Prévia do material em texto
1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO A CULTURA ESCOLAR NO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS EM ASSÚ/RN (1927-1947) Silvia Helena de Sá Leitão Morais Freire Orientadora: Profa. Dra. Maria Arisnete Câmara de Morais Natal/RN Fevereiro, 2019 2 SILVIA HELENA DE SÁ LEITÃO MORAIS FREIRE A CULTURA ESCOLAR NO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS EM ASSÚ/RN (1927-1947) Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Educação, sob orientação da Profa. Dra. Maria Arisnete Câmara de Morais. Natal/RN Fevereiro de 2019 3 Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial Moacyr de Góes - CE Freire, Silvia Helena de sá Leitão Morais. A cultura escolar no Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú/RN (1927-1947) / Silvia Helena de sá Leitão Morais Freire. - Natal, 2019. 157 f.: il. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Educação, Programa de Pós Graduação em Educação. Orientador: Maria Arisnete Câmara de Morais. 1. História da Educação - Tese. 2. Cultura Escolar - Tese. 3. Instituição educacionais confessionais - Tese. I. Morais, Maria Arisnete Câmara de. II. Título. RN/UF/BS - Centro de Educação CDU 37.01 Elaborado por Rita de Cássia Pereira de Araújo - CRB-15/804 4 SILVIA HELENA DE SÁ LEITÃO MORAIS FREIRE A CULTURA ESCOLAR NO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS EM ASSÚ/RN (1927-1947) Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como exigência para do título de Doutor em Educação. Tese aprovada em ___/____/____ Banca examinadora _______________________________________________________________ Profa. Drª. Maria Arisnete Câmara de Morais (Orientadora) Universidade Federal do Rio Grande do Norte- UFRN _______________________________________________________________ Prof. Dr. José Mateus do Nascimento (Titular Externo) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Grande do Norte- IFRN ________________________________________________________________ Profa. Drª. Francinaide de Lima Silva Nascimento (Titular Externo) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Grande do Norte- IFRN ________________________________________________________________ Profa. Dra. Olivia Morais de Medeiros Neta (Titular Interna) Universidade Federal do Rio Grande do Norte-UFRN _______________________________________________________________ Profa. Dra. Crislane Barbosa de Azevedo (Titular Interna) Universidade Federal do Rio Grande do Norte-UFRN _____________________________________________________________________ Profa. Dra. Luciene Chaves de Aquino (Suplente Externo) Universidade Federal da Paraíba-UFPB _________________________________________________________________ Profa. Dra. Marlucia Menezes de Paiva (Suplente Interna) Universidade Federal do Rio Grande do Norte-UFRN 5 AGRADECIMENTOS GRATIDÃO a Deus e seus espíritos de luz pelas boas vibrações. À minha orientadora e amiga Maria Arisnete Câmara de Morais, ser humano que aprendi a admirar pela humildade em compartilhar conhecimentos, pelas lições diárias de fé e de vida. Aos meus pais Maria da Anunciação de Sá Leitão Morais e Pedro Alcântara de Morais, a quem agradeço pela vida, pelas orações diárias e pelo amor incondicional e aos meus irmãos Fernando Antônio de Sá Leitão Morais e Clélio Roberto de Sá Leitão Morais, pelos sonhos partilhados. Ao meu esposo Sérgio Luiz Freire Costa, pelo amor, amizade, companheirismo apresentando sempre novas possibilidades de buscar o conhecimento. À minha pequena Sofia, que mesmo tão pequena compreendeu minhas ausências físicas nesse longo processo para construção desse trabalho. Saiba que é um presente de Deus em nossas vidas. À todos que fazem o Educandário Nossa Senhora das Vitórias, pela acolhida e colaboração pelas às vezes que precisei, os meus sinceros agradecimentos. À Congregação das Filhas do Amor Divino, pelo carinho, atenção e disponibilidade em fornecer fontes sobre a história da Congregação e sua fundadora Madre Francisca Lechner. À professora e amiga Maria da Conceição Farias da Silva, pelas primeiras orientações no universo da pesquisa, minha gratidão e carinho. À professora e amiga Maria Antonia Teixeira da Costa pelos gestos sinceros de afeto, atenção e pela contribuição no meu processo formativo À minha amiga Glicia Medeiros por compartilhar as alegrias e angústias durante a construção desse trabalho. À professora Maria Lúcia Nunes da Silva pelas contribuições Seminário Doutoral II. Aos amigos do Grupo de Pesquisa Educação, Literatura e Gênero: Janaina Morais, Nanael Simão, Maria Claúdia, Anderson Tavares, Dêbia Suênia, Ana Paula, Valdenice, Francinaide, Euclides e Jaciara por compartilhando momentos de saber ao longo desse processo. À Universidade Federal do Rio Grande do Norte pela oportunidade de cursar uma Pós- Graduação pública e de qualidade. Á CAPES, pelo apoio financeiro, possibilitando a dedicação a este trabalho. 6 À memória das primeiras professoras do Colégio Nossa Senhora das Vitórias. 7 RESUMO A proposta deste estudo é a análise da cultura escolar do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, em Assú - Rio Grande do Norte, desde sua fundação em 09 de março de 1927, pela iniciativa da igreja local e intelectuais da época, se estendendo até 1947 período marcado pelo efervescente debate entre igreja católica e Estado no campo educacional. O objetivo é responder como se constituiu a cultura escolar de tal instituição, ao longo dos seus vintes anos. Para tanto, são analisados documentos da instituição em destaque, relatórios anuais, atas, jornais e livros da época, norteando-se pelos estudos de Chartier (1991), Elias (2001), Certeau (2001), Frago (1995), Magalhães (2005) e Julia (2001). Sendo assim, considerando a discussão sobre uma instituição de ensino, a cultura escolar emerge como categoria central de análise, a qual norteou a escolha das categorias específicas do estudo: As primeiras diretoras e professoras, As Festas Escolares, Normas e disciplina escolar. O Colégio Nossa Senhora das Vitórias foi idealizado em 1922, pela iniciativa da Igreja Católica local e intelectuais da época, que desejavam uma educação para meninas com bases nos preceitos católicos. A instalação do Colégio representou para a cidade de Assú, um marco relevante por ser uma instituição destinada inicialmente à educação feminina, com o objetivo de inserir as meninas na cultura letrada, cívica e doméstica, conforme os preceitos da época. O propósito de instalar um Colégio católico em Assú, dirigido por freiras vinda da Europa, não ocorreu isoladamente, fazia parte do projeto Restauração Católica que se projeta até os anos de 1940 em todo o País. Em Assú a responsabilidade para assumir o funcionamento do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ficou a cargo da Congregação das Filhas do Amor Divino, vinda de Viena/Áustria, estando a frentea Irmã Teresina Werner, que posteriormente recebi o convite para instalar instituições confessionais no Nordeste. Para tanto, evidenciamos que a cultura escolar produzida no interior do Colégio constituiu-se peça vital para o trabalho de evangelização e para atender aos anseios da elite e da Igreja Católica. Com propósitos formativos que vislumbravam a formação de boas mães, educadoras exemplares e futuras servidoras da pátria. A reconstituição da identidade histórica dessa instituição traz uma contribuição para a configuração da história da educação escolar norte-rio- grandense. Palavras-chave: História da Educação. Cultura Escolar.Instituição educacionais confessionais. 8 ABSTRACT The proposal of this study is the analysis of the school culture of the College of Our Lady of Victories, in Assú - Rio Grande do Norte, since its foundation on March 9, 1927, by the initiative of the local church and intellectuals of the time, extending until 1947 marked by the effervescent debate between Catholic Church and state in the educational field. The objective is to answer how the school culture of such an institution has been constituted, throughout its twenty years. In order to do so, we analyze documents of the institution, annual reports, minutes, journals and books of the time, guided by the studies of Chartier (1991), Elias (2001), Certeau (2001), Frago (1995), Magalhães 2005) and Julia (2001). Thus, considering the discussion about an educational institution, the school culture emerges as the central category of analysis, which guided the choice of the specific categories of the study: The first female teachers, School Festivals, Norms and school discipline. The College Our Lady of Victories was conceived in 1922, by the initiative of the local Catholic Church and intellectuals of the time, who wanted an education for girls based on Catholic precepts. The installation of the College represented a significant landmark for the city of Assú because it was an institution initially destined to the education of women, with the purpose of inserting girls into literate, civic and domestic culture, according to the precepts of the time. The purpose of setting up a Catholic College in Assú, run by nuns from Europe, did not occur in isolation, was part of the Catholic Restoration project that was projected until the 1940s throughout the country. In Assú the responsibility to assume the functioning of the College Our Lady of Victories was entrusted to the Congregation of the Daughters of Divine Love, coming from Vienna / Austria, Sister Teresina Werner, who later received the invitation to install denominational institutions in the Northeast. Therefore, we show that the school culture produced inside the College was a vital element for the work of evangelization and to meet the needs of the elite and the Catholic Church. For formative purposes they envisioned the formation of good mothers, exemplary educators and future servants of the motherland. The reconstitution of the historical identity of this institution contributes to the configuration of the history of North-Rio-Grandense school education. Palavras-chave: History of Education. School Culture.Institutional educational confessional. 9 RESUMEN La propuesta de este estudio es el análisis de la cultura escolar del Colegio Nuestra Señora de las Victorias, en Assú - Rio Grande do Norte, desde su fundación el 9 de marzo de 1927, por la iniciativa de la iglesia local e intelectuales de la época, extendiéndose hasta 1947 período marcado por el efervescente debate entre iglesia católica y Estado en el campo educativo. El objetivo es responder como se constituyó la cultura escolar de dicha institución, a lo largo de sus veinte años. Para ello, se analizan documentos de la institución en destaque, informes anuales, actas, periódicos y libros de la época, orientándose por los estudios de Chartier (1991), Elias (2001), Certeau (2001), Frago (1995), Magalhães (1995) 2005) y Julia (2001). Por lo tanto, considerando la discusión sobre una institución de enseñanza, la cultura escolar emerge como categoría central de análisis, la cual orientó la elección de las categorías específicas del estudio: Las primeras directoras y profesoras, Las Fiestas Escolares, Normas y disciplina escolar. El Colegio Nuestra Señora de las Victorias fue ideado en 1922, por la iniciativa de la Iglesia Católica local e intelectuales de la época, que deseaban una educación para niñas con bases en los preceptos católicos. La instalación del Colegio representó para la ciudad de Assú, un marco relevante por ser una institución destinada inicialmente a la educación femenina, con el objetivo de insertar a las niñas en la cultura letrada, cívica y doméstica, conforme a los preceptos de la época. El propósito de instalar un Colegio católico en Asú, dirigido por monjas venida de Europa, no ocurrió aisladamente, formaba parte del proyecto Restauración Católica que se proyecta hasta los años 1940 en todo el país. En Assú la responsabilidad para asumir el funcionamiento del Colegio Nuestra Señora de las Victorias, quedó a cargo de la Congregación de las Hijas del Amor Divino, venida de Viena / Austria, estando al frente la Hermana Teresina Werner, que posteriormente recibí la invitación para instalar instituciones confesionales en el Nordeste. Para ello, evidenciamos que la cultura escolar producida en el interior del Colegio se constituyó pieza vital para el trabajo de evangelización y para atender a los anhelos de la élite y de la Iglesia Católica. Con propósitos formativos que vislumbraban la formación de buenas madres, educadoras ejemplares y futuras servidores de la patria. La reconstitución de la identidad histórica de esa institución trae una contribución a la configuración de la historia de la educación escolar norte-rio-grandense. Palabras clave: Historia de la Educación. Cultura Escolar.Institución educativa confesional. 10 LISTA DE ILUSTRAÇÕES E QUADROS Figura 1 – Alunas em atividades de trabalhos manuais 1 Figura 2 – Silvia Helena de Sá Leitão Morais Freire no acervo do Educandário Nossa Senhora das Vitórias, em Assú/RN 36 Quadro 1 – Catalogação das fontes 37 Figura 3 – Busto Madre Francisca Lechner 43 Figura 4 – Madre Francisca Lechner 44 Figura 5 – Ir. Teresina Werner 56 Figura 6 – Lei n. 124, de 16 de outubro 64 Figura 7 – Livro de matrícula ano de 1927 71 Figura 8 – Visto do inspetor Nestor dos Santos Lima no Livro de Matricula, ano de 1927 72 Figura 9 – Livro de matrícula ano de 1927 77 Quadro 2 – Lista com nos nomes de matriculas da primeira turma do Colégio 82 Figura 10 – Ata da primeira reunião para construção do Colégio em Assú 85 Figura 11 – Fachada do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, 1927 88 Figura 12 – Fachada do Colégio Nossa Senhoras das Vitórias 89 Figura 13 – Salas de aulas. 89 Figura 14 – Pátio do Colégio Nossa Senhora das Vitórias 90 Figura 15 – Notícia do Jornal “ A Cidade”, sobre o lançamento da primeira pedra do Colégio 91 Figura 16 – Ata da inauguração do Colégio Nossa Senhora das Vitórias 94 Figura 17 – Primeira turma do Colégio Nossa Senhora das Vitórias 97 Figura 18 – Ir. Jaromira Ondra (S/D) 102 Figura 19 – Ir. Digna Taudes (S/D) 107 Figura 20 – Ir. Cristina Wlastinisk (S/D)108 Figura 21 – Primeiras professoras e alunas do Colégio, ano de 1928 109 Figura 22 – Alunas e professores, ano de 1928 110 Figura 23 – Ir. Ernestina e alunas 111 Figura 24 – Aula de Música, ano de 1927 112 Figura 25 Figura 26 Figura 27 Figura 28 – _ _ _ Professor Alfredo Simonetti (S/D) Desfile cívico do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1927 Ofício sobre a participação do Colégio nas atividades cívicas Apresentação das alunas, ano de 1927 113 121 122 126 11 Figura 29 Figura 30 Figura 31 Figura 32 Figura 33 Figura 34 Figura 35 Figura 36 Figura 37 Figura 38 Figura 39 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Desfile do Colégio, ano de 1927. Apresentação do Colégio ano de 1933 Turma concluinte, ano de 1947 Recebendo o hábito Ernestina da Fonseca, ano de 1932. Fardamento escolar Fardamento escolar Exposição de pintura Capela do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1942 Sala de estudos das alunas internas, ano de 1942 Refeitório das alunas internas, ano de 1942 Biblioteca do Ginásio, ano de 1947 128 129 131 132 135 136 136 138 140 141 142 12 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO 1. A HISTÓRIA DA PESQUISA 16 1.1 Os caminhos para a construção do objeto de estudo 17 1.2 Nas tramas dos pressupostos teórico-metodológicos 26 2. A CONGREGAÇÃO DAS FILHAS DO AMOR DIVINO: DA EUROPA PARA O BRASIL 41 2.1 A história da Congregação das Filhas do Amor Divino 42 2.2 A expansão da Congregação para o Brasil 55 3. O COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS: SUA HISTÓRIA 62 3.1 A instalação do Colégio e o cenário de Assú 63 3.2 O Colégio Nossa Senhora das Vitórias: uma realidade 78 4. ELEMENTOS FORMATIVOS DA CULTURA ESCOLAR NO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS 99 4.1 As primeiras diretoras e professoras 100 4.2 As festas escolares 116 4.3 Normas e disciplina escolar 133 CONSIDERAÇÕES 144 REFERÊNCIAS 13 Tudo mais que os pesquisadores da história têm a oferecer são, por assim dizer, interpretações. Que se diferenciam no decorrer das diferentes gerações (ELIAS, 2001, p.31). 14 APRESENTAÇÃO As Instituições Escolares constituem e representam independentemente de suas origens, uma amostra significativa sobre o que acontece ou aconteceu, mesmo que parcialmente no contexto educacional de um determinado país. Corroboramos com Oliveira e Gatti Júnior (2000, p.74), ao ressaltar que historiar uma instituição educativa, tomada na sua pluridimensionalidade, não significa laudatoriamente descrevê-la, mas explicá-la e integrá-la em uma realidade mais ampla, que é o seu próprio sistema educativo O espaço escolar também é marcado pelo movimento histórico, sabemos que não é um conjunto de salas de aula onde os professores são individualmente responsáveis pela prática educativa nela desenvolvida, mas é constituída como uma entidade sociocultural formada por grupos que vivenciam códigos e sistemas de ação num processo que faz dela, ao mesmo tempo, produto e instrumento cultural (SILVA, 2009). Sendo assim, as páginas que se seguem estudam sobre a cultura escolar no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, em Assú, no Rio Grande do Norte, entre 1927 a 1947, instituição religiosa fundada em 09 de março de 1927 e registrada no Departamento de Educação, a partir do Decreto n. 343 de 28 de setembro de 1927, dirigida por freiras da Congregação das Filhas do Amor Divino, vindas de Viena/Áustria, idealizada para a educação feminina. A fundação do colégio, fazia parte de um projeto envolvendo, intelectuais, políticos e religiosos, que visava atender aos anseios da elite assuense e aos interesses da Igreja Católica para a educação feminina, sendo o principal idealizador o vigário da época Monsenhor Joaquim Honório da Silveira. Para construirmos o percurso dessa investigação, recorremos às fontes documentais como: atas, regimento interno, relatórios anuais, legislações educacionais. Somam-se a esses, notícias publicadas no jornal A Cidade, livros sobre a escola. A presente tese é composta de quatro capítulos intitulados A história da pesquisa, A Congregação das Filhas do Amor Divino: da Europa para o Brasil, O Colégio Nossa Senhora das Vitórias: sua história e Elementos formativos da Cultura escolar no Colégio Nossa Senhora das Vitórias. E por fim, tecemos as considerações finais. O primeiro capítulo História da pesquisa narra os modos de construção do objeto de estudo, articulados com a nossa história de vida e processos formativos acadêmicos, como a 15 participação em projetos de pesquisas, que investigavam sobre o universo da história da educação em Assú e possibilitou a construção de um projeto embrionário ainda na condição de bolsista de iniciação científica e que possibilitou a produção do objeto em questão. Situa o porquê de nossas escolhas pelo objeto de estudo e sua relevância para história da educação local e norte-rio-grandense. Ainda nesse capítulo, apresentamos as conexões entre o objeto de estudo e os conceitos teórico utilizados. Assim evidenciamos as relações das informações que encontramos nas fontes da pesquisa com categorias de análise da história da educação, especificamente da história das instituições escolares. Ainda, situamos os arquivos que percorremos, rastreando fontes, fotografando, catalogando dados que dão sentido a escrita sobre o Colégio Nossa Senhora das Vitórias. No segundo capítulo A Congregação das Filhas do Amor Divino: da Europa para o Brasil apresentamos os caminhos percorridos por Madre Francisca Lechner para fundar a Congregação das Filhas do Amor Divino em Viena/Áustria. Ainda destacamos as primeiras movimentações no campo educacional, os primeiros convites para expansão da Congregação pelo o Brasil e a fundação de colégios para educação feminina no Nordeste, especificamente em Assú. O terceiro capítulo O Colégio Nossa Senhora das Vitórias: sua história, reconstitui a sociedade assuense e do Rio Grande do Norte na época, abordando aspectos sociais, políticos e educacionais, evidenciando as primeiras movimentações para a idealização da construção do Colégio, a partir do envolvimento da Igreja Católica e da elite local. Nesse cenário, emerge a construção do prédio do Colégio em 1925, que desde sua fundação tinha como principal objetivo a formação das meninas para atender ao perfil almejado da época pela igreja e conservadores: boa mãe, esposa virtuosa, servidora da pátria e temente a Deus. Destacamos ainda, os percursos para fundação do colégio em Assú em 9 de março de 1927, e empenho dos intelectuais da época para angariar recursos para seu funcionamento. O capítulo intitulado Elementos da Cultura Escolar no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, discorremos sobre As primeiras diretoras e professoras, destacando o perfil das mestras que estiveram à frente das ações educativas realizadas no Colégio nos primeiros vinte anos de sua existência e consolidação. Apresentamos as festasescolares desenvolvidas na instituição, como organizavam, qual o propósito dos eventos patrióticos e sua conexão com orientações advindas do Estado. Somam-se a esses eventos, festas religiosas que buscavam inculcar nas alunas valores morais e condutas com base nos preceitos católicos. Discorremos sobre Normas e disciplina escolar da instituição, através dos relatórios anuais e regimento interno. Os referidos documentos expressam como as irmãs materializavam a educação para as 16 meninas,apresentando as regras do funcionamento da instituição, como deveriam se comportar, sobre o asseio e vestuário das alunas externas e internas, o rigor no cumprimento do horário, como aconteciam as atividades. Nas Considerações finais concluímos que ao longo da construção desse trabalho, mergulhamos no interior do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, na cidade de Assú no Rio Grande do Norte, no período entre 1927 a 1947. Aos poucos buscou-se, o fio condutor sobre como foi constituindo-se a Cultura Escolar no Colégio, por meio das pistas, fomos encontrando as peças desse quebra cabeça. Nesse percurso, entendemos que ainda há muito o que se investigar e que nosso estudo abre perspectivas para estudos futuros, nossos ou de outrem, porque entendemos que a pesquisa não tem seu ponto final aqui. 17 Capitulo 1 A HISTÓRIA DA PESQUISA 18 1.1 Os caminhos para a construção do objeto de estudo Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser completamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis (CALVINO, 1995). O desejo por investigar sobre o Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú/RN, emerge de um longo caminho, espaços e tempos diversos, nos quais foi almejado e pensado. Para estruturar o pensamento e iniciar a escrita, percorremos outros trajetos, outras leituras e revisitamos o passado por meio das fontes. Mergulhamos no interior de tal instituição, na tentativa de unir as informações, que ao primeiro olhar nos pareciam distantes e apresentavam um emaranhado de desafios para sua construção. Se fez necessário, ouvir, silenciar para encontrarmos um caminho. Procuramos o fio condutor dessa história, a fim de entender os trajetos que trilhamos para estudar a história da educação, a partir da história do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, em Assú/RN. Nesse ir e vir, interligamos as relações entre o estudo e/a nossa história de vida, juntando as peças de um grande quebra cabeça e percebendo que essa história aos poucos foi sendo construída. Seja através de aproximações e afinidades, enquanto ex-aluna, ex-professora e por meio de contato com fontes documentais sobre o Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Dessa maneira, percebemos que é chegada a hora de escrever sobre a sua história. Foi uma tarefa difícil distanciar a relação pessoal que temos com a instituição escolar e percebê-la interligada ao universo mais complexo que envolve outros aspectos ou seja sócio- educacional-político e cultural. Podemos assim dizer, que aos poucos fomos adentrando nesse campo da pesquisa em História da Educação, mesmo antes de compreender, que no manuseio daquelas fontes nascia uma pesquisa. Para Nunes (1990), são inúmeros os motivos que nos levam a aceitar o desafio da pesquisa e a privilegiar a compreensão da educação no movimento histórico, seja pelos objetos de estudos que chamam mais atenção ou pela relação do pesquisador com o estudo. A autora ainda destaca que, o mito da objetividade histórica, no entanto mais interiorizado do que imaginamos, intimidou os historiadores de falarem sobre eles mesmos, 19 sobre sua relação com o estudo, com receio do risco à impessoalidade e às condições da sua garantia. Corroboramos também quando afirma que “o corpo que se apropria da história precisa enxergar-se apropriado pela História da qual se apropria” (NUNES, 1991, p. 36). Dessa maneira, compreendemos que essa relação entre pesquisador e o objeto de estudo deve ser mencionada, esse investimento existencial que nos conduz à pesquisa histórica, aproximações, distanciamentos, interação com o outro estão nas entrelinhas da pesquisa. A pesquisa histórica é um trabalho de pensamento, o qual experimentamos como ação e afeto, como ressalta Nunes (1991, p.36): Desejar compreender as trajetórias de outros sujeitos, procurando romper com o processo de estereotipagem presente na Historiografia da Educação Brasileira, é o ato inaugural que nos impele a verificar o desejo que encontrou nos outros a oportunidade de manifestar-se em obras é, em nós, o móvel do esforço que nos leva a passar horas consultando arquivos ou permanecer debruçados sobre uma mesa copiando informações, criando e recriando ideias. Este desejo, que encontra em nós a sua origem, movimenta-se na direção dos sujeitos e das coisas habitadas pela história. Ao voltarmos nossos olhos para o passado, compreendemos o motivo que nos levou a investigar sobre o Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Nascemos na cidade de Assú, interior do Estado do Rio Grande Norte, em uma família católica mediada pelos seus preceitos religiosos e para meus pais a educação de uma menina também deveria ser confiada a uma instituição escolar que materializasse em seu fazer a educação gestada no seio familiar e projetasse uma formação para a vida com bases em valores morais, no amor e fé em Deus. Parte da nossa família frequentou a referida Instituição Escolar, em especial minha mãe, eu, meus irmãos, tios e primos estudamos durante anos, ensinamentos arraigados de valores, normas e a religião católica estavam presentes em nosso contexto familiar. São muitas as lembranças desse espaço educativo, desde a chegada à escola com a recepção de uma freira, a oração diária na sala de aula, as brincadeiras, as festas escolares, as atividades de campo, as novenas na capela da escola, eventos que narravam sobre a vida da Madre Francisca Lecnher, fundadora da Congregação das Filhas do Amor Divino. Nesse ínterim, foram 12 anos de vivência nesse espaço educativo, mas foi chegada a hora de alçar novos voos e com ele outros desafios. Com a conclusão do ensino médio, no ano de 2004 tentamos o primeiro vestibular para o Curso de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, do Campus Avançado Prefeito Walter de Sá Leitão em Assú/RN, obtendo aprovação. Cursamos 4 períodos, mas sentíamos que ainda não era aquele 20 curso que gostaríamos de seguir carreira. Sendo assim, quando surgiu a oportunidade de ofertas de vagas internas no referido Campus, ingressamos no Curso de Pedagogia. No primeiro dia de aula do curso, percebemos que naquele momento uma nova história se iniciava e encontrava o que realmente desejávamos seguir. Logo nos primeiros períodos do Curso de Pedagogia, buscamos nos engajar nas atividades, dentre elas, surgiu a oportunidade para participar da seleção para Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/CNPq. Podemos assim destacar, que essa experiência foi uma contribuição ímpar, seja no aspecto da vida pessoal como profissional. Com essa oportunidade, conseguimos enxergar a docência para além dos conteúdos a ministrar e compreender a história da docência e suas bases formativas. No primeiro encontro para estudos e orientação, enquanto bolsista, apresentamos a professora Maria da Conceição Farias da Silva, então professora da disciplina História da Educação Brasileira e também orientadora, materiais que minha mãe guardava no fundodo baú, entre eles: livros sobre a fundação do Colégio Nossa Senhora das Vitória, fotografias, jornais da época. Sempre foi costume em nossa família, guardar objetos que reportassem tempos vividos, como forma de reviver um passado que está sempre presente. Concomitante às atividades inicias enquanto Bolsista de Iniciação Científica e a disciplina História da Educação Brasileira, realizamos uma atividade que tinha como proposta investigar as práticas de mulheres professoras e sobre instituições escolares em Assú. No processo de busca sobre fontes, encontramos documentos a cerca do Colégio Nossa Senhora das Vitórias a exemplo de atas, relatórios anuais, livros de matriculas, fotografias, livros de leitura. O encontro com esses materiais nos aproximaram de leituras que versavam sobre os processos educacionais ocorridos no Brasil. Como a criação de Instituições Escolares de ordem religiosa, a participação das freiras na educação e formação destinada à mulher ainda no início do século XIX e primeiras décadas do século XX. O aprofundamento das leituras e o envolvimento em projetos de pesquisas contribuíram para o interesse em estudar sobre o Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Mediante os envolvimentos nos projetos de pesquisa, foi possível o encontro com documentos históricos sobre a cidade de Assú/RN, especialmente sobre as Instituições Escolares, e aos poucos estávamos adentrando em parte da história da educação, trazendo à tona as práticas educativas, as normas, organização da escola, sua cultura escolar. A história das Instituições Escolares se configura como um relevante campo de estudo para o pesquisador, que busca a apreensão do movimento da educação seja nacional, regional 21 e local. As discussões sobre instituições escolares, sobretudo a partir dos anos de 1990, vêm ressoando tema bastante significativo no âmbito da história, sociologia, filosofia da educação, contribuindo para a compreensão da escolarização brasileira e suas transformações. Nessa perspectiva, são privilegiados temas como: cultura escolar, formação de professores, livros didáticos, disciplinas escolares, currículo, práticas educativas, questões de gênero, infância e obviamente, as Instituições Escolares. No cerne das discussões sobre Instituições Escolares, privilegiam a cultura escolar considerada na sua materialidade e nos seus vários aspectos. As normas e práticas complexas que variam no espaço e no tempo, entrelaçam no universo da instituição escolar e é possível evidenciá-las a partir dos tópicos que funcionam como categorias de análise: o contexto histórico, a criação e instalação da escola, processo evolutivo, a vida da escola, o edifício, os alunos, os professores e administradores, os saberes, as normas disciplinares, os eventos e outros. (NOSELLA;BUFFA, 2005). A partir da definição que realmente desejaríamos investigar sobre a referida instituição escolar, iniciamos a busca de mais informações. A cada encontro com as fontes históricas sobre o colégio, aprofundávamos a compreensão sobre as modificações no campo educacional, as complexidades e interesses que envolviam a relação da Igreja Católica no campo da educação e a configuração social da época em estudo. A inserção e participação da mulher empreendendo no processo educacional, implantando Ordens religiosas para formação feminina, a exemplo de Madre Francisca Lechner, fundadora da Congregação das Filhas do Amor Divino. Na perspectiva de ampliar as discussões sobre o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, buscamos outros espaços para continuar o processo de formação continuada. Em 2009, obtivemos aprovação na seleção para a Especialização em Educação, no campo temático Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte/UERN. Na oportunidade, apresentamos na Especialização o trabalho intitulado Valores e Normas na Educação Feminina no Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú/RN (1960-1962), o qual investigou os valores e normas presentes na educação feminina no Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú/RN, nos anos de 1960 e 1962, por meio da prática educativa da professora Ernestina da Fonseca. O estudo sobre os modos de ser e de fazer dessa professora, nos ajudou a tecer uma leitura da educação destinada às mulheres em Assú, no citado período. Sinalizando os valores e normas exigidos para uma moça adquirir respeito e representatividade nos espaços sociais, desenvolver o trato social, as prendas do lar, as boas condutas, e o empenho na arte de educar outros sujeitos. A atuação da professora Ernestina da Fônseca, evidencia sua 22 contribuição à historiografia da educação local e norte-rio-grandense particularmente, à história da educação da mulher. Com a conclusão desse trabalho no ano de 2010, percebemos que ainda existiam lacunas sobre a educação no Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú e sua influência na construção social, educacional e cultural para os sujeitos, em especial as meninas daquela cidade do interior do Estado do Rio Grande do Norte. Essa lacuna, nos impulsionou a permanecer na mesma linha de estudo com propósitos mais amplos. Com o término da monografia da Especialização, almejamos ampliar as discussões sobre a história do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, com enfoque para suas práticas educativas. Sendo assim, empreendemos o projeto para seleção do Mestrado em Educação da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), em 2011. No Mestrado, apresentamos o trabalho intitulado O Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú/RN: reconstruindo suas práticas educativas (1927-1937), concluída em maio de 2013, sob a orientação da professora Maria Antônia Teixeira da Costa. As práticas educativas da referida instituição, estavam direcionadas a transferir para os alunos valores morais e religiosos, imprimindo um perfil de aluno que a escola almejava, conforme as ideias circulantes da época. De acordo com Magalhães Júnior (2002, p. 86), as ordens e colégios religiosos sempre procuravam materializar uma representação de condutas e rituais que servissem de modelo para uma sociedade exterior às instituições, mas que percebiam nesses colégios um símbolo de moralidade e modelo puro de vida. Percebemos que desde o princípio a educação escolar foi influenciada pela Igreja Católica, influenciando seja no plano moral, nos costumes das famílias. Existia uma preocupação da elite com o avanço da modernidade política e econômica, no entanto, também se pretendia a manutenção das organizações privadas, como a família, preservando suas tradições. O interesse da Igreja no campo da educação e o apoio do governo tornaram possível às congregações estabelecerem seus colégios. Elas conquistaram espaços sociais cada vez maiores, seus efetivos se multiplicaram e, enfim, a vida religiosa feminina solidificou suas raízes em nosso país. Na segunda metade do século XIX, religiosas e religiosos detinham praticamente o monopólio da educação no Brasil: das 4600 escolas secundárias existentes, 60% pertenciam `a Igreja e gozavam de enorme prestígio (NUNES,1997, p.494). Assim, as congregações estabeleceram seus colégios e se expandiram pelo Brasil com propósito de preservar os princípios cristãos e resguardando sua força na sociedade através do controle das instituições educacionais. 23 Com a conclusão da dissertação, ascendia o desejo de investigar sobre como se constituiu a Cultura Escolar no Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Nesse ínterim, já havíamos iniciado a vida profissional, na condição de docente na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Campus Central em Mossoró/RN. Mesmo distante, a 281 km de Natal, no ano de 2015, nos aproximamos do Grupo de Pesquisa Gênero e Práticas Culturais, coordenado pela Professora Maria Arisnete Câmara de Morais, permanecemos nesse espaço enquanto aluna em caráterespecial durante dois semestres. Na oportunidade, nossos encontros sempre às quintas-feiras, realizávamos estudos de textos que nos auxiliavam no amadurecimento intelectual, aprofundamento na temática sobre instituições escolares, práticas de professores, educação feminina. Tais leituras contribuíram na elaboração do nosso projeto para o doutorado, aproximando-nos dos debates, dos colegas de estudo e discussões. Ainda no ano de 2015, participamos da seleção de doutorado do Programa de Pós- Graduação em Educação/PPGED da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, submetemos nosso projeto inicial que consistia na análise do modelo educacional da Congregação das Filhas do Amor Divino para educação feminina, no Colégio Nossa Senhora Nossa Senhora das Vitórias entre 1927 a 1947. Com a aprovação na seleção do referido programa, a orientadora sugeriu um recorte no objeto de estudo, considerando sua amplitude. Se nossos estudos desde mestrado se pautavam nas discussões sobre instituições escolares, com ênfase na Cultura Escolar, que estavam explícitas no projeto aprovado, mas que ora apresentava, ora se escondia. Sendo assim, redefinimos e aos poucos a pesquisa foi se construindo com mais clareza e objetividade. A nossa busca por clareza, implicou em “mergulhar” no vasto objeto, recortando, retornando aos arquivos, separando e catalogando fontes. Na ocasião do Seminário de Formação Doutoral, a orientadora e a professora Maria Lúcia da Silva Nunes, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ao avaliarem o trabalho, sinalizaram para a discussão sobre a história da instituição escolar, com enfoque para a sua cultura escolar, sugerindo ajustes no texto, a fim de tornar a pesquisa mais clara. Então redefinimos nossa pesquisa. O Colégio Nossa Senhora das Vitórias, escolhido como objeto de estudo, no período de 1927 a 1947, encontra justificativa incialmente pela sua relevância para a cidade de Assú no Rio Grande do Norte, contribuindo há mais de 92 anos com a formação educacional, social e cultural dos assuenses e cidades circunvizinhas e, também, pelos estudos acadêmicos enveredados no campo da historiografia da educação. 24 O período delimitado para a pesquisa foi de 1927, ano de fundação do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, através da iniciativa da igreja local e intelectuais da época, se estendendo até 1947, período marcado pelo efervescente debate entre Igreja Católica, Estado e defensores do ensino laico, público e de qualidade para todos. Conforme Saviani (2007, p. 179), a mobilização da Igreja expressou-se na forma de resistência ativa, sendo articulados dois aspectos, a pressão para o restabelecimento do ensino religioso nas escolas públicas e a difusão de seu ideário pedagógico mediante a publicação de livros e artigo em revistas e jornais e, em especial, com a publicação de livros didáticos. Em consonância com esse período de embate entre Igreja e Estado, as ideias pedagógicas da escola nova, propostas pelos reformadores, ressaltava que a escola não deveria utilizar os métodos tradicionais de ensino, aulas através da contemplação da memorização, da exposição oral, da mecanização, mas sim, aulas a partir da experiência vivenciada pelos os alunos, valorizando a originalidade e a criatividade, voltada para aprendê-lo fazendo (TEIXEIRA, 1976). Podemos sinalizar, que os interesses dos idealizadores estavam atrelados a preocupação com a formação feminina, articulados à Igreja e dos conservadores católicos, esses colégios seriam determinantes nos rumos da educação feminina de elite. As famílias tradicionais resguardavam as jovens atreladas ao poder do catolicismo, como forma de amenizar os ideais emancipatórios (ALMEIDA, 2006). O Colégio Nossa Senhora das Vitórias, foi fundado em 09 de março de 1927, na cidade de Assú, interior do Estado do Rio Grande do Norte, sendo responsável pelo funcionamento a Congregação das Filhas do Amor Divino, vinda de Viena /Áustria. Em 1927, voltava-se para um corpo discente inicialmente feminino, sendo então implantado no ano seguinte o regime de coeducação, recebendo desse modo meninas e meninos. Funcionava em regimes de externato, internato e semi-externato (AMORIM, 1929). Segundo Amorim (1929), a instalação da referida instituição, tinha como intuito oferecer “a educação literária, cívica e doméstica da mulher sertaneja” (1929, p. 23). Em Assú, até final do século XIX, como ressalta Pinheiro (1997), “as jovens de melhor poder aquisitivo, estudavam com professoras particulares, enquanto as mais desfavorecidas eram encaminhadas à Casa de Caridade”. 25 Ainda destaca que, a cidade sentia a necessidade de um estabelecimento de ensino, que estivesse à altura do desenvolvimento econômico e cultural que pretendia alcançar. Não se compreendia o avanço urbanístico e econômico sem a presença de uma escola moderna, de acordo com o ideário formativo da época. Foi então lançada por Palmério Filho, um dos renomados jornalistas daquele tempo, a ideia de construir um estabelecimento de ensino religioso para as meninas (AMORIM, 1929). Para tanto, surge o interesse em implantar o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, que iria atender às novas exigências das regras de higiene, materiais pedagógicos e a organização do ensino, perspectiva circulante no Brasil e as orientações advindas também da cidade de Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte (AMORIM, 1929). A preocupação no setor educacional, especificamente com o ensino primário, registra que nas primeiras décadas do século XX, existia a tentativa de organizar o ensino primário no Rio Grande do Norte, por meio do decreto 174, de 05 de março de 1908, com a criação do Grupo escolar Augusto Severo, o primeiro do gênero no estado. Logo em seguida o decreto 178, de 29 de abril, criou a Escola Normal de Natal, com a incumbência de formar os mestres, com novos modos de ensino (SILVA, 2004). De acordo com Silva (2011), a educação formal foi um dos pontos do projeto de modernização do Estado do Rio Grande do Norte, dentre eles se destacando os aspectos de melhoramento, a abertura de estradas, a construção de linhas férreas, de praças e ruas, a iluminação elétrica e as práticas de higienização e de civilidade da população. As instituições de ensino fizeram parte desse conjunto de melhoramentos urbanos, compondo o cenário de progresso das cidades, constituindo-se símbolo de modernização cultural e social para as cidades. Segundo Gaeta (1991, p. 24) “a sociedade acreditava ser a educação escolarizada um dos instrumentos civilizatórios possíveis para a cidade em processo de urbanização”. Mediante a descrição da construção do objeto de estudo é perceptível que ainda existe lacunas sobre a historização do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, especificamente sobre sua cultura escolar. Sendo assim, indagávamos: como se constituiu a Cultura Escolar do Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú/RN, entre os anos de 1927 a 1947? Considerando a questão norteadora, elaboramos o argumento de tese, no qual ressaltamos que a cultura escolar produzida no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, desde a sua fundação, se constituiu peça vital para o trabalho de evangelização e para atender aos anseios da elite, bem como aos interesses da Igreja Católica para educação das meninas. Com 26 objetivo de formar boas esposas, boas mães e contribuir enquanto servidoras da pátria, educando novos cidadãos. Ancorado nestas premissas, decorreu o surgimento do objetivo dessa pesquisa, que será analisar a Cultura Escolar que configurou o Colégio Nossa Senhora das Vitórias e nele se constituiu entre 1927 a 1947. A relevância desse trabalho se fundamenta em dois aspectos estudados: a importância de historiar o Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú, instituição confessional, idealizada para a educação feminina,em um período que incluiu embates entre a Igreja e o Estado. E conhecer o universo da sua Cultura Escolar, no período de 1927 a 1947, no qual, interagiu com esferas da sociedade brasileira, com políticas educacionais, passando por reformulações na estrutura física, na nomenclatura, no funcionamento administrativo e didático-pedagógico. Corroboramos com Buriti (2007), quando ressalta que pesquisar sobre as Ordens religiosas, no Rio Grande do Norte e suas atuações nas Instituições Escolares, ainda tem sido objeto pouco investigado, conservando ainda muitos silêncios em torno do cotidiano, das práticas educativas e das estratégias disciplinares usadas pelas freiras e pela Igreja Católica, na educação brasileira e muitas lacunas para a história da educação. A Cultura Escolar no Colégio Nossa Senhoras das Vitórias em Assú (1927-1947), objeto que trilhamos em universo de inquietações, desejos e de afinco trabalho intelectual é o que apresentamos nesse estudo. Portanto, confiamos que esse trabalho possa se tornar uma relevante referência quanto qualquer outro objeto histórico, na medida em que evidencia aspectos da cultura escolar, seus atores e a multiplicidades de saberes que envolvem a escola, destacando aspectos da história da educação local e norte-rio-grandense em especial a educação confessional. 27 1.2 Nas tramas dos pressupostos teórico-metodológicos Dificilmente será possível recompor a totalidade de sua história, mas as fontes historiográficas são retalhos de tempo a serem costurados metaforicamente; nessa tessitura o/a historiador/a conta com vestígios e pistas, que podem ser factíveis de erros, inconsúteis que são entre a realidade e a criação. Ao se incursionar pela hermenêutica da História, surgem indícios de tempos passados que podem ser reinterpretados (ALMEIDA, 2014). Para analisar a cultura escolar do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, nos guiamos pelo aporte teórico-metodológico da História Cultural, por entender “que os eventos, ou tudo que se refira à atividade humana são considerados objetos de análise histórica” (MORAIS, 2006, p.3). Escolhemos o referido referencial, por possibilitar novas perspectivas de construção do conhecimento histórico, que concebem as realidades vividas em tempos e espaços determinados como construções sociais complexas, a exemplo de estudos sobre Instituições Educativas de caráter confessional e seus processos formativos num dado contexto histórico. De acordo com Chartier (1990, pp. 16-17), “o principal objeto da História Cultural constitui-se em identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada e dada a ler. ” Nessa perspectiva é possível compreender as relações entre os diferentes grupos sociais, bem como analisar seus valores, costumes e suas práticas cotidianas Para Sanfelice (2007), toda instituição educativa ou escolar pode ser objeto de pesquisa histórica. No entanto, se faz necessário considerar mais atentamente as relações estabelecidas entre as dinâmicas internas da escola e as realidades externas. Os mergulhos feitos pelos pesquisadores no interior das instituições e suas tentativas de montar o quebra-cabeça que ali se lhe apresenta, em geral, para serem bem-sucedidos, exigem que eles busquem ar, para não se afogarem em águas turvas. Nenhuma instituição manifesta sua identidade plena apenas no interior dos seus muros, por isso é fundamental olhar para seu o entorno. (SANFELICE, 2007, pp. 77-78). 28 Para Gatti Júnior (2007), a relevância dos estudos sobre a história das instituições escolares, perspectivando dar conta dos vários atores envolvidos no processo educativo, investigando aquilo que se passa no interior das escolas, gerando um conhecimento mais aprofundado destes espaços sociais destinados aos processos de ensino e de aprendizagem. “Parece-nos que a ênfase dada às análises mais sistêmicas cedeu lugar às análises que privilegiam uma visão mais profunda dos espaços sociais destinados aos processos de ensino- aprendizagem” (GATTI JÚNIOR, 2007, p.7). Desse modo, as escolas apresentam-se como espaços portadores de fontes de informações fundamentais para a formulação de pesquisas, interpretações e análises sobre elas próprias, as quais permitem a compreensão do processo de ensino, da cultura escolar e, consequentemente, da História da Educação. Corroboramos com Furtado (2002, p. 150), quando ressalta que juntamente com seus atores, as instituições escolares produzem diversos tipos de documentos e registros de caráter administrativo, pedagógico e histórico, exigidos pela administração e pelo cotidiano, que perpassam inclusive seu âmbito pedagógico. Reconstituir as histórias das instituições escolares nos permite mergulhar na sua interioridade, repleta de dispositivos socioeducativos, tais como objetos materiais , as práticas mobilizadoras das apropriações e nos remete a tentativa de compreender a multiplicidade de atores envolvidos, suas práticas educativas, tais como os objetos materiais, as representações dos atores do processo e dos saberes escolares que contribuem para explicarem os fatos e a realidade educativa da escola e suas relações com contexto, na qual está inserida historicamente e com os grupos que forjam modelos educativos (FRAGO, 1995; MAGALHÃES, 2005, 1998). Na escola, o educar é uma rede de práticas formais, movida por aulas, saberes determinados pelo currículo, planejamentos de ensino, métodos pedagógicos, usos de equipamentos didáticos, livros, matrículas e avaliações. Essas práticas são modos de viver a escola nas múltiplas possibilidades que auxiliam a decifrar as instituições escolares e seus sujeitos (SILVA, 2011). Para nortear nosso estudo nos apoiamos na categoria central de análise da Cultura Escolar por possibilitar construir leituras dos modos como, por exemplo, o Colégio Nossa Senhora das Vitórias produzia suas culturas escolares. 29 Para Domique Julia: A Cultura Escolar não pode ser estudada sem a análise precisa das relações conflituosas ou pacíficas que ela mantém, a cada período de sua história, com o conjunto das culturas que lhes são contemporâneas: cultura religiosa, cultura política ou cultura popular. Para ser breve, poder-se-ia descrever a cultura escolar como um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos. (JULIA, 2001, p. 10-11). Segundo Frago (1995) a Cultura Escolar, recobre as diferentes manifestações das práticas instauradas no interior das escolas, transitando de alunos a professores, de normas a teorias. Na sua interpretação, englobava-se tudo o que acontecia no interior da escola. É interessante perceber, que a cultura escolar envolve o conjunto de fatores que constitui o universo escolar, contribuindo para compreendermos, a Cultura Escolar no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, aquele que determina o que ensinar, o que inculcar, os fins a atingir, mais especificamente, o que transmitir considerando o contexto sociocultural que a escola se insere. Nesse sentido, Magalhães (1996, p.2) defende que: Compreender e explicar a existência histórica de uma instituição educativa é, sem deixar de integrá-la na realidade mais ampla que é o sistema educativo, contextualizá-la, implicando-a no quadro de evolução de uma comunidade e de uma região, é por fim sistematizar e (re) escrever-lhe o itinerário de vida na sua multidimensionalidade, conferindo um sentido histórico. Nas últimas três décadas do século XX, desenvolveram-se estudos sobre cultura, instituições e disciplinas escolares, especialmente na Europa, com consideráveis impactos na pesquisa brasileira nessa área,em uma direção de renovação da pesquisa em História da Educação. Magalhães (1998), afirma que a abordagem dos processos de formação e de evolução das instituições educativas constitui um domínio do conhecimento historiográfico em renovação no quadro da História da Educação. Uma renovação na qual novas formas de questionar-se cruzam com um alargamento das problemáticas e com uma sensibilidade acrescida à diversidade dos contextos e à especificidade dos modelos e práticas educativas. Uma abordagem que permite a construção de um processo histórico que confira uma identidade às instituições educativas. 30 Trata-se, portanto, de acordo com Magalhães (1998, p. 61), da história construída da(s) memória(s) para o arquivo e do arquivo para a memória, com a finalidade de efetivar uma síntese multidimensional que demonstre um determinado itinerário pedagógico, uma identidade histórica específica, um processo em evolução e um projeto pedagógico. Para Gatti Júnior (2007), é perceptível o que convencionamos intitular de História das Instituições Escolares, tem ocupado cada vez mais espaço no cenário da pesquisa histórico- educacional, envolvendo uma série de pesquisadores no Brasil e na Europa. No Brasil, ainda que com diversas dificuldades, em virtude de fontes organizadas, historiadores e educadores têm-se lançado à tarefa de historiar a educação escolar brasileira, através da construção de interpretações acerca das principais instituições escolares espalhadas pelas diversas regiões brasileiras. Dentre os principais autores brasileiros, que pesquisam sobre a educação escolar, citamos os estudos, como dos pesquisadores Esther Buffa e Paollo Nosella da Universidade Federal de São Carlos, com a pesquisa sobre Scholla Mater: a Antiga Escola Normal- São Carlos (1911-1933) e Industrialização e Educação: a Escola Profissional de São Carlos (1932- 1971). Há que se mencionar também a pesquisa de Elizete Silva Passos, A Educação das Virgens: um estudo do cotidiano do Colégio Nossa Senhora das Mercês, da cidade de Salvador/BA (GATTI JÚNIOR, 2007). Ao rastrear as produções existentes sobre instituições escolares, percebemos que quase todos os estudos são oriundos dos Programas de Pós- Graduação em Educação e tem privilegiado a instituição escolar, a cultura escolar, desde sua materialidade até o contexto histórico e as circunstâncias específicas da criação e da instalação da escola; seu processo evolutivo, os alunos, os professores, sua formação, a organização, currículo, disciplinas, livros didáticos, métodos e instrumentos de ensino, as normas disciplinares, os eventos (NOSELLA; BUFFA, 2005, p. 16). Desta feita, percebemos que os Grupos de pesquisa sobre o tema das Instituições Escolares multiplicam-se nos vários Programas de Pós-Graduação em Educação no Brasil, assim como nos congressos de educadores, a exemplo da Sociedade Brasileira de História da Educação-SBHE, além de eventos no campo da educação no Grupo de Trabalho no campo da História da Educação, como da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd). Com a criação do Grupo de Estudos e Pesquisas História em Educação, 31 são apresentados inúmeros trabalhos de pós-graduandos sobre as mais diversas instituições escolares de todo o país: públicas, particulares, religiosas, militares (GATTI JÚNIOR, 2007). Além de Grupos de Estudos e Pesquisas como a Universidade de Campinas, se destacam em historiar as Instituições Escolares no país como exemplo, História, Sociedade e Educação no Brasil, tendo como coordenadores o professor Dermeval Saviani e o professor José Claudinei Lombardi, contam com a participação de pesquisadores em todo o país. A partir do levantamento exploratório realizado no banco de dados da UNICAMP, detectamos o estudo de Alessandra Cristina Furtado, que privilegiou investigar sobre História e memórias de um espaço escolar feminino: o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora de Ribeirão Preto/SP (1918-1960). Nesse trabalho a autora preocupou-se em analisar a vinda das Salesianas para o Brasil, relacionando a atuação dessas religiosas junto à juventude feminina com o processo de consolidação do catolicismo. Com a intenção de recuperar a historicidade do Colégio, bem como sua instalação e inserção na cidade; analisando também a formação religiosa das jovens que ocorriam ao lado da instrução pedagógica. Citamos também, o estudo de doutoramento de Celeida Maria Costa de Souza, sobre a História das práticas pedagógicas e cultura escolar do Colégio Salesiano de Santa Teresa, Corumbá- MS (1972-1987), o qual a analisou as práticas pedagógicas e a cultura escolar do Colégio Salesiano de Santa Teresa, localizado em Corumbá-MS. Uma instituição confessional católica em atividades educacionais desde 1899. Destacamos o Grupo de Estudos da História da Educação e da Religião sediado na Faculdade de Educação da USP. A produção de doutorado de Paula Leonardi, sobre Além dos espelhos: Memórias, imagens e trabalhos de duas congregações católicas francesas no Brasil, que tem como objetivo de estudo analisar sobre a atuação de Congregações Católicas no campo educacional e mais especificamente voltado para a educação da mulher. Dentre os trabalhos detectados, mencionamos o Projeto de Pesquisa coordenado pelo professor Doutor Iranilson Buriti, ano de 2003 até 2005 intitulado: Puras, educadas e disciplinadas para o bem casar: a Congregação das Filhas do Amor Divino e a educação feminina no Seridó (1925-1962). O estudo teve como objetivo contemplar o processo de educação feminina para compreender como se deu a elaboração dos conceitos de gênero no interior desses espaços de transmissão de saberes e de poderes. A atuação da Congregação das Filhas do Amor Divino na educação continuou a ser pesquisada. O trabalho dissertativo de Alexandre Remo de Medeiros intitulado: De Viena à Caicó: educação em trânsito (1926 - 1940), o respectivo trabalho investigou a presença das freiras da referida Congregação na instalação do Colégio Santa Teresinha em Caicó. 32 Sobretudo em quase todos os Estados do Brasil, a exemplo do Rio Grande do Norte, com o Programa de Pós-Graduação em Educação, da Universidade Federal do Estado do Rio Grande do Norte. Dentre os trabalhos realizados no Grupo de Pesquisa: História da Educação. Literatura e Gênero/PPGED/UFRN, citamos a pesquisa de doutorado, de autoria de Débia Suênia da Silva Souza, intitulado Colégio Nossa Senhora de Lourdes: Culturas escolares em Cajazeiras/PB (1949-1983), o presente trabalho teve como objetivo compreender as culturas escolares que configuraram a referida Instituição Escolar, localizado na cidade de Cajazeiras, Paraíba e nele se constituíram. A pesquisa evidenciou que as Irmãs da Congregação de Santa Dorotéia chegaram em Cajazeiras em 1928, com a missão de assumirem a então Escola Normal Padre Rolim e edificarem o Colégio Nossa Senhora de Lourdes. A respectiva instituição representou investida da Ação Católica da Diocese de Cajazeiras, para se ter o projeto de educação feminina. Na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Campus de Assú, encontramos o trabalho monográfico intitulado Relações Políticas, educação e religião: O Educandário Nossa Senhora das Vitórias no processo de expansão do ensino estadual- (1922-1927), de autoria de Ádria Thays de Medeiros. O trabalho tem como objetivo a análise das relações que englobam os fatores educacionais, políticos e religiosos na idealização do Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú/RN, nos anos de 1922 a 1927. Evidenciando os desafios relacionados a educação feminina na sociedade republicana. Percebemos que tais investigações, se aproximam do nosso estudo em vários aspectos: em primeiro lugar, apresentam a presença de Congregações religiosas vindas da Europa para a instalação de Instituições Escolares voltadas para a educação feminina;em segundo lugar abordando sobre os atores envolvidos, a organização escolar, seu cotidiano, as práticas educativas desenvolvidas, considerando a categoria de análise da cultura escolar, assim como nosso estudo. Para Certeau (2011, p. 41), “as práticas são maneiras de pensar e de fazer, se constituindo as diversas práticas pelas quais os sujeitos históricos, se reapropriam do espaço, fazendo uso dos produtos culturais no mercado dos bens”. As maneiras de fazer e organização do espaço escolar no Colégio Nossa Senhora das Vitórias são, por exemplo, modos de educar, transmitir valores morais e religiosos. 33 Pinheiro (1997, p.288), enfatiza que, Nesse enfoque, a história tem sua atenção voltada para as práticas culturais e experiências sociais trazendo, por exemplo, alunos, professores, famílias, costumes e outros para o cenário histórico. Os indivíduos são situados no centro da história sócio-cultural, sendo dada uma atenção privilegiada as vivencias e recordações. Essa concepção de fazer história abriu, caminho para a construção do nosso objeto de estudo, analisar a cultura produzida no Colégio Nossa Senhora das Vitórias. A fim de compreender, como se configurou a cultura escolar, no Colégio, nela se constitui nos anos de 1927 a 1947. Para Sanfelice (2007), não há instituição educativa ou escolar que não possa ser objeto de estudo. No entanto, se faz necessário ter atenção aos nexos estabelecidos entre as dinâmicas internas da escola e as realidades externas seja de instância política, econômica, cultural, religiosa, educativa, da educação geral, moral, ideológica. Analisar o entorno envolve problematizar os fenômenos educacionais, alargando o quadro de análise histórica da história da educação, conciliando e integrando os planos “macro, meso e micro” (MAGALHÃES, 2005, p. 98). Dessa maneira, multidimensional que o referendado autor confere sentido a uma Instituição Educativa, a exemplo da cultura escolar produzida no Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú. Longe de ser uma tarefa fácil, a escrita da narrativa sobre a história de uma Instituição de Educativa, se faz necessário compreender o contexto histórico e as relações de poder estabelecidas nesse espaço, seus agentes, as materialidades que a compõe. As instituições educativas confessionais ou laicas/leigas não estão dissociadas dos acontecimentos políticos e agentes. Como destaca Magalhães (2004, p.124): As instituições educativas são organismos vivos, cuja integração numa política normativa e numa estrutura educativa de dimensão nacional e internacional é fator de conflito entre os campos de liberdade, criatividade, sentido de autonomização dos atores e normativíssimo burocrático e políticos ideológicos estruturante. Dessa maneira, nosso estudo dialoga com referenciais que concebem as realidades vividas em espaços e tempos determinados, articulados a construções sociais complexas. Conforme destaca Silva (2011, p. 30) “essas contribuem para refletir as realidades escolares, nas formas como são pensadas e construídas, a fim de alargar o conhecimento que temos sobre 34 elas”, como seu funcionamento, a organização curricular, suas práticas educativas, o cotidiano de alunos e professores. Na escola, o educar é uma rede de práticas formais, movida por aulas, saberes determinados pelo currículo, planejamentos de ensino, métodos pedagógicos, usos de equipamentos didáticos, livros, matrículas e avaliações. Essas práticas são modos de viver a escola nas múltiplas possibilidades que auxiliam a decifrar as instituições escolares e seus sujeitos (SILVA, 2011). Corroboramos com Sanfaceli (2007), quando ressalta que no interior das instituições escolares há um quebra-cabeça a ser decifrado, no qual nos deparamos com legislações, padrões disciplinares, conteúdos escolares, relações de poder, ordenamento da rotina. Pode-se considerar a instituição escolar a síntese de múltiplas determinações, seja através de instâncias políticas, econômicas, culturais, religiosas, da educação, interagindo entre si e construindo sua identidade, assim como nosso objeto de estudo. Nos arquivos públicos e privados da cidade de Natal, Mossoró e Assú mergulhamos nos acervos em busca de fontes e na tentativa de montar o quebra-cabeça que ali se apresentava. No entanto, percebemos que precisávamos ir além, como destaca Sanfelice (2007), para não se afogar em águas turvas. Tivemos esse cuidado no momento, em que estávamos no arquivo buscando informações sobre o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, procurávamos olhar para fora da instituição, isso porque assim como ressalta Sanfelice (2007, p. 77-78) “nenhuma instituição manifesta sua identidade plena apenas no interior dos seus muros, por isso é fundamental olhar para seu o entorno”. Olhar para o intramuros da escola, envolve percebê-la interagindo com os fenômenos educacionais e questões sócias mais complexas e contribuindo para construção da sociedade. Nesse sentido plural, que se insere o estudo das instituições escolares, a exemplo do Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Para Silva (2011), a história das instituições educativas, entendida como um domínio do conhecimento de renovação, ou seja, de voltar o olhar para os sujeitos, as relações sociais, as representações, os modos de ser e fazer das práticas e usos apropriações dos objetos educacionais, sugere novos documentos e um alargamento das formas como analisa-los. Conforme ressalta Magalhães (1999), o historiador tem que se respaldar das mais diversas fontes de informações, desde elementos físicos e sociais, fragmentos escritos e testemunhos biográficos. “ Uma verdadeira arqueologia do saber” (MAGALHÃES,1999, p 52). As fontes detectadas sobre a cultura escolar no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, a exemplo, livros de matriculas, relatórios anuais, divisão do material de ensino, as fotografias, 35 os livros de leitura, atas, jornais, são tão válidos quanto às fontes oficiais, as que Burke (1992) denomina de fontes produzidas pelos governantes. Para esse autor, ambas podem ser usadas pelos pesquisadores, mas precisam ser questionadas, lidas nas entrelinhas, interpretadas, entrecruzadas. Para Certeau (2002, p. 81) “em história, tudo começa com o gesto de separar, de reunir, de transformar em documentos certos objetos distribuídos de outra maneira. Esta nova distribuição cultural é o primeiro trabalho”. No período do Mestrado conseguimos unir um número significativo de documentos, encontrados no arquivo da própria instituição. Fotografamos os livros de matrícula contendo informações como nome dos alunos, ano de nascimento e referências dos pais, a exemplo de profissão e endereço residencial. Nos relatórios anuais apresentam informações acerca das atividades realizadas durante o ano letivo, apresentando as comemorações cívicas e religiosas, atividades de campo, momentos de leituras. Outro material encontrado, o livro a divisão do material de ensino, destaca dados sobre as disciplinas, conteúdos e indicações de materiais de ensino. No acervo da Casa provincial da Congregação das Filhas do Amor Divino em Emaús/RN, detectamos, livros sobre como Madre Francisca Lechner: mulher fundadora, Espiritualidade perceptível na obra desenvolvida por Madre Francisca Lechner, autoria Irmã Maria Thereza Hetzel, Uma bela vida, autoria Irmã Zoeli Maria Plestsch, A peregrina do Retorno, autoria de Irmã Vilma Lúcia de Oliveria, narra a missão de Irmã Teresina Werner em expandir a Congregação em outros países, a exemplo do Brasil. Dentre os livros encontrados, destacamos Cartas Circulares da Madre Francisca Lechner, se refere a uma coletânea de cartas escritas e veiculadas na Congregação das Filhas do Amor em Viena, desde sua fundação até o falecimento de Madre Francisca Lechner. Tais informações contribuíram para fazer uma leiturahistórica e crítica sobre o as bases fundantes da referida ordem religiosa, seus modos de ser e de fazer naquele contexto social. Dentre os materiais encontrados, destacamos também o livro biografado pela Irmã Ludovica Binder, intitulado Madre Francisca Lechner: fundadora da Congregação Filhas do Amor Divino, com tradução livre e adaptada do Alemão “Muther Franzisca Lechner”, editora Paulina, Fortaleza,1948. Essa obra narra à vida da Madre Francisca, sua peregrinação para construir a Congregação e suas escolas pelo mundo. Porém, um dos aspectos mais relevantes que detectamos, foi às diretivas de como as freiras professoras deveriam exercer a docência. Na residência de Maria da Anunciação de Sá Leitão Morais ex-aluna do ano de 1950, encontramos os livros O Colégio Nossa Senhora das Vitórias: 50 anos, autoria de Francisco 36 Amorim, O Município de Assú: notícia até 1928, autoria de Pedro Amorim e o jornal A Cidade do ano de 1922, o livro Educandário Nossa Senhora das Vitórias: meus sessenta anos de bodas de diamante, somam-se, a essas fotografias do Colégio e ex-alunas. Em comemoração aos 90 anos do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, dois livros foram lançados, dentre eles: Celebrar o Tempo: 90 anos de memórias e vitórias, autoria de Leyla Karoliny de Medeiros, Georgiana Maria Ferreira da Costa e Iza Maria Caldas Costa Gomes, ano de 2017. O livro retrata a história do Colégio, bem como mensagens de ex-alunos sobre a relevância dessa instituição para sua formação. O outro livro lançado intitulado Bodas de Álamo: 90 anos sob a luz das Vitórias, autoria de Pedro Otávio Araújo, ano de 2017, faz menção a história do Colégio, com informações sobre a missão de Teresina Werner para expansão da Congregação no Brasil, além dos intelectuais e políticos que estiveram à frente da construção da instituição em Assú, além do histórico de diretoras do Colégio entre os anos de 1927 até 2017. Ressaltamos a relevância das referidas obras para a historicidade do Colégio Nossa Senhora das Vitórias. No entanto, não se problematiza sobre o processo educacional ou questões sociais, se apresenta uma perspectiva de história linear. Dessa maneira, lançamos um olhar sobre como se produziu a cultura escolar no referido Colégio, em meados do século XX. Era um momento em que se exigia um novo redirecionamento da educação, particularmente para educação feminina. Ainda no período do Mestrado, visitamos o acervo da Fundação Vingt-un Rosado em Mossoró/RN, foi possível encontrar livros que versavam sobre a história de Assú e contribuíram para configurar o período da pesquisa nos aspectos sociais, políticos, econômicos, culturais e educacionais, a exemplo de Assú da minha meninice: memórias, Titulares do Assu, ambos de Francisco Amorim; bem como O Município de Assu, de Pedro Amorim, Assú: Atenas Norte- Rio-Grandense, autoria de João Carlos de Vasconcelos, Lembranças e tradições de Assú, autoria de Maria Eugênia Montenegro. Realizamos nova leitura desses livros o que resultou na soma de mais elementos sobre o contexto da época. No acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, digitalizamos, o livro como Leis e decretos do governo, referente ao Colégio Nossa Senhora das Vitórias, como a subversão pelo Estado no ano de 1927 e modificação na nomenclatura passando a ser intitulado de Educandário em 1942. Nos jornais de 1927 a 1933, encontramos matérias acerca da divulgação das festividades cívicas, resultados dos exames das alunas, sobre visita das freiras a outras instituições escolares em Assú e outros municípios como Mossoró/RN. 37 No acervo da Biblioteca Câmara Cascudo em Natal, fotografamos o livro Assú, autoria de Nestor dos Santos Lima, isso porque pesquisamos através do catálogo disponível na biblioteca livros sobre Assú e sobre o Colégio, auxiliando no rastreamento das informações. A tarefa de ir aos arquivos não é fácil, seja pela dificuldade de encontrar as fontes ou pela ausência deles ou pelo árduo trabalho de analisá-las e articula-las a outras fontes. Perseguimos as pistas dos arquivos, rastreamos e detectamos o maior número de corpus documental possível e tivemos o zelo de lê atentamente cada uma delas. Como destacam Nunes e Carvalho (1993, p. 26), sem atividade investigativa rigorosa, o estudo “sucumbe ao risco de girar em torno de ideias mal esclarecidas e de estereótipos cristalizados”. É nesse sentido que Lopes e Galvão (2001, p. 93) ressaltam que “um trabalho é mais rico e mais confiável quanto maior for o número e o tipo de fontes a que se recorreu e com maior rigor tenha sido o trabalho de confronto entre elas”. Foram meses e meses afinco nos arquivos do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, buscando o maior número de fontes que contribuíssem com nosso estudo. Figura 2: Silvia Helena de Sá Leitão Morais Freire, no arquivo do Educandário Nossa Senhora das Vitórias, em Assú/RN, ano 2017. Fonte: Acervo pessoal da pesquisadora. 38 Após as atividades nos arquivos, iniciamos a catalogação, sistematização e análise dos documentos, apoiamo-nos na compreensão de que a pesquisa histórica em educação se estabelece sobre um tripé, cujas bases são as fontes, a interpretação dos dados, a narração, materialização da escrita. Para operar uma cisão entre esses elementos principais, o desafio do pesquisador será a escolha dos guias teóricos, das táticas e das estratégias interpretativas (NUNES, 1997). No processo de construção da pesquisa, realizamos uma leitura atenta de todo os materiais, catalogamos as fontes documentais e construímos um quadro com informações de cada um deles. Esse procedimento nos possibilitou uma visão do geral do material disponível para análise e definição das categorias de estudo. Quadro 1: Catalogação das fontes Documento Fonte Informações Livros de matricula entre (1927- 1947) Arquivo : Educandário Nossa Senhora das Vitórias O material apresenta os nomes dos alunos matriculados, filiação, emprego do pai, data de nascimento, disciplinas. Ata de Reunião do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1922. Arquivo : Educandário Nossa Senhora das Vitórias Consta o registro da primeira reunião para instalação da Instituição em Assú. Ata de reunião da inauguração do Colégio em 9 de março de 1927 Arquivo : Educandário Nossa Senhora das Vitórias Descreve a solenidade de inauguração do Colégio, a presença de políticos, intelectuais. Notas que saíram para a Secretária do Estado em Janeiro de 1942. Arquivo : Educandário Nossa Senhora das Vitórias O documento apresenta o objetivo da educação no Colégio, bem como as ações desenvolvidas durante o ano letivo. Diário de Classe, classe elementares mistas, ano de 1938. Arquivo : Educandário Nossa Senhora das Vitórias O material descreve as disciplinas e conteúdo para serem trabalhados com os alunos, além da matricula, frequência e porcentagem. Divisão do Material do Ensino anos de 1927 a 1947 Arquivo : Educandário Nossa Senhora das Vitórias O material registra os conteúdos ministrados nas respectivas disciplinas: religião, português, aritmética, história do Brasil, história universal, geografia do Brasil e Univ., Frances, hit. Natural, 39 física, caligrafia, desenho, ginástica, bordado, canto conforme o método. Relatório anuais do Colégio 1927-1947. Arquivo: Educandário Nossa Senhora das Vitórias O material apresenta relatório ao Estado do RN. Apresenta o objetivo do colégio para a formação das mulheres. O relatório data entre os anos de 1941- 1942. Os relatórios apresentam modelo de oficio para ser enviado ao secretário do estado, bem como ao prefeito de Assú. Dentro do livro, contém ainda o diário de classe com informações sobre o cotidiano da aula, a exemplo de conteúdo, metodologia, indicação dos materiais didáticosutilizados. Apresenta explicações sobre o livro de matricula, com nome do aluno, nascimento, filiação, naturalidade, nacionalidade, religião, classe. No livro, ainda registra oficio enviado ao então secretário da Ed. da época Antônio Fagundes a mudança do nome de Colégio para Educandário ano de 1942. Decretos do Governo. Departamento do serviço. entre os anos 1930 a 1947 Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Norte Apresenta os atos administrativos que compete ao chefe executivo do Estado do Rio Grande do Norte, utilizados para nomear ou regulamentar leis, etc. Fotografias de Assú no período pesquisado Arquivos: Maria da Anunciação de Sá Leitão Educandário Nossa Senhora das Vitórias Registro de Assú, entre os anos de 1927-1950. Fotografias de Colégio no período pesquisado Arquivo: Educandário Nossa Senhora das Vitórias Primeira fachada da instituição, momentos em sala de aula, a exemplo, na aula de pintura, registro das professoras com as alunas em momentos de lazer, momentos de leitura.. Jornal: A Cidade, Assú, n 360, 07 de setembro de 1922 e 9 de março 1927 Arquivo privado : Maria da Anunciação de Sá Leitão Morais Constam informações sobre o cotidiano de Assú , primeira reunião para construção e inauguração do Colégio. Revista Caminhando com Madre Francisca Nº 54. Julho/Agosto/Setembro 2007- Arquivo da Congregação das Filhas do Amor Divino em Emaús/RN. Apresenta a história da fundação e orientações da Madre Francisca Lechner para suas escolas. 40 Viena/Aústria.(p.17- 18) Plano de instrução elaborado por Madre Francisca Lechner, como diretiva as Irmãs Professoras: (BINDER, p. 128). Arquivo da Congregação das Filhas do Amor Divino em Emaús/RN. Apresenta o modelo educacional da congregação das filhas do amor e as diretivas de como desenvolver as práticas educativas nas escolas da referida congregação Fonte: Quadro elaborado pela pesquisadora. Corroborarmos com Holanda (2002, p. 31), ao nos alertar que fazer análise histórica é possível, sendo que nenhuma fonte deve ser deixada de lado, “isso porque mesmos os objetos mais simples, são culturalmente construídos, tendo sentido e função para a sociedade que os originou, havendo uma relação da parte com o todo”. As fontes, sinalizavam aspectos dos elementos internos e externos do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, o que nos guiou à categoria central de análise cultura escolar. Segundo Silva (2011, p. 36), por ser uma categoria da história da educação, “possibilita construir leituras dos modos como a escola funciona e como os sujeitos fazem uso dos objetos culturais produzidos no âmbito social e no cotidiano escolar”. Para Julia (2001, p. 10), a cultura escolar é “um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos”. De acordo com Silvia (2011, p. 36), “esse conceito entende que a formação do sujeito e a cultura escolar se constroem nas teias da realidade social ligadas às finalidades religiosas, sociais e políticas da sociedade”. Sob a luz da categoria de análise cultura escolar, a apreciação das fontes da pesquisa subsidiou catalogar as informações, referentes ao Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Posteriormente, iniciamos o processo de articulação com o aporte teórico-metodológico, no qual realizamos a leitura e releitura dos dados. Conforme Lopes e Galvão (2001, p. 23) “é a partir da leitura e releitura constante dos documentos e da formulação e reformulação das questões que o pesquisador colocou inicialmente para o estudo, é que emergirão aos poucos, com mais nitidez as categorias para o estudo”. De acordo com Silva (2011, p. 38), a partir da sistematização, surgem às “categorias de análise, elaboradas não apenas com a organização de informações recorrentes nas fontes, mas 41 também com o diálogo entre os conceitos teóricos utilizados e o objeto de estudo em questão”. Após a catalogação e sistematização, surgem as categorias de análise específicas deste estudo, As primeiras diretoras e professoras , As festas escolares e Normas e disciplina escolar A partir da definição das categorias de estudo, teve início o processo de análise norteado pelo aporte-teórico adotado na pesquisa. Nesse processo de análise, foi interessante perceber, que a cultura escolar envolve o conjunto do fazer escolar, contribuindo para compreender os fazeres das instituições escolares, a exemplo do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, aquele que determina o que ensinar, o que transmitir, os fins a atingir, considerando o contexto sociocultural que a escola se insere. Nesse sentido, investigar sobre a cultura escolar Colégio Nossa Senhora das Vitórias entre 1927 a 1947, tornar-se uma pesquisa tão relevante quanto qualquer outro objeto histórico, na medida em que evidencia aspectos da cultura escolar, seus atores e a multiplicidades de saberes que envolvem a escola, destacando aspectos da história da educação local e norte-rio- grandense. 42 Capítulo 2 A CONGREGAÇÃO DAS FILHAS DO AMOR DIVINO: DA EUROPA PARA O BRASIL 43 2.1 A história da Congregação das Filhas do Amor Divino Toda Congregação religiosa nasce para uma missão e está situa- se sempre no sentindo de testemunhar e anunciar a fé, a partir de um serviço que atenda às necessidades de um determinado tempo histórico. Espera-se que, por esse anúncio e presença, o número de féis aumente e, para os outros, a fé não perca. É nessa perspectiva que a Igreja parte para a Educação. Seus colégios seriam grandes redomas a proteger a infância e a juventude do mal do mundo, projeção do espirito “fuga mundi” da vida religiosa de outrora: onde também iriam crescer na fé e na à Igreja, os decisórios do país. (ALVES, 1991, p.155). Perseguir a historicidade da Congregação da Congregação das Filhas do Amor Divino auxiliou a compreender como se configurou a sua base fundante, os interesses no campo educacional e sua expansão para outros lugares, como o Brasil, especificamente para o nordeste. É possível perceber que desde o início a Congregação tinha como objetivo educar as meninas a partir do aprimoramento e purificação do espirito, protegendo-as das más influências do mundo. A idealização da Congregação das Filhas do Amor Divino surgiu, por ocasião do crescente êxodo rural, provocado pela industrialização europeia. Francisca Lechner, sentindo a situação das mulheres desfavorecidas, que migravam para capital austríaca, teve a iniciativa de acolhê-las e de fundar uma comunidade religiosa e escolas que pudesse abrigá-las, com o intuito de preservá-las dos vícios e do “mau caminho” (OLIVEIRA, 1999). A Congregação estava preocupada com a manutenção da família, com a marginalização da mulher desempregada, a classe mais vulnerável, aos riscos da corrente exclusão causada pelo fenômeno da Revolução Industrial, e a mulher fosse ela criança, jovem ou idosa, era a principal da compaixão da Madre Francisca. Pela própria condição da mulher, as consequências da migração do campo para a cidade aumentavam ainda mais os riscos da influência negativa (OLIVEIRA, 1999). 44 Mas quem foi Francisca Lechner? naturalmente alemã, nasceu no dia 01 de janeiro de 1833, na aldeia de Edling , sul da Baviera, sendo a quarta filha de sete filhas do casal Franz Xaver Lechner e Maria Fusstetter, com base cristã. Figura 3: Madre Francisca Lechner (S/D). Fonte: Congregação das Filhas do Amor DivinoConforme o registro da imagem de Francisca Lechner, visualizamos as feições de uma jovem com um olhar firme, personalidade forte e convicta de seus objetivos. Esse perfil de mulher vinculada à vida religiosa com características rígida, sem expressão de sorriso, com vestimenta escura, representava o respeito e a disciplina de uma época. Não é por acaso que as fotos antigas mostram figuras severas, de roupas escuras, abotoadas e de mangas compridas. Para Nunes (1997, p. 497), o ideal religioso exprimia-se na negação de valores, comportamentos e normas correntes na sociedade; os costumes conventuais e as formas de comportamentos das religiosas deveriam ser diferentes para marcar distinção com o mundo. “Os modos de vestir-se; os pesados hábitos religiosos, inspirados nas camponesas europeias [...] a obediência restrita; as penitências; enfim tudo isso criava um mundo à parte [...]. ” 45 Figura 4: Madre Francisca Lechner com hábito da Congregação (S/D). Fonte: Congregação das Filhas do Amor Divino A base familiar e cristã de Francisca Lechner também contribuiu para esse perfil que analisamos nas imagens descritas, seja no tocante a escolha da vida religiosa, bem como para as tomadas de decisões, características adquiridas desde pequena quando já colaborava com o pai para manter a família. Ainda Oliveira (1998), destaca que Francisca acompanhava seu pai nas viagens para venda dos alimentos, fato esse que desde pequena apresentava bom desempenho no comércio e contabilidade. Na escola se destacava pelo aproveitamento nas disciplinas e liderança. Diante das influências oriundas da base familiar seja no aspecto da atuação do pai no comércio bem como estrutura cristã, vivacidade nas viagens, das suas capacidades, é possível que Francisca Lechner tenha assimilado aspectos da complexidade social, política e eclesiástica do seu tempo. Se não compreendia em sua completude, mas indiretamente respirava o clima de 46 um processo que colocava a Igreja numa busca mais decisiva, conforme ressalta Oliveira (1998, p. 61) “para readquirir a sua posição numa sociedade cada vez, mas profana; - reforçar as reservas das devoções populares; - suscitar obras que favorecessem o seu reflorescimento”. Neste ambiente nasceu e cresceu a Fundadora da Congregação das Filhas do Amor Divino. Uma Congregação que objetivou uma lúcida resposta de fé diante de uma particular carência em um particular momento e em uma particular situação da Igreja e da sociedade (OLIVEIRA 1998, p. 61). Segundo Hetzel; Hendges ( 2008, p. 258), desde sua infância, Francisca Lechner apresentava-se próxima à palavra de Deus. Ainda criança, tinha o anseio em aprender pequenas orações que lhe foram ensinadas por sua cuidadora, que a chamava carinhosamente de Franci: “a criança não rezava rotineiramente, mas com piedade e fervor, tanto assim que a sua ama achava que a sua Franci seria alguém bem singular...” (HETZEL; HENDGES, p. 256, 2008). Aos 13 anos de idade, já despertava o seu desejo de ser religiosa, assim cumprindo sua missão junto a Deus. Dessa maneira, fundamentada por essa vocação, conforme o registro decidiu escrever uma carta secretamente à superiora da Comunidade das Damas Inglesas em Altotting, na Alemanha, solicitando o ingresso como candidata na Instituição. A resposta foi positiva, no entanto seus pais de imediato não concordaram com o desejo da filha, pois alegavam que ela era inda muito menina. No entanto, cederam ao pedido da menina Francisca, a qual foi concluir seus estudos em Munique, sendo interna na Instituição das Irmãs Pobres Escolares de Nossa Senhora, na qual continuou sua formação estudantil e recebeu instruções para a vida religiosa. (OLIVEIRA, 1998). Francisca Lechner fez suas primeiras experiências religiosas já num ambiente onde a Igreja tinha marca e o carimbo do Estado. Situação que pode ser explicada com as palavras do Monsenhor Felix, lembrando que a Igreja, ao Proclamar Cristo Rei, quer afirmar a sua autoridade que dirige os próprios estados civis: deve ser para sociedade moderna, a autoridade que a dirige. (OLIVEIRA,1998, p. 62), Analisando o contexto histórico entre infância e juventude de Francisca Lechner, substancialmente compreende a “fase da restauração” da Igreja e posteriormente o ultramontaníssimo1, mais tarde a partir de 1848. A restauração trata-se de uma fase da Igreja, aliada ainda aos velhos poderes, tenta conservar ou retomar a sua antiga influência sobre a 1 Do latim ultramontanus. O termo designa, no catolicismo, especialmente francês, os fiéis que atribuem ao papa um importante papel na direção da fé e do comportamento do homem. Fonte: http://www.histedbr.fe.unicamp.br/navegando/glossario/verb_c_ultramontanismo.htm 47 sociedade. Corresponde à época em que a dinastia dos Bourbons2 se restabelecerá no trono da França depois da Revolução Francesa e também das tentativas napoleônicas, de anular os efeitos institucionais, políticos e culturais da experiência revolucionária e imperial (OLIVEIRA, 1998. p. 62). Outro ponto que podemos ressaltar nesse contexto histórico em que crescia Francisca Lechner é o Ultramontanismo, termo que designa o movimento ou aquela pessoa obediente, adepta, militante do Papa. Desenvolveu-se principalmente na França, Alemanha, Àustria e outros países, na luta contra o galicanismo, o josefinismo, o febronianismo , o iluminismo. O campo de tensões também acontecia na Alemanha e na Áustria, principais lugares por onde Francisca Lechner vivenciou suas experiências enquanto docente e religiosa. Na Alemanha registram-se as investidas do febroniasmismo3, ideia que comprometia o primado do Papa, reduzindo o poder pontifica à simples execução de Decretos e dos Cânones. Já na Áustria surgia o Josefinismo, trata-se de uma concepção de Estado da época, relacionada com Iluminismo, que praticamente estava circunscrito ao império austro-húngaro. Esses são alguns exemplos de modos de pensar que articulavam teorias sobre a constituição da Igreja. Para Oliveira (1998, 65), revendo a historiografia em relação à época em que Francisca Lechner crescia, a Igreja estava envolvida no processo vasto de movimento católico, obstante as consequências da secularização, das investidas do iluminismo, da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. Movimento com raízes fortes históricos e que se difundia em outros pais da Europa. Na Alemanha, o redespertar da religiosidade, em geral se direcionou para uma nova valorização do catolicismo. Sendo relevante a corrente espiritual do romanticismo, que despertou o amor místico, certa renovação religioso-eclesial, como um retorno ao passado e uma abertura aos problemas que se difundiam na sociedade e desafiavam a Igreja, tratava-se de uma corrente que era contra a unilateriedade da razão. Diante desse quadro aproximativo de tentativas da Igreja e retomado da sua influência perante a sociedade e retroagindo ao tempo em que estava inserida Francisca Lechner, entre a infância e adolescência e sua vida em Edling, passamos a compreender o que ela captou da situação, no interesse do seu espirito apostólico e empreendedor e 2 A casa real de Bourbon é uma família nobre e importante casa real europeia originária do centro da França. Durante o século XVI, os reis Bourbon governaram Navarra e França. Wikipédia 3 Na história da Igreja, no que diz respeito às relações entre Igreja-Estado, surgiram modos de agir e de pensar nos quais se acentuava o aspecto de igreja nacional unida a Roma apenas nos aspectos doutrinais. Significa que o governo era também responsável pela administração eclesiástica. 48 Essas concepções favoreceram o fluxo das missões e organizações missionarias, como efeito da crise e das propostas espirituaisque eram suscitadas na alma dos católicos fervorosos. Em outras palavras, atingida nos seus interesses materiais, na liberdade, na vida dos padres, dos religiosos, a Igreja soube tirar da perseguição a sua purificação, embora em alguns momentos a missão apareça misturar-se com uma moral de oportunismos políticos. (OLIVEIRA, 1998). A preocupação com as mudanças no comportamento feminino em virtude dos avanços e transformações ocorridas na sociedade nesse período faziam com que a Igreja e Estado estabelecessem um controle em defesa da mulher-mãe e seria também convidada para propagar a fé seja como sustentáculo da família ou participando de missões, conforme o contexto da época. Como se pode perceber Francisca Lechner cresceu e se educou num clima no qual a mulher era convidada a resgatar os valores morais e sócias da base familiar, bem como revigoramento religioso, em que a Igreja da Baviera retomava seu vigor, sendo restauradas as antigas igrejas, as abadias e as ordens religiosas. Sendo mais intenso esse movimento na segunda metade do século XIX, trazendo assim o surgimento de vários institutos religiosos femininos, assim como destaca Oliveira (1999, p. 77): “Sabe-se que já existiam desde o século anterior comunidades femininas nos hospitais ou em escolas, como as ursulinas, as Damas Inglesas, as Vicentinas e outras [...]”. A participação da mulher na vida religiosa é algo bastante significativo, a exemplo o período de Francisca Lechner é determinado pelo fato que a Irmã iniciava a atuar nas missões assumindo um papel, mas abrangente. Isto não significa ignorar algo parecido com o que já havia acontecido no século XVIII, mas ainda era um fenômeno com pouca visibilidade e sem expressividade. Conforme ressalta Oliveira (1999, p. 78), observar que nesta fase de retomada, de novo vigor, mulheres encontraram espaços. Faz-nos pensar o que se vem afirmando nestes últimos anos sobre invisibilidade da mulher na história da Igreja. Constata-se que a presença feminina, várias vezes como significativa evidência, dinamizou as experiências de fé em diversos tempos e contextos. Isso indica que está animação evidente apenas em alguns momentos não foi narrada ou formulada. 49 Para Perrot (2005), autora francesa que discute sobre a história das mulheres e os silêncios em torno de sua participação na sociedade, frisa que: A irrupção de uma presença e de uma fala feminina em locais que lhes eram até então proibidos, ou pouco familiares, é uma inovação do século 19 que muda o horizonte sonoro. Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao passado, um oceano de silêncio, ligado à partilha desigual dos traços, da memória e, ainda mais, da História, este relato que, por muito tempo, 'esqueceu' as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas tivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento. [...] As mulheres são mais imaginadas do que descritas ou contadas, e fazer a sua história é, antes de tudo, inevitavelmente, chocar-se contra este bloco de representações que as cobre e que é preciso necessariamente analisar, sem saber como elas mesmas as viam e as viviam [...] (PERROT, 2005, p. 9-11). Podemos evidenciar que neste tempo sensível de florescimento as comunidades femininas tornaram-se mais evidentes e, de modo mais efetivo registrou-se a atuação feminina. Nesse caminho encontra-se Francisca Lechner, num campo que ainda era na prática de certa exclusividade masculina. Surgiram também várias comunidades de sacerdotes, frades, mas a incidência mais significativa foi à fundação de comunidades femininas, visando uma nova missão de cunho social-caritativo, educativo, pastoral e missionária (OLIVERIA, 1998). Mesmo diante das modificações e complexidade do seu tempo Madre Francisca Lechener chegou em Viena no dia 25 de outubro de 1868 para fundar sua congregação. Nos primeiros anos da Sociedade Filhas do Amor Divino, expressa o Estatuto: A sociedade do Amor Divino é uma associação de mulheres dedicadas à educação de mulheres, preferencialmente ao atendimento e à formação de empregadas domesticas. Dedicando-se principalmente à assistência e a educação da mulher, os membros da Sociedade querem servir de instrumento ao Amor Divino, cooperando para que a mulher seja conduzida ao seu destino (OLIVEIRA, 1999, p. 105). Que destino seria esse? A vida guiada pela fé, com pureza, moralidade, característicos das Ordens e Congregações religiosas destinadas à mulher, nesses espaços a vida cotidiana estava repleto de normas severas, as vigilâncias eram constantes, chegando-se a utilizar punições para manter uma conduta moral calcada nos valores ascéticos de uma vida que precisava ser controlada para não incorrer nos pecados mundanos. Existia uma preocupação da Igreja no cuidado com a educação da mulher no tocante aos valores morais, isso porque o anti- modelo de mulher, a que transgredia as normas e seguia no mundo do pecado, poderia contaminar a mente e o coração de outras moças. 50 As cartas circulares veiculadas na Congregação das Filhas do Amor, sempre faziam menção a importância da preservação da conduta da mulher, os valores e principalmente a obediência. Tais orientações estavam embasadas na Regra de Santo Agostinho que se trata de um conjunto de regras criadas por Santo Agostinho de Hipona à vida monástica de muitas comunidades e ordens religiosas católicas desde o século V. Dentre os princípios essenciais da regra estavam a Pobreza, a Castidade, a Obediência, o desapego do mundo, a repartição do trabalho, a caridade fraterna, a oração, a castidade. No Estatuto da Congregação das Filhas do Amor Divino, explicitam a disciplina, o amor à Deus acima de tudo, a castidade, o amor ao próximo, uma vida guiada pela oração, em especial a obediência. Devemos refrear bem os olhos e os ouvidos, e evitar todos os olhares curiosos; não ouvir nada que não é necessário e útil. Mas o mais agradável a Deus será se nos empenharmos bem em aniquilar a vontade própria pelo cumprimento fiel da obediência. Minhas queridas Irmãs por isso vos recomendam de modo todo especial a santa obediência. (CARTA CIRCULAR Nº 4, VIENA, 6 DE MARÇO DE 1878, P. 9). Conforme ressalta o trecho da carta circular a obediência era a base para evitar as transgressões das meninas, isso porque a partir do cumprimento das regras evitariam que as más influência do mundo afastá-las da vida guiada pela fé. Sendo assim, Madre Francisca Lechner se preocupou em registrar o Estatuto da Congregação e legitimar as regras estabelecidas para formar aquelas que um dia iria formar outros sujeitos com base cristã. Os Institutos fundados por Madre Francisca Lechner teriam como proposta não somente instruí-las em todo tipo de trabalhos manuais femininos, mas também nos deveres religiosos, as pessoas seriam também acolhidas na velhice, na ausência de recursos para arcar com medicação, não ter lugar para ficar, com esse propósito pensou na fundação de Institutos, intitulados de Mariano, de caráter assistencialista. Para dar continuidade a idealização do seu projeto de fundação dos Institutos e da sua ordem religiosa, no dia 17 de novembro Madre Francisca Lechner levou requerimento Ministério do Interior para fundar sua ordem religiosa, sendo recebida pelo Barão Rudolf von Breisky, no qual compreendeu a utilidade que a Instituição teria para as empregadas domésticas que se deslocavam para cidade grande. No dia 27 de novembro , Madre Francisca Lechner recebe a concessão para fundar sua Sociedade e licença para coletar esmola em benefício da sua obra ( HETZEL; HENDENGES, 2008). 51 De posse da autorização para fundar sua obra, Madre Francisca Lechner necessitava de colaboradoras para dar início às atividades. Então visitou vários conventos pedir aos confessores,caso entre suas penitentes houvesse jovens vocacionadas para vida religiosa que tivessem a necessária coragem para colaborar na fundação da obra prevista, que as enviassem. Conforme Hetzel; Hendenges (2008, p. 25), no dia 05 de dezembro, apresentou-se a primeira colaboradora de nome Katharina Benda, natural de Buckau, Boemia, tendo seu nome substituído por Irmã Luzia , pedindo para ser aceita. Dessa maneira, Madre Francisca Lechner e sua colaboradora seguiram a coleta de esmolas em Viena, o primeiro benfeitor foi o Senhor Anton Lang, industrial do bairro Funfthaus, à Rua Kranzgasse, número 14, oferecendo-lhes 20 florins. Para agregar nas atividades de Madre Francisca Lechner buscou encontrar um sacerdote que já tivesse um nome conhecido e pudesse colaborar nas atividades da Sociedade. Sendo assim, encontrou o Reverendo Padre Anton Steiner, coadjutor da Paróquia da Corte Imperial, cujo padroeiro era Santo Agostinho. Aos poucos interligamos a história da Congregação das Filhas do Amor Divino e compreendemos o fio condutor da sua proposta educativa, as orientações de Madre Francisca Lechner para suas escolas. Inicialmente, com a forte relação entre Igreja e a Corte Imperial nesse período e a influência da Regra de Santo Agostinho nas atividades da Congregação das Filhas do Amor Divino. A influência da Santa Regra de Santo Agostinho é evidente nas ações de Madre Francisca Lechner, a abnegação, a penitência, apesar da saúde debilitada, sua busca para angariar mais recursos perdurou, no entanto em Viena, Madre Francisca Lechner não resistiu passar muito tempo a coleta de esmola. Com o organismo enfraquecido pela grave doença que havia a pouco superado, era forçoso a caminhada e subidas de escadas. Sendo assim, decidiu ir coletar as doações no interior, com a esperança que o ar puro contribuísse com sua saúde. Foi assim que se dirigiu com a colaboradora, para Korneuburg, Stockerau, Brunn, Modling, Baden, Neunkirchen, Gloggnitz e outros lugares circunvizinhos, situados na Baixa Áustria (HETZEL; HENDENGES 2008). Segundo Hetzel; Hendenges (2008), na cidade de Stuppach na Baixa Áustria, Madre Francisca Lechner encontra sua segunda colaboradora, cujo nome era Juditha Kock, ensinava as meninas a bordar e a costurar, era órfã de ambos os pais e sentia uma inclinação para vida religiosa, quando viu Madre Francisca Lenhcer vestida com o hábito, pediu-lhe para ser aceita e acompanha-la na missão. 52 Desse modo, Juditha entrou, no dia 27 de janeiro de 1869, para dar a sua vigorosa colaboração na obra que ambicionava. Posteriormente com o nome de Irmã Josefa, atuou como Superiora em diferentes casas da Sociedade, sobretudo nas recém fundadas, onde geralmente ainda havia obstáculos e dificuldades a serem enfrentados. Ela viveu ainda seis anos após a morte da fundadora. A entrada de Juditha estava, todavia, vinculada a uma decepção. Ela, no entanto, não se deixou abater por esta. Pelo contrário constava o fato muitas vezes para o divertimento de suas coirmãs (HETZEL; HENDENGES, 2008, 26-27). Madre Francisca Lechner em suas caminhadas diárias para formar um grupo de Irmãs para prosseguir o seu ideal da Congregação, foi em busca de um local para as atividades. Então no dia 24 de 1869, realizou-se a compra de casa número 4 , da Rua Fangasse, III Distrito de Viena, propriedade do Senhor Friedrich Raimann. Como entrada para aquisição da casa, foi ofertado o valor simbólico de apenas 1000 florins, angariado por meio de coleta nas ruas (HETZEL; HENDENGES, 2008). A casa foi então intitulada de Instituto Mariano, para indicar que estava sob a proteção de Maria mãe de Deus. Para auxiliar nas atividades da Congregação Madre Francisca Lechner recorreu a senhoras leigas para auxiliarem na coleta de esmolas, juntamente as Irmãs cujo número já aumentara com mais três, saiam para ruas em busca de donativos para as atividades da Obra e para o próprio sustento, na oportunidade aprendiam a ler, escrever e calcular, como destaca Hetzel; Hendenges 2008, p. 29): No dia 30 de abril de 1869, Madre Francisca Lechner obteve, a aprovação dos primeiros Estatutos da Congregação pelo Ministério do Interior. Em outubro de 1869, intitulado de Regulamento da casa, forma elaboradas as Primeiras Constituições, que receberam a aprovação dos Bispos de Viena. Omutz, Brunn e Gran (OLIVEIRA, 1999). A Congregação, assim se expressa nos seus primeiros Estatutos: A Sociedade do Amor Divino é uma associação de mulheres dedicadas à educação de mulheres, preferencialmente ao atendimento e a formação de empregadas domésticas. Dedicando-se principalmente à assistência e educação da mulher, os membros da Sociedade, querem servir de instrumento ao Amor Divino, cooperando para que a mulher seja conduzida ao seu destino eterno (OLIVEIRA, 1999). A partir das aprovações, teve início a expansão e desenvolvimento das primeiras comunidades, os vários momentos da evolução histórica da Congregação consolidam –se nos primeiros Institutos ainda nas terras no Império Austro-Húngaro. Nos primeiros 4 anos da Congregação, os dados estatísticos evidenciam as realizações da Obra, conforme registro em relatório feito por Madre Francisca Lechner no 5 º ano da sua Fundação 53 Realizações: Do dia da fundação, aos 21 de novembro de 1868, até o 1º de maio de 1973, nos Institutos Marianos foram acolhidas 10.600 moças pobres desempregadas, somando total de 148.000 dias de manutenção. Moças que receberam acolhimento e manutenção: a) 9.800, que foram colocadas em novos empregos b) 590, que foram enviadas a hospitais ou à Pátria, c) 210, que foram despedidas por motivo de inaptidão. Confissão religiosa das moças acolhidas: 10.159: católicas, 373: evangélicas, 77 judiais. Proveniência: 2.300 da Baixa Áustria, 3.500 da Boêmia e da Morávia, 2.400 da Hungria, 1.800 de outras regiões do Império, 600 do exterior. Pequena contribuição que foi dada para alimentação de internas: 75 para Instituto Mariano em Viena; 48 para Instituto Mariano de Brunn; 20 para Instituto Mariano de Troppau; 25 para o Instituto Mariano de Pest. Nas Escolas dominicais receberam instrução 210 alunas. Nas Escolas de Trabalhos Manuais receberam instrução gratuita 160 crianças pobre. Nos 4 Institutos foram educadas, formadas e mantidas 322 meninas órfãs pobres. Na creche de Dornbach foram cuidadas 130 crianças. Na apresentação do balanço financeiro geral, o saldo já se destinava à organização de uma casa de convalescente para empregadas que tivesse alta nos hospitais, bem como para um Asilo para empregadas invalidas (LECHNER, 27 DE NOVEMBRO DE 1868). É possível analisar a partir do relatório a expressividade da experiência fundante e a constituição de uma identidade da Congregação, alcançando seu objetivo em contribuir com a formação feminina. Inicialmente das empregadas domésticas, crianças órfãs e no cuidado de mulheres idosas, se expandindo para outros lugares, a exemplo do Brasil, no entanto com propostas diferenciadas considerando o ideário da época. Madre Francisca Lechner governou a Congregação durante 26 anos. O elã missionário e a fizeram fundar vários Institutos em Viena, Budapeste, Brunn, Praga, Cracovia, Saravejo. Sendo em Saravejo, uma terra considerada missão, como também a Bósnia. Para Oliveira (1998), entra em ato um marco de um projeto de vida, de missão que contribui na compreensão e na prática do modo dinâmico de ser Filhas do Amor Divino. Os indícios sobre a proposta educativa da Congregação estava se delineando e ficando mais claro suas ideais e aos poucos iria percorrer o mundo. No entanto considerando as particularidades após o falecimento de Madre Francisca Lechner, do contexto histórico-social que as futuras dirigentes enfrentariam para dar continuidade as atividades da Obra. A Madre Francisca Lechner antes do seu falecimento designou a sua substitutaa Madre Ignácia Egger para assumir os novos rumos da sua obra. Eleita nos sucessivos capítulos gerais governou a Congregação durante 32 anos entre 1894 a 1926. 54 Enfrentando inúmeros desafios para administrar a Congregação a Madre Ignácia Egger, dentre eles próprios da Igreja Católica, do contexto social da Primeira Guerra Mundial e os cuidados com as Irmãs que lhes era confiado. Como destaca Oliveira (1998, p. 116-117): Praticamente vivenciou a realidade da Igreja em quatro pontificados e uma longa história que evolveu o catolicismo nos fins do século XIX e na primeira metade do século XX. Século que se abria com aspectos bem diferentes; - o catolicismo tornara-se hóspede numa sociedade em que se processava um certo obscurecimento das tradições cristãs; a situação do Papa que se tornara estrangeiro em sua Pátria, hóspede de uma Estado laico e anti-clerial [...] O seu governo coincide com o tempo da questão dos imigrantes, que direta ou indiretamente influenciou as suas decisões relacionadas às futuras fundações; Por outro lado enfrentou a problemática da Primeira Guerra Mundial, com as suas implicações e consequências, como as mudanças incisivas nas história mundial e eclesiástica, inaugurando uma nova época revolucionaria e, consequentemente, para a Congregação foi um tempo de muitas aflições. Entre 1914-1918, além das grandes dificuldades nos cuidados com que lhes eram, por causa das ameaças de fome, também havia a situação que induzia as Irmãs a saírem do normal da vida claustral e dispersarem-se por toda a monarquia dos Habsburgos, para auxiliarem nos serviços da cruz vermelha. Apesar da preocupação com a dispersão das Irmãs da Congregação das Filhas do Amor Divino, se fazia necessário recordar o desejo missionário presente no legado de Madre Francisca Lechner. Talvez existisse também o receio, que essas jovens Irmãs se deparassem com a vida distante da oração, da clausura e abandonassem a Ordem religiosa, colocando em risco o futuro da obra. No entanto, logo seria inevitável o surgimento de outras atividades que sairia da rotina da Congregação, para atender em pastorais, fundar novos institutos em países do terceiro mundo, a exemplo do Brasil. Desta feita, compreende-se que nesse contexto que envolve a crise política, guerras e nacionalismos, mudanças de sistemas, emergem as inquietações motivadoras das primeiras modificações na estrutura político-administrativa referente aos rumos da Congregação. É apenas a partir de 1913 que a Congregação começou a estender-se para além das fronteiras do Império austro-húngaro e a abrir-se para a missão universal da Igreja. As Filhas do Amor Divino, lideradas por Irmãs Teresina Werner, chegaram ao Brasil em 1920, mais tarde, em 1925, vão para o Nordeste. Era uma das provas de recuperação do espirito missionário dos primeiros tempos da obra [...] (OLIVEIRA, 1998, p 120). Hoje, a Congregação das Filhas do Amor Divino é um Instituto religioso de abrangência intercontinental, presente em 19 países (Áustria, Alemanha, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Polônia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Kosovo, Albânia, Itália, Inglaterra, Estados 55 Unidos, Uganda, Brasil, Bolívia, Equador, Ucrânia e Suíça), onde as Irmãs atuam estabelecidas em comunidades circunscritas em 12 Províncias. As 12 Províncias das Filhas do Amor Divino, duas estão no Brasil desde 1920. No Sul, denominada de Província Nossa Senhora da Anunciação, com sede em Santa Maria, no estado do Rio Grande do Sul, onde as Irmãs desenvolvem trabalhos nas áreas de saúde, educação, assistência social e comunidade eclesial de base. No Nordeste / Centro Leste, denominada Província Nossa Senhora das Neves (PRONEVES), com sede em Natal, Rio Grande do Norte, onde as Irmãs desenvolvem trabalhos nas áreas de saúde, educação, assistência social, pastoral paroquial e evangelização. 56 2.2 A expansão da Congregação para o Brasil Brasil, meu ansiado campo missionário! (Ir. Teresina Werner S/D) Abordar sobre a vinda da Congregação das Filhas do Amor Divino, especificamente para o Brasil, está intrinsecamente relacionada a presença de Irmã Teresina Werner. Sendo fundamental abordar os motivos que a trouxeram para esse Pais de terceiro mundo e, em especial para a cidade do Assú, no Rio Grande do Norte, para fundação do Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Mas afinal, quem é Teresina Werner? Seu nome de batismo é Paulina Antonia Wernerowá , nasceu em 1 de Outubro de 1874 em Brunn, uma das principais capitais da República Tcheca. Sua família era católica e logo aos 11 dias de nascida foi batizada na Igreja de São Pedro, precedida pelo Decano e Pároco Pe. Joahn Bapttists Raus. Era filha de Josef Werner e Aloisa Kleinerová. Seus padrinhos de batismo eram Gabriela Kleinerová e Anton Komenda, coletor de impostos da Coroa, em geral era um nobre ou aristocrata. Seus avós maternos eram Dyonisius Kleiner e Aloísa e os avós paternos eram Johan Werner , casado com Anna, que antes de se casar tinha o sobrenome de Rathová (OLIVEIRA, 1999). 57 Figura 5: Irmã Teresinha Werner (S/D). Fonte: Congregação das Filhas do Amor Divino. A decisão de expandir as obras da Congregação para outros países, como Brasil, foi marcada por inúmeros conflitos entre Irmã Teresina Werner e a Superiora Geral Madre Ignatia Egger. Para Teresina Werner, o conservadorismo e o receio de arriscar de Madre Ignaria Egger significava retardo e ameaça ao futuro da Congregação. Ingressou no noviciado da Congregação das Filhas do Amor Divino, no dia 18 de agosto de 1892, em Viena. Se destacava pela dedicação, responsabilidade e logo após a conclusão dos estudos no internato, se interessou pela docência. Sendo assim, preparou-se para ensinar piano, canto, francês, inglês e alemão, pois tinha muito talento para música e línguas. A madre Francisca Lechner admirava o empenho e depositava confiança nas atividades desenvolvidas por Irmã Teresinha Werner e pediu para continuar a missão da Congregação. (OLIVEIRA,1999). Dessa maneira, lançava-se, com insistência, percebendo as transformações do seu tempo histórico. Os registros documentais apontam que entre o período de 1912 a 1915, foi um período que o processo missionário ocorre intensamente, seguido pela dinâmica de expansão das Filhas do Amor Divino para fora das terras do Império austro-húngaro (OLIVEIRA, 1999, p. 212). 58 Nas leituras e nas entrelinhas dos materiais que encontramos a respeito de Ir Teresina, a exemplo dos livros “ A peregrina do retorno”, “Bodas de Álamo: 90 anos sob a luz das vitórias” percebemos que sua personalidade forte e impulsos nas tomadas de decisões, deixaram uma marca conturbada dentro da Congregação das Filhas do Amor Divino, poucos registros, quase não se menciona sua participação e relevância na expansão da ordem, sua presença se tornou coadjuvante. Segundo Oliveira (1999), os silêncios em volta do Ir. Teresina são muitos. Poucos sabemos sobre sua família, sobre sua infância, sua vida de internato, este silêncio pode ser analisado como uma referência à totalidade da sua personalidade. Trata-se de um coração tão impetuoso quanto generoso, livre e como o orgulho de quem trazia consigo o ardor das rebeldias e contradições de uma época e que demonstrava ser mulher em crescimento no caminho das descobertas do sentindo e do hálito poderoso da santidade. [...] Ir. Teresina se exercitou na humildade, talvez uma das razões do seu silêncio, do domínio de sí, controlando suas explosões, muitas vezes incontroláveis, também devido ao seu caráter impetuoso [...] (OLIVEIRA, 1999, p. 146). Em cartas enviadas por Madre Teresina Werner a Madre Superiora Ignata Egger, se percebe o clima de insatisfação porparte da Ir. Teresina em relação a ausência de compreensão das suas ações, registra: [...] Eu não tenho nada contra a Superiora, mas ao contrário, tenho pena dela porque compreendo a sua situação; gostaria muito de ajudar em determinados casos, mas ela não entende quase nada do meu caráter, toma a coisa de outo modo, de forma que em consequência de muitos mal entendidos acontecem coisas desagradáveis, porque também eu nem sempre consigo permanecer tranquila [...] Esta minha carta não tem a finalidade de me justificar; eu reconheço os meus defeitos e não quero negar jamais a minha culpa, por mais humilhante que que seja confessa-la , ou por mais que pesem as consequências; em todo momento estou disponível a dizer tudo aquilo que fiz. É nesta disposição peço perdão, de todo o coração, por todas as faltas que cometi, mas não por aquelas que foram inventadas; porque não me pesa esta culpa, também não posso pedir o perdão da mesma. De certo modo, indignei- me com a ameaça de demissão e devo esforçar-me para dominar os meus sentimentos, a fim de não a pedir eu mesmo a Roma [...] (OLIVEIRA Apud WERNER, 1904, p. 146). 59 A referida carta é apenas uma amostra da relação de conflito existente entre Madre Teresina Werner e a Superiora, são dezenas de cartas demostrando insatisfações, desilusões, mas também convicções de que deveria seguir com a promessa feita a Madre Francisca Lechner de expandir o campo missionário da Congregação das Filhas do Amor Divino, e o Brasil estava na rota. É possível perceber nas cartas a participação e convicção do Ir. Teresina Werner em expandir a Congregação pela Europa, África, Brasil. Mas teve que enfrentar vários desafios, entre eles a não permissão da Madre Superiora. Para Oliveira (1999), após o falecimento de Madre Francisca Lechner, Ir. Teresina Werner pode ser considerada como um marco que determina a 2ª fase de expansão missionária da Obra Lecheneriana. Até 1912, a Congregação ainda não tinha ultrapassado os limites da Áustria, e a Ir. Teresina Werner, persistia pelo entusiasmo, pelo desenvolvimento missionário e persistência para autorização para expansão. Brasil, meu ansiado campo de trabalho, conforme mencionava Ir. Teresina Werner, obviamente a caminhada no processo até chegar à manifestação explicita do seu interesse pelo Brasil pressupõe toda uma evolução traduzida pelas suas lutas que exprimem o seu elã e empenho pela Congregação. Como surgiu o convite de vir para o Brasil? Em 1913, Padre Schimmoller esteve em Viena, especialmente para solicitar irmãs para o Brasil, juntamente com o Padre Joseph Von Lasserg, a vinda para as cidades de Passo Fundo e Serro Azul/RS. No entanto, a Madre Superiora Ignaria Egger, não concordava com a expansão da Congregação, em especial o Brasil, por ser um país distante. Após longo período de conflitos, a Irmã Teresina Werner decidiu vir para o Brasil e na busca de colaboradores para viagem, conheceu a jovem, que ainda não era religiosa Hedwing Hardegg, mais tarde Imã Berchmana Hardegg. Depois mais duas pretendentes se dispusseram a ir para as missões, como a candidatas á vida religiosa, são elas: Margarida Engel e Erna Eck (OLIVEIRA, 1999, p. 247). Em 1920 a partir da documentação tem o registro do ato formal indicando que irmã Teresina Werner, recebeu a licença para esta nova fundação e para viajar para o Brasil. Em 19 de abril de 1920, segue da Áustria em direção a Gênova na Itália, local do embarque para o Brasil; de São Paulo, Novo Hamburgo, Uruguaiana, Santo Ângelo até o dia 19 de julho ao chegarem a Serro Azul, hoje Cerro Largo /Rio Grande do Sul, de navio e por fim desembarcam em São Paulo, no Porto de Santos, em junho de 1920 e fundaram a primeira escola da Congregação no Brasil (OLIVEIRA, 1999). 60 O contexto histórico vivenciado no Brasil pelas Irmãs das Filhas do Amor Divino registrava a Igreja na fase de transição, entre os períodos identificados como: reorganização da Igreja entre 1890 a 1921 e da restauração católica 1922 a 1961. Em 1920, a Igreja no Brasil já tinha passado por todo o processo da reorganização, cujo marco de início é a separação entre Igreja e Estado (OLIVEIRA, 1999, p. 269). Nesse período registra-se a formação de sacerdotes em Roma, a multiplicação de dioceses, a chegada de Institutos Religiosos no Brasil, onde multiplicam-se escolas católicas, sob direção de religiosos, como contribuição hierárquica, preocupada em fazer frente ao ensino leigo oficial e a multiplicação das escolas protestantes, realidade vivenciada também no Rio Grande do Norte. Conforme Oliveira (1999, p. 34), entre 1920 a 1930 o episcopado brasileiro, juntamente “com o clero, religiosos, leigos, busca recriar uma nova imagem da Igreja católica através de uma série de iniciativas de caráter social e religioso. O Rio de Janeiro foi palco dos principais eventos”. Após a conclusão da revolução de 1930 a Igreja sob a hábil liderança do Cardeal Leme, oportunizou que a Igreja voltasse ao domínio público, reconquistando as estruturas do Estado, a fim de criar e de exercer influência. No Rio Grande do Norte, Dom Jose Pereira Alves, entre os anos de 1923 a 1928, esteve à frente do Episcopado na Diocese de Natal, articulando a vinda de Congregações para o Estado, a fim de expandir a criação de escolas, conforme orientações do então Cardeal Dom Sebastião Leme, com o objetivo de disseminar os ideais católicos e preservar as famílias, em especial as mulheres das influências negativas do mundo moderno. No período de 1920 a 1927, a Congregação das Filhas do Amor Divino fundou no Brasil os respectivos Colégios: O Colégio Maria Anunciação, hoje Instituto Nossa Senhora da Anunciação, em Cerro Largo/RS, o Colégio Nossa Senhora da Visitação, em Santo Ângelo, o Colégio em Rosário do Sul. No Rio Grande do Norte fundaram o Colégio Santa Teresinha em Caicó, e o Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú. Em 1925 Irmã Teresinha Werner recebe o convite para fundar um Colégio para as meninas na cidade de Caicó, no Estado do Rio Grande do Norte. A cidade estava no auge na sua economia voltada principalmente a cotonicultura e pecuária. Logo as famílias mais abastadas desejavam educação para suas filhas e buscou junto ao governador da época José Augusto Bezerra de Medeiros, o Bispo Diocesano de Natal, Dom José Pereira Alves e o Cônego Celso Cicco articular a implantação de uma escola confessional católica, capaz de atender as necessidades educacionais e religiosas das meninas. Com o objetivo de educar as moças da 61 sociedade caicoense e com sentido missionário e educativo a referida Congregação se dirige para o Rio Grande do Norte (ARAÚJO, 2012) Assim seguiram de navio saindo do Rio Grande do Sul, desembarcando em Natal a Irmã Terezinha Werner junto com mais nove freiras totalizando um grupo composto por dez religiosas. Ao chegarem a Natal, elas são recepcionadas pelo então governador José Augusto Bezerra de Medeiros que se apresenta como um importante colaborador da missão de implantar o educandário a ponto de logo no início de sua chegada o governador auxilia-las no deslocamento de seu pertences e equipamentos de trabalho até a cidade. (ARAÚJO, 2012) O bem-feitor maior era ainda D. José Augusto, governador. Na chegada da irmãs a Natal, ele mandou seu secretário para saudá-las e depois ele as recebeu do modo mais agradável no palácio dele. Demonstrou muita satisfação pela chegada das irmãs, principalmente porque elas se dedicariam à educação da juventude de sua cidade natal. Ele também pagou a despesa para poder chegar a Caicó, e o transporte da bagagem que custou vários contos. (LIVRO DE CRÔNICAS DO EDUCANDARIO SANTA TEREZINHA p. 01) O grupo se dirigiu para a cidade de Caicó/RN e ao chegarem se deparam com inúmeros desafios de ordem estrutural e climático, fato que gerava desconforto em decorrênciade um clima árido. Dentre os principais desafios estavam na acomodação das religiosas, ficando hospedadas na casa do chefe de polícia, coronel José Damasceno. As primeiras atividades desenvolvidas pelas irmãs aconteceram na biblioteca pública de Caicó, permanecendo nesse espaço por dois anos. Em virtude, da chegada das irmãs em meados do ano letivo em 1925 não tiveram condições de fundar a escola, ficando incumbidas de ministrar apenas aulas particulares de música e línguas. Tal atividade contribuiu para angariar recursos para ajudar nos custos fixos das irmãs e no projeto da reforma do prédio. (ARAÚJO, 2012) Após a implantação do Colégio em Caicó, em 1926, chega ao Brasil a Superiora Geral Madre Kostsha Bauer que iniciou seu itinerário de visitação das instituições instaladas no Brasil, especificamente no Rio Grande do Norte. Em 1926, a Madre Kostka, recebe o convite do Bispo Dom Jose Pereira Alves, para assumirem a direção do Colégio Nossa Senhora das Vitorias em Assú. Sendo assim, aceitaram a solicitação e no dia 17 de fevereiro de 1927, desembarcaram em Recife quatro Irmãs: Alberti Garimberta, Digna Taudes Volkmara Stanoscheck e Mercedes Fontan. Oliveira (1999, p. 342), narra à chegada das Irmãs no Rio Grande do Norte: 62 Após uma tranquila viagem marítima as irmãs chegaram a Recife no dia 17 de fevereiro, onde foram esperados por sua nova Superiora, Irmã Jaromira Ondra, tendo sido chamada de Serro Azul, para este fim, pela Rev. Madre Geral. No dia 22 de fevereiro chegaram a Açu e com elas a tão esperada chuva, dois acontecimentos alegres, como foi contato pelas Irmãs. As Irmãs foram saudadas da maneira mais amável, mas para elas também de modo mais estranho. Somente Irmã Teresina, Superiora de Caicó, que introduziu as Irmãs aqui, podia comunicar-se com o povo; as Irmãs não dominavam a língua portuguesa e entre os Assuenses ninguém sabia falar Alemão [...] (CRÔNICA I, 1926, COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITORIAS, AÇU, P.1). No dia 13 de março de 1929, chegaram a Natal duas a irmãs vindas da Europa, Imaculada Widder e Carmela Trampusch e no dia 5 de abril vindo de Serro Azul chegaram as Irmãs Cristina Wlastnik e Amabilis Jakubec, vinda de Praga e foram para Assú. O Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú, ficou sendo o centro de convergência das Filhas do Amor Divino no Brasil, isso porque a Madre Christina ficou como vigária até 1938. Em 1939, com a nomeação de Madre Christina como superiora Provincial, a Casa de Assú passou a ser também a casa Provincial e, portanto, sede da Província, até 1950. 63 CAPITULO 3 O COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS: SUA HISTÓRIA 64 3.1 A instalação do Colégio e o cenário de Assú A escola é um lugar de memória. Quando o olhar pode atravesar a espessura do tempo,destingue vestigios de sua história (SOUZA, 2000, p. 7). No ano de 1650, uma tribu de numerosos indios levantou os fundamentos da cidade, (do Assú), dando-lhe o nome de Taba-assú, que quer dizer Aldeia Grande (NOBRE, 1877). Em 1696 Bernardo Vieira de Melo, que então governava a Capitania do Rio Grande do Norte, tratou de fundar o Arraial do Assú, e para isso lançou um Bando da Capitania do Rio Grande do Norte. Fundado o Arraial que recebeu o nome de Nossa Senhora dos Prazeres ( AMORIM, 1929). Lima (1929, p. 1) pontua ainda que, “em 1696 Bernardo Viera de Melo, então governador da Capitania do Rio Grande do Norte, fundou o Arraial do Assú e lançou para tal fim o Capitão General de Pernambuco e trinta soldados a missão de em seis de fevereiro de 1696 seguirem para ribeira do Assú”. O Arraial também recebeu outras denominações, dentre elas, Santa Margarida, Povoação de São João Batista da Ribeira do Assú, Vila Nova da Princesa, e Assú (AMORIM, 1929, p. 3). O Assú se tornou municipio em 22 de Julho de 1776, sendo instalado a 11 de Agosto de 1778, recebendo o nome de Vila Nova da Princesa. Conforme o conselho Presidencial, em sessão de 25 de outubro de 1831. (AMORIM, 1929). Segundo Pinheiro (1997, p. 54), o nome Assú é de origem Tupi, língua falada pelos Janduís, cujo significado do vocábulo, que batiza o município, tem duas interpretações: [...] uma diz significar “grande”, segundo consta à literatura oficial da história da cidade; a outra, de acordo com Padre A. Lemos Barbosa, significa “mão esquerda”, justificada pela fala do índio, quando assim se referia em relação ao curso do rio no sentido sul-norte, ficando Assu a sua margem esquerda. Para Pinheiro (1997, p. 54), “a grafia do topônimo Assú é polêmica, quanto ao emprego dois dos esses ou da cedilha. Nos primórdios de sua elevação à condição de cidade, era grafada com dois esses. Foi considerada enquanto cidade através da Lei nº 124, de 16 de outubro de 1845, de autoria de João Carlos Wanderley, com a demoninação de Cidade do Assú como destaca o texto da Lei. nº. 124, de 16 de outubro (AMORIM, 1929, p. 4). 65 Figura 6: Lei n. 124 de 16 de outubro de 1845. Arquivo: Pinheiro (1997, p. 55). O terreno que está assentada a cidade, foi doado para patrimônio de São João Batista , por Dona Clara de Macedo, no ano de 1776, em cumprimento de um voto. O prédio da Matriz de São João Batista , padroeiro de Assú, na praça Getúlio Vargas, é o mais imponente da cidade. Seu primeiro vigário foi o padre Manuel Mesquita e Silva. Com relação à igreja , sabe-se que as duas torres e os corredores laterais foram contruidos pelo coronel Manuel Lins Wanderley. Para os trabalhos de levantamento das paredes , conforme Dona Sinhazinha Wanderley (In Memorian)4, ele convocou índios mansos de Caicó. Manuel Wanderley, muito devoto de 4 A propósito, Dona Sinhazinha conta uma história ouvida de seus ancestrais: o coronel tinha uma filha, Francisca, que casara sem seu consentimento e que por isso ele não mais abençoara. No dia da chegada da imagem, muito temerosa, Francisca tentou mais uma vez fazer as pazes com o velho. Este, “ homenagem ao santo”, abençoou-a. 66 São João Batista , mandou buscar também a imagem do Santo Padroeiro, em cuja chegada se fez uma grande festa. Os altares da Igreja foram concluidos em 1863. Em 1907, o então vigário, padre Antônio Brilhante de Alencar, abriu-lhes as grandes arcadas laterais e revestiu de mosaico o piso (BNB, S/D). O final do século XIX apresentou transformações relevantes para a sociedade asuense, nos aspectos do planejamento da cidade e no convívio social. A cidade registrava os sinais de progresso que começavam a chegar. Em 1862, ocorreu à construção do cemitério Público e nesse mesmo ano o Colégio das Irmãs de Caridade como era conhecido, fundado pelo padre José Maria Antonio Ibiapina. Essa congregação tratava dos desvalidos da cidade e dedicava-se a dar instrução às moças pobres, que permaneciam até a idade de casar (MORAIS, 2010). Em 1865, Assú passou, a contar com uma tipografia montada por João Carlos Wanderley, sendo publicados periódicos, a exemplo do Assuense. Segundo Amorim (1929), esse periódico foi primeiro jornal do interior do estado. Em 28 de julho de 1874, foi inaugurada a Biblioteca Pública, tendo o Mercado Público começando a ser construído um ano depois. A estação de Telegráfo Nacional, em virtude de pedidos dos governadores provisórios do Estado, como Xavier da Silveira e Pedro velho, foi instalada em 11 de Dezembro de 1890, na Rua São Paulo (LIMA, 1929). A reorganização da vida social estendeu-se pela prática do teatro amador, Assú foi uma das primeiras cidades do Rio Grande do Norte a possuir um teatro (MONTENEGRO, 1978, p.109). Dentre as peças encenadas pelaprimeira vez na cidade do Assú, “A Lapinha”, teve sua estreia em 1898, organizada por Joaquim de Sá Leitão (MONTENEGRO, 1978). A peça constava de três atos, narrando sobre o nascimento de Jesus. O vestuário era branco e nos aventais, a cor do partido que representavam, sendo elas a cor vermelha e azul. Trazem maracás e fitas coloridas, com cores correspondentes e chapéu de palha, também com fita da cor do partido. Nos intervalos da apresentação aparecem duas ciganas, representando cada uma o seu partido. Junto às pessoas recebiam, em salvas de prata, as ofertas. A vitória final caberá à cigana que fizer mais dinheiro para o seu cordão e embaladas pela animação do público cantam todos juntos (MONTENEGRO, 1978, p.114). Vamos, ciganas do Egito, De tão longe a Belém Adorar o Deus menino A Jesus, o nosso bem 67 Em 1905, o município de Assú estimava uma população de 12.787 moradores, os quais contavam com duas escolas de primeiras letras, funcionando no centro da cidade, regidas por Manoel Ferreira de Macedo Jalles e Maria Bezerra Varella Coelho (AMORIM, 1928b; LIMA, 1929). No ano de 1911, foi então inaugurado em Assú o Grupo Escolar, por iniciativa do juiz de direito Tenente Coronel José Correia, que considerando que o município estava desprovido de estabelecimento educativo público, destinado à minoria social. Segundo Amorim (1977, p. 13), “a cidade de Assú almejava uma instituição escolar, com instalações físicas modernas, que representasse os sinais de mudanças que a cidade pretendia alcançar”. Para tanto, surge o interesse em implantar o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, que iria atender às novas exigências das regras de higiene, materiais pedagógicos e a organização do ensino, perspectiva circulante em Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte. A preocupação no setor educacional, especificamente com o ensino primário registra que nas primeiras décadas do século XX, existia a tentativa de organizar o ensino primário no Rio Grande do Norte, por meio do decreto 174, de 05 de março de 1908, com a criação do Grupo escolar Augusto Severo, o primeiro do gênero no estado. Logo em seguida o decreto 178, de 29 de abril, criou a Escola Normal de Natal, com a incumbência de formar os mestres, com novos modos de ensino (SILVA, 2004). Não se poderia pensar em reforma no ensino sem considerar a importância de uma escola preparatória, ou seja, uma boa formação dos mestres primários (LIMA, 1927). Outro fator destacado referia-se à organização do funcionamento das escolas elementares, ou escolas de primeiras letras femininas, masculinas e mistas. Conforme destaca Silva (2004, p. 46), “as escolas de primeiras letras funcionavam muitas vezes em residências dos mestres ou em espaços inadequados, com ausência de infraestrutura, no que se refere à iluminação, ventilação, higiene e a recursos didáticos”. De acordo com Silva (2011, p. 57), a educação formal foi um dos pontos do projeto de modernização do Rio Grande do Norte, dentre eles se destacando os aspectos de melhoramento, a abertura de estradas, a construção de linhas férreas, de praças e ruas, a iluminação elétrica e as práticas de higienização e de civilidade da população. No âmbito da sociedade norte-rio-grandense nos anos de 1920, as inovações não se constituíram um fato isolado. No Brasil, na primeira República, atingiu a diversos setores sociais, como a urbanização, saúde, educação, do comércio e da indústria. Conforme Silva, M. (2004), o Rio Grande do Norte como em outros centros urbanos, intelectuais e dirigentes, objetivavam incluir o estado no projeto de modernidade . 68 As instituições de ensino fizeram parte desse conjunto de melhoramentos urbanos, compondo o cenário de progresso das cidades, constituindo-se símbolo de modernização cultural e social para as cidades. Segundo Gaeta (1991, p. 24) “a sociedade acreditava ser a educação escolarizada um dos instrumentos civilizatórios possíveis para a cidade em processo de urbanização”. No entanto, sabemos que essa compreensão de educação como instrumento civilizatório não foi generalizada e comum a todos. Nesse movimento de renovação faziam parte às cidades, com a arquitetura dos prédios, a organização de ruas, de espaços para convívio social e dos meios de transportes. “Já na década de 1920, as principais ruas de Assú dispunham de calçadas feitas de pedras, com dez palmos de largura, uniformes e contínuos, o que contribuiu para o novo estilo vida e convívio social” (AMORIM, 1929, p. 20). As pessoas especialmente os rapazes e moças, passeavam nas tardes de domingo. O passeio dominical expressa que o surgimento da calçada nas ruas de Assú, contribuiu para mudanças nas formas de vida daquela cidade. As moças particularmente saem do seu enclausuramento doméstico, para verem e serem vistas, e para comunicarem-se num encontro face a face, expressando ainda, que a calçada tem uma finalidade que garante a sociabilidade, o encontro e o desencontro, prestando-se igualmente a um espaço de lazer, conversa, namoro. Essas ruas, em 1925, receberam placas de identificação com suas denominações e as casas com numeração, evidenciando a organização urbana (PINHEIRO, 1997, p. 63). Em 13 de dezembro de 1922, a cidade de Assú inaugurava-se a iluminação elétrica. No setor da agricultura o algodão foi a principal fonte de riqueza, destacando como um dos produtores do Estado na época. No comércio, se destacava na produção da cera de carnaúba , sendo a principal indústria extrativa do município. Na visão de Amorim (1929, p. 15), “o centro urbano se configurava salubre com reformas exigidas pelos tempos modernos”. Nesse período, além dos diversos prédios públicos que a cidade já possuía a exemplo da intendência municipal, havia também o quartel do destacamento policial, a Igreja Matriz de São João Batista, o edifício da mesa de rendas estaduais, uma coletoria e o Cine-Teatro, que se encontrava em construção (AMORIM, 1929). Nos anos de 1920 a cidade de Assú, contava com os seguintes estabelecimentos de ensino: o Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia, primeira escola pública do município. Já nas comunidades rurais da cidade de Assú encontrava-se a Escola Rudimentar do Piató de Baixo dirigida pela Professora Luiza de França Siqueira de Farias, com matriculas de 57 69 alunos, suas despesas compartilhadas entre Estado e Município. O estado pagava o salário da professora e o município o mobiliário e o material de expediente (AMORIM, 1929). A Escola Rudimentar de Comboieiro dirigida pelo professor João Ignácio Pereira Neto, com matricula de 40 alunos, atendia a meninos e meninas. A Escola Rudimentar de Rosário coordenada pelo Professor José de Calazans de Oliveira, com uma matricula de 30 alunos, era mista e a Escola Rudimentar de Canto do Mangue dirigida pelo Professor Virgílio Bráulio dos Santos, com uma matricula de 37 alunos, era mista (AMORIM, 1929). Todos os dirigentes das Escolas Rudimentares eram professores particulares contratados pelo Departamento da Educação do Estado e o custeio era dividido com o município, no qual contribuía com o espaço (casa), mobiliário e material de expediente (AMORIM, 1929). Conforme os registros do censo nos anos de 1920, a cidade de Assú apresentava-se com uma população de 24.779 mil habitantes, sendo entre eles do sexo masculino 11.992 e feminino 12.787, entre crianças 11.655 que estavam em idade escolar registrava-se 4.874 e entre os adultos que sabiam ler e escrever apenas 3.383 e analfabetos 9.741 pessoas (AMORIM, 1929). Considerando os registros da situação escolar, no qual a população se encontrava, se fazia necessário, mais investimento do governo estadual e municipal no setor educacional, com escolas de primeiras letras, com métodos mais modernos, para atender ao avanço populacional da cidade e acompanhar o crescimentoeconômico e social que já apresentava em outras cidades do Brasil (AMORIM, 1929). Para Amorim (1929), a cidade de Assú sentia a necessidade de um estabelecimento de ensino, que estivesse à altura do desenvolvimento econômico e cultural que pretendia alcançar. Não se compreendia o avanço urbanístico e econômico sem a presença de uma escola moderna, de acordo o ideário formativo da época. Nos documentos detectados sobre o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, é recorrente a denominação de moderno, seja na estrutura, nos métodos de ensino, nos materiais escolares. No entanto, percebemos que a ideia de moderno para os idealizadores da referida instituição, estava associada a algo diferente do oferecido em termos de educação escolar na cidade para a educação feminina. Para tanto, percebe-se que a idealização do Colégio das Freiras estava vinculada ao contexto histórico da época, aos intelectuais assuenses e aos interesses da Igreja local, que objetivava disseminar os preceitos católicos através da educação. 70 Conforme a ata de reunião sobre a fundação do Colégio das Freiras em Assú, o então monsenhor Joaquim Honório da Silveira, vigário da cidade de Assú no referido período do estudo, estava à frente da mobilização e sensibilização da sociedade assuense para angariar recursos para fundar Colégio. Em três de Julho de 1922 aconteceu a primeira reunião para a construção do Colégio, que logo foi denominado de Nossa Senhora das Vitórias. A sua construção foi uma iniciativa de representantes políticos, religiosos e intelectuais locais, dentre eles: Pedro Soares de Araújo, Ernesto Emilio da Fonseca, custeado por meio de doações privadas e verbas públicas (AMORIM, 1977). O propósito de instalar um Colégio católico em Assú, dirigido por freiras vinda da Europa, não ocorreu isoladamente, fazia parte do projeto Restauração Católica que se projeta até os anos de 1940 em todo o País. A partir de levantamento bibliográfico foi possível perceber a expansão da Igreja Católica nos meios escolares no Brasil nos anos de 1920 e 1930 no período da primeira república em diferentes estados brasileiros, a exemplo do Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia, Mato Grosso entre outros. A Igreja Católica, diante do novo contexto internacional e brasileiro, disseminou sua política de restauração através da educação. Isso evidencia como a atividade educativa explica e reconstrói modelos ou ideologias, tornando-se essencial para atender as expectativas dominantes e suas representações na sociedade, a exemplo de Assú. Assim como ressalta Ramalho, (1976, p. 16), “educação é um produto da ideologia de seus promotores”. Portanto, uma relação de poder ou dominação, sendo através do emaranhado do processo educativo que as atuações podem ser corroboradas ou habitualizadas por determinados grupos. Dessa maneira, é possível entender a relevância que a educação assumiu no contexto brasileiro, sobretudo a partir dos últimos anos do século XIX, os vários conflitos entre Igreja e República, diante de suas ideologias, construíram seus modelos de escolas. Sendo o modelo de escola pública para uma estrutura de sociedade que firmava seus valores para o desenvolvimento, ou o modelo de escola confessional que atendia às aspirações reformadoras da Igreja Católica (ROSSI; INÁCIO FILHO, 2006, p. 79). O contexto educacional no Brasil e especificamente no Rio Grande do Norte na década de 1920 foi marcado pelo tema da escolarização e da renovação da educação. Schartzman (2000, p. 70), concebe que 71 em virtude da quase inexistência de um sistema organizado de educação pública no País, havia desde a década de 1920 um amplo espaço para um movimento nacional em prol da educação, onde a diferença de orientação não tivesse uma disparidade com a educação do povo. Ainda segundo Schartzman (2000), o mesmo destaca a criação em 1924 da Associação Brasileira de Educação (ABE), por Heitor Lira. Tinha como principal função trazer para o centro das discussões a questão educacional, através de conferências nacionais, publicações de revistas. No entanto, tempos depois, as divergências de opinião iriam cristalizando, até a polarização que finalmente se estabelece entre os representantes do chamado Movimento da Escola Nova e a Igreja Católica. Concomitante as efervescentes discussões no setor educacional em âmbito, percebe-se a preocupação no Estado do Rio Grande do Norte em propor reformas no setor da educação durante o governo de José Augusto Bezerra de Medeiros (1924-1928), que era adepto da Escola Nova, objetivava reformar o modelo tradicional de educação, na tentativa de ampliar a instrução primária e construir uma escola que atendesse as mudanças da vida social, sendo um dos integrantes do movimento de renovação da educação no País, juntamente a Afrânio Peixoto, Lourenço Filho entre outros (ARAÚJO, 1998). O então governador do Rio Grande do Norte, José Augusto Bezerra de Medeiros, definiu como prioridades essenciais da sua gestão, a melhoria da educação no combate ao analfabetismo e da saúde pública. Ressaltando ainda, a relevância moral, intelectual e econômica da educação como importante para o crescimento das cidades potiguares. Com a perspectiva de avanço no setor educacional foi convidado para ficar a frente da Diretoria da Instrução Pública, o professor da cadeira de Pedagogia, Nestor dos Santos Lima, então diretor da Escola Normal do Rio Grande do Norte (ARAÚJO, 1998). Segundo Araújo (1998), a indicação de Nestor dos Santos Lima para a Diretoria de Instrução Pública, considerou em parte, a sua especialidade em assuntos educacionais, sendo considerado como um dos precursores, no Estado, dos estudos e da aplicação do ideário da chamada Escola Nova nas práticas pedagógicas da disciplina em que lecionava em Pedagogia e outro fator relevante foram as viagens de estudo realizadas por ele a São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, com o objetivo de observar os melhoramentos técnicos do ensino primário e normais naquelas cidades (ARAÚJO, 1998). Entre as medidas no Governo de José Augusto Bezerra de Medeiros, enfatiza a autora citada, estavam às voltadas para a homogeneização e inspeção das práticas pedagógicas e administrativas da escola primária, com a criação do Conselho de Educação, com o propósito 72 de fiscalizar as escolas da jurisdição municipal, podendo aplicar punições aos estabelecimentos de ensino, ou mesmo aos professores, funcionários e alunos que não cumprissem as atribuições legais (ARAÚJO, 1998). No arquivo do Educandário Nossa Senhora das Vitórias, detectamos através dos registros escolares livros de matricula, relatórios, atas, que a fiscalização ocorria anualmente, com o visto do então diretor de Instrução Pública, Nestor dos Santos Lima. Figura 7: Livro de matricula com visto do inspector Nestor dos Santos Lima, ano 1927. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. 73 Figura 8: Livro de matricula com visto do inspector Nestor dos Santos Lima, ano 1927. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. Neste sentido, conforme registrado no livro de matricula, o visto do diretor de instrução pública Nestor dos Santos Lima, estava presente em todas as páginas do livro, com data, mês e ano e parecer sobre as atividades desenvolvidas no Colégio. Embora o Colégio Nossa Senhora das Vitórias fosse subvencionada pelo Estado através do Decreto n. 343 de 28 de Setembro de 1927, não podemos afirmar que todas normativas e orientações para educação exigidas pelo então governador foram aplicadas. Percebemos a partir da leitura atenta dos documentos, o que era concebido como pertinente aplicar foi acatado, isso porque o Colégio das Freiras enquanto instituição privada tinhaautonomia para os seus direcionamentos. Conforme os propósitos do governo de José Augusto, em acompanhar de perto as atividades escolares, estavam pautados na melhoria da qualidade do ensino, “voltam-se para a elevação das pessoas de forma a integra-las na vida moderna da qual depende o progresso do Rio Grande do Norte” (LIMA, 1929, p.12). 74 A partir dos investimentos no campo da educação, sobressai-se, portanto, uma influência direta sobre a educação e a mudança na mentalidade, atitudes e valores das pessoas, sobremaneira nos aspectos da superação do atraso econômico e social, tornando-se também um eficiente instrumento de controle social. Em 1º de janeiro de 1928, Juvenal Lamartine de Faria torna-se governador, e sua gestão foi fundamentada por um programa de ações socioeducacionais inovadoras, inserindo ações como o desenvolvimento dos transportes, a ampliação do crédito agrícola, a instituição do voto feminino , o melhoramento da saúde e principalmente, a ampliação do sistema educacional como fatores que dariam impulso a expansão da economia norte-rio-grandense (MEDEIROS; ARAÚJO, 2002 p. 7). Segundo o estudo de Medeiros e Araújo (2002) os interesses do governador Juvenal Lamartine de Faria, através de seu programa administrativo estavam inserir definitivamente, o Rio Grande do Norte no cenário da modernidade que estava em curso. Não medindo esforços no sentido de criar condições necessárias e de estabelecer inovações para o Estado, que embora em condições precárias conseguisse se fortalecer e se projetar no cenário nacional. Na gestão do governador Juvenal Lamartine de Faria, o grande obstáculo para o desenvolvimento econômico era a falta de estradas para o transporte dos produtos agrícolas. Nesse sentido, ampliou o número de estradas ligando a capital do Estado, Natal, a várias cidades do interior, além de ligar as cidades mais importantes do interior como a estrada de Mossoró a Apodi, de Caraúbas a Augusto Severo e Assú (MEDEIROS; ARAÚJO, 2002). A ampliação da escolarização primária para crianças, como para jovens e adultos, nos diversos segmentos da sociedade, e a formação de operários e técnicos agrícolas e industriais, e professores primários, tornava o programa de governo permeado por conjecturas de caráter social, além de econômico. Com objetivos mais gerais direcionados para a ampliação da economia potiguar (MEDEIROS; ARAÚJO, 2002) Em outubro de 1930, ocorrem às tomadas do governo por Getúlio Vargas, depondo Washington Luís através de um movimento armado, e com ele é deposto todos os governantes estaduais que não apoiavam a causa getulista. Sendo assim, chega ao fim à atuação de Juvenal Lamartine de Faria como governante norte-rio-grandense. (MEDEIROS; ARAÚJO, 2002), Esse movimento se convencionou chamar Revolução de 1930, sendo uma série de revoluções e movimentos armados que, perdurou o período compreendido entre 1920 e 1964, se empenhando em promover rompimentos políticos e econômicos com a velha ordem social oligárquica. Foram esses movimentos que, em seu conjunto e pelos vários objetivos existentes, iriam caracterizar a Revolução Brasileira, sendo seu maior foco a implantação do 75 capitalismo no Brasil. E com isso, sobretudo na Revolução de 1930, procurou-se um reajustamento dos novos setores da sociedade com o setor tradicional (ROMANELLI, 2010). Do ponto de vista educacional, várias mudanças e exigências ocorreram em virtude desses movimentos provenientes da expansão capitalista, que não na mesma proporção, mas atingiram estados, a exemplo do Rio Grande do Norte e cidades brasileiras. As mudanças introduzidas nas relações de produção e na concentração da população em centros urbanos, tornou-se necessário eliminar o analfabetismo e dar um mínimo de qualificação para o mercado de trabalho, ao maior número de pessoas. Frente a esse cenário, o que se verificou foi à expansão do sistema escolar, de forma improvisada, crescendo o número de oportunidades educacionais, mas, não se fez de forma satisfatória, nem em termos de quantidade e nem de qualidade de ensino. Os reflexos do contexto brasileiro no campo educacional são perceptíveis na gestão dos então interventores do Rio Grande do Norte, Mário Leopoldo Pereira Câmara (1933- 1935) e Rafael Fernandes Gurjão (1935-1943), tendo em vista o ideário de renovação nacional empreendido por Getúlio Vargas, a partir de 1930. Conforme Moraes (1992, p. 29) tem inicio um processo de constituição de um Estado “propriamente capitalista no País e, como consequência, efetiva-se pouco a pouco a concentração dos vários níveis da administração pública nas mãos do Executivo federal, bem como sobre as políticas econômica e social”. Para Moraes (1992, p. 292) neste processo, ficou evidenciado “os conflitos e antagonismos entre as frações de classe em luta pela hegemonia na condução dos destinos do País, entre outras formas, se expressaram em diferentes projetos de modernização e desenvolvimento econômico”. Na década de 1930, a sociedade brasileira almejava e respirava os ares da modernidade e renovação, isso porque a década de 30 conteve em si a tentativa de atualizar a modernidade prometida pela República de 1889. Apresentando como projeto o “Plano de Reconstrução Nacional”, no qual almejava à modernização do país através da reestruturação dos vários ramos da sociedade, o governo passa a privilegiar os setores que viriam a garantir sua legitimação e uma doutrinação política. A educação foi um desses setores e serviu de veículo para a propagação do ideário renovador, por Vargas implantado (MEDEIROS; RIBEIRO 2002). 76 Sendo então, uma das primeiras providências do Governo Federal foi à criação do Ministério da Educação e Saúde Pública, em 14 de novembro de 1930, tendo como seu primeiro dirigente, Francisco Campos, um representante do escolanovismo no País. A criação do Ministério da Educação e Saúde Pública representou conforme ressalta Moraes (1992, p. 293) o ponto de partida de um intenso movimento de construção, no Executivo federal – até 1945 – de um aparelho nacional de ensino, com códigos e leis elaboradas tendo em vista estabelecer diretrizes, normas de funcionamento e formas de organização para os diversos ramos e níveis da educação no País. No Rio Grande do Norte nos anos de 1930, os interventores Mário Leopoldo Pereira Câmara (1933- 1935) e Rafael Fernandes Gurjão (1935-1943), estabeleceram propostas estratégicas para o crescimento escolar. Desde a instalação da República, em fins do século XIX, havia projetos de mudanças na educação escolar. Em 1920, vários estados brasileiros, passaram por reformas, como é possível perceber no Rio Grande do Norte e de certo modo, influenciados por ideais escolanovistas. O manifesto dos pioneiros da Educação Nova, em 1932, reuniu em apenas um documento diretriz que deveria nortear a política escolar brasileira. De acordo com Fernando de Azevedo, o manifesto não foi apenas “declaração de princípios”, que teve grande repercussão e suscitou numerosos debates, nem somente um documento pelo qual um grupo de educadores tomou posição em face dos mais graves problemas da educação nacional, mas ainda um vigoroso esforço para constituir uma política educacional e propor à execução um dos mais largos planos que se traçaram no Brasil (AZEVEDO, 1937). Os interventores Mário Leopoldo Pereira Câmara (1933- 1935) e Rafael Fernandes Gurjão (1935-1943) disseminaram através de suas políticas, medidas para ampliar a criação de escolas e melhoramentos dos prédios escolares, a ampliação do magistério primário, com criação de escolas isoladas, reforma das Escolas Normais, conversão de Escolas Reunidas às Escolas Isoladas, conversão de Escolas Reunidas em Grupos Escolares (MEDEIROS; RIBEIRO, 2002). Em Assú nos anos de 1930, foi então criado o primeiro Curso Normal femininoem nível ginasial, no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, sendo subvencionado pelo Estado, com o propósito de formar e melhorar o corpo docente das escolas primárias. No acervo da instituição, há registros que em 1937 funcionava uma turma de 3º ano, cuja formatura realizou- se no final de 1938. 77 Apesar dos investimentos no setor educacional, a situação das escolas primárias no estado causava preocupação, a ausência de salas de aula arejadas, iluminadas, higienizadas. Há muito que a população almejava por mais investimentos, em virtude do número de escolas não dispor de instalações apropriadas para o ensino. A situação de deficiente e precariedade da infraestrutura das escolas propiciando um baixo rendimento escolar dos alunos encontrou alívio das tensões naquelas medidas ou promessas, cujas perspectivas de realização, reverteram em total apoio do governo nacional, através do local (MEDEIROS, RIBEIRO, 2002, p, 5). Conforme Medeiros e Ribeiro (2002, p. 5) “o propósito de melhorar as condições das escolas, seguido o princípio de modernizar, o Governo também investiu na construção de novos prédios escolares”. Tomamos como exemplo os prédios do Atheneu Norte-rio- grandense e da Escola Normal de Natal. Essa última mudou-se para um prédio amplo, isolado e de boas condições de higiene. Foram feitos consertos e reconstruções em 44 outros estabelecimentos de ensino, em 26 municípios, e foram distribuídos materiais escolares em todo o Estado. Foram ainda criadas, de 1936 a junho de 1937, 89 classes e escolas, em sua maioria no interior do Estado, pois, a disseminação de sua política educacional deveria alcançar os mais remotos lugares (MEDEIROS; RIBEIRO, 2002, p. 5). No ano de 1934 na gestão do então interventor Mário Leopoldo Pereira Câmara, realizou viagem de observação pelo interior do Estado do Rio Grande do Norte, convidando técnicos em educação, agricultura e açudagem, para acompanhar os problemas mais latentes do Estado. A cidade de Assú foi um dos primeiros municípios visitados e dentre os intelectuais da época estava presente o professor catedrático Luís da Câmara Cascudo, Segundo Cascudo (1999, p. 23), em visita a escolas noturnas da cidade o secretário de Educação, Anfilóquio Câmara, “ficou admirado com a dedicação dos alunos, homens de trabalho, curvados, na meia-luz, sobre os livros, garantindo providencias imediatas para melhoria da condição de ensino”. As gestões dos Interventores Mário Câmara (1933-1935) e Rafael Fernandes (1935- 1943), à luz do Programa de Reconstrução Nacional do Governo Provisório de Getúlio Vargas, investiu na ampliação das oportunidades educacionais através da construção, higienização, ampliação e manutenção de escolas em todas as cidades, vilas e fazendas, como estratégia de dar visibilidade às populações locais da sua política educacional (MEDEIROS; RIBEIRO, 2002). 78 No entanto, não podemos afirmar que as melhorias chegaram para todos e nas mesmas condições. Nos registros encontrados sobre as gestões no período entre 1927 a 1947, é possível perceber que existia uma preocupação em amenizar os problemas socais, em particular da educação. Para tanto, existia um jogo político e de interesses demonstrando que ora se unia as revindicações da população, ora se articulava a das conveniências e dos acordos firmados com os aliados políticos. Ao configurarmos o contexto sócio-histório educacional de Assú e do Rio Grande do Norte, percebemos sua influência para instalação do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, as mudanças ocorridas nos modos de pensar e agir da referida instituição, às discussões e embates entre a Igreja Católica e os defensores da Escola Nova, sugerindo novas perspectivas de ensino, de métodos pedagógicos. A influência do civismo, no então governo de Getúlio Vargas, ressaltando a construção de cidadãos que contribuíssem com a ordem e o progresso do Brasil. 79 3.2 O Colégio Nossa Senhora das Vitórias: uma realidade O excelente educandário entrou triunfante na florida senda do progresso, evidenciado nos constantes melhoramentos materiais das instalações, no copioso caudal de conhecimento das alunas, e no aperfeiçoamento espiritual das mesmas, resultante da primorosa educação moral em que era processada a formação do seu caráter, plasmando-lhes uma definida personalidade com o cultivo da piedade e das virtudes essenciais para torna-las capazes de, no futuro, cumprir a sua natural e sagrada missão de mães piedosas e dirigentes de um lar exemplarmente cristão, base de toda sociedade organizada (DIOCESE DE MOSSORÓ, 1927, p. 119). Perseguindo os rastros sobre a História da Educação no Brasil percebemos que presença das instituições formadoras de cunho católico, nos meios escolares para a formação das meninas, tem a frente a partir das Ordens e Congregações religiosas.A vinda dessas instituições para ao Brasil, está relacionada com a preocupação da Igreja Católica em fortalecer os seus ideais e com a atenção à educação as moças da elite. Na primeira metade do século XX, vários colégios foram instalados e se espalharam pelo Brasil, entre eles: os Padres da Missão - Lazaristas, os Frades Capuchinhos e as Filhas da Caridade - o ramo feminino da obra de São Vicente de Paula. Os Jesuítas também retornaram após terem sido expulsos em 1789 pelo Marquês de Pombal. Mais tarde vieram outros, como as Irmãs de São José de Chamberry, os Salesianos, Dominicanos, Carlistas, Missionários do Coração de Maria, Irmãos Maristas entre outros. A esse respeito Furtado (2001, p. 2) destaca: O Colégio Nossa Senhora do Patrocínio foi o primeiro de uma extensa rede de colégios criados tantos pelas Irmãs de São José de Chamberry, como por outras congregações religiosas. Em algumas regiões do país, o elemento religioso se tornou fundamental no processo de escolarização e os estabelecimentos de ensino religioso se constituíram em um marco de renovação da instrução feminina. A classe dirigente brasileira, em aliança com a ala conservadora da Igreja Católica, proporcionava a vinda de congregações religiosas femininas para se encarregar da instrução das jovens de elite (FURTADO, 2002). 80 Conforme Rodrigues ressalta (1962, p.112), no que se refere à instrução das meninas “só teve realmente resultados positivos, quando iniciativas particulares, principalmente das congregações religiosas docentes, suprindo o ensino oficial se da juventude dedicaram à educação”. No Brasil, especificamente no Estado do Rio Grande do Norte, predominava o imperativo de instituições particulares, principalmente sob a égide da Igreja Católica, direcionada a atender uma pequena classe da elite. Como exemplo das instituições particulares do Rio Grande do Norte tínhamos o Colégio Imaculada Conceição, criado em 1902, primeiro educandário feminino na capital, o Colégio Diocesano Santo Antonio, criado em 1913, o Sagrado Coração de Maria, em 1912, na cidade de Mossoró, a Escola Doméstica em 1914, na cidade de Natal, o Colégio Santa Terezinha, em 1925, em Caicó, O Colégio Nossa Senhora das Vitórias , em 1927, em Assú (RODRIGUES, 2007). A fundação do Colégio Nossa Senhora das Vitórias na cidade de Assú no Rio Grande do Norte, em 1927, sob a direção da Congregação Filhas do Amor Divino fazia parte de um projeto envolvendo, intelectuais, políticos e religiosos, que visava atender aos anseios da elite assuense e aos interesses da Igreja Católica. Segundo Oliveira (2002, p. 302), “o colégio surge da necessidade de oferecer a Assú um estabeleciemnto de ensino moderno, com o objetivo de atender ao mundo feminino, proporcionando-lhe uma educação cristã e preparar as futuras mães da regiao”.Sendo o principal idealizador o vigário da época Monsenhor Joaquim Honório da Silveira. Para melhor compreendemosos interesses da fundação da referida instituição escolar na cidade de Assú, pesquisamos sobre quem foi Monsenhor Joaquim Honório da Silveira. Nasceu em 14 de Janeiro de 1879, na cidade de Macau, no Rio Grande do Norte, descendente de uma das principais famílias do município Honório da Silveira. Os registros indicam que ele viveu para o sacerdócio, fez deste seu ideal de vida. Sua vida religiosa teve inicio em 29 de março de 1895, quando ingressa no Seminário Episcopal de Pernambuco, através do padre Francisco de Assis e Albuquerque, vigário de Macau/RN na época (ASSIS; MORAIS, 2009, p. 57). 81 Para Palmério Filho, jornalista e poeta assunese, foi Monsenhor Joaquim Honório da Silveira o principal idealizador do Colégio em Assú: Todo mundo sabe e creio eu mesmo, que ninguém ignora, que a realização do “Educandário Nossa Senhora das Vitórias”, foi obra do monsenhor Joaquim Honório da Silveira, quando diretor espiritual da paróquia de Açu de 1914 a 1926. É bem verdade que ele nunca reivindicou para si o mérito desta iniciativa grandiosa, que tão bons e assinalados serviços vem prestando à juventude da nossa terra. Nós, porém assistimos e acompanhamos os seus passos em prol da realização desta maravilhosa ideia, damos aqui o testemunho inconcusso de sua incansável atividade para que o “Educandário” se fizesse e tivesse o resultado desejado (PALMERIO FILHO, 2002, p. 33). Em 1914, Monsenhor Joaquim Honório da Silveira, assumiu a paróquia de Assú, tendo que se ausentar em 1923, para exercer a diretoria espiritual do Seminário São Pedro de Natal, e posteriormente Colégio Diocesano de Santo Antonio. Retornou para Assú e ficou até 26 de março de 1926 (ASSIS; MORAIS, 2009, p. 61). Assim, como um trabalho arqueológico foi necessário ir juntando as peças do mosaico, a exemplo de como a ideia da fundação do Colégio das Freiras em Assú, estava articulada com interesses mais complexos vivenciados no Brasil e em Roma. Inicialmente, percebemos que o interesse em fundar o Colégio das Freiras em Assú/RN, fazia parte de relações entre, Igreja Católica, Estado e de famílias de elite, em meio a diversas mudanças em meados do século XX, dentre elas: a romanização do clero que foi reorganizando gradativamente seu campo de poder, juntamente com uma elite de proprietários de terra. Nos livros de matricula do Colégio das Freiras, foi possível constatar que os alunos pertenciam á famílias de classes sociais economicamente favorecidas, dado o seu caráter de escola particular. Os pais eram, em sua maioria, fazendeiros, comerciantes, funcionários públicos. 82 Figura 9: Livro de matricula, ano de 1927. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. 83 Quadro 2 Alunas por ordem de matriculas do Colégio Nossa Senhora das Vitórias (1927) Fonte: Lista de matricula da primeira turma (1927). Arquivo do Educandário Nossa Senhora das Vitórias . Existia uma preocupação da elite com o avanço da modernidade política e econômica, no entanto, também se pretendia a manutenção das organizações privadas, como a família, preservando suas tradições. Sendo assim, era necessário pensar na educação feminina como continuação dos costumes e valores da época. Por outro lado, a Igreja Católica fragilizada em virtude das consequências da Revolução Francesa e com o avanço do liberalismo atravessava, desde meados do século XIX, por um 1. Martha de Sá Leitão Wanderley 2. Maria Helena Carvalho Costa 3. Deolinda da Motta Fernandes 4. Laura da Motta Fernandes 5. Maria Silva Mendes 6. Marya Cortez de Amorim 7. Martha Cortez de Amorim 8. Maria Jacintha da Silva 9. Albina Jacintha da Silva 10. Maria Arabella de Amorim 11. Maria Zilda de Amorim 12. Francisca Cabral de Moura 13. Ivoni Macêdo 14. Maria das Dores Caldas 15. Maria Natividade Cabral 16. Rachel Rachelita Soares de Macêdo 17. Maria Helena Soares de Macêdo 18. Noêmia da Fonseca Cabral 19. Maria Candida Pinheiro 20. Yolanda Fernandes de Medeiros 21. Maria de Lourdes Dantas Amorim 22. Laurita Soares 23. Maria Candida Silva 24. Francisca Martins de Sá 25. Lusila Martins de Sá 26. Rita Maria de Souza 27. Apollonia Varela Tinôco 28. Estellita Bezerra de Souza 29. Maria Brigida Soares Filgueira 30. Francisca Soares Filgueira 31. Rosalia Cabral Gondim 32. Maria Olímpia Abreu 84 período de reorganização de sua filosofia, buscando, através de novas ações (escolas, obras vocacionais e orfanatos), meios de garantia de seu capital simbólico e econômico, que não a aliança institucionalizada com o Estado, através do chamado ultramontanismo ou romanização (ROSSO, 2006). Entre os reformadores católicos envolvidos com a criação de Colégios de cunho católico no Brasil estavam: o bispo de São Paulo, Dom Antônio Joaquim de Melo, responsável pela expansão do ultramontano no país e a vinda de Congregações como o das irmãs de São José de Chambery, que vieram para o Brasil em 1859, para assumirem a direção de um Colégio já construído em terreno doado pelo próprio bispo. No Nordeste, Dom José Pereira Alves, nascido em Pernambuco em 1885, ordenado sacerdote em 1907, assumiu a cátedra no Seminário de Olinda, Cônego da Sé, Deão do Cabido, Monsenhor Pronotário Apostólico, Governador do Bispado e Vigário Capitular da Arquidiocese de Olinda e Recife, tudo entre os anos de 1907 a 1921. Em Olinda dirigiu as revistas “Maria”, “Tribuna Religiosa” e “Mês do Clero”, além de publicações em outros veículos de difusão católica, exerceu o Episcopado como Diocesano de Natal/RN, nos anos de 1923 a 1928. Detectamos através do livro Colégio Nossa Senhora das Vitórias: 50 anos, autoria de Francisco Amorim, o registro do envolvimento de Dom José Pereira Alves, com a vinda da Congregação Filhas do Amor Divino para assumir a direção do Colégio das Freiras em Assú. Dessa maneira, foi possível aproximar a relação entre Dom José Pereira Alves, com Dom Sebastião Leme da Oilveira Cintra e o movimento católico que eclodiu no período da idelaização do Colégio em Assú, concomitante a criação do Centro Dom Vidal (1922), objetivando atrair a intelectualidade leiga católica brasileira. Nesse periodo de idelaização do Colégio em Assú, o cenário brasileiro ver-se-á assolada por uma intensa mobilização da sociedade civil. Revelando uma ambiência de insatisfação e de busca de novas alternativas, as camadas urbanas se organizam em partidos de âmbito estadual, em movimentos político-sociais, procurando impor seus projetos e demanada. Os conflitos sociais e a efervescência ideológica se manifestam nas greves operárias e no maior grau de perturbação provocado pelas campanhas presidenciais. O ano de 1922 é expressivo desse clima geral: presencia-se a concretização da inquietude cultural e estética com a Semana da Arte Moderna, a fundação do Partido Comunista do Brasil e a agitação nos quartéis, colocando em cena os movimentos tenentistas. Esses grupos descontentes ignoravam ou excluíam a Igreja de seus programas e soluções. Considerando que, as camadas mais importantes da intelectualidade brasileira 85 provinham, nesse momento, de círculos positivistas, evolucionistas ou, pelo menos, indiferentes ao catolicismo (SALEM, 1982). Em julho de 1930, Sebastião Leme de Oliveira Cintra Clérigo católico, foi elevado o cardeal pelo papa Pio XI. Moveu intensa campanha contra o trabalho do pedagogo Anísio Teixeira à frente da Secretária de Educação do Distrito Federal, durante o governo de Pedro Ernesto Batista. Alinhado ao Movimento da Escola Nova, Anísio Teixeira defendia um ensino público gratuito e laico, o que se chocava frontalmente com o projeto educacional da Igreja (CPDOC- O Centro de Pesquisa e Documentaçãode História Contemporânea do Brasil). Vislumbrando a situação desse cenário e sob a ameaça de se ver marginalizada do processo político nacional, as cúpulas eclesiástica e laica deslancham uma estratégia de autodefesa e se organizam dando início ao que se convencionou chamar de "reação católica". Segundo Salem (1982, p. 4), “esse movimento assumiu posição de destaque no contexto brasileiro a partir dos anos 20, configurando-se em um importante núcleo aglutinador da sociedade civil, ainda que restrito, basicamente, aos estratos médios e superiores”. O "renascimento católico" se formalizou com a criação da revista A Ordem (1921) e do Centro D. Vital (1922), instituição que congregou a intelectualidade católica e da qual se irradiou, nas duas décadas seguintes, um amplo movimento de apostolado. Nesse período em Assú, a Igreja católica mobilizava os intelectuais para a fundação de um Colégio confessional destinado a educação das meninas, através do vigário da época, monsenhor Joaquim Honório da Silveira. 86 Figura 10: Ata para construção do Colégio, ano 1922. Fonte: Educandário Nossa Snehora das Vitórias. 87 Transcrição da Ata para a Construção do Colégio Nossa Senhoras das Vitóias, em Assú/RN: Ata da priemria sessão preparativo para a construção de um Collegio nesta cidade do Assú Aos três dias do mês de Julho do ano de mil nove cento e vinte e dois, nesta cidade do Assú, Estado do Rio Grande do Norte, na Igreja matriz, presente o Re v. mo vigário da paraóquia, Mosenhor Joaqui Honório da Silveira, Ernesto da Fonseca , Pedro Amorim, Luiz de Oliveira e os senhores Ezequiel Epaminondas da Fonseca, José Soares Filgueira Sobrinho, Antonio Saboya de Sá Leitão , Francisco Martins Fernandes, Pedro Cabral da Fonseca , José Pinheiro Filho, Manoel Soares da Filgueira Segundo, João de Macedo, Minervino Wanderley, Perlucio Filho Manoel Soares Filho, Pedro Cristovão de Souza e Silva, Manoel Cabral, Luiz Paulina Cabrsl , o referido Rev. mo vigário usando da palavra, expos os fins da presente reunião que eram pioneiros os meios para a construção do seu prédio destindo à criação de um collegio para a educação de meninas nesta cidade. Ouvido no meio do maior silêncio e todos acataram foi a ideia geralmente aceita louvada. Sendo aclamada a seguinte direição para angariar a importância necessária , administrar a obra e deliberar sobre todos os assuntos posteriormente referido aobra (ATA PARA CONSTRUÇÃO DO COLLEGIO, 1922). Em 3 de julho de 1922, marcou a primeira reunião para a construção do Colégio na Matriz de São João Batista e logo foi denominado de Nossa Senhora das Vitórias, a comissão era composta por intelectuais e políticos como, Pedro Soares de Araújo, Ernesto Emilio da Fonseca, José Correia de Araújo Furtado, Luiz Paulino Cabral, José Soares Filgueira Sobrinho, Ezequiel Epaminondas da Fonseca que colaboraram na construção da escola. Houve por partes de seus idealizadores grande dedicação para oferecer ao município um estabelecimento de ensino com organização pedagógica moderna. A juventude feminina esperava ansiosa à concretização desse empreendimento que iria oferecer novos conhecimentos e aprimoramento intelectual as mulheres (AMORIM, 1977). Podemos sinalizar também, que os interesses dos idealizadores estavam além de oferecer uma instituição com moldes pedagógicos modernos. Mas a preocupação com a formação feminina fazia parte da Igreja e dos conservadores católicos, esses colégios seriam determinantes nos rumos da educação feminina de elite. As famílias tradicionais resguardavam as jovens atreladas ao poder do catolicismo, como forma de amenizar os ideais emancipatórios (ALMEIDA, 2006). Nos arquivos do Colégio das Freiras, detectamos a ata da primeira reunião para sua construção que encontra-se registrada a presença da elite assunese discutido e decidindo os 88 rumos para a construção do Colégio que iria oferecer a educação das meninas. Um dos aspectos em pauta foi à discussão sobre a localização geográfica em que seria construído. Foram sugeridos diversos locais, entre eles, onde hoje é edificado, na antiga Praça Augusto Severo. Definida a localização, todos se movimentavam a procura de recursos financeiros para dar início às obras. Estavam então abertas iniciativas para coleta de donativos e de materiais apropriadas à construção. A compreensão e o apoio financeiro da sociedade local foram indispensáveis à edificação do prédio (ATA DE REUNIÃO PARA CONSTRUÇÃO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1922). 89 Figura 11: Fachada do Colégio Nossa Senhora das Vitórias em obras , S/D. Fonte - Acervo particular de Maria da Anunciação de Sá Leitão Morais. O projeto arquitetônico do Colégio das Freiras atendia as exigências da época, tornando- se referência monumental na cidade de Assú. Está presente no contexto urbano, ocupando espaço central, dotado de uma arquitetura imponente, resultado do padrão social da classe dirigente. O Colégio construído para atender a classe mais abastada, sendo assim, sua arquitetura tinha que representar seu status na sociedade. 90 Figura 12: Fachada do Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú/RN ano de 1927 Fonte - Acervo particular de Maria da Anunciação de Sá Leitão Morais. Figura 13: salas de aulas ao redor do pátio do Colégio Nossa Senhora das Vitórias (S/D). Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. 91 Figura 14 : Pátio do Colégio Nossa Senhora das Vvitórias, ano 1928. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. A distribuição dos espaços do edifício escolar compunha-se de salas de aulas distribuídas ao redor de um pátio central, segundo Frago (1998, p. 100), esse tipo de arquitetura “[...] se pode encontrar em alguns colégios de ordens ou congregações religiosas, construídos nos anos finais do século XIX e nas primeiras décadas do século XX”. Ao redor do pátio encontrava-se o gabinete da Madre Superiora Jaromira Ondra, secretária, biblioteca e a Capela dedicada à Nossa Senhora das Vitórias. Outros espaços eram compostos do internato com dormitórios e salas de estudo das alunas internas (AMORIM, 1977). Por ocasião das festividades do centenário da independência, em 7 de setembro de 1922, foi colocada a pedra fundamental da construção do Colégio. Como registra o semanário A Cidade, jornal dirigido por Palmério Filho e seus irmãos Francisco e Otávio Amorim: 92 Figura 15: Jornal A Cidade noticiando a primeira pedra para construção do Colégio. Fonte: Acervo Particular de Maria da Anunciação de Sá Leitão Morais. Transcrição do trecho sobre O lançamento da primeira pedra das obras do Collégio. É com maior satisfação que noticiamos o laçamento da primeira pedra da obra do Collégio, para hoje ás 16 horas no respectivo local. Assim entendeu o governo do municipio para maior solenidade da Comemoração do centenário da Independência, na cidade de Assú. A cerimonia terá lugar com a presença das autoridades corporações de clases, familias e povo. A praça Augusto Severo, ponto escolhido para a construção do respectivo Educandário, apresenterá condigna decoração. Vamos portanto assistir um dos pontos mais importantes da programação das festas do centenário em nossa terra, pois paa nós nenhuma manisfestação se avantaja a essa que tem a seu cargo a educação intelectual da nossa mocidade. (NOTA DO JORNAL A CIDADE, 7 DE SETEMBRO DE 1922). 93 Na sua edição 17 do referido mês, fazendo um minucioso relato das comemorações, assim se expressou: ás 16 horas começou a fluir á Praça da Independência, hoje praça do Rosário, o povo que ali ia tomando parte e se incorporar ao grande cortejo que dali partiria para a Praça Augusto Severo, onde teria lugar o lançamento daprimeira pedra do Colégio Nossa Senhora das Vitórias. (AMORIM, 1977, p. 8). Após a leitura da ata de lançamento, o médico Pedro Amorim pronunciou um longo discurso enaltecendo as vantagens do estabelecimento de instrução para as meninas. Segundo Pedro Amorim, a escola iria oferecer um padrão mais elevado de ensino para as mulheres, objetivando a educação de uma boa esposa, mãe virtuosa e, consequentemente, a formação de mulheres que participassem da sociedade letrada de futuras gerações. Neste sentido, a reflexão de Louro (1997), é representativa para compreender a função da educação concedida à mulher: Ela precisava ser, em primeiro lugar, a mãe virtuosa, o pilar de sustentação do lar, a educadora de gerações do futuro. A educação da mulher seria feita, portanto para além dela, já que sua justificativa não se encontrava em seu próprio anseio ou necessidade, mas em função social de educadora dos filhos e na função dos futuros cidadãos (LOURO, 1997, p. 446-447). Almeida (1998, p. 18-19), discutindo a condição da mulher e as maneiras de educá-las para as atividades do espaço privado e para a maternidade, também aborda que, esse “pensamento educativo, compreendia a mulher assumindo os papéis de mãe e esposa. Para quem o lar era o altar no qual depositava sua esperança de felicidade e, sendo o casamento sua principal aspiração, era indicada para ser a primeira educadora da infância, o sustentáculo da família e da pátria”. O objetivo de fundar o Colégio estava pautado nesse ideário de formação para as meninas e não foram medidos esforços para a efetivação desse projeto, como ressalta Amorim (1977), as obras caminhavam em ritmo acelerado e faziam-se necessários mais recursos financeiros para dá continuidade à construção do Colégio. A comunidade se empenhava para angariar recursos, promovendo quermesses, pescas, festivais e representações dramaticais. Os recursos também foram solicitados à Assembleia Legislativa do Estado, por intermédio do então deputado estadual, Pedro Amorim. Foram assim destinados dois contos de réis, moeda da época, para colaborar com a efetivação do prédio. 94 No processo de construção do Colégio os maiores obstáculos já haviam sido superados, o que antes era apenas um sonho, já ostentava linhas arquitetônicas. Segundo Amorim (1977, p. 12), “a escola foi construída obedecendo às exigências peculiares aos estabelecimentos destinados à convivência escolar, com instalações que vão desde arejados salões de estudos até os sofisticados pátios de recreação”. Com as obras próximo de seu desfecho, foi necessário promover um festival que contribuísse com recursos para os seus retoques finais. Realizou-se então uma reunião na matriz de São João Batista, obtendo uma grande participação da comunidade, foram então divida as tarefas do festival. A Barraca “Poço de Jacó” serviria licores, ficando a cargo da senhora dona Beatriz Amorim, “A Barraca dos Sonhos”, consistia em gentis e espirituosas leituras da sorte, dirigidas pelas filhas do médico Adalberto Amorim, Maria e Marta, que trajavam vestes de cigana (AMORIM, 1977). Dentre as mensagens de sorte encontrava-se o seguinte texto: Em tua consciência um feio sacrilégio Teus brios de assuense hão de certo acusar, Se para prosseguir nas obras do Colégio O franco auxílio teu não souberes ofertar. Em 9 de Março de 1927, inaugurou-se a tão esperada instituição educativa com o nome de Colégio Nossa Senhora das Vitórias que, segundo Amorim (1929, p. 23) “o intuito era oferecer a educação literária, cívica e doméstica da mulher sertaneja”. Estiveram presentes personalidades como José Augusto Bezerra de Medeiros, governador do estado do Rio Grande do Norte, Nestor dos Santos Lima, diretor do Departamento de Educação Pública, professor Alfredo Simonetti, diretor do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia. 95 Figura 16: Ata da inauguração do Colégio, ano de 1927. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. 96 Transcrição da Ata de inaugruação do Colégio Nossa Senhora das Vitóirias: Aos nove dias do mês de Março de mil novencentos e vinte sete, nesta Cidade do Assú, do Estado do Rio Grande do Norte, no prédio recentimente construido a Rua Augusto Severo, para a instalação do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, houve lugar a sessão magna inaugural do mesmo Colégio tendo sido celebrada por seu excelentissimo Revem. Dom José Pereira Alves, Bispo de Natal, uma missa solene na Capela semi-publica que havia momentos antes recebido a benção canônica , com assistencia de autoridades e o povo desta terra. As dez horas seguiu-se a benção geral de todo o prédio com a entromissão da Efigie do Sagrado Coração de Jesus, no salão nobre do edificio, solenidade esta abrilhantada pela elite da socidade assusense , fazendo-se ouvir em magistral peça oratória sua Excelentissimo o Bispo Dom José. As trezes horas seguiu-se a sessão da diretoria do mesmo Colégio presidida pelo excelentissimo José Augusto Bezerra de Medeiros Presidente do Estado, ladeado pelo Revem. Dom José Pereira Alves, Bispo Diocesano , Dr. Nestor dos Santos Lima. (ATA DE INAUGURAÇÃO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIA, 1927). As comemorações foram iniciadas com a benção do prédio e a missa na capela do Colégio às 07h: 30 da manhã, celebrada pelo Monsenhor Joaquim Honório e Pe. Júlio Alves Bezerra, vigário da paróquia local. Durante a cerimônia houve cânticos entoados pelas Irmãs professoras do colégio, terminando com o hino nacional que foi ouvido de pé, pelos convidados (DIOCESE DE MOSSORÓ, 1927). Para Amorim (1977, p. 15) a manifestação era contagiante, todos sentiam o desejo de enaltecer esse empreendimento. O governador do estado José Augusto de Bezerra Medeiros, iniciou seu discurso congratulando-se com o povo assuense e dignificando o estabelecimento de ensino de instrução às meninas. Como bem destacadas nas palavras Amorim (1977, p. 26- 27): Nada se iguala á instrução, é por ela que a grandiosidade das artes, o progresso se desenvolve em todas as atividades humanas e quando ela se reflete no coração e alma da mulher, que soma de benefícios não prodigaliza. Segundo Amorim (1977), chegada a hora do pronunciamento do Dr. Adalberto Amorim, sobre a importância da inauguração do Colégio, ressaltando aos pais que o melhor patrimônio que podem legar aos seus filhos, é incontestavelmente, a educação e a instrução de suas filhas. Não vacilaram e conduzir até aqui a porção melhor de sua alma, o encanto de seus lares- as suas filhas- para aperfeiçoarem, nesta OFICINA DE LUZ, o seu espírito e serem uteis não só a família como a sociedade em que vivem. Tenho para mim que este COLÉGIO, inaugurado sob os melhores auspícios, será a fonte e inesgotável de benefícios, a sentinela indômita dessa peleja contra o 97 analfabetismo, que não mudará jamais, onde quer que haja uma escola e uma mulher instruida (AMORIM, 1977, p. 27, grifo do autor). Essa relação escola, Igreja e educação feminina fazia parte das crenças ilusórias que o imaginário republicano brasileiro entreteceu e que se estendeu ao século XX. A destinação vocacionada feminina para educar a infância, ancorado no potencial de redenção pela pureza e amor ao próximo, atributos dos quais as mulheres eram/são possuidoras, e teve o efeito maximizar a importância feminina na educação. A mulher era convida a moralizar os costumes da sociedade e a responsabilidade de guiar a criança, com isso contribuir para a civilidade da população e o progresso econômico e social do Brasil (ALMEIDA, 2006). Palavras como abnegação, virtude, maternidade e patriotismo surgem constituindo um quadro de representações sobre a mulher e se imbricando na educação formal que elas tinham acesso. A educação formal, – entendida aqui como processos educativosinstitucionalizados de acordo com a cultura escolar. Tinha como finalidade inserir a mulher na cultura letrada, possibilitando-lhe acesso aos saberes sistematizado, disseminando práticas, usos e costumes em voga para as meninas, segundo o modo de pensar e de fazer daquele tempo (SILVA, 2007). O Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú, não diferente da realidade dos colégios confessionais brasileiro, não fugiu aos padrões estabelecidos à época, sobre educação da mulher e as exigências do seu papel: dócil, abnegada, boa mãe e esposa. Nesse contexto, verificamos que os interesses católicos projetaram um ser mulher, conseguidos através das propostas educativas implantadas pela instituição, cumpri rigorosamente suas atribuições na preservação da “sagrada família”, e a propagação do ideário católico e seus valores. A proposta de fundar o Colégio Nossa Senhora das Vitórias fazia parte desse ideário de formação para meninas. Os documentos encontrados no Colégio, como atas, relatórios, expressam o propósito de educação que se pretendia na referida instituição escolar. Com o intuito de educar moças, para serem boas cristãs, mães e esposas dedicadas aos filhos e o marido, contribuindo para a construção de uma sociedade letrada e com regras de civilidade, de acordo com o ideário formativo da época. Essa instituição em 1927 voltava-se para um corpo discente inicialmente só de meninas, sendo então implantado no ano seguinte o regime de co-educação, recebendo desse modo meninas e meninos. Funcionava em regimes de externato, internato e semi-externato, ou seja, nesse último regime, o aluno passaria o dia no colégio e a noite voltaria à sua residência. 98 Figura 17: primeira turma de alunas , ano de 1927. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. Inicialmente matricularam-se 32 alunas, a procura por parte de alunas moradoras de outras localidades fez com que a Madre Superiora, Irmã Jaromira Ondra aceitasse aquelas como semi-internas e também internas. Para conduzir as atividades educativas no Colégio Nossa Senhora das Vitórias em 1927 a direção foi entregue a Madre Jaromira Ondra e o corpo docente foi constituído por irmã Digna Taudes, assistente, organista e professora de bordado, irmã Alberta Garimberta, professora de francês e pintura, irmã Mercedes Fonta, professora do curso primário e no ano de 1928, foi professora do curso secundário e responsável pelas alunas, a irmã Volkmara Stonoschek, era coordenadora da cozinha, cuidava das plantações e do gado que havia sido doado para o Colégio. Em 1929, para auxiliar o corpo docente do Colégio das Freiras, chegaram às irmãs Carmela Trampus e Berchna para lecionar pintura, bordado e português (AMORIM, 1977). 99 A formação de uma mulher letrada seria para além dela, dos seus anseios ou necessidades, mais com os propósitos formativos de futuros cidadãos brasileiros, embasados em uma educação moral e cívica. As influências das orientação católica e os valores morais, compreendido como o conjunto de regras adquiridas através da cultura, da educação, da tradição e do cotidiano, e que orientam o comportamento humano dentro de uma sociedade, a exemplo da honestidade, da bondade, do respeito e da virtude 100 Capitulo 4 ELEMENTOS FORMATIVOS DA CULTURA ESCOLAR NO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS 101 4.1 As primeiras diretoras e professoras [...] A professora deveria se constituir em um modelo de virtude por meio de suas atitudes, concepções, condutas e sentimentos (VALENÇA, 2005, p.44). Para analisar como se constituiu a cultura escolar no Colégio Nossa Snehroa das Vitórias, em Assú, sistematizamos, a partir da categoria de análise cultura escolar, as categorias de estudo da pesquisa, tomando como base o diálogo entre as fontes e os referenciais teóricos adotados. (LOPES, 1994). A aproximação com as fontes, à catalogação das informações, foi nos conduzindo para a definição das categorias de estudo. No entanto, não foi tarefa fácil, exigiu familiaridade com os documentos, aprofundamento nas leituras, e sistematizar as informações recorrentes, que se articulava com os significados da cultura escolar. A escolha das categorias de estudo também surge, a partir da percepção e o desejo do pesquisador, como ressalta Silva (2011): É impossível não perceber as categorias de um estudo como algo também arbitrário, que emerge da percepção do pesquisador e do desejo de construir certa narrativa e não outra. Poderiam ser outras categorias, mas, de alguma forma, construímos as nossas, elaboradas entre os significados das fontes e da nossa subjetividade. (SILVA, 2011, p. 72). A construção da nossa primeira categoria de estudo, As primeiras diretoras e professoras, foi construida a partir dos relatórios anuais, livros sobre o Colégio. Atentamo-nos para o perfil das diretoras e professoras que fizeram parte desse projeto de educar as meninas no Colégio Nossa Senhora das Vitórias. No que se refere à parte administrativa do Colégio Nossa Senhora das Vitórias está esteve sempre sob a responsabilidade da Congregação da Filhas do Amor Divino. O primeiro corpo de diretoras e docentes foi composto por freiras vindas da Congregração em Viena/Aústria. Percebemos que privilegiavam as docentes da Congregação vinda da Europa, isso porque as professoras trariam no seu currículo novos conhecimentos e a ideiais da Congregação. (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO DE 1927). 102 Em relação ao corpo docente, sua primeira formação no ano de 1927, apenas um professor leigo fazia parte do quadro, o professor Alfredo Simonetti, lecionando a disciplina de Português, isso porque as irmãs não dominaram a ligua materna. (ATA DA ORGANIZAÇÃO ESCOLAR, 1930). Posteriormente, as atividades educativas foi conduzida por freiras que se formavam no Brasil, especificamente no Nordeste e por professores leigos formados na Escola Normal que funcionou no Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Conforme Silva (2011 p. 57), na década de 1930, um Curso Normal feminino em nível ginasial foi aberto no referido Colégio. No acervo da instituição, há registros que em 1937 funcionava uma turma de 3º ano, cuja formatura realizou-se no final de 1938. Estavam entre as formandas, Maria Olímpia de Oliveira Neves, que exerceu a docência no Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia. A fundação do Curso Normal pode ter ocorrido no ano de 1935, haja vista que os primeiros registros acerca de mestras diplomadas em escola do município datam de 1938, exatamente no Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Os registros se estendem até as alunas diplomadas em novembro de 1940, como Maria Cristina Souto Rocha, docente do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia, e Maria Ernestina Fonseca, religiosa e educadora da ordem Filhas do Amor Divino. (AMORIM, 1982b; MAPA DAS ALUNAS, 1937). No acervo do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, os documentos datados registra os anos 1937 a 1940 (SILVA, 2011). Para tanto, destacamos a primeira diretora e também professora do Colégio Nossa Senhora das Vitórias no ano de 1927. A Irmã Maria Jaromira Ondra, nasceu em 18 de agosto de 1885, na então Checoslováquia, seus pais Francisco Ondra e Antonia Ondra. Fez seus primeiros votos na Congregação das Filhas do Amor Divino no dia de 21 de novembro de 1903. 103 . Figura 18: Ir. Maria Jaromira Ondra. Fonte: Educandário Nossa Snehora das Vitórias Chegou ao Brasil em maio de 1926, após um ano na condução das atividades em Serro Azul/RS, a Superiora Geral a transferiu para a nova fundação em Assú, assumindo a dieração da instituição escolar. No ano seguinteassumiu o Colégio Santa Teresinha em Caicó/RN , sendo responsável por educação de crianças probres. Após esses anos atuando na cidade de Caicó, foi solicitado a sua transferência para retornar a cidade de Assú. Em dezembro de 1935, registou na crônica “ Chegou a decisão de minha transferencia para Assú. Eu gostei muito de Caicó e me despeço de coração pesado, obedecendo a Deus. Até logo!” (CRÔNICA, 1935). Na condição de professora Irmã Jaromira Ondra assumiu a disciplina de costura e bordado, sendo também responsável pelo internato, mestra de noviciado, bibliotecária.. Nas aulas da disciplina de costura e bordado destaca que a atividade tinha como objeitvo desenvolver nas alunas o gosto pela arte de cuidar do lar, tornando-se boa esposa e mães exemplar. Nas atividades aprendiam elementos de costura, como camisas, no bordado, trabalhos em lã, rendas, entremeios, modelagem de flores. (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1927). 104 A mulher, nessa perspectiva de formação poderia se responsabilizar pelas vestimentas de filhos e maridos e o enxoval da casa, ou desenvolver uma atividade remunerada, costurando e bordando para outras famílias. Essas práticas faziam parte do domínio do lar, e este domínio, constituía parte do destino feminino, conforme afirma Louro (1997, p.446): As habilidades com a agulha, os bordados, as rendas, as habilidades culinárias, bem como as de mando das criadas e serviçais, faziam parte da educação das moças, acrescidas de elementos, que pudessem torná-las não apenas uma companhia mais agradável ao marido, mas também uma mulher capaz de bem representá-lo socialmente. Tais orientação estavam expressas nos relatórios anuais do colégio que as meninas deveriam aprender trabalhos manuais e assim formar boas esposas, mães exemplares.. Na gestão da Madre Jaromira Ondra , primeira diretora do Colégio , encontramos o registro no qual menciona que para um bom funcionamento das escolas da Congregação se fazia necessários zelo no acompanhado desde a formação das futuras educadoras, bem como das atividades densenvolvidas por elas. Afinal, foi confiada a Congregação a responsabilidade de educar as meninas. (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1927). Exisita uma preocupação da Madre Joromira Ondra de moldar as irmãs conforme os preceitos da Congregação e assim perpeturar os ideiais da fundadora Madre Francisca Lechner. O zelo com a formação religiosa das irmãs era primoridal , porque dessa forma conseguiura fazer uma transporsição para sua prática educativa não fungindo aos valores da Igreja Católica. No registro que encontramos Madre Jaromira Ondra, reforça a importância da vida religosa “considerava como primeiro degrau da vida religiosa á pratica da pobreza, castidade, obediência e caridade fraterna, no que buscava exercitar zelosamente com suas filhas espirituais e as alertavam com a seguinte reflexão” (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO DE 1927 ). Minhas filhas, não vos torneis como morcego que parece ratinho, mas não e, que parece pássaro por ter assas, o que também não é... Certas religiosas me lembram o morcego, pois trazem o hábito religioso, mas com coração está dominado pelo espirito mundano: não são aquilo que aprecem ou querem parecer. Não sejais assim, minhas filhas, pois seria hipocrisia, uma fraude a santa vocação (RELATÓRIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS , ANO 1927 , p. 21). 105 A formação moral e de valores das Irmãs estava sempre em destaque nos relatórios do Colégio ressaltando a relevância do voto da castidade, obediência, ensinava as Irmãs o respeito com estranhos e zelosamente buscava “remover todas as ocasiões propicias às máculas da virtude angélica”. Nos registro realizados pela Madre Jaromira Ondra, gostava de ressaltar que a docência era uma nobre missão e por esse motivo esmerava na formação das futuras professoras da Congregação (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1927, p 17). É forçoso destacar que Madre Jarominra Ondra conviveu com a fundadora da Congregação e por tanto trazia como referência os ensinamentos fundantes. Acreditamos que nos momentos em que esteve á frente seja na condição de dIretora ou professora buscou alinhar o Colégio Nossa Snehora das Vitórias e as primeiras professoras a conduzir conforme o Plano Educacional das Escolas e Institutos da Congregação das Filhas do Amor Divino, afirmando inicialmente que “o bom êxito da nossa atividade educacional, exige que seja desenvolvida numa certa uniformidade, orientada por determinadas regras em todas as nossas casas” (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1927). O referido documento foi criado por Madre Francisca Lechner e reproduzido em 1905, para a Revista Caminhando com Madre Francisca Lechner pela Irmã Ludovica Binder. Sendo composto por diretivas de como os Colégios e as Irmãs deveriam exercer a prática educativa: 1. É indispensável o bom exemplo, pois os olhos das crianças são perspicazes. Faltando a caridade, a justiça e a prudência, todos os frutos da educação serão frustrados. 2. O amor à juventude seja guiado por motivos sobrenaturais, à imitação do amigo, das crianças que as abraçava, mesmo sentindo-se extenuado pelos labores do dia. 3. Exortações e conselhos sejam sempre moderados, tanto no que diz respeito ao número como à forma. 4. É indispensável calma e prudência, particularmente quando se trata de elogio ou censura 5. As Irmãs não tomem impetuosidade por zelo, nem rigor excessivo por energia. 6. Sejam amantes da ordem e da vigilância indispensáveis. Onde se espera alcançar mais com paciência, não se deve usar rigor. 7. Deus não dá os Seus Dons a todos no mesmo grau: eis porque deveis ter paciência justamente para com os pobres de dotes intelectuais. 106 8. Dia e noite esteja vigiando aqueles que lhes estão confiados, afim de que os maus elementos não exerçam influência sobre os bons; antes é preferível que os primeiros sejam eliminados. 9. O julgamento da professora não seja prematuro, o seu zelo não seja fora de tempo e o tratamento das crianças não seja desigual. 10. Nenhuma Irmã ouse dar uma aula sem ter se preparado para ela, afim de que a falta de preparação não lhes venha prejudicar por não saber distinguir o necessário e o útil, em prejuízo a este último. 11. Entre si, tenham as professoras unidade no plano como no programa, pois a união faz a força. 12. É de grande importância o progresso nas matérias escolares, como também, bom tom e delicadeza no trato; de maior importância é porém a formação do coração, e de máxima importância, o conhecimento e a observância dos deveres religiosos. Faltando a este ponto, a jovem fàcilmente perder-se-à, lá no mundo. Em uma palavra: é melhor educar do que instruir. 13. De grande vantagem é a Congregação Mariana, mas, somente se procurar chegar à sua real finalidade que é: a imitação das virtudes de Nossa Senhora. 14. Ás orações e outros exercícios religiosos, jamais deve faltar, o verdadeiro espírito de piedade; não se percam tais atos numa piedade sentimental. A observância fiel da Lei de Deus será sempre a coisa principal para o cumprimento perfeito dos deveres religiosos. 15. A bela virtude da gratidão merece uma atenção particular, pois a ingratidão é sinal de um coração pouco nobre. Por isto, não deixem de passar a menor ocasião de lembrar aos alunos a gratidão para com Deus, para com os pais, aos mestres, mestras, aos Institutos e os benfeitores. 16. A sinceridade, a franqueza, a lealdade no trato, - eis a mais bela expressão de um caráter. Para cultivar tais qualidades faz-se mister o combate a hipocrisia. 17. É indispensável às mestras, velar pela saúde dos que lhes são confiados, não devendo medir esforços para afastar tudo que lhe fôr prejudicial, pois, comomuito acerto já dissera o Romano: MENS SANA IN CORPORE SANE. Sendo são o corpo, sê-lo- à mente também à alma (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1927). Ao analisarmos o Plano de Instrução para podemos perceber que existia como base educativa a propagação dos principios da Igreja católica seja no tocante aos valores, as normas, as condutas, toda ação estava intimamente relacionada a purificação da alma e uma vida cristã. Sabemos que estas orientações buscava materiliazar uma representação de condutas e rituas que servissem de modelo para uma sociedade exterior à insttiuição , mas que viam nestas simbolos de moralidade e modelo puro de vida. 107 Conforme ressalta Magalhães ( 2002), a formação cristã era arcabouço de toda educação feminina. As condutas eram modeladas, tomando com referencial a própria figura de Maria, a mãe de Jesus, simbolo de abnegação e conduta. Dessa maneira , as primeiras diretoras e professoras do Colégio Nossa Senhora das Vitórias vindas da europa , estavam mergulhadas nesses principios e como a sociedade da epoca acreditava que uma mulher prendada contribuiria na ordenação e moralização social, além de trazer representatividade para o seu esposo. Louro (1997, p. 446-447) destaca que a educação destinada a mulher seria para além dos seus anseios “A educação da mulher seria feita, portanto para além dela , já que sua justificativa não se encontrava em seu próprio anseio ou necessidade, mas em sua função social de educadora dos filhos ou, na linguagem republicana, na função formadora de futuros cidadãos”. Nesse processo formativo, deu continudade as ativiadades no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, após a saida de Madre Jaromira Ondra a segunda diretora, que também fazia parte do corpo docente Irmã Digna Taudes, nasceu na Aústria em 30 de setembro de 1879, ficou orfã desde muito pequna, foi educada pelas Filhas do Amor Dvino no Colégio Santo André na sua cidade natal, no qual foi interna, tendo convivido com a fundadora da Congregação , Madre Francisca Lechner. Aos 21 anos, ingressou na vida religiosa na Casa-Mae em Viena , onde permanceu até 1924. Nos registros a caracteriza como possuidora de uma moral firme, atuando com rigor e displina na condução das ativdades. No ano de 1926, a Madre Geral, Kostka Bauer, através de uma ciruclar, externou o desejo de que algumas irmãs se oferecessem para viram para o Brasil. A irmã Digna Taudes ofereceu-se e aos 17 de janeiro de 1927, embarcou com Irmã Madre Alberta, Irmã Volkamara para o Brasil, especificamente para a Cidade de Assú, no Rio Grande do Norte. 108 Figura 19: Irmã Digna Taudes. Fonte: Educandário Nossa Snehora das Vitórias Segundo Oliveira (2018, p. 93), Irmã Digna Taudes era dotada de belos talentos artisiticos, especialmente a música, bordados e confecção de paramentos liturgicos. Dentre os instrumentos musicais que sabia tocar se desatava na citara. Durantos anos, foi organista e dirigia o coral de moças na Igreja Matriz de São João Batista ,em Assú. Na primeira metade do século XX , a música pode ser claramente identificada como uma das disciplinas presentes nos currículos escolares e como uma das disciplinas e/ou atividades consideradas úteis na constituição de uma cultura escolar feminina (IGAYARA,2009). Os elementos da formação feminina estavam repletos de respresenatções sobre o perfil de mulher que almejava a sociedade da época e as Filhas do Amor Divino, contribuia para essa perspectiva de educação delegando as suas diretoras e professoras essa responsabildiade . A terceira e mais longa gestão do Colégio Nossa Snehora das Vitórias ficou a cargo de Cristina Wlastinik, nasceu em 20 de junho de 1880, na Boêmia, então Checoslováquia. Entrou 109 na candidatura em 24 de maio de 1898, fez vestição em 24 de novembro do mesmo ano. Em 22 de maio de 1926, chegaram ao Rio Grande do Sul a Madre Geral Kostka Bauer, Madre Cristina , começando assim, sua vida missionária no Brasil. Entre os anos 1926 a 1938 Madre Cristina Wlastinik permaneceu tambem na condição de vigária geral das duas provincias brasileiras das Filhas do Amor Divino, Provincia Nossa Senhora da Anunciação, no Rio Grande do Sul e Provincia Nossa Senhora das Neves, no Rio Grande do Norte. A permanencia da Madre Cristina Wlastinik enquanto diretora do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, foi a mais longa, atuando 21 ano, em virtude da ausê ncia de comunicaão com a Casa Geral em Roma, em consequencia da Segunda Guerra Mundial. Figura 20: Irmã Maria Cristina Wlastinik. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias Segundo Oliveira ( 2018), Madre Cristina Wlastinik era rigorasa, exigia disciplinaa, odediência , espirito de pobreza e espirito de sacrifico, coforme ensinamnetos da fundadora Madre Francisca Lecnher. Além das atiivdades desenvolvidas no Colégio Nossa Snehora das Vitórias , dedicou-se a atividades missionarias na Cidade de Mossoró/RN, no Abrigo para 110 idosos. Em 30 de agosto de 1975, apagou-se a luz da vida dessa abnegada Irmã, sendo sepultada no Cemitério Público em Assú (OLIVEIRA, 2018, p. 95). As caracteristicas mencionadas sobre os perfis das primeiras professoras e diretoras , apresentam a displina e rigor que caraterizam seus modos de ser e fazer. Louro (2000, p. 81) estudando sobre representações das professoras destaca que: As caricaturas das revistas, as canções, os depoimentos e as histórias contadas pelos mais velhos ajudam a reconstruir algumas representações das professoras. Não é por acaso que as fotos antigas mostram figuras severas, de roupas escuras, abotoadas e de mangas compridas. Figura 21: Primeiras professoras, ano 1927. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. 111 Figura 22: Professoras e alunas, ano S/D. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. As imagens em destaque apresentam as formas de sentar, vestir, olhar e apresentar-se socialmente pelas professoras e alunas, onde se sobressaia a origem social, sua seriedade e discrição. A imagem séria e impessoal registrada na foto materializa-se com a ajuda da indumentária. Uma postura aústera, séria, respeitável, sóbria, essa representatividade de ser professor, em que esta deveria ser intelectualizada, discreta, parte da representação de mulher professora construída historicamente e tão difundida socialmente no período. A expressão repassada na fotografia exibida, imprime, a seriedade no comportamento. Acreditamos que essa seriedade nas formas de postar-se socialmente, deveria servir de exemplo aos discentes, em especial as meninas que viessem estudar no Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Dentre as imagens que encontramos no arquivo do Colégio, registra a primera Irmã negra a ingressar no corpo docente da Congregação das Filhas do Amor Divino. A Irmã Maria Assunta Vieria, Nasceu na cidade de Assú em 23 de setembro de 1917, filha de Antônio Inácio Fragoso Fernandes e Palmira Fragoso Vieira. Inciou seus estudos no Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia , onde concliu até o 6ª ano. Aos 17 anos ingressou a primeira turma de candidats ao noviciado da provincia, fez sesu primeiros votos em 24 de janeiro de 112 1932. Segundo Oliveira (2018), tocava piano, acordeon e violão, além de cantar e ser professora de música. Faleceu em Emaús /RN, em 20 de novembro de 1982. O ensino de piano ocupava um papel importante na formação das meninas. Tocar piano fazia parte de hábitos sócio-culturais que toda moça da elite deveria ter. Desde muito cedo o piano revelou duas características simbólicas peculiares que seriam a este instrumento associadas ao longo de muitas décadas: não somente predominou nas famílias da elite, mas já era também associadoà figura feminina (AMATO, 2008, p.170). Figura 23 : Professora de Música Irmã Ernestina da Fonseca com aluna, S/D. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. Dessa maneira, desde o início, o piano encontra seu lugar social identificado junto ao gênero feminino. Desde século XIX, havia, sem dúvida, um pré-entendimento devidamente convencionado, na consciência coletiva da sociedade patriarcal, quanto ao ato de tocar piano. Dedilhar o instrumento era um affair feminino ligado à delicadeza e também à conveniência de se associar o piano, como objeto doméstico, a uma atividade feminina formalmente requerida como parte da sua educação. Com base nesse pressuposto, a prática desse instrumento e sua propagação entre as mulheres das classes sociais mais abastadas passaram a ser, em grande parte, itens do código de conduta da época (AMATO, 2007 p.170). 113 A música sempre esteve presente nas práticas educativas do Colégio Nossa Senhora, nos arquivos detectamos o registro da aula de música no ano de 1932, com a professora Irmã Amábilis Jacubek. Além do piano , estava presente também outros instrumentos , como violino, sitar, piano de baixo, conforme registrado na figura abaixo. Figura 24: Aula de música com Ir. Amábilis no ano de 1932. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. As atividades ligadas ao ensino da música no ano de 1932, estava sob à orientação da Irmã Amábilis Jacubek, a referida professora, nasceu em 01 de junho de 1894, na então Checoslováquia. Entrou na Congregação em Fevereiro de 1922, em Praga. Fez vestição em 28 de agosto de 1922, em Weltrus. Faleceu em Assú no dia 10 de maio de 1950. Nos registros da ex-aluna integrante da primeira turma Maria Brigida Soares Filgueira (In memorian), foi encontrado o original manuscrito do Hino à Nossa Senhora das Vitórioas escrito pela Irmã Amábilis Jacubek (OLIVEIRA, 2018) 114 Hino à Nossa Senhora das Vitórioas Oh! Maria! Do céu habitas Rodeada de amor e de glória Compassiva escutais nossas preces Mãe de Deus, virgem Mãe das Vitórias E de trono onde imperas, Senhora Envolvei-nos no brilho da tua luz A vitóroa nos dá contra o erro Nossas almas levai Jesus Virgem sagrada Por vossas glórias Abençõai-nos Mãe das Vitórias. ( Ir. Amábilis Jacubeck, S/D) No relatório anundo ano de 1927, no qual descreve as disciplinas que eram ministradas no Colégio Nossa Senhora das Vitórias e as respectivas professsoras, algo nos chamou atenção a presença do Professor Alfreto Simonetti, que na época era também diretor do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia em Assú. Figura 25 : Professor Alfredo Simonetti. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. 115 As primerias Irmãs do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, logo que chegaram para fundar a insttiuição escolar, sentiram muitas difilcudades na interação com a população e também na condução das atividades educativas, isso porque não falavam e não compreendiam a lingua portuguesa. Desta feita, considerando o prestigio e competência do Professor Alfredo Simonetti, o convidaram para ministrar aulas de Lingua Portuguesa. Alfredo Simonetti, nasceu em Natal, na Avenida Rio Branco, 577, no dia 24 de outro de 1900. Sendo seus pais Américo Vespúcio Simonetti Filho e Amália Géniesia Coelho Simonetti. Em 27 de janeiro de 1920, foi diplamonado professor primário na Escola Normal de Natal (OLIVERIA, 2018). Conforme os registros da época, as marcas do seu fazer docente registra compromisso e honra em exercer a profissão docente e contribuir com a educação. Segundo sua cunhada Clara Carlota de Sá Leitão registrtrou na revista Polianteia, ano de 1939: Sacrificou à escola seus últimos dias de martirio, frequentando-a doente, abatido pela moléstia que o devia vitimar. Era o primeiro a cjegar às aulas e o último a sair. Fazia gosto vê-lo trabalhar (OLIVEIRA, 2018). Oliveira (2018), destaca que o Professor Alfredo Simonetti, era dedicado à causa educacional, entre os diversos cargos e funções , desempenhou enqanto inspector das escolas públicas na região do Vale do Assú. Além de atuar na formação de jovens através do escotismo, contribuiu na criação da biblioteca infantil, na fundação do Grêmio Estudantil e da revista Paládio, promoveu festas escolares para beneficio da construção do Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Em outubro de 1925, o jornal A Cidade , publicou com a seguinte homenagem: Não Podemos olvidar a data feliz do seu natal, pois que o professor Simonetti tem-se revelado um decidido e esforçado amigo da terra. Geralmente acatado e estimado por seus discipulos, o professor Simonetti tem sido incansavl nessa benmerita cruzada em prol do ensino, ora fundando sociedade e criando um jornal para pugnar pelo interesse e desenvolvimento da instrução, ora promovendo representações teatrais da mais saluatar e benefica moralização, entre seus educandos. (A CIDADE, 1935). O discurso nos reporta a um tempo em que o (a) professor(a) era uma pessoa respeitada pela sociedade e exigida em seus comportamentos, pois ensinar naquele tempo, meados do século XX, no Brasil, significava além de ter o domínio dos conteúdos a serem lecionados, também comportar-se segundo os critérios de moralidade e respeitabilidade social perante os outros indivíduos. 116 Evidenciamos também que nesse primeiro grupo de diretoras e professoras do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, passaram a ser consideradas as precursoras e construtoras da cultura escolar, com base nos preceitos advdindo da Congregação das Filhas do Amor Divino , bem como o que se pensavam sobre nas formas ensinar e a aprendizagem circulantes na epoca. Além dispondo a formação feminina em novos patamares de elevação cultural que se sobressairia diante de uma formação restrita às primeiras noções de matemática e língua portuguesa, para uma formação mais integral e geral da mulher, acrescido do ensino de linguas estrangeiras como Francês, Italiano, latim, boas maneiras, representações dramaticais, bem como o ensino da música e seus diversos intrumentos. 117 4.2 As Festas Escolares Para que haja cultura, não basta ser autor das práticas sociais é preciso que essas práticas sociais tenham significado para aquele que as realiza (CERTEAU, 1994, p.142). A escola faz e transmite cultura, por meio de seus conteúdos culturais. Ao que tudo indica, o grande desafio do pesquisador consiste em fugir daquilo que é tido como norma para buscar entender como os agentes se apropriam da cultura e como a representam. As contradições presentes na sociedade perpassam a escola. Saberes da sociedade transformam-se em saberes escolares (SILVA,) Neste sentido, não podemos analisar a organização das festas escolares e do culto cívico, no interior das instituições escolares como um processo “natural e inocente”, desinteressado e imparcial”, uma vez que “é concebido para ter efeito sobre as pessoas, produzindo processo de seleção, de inclusão/exclusão e de legitimação de certos grupos sociais e ideias” (GOODSON,1997, p.10). É forçoso destacar que o calendário escolar é bastante festivo. E a festa é um fato social, histórico e político constitui o momento e o espaço da celebração. O olhar histórico no universo escolar através das festas, possibilita revisitar o passado, construir interpretações e entender a escola no seu interior. Para a construção da categoria de estudo As festas escolares, identificamos nos Relatórios anuais, atas, descrições sobre a organização e como aconteciam as festas e rituais cívicos no Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Os registros encontrados enfocam os desfiles que eram realizados pelas ruas da cidade de Assú por ocasiãoda festa como a da Natureza, a da Pátria, da Proclamação da República, da Bandeira, somados a esses, a instituição realizava festas religiosas e colação de grau das alunas. No relatório anual expressa que esses momentos de rituais cívicos, todos vestiam suas melhores roupas, ensaiavam coreografias, hinos, poesias patrióticas, organizavam a escola e a cidade para celebrar a nação (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1927). 118 As festividades faziam parte do contexto escolar, visto que envolviam professores, alunos, corpo administrativo e a própria direção do estabelecimento de ensino. O Colégio Nossa Senhora das Vitórias, participava da propagação de valores e condutas e procurou disseminá- los aos seus discentes, uma vez que as festividades tinham caráter pedagógico, e que perpassa, também, pelos valores da sociedade da época. Dentre as celebrações, destacamos a Festa da Natureza, enaltecendo a valorização e respeito pelo meio ambiente. Nos relatórios anuais nos períodos entre os anos de 1927 a 1947, encontramos o registro desse momento, através de atividades práticas e anualmente era organizado desfile comemorativo da festa da natureza. Ainda registra que os alunos tinham acesso diário no cuidado no cultivo das plantas. Para celebrarmos a festa da natureza houve por parte dessa instituição grande empenho. Desde o planejamento das atividades em sala, como a divisão dos alunos que iriam apresentar as poesias, ainda ensaiamos lindamente para o grande desfile pelas ruas das cidades. Hoje dia 3 de maio realizamos em sala de aula a leitura sobre a fauna e a flora brasileira, apresentando as belezas do nosso país. As 08 horas da manhã aconteceu no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, a festividade referente ao dia da Natureza. Na oportunidade as alunas plantaram mudas e apresentaram brilhantemente poesias sobre o dia da natureza. Após o encerramento da apresentação todos aplaudiram com entusiasmo as alunas que transmitiram todo o amor e respeito a natureza. Ás 16h aconteceu desfile pelas ruas da cidade e juntando aos alunos do Grupo Escolar celebraram esse dia com todo empenho. Não apenas nesse dia especial devemos cultivar todo o respeito a natureza, mas diariamente realizamos o cuidado com essas que são presentes de Deus. (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1927) A Festa da Natureza tinha o cunho cívico, e evidencia a valorização e respeito que os alunos deveriam adquirir, através de ensinamentos diários no cuidado com as plantas, nas leituras que abordavam sobre o respeito a natureza como presente de Deus, além de aprimorar espirito patriótico enaltecendo a fauna e flora brasileira. Esse evento também era desenvolvido em escolas públicas por todo Brasil, a exemplo dos Grupos Escolares no Rio Grande do Norte, conforme seu regimento interno orientava a prática do professor para a festa da Natureza. A festa da Natureza, a 3 de maio, constará de uma reunião ou passeio geral, plantio de arvores, soltura de pássaros, atos de carinho com os animais domésticos, admiração pelas flores e frutos e outras provas de afeto à criação natural, além do entretenimentos, recitação e prosa alusivas à descoberta do Brasil (RIO GRANDE DO NORTE, 1925, p. 19 Art. 42). 119 Em São Paulo, as festas escolares se tratavam de eventos sociais, sendo prestigiado pela população, com os alunos, professores, diretores, políticos, saindo às ruas, para celebrar os heróis e fatos históricos brasileiros. As comemorações cívicas, ofertadas pelas escolas, contribuiu para construir nos alunos e na população um espírito patriótico, além do sentimento de pertencimento a nação e da formação de uma identidade nacional (VEIGA, 2003). Ficou evidente que o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, além de disseminar conteúdos disciplinares, também colaborava, para a formação de uma consciência cívico-patriótica relacionada à ideologia vigente no contexto histórico da época. Destacamos outro registro sobre os eventos e as atividades desenvolvidas concernentes às comemorações do aniversário do então presidente da República Getúlio Vargas. No dia 19 de Abril, aniversário natalício do Dr. Getúlio Vargas, muito digno presidente do país, foi festejado com entusiasmo pelas educadoras que compareceram a passeata organizada especialmente para celebrar tão insigne data. Diversos discursos em que era realçada a pessoa eminente do interventor, foram ouvidas. Ao regressarem as alunas ao Colégio, ouviram, mas uma vez a palavra da Diretor que em amigável preleção falou-lhes sobre o bem orientado governo do Exmo, Sr. Dr. Getúlio Vargas, lembrando-lhes os benefícios por ele feitos à nossa Pátria e o sentimento de gratidão que devemos ter para com este grande chefe da nação brasileira. Realizou-se nesta cidade, a passeata dos estudantes sob a direção da Diretora do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia e suas auxiliares. O nosso Educandário compareceu a este ato solene, bem assim todas as escolas da cidade. As solenidades foram feitas com muito brilho. Após a comunhão de mais de 400 alunos, houve um café oferecido pelas professoras (RELATÓRIO ANUAL, 1932). É perceptível no discurso em destaque no relatório anual, que existia o desejo por parte dos atores da Igreja Católica de enaltecer a figura do presidente Getúlio Vargas. Nesse contexto histórico dos anos 1930, grupos de intelectuais, políticos e militares ressaltam-no como o grande líder nacional em um momento de ruptura do cenário político brasileiro5. Ao perseguimos as relações de interesse entre Igreja e Estado na época Era Vargas, vislumbramos que com a Promulgação da Constituição de 1891, a Igreja Católica sofreu algumas perdas que a deixaram numa situação pouco confortável frente aos desafios da nova 5 A Primeira República brasileira foi marcada por um sistema político conhecido como coronelismo que se caracterizava principalmente pela troca de favores e de apoio possibilitada pela Política dos Governadores. Esse Brasil Republicado foi se transformando em instrumento das elites oligárquicas do Sudeste, mantendo privilégios para um grupo restrito que comandava o país. Grande parte da população não se via representada pela recém proclamada república, é o que José Murilo de Carvalho constata ao afirmar que a República não concebia avanços para maioria dos brasileiros (AGUIAR JUNIOR, 2013, p. 1). 120 fase que se iniciara na história do país. Alguns decretos também foram estabelecidos já no Governo Provisório deixando clara a nova posição do Estado frente às questões religiosas no país a partir de então. A Igreja precisou mudar sua forma de ação, pois não tinha mais oficialmente o amparo do Estado e financeiramente não podia mais contar com as verbas dos cofres públicos (CAVALCANTI, 1994). No entanto, durante os anos de 1930 a 1945, houve a união não oficial entre o Estado e a Igreja Católica no Brasil. É forçoso destacar que logo quando chegou ao poder, o presidente Getúlio Vargas percebeu que teria na Igreja Católica uma forte aliada para a manutenção do seu governo (SILVA, 2012). Nos relatórios anuais do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, voltamos a encontrar o registro de momentos cívicos, destacando a relevância do Presidente Getúlio Vargas., além a data da Independência do Brasil e o dia do trabalho. Em comemoração à data que aniversaria o ilustre Presidente Dr. Getúlio Vargas, transcorrendo a 19 de Abril, dia consagrada à juventude brasileira, houve em nosso estabelecimento, preleções sobre o digno aniversariante e seu Governo. Para melhor festejar está data natalícia do fundador do Estado Novo, fez-se um passeio escolar, afim de dar amplos conhecimentos ais alunos, da vida do grande personagem. Não passou desapercebido entre nós, a data 21de Abril, em que se comemora o protomártir da Independência do Brasil. No dia 1 de maio, em que se comemora o dia do trabalho, houve hasteamento da Bandeira, bem assim cânticos patrióticos e preleções aos alunos, sobre a importância do trabalho (RELATÓRIO ANUAL, 1934). Em novembro- comemorando-se o aniversário do Estado Novo, foi inaugurado à sede dos Escoteiros e retrato do insigne Presidente Getúlio Vargas. Discursaram diversos oradores falando sobre as vantagens do Estado Novo e sobretudo do ilustre personagem de seu fundador. Seguimos depois para praça principal da cidade, onde ocuparam o microfone, diversos alunos de nossas escolas (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1942). Concomitante as ideias de Vargas de enaltecer o amor à Pátria, a importância do trabalho para construção de um novo Pais, as escolas serviram de propagadoras dessas ideias,com isso Vargas buscou a religião para usá-la como instrumento de dominação. Segundo Alcir Lenharo (1986), o domínio da fé por parte dos católicos teria ficado evidente. O estado precisava manter o espírito cristão, e Getúlio Vargas precisava ser visto como Pai da nação em uma perspectiva cristã. 121 A Igreja Católica procurou manter sua influência política no governo de Vargas, mesmo não estando oficialmente ligada ao Estado. Com a Revolução de 1930, o episcopado brasileiro desejou sepultar o Estado laicista, como um caminho para uma sociedade católica no Brasil. (BANDEIRA, 2000) Percebemos que as atividades desenvolvidas no Colégio Nossa Senhora vislumbravam influenciar na construção desse cidadão e cidadã, com amor à pátria e os sujeitos que faziam parte desse projeto de renovação do país, enaltecido por Getúlio Vargas. Ainda nos relatórios anuais do Colégio nos anos de 1935 e 1937, encontramos o registro de outros momentos cívicos e destaque aos militares do Brasil. O feriado nacional (descobrimento do brasil) foi brilhantemente festejado nesta cidade do Assú. O Educandário para comemorar esta data, organizou o seguinte programa: passeata e concentração no jardim da praça “ Getúlio Vargas”, cânticos, poesias, preleções sobre a data (RELATÓRIO ANUAL, 1935). 25 de agosto neste dia consagrado aos militares brasileiros, exaltando a grande figura de Caxias, o patrono do soldado no Brasil, foi com regozijo que nosso Educandário festejou esta data. Houve grande passeata cívica, desfilando pelas principais ruas da cidade. Na praça “Getúlio Vargas”, diversos alunos discursaram ao microfone havendo também cânticos e poesias (RELATÓRIO ANUAL, 1937). No documento Relatório Anual, encontramos o registro do Colégio participando de passeata para festejar o dia 7 de setembro, data que celebra a independência do Brasil. No dia 7 de setembro, esta data foi brilhantemente festejada no Colégio Nossa Senhora das Vitórias e nesta cidade, não somente da Independência, mas toda a Semana da Pátria. Desde os primeiros dias, o nosso Colégio tomou parte dos festejos cívicos, se incorporando as demais escolas, organizando o seu programa. Todas as tardes havia passeata pelas principais ruas da cidade, todos os alunos desde criança até o jovem, desfilaram ao som do bombo, demonstrando seu amor a Pátria, levando a frente garbosamente o pendão brasileiro. Diversos alunos falaram sobre esse dia e cantaram os hinos patrióticos e poesias (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1938). 7 de Setembro- Esta data foi magnificamente festejada nesta cidade, não somente no dia da Independência, mas toda a Semana da Pátria. Nos três primeiros dias o nosso Educandário não tomou parte das festividades cívicas, devido as alunas estarem em retiro, porém nos dias 4,5,6 e 7 incorporaram as 122 demais escolas, organizando o seu programa. Todas as tardes havia passeata pelas principais ruas, todos os alunos da localidade ao som bombo, levando à frente garbosamente então brasileiro. Diversos oradores falaram sobre magna data; alunos cantaram hinos patrióticos e recitaram poesias sobre nossa independência (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1942). Vaz (2006) explica que as escolas se tornavam instrumentos para difundir a civilidade e ordem no País, assim como propagado no Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Para a autora, a preparação para os eventos cívico-patrióticos contribuiria para essa civilidade, com isso “A festa instaura a alegria, legitima o regime e rememora as obrigações e contributos para aqueles que fazem parte do país”. Figura 26: Desfile Cívico, ano S/D. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. Dessa forma, “A festa instaura uma nova ordem e, neste sentido, em momentos autoritários, ela mostra o regime como a nova ordem preestabelecida” (VAZ, 2006, p. 43). A esse propósito, Gatti destaca. 123 A escola é concebida não só como um espaço de disseminação de conhecimentos, mas também em sentido mais amplo de produção e transmissão de cultura, valores e normas que são aplicados tanto no espaço interno da escola, quanto perante a sociedade. Historicamente, essa instituição constrói uma cultura e estabelece uma identidade única, com maior ou menor aproximação ao contexto no qual está inserida, criando assim, uma imagem frente à sociedade, por meio de suas práticas cotidianas que são efetivadas por seus agentes (professores, administradores, alunos e funcionários), estabelecendo, desse modo, importante papel no desenvolvimento da sociedade (GATTI, 2010, p. 188). A participação das escolas se tornou tão relevante na disseminação do ideário patriótico, e podemos perceber através do manuseio das fontes no arquivo do Educandário Nossa Senhora das Vitórias, no qual identificamos o registro da diretora do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, atestando a participação nos eventos cívicos da cidade. Figura 27: Oficio do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1943. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. 124 No manuseio dos relatórios anuais, encontramos o registro sobre “A festa da bandeira”, realizada no dia 19 de novembro, celebrada pelos alunos do Colégio Nossa Senhora das Vitórias e sociedade assuense, representava um momento de enaltecer o amor à pátria republicana. Ao término da fala das professoras sobre a relevância dessa data e das preleções dos alunos, todos entoaram o Hino da Bandeira (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1943). Conforme Silva (2004, p. 99), além das festas escolares e datas comemorativas, as crianças norte-rio grandenses desenvolviam atividades cívicas dentro de sala de aula. A disciplina de canto, por exemplo incluía a aprendizagem de letras de músicas e de hinos oficiais que valorizavam o nacionalismo e os valores republicanos da sociedade, que incluía hinos nacional brasileiro, da independência, da República, da bandeira. No relatório anual, encontramos o registro do hino à bandeira e também o objetivo de se trabalhar o do hino : “Em nosso colégio ensaiamos com nossas alunas o hino à bandeira do Brasil, como forma de enaltecer o espírito cívico, inculcando o amor e na construção de futuras servidoras da pátria”(RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1947). Hino à bandeira do Brasil Poesia de Olavo Bilac Música de Francisco Braga Salve lindo pendão da esperança! Salve símbolo augusto da paz. Tua nobre presença à lembrança. A grandeza da Pátria nos traz. Recebe o afeto que se encerra. Em nosso peito juvenil, Querido símbolo da terra, Da amada terra do Brasil! Em teu seio formoso retratas. Este céu de puríssimo azul, A verdura sem par destas matas, E o esplendor do Cruzeiro do Sul. Contemplando o teu vulto sagrado,Compreendemos o nosso dever, E o Brasil por seus filhos amado, Poderoso e feliz há de ser! 125 Sobre a imensa nação brasileira, Nos momentos de festa ou de dor, Paira sempre sagrada bandeira, Pavilhão da justiça e do amor! (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1947) As festas e rituais cívicos contribuíram para a formação de um espirito patriótico da sociedade potiguar. Esse movimento de valorização do Brasil republicano e orgulho de ser brasileiro, foi motivado por campanhas nacionalistas que traziam como temas a renovação política do país, através do voto secreto, da expansão do ensino como meta para formar uma nação instruída. Aliado a esse ideário buscava-se ainda combater o estrangeirismo, seja na arte ou nos costumes cotidianos, valorizando elementos da terra, os heróis, as tradições, a língua materna. (SILVA, 2004). Essa perspectiva de formar uma nação instruída também estava expressa no relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, no registro da ocasião da Festa da Bandeira, ressalta a relevância desse momento para instruir o amor à Pátria Republicana e contava com a participação de políticos, intelectuais e da população assuense. Festejou nesse Colégio brilhantemente as festividades do dia da bandeira. Os alunos cantaram com fervor o Hino da bandeira, demonstrando amor à Pátria. Tivemos a participação de pessoas ilustres, políticos, intelectuais e da sociedade assuense, prestigiando as apresentações dos alunos, com poesias e preleções. Todos aplaudiram com empolgação a linda festa. As comemorações cívicas desse colégio têm como principal objetivo instruir os a serem para futuras servidores da pátria (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1947). A participação dos estudantes nas celebrações cívicas nem sempre era um ato de espontaneidade. Desde a década de 1930, as leis obrigavam a participação dos estudantes nas comemorações cívico patrióticas, a partir do Decreto 19.488 de 15 de dezembro de 1930, Lei 259 de 1º. de outubro de 19366, Decretos 7.807 e 3.346 de 1941), conforme orientações do então presidente da República Getúlio Vargas (RENK, 2012). 6 Art. 1º Fica obrigatório, em todo o pais, nos estabelecimentos de ensino, mantidos ou não pelos poderes públicos, e nas associações de fins educativos e outros, constantes dessa lei, o canto do Hymno Nacional, de Francisco Manoel da Silva, com a lettra de Joaquim Osorio Duque Estrada, officializado pelo decreto nº 15.671, de 6 de setembro de 1922, do Governo da República. Art. 2º Ficam adotados, para execução do Hymno Nacional, de Francisco Manoel da Silva, a orchestração de Leopoldo Miguez e a instrumentação, para bandas, do 2º tenente Antônio Pinto Júnior, do Corpo de Bombeiros do Districto Federal, o tom original: de si-bemol; e, para camto, em fá, trabalho de Alberto Nepomuceno.Art. 3º A instituição que, préviamente intimada, deixar de cumprir as determinações desta lei, terá proibido seu funccionamento pela autoridade competente. Art. 4º Esta lei entrará em 126 Segundo Silva (2004, p. 97), a comemoração da Bandeira era uma festa cívica de “destaque na programação das escolas primárias. Sendo orientação metodológica do Departamento de Educação, no qual, enfocava a relevância de hastear bandeira, recitar poemas e entoar cânticos”. Ainda autora destaca (2004, p. 97), que o civismo era tratado como uma área de estudo que “precisava ser ensinada através de procedimentos práticos, que valorizassem a ação física, o trabalho manual, a voz. Dessa maneira, as festas escolares mobilizavam a organização de materiais de colagens, desenhos, músicas e marchas cívicas pelas ruas”. De acordo com Renk (2012, p. 6), “após a década de 1920, a legislação escolar exigia a intensificação das celebrações das datas cívicas do calendário brasileiro, com a intenção de construir uma memória coletiva nacional e o sentimento de pertencimento à nação”. Percebemos que as atividades desenvolvidas no cotidiano do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, referente as festas escolares, seguiam as orientações expressas no Regimento interno para os Grupos Escolares., que tornava obrigatória, “ A festa da natureza”, no dia 3 de maio, “A Festa da pátria”, no dia 7 e “ A festa da bandeira, no dia 19 de novembro” (REGIMENTO INTERNO DOS GRUPOS ESCOLARES, 1925). Conforme ressalta Lage (2004), a educação, neste momento, dialogava com o discurso político, atendia às suas necessidades, em desenvolver determinadas aptidões para apreender o discurso da ordem e alcançar o progresso. A escola atendia ao chamado e celebrava a política republicana através da divulgação de seu ideário, corporificando os seus símbolos e valores. Dentro deste discurso republicano percebe-se a presença das festas, corporificavam momentos de demonstrar o desenvolvimento, a ordenação das alunas, propondo homenagens às autoridades locais e religiosas, integrando o universo escolar à comunidade local. As festas “ tornavam-se momentos especiais na vida das escolas e das cidades, momentos de integração e de consagração de valores – o culto à pátria, à escola, à ordem social vigente, à moral e aos bons costumes. ” (SOUZA, 1998, p.259) . Para Frago (1995), a escola possui características e modos de ser e viver particulares e que ainda envolvem questões da dimensão cotidiana, tanto naquelas que se relacionam à materialidade, quanto naquelas outras relacionadas aos significados simbólicos do mundo da escola, a exemplo das festas e rituais cívicos no Colégio Nossa Senhora das Vitórias. As festas escolares que aconteciam no interior do Colégio Nossa Senhora, buscava através das encenações dramáticas transmitir uma mensagem que colaborasse com formação vigor na data de sua publicação. Art. 5º Revogam-se as disposições em contrário. Rio de Janeiro, 1 de outubro de 1936,115 da independência e 48 da república. 127 das suas alunas, no tocante a moldar seu comportamento. Foi possível perceber que as atividades que envolviam apresentações artísticas estavam em acessão no Brasil no período pesquisado. As palavras circulantes à cidade e a escola exprimem educação, cultura, bons costumes, valores, civilidade, elegância. (VEIGA, 2013). No relatório anual encontramos o registro da festa que celebrava o dia de Nossa Senhora das Vitórias, era um momento singular dentro da escola, o enaltecimento a santa se dava pela representação da “vitória” para os asseunses na instalação daquela instituição religiosa na cidade. Realizou-se no colégio evento religioso celebrando o dia de Nossa Senhora das Vitórias, ela que representa a vitória da sociedade assuense na fundação dessa casa. A festa cujo empenho contou com a participação das brilhantes alunas desse estabelecimento de ensino. O evento aconteceu no pátio da escola e estiveram presentes os familiares, intelectuais e comunidade assuense (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO DE 1937). Figura 28: Alunas em apresentação dramática celebrando o dia de Nossa Senhora das Vitórias, S/D. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. 128 As meninas apresentavam modéstia, sutileza no sentar, imprimindo o ideário católico da época, construindo assim uma identidade de aluna do Colégio das Freiras, evidenciando desde sua fundação que o principal objetivo da instituição escolar, não apenas uma soma de conhecimentos, mas a formação do espírito para se tornarem mulheres sadias. Analisando o propósito do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, em realizar uma festa religiosa cultuando nossa senhora, percebemos que existia uma preocupação de materializar uma representação de condutas e rituais que servissem de modelo para a sociedade, especificamente paraa educação das meninas, que enxergavam nestas um símbolo de moralidade e modelo “puro de vida”. Para Nunes (1997, p. 497), “os costumes conventuais e as formas de comportamentos das religiosas deveriam ser diferentes para marcar distinção com o mundo”. É possível entender que as festas escolares tinham como objetivo construir uma identidade da instituição e das suas alunas. Esses eventos faziam parte do calendário escolar e da sociedade assuencse da época. “Todos aguardavam ansiosos pelo grande desfile do Colégio Nossa Senhora das Vitórias” (AMORIM, 1977, p 23). A data pela passagem do natalício do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, é festejado com desfile cívico pelas principais ruas da cidade, apresentando a sociedade assuense com o esmero na qualidade de educar os jovens (AMORIM, 1977) Na data 9 março foi solenemente comemorado o aniversário deste colégio. Todas as alunas, participaram do hasteamento bandeira, cantando lindamente o hino desta casa, após essa atividade assistiram à santa missa, reuniram-se e, um dos salões do Educandário, além de ouvirem algumas palavras sobre a nossa Revma. fundadora da Congregação. Após atividades organizamos uma brilhante passeata pelas ruas da cidade (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO 1928 129 Figura 29: Desfile em comemoração ao natalício do Colégio, ano 1930. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. Ainda no relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, encontramos o registro do hino oficial do Colégio. O referendado hino expressa a relevância da instituição para os assuenses e se constitui como uma identidade para quem fez parte dessa história. Hino oficial do Colégio Nossa Senhora das Vitórias Autoria de Irmã Angelina Simonetti. Eis o templo em que a luz da verdade É farol que nos guia e conduz Ao caminho do amor, da bondade, Aos arcanos eternos da luz. O Assú que revê triunfante Seu passado tão cheio de glória. Seu futuro depõe confiante Sobre o manto da Mãe das Vitórias 130 Nossas mestras são mães desveladas Bandeirantes de nossa instrução Nessas mentes que são desbravadas Desabrocha a flor da gratidão Mocidade assuense cantemos Este hino de amor e de fé Este templo de bem elevemos E seu nome ergamos de pé. (SIMONETTI, S/D) Compreendermos que os hinos integravam os rituais das comemorações escolares por serem constructos sociais e instrumentos da cultura escolar, tais quais outros dispositivos da educação formal. O hino do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, expressa o valor das “Filhas do Amor Divino”, enaltecendo que as mestras são mães desveladas e sua relevância para instrução da mocidade assuense. Figura 30: Apresentação das alunas. S/D Fonte: Educandário Nossa Senhoras das Vitórias. 131 As festas escolares deixam vestígios de como se produziu a cultura escolar das instituições. Percebemos que as festas, a exemplo da Colação de Grau do ginásio era bastante esperando pela escola e pelas alunas. Em 10 de Novembro encerramos o ano letivo. Solenemente houve a entrega dos certificados às alunas que concluíram o curso ginasial, organizado em nosso Educandário. Esse momento e muito festejado em nossa instituição pelas alunas, familiares, políticos e intelectuais que depositaram confiança nos trabalhos sob a direção das “Filhas do Amor Divino”. (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO DE 1947). No relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, expressa que os rituais de formatura eram sem dúvida a solenidade que causava maior agitação na cidade, nos familiares e o corpo dirigente da escola. Esses momentos também contribuam para fortalecer a formação das meninas na instituição e para construir sua legitimidade perante a sociedade que participava dos eventos, bem como de todos aqueles que teriam contato através das notícias veiculadas nos jornais da época. 132 Figura 31: Turma concluinte, ano de 1947. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. Para as alunas seria um momento para eternidade e faria parte da sua memória da educação, como destaca Soares (2003, p.18), sobre a representatividade desse momento “Eu nunca esqueci tudo isso, e trago até hoje em minha memória o encanto daquela cena”. Outro momento celebrado no Colégio era a solenidade de recebimento de hábito das noviças da instituição. Em se tratando de uma instituição escolar confessional, esse era festejado com alegria isso porque considerava que a Igreja recebia mais uma colaboradora na propagação dos preceitos da Igreja. Dentre os registros encontramos a lembrança do dia em que Ernestina da Fonseca recebeu o hábito no Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Conforme registrado no livro “Colégio Nossa Senhora das Vitórias 50 Anos”, a candidatura do primeiro noviciado no referido colégio, deu-se no dia 23 de janeiro de 1929, com apenas três candidatas. Sendo, então, iniciado no dia 23 de janeiro de 1930, terminando no dia 25 de janeiro de 1950 (AMORIM, 1977 p. 38). 133 Figura 32: Ernestina da Fonseca no dia que recebeu hábito. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. É forçoso destacar que a Cultura Escolar produzida no interior do Colégio Nossa Senhora, a partir das festas e rituais cívicos, envolve as ideias circulantes sobre como educar a mulher, embasadas nos preceitos da Igreja católica. Sendo mobilizados tantos os corpos como as mentes das meninas, inculcando as condutas, modos de pensar, dizer e fazer e repleta de sentidos para sua formação. 134 4.3 Normas e disciplina escolar A disciplina é uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos. Não basta olhá-los às vezes ou ver se o que fizeram é conforme a regra. É preciso vigiá-los durante todo o tempo da atividade de submetê-los a uma perpétua pirâmide de olhares. É assim que no exército aparecem sistemas de graus que vão, sem interrupção, do general chefe até o ínfimo soldado, como também os sistemas de inspeção, revistas, paradas, desfiles, etc., que permitem que cada indivíduo seja observado permanentemente (FOUCAULT, 2010, p. 106). Falar sobre as normas e disciplina escolar que perpassou os espaços do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, no período que se estende do seu início de funcionamento, ano de 1927, até à década de 40 do século XX, significou considerar o contexto cultural em que essas práticas ocorreram. Implica também especificar os procedimentos de vigilância, acompanhamento e orientação acionados nos dispositivos da Escola pela direção e pelas professoras que produziam diariamente a uniformização do sistema de ensino que a propagação do modelo escolar pretendia para a educação dos alunos. Assim como nos fala Foucault (1997), as normas e disciplina é revelada na leitura do sujeito em movimento, nas formas de condução de controle do seu corpo, das ações, dos gestos, dos comportamentos. Nessa compreensão, a disciplina busca para além de moldar os comportamentos humanos, fabrica corpos submissos, como destaca Rodrigues (2007): a disciplina, mais do que moldar os comportamentos humanos, fabrica corpos submissos, numa submissão em que é dispensada a violência física, pois ela age através do controle ideológico do corpo, no uso de dispositivos repetitivos silenciosos. No caso específico de uma instituição escolar, essa violência, que é uma violência simbólica dá-se através do estabelecimento de regras, condutas, normas, ordenações rotineiras, nos horários em que os indivíduos estão cumprindo um Estatuto interno que controla os sujeitos no que fazem e no como fazem as ações diárias. (RODRIGUES, 2007, p. 224). Ao transpor o conceitode disciplina para a nossa análise, evidenciamos o efeito dos diversos dispositivos utilizados no Colégio Nossa Senhora das Vitórias para manter em funcionamento a ordem e a organização rigorosa das classes, dos espaços ocupados no interior da escola por docentes, pelos alunos. O regulamento interno da instituição, o olhar meticuloso 135 e centrado da diretora, da professora, como forma de controle das ações das alunas, era exigido que nada estivesse fora do controle, conforme as normas da instituição. No Colégio Nossa Senhora das Vitórias, não se utilizava de punições físicas, como palmatória, ficar de pé e encostado na parede ou com os joelhos sobre milho. Conforme destaca o relatório anual ano de 1928, os gestos afetuosos das mestras deveriam orientar as normas de disciplina escolar: “No Colégio Nossa Senhora das Vitórias, as mestras dessa instituição sempre guiadas pelo amor do bondoso Deus, devem orientar seus educandos com carinho e afeto, mas não se esquecendo de apresentar-lhes a importância da disciplina para a formação do cidadão” (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO DE 1928). O Colégio Nossa Senhora das Vitórias organizava suas normas e disciplina escolar através do “ Regimento do Colégio”, cujo conteúdo era apresentado para os pais e os próprios estudantes no momento da matricula pela superiora da escola (REGIMENTO INTERNO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1928). Elaborado em 1928 O Regimento para as educandas do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, dirigido pelas Irmãs da Congregação Filhas do Amor Divino, no documento materializa o pensamento vigente sobre como pensavam os modos de ser e fazer da instituição escolar para a educação das meninas7. Desde o asseio e vestuário das alunas externas e internas, passando pelos horários de aulas e conteúdo básico para as aulas de catecismo e práticas de prendas domésticas. Conforme o Regimento Interno, no ato da matrícula as estudantes apresentavam certidão de batismo, atestado de vacina e comprovante de que não eram portadoras de doenças infectocontagiosa. Para as alunas internas era exigido um enxoval composto dos seguintes itens: 1 colchão de 1m 80cm x 70cm; 1 travesseiro; 1 coberto de lã; 1 colcha branca; 2 lençois; 6 fronhas; 4 guardanapos; 4 pares de meia; 12 toalhas de rosto; 4 toalhas de banho; 2 combinações; 12 camisas de dormir; 6 calças; 1 sombrinha; 1 par de calçados preto (salto baixo); 2 pares de tênis; 1 saco de roupa servida; 2 copos de alumínio; 2 pentes (grosso e fino); tesourinha; escova; pasta para dentes; escova de roupa; graxa; bacia; jarro; sabonete; talher; 1 colher para sopa; 1 colher para chá; pratos e xícaras; 1 cadeira ─ Uniforme ─ Aventais conforme modelo do Colégio ─ Saia de casimira azul- marino; Blusas de tricoline e de seda branca; 3 veos de filó. Todo o enxoval deve ser marcado com o número que for dado à aluna por ocasião da admissão (REGIMENTO INTERNO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1928, fl. 3). 7 Apesar do ano de 1928 apresentar a matricula de meninos, não encontramos menção sobre regras destinada para os meninos e parte desse material com desgaste do tempo não tivemos acesso por completo. 136 O rigor com o fardamento escolar expressava a organização do Colégio, ressaltando aspectos relevantes sobre a aparência e higiene. Nas atividades escolares as alunas vestiam um uniforme composto por uma saia de Casimiro azul-marinho, blusa de tricoline branca e sapato preto baixo. Para as solenidades festivas e comemorativas, as alunas vestiriam a saia de Casimiro azul-marinho com uma blusa de seda branca e uma boina azul-marinho. (REGIMENTO INTERNO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1928). Figura 33: Fardamento escolar do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano 1928. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. 137 Figura 34: Fardamento escolar do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano 1928. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. Ainda o Regimento interno destaca que para as atividades destinadas a culinária, aos trabalhos manuais como pintura e bordado acresciam um avental ao fardamento. Tais disciplinas faziam parte do universo feminino, como forma de educar para as atividades domésticas ou as vezes para contribuir com o sustento da família. Figura 35: Exposição de trabalhos manuais, ano de 1941. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. 138 Para a realização dessas atividades, era ressaltado a importância do silêncio, da atenção e organização dos materiais por parte das alunas, assim desenvolver a atividade com primor. Conforme expressa o regimento interno do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, encontramos no artigo I as seguintes informações: O Colégio Nossa Senhoras das Vitórias, fundado a 9 de março de 1927, está sob a direção das “ Filhas do Amor Divino”, conforme o programa ministrado em nosso estabelecimento, abrange todos os conhecimentos uteis ao espírito, cultivando também o gosto e aptidão da aluna para os trabalhos manuais próprios de uma senhora. Para o desenvolvimento dessa atividade, as irmãs desse colégio orientam a importância do silêncio, atenção e organização dos materiais são primordiais para o primor do resultado. (REGIMENTO INTERNO DO COLEGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1930). Os trabalhos manuais voltaram a ser mencionados no relatório anual, apresentando uma exposição realizada no Colégio, destacando a organização das alunas, a disciplina para a elaboração da atividade e participação da sociedade para prestigiar o evento. Era um momento importante para a instituição apresentar os resultados das atividades realizadas sob orientação das freiras. Foi realizado nesse Colégio a aula de trabalhos manuais, antes da sua realização apresentamos as alunas a importância da disciplina, evitar conversas paralelas, evitar colocar sobre a mesa com pincel ainda com tinta, ter leveza no momento da pintura. Com alegria e satisfação hoje após a realização das atividades iniciamos a organização para exposição, feito com muito primor e amor. Estiveram presente os pais das alunas e visitantes ilustres da cidade de Assú. Todos elogiaram e ficaram encantados com a excelente organização e trabalho das alunas, sob a orientação das irmãs das” Filhas do Amor Divino. ” (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO DE 1941). Dentre as atividades da rotina escolar desenvolvida no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, identificamos as práticas religiosas, essas conforme mencionada no relatório anual, tinha como principal objetivo dar significação e valor absoluto à vida das alunas, formando para além de conhecimentos, mas formar o espírito. O Colégio Nossa Senhoras das Vitórias, fundado em 9 de março de 1927, está sob a direção das Filhas do Amor Divino que tem por fim, ministrar às alunas, a educação essencialmente religiosa para dar significação à vida, tornando-a proveitosa e fecunda. Diariamente desenvolvemos atividades religiosas na capela dessa instituição, iniciamos antes das 07h da manhã, os momentos de oração são de suma importância para formação. Conhecendo que a escola tem por principal escopo, não comunicar apenas as educandas, uma determinada soma de conhecimentos, mas formar seu espírito, é que as religiosas desse 139 estabelecimento procuram inculcar nas alunas que lhes estão confiadas, ensinamentos sadios, que habilitem a ser mais tardes, educadoras modelares e exemplares mães (RELATÓRIO ANUAL DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO DE 1942). Os programas curriculares da maioria dos colégios confessionais destinados à educação feminina primavam por uma educação refinada, permeada de valores religiosos, sensibilidades, imagens e gestos cuidadosamente construídos,que traçavam os contornos da “moça de família”, devota, bem preparada para assumir a função social de esposa e mãe. A capela inicial do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, espaço frequentando pelas alunas em vários momentos do dia, em especial pelas alunas internas, na realização de novenas, vigílias. Conforme Amorim (1977), a capela já não preenchia a sua finalidade, acanhada, de pequena dimensão, não comportava o número de fies que ali iam assistir as cerimônias religiosas. Figura 36: Capela do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, 1942. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. 140 Ainda no relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, destaca o rigor com as alunas internas, na vestimenta, horários, momentos de oração. Dentre as atividades estabelecidas no Regimento escolar estava o rigor com as alunas no momento da oração, em especial das alunas interna que tinha início às 05h30 e que também deveria acontecer ao longo do dia na capela do Colégio, em silêncio, de olhos fechados, praticar o jejum quando necessário e rezar todos os dias pela manhã a oração da madre Fundadora Madre Francisca Lechner (REGIMENTO INTERNO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, ANO 1928). Oração de Madre Francisca Lechner Nenhuma manhã, sem oração fervorosa. Nenhum trabalho, sem boa intenção. Nenhuma alegria, sem um obrigado a Deus. Nenhuma palavra, sem lembrar do onipresente. Nenhum sofrimento, sem paciente resignação. Nenhuma ofensa, sem perdão. Nenhuma falta, sem arrependimento. Nenhuma ação do próximo, sem benigna interpretação benignamente. Nenhuma boa obra, sem humildade. Nenhum pobre, sem auxílio Nenhum sofredor, sem uma palavra de conforto. Nenhuma noite, sem exame de consciência. (Oração de Madre Francisca Lechner, S/D) Evidenciamos que a implantação dos dispositivos disciplinares desenvolvidos no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, estão entrelaçadas com os preceitos ascéticos e salvacionistas da própria religião católica e de um Estado que prezava pela higienização e normatização social. A educação religiosa representava uma forma de educação do corpo para o aprimoramento do espírito, uma vida longe de vícios, das influências e desvios mundanos. Baseando-se em preceitos moralistas, existia a preocupação de modelar comportamentos, uma educação que servia para manter um modelo baseado em diferenciações de comportamentos para o homem e para a mulher. 141 Essa perspectiva de comportamento está explicito nas orientações de Madre Francisca Lechner para suas escolas. “Dia e noite as irmãs estejam atentas à ordem e disciplina dos que lhes são confiados, afastando-os de qualquer influência negativa e que não propicie um bom desenvolvimento das atividades escolares” (BINDER S/D Apud LECHNER, S/D). Considerando que o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, foi pensado para educar as meninas, os cuidados deveriam ser redobrados, submetidas a uma disciplina, uma formação para ser boa mãe e esposa, preceitos que acompanhava as ideias de formação feminina quando se criaram Instituições Escolares especifica para educar e moldar as ações diárias das meninas (MAGALHÃES JÚNIOR, 2002, p. 79). Nesse sentindo, os efeitos dos vários dispositivos eram usados para manter o funcionamento e organização rigorosa das classes, dos espaços ocupados pelas professoras e alunas. O regulamento interno, o olhar meticuloso da Madre superiora, da diretora, da professora, o controle disciplinar nas formas de comportamento, nas formas de se vestir, na utilização dos métodos de ensino, possibilita perceber o controle dessas meninas (RODRIGUES, 2007). Figura 37: Sala de estudos das alunas internas, ano de 1942. Fonte: Educandário Nossa Senhoras das Vitórias. 142 Ao visualizarmos a imagem logo acima tem a seguinte identificação “ Sala de estudos das alunas internas do Colégio Nossa Senhora das Vitórias em 1942. No regimento interno do Colégio menciona que as alunas internas realizavam atividades isoladamente das alunas que frequentavam o horário normal. Compreendemos que essa divisão tinha como objetivo, preservar as meninas do contato com um mundo externo ao da instituição e apresentar o rigor, as normas e a disciplina estabelecidas pelo Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Nas imagens percebemos que existia uma preocupação em transmitir as normas e disciplina da escola, parecia que nada estava fora do lugar, salas organizadas, alunos sentados enfileirados em posição ereta com atenção para o professor. Não apenas na sala de aula, mas em outros espaços da escola, existia uma organização que aos nossos olhos parece irretocável, como apresenta nas imagens do refeitório, da biblioteca. Figura 38: Alunas no refeitório, ano de 1942. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias 143 Figura 39: Alunas do Ginásio na biblioteca do Colégio, ano de 1947. Fonte: Educandário Nossa Senhora das Vitórias. Evidenciamos que a implantação dos dispositivos disciplinares desenvolvidos no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, estão entrelaçadas com os preceitos ascéticos e salvacionistas da própria religião católica e de um Estado que prezava pela higienização e normatização social. A educação religiosa representava uma forma de educação do corpo para o aprimoramento do espírito, uma vida longe de vícios, das influências e desvios mundanos. Baseando-se em preceitos moralistas, existia a preocupação de modelar comportamentos, uma educação que servia para manter um modelo baseado em diferenciações de comportamentos para o homem e para a mulher. Essa perspectiva de comportamento está explicito nas orientações de Madre Francisca Lechner para suas escolas. “Dia e noite as irmãs estejam atentas à ordem e disciplina dos que lhes são confiados, afastando-os de qualquer influência negativa e que não propicie um bom desenvolvimento das atividades escolares” (BINDER S/D Apud LECHNER, S/D). 144 Considerando que o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, foi pensado para educar as meninas, os cuidados deveriam ser redobrados, submetidas a uma disciplina, uma formação para ser boa mãe e esposa, preceitos que acompanhava as ideias de formação feminina quando se criaram Instituições Escolares especifica para educar e moldar as ações diárias das meninas (MAGALHÃES JÚNIOR, 2002, p. 79). Dessa maneira, as rotinas da disciplina escolar deveriam ultrapassar os muros da escola, deveria ser aplicada em todas as manifestações culturais, ou seja, festividades e eventos da escola e também nas ações pedagógicas, nas formas como as meninas se vestiam, se alimentavam, nas diversas práticas que organizavam internamente o estabelecimento. É preciso entender que são normas e práticas que precisam ser entendidas nos aspectos relativos ao contexto de sua produção, à sua finalidade, que varia segundo o tempo, podendo atender às questões de ordens diversas desde a religiosa, a sociopolítica ou de socialização e recai sobre os sujeitos que estarão envolvidos na obediência ou não das normas e no estabelecimento das práticas diárias do fazer da escola (GONÇALVES; FARIA FILHO, 2005). A disciplina interna do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, previa o cumprimento de horário de chegada e saída, zelo com seus objetos, com a higiene de seu corpo, regras de etiquetas. Essas e outras atribuições exigidas aos alunos traziam a cena uma cultura escolar como um conjunto de normas que definia os conhecimentos e as condutas que deveriam ser apreendidas, segundo as finalidades da escola. Para Julia (2001, p. 10-11) “as normas e práticas não podem ser analisadas sem se levar em conta o corpo profissional dos agentes que são chamados a obedecer a essas ordens e, portanto, a utilizardispositivos pedagógicos encarregados de facilitar sua aplicação [...]”. A partir dos estudos de Foucault (2011), é possível perceber que a disciplina se instituíram nas escolas e em outros setores sociais como elementos regulamentadores das atividades e dos comportamentos considerados impróprios. Considerando que o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, idealizado para educar as meninas, o rigor e os cuidados sobre os modos de ser e de fazer era diferenciado dos meninos. A exigência no comportamento, no controle sobre o corpo, a delicadeza e pudor deveriam fazer parte do cotidiano dessas meninas. 145 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Enquanto a pesquisa é interminável, o texto deve ter um fim (CERTEAU, 2002, p. 94) Ao longo da construção desse trabalho, mergulhamos no interior do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, na cidade de Assú no Rio Grande do Norte, no período entre 1927 a 1947. Aos poucos buscou-se, o fio condutor sobre como foi constituindo-se a cultura escolar do Colégio, por meio das pistas, fomos encontrando as peças desse quebra cabeça, que tem seu percurso inicial com a fundação da Congregação das Filhas do Amor Divino em Viena/Áustria e sua expansão para o Brasil, especificamente para cidade de Cidade de Assú, para assumir a direção do Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Foi uma tarefa difícil adentrar no interior do Colégio e percebê-la interligada em dimensões mais complexas que envolve outros aspectos ou seja social, político, educacional, cultural. A compreensão dessas relações só foi possível a partir de um esforço afinco nos arquivos, por isso priorizamos durante a construção da pesquisa a análise de documentos oficias, fontes do acervo do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, jornais da época. Esse entrelaçamento possibilitou um maior entrecruzamento de informações, auxiliando para que nos aproximassem ao máximo do tempo vivido. Ao final da pesquisa, foi possível juntar as peças desse quebra cabeça, e assim fomos recompondo um cenário: A cultura escolar no Colégio Nossa Senhora as Vitórias em Assú/RN entre 1927 a 1947, a fim de responder à questão de tese: como se constituiu a cultura escolar nos seus vinte primeiros anos de existência? Esse desafio representou mergulhar, em aspectos como as normas instituídas pelas legislações educacionais, as normas do Colégio Nossa Senhora das Vitórias e nas formas de fabricar o cotidiano, no seu tempo e na sua singularidade. Dentre os significados dessa instituição escolar, está sua contribuição há quase 92 anos com a formação educacional, social e cultural dos assuenses. Fundada em um período de expansão do Ensino Primário no Rio Grande do Norte, sua idealização também estava atrelada a condução da educação feminina sob os preceitos, normas e valores da Igreja católica. Para tanto, os interesses na implantação do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, estavam além de oferecer educação as meninas, mas constituiu-se peça vital para o trabalho de evangelização e para atender aos anseios da elite, bem como da Igreja Católica local, com propósitos formativos 146 que vislumbravam a formação de futuros cidadãos brasileiros, embasados em uma educação moral e cívica. Partindo desse pressuposto, o Colégio Nossa Senhora das Vitórias organizava suas normas e regras para seguir essa perspectiva formativa. Para ingressar na instituição, no ato da matricula os pais e as alunas recebiam as orientações sobre as normas e regras do seu funcionamento, destacando o horário de início e termino das aulas, o programa de ensino com as disciplinas que incluía: Português, Aritmética, História do Brasil, História Universal, Geografia do Brasil, Geografia Universal, moral e cívica, desenho, somado a esses, o ensino de piano, violino, os bons modos, trabalhos manuais, ensino religioso. No regimento ainda ressalta que a educação destinada as meninas no Colégio tinha por fim ministrar às alunas a educação essencialmente religiosa, para dar significação e valor à vida tornando-a proveitosa e fecunda. Conhecendo que a escola tem como principal escopo, não comunicar apenas educandas, uma determinada soma de conhecimentos, mas formar o espirito, procurando inculcar nas alunas que lhes são confiadas, ensinamentos sadios, que as habilitem a ser mais tarde, dignas servidoras da pátria, educadoras modelares e exemplares mães (REGIMENTO DO COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITÓRIAS, 1928). O Colégio Nossa Senhora das Vitórias que configuramos constituiu sua cultura escolar embasada na transmissão de valores da igreja católica e saberes escolares, conectada as ideias circulantes para educação feminina, bem como as ideias do então governo de Getúlio Vargas de preservação da família, na propagação do amor à pátria. Nesse universo, encontravam-se as condutas a serem apropriadas pelas alunas e as exigências do seu papel: dócil, abnegada, boa mãe e esposa e servidora da pátria Para condução dessa educação almejada, as religiosas que estiveram à frente do Colégio, sejam na condição de diretora ou professora, atendia as expectativas da elite assuense e ao interesse da Igreja católica, seja pela referência do trabalho da Congregação das Filhas do Amor Divino na Europa e pelo desempenho em Caicó na direção da Colégio Santa Teresinha. As professoras da Congregação das Filhas do Amor Divino encontravam-se em condições favoráveis para iniciarem suas atuações educativas em Assú e com isso contribuir com a educação das jovens, a civilidade da população e o progresso da cidade (AMORIM, 1977). Os primeiros registros das atividades do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, através dos relatórios anuais, destacam a relevância das Festas escolares, possibilitando fazer uma leitura de como se produzia a cultura escolar no interior da instituição. As fontes sinalizam a participação em atividades correlatas as que aconteciam nas escolas públicas do Estado Do Rio Grande do Norte, através da orientação do Regimento Interno dos Grupos Escolares (1925). 147 Dentre as atividades estavam: a Festa da Natureza, a Festa 7 de setembro, a festa da bandeira. Além dessas festas escolares, o colégio produzia atividades de cunho artístico como encenação de peças dramáticas voltadas para a formação religiosa ou na formação de condutas morais. O discurso propagado pela instituição emerge entrelaçado com orientações da escola pública, com predominância do valores e normas arraigados na Igreja Católica na formação das meninas, evidenciando que a cultura escolar do Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú, na condição de escola confessional, forjava práticas também em consonância com o ideário educacional da época propagado nas escolas laicas. Como destaca Elias (2001, p. 56), o homem não é “totalmente livre ou independente nas tomadas de decisões, por não haver pessoas isoladas e ações fechadas em si mesmas. Nas relações recíprocas, os sujeitos possuem “um grau de autonomia, uma margem de manobra de seus atos, dentro da qual pode precisar tomar decisões”. No cotidiano escolar, as alunas do Colégio Nossa Senhora das vitórias conviviam dentro da sua rotina com regras para permanência na escola, a exemplo, participação diária das atividades religiosas, em especial para alunas internas, como rezar às 05h30 da manhã, antes do início das atividades escolares, ter boa conduta, respeitar o próximo, ter responsabilidade e zelo no fazer das atividades e cumprimento das regras da escola. As orientações mencionadas estão registradas no Regimento Interno do Colégio e ainda reforçada nos relatórios anuais, destacando que os conhecimentos trabalhados têm por objetivo dar significação e valor absoluto à vida das alunas, formando para além de conhecimentos, mas formar o espírito e torna-la uma aluna com perfil do colégio das irmãs. Dessa maneira, percebemos que as orientações para as alunastambém tinham por finalidade construir uma identidade, um sentimento de pertença a grupo “ alunas do colégio das irmãs”, as diferenciando das alunas de outras instituições escolares na cidade de Assú. Desta feita, a documentação analisada permitiu compreender que a fundação do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, em 1927, representou significativamente para a sociedade assuense e região circunvizinha, por ser um ambiente que compreendia a pertinência de educar a mulher nos preceitos católicos. É pela somatória desses significados da história do Colégio Nossa Senhora das Vitórias que constatamos mesmo que parcialmente como se produziu sua cultura escolar entre 1927 a 1947, com isso percebemos que esse tempo da história do colégio se constitui na interseção entre os preceitos da religião católica e normas disciplinares desenvolvidas pela instituição escolar. O colégio construiu sua identidade como instituição escolar com normas e condutas firmes, sob a direção das “Filhas do Amor Divino”. 148 Ao concluirmos esse estudo, revivemos nossa trajetória no processo de sua construção, os caminhos trilhados ainda enquanto bolsista de iniciação científica, perpassando pela especialização, mestrado, as emoções vividas, as angústias com a complexidade da pesquisa histórica, as alegrias a cada encontro de uma fonte, que nos permitia adentrar na história do Colégio Nossa Senhora das Vitórias. Também foi possível recordar o tempo vivido enquanto na instituição, mesmo ponderando as diferenças do modelo formativo de hoje e de ontem, percebemos que enquanto aluna do colégio partilhamos em nossa formação de um mundo repleto de preceitos católicos, de práticas educativas, de representações, materialidades e apropriações peculiares a formação feminina. Enfim, consideramos que construir esse trabalho sobre o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, em Assú conforme propomos apreender como se constituiu a cultura escolar durante seus vintes primeiros anos de funcionamento, irá possibilitar outros desdobramentos sobre a história das instituições educacionais em Assú, sobre a história das instituições confessionais, se tornando um contributo para história da educação local e norte- rio-grandense. 149 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Jane Soares. A feminização do magistério ao longo do século XX. In: SAVIANI, Dermeval (Org). O legado educacional do século XX no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2006. ______. Mulher e educação: a paixão pelo possível. São Paulo: UNESP, 1998. AMORIM, Francisco. Colégio Nossa Senhora das Vitórias: 50 Anos. Mossoró: ASTECAM, 1977. ______. Assú da minha meninice. Mossoró-RN: ESAN/Fundação Guimarães Duque, 1982a. (Coleção mossoroense). ______. Titulares do Assú (1902-1982): comemorativa do 80º aniversário do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Natal: IHGRN, 1982b. AMATO, Rita de Cássia Fucci. O piano no Brasil: uma perspectiva histórico- sociológica, In: Anais do congresso da ANPPOM, 2007. AMORIM, Pedro. O Município de Assú: notícia até 1928. Natal: Imprensa oficial, 1929. AQUINO, Luciene Chaves de. De Escola Normal de Natal a Instituto Presidente Kennedy (1950-1965): configurações, limites e possibilidades da formação docente. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2009. ARAÚJO, Floriano Bezerra de. E hoje é santo. Revista 1º centenário de ordenação sacerdotal de Monsenhor Joaquim Honório da Silveira (1902-2002). Sebo vermelho, 2002. ARAÚJO, Alexandre Remo Miranda de. A cultura escolar no Colégio Santa Terezinha do Menino Jesus em Caicó de 1925 a 1941. In: Anais II Colóquio Nacional História Cultural e Sensibilidades, 2012. ARAÚJO, Marta Maria de. A produção em história da educação das Regiões Norte e Nordeste. In: GONDRA, José Gonçalves; VIEIRA, Carlos Eduardo (Orgs). Pesquisa em história da educação no Brasil. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. ARIÉS, P. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. 2. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1981. ASSIS, Geisa Melo Silva de. A História do Centro de Educação Integrada Monsenhor Joaquim Honório da Silveira: Surgimento e Contribuições Macau/RN ((1956-1966). Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2009. 150 ALVES, M. A. 1991. A vida religiosa e a formação das elites no atual contexto brasileiro. In: PAIVA, V.Catolicismo, educação e ciência. São Paulo: Loyola AZEVEDO, Fernando de. A educação e seus problemas. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1937. BILAC, Olavo; NETTO, Coelho. Contos Pátrios. 14. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1916. BINDER, Ludovica. Madre Francisca Lechner: fundadora da Congregação Filhas do Amor Divino, adaptada do alemão muther Franzisca Lechner. Fortaleza: Ed. Paulina, 1948. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução de Fernando Tomaz. Lisboa/Portugal: DIFEL, 1989. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 10 de novembro de 1937. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constit ui%C3%A7ao37.htm Acesso em: 10 dez. 2012. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é Educação. 33. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995. BRITO, Paula Sonia de. O Programa escolar e extra-escolar do Colégio Santa Teresinha do Menino Jesus (Caicó-RN, 1925-1928). In: Anais. IV Congresso Brasileiro de História da Educação, 2006, Goiânia – GO. BURKE, P. A escrita da história: 2.ed. Novas Perspectivas. São Paulo: UNESP, 1992. BURITI, Iranilson. Puras, educadas e disciplinadas para o bem casar: A congregação Filhas do Amor Divino e a Educação feminina no Seridó (1925-1962). In: Anais do 18º Encontro de Pesquisa Educacional do Norte e Nordeste. Maceió. UFAL, 2007. CD ROM BOTO, Carlota. Prefácio. In: CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo: Ed Unesp, 1999. BOGDAN, Roberto C.; BIKLEN, Sari Knopp. Investigação Qualitativa em Educação. Tradução de Maria João Alvarez, Sara Bahia dos Santos e Telmo Mourinho Baptista. Portugal: Porto Editora, 1994. BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. 2. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1995. CASCUDO, Luís da Câmara. História da cidade do Natal. 3 ed. Natal/RN:RN Econômico, 1999. ______. Viajando o Sertão. 4. ed. São Paulo: Global, 2009. 151 CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Tradução Ephraim Ferreira Alves. 8. ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2011. ______. A escrita da história. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002b. COSTA, Maria Antonia Teixeira da. Lições de professoras do magistério primário do Rio Grande do Norte sobre o ensinar, o aprender, o ser professora (1939-1969). Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2003. ______. O ensino primário no Rio Grande do Norte: memória, educadores e lições sobre o ensinar (1939-1969). Mossoró: Edições UERN, 2009. COX, Maria Inês Pagliarini. Pedagogia da língua: muito siso e pouco riso. Cadernos Cedes, Campinas/SP, v. 24, n. 63, p. 135-148, maio/ago. 2004. Disponível em: <http://www.cedes.unicamp.br>. Acesso em: 22 mar. 2012. DAMATTA, R. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1981. DEL PRIORE, Mary. (Org.) História das Mulheres no Brasil. 2. ed. São Paulo: EDUSC, 2005. DUMONT, Lígia Maria Moreira; SANTO, Patrícia Espírito. Leitura feminina: motivação, contexto e conhecimento. Revista Periódicos Eletrônico em Psicologia Ciênc. cogn. vol.10 Rio de Janeiro mar. 2007. DURÃES,Sarah Jane Alves .Aprendendo a ser professor(a) no século XIX: algumas influências de Pestalozzi, Froebel e Herbart. Educ. Pesquisa. vol.37 no.3São Paulo Sept./Dec. 2011. ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Tradução de Pedro Sussekind e André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. FARIA FILHO, Luciano Mendes de. Fontes para a história da educação mineira do século XIX: uma introdução. Revista de Educação Pública, Cuiabá/MT, n. 10, v. 6, p. 163-174, 1997. FILHO, Palmério de Amorim. O Educandário Nossa Senhora das Vitórias e o Monsenhor Joaquim Honório da Silveira. Revista 1 ª Centenário da Ordenação Sacerdotal de Monsenhor Joaquim Honório da Silveira (1902-2002). Natal; Sebo Vermelho, 2002. FIRMINO, Jane Cortez. O voto de saias: a gênese do voto feminino no Rio Grande do Norte através do jornal A Republica. Fundação Vingt-un Rosado.Mossoró/RN, 2003. FRAGO, Antônio Viñao; ESCOLANO, Augustin. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa.Tradução de Alfredo Veiga-Neto. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. ______. Historia de la educación e historia cultural: posibilidades, problemas, cuestiones. Revista Brasileira de Educação, São Paulo, n. 0, p. 63-82, set.-dez.1995. 152 FREITAS, Raquel. Aparecida Marra da Madeira; ZANATTA, Beatriz Aparecida. O legado de Pestalozzi, Herbart e Dewey para as práticas escolares. In: A educação e seus sujeitos, 2006, Goiania. IV Congresso Brasileiro de Historia da Educação, Anais... 2006. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 25. ed. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis/RJ: Vozes, 2002. FURTADO, Alessandra Cristina. História e memórias de um espaço escolar feminino: o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora de Ribeirão Preto/SP (1918-1960). Anais do II Congresso Brasileiro de História da Educação. Natal: UFRN, 2002. CD ROM. GAETA, M. A. J. V. Os percursos do ultramontanismo em São Paulo: (1873 -1894). São Paulo: FFLCH - USP, 1991. Tese (Doutorado). GATTI JÚNIOR, D. História e historiografia das instituições escolares: percursos de pesquisa e questões teórico-metodológicas. Revista Educação em Questão, Natal, v. 28, n. 14, p. 3-4, jan./jun. 2007. ________. Reflexões teóricas sobre a história das instituições educacionais. Revista Ícone, Uberlândia, v. 6, n.2, jul./dez. 2000, p. 131-147. GONÇALVES, Irlen Antonio; FARIA FILHO, Luciano Mendes de. Histórias das culturas e das práticas escolares: perspectivas e desafios teórico-metodológicos. In: SOUZA, Rosa Fátima de; VALDEMARIN, Vera Teresa (Orgs). A Cultura escolar em debate: questões conceituais, metodológicas e desafios para a pesquisa. Campinas: Autores Associados, 2005. GOULART, Ilsa do Carmo Vieira. O livro nas memórias de leitura. Revista Educação e Sociedade. v. 32, n. 115, Campinas, abr./jun., 2011. GOULEMOT, J. M. Da leitura como produção de sentidos. In: CHARTIER, Roger. Práticas da leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 2001. HETZEL, Therezia. Caminhando com Madre Francisca. Revista da congregação das filhas do amor divino. Viena, v. 54, jul./ago./set., 2000. HOLANDA, Valker Xavier Teixeira de. A expansão do ensino primário no RN (1910-1920). Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2002. JULIA, Dominique. A Cultura Escolar como Objeto Histórico. Revista Brasileira de História da Educação, Campinas: Autores Associados, n.1, p. 9-43, jan./jun. 2001. LIMA, Nestor dos Santos. Municípios do Rio Grande do Norte: Areia Branca, Arez, Assú e Augusto Severo. Fac-Similar da 1ª edição da Revista do IHG/RN, 1929. Mossoró: Astecam, 1990. - (Coleção Mossoroense). 153 LAGE, Ana Cristina Pereira. A cultura escolar feminina através dos jornais: “o monitor sul- mineiro” e “a campanha” – (1904-1905). Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. ANPUH/SPUNICAMP. Campinas, 2004. Cd-rom LOPES, Eliane Marta Texeira; GALVÃO, Ana Maria de Oliveira. História da Educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. LOURO, Guacira Lopes. Mulheres na sala de aula. In: DEL PRIORE, Mary. (Org.) História das mulheres no Brasil. 2. ed. São Paulo: Contexto-UNESP, 1997. Lyons, M. (2002) Os novos leitores no século XIX: mulheres, crianças, operários. Em: Cavallo, G. e Chartier, R. (Orgs). História da leitura no mundo ocidental. São Paulo: Ática. MAGALHÃES JUNIOR, Antonio Germano. De Eva a Maria: os ideais de Formação católica feminina na Primeira metade do século XX no Brasil. In: CAVALCANTE, Maria Juraci (Org.). História e memória da educação no Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2002. MAGALHÃES, Justino Pereira. História das instituições educacionais em perspectiva. In: GATTI, JÚNIOR, Décio; INÁCIO FILHO, Geraldo. (Orgs.). História da Educação em Perspectiva: ensino, pesquisa, produção e novas investigações. Campinas/SP: Autores Associados; Uberlândia/MG: EDUFU, 2005. p. 91- 103 ______. Contributo para a História das Instituições Educativas - entre a memória e o arquivo. Braga-Portugal. Universidade do Minho. s/d. (mimeo.). 1996. ______. Breve apontamento para a história das instituições educativas. In: SANFELICE, José Luís; SAVIANI, Dermeval; LOMBARDI, José Claudinei (Orgs.). História da Educação: perspectiva para um intercâmbio internacional. Campinas/SP: Autores Associados: HISTEDBR, 1999 ______. Um apontamento metodológico sobre a história das instituições educativas. In: SOUSA Cynthia Pereira de; CATANI, Denice Bárbara (Orgs.). Práticas educativas, culturais, profissão docente. São Paulo: Escrituras, 1998. MANOEL, Ivan Aparecido. Igreja e educação feminina (1859-1919). Uma face do conservadorismo. São Paulo: UNESP, 1969. MEDEIROS, Cristiana Moreira Lins de.; ARAÚJO, Marta Maria de. O educador e intelectual norte-rio-grandense Juvenal Lamartine de Faria (1874-1956). in: II Congresso Brasileiro de História da Educação, 2002, Natal. Anais do II CBHE. Natal: Nac/UFRN, 2002, v. 1. p. 1-10. MEDEIROS, Adriana Moreira Lins de.; RIBEIRO, Verbena Nidiane de Moura. Processos Educativos e Modernidade nos Governos do Interventor Mário Câmara (1933-1937) e do Governador Rafael Fernandes (1935-1937) no Rio Grande do Norte. In: II Congresso 154 Brasileiro de Historia da Educação, 2002, Natal - RN. Historia e Memória da Educação Brasileira. Natal - RN: Nac - Núcleo de Arte e Cultura da UFRN, 2002. v. 1. p.1-6. MORAES, Maria Célia Marcondes de. Educação e Política nos Anos 30: a Presença de Francisco Campos. Revista Brasileira de Estudos pedagógicos. Brasília, v.7 3, n. 17, p.291- 321, maio/ago. 1992 MORAIS, Silvia Helena de Sá Leitão. Valores e normas na educação feminina no Colégio Nossa Senhora das Vitórias em Assú/RN (1960-1961). Mossoró- Universidade do Estado do Rio Grande do Norte- Monografia (Especialização em Educação), 2010. MONTENEGRO, Maria Eugenia. Lembranças e tradições do Açu. Fundação José Augusto, Natal, RN, 1978. MOURA, Laércio Dias. A Educação Católica no Brasil. Edições Loyolas, 2. ed. São Paulo, 2000. NOSELLA, Paolo; BUFFA Esther. As pesquisas sobre Instituições Escolares: Balanço Crítico, 2005. In: HISTEDBR, navegando na história. Disponível em: <www.histebr.fae.unicamp.br>. Acesso em: 30 fev. 2017. NÓVOA, A. Profissão Professor. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000. NUNES, Maria José Rosado. Freiras no Brasil. In: DEL PRIORE, Mary. (Org.) História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto/ UNESP, 1997a. NUNES, Clarice. História da educação brasileira: novas abordagens de velhos objetos. Teoria & Educação. n. 6, 1992. p. 151-182. ______. História da Educação: espaço do desejo. Em Aberto - Revista do INEP/MEC, Brasília, v. IX, n.47, p. 37-45, 1990. OLIVEIRA, Pedro Otávio Araújo Dias de. Bodas de Álamo: 90 anos sob a luz das Vitórias. Açu: Unigráfica, 2017. OLIVEIRA, Vilma Lúcia de. A peregrina do retorno. Recife: Bagaço, 1999. OLIVEIRA, Roberto Dias. Educandário Nossa Senhora das Vitórias: meus sessenta anos Bodas de Diamante. 1. ed Assú/RN: Coleção Assuense, 1987. PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história.Tradução de Viviane Ribeiro. Bauru/SP: EDUSC, 2005. ZANATTA, Beatriz Aparecida. O legado de pestalozzi, herbart e dewey para as práticas pedagógicas escolares. Revista Teoria e Prática da Educação, v. 15, n. 1, p. 105-112, jan./abr. 2012. PESTALOZZI, J.H. Antologia de Pestalozzi. Tradução de Lorenzo Luzuriaga. Buenos Aires: Editorial Losada S.A., 1946. 155 PINHEIRO, Rosanália de Sá Leitão. Sinhazinha Wanderley: o cotidiano de Assú em prosa e verso (1876-1954). 1997. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 1997. QUINTANA, Mário. Caderno H. 2. ed. São Paulo: Globo, 2006. RAMALHO, J. P. Prática Educativa e Sociedade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976. RENK, Valquiria Elita. Festas, rituais cívicos no processo de nacionalização da infância das escolas étnicas no Paraná. In: IX ANPED SUL, 2012, Caxias do Xul- RS. Anais da IX ANPED SUL - Seminário de Pesquisa em Educação da Região Sul. Caxias do Sul: Ed da Universidade de Caxias do Sul, 2012. RIO GRANDE DO NORTE, Atos legislativos e decretos do Governo do Estado do Rio Grande do Norte (1907-1913). n. 10. Natal: Tipografia de A Republica , (1907-1913). ______, Decreto n. 343 de 28 de Setembro de 1927. Concede subvenção ao Collegio “Nossa Senhora das Victorias” e as escolas mantidas pelo Centro Operário, de S. José de Mipibú e Centro Operário Assuense RODRIGUES, Andrea Gabriel F. Educar para o lar, educar para a vida: cultura escolar e modernidade educacional na Escola Doméstica de Natal (1914-1945). Tese (Doutorado em Educação)- Universidade Federal do Rio Grande do Norte/ Natal, 2007a. RODRIGUES, L. M. P. A Instrução feminina em São Paulo. São Paulo: FFCL 'Sedes Sapientiae', 1962. ROCHA, Heloísa Helena Pimenta. Prescrevendo regras de bem viver: Cultura escolar e racionalidade científica. Cadernos Cedes, ano XX, n. 52, nov., 2000. ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da educação do Brasil (1930-1973). 29. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2010. ROSSI, M. P.S; INÁCIO FILHO, G. As Congregações católicas e a disseminação de escolas femininas no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Revista História da Educação Brasileira, 2006. Disponível em: http://www.histedbr.fae.unicamp.br/acer_histedbr/jornada/jornada6 /trabalhos/801/801.pdf. Acesso em: 26 dez. 2012. ROSSO, Graziela Pavei Peruch. Finalmente... Temos uma escola normal! : Saberes e Práticas na Formação de Normalistas na Escola Normal Madre Teresa Michel (1958-1973). Universidade do Extremo Sul Catarinense- UNESC (Dissertação). SANFELICE, José Luís. História das instituições escolares. In: Nascimento, Maria Isabel Moura, et al., (Orgs.). Instituições escolares no Brasil: conceito e reconstrução histórica. Campinas/SP: Autores Associados: HISTEDBR; Sorocaba/SP: UNISO; Ponta Grossa/PR: UEPG, 2007. 156 SALEM, Tânia. Do Centro D. Vital à Universidade Católica. Universidades e instituições científicas no Rio de Janeiro, Brasília, Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq), 1982, pp. 97-134. SAVIANI, Dermeval (Orgs). O legado educacional do século XX no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2006. ______. História das Idéias Pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2007a. ______. Instituições Escolares no Brasil: Conceito e Reconstituição Histórica. Campinas: Autores Associados, 2007. SILVA, Francinaide de Lima. O Grupo Escolar Modelo Augusto Severo (1908-1920): Vinte anos de formação de Professores. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Dissertação (Mestrado em Educação) 2010. SILVA, Antonia Milene da. O Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia, Assú/RN: Modernização do ensino primário (1911-1930). Mossoró: Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Monografia (Especialização em Educação) 2010. SILVA, Maria da Conceição Farias da. O Curso Normal de 1º Ciclo em Assú/RN (1951- 1971). Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Tese. (Doutorado em Educação) 2011. ______. Curso Normal Regional em Assú/Rio Grande do Norte (1950). Revista Educação em Questão, Natal, v. 40, n. 26, p.220-245, jan./jun., 2011. ______. História da educação formal de mulheres em Assú/RN (1920-1955) Projeto de Pesquisa: UERN, 2007. ______. Histórias de Vida e formação: professoras de EJA de Angicos/RN. Projeto de Pesquisa: UERN, 2006. ______. Reconstruindo práticas: significações do trabalho de professoras na década de 1920. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Dissertação. (Mestrado em Educação) 2004. SCHWARTZMAN, Simon., BOMENY, Helena M. B. e COSTA, Vanda Maria R.Tempos de Capanema. São Paulo: Paz e Terra - Fundação Getúlio Vargas, 2000. TANURI, Leonor Maria. História da formação de professores. Revista Brasileira de Educação/ ANPED, v.14, maio/ago., 2000. TEIXEIRA, Anísio S. Educação no Brasil. 2. ed. São Paulo: Editora Nacional: Brasília, INL, 1976 b. 157 TOURTIER-BONAZZI, Chantal. Arquivos: propostas metodológicas. In: FERREIRA Marieta de Morais; AMADO, Janaína (Orgs.). Usos & abusos da História Oral. 8. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006. p. 233-245 VAZ, Aline Choucair. A escola em tempos de festa: poder, cultura e práticas educativas no Estado Novo (1937-1945). 2006. 131f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2006 VASCONCELLOS, Luiz Paulo. Dicionário de Teatro. Porto Alegre: L&PM, 2001. VALDEMARIM, Vera Teresa. História dos Métodos e materiais de ensino: a escola nova e seus modos e usos. São Paulo: Cortez, 2010. VEIGA, Cyntia; FONSECA, Thais Nívea de Lima. História e historiografia da educação o Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. VIEIRA, Cleber Santos. Transfigurações Cívicas: Terra Fluminense, Contos Pátrios e Pátria Brasileira. In: Simpósio Internacional, 2007, São Paulo. Simpósio Internacional, 2007. p. 2069-2080. VIDAL, Diana Gonçalves. Por uma ampliação da noção de documento escolar. In: NASCIMENTO, Maria Isabel Moura: SANDANO, Wilson; LOMBARDI, José Claudinei; SAVIANI, Dermeval (Org.). Instituições Escolares no Brasil: Conceito e Reconstituição Histórica. Campinas: Autores Associados, 2007. ______; CARVALHO, M. P. Mulheres e Magistério Primário: Tensões, Ambigüidades e Deslocamentos. In: VIDAL, D. G.; HILSDORF, M.L.S (org.) Brasil 500 anos: Tópicos em História da Educação. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001. Fonte Encontrada no Arquivo particular da família Sá Leitão JORNAL A Cidade, Assú, n 360, 07 de setembro de 1922. A Cidade, Assú, 09 de março de 1927. Fontes Encontradas no Arquivo do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Norte CRÔNICA I, 1926, COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITORIAS, AÇU, P.1. 158 Fontes Encontradas no Arquivo do Educandário Nossa Senhora das Vitórias Ata de Reunião do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1928. Divisão do Material do Ensino anos de 1927 a 1947. Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1927. Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1928 Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1929. Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1930 Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1933. Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1935 Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1937. Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1940. Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1942. Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1945. Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1946. Relatório anual do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1947 Relatório interno do Colégio Nossa Senhora das Vitórias, ano de 1928 Livro de matricula anode 1927 Livro de matricula ano de 1928 Livro de matricula ano de 1929 Livro de matricula ano de 1930 Livro de matricula ano de 1931 Livro de matricula ano de 1932 Livro para relatório do Colégio (1927-1947). Fontes encontradas no Arquivo da Casa Provincial da Congregação das Filhas do Amor Divino Revista Caminhando com Madre Francisca – Revista da Congregação das Filhas do Amor Divino, Nº 87-p. 4 -5. Livro A Diocese de Mossoró, 1927. Cartas Circulares da Congregação das Filhas do Amor Divino, Madre Francisca Lechner, 27 de novembro de 1868.