temos ali um rio que se há de atravessar a nado, pois na outra margem uma rapariga nua (sei-o, está à mostra, pois li o conto até o fim) marcou trovadoresco encontro com amigo. À nossa espera, não haveremos de recusar esse convite que se oferece ao fálico remo que carregamos pesado de nossa masculinidade, não é mesmo? Camisa vermelha aberta no peito, a sagrar os primeiros pelos negros da puberdade, haveremos de cumprir galhardamente nosso destino de macho: saciar o cilício e jejum de castradora castidade, quem duvida. As pernas sujas de lama diremos a ela, que sequiosa e nua (e virgem ainda?) nos aguarda na outra margem , talvez provenham do impuro barro de que somos feitos: lodo borbulhante (“lentas e moles bolhas de gás que a corrente arrastava”) no curso do heraclitiano rio da vida. A “ave azul” que, na citação lá em cima, “passou rasando a água”? Confesso-lhe que não sou ornitólogo, nem fui asinha consultar um dicionário de símbolos à cata do sentido. Tampouco invoquei meu Nosso Senhor dos Arcanos. Poupei-o, o coitado anda muito ocupado a dar assessoria a críticos, mestrandos e doutorandos, além de pós- doutorandos. Aquela rã de “olhos globulosos”? Ora, ela ali está, como diz a contracapa de minha edição de Objecto quase, a “escarnecer de ti”, de mim. O meu ilustre conviva já atentou em “Le désejeneur sur l’herbe”, aquela tela de Manet? Já pôs sua lupa nos meandros desse convescote ou piquenique na grama? Eu, por mim, prefiro traduzir, perdoe- se o pão-pão-queijo-queijo da versão, como “De jejum no mato”. Já percorreu o meu ilustre conviva, com olhos despertos e expertos, aquele bucólico cenário em que dois conspícuos cavalheiros estão trajados até à alma, um deles, por sinal, com a bengala retraída na flácida mão? Chegou a reparar que, refestelados “sur l’herbe”, entretidos numa conversação de cunho talvez platônico, ambos estão em pose de ó-nem-te-ligo, não estamos-nem-aí ante o déjeuner (petit?, pequeno-almoço?) representado por duas moças que estão a acompanhá- los? Uma, menos oferecida no alvinitente recato da roupa íntima, ei-la a refrescar-se de seus calores em águas que deveriam estar sendo revolvidas pelos cervos do monte, ou seja (entenda-se a medieval metáfora), por aqueles dois alheados cavalheiros. Outra, que dá pelo nome de Victorine Meurend, (quem não a conhece no meio e na roda?), nuinha em pelo, sentada de perfil, braço direito apoiado no joelho de modo a que o polegar e índice, em forquilha, lhe descansem o queixo, tendo-nos surpreendido aqui fora da tela a frestá-los, está a fitar-nos, olhar oblíquo de Capitu que nos sussurra afinal quem vem salvar-nos, a mim e à minha incipiente colega no ofício, desse “De jejum no mato”, quando suposto era que seríamos o desjejum deles? Meu ilustre conviva nunca tinha desnudado nestes termos a tela de Manet? Então não percebeu que, estando de frente e de olho para a tela, ali bem no canto inferior e direito da moldura, bem no canto inferior e esquerdo do nosso olhar, uma rã dissimula-se, com olhos globulosos. Também ela, no quadro de Manet, a escarnecer de nós? Que sei eu das insídias da memória pictórica dos outros? Apenas me incomodam os insights que tenho da visão alheia... Sabia que o Sr. José Saramago diz ter composto um romance autobiográfico sob a pele palimpséstica de um tal H., que era pintor de retratos alheios? E também desconhecia que andou ele a colaborar num Dicionário da Pintura Universal? Nada estranhável, pois, que aflorem reminiscênicas pictóricas à tona da memória do Sr. José Saramago. Com certeza o amigo lembra da abertura de O Evangelho segundo Jesus Cristo. Apenas uma vaga lembrança? Releia-a então com olhos de enxergar. Aberto o olho às evidências, há-de enxergar, na abertura do citado romance, a descrição de cena estampada na tela “Crucificação de Cristo”, de Albert Dürer. Ah, as personagens principais de Ensaio sobre a cegueira trazem-lhe, platônica reminiscência do déjà vu, a parábola do seis cegos de Bruegel? Bem lembrado. Ut pictura poeisis et descriptio? Como pintura, procuram ser a poesia e a descrição romanesca do Sr. José Saramago? Olha que é isso mesmo o que nos ensina o Manual de pintura e caligrafia, a calcorrear modelos clássicos de letra alheia. ... Mas diga lá. Estou a ouvi-lo, só fechei os olhos para melhor apreciar este vinho, uma delícia não é mesmo?, um português de 1985. Mantém-se encorpado, um terroir perfeito, capaz de tornar qualquer clichê sobre in vino veritas ou sobre quanto mais velho, melhor em verdade. Como? Se “olhos globulosos”, como os da primeira rã, tem o Sr. José Saramago ou se tem ele “olhos redondos sob as arcadas salientes” tais quais o da segunda rã, aquela que aparece à página 133 e cuja boca “ fechada fazia uma prega de escárnio”? Não conheço o Sr. José Saramago pessoalmente, nunca o vi vis-à-vis. Contudo, um amigo meu, dono da Fot’Óptica F. Khom, conhece-a?, pois bem esse amigo andou a retratá-lo e deixou-me aqui uma ampliação. Quer vê-la? À hora do café, do conhaque e do charuto... esse aqui é um Coiba dos puros, faz favor..., à hora ponderosa da digestão podemos entregar-nos aos fumos e vapores da imaginação e da contemplação. Volto já com o retrato. ... Ei-lo. Não é que o amigo teve um insight. Atentando bem, não é que o Sr. José Saramago tem olhos globulosos, redondos sob as arcadas salientes desses óculos? E não lhe nota também uma prega de escárnio na boca fechada? Hum... deixe-me ver... É... Podem-se ver pregas de escárnio na boca fechada... E o que lhe está a grunhir o porco castrado no conto “Desforra”? Bem, já o porco... O porco castrado... Com certeza o amigo já leu Levantado do chão. Pois lá, a folhas tantas, página 145 de uma edição de 1982 da Difel, se a memória não me desampara, escrito está “que se queres conhecer o teu corpo abre o teu porco, porque iguais são.” A afirmação é ousada e herética? Põe em causa a sabedoria do criador? Não é que, sem o saber, o amigo está repetindo quase ipsis litteris o que, escrito, corre a continuar a citação feita? Em todo caso, se tanta gente o repete, verdade será que o criador, ao fazer o homem, fê-lo à imagem e semelhança do porco. Assim sendo, que tal vê-lo, o porco claro, não o criador, como signo de nossa chafurdosa animalidade, aquela que, a exemplo do “Centauro”, precisa ser extirpada para que nos tornemos razoavelmente humanos, capazes de formar humanamente as circunstâncias que nos formam. Talvez assim escapemos também da coisificação que, na óptica do Sr. José Saramago, nos espreita e ameaça, ao ver pelos olhos da epígrafe assinada pela sagrada família composta por Marx & Engels em Objecto quase. E a desforra a que alude o título do conto, de que desforra se trata? Simpósio e não um manual de inquisições literárias deveria ser o repasto aqui oferecido. Concorda que questões indigestas não caem bem à mesa? Ah... Soube-lhe bem a rabanada? Mais parecem fatias do céu, não é mesmo? Mais uma fatiazinha? Aqui está... Regale-se... Bem... A desforra a que alude o título do conto, de que desforra afinal se trata?... Respondo, desculpe, deixe-me terminar de mastigar a pergunta que contrário a qualquer manual de boas maneiras é falar de boca cheia... Creio tratar-se da desforra do rapaz, na puberdade, pondo a funcionar seus testículos antes que o freudiano super-ego do provincianismo social venha castrá-lo, como fizeram ao porco e àquela viúva de Terra do pecado. Afinal, depois de assistir ao espetáculo da emasculação, ele vai ao encontroda rapariga que o espera: “Então, o rapaz meteu-se à água e nadou para a outra margem, enquanto o vulto branco e nu da rapariga recuava para a penumbra dos ramos.” (p. 134) Belo epílogo, não é mesmo?, para a incipiência, o começo, de suas vidas. Auguremos que ambas as vidas não venham a tornar-se insossas. Que tal lhe soube o jantar? Algum prato sem o devido sabor? Estou a me lembrar das consoadas de serão na aldeia de meus avós. A Maria, minha cozinheira, tem mãos de fada e receitas divinas. Por todos os nomes, não é nenhuma Maria de Jesus Caetano Freire, mas serve a contento qualquer Marialva. Em Paris faria escola a ensinar uma substanciosa nouvelle cuisine portugaise. Maria, ó Maria, vem cá. Não seja caipira, mulher. Nosso amigo aqui quer cumprimentar o chef. Minha senhora, beijo-lhe as mãos de fada. Um verdadeiro banquete à Lúculo o seu jantar. Oxente, que luquilo quê, meu nome é Maria. !... Sua filha formou-se em Letras, não é?, quer fazer pós-graduação, defender tese sobre a ficção do Sr. José Saramago? Pois diga-lhe que comece por decifrar a primeira fase, aquela que vai de 1947 a 1979. A fase de seus exercícios de caligrafia literária, a fase de Saramago quase. Quem sabe ela ensaiará, com mais requintado sabor à Montaigne, uma interpretação de Objecto quase bem mais digerível e digestiva do que esta. Pronto, brindemos ao digesto que nos fará sua filha dessa primeira fase da obra saramaguiana. Que tal o charuto? Mais uma copiosa lágrima de conhaque? [SP, 18/3/04 – 10/5/04] Cartas à Redação: foro e desaforo do leitor “Quem dá com a língua nos dentes, às vezes está à procura do siso.” (Incunábulo dos Apólogos) Saudação respeitosa A propósito da nota de rodapé 22 dessa Redação em torno do relato “Coisas” inserido em Objecto quase, quero manifestar a minha opinião discordante porque me vejo diante de uma leitura ideológica, comprometida e, permita dizer, jurassicamente comunista num Mundo, benza-o Deus, dominado pelo vitorioso neoliberalismo capitalista. Lá se lê que a saudação dos utentes com o braço estendido e a mão aberta ─ “quem não reconhece no gesto a saudação nazi-fascista?” Tenho engulhos diante da desinformação do ensaísta por ele não saber que a dita saudação com braço estendido e mão aberta era respeitosa reverência da “Mocidade Portuguesa” à proeminente figura do Sr. Oliveira Salazar, que Deus o tenha à direita em seu eterno e merecido descanso. O tal articulista ignora, pergunto eu, que antes das aulas ministradas à Mocidade Portuguesa havia um ritual de respeito e veneração em que tanto o professor quanto os alunos começavam o dia de pé, pois assim devemos estar ante a Pátria, fazendo uma saudação com o braço estendido e a mão aberta? O dito escrevinhador ignora que, após o professor perguntar três vezes “Quem vive?” e “Quem Manda?”, toda a classe, sursum corda, ou seja (para o entendimento do articulista e dessa Redação) com os corações dirigidos ao empíreo, todos os alunos gritavam o uníssono de seu credo “Portugal! Portugal! Portugal! Salazar! Salazar! Salazar!”? Esse senhor, mais chegado pelo que vejo a uma pingoleta que a uma lição de História, então esse senhor desconhece o ritual a que reverentemente se entregavam os alunos antes de sentarem-se para as lições de como a elite, a nata, o escol daquela juventude havia de gerir os destinos futuros da Nação, quando seus próceres e maiores, jubilados pela Morte ou pelos anos de bons serviços prestados, abandonassem a coisa pública? Lamento que essa Redação acolha no seu seio tal desinformação, comprometida e engajada, claro está. Manuel Joaquim Hoffenmeister, natural de Santa Comba do Dão, agora residente em Santos (SP). Anta Em carta enviada a essa Redação, o leitor Manuel Joaquim Hoffenmeister, ele sim, parece ignorar que a “Mocidade Portuguesa” foi organizada em seu nascimento pelo então jovem professor Marcello Caetano, parafrásico carbono de Salazar, conforme muito bem assinalou essa Redação. O sr. Manuel Joaquim Hoffenmeister revela também uma santa ignorância ao ignorar que a “Mocidade Portuguesa” foi criada, em 1936, à imagem e semelhança das “Juventudes Hitlerianas”, que aliás se deslocaram de Hamburgo a Portugal para dar o exemplo de seu grito e lema nazifascita “Nós não somos nada.” Ignorando tanto, até hoje o sr. Manuel Joaquim Hoffenmeister insiste em ser nada além de uma anta. Em suma, um ignorante. Que Deus nos livre de uma epidemia desses antavírus! Atento Benevides (benevides@atentocom.br), Carapicuíba (SP). Absurdo kafkiano É inadmissível a falta de sensibilidade crítica do ensaísta que tratou do conto “Coisas” [in Objecto Quase]. Ele vê “fissuras” na construção da fábula, exigindo respostas lógicas para um monumental enredo alegórico que foi construído exatamente a explorar o absurdo kafkiano. Mas, na verdade, absurdo kafkiano é o tal ensaísta ser tão desinformado a ponto de não perceber isso e tentar desqualificar o relato desse grandioso autor que é o Sr. José Saramago. Frans Castelo, Praga (República Checa). Lição histórica Ao ler a análise do conto “Cadeira” [in Objecto Quase], percebo algumas incorreções históricas. O ensaísta escreve que o Sr. Oliveira Salazar sofreu aquele infausto acontecimento, a queda da cadeira, em 7 de setembro de 1968. Se o ensaísta tivesse conhecimento do livro Salazar – O último combate (1964-1970), sexto volume da biografia escrita pelo Sr. Franco Nogueira, saberia, tendo lido o referido volume da página 391 à página 445, que (1) a queda da cadeira, aliás de lona, que se projetou para trás com o peso do Ilustre Estadista, ocorreu em 3 de agosto de 1968, um sábado; saberia que (2) os sintomas, intensas e prolongadas dores de cabeça resultantes do hematoma intracraniano subdural crônico, só se manifestaram um mês depois, em 4 de setembro de 1968; saberia, por fim, que 7 de setembro de 1968 é a data em que o Sr. Oliveira Salazar foi submetido, aos cuidados da equipe chefiada pelo eminente neurocirurgião Dr. António de Vasconcelos Marques, a uma operação cirúrgica, data também em que sai uma nota oficial do Governo. Seja por ter ouvido o boletim médico difundido pela Emissora Nacional, seja por se ter baseado em Oliveira Marques (que registra o acidente como acontecido nos “primeiros dias de setembro de 1968”), nada mais natural que o Sr. José Saramago, no conto, se refira à queda como ocorrida vagamente no princípio do outono, pois, não sendo ele historiador, goza da licença poética concedida à ficção. Inexplicável ou inadmissível é que o ensaísta, apresentado como enófilo, não vá se abeberar em fonte fidedigna, como o sexto volume da obra do Sr. Franco Nogueira, evitando assim a divulgação de dados históricos incorretos. Sem outra intenção que não a de contribuir modestamente para a correção histórica do infausto acontecimento que vitimará o Grande Estadista que foi o Sr. Oliveira Salazar, atenciosamente Suspicaz Clio da Costa, Barueri (SP). Aviso à Praça Os leitores querem saber quem foi esse (S?) Franco Nogueira, citado pelo Sr. Suspicaz Clio da Costa como dono único e absoluto da verdade? Foi um salazarista dos quatro costados. Tendo privado da amizade do Ditador, obviamente chegou a servi-lo como Ministro dos Negócios Estrangeiros, cuja pasta deixou em 6 de outubro de 1969. Sabem como é a história: aos amigos tudo, aos inimigos primeiro a PVDE [Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado, 1933-1945], depois a PIDE [Polícia Internacional e de Defesa do Estado, 1945-1969] e por último a DGS [Direção Geral de Segurança, 1969-1974]. Afinal, longo, mais de quarenta anos [1933-1974] durou o Consulado do Terror salazarista em Portugal. Ah, antes que me esqueça: esse Franco Nogueira escreveu seis volumes para nos provar que seu biografado deveria figurar no panteão dos varões de Plutarco. Pode? EstalineMarques, Recife (PE). Exemplo histórico Os meus pais são portugueses, vieram para o Brasil em maio de 1974, e eu, que nasci aqui em São Paulo, sou professora de História no ensino secundário oficial. Os meus pais adoravam o Sr. Oliveira Salazar. Nós temos até um retrato dele na parede da sala, bem no meio do retrato dos meus avós paternos. Os meus pais sempre me disseram que o Sr. Oliveira Salazar foi o Pai da Pátria. O meu pai, professor da Mocidade Portuguesa, ele era um educador tão rígido que nunca nos deixou, minha mãe e eu (infelizmente, não tenho irmãos) vermos televisão, de modos que [sic] no serão, em vez de vermos a novela das oito, ele nos contava a vida e os feitos do Sr. Salazar. Ele morreu faz pouco tempo (meu pai, bem entendido, é que morreu faz pouco tempo.) Agora, sem o serão educativo do meu pai, minha mãe e eu ficamos grudadas no sofá diante da televisão, o que para mim é tempo que não posso perder, pois eu tenho que preparar as aulas ou então corrigir exercícios e provas. Como eu sou professora de História (eu acho que já eu disse isso) no ensino secundário oficial e precisava de uma literatura que, tão científica como a literatura médica que nosso médico do convênio vive citando para curar os achaques de minha mãe e meus, eu precisava de um livro que me contasse tintim por tintim a vida do Sr. Salazar. Não que eu duvidasse de meu pai, que Deus o tenha em sua glória, mas, vocês entendem?, eu precisava de uma literatura científica que baseasse minhas informações históricas. Por meio dessa Redação, graças ao Sr. Suspicaz Clio da Costa, eu vim a saber da biografia escrita em seis volumes pelo Sr. Franco Nogueira. Vocês não imaginam, além da alegria, o sacrifício que me custou o referido livro. Primeiro, eu não conseguia achar o livro. Quando eu achei, ele me custou os olhos da cara, pronto, pois, se calhar, uma fortuna que seria inacessível aos meus parcos proventos de professora do ensino secundário, se não tivesse o comércio inventado a compra por vezes em cheque pré-datado. Mas eu acho que nada disso vem ao caso. Ou é de pouca monta, como meu pai dizia, ao falar da relativa liberdade que havia durante o governo do Sr. Salazar. Ora, miúda, nada na vida é absoluto, tudo é relativo, inclusive a liberdade. Era assim, nesses exatos termos, que ele me respondia quando eu perguntava se Portugal na época do Sr. Salazar era um país democrático e pluripartidário, expressões que eu aprendi no meu curso de História. Mas isso também não vem ao caso. São casos pessoais de pouca monta. O que vem ao caso é eu agradecer ao Sr. Suspicaz Clio da Costa e dizer que, mesmo não tendo lido todos os seis volumes, eu li as páginas que ele indicou [pp. 391-445, do sexto volume] e que tratavam do acidente e da agonia lenta que vitimou o Sr. Salazar. O que vem, pronto, ao caso é eu dizer que o ilustre neurocirugião Dr. Antônio de Vasconcelos Marques, esse sim, por sua capacidade profissional e coragem, mereceria a atenção de algum biógrafo ou romancista. Diante daquele enorme problema, que não era só clínico mas também político, o Doutor Marques impôs a sua vontade e a sua ciência assumindo, imagine só, os riscos de uma operação que precisava de ser feita sem demora ou adiamentos à espera de milagre. Os seus boletins médicos, contrariando a vontade do Governo, só tinham compromisso com a verdade. Se for verdade o que li em Franco Nogueira, o Dr. Marques teria dito aos membros do Governo: “V. Exas. não nos peçam para dizer coisas que não sejam verdade porque nos recusaremos a assinar. Temos as nossas responsabilidades profissionais e há o dever de informar o país da verdade.” Eu fico imaginando o pânico causado com essa história de informar o País da verdade naquele momento crítico em que só a ficção, não é mesmo?, viria a calhar. Esse médico ele não era mesmo gira, pá? Tanto que, por não concordar com a piedosa farsa montada em torno do pobre moribundo, o Dr. Marques acabou por se demitir de suas funções. Lídia Antónia Pomar d’Horta Sobreiro de Oliveira, Santos (SP). Em nome da Democracia Xô, xô, Salazaristas! E ter quem ainda leia biógrafos salazaristas em nome da Verdade! Eu, em nome da Democracia, só queria saber como é que essa Redação reproduz manifestações como as de Suspicaz Clio da Costa e Lídia Antónia Pomar d’Horta Sobreiro de Oliveira. Dirceu Golbery Genoino da Costa e Silva, Brasília (DF). Reminiscência Ao ler “Cadeira” [in Objecto quase], aquela história de um caruncho que vai roendo e corroendo o assento do Sr. Salazar no poder, não é que me lembrei de Barranco de cegos [1961], livro escrito pelo Sr. Alves Redol. Quem leu essa monumental novela vai se lembrar que na “Torre dos Quatro Ventos”, símbolo do mandonismo ditatorial do latifundiário Diogo Relvas, também um caruncho roía e roía, até que no epílogo [Livro Terceiro, O Livro das Horas Mortas], já morto e embalsamado, o vento e o sol da história vai [sic] reduzir esse embrião de Salazar a cinzas. Como toda epígrafe é sempre uma bússola que dá a direção dos intuitos do autor e nos ajuda a segui-lo em direção ao seu porto, bem que o Sr. José Saramago poderia ter antecedido “Cadeira” com a seguinte frase “Para glória dos mortos honorários, Diogo Relvas ali ficava firme na sua cadeira, onde o caruncho roía, roía, impiedoso e malandrete.” (p. 426 da minha quarta edição de Barranco de cegos, 1973) Com esta reminiscência, tomo a liberdade de deixar aqui minha modesta e desinteressada contribuição para o cabal entendimento do conto do Sr. José Saramago. Modesto da Silva e Souza, modestodasilva@.com. V. A noite (1979) Ângelo Ruzzante de Pádua (Encenador e crítico teatral, autor de Luzes e trevas da ribalta) “Durante as noites, a luz apenas dorme. Cabe a ti despertá-la.” (Livro do Desconcerto) 1. Cartaz A Noite de José Saramago Pelo Grupo de Teatro de Campolide Encenação de Joaquim Benite Cenário de António Alfredo Direcção Musical de Carlos Paredes Maio de 1979, noite primaveril, fresca. Pituitárias nostálgicas diriam que esta noite já nem de longe recende aos cravos de abril. Aqueles b(r)otados em 1974 à boca dos fuzis insurretos do MFA, sigla que fardara o Movimento das Forças Armadas contra a ditadura salazarista. À porta do teatro, conversa à toa, de quem deseja enganar ou amenizar a espera do parto. Quem esperou de 1928 a 1974 que se desse à luz a madrugada libertária do 25 de abril, entoada às 00h20 na senha-acalanto de “Grândola, Vila Morena”, palavra-de-ordem do major Otelo Saraiva de Carvalho sob a voz de Zeca Afonso, ora esses não haveriam de desesperar ante as portas fechadas de um teatro cujo palco simplesmente estava a ultimar o cenário da “redacção de um jornal, em Lisboa, na noite de 24 para 25 de abril de 1974”. Convenhamos que o cenário, neorrealisticamente concebido, com gabinete do Diretor, Redação, portas A, B, C, D, esta última dando para a Tipografia, entradas e saídas de uns espaços para outros, ação vista ou relatada num e noutros sítios, ─ convenhamos que cenário de tal envergadura não é coisa que se monte assim num leva essas secretárias e traz aqui aqueles sofás onde hão de sentar-se o Sr. Director e o Sr Administrador. Tampouco se monta aos berros de vai-lá-e-dá-cá as máquinas de escrever e aquele telefone, não me esqueça o telefone, ó José, afinal se trata de linha direta com o “exame prévio”, ora, então não sabes que “exame prévio” era o pomposo nome com que o anabatista Dr. Marcello, assim mesmo com dois ll, rebatizou a censura além do próprio nome, dando ares de que no Poder, em substituição ao Velho que desabara da “Cadeira”, tudo mudava de figura bastando mascarar com neollogismos a carantonha pretérita.Um palco assim, naturalisticamente engendrado, atulhado de acessórios para dar “a ilusão de realidade”, tenham paciência as senhoras e os senhores, bem que demora a montar. Esquecera-se talvez o novel (atenção, revisão, “novel” e não “Nobel”) teatrólogo de que a realidade no teatro é paupérrima ilusão consentida, contrato firmado com o espectador, dois paus bastam para fazer uma canoa ou uma jangada, de pedra que seja. Se o leitor, depois deste parágrafo de dúzia e meia de linhas (ou mais ou menos, depende da econômica e competente diagramação), chegou ao fim sem fôlego, dou-me por pago. Mimetizei o esforço e suor dos camaradas de apoio que, formigas-operárias dos bastidores, tipógrafos das rubricas, puseram a “redacção de um jornal” em cena e não serão chamados ao palco para receber os aplausos ou ovação, no final do espetáculo. Chegaram a dizer, não os formigas-operários dos bastidores mas acadêmicos outros, que o autor da peça era muito impositivo, nas rubricas, na marcação, ditatorial como o PCP estalinista do Sr. Álvaro Cunhal naqueles primórdios redentores de 1975 a 1978, cerceando assim a liberdade expressiva do diretor e dos atores. Intriga da oposição a insinuar subliminar dirigismo ideológico inscrito na minúcia da didascália, equívoco que o novel teatrólogo de então, anos mais tarde, em 1998, já Nobel, há de desfazer, dizendo-nos que esse texto secundário a reger a ação não passa de um ponto de apoio, “modos de orientação do escritor no acto de escrever”. Enfim, vamos e venhamos ainda mais no espaço cênico, não vá ele perder-se, “o autor precisa de saber onde está, como é que as coisas estão a funcionar imaginariamente num palco, para que tenha sentido a entrada, a saída, a presença, o que vem depois. O encenador é livre e sempre o seria evidentemente...” É o que se lê às páginas 115-116 dos Diálogos que o Sr. Carlos Reis travou com o Autor numa edição da Editora Caminho. A malta que está à porta do teatro não sabe dessas coisas que, sibila-cassandra, digo do alto de uma bibliografia passados o quê? dezenove? vinte anos?, tempo de uma maioridade que há de distinguir o novel dramaturgo do Nobel autor. Deixemo-los, pois, a gastar o tempo, enquanto o tempo não os gasta vincando-lhes rugas na credulidade e alma ainda juvenis. Quem o autor? Um estreante no gênero teatral. Nunca ouvi falar dele. Eu cá já li alguma coisa... Maior novidade é dizeres o que tu ainda não leste. Guarda a faca, Nuno, deixa a Norma falar. Claro, a Norma, sempre a Norma, afinal ela faz Letras... ou serás tu competente linguista?... enquanto eu gramo num torno mecânico... (Sr. Encenador, deve-se exigir do ator, nesta fala, stanislavskiana insinuação das competências linguisticas atribuídas ao defensor da Norma.) E tu, sem letras e uns copos a mais de bagaceira, começas a ficar inconveniente. Eu já li umas crônicas desse José Saramago na Capital e no Jornal do Fundão. E foi editorialista do Diário de Lisboa e do Diário de Notícias. No Diário de Lisboa pelos anos de 1972 e 1973. No Diário de Notícias, de princípios de abril de 1975 a 25 de novembro do mesmo ano. Data que pôs fim a todos os sonhos... Então um jornalista que anda a datilografar outras letras... (Um ou outro riso sufocado, porque escarninho, ante a literatice da frase.) Li que a ação da peça se passa nos bastidores de um jornal, na noite de 24 para a madrugada de 25 de abril de 1974. A noite de nossa Revolução Redentora... (Tom sonhador. Precisa mesmo esta “regência da ação”?) Estou eu cá a ver que Redenção foi essa... (Misto de enfado e raiva. Necessária a rubrica para saber o tom e quem falou?) Então o homem, como jornalista, tem lá sua experiência dos intestinos de um jornal durante o Salazarismo. Grande merda... Nuno, caluda. Deixa a Norma falar. Li uns poemas dele, saídos nos livros Os poemas possíveis e Provavelmente alegria. Mas penso que não se sai bem como poeta. Pelo menos eu cá não gostei. Não me apeteceu. E o gajo, Norminha, além das crônicas, dos editoriais e dos poemas tem mais alguma coisa escrita? Que eu saiba, já escreveu dois romances, Terra do pecado, Manual de pintura e caligrafia, um livro de contos, Objecto quase, e um voluminho de título O ano de 1993... Esse sim um objecto quase... Quase... sei eu lá o quê... É prosa, mas uma prosa poética... Gira, porreta... Não entendi nada, mas gostei... Isso é coisa bem da Norma... Não entende nada, gosta, e impõe o gosto... da Norma. Ficção científica esse tal ano de 1993? Olha que o homem tem lá costelas alegóricas no esqueleto... Depois de crônica, poesia, romance, conto... prosa poética... e agora teatro... penso que ele anda à procura de sua mais legítima expressão como escritor. Ah, como eu desejava ter uma filha como essa Norma... Pronto, aí está. Quando uma Norma fala, os outros baixam a orelha... ......................................................................................................... Findo o entremez, maneira encontrada para distrair a espera ou expectativa, antecipo que quem foi assistir à peça teve, cada qual, a sua noite. Enfim, acabou sendo testemunha ocular e auditiva, segundo parecer da Associação de Críticos Portugueses, da “melhor peça de teatro portuguesa representada em 1979 (ex aequo)” 23. Ex aequo? Sim, senhor. Ex aequo. Caraças! 23. É o que se lê em José Saramago – A Noite, segunda edição, Lisboa: Caminho, 1987: volume que compulso e cujas páginas cito. 2. A noite de Maniqueu Vamos lá, Tio Zeca. Conte-nos como foi a peça. Olha que lhe pagamos assento de primeira. Como dizem lá os entendidos dessa coisa de teatro, um assento no ponto do rei. Acende o pavio do homem. Luzes, Ti Zeca, olha só, luzes a acender a candeia do copo. Tire-nos das trevas dess’A Noite. (Corta! Corta! Ora onde já se viu isso?! Dizem os manuais de boa caligrafia literário-ensaística que não se introduz assim ao deus-dará do acaso uma personagem, aqui no caso o Tio Zeca, sem a devida apresentação de praxe. Ora quem és?, por quem sois? Por mais familiar que seja o jeito com que lhe metemos na conversa, ninguém deseja que lhe venham de borzeguins ao leito, afinal biografias e genealogias são prezadas no comércio diário. Descortesia, pois, seria trazê-lo aqui à baila sem o verbete de um cartão de visita. Ainda mais levando em conta o papel que desempenhará com o cabedal de seus conhecimentos. Tio Zeca... ora... bem... Tio Zeca é natural da Azinhaga. Já que o Sr. José-e-só do kafkiano registro civil de Todos os nomes não me trouxe a certidão de nascimento, digamos, inventemos que Tio Zeca, natural da Azinhaga, veio a lume em 1916, dia 16 de novembro. Conta, pois, nesse maio de 1979, ainda 62 anos. Dizem que as paredes têm ouvidos e, acrescento eu, que são inconfidentes. Assim sendo, segredam elas, essas soalheiras paredes das repúblicas universitárias de Coimbra, que Tio Zeca se formou em Letras em 1941. Depois de queimadas as fitas na cerimônia de formatura, escafedeu-se ele rumo a seu cubículo, ao confessionário das quatro paredes, não fossem os estúrdios colegas convocá-lo para a tuna dos fados e guitarradas e melodioso vinho, noite adentro e afora. Compromissado, outro compromisso tinha Tio Zeca. Algum encontro furtivo com rapariga que, andaluza e “liviana”, lhe tornara, por cinco anos a fio e pavio, mais leves e nada bocejantes as noites furtadas às águas do estudo? Lamento frustrar o prezado Dottore, acostumado aos enredos da fácil vida. Mal adentrou o desarrumado tugúrio de sua vida acadêmica, Tio Zeca prostrou-se, genuflexo, ante o retrato, pendurado em seu quartinho da República, do utópico e socialista Antero de Quental, de cuja poesia também se embriagava: haveria de sacrificar-lhe o diploma, oferecendo-o, agônica ironia, como ex-voto a Nossa Senhora de Fátima.Entenda-se lá isso? Quem conhece pelo menos uma das anterianas “Causas da decadência dos povos peninsulares” há de decifrar-lhe o ex-voto sacrificial. À boca pequena, só aqui entre nós, divulgam ainda os ouvidos tuberculosos das paredes de Coimbra que a insustentável leveza de ser Tio Zeca (socialista utópico? já comunista de rósea carteirinha naqueles anos de chumbo do Salazarismo?) não haveria de levá-lo a altos voos, perdigão cujas penas, com risco de serem podadas nas enxovias da ditadura, não haveriam de alçá-lo a nenhuma alta torre. Tanto que nunca conseguiu ser aprovado em concursos ditos públicos para lecionar em liceus como professor de “ensino secundário” entenda lá o Dottore como quiser as aspas do ensino sempre secundário. Por que “ditos públicos” os tais concursos? Ora, vamos lá, não se faça de ingênuo. Difícil perceber que as tais vagas públicas estavam já destinadas aos que privavam com o Poder, donde serem os aprovados privados “privadas”, apetecia dizer do status político reinante, de qualquer cor seja ele, verde ou vermelho? Assim sendo, porque sempre o é, na bacia das almas destinadas ao purgatório vivia Tio Zeca, a esmolar a sorte, a fortuna, o fado, o destino, importa o nome que se dê à buena dicha a que, incréus, agnósticos, ateus ou pífios crentes sem fé, rezamos em segredo ao jogar na loteria desse totobola que é a vida? Que não me ouçam as soalheiras paredes, mas as preces do Tio Zeca, tácitas como deviam ser aos ouvidos dos camaradas ou companheiros(as), foram ouvidas. Um marialva das tunas do tempo coimbrão serviu-lhe de padrinho e sabido é, Dottore, que quem tem padrinho não há de morrer pagão. Não obstante tuberculosos ouvidos sempre atentos, as paredes coimbrãs não me segredaram o apelido do benfeitor. Faça-se, no entanto, justiça a quem fez o bem sem olhar a quem: lançando mão da cunha e lança do Pai em áfrica do Salazarismo, esse anônimo marialva das tunas do tempo coimbrão reabriu para nosso Tio Zeca as portas férreas da Universidade de Coimbra. Resumo da ópera, in nomine Dei, deram-lhe de mão beijada o cargo e função de bedel na Faculdade... das Letras. Gato escaldado com medo de água fria? tosquiada ovelha sem vocação para ser agnus dei de qualquer credo religioso ou político?, o certo é que Tio Zeca veio edificando sua vida de bedel das Letras, a vestir meio modelito de parvo vicentino, meio modelito mefistofélico de Dr. Faustus. Na commedia del’ arte que é a vida acadêmica, assim tipo meio Zanni, meio Dottore, como nós dois, aliás. E à feição de bedel das portas férreas de Coimbra, ora insinuava aos seus meninos como ler a ficção que é esta vida com seus autores, ora lhes fornecia seleta bibliografia para interpretá-los. De onde vinha tanto saber? Nem as paredes confessam. O que importa é que Tio Zeca se tornou para os meninos das Letras coimbrãs doutor honoris causa, das perdidas e das achadas. Honorificamente empossado o Tio Zeca no papel e função que ora aqui lhe cabe, podemos voltar à Noite de Maniqueu. Satisfeito, Dottore? Plenamente, meu caríssimo Zanni. 2. A noite de Maniqueu Vamos lá, Tio Zeca. Conte-nos como foi a peça. Olha que lhe pagamos assento de primeira. Como dizem lá os entendidos dessa coisa de teatro, um assento no ponto do rei. Acende o pavio do homem. Luzes, Ti Zeca, olha só, luzes a acender a candeia do copo. Tire-nos das trevas dess’A Noite. Os meninos de Coimbra querem mesmo saber como foi A Noite e minha noite? Então, pinguem aqui mais um copioso pranto dessa bagaceira... Boa a danada... Cresta a alma... até esta minha alma precita... Se querem ouvir, caluda e chiton. Só me interrompam para reacender o pavio e chama do discurso. Combinado. Sabem lá vossas mercês o que é testemunhar A Noite de Maniqueu? Já vi que, pelo silêncio, vossas mercês têm no pelo menos toga e capelo que eu. Atenção, então. Maniqueu deriva do latim tardio manichaeu, ou seja, sectário de Mani ou Manes. Esse senhor aí foi um persa que, nascido no início do século III d.C. e falecido em Gundechahpuhr, no ano de 273, preocupou-se com a existência (quando não coexistência) do Bem e do Mal e procurou explicá-los. Para a ingente e bizantina tarefa, Mani ou Manes perdeu o sono, a conceber que o universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis, inimigos figadais em eterna rixa e luta: um, essencialmente bom (Deus ou o bem absoluto), simbolizado pela luz; o outro, essencialmente mau (o Diabo ou o mal absoluto), encapuzado pelas trevas. Tal doutrina, tendo encontrado adeptos ou sectários, os maniqueus, assumiu ares de seita religiosa, propagou-se pela Índia, China, África, sul da Espanha e, graças à globalização do sectarismo, ficou sendo conhecida por “maniqueísmo” no mundo inteiro. Ó Ti Zeca, que tem isso a ver com a peça? Tudo. Tanto que fiz da história de Maniqueu prólogo das considerações que seguem, se é que vocês querem mesmo ouvi-las. Avante, Ti Zeca. Letras unidas jamais serão vencidas! Mais uma gotinha aqui para temperar a garganta. Deitar falação sempre seca a saliva. Como não quero adiantar a carroça às alimárias, comecemos pelo título. Os meninos sabem que a “acção passa-se na redacção de um jornal, em Lisboa, na noite de 24 para 25 de abril de 1974”? E um jornal, como era comum na época, amordaçado e comprometido com os interesses da ditadura vigente. Tudo, ao cabo, notícia saída nos conformes do “Exame Prévio” do Dr. Marcelo. Assim sendo, A Noite do título traz ressonâncias para quem queira escutar. Já repararam que jornais, pelo vezo da própria natureza, têm mania de associar seus nomes ao Tempo? É um tal de andarmos às voltas com O Dia, O Diário de, A Tarde, A Semana... Não me espantaria que A Noite, título dessa peça que vocês me pagaram para ver, bem que poderia ser o nome desse jornal onde se passa a ação. Reprodutor das trevas do Salazarismo, natural que o jornal se chamasse A Noite. Longa noite, sabem os meninos, a durar 46 ou 42 anos, dependendo de quando datem seu começo, 1928, 1932... Noite que parecia interminável não fosse, sugere também o título da peça, aquel’A Noite, a de 24 para 25 de abril, quando transcorre a ação. Noite da libertação. Claro que os meninos sabem que a senha do major Otelo Saraiva para a eclosão do movimento saiu, às 00h20 do dia 25, na voz de Zeca Afonso... (Cantarola.) “Grandôla, Vila Morena,/ Terra da fraternidade./ O povo é quem mais ordena/ Dentro de ti, ó cidade.” (Entusiasmados, os “seus meninos” cantam também, regidos por Ti Zeca.) Noite da renascença, de nossa renascença, não lhes parece simbolicamente adequado que o início das operações ecoasse exatamente pela Rádio Renascença?24 Para a história de Portugal, foi A Noite, inflexão que ouço soar no título da peça, sublinhando a importância daquela noite já raiada do rubor da aurora e dos cravos. Se me fiz compreender, o título da peça já é obra de Maniqueu. Nele temos, engalfinhados, xifópagos, o Bem e o Mal, a luz e as trevas. Diário da ditadura salazarista, A Noite, enquanto título do jornal amordaçado e/ou cooptado pelas trevas e mal do Estado Novo, há de digladiar-se contra A Noite revolucionária e redentora da luz, do bem, da renascença inscrita naquela madrugada do 25 de abril. Mais uma lágrima de bagaceira. Os olhos andam secos e quero carpir aquela noite-madrugada perdida. Atesta aí o tanque do Ti Zeca. O maniqueísmo que leio inscrito na sugestão xifópaga do título comprova-se nas personagens. De um lado, os mocinhos. Do outro, os bandidos. Rixa que se vinha arrastando faz tempo e cujo duelo se dará no raiar daquela madrugada. Além dos bandidos e mocinhos, além da turma do Bem e do Mal, havia também a turma da coluna do meio, do nem-estou-aí, do ó-nem-te-ligo, bastam-me o futebol e um transístor para ouvir os jogos e o resultado do Totobola. Aliás, nesse sentido, muito significativa, meus meninos,uma cena em que os dois contínuos, Rafael e Faustino, “aproximar-se-ão da boca de cena e falarão sobre apostas do Totobola, num diálogo à vontade...” 25 Salazar foi sábio, meninos. Sabia que religião, futebol e radinho de pilha são pão, circo e ópio para o povo. Prometeu um Estádio Nacional e cumpriu. Tanto que foi à inauguração26. Sei de fonte fidedigna que ouviu a Copa do Mundo de 1966 num transístor, rogando a Nossa Senhora de Fátima para que um negro moçambicano de nome Eusébio se transubstanciasse num negro brasileiro de apelido Pelé e, com a pátria nas chuteiras (qual pátria? Moçambique? Portugal?), enquanto a Metrópole fazia guerra à FRELIMO, quer dizer à Frente de Libertação de Moçambique, ele, o moçambicano Eusébio, que bombardeasse as esquadras inimigas e fizesse o milagre de tornar o selecionado lusíada Campeão do Mundo. Ah, como aquele título viria bem a calhar, ainda mais capitaneado por um negro moçambicano de nome Eusébio. Seria a 24. Acerca do início das operações, ver Sebastião Nery – Portugal, um salto no escuro, RJ: Livraria Francisco Alves Editora S.A, 1975, pp. 63-64. 25. A noite, p. 36. bênção da tese ultramarina salazarista de que Portugal era um Estado pluricontinental e plurirracial [Ti Zeca assume a partir das aspas tom tribunício, de palanque], “não sendo os territórios situados fora da Europa colônias, mas sim nossos parceiros e fornecedores comerciais, parcelas integrantes do território nacional português e como tal inalienáveis.” [Pausa teatral, expectante, do Ti Zeca. Como resposta, um silêncio de múrmuros e subterrâneos veios que não podem vir à tona.] Ora, que bem esperei, pra mal dos meus pecados, que ouvisse ainda hoje alguém berrar “Portugal! Portugal! Portugal! Salazar! Salazar! Salazar!” Ó, Ti Zeca, assim vosmecê nos ofende... Só posso levar isso à conta de desaforo. Então não conheces os teus meninos? Desculpinha. Foi que me deixei levar pelo peso de uma história de chumbo cujo anzol teima em pescar por mares mortos. Avante com a peça, Ti Zeca. Onde é que parei mesmo? Num tal de Rafael e Faustino, os contínuos, a ouvirem, num transístor, peleja de futebol e o resultado do Totobola. Ora, pronto, lembrei. Antes que esqueça: nessa coluna do meio, além dos contínuos Rafael e Faustino, perfilhavam Pinto, o “redactor desportivo”, Cardoso, “redactor da cidade”, e Monteiro, um outro redator. No time do Bem aparecem escalados: um redator e copydesk das notícias locais, de nome Manuel Torres, ouçam-lhe no apelido a verticalidade e altanaria do caráter da resistência portuguesa; Cláudia, uma estagiária sonhadora, alma virginal no meretrício daquele imprensa prostituída ao Salazarismo; os obreiros da tipografia, Jerônimo, Afonso, Damião. Esses aí os do bem, outros Tom Mix, Buck Jones, Anobiuns, carunchos subversivos que, resistindo contra o status quo ditatorial, vinham solapando a “Cadeira”, aquele objecto quase trono eterno do Salazarismo. Já na horda dos bandidos, perfilam os vendidos ao sistema, os pusilânimes, as hienas e abutres que se alimentavam do cadaveroso corpo da nação portuguesa sob o regime ditatorial... 26. Ver Sebastião Nery, op. cit., p. 87. (Calorosos aplausos e notas de elogio à retórica inflamada do Ti Zeca inaudíveis, é claro, os elogios porque sufocados pela ovação. O que uma boa bagaceira é capaz de incendiar.) ... no bando das hienas e abutres, a camarilha de merda daquela imprensa cuja cor só poderia ser marrom: um tal Abílio Valadares, “chefe da Redacção”, (val’ lá dares tanto assim, ó inábil Abílio?); outro a querer ser unha e carne do diretor do jornal, um tal senhor de nome Máximo Redondo, metonímico e justo apelido para a balofa rotundidade estilística dos editoriais que, círculos viciosos, perpetra, como um intitulado “Cultura e águas turvas”, cuja leitura a peça vai impingir-nos para exemplificar os gases mentais de uma imprensa que tem o rabo preso 27. A completar o triângulo de amor à ditadura salazarista, o administrador dos interesses e compromissos do jornal com o poder entronizado, o Sr. Figueiredo, exagero se vir inscrito no nome o labéu da figueira, árvore genealógica dos traidores desde Judas? Mas não pensem que fica só nesse triângulo formado pelo Abílio Valadares, Máximo Redondo e Sr. Figueiredo o amor ao Mal. Infestam ainda o palco, a “secretária da Redacção”, Esmeralda, (a lembrar-nos o verde, cor-símbolo do Fascismo, estampado na camisa da Legião Portuguesa?) E a cacarejante Josefina, outra secretária, galinha enrustida, sem nenhuma finura. Mai-los os redatores Fonseca, responsável por ser a fonte seca das notícias da Assembleia salazarista; o Guimarães, “redactor do estrangeiro”, logo ele que no apelido alude à terra, Guimarães, onde, que O Bobo do Sr. Alexandre Herculano não me deixe mentir sozinho, Afonso Henriques na batalha de São Mamede, em 24 de junho de 1128, derrotou a mãe entreguista, vade-retro Satanás, mai-los seus espanhóis, que os derrotamos também em 1383 e 1640. Pode um redator vendido ao estrangeiro chamar-se Guimarães, topônimo de onde nasceu Portugal? Nossa jangada de pedra, desprendida da angústia dessa ibérica península, tem outro rumo. O dos ares e maresias atlânticas. Assim sempre o foi, desde nosso Infante D. Henrique, sagrado no Promontório de Sagres, a fitar a distância do que fomos e somos, olho marejado do azul oceânico... (Estrondosas palmas acesas no rastilho da bagaceira. O rubor patriótico crepita em faces e nos gestos amplos, moscovitas, que entornam copos na goela e na mesa. Boas 27. Ver A Noite, pp. 37-38. lembranças afagam Tio Zeca, enquanto aproveita para tomar fôlego. Pouco a pouco se vai adensando um silêncio expectante. Não é que ainda querem ouvi-lo?) O conflito maniqueísta fica visível em duas cenas. Uma no começo da peça, outra já perto do epílogo. Na do começo, o antagonismo Bem versus Mal se instala para gizar o conflito entre os obreiros da resistência e os vendidos ao sistema, quando Jerônimo, o chefe da tipografia, contesta a hierarquia, aliás muito prezada e cultivada no jornal, ao desafiar o autoritarismo ditatorial do chefe da redação, o tal Valadares, tomando-lhe as notícias enviadas pelo correspondente da Guarda. Parece que estou vendo de novo a cena em seus pormenores: “Valadares: Eu ainda não decidi definitivamente se a notícia sai ou não sai! Jerônimo: Está a dar o dito por não dito. Mas, sendo assim, ainda melhor! Se decidir que sai, só tem de me mandar avisar. Se decidir que não sai, no lixo estava, para o lixo vai. Até rimei... Mas antes ficarei a saber o que diz o correspondente da Guarda... Valadares: Vejam todos a questão que se está aqui a levantar por causa duma porcaria duma notícia!... Jerônimo: Não é por causa da notícia, é por causa das atitudes que o senhor toma. Aqui e lá dentro, se precisa que lho lembre. Valadares: E se eu participar de si à Administração? Fique sabendo que é a vontade que tenho... Jerônimo: Faça isso, faça. A pasmaceira é tanta nesta casa que até serviria para distrair a rapaziada. (Sai.) [Valadares fica sufocado. Os redactores vão reagir diversamente. Esmeralda (secretária da Redacção), Guimarães (redactor do estrangeiro), Fonseca (redactor parlamentar), Cardoso (redactor da cidade), e Josefina (sem responsabilidades particulares), estão claramente e explicitamente do lado de Valadares; Torres e Cláudia, a estagiária, apoiam silenciosamente o Chefe da Tipografia.]”28 A apoteose maniqueísta já esta figura quase no final da peça. As trevas da noite que era aquele jornal vão dissipar-se com a notícia redigida pelo altaneiro Torres29 de que raiara a madrugada do 25 de abril. Cena porreira, gira mesmo, meninos de Coimbra. 28. A Noite, pp. 26-27. Inclusive pela marcação balética da rubrica que o encenador obedeceu, seria ele adepto da teoria do “Teatro do Autor”? Recrio-lhes a cena, tintim por tintim nítida em minha memória. Afrontando os balofos protestos do diretor do jornal (─“Ordeno-lhe que me entregue esse papel! Olhe que se arrepende!”), uma vez mais Jerônimo, o contestatório chefe apache da tipografia, tira das mãos do altaneiro Torres a nota de que o golpe contra o Salazarismo e o parafrásico Marcelo Caetano já chegara às ruas e aos corações. Faltava apenas a confirmação do jornal, ardina do ontem que, saído na manhã que nasce, se quer futuro, embora não se saiba por quanto tempo. Jerônimo e seus camaradas da oficina, Afonso e Damião, retiram-se vitoriosos, levam a notícia de uma esperança: “Torres e Cláudia abraçam-se, rindo, ela também chora, ele lança palavras precipitadas, descreve o que viu, e não é nenhuma descrição que se aproveite: apenas um tropel de frases. Os restantes vagam, aturdidos. Sentam-se, estão de pé, não compreendem nada, já compreenderam tudo. Sabem que perderam. Mas nota-se uma espécie de movimento coloidal. Começam a formar-se grupos, há uma ondulação balética, e nesse passar e repassar os iguais encontram-se com os seus iguais. Perto do gabinete, reunidos, acabarão por se encontrar o Director, o Administrador, Fonseca, Guimarães, Josefina, Esmeralda. A meio caminho entre este grupo e o do meio, Valadares, como perdido no espaço. Ao centro estarão Pinto, Cardoso, Faustino, Monteiro, Rafael. No extremo, como vontade que precisamente se quis extrema, Torres e Cláudia. Neste entretanto, ouvem-se palmas e vivas, a alegria confirmada da Oficina.” 30 Pronto, ganharam os mocinhos, Tom Mix, Buck Jones, os anobiuns do Bem. Ganharam a noite, primeira, de um jornal que amanheceria virgem, são e salvo dos estupros de um “Exame Prévio”, prevenção urologógica ou ginecológica contra os desvios fálicos ou uterinos de uma Nação insatisfeita 31. Grande final operístico, a lembrar o “Bolero” de Ravel (Tio Zeca vai regendo a orquestração de seu discurso...), a peça terminará ao som crescente da rotativa, linha melódica, compasso, sei lá, a marcar o ritmo do jogral entoado 29. A noite, p. 112. 30. A noite, pp. 113-114. 31. Note-se que, em A noite, “Exame Prévio”, eufemismo criado por Marcello Caetano para a censura salazarista, é matéria de chacota, na página 30, identificada aos exames ginecológicos e urológicos aconselháveis com vistas a um saudável consórcio matrimonial. Não me venha, de borzeguins ao leito, um pelos partidos da direita, do centro, da esquerda: “(Começa a ouvir-se um barulho surdo, ainda longínquo, como um trovão no horizonte. Irá crescendo aos poucos, sem abafar as palavras derradeiras, e só depois da última se tornará atroador. É a rotativa. Pelo fundo, pela porta da tipografia, entram os operários, com Jerônimo, Damião e Afonso à frente.) Jerônimo: (Avançando com os companheiros na direção de Torres e Cláudia) A máquina já está a andar! Todos juntos: (Em tons diferentes) A máquina já está a andar! Grupo do Administrador: (Começando em surdina e alternando com o grupo de Torres) Há-de parar! Há-de parar! Há-de parar! Há-de parar! Grupo de Torres: (Mesmo jogo) Andar! Andar! Andar! Andar! (O ruído da rotativa cresce) Grupo de Pinto: (Ansiosamente) E se parar? E se parar? Grupo de Torres: (Levantando o punho cerrado e logo a seguir estendendo o braço obliquamente para o chão, com o dedo indicador apontando.) Tornará andar! (A frase será seca, cortada, decisiva, sem réplica.) (O barulho da rotativa cresce bruscamente, até se tornar insuportável. Corte súbito. Escuridão. Luz forte sobre o grupo de Torres.) Grupo de Torres: (Voz natural, mas intensa) Tornará a andar!” 32 (Sem dúvida tomado pelo entusiasmo do próprio relato, “levantando o punho cerrado e logo a seguir estendendo o braço obliquamente para o chão, com o dedo indicador apontando”, Tio Zeca proclamará:) E “FIM”, meninos! (A frase também será “seca, cortada, decisiva”, mas não posso acrescentar que “sem réplica”. Pois não minto se lhes relatar que os meninos de Coimbra e mais uma curiosa audiência que se foi formando à medida que o Tio Zeca, já trepado numa mesa, tribunava, todos, uns em lágrimas, outros fungando copiosas corizas, alguns com olhos avermelhados, mas, enfim, todos, ressalvadas apenas as maiores ou menores expansões da emoção, todos, gorgomilo emocionado já se me embarga a voz do discurso, todos espermatozóide guerrilheiro fecundar um nossa-senhora-de-fátima-útero virginal. aplaudiram de pé Tio Zeca. Vade-retro, Satanás do Cepticismo. Não vou aqui dizer que tal e tamanha ovação não seja sincera, que não passa de pavloviana expressão de fingida inteligência ao fim dos espetáculos: não vá pensar a plateia, aplaudindo furiosamente de pé, que fui o único a não exultar, degustar e entender!) 3. Didascálias Do grego didascalia, ensinamento. Posto em moeda corrente, didascalia = indicações cênicas ou rubricas. Quer dizer, instruções dadas pelo autor ao encenador e aos atores para a transposição cênica e interpretação do texto dramático. Facilmente indentificáveis pois grafadas as mais das vezes em itálico, não vá confundir o leitor a voz das personagens com a do autor mera convenção gráfica, porque no fundo, aqui entre nós, não nos ouçam as soalheiras paredes, tudo é uma única e mesma voz, a do autor, fazendo uso das artes de sua ventriloquia. Esclarecido o termo, assente-se que algumas didascálias aqui (ou rubricas garatujadas, criptográficas, ininteligíveis, como se quer toda rubrica ) são minhas, as do encenador desta pantomima crítica (ou desta commedia dell’ arte ensaística), a dar indicações para a interpretação do texto dramático que, aqui em pauta, é A noite, do Sr. José Saramago. Despenhado no mise en abyme deste meu texto, eis-me, com lentes multifocais, a ver (e a reproduzir-lhes) a visão emocionada e impressionista que Tio Zeca tem da óptica (hipermetrópica?) do autor de A noite. Comediante à Diderot (entenda-se: anestesiado de qualquer identificação com minha personagem), tendo-me decidido por esta pantomima crítica ou commedia dell’ arte ensaística , natural seja que hão de os leitores, coadjuvantes desta encenação, ver-me aqui alternando a máscara, veste, discurso e indústria ou do precioso Dottore com seu às vezes acaciano academicismo ou do faminto e beberrão Zanni, criado esperto e espirituoso, condutor da intriga que se vai urdindo. Pago pelos já nossos conhecidos meninos de Coimbra, para, por piada ou partida, assistir, em assento privilegiado, o do ponto do Rei, o espetáculo daquel’ A noite do Sr. José Saramago, não poderia o Tio Zeca, por mais prodigiosa memória que tivesse (embora 32. A noite, pp. 114-116. nos desse prova cabal dela a rever, ipsis litteris, cenas inteiras), não seria cabível pudesse ele assinalar detalhes (passe aqui o galicismo), sublinhar pormenores (por maiores que venham a sê-los na intenção compromissada), destacar de cor, vivo vermelho de sua empatia (no coração, o pulsar da memória?), minudências ou intenções de uma didascália. Façamos justiça, verdade creditada a seu favor,Tio Zeca assistiu à peça com a pormenorizada atenção que houvemos a oportunidade de testemunhar. Contudo, sem ter lido a primeira edição, saída pela Editora Caminho no mesmo ano de 1979, ou a segunda de 1987, que tenho em mãos, inverossímil seria pôr-se ele aqui a esmiuçar as rubricas semeadas ao longo do texto com o intuito de nos provar seu ponto ou seja, que A noite do Sr. José Saramago é uma peça maniqueísta ou, se preferirem seu colorido discurso, que se tratou de uma noite de Maniqueu aquela que lhe fora proporcionada pelos meninos de Coimbra. Assim sendo, em nome da verossimilhança e cumprindo minhas funções de Dottore e Zanni, asseguro-lhes que, aberta sob óculos multifocais a edição de 1987, as rubricas de A noite, para além do maniqueísmo que inscreve nas personagens, não conseguem disfarçar seja a tomada de partido do Autor seja o vezo narrativo-descritivo próprio de um ficcionista, mas incaracterístico num texto verdadeiramente teatral. Natural, seja por estar de olho no palco seja pela inflamação óptica do relato, que Tio Zeca, aquando da formação balética dos grupos de direita, de centro e de esquerda, não pudesse ler, na rubrica, que “os iguais encontram-se com seus iguais” (fraternidade e igualdade sem liberdade); que “no extremo, como vontade que precisamente se quis como extrema”, estarão Torres, Claudia e, logo em seguida, os obreiros da tipografia; e que os subservientes ao regime ou os alienados, vagando ali no palco aturdidos, “não compreenderam nada, já compreenderam tudo”. Olho vivo e perspicaz, Tio Zeca bem que lhes percebeu o aturdimento, não dos meninos de Coimbra mas das personagens, entendido seja, bons eram os atores, porém ler em seus movimentos e semblantes que, oximoristicamente, os de direita ou de centro “não compreenderam nada” e, simultaneamente, “já compreenderam tudo”, era exigir demais de seu memorial descritivo- narrativo, a não ser que se concedesse a ele, Tio Zeca, mero assistente do visível e audível mas não do literariamente legível, as artes da obstetrícia psicológica, esse fórceps ou cesariana da onisciência autoral. Sabido é que toda peça, mesmo que não queira, acaba sendo serventuária (melhor seria “serviçal” pelas ressonâncias subservientes?) das rubricas do autor. Nelas, o foco- narrativo, o ponto-de-vista do senhor-todo-poderoso. As rubricas (ou didascálias) de A noite do Sr. José Saramago não fogem à regra do compromisso ou engajamento que nelas se inscreve: tatuagem na pele das personagens e ação apenas visível ou perceptível, nunca literariamente legível. Já na abertura do primeiro ato a descrição da redação deixa ver, na sugestão da atmosfera, o dedo do ficcionista e não do teatrólogo: “Profunda impressão de tédio, de rotina, de noite igual a outras.” Marasmo que, descontada a guerrilheira ação consignada pelo Autor ao Jerônimo-chefe-apache-da-tipografia, só será abalado no final desse mesmo primeiro ato, quando soar a senha de “Grândola, vila morena”. Na orquestração da rubrica do Sr. José Saramago, a criptográfica palavra-de-ordem do major Otelo Saraiva na voz de Zeca Afonso terá o teatral condão de ferir as cordas histéricas de Valadares, o preposto testa de ferro ou cabeça de bagre à cabeça da redação daquele jornal subserviente ao Salazarismo. (Acabo de reler o período anterior, fremente de indignada retórica. Cáspite, como rubricas, que vêm gizando personagens e ações, podem influenciar nosso ânimo a favor ou contra! Começo a entender agora toda a inflamação empática (e hepática) do Tio Zeca que, não obstante a clareza com que viu naquel’A noite a noite de Maniqueu, acabou partidariamente engolfado por ela. Caluda, Zanni e avante, Dottore! Meta aí dois pontos seguidos da citação que interessa, aquela a caracterizar a histeria autoritária do chefe da redação!): “Valadares (num berro): Faustino! (Faustino, que está na Redacção, dá um salto. Quer desligar o transístor, mas engana-se, e aumenta bruscamente o volume do som.) Voz do locutor: Grândola, vila morena! Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena/ Dentro de ti, ó cidade. (Ranger forte das botas na terra. A voz de José Afonso começa a cantar.) Valadares (Que primeiro pareceu aturdido, vem à boca de cena, desvairado, tapando os ouvidos): Desliga-me isso! (É um grito de quem não sabe, seria o grito de quem soubesse.) (Corte súbito do som. Escuridão.) FIM DO PRIMEIRO ACTO” (Andiamo via, Dottore. Sublinhe para os leitores a intromissão do Autor ao registrar que a ordem do Valadares “É um grito de quem não sabe, seria o grito de quem soubesse.” Diga-lhes que, ao cabo, se trata de uma notação sem nenhuma função cênica, invisível aos olhos da plateia, simplesmente a marcar a presença poeticamente sibilina do Demiurgo.) Não obstante uno, acabo de surpreender-me múltiplo: eu, Tio Zeca, Dottore e Zanni. Contudo, juro-lhes, genuflexo ad altarem dei desta commedia dell’arte ensaística, que não sou pessoa(s) a sofrer de esquizofrenia, ressalvada naturalmente aquela que acomete todo dramaturgo ou ficcionista. Aliás, neste livro polifônico (bakhtiniano?) que venho ajudando a engendrar, sou (sua bênção, Gil Vicente!) todo mundo e ninguém. Comediante à Diderot leia-se: a(u)tor , são as vozes aliciantes da didascália que conformam e conduzem meu ser e ação. Assim como, páginas anteriores, guiaram a empatia hepática do Tio Zeca. Dito isso, crendo estar exorcizado do demônio da rubrica que me conduz... (Avante, Dottore, sem essas artimanhas de Zanni! Cumpra seu papel. Traga à colação trecho da rubrica que, à página 61, abre o segundo ato.) Pronto, Berzebu (ou serás Dinato?), já cá está: “A Redacção está tranquila. Não é o tédio habitado do primeiro acto, é antes o abandono fatigado de alguma coisa que se acabou.” Uma vez mais a intervenção do narrador a colorir a atmosfera numa rubrica que pouco ou nada tem de funcional para o palco. Vislumbra-se a invasão de uma onisciência característica do discurso romanesco. O ficcionista sobrepõe-se ao dramaturgo. Podem, é certo, os atores passar-nos a impressão ou sensação do “abandono fatigado de alguma coisa”, mas não sabem as personagens ainda que coisa é essa “que se acabou”. Tanto que elas, direitistas, centristas ou esquerdistas, pensarão tratar-se de outro 16 de março, como se lê às páginas 68-69: “(Entra Torres pela porta C. Josefina junta-se apressadamente ao grupo dos homens. Murmuram. Sente-se que Torres faz um tremendo esforço para se dominar. É como um motor que procurasse reprimir a vibração que resulta do seu próprio movimento.) Torres: (Tenso, parando junto de Cláudia, mas sem a olhar) Vem comigo até à janela. Não digas nada, vem. (Torres chega-se à boca de cena. Cláudia aproxima-se e fica ao lado dele. Ambos muito direitos. Podem falar alto porque houve uma mudança de nível, um salto no tempo, a história moveu-se. Por enquanto ninguém os ouvirá na Redacção.) Torres: Vieram dizer-me que há deslocações de tropas em quase todo o país. Lisboa está a ser cercada. Cláudia: (Após um silêncio de voz estrangulada) Que tropas? Contra quem? Tem a certeza de que é verdade? Torres: Quem mo veio dizer, sabe o que diz. Desta vez, o governo vai-se abaixo. Cláudia: É outro 16 de março... Torres: Não creio. Agora é a sério.” 33 Os grifos na didascália do Sr. José Saramago correm à minha conta. Visam a chamar a atenção para a inconveniente presença e part pris do Demiurgo, ainda mais considerando que A noite não se constrói como teatro épico, categoria que permite as intrusões e o didatismo engajado de um narrador-comentador. Que a rubrica oriente o ator para que nos faça sentir “que Torres faz um tremendo esforço para se dominar”, está ela a cumprir sua missão. Informar, contudo, que o esforço que vem fazendo para conter-se é o de um “motor que procurasse reprimir a vibração que resulta do seu próprio movimento” é notação despicienda,porque imperceptível para a plateia, e mais um sinal de que o ficcionista sobrepuja o dramaturgo, sufocando-o. Tendo-se devotado à crônica, poesia, conto e romance desde sua estreia em 1947 (com Terra do pecado), acostumado, pois, às efusões poéticas, dissertativas e narrativas, compreensível, mas não justificável, que o tom épico se 33. “Toda a preparação técnica e militar do golpe ficou restrita a um número pequeno de oficiais. Com várias manobras de contra-informação, associadas à preocupação da Pide (agora Direção Geral de Segurança – DGS) com o anúncio das oposições clandestinas de um primeiro de maio ‘vermelho’, os revolucionários lograram apanhar o governo de surpresa no dia 25 de abril. Antes disso, outro fator, aparentemente uma derrota, auxiliou o efeito surpresa: o golpe falhado de 16 de março. Neste dia, uma coluna de soldados e oficiais sublevados saiu do regimento de infantaria 5, das Caldas da Rainha, e se dirigiu a Lisboa. Vendo-se isolados e sem apoio de outras unidades do exército, os revoltosos foram obrigados a retornar para serem presos. Liderada por oficiais milicianos e, supostamente, mais próxima do general Spínola, essa revolta apenas preparou o 25 de abril.” (Lincoln Secco, A Revolução dos Cravos, SP: Alameda, 2004, p. 116.) Ver também a obra já citada de Sebastião Nery, Portugal, um salto no escuro, pp. 56-58. imiscua e venha a contaminar essa primeira experiência teatral do Sr. José Saramago. Entendamo-nos, meninos de Coimbra. Trata-se A noite de uma experiência teatral que, obediente às angústias da unidade de tempo (“na noite de 24 para 25 de abril de 1974”), de espaço (“redacção de um jornal, em Lisboa”) e de ação (conflito Mal, noite, trevas do Salazarismo, versus Bem, madrugada, renascença redentora), além de buscar a comunhão catártica dos espectadores na jogralesca cena final, trata-se A noite, pronto, enfim, de uma peça que foi construída de acordo com a receita da dramática aristotélica. E não segundo a fórmula épica, brechtiana ou piscatoriana, em que pese o cunho politicamente engajado que se lhe imprimiu. Analise-se o outro trecho e ver-se-á que o engajamento político mais os vezos narrativo e o dissertativo retornam a assinalar a incipiência dramatúrgica do autor: “(Torres chega-se à boca de cena. Cláudia aproxima-se e fica ao lado dele. Ambos muito direitos. Podem falar alto porque houve uma mudança de nível, um salto no tempo, a história moveu-se.)” Busque-se num dicionário-sabe-tudo os sentidos para “direito” com sua teleologia adjetiva, substantiva ou adverbial. Com paciência (longo o verbete, meu caro Zanni,) haveremos de registrar, para além de uma postura “vertical”, “ereta”, significados outros (mais politicamente corretos?) para “direito” como : “que segue a linha reta”, “que segue uma determinada direção e não se desvia dela”, “reto, justo, equitativo, honrado, íntegro”... Chega ou precisa mais? Suficiente a coloração engajada de Torres e Cláudia, “ambos muito direitos”? Assim como o são, ainda segundo a peça, Jerônimo-o-chefe-apache-da-tipografia mais seus camaradas Afonso, Damião. Não estranha que, na apoteose da peça, orgástico epílogo de “Bolero” à Ravel, segundo Tio Zeca, a palavra final, definitiva, sem réplica, caberá ao “Grupo de Torres” e não, note, ao grupo do Torres. Direito, vertical, reto, justo, equitativo, honrado e íntegro será, na óptica do dramaturgo, o grupo de Torres formado pela guerrilheira resistência dos Tom Mix, dos Buck Jones, dos anobiuns, codinomes, assim como o podem ser Torres, Cláudia, Jerônimo, Afonso, Damião, nomes quase, mas os nomes que têm porque lhes deu o Autor ao batizar os obreiros do desabamento da “Cadeira”, da ex cathedra ditatorial de Salazar e seu, naquele 1974, parafrásico Marcello. Não se tratando de outro abortado 16 de março (traz Torres essa convicção, basta rever-se a rubrica grifada lá de cima), pode agora o grupo de Torres falar alto: “Podem falar alto porque houve uma mudança de nível, um salto no tempo, a história moveu-se.” A história moveu-se. Disse-o o Sr. José Saramago nessa peça de 1979 à orelha do encenador (nos bastidores?), aos olhos de quem viesse a lê-lo. Contudo, palavras ao vento porque inaudíveis na plateia, surda às efusões narrativas ou dissertativas de qualquer rubrica, por mais ponderosa ou engajada ou poética que possa ser. Não sei se tanta certeza têm os que foram à estreia de A noite ou tem hoje o Autor, neste 16 de junho de 2004, data em que, Dottore até este momento exorcizado das intrigas inconvenientes do Zanni, assento estas precisas linhas. A dúvida inscrita nos períodos anteriores veio-me inoculando o Tio Zeca, aqui e ali, não obstante o vivo vermelho da emoção de seu testemunho. Verdade que hoje em Portugal podem falar alto. Verdade que houve uma mudança de nível, um salto no tempo, pois a história moveu-se, como sempre se move. Resta saber se neste junho de 2004, apesar de a história ter-se movido, houve realmente um salto no tempo, capaz de propiciar uma mudança de nível, e não Um salto no escuro de outra noite como, inconscientemente, antevira Sebastião Nery no título de seu livro, já aqui citado, saído em 1975, quando estava a fazer um ano o crianço da Revolução dos Cravos. (Zanni invade a cena desta commedia del’arte ensaística. Quer pegar a pau o Dottore, dar-lhe uma corrigenda, para que aprenda a não se deixar levar por digressões acacianas imponderáveis, tamanha a leveza de seu ser filosófico. Não importa que a queda do muro de Berlim (9/11/1989) seja a vitória do Liberalismo oitocentista renascido, daí ser um Neoliberalismo triunfante; não importa que todo operário desde sempre tenha por anelo ser, no mínimo de seu salário, um pequeníssimo-burguês a serviço do selvagem mas triunfador Capitalismo... São verdades históricas (de peso acaciano) paridas desde o manifesto comunista de Marx... Tudo bem... Mas interromper o fluxo de consciência crítico-ensaísta, ah, isso não! E como fica o leitor, abandonado lá em cima, perdido o fio da meada-ariadne? Zanni sou eu, o criador das barafundas. Não me venha o Dottore, homem duplicado, roubar-me a identidade! Taí, gostei do foco desta rubrica num estilo indireto-livre. Voz de quem sou eu o outro?) 4. Dramaturgo involuntário Maniqueísta no enfoque engajado, minotauro dramatúrgico, meio aristotélica na obediência às unidades de tempo, espaço e ação, meio brechtiana nas intervenções épicas e compromissadas das rubricas , assim saiu, para quem tenha olhos de ler, A noite, primeira experiência teatral do Sr. José Saramago, cujos dois atos, esclareceu-nos Tio Zeca, tratam, o primeiro, da noite do passado, o segundo, da aurora (sempre esperançosa) do futuro, ato em que o Sr. José Saramago propõe às gerações vindouras de um jornalismo por renascer a questão deontológica Que fareis com esse vosso jornal?34 Ante injunções político-censórias da roda da fortuna, sempre incerta, imprevisível, a rotativa desse vosso jornal e da História há-de parar? E, se parar, senhores, que fareis com a rotativa desse vosso jornal e da História? Tornará a andar? Em A noite vai ganhando feição e corpo o compromisso cívico e político da literatura do Sr. José Saramago, cujos vagidos começaram a ouvir-se em Manual de pintura e caligrafia (1977) e nalguns relatos de Objecto quase (1978), como “Cadeira”, “Embargo”, “Refluxo”, “Coisas”. Sr. José Saramago: “O meu objectivo era falar do compromisso na literatura, melhor dizendo, do compromisso cívico e político (não necessariamente partidário) do autor com o tempo em que vive.” 35 Só que uma epígrafe, como, por exemplo a de Objecto quase, tirada de A Sagrada Família de Marx e Engels, pode denunciar o compromisso partidário do engajamento cívico e político. Lembro-lhe, se me permite a impertinência, que todo engajamento cívicoe político sempre é partidário, não importa a cor do Partido. Juro que não vou disparar-lhe um “Então vossemecê agora quer fazer da literatura panfleto?” , odienta pergunta que o Senhor abomina e que por delicadeza não faria, ainda mais considerando que A noite, escreveu-a o Senhor, não é verdade?, a pedido de Luzia Maria Martins, que o achou “capaz de escrever uma peça”, conforme se lê na dedicatória do volume que tenho em mãos. (Boa 34. A mesma questão deontológica que um ano depois, em 1980, será título de uma outra peça, essa a respeito de Os Lusíadas : Que fareis com este livro? Ler, com olhos críticos de ver, sempre é um compromisso. A que este livro não se furta. 35. Cadernos de Lanzarote, SP: Companhia das Letras, 1998, p. 409. companhia a dos amigos, sempre uma dádiva tê-los, a afagar-nos, com incentivo e elogio camaradas, o ego criativo.) Trazendo no currículo poesia, crônica, conto, romance, ainda mais tendo trabalhado no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias, de onde saíra em novembro de 1975, conhecedor, pois, dos intestinos da redação de um jornal, ora, vamos lá, por que não se aventurar pela escrita teatral compondo uma peça de teatro cujo tema ( Deontologia e Jornalismo, se bem o pesco) abre pauta para a discussão sobre liberdade de imprensa, censura, subserviência jornalística a interesses político-econômicos... Sr. José Saramago: “Disse-lhe [a Luzia Maria Martins] que não, primeiro porque nunca tinha feito teatro, não sabia como é que se fazia, nem nunca fui grande leitor de teatro. Mas passados dois dias, tive a ideia de que talvez a coisa fosse possível, desde que eu colocasse isso na noite de 24 para 25 de abril e assim nasceu a peça. Entretanto, A noite não foi posta em cena pela Luzia Maria Martins, mas pelo Joaquim Benite.” Aí está a explicação para a incipiência dramatúrgica de A noite: “ [...] nunca tinha feito teatro, não sabia como é que se fazia, nem nunca fui grande leitor de teatro.” Contudo, escrever e coçar sabe-o tu, Zanni? é só começar. Pruridos incoercíveis. Ainda mais quando, profissional das letras próprias ou alheias, precisamos escrevê-las ou traduzi-las para a sopa e o pão diários. Obras de pane lucrando, diz o latinório. (Pense bem, Dottore, no que vai dizer acerca dessa primeira experiência dramatúrgica do Sr. José Saramago. Não vá saltar-lhe à jugular da veia teatral. Não vá esquecer que já lhe justificou o fato e necessidade de tentar ser naquele 1979 um escritor profissional...) Em verdade nada direi. Deixarei que o digam por mim citações autocríticas do próprio Sr. José Saramago. Como vês, meu caro Zanni, estou a esforçar-me, procurando entender o que se passa na caverna do inconsciente do Sr. José Saramago nesses anos formativos de 1947 a 1979. Agora, por exemplo, não estou indo à jugular de sua veia teatral. Talvez porque meus caninos saibam-na carne de pescoço, diagnóstico aliás partilhado pelo próprio Autor. No dia 6 de junho de 1994, em página do segundo volume de Cadernos de Lanzarote, o Sr. José Saramago definiu-se como “dramaturgo involuntário”, “pedindo escusa às pessoas do ofício pelas vezes que me intrometi na sua área de trabalho sem ter para isso a justificação do talento”. E um “dramaturgo involuntário”, esclarecerá ainda, desta feita em 1998 , porque (cito com devidas aspas) “Todas as peças de teatro que escrevi resultaram de convites e de propostas, desde A noite, que me foi pedida pela Luzia Maria Martins...” [...]”.36 Não obstante, deve ter tomado gosto pela experiência teatral. Tanto que reincidiu com Que farei com este livro? (1980), A segunda vida de Francisco de Assis (1987) e In nomine Dei (1993). De pane lucrando37 . Que profissional da escrita seria hipócrita ao ponto de dizer deste pão não comerei, deste vinho não beberei? Ora, vamos lá, Dottore, responda-me a isso? Não lhe respondo nada, Zanni. Deixo a resposta a cargo e responsabilidade do próprio fautor dos cometimentos teatrais: Sr. José Saramago [em diálogo com Carlos Reis]: “O que eu quero dizer é o seguinte: é que o facto de ter escrito quatro peças de teatro não só não me leva a considerar- me dramaturgo, como não me dispõe a escrever qualquer outra coisa sob a forma teatral”. Gravou a resposta, Zanni? Amanuense de conta-corrente, a registrar livro de haveres e deveres literários, tomo a autocrítica do Sr. José Saramago, sua mea culpa... Não lhe parece, Dottore, que mea culpa é inadequado latim de igreja para autor que se diz ateu? Vá lá... Amanuense de conta-corrente, a registrar livro de haveres e deveres literários, tomo a autocrítica do Sr. José Saramago... Tomo-a... pronto... como palavra de compromisso assumido. Apesar do rosto escanhoado com que se nos mostra nos retratos, tomo-lhe a promessa como metonímico fio de barba antanha ─ a dos hirsutos tempos afonsinos. Acaso lhe enxergam, no nó frouxo da gravata, sinal do baraço com que Egas Moniz, homem de palavra, se apresentou a Afonso VII, o soberbo castelhano, para pagar dívida contraída e não passar por fementido? 38 Autor cuja ética, convicção e consciência não se põem em causa, não há, pois, que duvidar venha ele a sofrer a recidiva do febrão teatral. Com os votos de consolidado restabelecimento, ponhamos fim nisso tudo, meu caro 36. Carlos Reis, Diálogos com José Saramago, pp. 113-114. 37. Á época em que o Sr. Ângelo Ruzzante de Pádua escreveu este ensaio ainda não tinha vindo a lume a peça Don Giovanni ou o dissoluto absolvido, publicada em 2005. Contudo, o argumento de ser o Sr. José Saramago um “dramaturgo involuntário”, “sem a justificativa do talento” mas propenso a recaídas na tentação, mantém-se irretocável, creio eu. [Nota do Organizador] Zanni. Assim?... Um fim sem réplica, cortado, decisivo? Só lhe faltou levantar “o punho cerrado e logo a seguir estendendo o braço obliquamente para o chão, com o dedo indicador apontando” o Fim, decretar que esta discussão não tornará a andar? Caluda, Zanni! Minha frase de Dottore será, sim, seca, cortada, decisiva e sem réplica, como o cair do pano em A noite. Não compreendeste, Zanni, que faço parte do altaneiro grupo de Torres ─ o do saber sem discussão por mais óbvios que sejam os argumentos críticos e contrários? A Fé, seja credo religioso ou político, não admite discussão acerca da luz que dorme durante A noite. Que sentido tem então dizer ─ conforme se lê na epígrafe deste nosso ensaio ─ que nos cabe, como Zanni e Dottore, despertar a Luz de seu sono ou cochilo? (24/5-15/7/04) 38. Os Lusíadas, III, 35-41. Cartas à Redação: foro e desaforo do leitor “Quem dá com a língua nos dentes, às vezes está à procura do siso.” (Incunábulo dos Apólogos) Maniqueísmo Parabenizo essa Redação por dizer, com todas as letras, que a peça A noite, dentre outros defeitos naturais a um autor pouco familiarizado com as lides teatrais, apresenta uma visão maniqueísta cujo anacronismo é inexplicável, considerando que, encenada em maio de 1979, ou seja, passados cinco anos da Revolução dos Cravos, já não tem cabimento o bombardeio do Bem contra o Mal do Salazarismo. Se tal engajamento tivesse vindo a lume na década de sessenta do passado século XX, anos áureos de uma resistência que nos deu peças de valor inestimável e paradigmático, como O Render dos Heróis (1960), de José Cardoso Pires, Felizmente há luar! (1961), de Sttau Monteiro, O Judeu (1966), de Bernardo Santareno, ainda vá lá, seriam compreensíveis a resistência antifascista e sua vermelhidãoinflamada, características, aliás, bem captadas pelo crítico dessa Redação na figura “hepática e empática” do simpático Tio Zeca. Sou ator, encenador e não me considero um analfabeto funcional.[...] Apolo Dionísio da Silva, Santana do Livramento (BH). Paixão cega Amo de paixão José Saramago! Os invejosos que falam mal dele estão é morrendo de dor no epicôndilo. Maria Madalena da Paixão, Nova Jerusalém (PE). [Esta Redação vê-se obrigada a intervir, para esclarecer a telegráfica manifestação da leitora. Dor no epicôndilo significa em vernáculo vulgar “dor de cotovelo”. Parece a esta Redação que a leitora , que “ama de paixão” o Sr. José Saramago, se inspirou, parafrasicamente, sem citar a fonte , em página de Cadernos de Lanzarote (3 de novembro de 1995) na qual se lê: “A epicondilite, aclaro para quem não sabe, é uma osteíte do epicôndilo, o qual epicôndilo, por sua vez, é a saliência mais externa da extremidade inferior do úmero. Por assim dizer, uma espécie de dor de cotovelo sem ciúmes...” Desculpe-se a intervenção. Necessária, contudo, para aclarar a “quem não sabe” o que é epicôndilo... Não venham lá dizer que esta Redação, dotada de prodigiosa memória e de ensaístas sobre a cegueira e a lucidez, desconhece a obra do Sr. José Saramago.] Solidariedade Voi là, c’ est la vie! Antes que alguma Sra. Lourdes de Fátima ou alguma Srta. (Srta. sem flor de laranjeira?) Maria Madalena da Paixão tire a espada à cinta para castrar, decepar rente, a OPINIÃO corajosamente VIRIL do leitor Apolo Dionísio da Silva (Maniqueismo), com ele (Apolo, é claro, e não com o Maniqueismo!) me solidarizo. Também me pergunto eu por que, tendo passado já cinco anos da Revolução dos Cravos (a peça A noite é de 1979), o Sr. José Saramago insistiu no tom maniqueísta e panfletário contra um Salazarismo já morto e deposto. Por que o Sr. José Saramago, não procurou, como fez a peça Arraia-miúda de Jaime Gralheiro, sondar o naufrágio, em águas de batata e bacalhau, da Redentora de 25 de abril de 1974? “Para quem não sabe”, ponho aqui as aspas devidas, pois reproduzo a bandarilha com que o Sr. José Saramago, olé, toureou, a propósito de “epicondilite”, nossa ignorância , “para quem não sabe”, para quem, desentendido, ainda não sabe, a peça Arraia-miúda de Jaime Gralheiro foi escrita durante o Verão Quente, em 1975, após seu autor ter sido corrido da Câmara Municipal de S. Pedro do Sul, onde, revolucionariamente [grifo do missivista], exercia as funções de Presidente da Primeira Comissão Administrativa depois do 25 de abril de 1974. E então? E então? Por que o Sr. José Saramago não fez de sua A noite o exame crítico da escuridão, do salto num escuro que foi dado pelos Cravos que brigaram com as Rosas da primaveril esperança de um povo sofrido? Sou também um encenador. Entendido, portanto, na matéria. Devo confessar que, antes de optar pelo palco, trabalhei num talho especializado no fabrico de salsichas de porco e vitela. Embora eu ainda goste muito de salsichas e salsichões, abandonei a profissão no talho, porque ela não me permitia exprimir livremente, amplamente, corajosamente e publicamente a minha personalidade de artista liberado. C’est la vie avec ses mistères! Querido Apolo Dionísio da Silva, estou sempre aberto e receptivo a profundas intervenções intelectuais. Meu e-mail é... [Os prezados leitores que me desculpem, mas a Redação vê-se obrigada, uma vez mais, a intervir nesta ágora, nesta praça pública de opiniões democráticas. Copidescando, como sempre faz em prol da correção e do estilo, a Redação cortou rente e cerce o seguimento da manifestação do Sr. Orfeu Greco de Sant’Anna, residente, diz ele, no bairro da Barra Funda (SP). Primeiro, cortou-a rente, porque esta ágora, embora praça pública das manifestações dos leitores, não se propõe a ser um chat entre internautas entendidos. Segundo, cortou-a cerce, porque esta Redação desconfia que Orfeu Greco de Sant’Anna se trata de um pseudônimo travestido na personagem “Encenador” inscrita em Guerra Santa (1967), de Luís de Sttau Monteiro. A tal personagem era também um entendido no embutir salsichas e salsichões, antes de se “exprimir livremente, amplamente, corajosamente e publicamente em sua personalidade de artista” liberado como encenador. Voi là, c’est la vie avec ses mistères!, sim senhor. Mistérios parafrásicos regurgitar de fontes e paradigmas soantes e ressoantes que esta Redação, pulo de gato escaldado na fria da intertextualidade linda-hutchoniana ou da polifonia baktiniana, põe em pelo.] Dos cravos murchos Quero dizer ao leitor Orfeu Greco de Sant’Anna que esse soberbo escritor que é o Sr. José Saramago sabe sim que os cravos da Revolução de 25 de abril murcharam faz tempo. Se o leitor fosse um pouquinho mais bem informado teria lido no site www.ipp- uerj.net/outrobrasil/documento uma entrevista na qual o nosso Nobel faz um balanço em 2004 dos trinta anos da chamada Revolução dos Cravos. Na referida entrevista leria que a “Revolução tinha um projeto”, “um projeto de socialismo claro. Mas não ficou nada disto. Hoje em Portugal podemos comemorar a revolução que acabou com a ditadura fascista e nos trouxe a democracia, mas evidentemente tenho de acrescentar que não ficaram rigorosamente nada daquelas ideias de transformações sociais. E, pior ainda, digamos que passamos de um momento histórico da vida portuguesa, onde as pessoas eram capazes de ‘construir seu próprio futuro’ para um momento de apatia total.” O leitor Orfeu deveria era enfiar sua viola no saco e parar de dizer besteiras acerca da consciência política do Sr. José Saramago. Ubiratan Craveiro Rosas. Biracraro@.com. Memento homo quia Salazaris es et in Salazarem reverteris Percebo que uns leitores, na toada dos autores responsáveis pelos ensaios acerca de Manual de pintura e caligrafia (1977) e A Noite (1979), andam considerando anacrônico o engajamento desse estupendo autor que é o Sr. José Saramago, só porque ele insiste no combate à ditadura fascista do Salazarismo em obras publicadas depois da Revolução dos Cravos [25/4/1974]. Esses leitores acham que, no fundo, se trata de fuzilaria com balas de festim ou tiro a um alvo já morto e enterrado, não passando tal intervenção compromissada de mera pirotecnia de um engajamento festivo. Afinal, na perspectiva preconceituosa deles, pega bem e dá status de inteligência a qualquer autor ser gauche na vida. Como se José Saramago precisasse deste subterfúgio para impor-se como o melhor romancista da língua portuguesa, tão Imperador da Língua como o foi, noutro gênero de escritos, o Reverendíssimo Padre Antônio Vieira. Quero lembrar a esses Senhores que eles se esquecem (ou desconhecem) que a redentora Revolução do Cravos murchou, simplesmente murchou, dezenove meses depois de seu florescer. E murchou, em 25 de novembro de 1975, quando os militares ditos profissionais de carreira (direita volver!, corre para onde sopram os ventos!), sob o comando do tenente-coronel Antônio Ramalho Eanes, correram e assumiram o poder, sob o pretexto de evitar um golpe da ala esquerda das Forças Armadas. Quero lembrar a esses Senhores que eles se esquecem que o contra-golpe militar da ala centro-direita deu repolhudos frutos. Nas eleições presidenciais de 27 de junho de 1976, substituída a lupina farda pelo cordeiro terno civil, Antônio Ramalho Eanes emerge da cartola das urnas como primeiro Presidente da República constitucionalmente eleito com 61,5% dos votos. Lembram-se eles do major Otelo Saraiva de Carvalho? Claro que se lembram do major Otelo Saraiva, sob cuja voz de comando soou, às 00h20 do dia 25 de abril de 1974, a senha “Grandôla, Vila Morena”, de Zeca Afonso, cantiga a embalar o despertar de um povo... Pois bem. Naquela eleição (27 de junho de 1976), esmagadora maioria de portugueses não mais quis ouvir a voz de Zeca Afonso. Nem a de Otelo Saraiva.Tanto que, não obstante também substituída a lupina farda pelo cordeiro terno civil, Otelo Saraiva de Carvalho saiu tosquiado das urnas com 16,5% da vontade popular. Democraticamente venceu o inconsciente coletivo português: rural, colonialista, ultramontano (tão ultramontano que, trás ou além dos montes, está a léguas de distância da Teologia da Libertação!). Em duas palavras, venceu o reacionarismo retrógrado. Aquilo que esses leitores, sugestionados pelos ensaios acerca de Manual de pintura e caligrafia e A Noite, consideram anacronismo de um engajamento festivo trata-se, na verdade, de um lembrança: a de que Portugal, tendo enveredado pelos descaminhos da Direita ou do Centro, revela ter memória curta. O que esses senhores chamam de engajamento festivo e anacrônico é, de fato, um memento: Memento homo portucalensis quia Salazaris es et in Salazarem reverteris. Desculpem o latim, mas é que sou padre, coordenador da “Pastoral Ideológica da Fé Cega”. Pe. Robespierre Danton da Silva, SCJ, Itaici (SP). [Pulo de gato escaldado na fria da intertextualidade linda-hutchoniana ou da polifonia baktiniana, esta Redação põe em pelo que o sapiente latim do padre jesuíta Robespierre Danton da Silva (Memento homo portucalensis quia Salazaris es et in Salazarem reverteris) deve ter-se inspirado no “Sermão da Quarta-Feira de Cinza”, pregado por Antônio Vieira em Roma, no ano de 1672, na Igreja de Santo Antônio dos Portugueses. Nesse sermão, para quem não o saiba, o Padre Antônio Vieira nos dá sua clavis prophetarum, ou seja, em vernáculo cristão, sua chave dos profetas: o presente é, simultaneamente, o passado do futuro e o futuro do passado. Nosso querido leitor, o eclesiástico Robespierre Danton da Silva, coordenador da “Pastoral Ideológica da Fé Cega” e, deduz-se, acólito do estilo e profetismo vieiriano, deve estar preocupado com as recaídas centro-direita de Portugal: cobra a morder o próprio rabo, o presente português parece-lhe ser o futuro do passado salazarista. Vestal da transparência e da ética intertextual, esta Redação confessa a todos os companheiros e companheiras que nos leem, que a imagem usada lá de cima, “cobra a morder o próprio rabo”, vazou, regurgitante reminiscência, de manifestação feita pela leitora Legenda Vaz Est SS (Schutz-Stafell = Servir e Salazar) , onde se lê: “Aquele S., à feição de naja, naja tripudians, prestes a dar o bote, se refere e nos remete ao S inscrito na fivela do cinto da ‘Mocidade Portuguesa’: um S que duplamente significava ‘Servir’ e ‘Salazar’. Ao cabo, um duplo e tácito S, a evocar o SS (Schutz-Stafell) da polícia política hitlerista.”] VI. Que farei com este livro? (1980) A edição de Os Lusíadas, segundo o olhar (aquilino) de Saramago Legenda Vaz Est e Samir Savon (Doutores em Letras pela USP. Coautores de Inquisições e disquisições literárias ) “Na leitura, os quatro-olhos têm a vantagem das lentes corretoras.” (Inquisições e disquisições literárias) 1. Ler a dois olhos. Na cena final de Que farei com este livro?, peça do Sr. José Saramago vinda a lume em 1980, Camões, ao receber o primeiro exemplar impresso de Os Lusíadas, “segurando o livro com as duas mãos”, dirige-se ao público ( gente dura e ensurdecida?) nestes termos: — “Que farei com este livro? ( Pausa. Abre o livro, estende ligeiramente os braços, olha em frente.) Que fareis com este livro? (Pausa.)” Façamo-la, a pausa, que assim pede o Sr. José Saramago: pausa para meditação profunda. Não vamos lançar à face de Camões qualquer leviana resposta. Melhor seria até que introjetássemos a pergunta camoniana e a repetíssemos, fazendo ecoar o título da obra que o Sr. José Saramago, estendendo também ligeiramente o braço, nos oferece: — Que farei com este livro? A resposta, primeira, óbvia, imediata, a uma tal pergunta que já pressupõe tenhamos o livro às mãos e ante os olhos é: — Lê-lo, ora pois! (Pausa para nova reflexão, após o quê completaremos:) E de preferência a dois olhos — adendo que, impertinente, já não é tão óbvio, como à primeira vista parece. Portanto, distingo um olho do outro. Com o olho direito, o de que Camões se viu privado sem nunca o ter sido de rei algum, ler-se-á segundo a visão do leitor inexperto. Com o esquerdo, único postigo de luz para a visão de Camões, ler-se-á segundo a óptica de um leitor experto — um camonólogo aquilino, digamos. Não se pense que estou aqui a inventar um novo modo de ler. Antes, entro no jogo proposto pelo Sr. José Saramago. Afinal seu título, inquisidor da nossa consciência, não me obrigava a perguntar a mim mesmo Que farei com este livro? e, não sendo analfabeto ou ardente piromaníaco, nem parvo de todo, não obstante professor, só me ocorria responder “Lê-lo, ora pois!” Ademais, em cena fulcral da peça, primeiro quadro do segundo ato (pp. 105-106), a personagem Damião de Góis, a propósito da trama que empece a publicação de Os Lusíadas, não nos ensina que há pelo menos duas maneiras de ler? e que “a diferença [interpretativa e judicativa da leitura] estará nos olhos que o lerem” ? (p. 106) Via Damião de Góis, propôs o Sr. José Saramago o mote para ler seu texto, umberto-ecoando que obra, depois de aberta, admite distintas leitura, interpretação e valoração, conforme os olhos que o lerem. Aqui, no caso dessa glosa e escólio, dois: um direito — lembro —, o do leitor inexperto, e um esquerdo — relembro — experto, aquilino. Julgue cada um, à luz do que veremos, se destro foi o direito na leitura ou se foi o esquerdo quem destramente leu direito. 2. Sob o olho direito do leitor inexperto. Tracemos o perfil do leitor inexperto. Tem suas luzes e brilho, tendo ou não lustrado os bancos acadêmicos. Gosta evidentemente de ler e o faz para dis-trair-se, na acepção ortega-y-gassetiana do termo, isto é, “para evadir-se, escapar, trazer-se a si mesmo deste mundo em que vive para outro irreal”, onde descansa da planura e chateza de sua vidinha, mas onde também vive uma vida vicária, enriquecendo-se com experiências que talvez nunca tivesse a oportunidade de experimentar (ORTEGA Y GASSET, José. A ideia do teatro, SP: Perspectiva, 1978, p 51). Manua — carinhoso apelido de Manuela — chama-se esse meu exemplar de leitor inexperto. Belo exemplar, por sinal, de mulher, desabrochada já aos vinte e poucos anos. Baste essa vagueza natalícia, que, cavalheiro, não cometerei a inconfidência de contar-lhe a idade exata. Tampouco darei o endereço. Suficiente saber que, lisboeta, reside no bairro do Castelo. Inútil esse cerco a Manua, curiosidade a desfiar ruas que dali descem: se acaso o domicílio é ali perto das Escadinhas de S. Crispim, se demora na Rua Milagre de Santo António, parede-meia com um Sr. Raimundo Benvindo Silva, revisor de profissão e cuja profissão levou tão a sério na releitura de certos originais, que reviu a História, metendo um não irreverente em verdade assente e aceite, amém de todos per omnia secula seculorum. Bastante também o saber que Manua tem o Liceu completo e a voracidade leitora das traças. Tirante as leituras infantojuvenis, o primeiro livro mesmo de que se lembra, perda da virgindade leitoral, foi um voluminho com as odes de Ricardo Reis. Não gostou daquele poeta posto em sossego contemplativo, à beira-mágoa e à beira-mundo, alienado demais para as inquietações de seu, dela, vago socialismo, a exigir um autor engajado, interveniente na realidade. Aquele foi para ela o ano da morte de Ricardo Reis. Coincidentemente, o ano do nascimento de sua admiração por um autor que, tal qual saramago, irrompia como que levantado do chão comum. Ah o modo como narra suas histórias, sem respeitar o convencionalismo de travessões, pontos e vírgulas, a voz das personagens confundida com a do narrador, a frasearredondada em curvas e volutas, enovelante, barrocamente pomposa nos andrajos da oralidade! Simpatizou imediatamente com as personagens femininas: fortes, decididas, guerreiras e vivandeiras, capazes de empreender o cerco às suas conquistas e enxergar o interior dos seres e das coisas. Fosse pós-graduanda haveria de engendrar dissertação ou tese sob o título “As personagens femininas em José Saramago”. Praza aos céus, longe está ela de querer ser Mestre ou Doutora. Quisesse, estaríamos nós condenados à galé de esbrugar-lhe os ossos do ofício acadêmico. Livre-a o Criador, per ominia secula seculorum, desta tentação mundana, coleante serpente a oferecer-lhe a peca maçã da árvore da ciência. A docta ignorantia de Nicolau Cusa (1401-1464), o saber que nada sabemos, a ponto de não ter a resposta na ponta da língua Que farei com este livro? , é o que nos convém por agora, ainda mais quando mareamos ao longo dessas ondas dantes navegadas por outros que a pré-ciência do Infante Navegador soube (h)enriquecer de bússola e sextante aquilinos. Vossa Mercê duvida? Quer que beije meus dedos indicadores, direito e esquerdo, um posto sobre o outro em forma de cruz? Que jure pelo bem-estar no Céu de alguma alminha querida? Ala, que quero ler para crer. Coleante serpente a oferecer-lhe a peca maçã da árvore de consabida ciência, a Manua, nossa inexperta leitora, fascinava-a também a releitura do passado, memorial do que fora esquecido em conventos-mafra ou omitido pelos compêndios históricos, lembrança do que poderia ter sido, a História ela mesma tão ficcional quanto a Literatura. Afinal, quem foi testemunha ocular e isenta dos fatos perdidos no Tempo? — nossa memória tão curta ou, guiada por interesses e conveniências, só capaz de lembrar o que interessa... Manua revela não ter memória curta. Conveniente talvez neste passo, pois capaz de lembrar com cortes o diálogo travado entre o Senhor Doutor e o Revisor no primeiro capítulo de História do cerco de Lisboa (p. 16): “[Revisor] Bem me queria a mim parecer que a história não é a vida real, literatura, sim, e nada mais, [Sr. Doutor] Mas a história foi vida real no tempo em que ainda não poderia chamar-se-lhe história, [Revisor] Tem certeza, senhor doutor, (...), Então o senhor doutor acha que a história e a vida real, [Sr. Doutor] Acho, sim, [Revisor] Que a história foi vida real, quero dizer, [Sr. Doutor] Não tenha a menor dúvida, [Revisor] Que seria de nós se não existisse o deleatur, suspirou o revisor.” Manua cita, ipsis verbis, sem o saber que seu Autor predileto, meditando sobre a natureza e relações entre a ficção e a História, apõe um NÃO garrafal na Arte poética de Aristóteles, dizendo que a História não é o que foi, mas o que poderia ter sido, “literatura, sim, e nada mais”, como ficou dito ali em cima pelo Revisor. A História também o campo de suposições de um narrador, “preocupado com a verossimilhança, mais do que com a verdade, que tem por inalcançável”, — acode-nos de novo Manua com as aspas e o grifo de sua memória a citar ali em cima trecho da página 198 de História do cerco de Lisboa. — A Literatura como revisão, releitura e reescritura da História! É o que decreta Manua, iluminada, sem dúvida, pela maneira peculiar com que lê os livros de seu Autor predileto. Sim, senhoras e senhores. Manua tem um modo (sui generis?) de ler os livros do Sr. José Saramago. Chova ou faça sol, frio faça ou calor, das seis às oito da manhã, Manua lê. Religiosa e ritualisticamente lê. O despertador esganiça-se, eriçando a madrugada sonolenta. Olhos fechados, sua mão tateia pela mesa de cabeceira. Primeiro desligá-la, a sereia histérica. Depois, avançar os dedos em direção ao livro, sente já o volume sob o cruassã que, dormido, ali repousa, pomo da árvore da ciência, à espera da inaugural mordida que Manua dará ainda com os olhos fechados. Mastigando vagarosamente o primeiro pedaço do cruassã, abre o livro na página marcada: ali tinham ficado seus olhos, pode abri-los agora, recuperada a visão. Jura que, lendo assim, nua (digo-lhes só agora, pois já puxou a coberta até o pescoço) e a manducar um cruassã, entra em comunhão com o espaço e tempo narrados, capaz de lobrigar as blimundas entranhas dos seres e dos fatos, da realidade, enfim, pois as nuvens que lhe toldam o dia a dia peganhento se dissipam como tíbias vontades. Por uma dessas casualidades próprias da ficção, Manua está a ler Que farei com este livro? Que nos conta a visão privilegiada, embora inexperta, de Manua? A ação da peça é a composição e publicação de Os Lusíadas. Não obstante a visão raio X do cruassã, não lhe ocorre perguntar se a índole do assunto é absolutamente nova, se o seu autor, sem exemplar a que se arrimasse nem norte que seguisse, também navegava por mares nunca dantes navegados, a exemplo do poema Camões, de Almeida Garrett. E não lhe ocorre perguntar porque nunca leu os dez cantos do cometimento garrettiano e se o prefácio lhe aflorou quase ipsis litteris no pensamento é porque no fundo da memória ressoou a voz fanhosa do professor do Liceu, a falar de novidades românticas e ossiânicas que o neoclássico Leitão Garrett queria introduzir nas letras e tretas portuguesas . E ademais, se os tivesse lido, poema e prefácio, seus olhos não haveriam de confundir alhos com bugalhos, porquanto, apesar de o assunto e motivo serem idênticos, Que farei com este livro? retrata outro Camões, antítese da garrettiana estátua tribunícia que, em Sintra, recita (imaginem!) dez cantos, 1102 oitavas-rimas (abababcc), 8.816 versos, em rigorosa e merceeira soma a lápis, para o embevecimento dos ouvidos moucos mas benevolentes de D. Sebastião. Fora nossa Manua versada em kristeviana e linda- hutchoniana intertextualidades, diria que seu Autor predileto entoou, etimologicamente, uma para-ode, um canto paralelo e contra os dez cantos de Almeida Leitão Garrett. Em Que farei com este livro?, a “acção decorre em Almeirim e Lisboa, entre abril de 1570 e março de 1572, ou, com menor rigor cronológico, mas com maior exactidão factual, entre a chegada de Luís de Camões a Lisboa, vindo da Índia e Moçambique, e a publicação da primeira edição de Os Lusíadas”. As personagens, deduzirá Manua quando findar a leitura, encarnam a falta de rumo, perplexidade e apatia da Nação. À volta do rei, D. Sebastião, que uma única vez entra mudo em cena e sai calado, quase atropelando o genuflexo Camões que lhe pede a audiência de umas oitavas, as que dedicara a Sua Alteza (primeiro ato, quinto quadro, pp. 66-75), à roda do rei (pensa Manua, agarrando de volta o início que lá atrás ficara e de novo ficou, tantas as interrupções que lhe atravancam a leitura, como agora mesmo o crianço da vizinha, que berra a fome de matinal mamadeira), à órbita do rei (pronto!), gravita uma nobreza enfatuada e desvirilizada, um clero cúpido e hipócrita. Portanto, personagens menores, meros figurantes, quase todos despersonalizados, como o 1°, 2°, 3°, 4° Fidalgos, o Frade. Lembra-se Manua de episódios que lera n’Os Lusíadas: aquelas personagens foram as vergastadas por Camões em oitavas de alguns cantos. Tem preguiça de levantar-se, para conferir. Levaria tempo joeirar os cantos VI (95-99), VII (78-87), VIII (96-99). Ademais, faz frio e um denso nevoeiro fernando-pessoano envolve Lisboa, a exemplo do que acontece no primeiro e penúltimo quadros da peça, o Reino encoberto: mensagem do Sr. Saramago a rememorar a falta de horizontes e perspectiva da Nação naquela quadra histórica. Sem falar da peste que, factual, histórica, percorre albert-camusianamente os atos, gangrenando a sede do governo em Lisboa. (Verdade que pestes não incomodam Manua, só a peste do crianço que não para de berrar, quem pariu os seus que os embale Mateus?) No entanto, Manua registra que no rol da fidalguia há quatro exceções nomeadas, por razões óbvias: a) um meteóricoMiguel Dias (1° ato, 5° quadro), custódio a interceder em favor das pretensões editoriais de Camões; b) D. Francisca de Aragão, dama do paço, cuidando da publicação do poema, “mas porém, ah! que cuidados”, que são glosas de amor pelo poeta, anacronismo histórico o fato aí inserido por seu Autor predileto, licença ficcional de que Manua, suspirosa, não cuida, pois o amor nunca é anacrônico e tudo adentra com ou sem licença (tomara o amor em riste agora lhe invadisse a água-furtada com prazeres que ainda desconhece!); c) antagonistas enfatuados e prepotentes, a negar patrocínio na imprimissão de Os Lusíadas, o 3° Conde da Vidigueira, Vasco da Gama chamado que nem o avô mercante das Índias, e sua esposa D. Maria de Ataíde. Mas isso de personagens secundárias são minudências, nugas, responsáveis por quase levarem Manua a esquecer da luta que se trava pelo poder no rastro de D. Sebastião. A cavaleiro da situação, — justo termo pois de Ácteon em montarias cinegéticas e de cavalarias em África se tratava —, na rédea do poder, primam os irmãos Gonçalves da Câmara. Quão privados de el-rei já denuncia o sobrenome — da Câmara! Um Luís, confessor de D. Sebastião. Outro Martim, secretário de Estado, além de outras puridades e presidências e desembargos do Paço. Como nos compêndios de história que Manua foi obrigada a consultar no Liceu, ambos os jesuítas são, na peça, culpados pelas suspeitas misoginia e misogamia de D. Sebastião. Em 1572-1573 era enorme o descontentamento com os desvarios privados do rei e o despotismo público dos Câmaras, descalabros que inspiravam pasquins anônimos, como o que se lê da boca do Pe. Luís da Câmara em diálogo com o irmão Martim, no primeiro quadro do primeiro ato: “(Lê) El-rei nosso senhor, por fazer mercê a Luís Gonçalves e a Martim Gonçalves, e aos padres da Companhia, há por bem de não casar estes quatro anos, e de estar com eles abarregado. (Martim da Câmara ri).” E com ele na ocasião do dito também riu Manua. E rir-se-ia mais ainda, agora de íntima satisfação, se não ignorasse que seu Autor predileto, apoiado em fontes históricas, dramatizou, no referido quadro e ato, informação que assim se lê, por exemplo, em Vida ignorada de Camões, do Sr. Hermano Saraiva (Lisboa: Publicações Europa-América, primeira edição de 1978; cito pela segunda, de 1980, pp 382-383): “Quem exercia de fato o poder eram os dois irmãos Câmaras, o confessor Luís Gonçalves e o valido Martim Gonçalves, que de fidalgo obscuro fora elevado a escrivão da puridade, presidente do Desembargo, presidente da Mesa da Consciência, vedor da justiça. Era homem de feitio despótico e, escudado na proteção real, governava com mão dura. Grande parte da nobreza detestava-o e acusava-o a ele e ao irmão de estabelecerem o vácuo à volta de D. Sebastião, impedindo os nobres de se aproximarem dele. O povo, na sua simplicidade, acreditava que o rei era bom e que o que o fazia parecer mau eram os odiados Câmaras. Alguns pasquins que circularam por essa altura dão a medida do descontentamento reinante. Ninguém ousava falar abertamente, porque as críticas acabavam no desterro e na cadeia, mas circulavam papéis anônimos em que os Câmaras eram responsabilizados por não deixarem casar o rei, para o terem mais dependente, e onde se chegava a dizer que estavam amancebados com o jovem monarca” (Cf. Que farei com este livro?, primeiro quadro do primeiro ato). Partidos opostos, inimigos até, pois um autonomista e outra defensora de supeitosa união ibérica, mas os dois em busca de aliança que pusesse freio à influência e poder dos Câmaras — o tio e a avó de el-rei, o Cardeal D. Henrique e D. Catarina de Áustria, ambos preocupados com o desgoverno e o nebuloso rumo do Reino, império sangrado pelos desmandos e falcatruas da Índia, doença de que padece Portugal nos dizeres e mais tarde escreveres do soldado prático Diogo do Couto, não curando, por seu turno, a nobreza em outro remédio que não fosse a reconquista das praças de África, sul geográfico que, por desvario de bússola, dizem ser norte do sonho cavaleiroso de D. Sebastião. Isso é o que passa no Paço, pensa Manua, feliz por regurgitar frase na feição e estilo barroco (vieiriano?) de seu Autor predileto. Ressoante de fontes nossa memória? Uma informação, uma frase vêm à tona, de que profundas leituras não o sabemos?, mas já que vieram à tona cumpre salvá-las, repeti-las... isso é o que passa no paço... (e prosseguir na mesma toada a glosa)... frequentação também de personagens com mais passos... Como os viajados Damião de Góis, Diogo do Couto e Camões, esses dois matalotes recém-chegados à Pátria “metida no gosto da cobiça e na rudeza duma austera, apagada e vil tristeza”. São 8h00 no despertador de Manua, quando, em fevereiro de 1571, ali mesmo no bairro do Castelo, em casa de Damião de Góis, localizada no primeiro quadro do segundo ato, transcorre cena axial da peça. Basta contar os quadros que a compõem, o primeiro ato com sete, o segundo com oito, essa cena, portanto, bem no meio da peça, a dividi-la, tordesilhas de revelação e consciência: trata-se da apagada e vil tristeza do presente a empanar a memória gloriosa da heroicidade pretérita. Vassalos excelentes que ledos foram por várias vias, braços às armas (a)feitos e mente às Musas (Clio, Calíope e Euterpe) dada, ali estão reunidos Diogo do Couto, Camões e obviamente o dono da casa. Apressada pelo relógio (meu Deus são já 8h15!, divertida em outra realidade perdera a noção do tempo), Manua precisa deixar a cena em que se vê metida, fazer suas ablusões matinais, tomar café correndo e correndo descer os 134 degraus bem contados das Escadinhas de S. Crispim e esbaforida tomar o autocarro rumo ao trabalho, rosto e suor nosso de cada dia. — Com licença, Srs. do Couto, Camões e Góis, mas estou atrasadinha. Fiquem à vontade. A quitinete ao dispor de vossas mercês. Na geladeira há sardinhas cozidas e carapaus frescos, façam bom proveito. Adeusinho, até amanhã às seis. Reencontro religioso, ângelus matutino. Impossível revê-los à noite. Chega moidinha, caindo de sono, os olhos ardendo após a aula noturna de computação. O futuro sabe-o encoberto, ainda mais com esse nevoeiro que não levanta, Lisboa envolta num sudário, mas sonha-o — o futuro, não o sudário — em ilhas afortunadas (essas utopias turísticas com lugar ocêanico, acaso Lanzarote?) e não à margem ribeira das estantes do sebo “D. Sebastião”, onde moureja — Alcácer-Quibir de todas as suas pretensões de ter e haver. Daí, lança em África, o curso noturno de computação. No autocarro põe-se a imaginar como seriam Os Lusíadas escandidos a computador. Camões na gruta de Macau com um notebook de ultíssima geração... Ah quão mais fáceis seriam os acrescentamentos e emendas que a peça de seu Autor predileto dirá terem sido feitos, urdidos pela voz da consciência e pelo punho da censura inquisitorial. — Sr. Luís de Camões, deseja salvar as alterações para Documento 1, aqui nomeado Lusíadas nos dígitos requeridos para salvar como? Sim. Não. Cancelar. Ajuda. Bem que gostaria de responder Não, Sr. Bill Gates, e cancelar as alterações impostas pela pena do Censor. Mas ajuda, sim, a quem pedir, se todas as janelas fechadas, inclusive as deste autocarro? 3. Sob o olho esquerdo do leitor aquilino. 05h15 no Brasil. Exatamente onde Manua deixou seus olhos, primeiro quadro do segundo ato, tem os seus pousados, negros como sotaina, a Dra. Legenda Vaz Est. Já leu, releu e por essa altura anda treslendo Que farei com este livro?, de modo que assesta a lupa do olho esquerdo na dita cena, axial para a peça e para seus propósitos. Responsável por um curso em torno da dramaturgia portuguesa numa Faculdade pública de Letras, interessa-lhe a peça do Sr. José Saramago, a tratar da redação e publicação de Os Lusíadas. No rigor de togas e capelos, não é camonóloga a Doutora,mas tem um olho — aqui esquerdo — aquilino, inquisitorial. Tanto que suas notas de leitura, caligrafia pequena de minudências, fieira de formigas correntes, deita-as — antes de passá-las para os tipos de italiana Olivetti lexikon 80 — num canhenho que intitula “Manual de inquisições literárias”. Se espírita fosse, e não o é religiosamente, salvo o sincretismo brasileiro, pois bem, se kardecista fosse, acoimaria de carma suas inquisições, e pontificaria que nos séculos XVI ou XVII — que sabe de encarnações pretéritas? — outra saia pundonorosa e preta vestiu, batina chamada, censora de suspeitos cometimentos literários. Daí o mestrado e doutoramento em padres regrantes de heterodoxias, como Vieira e Manuel Bernardes. Antítese de Manua, que é cheiinha, sinuosa nas curvas, arredondada como um discurso barroco, a Dra. Legenda tem a objetividade e o gume da linha reta, a angulosidade agreste de Joões Cabrais e Gracilianos Ramos, o nariz, aquilino, de bedelho. E mais bedelhos somos nós, a bisbilhotar o “Manual de inquisições literárias” que a Dra. Legenda deixou aberto para as conveniências e inconveniências de nossa leitura. Acabou de sair a Doutora, apressada que nem Manua. O carro enguiçou na véspera, mora longe da faculdade, precisa pegar o trem, tem aulas a ministrar, e seu texto, na caderneta, sebenta de futuras aulas, rezará assim nos tipos de sua insubstituível (por computador algum) Olivetti lexikon 80: I. Peça: Que farei com este livro?, do Sr. José Saramago, 1 ed. de 1980. Compulso a 2 ed., com prefácio de Luiz Francisco Rebello, Lisboa, Editorial Caminho, 1988. A ação da peça é a composição e publicação de Os Lusíadas, motivo idêntico ao de Camões. Canto paralelo no motivo, contudo contrário, quanto à visão, aos dez cantos do Sr. Almeida Garrett. II. Nodal o primeiro quadro do segundo ato. Aí estão reunidos Diogo do Couto, Camões, Damião de Góis. Quadro sintético do renascimento português: os soldados práticos Couto e Camões, “numa mão sempre a espada e noutra a pena”, faces da mesma moeda azinhavrada, cunham a efígie medievo-cavaleirosa do expansionismo. Camões representa a memória da virtu heroica que edificou o reino e dilatou a Fé e o Império. Couto, futuro guarda-mor da torre do Tombo de Goa, é a crônica da contemporaneidade chatim da Índia. Uomo universale,Damião de Góis é o velho Humanismo mal adaptado no renascimento português, alvo de constantes perseguições pela profissão de suspeitas doutrinas. (Cf., a propósito, Joaquim Barradas de Carvalho, O Renascimento português, Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1980, p. 9, onde se lê: “Assim, haverá renascimentos mais ou menos humanistas. Haverá renascimentos nos quais o conceito de humanismo cobre quase inteiramente o conceito de renascimento. Haverá renascimentos nos quais o conceito de humanismo não cobre senão uma pequena parte, algumas vezes mesmo muito pequena, do conceito de renascimento. Ora, parece-nos que este último é indiscutivelmente o caso de Portugal”.) III. Antibrechtiano o olhar épico de Camões na distância da Índia: sua “história do antigo Portugal, mais a grande navegação”, nas aspas dos dizeres de Damião de Góis, entoam sonorosa idealização do passado e da heroicidade guerreiro-cavaleirosa. Parcial correção da óptica camoniana ao aproximar-se do Reino e confrontar-se com o presente. Os Lusíadas que, testemunho de Diogo do Couto, teriam sido limados em Moçambique, sofrem acrescentamentos, ditados pelo desencanto do nebuloso presente. IV. Nesse ponto começa a releitura saramaguiana de Os Lusíadas, via outras leituras. Em Lisboa, Camões teria acrescentado ao texto primitivo de seu poema estâncias e versos inspirados pela apagada e vil tristeza do presente (pp. 103-104): Damião de Góis: - Quando chegastes da Índia, era o vosso livro como hoje é? Não precisais responder. Tive aqui em minha casa o manuscrito, li-o com grande cuidado e atenção, mas de tanto não precisaria para distinguir, nas diferenças de tinta, os acrescentamentos escritos estando vós já em Portugal e por causa do que cá viestes encontrar. Camões: - Assim é. Lembrai-vos que de el-rei eu não sabia mais do que existir. Em Lisboa é que escrevi a dedicatória... Damião de Góis: - Que mais? Camões: - O final do canto V, também do sétimo, algumas oitavas do canto nono, outras no canto décimo... Damião de Góis: - E, se bem te conheço, ainda escreverás, se não foi escrito já, o bastante para amanhã se saber que os parentes de Vasco da Gama não cuidaram de honrar, como deviam, o fundador da casa da Vidigueira. Camões: - Escrito está, não duvides. Damião de Góis: - O que trouxestes da Índia, Luís Vaz, foi a história do antigo Portugal, mais a grande navegação. Tudo isso que acrescentastes são casos dos nossos dias de agora, deste tempo em que não sabemos para onde Portugal vai. Depreende-se do diálogo travado na peça que Camões teria acrescentado em Lisboa: a) a dedicatória, estâncias 6 a 18 no canto I; b) o final do canto V, ou seja, as estâncias 92 a 100, aguilhoado pela recusa do neto de Vasco da Gama em patrocinar a imprimissão do livro; c) o final do canto VII, isto é, as estâncias 78 a 87, acerca dos infortúnios que o perseguem (VII, 78-82) e do intuito de não empregar seu canto “em quem o não mereça” (VII,83-87); d) as “algumas oitavas do canto nono”, pela contemporaneidade do conteúdo, são as estâncias 26 a 29 (= as cavalarias cinegéticas do Acteon Sebastião) e o epifonema, estâncias 92-95, contra o ócio ignavo, a cobiça, a ambição, a prepotência; e) as “outras” oitavas acrescidas no canto décimo são as estâncias 145-156 do epílogo, estrofes em que aconselha o soberano e propõe-se a cantar a aventura marroquina, e, possivelmente, a estância 119 do canto X (crítica aos jesuítas). V. Conforme a leitura ideológica que tiverdes, lembra Damião de Góis na peça (p. 106), tereis o entendimento dos versos camonianos. Se assim for, a apoteose, no epílogo, do expansionismo imperialista e guerreiro-cavaleiroso, como recuperação da pretérita e perdida virtu heroica, poderia depor Camões de sua estátua de Poeta da Pátria, na medida em que corresponsável pelo desastre de Alcácer-Quibir? Repensar o problema. Moderna bibliografia histórica mostra que a reconquista de Marrocos, menos que loucura de um rei delirante, era um projeto político-econômico que, gestado nas Cortes de 1562-63, atendia aos anseios não só da nobreza, mas de toda uma sociedade que projetava no monarca “as virtualidades da grei, as ideias de predestinação e de redentorismo”. (Ver Loureiro, Francisco de Sales. “D. Sebastião e Alcácer-Quibir”, in História de Portugal, dir. José Hermano Saraiva. Lisboa: Alfa, 1983, vol. IV, pp. 127-159.) Ecos, portanto, do pensamento e aspirações da Nação são as estrofes não só de Camões, mas também de Pedro de Andrade Caminha, Antônio Fereira, Diogo Bernardes e Diogo de Teive, chegando este último a sintetizar num hino dedicado a D. Sebastião os anseios da coletividade: “a África será subjugada” ”como é esperança e desejo de todos nós” (Id.ibid., p. 137-138). Aliás, a peça não responde com clareza a que ou a quem serviu a publicação de Os Lusíadas. Quebram-se as resistências do Paço para a imprimissão do livro. Graças a que ou a quem? Ao inquisidor-mor, o Cardeal D. Henrique, para cujos propósitos de oposição ao fusionismo ibérico defendido pela rainha-avó bem que servia a exaltação patriótica das armas e barões assinalados que edificaram o Reino e dilataram a Fé e o Império, embora, por outro lado, não lhe agradasse a exortação guerreiro-cavaleirosa à aventura marroquina? Na peça (p. 124), diz o censor inquisitorial (por todos os nomes, Frei Bartolomeu Ferreira) que revisou e julgou o poema “de acordo com o pensar da Santa e Geral Inquisição”. Qual esse pensar? Apenas defesa da fé ortodoxa e dos bonscostumes? Parece que não, a julgarmos por sua intromissão na edição dos Piscos ou dos Jesuítas, datada de 1584 e que reza assim: “o qual livro assim emendado como agora vai, não tem cousa contra a fé e os bons costumes”. Que entender de tal advertência? Que a edição princeps de 1572 diferia da segunda edição revista em 1584? Ocorre que ambas as edições foram revisadas por ele ─ por todos os nomes, Frei Bartolomeu Ferreira. Portanto, a edição princeps, não sendo o “livro assim emendado como agora vai” em 1584, saíra ela em 1572 com cousas contrárias à fé e aos bons costumes? A que se devera essa complacência ou benevolência da primeira censura? Sem esboçar uma clara resposta, mas sugerindo que a licença de impressão do poema obedece a um certo “pensar da Santa e Geral Inquisição”, Que farei com este livro? quer levar-nos a considerar hipótese levantada pelo Sr. Hermano Saraiva de que Luís Vaz de Camões, criticando os irmãos Câmaras (VII, 84-85) e os jesuítas (X, 119), servira a propósitos políticos da Inquisição?: “A luz verde da Inquisição é, pois, bem compreensível. Camões serviu de instrumento seu [da Inquisição] na grande luta para a conquista do domínio político num reinado em que todos compreendiam que o rei era incapaz de governar por si” (Vida ignorada de Camões, p.386). VI. Nesse capítulo de aditamentos posteriores ao poema, menos que uma releitura direta de Os Lusíadas, a óptica do Sr. José Saramago vê pelos olhos de bibliografia dedicada a Camões. A tese dos acrescentamentos feitos em Lisboa é plausível, seja pelo soar parentético das estâncias, seja por constituirem epifonemas, contudo a ideia fora já defendida por: a) Aquilino Ribeiro — Luís de Camões. Fabuloso. Verdadeiro, Lisboa: Bertrand, 1974, vol II, p. 148: referência à inserção se não de todo o epílogo pelo menos das três estrofes finais (154-156): “o que nos induz a supor que o poeta não dera ainda a obra por conclusa, propondo-se acrescentá-la aqui e além, e retocá-la (...) ou que a vesânia heroica que grassava nas altas esferas do poder o contagiasse — e certos versos positivamente intercalados à última hora o atestam — e se reservasse para cantar a vitória sobre o Miramolim, com que D. Sebastião andava a sonhar desde que lhe fizeram entrega do Reino”. b) E defendida também por Hermano Saraiva — Vida ignorada de Camões (1 ed. 1978), às páginas 383-384 da 2ª edição de 1980 —, a sugerir que, além das estâncias 83-86 do canto VI e das estâncias 26-28, 93-95 do canto IX, referidos pela peça do Sr. Saramago, Camões teria inserido as estrofes 54-55 do canto VIII. A suposição de Hermano Saraiva baseia-se na semelhança entre as estâncias e as críticas que circulavam anonimamente em pasquins à época em que o poeta se encontrava em Lisboa: “Isso leva a concluir que as estâncias que visam os Câmaras (VII 84-85) e censuram o rei (VIII 54-55, IX 26-28) traduzem uma opinião que Camões conheceu em Lisboa precisamente pela altura em que o poema foi editado. É possível que se trate de estrofes intercaladas já na fase dos prelos, porque elas estão em contradição com o encarecimento incondicional traduzido noutras estrofes, designadamente no canto I, pois a coincidência entre a matéria dos panfletos e a de Os Lusíadas é tão flagrante que não pode ser casual. Camões foi um dos porta-vozes do descontentamento dos nobres contra o valido do rei”. VII. Tampouco é inédita a releitura do Sr. José Saramago no capítulo referente às emendas que o poema teria sofrido à mão do censor, Frei Bartolomeu Ferreira. Uma leitura atenta do segundo ato, quadros 2 e 4, a tratar das emendas sugeridas e/ou impostas ao poema pela censura inquisitorial, não se equivocaria ao dizer que o Sr. José Saramago teve por modelo dois conhecidos textos de Aquilino Ribeiro, a saber: Camões, Camilo, Eça e alguns mais (cuja primeira edição data de 1949) e Luís de Camões. Fabuloso. Verdadeiro (primeira edição em 1950). Os reparos que o censor, na peça saramaguiana, faz a passagens de Os Lusíadas são coincidentemente os mesmos encontrados nas páginas dos referidos livros de Aquilino Ribeiro: 1. — Na peça (II,2 - p. 119), reparo do censor às estâncias 70-91 do canto VI (a tempestade que se abate sobre a frota já próxima da Índia), defendendo-se Camões com a lembrança das estâncias 93-94 do mesmo canto (agradecimento de Vasco da Gama): “Frei Bartolomeu Ferreira: - Posto que de ambas as vezes me chocou aquele passo em que Vasco da Gama invoca a Divina Guarda para que o proteja e defenda no transe aflito em que está, e quem o ouve e lhe acode é Vénus. Dizei-me logo. Por que não fizestes vós intervir a Virgem, ainda por cima Domina Maris, Senhora do Mar? O trágico passo haveria de ter assim uma unção religiosa, um fervor, que dessa maneira lhe faltam, tudo se resolvendo entre ninfas que vão a seduzir os ventos, e assim acaba a tempestade. Que me dizeis a isto? Camões: - (...) Vindo eu a escrever de falsas religiões e falsos deuses, como poderia, sem cair em grave escândalo, e talvez pecado, chamar a terreiro a verdadeira fé? Basta que terminada a tempestade agradeça Vasco da Gama. E a quem agradece? Ao único e verdadeiro deus.” Em Luís de Camões. Fabuloso. Verdadeiro, pp. 138-139 do vol II, a propósito do “hibridismo mitológico de que padecem os Lusíadas, e de que pela certa Fr. Bartolomeu é responsável” (p. 135) lê-se a seguinte referência ao episódio da tormenta: “Na descrição da tormenta, estupenda de realidade, bate tonitruante a cólera dos deuses, movidos por Baco, mas não tarda o antídoto da intervenção cristã... Vasco da Gama invoca a misericórdia da Divina Guarda, angélica, celeste, Que o céu, o mar e terra senhoreias... (VI, 80) E como num tecido de mescla, com o fio de estopa cristão entrança-se o fio de ouro e cetim de Vénus, mandando as ninfas aplacar Bóreas e os furiosos deuses da tempestade, ao passo que brada o piloto de Melinde: — Terra é de Calecut, se não me engano! (VI, 92) O almirante cai de joelhos e dá graças, é claro que ao seu Deus (VI, 93)”. 2. — Na peça(II, 2, p. 120),Camões defende a intervenção do maravilhoso pagão(seu concílio dos deuses: I, 20-41) “Imaginemos um concílio dos deuses que tivesse, em vez das divindades pagãs, Júpiter, Marte, Neptuno, Vénus, Baco, Mercúrio, os santos e as santas de nossa fé. Destes, quais os que ajudariam os portugueses na sua navegação? Mais grave ainda: quais os que estariam contra?” como se estivesse a responder a tácita reprovação do censor inscrita na página 128 de Camões. Fabuloso .Verdadeiro: “Desde que Frei Bartolomeu aceitasse aquela premissa, todo o aparato maravilhoso pedido à mitologia grega, receberia alvará de correr. Colocava-se ali o vau fatal. Bagas de suor deviam perlar a fronte angustiosa do poeta, e mentalmente decorreria em sua memória a estrofe heterodoxa: Quando os deuses no Olimpo luminoso Onde o governo está da humana gente... (I, 20) Até a estância LXV o revedor manteve o cenho reprovativo.” 3. — O diálogo da peça do Sr. José Saramago com a fabulação e ideias do Sr. Aquilino Ribeiro prossegue, quando, ainda nesse segundo quadro do segundo ato (p. 121), Frei Bartolomeu verbaliza numa pergunta a Camões (Agora que sobre isto me fizeste pensar, outra pergunta ainda vos faço: por que não vos haveis servido de Satanás para inimigo dos portugueses e das suas obras? Mostraríeis, assim, uma vez mais, o triunfo da fé sobre as malícias do inimigo.) O discurso indireto-livre de seu pensamento já inscrito em Camões, Camilo, Eça e alguns mais, p.23: “A efabulação do poema cinca pela representação que nela têm os deuses do paganismo. A que vem Baco, quando a santa teologia tem melhor, incomparavelmente melhor, em Satanás e nas suas múltiplas prefigurações, Belzebut, Asmodeu, Lusbel, etc., etc.?” Interessante notarque a resposta de Camões, na peça (p. 121), e toda sua argumentação anterior, de respeito por não invocar em vão os santos nomes da teodiceia católica (“Se foi a armada a dilatar a fé, como encontraria eu santo ou santa para estorvar a navegação, como faz Baco? Então, sim, seria a minha obra contrária à nossa santa fé. E também ofenderia a lógica juntando Satanás ao panteão dos deuses romanos. Além disso, lembre-se Vossa Reverença de que Satanás é o extremo da fealdade. Queríeis que em estilo poético eu tratasse o Maligno, o adornasse enfim com as galas que a poesia sempre lança sobre as suas figuras? Melhor foi servir-me desta ficção dos deuses.”), bem que poderia ser retrucada por esta fala do Frei Bartolomeu, dita em Camões. Fabuloso. Verdadeiro, pp. 129-130: “Mas já lhe digo, gostaria que desse menos relevo ao papel que faz representar aos deseus pagãos. (...) Bem sei que me vem argumentar com o pitoresco... o velho guarda-roupa das musas... e a reserva respeitosa que exigem o Deus Todo-Poderoso e mais pessoas consagradas pela teodiceia” 4. — Outro reparo do censor na peça, à página 122, atinge em cheio a Ilha dos Amores (IX, 52-92) — matéria, por sinal, do opúsculo Camões e o Frade na Ilha dos Amores, que, saído em 1946, serviu de base para os volumes já aqui citados em que Aquilino Ribeiro defende a tese de que o Frei Bartolomeu Ferreira deixou passar a ilha dos Amores, “em troca da enxertia no poema das sete últimas estâncias do canto IX (88-95), o sermão do apostolado; das estâncias 82,83,84 (do Canto X) ou a retractação; e das estâncias 108 à 119 (no Canto X) ou a lenda de S. Tomé. É convicção nossa que este ‘cão de S. Domingos’, como cada um se honrava de ser na ordem dominicana, interpretando macarronicamente o título, tenha deste jeito ferrado a dentuça no texto camoniano” (Camões, Camilo, Eça e alguns mais, p. 29). A peça do Sr. José Saramago, nesse capitulo aquiliniano de enxertias, alude, no final do segundo quadro do segundo ato, à intromissão censória na estância 82 do canto X: “Por hoje temos conversado. Ainda haveremos de examinar certos outros pontos, tenho algumas propostas de correcção a fazer-vos, é do vosso interesse que concordeis com elas. Conviria, dou-vos só este exemplo, que dissésseis, logo veremos em que passo do poema, que os deuses servem apenas para inspirar versos, e nada mais.” 5. — O Frade e o Poeta reencontram-se no quarto quadro do segundo ato (pp. 138-145). Camões vem saber se o censor está satisfeito com as alterações feitas: “Não haverá mais que suprimir e acrescentar? Não terei mais que torcer o sentido para o sujeitar ao vosso desejo sem sacrificar insuportavelmente a minha intenção?” Frei Bartolomeu lê integralmente seu parecer. Transcrevendo-o ipsis verbis, o Sr. José Saramago quer chamar nossa atenção para o quê? Tratar- se-á de mera informação para o leitor? Seria descabido pensar que lhe ressoa na memória lição do Sr. Aquilino Ribeiro? Exatamente aquela inscrita, por exemplo, à página 159 de Luís de Camões. Fabuloso. Verdadeiro: “Antes de mais nada permita-se-me repetir, depois de o ter explanado no livro Camões, Camilo, Eça e alguns mais, que a licença se encontra, mutatis mutandis, nas três estâncias do Canto X, 82, 83 ,84. De parte a parte empregam-se as mesmas palavras essenciais: ficção, fábula, deuses dos gentios, engenho, estilo poético, versos deleitosos, ciência humana, profética ciência, encerrando conceitos que são rotundamente idênticos”. VIII. Aí fica a leitura que o Sr. José Saramago fez da “composição e publicação” de Os Lusíadas. No que tange aos acrescentamentos inseridos já em Lisboa, sua versão coincide com as de Hermano Saraiva e Aquilino Ribeiro. Quanto às emendas e correções impostas pela censura inquisitorial sua óptica subscreve lição corrente entre os camonólogos (Gomes Amorim, D. Francisco Alexandre Lobo, Sebastião Mendo Trigoso, Francisco Evaristo Leoni, Pe. José Maria Rodrigues, Bowra), seguindo particularmente, e muito de perto, ideias e sugestões do Sr. Aquilino Ribeiro. IX. Conclusão: Que farei com este livro? , a tratar da composição e publicação de Os Lusíadas, revela-se, não obstante tácito, um diálogo intertextual — parafrásico — com alguns títulos da bibliografia histórica e crítico-ensaística dedicada a Camões, notadamente, Camões, Camilo, Eça e alguns mais e o segundo volume de Luís de Camões. Fabuloso. Verdadeiro, ambos do Sr. Aquilino Ribeiro. Quanto a ser um diálogo intertextual tácito, lamenta-se não tenha tido o Sr. José Saramago, em sua dramatização parafrásica, o cuidado de revelar fontes e paradigmas, como, por exemplo, o fez Bernardo Santareno em seu O Judeu. De cartas na mesa, o jogo intertextual. Nas “armas e barões assinalados” lê-se, palimpsestamente, as “armas virumque cano” vergilianos. De palimpsestos intertextuais também falou Correia Garção na “Dissertação Terceira” (1757): “mas quem imita deve fazer seu o que imita...” Cortado pela pressa com que a vimos sair, interrompe-se o pensamento da Dra. Legenda Vaz Est... Assim com reticências: suspensão de coisas que pairam no despenhadeiro do ar... Ícaro ou passarola a derreter sob sete-sóis? 4. Conclusão: o olhar (ciclópico) da inteligência. Por licenças poético-mitológicas lutou Camões com o frade censor no enfoque aquilino, como se viu, do Sr. José Saramago. Não seja inútil a morte do poeta e permita-se a este escriba menor e (intertextualmente) epigonal um capítulo conclusivo sob a óptica maravilhosa do olhar ciclópico da inteligência — a sua, caro leitor(a) dessas mal digitadas linhas. (Perdoe-se o lugar-comum, mas, dependendo do texto em que se insere, pode parecer uma novidade originalíssima...) De olho direito e esquerdo falei. Falo agora daquele que está no meio da testa, chackra da inteligência, do intellegere, o ler por dentro e por entre linhas. No autocarro, rumo à sobranceira vista do bairro do Castelo, Manua está lendo Ler. Explico a redundância que não é gralha de digitação: Manua, de volta para casa, finda a aula de computação e o soporífero dia, espantou o sono, pois está a ler uma publicação trimestral de informação literária e editorial, intitulada Ler, que traz em seu número 6, primavera de 1989, destaque de capa, com foto e tudo, uma entrevista de seu Autor predileto, o Sr. José Saramago. Com uma caneta vermelha, sublinha, sacolejante, as seguintes passagens da entrevista: — “Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, como tudo o que hoje fazemos, salvo raras exceções, já foi feito há muito tempo, antes de nós. Tudo é assim na vida. Mas aquilo que talvez distinga os meus livros é o facto de parecer que eu olho as coisas pela primeira vez e poder, assim, traduzir a surpresa daquilo que é visto pela primeira vez” (p. 15). — “Neste livro, na História do cerco de Lisboa, faço uma distinção entre olhar, ver e reparar. Eu penso que são três níveis de atenção: olhar, que é a mera função; ver, que é um olhar atento; e reparar, que é já uma atenção a uma dada coisa ou a um dado fenómeno — passamos a reparar naquilo que só tínhamos visto, a ver aquilo que só tínhamos olhado” (p. 16). Dra. Legenda Vaz Est só anos mais tarde terá essa mesma revista em mãos, adquirida num alfarrabista de Lisboa. No hotel põe-se a folheá-la e topa com a entrevista concedida pelo Sr. José Saramago ao Sr. Francisco José Viegas. Chamam-lhe a atenção uns grifos vermelhos e tremidos a destacar certos trechos. Olha-os, procura vê-los mais de perto, precisa, porém, dos óculos para reparar no que dizem os grifos. Na agenda, letra miúda, fieira de formigas correntes, não obstante cansada, deita as seguintes perguntas — não vá mais tarde, no regresso ao Brasil, esquecer de transcrevê-las em seu “Manual de inquisições literárias”. Dirá a fieira miúda de insones formigas, depois de transposta parao tipos de sua insubstituível Olivetti lexikon 80: a) Quem, conhecendo a bibliografia camoniana e com olho aquilino, não repararia no que viu Que farei com este livro?, a propósito da composição e publicação de Os Lusíadas? b) Distingue-se Que farei com este livro?, dentre outros já saídos, pelo fato de parecer que o Sr. José Saramago deitou olhar inédito, isto é, olhou como se fosse pela primeira vez o problema da composição e publicação de Os Lusíadas? c) De acordo com sua distinção entre olhar, ver, reparar, em que alternativa se encaixaria Que farei com este livro?: viu coincidentemente aquilo que outros já tinham reparado? ou reparou naquilo que outros já tinham visto anteriormente? Aqui o X do problema: No primeiro caso, a releitura epocal e bibliográfica do Sr. José Saramago pode muito bem soar como o marulhar inintencional de fontes onde teria haurido informações que lhe regurgitam, incoercíveis, na memória. No segundo caso, teria exercitado um diálogo intertextual tácito e parafrásico com certos paradigmas crítico-ensaísticos, nomeada e particularmente, com o Sr. Aquilino Ribeiro. Sob tal óptica, tem o Sr. José Saramago razão ao dizer que aquilo que “eu escrevo já foi escrito antes”. Confissão de que suas leituras intertextuais, — sejam elas regurgitar inintencional de ressoante memória ou atento reparo de paradigmas —, não passam de releituras parafrásicas? Só em Que farei com este livro?, a respeito de Os Lusíadas, ou noutros livros também? Densa névoa envolve lá fora o sono de Lisboa. Dra. Legenda Vaz Est pousa a caneta e, maneira de não enxergar o entrevisto por entre brumas, fecha os olhos. Inútil cortina negra: minúsculos pontos de luz, esvoaçando na escuridão, prenunciam-lhe o latejar de costumada enxaqueca. Apressa-se em tomar um Valium, mergulhar no aposento em trevas e ficar quietinha... Para sentir-se, assim sem mais nem menos, ir descendo rumo ao poço de um ascensor cujas portas se abrem em sombria sala onde dois homens assistem. Um, visivelmente nervoso, — mais, fora de si —, caminha pelo cômodo desorientado, gesticulando muito: — Sabemos que se tratou de procedimento deliberado por causa da maneira como escreveu o Não na prova. Com letras carregadas, bem desenhadas, em contraste com a sua caligrafia miúda, fieira de formigas correntes, ainda que clara de ler. (Cf. p. 83 de O cerco de Lisboa). O outro, sentado, ouve com o quietismo cabisbaixo de réu inquisitorial. Chegada ao fundo do poço, (qual poço, bem que lhe apetecia perguntar, descerrada a porta do ascensor), Dra. Legenda, tendo ouvido o diálogo lá de cima, aperta os olhos doridos, para costumá-los às sombras. E não é que, sem nunca tê-los visto, só imaginado, reconhece o Frei Bartolomeu Ferreira, censor de Os lusíadas, no que caminha e gesticula. O sentado é Raimundo Benvindo Silva, o revisor da História em O Cerco de Lisboa . — Só pode ter sido uma perturbação momentânea. Fadiga, uma obliteração ocasional dos sentidos. É isso, passageira insanidade! Doutro modo, como explicar o que o senhor fez? Ter o desplante de apor um Não a verdade assente e aceita, unanimidade geral em qualquer bibliografia! — É... é que não se encontrava um facto novo, uma interpretação polêmica, um documento inédito, sequer uma releitura. Apenas mais uma repetição... (Cf. p. 39 de O Cerco de Lisboa) — E que farei com este livro que o senhor reviu? E que farei com este livro? A que livro se referem esses dois intrusos em meu sonho, a O cerco de Lisboa ou à peça sobre Camões, que acabei de rever e interpretar? isso foi o que ainda conseguiu tartamudear a Dra. Legenda Vaz Est, antes de calar-se em profundo sono, aquele que não nos deixa a menor reminiscência platônica da realidade. Fossem os gritos energúmenos do Frei Bartolomeu Ferreira censurando o Sr. Raimundo Benvindo Silva, fossem estridências de incômodos silêncios abafados no inconsciente, o fato é que Manua, pontualmente às seis horas da manhã, desperta sobressaltada e abre os olhos para ler Ensaio sobre a cegueira. Sem ter dado, imagine! — ato falho? deliberado esquecimento? —, a in(augural) dentada no cruassã. Na crista da manhã — clarim e esporão —, eriça-se o Sol, espanejando rocio estrídulo e multicor. Faça-se a luz —, pensam os olhos jejunos (e bem abertos) de Manua. Cartas à Redação: foro e desaforo do leitor “Quem dá com a língua nos dentes, às vezes está à procura do siso.” (Incunábulo dos Apólogos) De epígrafes Eu quero, mas ah eu quero mesmo!, como eu quero!, deixar registrado meu veemente protesto contra essa Redação. Só quero ver se meu protesto indignado vai ser publicado. Aliás, duvido, du-vi-de-o-dó! que ele venha a público. E sabem por que eu duvido? Porque eu vou denunciar que essa Redação está empenhada em desmerecer a obra genial do Sr. José Saramago. Os leitores ainda não perceberam que essa Redação com suas penas de aluguel vem insinuando, na calada sombra de suas entrelinhas, que nosso Nobel lusófono se apropria, sem aspas ou indicação bibliográfica, de ideias alheias? Se não perceberam, eu estou aqui a denunciar, alto e bom som, na verdade eu estou a pregar no deserto, porque eu não vou ser ouvida, o meu protesto não será publicado, du-vi-de-o-dó! Eu não vou poder mostrar aos Companheiros e Companheiras de meu Partido que eu sou de luta e que eu denunciei que essa Redação com suas línguas de trapo e aluguel parece desconhecer, como disse meu Orientador da Pós-Graduação (que faço) à Distância, que “a cozinha literária tem Lavoisier por chef”. Como aprendi com ele, com o meu Orientador da Pós-Graduação (que faço e bem) à Distância, continuo citando entre aspas o que ele me disse pois tenho tudo gravado em meu celular de última geração: “A cozinha literária tem Lavoisier por chef. Ou seja, em matéria de literatura, nada se cria, tudo se copia e se transforma. Essa Redação, sob a capa do ‘Foro e desaforo do leitor’, anda de lupa em punho esquadrinhando as fontes e paradigmas que inspiram o genial diálogo intertextual travado pelo Sr. José Saramago; essa Redação que, PIDE ou PVDE ou DGS dos bons costumes intertextuais, anda interrogando a caverna das reminiscências do Sr. José Saramago, exigindo nome e endereço dos autores escondidos ou albergados por sua obra, como se nossa memória, por mais prodigiosa que fosse, pudesse lembrar a autoria divina ou humana de tudo que um dia vimos ou lemos; enfim, com base no exposto acima, essa Redação, por coerência ética, deveria ser menos descarada e dizer que as epígrafes que vem nos impingindo, ao longo deste texto, todas elas são tiradas de livros inexistentes ou seja, trata-se de cópia, para não dizer plágio ou furto, da ideia das epígrafes de livros e autores inexistentes com que o Sr. José Saramago, inspirado em Jorge Luis Borges, nos brinda a inteligência.” Concordo com tudo isso que disse meu Orientador e gravado está em meu celular de última geração, instrumento indispensável, amiga, para quem faz Pós-Graduação e bem a distância. Por todos os nomes e genealogia exigidos por essa falsa ágora democrática, conheça essa redação o nome que tenho, não o que me deram: Blimunda Cassandra José, Palmas, (Tocantins) Tudo é intertextual “Todo discurso, escrito ou falado, é intertextual, e apeteceria mesmo dizer que nada existe que não o seja. Ora, sendo isto, creio, uma evidência do quotidiano, o que ando a fazer nos meus romances é a procurar os modos e as formas de tornar essa intertextualidade geral literariamente produtiva, se me posso exprimir assim, usá-la como uma personagem mais, encarregada de estabelecer e mostrar nexos, relações, associações entre tudo e tudo.” Joséde Sousa Saramago, Titerroigatra (Canárias). Esclarecimento público [Esclarecemos ao distinto público leitor que as intervenções entre [ ] são de inteira responsabilidade da Redação. Algures, em algum canto desta ágora passada, pública praça de opiniões, já se disse que só intervimos, copidescando, em nome do Manual de Estilo e Redação que nos rege com parágrafos e incisos a cultuar essa Deusa que é a serena e escultural Forma. (Ave, Olavo, ave, Olave Bilac!) Uma vez que se antolha o ensejo, esclareça-se outrossim, e de uma vez por todas, que toda e qualquer opinião aqui exarada é de inteira responsabilidade do leitor interveniente ou do ensaísta. Ambos, pois aqui não se faz preconceituosa diferença, ambos, insistimos, abrigados sob a divisa “Se sabes ler, começa por soletrar as entrelinhas.”, que, em caprichosa caligrafia gótica e no formato de lua-nova, subscreve nosso símbolo, nosso logotipo, nossa marca a luneta crítica à Galileu: lembrança de que a hipertrofia da visão é sempre um ensaio lúcido sobre a cegueira.] Rol de coincidências Realmente um caso de prodigiosa memória (talvez fosse melhor dizer um caso prodigioso de criptomnésia), digno de ser estudado, é o caso do Sr. José Saramago com seu rol de coincidências intertextuais. Veja-se, repare-se e considere-se o que essa Redação apresentou ao analisar Terra do pecado, Manual de pintura e caligrafia e Que farei com este livro?. Tudo, já nesses exercícios de caligrafia literária do Sr. Saramago, um decalque floreado de letras alheias. Um mestre-cuca à Laviosier da cozinha literária (onde nada se cria, tudo se copia e transforma em prato requentado), o Sr. José Saramago (vítima de um prodigioso caso de criptomnésia), “com a mão posta sobre todas as escrituras sagradas, havidas e por haver”, há de jurar, com toda a candura, que não sabe de que fonte ou paradigma lhe veio a inspiração. Uma vez que, como ele diz, “todo discurso escrito ou falado, é intertextual”, nada mais natural que o Sr. José Saramago acredite “sinceramente ter interceptado muitos pensamentos que os céus destinavam a outro homem” (como se lê em epígrafe de O homem duplicado, tirada, será mesmo?, a Laurence Sterne) e que inscreva os tais pensamentos no “rol das coincidências”. Para que não se diga, levianamente, que levanto o caso e não mostro a prova, leia-se a seguinte passagem em Cadernos de Lanzarote, 29 de abril de 1995: “Para o rol das coincidências. Onésimo [trata- se do Sr. Teotónio Almeida, professor na Brown University] tinha-me dito ontem: ‘Olhe que há uma passagem do segundo volume dos seus Cadernos que parece descender em linha directa de um livro de Kierkegaard. Vou ver se lhe consigo uma fotocópia.’ Prometeu e cumpriu. O livro é Either/Or, a página, na tradução publicada pela Pinceton University Press, é a 282, e diz assim: ‘A história pode ser traçada desde o princípio do mundo. Os deuses estavam aborrecidos, e por isso criaram o homem. Adão estava aborrecido porque estava só, e Eva foi criada. O aborrecimento deles cobriu o mundo e aumentou na proporção do aumento da população. Adão estava aborrecido sozinho; depois Adão e Eva aborreceram-se juntos; depois Adão e Eva e Caim e Abel aborreceram-se en famille; depois a população do mundo aumentou, e os povos aborreceram-se en masse.’ Ora, com a mão posta sobre todas as escrituras sagradas, havidas e por haver, juro que de Kierkegaard só li, há muitíssimos anos, O Desespero Humano, traduzido por Adolfo Casais Monteiro, na edição da Livraria Tavares Martins. Sendo assim, e jurado fica que assim é, como foi possível a este leigo em filosofias escrever o que está nas páginas 249 e 250 dos ditos segundos Cadernos? Responda quem puder.” Aí está o dito pelo dito, in nomine Dei, com todas as aspas requeridas. Responda quem puder como se explica esse rol de tantas coincidências. Severo de Morais, Butantã (SP). Pingo nos ihs! Parabenizo o Sr. Severo de Morais pela lúcida intervenção em Rol de Coincidências, pondo os pingos nos ihs da memória literária do Sr. Saramago: Ih, alguém já escreveu isso? Ih, outro já disse isso? Ih, essas ideias são de beltrano ou sicrano? Ora, pronto, pois, senhores, pinguem todos esses ihs num rol de coincidências. Amaro Cobra, Ourinhos (SP). Olho por olho Forca, fuzilamento, câmara de gás para esses senhores fariseus! É o que merecem, tentando encontrar argueiro nos olhos dos outros sem tirarem a trava dos próprios olhos. Divara Anabatista dos Santos, Cidade de Deus (RJ). Barranco de cegos Penso que todo ensaio sobre a lucidez é sempre um ensaio sobre e contra a cegueira generalizada. Já nos prevenia S. Mateus que quando um cego guia outros cegos, todos vêm a cair no barranco. Basta ver, reparar e considerar o quadro de Bruegel e a novela [Barranco de cegos} de Alves Redol. Delfos Sibilino Cortes, Mariana (MG). Paz na Terra [Esta Redação pede aos homens e (obviamente também) às mulheres de boa vontade que não se transforme esta ágora, praça pública de manifestações polifônicas e democráticas, em palco beligerante do fundamentalismo xiita de fés literárias.] Pleonasmo burro Sou professora de Língua Pátria no ensino fundamental. Ao ler Paz na Terra, me ocorreu uma dúvida. Tenho que ensinar figuras de linguagem para os meus alunos, um tópico gramatical e estilístico que essa Redação há de convir não é fácil de explicar para quem não tem a menor ideia do que é tópico, gramática, estilo e muito menos figura de linguagem. Mas eu tenho de ensinar, no ensino fundamental, o que é figura de linguagem. Essa Redação me entende, entende o meu problema? Na verdade, problema de todos os professores de Português que têm de ensinar o vernáculo com base na língua viva, aquela de jornais, revistas e, em último caso, livros. Invicta com toda honra, imaculada da conceição através do pecado carnal, e para não pensar em outras coisas que me levem a chafurdar na lama do evolucionismo spenceriano, como a Viúva heroína de A terra do pecado, concebi que todos os meus alunos são meus filhos por obra e graça do Espírito Santo. Um desses meus filhos, de apelido António Nobre, sonha em ser poeta, e bem disse ele em seus versos que toda mãe de poeta é virgem. Não é comovente esta homenagem que ele me fez, dedicando a mim aqueles versos num Dia das Mães? Mas nada disso tem a ver com minha entrada aqui, que só se deve ao fato de eu ter de ensinar figura de linguagem com base em jornal, revista e livro. Pois não é que, leitora assídua desse fórum dos leitores, me deparei com um pleonasmo que, me desculpe a Redação, parece burro, um pleonasmo assim do tipo subir pra cima, descer pra baixo, andar a pé. Trata-se da expressão, “fundamentalismo xiita de fés literárias”. Olhe, veja e repare que ponho na expressão as aspas devidas, o dito é alheio e sei, como professora de ensino fundamental, que devemos tributar a César o que é de César para não incorrer no risco da sonegação de fontes. Pois bem. Tendo essa Redação escrito “fundamentalismo xiita de fés literárias”, me veio a dúvida: todo fundamentalismo de qualquer seita ou crença, católica, protestante, judaica, islâmica ou literária, não é xiita? Conceição do Espírito Santo Dias, Ribeirão Pires (SP). Dúvidas metafísicas Tenho acompanhado com todo interesse e atenção esse fórum dos leitores ou, como diz a Redação, essa ágora pública e democrática. Tenho um rol imenso de dúvidas que gostaria de esclarecer, mas sei que não tenho espaço para apresentar todas elas. Por isso, só vou pedir o esclarecimento de duas delas. Primeira, o sr. Delfos Sibilino Cortes (Barranco de Cegos) está a favor, contra ou muito antes pelo contrário? Segunda... Bem, a segunda veio exatamente considerando o nome do sr. Delfos Sibilino, esquisito, que me fez prestar atenção no nome das pessoas que escrevem para essa Redação. Aqui entre nós, são uns nomesassim todos muito estranhos... Fico pensando na inspiração dos pais... Fico imaginando os pais diante do sr. José-e-só, (assim mesmo, sem mais sobrenomes), aquele servidor exemplar da Conservatória Geral do Registro Civil de todos os nomes e de todos os óbitos... Vejo esses pais debruçados no balcão e à frente do olhar espantado do sr. José- e-só, pedindo que registrem o rebento com o nome de Severo de Morais, Divara Anabatista dos Santos, Amaro Cobra, Blimunda Cassandra José, Apolo Dionísio da Silva e outros mais, tudo muito, assim, como direi, misterioso?, não, tudo assim muito sibilino, fazendo com que pobres mortais como eu comecem a duvidar da existência civil, burocrática e burguesa deles... Aqui, enfim, minha segunda dúvida: esses nomes todos são o nome que de fato têm ou são o nome que lhes deu essa Redação? Esse pessoal todo existe mesmo ou a história deles não passa de ficção, essa revisora da verdade dos fatos, como sustenta o Sr. José Saramago? Agnes Maciel Cordeiro, Ponta Grossa (PR). Priscas eras Há muito tempo atrás, no tempo do era uma vez, das histórias da carochinha, quando fiz o Colegial numa escola pública, tempo em que as escolas públicas ainda não eram as privadas do ensino, tive aulas de latim e nelas aprendi que a expressão Delenda Cartago est significava “Cartago deve ser destruída”. O pai da Dra. Legenda Vaz Est é ou foi, se não latinista, pelo menos um contemporâneo de meus tempos colegiais já que deu à sua filha o nome que ela tem. Nome premonitório talvez, adivinhando que ela um dia seria camonóloga e um dia haveria de exigir que, em homenagem a seu nome Legenda Vaz Est, o Vaz (de Camões) deve ser lido. Além, é claro, de toda a bibliografia sobre esse Vate imortal, para que venhamos a entender quão aquilino (do latim aquilinu) é o olhar do Sr. José Saramago ao tratar da vida e obra de Camões. Simplício Scholessenwald da Silva, Caxias do Sul (RS). Ainda de epígrafes Não sei por que toda essa briga em torno das epígrafes postas pela Redação. Por que não lê-las como uma homenagem à inventividade do Sr. Saramago e ao seu exercício da intertextualidade como recurso criativo de sua ficção. Epígrafes são como abre-te-sésamo, palavra-chave para abrir as portas do tesouro. Epígrafes são para bom entendedor a meia palavra bastante. Epígrafes são epítome de volumes cujo sentido apreendemos, sem lê-los. Como se lê em Diálogos com José Saramago ( p 122): “Se calhar tudo isto é um pouco borgiano, suponho eu, com todo o jogo de referências e citações e de falsas citações, até.” Concordo com a leitora Blimunda Cassandra José (De epígrafes) que, fazendo Pós- Graduação a distância, gravou em seu celular e registrou o ensinamento de seu Orientador, a dizer que a cozinha literária tem por chef Lavoisier, quer dizer, em termos de Literatura, nada se cria, tudo se copia e se transforma. Cândido Rousseau Buonavitta, Baturité (CE). VII. Levantado do chão (1980) Romeu Raneman da Silva (Membro da Academia Homeopática de Letras. Autor de Homeopatia: cura pelo sofrimento semelhante) “Similia similibus curentur.” (Princípio homeopático) 1. Who’s afraid of Virginia Woolf ? O organizador de Exercícios de caligrafia literária: Saramago quase é meu paciente. (Afinal, quem não é paciente ao tratar-se com os recursos da Homeopatia.) Um dia, em meu consultório, sabedor de que, em minhas horas de lazer, aliás pouquíssimas, leio a ficção do Sr. José Saramago, autor que muito admiro, perguntou-me se eu não queria escrever um ensaio sobre Levantado do chão. Personalidade egocêntrica, com autoestima e suscetibilidade exageradas, mescladas à crítica e à ironia, carapaças de seu tédio existencial, tanto que o trato com sulphur e arsenicun alb. em altas dinamizações uma vez por mês , eu só poderia considerar a proposta como gozação. Homeopata, natural que combatesse o sintoma inoculando-lhe veneno semelhante. Perguntei-lhe se ficaria satisfeito caso eu utilizasse o princípio homeopático da dose diminuta e do similia similibus curentur (“os semelhantes curam-se pelos semelhantes”). Espreguiçou-se na cadeira e ensaiou ares metafísicos, enquanto procurava algo no bolso do paletó. Após eu ter-lhe recusado a permissão de acender um charuto, Mas é um Coiba legítimo, Em meu consultório nem pensar. , disse-me que sim, que tudo bem: Afinal, meu caro Doutor, és mais doente do que eu. Expressão do princípio homeopático da dose diminuta e do similia similibus curentur, mandei-lhe então, em folha do receituário, caprichada a medicinal garatuja, o seguinte diagnóstico a propósito de Levantado do chão: “... a fórmula rodeou-se de um barroquismo quase impenetrável, exemplo significativo de um estilo à procura de assunto...” (José Saramago, “Quem tem medo da cultura?”, in Os apontamentosOs apontamentosOs apontamentosOs apontamentos, 2 ed., Lisboa: Caminho, pp. 100-101) (Narciso a rever-se no próprio cursivo, confesso que fiquei orgulhoso de ter feito um curso de caligrafia.) [SP, 28/dez./2005] VIII. Guia “Se sabes ler, começa por soletrar as entrelinhas.” (Livro do Desconcerto) Findo o périplo, eis que nos vemos às voltas com Tirésias, Bruegel e cavernas do Inconsciente. O título (Guia) surgiu sussurrado pelo Inconsciente esse Tirésias que, cego, é simulacro do Senso Comum, conforme o vislumbrou Apolo Constantinos Jr., nosso preclaro colaborador. E com o título, imagem puxa imagem, projetou-se aos olhos desta Redação A parábola dos cegos (1568), de Pieter Bruegel. Convenhamos que um belo quadro, inspirado em palavras de Cristo, cujas vergastavam o lombo dos fariseus: “Se um cego guia outro cego, ambos despenharão no barranco.” Nunca o contemplou, essa Parábola dos cegos, de Bruegel? Então vale a pena vê-lo e repará-lo, deitando-lhe olhar crítico e inédito, exatamente aquela óptica adotada por Legenda Vaz Est e Samir Savon no exame de Que farei com este livro? Oxalá que esse olhar de Capitu oblíqua e dissimulada não o impeça de degustar o quadro de Bruegel ao sabor do que sempre faz José Roberto Jauss Iser, que, enófilo e gourmet, é autor, como se lembra Vossa Mercê, de Simpósio: como degustar um livro ou uma pintura, acrescenta, agora, esta Redação. Tudo bem que esta Redação, foro e desaforo dos leitores, com seu lema e emblema a luneta de Galileu (recordam-se?), acabou propondo-se em ser também um ensaio sobre a cegueira com pretensões de alcançar a lucidez. Tanto nossa como a dos outros. Só espera esta Redação que não seja ela (a Redação ou a lucidez?), também farisaicamente, um cego a guiar outros cegos para o barranco ou fossa comum. Neste caso, o princípio homeopático Similia similibus curentur não fará o menor efeito, ─ esclarece-nos enfaticamente o Dr. Romeu Raneman da Silva Não tivesse o cego Tirésias, esse simulacro inconsciente do Senso Comum, adentrado, sem bater, as portas desta Redação, o epílogo com outra feição e figura emergiria. Saído das cavernas platônicas do Sr. José Saramago. Tipo assim: Nossa visita guiada terminou, senhoras e senhores. Não há mais o que fazer aqui nesta caverna do período formativo (1947-1980) da obra do Sr. José Saramago. Em suas paredes vimos inscritos os exercícios da caligrafia rupestre de um Saramago quase, gacho submetido à canga de incoercível vocação literária. São esboços, alguns desenhos ainda toscos, outros com riscos e traços a futurar escorços e afrescos de talento. De qualquer modo, uma trajetória de tinta e três anos39 é o que se lê nos experimentos realizados com a poesia, a crônica, o conto, o teatro e o romance. Ao percorrê-los, iluminando os ossos e o ressequido palimpsesto em que se transformara a pele do seres e fatos de sua experiência literária, esperoque o foco de nossa lanterna tenha flagrado o vulto do Sr. José Saramago à boca da caverna, encandeado com os simulacros oferecidos pelo universo da ficção e em busca de uma dicção própria que viesse a ser inconfundível na exploração, à Ferdinad de Saussure, da língua e da fala. Mas não só, senhoras e senhores. Lobrigamos também, apesar da obscuridade, os traços e linhas futuros da ficção saramaguiana posterior a 1980: o diálogo intertextual (às vezes criptomnésico), o engajamento político e o gosto pelo fantástico e maravilhoso. Estes dois últimos ingredientes responsáveis por um ensaísmo ficcional que, às voltas com o ontológico e o ôntico, serão os germens das alegorias de Jangada de pedra, Todos os nomes, Ensaio sobre a cegueira, A caverna, O homem duplicado e Intermitências da morte. Ao cabo (tormentório?) do périplo, bem que apetece a esta Redação dizer, parafrasicamente, a exemplo de Cipriano Algor e do narrador José Saramago 40: “[...] as provas estão aqui, cada qual tirará as conclusões que achar justas, eu já tirei as minhas.” Assim, o foco de nossa lanterna também volta ao seu lugar. 39 Ora, vejam a ironia numinosa desse algarismo. 40 Para melhor apreciar este banquete platônico, ver o diálogo aqui travado com A caverna, SP: Companhia das Letras, 2000, p. 333-334. E a escuridão também?41 Ora, pergunte lá a José Roberto Jauss Iser, nosso colaborador e quase xará de Jauss e Iser, esses elucubradores de uma tal Teoria da Recepção. Afinal, aqui entre nós, como diz o lema e emblema desta Redação, inspirada na óptica da luneta de Galileu, Se sabes ler, começa por soletrar as entrelinhas. (Livro do Desconcerto) (Ah, esquecia-se a Redação de dizer , esse Livro do Desconcerto, inexistente, de inspiração jorge-luis-borgiana, é, como o sugeriu nosso leitor Cândido Rousseau Buonavitta [Ainda de epígrafes], uma homenagem intertextual à criatividade palimpséstica do Sr. José Saramago.) Ave, Lavoisier, nosso grande chef dos pratos reciclados e requentados da nouvelle cuisine literária, dita pós-moderna. [A Redação. Subscrita pelos ensaístas abaixo-assinados: Manuel Pelourinho Apolo Constantinos Jr. F. Khom José Roberto Jauss Iser Ângelo Ruzzante de Pádua Legenda Vaz Est e Samir Savon Romeu Raneman da Silva] [SP, 6-13/jan./2006] 41 Leitor, inopinada e inoportunamente, saído de Cartas à Redação, foro de desaforos.