Prévia do material em texto
@odonto_miga 1 1-Caracterizar doenças autoimunes com manifestações orais. Lúpus Eritematoso Sistêmico O lúpus eritematoso (LE) é um exemplo clássico de uma condição imunomediada, sendo a mais comum das denominadas doenças do colágeno vascular ou do tecido conjuntivo nos Estados Unidos, com mais de 1,5 milhão de pessoas afetadas. O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença grave que envolve diversos sistemas, com uma variedade de manifestações cutâneas e bucais. Existe um aumento na atividade dos linfócitos B do sistema imune em conjunto com função anormal dos linfócitos T. Embora fatores genéticos provavelmente desempenhem um papel na patogênese do LES, a causa precisa é desconhecida. Sem dúvida, ocorre uma inter-relação entre os fatores genéticos e ambientais, pois quando o LES se desenvolve em um gêmeo monozigoto (idêntico) o outro gêmeo tem 24% de chance de apresentar a doença. Em contrapartida, se um gêmeo dizigótico (fraterno) apresenta o LES, o outro tem somente 2% de chance de ser afetado. O lúpus eritematoso cutâneo crônico (LECC) pode representar um processo diferente, mas relacionado. Afeta principalmente a pele e a mucosa bucal e o prognóstico é bom. O lúpus eritematoso cutâneo subagudo (LECS) é uma terceira forma da doença, que apresenta características clínicas intermédias entre o LES e LECC. Características Clínicas O LES pode ser uma doença muito difícil de diagnosticar em estágios iniciais, porque muitas vezes se manifesta como um quadro vago inespecífico, frequentemente com períodos de remissão ou de inatividade da doença. As mulheres são acometidas cerca de 8 a 10 vezes mais comumente do que os homens. A idade média do diagnóstico é de 31 anos. Os achados comuns incluem febre, perda de peso, artrite, fadiga e mal-estar generalizado. Em 40% a 50% dos pacientes afetados, ocorre o desenvolvimento de um exantema (erupção na pele) característico, apresentando um padrão de borboleta sobre a região malar e nasal, tipicamente poupando os sulcos nasolabiais. Em geral, a luz solar faz com que as lesões se agravem. Os rins são afetados em quase 40% a 50% dos pacientes com LES. Essa complicação pode levar, em última instância, à insuficiência renal; desse modo é o aspecto mais significativo da doença. O envolvimento cardíaco também é comum, com a pericardite (inchaço e irritação da membrana fina do pericárdio) sendo a complicação mais frequente. Na autópsia, cerca de 50% dos pacientes com LES exibem vegetações verrucosas afetando as válvulas cardíacas (endocardite de Libman-Sacks). O seu significado é discutível, embora alguns pacientes possam desenvolver endocardite bacteriana subaguda sobreposta nestas áreas, que seriam, em outra situação, apenas crescimentos estéreis de material fibrinoide e células de tecido conjuntivo. As lesões bucais do LES se desenvolvem em 5% a 25% desses pacientes, embora alguns estudos demonstrem uma prevalência de 40%. Em geral as lesões afetam o palato, a mucosa jugal e a gengiva. Algumas vezes, elas aparecem como áreas liquenoides, mas também podem ser inespecíficas ou até mesmo granulomatosas (agregado de células) . O envolvimento da região do vermelhão do lábio inferior (queilite por lúpus) é observado, ocasionalmente. Graus variáveis de ulceração, dor, eritema e hiperqueratose (espessamento da epiderme) podem estar presentes. Outras queixas bucais como a xerostomia, a estomatodinia (sensação de ardência na boca), a candidíase, a doença periodontal e a disgeusia (paladar alterado) têm sido descritas, mas a associação direta desses problemas com o LES ainda necessita ser comprovada. A confirmação do diagnóstico de LES pode ser difícil, principalmente nos estágios iniciais. Os critérios para realizar o diagnóstico de LES foram estabelecidos pela American Rheumatism Association, e esses incluem tanto os aspectos clínicos quanto os laboratoriais @odonto_miga 2 Lúpus Eritematoso Cutâneo Crônico Os pacientes com LECC geralmente apresentam poucos ou nenhum sinal ou sintoma sistêmico, com as lesões estando limitadas à superfície da pele ou das mucosas. As lesões cutâneas do LECC mais comumente se apresentam como lúpus eritematoso discoide. Elas se iniciam como placas eritematosas descamativas que frequentemente estão distribuídas nas áreas da pele expostas ao sol, em especial na região da cabeça e do pescoço. Os pacientes podem relatar que as lesões se exacerbam pela exposição ao sol. Com o tempo, elas podem cicatrizar de forma espontânea em uma área e surgir em outras. O processo de cicatrização normalmente resulta na atrofia cutânea com formação de cicatrizes e hipopigmentação ou hiperpigmentação da lesão em processo de resolução. No LECC, é raro o envolvimento da conjuntiva causar uma conjuntivite cicatricial, clinicamente semelhante ao que ocorre no penfigoide das membranas mucosas. Na maioria dos casos, as manifestações bucais do LECC se apresentam clinicamente idênticas às lesões do líquen plano erosivo. No entanto, ao contrário das lesões bucais do líquen plano, as lesões do LECC raramente ocorrem na ausência de lesões cutâneas. Uma área central eritematosa ulcerada ou atrófica, circundada por estrias brancas finas e irradiadas, caracteriza as lesões bucais do LECC . Algumas vezes, a área central atrófica e eritematosa pode exibir um padrão pontilhado delicado de pontos brancos. De modo semelhante ao líquen plano erosivo, as lesões bucais atróficas e ulcerativas do LECC podem ser dolorosas, especialmente quando expostas a alimentos ácidos ou salgados. Lúpus Eritematoso Cutâneo Subagudo Os pacientes com LECS apresentam manifestações clínicas intermediárias entre o LES e o LECC. As lesões de pele são os aspectos mais evidentes dessa variante, sendo caracterizadas por fotossensibilidade e, portanto, geralmente presentes em áreas expostas ao sol. Essas lesões não exibem o endurecimento e as cicatrizes observadas nas lesões cutâneas do LECC. Lesões bucais similares às de LECC também já foram descritas nessa variante de lúpus. Em geral, as alterações renais ou neurológicas associadas ao LES não estão presentes, com a maioria dos pacientes @odonto_miga 3 apresentando artrite ou problemas musculoesqueléticos. O LECS pode ser desencadeado por qualquer um de uma variedade de medicamentos Diagnóstico: Além das características clínicas e microscópicas, vários estudos imunológicos podem auxiliar no estabelecimento do diagnóstico do LE. Os testes de imunofluorescência direta do tecido lesionado exibem a deposição de um ou mais imunorreagentes (geralmente IgM, IgG, ou C3) em uma banda áspera ou granular na zona da membrana basal. Além disso, os testes de imunofluorescência direta da pele clinicamente normal de pacientes com LES exibem com frequência um padrão semelhante de deposição de IgG ou IgM ou de componentes do complemento. Estes achados são conhecidos como teste de banda positivo para lúpus. Embora o teste de banda positivo para lúpus seja condizente com o diagnóstico de LE, é hoje sabido que outras condições, como a artrite reumatoide, a síndrome de Sjögren e a esclerose sistêmica, também podem ter características semelhantes de positividade. Além disso, alguns pacientes com LE podem não apresentar positividade para o teste de banda por lúpus, por isso este estudo deve sempre ser interpretado em associação com outros sinais clínicos. A avaliação de soro obtido de um paciente com LES exibe várias anormalidades imunológicas. Aproximadamente 95% desses pacientes possuem anticorpos dirigidos contra múltiplos antígenos nucleares (p.ex., anticorpos antinuclear [ANA]). Embora este seja um achado inespecífico que pode ser encontrado em outras doenças autoimunes, bem como em indivíduos idosos saudáveis, ele é, noentanto, útil como um estudo de triagem. Ademais, se os resultados forem negativos em múltiplas ocasiões, então o diagnóstico do LES provavelmente deve ser contestado. Os anticorpos dirigidos contra a dupla fita do DNA são observados em 70% dos pacientes com LES, e estes são mais específicos para a doença. Outros 30% dos pacientes apresentam anticorpos dirigidos contra Sm, uma proteína que forma um complexo com um RNA nuclear de pequeno peso molecular. Esse achado é muito específico para o LES. Síndrome de Sjogren Além das características clínicas e microscópicas, vários estudos imunológicos podem auxiliar no estabelecimento do diagnóstico do LE. Os testes de imunofluorescência direta do tecido lesionado exibem a deposição de um ou mais imunorreagentes (geralmente IgM, IgG, ou C3) em uma banda áspera ou granular na zona da membrana basal. Além disso, os testes de imunofluorescência direta da pele clinicamente normal de pacientes com LES exibem com frequência um padrão semelhante de deposição de IgG ou IgM ou de componentes do complemento. Estes achados são conhecidos como teste de banda positivo para lúpus. Embora o teste de banda positivo para lúpus seja condizente com o diagnóstico de LE, é hoje sabido que outras condições, como a artrite reumatoide, a síndrome de Sjögren e a esclerose sistêmica, também podem ter características semelhantes de positividade. Além disso, alguns pacientes com LE podem não apresentar positividade para o teste de banda por lúpus, por isso este estudo deve sempre ser interpretado em associação com outros sinais clínicos. A avaliação de soro obtido de um paciente com LES exibe várias anormalidades imunológicas. Aproximadamente 95% desses pacientes possuem anticorpos dirigidos contra múltiplos antígenos nucleares (p.ex., anticorpos antinuclear [ANA]). Embora este seja um achado inespecífico que pode ser encontrado em outras doenças autoimunes, bem como em indivíduos idosos saudáveis, ele é, no entanto, útil como um estudo de triagem. Ademais, se os resultados forem negativos em múltiplas ocasiões, então o diagnóstico do LES provavelmente deve ser contestado. Os anticorpos dirigidos contra a dupla fita do DNA são observados em 70% dos pacientes com LES, e estes são mais específicos para a doença. Outros 30% dos pacientes apresentam anticorpos dirigidos contra Sm, uma proteína que forma um complexo com um RNA nuclear de pequeno peso molecular. Esse achado é muito específico para o LES. Características Clínicas: A síndrome de Sjögren não é uma condição rara. Embora a prevalência exata dependa do critério clínico utilizado, estimativas atuais demonstram uma prevalência populacional de 0,5%, com uma proporção mulher-homem de 9:1. É @odonto_miga 4 observada predominantemente em adultos de meia- idade, mas raros exemplos têm sido descritos em crianças. A síndrome de Sjögren não é uma condição rara. Embora a prevalência exata dependa do critério clínico utilizado, estimativas atuais demonstram uma prevalência populacional de 0,5%, com uma proporção mulher-homem de 9:1. É observada predominantemente em adultos de meia-idade, mas raros exemplos têm sido descritos em crianças. Quando a condição é associada à outra doença do tecido conjuntivo, é chamada síndrome de Sjögren secundária. Ela pode estar associada a qualquer outra doença autoimune, mas a associação mais comum é à artrite reumatoide. Cerca de 15% dos pacientes com artrite reumatoide têm síndrome de Sjögren. Adicionalmente, a síndrome de Sjögren secundária pode se desenvolver em 30% dos pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES). O principal sintoma oral é a xerostomia, que é causada pelo decréscimo das secreções salivares; entretanto, a intensidade dessa secura pode variar de paciente para paciente. A saliva pode se apresentar espumosa, com perda do reservatório usual de saliva no assoalho da boca. Os pacientes acometidos podem se queixar de dificuldades durante a deglutição, de alterações de paladar ou de dificuldades em usar próteses removíveis. A língua geralmente se torna fissurada e exibe atrofia das papilas Cerca de um terço até metade dos pacientes apresenta aumento firme e difuso das glândulas salivares maiores durante o curso da doença. Geralmente, esse aumento é bilateral, podendo ser indolor ou levemente doloroso, e pode ser de natureza intermitente ou persistente. Quanto maior a gravidade da doença, maior a probabilidade de ocorrer aumento das glândulas salivares maiores. O termo queratoconjuntivite sicca descreve não somente a redução de produção de lágrimas pelas glândulas lacrimais, mas também o efeito patológico nas células epiteliais da superfície ocular. Assim como na xerostomia, a gravidade da xeroftalmia pode variar drasticamente de um paciente para o outro. A inflamação lacrimal causa uma redução da camada aquosa do filme de lágrima; entretanto, a produção de mucina é normal e pode resultar em secreção mucoide. Os pacientes geralmente se queixam da sensação de arranhadura, de ter areia ou ter a presença persistente de um corpo estranho nos olhos. Desenvolvem-se defeitos no epitélio de superfície ocular, que podem resultar em visão embaçada e, algumas vezes, em dor latejante. As manifestações oculares são menos intensas no período da manhã, ao acordar, e se tornam mais pronunciadas ao longo do dia. Um método simples para confirmar a redução da secreção lacrimal é a realização do teste de Schirmer. Um pedaço de papel filtro estéril e padronizado é colocado sobre a margem da pálpebra inferior, para que a ponta com abas seja inserida no terço inferior da pálpebra. A produção de lágrima é avaliada, medindo-se o tamanho da porção úmida do papel filtro. Valores menores que 5 mm (após um período de 5 minutos) são considerados anormais. Além disso, a possibilidade de dano à superfície córnea e conjuntival pode ser avaliada com uma lâmpada de fenda após o uso dos corantes rosa bengala e lissamina verde. A síndrome de Sjögren é uma doença sistêmica, e o processo inflamatório pode também afetar vários outros tecidos do corpo. A pele geralmente é seca, bem como as mucosas nasal e vaginal. A fadiga é relativamente comum, e algumas vezes pode ocorrer depressão. Líquen Plano Oral O líquen plano é uma doença dermatológica crônica relativamente comum, que afeta frequentemente a @odonto_miga 5 mucosa bucal. O nome peculiar dessa condição foi dado pelo médico britânico Erasmus Wilson, que foi o primeiro a descrevê-la, em 1869. Provavelmente Wilson pensava que as lesões cutâneas se assemelhavam aos liquens que crescem sobre as rochas, para merecerem essa denominação. Embora o termo líquen plano sugira uma condição fúngica plana, evidências atuais indicam que essa é uma doença mucocutânea imunomediada. Vários medicamentos podem induzir lesões que se assemelham clinicamente à forma idiopática (que surge espontaneamente com origem desconhecida) dessa condição; no entanto, o termo mucosite liquenoide (ou dermatite liquenoide) é provavelmente uma denominação mais apropriada para as alterações relacionadas com o uso de medicamentos. Da mesma forma, materiais estranhos que são inadvertidamente incorporados à gengiva podem desencadear uma resposta do hospedeiro que é denominada gengivite liquenoide de corpo estranho . Alguns relatos de infecção por hepatite C associada ao líquen plano bucal são descritos por vezes na literatura. Nos dias atuais, outros estudos epidemiológicos cuidadosamente controlados não parecem suportar uma associação entre líquen plano bucal e hepatite C. Entretanto, a influência genética pode ter um efeito na expressão de líquen plano em populações selecionadas. A relação do estresse ou da ansiedade com o desenvolvimento de líquen plano é controversa, maspara o Neville, pode ser que o estresse não tenha influência na patogênese do líquen plano; no entanto, uma explicação alternativa parece ser que aqueles pacientes que têm líquen plano simplesmente respondem dessa forma a níveis de estresse que não são capazes de induzir lesões em outras pessoas. Características Clínicas: A maioria dos pacientes com líquen plano engloba adultos de meia-idade, sendo raro o acometimento em crianças. As mulheres são mais afetadas, normalmente em uma razão de 3:2 em relação aos homens na maioria das séries de casos. Em torno de 1% da população pode ter líquen plano cutâneo. A prevalência de líquen plano bucal está entre 0,1% e 2,2%. As lesões de pele do líquen plano são classicamente descritas como pápulas poligonais, púrpuras e pruriginosas. Em geral, afetam as superfícies flexoras das extremidades. As escoriações podem não ser visíveis, embora as lesões sejam pruriginosas, podendo ferir o paciente como resultado da coceira. Um exame cuidadoso da superfície das pápulas da pele revela linhas brancas finas semelhantes a um rendilhado (estrias de Wickham).Outros locais de envolvimento extrabucal incluem a glande do pênis, a mucosa vulvar e as unhas. Basicamente, existem duas formas de lesões bucais: a reticular e a erosiva. Líquen Plano Reticular O líquen plano reticular é muito mais comum do que a forma erosiva, porém a forma erosiva predomina em vários estudos. Isto provavelmente se deve a um viés estatístico (porque a forma erosiva é sintomática e, portanto, é mais provável que os pacientes sejam encaminhados a centros acadêmicos para avaliação). A forma reticular não costuma causar causa sintomas e envolve a região posterior da mucosa jugal bilateralmente. A melanose pós-inflamatória em geral acompanha as estrias reticulares, principalmente em pessoas negras. Outras áreas da mucosa bucal também podem estar envolvidas de forma concomitante, como a borda lateral e o dorso da língua, a gengiva, o palato e o vermelhão labial. O líquen plano reticular é assim chamado por causa de seu padrão característico de linhas brancas entrelaçadas (também conhecido como estrias de Wickham); no entanto, as lesões brancas podem, em alguns casos, apresentar-se como pápulas. Estas lesões tipicamente não são estáticas, mas pioram e melhoram durante semanas ou meses. O padrão reticular pode não ser tão evidente em algumas localizações, como no dorso da língua, onde as lesões se apresentam como placas @odonto_miga 6 queratóticas com atrofia das papilas. Além disso, mucoceles superficiais podem se desenvolver no interior ou adjacente às áreas de mucosa que estão envolvidas pelo líquen plano. Líquen Plano Erosivo O líquen plano erosivo, apesar de não ser tão comum quanto a forma reticular, é mais significativo para o paciente, porque as lesões em geral são sintomáticas. Clinicamente, observam-se áreas eritematosas, atróficas, com graus variáveis de ulceração central. A periferia das regiões atróficas costuma ser circundada por finas estrias brancas irradiadas. Algumas vezes, a atrofia e ulceração estão confinadas à mucosa gengival produzindo um padrão de reação denominado gengivite descamativa). Nestes casos, um espécime de biopsia deve ser obtido para estudos de microscopia de luz e de imunofluorescência do tecido perilesional, pois o penfigoide das membranas mucosas e o pênfigo vulgar podem apresentar aspecto clínico semelhante. Se o componente erosivo for grave, pode ocorrer separação entre o epitélio e o tecido conjuntivo subjacente, resultando na apresentação relativamente rara de líquen plano bolhoso. Diagnóstico: O diagnóstico do líquen plano reticular com frequência pode ser realizado apenas com os achados clínicos. As estrias brancas entrelaçadas que aparecem bilateralmente na região posterior da mucosa jugal são em especial patognomônicas. Dificuldades no diagnóstico podem surgir se a candidíase estiver sobreposta nas lesões, pois o microrganismo pode alterar o padrão reticular característico do líquen plano. O líquen plano erosivo é algumas vezes mais difícil de ser diagnosticado (com base apenas nas características clínicas) do que a forma reticular. Caso as típicas estrias brancas irradiadas e áreas @odonto_miga 7 eritematosas da mucosa atrófica estejam presentes na periferia das ulcerações bem demarcadas na região posterior da mucosa jugal bilateral, o diagnóstico pode ser estabelecido sem o suporte dos achados histopatológicos. Contudo, a biopsia, com estudos de imunofluorescência direta, muitas vezes é necessária para afastar outras doenças erosivas ou ulcerativas, como o lúpus eritematoso ou a estomatite ulcerativa crônica. As lesões liquenoides erosivas isoladas, particularmente as localizadas no palato mole, na borda e ventre da língua ou no assoalho bucal, devem ser submetidas à biopsia para afastar alterações pré- malignas ou malignas. Outra condição que pode ser semelhante a uma lesão de líquen plano, tanto clínica quanto histopatologicamente, é a reação liquenoide ao amálgama dentário. Pênfigo Vulgar A condição conhecida como pênfigo representa quatro doenças relacionadas de origem autoimune: 1.Pênfigo vulgar 2.Pênfigo vegetante 3.Pênfigo eritematoso 4.Pênfigo foliáceo Somente as duas primeiras doenças afetam a mucosa bucal, e a discussão aqui apresentada será limitada ao pênfigo vulgar. O pênfigo vegetante é raro e, atualmente, a maioria dos autores acredita que seja uma simples variante do pênfigo vulgar. Dessas desordens, o pênfigo vulgar é o mais comum (vulgaris significa “comum” em latim). Mesmo assim, ele não é observado com muita frequência. Estima-se que a incidência é de um a cinco casos por milhão de pessoas diagnosticadas por ano na população geral. No entanto, o pênfigo vulgar é uma condição importante porque, se não tratada, muitas vezes resulta na morte do paciente. Além disso, as lesões bucais frequentemente são o primeiro sinal da doença, consideradas as mais difíceis de resolver com o tratamento. Isto tem motivado a descrição das lesões bucais como “as primeiras a surgirem, e as últimas a desaparecerem”. As bolhas que caracterizam essa doença ocorrem devido a uma produção anormal, por razões desconhecidas, de autoanticorpos que são dirigidos contra glicoproteínas de superfície da célula epidérmica, a desmogleína 3 e a desmogleína 1. Essas desmogleínas são componentes dos desmossomos (estruturas de adesão entre as células epiteliais), e os autoanticorpos se aderem a esses componentes desmossomais, inibindo de modo eficaz a interação molecular que é responsável pela aderência. Como resultado desse ataque imunológico aos desmossomos, uma fenda se desenvolve dentro do epitélio, causando a formação de uma bolha intraepitelial. A desmogleína 3 é preferencialmente expressa na camada parabasal da epiderme e do epitélio bucal, enquanto a desmogleína 1 é encontrada principalmente na camada superficial da epiderme, com expressão mínima no epitélio bucal. Os pacientes que desenvolvem autoanticorpos dirigidos contra a desmogleína 3, com ou sem desmogleína 1, podem exibir histopatologicamente uma fenda intraepitelial acima da camada basal e no aspecto clínico se formam bolhas de pênfigo vulgar na mucosa bucal. Os pacientes que desenvolvem autoanticorpos dirigidos somente contra a desmogleína 1 exibirão, histopatologicamente, uma fenda intraepitelial superficial na epiderme, porém a mucosa bucal não será afetada. Clinicamente, as lesões finas, avermelhadas e descamativas do pênfigo foliáceo ou do pênfigo eritematoso se tornarão evidentes. Por vezes, erupções bucais e cutâneas semelhantes ao pênfigo podem ocorrer em pacientes utilizando determinadas medicações (p.ex., penicilaminas, inibidores da enzima conversora de angiotensina [ECA], anti-inflamatóriosnão esteroides [NSAIDs]) ou em pacientes com neoplasias malignas, especialmente as neoplasias malignas linforreticulares (também denominadas de pênfigo paraneoplásico). Da mesma @odonto_miga 8 forma, uma variedade de outras condições crônicas pode produzir lesões vesiculoulcerativas ou erosivas na mucosa bucal, e estas frequentemente precisam ser consideradas no diagnóstico diferencial. Além disso, uma condição genética rara denominada pênfigo benigno crônico familiar ou doença de Hailey-Hailey pode apresentar lesões cutâneas erosivas, mas o envolvimento bucal nesse processo é incomum. Características Clínicas: As manifestações iniciais do pênfigo vulgar frequentemente envolvem a mucosa bucal, e a doença costuma ocorrer em adultos. A idade média no diagnóstico é de 50 anos, embora casos raros possam ser observados na infância. Predileção por gênero não é observada, e a condição parece ser mais comum em pessoas do Mediterrâneo, sul da Ásia e/ou com descendência judaica. Os pacientes normalmente queixam-se de dor na mucosa bucal, e o exame clínico exibe erosões superficiais e irregulares e ulcerações distribuídas de forma aleatória na mucosa bucal. Essas lesões praticamente podem afetar quase qualquer local da mucosa bucal, embora o palato, a mucosa labial, a mucosa jugal, o ventre da língua e a gengiva sejam envolvidos com maior frequência. Os pacientes dificilmente relatam a formação de vesículas ou bolhas intrabucais, e essas lesões raramente são identificadas pelo clínico durante o exame, com a probabilidade de a razão ser a ruptura precoce do teto fino e friável das bolhas. Acima de 50% dos pacientes desenvolvem lesões bucais antes do aparecimento das lesões cutâneas, algumas vezes em um tempo igual ou superior a um ano. Eventualmente, no entanto, quase todos os pacientes têm envolvimento intrabucal. As lesões de pele surgem como vesículas e bolhas flácidas que se rompem com rapidez, em geral dentro de algumas horas a poucos dias, deixando uma superfície desnuda e eritematosa. O envolvimento ocular é observado com menos frequência, normalmente apresentando- se como uma conjuntivite bilateral. Ao contrário do penfigoide cicatricial, as lesões oculares do pênfigo não tendem a produzir cicatrizes e formar simbléfaro (aderência da pálpebra ao globo ocular). Sem tratamento adequado, as lesões bucais e cutâneas tendem a persistir e progressivamente vão envolvendo maior área de superfície. Uma das características do pênfigo vulgar é que uma bolha pode ser induzida em pele de aparência normal, caso seja exercida uma pressão lateral firme. Isto é chamado de sinal de Nikolsky positivo. Diagnóstico: O diagnóstico do pênfigo vulgar deve ser confirmado pelo exame de imunofluorescência direta do tecido perilesional fresco ou do tecido acondicionado em solução de Michel. Com este procedimento, anticorpos (normalmente IgG ou IgM) e componentes do sistema complemento @odonto_miga 9 (normalmente C3) podem ser demonstrados nos espaços intercelulares entre as células epiteliais em quase todos os pacientes com essa doença. A imunofluorescência indireta é também tipicamente positiva em 80% a 90% dos casos, demonstrando a presença de autoanticorpos circulantes no soro do paciente. Da mesma forma, o ensaio de imunoabsorbância ligado à enzima (ELISA) pode ser utilizado para detectar autoanticorpos circulantes. É importante que o tecido perilesional seja obtido tanto para microscopia de luz quanto para a imunofluorescência direta de modo a aumentar a probabilidade de uma amostra para diagnóstico. Caso a mucosa ulcerada seja enviada para análise, os resultados são muitas vezes inconclusivos devido à falta da interface intacta entre o epitélio e o tecido conjuntivo, ou pela presença de um grande infiltrado inflamatório inespecífico. Penfigoide das membranas mucosas As evidências acumuladas sugerem que o penfigoide das membranas mucosas represente um grupo de doenças autoimunes mucocutâneas bolhosas crônicas, no qual autoanticorpos ligados aos tecidos são dirigidos contra um ou mais componentes da membrana basal. Como tal, esta condição tem uma origem heterogênea, com autoanticorpos sendo produzidos contra qualquer um dos vários componentes da membrana basal, todos os quais produzindo manifestações clínicas semelhantes. A prevalência exata é desconhecida, mas a maioria dos autores acredita que seja duas vezes mais comum do que o pênfigo vulgar. O termo penfigoide é utilizado devido a sua frequente semelhança (este é o significado do sufixo -oide) clínica com o pênfigo. Contudo, o prognóstico e as características microscópicas do penfigoide são muito diferentes. Penfigoide cicatricial, outro nome comumente utilizado para este processo, é derivado da palavra em latim cicatrix, que significa cicatriz. Quando a mucosa conjuntival é afetada, as cicatrizes resultantes representam o aspecto mais significativo desta doença, pois invariavelmente resulta em cegueira, a menos que seja reconhecida e tratada. Curiosamente, as lesões bucais raramente apresentam esta tendência para a formação de cicatrizes. Características Clínicas: O penfigoide das membranas mucosas geralmente afeta adultos, com média de 50 a 60 anos de idade, no início da manifestação da doença. As mulheres são afetadas com mais frequência do que os homens em uma razão de 2:1. As lesões bucais são observadas na maioria dos pacientes, mas outras localizações, como as mucosas conjuntival, nasal, esofágica, laríngea e a vaginal, bem como a pele podem estar envolvidas. As lesões bucais do penfigoide se iniciam como vesículas ou bolhas que muitas vezes podem ser identificadas clinicamente. Em contraste, os pacientes com pênfigo raramente exibirão essas bolhas. A explicação mais provável para essa diferença é que as bolhas no penfigoide se formam em localização subepitelial, produzindo um teto mais espesso e resistente do que a bolha intraepitelial acantolítica do pênfigo. Eventualmente as bolhas bucais se rompem, deixando uma área extensa de ulceração superficial e áreas desnudas de mucosa. As lesões ulceradas costumam ser dolorosas e podem persistir por semanas ou meses, se não forem tratadas. Em geral, este processo é observado de forma difusa na boca, mas pode estar limitado a certas localizações, em especial na gengiva. O envolvimento gengival produz um padrão de reação clínica denominado gengivite descamativa. Este padrão também pode ser observado em outras condições, como o líquen plano erosivo ou, menos frequentemente, no pênfigo vulgar. @odonto_miga 10 A complicação mais significativa do penfigoide das membranas mucosas, no entanto, é o envolvimento ocular. Um olho pode ser afetado antes do outro. A alteração inicial é a fibrose subconjuntival. Com a progressão da doença, a conjuntiva torna-se inflamada e erodida. As tentativas de cura levam à formação de uma cicatriz entre a conjuntiva bulbar (que reveste o globo ocular) e a conjuntiva palpebral (que reveste a superfície interna da pálpebra), resultando em aderências denominadas simbléfaros. Sem tratamento, as alterações inflamatórias tornam- se mais graves, embora a formação de vesículas na conjuntiva seja raramente observada. Por fim, a cicatrização pode fazer com que a pálpebra fique voltada para dentro (entrópio), permitindo que os cílios entrem em contato com a córnea e o globo ocular (triquíase). A cicatrização pode obstruir a abertura da glândula lacrimal e com a ausência de lágrimas, o olho torna-se extremamente seco. Em seguida, a córnea produz queratina como um mecanismo protetor; no entanto, a queratina é um material opaco e pode resultar em cegueira. O estágio final do envolvimento ocular pode também ser caracterizado pela aderência entreas pálpebras superiores e inferiores. Outras mucosas também podem estar envolvidas e causar consideráveis dificuldades para o paciente. Nas mulheres, as lesões da mucosa vaginal podem causar dor considerável durante as relações sexuais (dispareunia). As lesões laríngeas, que são bastante incomuns, podem ser especialmente significativas devido à possibilidade de obstrução das vias aéreas pela formação das bolhas. Os pacientes que apresentem uma mudança inesperada na voz ou que tenham dificuldade respiratória deverão submeter-se a um exame de laringoscopia. Diagnóstico/ Tratamento e Prognóstico: Uma vez estabelecido o diagnóstico de penfigoide das membranas mucosas por microscopia de luz e por imunofluorescência direta, o paciente deve ser encaminhado para um oftalmologista que esteja familiarizado com as lesões oculares dessa condição para um exame detalhado da mucosa conjuntiva. Isto deverá ser feito independente de o paciente apresentar ou não queixas oculares. Além disso, se o paciente apresentar sintomas em outras localizações anatômicas, o especialista adequado deve ser consultado. Por ser uma condição caracterizada por mecanismos patogenéticos heterogêneos, não é surpreendente que o tratamento preconizado tenha variado ao longo dos anos. Na verdade, não existe um único tratamento eficaz para todos os pacientes; o tratamento deve ser individualizado, dependendo da distribuição das lesões, da atividade da doença e da resposta terapêutica. Como as diversas formas de penfigoide são mais bem definidas através da sua imunopatologia, talvez seja possível planejar uma terapia mais específica e direcionada. Eritema multiforme: O eritema multiforme é uma condição mucocutânea bolhosa e ulcerativa de etiopatogenia incerta. Provavelmente é um processo mediado imunologicamente, embora a causa seja pouco compreendida. Em cerca de 50% dos casos, o clínico pode identificar uma infecção precedente, como o herpes simples ou Mycoplasma pneumoniae, ou com menos frequência a exposição a várias drogas e medicamentos, particularmente antibióticos ou @odonto_miga 11 analgésicos. Esses agentes desencadeiam uma reação imunológica que produz a doença. Técnicas sofisticadas de biologia molecular têm demonstrado a presença do DNA do herpes simples nos pacientes com eritema multiforme recorrente, apoiando assim o conceito de um evento imunológico precipitante. De forma interessante, os estudos de imunofluorescência direta e indireta são inespecíficos e não são muito úteis no diagnóstico, exceto para excluir outras doenças vesiculobolhosas. Durante muitos anos, acreditava-se que o eritema multiforme exibia um espectro de severidade, variando de eritema multiforme menor ao eritema multiforme maior (tradicionalmente tido como um sinônimo da síndrome de Stevens-Johnson) e necrólise epidérmica tóxica (Doença de Lyell). Atualmente, a maioria das autoridades acredita que o eritema multiforme menor e maior possam representar um processo distinto das duas últimas condições. Desse modo, a síndrome de Stevens- Johnson e a necrólise epidérmica tóxica serão discutidas separadamente em outra secção. Características Clínicas: O eritema multiforme tipicamente tem um início agudo e em geral afeta adultos jovens entre 20 ou 30 anos de idade, com uma leve predileção pelo sexo feminino, conforme avaliado em uma série recente de casos. Os sinais prodrômicos são comuns, ocorrem aproximadamente uma semana antes do início da condição e incluem febre, mal-estar, cefaleia, tosse e dor de garganta. Essa condição pode exibir graus variados de severidade nos pacientes afetados. Os casos mais leves, conhecidos como eritema multiforme menor, em geral se iniciam com o desenvolvimento de placas ligeiramente elevadas, redondas e de cor vermelho- escura, localizadas na pele e nas extremidades. No entanto, essas lesões podem ter uma variedade de aspectos (multiforme significando muitas formas). Algumas lesões de pele desenvolvem aspectos que são muito característicos para essa doença. Essas lesões se apresentam como anéis eritematosos circulares e concêntricos, assemelhando-se a um alvo ou ao centro de um alvo (lesões em alvo). Nos casos mais severos, as lesões podem evoluir para a formação de bolhas com centros necróticos. A cavidade bucal é o sítio de mucosa mais comumente afetado, embora as mucosas conjuntivais, geniturinária e respiratória também podem estar afetadas. O envolvimento de áreas extrabucais está geralmente associado à forma mais severa dessa condição, o eritema multiforme maior. As lesões bucais iniciam-se como placas eritematosas que sofrem necrose epitelial e evoluem para grandes erosões rasas e ulcerações com bordas irregulares. As crostas hemorrágicas na região do vermelhão labial são comuns. Essas lesões bucais, assim como as lesões da pele, aparecem rapidamente e são desconfortáveis. Algumas vezes, os pacientes estão desidratados devido à incapacidade de ingerir líquidos, como resultado da dor na boca. Com frequência, as ulcerações apresentam uma distribuição difusa. Os lábios, a mucosa labial, a mucosa jugal, a língua, o assoalho bucal e o palato mole são os locais mais comuns de envolvimento. Normalmente, a gengiva e o palato duro são relativamente preservados. @odonto_miga 12 Eritema Multiforme maior O diagnóstico de eritema multiforme maior pode ser feito quando dois ou mais sítios da mucosa são afetados, em conjunto com lesões cutâneas amplamente distribuídas. Na maioria dos casos a mucosa bucal está envolvida, assim como a ocular ou a mucosa genital. Quando ocorre grave envolvimento ocular, podem ocorrer cicatrizes (formação de simbléfaro), de modo semelhante ao que ocorre no penfigoide cicatricial. Estomatite Ulcerativa Crônica A estomatite ulcerativa crônica é outra desordem imunomediada que afeta a mucosa bucal. Embora os mecanismos patogenéticos exatos sejam desconhecidos, estes pacientes desenvolvem autoanticorpos contra uma proteína nuclear de 70 KD, a ΔNp63α, uma isoforma da p63, e estudos in vitro sugerem que esses autoanticorpos têm papel no desenvolvimento dessa doença ao interromper a manutenção normal da interface epitélio/tecido conjuntivo. A prevalência dessa doença pode ser mais comum do que é imaginada. Devido a sua semelhança clínica com o líquen plano erosivo, é possível que um diagnóstico clínico somente seja realizado quando o paciente afetado é avaliado, e a biopsia não é realizada. Mesmo que a biopsia seja realizada, o tecido é frequentemente submetido apenas ao exame de microscopia de luz de rotina. Os estudos com a imunofluorescência direta, que são necessários para o seu diagnóstico, não são solicitados. A diferenciação do líquen plano deve ser realizada, já que a estomatite ulcerativa crônica normalmente não responde de forma eficaz ao uso de corticosteroides, e, assim como no caso do lúpus eritematoso (LE), a estomatite ulcerativa crônica muitas vezes pode ser tratada de maneira efetiva utilizando drogas antimaláricas. Características Clínicas: A estomatite ulcerativa crônica geralmente afeta mulheres adultas, e a idade média no diagnóstico é tardia, na sexta década de vida. A condição pode aparecer como uma gengivite descamativa, embora ulcerações ou erosões da língua ou da mucosa jugal sejam também muito comuns. As úlceras geralmente são circundadas por áreas de eritema entremeadas a finas bandas de queratose que se assemelham um pouco ao líquen plano, ainda que a formação das estrias clássicas não seja evidente. As úlceras se curam sem deixar cicatrizes e muitas vezes migram ao redor da mucosa bucal. Como é típico das condições imunomediadas, a gravidade das lesões bucais tende a apresentar episódios de melhora e piora. Menos de 20% dos pacientes afetadosdesenvolverão lesões liquenoides recorrentes na pele. Diagnóstico: O diagnóstico da estomatite ulcerativa crônica é por essência fundamentado no seu característico padrão imunopatológico. Embora não seja economicamente viável realizar testes imunológicos em todos os casos de líquen plano, este procedimento deve ser considerado para as lesões liquenoides erosivas que não tenham uma aparência ou uma distribuição característica, bem como as lesões erosivas que não respondem à terapêutica com corticosteroides tópicos. Os estudos com imunofluorescência direta podem detectar autoanticorpos (usualmente IgG) que são dirigidos contra os núcleos das células epiteliais escamosas estratificadas nas regiões basal e parabasal do epitélio. Os estudos com imunofluorescência indireta são também positivos para estes anticorpos antinucleares (ANAs) específicos do epitélio estratificado, e alguns pesquisadores acreditam que para a confirmação do diagnóstico é necessária a utilização de soro para a avaliação por meio de imunofluorescência indireta. Um teste ELISA foi desenvolvido, e caso este se torne comercialmente disponível, poderá fazer com que o rastreamento dessa condição tenha maior custo-benefício. Outras condições imunomediadas (p.ex., esclerose sistêmica @odonto_miga 13 e lúpus eritematoso) podem mostrar deposição de ANAs por imunofluorescência direta; entretanto, nessas doenças, os núcleos ao longo de toda a espessura do epitélio são positivos. Estomatite Aftosa Recorrente A estomatite aftosa recorrente é uma das doenças mais comuns da mucosa oral. Diversos subgrupos de pacientes parecem apresentar diferentes causas para a ocorrência das aftas. Estes fatores sugerem uma alteração que pode ser desencadeada por uma variedade de agentes causais, cada um dos quais sendo capaz de produzir a doença em certos subgrupos de pacientes. Para tornar mais simples, a causa parece ser “coisas diferentes em pessoas diferentes”. Embora nenhum agente desencadeante seja responsável, a destruição da mucosa parece representar uma reação imunológica mediada por células T, com produção do fator de necrose tumoral alfa (TNF-alfa). Esse fator é uma importante citocina inflamatória e auxilia na sinalização do epitélio de superfície para a destruição pelas células T citotóxicas (CD8+). São fortes as evidências de destruição da mucosa oral mediada por estes linfócitos, mas as causas iniciais são evasivas e, mais provavelmente, altamente variáveis. Alergias Predisposição genética Anormalidades hematológicas Influências hormonais Fatores imunológicos Agentes infecciosos Deficiências nutricionais Suspensão do fumo Estresse (mental e físico) Trauma Alguns pesquisadores dizem que as ulcerações aftosas se desenvolvem de uma reação imunológica a um antígeno oral. Essa reação pode surgir devido à presença de um reagente altamente antigênico, à diminuição da barreira mucosa previamente marcada pelo antígeno ou à imunodesregulação resultante de uma resposta anormal a antígenos que costumam estar presentes. Todos os fatores desencadeantes antes descritos podem ser agrupados em uma dessas três categorias. Um ou mais desses três fatores pode estar envolvido em subgrupos de pacientes. Um estímulo antigênico parece ser o fator iniciador primário da destruição citotóxica imunomediada da mucosa em muitos pacientes. A lista é interminável e cada item da lista parece ser importante em pequenos subgrupos de pacientes. Potenciais antígenos comumente mencionados incluem o lauril sulfato de sódio dos dentifrícios, inúmeros medicamentos sistêmicos (p.ex., medicamentos anti-inflamatórios não esteroides [NSAIDs], inúmeros beta bloqueadores e o nicorandil), agentes microbiológicos (p.ex., formas L de estreptococos, Helicobacter pylori, vírus do herpes simples [HSV], vírus varicela-zóster [VZV], adenovírus e citomegalovírus [CMV]) e muitos alimentos (p.ex., queijo, chocolate, café, leite de vaca, glúten, nozes, morangos, tomates, corantes, agentes aromatizantes e conservantes). A barreira mucosa parece ser importante na prevenção da estomatite aftosa e pode explicar a quase exclusiva presença de estomatite aftosa na mucosa não queratinizada. Diversos fatores que diminuem a barreira mucosa, contribuem para o aumento da frequência de ocorrência das lesões (p.ex., trauma, deficiências nutricionais e suspensão do fumo); contrariamente, os fatores associados ao aumento da barreira mucosa têm sido correlacionados com a diminuição da ocorrência das ulcerações (p.ex., fumo, alterações hormonais e ausência expressiva de aftas na mucosa aderida ao osso). Tem sido observada uma prevalência aumentada de ulcerações semelhantes às aftas em várias doenças sistêmicas. Essas ulcerações são idênticas clínica e histopatologicamente àquelas observadas em indivíduos que seriam, de outra maneira, saudáveis. Em muitos casos, a resolução da doença sistêmica produz uma frequência e gravidade diminuídas das ulcerações das mucosas. São reconhecidas três variantes clínicas da estomatite aftosa: 1.Menor @odonto_miga 14 2.Maior 3.Herpetiforme As ulcerações aftosas menores (aftas de Mikulicz) são as mais comuns e representam o padrão presente em mais de 80% dos indivíduos afetados. As ulcerações aftosas maiores (doença de Sutton ou periadenite mucosa necrótica recorrente [PMNR]) ocorrem em cerca de 10% dos pacientes encaminhados para tratamento. Os pacientes restantes apresentam ulcerações aftosas herpetiformes. As formas menor e maior representam, mais provavelmente, variações do mesmo processo, embora as aftas herpetiformes demonstrem um padrão único. Alguns pesquisadores diferenciam a variante herpetiforme devido a uma suposta evidência de causa viral, porém as provas são pouco consistentes e não justificam sua distinção das outras ulcerações aftosas. Alguns autores incluem a síndrome de Behçet como uma variação adicional da estomatite aftosa, mas esta doença multissistêmica é mais complexa. Características Clínicas Ulcerações Aftosas Menores: Os pacientes com ulcerações aftosas menores são os que sofrem menos recidivas e, individualmente, as lesões exibem a duração mais curta das três variantes. As úlceras surgem quase de forma exclusiva na mucosa não queratinizada e podem ser precedidas por uma mácula eritematosa em associação com sintomas prodrômicos de queimação, prurido ou pontadas. A ulceração demonstra uma membrana fibrinopurulenta removível, branco-amarelada, que é circundada por um halo eritematoso. Classicamente, as ulcerações medem entre 3 e 10 mm de diâmetro, apresentam uma taxa de recorrência variável e curam-se sem deixar cicatriz em sete a 14 dias. Embora possa haver os scores de ulcerações em algumas, de uma a cinco lesões estão presentes durante cada episódio e com frequência a dor não é proporcional ao tamanho da ulceração. As mucosas jugal e labial são as afetadas com mais frequência, seguidas pela superfície ventral da língua, pelo fundo de vestíbulo, pelo assoalho da boca e pelo palato mole. O envolvimento da mucosa queratinizada (p.ex., palato duro, gengiva, superfície dorsal da língua e vermelhão do lábio) é raro e geralmente representa uma extensão do epitélio não queratinizado adjacente. Ulcerações Aftosas Maiores: As ulcerações aftosas maiores são maiores do que as aftas menores e mostram a maior duração por episódio. As ulcerações são mais profundas que a variante menor, medem de 1 a 3 cm de diâmetro, levam de duas a seis semanas para curar e podem causar cicatriz. O número de lesões varia de um a 10. Qualquer área de superfície oral pode ser afetada, mas a mucosa labial, o palato mole e as fauces amigdalianas são as mais comumente envolvidas. O começo da afta maior ocorre após a puberdadee episódios recorrentes podem continuar a desenvolver-se por 20 anos ou mais. Com o tempo, a formação de cicatrizes pode se tornar significante e em raras circunstâncias levar à restrição da abertura da boca. Ulcerações Aftosas Herpetiformes: São as que apresentam um número maior de lesões e uma maior frequência de recidivas. As lesões individuais são pequenas, com uma média de 1 a 3 mm de diâmetro, com até 100 úlceras presentes em uma única recidiva. @odonto_miga 15 Devido ao seu pequeno tamanho e grande número, as lesões apresentam uma semelhança superficial a uma infecção primária pelo HSV (herpes), levando à confusa designação herpetiforme. É comum que as lesões individuais coalesçam (se juntem) em ulcerações maiores e irregulares. As ulcerações cicatrizam-se dentro de sete a 10 dias, mas as recidivas tendem a ser pouco espaçadas. Apesar de a mucosa móvel não queratinizada ser afetada com mais frequência, qualquer superfície da mucosa oral pode ser acometida. Há predominância pelo sexo feminino e o seu início ocorre tipicamente na fase adulta. OBS: Classificações adicionais de todos os três tipos têm valor para o planejamento da avaliação diagnóstica e da terapia mais apropriada. As lesões são diagnosticadas como aftas simples quando aparecem em pacientes com poucas lesões, que se curam dentro de uma a duas semanas e recorrem com pouca frequência. Ao contrário, pacientes com aftas complexas têm ulcerações bucais múltiplas (três ou mais) e quase constantes, em geral se desenvolvendo à medida que as lesões mais antigas se resolvem. São comuns a dor intensa e lesões de tamanhos grandes. Apesar de também poderem existir lesões genitais ou perianais associadas, não há outras evidências de uma doença sistêmica associada. Eritema Migratório (Língua geográfica) O eritema migratório é uma condição benigna comum que afeta principalmente a língua. Em geral, é detectado no exame clínico de rotina da mucosa bucal. As lesões ocorrem em 1% a 3% da população. Alguns estudos epidemiológicos mostraram que as mulheres são afetadas com maior frequência do que os homens em uma razão de 2:1, enquanto outras séries não identificam predileção por gênero. Os pacientes podem ocasionalmente consultar um profissional de saúde, caso notem uma aparência incomum da sua língua ou quando a mucosa lingual se tornar sensível a alimentos quentes ou picantes, em decorrência do processo. Apesar de o eritema migratório ser documentado durante muitos anos, a sua etiopatogênese ainda é desconhecida. Alguns pesquisadores sugerem que o eritema migratório ocorre com maior frequência em indivíduos atópicos. O eritema migratório não foi observado com maior frequência em pacientes fumantes, ao passo que não foi observada diferença significativa na frequência relacionada à idade, gênero, utilização de contraceptivos bucais, presença de alergias, diabetes melito, condições psicológicas ou dermatológicas. Um estudo similar realizado na Turquia essencialmente concordou com esses achados, com exceção de associação com história de alergia ou de atopia. Características Clínicas: As características das lesões do eritema migratório são observadas nos dois terços anteriores da superfície dorsal da língua. Elas se apresentam como múltiplas zonas bem-demarcadas de eritema concentradas na ponta e bordas laterais da língua. Esse eritema é devido à atrofia das papilas filiformes e essas áreas atróficas são tipicamente circundadas, ao menos parcialmente, por bordas sinuosas ou festonadas, branco-amareladas levemente elevadas. O paciente conhecedor da doença costuma ser capaz de descrever que as lesões surgem com rapidez em uma área e regridem dentro de poucos dias ou semanas, e então se desenvolvem em outras áreas diferentes. Em geral, a lesão se inicia como uma pequena placa branca, que em seguida desenvolve uma zona central atrófica eritematosa e aumenta centrifugamente. Cerca de um terço dos pacientes com língua fissurada também são afetados pelo eritema migratório. Alguns pacientes podem ter somente uma lesão solitária, porém isto é incomum. As lesões geralmente são assintomáticas, embora possa ocorrer uma sensação de ardência ou sensibilidade a alimentos quentes ou picantes quando as lesões estão ativas. Raramente a sensação de ardência é mais constante e intensa. @odonto_miga 16 Com mais raridade, o eritema migratório ocorre em outras localizações da mucosa bucal que não sejam a língua. Nesses casos, a língua é quase sempre afetada; no entanto, outras lesões podem se desenvolver na mucosa jugal, na mucosa labial e (com menos frequência) no palato mole ou assoalho. Essas lesões normalmente não produzem sintomas e podem ser identificadas como áreas eritematosas circundadas por uma borda branco-amarelada sinuosa ou festonada. Essas características podem evitar confusão com outras condições, como a candidíase ou a eritroplasia. 2- Identificar os mecanismos das doenças autoimunes. ABBAS A autoimunidade é definida como uma resposta imune contra antígenos próprios (autólogos). É uma causa importante de doença e estima-se que afete 5 a 10% da população em países desenvolvidos, ao mesmo tempo que a prevalência de diversas doenças autoimunes está aumentando. Diferentes doenças autoimunes podem ser órgão-específicas, afetando apenas um ou poucos órgãos, ou sistêmicas, com lesão tecidual e manifestações clínicas generalizadas. A lesão tecidual nas doenças autoimunes pode ser causada por anticorpos contra os autoantígenos ou por células T reativas com os antígenos próprios. (Tolerância central e periférica a autoantígenos. Tolerância central: linfócitos imaturos específicos para autoantígenos podem encontrar estes antígenos nos órgãos linfoides geradores (centrais) e serem deletados; linfócitos B podem alterar sua especificidade (edição do receptor); e alguns linfócitos T se desenvolvem em células T reguladoras. Alguns linfócitos autorreativos podem completar sua maturação e entrar nos tecidos periféricos. Tolerância periférica: linfócitos maduros autorreativos podem ser inativados ou deletados ao encontrar autoantígenos em tecidos periféricos ou serem suprimidos por células T reguladoras.) Patogênese: Os principais fatores envolvidos no desenvolvimento da autoimunidade são a herança de genes de suscetibilidade e os gatilhos ambientais, como as infecções (Figura 9.11). Postula-se que os genes de suscetibilidade interferem nas vias de autotolerância e levam à persistência de linfócitos T e B autorreativos. Os estímulos ambientais podem causar lesões celular e tecidual, seguidas por inflamação, além de ativar estes linfócitos autorreativos, resultando na geração de células T efetoras e autoanticorpos que são responsáveis pela doença autoimune. @odonto_miga 17 (Mecanismos postulados de autoimunidade. Neste modelo proposto de autoimunidade órgão- es-pecífica mediada por células T, diversos loci gênicos podem conferir suscetibilidade à autoimunidade, provavelmente por influenciar a manutenção de autotolerância. Gatilhos ambientais, tais como infecções e outros estímulos inflamatórios, promovem o influxo de linfócitos para os tecidos e a ativação de células apresentadoras de antígeno (APCs) e subsequentemente de células T autorreativas, resultando em lesão tecidual.) PRINCIPAIS FALHAS QUE CONTRIBUEM NO SURGIMENTO DAS DOENÇAS AUTOIMUNES FATORES GENÉTICOS Há fortes evidências de que a suscetibilidade a doenças autoimunes está correlacionada a fatores genéticos ligados, principalmente, aos genes responsáveis pela estrutura do MHC de classe II (o geneHLA). A falha estrutural no gene HLA direcionava alguns tipos de doenças autoimunes. Como pode ser observado, a única doença que tem alto valor de RR (87,5)é a espondilite anquilosante, doença que envolve as articulações sacroilíacas, espinhal e articulações periféricas maiores. No caso da artrite reumatoide, tem-se observado reação cruzada entre epítopos do HLA-DR4 e Proteus mirabilis. FALHA NA TOLERÂNCIA CENTRAL Apesar de haver poucas evidências clínicas e experimentais, os linfócitos T que apresentam TCR de alta afinidade por antígenos próprios associados ao MHC podem escapar da apoptose por não entrarem em contato com quantidades suficientes de auto- antígenos no timo. Essas células são conhecidas como linfócitos T auto-reativos. Essa ideia é um dos mecanismos sugeridos para a ocorrência da esclerose múltipla, em que os antígenos estão presentes na bainha de mielina no cérebro, órgão em que há maior seletividade na passagem de células do sistema imune pela barreira hematoencefálica. FALHA NA TOLERÂNCIA PERIFÉRICA Nesse caso, a perda da tolerância ocorre em linfócitos T ou B que já migraram para os órgãos linfoides secundários. As principais causas da perda da tolerância dessas células ocorrem por: Falha na anergia: como sabemos, o processo de anergia se dá por meio da supressão dos co- estimuladores (CD40, CD40L, CD28, B7, etc), que gera a tolerância periférica. Durante infecções, inflamações ou necrose tecidual, as células aumentam a expressão dessas moléculas, podendo causar resposta aos antígenos e perda da tolerância a antígenos próprios e o consequente desenvolvimento de doenças autoimunes. Ex:esclerose múltipla, tireoidite e diabetes mellitus dependente de insulina. Os vírus também induzem à produção de TNF-α e IFN-γ, que aumentam a expressão de moléculas do MHC-I e do MHC-II (HLA-DR). Falha na morte celular induzida por ativação por antígenos próprios (apoptose): quando os antígenos estão em altas concentrações, o estímulo repetitivo dos linfócitos T causa a morte por apoptose. A falha na morte mediada por Fas-FasL pode levar à persistência dos linfócitos auto-reativos e à ocorrência de doença autoimune. @odonto_miga 18 Falha na supressão de linfócitos T auto-reativos por citocinas regulatórias:os linfócitos Th1/Tc1(reguladores) produzem citocinas que regulam a expansão doslinfócitos Th2/Tc2, e vice- versa. Falhas naregulação por meio dos linfócitos T reguladores (devido a uma baixa dessas células), pode gerar doençasautoimunes. Uma das propostas da ocorrência de doenças autoimunes é que linfócitos Th1 ou Tc1 produzem IL-2e IFN-γ, o que ativa macrófagos e LTc1, provocando doenças autoimunes mediadas por células, como no casoda diabetes tipo I e da artrite reumatoide. Há evidências ainda de que a redução de linfócitos T regulatóriosCD4+CD25+, secretores do TGF-β, propiciao desenvolvimento de tireoidite, gastrite e diabetes tipo I. O efeitosupressor das células regulatórias pode ser reduzido pela produção de IL-6 por células dendríticas ativadas viareceptor Toll. REAÇÃO CRUZADA ENTRE MOLÉCULAS PRÓPRIAS E ANTÍGENOS A semelhança entre moléculas próprias e os antígenos pode desencadear o surgimento de doenças autoimunes.Reação cruzada consiste na ação dos anticorpos contra moléculas próprias que apresentam semelhançasmorfofuncionais com antígenos patológicos.Nafebrereumática, infecções de garganta com alguns sorotipos de estreptococos β-hemolíticos levam àprodução de anticorpos contra a proteína M da parede celular bacteriana. Alguns dessesanticorpos reagem de formacruzada com proteínas do sarcolema do miocárdio emiosina, causando inflamação local (cardite).Reações cruzadas ocorrem também nadoença de Chagas, em que anticorpos contra antígenos doTrypanossoma cruzireagem com a laminina.Os epítopos compartilhados entre o vírus cosackie B3 e as células cardíacasparecem estar associadas com amiocardite induzida por vírus, o mimetismo entre o poliovírus e o receptor de acetilcolina parece estar envolvido com apatogênese damiastenia grave.A própriaesclerose múltiplaé desencadeada por uma reação cruzada entrea proteína da bainha de mielina(MBP) e o vírus da hepatite B. ALTERAÇÕES ESTRUTURAIS DE EPÍTOPOS APÓS INFECÇÃO OU LESÕES FÍSICAS OU QUÍMICAS A liberação de moléculas tóxicas durante uma infecção, o contato com substâncias químicas ou com radiaçõespodem levar a alterações em algumas moléculas presentes nas células e uma resposta deautoagressão. Quando oepítopo é alterado,peptídeosdiferentes podem ser apresentados pelos linfócitos B e estes podem ser ativados porlinfócitos T que secretam citocinasestimulatórias, levando à produção de anticorpos auto-reativos. Nasanemiashemolíticas, napúrpura trombocitopênicae nasagranulocitosesassociadas à ingestão de determinadosmedicamentos e pós-infecção ocorre esse tipo de mecanismo. FATORES RELACIONADOS À DIETA A dieta e o estado nutricional do hospedeiro são importantes não apenas na função imunológica na resistência ainfecções, mas também na suscetibilidade a doenças autoimunes. Dieta rica em gorduras; pobre emácidosgraxosinsaturados;e pobre emvitaminasé um fator de risco associado ao desenvolvimento de doenças autoimunes. Os níveisde ferro interferem no controle do balanço Th1/Th2 e pode modular suscetibilidade a doenças autoimunes. Ácidosgraxos insaturados, monoinsaturados (óleo de oliva) epoliinsaturados, que reúnem os óleos ômega 3 (óleos de peixes)e ômega 6 (óleo de açafrão e borragem), também interferem no desencadeamento das doenças autoimunes. FATORES NEUROENDÓCRINOS Como resultado do estresse, oneuropeptídiofator de liberação de corticotrofina(CRF) é produzido pelohipotálamo, o que ativa a produção de ACTH pela hipófise e a produção de glicocorticoides pela adrenal. Corticoidesapresentam efeitos supressivos sobre a resposta imune e induzem várias alterações metabólicas. Em pacientes com artrite reumatoide, os níveis de CRF nas articulações estão aumentados e a produção de glicocorticoides inibe aresposta TH1, que predomina nessa enfermidade. @odonto_miga 19 3- Caracterizar os tipos de hipersensibilidades (com exemplos). ABBAS A imunidade adaptativa tem a importante função de defesa do hospedeiro contra infecções microbianas, mas as respostas imunes também são capazes de causar lesão tecidual e doença. Os distúrbios causados pelas respostas imunes são chamados doenças de hipersensibilidade. Esse termo surgiu da definição clínica de imunidade como uma sensibilidade, baseada na observação de que um indivíduo exposto a um antígeno exibe uma reação detectável (ou torna- se sensível) a encontros subsequentes com esse antígeno. Normalmente, as respostas imunes erradicam os patógenos infecciosos sem provocar graves lesões aos tecidos do hospedeiro. No entanto, essas respostas são algumas vezes controladas de maneira inadequada, inapropriadamente direcionadas aos tecidos do hospedeiro ou desencadeadas por microrganismos comensais ou antígenos ambientais que geralmente são inócuos. Nessas situações, a resposta imune, normalmente benéfica, torna-se a causa da doença. Portanto, a hipersensibilidade é o reflexo de respostas imunes excessivas ou aberrantes. As reações de hipersensibilidade podem ocorrer em duas situações. Primeiro, as respostas a antígenos estranhos (microrganismos e antígenos ambientais não infecciosos) podem causar lesão tecidual, especialmente se as reações forem repetitivas ou precariamente controladas. Segundo, as respostas imunes podem ser dirigidas contra antígenos próprios (autólogos), como resultado de falha da autotolerância. As respostas contra autoantígenos denominam-se autoimunidade, e os distúrbios causados por tais respostas são chamados doenças autoimunes. Mecanismos e Classificação das Reações de Hipersensibilidade As doenças de hipersensibilidade são geralmente classificadas de acordo com o tipo de resposta imunee o mecanismo efetor responsável pela lesão celular e tecidual. Alguns desses mecanismos são predominantemente dependentes de anticorpos, e outros, de células T, embora um papel para ambas as imunidades, humoral e mediada por células, seja frequemente encontrado em muitas doenças de hipersensibilidade. Revisaremos brevemente a classificação dessas doenças e então consideraremos em maiores detalhes as doenças mediadas por anticorpos e por células T. Hipersensibilidade imediata (tipo I). É causada por anticorpos IgE específicos para antígenos ambientais e é o tipo mais prevalente de doença de hipersensibilidade. As doenças de hipersensibilidade imediata, agrupadas como alergia ou atopia, são normalmente causadas pela ativação de células Th2 produtoras de interleucina-4 (IL-4), IL-5 e IL-13, e pela produção de anticorpos IgE que ativam mastócitos e eosinófilos e induzem inflamação. Hipersensibilidade mediada por anticorpos (tipo II). Anticorpos IgG e IgM específicos para antígenos da superfície celular ou da matriz extracelular podem causar lesão tecidual ativando o sistema complemento, recrutando células inflamatórias e interferindo nas funções celulares normais. Hipersensibilidade mediada por imunocomplexos (tipo III). Anticorpos IgM e IgG específicos para antígenos solúveis no sangue formam complexos com antígenos, e esses imunocomplexos podem se depositar nas paredes dos vasos sanguíneos em vários tecidos, causando inflamação, trombose e lesão tecidual. Hipersensibilidade mediada por células T (tipo IV). Nesses distúrbios, a lesão tecidual pode ser causada por linfócitos T que induzem inflamação ou matam diretamente as células-alvo. Em muitas dessas doenças, o principal mecanismo envolve a ativação de células T auxiliares CD4+, as quais secretam citocinas que promovem inflamação e ativam leucócitos, principalmente @odonto_miga 20 neutrófilos e macrófagos. Os linfócitos T citotóxicos (CTLs, do inglês, cytotoxic T lymphocytes) contribuem para a lesão tecidual em algumas doenças. (Tipos de reações de hipersensibilidade. Nos quatro tipos principais de reações de hipersensibilidade, diferentes mecanismos efetores imunes causam lesão tecidual e doença. CTLs, Linfócitos T citotóxicos; Ig, imunoglobulina.) Doenças Causadas por Anticorpos Doenças mediadas por anticorpos são decorrentes da ligação de anticorpos a antígenos em determinadas células ou tecidos extracelulares ou, ainda, em consequência da formação de complexos antígeno- anticorpo na circulação com subsequente deposição nas paredes dos vasos. Os anticorpos produzidos contra antígenos celulares ou teciduais causam doenças que afetam especificamente as células ou tecidos onde esses antígenos estão presentes e, desse modo, estas doenças são frequentemente órgão- específicas e não sistêmicas. Ao contrário, as manifestações das doenças causadas por imunocomplexos refletem o local da deposição desses imunocomplexos e não são determinadas pela fonte celular do antígeno. Dessa maneira, as doenças mediadas por imunocomplexos tendem a ser sistêmicas e afetam múltiplos órgãos e tecidos, embora alguns sejam particularmente suscetíveis, como os rins e as articulações. Em situações clínicas, o diagnóstico de doenças causadas por anticorpos ou imunocomplexos geralmente se baseia na demonstração de anticorpos ou de imunocomplexos na circulação ou depositados nos tecidos, além das semelhanças clinicopatológicas com doenças experimentais que se provaram ser mediadas por transferência adotiva de anticorpos. Doenças Causadas por Anticorpos contra Células Fixas e Antígenos Teciduais 3 mecanismos: Opsonização e fagocitose: Os anticorpos que se ligam a antígenos da superfície celular podem opsonizar diretamente as células ou ativar o sistema complemento, resultando na produção de proteínas do complemento que opsonizam as células. Essas células opsonizadas são fagocitadas e destruídas pelos fagócitos que expressam receptores para a porção Fc dos anticorpos IgG e receptores para proteínas do complemento. Esse é o principal mecanismo de destruição celular na anemia hemolítica autoimune e na trombocitopenia autoimune, nas quais anticorpos específicos para hemácias ou plaquetas, respectivamente, levam à opsonização e remoção dessas células da circulação. O mesmo mecanismo é responsável pela hemólise nas reações transfusionais. Inflamação: Os anticorpos depositados nos tecidos ativam o complemento, levando à liberação de produtos de clivagem, como o C5a e o C3a, que recrutam neutrófilos e macrófagos. Esses leucócitos expressam receptores para Fc e receptores paracomplemento que ligam anticorpos ou proteínas ligadas do complemento. Os leucócitos são ativados pela sinalização dos receptores (particularmente receptores Fc), enquanto produtos de leucócitos (incluindo enzimas lisossomais e espécies reativas de oxigênio) são liberados e produzem lesão tecidual. A glomerulonefrite é um @odonto_miga 21 exemplo de inflamação mediada por anticorpos e ativação leucocitária que causam lesão tecidual. Funções celulares anormais: Os anticorpos que se ligam a receptores celulares normais ou outras proteínas podem interferir com as funções desses receptores ou proteínas e causar doença sem inflamação ou dano tecidual. Por exemplo, anticorpos específicos contra o receptor do hormônio estimulador da tireoide ou contra o receptor nicotínico da acetilcolina provocam anormalidades funcionais que levam à doença de Graves e à miastenia grave, respectivamente. Os anticorpos específicos para o fator intrínseco, necessário para a absorção de vitamina B12, causam anemia perniciosa. Anticorpos específicos para citocinas são causas conhecidas de imunodeficiências, ainda que raras. A, Os anticorpos opsonizam as células e podem ativar o complemento, cujos produtos também opsonizam células, levando à sua fagocitose por meio dos receptores Fc ou dos receptores para C3b nos fagócitos. B, Os anticorpos recrutam os leucócitos pela ligação aos receptores Fc ou pela ativação do complemento e, desse modo, liberam subprodutos que são quimiotáticos para leucócitos. C, Os anticorpos específicos para receptores de hormônios ou de neurotransmissores da superfície celular interferem com a fisiologia normal. Por exemplo, na doença de Graves (painel esquerdo), autoanticorpos específicos para o receptor do hormônio estimulador da tireoide (TSH, do inglês, thyroid stimulating hormone) na glândula tireoide estimula a atividade dos receptores mesmo na ausência de TSH, causando liberação excessiva dos hormônios da tireoide (hipertireoidismo). Na miastenia grave (painel direito), autoanticorpos específicos para o receptor da acetilcolina em células musculares bloqueiam a ação da acetilcolina, levando à paralisia. Os anticorpos que causam doenças específicas de células ou de tecidos são geralmente autoanticorpos produzidos como parte de uma reação autoimune, mas, algumas vezes, são anticorpos específicos para microrganismos. Menos frequentemente, os anticorpos podem ser produzidos contra um antígeno estranho (p. ex.: microbiano) que, imunologicamente, reagem de forma cruzada com um componente dos tecidos próprios. Em uma rara sequela de infecção estreptocócica conhecida como febre reumática, os anticorpos produzidos contra as bactérias reagem de forma cruzada com antígenos do coração, depositam- se neste órgão e causam inflamação e dano tecidual. Os depósitos teciduais de anticorpos podem ser detectados por exame morfológico em algumas dessas doenças, e a deposição de anticorpo frequentemente está associada à ativação local de complemento, inflamação e lesão tecidual. Doenças Mediadas por Imunocomplexos Os imunocomplexos que causam doença podem ser compostospor anticorpos ligados a autoantígenos ou a antígenos estranhos. No início dos anos 1900, um médico perspicaz chamado Clemens von Pirquet suspeitou da ocorrência de doenças causadas por imunocomplexos. Naquele tempo, as infecções diftéricas eram tratadas com soros provenientes de cavalos que haviam sido imunizados com a toxina diftérica — um exemplo de imunização passiva contra a toxina por meio da @odonto_miga 22 transferência de soro contendo anticorpos antitoxina. Von Pirquet percebeu que pacientes injetados com soro equino contendo a antitoxina desenvolviam inflamação das articulações (artrite), erupção cutânea e febre. As características clínicas dessa reação sugeriram que isso não era resultado da infeção ou de um componente tóxico do próprio soro. Os sintomas apareciam pelo menos 1 semana após a primeira injeção do soro de cavalo e mais rapidamente após cada repetição da injeção. Von Pirquet concluiu que essa doença era causada por uma resposta do hospedeiro a algum componente do soro. Ele sugeriu que o hospedeiro produzia anticorpos contra as proteínas séricas do cavalo; esses anticorpos formavam complexos com as proteínas injetadas, e a doença resultava dos anticorpos ou dos imunocomplexos produzidos. Sabemos agora que suas conclusões eram inteiramente corretas. Ele chamou essa condição de doença sérica (serum disease). A mesma reação também foi observada em humanos que recebiam soroterapia para o tétano, a qual hoje em dia é mais frequemente conhecida como doença do soro (serum sickness). Esse quadro permanece uma preocupação clínica nos dias atuais, em indivíduos que recebem anticorpos monoclonais terapêuticos produzidos em roedores que não contêm sequências humanas ou antissoros produzidos em animais que são usados para o tratamento de picadas de cobras ou da raiva. Doenças Causadas por Linfócitos T Os linfócitos T provocam lesão tecidual pela produção de citocinas que induzem inflamação ou pela destruição direta das células-alvo. As reações inflamatórias são desencadeadas principalmente por células T CD4+ das subpopulações Th1 e Th17. Em algumas doenças mediadas por células T, o principal mecanismo de lesão tecidual é o killing de células pelos CTLs CD8+. As células T que causam lesão tecidual podem ser autorreativas ou específicas para os antígenos proteicos estranhos que estão presentes ou ligados às células ou tecidos. A lesão tecidual mediada por linfócitos T também pode ser acompanhada de fortes respostas imunes protetoras contra microrganismos persistentes, especialmente os intracelulares, que resistem à erradicação pelos fagócitos e anticorpos. A suspeita de um papel das células T como causadoras de uma doença imunológica específica ocorre, principalmente, em decorrência da demonstração da presença de células T em lesões e da detecção de níveis aumentados de citocinas no sangue ou tecidos que podem ser derivadas de células T. Os modelos animais foram muito úteis na elucidação da patogênese dessas doenças. A, Nas reações inflamatórias mediadas por citocinas, as células T CD4+ (e algumas vezes, as células CD8+) respondem aos antígenos teciduais secretando citocinas que estimulam a inflamação e ativam leucócitos, causando lesão tecidual. B, Em algumas doenças, os CTLs CD8+ destroem diretamente as células teciduais. APC, Célula apresentadora de antígeno. Doenças causadas pela inflamação mediada por Citocinas Na inflamação imunomediada, as células Th1 e Th17 secretam citocinas que recrutam e ativam leucócitos. A IL-17, produzida por células Th17, promove o recrutamento de neutrófilos; o interferon- γ (IFN-γ), produzido por células Th1, ativa macrófagos; e o fator de necrose tumoral (TNF, do inglês, tumor necrosis factor) e as quimiocinas, produzidos pelos linfócitos T e células da imunidade inata (tais como células dendríticas e macrófagos), estão envolvidos no recrutamento e ativação de muitos tipos de leucócitos. Embora tenha sido enfatizado que as células CD4+ Th1 e Th17 são as fontes de muitas dessas citocinas, várias outras células podem produzir as mesmas citocinas nas lesões. Por exemplo, em @odonto_miga 23 alguns modelos animais de inflamação cutânea crônica, a fonte de IL-17 no início do curso da doença parece ser as células T γδ, enquanto muitas das mesmas citocinas produzidas pelas células T também são secretadas pelas células linfoides inatas teciduais. A lesão tecidual resulta de produtos dos neutrófilos e macrófagos recrutados e ativados, tais como enzimas lisossomais e as espécies reativas de oxigênio. As citocinas produzidas por linfócitos e macrófagos ativados estimulam o recrutamento de mais leucócitos e a inflamação, assim propagando a lesão As células endoteliais vasculares nas lesões podem expressar níveis aumentados de proteínas de superfície reguladas por citocinas, tais como moléculas de adesão e moléculas do MHC de classe II. A inflamação associada a doenças mediadas por células T normalmente é crônica, mas crises de inflamação aguda podem se sobrepor em uma condição de inflamação crônica de fundo. A hipersensibilidade do tipo tardio (DTH, do inglês, delayed-type hypersensitivity) é um exemplo dessas reações inflamatórias e será descrita mais adiante. As reações inflamatórias crônicas frequentemente produzem fibrose como resultado da secreção de citocinas e de fatores de crescimento por macrófagos e células T. Muitas doenças autoimunes órgão-específicas são causadas pela ativação de células T autorreativas por autoantígenos, levando à liberação de citocinas e inflamação. Acredita-se que esse seja o principal mecanismo subjacente da artrite reumatoide, da esclerose múltipla, do diabetes tipo 1, da psoríase e de outras doenças autoimunes As reações de células T específicas para microrganismos e outros antígenos estranhos também podem levar à inflamação e à lesão tecidual. Bactérias intracelulares, tais como Mycobacterium tuberculosis, induzem fortes respostas de células T e de macrófagos que resultam em inflamação granulomatosa e fibrose (descritas mais adiante); a inflamação e a fibrose podem causar destruição extensa do tecido e prejuízo funcional, tipicamente nos pulmões. A tuberculose é um bom exemplo de uma doença infecciosa na qual a lesão tecidual se deve, principalmente, à resposta imune do hospedeiro. Acredita-se que as respostas de células T contra bactérias intestinais constituam a base de muitas formas de enteropatias inflamatórias. Uma variedade de doenças cutâneas, chamadas sensibilidade de contato, resultam da exposição tópica a produtos químicos e antígenos ambientais. Essas doenças são causadas por reações inflamatórias provavelmente desencadeadas por neoantígenos formados pela ligação de produtos químicos a proteínas próprias, incluindo moléculas do MHC. Ambas as células T, CD4+ e CD8+, podem ser a fonte de citocinas nas reações de sensibilidade de contato. Exemplos de hipersensibilidade de contato incluem erupções cutâneas induzidas por hera venenosa e carvalho venenoso (nas quais as células T reagem contra proteínas próprias que foram modificadas por substâncias químicas produzidas pelas plantas, denominadas uruxióis) e erupções cutâneas induzidas pelo contato com metais (níquel e berílio), além de uma variedade de produtos químicos, tais como tiourama, que é utilizado na fabricação de luvas de látex. Algumas dessas reações tornam-se crônicas e são chamadas clinicamente de eczema. Erupções cutâneas causadas por respostas a fármacos terapêuticos estão entre as reações imunes mais comuns em humanos e são exemplos de sensibilidade de contato. A reação inflamatória clássica mediada por células T é chamada de hipersensibilidade do tipo tardio e será descrita a seguir. Doenças Causadas por Linfócitos T CitotóxicosAs respostas de CTLs à infecção viral podem levar à lesão tecidual em decorrência do killing de células infectadas, mesmo se o vírus por si só não induzir efeitos citopáticos. A principal função fisiológica dos CTLs é eliminar os microrganismos intracelulares, principalmente vírus, matando as células infectadas. Alguns vírus lesionam diretamente as células infectadas e são considerados citopáticos, ao passo que outros não o são. Como podem não ser capazes de distinguir entre os vírus citopáticos e não citopáticos, os CTLs matam células infectadas por vírus, independentemente se a infecção é em si prejudicial para o hospedeiro. Exemplos de infecções @odonto_miga 24 virais, nas quais as lesões são decorrentes da resposta de CTL do hospedeiro e não ao próprio vírus, incluem a coriomeningite linfocitária em camundongos e determinadas formas de hepatite viral em humanos. Os CTLs podem contribuir para a lesão tecidual em doenças autoimunes nas quais a destruição de determinadas células hospedeiras é um componente importante, como acontece no diabetes tipo 1, onde as células β produtoras de insulina nas ilhotas pancreáticas são destruídas.