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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO LINHA DE PESQUISA EDUCAÇÃO, ESTUDOS SOCIOHISTÓRICOS E FILOSÓFICOS MARIA CLAUDIA LEMOS MORAIS DO NASCIMENTO AS DIRETORAS DO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO PRESIDENTE KENNEDY: A FEMINIZAÇÃO DA GESTÃO EDUCACIONAL NA INSTITUIÇÃO (RIO GRANDE DO NORTE, 1952 – 1975) NATAL 2017 MARIA CLAUDIA LEMOS MORAIS DO NASCIMENTO AS DIRETORAS DO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO PRESIDENTE KENNEDY: A FEMINIZAÇÃO DA GESTÃO EDUCACIONAL NA INSTITUIÇÃO (RIO GRANDE DO NORTE, 1952 – 1975) Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Profª. Drª. Maria Arisnete Câmara de Morais NATAL 2017 Catalogação da Publicação na Fonte. UFRN / Biblioteca Setorial do CCSA Nascimento, Maria Claudia Lemos Morais do. As diretoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy: a feminização da gestão educacional na instituição (Rio Grande do Norte, 1952 – 1975) / Maria Claudia Lemos Morais do Nascimento. - Natal, 2017. 131f.: il. Orientador: Prof.ª Dr.ª Maria Arisnete Câmara de Morais. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Educação. Programa de Pós-graduação em Educação. 1. História da Educação – Dissertação. 2. Instituições escolares - Dissertação. 3. Diretoras. - Dissertação. I. Morais, Maria Arisnete Câmara de. II. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título RN/BS/CCSA CDU 37.091.113(091) MARIA CLAUDIA LEMOS MORAIS DO NASCIMENTO AS DIRETORAS DO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO PRESIDENTE KENNEDY: A FEMINIZAÇÃO DA GESTÃO EDUCACIONAL NA INSTITUIÇÃO (RIO GRANDE DO NORTE, 1952 – 1975) Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação. Aprovada em ____ de ______________ de ______. _____________________________________________________ Profª. Drª. Maria Arisnete Câmara de Morais (Orientadora) Universidade Federal do Rio Grande do Norte | UFRN _____________________________________________ Prof. Dr. José Mateus do Nascimento (Titular) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte | IFRN _____________________________________________ Profª. Drª. Olívia Morais de Medeiros Neta (Titular) Universidade Federal do Rio Grande do Norte | UFRN _____________________________________________ Profª. Drª. Maria Lúcia da Silva Nunes (Suplente) Universidade Federal da Paraíba | UFPB _____________________________________________ Profª. Drª. Marlúcia Menezes de Paiva (Suplente) Universidade Federal do Rio Grande do Norte | UFRN Dedico este trabalho a memória do meu avô Expedito Melo de Morais, que do céu vela e torce por mim. AGRADECIMENTOS A Deus e Nossa Senhora, meus pais do céu e fonte de toda sabedoria e glória. Aos meus queridos pais, José Djalma e Teresa Cristina pelo dom da vida. À minha amada avó Djazete Lemos de Morais, pelo que sou. À minha querida Tia Maria Teresa, que me acompanha nos estudos desde o Jardim de Infância no Pinguinho de gente até os dias de hoje. Sempre presente e torcendo por mim. À minha Tia Acássia Lemos de Morais. Meus irmãos, Morais Neto e Ana Carolina pela presença constante. À Professora e orientadora Maria Arisnete Câmara de Morais, pelos ensinamentos e orientações na pesquisa. À Maria Coeli, ex aluna e professora do Instituto de Educação Presidente Kennedy e Maria Arisneide de Morais, ex diretora da referida Instituição que trago nessa pesquisa e sou grata pela atenção, disponibilidade e entrevistas concedidas. Aos colegas do Grupo de Pesquisa História da Educação, Literatura e Gênero: Janaína Silva de Morais, Francisco Anderson Tavares de Lyra, Ana Luisa Castro, Francinaide de Lima Silva, Débia Suênia da Silva Sousa, Ana Paula Mendes Silva, Rosangela Albuquerque, Nanael Simão de Araújo, Euclides Teixeira Neto, Maria Valdenice Resende Soares, Amanda Vitória B. Alves, Sílvia Helena Sá Leitão e Jaciara Costa pelo companheirismo. À minha querida amiga do coração Maria Emanuelle, pela amizade sincera e divisão de angústias e alegrias. À minha eterna gratidão a Janaína Silva de Morais, pela amizade, disponibilidade e presença constante desde o momento da realização do projeto dessa pesquisa. RESUMO No Brasil, o magistério primário passou no início do século XX por um processo de feminização na frequência das Escolas Normais pelas moças. Recuperar a trajetória dessas mulheres no magistério se configura em um entrelaçamento entre história das mulheres e história da educação, num momento que a profissão ainda permanece predominantemente feminina. Dentro desse contexto, essa pesquisa visa analisar a atuação das professoras/diretoras que dirigiram e lecionaram no Instituto de Educação Presidente Kennedy em Natal, Rio Grande do Norte, entre 1952 e 1975. Insere-se na temática da História das Instituições escolares e da formação de professores e fundamenta-se nos pressupostos da História Cultural de Burke (2008), Chartier (1990), Morais (2002; 2003; 2006), dentre outros autores. Realizamos a coleta de fontes no acervo do Instituto Superior de Educação Presidente Kennedy, Arquivo Público do Estado e no acervo do Grupo de Pesquisa História da Educação, Literatura e Gênero/UFRN. Entre a presença das Diretoras, destaco: Francisca Nolasco Fernandes, Crisan Siminéa, Ezilda Elita do Nascimento, Teresinha Pessoa Rocha e Maria Arisneide de Morais. Francisca Nolasco Fernandes, primeira Diretora da Escola Normal de Natal, em exercício entre 30 de setembro de 1952 a 30 de janeiro de 1956 e na segunda gestão de 24 de março de 1959 a 1966. Francisca Nolasco Fernandes foi a primeira diretora da Escola Normal de Natal, do Instituto de Educação e Instituto de Educação Presidente Kennedy. Crisan Siminéa, diretora da Instituição entre os anos de 1967 a 1969. Ezilda Elita do Nascimento, diretora da unidade Escola de Aplicação entre 1963 a 1968. Teresinha Pessoa Rocha, diretora do Jardim de Infância Modelo entre os anos de 1960 a 1970. Maria Arisneide de Morais diretora entre os anos de 1970 a 1975. O estudo evidenciou que estas professoras fazem parte das primeiras diretoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy e que, a partir delas, especificamente na figura de Dona Francisca Nolasco Fernandes, observarmos o estabelecimento de um novo quadro de gestão predominantemente feminino na referida Instituição de formação de professores. Esse trabalho tem o objetivo de analisar o processo de feminização dos quadros de gestão do Instituto de Educação de Natal/RN, e a atuação educativa das professoras/diretoras. Justifica-se pelo nosso interesse em investigar o papel e as contribuições dessas mulheres frente à educação no Estado do Rio Grande do Norte. Palavras-Chave: História da Educação. Instituições escolares. Diretoras. ABSTRACT In Brazil, the Elementary school system underwent, early in the 20th century, a process of feminization in the frequency of Normal Schools by ladies. Recovering now the trajectory of these women in the Elementary School System is an interweaving of women's history and history of education, at a time in which the profession is stillmajorly feminine. Within its context, this research seeks to analyze the performance of the Teachers and Headmistresses that managed and taught at the President Kennedy Education Institute in Natal, Rio Grande do Norte, between 1965 and 1975. It is inserted in the theme of the History of School Institutions and Teacher’s Training and it is based on the tenets of the cultural history of Burke (2008), Chartier (1990), Morais (2002; 2003; 2006), among other authors.We have collected sources from the President Kennedy Higher Education Institute, Public Archives of the State and from the archives of the History of Education, Literature and Gender Research Group / UFRN. Among the Headmistresses, I stress: Francisca Nolasco Fernandes, Crisan Siminéa, Ezilda Elita do Nascimento, Teresinha Pessoa Rocha e Maria Arisneide de Morais. Francisca Nolasco Fernandes, first Headmistress of the Normal School of Natal, in office from September 30, 1952 to January 30, 1956, and to a second administration from March 24, 1959 to 1966. Francisca Nolasco Fernandes was the first Headmistress of the Normal School of Natal, of the Institute of Education and the Institute of Education President Kennedy. Crisan Siminéa, Headmistress of the Institution between 1967 and 1969. Ezilda Elita do Nascimento, Headmistress of the unit School of Application between 1963 and 1968. Teresinha Pessoa Rocha, Headmistress of the Model Kindergarten between 1960 and 1970. Maria Arisneide de Morais, Headmistress between 1970 and 1975. The study showed that these teachers are part of the first Headmistresses of the President Kennedy Education Institute and, after them, specifically in the figure of Dona Francisca Nolasco Fernandes, we observe the establishment of a new management framework, predominantly female, in the aforementioned Teacher's Training Institution. This work seeks to analize the process of feminization of the management framework of the Education Institute of Natal/RN, and the educative actuation of the teachers and Headmistresses. It is justified by our interest in investigating the role and the contributions of these women for the education in the State of Rio Grande do Norte. Keywords: History of Education. School institutions. Headmistress. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Imagem 1 – A jovem leitora (c. 1770-1772), Jean-Honoré Fragonard ............................. 29 Imagem 2 – The Crèche (1890), Albert Anker ................................................................. 31 Imagem 3 – A caminhada à escola (1872), Albert Anker ................................................ 33 Quadro 1 – Categorias de análise na história das Instituições escolares .......................... 48 Imagem 4 – Atheneu Norte-Riograndense ....................................................................... 49 Quadro 2 – Relação de alunos formados pela primeira turma da Escola Normal de Natal (1910) ................................................................................................. 50 Quadro 3 – Corpo Docente que formou a primeira turma da Escola Normal de Natal (1908) ........................................................................................................... 51 Imagem 5 – Turma da Escola Normal do Rio Grande do Norte diplomada em 1911 ...... 52 Imagem 6 – Fotografia da construção do Instituto de Educação (Década de 1950) ........ 54 Imagem 7 – Dona Francisca Nolasco Fernandes com alunas normalistas em frente ao Instituto de Educação (Década de 1950) ..................................................... 55 Imagem 8 – Instituto de Educação (Década de 1950) ...................................................... 56 Imagem 9 – Vista aérea do Hotel Internacional dos Reis Magos (Década de 1960- 1970) .............................................................................................................. 59 Imagem 10 – Representantes da Aliança para o Progresso em reunião (Década de 1960) ......................................................................................................... 60 Imagem 11 – Serviço Cooperativo de Educação do Rio Grande do Norte/SECERN ...... 61 Imagem 12 – Apresentação do estudo preliminar ao projeto do Instituto de Educação Presidente Kennedy ao Engenheiro representante da USAID (Década de 1960) ......................................................................................................... 62 Imagem 13 – Uma das reuniões do amplo programa da Aliança para o Progresso (Década de 1960) ...................................................................................... 63 Imagem 14 – Uma das reuniões do amplo programa da Aliança para o Progresso (Década de 1960) ...................................................................................... 64 Imagem 15 – Planta do Instituto de Educação Presidente Kennedy (Década de 1960) ... 65 Imagem 16 – Discurso de Inauguração do Instituto de Educação Presidente Kennedy (22 de novembro de 1965) ........................................................................ 66 Imagem 17 – The Love Letter (c. 1770), Jean Honoré Fragonard ................................... 69 Imagem 18 – La maestra joven (c. 1736-1740), Jean-Baptiste Simeon Chardin ............. 70 Imagem 19 – Clio, a musa da História e da criatividade (1689), Pierre Mignard ............ 71 Quadro 4 – Gestão da Escola Normal, a partir do ano de 1908 ........................................ 73 Imagem 20 – Francisca Nolasco Fernandes (Década de 1950-1960) ............................... 75 Imagem 21 – Prefeitura Municipal de Jardim de Piranhas ............................................... 76 Imagem 22 – Alunas da Escola Doméstica trabalhando na horta da escola, na Ribeira... 77 Imagem 23 – Dona Francisca Nolasco Fernandes ............................................................ 78 Quadro 5 – Constituição do Currículo da Escola Normal (1951) ..................................... 80 Quadro 6 – Matérias na Escola Normal de Natal e respectivos professores (1928) ......... 81 Imagem 24 – Alunas Normalistas em momento de estudo na Escola Normal de Natal .. 83 Imagem 25 – Dona Chicuta Nolasco entre as normalistas no Instituto de Educação (Década de 1950) ...................................................................................... 84 Imagem 26 – Crisan Siminéa (1960-1970) ....................................................................... 86 Imagem 27 – Avenida Senador Georgino Avelino, em Angicos ..................................... 87 Imagem 28 – Diploma da turma concluinte do Curso Técnico em Contabilidade no Colégio Nossa Senhora das Neves (1949) ................................................ 88 Imagem 29 – Professora Crisan Siminéa em sua Diplomação (1960-1962) .................... 89 Imagem 30 – Homenagem da Secretaria de Educação, Cultura e Desporto a professora Crisan Siminéa como Apóstola da Educação (1998) .................................. 90 Imagem 31 – Diretora Crisan Siminéa junto a Normalistas no Instituto de Educação Presidente Kennedy (1967-1970) .............................................................. 92 Imagem 32 – Crisan Siminéa próxima a uma formanda Normalista (1960-1970) ........... 96 Imagem 33 – Homenagem do Jornalista Roberto Guedes a professora Crisan Siminéa – Diploma de Educador do Ano Crisan Siminéa (1996) ................................ 97 Imagem 34 – Placa de Inauguração em homenagem a professora Crisan Siminéa que dá nome a Biblioteca do Instituto de Educação Presidente Kennedy (1995) ........................................................................................................ 100 Imagem 35 – Professora Teresinha Pessoa Rocha (Década de 1950-1960) ..................... 101 Imagem 36 – Concluintes do Jardim de infância Modelo – Doutorandos do “A B C” (1960) ........................................................................................................102 Imagem 37 – Recordação Escolar do Jardim de Infância Modelo do Rio Grande do Norte (1958) .............................................................................................. 103 Imagem 38 – Recordação escolar da Escola de Aplicação do Instituto de educação (1964) ........................................................................................................ 104 Imagem 39 – Certificação da aluna Maria Coeli Mollick Brandão sendo promovida da 4º para a 5º série pelo Grupo Escolar Escola de Aplicação sob a diretoria de dona Ezilda Elita (1965) ........................................................ 104 Imagem 40 – Formatura de Maria Arisneide de Morais na Escola Normal de Natal (1961) ........................................................................................................ 105 Imagem 41 – Estação ferroviária da cidade de Patu ......................................................... 106 Imagem 42 – Placa de Formatura de Maria Arisneide de Morais na Escola Normal de Natal Turma Governador Aluízio Alves (1961) ....................................... 107 Imagem 43 – Diploma de Professor Primário na Escola Normal de Natal (1961) ........... 107 Imagem 44 – Cerimônia de formatura pela Escola Normal de Natal com a Diretora Francisca Nolasco Fernandes (1961) ........................................................ 108 Imagem 45 – Diploma de Licenciatura em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Natal – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1968) .............................................................................................. 109 Imagem 46 – Documento emitido pelo Governo do Estado do Rio Grande do Norte (1968) ........................................................................................................ 110 Imagem 47 – Professoras, diretoras e normalistas no Instituto de Educação Presidente Kennedy (Década de 1970) ....................................................................... 111 Quadro 7 – Plano curricular e carga horária por série do ano de 1973 da Escola Normal do Instituto de Educação Presidente Kennedy ............................................... 112 Quadro 8 – Estudos adicionais curriculares (1973) .......................................................... 113 Quadro 9 – Corpo Docente do Instituto de Educação Presidente Kennedy – Escola Normal (1973-1974) .................................................................................... 114 Imagem 48 – Diretora Maria Arisneide de Morais em sala de aula (Década de 1970- 1975) ......................................................................................................... 116 Imagem 49 – Woman in Front of the Setting Sun (1818), Caspar David Friedrich ......... 117 SUMÁRIO 1 É CAMINHANDO QUE SE FAZ O CAMINHO ..................................................... 10 2 METODOLOGIA ........................................................................................................ 31 2.1 Mulheres e Magistério ......................................................................................... 31 2.2 Procedimentos Teóricos e Metodológicos .......................................................... 35 3 HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES ESCOLARES E O INSTITUTO DE EDUCAÇÃO PRESIDENTE KENNEDY ............................................................... 48 3.1 História das Instituições Escolares ..................................................................... 48 3.2 Da criação da Escola Normal .............................................................................. 50 3.3 Da criação do Instituto de Educação .................................................................. 54 3.4 O Instituto de Educação próximo a Praça Cívica ............................................. 56 3.5 Instituto de Educação Presidente Kennedy ....................................................... 59 4 AS DIRETORAS NO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO PRESIDENTE KENNEDY .................................................................................................................... 69 4.1 Sobre a História das Mulheres ............................................................................ 69 4.2 As Diretoras .......................................................................................................... 73 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 119 REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 125 APÊNDICE ...................................................................................................................... 130 10 1 É CAMINHANDO QUE SE FAZ O CAMINHO Nesta breve introdução, o mais provável é que esperem que eu inicie o capítulo contando a origem e os fundamentos da pesquisa referente às Diretoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy (1952 – 1975). Porém, antes dessa parte, gostaria de escrever um pouco sobre mim, – minha trajetória escolar – e as experiências através das quais cheguei ao meu interesse pela história da educação. Iniciei a educação infantil na escola Pinguinho de Gente, situada na rua Olinto Meira, nº 1115, na cidade do Natal. Minha primeira professora chamava-se: Verônica, que carinhosamente chamávamos “tia Vevé”. Em minhas lembranças, ela era uma moça bonita, sorridente e sempre prestativa com a turma de crianças. É assim que me recordo dela. O ensino fundamental e o ensino médio concluí no colégio Santo Antônio Marista de Natal 1 , escola conhecida tradicionalmente por sua formação religiosa católica. São presentes as lembranças desse período: as missas que ocorriam antes das aulas toda terça e sexta-feira, as músicas religiosas tocadas entre os intervalos, o tempo da oração após o recreio. Também havia os dias de hasteamento da bandeira do Brasil nas datas Históricas comemorativas com todos os alunos no pátio arborizado da escola, - dessa forma aprendi a cantar a letra do hino nacional. Meus professores, alguns tenho boas lembranças, outros nem tanto. Os Irmãos Maristas e os Padres que passaram pelo colégio sempre afetuosos com os alunos. A minha primeira eucaristia e crisma realizadas na igreja da escola. Canções que compõe a história e a memória da Instituição. Amizades que perduram e são para a vida toda. Após concluir o ensino médio no colégio Marista em 2003, entrei para a faculdade de Direito em 2004, pela Universidade Potiguar (UNP). Estudei por cinco anos e me formei em 2008. Durante a graduação, as disciplinas que despertaram os meus interesses foram às voltadas para a Filosofia, a Sociologia, a História e a Ética do Direito. Aprendi que a análise do homem e da sociedade deve ser uma tarefa permanente a ser desenvolvida pelo estudioso do mundo jurídico, para tanto, esse mundo e a História vivem em regime de mútua influência. O direito vive impregnado de acontecimentos históricos, que comandam o seu rumo e a sua compreensão exige, muitas vezes, o conhecimento das condições sociais existentes à época 1 A história sobre o início dessa Instituição escolar antes de sua chegada ao Brasil e consequentemente em Natal, remonta ao Instituto dos Pequenos Irmãos de Maria e as escolas irmão Maristas. Fundado em 1817, na França, pelo Padre Marcelino Champagnat, presbítero da sociedade de Maria. O projeto do padre Champagnat foi de conceber e fundar um Instituto de Irmãos que se dedicassem a educação e a formação religiosa das crianças e dos jovens. Hoje a rede dos colégios irmãos Maristas encontra-se difundida por todo o mundo e no Brasil em considerável parte dos Estados. http://www.champagnat.org/pt/index.php 11 em que foi elaborado. O curso foi essencial para a minha formação, permitindo-me perceber aimportância em se levar os fatos para o caminho reto da justiça e da verdade com a devida aplicabilidade da Lei. Estagiei por um ano e meio na secretaria de gabinete do Instituto de Previdência do Estado (IPERN), entre 2007 e 2008. As minhas principais funções eram: auxilio a pareceres de competência do IPERN, acompanhamento de processos, elaboração de peças processuais, digitação e atendimento. Considero esse período de aprendizado e crescimento. Coloquei em prática conhecimentos adquiridos durante a graduação em direito a favor da instituição a qual estava integrada. Avalio como um bom período de experiência profissional na área jurídica. Nesse tempo, realizei o curso Centro Histórico de Natal 2 e Educação Patrimonial pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) em 2012, que proporcionou conhecer o centro histórico da cidade do Natal – identificando as edificações que possuem valor arquitetônico e histórico existentes entre os perímetros da cidade alta e a ribeira. Igualmente, foram estudados e discutidos os significados de patrimônio cultural, como reforço da identidade local. Estudar e discutir sobre a educação patrimonial da minha cidade levou-me a refletir sobre a precária situação que encontra-se o Centro Histórico de Natal, bastante abandonado e deteriorado. Pude constatar o retrato do descaso do poder público com as edificações históricas que compõem a nossa História. Em 2013 resolvi prestar vestibular novamente. Estava inicialmente em dúvida entre três cursos e todos relacionados com a área da educação: História, Filosofia, Letras e literatura. Sob a influência de uma amiga da época do colégio, – Aline Antunes – acabei optando pelo curso de Pedagogia. Ela me informou que seria no referido curso que eu teria a visão ampla do cenário educacional e a compreensão sobre como ocorrem os processos educativos que buscava. Vendo-me diante da oportunidade de realizar uma nova graduação, fiquei muito entusiasmada com a aprovação em pedagogia e não pensei duas vezes em voltar a estudar. Retornei a Universidade com uma única ambição: a de procurar por alguma orientação na construção de uma verdadeira vida de estudo, que é um processo permanente e para a vida toda. E foi justamente esse o objetivo que me levou a UFRN: a vontade de aprender mais. Compreendi que a verdadeira educação é uma conquista pessoal e só se obtém quando o impulso para ela é sincero, vem do fundo da alma. 2 O Centro Histórico de Natal compreende o perímetro entre as áreas localizadas entre os bairros da Cidade Alta e Ribeira e alguns prédios dos bairros de Tirol e Petrópolis, que são os bairros mais antigos da cidade. Entre os prédios mais conhecidos do Centro Histórico estão: a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, Igreja do Galo e a do Rosário; Teatro Alberto Maranhão, Solar Bela Vista, Casarão de Câmara Cascudo e Palácio do Governo. 12 Meus desejos por novos conhecimentos foram inicialmente saciados durante as aulas da disciplina Antropologia e Educação, primeira da estrutura curricular com a qual tive proximidade, ministradas pela professora Maria da Conceição Almeida Xavier e sua docente assistida Louize Gabriela, à época, sua orientada de mestrado. Com o meu interesse em aprender, observados durante as aulas pela referida professora, fui convidada a participar do dia de estudos do Grupo de Estudos da Complexidade (GRECOM), sob a sua coordenação. A professora Conceição Almeida sempre reforça que o GRECOM é formado por um grupo de pessoas que sonharam transformar o trabalho acadêmico numa estética do pensar com prazer e partilha. Que lutam por uma ciência mais humilde e mais humana, onde se construam pontes e não fortalezas. Esse espaço de formação foi-me bastante acolhedor e sou agradecida a professora “Ceiça” – como carinhosamente é chamada pelos alunos – pelos conhecimentos adquiridos. Seguindo a estrutura curricular do curso de Pedagogia, na disciplina Fundamentos Históricos e Filosóficos da Educação I ministrada pela professora Maria Inês Stamatto, tive a oportunidade de conhecer as raízes históricas e filosóficas da educação na Antiguidade e Idade Média que organizaram a forma de pensar o conhecimento. Estudar o contexto histórico da educação medieval, a influência da igreja e o pensamento pedagógico da patrística e a escolástica, foi um momento especial nessa caminhada de graduação, pois, desde a época da escola sempre tive muito interesse pelos estudos relacionados ao período histórico Medieval, – longe das caricaturas, onde muitas vezes não correspondem aos acontecimentos históricos. Na disciplina Fundamentos Históricos e Filosóficos da Educação II, encontrei o professor Walter Pinheiro Barbosa Júnior. Professor próximo e afetuoso com seus alunos, que desenvolve estudos nas áreas de gestão democrática com foco em conselho escolar e sertão. Nessa etapa da graduação ainda não poderia imaginar que ele seria o meu professor/orientador durante a docência assistida no mestrado, - semestre de 2016.2. A experiência docente auxiliando o professor Walter Pinheiro foi um momento bastante significativo para mim, pois, até então sempre estive em sala de aula na condição de aluna. Obtive orientações sobre o processo de planejamento das aulas, correção das atividades, procedimento de avaliação e aplicação das notas, entre outros afazeres. Não menos importante, a formação humana. Agradeço ao professor pela acolhida, confiança depositada e os conhecimentos adquiridos nesse período. 13 Retomando o caminho percorrido – ainda em 2013 – durante a graduação em pedagogia, na disciplina Educação e Linguagem, através das aulas da professora Maria Arisnete Câmara de Morais, foi-me reafirmada à importância da literatura – fator de enriquecimento da imaginação. A professora Maria Arisnete, sempre ressalta em suas aulas a importância da literatura em nossas vidas e como ela pode ampliar o nosso horizonte de consciência diante do mundo inteiro. A referida professora também nos apresentou textos variados, entre eles, o de Ítalo Calvino, autor do ensaio Por que ler os clássicos onde o mesmo diz que, uma obra clássica, nunca se esgota: “[...] um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.” (CALVINO, 1993, p. 11). Por essa razão uma obra clássica não envelhece. Seguindo adiante, passei a ter curiosidade em relação às pesquisas desenvolvidas pela professora Maria Arisnete, referente à História da Educação e a Literatura, procurando integrar-me ao Grupo de Pesquisa História da Educação, Literatura e Gênero, vinculado a Linha de Pesquisa Educação, Estudos Sociohistóricos e Filosóficos, ambos na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, norteada pelo Projeto História da Leitura e da Escrita no Rio Grande do Norte (1910-1980)/CNPq coordenado pela citada professora. As pesquisas desenvolvidas no mencionado grupo buscam investigar acerca da história das instituições escolares e de formação de professores, desde a sua fundação; a circulação e produção de ideias pedagógicas entre os professores/diretores do estado e a prática pedagógica de professoras que atuaram, também, na direção de instituições escolares. O objetivo é contribuir, para a história da educação no Brasil, e em especial, no Rio Grande do Norte. A exemplo da tese intitulada A Escola Normal de Natal (Rio Grande do Norte, 1908-1971) de autoria de Francinaide Lima da Silva (2013). A pesquisa de Francinaide Lima analisa a história da formação de professores em Natal, Rio Grande do Norte, entre 1908 e 1971; e o percurso percorrido pela Escola Normal de Natal na preparação de professores primários – desde a sua fundação –, consolidando-se na formação de professores primários no Estado. No mesmo ano (2013), passei a ser bolsista de iniciação científicado CNPq e orientanda da professora Maria Arisnete, integrando-me ao plano de trabalho Escola Normal de Natal – Presença de Diretoras, analisando a presença dessas professoras na direção da Escola Normal. Com os estudos, aprendi, gradativamente a conhecer os caminhos da pesquisa histórica ao mesmo tempo em que despertava a vontade de apreender cada vez mais e me tornar uma boa pesquisadora. 14 Investigar sobre a presença das diretoras/professoras da Escola Normal de Natal, permitiu-me a compreensão do contexto de criação e consolidação da referida instituição de formação de professores primários no Rio Grande do Norte. Ressaltando que o percurso dessa escola foi marcado pela ausência de espaço adequado para o funcionamento de suas práticas. O problema da falta de um prédio fixo para alojar a Escola Normal perdurou por décadas a fio, - aproximadamente 57 anos - até seu definitivo estabelecimento no espaço do Instituto de Educação Presidente Kennedy no ano de 1965. A Escola Normal nascera sob a égide de um nome ilustre e profundo conhecedor dos problemas de Governo, era o Governador Dr. Alberto Maranhão 3 . Graças a sua gestão “[...] quando finalmente se tornou realidade uma escola de que os registros históricos nos dão notícia haver fracassado em duas tentativas anteriores.” (FERNANDES, 1973, p. 103). Inaugurada a 13 de maio de 1908, a Escola Normal de Natal alojou-se inicialmente como anexo em um dos salões do colégio Atheneu Norte-Riograndense, localizado à época na Avenida Junqueira Aires (FERNANDES, 1973). Funcionou nesse local por dois anos. Começa o período das migrações. A primeira direção da escola coube a Francisco Pinto de Abreu e segundo as lembranças de Francisca Nolasco Fernandes, o corpo docente era composto por: Ezequiel Benigno de Vasconcelos, João Tibúrcio, Padre Calazans, Manoel Garcia, Teódulo Câmara, José Gervásio, Clotilde Fernandes de Oliveira, Otávio Arantes, e Nestor Lima. Esse corpo docente diplomou a primeira turma em 1910 com vinte e sete professores: vinte professoras e sete professores (MORAIS, 2006). Em 1937 ocorre a terceira mudança de instalação e, a Escola Normal passa a funcionar no prédio do Grupo Escolar Antônio de Souza, no bairro do Tirol até 1941 (hoje, atual Fundação José Augusto). Retornando ao Grupo Escolar Augusto Severo em 1941 onde permaneceu até 1953 (AQUINO, 2007). A construção de um prédio para abrigar a Escola Normal de Natal foi uma reivindicação e uma necessidade constante. O problema da falta de edifício e o período de migrações de espaço tiveram início desde as primeiras tentativas de abertura, já no final do século XIX. Finalmente, em outubro de 1946, inicia-se a construção do prédio que passaram a chamar de Instituto de Educação, hoje prédio do Colégio Atheneu Norte-Riograndense, 3 Finalmente, na Reforma da Instrução pública, em 1908, o Governador Alberto Maranhão expede o Decreto n. 178, de 29 de abril de 1908, e, entre outras providencias, constava, do art. 5º, o seguinte: “[...] criando uma Escola Normal para o preparo do Magistério de ambos os sexos, anexo ao Atheneu Norte Riograndense com as suas cadeiras provindas mediante contrato e a sua direção confiada a um dos lentes do Atheneu” e que foi o Dr. Francisco Pinto de Abreu, então diretor da instrução (FERNANDES, 1973, p. 104) 15 situado no bairro de Petrópolis. Após a construção, o Atheneu instala-se no edifício, onde sobra apenas a perna do X para a Escola Normal. Ou seja, o termo das migrações, definiu-se apenas como mais uma etapa (AQUINO, 2007). Por fim, no Governo Sílvio Pedrosa, solicitado por Dona Chicuta Nolasco é construído um novo prédio para acomodar o Instituto de Educação. Composto de uma Escola Normal, o Grupo Escolar Modelo e o Jardim Modelo, comportando o que se chamava uma Escola Normal e não um Instituto de Educação. “Finalmente, o governo Sílvio Piza Pedrosa constrói o novo Instituto de Educação.” (MORAIS, 2006, p. 77). Observamos que a Escola Normal de Natal, desde a sua fundação foi uma escola “nômade” (AQUINO, 2007). Esse período de migrações finda com a construção do Instituto de Educação Presidente Kennedy no ano de 1965 e não com o novo Instituto de Educação construído durante o governo de Sílvio Pedrosa próximo a praça cívica. Pois faltava espaço ao que comportava um Instituto de Educação. Após percorrer essa trajetória de inauguração, instalação e migrações de espaço da Escola Normal de Natal; entre a presença das professoras/diretoras analisadas na pesquisa desenvolvida enquanto bolsista de iniciação científica/CNPq, entre os anos de 2013 e 2014, referente às direções femininas nessa Instituição, destaco as presenças de: Francisca Nolasco Fernandes, primeira Diretora da Escola Normal de Natal nomeada em 30 de setembro de 1952 a 30 de janeiro de 1956; na segunda gestão de 24 de março de 1959 a 1966 – Dona Chicuta foi a primeira diretora da escola normal de natal, do Instituto de Educação e Instituto de Educação Presidente Kennedy –; Maria Elza Fernandes Sena, segunda mulher a dirigir a Escola Normal de Natal, nomeada em 07 de maio de 1957 a 24 de março de 1959 e Maria Arisneide de Morais que assumiu o cargo de direção na Instituição entre os anos de 1970 a 1975. A justificativa da escolha destas professoras/diretoras nas minhas pesquisas enquanto aluna de iniciação cientifica e agora dissertação de mestrado ocorre em virtude delas serem as primeiras mulheres a dirigirem a Escola Normal de Natal, O Instituto de Educação e o Instituto de Educação Presidente Kennedy, estando à frente dessa Instituição educacional responsável pela formação de professores, – consolidada enquanto tal no Estado – em um período significativo de mudanças e transição de espaço. Por, a partir delas e na figura de Dona Francisca Nolasco Fernandes, primeira mulher a dirigir a Escola Normal de Natal, após sete direções masculinas, observamos o estabelecimento de uma nova configuração, um novo quadro de gestão – ora predominantemente masculino passa à predominantemente feminino - 16 e, por, suas contribuições no cenário educacional prestando valiosos serviços a educação, firmando seus nomes no Estado do Rio Grande do Norte. No exercício de aprendizagem referente à pesquisa, aproveitei a ocasião me matriculando na condição de aluna especial pelo Programa de Pós Graduação em Educação/UFRN – PPGEd, na disciplina Ateliê de Pesquisa: Gênero, Educação e Literatura, oferecida aos alunos de Pós Graduação em Educação, também ministrada pela professora Maria Arisnete Câmara de Morais. Através das aulas, tive a oportunidade de conhecer autores e análises de questões referentes à educação, à história e as práticas culturais e educativas, pertinentes ao campo teórico metodológico da história da educação e da história cultural que fundamenta a pesquisa atual. O primeiro Seminário apresentado durante a disciplina foi sobre o livro, Um Teto todo seu da Virginia Woolf (1928). De maneira concisa e clara a escritora nos leva à reflexão, que para se escrever bem há que se ter um teto todo seu e 500 libras no bolso por ano, um espaço próprio com chave para que ninguém lhe interrompa e, uma renda fixa para que a mente esteja tranquila e livre de preocupações. “[...] o dinheiro dignifica aquilo que é frívolo quando não é remunerado.” (WOOLF, 1928, p. 82). Virginia também nos mostra que as obras primas escritas não são frutos isolados e solitários, são o resultado de muitos anos de pensar em conjunto e da experiência. Ao final do ensaio, Virginia Woolf acaba por cumprir o desafio que lhe foi dado: escrever sobre a mulher e a ficção. Deixando um recado à suas sucessoras: escrevam sempre mulheres. Seguindo as discussões da disciplina, conheci autores que trabalham com a perspectiva da História Cultural, como: Roger Chartier (1990), Peter Burke (2008),Ana Maria Galvão (1996), Eliane Marta Teixeira Lopes (1994), Philippe Ariés (2013), entre outros pesquisadores, que tratam de aspectos históricos e culturais, os quais fundamentam teórica e metodologicamente os estudos e as pesquisas desenvolvidas pelo grupo. Sem esquecer, a essencial contribuição literária que também é proporcionada aos alunos que frequentam o Ateliê de Pesquisa Gênero, Educação e Literatura. Nessa descoberta bibliográfica encontrei com Roger Chartier (1990), em sua obra A História Cultural: entre práticas e representações, o autor analisa um conjunto de práticas culturais, mostrando a emergência de novos objetos no âmbito do fazer histórico, repercutindo na entrada do historiador em novos territórios, na intenção de compreender suas práticas e as relações que estas estabelecem com o mundo. “As práticas que visam fazer reconhecer uma 17 identidade, exibir uma maneira própria de estar no mundo, significam simbolicamente um estatuto e uma posição.” (CHARTIER, 1990, p. 23) Jane Soares de Almeida (1998) em sua obra Mulher e educação: a paixão pelo possível analisa a presença feminina no magistério primário em São Paulo, no Brasil e, nos rumos tomados pela profissão ao longo das décadas em que se alicerçou no panorama educacional brasileiro. O trabalho mostra fundamentalmente a ocorrência do processo de feminização do magistério no estado de São Paulo. Tomando a perspectiva acerca do magistério como uma profissão essencialmente feminina, o livro situa-se no âmbito de uma investigação histórica, resgatando a trajetória da feminização do magistério no referido Estado. De certa forma, esse percurso profissional feminino no campo da educação no Estado Paulista, nos leva, em partes, a compreensão do fenômeno de feminização do magistério, também a nível nacional. Phillipe Ariés (2013) em O tempo da História elabora uma coletânea de oito textos escritos entre 1946 e 1951, distribuídos sequencialmente sem introdução ou conclusão, levando-nos a refletir sobre o processo Histórico a partir de experiências pessoais e autobiográficas próprias. Analisa as diversas concepções Históricas: conservadoras, marxistas, científicas e existenciais – caracterizando a trajetória de um historiador através das diversas correntes Históricas existentes em sua época, realizando reflexões no campo da historiografia e da própria Teoria da História. A necessidade de uma nova abordagem histórica, uma história mais abrangente e totalizante em que situações históricas complexas não se vissem mais reduzidas a jogos de poder entre grandes homens ou grandes Países – Fazer uma outra história expressão usada por Febvre. Abre-se, em consequência, o leque de possibilidades do fazer historiográfico, os conceitos e os instrumentos que permitiram ao historiador ampliar sua visão do homem. (ODÁLIA, 1991). Particularmente a obra de Phillipe Ariés (2013) foi uma leitura bastante agradável para mim, comprovando a originalidade do próprio autor ao propor uma maneira singular de contar a História partindo da sua própria experiência de vida. O primeiro ensaio é autobiográfico, e essa forma de escrita autobiográfica relacionando “História pessoal e História do mundo” perdura da primeira até a última página do livro. Pela honestidade intelectual de Phillipe Ariés em mostrar ao seu leitor não apenas um lado da História, no caso, as diversas correntes Históricas. Foi-me uma leitura essencial e aprendi muitas coisas com ela. 18 As leituras que realizei nos textos da pesquisadora Ana Maria de Oliveira Galvão (1996) foram às relacionadas a problematizarão das fontes em história da educação. Em seus textos ela discute as potencialidades das fontes documentais não convencionais, articuladas àquelas tradicionalmente usadas nos estudos de história da educação. Compreendi o potencial de fontes como a literatura, a fotografia, os diários de época, que acabam por revelar aspectos em geral negligenciados e pouco perceptíveis em pesquisas baseadas unicamente em documentos oficiais. Os estudos dos textos em Eliane Marta Teixeira Lopes (1994) possibilitou-me o entendimento em pensar as questões relacionadas à organização das categorias em História da Educação e Gênero: a partir do momento em que o objeto passa a ser estudado, vai-se a campo, escolhe o material em fontes previamente selecionadas e colocam-se as seguintes questões: O que fazer com tudo isso? Como entender esse material? Como fazer dele um todo coerente que possa informar sobre o todo? Interrogando o objeto para que ele revele, na sua fragmentação, a sua totalidade possível. Os estudos de seus textos me orientaram nessa compreensão e como resolver esses problemas. Também foi apresentado durante a disciplina Ateliê de Pesquisa: Gênero, Educação e Práticas culturais, o livro Chicuta Nolasco Fernandes, intelectual de mérito, de autoria de Morais (2006), que retrata a biografia da educadora Francisca Nolasco Fernandes. A obra objetiva mostrar a história de vida, trajetória profissional e a formação dessa professora/diretora que educou gerações ao longo de sua carreira docente. “Na direção da Escola Normal, entre as metas da professora Chicuta Nolasco Fernandes estava a valorização das professorandas a partir mesmo do uso do uniforme completo.” (MORAIS, 2006, p. 82). Dignificar a figura da normalista foram desígnios da educadora Chicuta Nolasco Fernandes, que pretendia despertar nas suas alunas a consciência da sua valorização profissional, a dignidade da carreira escolhida e o seu papel relevante na sociedade (MORAIS, 2006, p. 83). “Eu adorava ensinar. Queria bem as minhas alunas, sentia-me realizada.” (FERNANDES, 1973, p. 96). Através dessas leituras compreendi a responsabilidade do pesquisador e historiador ao realizar a escrita da história. O trato e o cuidado que deve ter com as fontes, o olhar sensível para entender os documentos da época e principalmente o discernimento que o resultado produzido é uma construção historiográfica: que será sempre parcial e repleta de lacunas. Porém, “[...] a consciência da dificuldade de se recontar o passado por parte dos 19 historiadores nunca desestimulou as tentativas de construção de conhecimento desse mesmo passado, nem o constante fascínio causado por esse processo.” (COSTA, 2010, p. 1-2). Seguindo o percurso, participei de eventos locais que foram resultados dos estudos realizados enquanto aluna especial e bolsista de iniciação científica/CNPq (2013-2014) no referido Grupo de Pesquisa História da Educação, Literatura e Gênero, nos quais tive a oportunidade de expor o que vinha produzindo sobre as diretoras da Escola Normal de Natal: Francisca Nolasco Fernandes, Maria Elza Fernandes Sena e Maria Arisneide de Morais. Em 2014, apresentei trabalhos em alguns eventos científicos. A exemplo: trabalho apresentado na XX Semana de Ciência, Tecnologia e Cultura/CIENTEC/UFRN, sob o título Diretoras que atuaram na Escola Normal de Natal (NASCIMENTO; MORAIS, 2014a); e a publicação do artigo em Anais no V Encontro Norte e Nordeste de História da Educação, Universidade Federal do Piauí, intitulado Diretoras da Escola Normal de Natal (Rio Grande do Norte, 1952-1971) (NASCIMENTO; MORAIS, 2014b). Participar dessas atividades ajudou-me a exercitar a escrita de trabalhos acadêmicos e também a amadurecer aos poucos os conhecimentos adquiridos como pesquisadora. Considero um trabalho permanente e para a vida toda o aperfeiçoamento e rigor que o trabalho de pesquisa exige. Diante do exposto, entre o encontro com a orientadora Maria Arisnete Câmara de Morais, trabalhos desenvolvidos no grupo de pesquisa História da educação, Literatura e Gênero e estudos individuais e coletivos; refletindo sobre a presença das professoras e diretoras na Escola Normal de Natal, ocorreu-me o desejo de empreender e dar continuidade a pesquisa analisando a presença dessas diretorasfrente ao Instituto de Educação Presidente Kennedy, em outra oportunidade, se, assim me fosse permitido. A História referente às direções femininas no Estado do Rio Grande do Norte correspondentes aos espaços: Escola Normal de Natal, Instituto de Educação e Instituto de Educação Presidente Kennedy, ainda há posto o desafio de continuidade e análise sobre como configurou essa feminização dos quadros de gestão no Estado e a colaboração dessas professoras/diretoras no cenário educacional, que também comporta a história da referida Instituição de formação de professores. É sabido que em todas as fases da história, a presença da mulher na educação marcou época. No Rio Grande do Norte algumas mulheres conseguiram se destacar, tanto na vida intelectual quanto em sala de aula, ora escrevendo, ora dirigindo escolas, ora desenvolvendo atividades políticas (FURTADO, 2006). 20 Nesse sentido, esta dissertação de mestrado intitulada As Diretoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy: A Feminização da Gestão Educacional na Instituição (Rio Grande do Norte, 1952-1975), tem como objetivo de pesquisa: investigar e analisar a atuação das professoras/diretoras da referida instituição de formação de professores e, suas contribuições no cenário educacional do Estado. Acreditando que a reconstituição da história profissional dessas mulheres que marcaram época se faz necessária pelos serviços educacionais prestados, contribuindo assim, para composição do quadro da História da Educação no Estado do Rio Grande do Norte. A escrita da história é um longo e sinuoso caminho decifratório de múltiplas possibilidades. Falar sobre as primeiras Diretoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy é resgatar a memória dessas professoras a partir dos documentos e vestígios remanescentes. “Para escrever a história, são necessárias fontes, documentos, vestígios. E isso é uma dificuldade quando se trata da história das mulheres.” (PERROT, 2008, p. 21). São as próprias mulheres que destroem seus vestígios “[...] muitas mulheres, no caso de sua existência, destruíam – ou destroem – seus papéis pessoais.” (PERROT, 2008, p. 22) O trabalho de pesquisa em História e História das mulheres possibilita a chance de fazer novas perguntas às respostas dadas (e a partir delas), criar novos passados (LOPES, 1986). A continuidade deste trabalho corrobora com a ideia de abertura de novas discussões propiciadas pelos temas referentes à História da Educação. A maioria dos educadores que pesquisam temas relacionados a essa área estão buscando compreender suas práticas para nelas melhor atuar. É no estudo do passado que se compreende o presente. A história do Instituto de Educação Presidente Kennedy, remonta ao período que o prédio foi construído e inaugurado em - 22 de novembro de 1965. Essa realização se deu no Governo Aluísio Alves onde a Instituição destinou-se à instalação da Escola Normal de Natal, à Escola de Aplicação, ao Jardim de Infância, bem como a criação de aperfeiçoamento de professores e cursos de especialização. No final do ano de 1966, o Instituto de Educação Presidente Kennedy formava a sua primeira turma, conferindo aos formandos o diploma de professor primário, assinado pelo secretário de Educação Jarbas Bezerra e Francisca Nolasco Fernandes de Oliveira – Dona Chicuta – diretora (MORAIS, 2006). As marcas desse período de significativas mudanças, no uso e costumes da sociedade natalense são abordadas, por exemplo, no livro de Morais (2006), intitulado Chicuta Nolasco Fernandes, intelectual de mérito. 21 Além de Dona Chicuta, enfatizamos a presença feminina nas direções do Instituto de Educação Presidente Kennedy (1952-1975), seja na direção geral da instituição, seja nas direções das suas unidades autônomas: Escola Normal de Natal, Escola de Aplicação e Jardim de Infância; a presença das professoras/diretoras: Crisan Siminéa (diretora geral), Ezilda Elita do Nascimento (diretora da escola de aplicação), Maria Arisneide de Morais (diretora da Escola Normal de Natal) e Teresinha Pessoa Rocha (diretora do Jardim de Infância Modelo), que contribuíram através de suas gestões para o funcionamento e consolidação deste espaço de formação de professores primários. Justifico a escolha dessas professoras/diretoras como objeto de estudo, pelo fato, delas serem as primeiras diretoras a dirigirem o Instituto de Educação Presidente Kennedy – espaço definitivamente construído para abrigar a Escola Normal/Instituto de educação, após um longo período de migrações de espaço; segundo, por essas professoras/diretoras estarem à frente da Instituição educacional responsável pela formação de professores, consolidada enquanto tal no Estado do Rio Grande do Norte, em um período significativo de mudanças educacionais e transições de espaço físico; terceiro, pelas suas contribuições no cenário educacional, firmando seus nomes no Estado. Por, a partir da figura de Dona Francisca Nolasco Fernandes observamos o estabelecimento de uma nova configuração, um novo quadro de gestão predominantemente feminino na referida Instituição de formação de professores. Investigar e analisar a atuação dessas diretoras como objetivo de pesquisa, significa estudar importantes acontecimentos que nortearam o contexto educacional do Rio Grande do Norte. Pois, os desdobramentos de reformas educacionais ocorridas no âmbito nacional e estadual prescritas como a Lei nº 2.171, de 06 de dezembro de 1957, que organizou e fixou as bases da educação elementar e da formação do magistério primário do estado do Rio Grande do Norte; A Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961, que determinou as diretrizes e bases da educação nacional e a Lei nº 5.692, de 11 de agosto de 1971 que fixou as diretrizes e bases para o ensino de 1º e 2º graus, influenciaram nos procedimentos praticados por essas diretoras, ao gerir a referida instituição. “Naquele tempo os Estados alteravam as suas leis de ensino quando achavam conveniente, pois não havia a Lei de Diretrizes e Bases que levou anos para ser elaborada e tão pouco, relativamente, para ser testada.” (FERNANDES, 1973, p. 73). Desta feita, analisar a história educacional dessas professoras à frente da direção do Instituto de Educação Presidente Kennedy, em Natal/RN é também reconstituir a 22 historiografia da Instituição. Questão de pesquisa, indago: como se configurou a atuação das professoras/diretoras Francisca Nolasco Fernandes, Crisan Siminéa, Ezilda Elita do Nascimento, Teresinha Pessoa Rocha e Maria Arisneide de Morais no Instituto de Educação Presidente Kennedy no período em que geriram a Instituição? Quais as contribuições dessas professoras/diretoras para o Instituto de educação e para a educação no Estado? Como se configurou e consolidou essa feminização no quadro de gestão na referida instituição de formação de professores? Para a construção da trajetória das primeiras diretoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy (1965), fez-se necessário um levantamento bibliográfico inicial referente ao que fora produzido sob a temática da História das Instituições escolares e atuação/contribuição de professores no Estado do Rio grande do Norte. Para compreensão do contexto histórico. Estado da arte. Dentre os estudos que abordam essa temática, destaco a coletânea A mulher em nove versões organizada pela professora Maria Arisnete Câmara de Morais (2001) compondo-se de resultados de pesquisa de professores do Programa de Pós Graduação em Educação (PPGEd), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Esta obra traz estudos acerca da prática de mulheres, seja professoras e diretoras, escritoras ou participantes ativas na formação de uma sociedade letrada a exemplo de: Isabel Gondim, Sinhazinha Wanderley, Palmyra Wanderley, Crisan Siminéa, Judith Bezerra de Melo, entre outras. “O que se pretende com esses estudos é a compreensão históricado papel da mulher na sociedade, para melhor compreender a interação homem e mulher, segundo valores e interdependências historicamente constituídos.” (MORAIS, 2001, p. 10). Algumas obras retratam de forma mais pontual a trajetória de mulheres que se destacaram em um determinado contexto social e conseguiram se sobressair e alcançar destaque na educação do Rio Grande do Norte, a exemplo de: Francisca Nolasco Fernandes (MORAIS, 2006), Júlia Medeiros (ROCHA NETO, 2013) e Lia Campos (VIEIRA, 2005). Nesse contexto, o livro de Rocha Neto (2013), Júlia Medeiros, uma trajetória entre a educação e a imprensa no Rio Grande do Norte, nos apresenta a professora e escritora Julia Medeiros, que foi editora do Jornal das Moças, em Caicó. Em sua obra analisa as práticas pedagógicas exercidas pela educadora no Grupo Escolar Senador Guerra em Caicó – estado do Rio Grande do Norte; perpassando pela sua participação na vida pública da sociedade caicoense, ou seja, a trajetória da sua vida na primeira década do século XX. 23 Destaco a dissertação de Vieira (2005), sob o título As mudanças da educação do RN nos idos de 1950 e 1960: a prática de Lia Campos. Essa obra analisa a participação da professora Lia Campos, durante as décadas de 1950 e 1960, na organização educacional norte-riograndense. O trabalho de Lia Campos ressalta a relevância da formação docente alicerçado no ensino primário e o modo como os que nele trabalham podem conduzir suas concepções e fazeres da prática diária. A referida professora promoveu, nesse Estado, uma série de atividades como: levantamento e sistematização da rede escolar; organização dos quadros administrativos das escolas; capacitações e cursos de aperfeiçoamento para professores leigos, bem como implantação da Lei da Educação nº 2.171, de 6 de dezembro de 1957. Inserida nesse contexto como participante ativa das mudanças educativas, Lia Campos deixou marcada na historiografia norte-rio-grandense e na memória dos que com ela conviveram, enquanto professora e coordenadora, as suas ações de disseminação e concretizações de ideais. Não se pode desconsiderar o espaço de atuação das professoras e diretoras apreciadas nesse estudo, espacialidade esta que contempla o Instituto de Educação Presidente Kennedy. Nesse sentido, faz-se necessário, para uma melhor compreensão do objeto investigado, o conhecimento do funcionamento da Instituição passando pela História das Instituições escolares. A pesquisa de Aquino (2007), intitulada De Escola Normal de Natal a Instituto de Educação Presidente Kennedy (1950-1965): configurações, limites e possibilidades da formação docente, consiste em um estudo significativo para esta pesquisa. Essa narrativa histórica conta a trajetória da Escola Normal de Natal realçando a sua transformação no Instituto de Educação Presidente Kennedy. Ressaltando os conflitos ao longo das décadas em torno da ausência de espaço físico para o funcionamento adequado da Escola, e as mudanças do saber veiculado por meio da renovação do currículo e de sua prática pedagógica. O trabalho de Silva (2013), A Escola Normal de Natal (Rio Grande do Norte, 1908- 1971), analisa a história da formação de professores em Natal, Rio Grande do Norte entre 1908 e 1971 investigando o percurso da Escola Normal de Natal na preparação de professores primários. Segundo a autora, a Escola Normal de Natal enquanto locus da formação de professores constituiu uma forma escolar própria, a partir da produção e veiculação de saberes específicos e de modos de fazer peculiares. Saberes os quais deram suporte ao preparo profissional para o magistério e que estavam em conformidade com o movimento pedagógico mundial, as ideias, discussões e reflexões dos pedagogos e dirigentes educacionais. 24 A Escola Normal era um espaço de atividades pedagógicas de afirmação profissional, um lugar de reflexão sobre as ações que conferiram aos professores a representação de profissionais produtores de saberes os quais legitimaram a instrução e a profissão docente (SILVA, 2013). Saliento que a presente dissertação tem como objetivo destacar a trajetória e atuação profissional de Francisca Nolasco Fernandes, Crisan Siminéa, Ezilda Elita do Nascimento, Teresinha Pessoa Rocha e Maria Arisneide de Morais, “[...] professoras que atuaram em momentos significativos de transição organizacional.” (SILVA, 2013, p. 122). Nesse sentido, este trabalho torna-se pertinente para a pesquisa no âmbito da história da educação por traçar a trajetória dessas professoras/diretoras. Neste breve inventário de estudo acerca da atuação de professoras no Estado do Rio Grande do Norte, percebe-se a relevância da pesquisa sobre a gestão administrativa dessas mulheres frente ao Instituto de Educação Presidente Kennedy. Para tanto, a compreensão das Instituições enquanto espaço de: criações educativas, formativas e históricas. Este levantamento inicial das práticas de professoras e História das Instituições Escolares no Rio Grande do Norte permitiu a compreensão da dimensão dos trabalhos produzidos. Ao mesmo tempo, comporta a percepção que a presente pesquisa, em razão do seu enfoque diferenciado e do recorte temporal proposto, tem contribuições a oferecer na resolução a despeito de novas reflexões ainda necessárias a serem abordadas no campo da história da educação “A história da educação é, hoje, um repositório de muitas histórias, interligadas e interagentes, reunidas pelo objeto complexo ‘educação’, embora colocado sob óticas diversas e diferenciadas na sua fenomenologia.” (CAMBI, 1999, p. 29). Resolvido o levantamento bibliográfico inicial, parti em busca das fontes historiográficas e registros da atuação educacional das diretoras na Instituição. O trabalho do historiador da educação e o seu fazer historiográfico implica a análise e a interpretação das fontes documentais à luz de uma teoria que possa respaldar as muitas informações que são necessárias para a escrita da história: historiografia. Nessa caminhada, os arquivos que tornaram-se fundamentais foram: o arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy, Arquivo Público do Estado (APE-RN) e o arquivo do grupo de pesquisa História da educação, literatura e gênero. A má conservação da documentação encontrada no Arquivo Público do Estado acabou por impedir as minhas visitas ao acervo e desistir desse local. Realizei visitas em 2014 após um período de chuvas que a cidade de Natal havia passado e a situação estava realmente difícil. O Arquivo é um 25 galpão empoeirado, mal zelado e estava completamente molhado. Havia perfurações e infiltrações no teto que ainda encharcava as estantes com água. Importantes documentos que sem sombra de dúvidas estão perecendo. Os funcionários apenas lamentavam as condições, sem poder fazer nada. Nas poucas idas ao Arquivo Público do Estado, apesar das condições, consegui ter acesso a algumas fotografias, entre elas, a do prédio onde funcionou a Escola Normal de Natal em uma das pernas do “X” no Atheneu Norte-Riograndense (período de finalização da construção) e do prédio construído para abrigar a Escola Normal/Instituto de Educação em frente à praça cívica, atualmente, colégio estadual Anísio Teixeira e o Resumo das atividades da Secretaria de Educação e Cultura (1964-1965) (RIO GRANDE DO NORTE, 1964-1965), contendo informações a respeito da posição que se encontrava a secretaria de educação em relação aos trabalhos realizados e, os em andamento com recursos advindos da Aliança para o Progresso. Continha também reformas no Instituto de Educação Presidente Kennedy. No Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy, inicialmente realizei um levantamento dos documentos para saber o que havia disponível no acervo que encontra-se no armário da biblioteca da Instituição, para depois poder analisar o que seria possível utilizar nessa pesquisa. O registro dacatalogação que realizei, encontra-se em anexo nessa dissertação para auxiliar a quem tenha interesse de acesso a algum desses documentos registrados em pesquisas futuras. Da vasta documentação, destaco a utilização para essa dissertação: Registro de acontecimentos importantes 1958, assinado por Maria Elza Fernandes Sena (RIO GRANDE DO NORTE, 1958). Este livro destinava-se ao diário de movimento da Escola Normal de Natal, a partir do ano de 1958 sob a Diretoria de Maria Elza Fernandes Sena. Ele nos informa que no 2º semestre do referido ano, mas precisamente entre os meses de agosto e setembro, foram iniciados os trabalhos no setor administrativo relacionados aos arquivos ativos e passivos e enumera vários documentos que seriam organizados, entre eles: Registros de Diplomas, Atas da congregação, Diário da escola, Correspondências, Regulamentos, Históricos, entre outros documentos que pretendo abordar nos capítulos adiante. Pouco desses documentos consegui localizar em minhas visitas a Instituição. Segundo informações de funcionários, muitos desses documentos foram perdidos: durantes as mudanças e transições de espaço ao longo do período de migrações, pelo trabalho do tempo, – que não perdoa – e por servirem de alimento aos cupins. 26 O documento Plano curricular e carga horária por série do Instituto de educação presidente Kennedy – Escola Normal – ano de 1973 (RIO GRANDE DO NORTE, 1973), época da diretoria de Maria Arisneide de Morais, obtive algumas informações privilegiadas, relacionadas as disciplinas ministradas, número de aulas por série, número de turmas e o corpo docente no referido ano (1973) que ajudaram a tecer o panorama que se encontrava a Instituição sob sua gestão. Foram analisados os currículos disponíveis das professoras/diretoras pesquisadas, Crisan Siminéa e Maria Arisneide de Morais. Resumo do ponto dos professores da instituição emitido pela secretaria de educação e livros de registros disponíveis contendo informações relevantes para a escrita da dissertação. Encontra-se também no arquivo da biblioteca da Instituição, o acervo pessoal da ex professora e diretora Crisan Siminéa – doação familiar. A caixa contém as memórias de Crisan Siminéa, trabalhos apresentados pela professora, biografias, homenagens escritas, diplomas e certificados. Seu trabalho de Mestrado sobre o ensino da literatura e a leitura do texto literário pela PUC/SP em 1981. Fotografias com alunas normalistas no Instituto, fotos pessoais de viagens internacionais e o discurso Palavras de Crisan proferidas para as alunas normalistas enquanto diretora da Instituição. É perceptível nas palavras de Crisan Siminéa seu empenho e compromisso para com a formação das normalistas e o papel de responsabilidade que deve ser desempenhado pelas alunas “O professor primário tem mais oportunidade que o professor de ensino médio e o universitário. Ele é um cultivador, um modulador de almas em formação, prepará-los bem, é o vosso dever.” (SIMINÉA, [197?]). As fontes orais utilizadas como metodologia foram marcadas pelas entrevistas essenciais da ex diretora Maria Arisneide de Morais e da ex-professora do jardim de infância modelo: Maria Coeli Mollick Brandão. Pessoas que vivenciaram o período pesquisado e analisado, dando rostos e vozes às fontes documentais. A História cultural entende a história oral como metodologia e compreende que ela é uma ponte entre a teoria e a prática. Com isso, cria-se novas definições de se fazer e escrever a história. Através da oralidade é possível a transmissão de conhecimentos guardados na memória humana. História e memória. A primeira entrevistada foi a ex diretora Maria Arisneide de Morais, diretora da Instituição entre os anos de 1970 a 1975 que trago na pesquisa. A professora Maria Arisneide de Morais teve uma ampla atuação no cenário educacional do Rio Grande do Norte. Atuou como professora, coordenadora de prática de ensino e diretora da Escola Normal de Natal. https://pt.wikipedia.org/wiki/Oralidade https://pt.wikipedia.org/wiki/Conhecimento https://pt.wikipedia.org/wiki/Mem%C3%B3ria 27 Trabalhou na Secretaria de Educação na unidade setorial de planejamento e no Ministério da Educação e Cultura (MEC) morando em Brasília em 1986; e na Fundação Estadual de Planejamento Agrícola do RN. Na extinção da Fundação a professora passou a exercer atividades no Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (IDEMA). Hoje encontra-se aposentada (MARIA ARISNEIDE, 2014). A segunda entrevistada foi Maria Coeli Mollick Brandão, aluna do jardim de infância modelo e diplomada com habilitação no curso primário no ano de 1960. Obteve o certificado do ensino primário pela Escola de Aplicação no ano de 1966. Formou-se professora e trabalhou no Jardim de Infância Modelo do Instituto de Educação. Atualmente, “Celinha” - como carinhosamente é chamada pelos funcionários do Presidente Kennedy, trabalha no período da tarde na Biblioteca da Instituição. As entrevistadas foram localizadas através das visitas ao arquivo do Instituto Kennedy. Primeiro foram realizadas conversas informais com os funcionários, conversas essas que possibilitaram a aproximação com a ex professora e diretora da instituição. A leitura do livro Menina feia e amarelinha (FERNANDES, 1973), escrito por Dona Francisca Nolasco Fernandes e dedicado as suas alunas da Escola Doméstica e da Escola Normal de Natal, é uma fonte primária riquíssima de informações, pois, são as memórias deixadas pela referida professora registradas de seu próprio punho; que de fato contribuíram significativamente para a escrita dessa dissertação. “Eu adorava ensinar. Queria bem as minhas alunas, sentia-me realizada.” (FERNANDES, 1973, p. 96) Assim é Dona Francisca Nolasco Fernandes em suas memórias: realizada na profissão que tanto dedicou-se, mãe e esposa grata a vida por tudo que fez e obteve dela. O uso de fontes imagéticas também teve seu papel fundamental para conhecermos quem foram essas diretoras: como se vestiam? como eram seus rostos? assim também como o das alunas normalistas da Escola Normal de Natal. Qual a função de uma imagem, se não, eternizar um momento? os usos de imagens também têm muito a nós revelar como fonte de pesquisa. Entre as dificuldades encontradas para obter as fotografias disponíveis no acervo do Kennedy, primeiro destaco a restrição de acesso a alguns documentos disponíveis na Instituição. Extremamente penoso o acesso a sala que contém o arquivo das fotografias, restrição a chave da sala que nunca sabe com quem está guardada e se pode entrar. Foi preciso muitas visitas e muitos pedidos até poder chegar até elas por um momento muito breve. Não vi todas as fotos, nem metade das que existem na sala. A segunda foi a falta de identificação, localização ou data nas próprias fotografias. Não existe quase nenhuma informação nas 28 imagens. Por causa desse empecilho, foi tentada uma leitura interpretativa cruzando com outros documentos e os próprios relatos orais das professoras entrevistadas. O principal desafio foi construir o todo a partir de fragmentos e a responsabilidade ética – desejo – em contar a história dessas mulheres da forma mais clara e honesta possível. É dessa forma que inicia o trabalho do pesquisador: Primeiro aquilo que é sonho e depois torna realidade – curiosidades, inquietações, perguntas e respostas a serem desvendadas. Saber localizar as fontes para: analisar, catalogar e organizar para a construção da escrita da história. Para a construção do todo que aos poucos vai ganhando corpo. O trabalho organizou- se em cinco capítulos: O primeiro capítulo sob o título É caminhando que se faz o caminho, trata do encontro com o objeto de pesquisa. Explorando a minha trajetória escolar, ingresso no ensino superior (2004) e o meu retorno a Universidade no ano de 2013 no curso de Pedagogia da UFRN. Aproximações e afinidadescom as disciplinas cursadas, professores e grupos de estudo. Primeiros contatos com os Historiadores que trabalham na perspectiva da História cultural e aprovação no Programa de Pós Graduação em Educação (PPGEd). O segundo capítulo trata a Metodologia utilizada na pesquisa. Inicio uma reflexão relacionando História das Mulheres e o processo de feminização do magistério, perpetuada até os dias de hoje. O capítulo também aborda os procedimentos teóricos e metodológicos que foram respaldados nos conceitos utilizados pela História Cultural; a exemplo do conceito de representação, estabelecendo relação com a atuação das professoras/diretoras no Instituto de Educação Presidente Kennedy. O terceiro capítulo sob o título História das Instituições escolares e o Instituto de educação Presidente Kennedy, traz inicialmente uma discussão a respeito da História das Instituições Escolares e como estes trabalhados estão sendo desenvolvidos no campo da pesquisa em História da Educação. A História de criação da Escola Normal de Natal até o seu estabelecimento no espaço que hoje abriga o Instituto de Educação Presidente Kennedy. O quarto capítulo, As Diretoras no Instituto de Educação Presidente Kennedy, aborda a História das mulheres relacionando a atuação das diretoras na Instituição educacional de formação de professores. Como ocorreu o processo de feminização dos quadros de gestão no Instituto de educação Presidente Kennedy, a partir de: Francisca Nolasco Fernandes (1952-1956/1959-1966); Crisan Siminéa (1967-1969); Teresinha Pessoa Rocha (1960-1970); Ezilda Elita do Nascimento (1963-1968); Maria Arisneide de Morais (1970-1975). 29 Finalizo o capítulo inicial, explorando uma obra de arte que ilustra o momento do estudo. Momentos esses tão necessários a realização de um trabalho de pesquisa. Utilizo a bela pintura do francês Jean Honoré Fragonard A Jovem Leitora como fonte de inspiração para esta dissertação. Essa é uma das inúmeras imagens de jovens mulheres leitoras que povoam a obra de pintores Europeus a partir do século XVIII. Imagem 1 – A jovem leitora (c. 1770-1772), Jean-Honoré Fragonard. Cena de uma jovem leitora. Jean Honoré Fragonard (Grasse, 1732 – Paris, 1806). A jovem leitora (c. 1770-1772). Óleo sobre tela, 81.1 x 64.8cm. Fonte: Galeria Nacional de Arte, Washington, Distrito de Colúmbia, Estados Unidos. A Leitora – The Reader – mostra uma jovem dama em sua solitária leitura, segurando um pequeno livro com a mão direita: – seria um romance? Provavelmente, sim. O pescoço da moça fora delicadamente pintado e ornado com fitas em lilás e branco que combinam harmoniosamente ao vestido amarelo. A sensibilidade com que a pintura fora suavemente traçada com o pincel e tinta encanta os olhos. A moça encontra-se serena e confortavelmente sentada em farta almofada para proporcionar aconchego em sua agradável leitura. 30 2 METODOLOGIA 2.1 Mulheres e Magistério Pesquisas historiográficas tais como a de Aquino (2007), Morais (2006) e Silva (2013) investigam os processos implicados na escolarização primária norte-rio-grandense. Nessa perspectiva, emergem estudos sobre a história das instituições escolares, história da formação docente, personalidades que contribuíram no cenário educacional, presença de professores e professoras que acabam por evidenciar, também, a presença feminina na gestão de instituições de formação de professores em cargos de direção. No Brasil, o magistério primário sofreu um processo de feminização tanto na frequência das Escolas Normais pelas moças, quanto pela ocupação da profissão pelo sexo feminino (ALMEIDA, 2007, p. 32). Recuperar a trajetória dessas mulheres no magistério se configura em um entrelaçamento entre história das mulheres e história da educação, num momento que a profissão ainda é predominantemente feminina. A predominância feminina no ensino desde o início do século XX ainda estende-se aos dias atuais apesar da variedade de outras possibilidades profissionais que o mercado de trabalho as propicia. As mulheres, tal qual o início do século permaneceram no magistério, na enfermagem e em ocupações “cuidadoras” onde parece sentirem-se mais confortáveis ou mais em “casa”. “As mulheres permanecem no magistério apesar da ampliação dos leques ocupacionais por força do progresso, da industrialização e da tecnologia.” (ALMEIDA, 1998, p. 30). E, por paradoxal que possa parecer, um número significativo gostando do que faz, acreditando e resistindo criativamente, o que permite considerar que a dimensão humana comporta uma variedade e extensa gama de análises que não podem deixar de envolver o universo profissional das professoras e das suas vidas no magistério (ALMEIDA, 1998, p. 30) Traçar à história feminina no campo educacional, contar a trajetória dessas mulheres no magistério e que as levaram a ocupar os quadros de gestão é também buscar delinear e entender como se constituiu o processo de desenvolvimento da História da Educação no Brasil e no Estado do Rio Grande do Norte. “Entre mulheres e educação, o que sempre se esculpiu nas vidas femininas foi um entrelaçamento de destinos incorporando sujeitos históricos aspirando por um lugar próprio no tecido social e uma profissão que se adaptou perfeitamente àquilo que elas desejavam.” (ALMEIDA, 1998, p. 26). 31 Imagem 2 – The Crèche (1890), Albert Anker. Fonte: Museu Oskar Reinhart am Stadtgarten in Winterthur, Suíça. O pintor Suiço Albert Anker, nos brindou com obras de arte belíssimas, dando-nos a prerrogativa de vagar sobremaneira sobre os usos e costumes do seu período de vivência no século XIX, como por exemplo, quando imortalizou essa cena do cotidiano escolar com uma jovem professora e seus alunos em uma creche no momento da refeição. A obra retrata doze crianças sentadas a mesa: algumas estão comendo sozinha, outras necessitando da ajuda da jovem mestra. Podemos observar também um menino (?) afastado das outras crianças próximo a porta solitário. Por que estaria longe das outras crianças? Estaria de castigo e sofrendo alguma punição? Imaginemos o porque do distanciamento da criança. Após a leitura da obra e prosseguindo a discussão, fica o questionamento: Por que tão poucas mulheres se interessam pelas áreas de exatas ou preferem trabalhar com engenharias e áreas técnicas? A sociedade e a influência cultural é uma das explicações dadas para o desinteresse feminino em determinados espaços, mas, se a cultura fosse a grande influência nas escolhas profissionais entre os sexos, seria de se esperar mudanças em Países que tanto investem nessa busca pela igualdade de escolha profissional entre os sexos, a exemplo dos Países Nórdicos. O Paradoxo é que, apesar de todos os investimentos governamentais orquestrados pelos engenheiros sociais, e da Noruega ter sido escolhido o País com o maior patamar em igualdade de gênero. Homens e mulheres continuam a preferir profissões consideradas como “estereótipos de gênero”. (Exemplo: número significativo de mulheres tende a enfermagem, área da educação; homens a tecnologias, construção civil). 32 Parece antiquado para os dias atuais ainda existir “atividades masculinas” e “atividades femininas” e, sem jamais desconsiderar as intersessões de interesses que existem na maioria das profissões – independente de ser homem ou mulher –, não podemos fechar os olhos ao se mencionar a predominância de interesse em áreas especificas bem definidas pertencente aos sexos. A feminização do magistério perpetuada até os dias de hoje como profissão majoritariamente feminina está aí como exemplo para nós. O que se sabe é que existem certos fatos cientificamente comprovados sobre homens e mulheres produzirem quantidades diferentes de hormônios. Particularmente, testosterona. Homens podem chegar a produzir cerca de 8 a 10 vezes mais testosterona – o nível do hormônio masculino, queas mulheres. Existem diferenças profundas no cérebro que surgem ao ter os tecidos banhados por esse hormônio. Isso não significa de maneira alguma que um sexo seja superior ou inferior ao outro por produzir uma quantidade superior ou inferior de um determinado hormônio, apenas que são diferentes em suas especificidades e essas diferenças irão emergir de alguma forma tanto interiormente quanto exteriormente. Recentemente o Conselho Nórdico de Ministros – organização de cooperação interparlamentar entre a Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca e Islândia – decidiu cortar fundos para o Instituto Nórdico de Gênero (NIKK, sigla Sueca). As pesquisas conduzidas pelo NIKK lançaram as bases para as políticas sociais e educacionais que, a partir dos anos 1970, transformaram os Países Nórdicos nas sociedades com a maior igualdade de gênero do mundo (NIKK, 2014). A decisão foi tomada depois que o documentário Norueguês chamado, Hjernevask (Lavagem cerebral) expor certa farsa nas pesquisas de gênero em 2010. O Sociólogo Harold Eia estava intrigado com o fato dos constantes esforços de engenharia social para remover os chamados “estereótipos de gênero”, mulheres ainda continuarem em sua maioria a optar por profissões tipicamente femininas e homens continuarem atraídos por carreiras típicas masculinas na Noruega. As políticas de gêneros, longe de reverterem esse quadro, acentuaram as diferenças ainda mais apesar dos investimentos governamentais (HJERNEVASK, 2014). Quando o programa em Inglês, sob o nome de Brainwash, ganhou fama no mundo inteiro, os cidadãos da Noruega começaram a se perguntar por que era necessário um investimento tão alto, – e com dinheiro dos contribuintes – para uma ideologia sem nenhum crédito científico. Como consequência, o conselho Nórdico de Ministros cortou mais da metade dos fundos que eram gastos com as pesquisas de gênero, em 2011. O NIKK chegou a ser dissolvido, migrando para a Suécia em seguida (HJERNEVASK, 2014). 33 É interessante, quanto mais livres são as pessoas na sociedade, mais abre-se oportunidade para elas fazerem e serem o que desejarem, e maior a tendência de qualquer tipo de predisposição (genética?) ser capaz de se expressar. Não seria o caso da feminização do magistério tão presente em nossos dias? Uma disposição feminina que se adapta perfeitamente a interesses pertencentes ao sexo biológico? – Apenas uma curiosidade e convite a reflexão: qual a razão das mulheres permanecerem em maioria ainda nos dias de hoje nas salas de aula, quando podem ocupar os cargos que desejarem? Mais além, sentirem- se realizadas com o magistério e a escolha profissional que optaram? Imagem 3 – A caminhada à escola (1872), Albert Anker. Albert Anker (Berna, Suíça, 1831 – 1910), Schulspaziergang – A caminhada para a escola (1872). Essa outra bela pintura do artista Suíço Albert Anker, apresenta uma jovem professora e seus alunos em caminhada para a escola. O campo estava verde, bem cuidado, ensolarado e as crianças felizes, brincando e conversando. As meninas mesclam-se aos meninos em um bailado divertido. Próximo à professora, um garotinho aponta algo na mão para ela: seria um raminho de flores ? a jovem mestra o analisa atentamente. Outra garotinha que encontra-se ao lado direito da professora parece interessada e curiosa com o apontamento do garotinho. Essa imagem pode perfeitamente ser utilizada para representar o significado da palavra pedagogo. O Pedagogo era o condutor das crianças, que ajudava a conduzir o ensino. 34 A professora conduz seus alunos para a escola e para o conhecimento. A caminhada e passeio acaba por se tornar parte do processo de aprendizagem. 2.2 Procedimentos Teóricos e Metodológicos Para investigar e analisar a presença das diretoras e professoras destacadas nesse estudo: Francisca Nolasco Fernandes, Crisan Siminéa, Ezilda Elita do Nascimento, Teresinha Pessoa Rocha e Maria Arisneide de Morais, na gestão do Instituto de Educação Presidente Kennedy, entre as décadas de 1952 e 1975, na educação norte-riograndense; busquei respaldo nos conceitos utilizados pela História Cultural. Busquei respaldo nos conceitos utilizados pela História Cultural, por se tratar de uma abordagem que abre espaço para novas perspectivas da pesquisa histórica, ampliando o campo do historiador, os objetos de análise e os tipos de fonte. Nesse enfoque, a história tem sua atenção voltada para as práticas culturais. - Mas o que é a História Cultural? Essa pergunta foi realizada em 1897 pelo historiador alemão Karl Lamprecht “Para o bem ou para o mal, a questão ainda espera uma resposta definitiva.” (BURKE, 2008, p. 9). Alguns historiadores culturais trabalham intuitivamente, como Jacob Burckhardt declarou fazer. Poucos tentam usar métodos quantitativos. Alguns descrevem seu trabalho em termos de uma procura de significado, outros focalizam as práticas e as representações. Alguns veem seu objetivo como essencialmente descritivo, ou acreditam que a história cultural, como a história política, pode e deve ser apresentada como uma narrativa. (BURKE, 2008, p. 9). A obra do Historiador francês Roger Chartier (1990) A História Cultural: entre práticas e representações composta por oito ensaios publicados entre 1982 e 1986, apresenta- se como resposta à insatisfação sentida frente a História cultural francesa entre os anos 1960 e 1970 na frança. A História costumava ser em sua maior parte militar, política e em menor extensão social e, essa “redescoberta da História Cultural” 4 só pode ser compreendida quando relacionada com a situação que a própria História enfrentava como disciplina ameaçada naquelas décadas: 4 “A História cultural não é uma descoberta ou invenção nova. Já era praticada na Alemanha com esse nome há mais de 200 anos. Antes disso havia histórias separadas da filosofia, pintura, literatura, química, linguagem e assim por diante. A partir de 1780, encontramos histórias da cultura humana ou de determinadas regiões e nações.” (BURKE, 2008, p. 15). 35 O desafio lançado à História pelas novas disciplinas assumiu diversas formas, umas estruturalistas, outras não, mas que no conjunto puseram em causa os seus objetos – desviando a atenção das hierarquias para as relações, das posições para as representações – e as suas certezas metodológicas – consideradas mal fundadas quando confrontadas com as novas exigências teóricas. Ao aplicar em áreas até então estranhas aos interesses da história econômica e social normas de cientificidade e modelos de trabalho frequentemente desfalcados das ciências exatas [...]. (CHARTIER, 1990, p. 14). A resposta dos Historiadores frente a esse novo desafio lançado à História pelas novas disciplinas foi por em prática estratégias de captação. A partir de então, surge a emergência de novos objetos no seio das questões históricas: atitudes perante a vida e a morte, crenças e comportamentos religiosos, os sistemas de parentesco e as relações familiares, os rituais, formas de sociabilidade, modalidades de funcionamento escolar. O que representava a constituição de novos territórios – novos reencontros - do historiador através da anexação dos territórios dos “outros”; tomados de empréstimo às disciplinas vizinhas/Estratégia de captação de territórios: técnicas de análise linguística e semântica, dos meios estatísticos utilizados pela sociologia, alguns modelos da antropologia (CHARTIER, 1990, p. 14). Por consequência, o retorno a uma das inspirações fundadoras dos primeiros Annales dos anos 1930 “Sob a designação de história das mentalidades ou de psicologia histórica delimitava-se um novo campo, distinto tanto da antiga história intelectual literária como da hegemônica história econômica e social.” (CHARTIER, 1990, p. 15). Essa estratégia, portanto, só podia resultar na condiçãode não pôr de lado nada do que tenha estado na base do sucesso da disciplina da História (CHARTIER, 1990, p. 15). A História das mentalidades construiu-se aplicando a novos objetos os princípios utilizados na história das economias e das sociedades. As características próprias da História Cultural, que conciliava novos domínios de investigação com a fidelidade aos postulados da História. Roger Chartier (1990) reflete sobre o ofício do historiador e mostra a emergência de novos objetos no âmbito do fazer histórico, repercutindo na entrada do pesquisador em novos territórios e, ainda, na intenção de compreender suas práticas culturais e as relações que estes estabelecem com o mundo. Avalia as formas discursivas que fundam conceitos de práticas e representações. “As práticas que visam fazer reconhecer uma identidade” exibir uma maneira própria de estar no mundo, significa simbolicamente um estatuto e uma posição (CHARTIER, 1990, p. 23). 36 Para seus conceitos de representação e apropriação: são as matrizes que geram as práticas sociais e os comportamentos que dão coesão e explicação para a realidade. Assim, não existem práticas ou estruturas que não sejam produzidas pelas representações. A representação como dando a ver uma coisa ausente, o que supõe uma distinção radical entre aquilo que representa e aquilo que é representado; por outro, a representação como exibição de uma presença, como a apresentação pública de algo ou de alguém. No primeiro sentido, a representação é instrumento de um conhecimento mediato que faz ver um objeto ausente através da sua substituição por uma ‘imagem’ capaz de o reconstituir em memória e de o figurar tal como ele é. (CHARTIER, 1990, p. 20). O relacionamento entre uma “imagem presente e de um objeto ausente.” (CHARTIER, 1990) é o que busco com essa pesquisa; construir a representação das professoras e diretoras analisadas através desse estudo. Representar suas atuações educativas no Instituto de Educação Presidente Kennedy através da historiografia. Resta-me a questão histórica fundamental “[...] a da viabilidade e da pluralidade de compreensões (ou incompreensões) das representações.” (CHARTIER, 1990, p. 21). Visto que é a minha interpretação sobre suas atuações educativas através dos documentos remanescentes. Desta forma, as gestões administrativas das professoras e diretoras foram analisadas através dos vestígios e documentos de época remanescentes no Instituto de Educação Presidente Kennedy e arquivos, espaço que estivera sob seus comandos. Na tentativa de compreender estas marcas, recorro a esses documentos e acervos disponíveis que permitiram, em parte, a configuração da época a partir dos fragmentos encontrados. Sobre as práticas Chartier (1990) assevera que: Não existem objetos históricos fora das práticas, móveis que os constituem, e por isso não há zonas de discurso ou de realidade definidas de uma vez por todas, delimitadas de maneira fixa e detectáveis em cada situação histórica: ‘as coisas não são mais do que objetivações de práticas determinadas, cujas determinações é necessário trazer a luz do dia’. (CHARTIER, 1990, p. 78). O pensamento de Chartier (1990) evidencia a importância do estudo sobre as práticas para a compreensão de uma realidade social numa perspectiva histórica. Essa realidade seria analisada através das suas representações, sendo as mesmas consideradas como realidades de múltiplos sentidos. Como um palco de teatro na História “O mundo como representação” (CHARTIER, 1990, p. 15). 37 Fazendo uso do conceito de representação postulado por este autor permito-me entender a atuação das referidas professoras/diretoras como a representação de uma dada realidade onde elas atuaram. No caso, seus papéis desempenhados enquanto gestoras no espaço do Instituto de Educação Presidente Kennedy entre os anos de 1952 a 1975. Como exerceram suas funções administrativas. Esse modo de fazer história mostrou a possibilidade de construir a análise do objeto de estudo partindo da apreciação da atuação dessas mulheres e das contribuições educacionais dessas Diretoras no espaço de funcionamento da Instituição. Fazendo uso das leituras em Morais (1996), compreendi que nessa perspectiva, entende-se que os eventos, ou tudo o que se refira a atividade humana são considerados objetos e análise histórica. Pequenos gestos, os sentimentos, os valores, a mulher, a infância, a morte, a loucura, o corpo, a festa, a fotografia, a pintura, maneiras de ler, maneiras de escrever, por exemplo, são práticas culturais que não estão perdidas para a história. (MORAIS, 1996, p. 15). No campo da História da Educação os objetos e as fontes são alargados e diversificados. Essa tendência historiográfica provocou uma inovação na seleção dos objetos de pesquisa e na forma de abordá-los. Temas como a cultura e o cotidiano escolares, a organização e o funcionamento interno das escolas, a construção do conhecimento, o currículo, as disciplinas, o livro, a leitura, as professoras e diretoras tem sido crescentemente estudadas e valorizadas. (LOPES; GALVÃO, 2001) Muito do que ocorreu no mundo da educação ainda é pouco conhecido. Sob o enfoque das instituições educativas destacam-se os trabalhos de Gatti Júnior (2002; 2007) e Magalhães (2004). Ao refletir sobre a pesquisa historiográfica que contempla instituições educativas Gatti Júnior assinala que: [...] a história das instituições educacionais almejam dar conta dos vários atores envolvidos no processo educativo, investigando aquilo que se passa no interior das escolas, gerando um conhecimento mais aprofundado destes espaços sociais destinados aos processos de ensino e aprendizagem. (GATTI JÚNIOR, 2002, p. 29). Entendo que os “atores envolvidos no processo educativo” conforme assinala Gatti Júnior (2002), são representados pelas professoras estudadas. Nessa perspectiva, torna-se indispensável analisar o cotidiano do espaço materializado no Instituto Educacional Presidente Kennedy. Analisar a atuação das professoras/diretoras configurando o seu espaço 38 de ação é reconstituir, em parte, suas trajetórias profissionais vivenciadas na referida instituição de formação de professores em sua primeira década de funcionamento. Com esse objetivo, as mais diversas fontes e acervos foram indispensáveis, a exemplo: arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy, arquivo público do Estado do Rio Grande do Norte e os acervos pessoais disponíveis das diretoras analisadas. Ao realizar esse exercício, busquei fundamento no pensamento de Magalhães, que atenta sobre as tipologias que essas fontes assumem. Enquanto objeto epistêmico, as práticas interpretam a partir de uma hermenêutica e estão informadas com base em artefatos, registros verbais e escritos; é o registro escrito que as dá a conhecer enquanto processo e construção. A informação sobre as práticas é, por conseqüência, de natureza discursiva, arquivística e museológica. (MAGALHÃES, 2004, p. 103). Procurei rastrear as mais diversas fontes nos mais variados acervos, uma vez que: Uma história que aflorou dos objetos guardados em caixas de papelão, baús de enxovais e arcas de madeira: os papéis que contavam de nascimentos e mortes, as cartas de noivos, maridos e filhos nas guerras em lugares distantes, listas de tarefas domésticas, diários que registravam fatos corriqueiros ou somente sonhos femininos, cardápios de jantares, escritos irregulares com caligrafias infantis em cadernos escolares dos filhos, cartões, diários íntimos; enfim, um sem número de pequenas coisas representativa do tempo que se viveu, da vida que se levou e de todo um universo feminino entre a poeira dos objetos guardados. (ALMEIDA, 1998, p. 46) Através do estudo do passado está a compreensão dos problemas peculiares ao nosso tempo, no passado encontra-se a chave para a compreensãoda contemporaneidade. O estudo acerca de professoras, escritoras, diretoras que contribuíram para a formação de nossa sociedade letrada permite o acesso aos modos de pensar desse tempo e dessa forma emerge a História da educação no Estado do Rio Grande do Norte. Após a coleta do material, coloquei-me a seguinte questão: O que fazer com todo esse material coletado? Como entender o todo a partir de partes? Como escrever essa história? Com o entendimento em Eliane Marta Teixeira Lopes (1994): para apreender o todo, o real, que já nos é dado em pedaços, seja pela seleção feita pelo próprio passado, seja pela nossa capacidade de apreensão e pela nossa subjetividade, é preciso fragmentá-lo ainda mais através de um metódico e consciente trabalho de pensamento e organização dos documentos. Dessa delicada e laboriosa operação é que podem nos surgir as categorias (LOPES, 1994, p. 21) 39 Sobre a categorização das fontes segundo Lopes e Galvão (2001), categorizar é a tarefa de organizar o material coletado, a partir de perguntas, para dar inteligibilidade ao problema posto. Resta a sensibilidade, a disposição e a disponibilidade para: comparando, analisando e interpretando, descobrir os quês e porquês de outras épocas que a um só tempo parecem tão próximos e tão distantes. Formular questionamentos, realizar perguntas aos documentos, “conversar” com as fontes, buscar entendê-las: como atuaram essas diretoras no Instituto de Educação? Como realizavam essa gestão? Por que da forma que realizaram? Esse modo de fazer história mostrou a possibilidade de construir a análise do objeto de estudo, esclarecendo as maneiras e as possibilidades de escrever a trajetória e as contribuições dessas mulheres no cenário educacional e sua participação na historiografia norte-rio-grandense “[...] tanto as fontes, quanto a própria história, são uma construção, uma representação do passado e jamais o passado, como alguns creem e até querem nos fazer crer.” (LOPES, 1994, p. 20). A história é uma produção, construção historiográfica sobre o real – sobre o acontecido que está no passado. Foram consultados: Arquivo público do estado, Arquivo do Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy (atual nomenclatura da Instituição), os acervos particulares disponíveis das professoras e diretoras Crisan Siminéa e Maria Arisneide de Morais; Entrevistas com a ex aluna e professora do Jardim de Infância Modelo Maria Coeli e a diretora Maria Arisneide de Morais: Ir às fontes; vasculhar os arquivos. Começa aquilo que é sonho e que é pesadelo. Fantasias e medos, volúpias acadêmicas que se repetem cotidianamente: ‘aquele’ livro de atas, um livro de ocorrências, registro de faltas e punições, diários íntimos, fotografias, quero tudo... não terei nada. Conseguirei ao menos compor um corpus que dê possibilidade de respostas ao meu problema? (LOPES, 1994, p. 20). É nesse movimento que a pesquisa ganha corpo: indo aos arquivos, fazendo levantamento das fontes, interrogando os documentos, compreendendo que os documentos foram escritos em uma determinada época/momento, abrindo sem reservas a sensibilidade para ‘ler’ as marcas dos possíveis de serem ditos naquele momento. As pesquisadoras do universo feminino também comprovaram que, por uma compreensível necessidade de manter sua intimidade ao abrigo de indiscrições, pois para isso sempre foram preparadas, essas mulheres costumavam, muitas vezes, proceder a uma espécie de purificação e 40 eliminação dos traços de sua existência, lançando literalmente ao fogo os tesouros amarelecidos guardados ao longo dos anos, numa maneira estoica de ocultar sua vida. (ALMEIDA, 1998, p. 46). Lopes e Galvão (2001), também chamam atenção para a importância do cruzamento dos registros/documentos escritos com as fontes orais. As entrevistas – no caso de muitas pesquisas em que os testemunhos escritos são raros – possibilitam a visualização de rostos e a escuta das vozes. Sobre fontes orais: [...] Entendo por ‘história oral’ a interpretação da história e das mutáveis sociedades e culturas através da escuta das pessoas e do registro de suas lembranças e experiências. Não creio que se possa avançar muito tentando definir história oral de modo estreito, como um processo de habilidades com regras fixas, ou como uma subdisciplina separada. (THOMPSON, 2000, p. 1). O uso da História Oral como fonte e metodologia de pesquisa vem contribuindo significativamente para a realização de trabalhos na área de História da educação. Para tanto, foi essencial realizar levantamento de dados (documentos) para em seguida elaborar o roteiro das entrevistas. Através da utilização do recurso da oralidade, é possível a transmissão de conhecimento da memória humana e o contato direto com a fonte. Através da História oral pode-se chegar a uma ponte de aproximações e relações entre os documentos de época e a memória dos que vivenciaram os acontecimentos tão caros a escrita da História. Retomando as visitas, no Arquivo Público do Estado fui surpreendida com o descaso e a falta de cuidado com a documentação histórica e pública. Natal havia passado por um período de fortes chuvas em 2014 e o galpão onde o arquivo está localizado e em funcionamento encontrava-se em situação precária. Havia goteiras por toda parte, o chão estava encharcado de água e o acervo que naquele local se conserva certamente molhado. Apesar das más condições, tive acesso ao Resumo das atividades da Secretaria de Educação e Cultura de 1964 e 1965 (RIO GRANDE DO NORTE, 1964-1965), com informações a respeito da posição em que encontrava-se a secretaria de educação e cultura no referido ano, em relação aos trabalhos realizados e, aos que estavam em andamento. Confirmando os trabalhos realizados através do financiamento da Aliança para o Progresso em Natal no campo educacional, entre os ganhos a construção do Instituto de Educação Presidente Kennedy. 41 Encontrei algumas fotografias, entre elas a do complexo do Atheneu Norte- Riograndense na década de 1950 e do Instituto de Educação construído próximo a praça cívica para abrigar a Escola Normal de Natal, imagem provável do final da década de 1950. Sobre os jornais que foram tentadas consultas, estavam em condições precárias: rasgados e empoeirados. “Os historiadores da educação têm se voltado, sobretudo, para os impressos que, pertencendo a esses gêneros, circulavam especificamente junto a um público escolar.” (LOPES; GALVÃO, 2001, p. 87). O Instituto de Educação Presidente Kennedy, tornou-se o principal arquivo de acesso a documentação para essa pesquisa. Tive acesso ao Registro de acontecimentos importantes 1958. Nesse Livro de Registro de acontecimentos importantes do ano de 1958, destinado ao diário de movimento da Escola Normal de Natal, consta que durante os dias 21, 22 e 23 do mês de Maio, foi realizado o primeiro círculo de estudos para professores da Escola Normal. Esse círculo de estudo contou com a participação de diversos professores, entre eles Eny Caldeiras – assistente técnico do Instituto Nacional de estudos Pedagógicos (INEP) e a professora Lia Campos – Diretora do Centro de Estudos e Pesquisas Educacionais (CEPE). “Esse órgão da Secretaria de Educação tinha como objetivo a organização de toda a matriz curricular dos cursos, assim como a indicação do material didático e das atividades que deveriam ser seguidos pelos professores.” (VIEIRA, 2005, p. 52). A partir desse documento, percebi como estava configurada as transformações pelas quais a Escola Normal de Natal estava passando no referido período. Sobre Lia Campos: Inicialmente convidada para ministrar um primeiro curso de aperfeiçoamento para professores leigos durante o mês de janeiro de 1957, Lia Campos veio a Natal e permaneceu aqui por aproximadamente um mês. Nesse mês, ela fez uma sondagem da situação da educação do Estadoatravés do contato com professores. Assim, a professora objetivou, no I Curso de Aperfeiçoamento para Professores do Rio Grande do Norte, juntamente com as professoras Maria do Carmo Vieira e Lucilda Jordão, ambas representantes da Secretaria de Educação de Pernambuco, a ampliação dos conhecimentos didáticos dos componentes do magistério primário norte- riograndense. (VIEIRA, 2005, p. 50). Fotografei diversos livros de registros contendo informações a respeito da História da Instituição, a exemplos do: Livros de Atas; Livros de pontos dos professores do Instituto de Educação Presidente Kennedy (RIO GRANDE DO NORTE, 1968); onde consta a presença da então diretora que trago na pesquisa e professora de História da educação, Didática e Sociologia Educacional Maria Arisneide de Morais datado de 1968; o Plano curricular e 42 carga horária por série – do ano: 1973 (RIO GRANDE DO NORTE, 1973), sob a Direção de Maria Arisneide onde constam as disciplinas ofertadas no curso da Escola Normal: português, administração e estatística, sociologia, filosofia e história da educação, psicologia da aprendizagem, psicologia do desenvolvimento, biologia, educação artística, educação moral e cívica, filosofia, prática de ensino, metodologia da linguagem, metodologia da matemática, metodologia de estudos sociais, metodologia das ciências, educação física; e os nomes de todos os professores que compunham o corpo docente no referido ano que compõe o período de sua gestão. Farta documentação pessoal da ex diretora Crisan Siminéa, que está preservada e guardada em uma caixa na biblioteca do Instituto de educação Presidente Kennedy e em acordo com informações dos funcionários: doação familiar. Constam no acervo: post-card de viagens, fotografias de viagens, fotografias com alunas da instituição, em prováveis momentos de intervalo entre as aulas, formaturas das Normalistas e formaturas da própria diretora. Alguns trabalhos apresentados pela professora e diretora Crisan Siminéa, a exemplos: A comunicação e o ensino da língua em Seminário no curso de graduação em supervisão escolar, 1975, na disciplina Metodologia do ensino de 1º e 2º graus, área de Comunicação e Expressão; Trabalho final apresentado ao Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo do curso de montagem e literatura sob o título Montagem nas Artes; Trabalho final também produzido na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo pelo Programa de Pós graduação em Comunicação e Semiótica do curso Semiótica da Literatura I: A posição de Gregório de Matos e Guerra no barroco Brasileiro; e a sua dissertação de Mestrado também pela PUC/SP ano de 1981 sob o título O ensino da Literatura e a Leitura do texto Literário em Comunicação e Semiótica. Diplomas, Certificados e títulos da ex diretora: pela contribuição que deu no período à melhoria das condições de vida do povo do Rio Grande do Norte no campo educacional no ano de 1996 – Educador do ano Crisan Siminéa; Certificado que coordenou o curso de treinamento e atualização do docente do Ensino de 1º grau – 3º a 4º série, na: área de Comunicação e Expressão do Estado do RN, durante o período de abril a junho de 1983; Diploma do curso de Extensão Universitária 1º Semana Nacional dos Estudantes de Filosofia em 12 de Outubro de 1958. 43 Curriculum Vitae da referida professora e diretora contendo informações referentes a seu histórico escolar e acadêmico: cursos, atividades docentes, atividades administrativas e de planejamento, palestras e conferências conferidas e seus diplomas de mérito e condecorações. Declarações, Homenagens e Biografias escritas por: Ivanilda Araújo de Carvalho, professora Haidée Simões em 19/05/1995 e Dalva Cunha também em 1995 – que forneceram preciosas informações a respeito da vida e carreira profissional da professora Crisan Siminéa e sua atuação no espaço do Instituto de Educação Presidente Kennedy. Significativo discurso proferido à frente do Instituto de Educação enquanto Diretora para as alunas, intitulado – Palavras de Crisan – a provável data está em torno da década de 1969/1970, onde podemos perceber seus desejos e anseios para as futuras normalistas. Palavras de incentivo para que sejam dedicadas, assíduas e pontuais, pois não há educação sem responsabilidade e comprometimento. Localizei álbuns de formatura do jardim de infância modelo sob a gestão da professora e diretora Teresinha Pessoa Rocha, contendo vestígios de sua passagem pela direção entre as décadas de 1960 e 1970 no jardim de infância. Esses álbuns encontram-se no acervo da biblioteca do Instituto Kennedy. Consta no Livro de posse, desligamento e transferências dos funcionários da escola de aplicação (RIO GRANDE DO NORTE, 1963), a informação que a professora Ezilda Elita do Nascimento foi Diretora da Escola de Aplicação, entre os anos de 1963 – a 15 de março de 1968 quando o governo do Estado resolve aposentar a seu pedido. Com esse documento o tempo da sua gestão foi identificado com precisão. Esses documentos registram partes do cotidiano da referida instituição e constituem importantes elementos para a análise e escrita sobre a atuação das diretoras no referido Instituto de Educação durante o período investigado. Estabeleci contato com a ex Diretora Maria Arisneide de Morais, que concedeu entrevista, documentos e informações preciosas que enriqueceram a escrita do trabalho. Realçando as suas atividades enquanto ex aluna, professora, coordenadora e diretora da Escola Normal de Natal e do Instituto de Educação Presidente Kennedy. A diretora Maria Arisneide de Morais, também disponibilizou o seu acervo pessoal com fontes documentais preservadas, a exemplo: da Declaração que lecionou as disciplinas de História da Educação, Didática e Sociologia Educacional entre os anos de 1966 à 1969, coincidindo com o documentado encontrada no arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy que também constava essa informação; O Atestado que durante os anos 1969 e 1970 44 desempenhou a função de Coordenadora de Práticas de Ensino e a Declaração emitida pelo Instituto de Educação Presidente Kennedy comprovando os cinco anos de Direção à frente da referida Instituição entre os anos (1970-1975), assinado por Crisan Siminéa, que retorna a direção geral após a saída de Maria Arisneide de Morais. Diante de farta documentação atesta-se a passagem da professora por todas as Instancias da Instituição. Também foram disponibilizados pela referida professora e diretora o seu Diploma de Professor primário pela Escola Normal de Natal em 9 de dezembro de 1961 e o seu Diploma pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras em Natal, Licenciatura em Pedagogia em 20 de Fevereiro de 1968. Fotografias enquanto estudante e professora da Escola Normal de Natal – uma imagem vale mais que mil palavras. Essa frase popular é utilizada para transmitir a ideia do poder da comunicação através das imagens. O significado está relacionado com a facilidade em compreender determinada situação a partir do uso de recursos visuais. Portanto, a coleta de fotografias para a realização dessa pesquisa tornou-se indispensável para a composição do quadro imagético da instituição. Contei ainda com o apoio e a disponibilidade na coleta de informações – entrevista – concedida pela ex aluna da Instituição e professora primaria Maria Coeli, atualmente funcionária na biblioteca do Instituto de Educação Presidente Kennedy. Maria Coeli foi ex aluna do jardim de infância, ex aluna da escola de aplicação e ex professora do jardim de infância modelo da Instituição. Cedendo documentos, registros fotográficos e informações sobre sua época como estudante e como professora. Entre os documentos disponibilizados por Maria Coeli, constam: Diplomas do jardim de infância modelo – ano de 1960 – sob a diretoria de TeresinhaPessoa Rocha; Diploma de Habilitação do Curso Primário emitido pelo Jardim de Infância; O Certificado do ensino primário pela escola de aplicação emitido pela diretora Ezilda Elita do Nascimento em 30 de novembro de 1966. Fotografias em momentos comemorativos da sua educação infantil. A linguagem oral, usada pelo narrador e captada pelo entrevistador na prática de ouvir depoimentos representados por lembranças recuperadas pela memória, tem sido uma das escolhas metodológicas da História oral e social e vem privilegiando um lado subjetivo e afetivo do ser humano que é o desejo de contar histórias, de dar depoimentos sobre sua vida, de relembrar o passado e os anos vividos como se, por esse procedimento, o tempo passado pudesse, de alguma forma, novamente estar presente. (ALMEIDA, 1998, p. 51) 45 No acervo do Grupo de Pesquisa: História da Educação, Literatura e Gênero/UFRN, consultei dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado que ajudaram a reconstituir aspectos histórico-educacionais relativos ao percurso profissional dessas diretoras. Destaco as Teses de Francinaide de Lima Silva (2013) – A Escola Normal de Natal (Rio Grande do Norte, 1908-1971) e Lucienne Aquino (2007) – De Escola Normal a Instituto de Educação Presidente Kennedy (1950-1965): configurações, limites e possibilidades da formação docente, por, a partir delas, compreender a História do contexto de criação da Escola Normal de Natal e seus desdobramentos até o Instituto de Educação Presidente Kennedy. A pesquisa de Aquino (2007), intitulada De Escola Normal de Natal a Instituto de Educação Presidente Kennedy (1950-1965): configurações, limites e possibilidades da formação docente, narra a trajetória da Escola Normal de Natal realçando a sua transformação no Instituto de Educação Presidente Kennedy. Ressaltando os conflitos ao longo das décadas em torno da ausência de espaço físico para o funcionamento adequado da Escola, e as mudanças do saber veiculado por meio da renovação do currículo e de sua prática pedagógica. O trabalho de Silva (2013), A Escola Normal de Natal (Rio Grande do Norte, 1908- 1971), analisa a história da formação de professores em Natal, Rio Grande do Norte entre 1908 e 1971 investigando o percurso da Escola Normal de Natal na preparação de professores primários. Segundo a autora, a Escola Normal de Natal enquanto locus da formação de professores constituiu uma forma escolar própria, a partir da produção e veiculação de saberes específicos e de modos de fazer peculiares. Saberes os quais deram suporte ao preparo profissional para o magistério e que estavam em conformidade com o movimento pedagógico mundial: ideias, discussões e reflexões dos pedagogos e dirigentes educacionais. Pesquisei ainda no livro Chicuta Nolasco Fernandes, Intelectual de mérito (MORAIS, 2006) que forneceu informações sobre a atuação da Diretora Francisca Nolasco Fernandes. A Leitura do livro menina feia e amarelinha (FERNANDES, 1973), escrito por Dona Francisca Nolasco Fernandes e dedicado as suas alunas da Escola Doméstica e da Escola Normal é uma fonte primária riquíssima de informações, pois são as memórias deixadas pela referida professora de seu próprio punho, que de fato contribuíram significativamente para a escrita dessa dissertação. “Eu adorava ensinar. Queria bem as minhas alunas, sentia-me realizada.” (FERNANDES, 1973, p. 96). Assim é Dona Francisca Nolasco Fernandes em suas 46 memórias, realizada na profissão, mãe e esposa presente e sempre agradecida a vida por tudo que fez e obteve. Estes documentos permitiram o conhecimento das atividades desenvolvidas nesse estabelecimento de ensino, sob a coordenação das referidas diretoras, fornecendo também informações relativas a vida das mencionadas educadoras. 47 3 HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES ESCOLARES E O INSTITUTO DE EDUCAÇÃO PRESIDENTE KENNEDY 3.1 História das Instituições Escolares A História das Instituições educativas tem tomado fôlego no contexto dos estudos de história da educação no Brasil, inserindo-se num processo de renovação no campo educacional e constituindo-se como um novo campo temático da historiografia da educação brasileira. “O que convencionamos chamar de história das instituições educacionais tem ocupado cada vez mais espaço no cenário da pesquisa histórico-educacional.” (GATTI JUNIOR 2002, p. 20-21). [...] a fertilidade de novas abordagens e temáticas apresentadas nas últimas décadas permite afirmar que, mesmo havendo diferenças metodológicas significativas na historiografia atual, elas assinalam, antes de tudo, riqueza interpretativa e pluralidade epistemológica. (GATTI JUNIOR, 2002, p. 5). A abordagem dos processos de formação e de evolução das instituições educativas constitui um domínio do conhecimento historiográfico em renovação no quadro da História da Educação. Uma renovação onde novas formas de questionar-se cruzam com um alargamento das problemáticas e com uma sensibilidade acrescida à diversidade dos contextos e à especificidade dos modelos e práticas educativas. Uma abordagem que permita a construção de um processo histórico que confira uma identidade às instituições educativas (MAGALHÃES, 1996, p. 1). Dessa forma, percebe-se que a história das instituições educacionais almeja dar conta dos vários atores envolvidos no processo educativo, o que passa no interior das escolas, os processos de ensino e aprendizagem, os elementos que conferem identidade à instituição educacional – o que confere sentido único. Dentro dessa perspectiva insiro o estudo referente as Diretoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy e do espaço da Instituição onde elas atuaram. Essa construção faz parte de uma “[...] história construída da(s) memória(s) para o arquivo e do arquivo para a memória” (MAGALHÃES, 1998, p. 61). Compreender e explicar a existência histórica de uma instituição educativa é, sem deixar de integrá-la na realidade mais ampla que é o sistema educativo, contextualizá-la, implicando-a no quadro de evolução 48 de uma comunidade e de uma região, é por fim sistematizar e (re)escrever-lhe o itinerário de vida na sua multidimensionalidade, conferindo um sentido histórico (MAGALHÃES, 1996, p. 2). Para elaborar esse sentido histórico, é interessante o entendimento referente as categorias de análise que possibilitam o entendimento do material que será analisado na pesquisa e escrita do trabalho. As mais utilizadas na História das Instituições Educacionais são em acordo com Magalhães (1998): Quadro 1 – Categorias de análise na história das Instituições escolares. Categorias de análise - História das Instituições escolares - Espaço (local/lugar, edifício, topografia) - Tempo (calendário, horário, agenda antropológica) - Currículo (conjunto das matérias lecionadas, métodos, tempos, etc.) - Modelo Pedagógico - Tempo (lugar) - Professores (profissionalização, formação, organização, história de vida, itinerários) - Manuais Escolares - Públicos - Dimensões (níveis de apropriação, escolarização, alfabetização) Fonte: Magalhães (1998). Desse modo, percebe-se também, que a perspectiva de análise da História das Instituições Educacionais almeja dar conta dos vários sujeitos envolvidos no processo educativo, investigando aquilo que se passa no interior das escolas, gerando um conhecimento mais aprofundado destes espaços sociais destinados aos processos de ensino e de aprendizagem, por meio da busca da apreensão daqueles elementos que conferem identidade à instituição educacional, ou seja, daquilo que lhe confere um sentido único no cenário social do qual fez ou ainda faz parte, mesmo que ela tenha se transformado no decorrer dos tempos (GATTI JÚNIOR, 2002). Sujeitos esses, condensados nas figuras das diretoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy trazidas nessa pesquisa: Francisca Nolasco Fernandes, CrisanSiminéa, Ezilda Elita do Nascimento, Teresinha Pessoa Rocha e Maria Arisneide de Morais. 49 3.2 Da criação da Escola Normal A História da Escola Normal de Natal tem o seu início no final do século XIX com três tentativas fracassadas de inauguração. Primeiro em 1874, instala-se a Escola Normal de Instrução Primária num salão do Atheneu, todavia, os registros também dão em 1879 a inauguração da escola no mesmo prédio. Possivelmente funcionava antes em prédio adaptado, tendo a sede própria em 1879. Até que em 1890, a Lei nº 13, criou uma Escola Normal, no Atheneu Norte-Riograndense, mas esta não foi provida, sequer (FERNANDES, 1973, p. 104). Da Reforma da Instrução Pública, em 1908, o Governador Alberto Maranhão expede o Decreto nº 178, de 29 de abril de 1908, e entre outras providencias, constata, do art. 5º o seguinte: “[...] criando uma Escola Normal para o preparo do Magistério de ambos os sexos, anexo ao Atheneu Norte-Riograndense com as suas cadeiras provindas mediante contrato e a sua direção confiada a um dos lentes do Atheneu” Foi o Dr. Francisco Pinto de Abreu, então diretor da Instrução (FERNANDES, 1973, p. 104). Imagem 4 – Atheneu Norte-Riograndense. (Prédio à esquerda) Inaugurada a 13 de maio de 1908, a Escola Normal de Natal alojou-se inicialmente como anexo em um dos salões do Colégio Atheneu Norte-Riograndense, localizado à época na Avenida Junqueira Aires. (FERNANDES, 1973, p. 104). Funcionou nesse local por pouco tempo e logo começam as migrações. Fonte: Siqueira (2017). https://tokdehistoria.files.wordpress.com/2013/10/alfa-320.jpg 50 Quadro dos formandos da primeira turma da Escola Normal de Natal. A cerimônia de formatura dessa turma foi presidida pelo Governador Alberto Maranhão: Quadro 2 – Relação de alunos formados pela primeira turma da Escola Normal de Natal (1910). Nº Nome dos alunos formados 01 Luiz Antônio dos Santos Lima 02 Severino Bezerra de Melo 03 Manuel Tavares Guerreiro 04 Anfilóquio Carlos Soares Câmara 05 Francisco Ivo Cavalcanti 06 José Rodrigues Filho 07 Luís Garcia Soares de Araújo 08 Ecila Pegado Cortez 09 Judite de Castro Barbosa 10 Aurea Fernandes Barros 11 Olda Marinho 12 Stela Vesper Ferreira Gonçalves 13 Beatriz Cortez 14 Arcelina Fernandes 15 Guiomar de França 16 Anita de Oliveira 17 Francisca Soares da Câmara 18 Maria Natália da Fonseca 19 Maria Abigail Mendonça 20 Maria das Graças Pio 21 Clara Fagundes 22 Maria da Conceição Fagundes 23 Maria Julieta de Oliveira 24 Maria Belém Câmara 25 Maria do Carmo Navarro 26 Helena Botelho 27 Josefa Botelho Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy. 51 Essa turma de diplomados prestou solenemente o juramente constante de Lei – “Prometo pela minha honra dedicar-me ao magistério e bem servir à causa da instrução e da educação da mocidade, com a superior convicção de que, desse modo, estarei contribuindo para o engrandecimento cívico do Rio Grande do Norte e do Brasil.” (FERNANDES, 1973, p. 109). Antigamente, o professor diplomava-se e ia ensinar nos lugares mais longínquos – Patu, Pau dos Ferros, São Miguel e daí começava a sua ascenção. Terceira classe – um ano inteiro sofrendo ou provando o seu amor à profissão. Segunda classe – subia, para as ‘vilas dos confins’ ou cidadezinha que não figurava no mapa. Primeira classe – era cidade classificada, com curso complementar ou mesmo na Capital, puxando pela competência e um padrinho, que isto sempre funcionou. Ainda havia, para os menos afortunados ou menos capazes uma categoria. Rudimentar – que atuava nas povoações. (FERNANDES, 1973, p. 108) Quadro 3 – Corpo Docente que formou a primeira turma da Escola Normal de Natal (1908). Corpo Docente Matéria 1 – Ezequiel Benigno de Vasconcelos (?) 2 – João Tibúrcio Português 3 – Pe. Calazans (?) 4 – Manuel Garcia - Matemática 5 – Teódulo Câmara Geografia e História 6 – José Gervásio (?) 7 – Clotilde Oliveira Trabalhos manuais (?) 8 – Otávio Arantes (?) 9 – Nestor Lima Diretor (?) Fonte: Fernandes (1973, p. 104). O corpo docente composto pelos nove professores destacados no quadro anterior diplomou a primeira turma da Escola Normal de Natal em (1908 – 1910). Foram 27 alunos que se diplomaram na primeira turma da Escola, dos quase 60 candidatos que se submeteram a exame de admissão e dos 40 que foram aprovados, mas não chegaram a concluir o curso por vários diferentes motivos (FERNANDES, 1973, p. 105). 52 Após a diplomação da primeira turma da Escola Normal de Natal em 1910, longo período de migrações e mudanças de espaço sucederam-se. Dona Francisca Nolasco Fernandes menciona essa peregrinação junto às alunas da Escola Normal de Natal como “andorinhas de verão”, em seu livro menina feia e amarelinha: da Escola Normal ou Grupo Modelo, – hoje Faculdade de Direito – na Ribeira, ao Instituto de Educação – hoje Colégio Estadual do Atheneu Norte-rio-grandense, na rua Potengi (FERNANDES, 1973, p. 116). Peregrinação essa que não encerra por aí e perdura até a Instalação definitiva no Instituto de Educação Presidente Kennedy em 1965. Segue imagem da turma Diplomada na Escola Normal do Rio Grande do Norte, no ano de 1911. Pela data, a turma provavelmente funcionava nas instalações como anexo em um dos salões do Atheneu Norte-Riograndense, localizado à época na Avenida Junqueira Aires e consta de nomes ilustres que marcaram época no cenário educacional no Estado. Imagem 5 – Turma da Escola Normal do Rio Grande do Norte, Diplomada em 1911. Fonte: Acervo pessoal Anderson Tavares de Lyra e Instituto Tavares de Lyra. 53 Constam na referida turma Diplomada: O Diretor Nestor Lima, Professor Theodulo Câmara de Geografia e História, Professor Ab. Barroso de Francês, Professor Manoel Garcia de Matemática, Professora Ecila Cortez de trabalhos manuais, Dr. Mario Lyra professor de Química e Física, Tertuliano Pinheiro professor em Inglês, Professor Thomaz Babini de Música e o professor de Português e Paraninfo João Tibúrcio. Foram diplomados seis alunos: dois homens e quatro mulheres. Elyseu Vianna da Paraíba, F. Gonzaga Galvão de Currais Novos, Celina Guimarães de Natal, Stellina Mello de Natal, Marcia Emiliana de Canguaretama e Maria Carolina de Assú. Essa é a turma diplomada pela Escola Normal do Rio Grande do Norte em 1911(?). Através de tantos nomes ilustres, constatamos que: “O magistério primário potiguar sempre honrou o seu diploma e tudo fez, através de numerosos elementos de turmas subsequentes para dignificar a sua missão [...].” (FERNANDES, 1973, p. 116) 3.3 Da criação do Instituto de Educação Em 12 de dezembro de 1953, foi instituída a Lei nº 1.038, que criou o Instituto de Educação do Rio Grande do Norte, para o qual havia sido edificado o prédio em forma de X situado no bairro de Petrópolis. Segundo Francisca Nolasco Fernandes, como o chamavam Instituto de Educação à época da construção, imaginava-se ser destinado exclusivamente à instalação de um Instituto de Educação que ainda não se tinha (FERNANDES, 1973, p. 129) Dentro desse parâmetro, foi inaugurado, na cidade de Natal o Instituto de Educação, no dia 11 de março de 1954, pelo Governo Sylvio Piza Pedroza. A cerimônia tomou as páginas da imprensa local que alardeava quão pomposa seria a solenidade de inauguração, que contou com a presença de alunos e alunas, intelectuais, educadores e educadoras, autoridades e políticos de reconhecimento local e nacional, destacando-se o comparecimento de personalidades como o norte-rio-grandense João Café Filho, vice-presidente da República, o professor Anísio Teixeira, representante do Ministério da Educação, autoridades políticas e administrativas dos Estados de Pernambuco, Ceará e da Paraíba, além de outras civis, militares e eclesiásticas do nosso Estado. (INAUGURAÇÃO...,1954 apud AQUINO, 2007, p.85). O Instituto ficou pronto em 1954, “fez-se a mudança, muita festa e muito tudo. Fiz um discurso de agradecimento ao Governador, em nome da Escola Normal, assim como dr. João Medeiros o fez também, em nome do Atheneu.” (FERNANDES, 1973, p. 130). 54 Imagem 6 – Fotografia da construção do Instituto de Educação (Década de 1950). Fonte: Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte (2014). Para Francisca Nolasco Fernandes, esse estabelecimento de ensino após sua conclusão deveria destinar-se apenas à instalação do Instituto de Educação (Escola Normal). Todavia, o Colégio Atheneu Norte-riograndense, também mudou-se para o novo edifício absorvendo quase todo o espaço físico. “Como acomodar todas essas coisas com que sonhávamos e mais 600 alunos do Atheneu?” (MORAIS, 2006, p. 76). Impossível acomodar o Instituto de Educação juntamente ao Atheneu em um mesmo espaço físico sem uma das Instituições saírem prejudicadas. No caso, a prejudicada foi a Escola Normal de Natal: “Onde se viu um Instituto onde apenas funcionou a Escola Normal?” Indagava a Mestra. (MORAIS, 2006, p. 76) Até o momento, nem a Escola Normal e nem o Instituto de Educação havia adquirido seu prédio próprio e espaço adequado que comportasse todos os anseios que necessitava a Instituição. A Escola Normal absorveu uma perna do X, exatamente onde não havia sequer lavatório. Os problemas enfrentados eram muitos. As tensões, as conquistas para fazer valer os direitos da referida Escola, que era uma hóspede indesejável nas dependências do Ateneu. Mesmo assim, a Mestra organizava festivais, sessões solenes comemorativas das datas escolares e utilizava o auditório do prédio, espaço que não dispunha na Ribeira (MORAIS, 2006, p. 76) 55 Imagem 7 – Dona Francisca Nolasco Fernandes com alunas normalistas em frente ao Instituto de Educação (Década de 1950). Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy. Exatas 21 alunas posam à frente do Instituto de Educação/Atheneu Norte- Riograndense, – bem postas – com a então Diretora da Escola Normal de Natal: Francisca Nolasco Fernandes. O busto de bronze que aparece na fotografia e encontra-se na entrada da sede do colégio Atheneu, até os dias atuais, é uma homenagem ao Professor João Tibúrcio; que entre outras atividades exerceu e dirigiu o colégio entre 1892 e 1893. João Tibúrcio também foi professor de Latim, Francês e Português nessa Instituição de ensino. 3.4 O Instituto de Educação próximo a Praça Cívica O novo Instituto de Educação apenas para comportar a Escola Normal e a Escola de Aplicação, foi edificado ao lado do Jardim de Infância Modelo. Inaugurado em Janeiro de 1956 no mandato do governador Sylvio Pedroza, em frente à Praça Cívica (AQUINO, 2007, p. 96). Finalmente, o governo Sylvio Piza Pedrosa constrói o novo Instituto de Educação (MORAIS, 2006, p. 77). 56 A criação dos Institutos de Educação estabelecidos na nova lei do ensino normal deveria partir de medidas políticas locais articuladas ao Governo Federal, por meio de convênios firmados junto ao INEP. Tornou-se um imperativo, às necessidades da época, a edificação de prédios de grupos escolares, pois a expansão do ensino primário crescia a passos largos, apontando para a tomada de medidas emergenciais no sentido de providenciar recursos humanos para conduzir o ensino no Estado, ou seja: era necessário ‘pessoal habilitado para preencher todas essas salas de aulas, ocupar esses edificios’ (RIO GRANDE DO NORTE, MENSAGEM, 1951, p. 81 apud AQUINO, 2007, p. 96). A imagem a seguir representa o Instituto de Educação que funcionou próximo à praça cívica, com a sua arquitetura original. A fotografia encontra-se no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte (APE/RN), não havendo informações sobre a data em que foi tirada. Na porta de entrada podemos identificar uma letra “N” que pode significar “Normal” de Escola Normal de Natal. No finalzinho da calçada à direita observamos algumas crianças e uma mulher que pode ser uma mãe ou uma professora normalista. Imagem 8 – Instituto de Educação (Década de 1950). Fonte: Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte. 57 De acordo com a diretriz de reconstrução da Educação Nacional de Anísio Spínola Teixeira, Diretor geral do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), O Governo de Dinarte de Medeiros Mariz e José Augusto Varela empreendeu uma reforma educacional amparada pela Lei nº 2.171, de 06 de dezembro de 1957, preconizando organizar e fixar as bases da Educação Elementar e da Formação do Magistério Primário do Estado. A Reforma Tarcísio Maia assim denominada em homenagem ao seu principal idealizador, o Secretário de Educação e Cultura do Estado do Rio Grande do Norte, Tarcísio de Vasconcelos Maia, representa um marco na História da Educação do Estado por expressar o Plano de Reconstrução Educacional do INEP e por extensão, o pensamento de Anísio Teixeira. A proposta inicial da reforma de 1957 partiu da Secretaria de Educação e Cultura, sob o comando do Secretário Tarcísio de Vasconcelos Maia que contou com a colaboração do então Diretor do Departamento de Educação, Carlos Borges Medeiros (A REFORMA..., 1958). A fim de abalizar as condições operacionais ao plano de aplicação da reforma de ensino fez-se necessária a reorganização da Secretaria de Estado de Educação que passou a chamar-se Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte (SEEC-RN), por força da Lei de nº 2.225, de 9 de dezembro de 1957. Entre as de mais inovações, foram criados novos órgãos considerados fundamentais para a execução das metas educacionais estabelecidas, a exemplo do Centro de Estudos e Pesquisas Educacionais – CEPE. (RIO GRANDE DO NORTE, 1957 apud AQUINO, 2013). A Escola Normal de Natal – Instituto de Educação – permaneceu no prédio localizado próximo a Praça Cívica entre os anos de (1956-1965). Nesse espaço tornou-se oficialmente Instituto de Educação, em decorrência da reforma de ensino primário e normal do Estado, orientada pela Lei nº 2.171, 06 de dezembro de 1957. Embora o prédio não contemplasse todos os requisitos para um Instituto de Educação. Contemplou ao que cabia uma Escola Normal, Escola de aplicação e um Jardim de Infância, não um Instituto de Educação (FERNANDES, 1973, p. 131). 58 3.5 Instituto de Educação Presidente Kennedy O Instituto de Educação Presidente Kennedy foi construído e inaugurado em 22 de novembro de 1965. Essa realização se deu no Governo Aluísio Alves, com investimentos advindos do convênio firmado entre o Estado/Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), Ministério da Educação (MEC) e a Aliança para o Progresso/United States Agency for International Development (EUA/USAID). Destinou-se à instalação da Escola Normal de Natal, à Escola de Aplicação, ao Jardim de Infância, bem como a criação de aperfeiçoamento de professores e cursos de especialização. A Aliança para o Progresso foi um amplo programa destinado a acelerar o desenvolvimento econômico e social da América Latina. Tratava-se de um convênio entre os governos norte-americanos e latino-americanos com o intuito de impedir o avanço da revolução socialista em Cuba nos Países vizinhos, resultando de uma Carta elaborada numa Conferência de Punta del Este em 1961. À época, o Nordeste era alvo de preocupação dos norte-americanos. Essa inquietação possibilitou o estabelecimento de negociação direta entre governadores estaduais, capazes de dificultar o avanço popular e socialista (GERMANO, 1989). Diante de tal possibilidade, o governador do Rio Grande do Norte realizou viagem aos Estados Unidos e, por intermédio do Dr. Roberto Campos, embaixador do Brasil em Washington, chegou a ser recebido em audiência pelo Presidente Kennedy. Retornando a Natal, Aluísio Alves‘declarou para a imprensa, em 31 de julho de 1962, ter obtido do Presidente norte- americano, através da Aliança para o Progresso, vinte milhões de dólares para o Plano de Desenvolvimento Social do Rio Grande do Norte’. (A ALIANÇA...,1999, p. 232 apud AQUINO, 2007, p. 105). Os sinais mais evidentes da confiança e simpatia dos americanos pelo Governador Aluízio Alves foram os milhões de dólares que eles mandaram para desenvolver o Rio Grande do Norte e a visita que o Presidente Kennedy pretendia fazer. Verdade é que, no dia 19 de outubro de 1962, na página 6, o Diário de Natal publicava a seguinte manchete: “Assessores de Kennedy em Natal: Presidente visitaria Rio Grande do Norte”. A caravana de assessores, chefiada pelo Sr. Ralph A. Dungan, chegou a Natal, às 17 horas do dia 18 de outubro (DIÁRIO DE NATAL, 1962). 59 Nesse período várias missões americanas aportaram no litoral brasileiro. Natal, capital do Rio Grande do Norte, recebeu visitas do navio Hope que distribuía leite em pó. Na cidade também foram fundados: o Bairro da Cidade da Esperança, com o auxilio do programa Aliança para o Progresso e o Instituto de Educação Presidente Kennedy. Várias escolas e hospitais também foram reformados ou restaurados. O Hotel Internacional dos Reis Magos contou com recursos da Aliança para o Progresso, do Banco Internacional de Desenvolvimento e do governo Federal; através da ação da Sudene por iniciativa do Governo Aluísio Alves. A seguir observamos a imagem do Hotel Internacional dos Reis Magos: Imagem 9 – Vista aérea do Hotel Internacional dos Reis Magos (Década de 1960-1970). Fonte: Acervo Waldecy Pinto. Na fotografia podemos observar a vista aérea do Hotel Internacional dos Reis Magos. Nas memórias de Luiz Antônio Porpino, – secretário de gabinete do governo Aluízio Alves, à época da construção – a abertura do Hotel Reis Magos trouxe iluminação, calçamento, galerias, implantação de delegacias, bem como desenvolvimento do comércio e inauguração de bares e restaurantes para as suas proximidades. Sobre a clientela do hotel, informa ter sido de grandes empresários, visando investimentos no estado do Rio Grande do Norte e de turistas, a maioria vindo de estados do nordeste (TRIGUEIRO et al, 2014, p. 8). 60 Consta na imagem a equipe de representantes da Aliança para o Progresso. Da esquerda para direita: Guilherme da F. Dutra, do MEC, Secretário Calazans Fernandes, Arquiteto João Maurício, Governador Aluízio Alves, Engenheiro Antonio Lira e Jornalistas em reunião. Segundo as memórias de João Maurício Fernandes de Miranda, arquiteto e Coordenador da equipe técnica do Serviço Cooperativo de Educação do Rio Grande do Norte (SECERN) subordinado à Secretaria de Educação – órgão que esteve a frente do desenvolvimento e supervisão dos projetos financiados pela Aliança para o Progresso. Imagem 10 – Representantes da Aliança para o Progresso em reunião (Década de 1960). Fonte: Miranda (2009, p. 72). Os recursos para um grande programa de restauração e construção de salas de aula e grupo escolar eram da Aliança para o Progresso (EUA/USAID), criado pelo Presidente Kennedy em convênio com Ministério da Educação, SUDENE e Governo do Estado. (MIRANDA, 2009, p. 54) As verbas eram destinadas a Educação, construção e equipamento das escolas. A SECERN foi criada em 1963, repartição que se encarregava de aplicar verbas substanciais de convênios firmados entre Estado e a Aliança Para o Progresso, através da USAID. “O Pessoal que compunha o SECERN era todo gente moça, desde o diretor Calazans Fernandes Pinheiro, que era também Secretário de Educação.” (FERNANDES, 1973, p. 139). Segue imagem da sede da SECERN: 61 Imagem 11 – Serviço Cooperativo de Educação do Rio Grande do Norte/SECERN. Fonte: Miranda (2009, p. 55). Sede da SECERN (Serviço Cooperativo de Educação do Rio Grande do Norte) – Órgão instalado no casarão onde fora a residência do Governador Juvenal Lamartine, na esquina da Avenida Campos Sales com a Rua Trairi (MIRANDA, 2009, p. 55). Juvenal Lamartine de Faria foi um advogado, jornalista, magistrado e político brasileiro. Governador do Rio Grande do Norte, com o advento da Revolução de 1930. Com a instalação do órgão, era preciso montar uma equipe técnica, competente e hábil para desenvolver os projetos a que se propunha. Convidei o arquiteto Daniel Geraldo Gomes de Hollanda, o arquiteto Jorge Vargas Soliz (Boliviano), recém formado no Recife, o engenheiro calculista Hélio Varela de Albuquerque, os engenheiros Antonio de Menezes Lira, Mario Teixeira, José Walter de Carvalho e João Furtado. Para agilizar o desenvolvimento dos projetos fui à Faculdade de Arquitetura do Recife contratar alunos concluintes qu estavam no período de férias. Consegui trazer Newton Lyra, Pedro Dieb, Paulo Brasil e José Raposo, completando com os desenhistas daqui, Edmund Aires, Ferdinando Costa e José Milton. Além da equipe técnica, era preciso montar escritórios de obras, que foram instalados, um em São José do Mipibu e outro em Santa Cruz, ficando um deles orientado pelo Mestre Alcides. (MIRANDA, 2009, p. 67) 62 Apresentação do estudo preliminar do projeto do Instituto de Educação Presidente Kennedy, para o Engenheiro Edward Cudlipp, representante da USAID. A então equipe Técnica era formada por – 1. Engenheiro Antonio Lira, 2. Engenheiro Helio Varela, 3. Arquiteto Daniel Hollanda, 4. Arquiteto João Maurício, 5. Engenheiro Edward Cudlipp (Americano fiscal da Aliança para o Progresso), 6. Intérprete, 7. Arquiteto Jorge Vargas, 8. Paulo Brasil, 9. Pedro Dieb, 10. Newton Lyra e 11. José Raposo. Imagem 12 – Apresentação do estudo preliminar ao projeto do Instituto de Educação Presidente Kennedy ao Engenheiro representante da USAID (Década de 1960). Fonte: Miranda (2009, p. 66). O ano de 1963 começava com grande movimentação em torno do ambicioso programa para educação do governo Aluísio Alves financiado pelo Governo Americano. “As firmas contratadas saíram plantando escolas, grupos escolares e escolinhas pelo interior adentro [...] com essas verbas foram construídas o Kennedy, O Padre Monte e reformado o Padre Miguelinho, adquirido farto material escolar, oficinas e laboratórios.” (FERNANDES, 1973, p. 39). 63 O trabalho de prancheta era diuturno, as concorrências para as obras eram abertas para as firmas construtoras, reuniões em conjunto com as equipes do Ministério da Educação, SUDENE e SECERN e visitas às obras de restauração e às novas, visitas de políticos ao escritório técnico e imprensa; viagens à SUDENE, Rio de Janeiro e Brasília eram constantes acompanhando o secretario Calazans Fernandes. (MIRANDA, 2009, p. 69). Reunião do arquiteto João Maurício com equipe da SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) e MEC (Ministério da Educação e da Cultura) à época das reuniões para o amplo programa que estava em fase de organização e planejamento. A missão institucional da Sudene era a de promover o desenvolvimento includente de sua área de atuação e foi idealizada no governo do Presidente Juscelino Kubitschek. Imagem 13 – Uma das reuniões do amplo programa da Aliança para o Progresso (Década de 1960). Fonte: Miranda (2009, p. 69). As firmas contratadas saíram plantando escolas, grupos escolares e escolinhas pelo interior adentro, mas algumas não foram bem semeadas e até um ‘redemoinho’, desses que andam brincando pelas cidadezinhas do interior, em tempo de verão, arrancou telhados, empenou algumas e até derrubou paredes. [...] Mas isso são coisas que acontecem com qualquer um, e nem chegou a comprometer o crescimento espetacular da rede de escolas públicas, que foram entregues à população, tanto no interior, como na capital. (FERNANDES, 1973, p. 139) 64 Da esquerda para a direita: Governador AluísioAlves, Dr, Paulo Viveiros, Embaixador dos Estados Unidos Lincoln Gordon, repórter não identificado e o arquiteto João Maurício explicando os projetos. Imagem 14 – Uma das reuniões do amplo programa da Aliança para o Progresso (Década de 1960). Fonte: Miranda (2009, p. 75). No final do ano de 1963, todos os projetos do Grupo Escolar e do Instituto de Educação Presidente Kennedy estavam prontos, detalhados e orçados para construção. Os projetos tinham uma arquitetura simples e adequada ao nosso clima. Estrutura em concreto modulado aparente com cobertura de chapa ondulada Brasilit plana de 3.05m com beiral para proteção das fachadas. No interior do Estado, o programa de restauração e construção de novas salas de aula, prosseguia acelerado. (MIRANDA, 2009, p. 76). A Planta da edificação do Instituto de Educação Presidente Kennedy era bastante arrojada. Seguia o modelo das escolas americanas, com uma imensa quadra de esportes, espaços amplos, vários cômodos, ala administrativa, entre outros compartimentos, mas o local para a sua construção era um terreno distante da cidade. Isolado e sem circulação de transporte regular para as alunas: 65 Bati-me quanto pude contra a escolha do terreno. Declara Dona Francisca Nolasco Fernandes. O local escolhido para a construção do Instituto era uma área imensa e despovoada. Os motoristas de ônibus eram intoleráveis, massacravam a paciência das alunas e professoras que utilizavam esse meio de transporte. Esse era um lugar muito isolado para funcionar uma escola de moças. Embora entendesse que era para aqueles lados que a cidade crescia, ela achava muito remota a possibilidade de habitação. No entanto ela mesma fala que o tempo se encarregava de mostrar que estava errada. (MORAIS, 2006, p. 77-78). Imagem 15 – Planta do Instituto de Educação Presidente Kennedy (Década de 1960). Fonte: Miranda (2009, p. 76). O Prédio edificado ao final da obra, no entanto, não correspondeu às dependências e dimensões da planta original. Dona Francisca Nolasco fez o que pode à época da construção para tentar remediar esses problemas estruturais, sem muito sucesso. “Assim, quando recomeçaram, pela terceira vez, os rumores de que a planta do Kennedy não correspondia ao que todos esperavam, fui ao secretário, para que marcasse um dia a fim de apresentar a planta aos professores.” (FERNANDES, 1973, p. 141). A planta foi, de fato, e muito depois, apresentada aos professores do Instituto, que discutiram e a criticaram construtivamente, mas o engenheirinho não quis saber de nada nem deu ouvidos a ninguém, e as falhas, outras e mais graves, lá estão para quem quiser vê-las, apesar das tentativas que fizeram para remediá-las. E mais não apareceram porque o projeto foi interrompido por falta de verbas. (FERNANDES, 1973, p. 141) 66 Apesar da construção inacabada e inúmeros problemas estruturais, o prédio foi inaugurado por ocasião da visita do Senador Robert Kennedy em 22 de novembro de 1965. Fora acrescentado o nome do ex Presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy - (assassinado em Dallas, 22 de novembro de 1963) a Instituição; tornando a partir de então a se chamar: INSTITUTO DE EDUCAÇÃO PRESIDENTE KENNEDY. A passagem por Natal do Senador Robert Kennedy, - irmão de John Kennedy que deu nome a Instituição - determinou a inauguração do prédio, antes de concluída a construção por falta de verbas. A solenidade de inauguração em acordo com as memórias de Francisca Nolasco Fernandes fora um espetáculo a parte, assim como eram as campanhas “Aluisistas”. As dependências do prédio ficaram superlotadas de estudantes e pessoas que queriam ver e chegar perto do então Senador norte americano Robert Kennedy. “Foi uma apoteose, como sempre que o Governador Aluísio Alves convocava o povo para vir as ruas, fosse qual fosse o motivo.” (FERNANDES, 1973, p. 141). Imagem 16 – Discurso de Inauguração do Instituto de Educação Presidente Kennedy (22 de novembro de 1965). Fonte: Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy. No microfone o Senador Robert Kennedy e o então Governador Aluizio Alves a direita do senador. Imagem datada do dia da Inauguração do Instituto de Educação Presidente Kennedy em 22 de novembro de 1965. 67 Em acordo com as memórias de Dona Francisca Nolasco, O Senador, a senhora Kennedy e as autoridades tiveram que subir para o telhado da área interna do Instituto, tamanha era a multidão que acompanhava a solenidade de abertura do Instituto Kennedy. A passagem pela cidade de Natal, em novembro de 1965, do então Senador Robert Kennedy antecipava a inauguração do Instituto, embora ainda em fase de construção. As dependências do estabelecimento ficaram superlotadas de estudantes e curiosos para ver e tocar no Senador que veio dos Estados Unidos. Tamanha era a multidão, que as autoridades subiam para o telhado da área interna do Kennedy para fazerem os discursos de inauguração. ‘Foi uma apoteose, como sempre que o governador Aluísio Alves convoca o povo para vir às ruas, fosse qual fosse o motivo’. São as lembranças de Dona Chicuta. (MORAIS, 2006, p. 79) Nas poucas horas que passou em Natal, o senador Robert Kennedy recebeu o aplauso e o carinho da população Natalense. Encerrou a sua visita, colocando uma coroa de flores no pequeno monumento erguido em homenagem ao seu irmão, o Presidente Kennedy, na Praça da imprensa, situada no antigo Grande Ponto, no cruzamento da Rua João Pessoa com a Avenida Rio Branco. Este monumento fora construído através de fundos populares, arrecadados pela campanha “Do povo para Kennedy”, e foi inaugurado no dia 1º de Maio de 1965, pelo Embaixador Norte-Americano no Brasil, Sr. Lincoln Gordon (SOUZA, 1999). No final do ano de 1966, o Instituto de Educação Presidente Kennedy formava a sua primeira turma, conferindo aos formandos o diploma de professor primário, assinado pelo secretário de Educação Jarbas Bezerra e Francisca Nolasco Fernandes de Oliveira – Dona Chicuta – diretora (MORAIS, 2006). Dona Chicuta, foi a primeira mulher a dirigir a Escola Normal de Natal, após sete direções masculinas, e esteve a frente dessa instituição entre os anos de 1952-1956 e 1959-1966, inclusive quando essa instituição passou a funcionar no Instituto de Educação Presidente Kennedy. A Escola Normal se instala no Instituto Kennedy, em março de 1966. Ainda de forma bastante precária. Não tinha telefone, as instalações elétricas concluídas, mas sem ligação, pois a rede ainda não passava pela rua. A Escola Normal ficou funcionando em dois turnos no Kennedy e um turno à noite, na antiga sede da Escola Normal da Praça Pedro Velho. (MORAIS, 2006, p. 79) 68 4 AS DIRETORAS DO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO PRESIDENTE KENNEDY 4.1 Sobre a História das Mulheres Tratar um tema histórico situado no âmbito da História das Mulheres possui atrativos e inúmeros desafios. Como escrever de forma justa, concisa e clara sobre essas professoras a partir dos documentos remanescentes da época e suas memórias? Afinal de contas, – o que é a escrita da história senão um longo e sinuoso caminho decifratório de múltiplas possibilidades? De qualquer modo, falar sobre as Diretoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy, será, em última instância, uma pesquisadora escrevendo suas impressões sobre essas mulheres. Impressões estas retiradas dos escritos deixados por elas e lembranças. Mais especificamente, escrevo sobre a atuação educativa dessas professoras enquanto gestoras no espaço pertencente ao Instituto de Educação Presidente Kennedy. Instituição de formação de professores, mestres primários. A história das mulheres mudou. Em seus objetos, em seus pontos de vista. Partiu de uma história do corpo e dos papéis desempenhados na vida privada para chegar a uma história das mulheres no espaço público da cidade, do trabalho,da política, da guerra, da criação. (PERROT, 2008, p. 15). Para escrever a história das mulheres, são necessários documentos e vestígios, segundo a Historiadora francesa Michelle Perrot “As mulheres deixam poucos vestígios diretos, escritos ou materiais, [...] São elas mesmas que destroem, apagam esses vestígios.” (PERROT, 2008, p. 17). Essa é uma barreira quando se trata da história das mulheres. Há um déficit, falta de arquivos (vestígios) apagados e destruídos por elas próprias ainda em vida “[...] muitas mulheres, no caso de sua existência, destruíram – ou destroem – seus papéis pessoais. Queimar papéis, na intimidade do quarto, é um gesto clássico da mulher idosa.” (PERROT, 2008, p. 22). É uma escrita privada, e mesmo íntima, ligada à família, praticada à noite, no silêncio do quarto, para responder às cartas recebidas, manter um diário e, mais excepcionalmente, contar sua vida. Correspondência, diário íntimo, autobiografia não são gêneros especificamente femininos, mais se tornam mais adequados às mulheres justamente por seu caráter privado. (PERROT, 2008, p. 28). 69 A correspondência costuma ser um gênero muito feminino, e são três os grandes tipos de literatura feita pelas mulheres: cartas – correspondências -, diários e autobiografias: Desde Mme. de Sévigné, ilustre ancestral, a carta é um prazer, uma licença, e até um dever das mulheres. As mães, principalmente, são as epistológrafas do lar. Elas escrevem para os parentes mais velhos, para o marido ausente, para o filho adolescente no colégio interno, a filha casada, as amigas de convento. Suas epístolas circulam eventualmente pela parentela. (PERROT, 2008, p. 28) Imagem17 – The Love Letter (c. 1770), Jean Honoré Fragonard. Cena ilustrativa de uma bela dama lendo em seu quarto e próxima a janela uma carta de amor recebida em segredo. Jean Honoré Fragonard (Grasse, 1732 – Paris, 1806). The Love Letter (c. 1770) Óleo sobre tela, 83,2 cm x 67 cm. The Metropolitan Museum of Art, New York. Forma distanciada do amor, mais conveniente e menos perigosa do que o encontro, a carta de amor toma o lugar do próprio amor, a ponto de representar o essencial. Torna-se um tema e um motivo da literatura (no romance epistolar) e da pintura de gênero, principalmente a pintura holandesa “[...] A mulher que lê uma carta em seus aposentos, ou perto de uma janela, na fronteira entre o interior e o exterior, sonha com o amante ou o marido viajante ou guerreiro.” (PERROT, 2008, p. 29). 70 Contemplemos outra bela imagem a seguir: uma jovem professora aponta algo escrito no papel para a criança que provavelmente está a aprender as primeiras letrinhas. Diante de seu olhar vigilante e cuidadoso, a criança tenta entender a lição da mestra. O que a jovem professora estaria pensando nesse momento? O que deseja? Com olhar terno, ela observa a criança que se esforça para entender o que está posto no caderninho – ou seria um livrinho? – seja como for, estamos diante da representação de uma jovem professora e seu aprendiz. Imagem 18 – La maestra joven (c. 1736-1740), Jean-Baptiste Simeon Chardin. Cena de uma jovem professora e seu aluno que está provavelmente a aprender as primeiras letras. Jean-Baptiste Simeon Chardin (1699-1779, France). La maestra joven (c. 1736 - 1740). Romantismo. Óleo sobre lienzo, 67 x 62cm. Londres, National Gallery. Quando Jean Baptiste Simeon Chardin pintou esse quadro, na França, provavelmente não poderia imaginar que ele seria utilizado como linguagem imagética para estabelecer relações com professoras no século XX. É grande a distancia entre os tempos. Contudo, a impressão de dever e cuidado da jovem professora para com o seu aluno, creio, seria a representação iconográfica ideal das professoras e diretoras que trago nessa pesquisa: Francisca Nolasco Fernandes, Crisan Siminéa, Teresinha Pessoa Rocha, Ezilda Elita do Nascimento e Maria Arisneide de Morais. 71 Não poderia iniciar o capítulo sobre as diretoras/professoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy (1952-1975), sem uma imagem ilustrativa que pudesse as representar de forma honrada. Aprendi com o Historiador Ricardo da Costa e leituras dos Historiadores da terceira geração da Escola dos Annales (1929), que a História não se faz sem se relacionar texto e imagem. Sem sensibilidade e aproveitamento estético. Pois História é Arte. Vejo o entrelaçamento entre História e Arte – História da arte - como uma moldura em que a História do mundo, em toda a sua amplitude imagética se reflete para nós. Embora não sem o rigor da criteriosa investigação das fontes documentais que possibilitem a escrita da História. A obra História da Vida Privada, coleção dirigida por Philippe Ariès e George Duby, explicitamente, são trabalhadas centenas de imagens, todas diretamente associadas aos respectivos textos, contribuindo para a construção da escrita dos temas retratados na coleção. Imagem 19 – Clio, a musa da História e da criatividade (1689), Pierre Mignard. Pierre Mignard (1612 – 1695). Obra: Clio (1689). Entre as nove musas que representam as artes e as ciências na mitologia grega, Clio é uma delas. Seu atributo é a História e a criatividade. Símbolo dos Historiadores que concebe o seu ofício. É representada por uma jovem, que sobre a cabeça repousa uma coroa de louros, sempre acompanhada por livros e em sua mão um instrumento de sopro. Por meio de tal 72 instrumento ela divulga as realizações dos tempos antigos e os reconstitui para o tempo presente. Na pintura de Pierre Mignard de 1689, podemos observar a sua Clio segurando uma trompa e olhando para o céu como que a vislumbrar as coisas que são eternas. Ao seu lado repousa o tempo. 4. 2 As Diretoras Da parte de Francisca Nolasco Fernandes não faltaram as suas alunas: carinho, estímulo e compreensão. Palavras suas. “A confiança que me creditavam, em vez de me envaidecer, comovia-me, e estudava, estudava muito para merecê-la.” (FERNANDES, 1973, p. 96). Na direção da Escola Normal, entre as metas da professora Chicuta Nolasco Fernandes estava à valorização das professorandas, a partir mesmo do uso do uniforme completo e da gravatinha – honra da normalista – sempre impecável. “Quando professora, não passei de soldado raso, apenas professora, dando o máximo da minha capacidade.” (FERNANDES, 1973, p. 89). Crisan Siminéa, homenageada como apóstola da educação pela Secretaria de Educação e Cultura em março de 1998 e pelo jornalista Roberto Guedes com o título de educador do ano em 1996. Em seu discurso para alunas da Escola Normal do Instituto de Educação Presidente Kennedy por volta do ano de 1969, proclamava: dedicação, assiduidade, pontualidade e responsabilidade a suas Normalistas: “O professor primário tem mais oportunidade que o professor no Ensino Médio e o Universitário. Ele é um cultivador, um modulador de almas em formação. Prepará-los bem, é o nosso dever.” (SIMINÉA, [19-?]). Teresinha Pessoa Rocha, carinhosamente lembrada por Maria Coeli Mollick Brandão, – ex aluna do Jardim de Infância e da Escola de Aplicação – como uma figura alta, magra, loira, de postura elegante. “Bastava ela olhar para se entender o que ela queria dizer. Professora comprometida, que trabalhava com o grupo.” (BRANDÃO, 2015). Ezilda Elita do Nascimento, professora forte e comprometida. Diretora atuante, preocupada com o desempenho dos professores. Era ao mesmo tempo: orientadora, coordenadora e supervisora (BRANDÃO, 2015). Ezilda Elita também fora mencionada no livro de memórias da professora Francisca Nolasco Fernandes como uma professora que desempenhou bem o seu papel no cenário educacional (FERNANDES, 1973). Maria Arisneide de Morais, professora/diretora que atuou na Escola Normal de Natal como professora, coordenadora de prática de ensino e diretora, entre os anos de (1970 – 73 1975). Ou seja, passoupor todas as instâncias dentro da Instituição: de aluna à Diretora da Escola Normal de Natal. Diplomou-se também no curso Superior de Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 20 de dezembro de 1966, fazendo parte da primeira turma do curso de Pedagogia diplomada no contexto da Federalização (SILVA, 2013). Desempenhou funções também na Secretaria de Educação e Cultura e no Ministério da Educação (MEC). Segue o quadro de gestores da Escola Normal de Natal a partir da data de sua criação definitiva em (1908) até à ocupação do cargo pela diretora Francisca Nolasco Fernandes. Primeira diretora a gerir a Escola Normal de Natal. “Entre esses, esteve na direção, em substituição de pouco tempo, o Dr. Oscar Wanderley, mas não consta sua nomeação para o cargo, nem quanto tempo durou a substituição.” (FERNANDES, 1973, p. 107). Quadro 4 – Gestão da Escola Normal, a partir do ano de 1908. Nº Nome dos Diretores 01 Francisco Pinto de Abreu 02 Ezequiel Benigno de Vasconcelos 03 Nestor dos Santos Lima 04 Teódulo Câmara 05 Luiz Antônio dos Santos Lima 5 06 Antônio Gomes dos Santos 07 Clementino Hermógenes da Silva Câmara 08 Francisca Nolasco Fernandes Fonte: Morais (2006, p. 65). A função de administrador é função que depende muito da pessoa que a exerce; depende de quem ele é, do que tenha aprendido e de longa experiência. Mas, que é o administrador? Anísio Teixeira respondeu essa questão em 1961: “O administrador é homem que dispõe dos meios e dos recursos necessários para obter alguns resultados. Resultados 5 No quadro podemos visualizar o Professor, Farmacêutico e Médico. Dr, Luís Antônio que foi professor toda a sua vida. Começou, como auxiliar da cadeira de Física, na Escola Normal, passando, logo depois de sua formatura em Medicina, a titular da mesma cadeira – Professor de História Natural, no Atheneu, Diretor do Departamento de Educação, Professor, Diretor e Vice-Diretor da Faculdade de Medicina e Diretor do Pronto Socorro do Hospital das Clínicas. Morreu aos 70 anos (FERNANDES, 1973, p. 110). 74 certos, e isto é um administrador. [...] Sem administração, a vida não se processaria.” (TEIXEIRA, 1961). A administração da escola é também aquela na qual o elemento mais importante não é o administrador, mas o professor: organiza a sua classe, administra a sua classe, faz os trabalhos necessários para que o ensino se faça bem. Ensina aos alunos, guia e dirige. Estão reunidas nas atividades desse professor as três grandes funções que vão passar para a administração (TEIXEIRA, 1961). Segue agora, biografia e descrição da atuação das professoras e diretoras que estiveram à frente da gestão no Instituto de Educação Presidente Kennedy: Francisca Nolasco Fernandes, primeira Diretora da Escola Normal de Natal, em exercício entre 30 de setembro de 1952 a 30 de janeiro de 1956 e na segunda gestão de 24 de março de 1959 a 1966. Francisca Nolasco Fernandes foi a primeira diretora da Escola Normal de Natal, do Instituto de Educação e Instituto de Educação Presidente Kennedy. Crisan Siminéa, diretora da Instituição entre os anos de 1967 a 1969. Ezilda Elita do Nascimento, diretora da unidade Escola de Aplicação entre 1963 a 1968. Teresinha Pessoa Rocha, diretora do Jardim de Infância Modelo entre os anos de 1960 a 1970 e Maria Arisneide de Morais diretora entre os anos de 1970 a 1975. 75 Francisca Nolasco Fernandes Imagem 20 – Francisca Nolasco Fernandes (Década de 1950-1960). Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy (2015). Fotografia pertencente a um dos álbuns de formatura do Jardim de infância modelo, que encontra-se no acervo do Instituto de educação Presidente Kennedy, onde dona Francisca Nolasco Fernandes foi a homenageada da turma. Na imagem, podemos observar o olhar firme da professora que na ocasião usava um colar de pérolas e vestido em corte reto sem muitos detalhes, porém elegante e distinto. Provavelmente nas cores entre os tons branco ou bege: cores neutras. Francisca Nolasco Fernandes, filha de Pedro Nolasco de Sena e Paulina Maria da Conceição, foi professora, escritora e jornalista; nasceu em Jardim de Piranhas, Caicó, Rio Grande do Norte em 15 de Dezembro de 1908. “Caicó, sua cidade natal, está sempre presente nos seus textos, nas suas memórias.” (MORAIS, 2006, p. 35). Aspectos que a mestra Francisca Nolasco revive em suas crônicas e reminiscências. 76 Segundo suas memórias, Jardim de Piranhas era uma povoação composta por 200 ou 300 habitantes e era ponto de intercessão entre os caminhos que levavam às cidades limítrofes da Paraíba e os redutos dos senhores feudais deste e do Estado vizinho. Era em torno dessas imediações, que se aquartelavam desde os capitães de mato da ilegalidade, até os morubixabas do cangaço, com as suas milícias sanguinárias (FERNANDES, 1973, p. 31). Segue imagem da prefeitura municipal de jardim de piranhas representando a cidade de nascimento de Dona Francisca Nolasco Fernandes: Imagem 21 – Prefeitura Municipal de Jardim de Piranhas. Fonte – Instituto Tavares de Lyra. - Imagem ilustrativa representando a cidade de nascimento de Francisca Nolasco Fernandes. Os primeiros anos de sua vida transcorreram na cidade de Caicó. Seus pais deixaram a cidade de Jardim de Piranhas e fixam residência nessa cidade. Morou no velho sobrado da pracinha ‘que só de varandas de ferro tinha oito, e aqueles com cara de dragão, aonde as andorinhas vinham fazer ninho depois do inverno’. (MORAIS, 2006, p. 29). Francisca Nolasco Fernandes escreveu cartas, rimas, crônicas, conferências e discursos. Legou muitos escritos que hoje permitem reconstituir parte de sua trajetória como professora e primeira diretora da Escola Normal de Natal, do Instituto de Educação e do Instituto de educação presidente Kennedy. Em seu livro Menina feia e amarelinha 77 (FERNANDES, 1973), relata suas memórias e narra sua vida desde a infância. Brincadeiras e recordações familiares. Da sua entrada nos estudos na Escola Doméstica 6 , à ocupação no Magistério Público do Estado. Segundo suas memórias as moças na escola doméstica de Natal estudavam além das letras e dos estudos avançados: prendas, piano ou violino, varrer, cozinhar, costurar, fazer hortas e jardins, cuidar de crianças, desde recém – nascidas, aprendiam boas maneiras ao falar, sentar, receber, comer e conviver. Recebiam com distinção as pessoas e conversavam com qualquer um, homem ou mulher (FERNANDES, 1973, p. 18). Imagem 22 – Alunas da Escola Doméstica trabalhando na horta da escola, na Ribeira. Fonte: Blog. Eloy de Souza. Centro de documentação cultural Eloy de Souza. Podemos observar através da fotografia alunas da escola doméstica de natal cuidando da horta e da jardinagem da escola; como menciona Francisca Nolasco Fernandes em suas memórias quanto ao currículo da escola que fez parte da sua formação. Exatas doze alunas estão compondo a imagem. 6 Escola Doméstica: Foi fundada em 1 de setembro de 1914. O fundador da ED – como a Escola Doméstica de Natal também é conhecida – foi o poeta, político e arauto da educação feminina Henrique Castriciano, o qual por anos viajou para a Europa com o objetivo de pegar informações para uma escola doméstica com o objetivo de valorizar a família. 78 Imagem 23 – Dona Francisca Nolasco Fernandes. Fonte: Morais (2006). Aprendi a ser professora sem as metodologias tão necessárias. Analisando minhas ex-professoras, já então colegas, selecionei vários – Deve-se e Não se deve fazer – para uso comum das minhas tarefas. Considerava o aluno a matéria prima do meu trabalho. Voltei-me para ele com amor e recebi amor e estímulos. Gostava de saber maise mais para transmitir. Era esta a minha vaidade, Deus me perdoe. (FERNANDES, 1973, p. 87). Em acordo com as reminiscências de dona Francisca Nolasco retratadas no livro da professora Maria Arisnete Câmara de Morais. - Sobre seu ingresso no Magistério Público do Estado, no dia 04 de Junho de 1951, quando nomeada professora da Escola Normal da cadeira Português, a referida professora relata: “[...] naquele tempo as pessoas alcançavam o magistério por três caminhos: a) tempo útil de serviço público; b) mérito provado no magistério; c) um bom pistolão. Ela, embora relutante, incentivada pelo então diretor da Escola Normal, o professor Clementino Câmara, embarcou na categoria C.” (MORAIS, 2006, p. 64). 79 E assim, no dia 04 de junho de 1951, foi publicada a minha nomeação para exercer, interinamente, o cargo de professor, Padrão L, Tabela 1 – Parte permanente do Quadro único do Estado, da Cadeira de Português, da Escola Normal de Natal, na vaga existente em virtude da exoneração do Bel. Raimundo Nonato Fernandes. Foi assim o meu ingresso no Magistério Público do Estado (FERNANDES, 1973, p. 96). Na Escola Normal de Natal de tanto conceito, tradição e que titulara os elementos mais representativos da vida educacional do Estado, ela passa a partir do ano de 1951 a fazer parte do corpo docente como professora interina. Admirei a Escola Normal, muito antes de nela ter ingressado, pelo alto padrão de austeridade e pelas exigências morais e intelectuais a que submetiam os que desejavam ingressar nas suas fileiras de alunos ou nos seus quadros do magistério. Por isso e por diversos outros fatores é que ali tiveram trânsito tantas figuras ilustres. Não que essas exigências não perdurem ainda em todas as escolas, mas o abrotamento dos costumes facilita muito, certos comportamentos indesejáveis e tolerados como comportamento ‘pra frente’. (FERNANDES, 1973, p. 103). Quando Francisca Nolasco Fernandes ingressou na Escola Normal como professora, o curso era composto por 3 anos. Obedecia a Lei Orgânica do Ensino Normal nº 8.530, de 2 de janeiro de 1946, que dividia o curso em dois ciclos, como o secundário. O primeiro ciclo era o curso de Regentes de Ensino Primário em 4 anos e o segundo, curso de formação de professores, em 3 anos. Havia ainda o curso de pós-graduação que especializava os professores primários e habilitava os administradores escolares de grau primário e era dado em Institutos de Educação (FERNANDES, 1973, p. 99). Com a Reforma Capanema, de abril de 1942, foram criados os cursos de ensino médio – Ginasial, Clássico e Cientifico, embora já existisse o sistema de ensino secundário, mas sem aquelas características específicas da Lei Orgânica do Ensino Secundário, nº 4.244 de 9 de abril de 1942 e suas disposições transitórias que vieram alterar, inclusive o próprio curso Normal. Só então cada colégio procurou se ajustar a Lei, reformulando currículos, modificando a duração dos cursos etc. (FERNANDES, 1973, p. 97) A Reforma do sistema educacional Brasileiro chamado de Reforma Capanema foi realizada durante o governo Getúlio Vargas - Era Vargas (1930 – 1945), sob a idealização de Gustavo Capanema, – a época de sua implementação, Ministro da Educação e Saúde. Foi um período de fortes mudanças no cenário educacional. A educação deveria estar a serviço da 80 Nação: realidade moral, política e econômica. Dessa maneira, a preocupação com a moral, responsabilidade e o civismo trouxeram para a esfera educacional os objetivos propostos pelo Estado Novo. O Ministério da Educação aprovou nesse período, a criação de uma série de órgãos, como o Instituto Nacional de Serviços Pedagógicos (INEP), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), e o Serviço Nacional de Radiofusão Educativa. Quadro 5 – Constituição do Currículo da Escola Normal (1951). Série Matérias Primeira série Português Matemática Física e Química Anatomia e Fisiologia Humanas Música e Canto Desenho e Artes Aplicadas Educação Física, Recreação e Jogos Segunda série Biologia Educacional Psicologia Educacional Higiene e Educação Sanitária Metodologia do Ensino Primário Desenho e Artes Aplicadas Música e Canto Ofeônico Educação Física, Recreação e Jogos Terceira Série Psicologia Educacional Sociologia Educacional História e Filosofia da Educação Higiene e Puericultura Metodologia do Ensino Primário Desenho e Artes Aplicadas Música e Canto Prática de Ensino Educação Física, Recreação e Jogos Fonte: Fernandes (1973, p. 99). O Regimento da Escola, publicado em 1950, nos “Atos do Governo”, registra esse currículo, que se manteve com algumas alterações, feitas a titulo de experiência e sancionadas pela Congregação plena até 1966 (FERNANDES, 1973, p. 100). 81 Sobre as diferenças de currículos a que estava habituada como ex aluna da Escola Doméstica de Natal (essencialmente prático) e a que se confrontava a partir do ingresso na Escola Normal de Natal com os extensos programas, dona Francisca Nolasco relatou em seu livro de memórias o seguinte episódio: Habituada na Escola Doméstica, onde o nosso ensino era essencialmente prático e não havia o rigorismo de tão extensos programas, nem tão áridas matérias, eu tive a verdade de estabelecer comparações e a irreverência da imaturidade de comentar publicamente o fato, que me valeu uma grande mágoa de um eminente e Douto professor. E se mais não houve é que do alto da sua sabedoria ele preferiu atribuir o ‘deslize’ a minha juventude afoita e ignorante. O que era uma verdade. (FERNANDES, 1973, p. 100). Sobre mudanças educacionais, ciclo e currículos, um breve recuo no tempo agora se faz necessário. Em 1928, estudavam-se as seguintes matérias na Escola Normal, com os seguintes e respectivos professores na tabela que segue. Nesse tempo, segundo Francisca Nolasco Fernandes, a Escola, que começara diplomando professores em 3 anos, tinha o seu curso de 4 anos. Os alunos ingressavam com o curso complementar feito e a idade de 15 anos, por isso as alunas saiam diplomadas, quando tudo corria bem, aos 17 ou 18 anos, assim distribuídos; 4, de ensino primário; 2 complementares; 4, do curso normal (FERNANDES, 1973, p. 101). Quadro 6 – Matérias na Escola Normal de Natal e respectivos professores (1928). Nº Matérias Professores 1 Português Teodolo Câmara Antônio Fagundes 2 Matemática Dona Julia Barbosa 3 História Dr. Francisco Ivo 4 Geografia D. Bertilde Guerra 5 História Natural Dr. Luís Antônio dos Santos Lima 6 Física e Química Dr. Júlio Régis 7 Moral e Civismo Dr. Oscar Wanderley 8 Pedagogia Dr. Manuel Varela 9 Pedagogia Dr. Nestor Lima 10 Desenho Dona Chiquita Câmara 11 Trabalhos Manuais Dona Belém Câmara 12 Música Professor Tomaz Balbine Fonte: Fernandes (1973, p. 101). 82 Se acontecesse terminar o complementar antes de completar os 15 anos, e o aluno se sentisse apto, quando era mais bem ou mal orientado, alterava a idade, fazendo novo registro civil. (FERNANDES, 1973, p. 101). A Lei Orgânica do Ensino Normal, nº 8.530, de 2 de janeiro de 1946, alterou o curso e a Escola voltou a ter apenas 3 anos e exigir o ginasial para o ingresso, o qual de 5, passou a ter apenas 4 anos. Em 1948 não diplomou nenhuma turma, por causa dessa alteração (FERNANDES, 1973, p. 101). Dona Chicuta, foi a primeira mulher a dirigir a Escola Normal de Natal, após sete direções masculinas, e esteve a frente dessa instituição entre os anos de 1952-1956, retornando novamente a direção entre 1959-1966, inclusive quando essa instituição passou a funcionar no Instituto de Educação Presidente Kennedy. As marcas desse período de significativas mudanças, nos usos e costumes da sociedade natalense, são abordadas no livro de Morais (2006), intitulado Chicuta Nolasco Fernandes, intelectual de mérito. O ato de nomeação comoDiretora da Escola Normal de Natal, saiu no Diário Oficial de 30 de setembro de 1952, conforme o artigo 86 do Decreto-lei n. 123, de 28 de outubro de 1941, ocupando a vaga existente deixada pelo professor Clementino Hermógenes da Silva Câmara. “Corria o mês de 1952. No dia 29, às 12 horas, o Diretor, Professor Severino Bezerra 7 , manda-me chamar no Departamento de Educação e comunica-me que o meu nome fora indicado ao Governador para substituir o professor Clementino.” (FERNANDES, 1973, p. 118). Ainda não se exigiam os títulos de habilitação que hoje são indispensáveis, pois somente quando eu já estava encerrando minha carreira, foi criada a Lei nº, 4.024 de 20 – 2 – 1961, a LDB; que hoje foi superada pela Lei 5692 de atualização do Ensino de 11 de agosto de 1961. (FERNANDES, 1973, p. 89). Francisca Nolasco Fernandes conquistou uma postura de educadora dedicada e atuante frente à instituição que tanto se orgulhara de fazer parte. “A confiança que me creditavam, em vez de me envaidecer, comovia-me, e estudava, estudava muito para merecê- la.” (FERNANDES, 1973, p. 96). 7 Professor Severino Bezerra de Melo – Professor do Atheneu, da Escola Doméstica e Diretor do colégio Pedro II, depois chamado Rui Barbosa, por ele fundado e por ele e a esposa, D. Judith Bezerra dirigido durante 15 anos. Foi Diretor do Departamento, durante 18 anos, tendo servido aos Governos Irineu Joffily, Bertino Dutra, Fernandes Dantas, Georgino Avelino, Ubaldo Bezerra, José Varela, General Orestes Lima, Sílvio Predrosa. Publicou “Como errar menos”, livro sobre normas de Português (FERNANDES, 1973, p. 109). 83 Enquanto diretora da Escola Normal de Natal, entre as metas da professora Chicuta Nolasco Fernandes estava a valorização das professorandas, a partir mesmo do uso do uniforme completo. A gravatinha próxima ao pescoço teria de estar sempre composta, pois era a honra da Normalista. (MORAIS, 2006, p. 82). Imagem 24 – Alunas Normalistas em momento de estudo na Escola Normal de Natal. Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy (2015) Dignificar e enaltecer a figura da normalista foram palavras de ordem entre os objetivos da educadora Chicuta Nolasco Fernandes. Pretendia despertar nas suas alunas a consciência da sua valorização profissional, a dignidade da carreira escolhida e o seu papel relevante na sociedade. ‘Elas estão por aí, formadas, mais de setecentas, durante a minha gestão’. (MORAIS, 2006, p. 83). Francisca Nolasco Fernandes compreendia a docência como vocação. Representava como professora/diretora para suas alunas uma figura que tinha por objetivos e palavras de ordem dignificar e enaltecer a figura da normalista. Despertava nas suas alunas a consciência da valorização profissional, com atos como o de exigir sempre em ordem o uniforme e o uso da gravata que era a honra da normalista: “Aquele uniforme azul e branco, de mangas compridas e o laço no decote, eram o diferencial da normalista.” (MORAIS, 2006, p. 82). Representando uma figura de pulso forte e que tinha a docência como vocação. 84 Imagem 25 – Dona Chicuta Nolasco entre as normalistas no Instituto de Educação (Década de 1950). Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy (2015). Na fotografia podemos observar Dona Francisca Nolasco entre as alunas normalistas. No acervo do Instituto de Educação Presidente Kennedy, não se obteve informações quanto ao seu ano. A probabilidade seria que a imagem fora tirada durante a década de 1950 em razão no uniforme das alunas e modelo da gravata utilizada. Podemos visualizar 14 normalistas bem apresentadas e a diretora ao centro da fotografia. Foi a primeira mulher a dirigir a Escola Normal de Natal, o Instituto de Educação e o Instituto de Educação Presidente Kennedy. Iniciou a trajetória administrativa em 30 de setembro de 1952, com a sua primeira nomeação para o cargo de direção da Escola Normal. A partir de então, abrindo caminhos para a nomeação de outras Diretoras na instituição “[...] não pude ser a melhor. Fui apenas a primeira, depois de sete direções masculinas.” (FERNANDES, 1973, p. 151). Entre os meus gratuitos apelidos de diretora, um era – Diretora Política. Meu marido era deputado Estadual e líder do Governo na Assembléia. Por isso me acusavam de ser diretora política e eu nunca me incomodei, porque eu sabia que isso não me afetava, uma vez que o diretor que me indicara, não misturava política no seu Departamento, por isso serviu 18 anos aos diversos governos e interventorias desse período. (FERNANDES, 1973, p. 130). 85 O apelido de diretora política surge em razão de seu marido ser deputado estadual e líder do Governo na Assembleia. Tinha proximidade com a área e diante das circunstâncias, Dona Francisca Nolasco passa a lutar pela construção de um prédio fixo para abrigar a Escola Normal de Natal. Para ilustrar o lado competente e dinâmico de Francisca Nolasco recorro ao depoimento do então Suplente de Senador e ex Secretário de Educação do Rio Grande do Norte, João Faustino, citado por Morais (2006) durante o governo Tarcísio de Vasconcelos Maia, quando Chicuta Nolasco exercia a função de secretária: Na condição de secretária cuidava dos meus afazeres e torcia todos os dias pelo sucesso do nosso trabalho, redigia a minha correspondência pessoal e em cada carta respondida, sempre com a linguagem limpa e perfeita, existia uma lição de amizade, um exemplo de educadora, uma palavra de afeto. O texto de Dona Chicuta era refinado, cheio de sentimentos e de contornos poéticos. Três décadas nos afastam de um tempo promissor para a educação do Rio Grande do Norte. Época em que se implantou o estatuto do magistério, se qualificou doze mil professores que eram leigos, se fez a chamada escolar, se construiu 1.200 salas de aula, se criou a orquestra sinfônica do Estado promovendo concertos didáticos nas escolas públicas, se deu celeridade e eficiência à máquina pública. No contexto desse sucesso, estavam as pessoas, foram elas que deram vida ás coisas criadas, delas saíram o talento e o idealismo, quase revolucionários, para promover mudanças e edificar o momento de grandes realizações na educação do Rio Grande do Norte. Dentre essas pessoas estava Dona Chicuta, a competente e sempre admirada ex-diretora da escola Normal de Natal, amiga otimista diante dos desafios do cotidiano. (MORAIS, 2006, p. 93). Dona Chicuta continua lembrada pelos pesquisadores que se interessam pela história da educação no Rio Grande do Norte, exemplo das pesquisas de Morais (2006), Silva (2013) e Aquino (2007). Segue palavras suas: Trinta e cinco anos de professora e mais uns cinco de aluna interina, fizeram-me um elemento fortemente ligado à Escola, pelo que recebi, por condicionamento, por princípios adotados, pelos fins alcançados, por tudo o que sou e pelo que tenho realizado, numa longa vida de trabalho, dedicação e amor. (FERNANDES, 1973, p. 89) 86 Nas palavras da professora Maria Arisnete Câmara de Morais (2006), em sua obra Chicuta Nolasco Fernandes: Intelectual de mérito. Dona Chicuta era a intelectual de mérito, atuante, com bastante prestígio entre os pares e alunas da Escola Doméstica e da Escola Normal de Natal. Na Escola Doméstica está o registro do Teatro Escola Chicuta Nolasco Fernandes, inaugurado em 1976. Patrona da cadeira número 25 da Academia Feminina de Letras do Rio Grande do Norte. Até hoje o seu nome é citado entre as educadoras do Rio Grande do Norte (MORAIS, 2006, p. 87). Crisan Siminéa Imagem 26 – Crisan Siminéa (1960-1970) Fonte: Instituto de Educação Presidente Kennedy. Imagem retirada do quadro em homenagem a professora Crisan Siminéa que encontra-se atualmente na Biblioteca do Instituto de Educação Presidente Kennedy (2015).Crisan Siminéa ocupou o cargo de direção no Instituto de educação entre os anos de 1967 e 1969. 87 Nasceu na cidade de Angicos/RN, em 27 de outubro de 1927. Filha do casal Francisco Siminéa Filho e Maria do Carmo Siminéa. Foi alfabetizada pela mãe em Angicos e passou longo período da infância aos cuidados dos avós maternos na Fazenda Jordão. Em 1936, seus pais vieram residir em Natal, a fim de que os filhos estudassem. Segue a imagem ilustrativa da Avenida Senador Georgino Avelino, em Angicos, terra de nascimento da professora/diretora Crisan Siminéa: Imagem 27 – Avenida Senador Georgino Avelino, em Angicos. Fonte: Instituto Tavares de Lyra. No ano de 1940, seu pai faleceu e sua mãe ficando viúva, passou por dificuldades para continuar criando os oito filhos. Apesar de seu pai ter sido funcionário do Ministério da Agricultura, não deixou pensão para a família, tornando a luta materna mais difícil, porém, ilimitada para educar os filhos. Razão do amor de Crisán Siminéa por sua mãe ser incomensurável (CARVALHO, [19--]). Iniciou a carreira como professora em 1942, dando aulas particulares. Cursou o Técnico em Contabilidade no Colégio Nossa Senhora das Neves entre 1943 a 1949. Turma concluinte de 1949 tendo como Paraninfo Luiz da Câmara Cascudo. Segue as palavras de Cascudo eternizadas na placa da turma: 88 A educação formando a cultura, é o elemento maravilhoso para garantir ao espírito a perpetuidade na terra. Resiste ao tempo e a onda adversa não abaterá sua vitalidade. A luz brilhará sempre, alta e pura, ensinando o caminho para as estrelas. (CASCUDO, 1949). Imagem 28 – Diploma da turma concluinte do Curso Técnico em Contabilidade no Colégio Nossa Senhora das Neves (1949). Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy (2015). Constam na imagem e que a visibilidade permite identificar: o Paraninfo Luís da Câmara Cascudo e a Diretora e Secretaria do Colégio das Neves nos postos mais elevados do diploma. Mais abaixo, entre os três homenageados da turma estão: o Padre Nivaldo Monte. Entre as treze contabilistas do ano de 1949 podemos identificar a oradora da turma Maria Zélia; seguida pelas formandas: Crisan Siminéa, Alice Ferreira, Alba Martires, Maria Lourdes Dantas, Maria da Conceição Gomes, Mariza de Moraes, Maria José Melo, Paula Franscinette, Teresinha Garcia e Terezinha Teixeira. 89 Crisan Siminéa foi bacharelada e licenciada em Letras Neolatinas pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Natal – UFRN entre 1960 e 1962; Também Licenciada em Pedagogia com Habilitação em Supervisão Escolar no ano de 1976 pela UFRN. Obteve o título de Mestre em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), ano de 1982 sob o tema da dissertação O Ensino da Literatura e a Leitura do Texto Literário (SIMINÉA, 1982). Imagem 29 – Professora Crisan Siminéa em sua Diplomação (1960-1962). Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy. A fotografia nos mostra a professora e diretora Crisan Siminéa em cerimônia de formatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Obteve aprovação em dois concursos públicos: Auxiliar de ensino na disciplina Literatura Portuguesa/UFRN em 1971 e a aprovação para Professor Assistente do Departamento de Letras da UFRN, na disciplina de Língua Portuguesa em 1977. Ministrou aulas em vários estabelecimentos de ensino na capital potiguar, dentre os quais destacamos: o Instituto Sagrada Família, a Escola Padre Miguelino, o Colégio Estadual Ateneu Norte-Rio-Grandense, a Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (atualmente 90 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte – IFRN), o Colégio Santo Antônio Marista, a Associação Potiguar de Ensino e Cultura, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e a UNIPEC (atual nomenclatura Universidade Potiguar). Dos anos de 1960 a 1990, boa parte da vida da professora é dedicada à educação, alternado e conciliando as funções de professora e diretora. “Seu legado tem caráter didático e educacional através do qual é lembrada como uma educadora de referência.” (SILVA, 2013, p. 130). Segue Homenagem da Secretaria de Educação, Cultura e Desporto: Imagem 30 – Homenagem da Secretaria de Educação, Cultura e Desporto a professora Crisan Siminéa como Apóstola da Educação (1998). Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy. Fundou a Escola Almirante Ary Parreira, atuando como professora. Vasta foram as atividades da referida professora em diversas Instituições de ensino antes e após assumir cargos de Direção em variadas Instituições educativas, que retomo com detalhes mais adiante. A nível médio foi professora de Português no Instituto municipal João XXIII, no colégio Santo Antônio, na escola técnica do comércio municipal e do curso científico do 91 colégio estadual professor Amphiloquio câmara; foi Coordenadora do 2º curso intensivo para professores leigos. Participou de diversas comissões de organização dos programas de português e das normas para a realização de exames de admissão; também foi participante de comissões de julgamentos de concursos variados, a exemplo do concurso de poesia no colégio estadual Atheneu Norte-Riograndense em 1964 e participou da elaboração de Regimentos escolares. Integrou o conselho Estadual de Educação e como representante deste, o conselho de administração do Instituto de Formação de Professores Presidente Kennedy. Enquanto educadora, Crisan Siminéa participou de diversos estudos e projetos visando estabelecer e enfatizar a importância da educação enquanto instrumento do crescimento humano e cultural. Suas publicações, essencialmente voltadas para a proposição de parâmetros e definições do ato de estudar e da compreensão da língua enquanto ferramenta, são frutos de pesquisas e trabalhos desenvolvidos ao longo dos anos junto aos seus alunos e com a parceria de professores colaboradores. (MEDEIROS; MORAIS, 2002, p. 6). Antes de assumir a gestão como Diretora Geral do Instituto de Educação Presidente Kennedy em 1967, a professora Crisan Siminéa já havia desempenhado a função de gestora em outras Instituições de ensino. Foi Diretora Geral do colégio Atheneu Norte-Riograndense entre 1964-1966, em seguida foi diretora do Instituto Pe. Monte entre 02 de fevereiro de 1966 a abril de 1967. Durante a gestão no Instituto de Educação Presidente Kennedy, a educadora realizou diversos cursos nas áreas de Extensão e aperfeiçoamento, entre eles: Curso de Administração Escolar – Centro Regional de Treinamento em Administração – Universidade do Ceará em 1967; Curso de Extensão Universitária Fenômenos Parapsicológicos de conhecimentos – Instituto de Parapsicologia – São Paulo – 1968; Curso Intensivo de Didática de Ensino Superior – Fundação José Augusto – 1969; Encontro de Professores de Práticas de Ensino – SEEC – 1969; Curso de Técnica de Ensino – ETFRN – 1969; Curso de Leitura Dinâmica – SENAC – Administração Regional – RN – 1969; Curso de Perspectivas do Desenvolvimento Global – Fundação José Augusto em 1970; Curso de Tendencias e Possibilidades das Relações Públicas e Comunicações – Faculdade de Jornalismo “Eloy de Souza” – 1970; Treinamento em Técnicas de Trabalho em Grupo – Centro de Educação Integrada (CIE), em 1970; Curso de Treinamento em Dinâmica do Grupo – Colégio Marista – 1970; Curso de Extensão Universitária e Atualização de Conhecimentos: Comunicação e Ensino – PUC – São 92 Paulo – 1971; Curso de Iniciação a Pesquisa – Faculdade de Farmácia – UFRN – 1971; Curso de aperfeiçoamento para Diretores 2º grau – SEEC em 1972 (CURRICULO..., [19--]). Participou da elaboração do Regimento do Instituto de Educação Presidente Kennedy em 1968. Participou do encontro para Diretores e professores de prática de ensino em 1969, participou doIV encontro para Diretores de escolas normais de 1º e 2º ciclos em 1969, também foi participante do 1º curso para diretores de escolas normais de 1º e 2º ciclos também em 1969, Coordenou Cursos de Titulação de Professores Leigos a nível de 2º grau – Instituto de Educação Presidente Kennedy – SEEC/MEC – 19773/1974 (CURRICULO..., [19--]). Imagem da professora/diretora próxima a alunas normalistas do Instituto Kennedy: Imagem 31 – Diretora Crisan Siminéa junto a Normalistas no Instituto de Educação Presidente Kennedy (1967-1970). Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy. Na fotografia podemos observar a professora Crisan Siminéa em um provável momento de descontração, próxima as alunas normalistas. Todas parecem estar se divertindo e conversando. Constam na imagem: seis alunas, a professora Crisan Siminéa e uma outra moça, provavelmente professora em razão de não estar utilizando o uniforme da Escola Normal. 93 No Instituto de Educação Presidente Kennedy, entre 1973 e 1974, foi Coordenadora dos Cursos de titulação de professores leigos a nível de 2º grau; Professora de Língua Portuguesa, Literatura Portuguesa e Brasileira dos cursos de titulação de professores leigos a nível de 2º grau. Foi assim a trajetória de Crisan Siminéa no plano educacional em acordo com as palavras da professora Dalva Cunha: Ela foi o jardineiro que plantou, retirou as ervas daninhas, dando amor, incentivando, exigindo o melhor, realizando o seu projeto com perfeição. Falar sobre Crisan é recordar a Escola Estadual Presidente Kennedy dos anos 70, quando aqui cheguei. Com o seu exemplo e sua perseverança conseguiu formar a equipe de professores de que necessitava e se orgulhava. Para ela era um compromisso de honra encaminhar as jovens na retidão, lealdade, responsabilidade, preparando-as para o imprevisível, isto é, desenvolvendo a capacidade de resolverem problemas, aptidões para enfrentarem a realidade lógica das coisas, e, naturalmente, serem educadas para poderem educar. Sua energia transbordava e transformava o comportamento das futuras professoras. Ela não desejava o bom, exigia o ótimo. (CUNHA, 1995). Lembrar a Diretora Crisan Siminéa para a professora Dalva Cunha, ainda em acordo com as suas palavras, é recordar as reuniões dos professores e equipe administrativa, almoços felizes e descontraídos, onde o rir era o tempero principal (CUNHA, 1995). Nas palavras da diretora Crisan Siminéa, a educação exige sacrifícios, renúncias e professores especializados. O professor primário é um cultivador, um modulador de almas em formação e prepará-los bem é o dever de toda Normalista: Não vos pergunteis – o que vou fazer? ENSINAI. Segui os ensinamentos de Cristo, ensinai. Recordai as palavras do patrono de vosso Colégio, Presidente John Kennedy: ‘Não penso naquilo que meu país pode fazer por mim, mas no que eu posso fazer por ele’. (SIMINÉA, [197?]). Para a referida diretora era um compromisso de honra encaminhar as jovens na retidão, lealdade, responsabilidade. Preparando-as integralmente, isto é, desenvolvendo a capacidade de resolverem problemas, aptidões para enfrentarem a realidade, e, naturalmente terem uma boa educação para poderem educar. Ela não desejava o bom, exigia o ótimo. Segue as palavras de Crisan Siminéa proferidas em um discurso para as alunas do Instituto Kennedy (1969?). Através do discurso percebe-se como ela entendia a educação e o que esperava das alunas da escola em vista do futuro: 94 Palavras de Crisan: A convivência foi curta, mas a doação foi profunda. Direção, professores e alunos se doaram num mesmo fim. – a educação. Já vos disse que a educação é uma dinâmica de conjunto, e só a formação do espírito garante a perpetuidade, resiste ao tempo, e a onda adversa não abaterá sua vitalidade, a luz brilhará sempre lata e pura. A educação exige sacrifícios, renúncia e assim fostes preparados. Caminhaste com sacrifício três anos para um colégio quase que fora da cidade. Aceitastes ensinamentos e disciplina, renunciastes festas, mas formastes o fosso espírito. Confio que tudo isto não foi em vão, o desejo que tendes de servir à educação como retribuição de que recebestes será sentido pelo poder Público na década de 70, já anunciada e decantada como Década da Educação. A necessidade de professores especializados, ou melhor mais bem formados é uma verdade constatada. Para auxiliarmos a suprir esta necessidade, não temos medido esforços, todavia, não sentimos o prazer e a felicidade de vê- los aproveitados. A culpa talvez seja por falta de recursos do próprio Estado pois os vencimentos não condizem com a profissão. O comércio, a indústria oferecem mais e a necessidade de sobrevivência afasta-os da sala de aula. Entre o leigo, que às vezes por falta de preparo não pôde ingressar em outra atividade, o magistério apresenta-se como o mais fácil. A inversão de valores sempre foi marcante. A política partidária, os interesses pessoais, muitas vezes não deram lugar a justiça. Acreditamos na reorganização do país, confiamos no sacrifício dos homens atuantes, pois a reeducação é muito mais árdua, e eles agora trabalham e lutam por isto. Sabemos que esta geração é a do sacrifício para o bem futuro. Aceitai o sacrifício como nós o aceitamos. Pensai na geração futura, pensai no Brasil, pensai na união entre os homens, vós fostes preparados com civismo, com amor, com doação, com renúncia para que inicieis aquilo que sempre pensamos em fazer: a formação integral, a formação do homem para a vida. O professor primário tem mais oportunidade que o professor no Ensino Médio e o Universitário. Ele é um cultivador, um modulador de almas em formação. Prepará-los bem, é o nosso dever. Não foi em vão que analisamos juntos o discurso do então Presidente: ‘Sou oferta e aceitação’. Sêde oferta, sede aceitação, aceitação do que for justo. Não aceiteis por interesses pessoais, mas pelo interesse coletivo, pelo bem comum, pelo bem do Brasil. Não vos pergunteis – o que vou fazer? ENSINAI. Segui os ensinamentos do Cristo, ensinai. Recordai as palavras do patrono de vosso Colégio. Presidente John Kennedy: ‘Não penso naquilo que meu país pode fazer por mim, mas no que eu posso fazer por ele’. 95 Sêde, meus caros alunos, efervorados, entusiastas, cheias de aspiração do futuro. Habituastes a obedecer para aprender a mandar, acostumastes a ouvir para entender, portanto, tendes tudo. Não delireis nos vossos triunfos para não arrefecerdes. Imaginai que podeis vir a saber mais do que sabeis. Aprofundai a escavação insaciável do saber. Lembrai-vos sempre das inteligências que ide cultivar, elas são frutos da natureza criadora. Recordai o poeta: ‘A educação é uma arte de amor – realizá-la perfeita é colaborar com Deus, completando dignamente a obra’. Sêde dedicados, assíduos e pontuais, pois a responsabilidade é firmada neste trinômio. Não há educação sem responsabilidade – palavra que vos habitueis a ouvir nos corredores do vosso colégio. Evitai o superficial, sede práticos. Proponde a tarefa racional. Moderada, circunscrita, segundo o vosso alento. Corrigi as imperfeições. Atendei igualmente os mais ou menos dotados de inteligência ou outras dádivas. Não sejais piedoso, mas humano. Humanizai o vosso trabalho. Não dissimuleis com vossa obra, mas deixai que ela permaneça em vossas mãos até quando puderdes concluir. Se assim fizerdes, em pouco tempo tereis adquirido o hábito do trabalho sério, educativo e fertilizante. Praticai assim, não vos arrependais, contrui o vosso nome e a vossa perpetuidade. Assim vos falo, não em meu nome, mas de todos aqueles que fazem o Instituto de Educação ‘Pte. Kennedy’, aqueles que generosamente semearam nos vossos corações a semente fecunda da verdade, do amor e do bem. Eles vos deram o que demelhor possuem – toda dedicação de sua vida. E vós, jovens, fostes uma presença em nosso caminho de Mestres e Educadores. E muito vos devemos de compreensão na luta cotidiana pelo bem. Se por vezes, vosso espírito irriquieto e turbulento provocou em nós uma reação um pouco áspera, por outro lado, vossa estima e dedicação nos venceram e nos levaram a uma maior doação. E nesta hora em que recebeis a recompensa dos vossos esforços, nós nos congratulamos com os vossos pais. A eles cabe a maior parte desta alegria. A vos queridos pais as felicitações sinceras dos professores deste colégio. Queridos alunos, cantai vosso hino de triunfo, mas não parai. Continuai a subir até a meta final de uma Faculdade. O campo da instrução é ilimitado. Ide... todavia não estamos nos separando, estamos nos unindo mais, pelos mesmos ideais, pelo mesmo fim, pelo bem do Brasil, pela EDUCAÇÃO. (SIMINÉA, [197-?], p. 1-2). 96 No publicado discurso, a diretora Crisan Siminéa exalta a decáda de 1970 como a década da educação. Lembrando que estava em eminência a Lei Nº 5692/71 que sucintamente visava à profissionalização do então ensino secundário, na tentativa de unificar os antigos ensino primário e médio. Centrado na Pedagogia Tecnicista, linha de ensino adotada por volta dos anos de 1970. Essa pedagogia pode ser considerada não-dialógica pois cabe ao aluno assimilar passivamente os conteúdos transmitidos pelos professores. Imagem 32 – Crisan Siminéa próxima a uma formanda Normalista (1960-1970). Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy. Pode-se observar a professora Crisan Siminéa em uma possível cerimônia de formatura de alunas normalistas da Escola Normal de Natal. A leitura da imagem acontece em razão da vestimenta utilizada pela moça ao seu lado, composta por roupa tradicional de cerimônia de formatura. Possivelmente na imagem também consta a presença de uma professora ou familiar da aluna. Vários poemas e homenagem a professora/diretora Crisan Siminéa que auxiliam na construção do perfil da diretora foram legados através do acervo pessoal que encontra-se no 97 Instituto de Educação Presidente Kennedy. Entre eles o da professora Dalva Cunha, expressando a saudade da mestra: E novamente eu quero lembrar Crisan, Neste seu velho Kennedy, Em cada porta que abro, Em cada sala que entro, Em cada aluna que passa, Revivendo o perfil, De má antiga aluna, Aquela com a farda impecável, Que era um dos itens de seu orgulho, Mas tudo passou... Eis que chegou o fim E ela foi defender os seus princípios, Lá no infinito junto as estrelas (CUNHA, 1995). Constam também no acervo algumas homenagens, entre elas, a do Jornalista Roberto Guedes datada do ano de 1996 a Crisan Siminéa exaltando-a como Educador do Ano: Imagem 33 – Homenagem do Jornalista Roberto Guedes a professora Crisan Siminéa – Diploma de Educador do Ano Crisan Siminéa (1996). Fonte: Acervo pessoal e doação familiar da professora Crisan Siminéa que se encontra no arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy. 98 Foram extensas as atividades da diretora e professora Crisan Siminéa no cenário educacional e merecidas todas as homenagens recebidas tanto em vida quanto após a sua morte. Entre as atividades administrativas e de planejamento a nível Universitário que desempenhou estão a Coordenação do departamento de Línguas – Faculdade de Jornalismo – “Eloy de Souza” entre 1966 a 1970 à época que também era diretora do Instituto Kennedy. Retornando a essa mesma Coordenação do Departamento de Letras em 1975 e permanecendo até 1976. Exatos um ano. Foi Coordenadora do cadastramento dos campos de Estágio Supervisionado para discentes da UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte – PRAEU – entre 1976 e 1977. Responsável pela elaboração e análise de Programas de Extensão Universitária – UFRN – PRAEU – 1976/1977, participando também nesse período dos trabalhos de elaboração dos relatórios anuais das atividades – PRAEU. Elaborou no ano de 1977 – Seminário de Comunicação para Docentes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Crisan Siminéa enxergava a docência como missão, assim sendo, foi considerada Apóstola da Educação. A representação da referida professora/diretora que se tentou expor nesse trabalho leva em consideração as leituras feitas a partir das homenagens, poemas, cartas de professoras e alunas que conviveram com a diretora em seu tempo de atuação. Constata a partir de seus escritos/próprias palavras a importância da educação enquanto instrumento de formação do espírito. A relação direta entre educação relacionada ao crescimento humano e cultural. Diretora lembrada pela postura que incentivava e exigia o melhor das suas alunas normalistas. Para Crisan Siminéa era compromisso de honra encaminhar as jovens na retidão, lealdade e responsabilidade. Serem educadas para poderem educar. No poema “Reino da Caridade”, a professora Haidée Simões, expõe o quanto a diretora está toda presente na dimensão da saudade aos que fizeram parte de seu convívio: No Reino da Caridade Crisan, partindo da Terra, de Deus só fez a vontade, foi aos poucos conhecendo o Reino da caridade! Su’alma já iluminada no infinito a flutuar 99 vê uma multidão de anjos que se encontram a lhe esperar! Vão-lhe dando as boas vindas tirando dela o receio, dizendo que só no mundo a gente encontra aperreio! Crisan, toda deslumbrada com tamanho encantamento, nunca viu nada mais belo do que o azul do firmamento! Dos seres espirituais sente o amor e a bondade, compreende, então, que Deus lhe deu a felicidade! Começa, pois a sorrir com os santos sempre brincando, as estrelas fazem versos pra su’alma, iluminando! Ela nos manda a mensagem e diz não sentir mais dor; no Reino Celestial, ela só sente o amor! Na caridade divina, só existe compreensão de que aquele que se vai consegue a libertação! Ninguém morre por morrer, esta é a única verdade, morre-se para viver a vida na eternidade! Crisan está toda presente na dimensão da saudade, Deus com ela está contente no Reino da Caridade! Professora Haidée Simões, 19/05/1995. (SIMÕES, 1995). 100 Hoje a Biblioteca do Instituto de Formação de Professores Presidente Kennedy (I.F.P.), leva o nome da Professora Crisan Siminéa. Inaugurada em Junho de 1995 nas presenças Exmo. Sr. Governador do Rio Grande do Norte, Garibalde Alves Filho – Secretário de Educação, Cultura e Desportos, Prof. João Faustino Ferreira Neto – Diretor Geral do I.F.P. Prof. Francisco Quinho Chaves Filho - como forma de prestar homenagem deixando sua imagem gravada junto aos livros que fizeram parte tão próxima da sua História de vida. Imagem 34 – Placa de Inauguração em homenagem a professora Crisan Siminéa que dá nome a Biblioteca do Instituto de Educação Presidente Kennedy (1995). Fonte: Biblioteca do Instituto de Educação Presidente Kennedy 101 Teresinha Pessoa Rocha Imagem 35 – Professora Teresinha Pessoa Rocha (Década de 1950-1960). Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy. A professora e diretora Teresinha Pessoa Rocha em acordo com os álbuns do jardim de infância modelo remanescentes no arquivo do Instituto de educação presidente Kennedy, informa-nos que ela foi Diretora da unidade - Jardim de Infância Modelo, pelo menos durante uma década, entre (1960 e 1970). Dona Terezinha era alta, magra, loira, postura elegante. Bastava ela olhar para entendermos o que ela queria dizer. Professora comprometida que trabalhava com o grupo. Havia integração e bom relacionamento entre as Diretoras. (BRANDÃO, 2015). 102 Na percepção de Thompson (1998), as entrevistas orais, quando bem conduzidas, se transformamem um instrumento eficiente para diminuir a distancia entre os informantes e o pesquisador e, por consequência, o acesso aos documentos privados, como é o caso das fotografias e correspondências. No caso, foram utilizados tanto diplomas de formaturas de alunos concluintes, quanto recordações escolares para traçar o perfil do Jardim de Infância e da Escola de Aplicação. Imagem 36 – Concluintes do Jardim de infância Modelo – Doutorandos do “A B C” (1960) Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria Coeli Mollick Brandão. Na imagem podemos identificar os formandos do Jardim de Infância modelo - Doutorandos do ‘’ABC’’ do ano de 1960. Diploma gentilmente disponibilizado pela ex aluna Maria Coeli Mollick Brandão que atualmente é funcionaria da Biblioteca do Instituto de Educação Presidente Kennedy. 103 Imagem 37 – Recordação Escolar do Jardim de Infância Modelo do Rio Grande do Norte (1958). Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria Coeli Mollick Brandão. Ezilda Elita do Nascimento Diretora da Escola de Aplicação entre os anos de 1963 a 1968, aposentando aos 15 dias do mês de março do ano de 1968. Por decreto datado de 16 de fevereiro de 1968, solicita a sua aposentadoria. O referido decreto consta publicação no diário oficial. Dona Ezilda era uma mulher forte e comprometida. Diretora atuante, preocupada em como os professores desempenhavam seu papel. Era ao mesmo tempo: orientadora, coordenadora e supervisora. (BRANDÃO, 2015). Dona Ezilda Elita do Nascimento foi citada por dona Francisca Nolasco Fernandes em seu livro Menina feia e amarelinha (1973), entre professores que honraram o magistério e deram à criança natalense, sua permanente dedicação (FERNANDES, 1973, p. 115). 104 Foram escassos os documentos remanescentes que pudessem traçar a trajetória da referida diretora na instituição. A não autorização de acesso a determinadas salas que compõem o arquivo da instituição podem ser mencionados nesse caso. Imagem 38 – Recordação escolar da Escola de Aplicação do Instituto de educação (1964). Fonte: Arquivo pessoal da professora e ex aluna da Escola de Aplicação Maria Coeli Mollick Brandão. Imagem 39 – Certificação da aluna Maria Coeli Mollick Brandão sendo promovida da 4º para a 5º série pelo Grupo Escolar Escola de Aplicação sob a diretoria de dona Ezilda Elita (1965). Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria Coeli Mollick Brandão. 105 Maria Arisneide de Morais Imagem 40 – Formatura de Maria Arisneide de Morais na Escola Normal de Natal (1961). Fonte: Arquivo pessoal da professora e diretora Maria Arisneide de Morais A professora Maria Arisneide de Morais nasceu no estado do Rio Grande do Norte, na cidade de Patu, a 20 de Setembro de 1939. Filha do casal Aristides Benigno de Morais e Maria Cristina de Morais; teve uma ampla atuação no cenário educacional no Estado do Rio Grande do Norte. Ocupou o cargo de direção no Instituto de Educação Presidente Kennedy entre os anos de (1970 – 1975). 106 A professora/diretora nasceu na cidade de Patu, município brasileiro no interior do Estado do Rio Grande do Norte. Os primeiros habitantes de Patu foram os índios cariris. Em seguida, criadores de gado vindos de Apodi estimularam seu povoamento. O povoado de Patu foi elevado a condição de distrito em 1852, pertencente ao município de Imperatriz (hoje Martins), sendo desmembrado em 1890. Imagem 41 – Estação ferroviária da cidade de Patu. Representando o local de nascimento da diretora Maria Arisneide de Morais Fonte: Acervo pessoal Anderson Tavares de Lyra e Instituto Tavares de Lyra. A educação formal da professora e diretora Maria Arisneide de Morais, é composta pelo curso ginasial, com duração de 4 anos no colégio Estadual Atheneu Norte Riograndense. Ingressou em seguida na Escola Normal de Natal no ano de 1959, fazendo parte da turma Governador Aluísio Alves – 50º – ‘A’ diplomada em 1961. A época de sua diplomação era Diretora da Instituição de formação de mestres primários a educadora Francisca Nolasco Fernandes. Sobre a formação das Normalistas a mesma relata o seguinte em seu livro de memórias: “Levava-se tudo muito a sério, então. Estudo, disciplina, frequência, comportamento, aptidão pedagógica.” (FERNANDES, 1973, p. 108). 107 Imagem 42 – Placa de Formatura de Maria Arisneide de Morais na Escola Normal de Natal Turma Governador Aluízio Alves (1961). Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria Arisneide de Morais. Imagem 43 – Diploma de Professor Primário na Escola Normal de Natal (1961). Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria Arisneide de Morais. 108 A professora e diretora Maria Arisneide de Morais atuou na Escola Normal de Natal como professora, coordenadora de prática de ensino e diretora entre os anos de (1970 - 1975). Ou seja, passou por todas as instâncias dentro da Instituição: de aluna à Diretora da Escola Normal de Natal. A seguir imagem da cerimônia de formatura na Escola Normal de Natal: Imagem 44 – Cerimônia de formatura pela Escola Normal de Natal com a Diretora Francisca Nolasco Fernandes (1961). Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria Arisneide de Morais. Realizou diversos Cursos ao longo da sua carreira profissional, entre eles: curso de diretores de estabelecimento de ensino normal do nordeste no Centro Regional de pesquisas educacionais do Recife com duração de dois meses; Curso de didática geral na Faculdade de Educação em Natal durante 1 semana; Curso de formação de professores de prática de ensino no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais na Guanabara durante um ano; Curso de arte na educação (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC) e o Estágio do Projeto II (Assistência técnica – pedagógica ao Ensino Normal) pelo Centro Regional de Pesquisas Educacionais “João Pinheiro” em Belo Horizonte por dois meses. 109 Diplomou-se também no curso Superior de Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 20 de dezembro de 1966, fazendo parte da primeira turma do curso de Pedagogia diplomada no contexto da Federalização (SILVA, 2013). Imagem 45 – Diploma de Licenciatura em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Natal – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1968). Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria Arisneide de Morais. A educadora Maria Arisneide de Morais foi estagiária na cadeira de Metodologia do Ensino Primário, na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Lecionou em vários estabelecimentos de ensino a exemplos do: Grupo Escolar Augusto Severo, Externato Francisca Sampaio e Ginásio; Foi professora de Didática dos Estudos Sociais, Didática das Ciências, Didática da Linguagem, História da Educação, Didática Geral e Educação Pré-primária no Curso Normal do Instituto Maria Auxiliadora; Professora de Didática dos Estudos Sociais e Planejamento no curso de treinamento para professores de Educação de adultos promovidos pelo SESI; Professora de Didática geral e prática de ensino no IV Curso intensivo de formação de regentes – Natal/RN; Professora no Curso de atualização em técnicas de ensino para professores da Escola Normal do Instituto de 110 Educação Presidente Kennedy; Coordenadora de prática de ensino da 1º série do Curso / Normal do Instituto de Educação Presidente Kennedy. Eu era considerada uma professora que não reprova nenhum aluno, porque quando sentia alguma dificuldade me voltava para resolver. Gostava de criar e elaborar estratégias para facilitar a compreensão dos meus alunos, atividades pedagógicas práticas e diferentes. Dificilmente fazia estudos de grupo porque não acredito muito nesse método de aprendizagem, acaba-se por diluir o aprendizado. (MORAIS, 2014). Entre os concursos prestados estãoo de auxiliar de orientação educacional na Escola Técnica Federal do Rio Grande do norte; Professor de didática geral do Estado do Rio Grande do Norte pela Secretaria de Educação e Cultura; concurso de orientador Pedagógico – SENAC. Nomeada em caráter efetivo e aprovada em concurso na cadeira de Didática Geral e Prática de Ensino, exerceu o cargo de Professor do Ensino Médio, do quadro do Magistério Público do Estado. Sua lotação foi estabelecida no Instituto de Educação Presidente Kennedy. Palácio da Esperança, Natal, 16 de Maio de 1968. Segue o documento: Imagem 46 – Documento emitido pelo Governo do Estado do Rio Grande do Norte (1968). Fonte: Arquivo Pessoal da professora Maria Arisneide de Morais. 111 Aprovada em concurso público, Maria Arisneide foi nomeada para exercer a docência no Instituto de Educação Presidente Kennedy na cadeira de Didática Geral e Práticas de Ensino, exercendo o cargo de Professor do Ensino Médio, do quadro do Magistério Público do Estado. Foi professora das Disciplinas de Sociologia Educacional, Didática Geral e História da Educação. Passando em seguida para a Coordenação de Práticas de ensino e depois a Direção na referida Instituição. Certificou-se em 27 de Fevereiro de 1971 no Curso de Diretores de Estabelecimentos de Ensino Normal do Nordeste, oferecido pelo Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos no Centro Regional de Pesquisas Educacionais do Recife, em Recife/PE (CURRICULO..., 1973). Imagem 47 – Professoras, diretoras e normalistas no Instituto de Educação Presidente Kennedy (Década de 1970). Fonte: Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy. Na fotografia constam as Professoras e Diretoras Crisan Siminéa e Maria Arisneide entre professoras e alunas Normalistas no Instituto de Educação Presidente Kennedy. Diante da fotografia podemos observar as professoras e diretoras Crisan Siminéa e Maria Arisneide de Morais, com professoras e alunas Normalistas do Instituto de educação Presidente Kennedy. Algumas crianças também se encontram presentes na foto: seriam as crianças do Jardim de Infância? filhos das normalistas? o momento é de descontração, sem dúvidas. Os sorrisos dizem mais que mil palavras. 112 Quadro 7 – Plano curricular e carga horária por série do ano de 1973 da Escola Normal do Instituto de Educação Presidente Kennedy. DISCIPLINAS OFERTADAS NA ESCOLA NORMAL – 1973 Português Administração e Estatística Sociologia Filosofia e História da educação Psicologia da Aprendizagem Psicologia do Desenvolvimento Biologia Educação Artística Educação Moral e Cívica Filosofia Prática de Ensino Metodologia da Linguagem Metodologia da Matemática Metodologia de Estudos Sociais Metodologia das Ciências Educação Física Fonte: Plano Curricular e Carga horária por série – Acervo do Instituto de Educação Presidente Kennedy. 113 Quadro 8 – Estudos adicionais curriculares (1973). ÁREA DISCIPLINA CARGA HORÁRIA Comunicação e Expressão 1. Língua Portuguesa 5 2. Literatura Brasileira Infanto Juvenil 3 3. Educação Artística 3 4. Educação Física 3 5. Metodologia e Prática da Comunicação e Expressão 8 5.1 Língua Portuguesa 6 5.2 Educação Artística 2 6. Psicologia da Educação (Aprend. E Pré-adolescência) 4 7. Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1º grau 4 Total de Horas Semanais 30 Horas Estudos Sociais 1. Sociologia 3 2. Educação Moral e Cívica 3 3. Geografia 4 4. História 4 5. Metodologia e Prática dos Estudos Sociais 8 6. Psicologia da Educação (Aprend. E Pré-adolescência) 4 7. Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1º grau 4 Total de Horas Semanais 30 Horas Ciências 1 Ciências (Noções de Química, Física e Biologia) 7 2 Matemática 7 3 Metodologia e Prática das Ciências 8 4 Psicologia da Educação 4 5 Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1º grau 4 Total de Horas Semanais 30 Horas OBS: Horas de Estágio por turma: 240 hs. Fonte: Plano Curricular e Carga horária por série – Acervo do Instituto de Educação Presidente Kennedy. 114 Quadro 9 – Corpo Docente do Instituto de Educação Presidente Kennedy – Escola Normal (1973-1974). Nome Disciplina 1 – Alice Barros Espínola Metodologia das Ciências 2 – Ana Rosa de Holanda Fontes Educação Artística 3 – Ana Célia Maia de Medeiros Metodologia Estudos Sociais 4 – Albanise M. Sampaio Marinho – 5 – Aldeniso Gomes da Silva – 6 – Cláudia Nunes de Miranda Educação Física 7 – Dalva Maria da Silva Ciências 8 – Diva M. Cunha Pereira de Macedo Metodologia da Linguagem 9 – Doracy Fernandes Português 10 – Edith de Oliveira Lima Metodologia dos Estudos Sociais 11– Eloiza Cristina dos Santos Metodologia da Linguagem 12 – Francisca de Assis Lacerda Silva Metodologia das Ciências 13 – Francisca Carneiro da Câmara Psicologia 14 – Gilvanete de Souza Galvão Metodologia das Ciências 15 – Isolda Trigueiro de Lima Educação Física 16 – Italo Bezerra da Silveira Educação Artística 17 – Isabel de O. Melo e Silva – 18 – Iraci José da Silva Educação Física 19 – Irani de Arruda Câmara Artes 20 – Joaquim Herly Parente Filosofia 21 – João Batista da Silva História da Educação 22 – João Bueno Medeiros de Sousa Educação Física 23 – Luzia Antonieta Maia Metodologia da Matemática 24 – Maria Gilma de Sena Metodologia da Linguagem 25 – Maria Abigail de Lima Barros Práticas de Ensino 26 – Maria Salete Fernandes Artes 27 – Maria Lúcia da Silva Metodologia das Ciências 28 – Maria Joana D’arc Silveira de Medeiros. Psicologia 115 29 – Maria Cleonice P. Sociologia 30 – Maria Isabel Sarmento Rodrigues Administração 31 – Maria da Glória da Silva Santos Práticas de Ensino 32 – Maria Salizete Ferreira Moral e Cívica 33 – Maria Gisélia Lima dos Santos Biologia 34 – Marlene Pereira da Silva Psicologia 35 – Mitsi Nesi Simonette Português 36 – Margarida Câmara Bezerra Metodologia da Matemática 37 – Mietje Mara de Aquino Metodologia das Ciências 38 – Manoel P. de Medeiros – 39 – Maria Dalva Soares Cunha Português 40 – Maria das Graças Soares da Silva Português 41 – Maria Evilene dos Santos Lima Educação Física 42 – Maria Julia de Paiva Almeida Metodologia da Linguagem 43 – Othoniel Marques Guedes História da Educação 44 – Paula F. C. de Paiva - 45 – Raymunda do Carmo Fernandes - 46 – Sonia M. de Oliveira Cavalcanti Matemática 47 – Tânia Maria Magalhães Biologia 48 – Vancy Dias da Cunha Estudo Psicologia 49 – Wildson Leiros Educação Física Fonte: Rio Grande do Norte (1973-1974). A professora e diretora Maria Arisneide de Morais trabalhou na Secretaria de Educação na unidade setorial de planejamento e no Ministério da Educação e Cultura (MEC) morando em Brasília em 1986; e na Fundação Estadual de Planejamento Agrícola do RN. Na extinção da Fundação a professora passou a exercer atividades no Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente/IDEMA. Hoje se encontra aposentada e dedicada ao seu filho Gustavo (MARIA ARISNEIDE, 2014). 116 A imagem a seguir é datada da década de 1970, período em que a diretora Maria Arisneide de Morais administrou o Instituto de Educação Presidente Kennedy. Imagem 48 – Diretora Maria Arisneide de Morais em sala de aula (Década de 1970). Fonte: Acervo pessoal da Professora Maria Arisneide de Morais. 117 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Olho para trás. Espio os anseios iniciais, relembro das motivações e do ímpeto que me trouxeram até aqui. Olho para frente com alegria, é hora de finalizar a dissertação. Um sonho a ser trazido para a realidade. Não há nada melhor do que ter paixão e felicidade juntas em um mesmo "projeto" de vida e estudo: a pesquisa. Imagem 49 – Woman in Front of the Setting Sun (1818), Caspar David Friedrich. Caspar David Friedrich (1774 – 1840). Woman in Front of theSetting Sun (1818), Óleo sobre tela, Germany. Fonte: Museum Syndicate (2017). Faço uso da obra do artista romântico Alemão David Friedrich para representar como me sinto nesse momento de conclusão da dissertação. Caminho percorrido, etapa cumprida, e aguardando serena o que o nascer do sol irá me trazer. O Por vir é sempre amplo, naturalmente. Busquei no decorrer deste trabalho analisar a atuação das professoras e diretoras: Francisca Nolasco Fernandes, Crisan Siminéa, Ezilda Elita do Nascimento, Teresinha Pessoa Rocha e Maria Arisneide de Morais no espaço materializado do Instituto de Educação Presidente Kennedy (1952-1975). Acreditando que a reconstituição da história profissional 118 dessas mulheres se faz necessária para a composição do quadro da História da educação no Estado do Rio Grande do Norte. Nos arquivos, procurei dados acerca da atuação das referidas professoras e diretoras do Instituto de Educação que possibilitassem reconstituir suas praticas de gestão e a forma que desempenharam suas funções na referida Instituição. Vestígios do passado: textos, imagens, diplomas, certificados, discursos, livros de registros, currículos e homenagens. Tudo poderia ser válido e de grande ajuda. “[...] são inúmeros os depoimentos dos especialistas de suas maravilhosas estupefações com o que descobrem com a leitura das fontes.” (COSTA, 2010, p. 2) Entendi ao longo do processo que a reconstrução do passado só é possível com o estudo e a análise das fontes que esse passado nos legou, que o tempo permitiu que chegassem até nós. Não é raro deparar com material sem condições de leitura: rasgados, destruídos por cupins ou traças. Perecidos pela força do tempo e também do descaso. Com as leituras dos trabalhos do Professor e Historiador Ricardo da Costa constatei que essa dificuldade não é só minha e que esse obstáculo não pode ser empecilho para o desempenho do ofício do historiador “[...] a consciência da dificuldade de se recontar o passado por parte dos historiadores nunca desestimulou as tentativas de construção de conhecimento desse mesmo passado, nem o constante fascínio causado por esse processo.” (COSTA, 2010, p. 1-2). A medida que encontrava indícios das atuações das diretoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy, visualizava um universo de performance e de acontecimentos que se entrelaçaram em suas vidas profissionais: mudanças educacionais e de Legislações, mudanças de espaço físico, acontecimentos políticos. “As fontes. O contato com elas. Esse é o momento em que o historiador é, de fato, um verdadeiro artista. [...] É quando então consegue o contato direto com os rastros do passado.” (COSTA, 2010, p. 2). Dessa maneira, consegui confrontar alguns dados, imaginar situações, meditar as possibilidades viáveis dos documentos retirados da poeira dos arquivos. Exercitei voltar ao passado. O esquecimento do tempo presente: esse foi o exercício mais difícil nessa caminhada. Tal qual o filme De volta para o futuro me imaginei uma ‘’Marty McFly’’ as avessas transportando-me para outro espaço e tempo – no meu caso, sem o carro modificado pelo excêntrico cientista Doutor Brown. Imaginei essas diretoras passeando pelos corredores do Instituto de Educação Presidente Kennedy a cada visita aos arquivos da Instituição e suas relações com as Normalistas: Como se vestiam? Como se portavam? Como atuaram? Sensibilidade Histórica de portar a outro tempo. Algumas dessas perguntas encontrei as 119 respostas confrontando fotografias. A fotografia é uma imagem eternizada no tempo, assim como a pintura também pode desempenhar esse papel. Angústias me assolaram: estaria no caminho certo? estaria realizando um bom trabalho? Sobre algumas diretoras encontrei farta documentação, a despeito de outras, não tanto: e agora o que fazer? iniciei a pesquisa com a pretensão de narrar a atuação das diretoras que compunham o corpo de gestão do Instituto de Educação Presidente Kennedy em sua primeira década de funcionamento (1965-1975), – teria chegado próximo a essa pretensão? É necessário recuperar a pretensão de que somos capazes de construir uma narrativa sólida, documentalmente bem fundamentada e razoavelmente isenta do passado, apesar de todas as dificuldades da caminhada. A História descreve o que é verdadeiro (ou provável – tenta-se), não podemos esquecer em nenhum momento durante o percurso da pesquisa essa valiosa informação. É uma narrativa de acontecimentos verdadeiros. Mas o que é a verdade? “É o êxito de um procedimento cognoscitivo, no qual se constrói uma correspondência – por mais difícil e esquiva que seja a verdade daquilo que oferecem os testemunhos de uma época.” (COSTA, 2010, p. 3) Estaria eu fazendo “jus” a essa verdade? E quando acontece essa verdade na escrita do Historiador? “[...] quando há conformidade entre o intelecto (do observador) e a coisa (observada).” (COSTA, 2010, p. 3). Leituras realizadas nos textos da pesquisadora Ana Maria de Oliveira Galvão (1996) orientaram sobre o potencial de fontes como a literatura, a fotografia, os diários de época que acabam por revelar aspectos em geral negligenciados e pouco perceptíveis em pesquisas baseadas unicamente em documentos oficiais. Os estudos dos textos em Eliane Marta Teixeira Lopes (1994) possibilitou o entendimento em pensar as questões relacionadas às categorias em História da Educação e Gênero: do momento da escolha do material em fontes previamente selecionadas à interrogação do objeto para que ele revele, na sua fragmentação, a sua totalidade possível. Chego à conclusão desse trabalho que o percurso da Escola Normal de Natal/Instituto de Educação foi marcado pela ausência de espaço adequado para o seu funcionamento. O problema da falta de um prédio fixo para alojar a Escola Normal perdurou por décadas a fio, até seu definitivo estabelecimento no espaço do Instituto de Educação Presidente Kennedy no ano de 1965 – mas, será que esse espaço teria abarcado todos aqueles anseios tão desejados desde o início da sua constituição? a diferença entre a planta originalmente projetada pelos arquitetos da Aliança para o Progresso e a que fora entregue as normalistas e professoras ao final da obra, dizem que não. A Diretora Francisca Nolasco 120 Fernandes, tão empenhada na realização da construção do prédio, também diz que não em suas memórias: Menina feia e amarelinha (1973). A edificação fora entregue sem a finalização necessária, entre outros problemas estruturais. Precisou ser adaptado e ‘re’estruturado para abrigar o Instituto de forma um pouco mais digna. Ao longo do percurso consegui apresentar alguns vestígios da atuação das professoras/diretoras enquanto estiveram à frente do Instituto de educação e suas contribuições para a educação no Estado do Rio Grande do Norte. As marcas da professora Francisca Nolasco Fernandes que tinha a docência como vocação, ficaram como quem conquistou uma postura de educadora dedicada e atuante frente à Instituição que tanto se orgulhara de fazer parte. “A confiança que me creditavam, em vez de me envaidecer, comovia-me, e estudava, estudava muito para merecê-la.” (FERNANDES, 1973, p. 96). Na direção da Escola Normal, dignificar a figura da normalista foram desígnios da educadora Chicuta Nolasco, que pretendia despertar nas suas alunas a consciência da sua valorização profissional, a dignidade da carreira escolhida e o seu papel relevante na sociedade (MORAIS, 2006, p. 83). “Eu adorava ensinar. Queria bem as minhas alunas, sentia-me realizada.” (FERNANDES, 1973, p. 96). A professora Crisan Siminéa homenageada como apóstola da educação pela Secretaria de Educação e Cultura em Março 1998 e, pelo jornalista Roberto Guedes com o título de educador no ano de 1996; exerceu o papel de professora/diretora como missão. Através das impressões de Dalva Cunha (1995), diretora empenhada com a melhoria da educação:Crisan Siminéa foi o jardineiro que plantou amor, incentivando e exigindo o melhor. Realizando o seu projeto com perfeição. Falar sobre a referida professora e diretora seria recordar a Escola Estadual Presidente Kennedy dos anos 70, que com o seu exemplo e perseverança conseguiu formar a equipe de professores que necessitava e se orgulhava. Para Crisan Siminéa era um compromisso de honra encaminhar as jovens na retidão, lealdade, responsabilidade, preparando-as para o imprevisível, isto é, desenvolvendo a capacidade de resolverem problemas, aptidões para enfrentarem a realidade, e, naturalmente, serem educadas para poderem educar. Sua energia transbordava e transformava o comportamento das futuras professoras. Ela não desejava o bom, exigia o ótimo (CUNHA, 1995). Hoje a Biblioteca do Instituto Kennedy leva o nome da professora Crisan Siminéa. Não poderia ter sido homenageada de outra melhor forma. A professora Teresinha Pessoa Rocha, carinhosamente lembrada por Maria Coeli Mollick Brandão – ex aluna do Jardim de Infância e da Escola de Aplicação – como uma 121 figura alta, magra, loira, de postura elegante. Bastava ela olhar para se entender o que ela queria dizer. Professora comprometida que trabalhava com o grupo, promovendo boa integração e relacionamento junto as outras Diretoras.” (BRANDÃO, 2015) Ezilda Elita do Nascimento, mulher forte e comprometida. Diretora atuante, preocupada em como os professores desempenhavam seu papel. Era ao mesmo tempo: orientadora, coordenadora e supervisora (BRANDÃO, 2015). Quando entrevistei Maria Coeli, ela relatou sentir falta na atualidade desse comprometimento que existia entre os professores de antigamente e que não se vê mais nos dias de hoje. Maria Arisneide de Morais que gentilmente me recebeu em sua casa e concedeu entrevista. Fornecendo documentos, fotografias, diplomas, narrando sua trajetória educacional. Obteve ampla atuação no cenário educacional do Estado do Rio Grande do Norte. Atuou como professora, coordenadora de prática de ensino e diretora da Escola Normal de Natal. Trabalhou na Secretaria de Educação na unidade setorial de planejamento e no Ministério da Educação e Cultura (MEC) morando em Brasília em 1986; e na Fundação Estadual de Planejamento Agrícola do RN. Na extinção da Fundação a professora passou a exercer atividades no Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente/IDEMA. (MARIA ARISNEIDE, 2014). Chego à conclusão desse trabalho com o sentimento que não foi possível ser escrito o desejado referente as professoras Teresinha Pessoa Rocha, diretora da unidade autônoma do Jardim de Infância Modelo e; Ezilda Elita do Nascimento, diretora da Escola de Aplicação. Reconheço que ainda há posto o desafio de aprofundamento referente as duas professoras/diretoras, - um tema não se esgota em um trabalho. Infelizmente o material que me chegaram as mãos sobre Teresinha Pessoa e Ezilda Elita do Nascimento foram escassos. Barreiras impostas de acesso as fontes. Tenho interesse em continuar pesquisando sobre a História das Instituições Escolares no Estado do Rio Grande do Norte, a exemplo do Colégio Atheneu Norte-Riograndense. Espaço onde a Escola Normal de Natal funcionou em uma das suas dependências no início do século XX. Nas pesquisas acabei descobrindo ser o Atheneu a primeira Instituição pública de ensino do Brasil. Idealizado e fundado pelo então Presidente da província Basílio Quaresma Torreão, antes mesmo do Colégio que era modelo para o Império: O Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. As aulas disponibilizadas à época da sua criação estavam relacionadas as Humanidades: Filosofia, Retórica, Geometria, Francês e Latim. O objetivo do presidente da província Basílio Quaresma, que também foi o primeiro Diretor da Instituição era reunir em 122 um único prédio as cadeiras de Humanidades, que acabaram por formar gerações de homens que marcaram a História intelectual do Estado do Rio Grande do Norte. Investigar mais a respeito do Programa da Aliança para o Progresso, que investiu bastante recursos no Estado do Rio Grande do Norte na década de 60, principalmente na área da educação: construção de grupos escolares, reformas escolares, financiamento de material didático. A própria construção do Instituto de Educação Presidente Kennedy deve a essas verbas Americanas. Reformas de hospitais, a construção do bairro da cidade da esperança. A construção do Hotel Reis Magos também foi beneficiário dessas verbas. Ainda desbravando o campo da História das Instituições escolares, retifico o meu interesse pelo estudo de Instituições Escolares com formação religiosa no Estado a exemplo do Colégio Marista de Natal, Colégio Nossa senhora das Neves e o Colégio Imaculada Conceição. O Magistério masculino e personalidades que contribuíram para a intelectualidade e o cenário educacional do Estado a exemplo do Doutor Francisco Pinto de Abreu, Floriano Cavalcanti de Albuquerque, José Augusto Bezerra de Medeiros (Professor, Governador e escritor) e Luís da Câmara Cascudo, personagens que muito me interessa. Concluo que as Diretoras do Instituto de Educação Presidente Kennedy (1952-1975), inseridas em um contexto de mudanças de espaço na Instituição e atualizações de Legislações educacionais; desempenharam satisfatoriamente bem seus papéis na composição do quadro da História da Educação no Estado do Rio Grande do Norte. Os frutos de seus empenhos na área educacional permanecem ternamente vivos nas memórias das suas alunas Normalistas. “Para o alto fiel normalista, põe teus olhos no céu cor de anil, E da voz da criança nortista, faz o verbo de luz do Brasil.” (Canção da Normalista, Nestor dos Santos Lima) (SILVA, 2013, p. 137). 123 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Jane Soares de. Mulher e educação: a paixão pelo possível. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998. ______. Ler as letras: por que educar meninas e mulheres? São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo: Campinas: Autores Associados, 2007. 238 p. AQUINO, Luciene Chaves. De Escola Normal de Natal a Instituto de Educação Presidente Kennedy (1950-1965): configurações, limites e possibilidades da formação docente. 2007. 259 f. Tese (Doutorado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 2007. AQUINO, Luciene Chaves. 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Licença editorial para o Círculo do Livro por cortesia da Editora Nova Fronteira S.A. mediante acordo com The Hogarth Press Ltda. 1928. 128 APÊNDICE Apêndice A - Catalogação dos documentos disponíveis no Arquivo do Instituto de Educação Presidente Kennedy DOCUMENTOS 1 – Livro de Atas do Grêmio Nísia Floresta 1953/1959, em bom estado de conservação 2 – Livro de correspondências da Escola Normal de Natal, escrita desgastada e danificado por cupim 3 – Livro de informações sobre a Escola Normal do ano de 1911, escrita desgastada em razão do tempo 4 – Livro De Registro de Diplomados de 1950 à 1957, escrito a mão e desgastado 5 – Livro de Registro de Títulos, Nomeação, Apostilas e Portarias da Escola Normal, bom estado 6 – Livro de Registro de acontecimentos importantes do ano de 1958, bom estado de conservação 7 – Apuração da Freqüência e das medias anuais de aproveitamento e comportamento dos alunos do 1 ano do curso Normal em 1923, Livro grande e deteriorado 8 – Livro para Registro da correspondência da Diretoria da Escola Normal 9 – Albuns do jardim de infância modelo 10 - Registro de turmas Diplomadas entre 1910 à 1967, assinado por Dona Francisca Nolasco Fernandes contendo os nomes de todos os concluintes da Escola Normal de Natal entre (1910 – 1963) 11 – Termo de Exames da Escola Normal do Atheneu datada em 1908, Actas dos candidatos a exame de admissão 12 – Livro para “Protocolo de Entrada” da Escola Normal – 1937, razoável estado 13 – Livro para Registro de Correspondência da Diretoria da Escola Normal de Natal, escrita de difícil compreensão 14 – Livro azul, não identificado 15 – Livro de Posse de 1929 a 1945, deteriorado 16 – Livro de Entrada e Saída de Documentos 1939 – 1946, contem informações sobre 129 o Grupo Escolar Augusto Severo 17 – Livro para Registro de Diplomadas 1922 a 1931 18 – Livro de Posse, Desligamento e Transferências dos Funcionários da Escola de Aplicação, bom estado de conservação