Prévia do material em texto
Marlos Alves Bezerra Organizador Experiências acadêmicas e experimentações sociais jovens Ione Rodrigues Diniz Morais – SEDIS Isabel Dillmann Nunes – IMD Ivan Max Freire de Lacerda – EAJ Jefferson Fernandes Alves – SEDIS José Querginaldo Bezerra – CCET Lilian Giotto Zaros – CB Marcos Aurélio Felipe – SEDIS Maria Cristina Leandro de Paiva – CE Maria da Penha Casado Alves – SEDIS Nedja Suely Fernandes – CCET Ricardo Alexsandro de Medeiros Valentim – SEDIS Sulemi Fabiano Campos – CCHLA Wicliffe de Andrade Costa – CCHLA Revisão de Língua portuguesa Emanuelle Perreira de Lima Diniz Revisão de ABNT Edineide da Silva Marques Capa e diagramação Luiza Fonseca de Souza Secretária de Educação a Distância Maria Carmem Freire Diógenes Rêgo Secretária Adjunta de Educação a Distância Ione Rodrigues Diniz Morais Coordenadora de Produção de Materiais Didáticos Maria Carmem Freire Diógenes Rêgo Coordenadora de Revisão Aline Pinho Dias Coordenador Editorial José Correia Torres Neto Gestão do Fluxo de Revisão Edineide Marques Gestão do Fluxo de Editoração Rosilene Paiva Conselho Técnico-Científico – SEDIS Maria Carmem Freire Diógenes Rêgo – SEDIS (Presidente) Aline de Pinho Dias – SEDIS André Morais Gurgel – CCSA Antônio de Pádua dos Santos – CS Célia Maria de Araújo – SEDIS Eugênia Maria Dantas – CCHLA Conselho Editorial Maria da Penha Casado Alves (Presidente) Judithe da Costa Leite Albuquerque (Secretária) Adriana Rosa Carvalho Anna Cecília Queiroz de Medeiros Cândida de Souza Fabrício Germano Alves Francisco Dutra de Macedo Filho Gilberto Corso Grinaura Medeiros de Morais José Flávio Vidal Coutinho Josenildo Soares Bezerra Kamyla Álvares Pinto Leandro Ibiapina Bevilaqua Lucélio Dantas de Aquino Luciene da Silva Santos Marcelo da Silva Amorim Marcelo de Sousa da Silva Márcia Maria de Cruz Castro Marta Maria de Araújo Martin Pablo Cammarota Roberval Edson Pinheiro de Lima Sibele Berenice Castella Pergher Tercia Maria Souza de Moura Marques Tiago de Quadros Maia Carvalho Reitor José Daniel Diniz Melo Vice-Reitor Henio Ferreira de Miranda Diretoria Administrativa da EDUFRN Maria da Penha Casado Alves (Diretora) Helton Rubiano de Macedo (Diretor Adjunto) Bruno Francisco Xavier (Secretário) Catalogação da publicação na fonte Universidade Federal do Rio Grande do Norte Secretaria de Educação a Distância Elaborada por Edineide da Silva Marques CRB-15/488. Bezerra, Marlos Alves. Jovens e redes de vida: experiências acadêmicas e experimentações sociais [recurso eletrônico] / Marlos Alves Bezerra. – 1. ed. – Natal: EDUFRN, 2021. 13500 KB; 1 PDF ISBN nº 978-65-5569-130-6 1. Educação. 2. Educação – Experiência acadêmica. 3. Educação – Experiências sociais. I. Título. CDU 37 B574j Publicação digital financiada com recursos do Fundo de Pós-graduação (PPg-UFRN). A seleção da obra foi realizada pela Comissão de Pós- graduação, com decisão homologada pelo Conselho Editorial da EDUFRN, conforme Edital nº 01/2016-PPG/EDUFRN/SEDIS, para a linha editorial Técnico-científica. eliza Nota Completed definida por eliza eliza Nota Completed definida por eliza Marlos Alves Bezerra Organizador Jovens e redes de vida Experiências acadêmicas e experimentações sociais jovens Natal/RN 2021 AGRADECIMENTOS Registramos nossos mais sinceros agradecimentos à professoras Ilana Paiva e Luana Cabral do OBIJUV, Norma Takeuti, aposentada do PPGCS e à doutoranda do PPGPsi Luciana Bezerra, pelas significativas contribuições na revisão dos capí- tulos deste livro. À Juliana Peres pela tradução do capítulo de Michael Ungar. Aos técnicos-administrativos da PROEX/UFRN, EDUFRN e SEDIS, sem os quais a execução deste projeto seria improvável. Aos bolsistas e aos estagiários do quinto ano de Psicologia que mobilizaram esforços no sentido de intervir e aprender nos espaços comunitários. Aos diversos participantes dos quatro núcleos do OBIJUV e sua interlocução com o Programa PROEXT. Aos jovens participantes do PROEXTRedes de vida, sem os quais a razão de ser deste livro não seria materializada. Sumário Abertura 9 Ilana Lemos de Paiva Marlos Alves Bezerra PARTE 1 19 EXPERIMENTAÇÕES ACADÊMICAS 19 1 PROEXT Redes de Vida 20 Luciana Rodrigues Bezerra Marlos Alves Bezerra Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha Camila Barbosa Campelo Keila Sírio Campanelli Ingrid de Carvalho Lavor Geórgia Sibele Nogueira da Silva 2 Estratégias de Extensão e Formação 63 Ilana Lemos de Paiva Candida de Souza Luana Isabelle Cabral dos Santos 3 Juventude e Redes de Vida 91 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida Sarah Ruth Ferreira Fernandes Ilana Lemos de Paiva 4 Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 120 Luís Antonio Groppo Lívia Silva Macedo PARTE 2 158 VIVÊNCIAS E EXPERIMENTAÇÕES SOCIAIS JOVENS 158 1 Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 159 Michael Ungar 2 Educação Não Formal na Comunidade do Coque 181 Aurino Lima Ferreira Nadja Maria Acioly-Régnier Tatiana Lima Brasil Silas Carlos Rocha da Silva 3 Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 216 Juarez Tarcísio Dayrell Warley Fabiano Santos 248 276 315 349 370 4 Trajetórias Juvenis, Resiliência e Projetos Sociais Marlos Alves Bezerra Fábio Soren Presgrave Juliana de Morais Peres 5 Violência Policial e Jovens na Cidade de Goiânia Divino de Jesus da Silva Rodrigues Sônia Margarida Gomes Souza 6 Festividades e Coletivos Juvenis Vyulheney Fernandes de Araújo Lacava Norma Takeuti 7 Nomadismo e Construção de Espaços Lisos João Batista Figueredo de Oliveira Norma Takeuti PÓSFÁCIO Marlos Alves Bezerra ORGANIZADORES E AUTORES 374 9 Abertura Ilana Lemos de Paiva Marlos Alves Bezerra Solo parole abbiamo per trovarci e d’amore _d filo _dé resiste Alberto Melucci1 Eu sou esperançoso porque não posso deixar de ser esperançoso como ser humano. Esse ser que é finito e que se sabe finito, e por- que é inacabado sabendo que é inacabado, necessariamente é um ser que procura. Não importa que a maioria esteja sem procurar. Estar sem procurar é o resultado, é o imobi- lismo imposto pelas circunstâncias em que não pudemos procurar. Mas não é a natu- reza do ser. É por isso que quando as gran- des massas sofridas estão, como eu chamo em Pedagogia da Oprimido, mais imersas do que emersas na realidade social, política e econômica, estão sendo proibidas de ser. Por isso é que elas ficam apáticas. A esperança não floresce na apatia. Paulo Freire 1 Somente palavras temos para nos encontrar e de amor o fio que resiste [Tradução Lívia de Tommasi, UFABC]. Abertura 10 Esta coletânea é fruto de um percurso, ao mesmo tempo, gratificante e árduo. De um lado, gratificante porque se trata de uma experiência que vem consolidar o OBIJUV – Observatório da população infanto-juvenil, no âmbito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), abrindo maiores oportunidades de intervenção social e formação acadêmica no campo da infância e juventude, localmente. O que não é pouco tendo em vista que o processo formativo é um investimento exigente e intenso, de longo prazo. As reflexões que acompa- nham tais afirmações podem ser vistas na primeira parte do livro, no qual se apresenta e se avalia a experiência do OBIJUV- UFRN em sua dupla vocação de mobilização social e prática formativa coordenada pela professora Ilana Paiva e tendo como vice-coordenador o professor Marlos Bezerra. De outro, árduo porque o projeto do livro tem início no programa PROEXT/MEC, em 2014, o qual foi gestado a partir de algumas experiências em campo dos pesquisadores do OBIJUV, bem como a partir de pesquisas de pós-graduandos no Programa de Pós-graduação em Psicologia-UFRN, com destaque à pesquisa dissertativa de fôlego intitulada Na Fronteira da Exclusão: ações de enfrentamento à violência na juventude, reali- zada por Candida Souza, atualmente em doutoramento na Universidade de Brasília –UnB. Esses fatos foram incitativos levando-nos a concorrer ao edital PROEXT/2012 e, após apro- vação, estimulando-nos a enfrentar os desafios de execução do programa sobre o qual muitos ajustes e readequações foram feitas, tal como o leitor poderá acompanhar em um texto específico dedicado às experiências desenvolvidas a partir do PROEXT Redes de Vida – Relatos de Experiência, sob a autoria de Marlos A. Bezerra e Luciana R. Bezerra. Abertura 11 A estruturação do livro constituiu-se em outro desafio. Não desejávamos uma obra contendo apenas relatos de expe- riências. Pensávamos que seria mais pertinente e estimulante uma dosagem entre o relato do vivido nas ações extensionistas e a reflexão abarcando aspectos teóricos e conceituais no campo da juventude, de modo a fortalecer e ampliar os métodos de futuras práticas. Foi nesse sentido que pesquisadores das Ciências Sociais, da Educação e das Artes foram convidados a compartilhar dessa obra coletiva com suas visões e experiências, no campo da juventude, a partir dos conhecimentos específicos de teoria e prática. Esse compartilhamento independe de os autores estarem todos alinhados em uma dada filiação teórica; ele está mais fundamentado no reconhecimento do traço comum que os aglutina, qual seja, a busca da problematização sempre renovada das questões que envolvem a juventude contemporânea confrontada às intensas transformações tecnológicas, sociais, políticas e culturais na atualidade. Discutir esse campo é considerar as graves e complexas condições, hoje, da população jovem. Por um lado, tem-se na sociedade problemas específicos que a atingem e mais direta- mente ainda às camadas mais pobres da sociedade brasileira: a letalidade juvenil e a violência relacionada à expressão das sexualidades; a ruptura entre educação e trabalho, estrei- tando oportunidades de inserção profissional de camadas expressivas da população jovem; os problemas envolvendo formulação e operacionalização das políticas públicas de juventude; o discurso desagregador em torno da noção de direitos humanos no Brasil. Os números locais e nacionais nos dão uma perspectiva assustadora dessas questões. O mapa da violência vem mostrando, no Brasil e no Rio Grande do Norte em particular, como a juventude tornou-se um segmento que Abertura 12 sofre intensamente com a violência policial, com o tráfico orga- nizado de drogas, com os embates intergrupos, com as práticas socioeducativas e ressocializadoras previstas em lei; enfim, com toda a sorte de experiências segregadoras que revelam a inabilidade do Estado nacional em criar alternativas para os jovens, revelando um cenário que facilmente pode ultrapassar os números internacionais de morticínios causados por guerras civis, atentados terroristas e hecatombes naturais. De outro, podemos perceber, na sociedade, os anseios dos jovens, independentemente de sua condição social, em querer ultrapassar os estreitos limiares da produção de si nos planos da subjetividade, da história e cultura, no país e no mundo, os quais se acham visivelmente afetados na atual crise econômica, por um modelo de política institucionalizada, que assola e devasta inexoravelmente diversas sociedades, desde aquelas que se encontram nos ditos países do “primeiro mundo” até as dos países mais pobres do planeta. Nesse cenário, são diversas as experimentações sociais de jovens que teimam em querer recriar sentidos e práticas políticas e culturais no cotidiano de suas vidas, como um modo de engendrar artes de sentir, de pensar e de viver (inspiramo-nos aqui no trabalho de Michel de Certeau) que possibilitem outros repertórios de enfrentamento de adversidades e de reinvenção da vida. A estruturação da coletânea tem como substrato as preocupações elencadas, que rondam o cotidiano da vida acadêmica – em suas diversas áreas de pesquisa – e expressa a ousadia de se querer problematizá-las quando ainda se sabe que o conjunto dos textos não dará conta dos múltiplos problemas que envolvem o heterogêneo mundo dos jovens contemporâ- neos confrontados com um panorama mundial inquietante. De toda forma, espera-se que ela venha lançar fagulhas no solo Abertura 13 acadêmico de modo a suscitar mais debates e compartilha- mentos de ideias. A obra foi subdividida em duas partes na seguinte lógica de apresentação: uma primeira parte dedicada às experiências acadêmicas internas ao OBIJUV-UFRN, bem como àquelas que se relacionam com o PROEXT/MEC-2014, além de uma interessante reflexão sobre a experiência acadêmica de um pesquisador no campo da juventude; na segunda parte, capítulos que contem- plam as vivências e experimentações sociais de jovens, seja por meio de projetos sociais, de programas acadêmico-científicos, seja em suas vivências cotidianas no confronto com as insti- tuições públicas, seja ainda nos encontros jovens em seu lazer, participando de festas, eventos artístico-culturais ou políticos. A Parte 1, intitulada Experimentações Acadêmicas, traz em seu primeiro capítulo a experiência realizada em pesqui-sa-intervenção no quadro do PROEXT-MEC e tem como título Redes de Vida – Relato de uma experiência, de autoria de Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor e Geórgia Sibele Nogueira da Silva. Dois eixos do Redes de vida são apresentados e, com eles, as experiências que mobilizaram os bolsistas. Do relato, apreende-se que o fazer extensão demanda um investimento intenso, uma disponibilidade que vai além da burocracia e que suscita uma abertura radical para vivenciar o encontro com as diferenças. Já o segundo texto Estratégias de Extensão e Formação – OBIJUV/UFRN – sob a autoria de Ilana L. de Paiva, Candida de Souza e Luana I. Cabral dos Santos – traz a retrospectiva das experiências no interior do OBIJUV-UFRN. Detalha a estrutura de organização em núcleos e as ações executadas, nos últimos Abertura 14 anos, em diferentes frentes de atuação voltadas para a garantia dos direitos de jovens e crianças. Palmilhando as pegadas do insigne educador Paulo Freire, demonstra que é possível fazer valer os fundamentos da metodologia desenvolvida pela Extensão Universitária Popular, pensando globalmente e atuando localmente. No terceiro capítulo Juventude e Redes de Vida: articulação e potencialização da rede de proteção social, Arthemis N. N. de Almeida, Sarah R. F. Fernandes e Ilana L. de Paiva discutem o terceiro eixo do PROEXT – Redes de Vida, focando os enormes desafios da interlocução institucional. Falar em intersetoriali- dade é fiar tramas e pontos que dotem uma rede de sustentação. Embora o relato demonstre as dificuldades de tal tarefa, encerra refletindo o quanto é necessário, nas palavras das autoras, “pensar a dinâmica social e perceber que a prática pode superar a reprodução da naturalização da desigualdade”. O quarto capítulo de autoria de Luís Groppo e Lívia Silva Macedo, Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais, nos oferece uma importante reflexão da parti- cipação das juventudes nas práticas socioeducativas e/ou de caráter não formal na Região Metropolitana de Campinas e no Sul de Minas Gerais. Com auxílio de estudantes de graduação e iniciação científica, os autores descrevem o modo como foi feita a análise da lista de ações arroladas, buscando caracterizar os objetivos destas práticas e seu lugar no campo das práticas socioeducativas. Finalmente, entrevistas e observações de cinco significativas práticas socioeducativas são analisadas. Na Parte 2 do livro – Vivências e Experimentações Sociais Jovens – composta de 7 (sete) capítulos, são expostas as experi- ências sociais dos jovens, em diferentes contextos e instituições ou organizações de distintas localidades, do Brasil, França e Abertura 15 Canadá. O primeiro capítulo, intitulado Fatores e processos asso- ciados à resiliência emcrianças e jovens, é de autoria de Michael Ungar. Reconhecido como um dos grandes nomes na pesquisa sobre resiliência ao lado de Boris Cyrulnik empreende simul- taneamente uma discussão sobre o conceito e os resultados de uma pesquisa de métodos mistos sobre múltiplos fatores que incidem sobre a resiliência, realizada em onze países. Em particular, este é o primeiro capítulo de livro em língua portuguesa a apresentar sua discussão sobre as noções de “navegação” e “negociação”. Aurino Ferreira, Nadja Accioly e Tatiana Brasil, assinam o segundo capítulo, intitulado Educação Não Formal na Comunidade do Coque – Resiliência e Juventudes Periféricas. Eles traçam, em uma ponte Brasil-França, um painel que leva em conta aspectos de ambos os países para discutir temas como educação não formal, processo de resiliência e “risco” e “vulnerabilidade” juvenil. O texto é enriquecido com uma análise de uma prática extensio- nista, que já conta com 30 anos de atividade na comunidade do Coque em Recife-PE. Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural é o título do artigo assinado por Juarez Dayrell e Warley Santos que se dedicaram, no terceiro capítulo, a discutir mais amiúde a experiência juvenil em uma instituição que promove cursos livres e gratuitos de 18 meses voltados para jovens de escolas públicas interessados em multimídia, artes visuais e produção de áudio e vídeo. O texto coloca em relevo as falas dos jovens sobre suas experiências escolares, o lugar da família e a ampliação de possibilidades de atuação frente a essa experiência. O quarto capítulo envolve uma discussão crítica realizada por Marlos A. Bezerra, Fábio S. Presgrave e Juliana de M. Peres, Abertura 16 sob o título Trajetórias Juvenis, Resiliência e Projetos Sociais. Ao discutir o campo no qual os projetos sociais se inscrevem, promovem o debate em torno dos discursos que modelam a lógica de ordenamento desses projetos. Evidenciam os atra- vessamentos em torno dessa iniciativa que ultrapassam a instituição, em si, e o ensino da música, foco da reflexão em nível local. A noção de resiliência conjuga aqui os impasses, em níveis individual e coletivo, vivenciados por jovens em experiên- cias eruditas; mas também, a possibilidade de certa retomada de desenvolvimento em meio às vicissitudes. O quinto capítulo, intitulado Violência Policial e Jovens na Cidade de Goiânia –Goiás, de Divino de J. da S. Rodrigues e Sônia M. G. Sousa, apresenta um recorte de uma pesquisa maior Os sentidos e significados da violência policial para jovens pobres da cidade de Goiânia – Goiás. Os dados que tratam da localidade de Goiânia têm perfeita ressonância na realidade de Natal/RN e, possivelmente, na totalidade das capitais brasileiras. Os seis jovens que ofertam seus relatos expõem a crueza da “mão forte do Estado”, em tempos de uma política neoliberal, que insiste na criminalização da pobreza como forma de instituir a coesão social. Se os jovens foram silenciados e coagidos pelo aparato estatal, aqui eles se tornam sujeitos da fala de modo a oportunizar graves reflexões que devem ser enfrentadas pelo conjunto da sociedade civil. Vyullheney Lacava e Norma Takeuti discutem, no sexto capítulo Festividades e Coletivos Juvenis – Pragmáticas e Experimentações do Novo, a experiência juvenil, em circuitos de festas e musicalidades da cidade de Natal/RN, trazendo a reflexão sobre as produções artísticas e a elaboração de eventos festivos. Debate-se como na noite natalense se abriram espaços para atuação de coletivos organizadores de festas e eventos, nos Abertura 17 quais se realizam produções artístico-culturais presentes na agenda festiva do ambiente nomeado Galpão29, localizado no Bairro da Ribeira – centro histórico de Natal. Via este espaço de produção e circulação artística problematizou-se a criação de contraespaços de atuação, onde os jovens realizam experimen- tações que se desdobram em micropolíticas e em outros modos de vida e de subjetivação. Sequenciando esses temas de pesquisa, posteriormente, João Batista F. de Oliveira e Norma Takeuti empreendem, no capítulo 7 – Nomadismo e Construção de Espaços Lisos, uma discussão sobre a micropolítica jovem, tendo no horizonte a empiria da pesquisa intitulada Corpos em Mutações; o texto resgata três conceitos fundamentais, colocando em diálogo os conceitos de nomadismo; de antropofagia e de avatar, de modo a enfeixar um conjunto de questionamentos endereçados a múltiplas experiências das juventudes contemporâneas, tendo como referência empírica um dado espaço público na cidade do Natal/RN, onde semanalmente se reúnem jovens LGBTT. Somente palavras temos... diz-nos Alberto Melucci. Bastam elas? Não sabemos. Mas nos espaços acadêmicos palavras podem assassinar, ou fazer florescer esperanças. Palavras de amor que permitam encontros e afetações mútuas, embora mais difíceis de se encontrar, elas se acham em meio às brechas do estriado solo acadêmico, lá onde grassa o afeto negativo e lá onde a indiferença tisna nosso olhar de matizes de cinza. Palavras, ainda assim, é o que temos a oferecer aqui. Não, por jactância acadêmica. Mas, por acreditarmos que o mesmo fio de confinamento, em Auschwitz, é o arame que resiste nas almas tenazes contemporâneas. É o fio que perdura não mais delimitando dentro/fora, mas traçando redes de solidariedades, Abertura 18 resistindo através do tempo e do espaço, tensionando-nos para encontrarmos nossas próprias mãos calejadas, mas firmes. Por fim, resta-nos dizer, na esteira do filósofo grego Castoriadis2: embora esteja aqui apresentando o que foi feito, muito há ainda a ser feito. Essa motivação, ao mesmo tempo, inquieta-nos e nos anima. Inquieta-nos, para que não percamos o equilíbrio entre o cumprimento das exigências do mundo acadêmico e a atuação junto aos movimentos sociais na socie- dade civil – ambos tendo um modo de funcionamento distinto, por vezes, conflitantes entre si. Anima-nos, de estarmos em nossas produções acadêmicas, voltando-nos para práticas de compartilhamento de pensamentos e de ideias, e no impulso de “contaminar” novas gerações de pesquisadores a empreenderem seus estudos e apresentarem suas reflexões, contribuindo com a crítica que permita pensar uma sociedade mais igualitária. Munidos, para isso, da esperança, nossa grande arma contra a apatia, conforme nos ensinou o mestre Paulo Freire. 2 Cornelius Castoriadis, As encruzilhadas do labirinto 5 – Feito e a Fazer. Rio de Janeiro: DP&A, 1999. PARTE 1 EXPERIMENTAÇÕES ACADÊMICAS 20 1 PROEXT Redes de Vida Relato de uma experiência Luciana Rodrigues Bezerra Marlos Alves Bezerra Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha Camila Barbosa Campelo Keila Sírio Campanelli Ingrid de Carvalho Lavor Geórgia Sibele Nogueira da Silva Introdução: os jovens como questão Este capítulo é fruto de um trabalho coletivo no interior do Programa PROEXT/2012, executado em 2013, intitulado Redes de Vida – Ações de enfrentamento à letalidade juvenil na Zona Oeste de Natal/RN, que mobilizou um conjunto de discentes e docentes de graduação1. Ao discutir a temática da juventude, iniciamos pela definição do conceito. É comum vermos jovem sendo usado como sinônimo de adolescente. Trata-se de uma categoria completamente diferente com marcadores associados ao período da puberdade e maturação das estruturas sexuais e 1 Foram colaboradores deste capítulo: Sophia de Souza Macêdo Mata; Biana Vasconcellos Lauda, Letícia Santos de Souza e Shirlenne Nascimento dos Santos, esta última assistente social e apoiadora do programa. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 21 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva reprodutivas (LEVISKY, 2013; SENNA; DESSEN, 2015). A defi- nição de adolescência conforma-se àquela estabelecida pelo Estatuto da Criança edo Adolescente (ECA)2, e refere-se à faixa etária delimitada englobando indivíduos de 12 anos a 18 anos incompletos, sendo considerado apenas critérios psicobioló- gicos para tal determinação. Nascimento (2013) em revisão histórica sobre conceito de jovens e adolescentes, esclarece que no Império Romano, para a manutenção da ordem social e sistema patriarcal adolescentia variava entre 15 e 30 anos e Juventos entre 30 e 45, período no qual atingia-se o direito de tornar-se cidadão pleno. Comumente associada à adolescência está ainda a vivência escolar e a preparação para o ingresso na vida profissional. Sousa Júnior e Martins (2019), trabalhando com 109 alunos de ensino fundamental (9º ano), concluíram que os adolescentes não veem a escola como um espaço no qual é possível acalentar sonhos para uma vida melhor. Em revisão de literatura no período de 1995 e 2005, Benetti e colaboradores identificaram em 265 artigos publicados no período os seguintes temas associados a estudos sobre adolescência: drogas/abuso de substâncias, violência/maus-tratos; saúde mental/psico- patologia; depressão; transtornos alimentares; ansiedade; transtorno de conduta/delinquência, sendo que destes uma proporção diminuta discutia como lidar com estratégias preventivas e interventivas (BENETTI et al., 2007). A ideia de juventude, por sua vez, é determinada não por um período etário específico, mas por fatores de cunho 2 Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entr\e doze e dezoito anos de idade. BRASIL. Estatuto da criança e do adolescente. Retirado de: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 3 ago. 2014. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 22 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva biológico, psicológico, cultural e social, consubstanciada como uma categoria que é tributária de contextos históricos e configurações societárias bem definidas (SOUZA; PAIVA, 2012)3. Pesquisadores do tema como Spósito e Carrano (2007) apontam a construção da categoria juventude como “problema social” nos anos 1990, justificando medidas socioeducativas por iniciativas de projetos sociais no assim denominado “terceiro setor” e ainda para a formulação de políticas públicas como o Projovem. Dayrell (2007) discute a categoria a partir da noção de juventude como “sujeito social” atrelando-a a projetos de vida e a margem do que é possível escolher em contextos excludentes. Nesta vertente sociológica, podem ser arrolados também os trabalhos de Takeuti (2002, 2015), Bezerra (2018) que, especifi- camente, discutem a clivagem que se produz sobre o conceito de jovens e que remonta ao passado colonial e escravagista do país. Advogam em torno de um imaginário social enganoso que equivale pobres a perigosos e, portanto, cinde as significações sociais sobre juventude (progresso e esperança versus perigo e violência). Nesse sentido, Ferreira (2018) explica que usa o termo “periféricas” para suscitar uma crítica às tentativas de homogeneizar sejam adolescentes, sejam jovens, insistindo na potência formativa das periferias e abrindo espaços para pensamentos fronteiriços decoloniais (MIGNOLO, 2017) resis- tentes a tentativas de classificação e estigmatização, que se 3 Ocorre que, embora a maioria dos autores voltados para a temática concor- darem com o conceito aqui proposto, o Estatuto da Juventude – instrumento legal instituído em 2013 com o intuito de estabelecer e garantir os direitos dos jovens brasileiros – define faixa etária para a juventude, a qual engloba pessoas com idade entre 15 e 29 anos. Retirado em: http://www.juventude. gov.br/estatuto. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 23 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva presentificam voluntária ou involuntariamente a partir das noções de risco e vulnerabilidades. Groppo (2018), numa discussão que revisa todas essas noções, indica também a juventude como direito que vem emergindo nos movimentos de defesa dos direitos da criança e adolescente, culminando com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e problematiza os mecanismos represen- tativos atuais dos jovens como as conferências nacionais da juventude e o conselho embora reconhecendo sua importância histórica. Outros estudos como de Tirelli (2003 apud SOUSA, 2014) analisam a importância da juventude como catalisador social, tomando como exemplos o movimento passe livre e as jornadas de junho de 2013. Em contrapartida, há um crescente número de autores problematizando a cooptação dos movi- mentos sociais, os jovens inclusos, por meio da linguagem dinâmica das redes sociais e do modo como o gerenciamento de informações, sobretudo, o fenômeno das fake news pode ser cada vez mais conduzido por algoritmos de empresas especializadas4 (KURIBKYO, 2015). Ainda sobre a polissemia do construto juventude, Souza e Paiva (2012) e Augusto (2019) sugerem que o termo “juven- tudes” abrange a multiplicidade de culturas e grupos juvenis que apresentam diferentes interesses e inserções sociais, mas 4 Vem ganhando popularidade o conceito de guerra híbrida, que pode ser assim definida “As Guerras Híbridas são conflitos identitários provocados por agentes externos, que exploram diferenças históricas, étnicas, religiosas, socioeconômicas e geográficas em países de importância geopolítica por meio da transição gradual das revoluções coloridas para a guerra não convencional, a fim de desestabilizar, controlar ou influenciar projetos de infraestrutura multipolares por meio de enfraquecimento do regime, troca do regime ou reorganização do regime”.(KURIBKYO, 2015). Disponível em: https://neccint.wordpress.com/tag/golpe/. Acesso em: 29 set. 2020. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 24 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva têm na construção da identidade o ponto de convergência. Outros como Castro (2019) vão mais longe definindo juventude como um modo de vida, isto é, uma categoria que emerge como experimentação: recriar relações e concepções de mundo com objetivos sociais políticos e culturais. Tommasi (2014) propõe uma abordagem da juventude não como uma categoria analítica, um sujeito ou ator social, mas como um campo de intervenção que tem despertado inte- resse e recebido investimentos públicos e privados. A autora destaca ambivalências das práticas entre o mercado da arte e os projetos sociais, a afirmação da identidade territorial e seus limites políticos, a autogestão e o empreendedorismo, a captura pelo discurso que procura sustentar a ideia de “pacificação” das periferias e a afirmação da alteridade, a projeção pessoal e as possibilidades de transformação. A autora apoia seu argumento nas experiências de jovens engajados no Hip Hop no bairro de Guarapes que também foram analisadas por Bezerra (2012) na primeira década do século XXI e que compartilha parcialmente dos argumentos da autora. No entanto, Bezerra (2015), pondera que algumas experiências que acontecem no âmbito de projetos sociais podem ser uma aposta possível no poder de sujeitos e coletivos em colocarem novas questões, em liberar sua capaci- dade inventiva, e embora de antemão tal exercício não lhes dá garantias, por sua vez, evita o sentimento de paralisia diante do contexto no qual vivem. Tendo em vista o quadro delineado anteriormente, passamos ao foco do presente capítulo. Apresentaremos as ações, percalços e aprendizados principais com a execução do projeto PROEXT Redes de Vida.Para facilitar a apreensão das experiências produzidas, dividimos o capítulo em três sessões: a primeira e a terceira são curtas, pois destinam-se a apresentar PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 25 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva o projeto e traçar algumas conclusões. A segunda é longa: apresenta duas experiências exitosas fruto das experimenta- ções – isto é, criações possíveis em função das contingências de ordem social, material e política por parte dos jovens e insti- tucional, financeira e burocrática por parte dos pesquisadores e extensionistas – realizadas nos bairros de Guarapes e Felipe Camarão na Zona Oeste de Natal/RN. O que foi o PROEXT O programa foi criado na direção de oportunizar fundos para a extensão universitária brasileira, potencializando ações no sentido da intervenção comunitária e do intercâmbio de saberes acadêmicos e não acadêmicos, proporcionando ainda ao estudante universitário uma vivência comunitária como parte integrante de sua formação. De acordo com o próprio MEC: O Programa de Extensão Universitária (PROEXT) tem o objetivo de apoiar as instituições públicas de ensino superior no desenvolvimento de programas ou projetos de extensão que contribuam para a implementação de políticas públicas. Criado em 2003, o PROEXT abrange a extensão universitária com ênfase na inclusão social (MEC, 2016). A defesa do mestrado de Cândida Souza foi o pontapé inicial da proposta formulada para concorrer ao PROEXT. A mestranda vinha acompanhando com muita atenção os dados nacionais e locais sobre violência juvenil, visto que seu estágio PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 26 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva de conclusão de graduação foi na Coordenadoria de Direitos Humanos e Defesa das Minorias. A dissertação apresentava as justificativas necessárias para a formulação da proposta para submissão ao edital. Citaremos apenas um argumento a seguir. De acordo com dados da Coordenadoria de Direitos Humanos e Defesa das Minorias, referentes a homicídios ocorridos entre janeiro e junho de 2010, as vítimas jovens de Natal/RN correspondiam a 55% da população geral. Mais de 10% dessas ocorrências estavam concentradas no bairro de Felipe Camarão, que foi a comunidade escolhida para a realização desse programa, devido à sua história de altos índices de violência na juventude (SOUZA, 2012). O trabalho também apontava nas suas conclusões a necessidade e importância de um mapeamento das iniciativas locais de enfrentamento à violência insistindo na necessidade de articulação entre equipamentos sociais do bairro (escolas, Centro de Referência de Assistência Social, Unidade Básica de Saúde, ONGs etc.). Em 2017, o RN foi o estado brasileiro com maior taxa de assassinato de jovens (entre 15 e 29 anos): 152,3 por 100.000 habitantes (a média nacional foi de 69,9 por cada 100 mil). A variação em 10 anos no período de 2007-2017 foi de 338,1%5. Em dezembro de 2012, o OBIJUV – Observatório da População Infantojuvenil em Contextos de Violência – abriu edital de seleção para bolsistas. Inscreveram-se quase oitenta estudantes de graduação, dos quais foram selecionados oito bolsistas, número máximo de bolsas concedidas para o projeto, dos cursos de psicologia (ligados ao OBIJUV), serviço social, 5 Dados do Atlas da violência (2019), tais informações são para referenciar que a questão vem se agravando ao longo dos anos. Analisar os fatores que incidem sobre esse aumento, extrapola o escopo de nossa discussão. A edição de 2020 aponta 226,3 mortes por grupo de 100.000 habitantes (IPEA, 2019). PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 27 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva artes cênicas, antropologia e engenharia de produção. O perfil do grupo tornou possível várias ações voltadas aos direitos humanos de crianças e adolescentes em situação de vulnera- bilidade social e como resultado de sua atuação e da dissertação de Cândida Souza, o projeto Juventudes e Redes de Vida: Ações de Enfrentamento à Violência Letal Contra Jovens no Bairro de Felipe Camarão foi aprovado em edital PROEXT – MEC/SESU em 2012 e executado durante o ano de 2013. Dos quatro professores inicialmente envolvidos na formulação, na fase de execução, restaram os dois de psicologia ligados ao OBIJUV. O desenho original do projeto referiu-se a uma equipe mais ampla de docentes. Esse fato, obviamente, teve impacto direto nas ações. A metodologia desenvolvida se fundamentou em ações que favoreceram as diversas expressões culturais juvenis e comunitárias como possibilidades de empoderamento social e comunitário na prevenção e enfrentamento à violência, utilizando-se de metodologias participativas e valorizando a relação dialógica, por meio das diversas formas de expressão como a música, a dança, o teatro (do oprimido), recursos da comunicação social comunitária para o desenvolvimento de atividades previstas descritas a seguir. • Realização de oficinas de formação da equipe discente em temáticas pertinentes aos eixos de juventudes, territoriali- dade, violência, letalidade, formação política, metodologias participativas, mediação de conflitos, entre outras que se afiguravam necessárias na qualificação das intervenções propostas. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 28 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva • Mapeamento territorial, especialmente no bairro de Felipe Camarão pela maior incidência de homicídio juvenil, expressões culturais e dos equipamentos sociais, ONGs e organizações governamentais presentes. • Promoção da formação com jovens, egressos de programas sociais, organizações não governamentais e comunidade em geral, para atuar enquanto multiplicadores juvenis nos grupos culturais juvenis existentes na comunidade. • Realização de oficina sobre Direitos Humanos como meio de informar e proporcionar a reflexão sobre contextos de violação de direitos, vulnerabilidades juvenis e formas de prevenção e enfrentamento à violência. • Realização de rodas de diálogos e discussões sobre temáticas que favoreçam a construção da visão crítica e implicação social e comunitária dos jovens. • Realização de eventos culturais no território que possibili- tassem a discussão sobre a realidade juvenil, participação política, social e comunitária com vistas ao empoderamento social. • Realização de oficina de formação com profissionais da saúde, educação, assistência e organizações não governamentais em temáticas que favoreçam a prevenção e o enfrentamento à violência: mediação de conflitos; identidades e inventivi- dades juvenis. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 29 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva Fica clara a impossibilidade de realização total de algo tão complexo, por um grupo exíguo em um espaço de tempo mínimo de um ano (importa considerar que os recursos eram, naquele período, designados para o período de 12 meses). O esforço seguinte foi de priorizar e realocar o quanto fosse possível, ações planejadas em alguns eixos de atuação. Desse modo, concentramos esforço em três eixos6 descritos a seguir. • Eixo 1: Avaliar – Processo de avaliação e diagnóstico: uma reflexão sobre o mapeamentode grupos juvenis. • Eixo 2: Multiplicar – Formação de multiplicadores e a experi- ência sobre o processo. • Eixo 3: Potencializar – Fortalecimento e estruturação da rede intersetorial. As experiências falam da vida: as experimentações e seus desdobramentos Com a reformulação do projeto em eixos, a maior parte das ações seguiu de modo consistente ao longo do ano. Apresentamos duas experiências exitosas. O critério de seleção 6 A professora Ilana Paiva coordenou a reformulação ao lado do professor Marlos Bezerra. Luciana Bezerra assumiu a gestão financeira do projeto, envolvendo-se mais particularmente com as ações da experiência de arte&cultura. A professora Geórgia Sibele foi consultora para questões de sexualidades, saúde e gênero especificamente na atividade da tenda vermelha no Eixo 2. Ingrid Lavor tomou parte na sistematização dos relató- rios de ações de ambas as experiências. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 30 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva deveu-se ao modo como a adesão ao que foi proposto ocorreu. Mais do que aderir, foi percebido que os jovens envolvidos nas ações se implicaram ao ponto de exigirem uma dedicação extra das bolsistas e a necessidade de encaminhamentos no âmbito dos equipamentos sociais na qual a atividade foi realizada ou de se tornarem co-organizadores das atividades na Experiência 2 ao ponto da proposição de convidá-los para um trabalho de facilitação de oficinas em uma cidade do interior. Experiência 1 – A Tenda Vermelha Nos primeiros meses do PROEXT procuramos7 trabalhar com algumas turmas indicadas pela coordenação da escola parceira. Seguimos os critérios indicados pela coordenação pedagógica, a saber: a) turmas com disponibilidade de horário para atividades complementares; b) avaliação de necessidades específicas; c) turmas consideradas “difíceis”. Inicialmente, os temas abordados foram: direitos, violência a partir do contexto atual de conflito instalado na cidade (disputa entre facções, queima de ônibus no bairro), violência intrafamiliar e história e projeto de vida, juventude. Os pressupostos teóricos que orientaram a experiência fundamentam-se na Sociologia Clínica (ARAÚJO; CARRETEIRO, 2001; PINTO; CARRETEIRO; RODRIGUEZ, 2015; TAKEUTI, 2002), Educação Popular (FREIRE, 2014), Pesquisa-ação Transpessoal (FERREIRA et al., 2018) e Pesquisa-ação (BARBIER, 2007). Todas 7 O uso da primeira pessoa do plural indica particularmente as duas exten- sionistas dedicadas a esta ação: Synthia Oliveira e Camila Barbosa. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 31 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva estas perspectivas convergem para uma “epistemologia da recepção”, ou seja, para o entendimento que pesquisa é indisso- ciável de intervir na realidade (TAKEUTI; NIEWIADOMSKI, 2009). Em termos práticos, ocorre um “encontro de especialidades”: os saberes acadêmicos e os saberes do cotidiano, representados nas figuras do pesquisador e dos sujeitos da pesquisa (FERREIRA et al., 2018). As ações com inspiração nos autores citados buscam a partir da problematização da realidade, construída junto com sujeitos e coletivos, protagonistas nesse processo, mobilizar mudanças no nível do significado, das práticas cotidianas e sociais (FERREIRA et al., 2018). A partir das ações relatadas anteriormente nos primeiros meses do PROEXT, somadas às observações das estagiárias no cotidiano da escola, foi possível identificar situações de violação de direitos, permitindo refletir sobre possibilidades de inter- venção. Entre os grupos que compunham o corpo discente da escola, percebemos a emergência de relatos de violações de direito entre as alunas (adolescentes entre 13 e 17 anos), atra- vessados por questões de gênero, que nos despertaram o desejo de construir um espaço de escuta voltado para elas, chamado inicialmente de Tenda Vermelha. A inspiração para o dispositivo foi uma obra intitulada Tenda Vermelha, de autoria de Anita Diamant, transformada em minissérie por um canal norte-americano em 2014. A história é sobre uma figura feminina importante esquecida pelos escritos bíblicos: Dinah, filha de Jacó. Na narrativa ficcional Diamant fez um exercício de restituir a memória da personagem, mencio- nada nos escritos sagrados num recorte sobre uma violência sexual, posta unicamente na posição de vítima e, em seguida, silenciada, ao lhe garantir protagonismo no enredo de seu livro. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 32 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva Ao relatar sua trajetória de vida, a personagem nos comu- nica a estrutura social de uma tribo patriarcal na Antiguidade que destinava às mulheres uma posição de subordinação e silenciamento. Ao participar de vivências nas quais apenas as mulheres da tribo se reuniam em uma tenda, na qual toda a sabedoria ancestral sobre o ser mulher naquele contexto e o sagrado feminino era passada entre elas, constituindo um lugar para socialização, cuidado e aprendizado, Dinah, narradora de sua própria história, se faz presente e delega às mulheres um papel de resistência. Considerando o cenário histórico-cultural no qual vivemos (BENTO; PELÚCIO, 2012), defendemos a importância de espaços de cuidado capazes de acolher as histórias daquelas que são atravessadas pela condição do “ser mulher”. Assim, compreendendo que o trabalho da Tenda Vermelha estava em consonância com os princípios do PROEXT Redes de Vida para o Eixo 2, apresentamos e construímos nas reuniões do Eixo 2, o dispositivo para ser ofertado na escola parceira. Durante as reuniões para implementar o dispositivo com a equipe pedagógica, transparecia a preocupação institucional da escola, pautando as questões de gênero numa lógica mais próxima do controle do corpo e sexualidades, em especial das meninas. Louro (2000) afirma que os discursos pedagógicos miram o corpo como alvo de controle, como algo a ser domado pela mente. Nossa tradição dualista ocidental coloca o corpo nesse lugar (TORRÃO FILHO, 2005), sendo a escola um espaço no qual isso fica mais evidente. Sendo assim, os corpos das meninas entravam no foco de intervenção institucional quando pareciam se distanciar do padrão exigido socialmente pela categoria de gênero, da qual se espera recato e supressão da sexualidade. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 33 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva Em resumo, embora a sensibilidade no discurso de professoras e coordenação, as preocupações da escola enquanto instituição circulava, mais fortemente, em torno da gravidez na adolescência e da vivência da sexualidade pelas alunas. Outras questões que atravessam a vivência da mulher, como violên- cias e opressões, não se tornavam uma questão institucional enquanto horizonte de atenção e cuidados. Era preciso redi- mensionar a demanda que chegava e interrogar o contexto mais amplo. Essa, portanto, foi a diretriz para que desenvolvêssemos uma proposta de intervenção na contramão dessa concepção, como detalharemos mais adiante. Ressalte-se que a maneira de lidar com a questão da vivência da sexualidade e de gênero não é descontextualizada do momento histórico em que vivemos, portanto, não se configura como exclusividade da escola citada. Muito menos a dificuldade de pensar tais demandas não deve ser creditada aos docentes, visto que isso demanda um investimentode tempo considerável para análise e reflexão que a exigência de prazos e resultados torna na prática, muito difícil. Ainda assim, alguns autores discutem a necessidade de refletir sobre uma espécie de “pedagogia dos não sentidos” na qual os professores fingiriam não enxergar a sexualidade cotidiana dos alunos (JOCA, 2019). Consideramos, portanto, a questão de maneira ampla, tomando o contexto escolar, mais especificamente a escola alvo de intervenção, como reflexo e parte da sociedade brasileira contemporânea. Autores como Silva, Souza e Bezerra (2019) insistem em três pilares nesta discussão sobre gênero: 1) o gênero não é da ordem do natural; 2) portanto, não deve ser tomado como um constructo a partir das convenções morais e sociais e 3) não está condicionado à existência de uma deter- minada genitália/órgãos reprodutivos. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 34 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva Do ponto de vista histórico, permanece o fato de a mulher ocupar lugares minoritários de poder em relação ao homem. Preocupadas com o modo como essa realidade se naturaliza, as estagiárias insistiram na elaboração e realização de um dispo- sitivo específico que tivesse o foco voltado para questões de gênero. Era importante evidenciar na ação de extensão o pres- suposto fundamental de que “os papéis masculino e feminino são diferenciados através de uma construção sociocultural, e, portanto não se restringem a binarismos” (RÊGO, 2016, p. 15). De algum modo, o trabalho da tenda deveria problematizar a ocultação de tal construção social, que vem moldando catego- rias como gênero e sexualidade como algo a-histórico e fixo. Nogueira da Silva (2013) alerta para o fato de como essa fixidez, como por exemplo “comportamentos típicos de homem”, é reprodutora de processos de vulnerabilização para adolescentes do sexo masculino no tocante aos seus cuidados com saúde. Mais uma vez, as imagens e significações que se movimentam no cenário social inexoravelmente legitimam certos destinos às experiências e existências cotidianas na contemporaneidade. Tais experiências naturalizadas podem e devem ser refletidas, posto que não são naturais, não estão dadas. Em verdade, são elementos de uma construção social ao longo de nosso processo histórico e cultural (JESUS, 2012; SIMAKAWA, 2015; RODOVALHO, 2017). Portanto, na definição do que é ser homem ou ser mulher o que importa não é a configuração genital ou cromossômica, mas sim a autopercepção e a maneira como a pessoa se expressa socialmente (JESUS, 2012). De acordo com o Mapa da Violência 2015 (WAISELFISZ, 2017), o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking de países em casos de feminicídio. Em 2017, o número dos homicídios femininos no Brasil também cresceu: Ao todo, 4.936 mulheres foram mortas, PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 35 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva o maior número registrado desde 2007. Entre 2007 e 2017, a taxa de homicídio de mulheres aumentou 30,7%. O Rio Grande do Norte apresentou o maior crescimento, com variação de 214,4% em 10 anos (IPEA, 2019). Dessa forma, a legitimação da violência contra a mulher parece consolidar uma institucionalização da prática arraigada à sociedade, que se propaga culturalmente de geração em geração (CAMPOS, 2010). Dados coletados a partir de um levantamento do Ministério dos Direitos Humanos (2018) apontam que a violência sexual é a segunda maior fonte de violações de direitos de crianças e adolescentes. O Estudo ressalta perfil do autor como sendo sexo masculino e pai ou alguém de próximo convívio da criança, sendo o lar o local da maior parte das agressões. A agência Brasil, utilizando dados provenientes do Disque 100 no ano de 2018, atualiza essas estatísticas ao registrar 17.093 denúncias de violência sexual contra menores de idade, sendo que 70% dos casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes são praticados por pais, mães, padrastos ou outros parentes das vítimas. E que em mais de 70% dos registros, a violência foi cometida na casa do abusador ou da vítima8. A partir desses dados, fica perceptível a notável semelhança com os relatos das meninas da Tenda Vermelha. Assim, o dispositivo da Tenda Vermelha foi pensado a partir de uma metodologia que se propunha a promover um espaço de problematização das práticas cotidianas cristalizadas, 8 BRASIL. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Disque Denúncia – Disque 100.Brasilia/DF. Disponível em: https:// agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2019-05/disque-100-re- cebe-50-casos-diarios-de-crimes-sexuais-contra-menores. Acesso em: 7 maio 2020. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 36 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva tornando-se possível refletir criticamente sobre elas, estabe- lecendo-se tensões entre representação e expressão (ROCHA; AGUIAR, 2003), que poderão resultar na produção de novos modos de subjetivação (BEZERRA, 2015). Quanto à operacionalização do dispositivo, as interven- ções aconteceram em grupos, formados espontaneamente pelas alunas da escola após apresentação do projeto durante as oficinas realizadas com as turmas. Os encontros aconteceram nos espaços da escola, em horários combinados com a admi- nistração da escola, professores e estudantes, geralmente em horários “vazios”, nos quais as meninas estavam sem aula. O número de participantes por grupo foi de 5 a 10 adolescentes, com idade entre 12 e 15 anos, todas estudantes do ensino fundamental II. Os grupos foram facilitados por uma ou duas extensionistas/pesquisadoras. A partir de um recurso simbólico (ASSAGIOLI, 1982), um manto de tecido vermelho, por meio do qual as jovens se uniam, segurando suas pontas, foi firmado um acordo de sigilo entre o grupo, a partir da pronúncia de algumas como: “o que é dito para o manto, fica no manto”. O manto também foi utilizado com símbolo de acolhimento para as narrativas das jovens, sendo segurado ou envolvendo cada uma delas no momento de sua fala. Esse recurso foi bem aceito pelas participantes, que o utilizaram de forma bastante espontânea, desenvolvendo uma relação de afeto para com ele ao longo das intervenções. O que relatamos a seguir toma por base as narrativas de 14 meninas participantes, as mais assíduas no projeto. O que mais se repetiu nas narrativas sem dúvida foi o abuso sexual, violência doméstica e problemas na família devido ao abuso de substância. Os casos de abuso sexual predominantemente foram cometidos por homens aparentados PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 37 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva (primo, irmão), ou padrastos, dentro da casa da vítima. Ainda foi relatado assédio por parte do pastor da igreja frequentada por uma das meninas. Ex-namorados também foram apontados como agressores, algumas meninas já tinham vivenciado relações abusivas, apesar da pouca idade, sendo a violência psicológica predominante. A maioria delas nunca procurou nenhuma instituição do Estado para denunciar a violência, por temer represálias do agressor, desestruturação da família ou ainda por ter sido desacreditada pela família. Uma das meninas nunca tinha compartilhado com ninguém o que sofreu a três anos atrás, sendo aquela a primeira vez que relatou a violência sofrida. A única delas que procurou o Conselho Tutelar,acompanhada pela avó, desistiu de prosseguir com a denúncia por ter receio de ser obrigada a deixar a casa de sua família e ser encaminhada para uma instituição de abrigamento. Quanto à violência doméstica, as jovens narram diversos casos de espancamento de mulheres por seus companheiros, nos espaços privados (casa) e nos espaços públicos do bairro. Uma das meninas relatou que sua mãe é frequentemente espancada pelo padrasto, principalmente quando ele está sob o efeito de alguma substância, chegando a ter sofrido um aborto devido aos espancamentos. Além disso, a adolescente conta que o padrasto já chegou a incendiar a casa da família na tentativa de queimar sua mãe. Entre os sentimentos descritos pelas meninas em relação às situações vividas está o medo, a insegurança, a tristeza e a raiva. Muitas relataram ter dificuldade em dormir, acordando facilmente com qualquer presença no quarto, pois na hora do sono que geralmente sofreram o primeiro abuso. Uma delas compartilhou que costuma dormir com uma faca embaixo PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 38 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva do colchão quando precisa dormir na casa da mãe, onde vive o padrasto, para de alguma forma se sentir mais protegida. Ainda relatou que já enfrentou o padrasto, exigindo que ele não tocasse nela, ameaçando “encher a cara dele de bala” caso tentasse qualquer violência. Além disso, as meninas disseram sentir medo de acabar repetindo o ciclo de violência, assim como suas mães e suas avós, como se elas enxergassem como um destino difícil de evitar. De acordo com Porto (2000, p. 187): “os excluídos dos direitos tornam-se alvos, ou atores, mais imediatos da violência”, afirmação para nós verdadeira a partir dos relatos de vida das adolescentes, que oriundas de um contexto de privação de direitos vivenciaram situações de violência nas suas mais diversas formas. Esse contexto de privação explica para as extensionistas a grande adesão das adolescentes ao projeto. E corrobora a necessidade dos profissionais de psicologia em proporcionar espaços de escuta em contextos de privações de direitos (MURTA, 2009). Acreditamos que a formação de grupos reflexivos como dispositivo de pesquisa e intervenção favoreceu o processo de autonomia das jovens participantes, no momento em que puderam pensar modos de viverem suas histórias com mais protagonismo. Durante a intervenção, constatamos que os encontros proporcionaram um estreitamento dos laços entre as estudantes por meio da identificação com as histórias umas das outras. A percepção dos pontos de convergência entre as narrativas das participantes pode ajudar a fortalecer a noção de coletividade. E criar novos fluxos de encaminhamento de questões que deixam de ser lidas como singulares. No caso da Tenda Vermelha, foram envolvidos além da escola, o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do bairro e Centro PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 39 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva de Referência em Direitos Humanos (CRDH) da UFRN. Outro desdobramento no ano seguinte foi a criação de um estágio curricular em Psicologia para dar continuidade ao dispositivo da Tenda Vermelha. A necessidade de um espaço de escuta psicológica em contextos que tradicionalmente não possuem esse tipo de atendimento se revelou na prática. A escola como ponte para construção e desenvolvimento desse projeto se mostrou um ambiente fértil de demandas e promissor para promoção de intervenções em grupos. A criação de dispositivo coletivo baseado em pares (mulheres, gays, negros etc.), promoveu identificação entre seus participantes, fortaleceu vínculos comunitários e promoveu um sentimento de apoio mútuo. Acreditamos, assim, que esse projeto pôde contribuir para a construção desse lugar de fala e fortalecimento dessa esfera da comunidade marcada por tantos tipos de privação de direitos e opressão de mulheres. Experiência 2 – A experiência de multiplicadores por meio da Arte e Cultura Este eixo do projeto teve como objetivo desenvolver ações diretas com os jovens de Felipe Camarão, aproximando-se destes por meio da linguagem da arte, visto que foi uma das potencialidades mapeadas no bairro e que identificada como uma forma de expressão, identidade e resistência (SOUZA; PAIVA, 2012). Além disso, a arte foi assumida aqui enquanto um processo crítico e reflexivo no trabalho com os jovens. Ademais, outro pressuposto para este eixo era o entendimento PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 40 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva que uma vez reconhecendo que os jovens seriam agentes de multiplicação na própria comunidade, eles deveriam ter voz ativa nas ações que fossem propostas dentro do eixo. A importância dos grupos juvenis deve ser tópico abor- dado quando se fala da temática. Dessa maneira, autores como Bezerra e Takeuti (2012) assinalam que, almejando a construção identitária e a vivência de situações transgressivas da cultura vigente, os jovens unem-se aos “seus iguais” e concebem valores distintos dos socialmente dominantes, além de assumirem papéis divergentes daqueles que lhes são atribuídos. Uma das maiores inquietações no trabalho desenvolvido pela equipe9: os efeitos das ações não deveriam restringir-se aos jovens que participavam de projetos culturais no bairro, mas também àqueles que geralmente não conseguem vincular-se a tais iniciativas por diversos motivos. Esta era uma das decisões de se buscar as escolas e não os muitos projetos sociais exis- tentes no bairro. As escolas recebem o maior número de jovens do bairro e estes também poderiam convidar outros que não participassem diretamente do processo de educação formal na fase das oficinas (COUTINHO et al., 2017). Por tudo isso, a juventude ganha importância como uma fase específica da vida e a configuração de espaços de convi- vência e de interação juvenis estabelecem várias subculturas que vêm para preencher as lacunas deixadas pelas instituições e, também, trazem valores e práticas sociais inovadores. As ações planejadas foram alocadas nas seguintes escolas públicas do bairro: Clara Camarão, Djalma Maranhão, Veríssimo de Melo e Maria Queiroz. Portanto, o Eixo 2 apostou na parceria 9 De maneira análoga à Experiência 1, o uso da primeira pessoa do plural refere-se às extensionistas dedicadas à ação: Keila Campanelli e Biana Lauda. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 41 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva e contato com as escolas públicas como meio de aproximação com os jovens do bairro. Três ações foram executadas: sessões de cinema, oficina “Teatro e imagem” e encontros de jovens. A seguir, explicamos sucintamente o objetivo de cada ação e, após, discutimos os resultados obtidos. • Sessões de cinema Entendendo a linguagem cinematográfica como potente ferramenta de problematização e de aproximação de outras realidades, propomos duas sessões de cinema em cada escola, com debate a posteriori. Foram escolhidos filmes e curtas-me- tragens que direta e indiretamente abordavam questões sobre juventude e violência: Cinco vezes favela, Kids, Meninas, entre outros. • Oficina Teatro e Imagem A oficina de Teatro e Imagem é uma oficina dividida em duas etapas, nas quais os participantes poderão manusear uma câmera e fazer registros pessoais sobre o olharindividual e coletivo. O objetivo é valorizar a comunidade no âmbito geral, buscando resgatar as histórias, causos, lendas, imagens, entre outros. Após os registros, a proposta é levar para o corpo, por meio de jogos teatrais, a experiência vivenciada nos vídeos, fotos, desenhos e escritos. É uma possibilidade de valorização do espaço que normalmente não nos damos conta e que passa por nós despercebido. • Encontros de Jovens de Felipe Camarão Estratégia de aproximação da juventude do bairro e de propor outro formato de intervenção, que oportunizasse aspectos típicos do mundo acadêmico (organização de eventos PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 42 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva científicos), quanto do universo juvenil (música, dança etc.). A proposta inicial era produzir dois encontros, sendo um no bairro e outro na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Ambos seriam compostos por momentos de formação política, a partir de mesas redondas, fóruns de discussão, grupos de trabalhos etc.; de formação cultural, por meio de oficinas, apresentações etc.; e de formação da identidade do grupo e compartilhamento de experiências, por meio de atividades lúdicas. Priorizamos um formato dinâmico, a partir de propostas interativas e da condução de atividades pelos próprios jovens que se dispusessem voluntariamente a compor estes espaços. A ideia de realizar os encontros em Felipe Camarão e na UFRN era tanto fortalecer a identidade juvenil no próprio bairro quanto possibilitar uma aproximação com o ambiente universitário (na maioria das vezes inacessível a estes jovens). Tendo em vista a experiência realizada, o grupo de 10 jovens foi convidado para coordenar as oficinas que parti- ciparam em outra escola na cidade de Currais Novos/RN. O objetivo estava em possibilitar aos jovens da comunidade de Felipe Camarão, participantes de atividades do Eixo 2, a vivência em ações externas e valorizando o empoderamento deles em relação aos saberes que possuíam em sua relação com o fazer comunitário e acadêmico, sendo este último favorecido pelo projeto Juventudes e Redes de Vida. As oficinas também funcionaram como um momento formativo para a última atividade oficial do projeto: uma viagem para a cidade de Currais Novos/RN, onde os jovens do bairro de Felipe Camarão (que participaram das oficinas) com a participação de dois bolsistas (André e Sophia) facilitariam PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 43 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva oficinas para estudantes de uma escola estadual na referida cidade. A viagem para Currais Novos aconteceu em dezembro de 2013, com o apoio da Escola Estadual Instituto Vivaldo Pereira, onde os jovens do bairro de Felipe Camarão puderam vivenciar a experiência de coanimação em oficinas. Naquele momento, eles foram os facilitadores, discutindo temáticas, distribuídas em quatro oficinas – Drogas e Violência; Sexualidade; Direitos Juvenis; e Arte-Cultura. Destacamos, a seguir, algumas reflexões oriundas do trabalho nesse eixo. Não nos arvoramos a falar de “resultados”, em um sentido estrito. Acreditamos que a experiência propor- cionou aprendizado a ambos os grupos (dos bolsistas envolvidos e dos jovens participantes). • Uma ação era consequência da outra Foi realizada a primeira sessão de cinema nas escolas em horário de aula, onde acontecia também um debate pós-filme. Logo em seguida, era formulado o convite para a participação na oficina que se daria no final de semana seguinte (horário extra-aula). Na semana seguinte, a equipe retornaria para a escola (em horário de aula) para a segunda sessão de cinema na mesma escola. Seria a oportunidade de tentar estabelecer e criar um vínculo; mas também de arriscar a proposição de um coletivo para elaborar um evento. Tal ciclo aconteceu em cada uma das três escolas selecionadas para o trabalho. Finalmente, a proposta da comissão do evento era organizar um seminário que deveria discutir as necessidades do bairro, mas não somente! Aquele também era o momento de mostrar a potência do universo cultural que o bairro trazia. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 44 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva • Cinema e “cansaço” Parte da abertura e interesse que tivemos com as escolas, deu-se porque a proposta carregava, em si, objetivos que eram igualmente almejados pelas escolas. Buscávamos por meio de propostas de cunho diferenciado (predominantemente lúdico) alcançar uma participação efetiva dos jovens. Temos a impressão que essa era também a intenção do corpo docente nas suas proposições cotidianas. Quanto aos alunos, de um modo geral, percebemos dificuldades de pensar e refletir os caminhos de aprendizados que foram propostos. Espécie de travamento, um “cansaço” como alguns referiam, que constituía barreira que dificultava para a maioria dos alunos discutir, participar e reagir ao que estava sendo proposto. Possivelmente, o excesso de trabalho contribuiu para isso, pois boa parte dos jovens que estudava no turno noturno trabalhava durante o dia. Ouvimos relatos desconcertantes. Um deles ao sair da escola, começava em torno de 22h30min, jornada como vigia noturno de uma loja de carros. Ele passava a manhã dormindo. Durante a tarde fazia “bico” de entregador e chegava cansado para assistir aula. Ficar acordado per si era um desafio. • O recurso do uso de “imagens corporais” para estimular o diálogo A conversa era imageticamente/corporalmente incitada, mas de forma muito sutil, pois para os alunos não era explicitada a estratégia adotada. Era possível perceber que essa condução de falar pouco e usar recursos por meio da expressão corporal era importante para o trabalho. Assim, sem desconsiderar as dificuldades, encontramos nas artes cênicas, a chance de alcançar de alcançar o público juvenil através das associações imagéticas, que após alguns encontros fomos aperfeiçoando, de uma escola para outra. Assim, no lugar dos discursos longos, a PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 45 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva fala era reduzida e as ideias do debate, com o grupo, resumidas através do corpo. Exemplificando: se o filme suscitava comentá- rios sobre o peso, sobre um fardo que tínhamos que carregar na vida, fazia-se uma imagem-resumo colocando livros na cabeça e expressando a sensação de um peso que estava sendo carregado. Assim o debate rendia. • As oficinas e suas demandas As oficinas desenvolvidas eram orientadas também pelas práticas teatrais. Juntamente com a relação horizontalizada que buscávamos estabelecer, as oficinas foram o que de fato estabeleceu e proporcionou um laço afetivo com os jovens. A participação nas oficinas era opcional, isto é não era cobrada a presença ou continuidade. Os participantes da oficina eram, em sua maioria, os jovens que acompanharam todo o percurso e desenvolvimento do projeto. Das oficinas de teatro realizadas, surgiram questões e sugestões dos próprios jovens, sobre o que poderia ser levado para o evento (encontro de jovens) que logo em seguida seria organizado. Como proposta sugerida, a partir de uma vivência na oficina, houve um desejo por parte dos jovens de investigar com maior profundidade o Boi de Reis da comunidade de Felipe Camarão e também colocar temas nas mesas de debate, da programação do evento,que discutissem e problematizassem a realidade das escolas. • Encontro de jovens e o cuidado em mesclar e aproximar O evento teve bons desdobramentos, contou com 135 participantes, 97 homens e 38 mulheres. O portão da escola teve que ser fechado, por não comportar a quantidade de pessoas que queriam participar. A escola estava tomada por alunos das três escolas, e a rivalidade neste momento deixou de ser PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 46 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva uma rivalidade e passou a ser uma possibilidade de compar- tilhamento. A própria comissão organizadora era formada por pessoas de escolas distintas, e como já havia uma relação construída anteriormente pelas reuniões de planejamento, essas já estabeleciam uma relação de proximidade, quebrando a barreira territorial que em um primeiro momento existia e facilitando a proximidade entre os demais participantes. • O incentivo da autogestão Na busca de alternativas para superação de conflitos e violência evidenciados na comunidade e estendendo-se para o contexto escolar, buscávamos maneiras de amenizar essa situ- ação para além das formas de punições e castigos evidenciadas dentro da escola. Acreditando nisso, achamos importante deixar as mesas e a função de ministrar oficinas para os jovens. Propomos assim ajudá-los sempre que precisassem, apoiando, ao mesmo tempo incentivando suas iniciativas. • O reconhecimento sobre quem era o especialista Alguns da comissão organizadora do evento compu- seram as mesas de discussões e ministraram oficinas, como foi o caso das oficinas de capoeira e axé music. E para o restante, foram feitos convites aos que tinham grupos na comunidade. Importante ressaltar que a única exigência era que os minis- trantes de oficina fossem jovens e não adultos. Exceto na oficina de teatro o ministrante da oficina não era da comunidade. • Cuidados em abordar diretores e provocação suave ao acolher as propostas Foram feitos convites para os diretores de todas as escolas envolvidas. Procurou-se estabelecer um clima construtivo, isto PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 47 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva é, as críticas não deveriam ser pessoais, mas dirigidas a ações/ atividades/iniciativas. Apenas um dos diretores de uma das escolas estava presente no auditório, escutou e mostrou-se aberto e disposto a refletir sobre as questões que os jovens apre- sentavam. O cuidado com uma atitude propositiva foi constante, porque não era desejável apenas criticar por criticar. Das mesas de discussão foi constituída a formação de uma comissão de alunos das cinco escolas presentes (as três escolas vinculadas ao projeto, como também a Escola Estadual Professora Maria Queiroz e a Fundação Bradesco) para pensar, problematizar e refletir as questões existentes dentro dos espaços escolares. Uma espécie de representação juvenil que unia pontos comuns das cinco escolas existentes no bairro, como também tinha como intuito buscar as singularidades de cada espaço para assim expandir o debate dos contextos escolares e viabilizar possíveis desdobramentos. • É necessário muito tempo de semeadura para colher os frutos Na tentativa de realizar um trabalho que levasse em consideração a alteridade, foram necessárias muitas horas de dedicação. Reuniões periódicas, contatos sistemáticos. Ir a campo muito mais do que o estipulado na carga horária dos bolsistas. Realizar oficinas no sábado para dar favorecer a participação dos jovens. Enfrentar o estigma da violência e ir ao bairro no turno noturno embora o protocolo de segurança desaconselhasse ou os docentes envolvidos não tivesse agenda para acompanhar algumas das ações realizadas. • Lidar com a burocracia Também os entraves de ordem burocrática, envolvendo o gerenciamento financeiro dos recursos, o tempo de liberação, PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 48 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva a destinação das verbas que poderia ser para determinados fins, mas não para outros (no caso específico, comprar lanche para o evento). • Fazer junto a grande lição! A frase anterior, não é um exercício de retórica. Resume o que vimos discutido até aqui. Corrobora o que outros traba- lhos (TAKEUTI; BEZERRA, 2009) afirmam em torno de uma contratualidade que deve reconhecer e explicitar demandas tanto do lado de quem intervém quanto do público-alvo da intervenção para que o sentido da palavra “implicação” não se perca em ações burocráticas e mecânicas. Confirma também o que Souza (2018) descobriu em seu trabalho ao compreender que se desvela, a cada encontro, um tempo/espaço de (re) conhecimento de si, organizado na forma de um dispositivo colaborativo. Concorda com Santos e Machado (2018, p. 407) quando ao discutir sua experiência afirmam que “participação está vinculada ao pertencimento, ao desenvolvimento de responsabilidades e aprendizado de novas habilidades, apesar de grandes desafios e demandas”. Reflexões finais: o processo formativo Freire, Medeiros e Bezerra (2013) confirmam em suas incursões na Zona Oeste de Natal que as intervenções nos espaços periféricos não repercutem homogeneamente na tota- lidade dos jovens participantes, nem geram mobilização para causas comunitárias em geral tampouco catalizam recursos públicos da esfera governamental. Considerando essa linha de PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 49 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva argumentação, é possível formular a seguinte pergunta: se não podemos mensurar os efeitos políticos ou as inflexões sobre as instituições locais dos exemplos que apresentamos neste capítulo, então o que elegemos como objeto de reflexão a partir dessas duas experimentações? Acreditamos que é possível avaliar os efeitos sobre o processo formativo, tanto de extensionistas quanto dos jovens. Com relação aos jovens, compreendemos a força de suas inventivi- dades. Para tal, é preciso retraçar um itinerário que lhes instigue no percurso, sentidos para sua jornada. Como alertam Takeuti e Bezerra (2009), é preciso atentar para narrativas que expressem o protagonismo de seus participantes; que permitam de algum modo o afugentamento do sentimento de impotência que lhes rondam. Entre a tutela e a permissividade, encontra-se uma via possível, tensional e provisória a cada vez: das inventividades dispersas em experiências que são apropriadas simultaneamente na composição e ruptura com o socialmente instituído. No que se refere aos extensionistas (e porque não dizer, dos professores envolvidos), o processo formativo tomou assim um tempo próprio. Uma decantação alquímica que necessita observação dos elementos para que os mesmos venham a reagirem e se transformarem em presença uns dos outros. Aproximar os alunos universitários de uma realidade comuni- tária é uma experiência transformadora de mão dupla. O desafio do trabalho na extensão universitária demanda a construção de um itinerário teórico que dificilmente poderia ser apreendido em um espaço de um ano por maior que tenha sido o esforço de seus coordenadores. Em contrapartida, menos ainda é possível falar em conhecimento da realidade, porque o tempo se faz ainda mais exíguo em termos de apreensão do dinamismo social dos atores PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 50 Luciana Rodrigues Bezerra,Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva nos espaços em que vivem. Em qualquer momento da traje- tória acadêmica, pensar e agir, teorizar e intervir são desafios incontornáveis. Percebemos que a entrega de corpo e alma dos estagiários do Eixo 2 suscitou esse aprendizado. As palavras de Keila Campanelli, na época bolsista do programa e aluna de mobilidade acadêmica da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), são seminais a esse respeito: Durante todo o trabalho foram feitas inúmeras avalia- ções. Isso gerou uma possibilidade de mudança durante a execução do projeto. Essas constantes reflexões das práticas e das propostas desenvolvidas, foram fundamentais para que buscássemos um diálogo com os jovens e com a realidade do espaço que estávamos inseridas. Talvez a velocidade com que as práticas de estágio são realizadas dificultam e até mesmo impossi- bilitam a reflexão no tempo ideal. Mas a reflexão é tão importante quanto a proposição, porque o aprendizado só se dá se você reflete sobre ele. E na maioria dos casos essa reflexão vem muito tempo depois, o que impede de reverter a situação naquele tempo/contexto e tentar de outra maneira. Ser atento a isto se tornou para mim uma virtude (CAMPANELLI, 2014, p. 98). Autores como Pineau (2006), Barbier (2007) e Passeggi (2016) são contundentes ao apontar que a formação, seja do docente, seja do pesquisador, ocorre no registro do fazer contínuo e da inflexão que esse fazer tem sobre o próprio processo formativo enquanto processualidade que nunca encerra. Há complementaridade e o efeito cumulativo das aprendizagens: formais (validadas por um diploma dentro de um sistema acadêmico); não formais (que desenvolvem na perspectiva de um fazer profissional) e informais (realizadas PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 51 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva na cotidianidade, muitas vezes sem intencionalidade, de modo fortuito e até inconsciente). O diálogo referido aqui nas palavras da estagiária podem bem aludir a historiciadade conjugada ao esforço do compreender(-se). Torna-se possível por um esforço envidado a cada vez, experimentar e refletir, empreender um exercício de compreensão sobre o que se aprende, o que é feito e que se está ainda por fazer. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 52 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, M. et al. Juventude, violência e vulnerabilidade social na América Latina: desafios para políticas públicas. Brasília: UNESCO, 2002. ADORNO, S. Exclusão socioeconômica e violência urbana. Sociologias, Porto Alegre, v. 4, n. 8, p. 84-135, 2002. ARAÚJO, J. N. G.; CARRETEIRO, T. C. (org.). Cenários sociais e abordagem clínica. São Paulo: Editora Escuta; Belo Horizonte: Fumec, 2001. ASSAGIOLI, R. Psicossíntese: Manual de princípios e técnicas. São Paulo: Cultrix, 1982. AUGUSTO, M. H. Teorias da juventude: para que servem e para onde nos conduzem? In: COLAÇO, V. F. R., GERMANO, I. M. P.; MIRANDA, L. L. (org.). Juventudes em movimento: experiências, redes e afetos. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2019. p. 89-110. BARBIER, Renée. A pesquisa-ação. Tradução de Lucie Didio. Brasília: Liber Livro Editora, 2007. BENETTI, S. P. C. et al. Adolescência e saúde mental: revisão de artigos brasileiros publicados em periódicos nacionais. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 6, p. 1273-1282, jun. 2007. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 53 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva BENTO, B.; PELÚCIO, L. Despatologização do gênero: a politização das identidades abjetas. Revista Estudos Feministas, v. 20, n. 2, p. 569-581, 2012. Disponível em: http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104- 026X2012000200017. Acesso em: 20 abr. 2017. BEZERRA, M. A. Social Resistance and Arts based movements in Postcolonial Brazil. Halifax, CA: Lectures at Dalhousie University, 2018. BEZERRA, M. A. Subjetividades juvenis e artes de fazer. In: CABRAL, Sandra; CYRULNIK, Boris (org.). Resiliência: Como tirar leite de pedra. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2015. p. 289-312. BEZERRA, M. A.; TAKEUTI, N. M. Os jovens do sol poente: relatos de jovens e suas experiências nas periferias de Natal-RN. In: EGGERT, Edla; FISCHER, Beatriz Dautd (org.). Coleção Pesquisa (auto)biográfica: Temas Transversais. Gênero, geração, infância, juventude e família. Natal: EDUFRN, 2012. v. 2. p. 171-196. BOURDIEU, P. A dominação masculina. 7. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. BRASIL. Ministério da Educação. Programa de Extensão Universitária (PROEXT). Juventudes e redes de vida: ações de enfrentamento à violência letal contra jovens no bairro de Felipe Camarão. Natal: UFRN, 2013. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 54 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva BRASIL. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Disque Denúncia – Disque 100. Brasilia, DF. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/ noticia/2019-05/disque-100-recebe-50-casos-diarios-de- crimes-sexuais-contra-menores. Acesso em: 7 maio 2020. CARDIA, N.; ADORNO, S.; POLETO, F. Homicídios e violação de Direitos Humanos em São Paulo. Estudos Avançados, v. 17, n. 47, p. 43-73, 2003. CASTRO, L. R. Onde estão os (sujeitos) jovens nas teorias da juventude? In: COLAÇO, V. F. R.; GERMANO, I. M. P.; MIRANDA, L. L. (org.). Juventudes em movimento: experiências, redes e afetos. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2019. p. 69-88. CAMPANELLI, Keila S. Caminhar para o mundo, caminhando para si: reflexões sobre um processo de formação docente em Artes Cênicas. 2014. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Artes Cênicas) – Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, 2014. CAMPOS, A. H. Violência institucional de gênero e a novel ordem normativa: inovações processuais na Lei Maria da Penha. In: LIMA, F.; SANTOS, C. (org.). Violência doméstica: vulnerabilidades e desafios na intervenção criminal e multidisciplinar. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010. p. 37-49. CHAUÍ, M. Uma ideologia perversa: explicações para a violência impedem que a violência real se torne compreensível. Folha de São Paulo, p. 3-5, 1999. Caderno Mais. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 55 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva COSTA, I. F. Polícia e Sociedade: gestão de segurança pública, violência e controle social. Salvador: EDUFBA, 2005. COUTINHO, A. J. et al. Redes de vida tecendo-se dialogicamente com jovens no bairro de Felipe Camarão. In: ALERTO, M. F. P.; PAIVA, I. L.; CASTRO, B. M. Intervenções com crianças, adolescentes e jovens em contextos de vulnerabilidade e desenvolvimento. Natal: Caule de Papiro, 2017. p. 117-138. CUNHA, B. M. Violência contra a mulher, direito e patriarcado: perspectivas de combate à violência de gênero. In: JORNADA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DE DIREITO DA UFPR. 16., 2014, Curitiba. Anais [...]. Curitiba: Grupo PET/Direito, 2014. p. 149-170. Disponível em: http://www.direito.ufpr.br/portal/ wp-content/uploads/2014/12/Artigo-B%C3%A1rbara-Cunha- classificado-em-7%C2%BA-lugar.pdf.Acesso em: 23 mar. 2016. DAYRELL, J. O jovem como sujeito social. In: FÁVERO, O. (org.). Juventude e contemporaneidade. Brasília, DF: Unesco, 2007. p. 155-176. FERREIRA, Aurino Lima et al. As adolescências periféricas: uma pesquisa-ação integral/transpessoal. 1. ed. São Paulo: APRIS, 2018. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 36. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Paz e Terra, 2014. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 56 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva FREIRE, A. L. L. L. A.; MEDEIROS, F. C.; BEZERRA, M. A. Juventudes, inventividades e intersetorialidade: uma análise sobre os jovens do Guarapes, a intersetorialidade das políticas públicas e a produção de saúde. In: PAIVA, I. L. et al. (org.). Infância e juventude em contextos de vulnerabilidades e resistências. São Paulo: Zaragodoni, 2013. p. 197-220. GROPPO, L.A. Juventudes e políticas públicas: comentários sobre as concepções sociológicas de juventude. Desidades, Rio de Janeiro, v. 14, jan./mar. 2017. HOFMEISTER, Wilhelm (org.). A Violência no Cotidiano. São Paulo: Fundação Konrad Adenauer, 2001. IMURA, C. P.; SILVEIRA, A. M. Como explicar a violência. In: MELO, E. M. (org.). Podemos prevenir a violência. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2010. p. 25-50. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA – IPEA. Atlas da Violência 2020. Disponível em: https:// www.ipea.gov.br/atlasviolencia/ download/24/ atlas-da-violencia-2020. Acesso em: 30 set. 2020. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA – IPEA. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Atlas da violência 2019. Brasília; Rio de Janeiro; São Paulo: IPEA, 2019. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 57 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA – IPEA. Atlas da Violência 2017 mapeia os homicídios no Brasil. Brasília, DF, 5. jun. 2017. Disponível em: http:// www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_ content&view=article&id=30253. Acesso em: 13 maio 2019. JESUS, J. G. Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos. Brasília: [s.n.], 2012. 42p. JOCA, A. Juventudes em Espaços/Tempos de Educação Sexual: uma trilogia epistemológica sobre a pedagogia dos (não) sentidos. In: COLAÇO, V. F. R.; GERMANO, I. M. P.; MIRANDA, L. L. (org.). Juventudes em movimento: experiências, redes e afetos. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2019. p. 112-131. KORYBKO, A. Guerras Híbridas: Das Revoluções Coloridas aos Golpes. [S.l.]: Editora Expressão Popular, 2015. KRUG, E. G. et al. Relatório Mundial sobre violência e saúde. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2002. LEVISKY, D. L. Adolescências: Reflexões psicanalíticas. 4. ed. São Paulo: Zagodoni, 2013. LOURO, Guacira Lopes. Corpo, escola e identidade. Revista Educação & Realidade, v. 25, n. 2, p. 59-76, jul./dez. 2000. MAIS de 70% da violência sexual contra crianças ocorre dentro de casa. Agência Brasil. 2019. Disponível em: http://agenciabrasil. ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2019-05/mais-de-70-da- violencia-sexual-contra-criancas. Acesso em: 1 nov. 2019. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 58 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva MELO, E. M. Podemos prevenir a violência? In: MELO, E. M. (org.). Podemos prevenir a violência. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2010. p. 25-50. MESQUITA NETO, P. M. Crime, Violência e incerteza política no Brasil. In: HOFMEISTER, Wilhelm (org.). A Violência no Cotidiano. São Paulo: Fundação Konrad Adenauer, 2001. p. 9-42. MIGNOLO, W. D. Colonialidade. O lado mais escuro da modernidade. RBCS, v. 32, n. 94, jun. 2017. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO – MEC. Programa de Extensão Universitária (PROEXT). Disponível em: Portal.mec.gov.br/index. Acesso em: 12 jul. 2016. MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS. Secretaria Nacional de Proteção dos Direitos da Criança e Adolescente. Violência contra Crianças e Adolescentes: Análise de Cenários e Propostas de Políticas Públicas. Brasília: Ministério dos Direitos Humanos, 2018. MURTA, S. G. Clínica ampliada e as políticas de assistência social: uma experiência com adolescentes no programa de atenção integral à família. Revista Eletrônica de Psicologia e Políticas Públicas, v. 1, n. 1, 2009. NASCIMENTO, P. D. Marionetes, mamulengos, fantoches, papangus: compreendendo a construção do lugar social de tumulto para as juventudes. In: PAIVA, I. L. et al. Infância e juventude em contextos de vulnerabilidades e resistências. São Paulo: Zagodoni, 2013. p. 31-55. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 59 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva NOGUEIRA DA SILVA, G. S. A construção das vulnera(ha)bilidades masculinas: uma questão de saúde e de violência. In: PAIVA, I. L. et al. Infância e juventude em contextos de vulnerabilidades e resistências. São Paulo: Zagodoni, 2013. p. 153-176. PASSEGGI, Maria da Conceição. Pesquisa (auto) biográfica: por uma hermenêutica descolonizadora. Revista Coisas do Gênero, v. 1, p. 1-15, 2016. PASSEGGI, M. C. et al. (org.). Pesquisa auto(biográfica) em educação: infâncias e adolescências em espaços escolares e não-escolares. Natal, RN: EDUFRN, 2018. PEDRAZZINI, Y. A violência das cidades. Petrópolis: Vozes, 2006. PERALVA, A. Violência e democracia: o paradoxo brasileiro. São Paulo: Paz e Terra, 2000. PINEAU, G. As histórias de vida em formação: gênese de uma corrente de pesquisa-ação-formação existencial. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 32, n. 2, p. 329-343, maio/ago. 2006. PINHEIRO, P. S.; ALMEIDA, G. S. Violência Urbana. São Paulo: Publifolha, 2006. PINTO, B. O. S.; CARRETEIRO, T. C. O. C.; RODRIGUEZ, L. S. Trabalhando no “entre”: a história de vida laboral como método de pesquisa em Psicossociologia. Farol –Revista de Estudos Organizacionais e Sociedade, Belo Horizonte, v. 2, n. 5, p. 976-1022, dez. 2015. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 60 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva PORTO, Maria Stela Grossi. A violência entre a inclusão e a exclusão social. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, São Paulo, v. 12, n. 1, p. 187-200, maio 2000. RÊGO, S. F. M. (Re)contando histórias: relatos autobiográficos de mulheres, vítimas de violência doméstica, abrigadas em Natal/RN. 2016. 140f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2016. ROCHA, M. L.; AGUIAR, K. Pesquisa-intervenção e a produção de novas análises. Psicologia Ciência e Profissão, Brasília, n.4, ano 23, p.64-73, 2003. RODOVALHO, Amara Moira. “CIS By Trans”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 25, n. 1, p. 365-373, 2017. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1806- 9584.2017v25n1p365. Acesso em: 29 abr. 2017. SANTOS, I. R.; MACHADO, A. S. O sentido de participar em comunidade: desenvolvimento social da juventude. In: PASSEGGI, M. C. et al. (org.). Pesquisa auto(biográfica) em educação: infâncias e adolescências em espaços escolares e não-escolares. Natal, RN: EDUFRN, 2018. p. 407-424. SENNA, S. R. C. M.; DESSEN, M. A. Reflexões sobre a saúde do adolescente brasileiro. Psic., Saúde & Doenças, Lisboa, v. 16, n. 2, set. 2015. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 61 Luciana RodriguesBezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva SILVA, F. C.; SOUZA, E. M. F.; BEZERRA, M. A. (Trans) tornando a norma cisgênera e seus derivados. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 27, n. 2, 2019. SIMAKAWA, V. V. Por inflexões decoloniais de corpos e identidades de gênero inconformes: uma análise autoetnográfica da cisgeneridade como normatividade. 2015 Dissertação (Mestrado em Cultura e Sociedade) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2015. SOUZA, C.; PAIVA, I. L. Faces da juventude brasileira: entre o ideal e o real. Estudos de Psicologia, Natal, v. 17, n. 3, p. 353-360, 2012. SOUZA, C. Na fronteira da exclusão: ações de enfrentamento à violência na juventude. 2012. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2012. SOUZA, C. P. Experiências videobiográficas na socioeducação de jovens privados de liberdade. In: PASSEGGI, M. C. et al. Pesquisa auto(biográfica) em educação: infâncias e adolescências em espaços escolares e não-escolares. Natal, RN: EDUFRN, 2018. p. 425-448. SOUSA JUNIOR, P. T. X.; MARTINS, H. M. M. Confissões de adolescentes: os olhares da adolescência na escola. Periódico Horizontes, Itatiba, SP, v. 37, 2019. SPÓSITO, M.; CARRANO, P. C. Juventude e políticas públicas no Brasil. In: FÁVERO, O. et al. (org.). Juventude e Contemporaneidade. Brasília: UNESCO, MEC, ANPED, 2007. p. 179-215. PROEXT Redes de Vida: Relato de uma experiência 62 Luciana Rodrigues Bezerra, Marlos Alves Bezerra, Sinthya de Cássia Oliveira da Rocha, Camila Barbosa Campelo, Keila Sírio Campanelli, Ingrid de Carvalho Lavor, Geórgia Sibele Nogueira da Silva TAKEUTI, N. M. Associabilidades lisas em sociedades interativas. Cronos, Natal, v. 16, n.1, jan./jun. 2015. TAKEUTI, N. M. Do outro lado do espelho. A fratura social e as pulsões juvenis. 1. ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002. TAKEUTI, N. M.; NIEWIADOMSKI, C. (org.). Reinvenções do sujeito social: teorias e práticas biográficas. Porto Alegre: Sulinas, 2009. TAKEUTI, N. M.; BEZERRA, M. A. Trajetórias de um coletivo jovem: nem só de prática-gramática da ira. In: TAKEUTI, N. M.; NIEWIADOMSKI, C. (org.). Reinvenções do sujeito social: teorias e práticas biográficas. Porto Alegre: Sulinas, 2009. p. 105-125. TOMMASI, L. Tubarões e peixinhos: histórias de jovens protagonistas. Educ. Pesqui., São Paulo, v. 40, n. 2, p. 533-548, abr./jun. 2014. TORRÃO FILHO, A. Uma questão de gênero: onde o masculino e o feminino se cruzam. Cadernos Pagu, Campinas, n. 24, p. 127-152, jan./jun. 2005. TRASSI, M. L.; MALVASI, P. A. Violentamente pacíficos. São Paulo: Cortez, 2010. WAISELFISZ, J. J. Mapa da Violência: homicídios por armas de fogo. Brasília: Ministério da Justiça e Cidadania, Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR); Secretaria de Governo da Presidência da República, Secretaria Nacional de Juventude (SNJ); Flacso Brasil, 2017. 63 2 Estratégias de Extensão e Formação A experiência do OBIJUV/UFRN Ilana Lemos de Paiva Candida de Souza Luana Isabelle Cabral dos Santos Introdução Historicamente, a população brasileira infantojuvenil vem sendo vítima de diversas formas de violações de seus direitos fundamentais, herdando a tradição de injustiça social que exclui grande parte da população brasileira do acesso a condições mínimas de dignidade e cidadania. Tal contexto contribui para que esta população seja, ao mesmo tempo, autora e vítima das diversas formas de violência. Assim sendo, poucas são as suas chances de se desenvolver de uma forma saudável, construindo vivências e identidades positivas (SOUZA et al., 2014). Os avanços legislativos na área da infância e juventude parecem não ser suficientes, tendo em vista, por exemplo, que assistimos diariamente um verdadeiro extermínio de adoles- centes e jovens das camadas mais pobres da população, o que motiva a realização das atividades de formação e investigação, que deram origem ao Observatório da População Infantojuvenil em Contextos de Violência (OBIJUV) no âmbito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 64 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos Tem-se, diante desse cenário, culpabilizado e criminali- zado enfaticamente os(as) jovens pobres, negros(as), residentes dos bairros mais periféricos das grandes cidades, pois este é o perfil dos(as) adolescentes que se encontram no sistema socioeducativo, privados(as) de liberdade, ou vítimas de “mortes matadas” (WAISELFISZ, 2013). Como apontamos em outros estudos, o perfil segue inalterado nos últimos anos: jovens homens, negros, moradores das periferias urbanas, muito embora já se apresente o aumento dos índices da interiorização da violência (VALENÇA; LIMA; PAIVA, 2014; SOUZA; PAIVA, 2012; PAIVA; OLIVEIRA, 2015). Além dos dados estarrecedores de homicídios envolvendo a juventude pauperizada, temos, por outro lado, um sistema de justiça juvenil que atua com implacabilidade junto a um perfil específico de adolescentes que, no contexto da prática do ato infracional, conviviam com uma série de vulnerabilidades, como defasagem escolar, falta de referências familiares, uso abusivo de drogas, pobreza extrema etc. (CNJ, 2012). Dessa forma, fica evidente que, em meio a este debate, o endureci- mento punitivo – contra os jovens – figura como mais uma forma de violência direcionada a esse público. A exposição constante à violência não só ameaça a sobrevivência de crianças, adolescentes e jovens, como também prejudica seu bem-estar e perspectivas futuras, deixando sérias cicatrizes físicas, emocionais e psicológicas. Vale salientar que, ao falar em violência não se está buscando modelos explicativos, pautados em uma possível predisposição individual. Na perspec- tiva assumida pelo Observatório, faz-se necessária uma reflexão acerca de como se dá o contexto social de violência em que essa população está inserida, atentando para a necessidade de políticas intersetoriais de prevenção e enfrentamento, pensadas Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 65 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos tanto a partir da aproximação com esse público, como por meio da mobilização dos gestores. A compreensão da violência como uma problemática social é fundamental para a sua prevenção, que reclama a ação coordenada de diferentes setores sociais, entre eles saúde, educação e assistência social. O conhecimento da magnitude do problema, que remete à contradição capital-tra- balho estrutural do modo de produção capitalista, e dos fatores que o afetam é condição indispensável para o desenvolvimento de ações. Dessa forma, reforça-se a importância de buscar a interdisciplinaridade e articulação das diversas instâncias como perspectiva de atuação, para a prevenção e mobilização de esforços a fim de reduzir os índices da autoria e vitimização infantojuvenis da/pela violência (SOUZA et al., 2014). Nessa direção, ressalta-se a importância das ações desenvolvidas pelo OBIJUV que, vinculado à academia, direciona pesquisas e ações de extensão que contemplem os pontos aqui discutidos. As ações do Observatório têm trazido contribuições relacionadas à temática da população infantoju- venil em contextos de violência, com impactos importantes na produção de conhecimento, formação do pesquisador e profis- sional, e implica necessariamente na inserção comunitária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, junto ao Sistema de Garantia de Direitos. Hoje, a violência é uma questão de saúde pública. Trata-se de uma epidemia silenciosa que está cada vez mais naturalizada no imaginário social e consolidada como uma questão estru- tural – portanto, fora do alcance individual de resolução – que atinge principalmentea parte marginalizada da população. As consequências da consolidação desse fenômeno têm impli- cações diretas tanto na esfera individual, como nos âmbitos econômico, político e social (MELO, 2010). Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 66 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos Por sua relevância e destaque na sociedade contem- porânea, vários autores e órgãos oficiais têm buscado uma definição de violência que seja capaz de dar conta da sua complexidade. Não se deve, portanto, reduzir o fenômeno da violência somente a lesões físicas ou questões específicas, para não incorrer na limitada compreensão do seu impacto total sobre os indivíduos e a sociedade. Pinheiro e Almeida (2006) apontam-na como uma ação intencional que causa dano. Dessa forma, a produção de dano/ destruição e a intencionalidade constituem aspectos intrín- secos a este fenômeno. Em um contexto onde predomina a violência, existe a desordem e a impossibilidade de criação do espaço público. Opostamente, a não violência seria uma ação intencional guiada pela ética, que possibilitaria a interação entre os indivíduos de forma saudável, proporcionando espaços inclusive de articulação política. Nessa direção, a política seria um movimento antagônico à violência. Nos espaços onde não há a primeira, aparece a segunda, e vice-versa. Como bem apresenta Chauí (1999, p. 3): [...] A ação só é ética se realizar a natureza racional, livre e responsável do sujeito e se este respeitar a racionalidade, liberdade e responsabilidade dos outros agentes, de sorte que a subjetividade ética é uma intersubjetividade socialmente determinada. Sob essa perspectiva, ética e violência são opostas, uma vez que violência significa: 1) tudo o que age usando a força para ir contra a natu- reza de algum ser (é desnaturar); 2) todo ato de força contra a espontaneidade, a vontade e a liberdade de alguém (é coagir, constranger, torturar, brutalizar); Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 67 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos 3) todo ato de violação da natureza de alguém ou de alguma coisa valorizada positivamente por uma socie- dade (é violar); 4) todo ato de transgressão contra o que alguém ou uma sociedade define como justo e como um direito. Costa (2005) complementa a definição da violência apon- tando-a como uma consequência macrossociológica da anomia social, que perpassa a esfera biopsicossocial, e se apresenta como um fenômeno estrutural, cultural e político. As estruturas normativas e sociais são escassas ou inexistem nesse cenário. Nesse sentido, a violência se apresenta como um fenô- meno multifacetado e multideterminado (TRASSI; MALVASI, 2010). A sua perpetuação na sociedade é derivada de diversos fatores, que incluem tanto questões macro como microssociais. Ao mesmo tempo em que se apresenta de forma objetiva, sendo desencadeada e legitimada por uma série de contextos carac- terísticos da sociedade atual, também se aporta e se reproduz na constituição dos sujeitos, que, imersos nesses contextos, podem mobilizar aspectos constitutivos da subjetividade, como a agressividade, que é inerente a todas as pessoas. Não se quer aqui afirmar que agressividade e violência são sinônimas. Trata-se do oposto. Conforme discutem Trassi e Malvassi (2010), enquanto a agressividade é um aspecto que está intrínseco à subjetividade, e muitas vezes está subordinada à educação e a outros mecanismos de controle social, a violência é um fenômeno social que se internaliza como destrutividade. Dessa forma, a violência apresenta-se como uma ação planejada, com racionalidade, que provoca um prejuízo individual e/ou no tecido social. Vale salientar que a Organização Mundial de Saúde (OMS) define violência como: Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 68 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos O uso intencional da força física ou do poder, real ou potencial, contra si próprio, contra outras pessoas ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação (KRUG et al., 2002, p. 5). Essa definição abrange todas as ações violentas, sejam privadas ou públicas, sejam criminosas ou não, reativas ou proativas. Ao citar o uso da força física e o poder, inclui também intimidações e ameaças, omissão e negligência, o abuso físico, sexual ou psicológico, além de suicídio e outras práticas de auto- abuso, bem como outras violações de direitos fundamentais. Ainda na mesma definição, que corrobora outras supra- citadas no quesito da intencionalidade, é preciso destacar dois pontos: a. a existência de uso da força intencional não necessariamente significa que há vontade de causar dano, isto é, pode haver uma grande diferença entre a ação pretendida e a consequ- ência alcançada; b. a diferença entre a intenção de lesar e a intenção de usar a violência destaca o seu componente cultural, isto é, alguns comportamentos podem ser considerados por alguém como toleráveis culturalmente, mas são entendidos como atos de violência, que podem causar sérios danos. Além das tentativas de conceituação da violência, existe também um esforço de categorização das formas como esse fenômeno se expressa na sociedade. Suas múltiplas facetas, ora extremamente visíveis, ora disfarçadas pelo medo, provocam a Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 69 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos elucidação de modelos que deem conta das muitas caras dessa violência, a fim de proporcionar uma melhor compreensão e um aprofundamento do debate sobre a temática. Diante de pesquisas realizadas pela UNESCO, Abramovay et al. (2002) sugerem que a categorização da violência seja defi- nida da seguinte forma: a. violência direta: atos físicos que geram prejuízo à integri- dade dos homens; b. indireta: refere-se às ações agressivas e coercitivas causa- doras de danos emocionais ou psicológicos; c. simbólica: inclui as relações de poder – institucionais ou interpessoais – que limitam a liberdade de pensamento, ação e consciência dos sujeitos. A OMS organizou uma tipologia da violência, a partir das características de quem a comete. Divide-a em violência autoin- fligida, interpessoal e coletiva. A primeira abrange o suicídio e outros atos de autoabuso. Já a interpessoal refere-se à violência cometida por parentes e parceiros íntimos, ou até mesmo por pessoas externas ao ambiente doméstico, conhecidas ou não. Caracterizada como violência comunitária, essa segunda subdi- visão engloba a violência que perpassa a juventude, bem como os atos violentos aleatórios que se manifestam nas sociedades, em maior concentração nas regiões periféricas. Refere-se aos crimes violentos, homicídios, latrocínios etc. A violência cole- tiva, por sua vez, apresenta aspectos sociais – que supõem uma motivação direta para que seja praticada por grandes grupos (violência de multidões, terrorismo, crimes de ódio) – políticos Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 70 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos e econômicos. Esses últimos se referem à violência do Estado, às guerras, negação de acesso a serviços essenciais, entre outros. Refletir a respeito da violência, então, é abrir a possi- bilidade de repensar essa tendência naturalizante, e trazer à tona as suas questões centrais, analisando-a a partir de uma perspectiva ampliada, considerando os contextos favoráveis à sua emergência e tendo uma visão histórica a respeito do fenômeno. No Brasil, pode-se dizer que a partir da década de 1970, houve uma modificação no padrão da criminalidade nas áreas urbanas, que se consolidou nos dois decênios seguintes. Nesse período, a violência institucionalse torna incômoda, e passa-se a discutir sobre as questões estruturais da criminalidade. Com o fim do período militar e transição para um Estado democrático de direito, preponderou uma violência epidêmica marcada pela impunidade. Conforme aponta Adorno (2002, p. 107-108): Embora a violência fosse um fenômeno endêmico na sociedade brasileira, sua visibilidade ganhou foro público durante a transição da ditadura para a demo- cracia. O fim do regime autoritário havia deixado mostras de que a violência institucional sob a forma de arbítrio do Estado contra a dissidência política não se restringia à vigência do regime de exceção. A consolidação de um padrão desenfreado de criminali- dade violenta se deu com o aumento da estrutura dos chamados crimes organizados, complexificação da estrutura do tráfico de drogas, corrupção policial, expansão de grupos de exter- mínio, associados à fragilidade institucional e incerteza política características do processo de redemocratização (PINHEIRO; ALMEIDA, 2006). Ironicamente, em um período histórico no qual teoricamente se teriam condições diferenciadas de convívio Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 71 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos social e pacificação, é exatamente quando há o recrudescimento e generalização da violência. Peralva (2000) discute que cinco aspectos peculiares a esse cenário da redemocratização contribuiriam para a poten- cialização da violência nos centros urbanos: o aumento da facilidade de acesso a armas, a juvenilização da criminalidade, a maior visibilidade da violência policial – principalmente contra jovens de bairros periféricos – o crescimento do narcotráfico e armamento do crime organizado e a cultura individualista, que geraria expectativas de consumo não satisfeitas e aumentaria a violência. Cardia, Adorno e Poleto (2003) apontam que não se trata de um cenário característico da transição democrática, mas sim da persistência, no regime democrático, de questões anteriores não resolvidas, que favorecem a violência no Brasil. Essas ques- tões referem-se à sobreposição de várias carências, gravíssimas violações de direitos humanos fundamentais, e exposição a fatores de risco, associadas à ausência da intervenção estatal, que tornam alguns grupos potencialmente mais vulneráveis à ocorrência de violências. No Brasil, nem as graves violações de direitos humanos desapareceram com o retorno à democracia, nem o crime violento foi reduzido. O uso abusivo de força letal pelos agentes de polícia, linchamentos executados por grupos de pessoas – estimulados ou não por agentes policiais – e a ação de grupos de execução sumária (grupos de extermínio, esquadrões da morte) sobreviveram à transição e suas ações continuam a ocupar as páginas da chamada imprensa nacional (CARDIA; ADORNO; POLETO, 2003). Paralelamente ao processo de redemocratização, a conso- lidação do modelo neoliberal está diretamente relacionada a Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 72 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos não resolução dessas questões. Conforme discute Pedrazzini (2006), em uma sociedade cuja urbanização e globalização econômica são determinadas por estratégias de dominação de classe, existe o cenário ideal para a propagação da violência. Tem-se então que a violência urbana é uma das mais graves expressões da “questão social” e, portanto, em grande parte decorrente da implantação dessa lógica de mercado na socie- dade contemporânea. No entanto, não se trata de explicar todas as causas da violência a partir de um modelo de sociedade, mas sim de defender que tal configuração social favorece a emergência de contextos em que os sujeitos se tornam mais vulneráveis a ela. Isto é, conforme apontam Pinheiro e Almeida (2006), o fator da desigualdade não é o único, mas associado a outros fatores compõe cenários nos quais a violência tende a se desenvolver. Pinheiro e Almeida (2006) discutem ainda que, na atual conjuntura, em que ainda se perpetua a herança autoritária no Estado – mesmo duas décadas depois da transição democrática –, este não tem conseguido um modelo institucional que possi- bilite uma resposta eficiente ao recrudescimento da violência. Não se defende que a busca por esse modelo, individualmente, reduziria a violência, mas a não ação aumenta o impacto de outros fatores decisivos para o seu crescimento. Tem-se então que a causalidade da violência não se deve a somente um determinante, mas a um conjunto de fatores presentes em determinadas condições sociais e históricas. Perceber a complexidade da violência significa compre- ender as suas diferentes formas de manifestação, procurando entender suas causas peculiares e seus cenários, a fim de se buscar alternativas para seu enfrentamento. Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 73 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos Na literatura, historicamente, discute-se a respeito da associação entre a violência e a dinâmica social. Abramovay et al. (2002) apontam que questões estruturais, como pobreza, desemprego, desigualdades e democracia, são aspectos centrais no debate da violência. Se hoje se pode dizer que a transição democrática favoreceu a ampliação da participação política, isto não é verdade para a ampliação da justiça social. O hiato provocado pelas desigualdades sociais continua sendo um grande desafio à preservação dos direitos humanos para a maior parte da população brasileira. A desigualdade entre as classes dominantes e a maioria da população – tanto no que diz respeito à renda e riqueza, como a outros recursos simbólicos e de poder – possui estreita relação com a violência interpessoal, que passa a atingir patamares alarmantes, principalmente nas periferias de grandes centros urbanos, em que as instituições de controle social não conseguem dar respostas adequadas à popu- lação. Diante da situação de desigualdade, as relações humanas e seus conflitos passam a ser mediados pela violência, que passa a fazer parte do cotidiano e da subjetividade dos indivíduos. Não é possível associar mecanicamente violência, pobreza e criminalidade. Como discute Adorno (2002), o problema não está na pobreza, mas na criminalização dos pobres, isto é, na atenção privilegiada das agências de controle social contra as transgressões cometidas por cidadãos pobres. Até porque, apesar de a maioria das pessoas que cometem delitos e são apanhadas pelo sistema ser originária das classes pauperizadas, a maior parte dos cidadãos dessas classes são submetidos às mesmas condições de vida e, apesar de não entrarem na crimi- nalidade, são vistos com o mesmo rótulo da periculosidade. Tem-se então um conjunto de ações que deveriam estar a serviço da garantia dos direitos da população e, além de Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 74 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos deixarem de cumprir esse papel, muitas vezes se apresentam como violadoras desses direitos. O Estado passa a favorecer a violência não só por omissão, mas também por ação. E inúmeras são as famílias que enfrentam essa realidade sem nenhuma rede de proteção. Cardia, Adorno e Poleto (2003) apontam que as relações dos grupos sociais com as instituições de proteção social tendem a ser enfraquecidas nesse cenário de graves violações de direitos, principalmente quando é forte a presença de transgressões por parte dos próprios agentes institucionais. Por outro lado, além das instituições de controle social – polícias e sistemas de justiça e penitenciário – existe também o fracasso de medidas sociais que proporcionem o acesso à educação, trabalho, redução das desigualdades, que poderiam ter um importante papel na redução da violência. Diante das condições precárias de subsistência, a violência torna-seum fato corriqueiro na vida das pessoas e passa a ser um elemento incorporado ao seu modo de vida. Defende-se aqui que a solução para o enfrentamento da violência não consiste no fortalecimento das políticas repres- sivas, mas sim em maior investimento nos níveis de prevenção primária. É necessário efetivar políticas e ações que sejam capazes de prevenir graves violações de direitos humanos. Como bem discutem Krug et al. (2002), uma resposta eficaz à violência não deve somente proteger e apoiar suas vítimas, mas promover a não violência e principalmente buscar modificar as condições que a originam. A consolidação de um real Estado democrático implica em uma redução do abismo existente entre os direitos políticos e os sociais, além da conservação das garantias fundamentais da pessoa humana (ADORNO, 2002). A superação da violência exige, além do reconhecimento desses direitos, a implantação de ações que possibilitem novas Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 75 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos formas de interação no espaço público, nas quais a intolerância à violência faça parte do repertório social como aspecto central. Sobre o Observatório da População Infantojuvenil em Contextos de Violência – OBIJUV Diante do cenário delineado até aqui e da complexidade do campo, o Observatório surgiu no ano de 2009, no âmbito da UFRN, e tem como objetivo mais amplo contribuir para a visibilidade e fundamentação de ações de enfrentamento à violência contra a população infantojuvenil no estado do Rio Grande do Norte, bem como tratar de suas estratégias de resis- tências à violação de seus direitos, por meio do desenvolvimento de estudos, pesquisas e intervenções direcionadas à comuni- dade, realizadas por ações de enfrentamento à violência, com fortalecimento de vínculos interpessoais/intergrupais, moni- toramento e avaliação de políticas públicas voltadas à infância e adolescência/juventude. Mais especificamente, o OBIJUV tem buscado (1) desenvolver estudos, pesquisas, e intervenções junto ao Sistema de Garantia de Direitos, especialmente referente ao sistema de atendimento socioeducativo; (2) realizar formações/ capacitações para a rede de atendimento, especialmente para as escolas, instituições ligadas ao sistema de atendimento socioeducativo e acolhimento institucional; (3) realizar ações junto aos diversos setores da sociedade, a partir de formas de intervenção relacionadas à construção/promoção de “resis- tências juvenis”, tais como oficinas, treinamentos, palestras, Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 76 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos seminários etc.; (4) fortalecer intercâmbio e parcerias com outras entidades e redes que atuem com a temática; (5) analisar e discutir as ações dos programas e políticas públicas destinadas ao público infantojuvenil; (6) incentivar a produção de estudos de iniciação científica, mestrado e doutorado relacionados à temática, objetivando o aperfeiçoamento qualitativo das ações do Observatório e subsídio para ações e políticas locais. O OBIJUV conta, atualmente, com cerca de trinta membros, entre professores, graduandos, pós-graduandos e colaboradores externos, e é parceiro de outros projetos da UFRN que lutam pela garantia de direitos humanos, tais como o Centro de Referência em Direitos Humanos Marcos Dionísio (CRDHMD/UFRN). O OBIJUV é organizado em núcleos, subdivi- didos nos eixos temáticos descritos a seguir. 1. Socioeducação 2. Culturas juvenis e movimentos de resistência 3. Juventude(s) e políticas públicas 4. Programas de atendimento a crianças, adolescentes e jovens Os núcleos possuem o objetivo de intensificar as articu- lações entre os membros do OBIJUV para assuntos específicos, potencializando estudos, organizando eventos, promovendo intervenções, produzindo publicações referentes às temáticas em questão. A seguir, estão descritas as estratégias metodológicas que vêm sendo desenvolvidas. Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 77 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos 1. Realização de reuniões semanais de discussão, no contexto de pesquisas em andamento ou como fonte de temas de pesquisas e/ou serviços futuros, visando à capacitação científica dos orientandos e dos convidados (organizados em torno de grupos de trabalho sobre problemáticas específicas). 2. Realização de reuniões bimensais com convidados, a fim de constituir grupos de trabalho diversificados, mas com preocupações comuns voltadas à população infantojuvenil em contextos de violência. Destes grupos, poderão surgir novas pesquisas e projetos de intervenção. 3. Estabelecimento de contatos com serviços diversos de atendimento à população infantojuvenil, a fim de propor momentos de troca de experiências e conhecimentos, buscando fortalecer tais serviços. 4. Publicação de livros e realização de eventos na área da violência infantojuvenil. 5. Realizações de ações formativas e interventivas em bairros com altos índices de violência e junto à rede socioassistencial. Além disso, o OBIJUV, em consonância com outros projetos de extensão da UFRN, recupera os fundamentos da metodologia desenvolvida pela Extensão Universitária Popular. Um desafio é proporcionar uma ação pedagógica que não separe os papéis de educador e educando em um binômio. Ao contrário, segundo Paulo Freire (2014), devem-se reconhecer os docentes, extensionistas, educadores sociais e comunitários com seus discentes, que são, muitas vezes, pauperizados, moradores Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 78 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos de periferias, de classes subalternizadas, em uma relação de educador/educando e educando/educador. Dito de outra maneira, deve-se reconhecer, na ação pedagógica, a dimensão dialética da realidade, em que há a atribuição de um papel como educador ou educando (tese), que será posteriormente negada (antítese), para construir uma superação da tradicional dico- tomia oriunda da educação bancária (síntese). Essa perspectiva se opõe aos comunicados e prescrições, buscando que a palavra de cada sujeito seja enunciada, no intuito de se encontrar com a palavra do(s) outro(s) e, com esse encontro, compartilhar horizontes de libertação. Para isso, é necessária a sensibilidade para perceber as especificidades das diversas localidades, públicos, movimentos e entidades e, principalmente, humildade, que gera o respeito em relação ao espaço de vida. Dessa forma, o respeito à auto- nomia e à dignidade de cada um/a é um imperativo ético, e não um favor que podemos ou não conceder. Por conseguinte, o sujeito que desrespeita a curiosidade de outro sujeito, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, transgride os princípios da Extensão Universitária Popular. Dessa forma, diante do panorama de violações específicas em cada território, delineiam-se as melhores estratégias para os diversos contextos, com uma análise interdisciplinar e plura- lista focada essencialmente na formação em Direitos Humanos de crianças, adolescentes e jovens. Nessa ação, todos os sujeitos envolvidos despertam para práticas que transformam os seus espaços na construção de uma perspectiva emancipatória, por meio da participação popular que enfrenta os problemas sociais e, em comunhão, desenvolve soluções para os territórios e seus sujeitos. A partir de uma prática dialógica e participativa, as ações do OBIJUV buscam a utilização de grupos e recursos como Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 79 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos círculos de conversação, oficinas, terapia comunitária, teatro do oprimido, cines-debates, oficinas de teatro e imagem etc. Com essa metodologia, busca-sea transformação do espaço de vida e dos sujeitos envolvidos, tentando facilitar a capacidade de aprender, não para uma adaptação mas, sobretudo, para transformar a realidade, para nela intervir, recriando-a. Tecendo Redes de Vida(s) Como dissemos, o Observatório da População Infantojuvenil em Contextos de Violência (OBIJUV) surgiu em 2009, no âmbito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Departamento de Psicologia, com a finalidade de apro- ximar a academia da realidade de crianças e adolescentes/jovens do estado, por meio de projetos de pesquisa e extensão nessa temática. Tem apresentado, nas diversas ações desenvolvidas, um novo modelo de relação entre esse público-alvo e a sociedade. Acreditamos que o OBIJUV tem realizado ações de bastante relevância acadêmica e social, desde o I Simpósio Nacional Juventude, Resiliência e Vulnerabilidade, que trouxe pesquisadores de todo o país e da América Latina para discutir aspectos relacionados à juventude, além do destaque de outros eventos acadêmicos, envolvendo também movimentos sociais, ONGs e grupos comunitários, como os Diálogos Pertinentes que, entre outros temas, trouxeram os seguintes debates: Justiça Juvenil Restaurativa; Violência Urbana e Juventude Brasileira; Abordagem Socioclínica: desafios na América do Sul; Culturas Juvenis e Movimentos de Resistência. Além disso, foram realizados Seminários Sobre Acolhimento Institucional Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 80 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos da UFRN: discutindo a Realidade e Construindo Caminhos; o Seminário Um Ano da Lei do SINASE: Avanços e Retrocessos no RN; o debate E aí, Candidato? Em Pauta Crianças e Adolescentes Natalenses (debate com os candidatos a prefeito da cidade de Natal), o Seminário Juventude(s) e Direitos Humanos: tecendo redes de vida. Ainda no âmbito da produção científica, além de artigos publicados em periódicos indexados, o OBIJUV conse- guiu produzir três livros ( Justiça Juvenil: teoria e prática no sistema socioeducativo; Infância e Juventude em contextos de vulnerabilidade e resistência e o presente livro). Além disso, em 2019 comemorando 10 anos de atuação, o OBIJUV realizou o II Simpósio Nacional do OBIJUV/UFRN: A poética da (r)existência: direitos, artes e vivências das infâncias e juventudes. Na ocasião, pesquisadores se uniram à movimentos de juventude para pensar os desafios atuais nesse campo. Dessa forma, entende-se que o Observatório tem buscado atuar em consonância com a proposta pedagógica do curso de Psicologia e áreas afins, como Serviço Social, Políticas Públicas e Direito, contribuindo para a formação crítica, contextuali- zada e comprometida com a garantia de direitos de crianças, adolescentes e jovens. Entre as ações de extensão voltadas para a prevenção e enfrentamento da letalidade juvenil, o OBIJUV executou o projeto Juventudes e redes de vida: ações de enfrentamento à violência letal contra jovens no bairro de Felipe Camarão, pelo PROEXT/MEC, em 2013, e teve sua continuidade aprovada para o ano de 2016, ampliando as ações para os bairros de maior índice de letalidade juvenil, que se encontra em execução. Como resul- tados da execução do projeto, temos as ações descritas a seguir. Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 81 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos • Mapeamento e aplicação de questionários junto às organiza- ções e expressões juvenis do bairro de Felipe Camarão, além de realizadas oficinas. • Formação de grupos de multiplicadores juvenis para a reali- zação de oficinas de prevenção à violência. • Oficinas nos territórios de Felipe Camarão em que ocorrem os maiores índices de violação de direitos e letalidade juvenil, respeitando a multiplicidade dos grupos juvenis existentes (capoeira, futebol, swingueira, teatro, hip hop, grêmios escolares etc.). Tentou-se, dessa forma, integrar e potencializar o maior número de jovens na construção de estratégias circunscritas territorialmente para prevenção e enfrentamento à violência, fortalecendo as ações da Rede Social de Felipe Camarão. A partir dessas ações, acredita-se que houve a promoção da intersetoria- lidade a partir da articulação da rede de proteção social local e dos equipamentos sociais que trabalham na saúde, educação, assistência, segurança e cultura. Ainda, nesse campo de ação, o Observatório compõe a Rede Juventude Viva RN, que tem como objetivo articular as ações do Plano Juventude Viva. A Rede Juventude Viva do RN foi criada em outubro de 2013, fruto de um processo de mobilização social estadual, no qual se discutia os altos índices de homicídios de jovens no Rio Grande do Norte, sobretudo de jovens negros, tornando o enfrentamento à violência contra a juventude a sua principal pauta de ação. A Rede agrega grupos e organizações juvenis, instituições da rede de proteção à criança, adolescência e juventude, e outras instituições/ organizações, como universidades, associações de moradores, Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 82 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos grupo de mulheres, entre outras. Uma das importantes frentes de atuação do OBIJUV, em parceria com a Rede, é a mobilização contra a aprovação da Redução da Maioridade Penal, através da PEC 171. Foram realizadas diversas atividades, como campanhas e debates sobre a temática. Em tempos de recrudescimento do discurso do endureci- mento punitivo, a despeito dos alarmantes índices de homicídios juvenis, como citamos alhures, o OBIJUV tem buscado fortalecer as ações da Rede Juventude Viva RN, ampliando as ações de prevenção à violência letal de jovens e a intervenção para bairros que, apesar de configurarem os primeiros lugares no ranking da violência juvenil, tem tido poucas ações voltadas para a prevenção da violência. No âmbito socioeducativo, além de ter iniciado a formação dos profissionais do sistema socioeducativo de todo o estado, por meio de convênio com a extinta Secretaria de Direitos Humanos, o OBIJUV levantou uma série de dados que denunciava um sistema socioeducativo falido no nosso estado. As aproximações aos contextos de violações dos direitos dos jovens em cumprimento de medidas socioeducativas apontaram para: • unidades de privação e restrição de liberdade em condições insalubres; • pouca defesa técnica qualificada para garantir o direito à ampla defesa do adolescente; • equipe técnica obsoleta e insuficiente; Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 83 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos • adolescentes ociosos devido à falta de atividades sociais e educativas; • desconhecimento das leis, do SINASE e dos processos envol- vendo suas medidas socioeducativas; • morte de adolescentes nas unidades de provação de liberdade. Diante desse cenário, foi desenvolvido um projeto de extensão universitária com os adolescentes nas unidades de privação e restrição de liberdade e seus familiares. Especificamente, o projeto “A efetividade dos direitos humanos no sistema de justiça juvenil no estado do Rio Grande do Norte” desenvolveu atividades que proporcionaram uma visão geral dos principais problemas que o sistema de justiça juvenil, em nossa região, enfrenta na execução diária das sanções aplicadas aos jovens que entram em contato com o sistema de justiça como consequência de ter cometido um ato infracional. Vale salientar que as medidas deveriam ser sociais e educativas, não essencialmente punitivas. Nesse sentido, analisamos o modo como os(as) jovens são tratados pelo sistema, prestando especial atenção àquelas medidas que conduzem à privação de liberdade. A reflexão se deu a partir do diálogo com alguns dos principais atores do sistema de justiça juvenil – adolescentes, famílias e profissionais.No geral, os relatos reportaram graves violações à convi- vência familiar e culpabilização das famílias dos adolescentes. Enfatiza-se que o Sistema Nacional Socioeducativo (SINASE) aponta a necessidade de apoio e trabalho com os familiares dos jovens que estão em cumprimento de medidas socioeducativas, para a compreensão de que a cidadania do adolescente não pode ser efetuada se não compartilhada com sua família, assim como Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 84 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos a necessidade de mudança nas condições de vida das referidas famílias para que seja possível visualizar as formas de inserção e acesso aos bens socialmente produzidos que superem o envol- vimento com as infrações. Durante as reuniões com as famílias dos(as) adolescentes, surgiram uma série de ansiedades, dúvidas e preocupações acerca das condições experimentadas pelos adolescentes. A ênfase posta pelos participantes nas reuniões foi a violação ao direito à convivência familiar. Foram reportadas uma série de situações que geraram o sentimento de impotência e desam- paro, pois não estavam garantidas as visitas aos adolescentes, e quando ocorriam, eram de modo precário. As famílias passavam semanas ou meses sem visitar seus filhos. A partir dos dados coletados, o OBJUV empreendeu de modo dialógico e participativo junto às famílias as ações descritas a seguir. • Entrega de um dossiê à Ministra de Direitos Humanos. • Participação no processo de fortalecimento do controle social, por meio da construção da Rede de defesa. • Construção de Mapa das violações dos direitos e letalidade juvenil. • Apoio às famílias no acesso à justiça. Podemos refletir, a partir do exposto anteriormente, que há uma evidente contradição entre os avanços legais e a realidade. A partir dos relatos dos familiares e dos adoles- centes, o que constatamos foi a continuidade de ações que Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 85 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos remontam aos códigos de menores, repressivas e pouco ou quase nada educativas. Vale salientar que, após a interdição das unidades denun- ciadas, o OBIJUV executou um projeto, junto ao Ministério Público, para reordenar as suas propostas socioeducativas. Considerações finais Acreditamos que as ações desenvolvidas pelo OBIJUV subscrevem o princípio da indissociabilidade entre pesqui- sa-ensino-extensão, na medida em que se preocupa em promover diálogos entre o saber científico ou humanístico que a universidade produz, e saberes leigos ou práticos, resultantes da própria experiência social dos sujeitos e que circulam na sociedade. Num plano mais global, o OBIJUV visa participar de um “projeto acadêmico e social” de produção de conhecimentos e práticas, capazes de contribuir para a construção de outro projeto societário. Consideramos, portanto, que a extensão possui algumas características que, se bem exploradas, podem vir a contribuir para uma mudança no processo de ensinar, aprender e produzir novos conhecimentos. E que se pode mobilizar, a partir dela, um arsenal metodológico diferenciado; promover encontros entre alunos, professores e outros setores da sociedade de modo a incorporar outros saberes; ampliar a capacidade de reflexão sobre as práticas constituídas pelas experiências de diversos atores em um sistema de coprodução. Isso tudo remete, sem dúvida, a uma concepção de extensão aprofundada, cujas refle- xões e práticas apelam a outros conceitos no fazer acadêmico, Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 86 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos tais como a pesquisa-intervenção (ou pesquisa-ação), exigindo, ainda, uma grande reflexão no que se refere à ética exercida na pluralidade de interesses que convergem na produção e aplicação dos conhecimentos científicos. Temos entendimento de que a pesquisa-extensão consiste em pesquisas que têm a metodologia participativa como ponta de lança, envolvendo comunidades, grupos, instituições e orga- nizações sociais – enfim, os mais variados setores da sociedade interessados em refletir na ação. Interesses sociais passam a ser articulados com os interesses científicos dos pesquisadores. A pesquisa-extensão será, nesse sentido, realizada em um espaço de interlocução, em que os atores implicados participam na resolução dos problemas, com conhecimentos diferenciados, propondo soluções que lhes concernem, ao mesmo tempo em que aprendem na ação. Nesse espaço, os pesquisadores, extensionistas e consultores vão exercer um papel articulador e facilitador em contato com os interessados. A produção do conhecimento científico ocorre, então, estreitamente associada à satisfação de necessidades dos sujeitos sociais individuais e coletivos. A partir de tal perspectiva, têm sido levantados e anali- sados dados sobre a realidade, de modo a refletir, avaliar e modificar a nossa prática, o que fortalece as ações de ensino, pesquisa e extensão, que já vêm sendo desenvolvidas pelo OBIJUV, na temática da juventude, enfrentamento às diferentes formas de violências e produção cultural como protagonismo juvenil. A experiência dessas e outras ações, desenvolvidas pelo OBIJUV, tem demonstrado resultados bastante positivos a partir dessa articulação. Por fim, reafirmamos nossa compreensão de que os graves problemas e as violações de direitos que enfrentam a juventude pauperizada do nosso estado refletem uma expressão Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 87 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos séria e perversa da chamada “questão social”. Portanto, as problemáticas apontadas não se solucionam com propostas simplistas – como as que estão em curso no país, como a redução da idade penal ou a inversão na construção de mais unidades de privação de liberdade para os (as) adolescentes. Mas, a partir de mudanças concretas nas condições de vida dos jovens pobres e suas famílias, promovendo-se formas de inserção e o acesso aos bens produzidos socialmente, que os levem além da participação em atos infracionais. Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 88 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, Miriam et al. Juventude, violência e vulnerabilidade social na América Latina: desafios para políticas públicas. Brasília: UNESCO, 2002. ADORNO, Sérgio. Exclusão socioeconômica e violência urbana. Sociologias, Porto Alegre, v. 4, n. 8, p. 84-135, 2002. CARDIA, Nancy; ADORNO, Sérgio; POLETO, Frederico. Homicídios e violação de Direitos Humanos em São Paulo. Estudos Avançados/USP, v. 17, n. 47, p. 43-73, 2003. CHAUÍ, Marilena. Uma ideologia perversa: explicações para a violência impedem que a violência real se torne compreensível. Folha de São Paulo, p. 3-5, 1999. Caderno Mais! CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Panorama nacional. A execução de medidas socioeducativas de internação. Poder Judiciário: CNJ, 2012. COSTA, Ivone Freire. Polícia e Sociedade: gestão de segurança pública, violência e controle social. Salvador: EDUFBA, 2005. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 36. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Paz e Terra, 2014. Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 89 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos IMURA, Carolina Proeitti; SILVEIRA, Andréa Maria. Como explicar a violência. In: MELO, E. M. (org.). Podemos prevenir a violência. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2010. p. 25-50. KRUG, Etienne G. et al. Relatório Mundial sobre violência e saúde. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2002. MELO, Elza Machado. Podemos prevenir a violência? In:MELO, E. M. (org.). Podemos prevenir a violência. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2010. p. 1-24. MESQUITA NETO, Paulo. Crime, Violência e incerteza política no Brasil. In: HOFMEISTER, Wilhelm (org.). A Violência no Cotidiano. São Paulo: Fundação Konrad Adenauer, 2001. p. 9- 42. PAIVA, Ilana Lemos; OLIVEIRA, Isabel Fernandes. Juventude, violência e políticas sociais: da criminalização à efetivação de direitos humanos. In: SCISLESKI, Andrea; GUARESCHI, Neuza (org.). Juventude, Marginalidade Social e Direitos Humanos: Da Psicologia às Políticas Públicas. Porto Alegre: Edipucrs, 2015. p. 48-63. PEDRAZZINI, Yves. A violência das cidades. Petrópolis: Vozes, 2006. PERALVA, Angelina. Violência e democracia: o paradoxo brasileiro. São Paulo: Paz e Terra, 2000. PINHEIRO, Paulo Sérgio; ALMEIDA, Guilherme. Violência Urbana. São Paulo: Publifolha, 2006. Estratégias de Extensão e Formação: A experiência do OBIJUV/UFRN 90 Ilana Lemos de Paiva, Candida de Souza, Luana Isabelle Cabral dos Santos SOUZA, Candida; PAIVA, Ilana Lemos. Faces da juventude brasileira: entre o ideal e o real. Estudos de Psicologia, v. 17, p. 353-360, 2012. SOUZA, Candida de et al. Formação política como uma forma de enfrentamento à violência na juventude. Rev. psicol. polít., v.14, n.30, p. 367-383, 2014. TRASSI, Maria de Lurdes; MALVASI, Paulo Artur. Violentamente pacíficos. São Paulo: Cortez, 2010. VALENÇA, Daniel A.; LIMA, Danielle de Freitas; PAIVA, Ilana Lemos. A redução da maioridade penal: entre a política pública e a barbárie. In: PAIVA, Ilana L. de; SOUZA, Candida; RODRIGUES, Daniela B. (org.). Justiça juvenil: teoria e prática no sistema socioeducativo. Natal: EDUFRN, 2014. v. 1. p. 59-78. WAISELFISZ, Julio J. Mapa da Violência 2013: Homicídios e Juventude no Brasil. Rio de Janeiro: Flacso, 2013. 91 3 Juventude e Redes de Vida Articulação e potencialização da rede de proteção social Arthemis Nuamma Nunes de Almeida Sarah Ruth Ferreira Fernandes Ilana Lemos de Paiva O Observatório da População Infantojuvenil em Contextos de Violência (OBIJUV), surgido em 2009 na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), é um grupo composto por docentes e discentes, bem como colaboradores externos à academia, que direciona pesquisas e ações de extensão na temática das infâncias, adolescências e juventudes do estado, buscando uma perspectiva de garantia dos direitos desses grupos. Um dos trabalhos realizados foi uma pesquisa (Souza, 2012) realizada no bairro de Felipe Camarão, visando conhecer quais as iniciativas que o território possui – dado o grande número de aparatos sociais presentes – voltadas para o enfrentamento da violência contra a população jovem. Vale destacar que Felipe Camarão tem um histórico de alta incidência de homicídios contra a sua juventude, mesmo possuindo esses diversos aparatos sociais, conforme será detalhado mais adiante. Segundo a Coordenadoria de Direitos Humanos e Defesa das Minorias, só no período de janeiro a junho de 2010, dos homicídios ocorridos em Natal/RN, o número de jovens assas- sinados corresponde a 55% da população geral e mais de 10% dessas ocorrências estão concentradas no bairro de Felipe Camarão, o que significa dizer que nas estatísticas dos últimos Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 92 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva anos o bairro está sempre entre os que mais assistem ao assas- sinato de sua juventude. A partir da observância desses dados e da problema- tização da contradição evidenciada na dissertação de Souza (2012) – em que Felipe Camarão é um dos bairros onde mais se morrem jovens e, ao mesmo tempo, é um dos que mais abriga ações públicas e do terceiro setor voltadas para ações com a juventude – foi pensada uma proposta de intervenção no bairro em questão, com duração de um ano (2013). Assim, via edital da Pró-Reitoria de Extensão da UFRN foi aprovado o programa PROEXT – Juventudes e Redes de Vida: ações de enfrentamento à violência letal contra jovens no bairro de Felipe Camarão, cujo obje- tivo geral foi potencializar os espaços de formação, discussão, reflexão e ação da juventude, possibilitando o fortlecimento da comunidade de Felipe Camarão no processo de redução da violência e da letalidade juvenil. O programa envolveria diversos atores, tanto de instituições públicas como das instituições do terceiro setor, além da população residente no bairro, tendo, entretanto, como enfoque a temática da juventude. Em função desse objetivo geral, foram estabelecidos três eixos de atuação: Eixo 1 – Processo de avaliação e diagnóstico; Eixo 2 – Formação de multiplicadores; Eixo 3 – Fortalecimento e potencialização da rede (articulação dos equipamentos sociais). O referido programa teve contribuição tanto de bolsistas (oito) subdivididos nos eixos mencionados, quanto de estagiárias (cinco), além de uma supervisora itinerante (que foi moradora e já trabalhou no bairro) e alunos voluntários e docentes. O relato aqui apresentado se limita a descrever e analisar a atuação do Eixo 3, que ao circular por diversas instituições da comunidade, buscou cumprir o objetivo de potencializar e fortalecer a articulação da rede social em Felipe Camarão. Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 93 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva Nesse sentido, essa ação não foi uma atividade em determinado equipamento, mas, uma intervenção no território. Uma breve caracterização do campo e das ações O bairro Felipe Camarão se localiza na região administra- tiva Oeste da cidade de Natal/RN tendo seus limites ao norte, Bom Pastor; sul, Guarapes; Leste, Cidade da Esperança/Cidade Nova; e, oeste, São Gonçalo do Amarante (NATAL, 2009a). Em seus primórdios, se chamava Sítio Peixe-Boi, e era povoado por colônias de pescadores e sua extensão se resumia a uma pequena vila às margens do rio Potengi. A região que hoje é Felipe Camarão era afastada do centro da cidade, considerada zona rural. Logo, por causa de sua regulamentação tardia em 1990, houve a ocupação desordenada e concentração de assen- tamentos precários nas áreas de ocupação irregular (sendo alvo de conflitos entre a população e o estado) por pessoas que tinham um baixo poder aquisitivo e não conseguiam ter acesso às áreas mais centrais da cidade (SOUZA, 2012). No documento Natal: meu bairro, minha cidade tem-se que no ano de 2008 a densidade demográfica em Felipe Camarão correspondeu a 80,70hab/ha (NATAL, 2009a), índice alto ao se comparar com a média do município de Natal que é 51,27hab/ ha (NATAL, 2009b). Esses índices fazem do bairro o terceiro mais populoso da cidade. O bairro de Felipe Camarão possui vinte e três escolas (particulares, municipais e estaduais), cinco unidades de saúde, vinte e cinco organizações comunitárias (ONGs, Conselhos Comunitários, Associações etc.), três unidades de segurança Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 94 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva pública e um CRAS (que estava desativado na época) (NATAL, 2009a), além de receber intervenções de atores externos, como projetos de extensão das universidades. Some-se a esses dados que o bairro possui grande número de igrejas evangélicas, quando comparado aos outros bairros de Natal/RN. Por fim, Felipe Camarão é tido como um berço da cultura potiguar, no que se refere à tradição oral, cujos ensinamentos foram passados de pai para filho (SOUZA, 2012). A partir disso, quando se compara Felipe Camarão aos demais bairros de Natal/RN, especialmente aos que possuem altos índices de violência, percebe-se que possui um número consideravelmente maior de aparatos sociais, nos diversos níveis de atenção (saúde, assistência, educação), emboraisso não necessariamente signifique o acesso da população às políticas públicas essenciais, especialmente porque tais equipamentos estão quase que totalmente concentrados no centro da comunidade, o que dificulta o acesso da população que vive nos assentamentos precários localizados nas regiões mais periféricas, tendo em vista que o bairro possui uma grande extensão territorial. Vale salientar que ele também apresenta infraestrutura precária no que se refere às questões de sanea- mento básico, esgotamento sanitário e equipamentos de lazer. Essa realidade tem favorecido a diversas formas de expressão da violência no território. Nesse cenário, os homicídios são a forma mais extrema de um conjunto de expressões de violência e que, por ser mais facilmente mensurável, acaba refletindo o contexto de violação de direitos dessa população. Ademais, ressalta-se que a falta de acesso à educação de qualidade, bem como mau funcionamento do sistema de segurança pública também são exemplos de violações que afetam diretamente Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 95 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva alguns segmentos da sociedade, em especial os jovens pobres (SOUZA, 2012). Felipe Camarão apenas reflete a realidade brasileira no que se refere às questões da juventude, seja em termos de garantia de seus direitos, no seu processo de vitimização e vulnerabilidade, seja em termos da necessidade de prevenção à violência. O tema da tem sido um dos assuntos mais importantes entre as várias questões cruciais que são desafios às políticas de desenvolvimento social na América Latina. Quando se compara a quantidade de jovens com a população em geral, percebe-se o grande contingente desse grupo geracional que, somado ao aumento da violência, da pobreza e a diminuição das oportu- nidades de trabalho, os tem deixado sem perspectivas para o futuro. Essas dificuldades aumentam especialmente para a juventude que enfrenta situações sociais adversas, dificultando sua participação ativa no processo de conquista da cidadania (ABRAMOVAY et al., 2002). Segundo Fachinetto (2010), as múltiplas vulnerabilidades sociais atingem de forma diferenciada a juventude e, assim, devem ser entendidas como constantes violações, pois mesmo que sejam legalmente considerados como sujeitos de direitos, na prática isso não vem acontecendo. Uma das sequelas dessa conjuntura social é a violência, que precisa ser entendida como um processo multideterminado (GONÇALVES, 2003), ou seja, não é um único fator que determina um ato de violência, mas um conjunto de elementos imbricados, Sabe-se, entretanto, que a violência, tendo os jovens como vítimas ou agentes, está intimamente ligada à condição de vulnerabilidade social destes indivíduos e as deficiências no acesso aos bens e serviços (educação, lazer, esporte, cultura e trabalho), o que propicia a manutenção da situação de vulnerabilidade social e, em Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 96 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva algumas situações, fomenta o aumento da violência e da sua criminalização (ABRAMOVAY et al., 2002). Diante do exposto, sob a luz do referencial da Psicologia Comunitária, pretendeu-se uma intervenção no bairro de Felipe Camarão que visou o fortalecimento da Rede de Proteção Social, com vistas a proporcionar discussões e ações, no que se refere à proteção da juventude. Cabe mencionar que Felipe Camarão possui uma rede social que seria a “voz da comunidade”, sendo composta por moradores do bairro, entidades públicas, ONGs, grupos culturais formais e informais e instituições privadas, com o objetivo de realizar o monitoramento das políticas públicas para o bairro, muito embora a rede atualmente esteja passando por um processo de consolidação (SOUZA, 2012). Nessa perspectiva, a Psicologia Comunitária tem muito a contribuir. De acordo com Montero (2004), a Psicologia Comunitária surgiu para dar respostas às necessidades sociais marcadas por contextos de desigualdades sociais, dedicando seus esforços para que as pessoas produzam transformação social e libertem-se das condições de opressão, privação, exclusão e alcancem o bem-estar por elas desejado. A Psicologia Comunitária deve partir dos potenciais e dos recursos que a comunidade possui, buscando seu desenvolvimento e fortale- cimento, tendo como centro da ação a própria comunidade. Assim sendo, a Psicologia Comunitária ajudou as exten- sionistas na proposta de fortalecimento da comunidade, atuando de modo ativo no enfrentamento à violência juvenil. É evidente que o projeto não teve a pretensão de, sozinho, mudar a realidade atual do bairro, mas de somar às propostas já existentes na construção de um coletivo contra o extermínio de seus jovens. Por isso, foi pensado um curso de formação que serviu como dispositivo tanto para discutir questões teóricas Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 97 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva e metodológicas na atuação da prevenção da violência, quanto como um espaço para que as diversas instituições do bairro pudessem experienciar um espaço dialógico. Dispositivo para articulação de rede de proteção social Antes de discorrer sobre o curso e sua execução, é impor- tante destacar que foram realizadas diversas reuniões com a equipe do eixo, e a supervisora de campo, para pensar uma maneira de fortalecer e/ou criar a relação entre as instituições e fomentar a possibilidade do trabalho em rede. Construiu-se, então, a ideia de abertura de um espaço comum de encontro para representantes das instituições, que também servisse para formação e proposição de ações para a juventude do bairro. A ideia inicial, e que se efetivou como foco de ação do Eixo 3, foi a montagem de um curso modular que aconteceu em seis encontros, com periodicidade quinzenal, entre os meses de agosto e outubro de 2013, utilizando-se de estratégias metodo- lógicas de caráter participativo, tais como: oficinas, rodas de conversa e grupos de discussão. O curso teve como objetivos discutir temáticas que favo- recessem a prevenção e o enfrentamento à violência contra a juventude; constituir-se como um espaço de encontro, diálogo e participação para as diversas instituições; e, buscar provocar a intersetorialidade por meio de ações que promovessem a articulação da rede de proteção social local e dos diversos equi- pamentos sociais que trabalham na saúde, educação, terceiro setor, assistência, segurança e cultura. Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 98 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva Embora, inicialmente, a ação tivesse sido denominada como um curso, constituía-se de um dispositivo de ação bem mais amplo e pautado em premissas da Educação Popular, fruto da renovação pedagógica de Paulo Freire (2014). Os espaços de conversa seriam facilitados por um convidado que mediaria o diálogo sobre a temática do encontro e que garantisse a hori- zontalidade no grupo. Assim, o primeiro passo foi convidar as instituições e averiguar suas possibilidades para participar e sediar os encon- tros. Para compor o grupo, foram convidados 15 equipamentos sociais de Felipe Camarão – indicados pela supervisora de campo que conhecia a comunidade e o funcionamento das instituições – por meio de visitas em que foi explicitada a proposta do curso, a fim de mostrar às instituições a importância de sua participação mediante escolha de representantes (no mínimo 1 e, no máximo, 3 por instituição). Vale salientar que o Centro de Referência em Direitos Humanos (CRDH), da UFRN, participou desse momento e acompanhou os debates promovidos pelo curso.Para garantir maior participação e circulação entre os diversos equipamentos, utilizou-se como estratégia que cada encontro fosse realizado em um equipamento diferente, garan- tindo, inclusive, que nenhuma instituição fosse identificada como “líder”, já que, a cada atividade, um novo local era utili- zado como espaço e, ao todo, foram seis instituições diferentes a sediar. Essa estratégia se mostrou efetiva nesse propósito, além de garantir minimamente a presença da instituição em pelo menos um encontro, e permitiu que o equipamento se visse implicado na recepção dos demais equipamentos, bem como partícipe da construção do curso. Ainda sobre a participação, toda semana anterior a um novo encontro – que era quinzenal e, por isso, teve um Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 99 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva intervalo de tempo entre um encontro e outro – a mobilização para convidar as instituições era repetida, incluindo ligações telefônicas e o auxílio da supervisora de campo que, por ser conhecida no bairro e já possuir militância pela comunidade, usufruía de inserção nos grupos e instituições. O resultado dessa mobilização consistiu, algumas vezes, na confirmação da presença, mas ausência no dia do encontro. Dessa maneira, mesmo que a cada novo encontro todas as 15 instituições recebessem um contato telefônico informando sobre o curso, em virtude da participação de apenas algumas, foi-se, com o tempo, preferindo contactar apenas as instituições que estavam participando com regularidade. Todos esses fatores interfe- riram diretamente no número de participantes, e embora a meta fosse a participação de 15 instituições por encontro, houve bastante rotatividade na frequência. Os encontros aconteciam sempre às quintas-feiras e duravam em torno de duas horas e meia. Em cada módulo havia a presença de um convidado com alguma experiência no tema do debate. Já as temáticas, referiram-se a dois blocos temáticos, como se pode observar no Quadro 1: Desmistificando as visões sobre juventude (um encontro), e, Prevenção e enfrentamento à violência (cinco encontros). A forma como o conteúdo seria trabalhado ficava a cargo do convidado que iria conduzir a discussão do dia, priorizando, porém, as exposições dialogadas, as rodas de conversa, oficinas etc. Para a análise, foi feito um resgate dos encontros visando não somente descrevê-los, mas buscar entender as suas contribuições no que se refere ao forta- lecimento da rede de proteção social sob uma perspectiva da Psicologia Comunitária. Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 100 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva Encontro Assunto Temática 1º Desmistificando as visões sobre juventude Juventudes e identidades: discussão conceitual de forma dialogada 2º Prevenção e enfrentamento à violência Direitos humanos e descriminalização da juventude 3º Articulação da rede para prevenção da violência 4º Comunicação não violenta, cultura restaurativa e Mediação de conflitos 5º Metodologias de atuação na prevenção da violência 6º Políticas Públicas de/para/com a juventude Quadro 1 – Encontros do curso de formação – Fortalecimento da rede de proteção social em Felipe Camarão. Fonte: Autoria própria. 1º Encontro O primeiro encontro, intitulado Juventudes e identidades: discussão conceitual de forma dialogada, ocorreu no dia 8 de agosto de 2013, no Conselho Comunitário I. Contou com a presença de oito pessoas, representando seis instituições (Unidade de Saúde da Família [USF] FC II – três pessoas; Unidade Mista de Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 101 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva Saúde – uma pessoa; Escola Municipal Djalma Maranhão – uma pessoa; TV Oeste – uma pessoa; Lar Fabiano de Cristo – uma pessoa; e, Fundação Fé e Alegria – uma pessoa). Vale salientar que o CRDH também esteve presente. Foi feita uma rodada de apresentação dos participantes. Já nesse momento, alguns temas apareceram nas falas, como o medo (carência de segurança pública), e a “passividade” da população vinculada a um assistencialismo. Em seguida, o faci- litador dividiu os participantes em três grupos aos quais lançou as seguintes perguntas: Quais oportunidades e dificuldades da juventude hoje? E, se eu tivesse poder o que eu faria pela juven- tude da região Oeste? Como dificuldades, foi apontada a falta de incentivo dos pais à educação de seus filhos. Os participantes concordam que faltam melhores oportunidades para os jovens, mas voltam a falar de conformismo e culpabilizam a família e o próprio jovem pelo insucesso educacional. Um grupo citou a questão do consumismo, entendendo que o jovem de hoje tem acesso a “coisas melhores”, porém “não busca estudar”. Uma agente comunitária atrelou o tema à violência, especifi- camente o roubo, que os jovens podem cometer em função de desejarem consumir determinado produto. Apontaram como sugestões de mudança, caso estivesse ao seu alcance, melhores moradias e escolas de qualidade, para formar uma quantidade maior de profissionais. O facilitador refletiu junto ao grupo que a violência come- tida pela população existe, porém, a falta de acesso à educação, ou seja, o fato de um jovem ou adulto não saber ler, por exemplo, é também uma violência. O grupo concluiu que os jovens podem ser partícipes dos processos políticos em prol deles, por isso a importância de se abrir espaços de conversa (trazê-los para espaços participativos) e de se articular a rede, inclusive para Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 102 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva que as diversas experiências das pessoas que trabalham nas instituições na comunidade possam se somar. 2º Encontro O segundo encontro, intitulado Direitos humanos e descri- minalização da juventude, ocorreu no dia 22 de agosto de 2013, na Escola Municipal Djalma Maranhão. Participaram do encontro 10 profissionais, representando quatro instituições (Núcleo de Amparo ao menor [NAM] – uma pessoa; Conselho comunitário II – duas pessoas; Escola Djalma Maranhão – seis pessoas; e, Unidade Mista de Saúde – uma pessoa). Vale salientar que, mais uma vez, o CRDH esteve presente. O facilitador fez um resgate histórico dos direitos humanos e da criminalização das resistências, o que foi muito importante para se entender a participação popular e o controle social nos dias de hoje. Ademais, tocou-se em temáticas como anistia, tortura, grupos de extermínio etc. A partir desse resgate, algumas problematizações foram levantadas pelos próprios cursistas: sobre os direitos humanos, a educação foi mencionada algumas vezes, por alguns representantes de escolas, no sentido de buscar explicações e alternativas para a violência na escola, uma vez que é difícil lidar, por exemplo, com o sentimento de medo provocado pelas ameaças por parte dos alunos. Nesse sentido, um dos professores relatou que é preciso convencer os jovens sobre a importância da escola e da parti- cipação da família no processo educacional. Por outro lado, os cursistas comentaram que existem algumas famílias que são “omissas” e não se interessam pela educação dos filhos, Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 103 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva se importando, segundo um dos participantes, “somente com a bolsa família concedida”. Citou-se, também, que algumas famílias são “desestruturadas” (em relação a ter uma confi- guração nos moldes tradicionais, com os dois pais presentes, por exemplo) e que muitos jovens não possuem “perspectivade desenvolvimento”. Por outro lado, um dos professores discordou do fato de que a escola deva ter outras funções para além de repassar o conhecimento acumulado pela sociedade, o que levantou divergências pelos demais cursistas. Sobre a juventude e as questões da violência, um dos participantes comentou que acredita que “a violência tem aumentado e que os atores são jovens”; e, outro participante deu exemplos embasados na perspectiva dos programas policiais que culpabilizam e criminalizam os adolescentes e jovens das camadas mais populares. Nesse encontro, foi entregue uma rosa, com o nome de um jovem assassinado, para cada participante, confeccionada pelo OBIJUV para um evento sobre o sistema socioeducativo no RN. Foi interessante perceber as reações porque um dos profes- sores, ao receber a rosa, disse que o nome que ali estava era de um menino que foi aluno da escola em que trabalha, mas que deixou de frequentá-la, emocionando-se ao lembrar-se do aluno e perceber o que ocorreu com ele. Diante dessa dura realidade, uma das professoras disse que “muita gente não compreende como funciona a rede de proteção”, e isso seria importante para buscar soluções para a violência contra a juventude. Sobre essas questões, foi refletido, tanto pelo facilitador quanto por nós que organizávamos o curso, que a escola pode provocar ações comunitárias, que infelizmente existe uma sobrecarga nas instituições e o trabalho em rede acaba não funcionando, que a avaliação das ações de Felipe Camarão deve Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 104 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva ser feita pela própria rede, devendo também diagnosticar os problemas da comunidade. Ainda foi desmistificada a ideia de que os jovens são os principais autores de violência no país. A partir desse encontro, percebeu-se que era preciso desconstruir a ideia de conflito geracional; problematizar o contexto de extermínio da juventude como fenômeno estru- tural - e não como efeito de uma Educação falha e/ou da família que não corresponde ao ideal; e, promover a reflexão sobre a implicação do Estado e possibilidades da rede em construir ações de enfrentamento à violência letal contra a juventude. 3º Encontro O terceiro encontro teve como tema a Articulação da rede para prevenção da violência, ocorreu no dia 5 de setembro de 2013, na ONG Visão Mundial. Participaram do encontro nove pessoas representando três instituições (Escola Municipal Djalma Maranhão – quatro pessoas; Unidade Mista de Saúde – três pessoas; Visão Mundial – duas pessoas) além da participação do CRDH. Nesse encontro, duas colaboradoras facilitaram a discussão. No início, houve uma dinâmica na qual as pessoas deveriam se apresentar e dizer se a sua instituição “conversa” com alguma outra, qual e como, enquanto isso, o participante deveria dar nós em uma linha de crochê com apenas uma das mãos. Foi levantada a questão de a articulação da rede poder ser mais uma forma de enfrentamento à violência como já fora comentado no encontro passado. Nesse sentido, seria Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 105 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva interessante que a rede pensasse em termos práticos sobre os índices de violência em Felipe Camarão. Refletiram-se as seguintes questões: “Vem se falando de rede desde a proposta de criação do curso, e será que em FC existe essa rede? Qual é essa rede? Que ações ela realiza? Quem faz ou já fez parte?” Nesse encontro, fomos surpreendidos com a informação de que uma das cursistas pertencia a um movimento pela rede social de Felipe Camarão, até então desconhecido por nós. Segundo ela, a Rede de Proteção Social do bairro estava parada (na época do curso) por falta de espaço de funcionamento há cerca de três anos. Antigamente, a rede era sediada na Visão Mundial, mas justamente para dar o caráter de rede, foi preciso ampliar o espaço. Entre suas principais ações já realizadas, tem-se: reabertura da maternidade e a reabertura do pronto- -socorro; e a realização de um curso para adolescentes sobre formação política. Atualmente, o que pode ser visto como foco para a rede, segundo os participantes, seriam as dificuldades relacionadas ao tráfico de drogas e segurança pública. As insti- tuições – que fazem/fizeram parte da rede, à qual, inclusive, subscreveram uma carta de adesão – são as escolas Djalma Maranhão e Veríssimo de Melo, a Visão Mundial, as unidades de saúde, os conselhos comunitários, o Monitoramento Jovem de Políticas Públicas (MJPOP), entre outras. Segundo as facilitadoras, uma Rede Social forma uma associação/corpo jurídico (ela tanto tem a organização política quanto a burocrática). Para a rede funcionar, ela tem que definir metas/atividades para ser foco em determinado momento. No caso da rede de FC, o objetivo foi a reabertura da maternidade, então, houve mobilização para um bem comum. Diante disso, ressalta-se que a rede só se fortalece se tem algo para executar. Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 106 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva Problematizou-se a pertinência desse momento de troca propiciado pelo curso ao reunir diferentes instituições, pois, muitas vezes, as instituições acabam fazendo ações semelhantes e não conversam entre si, o que gera ações fragmentadas. Se as ações pudessem ocorrer em conjunto o fortalecimento da ação seria facilitado, bem como a sua ampliação, uma vez que não seriam atuações pontuais. Foi destacado pelos participantes que existem algumas limitações para a ocorrência das ações: imposição de grupos rivais, o que impede que um trafegue no espaço do outro; riva- lidade entre times de futebol e escolas, entre outros aspectos. Diante disso, as facilitadoras refletiram que é preciso se inserir e conhecer bem a realidade do território para forta- lecer suas peculiaridades; observar as influências internas e externas (mídia, por exemplo); bem como é preciso que o público envolvido assuma seu papel, participe, “vá à luta” porque a articulação não precisa “começar por mim e terminar em mim”; e, considerar as dificuldades no acesso a políticas e ao seu conhecimento. Por fim, tomou-se como encaminhamento convidar para o curso outras instituições, sugeridas pelos próprios cursistas. Também foi ressaltada a necessidade da articulação das áreas da assistência social e a saúde (vale salientar que o CRAS do bairro estava fechado e, por isso, não estava em atividade). Outros encaminhamentos: observar que o turno noturno não tem assistência das diversas atividades que acontecem em FC; estabelecer os pontos do monitoramento; e, compreender como se constrói uma ação integrada. Assim, a conclusão desse momento é que a rede que já existe deve ser fortalecida. Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 107 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva 4º Encontro O quarto encontro se intitulou Comunicação não violenta, cultura restaurativa e Mediação de conf litos, ocorreu no dia 19 de setembro de 2013, no Núcleo de Amparo ao Menor – NAM. Participaram do encontro 10 pessoas representando três insti- tuições (Unidade Mista de Saúde – três pessoas; NAM – uma pessoa; Fé e Alegria – quatro pessoas [sendo três jovens]; e, Escola Municipal Djalma Maranhão – três pessoas), novamente o CRDH esteve presente. O encontro foi facilitado por uma psicóloga com experi- ência na área de mediação de conflitos em ambiente escolar. A metodologia utilizada foi a exposição dialogada e houve grande participação dos cursistas, especialmente por parte das instituições que lidam com a educação, como a escola e as ONGs. Ao serem questionadossobre como uma Cultura restau- rativa pode ser inserida nos projetos da comunidade, um dos participantes, representante de uma das ONGs, falou alguns exemplos e sugeriu que a rede realizasse gincanas culturais e conversas com os líderes dos grupos juvenis rivais. A facilita- dora comentou sobre o trabalho de práticas restaurativas que vinha sendo desenvolvido pela promotoria da educação, com atuação nas escolas. No tocante à área da saúde, segundo seus representantes, existem conflitos porque os usuários não são ouvidos com atenção. Outros conflitos emergem, segundo os participantes, de práticas pouco colaborativas do Conselho Gestor de Saúde, conforme um dos cursistas relata: “Fácil é falar ‘eu’, difícil é dizer ‘nós’”. Depois, foi abordado o tema da Mediação de Conflitos, oportunidade em que um dos participantes colocou a Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 108 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva dificuldade em relação ao enfrentamento de problemas que parecem nunca ter solução, trazendo novamente a questão de culpabilização da família. O mesmo participante concluiu que o maior desafio é o cotidiano, ou seja, a rotina de dificuldades. Já a facilitadora comentou que “articular a rede é uma ativi- dade pequena, mas importante”. É preciso que as instituições se conheçam, tenham o contato telefônico uma da outra, por exemplo, e que se reflita sobre o que é importante para fazer “o meu trabalho melhor”. Por fim, a facilitadora contribuiu fazendo uma reflexão sobre como se alcançar a restauração dos conflitos no dia a dia, mencionando que mesmo parecendo utópico, é possível consegui-lo ao diminuir a distância entre o discurso e a realidade, até porque, diz um participante: “a cultura muda à medida que a gente fala dela, vive a realidade”. Um ponto importante abordado foi a comunicação não violenta que pressupõe: ouvir o outro com atenção; aprimorar a escuta empática; e, aprender a pedir. No mais, em uma situação de conflito, é importante considerar as necessidades dos outros, sem desconsiderar as próprias, compreendido como uma lógica do “ganha-ganha”. 5º Encontro O quinto encontro, intitulado Metodologias de atuação na prevenção da violência, ocorreu no dia 17 de outubro de 2013, na Fundação Fé e Alegria. Participaram do encontro 13 pessoas, sendo nove adolescentes do Fé e Alegria e um profissional, além da Escola Municipal Djalma Maranhão – com três pessoas. Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 109 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva Antes de tudo, foi importante a presença dos adolescentes/jovens porque eles puderam dialogar com os profissionais e dizer o que gostam ou não gostam, diferente dos outros encontros em que os jovens não participaram ou estavam presentes em menor representação. Cabe mencionar que a proposta de participação no curso de formação não foi direcionada aos adolescentes/jovens, pois outras ações estavam sendo desenvolvidas com eles no âmbito do projeto, mas o representante da ONG levou alguns de seus alunos aos encontros, o que se mostrou bastante positivo. Foi realizada uma dinâmica de aquecimento em que os participantes deveriam interagir em duplas de modo que um seria o “modelo” e o outro o escultor, e posteriormente os papéis seriam invertidos, o intuito era movimentar os participantes e levá-los a interagir uns com os outros. Em seguida, a facilitadora leu um texto de Rubens Alves, O sapo, buscando promover a reflexão sobre a influência das palavras que nos são ditas, ou seja, como nos transformamos com o que nos é dito. Depois, dividiu-se em grupos, sendo três ao todo, misturando-se as instituições e os jovens, além de cada extensionista ter ficado em um dos grupos. Nos grupos deveriam ser discutidas duas ques- tões: quais são os sonhos dos jovens e como construir uma visão de futuro com os nossos jovens? Nesses grupos, vários sonhos puderam ser partilhados, desde concepções mais individualistas como “querer ser médico”, por exemplo, até o “desejo de que não exista mais violência”, desejo de ter acesso à educação, saúde e segurança de qualidade. A atividade refletiu o engajamento dos jovens em questões comunitárias e do bem comum. Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 110 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva 6º Encontro O sexto encontro, intitulado Políticas públicas de/para/com a juventude, ocorreu no dia 31 de outubro de 2013, na Unidade de Saúde da Família II de Felipe Camarão. Participaram do encontro cinco pessoas representando três instituições (Escola Municipal Djalma Maranhão – duas pessoas; NAM – uma pessoa; e, USF FCII – uma pessoa). Vale salientar que o CRDH esteve presente. A facilitadora trouxe alguns pontos importantes para se falar da relação entre juventude e políticas públicas como: a compreensão da juventude como problema; o estatuto da juventude e o jovem como sujeito de direitos; o surgimento da Secretaria Nacional da Juventude (SNJ) e do Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE); e o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem). A partir da exposição, o principal ponto levantado pelos participantes foi a preocupação com a parcela dos jovens que não acessam as políticas públicas, ou seja, os mais empobrecidos e vulneráveis, residentes em áreas em que os profissionais temem entrar. Foi mencionada a situação em que os jovens viraram ameaça dentro da própria escola e, por isso, há o medo dos profissionais em atuar junto a eles; outra professora relatou compreender que o enfrentamento da situação relatada pela professora não compete aos profissionais individualmente, mas que é uma questão de pressão política, questionando qual seria a ação necessária para o seu enfrentamento. O debate se centrou na discussão sobre os caminhos possíveis para a ação de uma rede e emergiram algumas ideias para a articulação (nessa hora foi colocado também o problema de muitos terem acesso ao curso e não participarem): a primeira sugestão foi a realização de um encontro ou seminário para os Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 111 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva profissionais em que a temática girasse em torno do que se está fazendo para/com a juventude do bairro; a segunda sugestão foi da facilitadora, que propôs, na oportunidade de entrega dos certificados do curso, realiza-se uma oficina para a criação de uma agenda/calendário pela juventude ou a produção de uma carta-compromisso para fortalecer a rede e para que os integrantes do curso possam se inserir na Rede Social de Felipe Camarão. Outra observação importante foi a fala de uma das profes- soras mencionando que os educadores não possuem o debate de juventude e políticas públicas, por isso seria importante mais momentos de formação acerca da temática. A partir dessa descrição dos encontros, pode-se perceber que parte dos profissionais que trabalha com juventude parece responsabilizar o jovem por sua condição, bem como a família. Além disso, a juventude é criminalizada por parte dos profissionais, sem pensar sobre a condição de vulnerabi- lidade que os jovens de Felipe Camarão se encontram e como essa realidade pode ser alterada. Muitas falas reforçaram as narrativas dos programas policialescos, do jovem pobre como naturalmente violento. Ademais, outra parcela dos profissionais do curso preocupa-se com a atenção dada pelo poder público aos jovens de FC. Muito foi debatido acerca das dificuldades vivenciadas pelas escolas que vivenciam cenas de violência cotidianas, e os educadores não tem recursos para o seu enfrentamento. No mais, também é preciso lançar um olhar sobre a naturalizaçãoda letalidade juvenil no bairro de Felipe Camarão. Vários relatos durante os encontros afirmaram que as pessoas “saem às ruas para ver o incidente como se fosse algo corriqueiro, que nem surpreende mais”. Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 112 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva Conforme Souza (2012), os jovens se envolvem em atos infracionais por motivos diversos e imbricados, mas a questão central de debate não deve ser a sua criminalização, e sim a compreensão dos fatores de precarização que perpassam a juventude pobre, para que assim possibilite-se pensar alterna- tivas à violência. Para o enfrentamento da violência, o caminho não é o fortalecimento das políticas repressivas, mas o maior investimento nos níveis de prevenção, efetivando políticas e ações que sejam capazes de prevenir graves violações de direitos humanos. Outro ponto importante é a participação do jovem nesse processo: [...] à medida que os jovens passam a ser reconhecidos enquanto sujeitos de direito, faz-se necessária a inserção desses em espaços políticos, de forma atuante, junto aos demais membros da sociedade [...] o jovem passa a ser um sujeito atuante nos contextos nos quais está inserido, agindo de forma autônoma para a realização de ações que possam trazer melhorias para a comunidade (SOUZA, 2012, p. 169-170). Isso tudo faz remeter à Psicologia Comunitária que, ao falar de agentes externos (o psicólogo) e agentes internos (os membros da comunidade), pressupõe uma relação dialógica, de caráter horizontal, aproximando o conhecimento científico do popular e vice-versa (MONTERO, 2004). E era justamente essa a proposta do curso, não havia um suposto saber depositado nos cursistas, mas, uma troca de conhecimentos e a construção coletiva de ações de enfrentamento da violência letal da juven- tude. Esse caráter participativo foi avaliado positivamente, com a necessidade de ampliação de outros atores da comunidade nesse processo Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 113 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva Assim, é fundamental estimular a organização política dos grupos e instituições da comunidade de Felipe Camarão. A diversidade de ações que ocorrem no bairro de modo disperso não possui a mesma potência de todas essas ações juntas, por isso o estímulo ao trabalho em rede se faz tão importante – para que as instituições e grupos unam-se para o fim comum de efetivação de seus projetos (RIBEIRO; BASTOS, 2011). Essa articulação vai ao encontro do conceito de rede, que ainda não foi analisada em termos de seu significado. Para Junqueira (2000), a rede é entendida como as relações sociais entre organizações que interagem a partir de atores sociais e compartilham a intenção de conhecer os problemas sociais e propor soluções. Uma característica da rede deve ser o respeito à autonomia e diferenças de cada membro. O autor observa que a rede não é um objetivo em si, mas compõe uma metodologia para a ação e é uma construção coletiva, isto é, se define à medida que é realizada. O processo de formação da rede é desafiador e enfrenta obstáculos eminentes. Ribeiro e Bastos (2011) enumeram três obstáculos identificados por Ayres (2002) no processo de formação da rede. Primeiramente, o modo de funcionar que não é hierarquizado, mas horizontalizado. A característica desafia as organizações a entender um funcionamento diferente do que, em geral, podem estar acostumadas. Outro obstáculo seria a falta de nitidez dos objetivos da rede, os atores devem agir convergindo a objetivos comuns, logo, esses precisam estar nítidos para todos. Por último, o pouco tempo que os membros possuem para atuar em rede, uma vez que é mais provável que estejam preocupados com questões de maior urgência de suas próprias instituições (o que já ocupa um tempo considerável). Conforme ressalta Junqueira (2000), superar esses obstáculos é Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 114 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva um processo, algo que, como a rede e, vai sendo construído no percurso de funcionamento. Assim, embora o encaminhamento para as questões da comunidade pareça simples, o estímulo ao trabalho em rede é um desafio enorme. É necessário garantir horizontalidade e dinamicidade entre as instituições e grupos; fomentar espaços de formação política; conhecer o fluxo e a dinâmica das instituições da comunidade; minimamente, garantir que elas tenham tempo, energia e vontade para sair de suas posições já instituídas e se juntarem em rede; entre outros esforços. Pode-se observar que o trabalho de articulação é de extrema importância no andamento das ações, quando se gasta energia a mais nessa etapa – abordando as instituições pesso- almente para argumentar da importância da presença delas e para tirar dúvidas acerca dos encontros; fazendo também ligações telefônicas e contando com o auxílio de supervisora de campo que conhece a comunidade – percebemos resultados melhores, como maior número de pessoas envolvidas, discus- sões mais intensas e reuniões com mais encaminhamentos É necessário salientar que a atuação aconteceu no espaço de quatro meses, o que é tempo insuficiente para observar profundas mudanças. O dispositivo para a rede (curso de formação modular) foi apenas o início, não se poderia ter a pretensão de que, ao final da intervenção, conseguir-se-ia ver a rede fortalecida e gerando frutos de sua organização. A atuação da Psicologia Comunitária se confronta com limites da própria Psicologia – não é uma ciência ou uma categoria profissional que trará transformação social, daí a importância da atuação transdisciplinar e com toda a comunidade para trabalhar em favor do fortalecimento coletivo. Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 115 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva Por isso, a ação consistiu na criação e na implementação de um dispositivo de Educação Popular que incluía rodas de conversa para formação e articulação da rede, mas que acima de tudo, resultaria em um instrumento de participação polí- tica. Política como expressão das diferentes vozes dentro do fazer e conhecer, política que se refere à esfera do público, à emancipação, e como nos relacionamos com outras pessoas, referindo-se ao poder e suas linhas de ação, por isso, deve gerar espaços de expressão daqueles que foram silenciados, mas que agora possa se estabelecer o diálogo. Por isso, a relação dialógica ao gerar um espaço de ação transformadora, cria ao mesmo tempo espaço de ação emancipatória, permitindo a expressão da comunidade e o exercício democrático (MONTERO, 2004). E isso foi pretendido ao longo de todo curso, que cada partici- pante pudesse se tornar um agente ativo de transformação na sua comunidade. Considerações finais É importante observar o compromisso ético-político da atuação, refletindo sobre os limites e possibilidades da intervenção. A experiência de estágio em FC trouxe muitas reflexões sobre a atuação em comunidades de uma forma responsável e comprometida com a mudança. Os psicólogos comunitários são catalisadores das trans- formações sociais, e é justamente isso que se buscou com a atuação em FC, dinamizar a relação entre as intuições que atuam junto à juventude, promover reflexão para produzir mudança. Nesse sentido, a Rede Social é de suma importância, Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 116 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva para ser a multiplicadora de ações. Montero (2004), ao falar sobre a concepção de ética, afirma: passa pelo caráter inclusivodo trabalho comunitário, respeitando as diferenças individuais, com seus membros atuantes e com voz própria, participando da construção em conjunto, por isso, no campo comunitário, fala-se em ética da relação, que vai além do próprio interesse, mas, considera-se o bem comum. Para finalizar, cabe destacar o grande desafio de mobi- lizar a comunidade para participar do projeto, tornando-se necessária uma avaliação sobre as estratégias utilizadas. A metodologia aqui descrita visa voltar-se para a proble- matização da realidade e da própria Psicologia que por muito tempo não chegou às comunidades mais excluídas. Acreditamos em uma Psicologia que esteja voltada para os problemas concretos da população e, mesmo que dentro dos limites do modo de produção capitalista, contribua para produzir sujeitos críticos e de potência para o embate contra o status quo. Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 117 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva REFERÊNCIAS AYRES, J. R. Epidemiologia e emancipação. São Paulo: Hucitec, 2002. ABRAMOVAY, Miriam et al. Juventude, violência e vulnerabilidade social na América Latina: desafios para políticas públicas. Brasília: UNESCO; BID, 2002. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CES nº 5 de 15 de março de 2011. Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia. Brasília, DF: CNE, 2011. BRASILEIRO, Tânia Suely Azevedo et al. Psicologia, diretrizes curriculares e processos educativos na Amazônia: um estudo da formação de psicólogos. Psicologia Escolar e Educacional, v. 14, n. 1, p. 105-120, 2010. FACHINETTO, Rochele Fellini. Juventude e violência: onde fica o jovem numa sociedade sem lugares? In: ALMEIDA, M. G. B. (org.). A Violência na Sociedade Contemporânea. Porto Alegre, RS: EDIPUCRS, 2010. p. 60-72. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 36ª edição. Rio de Janeiro; São Paulo: Paz e Terra, 2014 GONÇALVES, Hebe Signorini. Sentidos da violência. In: GONÇALVES, Hebe Signorini (org.). Infância e violência no Brasil. Rio de Janeiro: Vau Editora, 2003. p. 43-61. Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 118 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva GUZZO, Raquel. Educação para a Liberdade, Psicologia da Libertação e Psicologia Escolar: uma práxis para a Liberdade. In: ALMEIDA, Sandra Francesca Conte (org.). Psicologia Escolar: ética e competências na formação e atuação profissional. Campinas, SP: Alínea, 2006. p. 169-178. JUNQUEIRA, Luciano A. Prates. Intersetorialidade, transetorialidade e redes sociais na saúde. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 34, n. 6, p. 35-45, jan. 2000. Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index. php/rap/article/view/6346/4931. Acesso em: 21 maio 2020. MONTERO, Maritza. Introducción a la psicología comunitária: Desarrollo, conceptos y procesos. Buenos Aires: Editorial Paidós, 2004. NATAL. Conheça melhor o seu bairro: Felipe Camarão. 2009a. Disponível em: http://www.natal. rn.gov.br/semurb. Acesso em: 10 dez. 2013. NATAL. Natal em dados 2009. 2009b. Disponível em: http:// www.natal.rn.gov.br/semurb. Acesso em: 10 dez. 2013. RIBEIRO, Elisa Maria Barbosa Amorim; BASTOS, Antonio Virgílio Bittencourt. Redes sociais interorganizacionais na efetivação de projetos sociais. Psicologia & Sociedade, v. 23, n. 2, p. 282-292, 2011. RIOS, Terezinha Azerêdo. As pessoas que a gente não vê. In: BAPTISTA, Myriam Veras (org.). Abrigo: comunidade de acolhida e socioeducação. São Paulo: Instituto Camargo Corrêa, 2006. p. 15-24. (Coletânea Abrigar, 1). Juventude e Redes de Vida: Articulação e potencialização da rede de proteção social 119 Arthemis Nuamma Nunes de Almeida, Sarah Ruth Ferreira Fernandes, Ilana Lemos de Paiva SOUZA, Cândida de. Na Fronteira da Exclusão: ações de enfrentamento à violência na juventude. 2012. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, 2012. 120 4 Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais Luís Antonio Groppo Lívia Silva Macedo Introdução No Brasil, especialmente a partir dos anos 1990, passaram a chamar muito a atenção um crescente conjunto de ações educacionais que se consideravam distintas das escolares, em geral ligadas ao assim chamado terceiro setor e que, por vezes, se anunciaram como a solução de inúmeras mazelas sociais. Desde então, este conjunto de práticas que vincula o “social” ao “educacional” não parou de crescer e se complexificar. Este texto tem a intenção de colaborar na compreensão dos sentidos destas ações, aqui denominadas como práticas socioeducativas, e suas possibilidades emancipatórias. Trata de pesquisa que, ao focar um município da porção Sul do Estado de Minas Gerais, busca dar continuidade a investigações semelhantes feitas na Região Metropolitana de Campinas/SP. Neste capítulo, é apresentado o processo de pesquisa que permitiu o levantamento de significativas práticas socioeduca- tivas voltadas a jovens e adolescentes de um município do Sul de Minas Gerais, processo que envolveu diversos estudantes em Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 121 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo disciplinas de graduação e Iniciações Científicas. Em seguida, é feita uma análise da lista de ações arroladas, buscando carac- terizar os objetivos destas práticas e seu lugar no campo das práticas socioeducativas. Finalmente, analisam-se entrevistas e observações, feitas pelo pesquisador e por estudantes de graduação, de cinco significativas práticas socioeducativas. Este texto faz parte da pesquisa, que o autor realizou com Bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico), entre março de 2013 e fevereiro de 2016, chamada Juventudes e Educação Sociocomunitária: os jovens das camadas populares e as relações educa- cionais sociocomunitárias e não formais na Região Metropolitana de Campinas. Quando o autor assumiu como professor da UNIFAL-MG (Universidade Federal de Alfenas), em outubro de 2013, decidiu que parte da pesquisa também seria realizada no Sul de Minas Gerais, onde se localiza esta universidade. A pesquisa tinha como tema a participação das juven- tudes nas práticas socioeducativas e/ou de caráter não formal na Região Metropolitana de Campinas e no Sul de Minas Gerais. Seu objetivo era realizar um levantamento inicial e uma caracterização das principais ações educacionais de caráter não formal e práticas socioeducativas que envolvem as juventudes das camadas populares nestas regiões, buscando compreender o sentido destas e suas perspectivas – real ou potencialmente – emancipatórias. Como metodologia, foi reali- zado um levantamento de dados sobre estas ações, a partir de pesquisa bibliográfica e documental. Também, investigações em campo de casos considerados como tendo grande relevância, especialmente por meio de entrevistas com seus gestores e observação de atividades de caráter socioeducativo com jovens. Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 122 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo Este texto apresenta os principais resultados da pesquisa em um município do Sul de Minas Gerais. Ele só foi possível pela colaboração de diversos estudantes de graduação, matriculados em disciplinas que o autor ofereceu ou orientados em Iniciações Científicas, quando aceitaram o convite para participar de investigações em campo que contribuíram para coletar quase todos os dados que são aqui analisados. Procura-se citar o nome de todos os que participaram ao longo do trabalho, como forma de registrar a enorme gratidão deste autor. Antes de apresentar estes resultados, considera-se que é necessário tratar da definição de práticassocioeducativas, do campo das práticas socioeducativas e do paradigma da inclusão social. As práticas socioeducativas são aqui definidas como as ações de caráter educativo que têm a intenção de intervir em problemas sociais vividos por seus educandos. São ações que costumam acontecer fora dos muros escolares, para além dos sistemas formais de ensino. (GROPPO et al., 2013). Estas práticas têm adquirido no Brasil, nos últimos anos, os contornos de um “campo social” (BOURDIEU, 1989). O campo social é um “espaço onde as posições dos agentes se encontram a priori fixadas. O campo se define como o lócus onde se trava uma luta concor- rencial entre os atores em torno de interesses específicos que caracterizam a área em questão” (ORTIZ, 1983, p. 19). Entre as origens do campo das práticas socioeducativas no Brasil devem ser citadas a educação popular e a educação nos movimentos sociais dos anos 1960, que se mantiveram ou se recriaram nos anos seguintes e tiveram grande importância na resistência ao Regime Militar. Elas constituíram diversas ações de caráter educativo não escolar para populações que estavam à parte do mundo escolar, ações que buscavam, sobretudo, Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 123 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo intervir nos problemas sociais enfrentados pelas camadas trabalhadoras urbanas e rurais. Em seu horizonte, a vontade de transformar profundamente as próprias estruturas sociais, injustas e opressoras (BRANDÃO; ASSUMPÇÃO, 2009). Outra fonte importante deste campo se desenvolveu a partir dos anos 1990: a educação não formal. Boa parte da educação não formal foi sustentada, no Brasil, por um crescente “mercado social” composto de organizações não governa- mentais e fundações empresariais. Então, o termo educação não formal parecia adequado para nomear tais intervenções educativas não escolares que primavam pela criatividade dos educadores, pela livre escolha dos educandos e pela flexibilidade de métodos e conteúdos (VON SIMSON; PARK; FERNANDES, 2001). Com a crescente institucionalização deste “mercado social” e a própria formalização de suas práticas educacio- nais outrora “não formais”, por meio de intensa produção de legislações e regulamentações pelo Estado, a educação não formal parece ter perdido a hegemonia neste campo em cons- tituição. Ao mesmo tempo, a concepção dominante no campo das práticas socioeducativas tem sido mais bem definida pela pedagogia social, cuja versão mais recente (SILVA, 2010) tende a adotar o paradigma da “inclusão social”. O sentido do “social” aqui é diverso daquele da educação popular, pois que se trata menos de transformar as estruturas sociais injustas e desiguais e mais de educar o indivíduo ou o grupo “excluído” (ou “em situação de risco”, ou “vulnerável”) para que ele tenha recursos ou condições (ou “capacitações”, ou “liberdades”, ou “capital social e humano”) que o permitam ser “incluído” na sociedade vigente. Sociedade esta que é vista como dada, “natural”, pouco questionada mesmo em sua versão neoliberal contemporânea. Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 124 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo A pesquisa no Sul de Minas Em 2014 e 2015, por meio de práticas investigativas de estudantes de graduação em disciplinas, bem como em atividades de Iniciação Científica, na UNIFAL-MG, uma série de instituições, organizações, projetos ou ações de cunho socioeducativo foi identificada no município do Sul de Minas, escolhido para ser pesquisado. O levantamento de dados sobre práticas socioeducativas contou também com a contribuição de trabalhos de conclusão de disciplina de alguns estudantes de graduação, os quais versaram sobre projetos ou instituições com práticas educativas “não escolares”: a disciplina Antropologia e Educação, para o curso de Pedagogia (em 2014 e 2015); a disciplina Antropologia, para o curso de História (em 2015); e, principalmente, a disci- plina Educação não formal e ciências sociais, para o curso de Ciências Sociais (em 2014). Houve ainda a contribuição da disciplina eletiva Juventude e movimento estudantil, também para o curso de Ciências Sociais (em 2015). Os estudantes matriculados na disciplina Educação não formal e ciências sociais, junto com o professor, revisou o roteiro de entrevistas já aplicado na região de Campinas para gestores de práticas socioeducativas. Pouco foi modificado, na verdade, facilitando inclusive a comparação entre os locais. Foram formados três grupos que realizaram observações e entrevistas com gestores e educadores em três ações ou projetos no município investigado: projeto de formação musical (projeto de extensão de uma universidade pública); projeto esportivo (da Secretaria Municipal de Educação); e ações educativas do CRAS 1. Enfim, na disciplina Juventude e movimento estudantil, também eletiva para as Ciências Sociais, oferecida no 1º Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 125 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo semestre de 2015, apesar de o foco das atividades investigativas dos estudantes ser as organizações juvenis de caráter político, uma das pesquisadas por eles exercia atividades de cunho socioeducativo, o cursinho popular. Contribuiu para o presente trabalho os resultados da pesquisa de Iniciação Científica que orientei, amparada com bolsa PIBIC-CNPq (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Ela foi iniciada por Maria Rita de Lima Figueiredo – que foi muito importante ao acompanhar os estudantes a campo na disciplina Educação Não formal e Ciências Sociais – e completada por Lívia da Silva Macedo, coautora deste texto. Lívia fez um interessante trabalho de análise das entrevistas realizadas pelos estudantes nesta mesma disciplina, a qual contribuiu para a construção deste texto. Práticas socioeducativas no Sul de Minas As práticas socioeducativas identificadas no município pesquisado no Sul de Minas Gerais foram distribuídas em dois quadros. Eles não são exaustivos, especialmente o primeiro, que traz aquelas ações educativas voltadas apenas a crianças – as ações para as faixas etárias distintas da adolescência e juventude não eram o foco da pesquisa. Também, refletem dados momentos destas práticas, que por natureza são voláteis, frágeis e descontínuas, tal qual um retrato de uma paisagem mutante, mas que tenciona trazer algo de fundamental sobre sua constituição e dinâmica. Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 126 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo 1. Fundação empresarial ligada a uma indústria do município, que oferece atividades socioeducativas para crianças de famílias de “baixa renda” de todo o município. 2. Associação beneficente – organização da sociedade civil vinculada à rede socioassistencial do município, com atividades socioeducativas para crianças de famílias “carentes” de um bairro periférico. 3. Projeto com crianças – ação de caráter socioeducativo para crianças mantido por igreja presbiteriana. Quadro 1 - Caracterização das instituições e projetos com práticas socioeducativas apenas para crianças no município pesquisado. Fonte: Groppo (2018). 1. CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) 1 – instituição gerida pela Secretaria Municipal de Ação Social, com práticas para sujeitos e grupos em situação de “vulnerabilidade social”, incluindo adolescentes de famílias que recebem benefícios sociais como o Bolsa Família. 2. CRAS 2 – idem CRAS 1. 3. CREAS (Centro de Referência Especial da Assistência Social) do município – instituição gerida pela Secretaria Municipal de Ação Social, com práticas para sujeitos e grupos com situações de “risco social” de média e alta complexidade. 4. Projeto esportivo – projeto voltado a práticas esportivas mantido pela Secretaria Municipal de Educação,com diversas unidades pelo município. Foi pesquisada uma unidade em um bairro periférico, o “Núcleo”. 5. Centro profissionalizante – organização da sociedade civil apoiada pela Prefeitura Municipal que oferece práticas socioeducativas para crianças e cursos a distância em caráter não escolar de cunho profissionalizante para adolescentes e adultos. 6. Centro de Convivência – mantido pela Prefeitura Municipal, com práticas socioeducativas para portadores de sofrimento mental encaminhados pelo CAPS (Centro de Apoio Psicossocial) e por outros. 7. APAE (Associação de Pais e Amigos do Excepcional do município) – organização da sociedade civil, que atende 150 estudantes com deficiência intelectual em práticas socioeducativas e terapêuticas. Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 127 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo 8. Cursinho Popular – núcleo de Rede de cursinhos populares, oferecidos gratuitamente a jovens estudantes das camadas trabalhadoras. 9. Curso de formação política – projeto de extensão realizado entre 2013 e 2015 por uma universidade pública, com atividades socioeducativas de formação política voltadas a militantes de movimentos sociais no Sul de Minas Gerais. 10. Projeto de formação musical – projeto de extensão realizado por uma universidade pública, com práticas não formais de educação musical para adolescentes e jovens do município, não necessariamente estudantes da universidade. 11. Movimento negro – entre as diversas atividades culturais do grupo, incluem-se atividades educativas não formais de artes marciais e danças para adolescentes e jovens. 12. Projeto educativo – atividades educativas não formais de artes marciais e danças para adolescentes e jovens de regiões periféricas do município, cujos coordenadores são ligados a uma igreja evangélica. 13. Escola Dominical – atividades não formais de educação religiosa oferecida por uma igreja pentecostal para adolescentes e adultos. Quadro 2 - Caracterização das instituições e projetos com práticas socioeducativas que envolvem adolescentes e jovens no município pesquisado. Fonte: Groppo (2018). Trata-se, portanto, de 16 atividades no total. A maioria das ações, projetos ou instituições têm cunho socioassistencial, ou seja, ações de caráter socioeducativo voltadas à inclusão social de populações consideradas como “excluídas”, em suas diferentes terminologias, como “vulneráveis”, em “situação de risco”, de “baixa renda”, “pobres”, “periféricas” etc. São as três atividades do Quadro 1 e as ações 1, 2 e 3 do Quadro 2. Há também ações voltadas a esportes e/ou lazer que têm uma intencionalidade fortemente socioassistencial, ainda que não Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 128 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo estejam ligadas à rede socioassistencial do município: são as atividades 4 e 12 do Quadro 2. Das oito ações de caráter socioassistencial, quatro são geridas diretamente pelo governo municipal: três pela Secretaria de Ação Social (atividades 1 a 3 do Quadro 2) e uma pela Secretaria de Educação e Cultura (atividade 4 do quadro 2). As outras quatro podem ser classificadas como projetos da “sociedade civil”, sendo que apenas a atividade 2 do Quadro 1 faz parte da rede socioassistencial do município. A atividade 1 do Quadro 1 é uma fundação empresarial, favorecida por deduções no Imposto de Renda da empresa que a mantém. As atividades 3 do Quadro 1 e 12 do Quadro 2 não recebem subsídios públicos e ambas têm ligação direta ou indireta com igrejas. Todas estas atividades têm se enquadrado no que chamo de paradigma hegemônico no campo das práticas socioeducativas, que visa a “inclusão social” dos “excluídos”. É o caso também das duas ações relacionadas à saúde mental e à inclusão de deficientes, a 6 (Centro de Convivência) e a 7 (APAE) do Quadro 2. Quanto às demais seis atividades identificadas, todas do Quadro 2, elas permitem vislumbrar certa diversificação do campo das práticas socioeducativas, ao lado de outras possibilidades, que não se enquadram estritamente no paradigma hegemônico. Este é o caso principalmente das ações 8 e 9, as mais hete- rodoxas em relação ao paradigma hegemônico da “inclusão dos excluídos”: o cursinho popular e o curso de formação política. O cursinho popular oferece gratuitamente aos sábados, em uma escola pública estadual, um cursinho popular prepa- ratório aos exames de seleção ao ensino superior, mas com atividades políticas muito marcantes, incluindo a própria contestação ao modelo vigente de acesso ao ensino superior. A Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 129 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo Rede que mantém estes cursinhos se vê como um movimento social e seus militantes se identificam com ideologias da esquerda, que por isto consideram parte de seu trabalho educa- tivo tematizar questões políticas nas atividades do cursinho, fundamentando-se na pedagogia de Paulo Freire. O curso de formação política é um programa de extensão universitária abrigado por uma universidade pública, que ofereceu o curso em duas ocasiões desde 2013. É formado por um coletivo coordenado por professores dessa universidade, identificados com uma tendência política de esquerda, e formado principalmente por estudantes universitários que são militantes de movimentos sociais. O curso busca oferecer formação política para militantes de movimentos sociais, sindicatos e outras organizações identificadas com ideologias esquerdistas atuantes no Sul de Minas Gerais. Ambos, o cursinho popular e o curso de formação política, têm trazido ou mantido, neste campo das práticas socioeducativas, muito da concepção da educação popular que, outrora, concebia os objetivos de uma educação que intervinha socialmente de modo diverso ao da “inclusão dos excluídos”. O “social” era, há um tempo, a consciência sobre as desigualdades socioeconômicas vigentes e a mobilização sociopolítica em prol da transformação desta sociedade injusta. Apesar de identificarmos anteriormente 2 atividades ligadas a esportes e cultura que tinham objetivos mais propria- mente voltados à “inclusão dos excluídos”, outras 2 ações não se vinculam direta e estritamente ao paradigma da inclusão social: as ações 10 e 11 do Quadro 2. A ação 10, o projeto de formação musical, é, assim como o curso de formação política, uma ação extensionista da universi- dade pública que não atinge apenas estudantes universitários. Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 130 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo Ao se abrir à comunidade externa, busca atender ao ideal exten- sionista de intervenção “social”, e por isto vincula-se ao menos em parte ao campo das práticas socioeducativas. Contudo, ao prezar pela prática musical como “fim em si mesmo”, não como forma de “inclusão social” (por exemplo, apregoando que deste modo “afasta os jovens do perigo das ruas”), o projeto de formação musical não se vincula imediatamente ao paradigma dominante neste campo, voltando-se ao objetivo mais estrito da qualificação artística de seus educandos. A ação 11, o movimento negro, segundo relatos de seus militantes e colaboradores, tem transitado de uma concepção mais assistencialista e despolitizada para uma concepção mais politizada e voltada à luta pela ampliação e reconhecimento dos direitos da população negra. Desse modo, suas práticas socioeducativas também têm transitado daquela concepção hegemônica para outra que pode se aproximar daquelas obser- vadas no cursinho popular e no curso de formação política. Há ainda 2 ações que não se vinculam facilmente ao paradigma da inclusão social e ao modelo socioassistencial dominante no campo das práticas socioeducativas: a 5 (centro profissionalizante) e a 12 (escola dominical). É discutível incluí-las mesmo no campo das práticas socioeducativas, por diferentes motivos, apesarde ambas serem práticas de educação não formal. O centro profissionalizante está voltado à formação profissional, podendo vir a fazer parte deste outro campo educacional em formação, o da educação técnico-profissional. A escola dominical, como outras que devem existir no município do Sul de Minas Gerais, e não foram levantadas pela pesquisa, é uma prática tradicional de educação religiosa voltada a fiéis de igrejas protestantes, cujo objetivo patente é a formação dos seus fiéis e mesmo a atração de novos membros. Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 131 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo A análise destas listagens permite concluir que, neste local, assim como observado na pesquisa de campo na região de Campinas/SP (GROPPO et al., 2013; GROPPO, 2015), o campo das práticas socioeducativas tem adquirido um contorno típico. Primeiro, predominam as ações de caráter socioassisten- cial. Mas há uma distinção entre o município do Sul de Minas Gerais e a região de Campinas neste aspecto. Esta distinção tem a ver com o maior avanço na região de Campinas da institucionalização da rede socioassistencial, em acordo com a legislação mais recente da Assistência Social. Na região de Campinas, a grande maioria das práticas socioeducativas de caráter socioassistencial é oferecida por instituições ou orga- nizações da sociedade civil que recebem recursos públicos, vinculando-se às redes municipais de assistência. No município do Sul de Minas, quatro ações são geridas diretamente pelo poder público municipal. As outras quatro, vindas da sociedade civil, não se vinculam à rede socioassistencial, não recebendo recursos públicos. Segundo, o predomínio de concepções socioeducativas orientadas pelo paradigma hegemônico da “inclusão dos excluídos”. Este predomínio é patente nas ações geridas pelo poder público, mas também é forte nas ações vindas de organizações da sociedade civil, demonstrando a penetração e hegemonia do paradigma. Terceiro, a diversidade dos tipos de ação e das organiza- ções ou instituições que as abrigam. Esta diversidade ilustra a própria colagem de camadas históricas no que se refere às práticas socioeducativas no Brasil. Há práticas ligadas à caridade cristã mais tradicional, outras à filantropia empre- sarial, outras às concepções socioassistenciais mais recentes (reconhecidas pela legislação da Assistência Social). No que se Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 132 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo refere aos esportes e à cultura, as intervenções socioeducativas podem simplesmente fazer uso delas como recurso ou meio para outro fim, que não ao próprio rendimento esportivo ou à fruição cultural, em especial a “inclusão social”. Mas pode haver práticas que concebem o esporte e a cultura como fins em si mesmos, preocupados acima de tudo com o rendimento de seus educandos, como a projeto de formação musical. Ou, então, como forma de valorizar o adolescente e o jovem afro-brasileiro, como o movimento negro. Quarto, o predomínio de práticas socioeducativas voltadas à faixa etária adolescente da juventude (15 a 17 anos), normalmente em instituições ou mesmo projetos não exclusivos, em que adolescentes e crianças são contemplados. Isto é mais típico das organizações e práticas de cunho socioassistencial. Indicam a dificuldade de o campo pensar e praticar práticas socioeducativas específicas aos jovens, principalmente a partir dos 18 anos. Também, de conceber como diferenciados, com características e demandas próprias, os educandos crianças e jovens. Quinto, e enfim, a possibilidade de práticas socioeduca- tivas contra-hegemônicas. Nos três municípios pesquisados na região de Campinas, a contra-hegemonia foi apenas latente. No Sul de Minas, em contrapartida, estas práticas contra-he- gemônicas tiveram presença significativa. Ambas as práticas, o cursinho popular e o curso de formação política, tiveram a universidade pública como importante base de apoio institu- cional e a principal fonte de seus integrantes. Isto já indica a importância de instituições de formação e intervenção social como as universidades públicas para o desenvolvimento de práticas diversas em relação ao padrão, abrigando a criatividade Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 133 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo e a inovação. Não à toa, nos municípios investigados na região de Campinas, não havia universidades públicas. As entrevistas e as entrevistadas Após o levantamento de dados sobre projetos, instituições e/ou organizações governamentais e não governamentais que ofereciam práticas socioeducativas para adolescentes e jovens, foi feita a revisão do roteiro da entrevista para gestores e educa- dores já aplicado na região de Campinas, em discussão com o coletivo de estudantes matriculados na disciplina Educação não formal e ciências sociais. Em seguida, foram realizadas as entrevistas com gestores de algumas das ações localizadas. O roteiro utilizado para as entrevistas, com 22 questões, focava as concepções de jovem e juventude segundo o entrevistado, principal aspecto aqui analisado. Mas também trazia questões que permitiram identificar melhor as ações, seus educandos e educadores, relevantes também neste texto. Na pesquisa de campo no município do Sul de Minas, os gestores receberam bem os pesquisadores, alguns inclusive tendo participado de reuniões do Grupo de Estudos sobre a Juventude, projeto de extensão que coordeno na UNIFAL-MG. Tanto instituições não governamentais quanto governamentais parecem considerar a pesquisa como uma possibilidade de dar maior publicização às suas ações. Apenas uma instituição, uma fundação empresarial, dificultou a realização de investigações. Como se anunciou na introdução, tratam-se de pesquisas de campo sobre as juventudes que focam os adultos educadores. Como o autor deste capítulo identifica-se como um adulto pesquisando sobre as juventudes, considerou-se que sua contribuição maior seria fazer a análise crítica dos discursos dos adultos e de suas instituições sobre os jovens. Desejava averiguar e compreender que imagens, noções, conceitos e Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 134 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo preconceitos sobre os jovens e as juventudes circulam por entre as práticas e as falas dos que se colocam como administradores de práticas socioeducativas para adolescentes e jovens em nosso país. Contudo, uma das entrevistadas aqui era jovem (a coordenadora pedagógica do cursinho popular), e suas falas serviram como interessante contraponto às demais entrevis- tadas, como se verá. As cinco práticas socioeducativas que tiveram seus gestores, na verdade, gestoras, entrevistadas foram escolhidas pelos estudantes junto com seu professor orientador, autor deste texto. Quatro delas na disciplina Educação não formal e ciências sociais, oferecida no 2º semestre de 2014. Uma delas na disciplina Juventude e movimento estudantil, no 1º semestre de 2015. Esta última, o cursinho popular, teve uma de suas coordenadoras entrevistadas com um roteiro em parte dife- rente daquele exposto, mas entre as questões estavam aquelas relacionadas às concepções de jovem e juventude, que serão analisadas aqui. As práticas socioeducativas que foram alvo de entrevistas conseguem abarcar parte da diversidade apresentada no item anterior. Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 135 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo a. CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) Entrevistada: assistente social e coordenadora, que há dois anos trabalha neste CRAS. Entrevistadores: Josimar Souza Silva, Maria Rita de Lima Figueiredo, Thais Caroline Ávila. b. Projeto esportivo. Entrevistada: psicóloga e coordenadora geral do projeto há 3 anos. Entrevistadores: Alice Carolina, BríssiaMarques, Jádina Dias Santos, Larissa Goulart, Lívia Macedo. c. Núcleo – ligado ao projeto esportivo. Entrevistada: pedagoga e coordenadora, que há dois anos trabalha no Núcleo. Entrevistadores: Josimar Souza Silva, Maria Rita de Lima Figueiredo, Thais Caroline Ávila. d. Projeto de formação musical. Entrevistada: coordenadora do projeto e professora da universidade pública. Entrevistadores: Edmar Soraggi, Enzo Goussain, Larissa Silveira, Rienny Gianasi, Rodolfo Vieira. e. Cursinho popular. Entrevistada: estudante de pedagogia e coordenadora pedagógica do Cursinho no Sul de Minas Gerais. Entrevistadores: Ana Thereza Magalhães, Bríssia Marques, Bruna Schio, Isabella Silveira, Maria Cesione Damasceno. Quadro 3 - Práticas socioeducativas que tiveram gestora entrevistada. Fonte: Groppo (2018). Estas práticas já foram caracterizadas no item anterior, mas é bom recordar alguns pontos e acrescentar outros. As três primeiras são ações geridas pelo poder público municipal, o CRAS 1 pela Secretaria de Ação Social, o projeto esportivo e o Núcleo pela Secretaria de Educação e Cultura. O projeto de educação musical é um projeto de extensão universitária, coordenado por professores de uma universidade pública, promovendo a formação musical. A Rede de Cursinhos Populares tem como coordenadora geral uma professora da mesma universidade, mas apenas no início de 2016 o cursinho passou a se ligar formalmente à universidade como um projeto de extensão, depois de já ter realizado a primeira edição em uma escola pública estadual em 2015, principalmente por meio Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 136 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo de estudantes universitários que são militantes da Rede, como sua coordenadora pedagógica, que foi a entrevistada. Chama a atenção que todas as gestoras entrevistadas são mulheres. As quatro primeiras são profissionais já com alguma formação universitária completa. Apenas a coordenadora pedagógica do cursinho popular é uma estudante universi- tária, como quase todos os militantes desta organização que se caracteriza como um movimento social. Semelhante às práticas socioeducativas na região de Campinas, bem como em outras áreas do país em que o campo das práticas socioeducativas mais se institucionalizou, trata-se de um setor do mercado de trabalho importante para mulheres profissionais formadas em assistência social, psicologia e pedagogia, entre outras áreas. Ao mesmo tempo, é um campo profissional em que é muito ampla a presença de voluntários e estagiários. Menos comum é a atuação destes que se identificam como militantes, como é o caso do cursinho popular. No caso do projeto de formação musical, há a presença importante de estudantes bolsistas, assim como em outros projetos de extensão universitária. Esta conjunção entre condições de trabalho diversas, que vão do emprego formal de profissionais (especialmente na gestão e coordenação de atividades) ao uso de diversas formas de mão de obra não empregada formalmente, remunerada (com bolsa para estágio) ou não remunerada (voluntários sem bolsa e militantes), é outra característica forte do campo das práticas socioeducativas. A rigor, este campo não se distingue de outros setores do mundo do trabalho, em que a tendência é uma justaposição entre categorias empregadas formalmente e outras em situações precarizadas ou “flexíveis” de trabalho. Provavelmente, seu principal diferencial é o amplo uso de mão de obra voluntária – com bolsa ou sem, na condição de estagiário Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 137 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo ou não – que costuma ser o principal esteio laboral do campo das práticas socioeducativas. Muitos destes trabalhadores voluntários, apesar da retórica da boa vontade e de que estão oferecendo um tempo para “contribuir com o outro”, fazem uso desta atuação para melhorar seu currículo ou adquirir alguma prática laboral que os qualifique antes de ingressar como profissional formado no mercado de trabalho. Quanto aos profissionais empregados formalmente, de modo seme- lhante ao campo da educação escolar no Brasil, em boa parte são mulheres que recebem remuneração pior em comparação com outros campos que empregam profissionais formados com curso superior. O projeto de formação musical e o cursinho popular destoam um pouco desta caracterização. O projeto de formação musical por ter como coordenadora uma professora da própria universidade pública, que atua na extensão universitária na promoção de uma educação musical de modo não formal. Na verdade, a coordenadora geral da Rede de cursinhos no Sul de Minas também é uma docente desta universidade, mas até então o seu trabalho nesta Rede não se vinculava formalmente à universidade, mas apenas à sua militância política. A distinção da Rede, até então, era a de que seus membros não se caracte- rizam como “voluntários”, nem faziam uso da retórica da “boa vontade” ou da “inclusão dos excluídos”. Antes, viam-se como militantes de uma causa sociopolítica: o direito ao acesso de todos à educação superior. Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 138 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo As práticas socioeducativas observadas Por meio das entrevistas e de algumas observações em campo, foi possível descrever mais sobre os objetivos declarados e as práticas socioeducativas tratadas anteriormente. Em relação ao CRAS 1, trata-se de uma unidade pública estatal, gerida pela administração municipal, mantida prin- cipalmente com recursos federais, previstos pela legislação nacional da Assistência Social. Tal como outros CRAS em todo o país, deve se localizar em áreas ditas de vulnerabilidade social, atuando com famílias e indivíduos “[...] com finalidade de fortalecer a função protetiva da família, prevenir a ruptura dos seus vínculos, promover seu acesso e usufruto de direitos e contribuir na melhoria de sua qualidade de vida” (BRASIL, 2009, p. 6). Entre as atividades oferecidas, estão aquelas ligadas ao Serviço de Fortalecimento de Vínculo, estruturadas em grupos normalmente divididos por faixas etárias, incluindo os adoles- centes nas faixas de 6 a 15 anos e adolescentes e jovens de 15 a 17 anos. Nestes grupos, profissionais em serviço social, psicologia e outros campos, fazem dinâmicas com os adolescentes e jovens, com orientações a respeito de temas como saúde, trabalho, família etc. Os adolescentes e jovens são encaminhados pelo Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF) e são oriundos de famílias que estão cadastradas no Cadastro Único para Programas Sociais (CADÚNICO), sendo a maioria beneficiária do Programa Bolsa Família. O projeto esportivo, por sua vez, adotou novo nome em 2013, renomeando ação anterior, por conta de ter assumido o município uma nova gestão. Mas, segundo os relatos da coor- denadora geral, poucas foram as mudanças nas diretrizes do projeto. O projeto, gerido pela Secretaria Municipal de Educação Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 139 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo e Cultura, contando com a colaboração da Secretaria de Ação Social, era composto em 2015 por seis núcleos em bairros diferentes. Ele atendia cerca de 3.200 pessoas, destacando-se as 1.336 crianças das creches do município, nas quais há um projeto com psicomotricidade efetuado por dois educadores. Havia dois educadores voluntários e cerca 30 educadores contratados para atividades relacionadas a esporte e cultura, por meio de parcerias com as creches e escolas públicas. A coordenadora geral do projeto esportivo afirma que o principal objetivo do projeto é ocupar as crianças e os jovens, tirá-los da rua, onde a droga e o crime estão presentes. Ainda, oferecendo atividades esportivas e culturais, o projeto e os educadores estariam criando, nos jovens, nova visão de mundo. Complementaainda, dizendo: “O projeto é um projeto de inclusão social. É mais do que isso, a gente quer levar oportunidades para essas crianças, muitas vezes são as únicas oportunidades que elas têm.” Também são citados como obje- tivos a melhoria da socialização e do desempenho escolar das crianças e adolescentes que estudam nas escolas municipais. O Núcleo, uma das seis unidades do projeto esportivo, oferece especificamente atividades para crianças e adolescentes, em média 50. O dia com maior comparecimento é aquele em que é oferecida oficina de futebol. Mas além dela, são oferecidas oficinas de dança e xadrez, além de atividades recreativas. De modo semelhante ao relato da coordenadora geral, a coordenadora do Núcleo em seu relato afirmou que os principais objetivos da instituição são: “Tirar os meninos das ruas e tentar ajudar a diminuir a evasão escolar, porque para participar aqui tem que estar na escola”. (Entrevista concedida pela coordenadora do Núcleo) Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 140 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo O projeto de formação musical é um projeto de extensão universitária da universidade pública que foi criado em 2009, com a intenção de ser um espaço para que alguns músicos eruditos do município pudessem ensaiar e dar continuidade a um projeto de música de câmara outrora mantido pela admi- nistração municipal. Mas a ideia evoluiu para o objetivo de que o projeto fosse tempo e lugar para educação musical, tanto para músicos iniciantes quanto para qualquer um interessado em aprender um instrumento. Em 2015, o projeto envolvia cerca de 30 pessoas, de dentro e fora da universidade, incluídos na categoria músicos aprendizes, músicos colaboradores e músicos monitores. Além das aulas aos aprendizes, ministradas pelos monitores, os músicos se organizam em uma Orquestra Experimental e em uma orquestra de câmara, que realizam apresentações em eventos dentro e fora da universidade. A Rede de cursinhos apresenta-se como um movimento social de cursinhos populares que têm como focos de atuação o acesso à universidade e à educação pública de qualidade. Atuando em diversos núcleos em alguns estados do país, como no Sul de Minas, os cursinhos ofertados aos estudantes das classes trabalhadoras, como assim o movimento denomina os seus educandos, busca preparar os jovens do ensino médio não apenas para os vestibulares e para o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), mas também para a vida universitária. Também, se problematizam as condições simbólicas e materiais de permanência na educação superior e se advoga a ampliação e mesmo a universalização do acesso e permanência na educação superior pública de todos aqueles que assim quiserem. As atividades dos cursinhos populares desta Rede costumam se dividir em três momentos: as aulas das disci- plinas, o tempo livre e o círculo. O tempo livre e o círculo são Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 141 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo considerados como espaços imprescindíveis para a formação do jovem educando e são considerados pelos militantes como as marcas diferenciais destes cursinhos. O tempo livre é destinado para o descanso, interação entre educandos e educadores e para atividades culturais e de lazer. O círculo toma por base a concepção de Paulo Freire de círculo de cultura, quando se propõe um diálogo e reflexão sobre temas sociais e políticos contemporâneos – tal qual os temas geradores propostos por Freire (2004). O momento do círculo pode ser também usufruído para assembleias em que os estudantes debatem sobre o anda- mento do cursinho, fazendo críticas e propostas. Nesse sentido, a Rede de cursinhos populares advoga ser também um espaço de formação política, não apenas de preparação para os exames seletivos à educação superior. Esse cursinho popular no Sul de Minas foi trazido por uma docente da universidade pública no município investigado, que formou um núcleo com estudantes desta mesma univer- sidade, os quais realizaram diversas atividades de formação e atos políticos no interior dela ao longo de 2014. Em 2015, a partir de abril, os integrantes do grupo passaram a oferecer, aos sábados, o cursinho popular em Escola Estadual. A aula inicial foi assistida por 120 estudantes, vindos, em sua maioria, das escolas de ensino médio do município. Concepções de jovem e juventude Gostaríamos de fazer uso aqui das mesmas tipologias sobre as imagens e concepções de juventude aplicadas outrora, para tratar dos gestores das práticas socioeducativas na região Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 142 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo de Campinas (GROPPO, 2015). Estas tipologias se baseiam nos trabalhos de pesquisadores brasileiros da juventude, espe- cialmente Juarez Dayrell (2002, 2003), inspirado em sociólogos franceses como Alain Touraine e François Dubet (ver também GEBER, 2010). O Quadro 4 trata das imagens de jovens mais presentes no senso comum e nas políticas públicas. Segundo Dayrell (2003), as imagens a, b e c costumam ser generalizadoras e descontextua- lizadas, portanto, limitadas no que se refere à compreensão da diversidade dos modos de viver a condição juvenil. Com base em Touraine (1998), é proposta, como contrapartida, a concepção do jovem como “sujeito social”. a) Juventude como transição – imagem que tem o risco de negar o presente e as condições atuais dos jovens, focando a sua futura condição como adultos. b) Visão romântica da juventude – risco de reduzir a condição juvenil ao campo do lazer e cultura. c) Juventude como crise e conflito – risco de naturalizar questões psicológicas que também têm condicionamentos sociais e históricos. d) Juventude como naturalmente “militante” – risco de desconsiderar os limites da atuação social e política dos jovens e culpabilizá-los pelo “fracasso” em mudar a sociedade. e) Vinculação do jovem à violência – criação de estereótipos, especialmente contra o jovem pobre e negro, bem como desconsideração dos dados que indicam que são justamente estes jovens as maiores vítimas da violência. f) Jovem como sujeito social – imagem que valoriza a possibilidade de ação autônoma do jovem na busca de resolver seus problemas e construir projetos de vida, mas que demanda que sociedade e Estado fomentem recursos e habilidades que contribuam para esta atuação social da juventude. Quadro 4 - Tipologia das imagens de juventude segundo J. Dayrell. Fonte: Dayrell (2003) e Geber (2010). Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 143 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo Também é interessante trazer a tipologia criada por Furiati (2010). Ele apresenta 9 formulações conceituais de juven- tude em torno de 3 matrizes discursivas, expostas no Quadro 5, que ajudam a complementar o Quadro 4. Matriz Juventude como condição transitória: 1. Transição para a vida adulta (valorização do futuro e da condição adulta). 2. Culturas juvenis (foco nos modos de viver e nas formas culturais próprias criadas pelos jovens, mas que têm caráter transitório). 3. Transições plurais (reconhecimento de que a passagem para a idade adulta se tornou mais difícil no capitalismo flexível atual, de que a passagem pode se dar em um aspecto antes de outros e pode ser reversível). Matriz Juventude como problema e ameaça social: 4. Problema da modernidade (transgressão das normas sociais por meio de grupos juvenis desviantes). 5. Mudança social (jovem geração como motor da transformação social). 6. Vulnerabilidade e risco social (perigo de os jovens pobres sofrerem processos de exclusão social). Matriz Juventude como solução social: 7. Formulação Etária (juventude como oportunidade demográfica: na atualidade, tem-se um grande contingente de jovens [em idade ativa ou produtiva], enquanto o futuro terá mais idosos e o século XX teve mais crianças). 8. Empoderamento Juvenil(concepções do jovem como agente estratégico de desenvolvimento e do protagonismo juvenil, entre outros). 9. Cidadania ativa (jovem como sujeito de direitos). Quadro 5 – Matrizes discursivas e formulações conceituais de juventude segundo N. Furiati. Fonte: Furiati (2010). É importante citar que as noções de jovem e juventude propostas por sociólogos da juventude como Dayrell costumam articular a ideia do jovem como sujeito social às Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 144 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo formulações discursivas 3 e 9 citadas no Quadro 5: transições plurais e cidadania ativa. Consideram-se estas imagens e matrizes como tipos ideais, no sentido advogado por Weber (1995). Para ele, trata-se de um artifício intelectual que em raras ocasiões aparece na realidade concreta de modo “puro”. O tipo ideal é instrumento útil, no entanto, para a compreensão e análise da realidade social, permitindo captar o sentido ou sentidos predominantes nas ações sociais. É claro, na vida cotidiana mais imediata, indivíduos e organizações combinam diferentes discursos, formulações e matrizes, ou seja, suas práticas fazem uso de fontes valorativas diversas e até contraditórias entre si. Não à toa, costuma ser diferente o que é legitimado ou advogado oficialmente em relação ao que é efetivado no dia a dia por sujeitos e institui- ções. Inclusive, pode haver uma discrepância entre o discurso oficial que ilustra uma política pública e o próprio sentido desta política – no que se trata da juventude, isto não é diferente. O recurso aos tipos ideais contribui, afinal, não apenas para compreender o sentido predominante de uma dada esfera de ações sociais, mas também para perceber sentidos divergentes e até mesmo os que anunciam transformações. A questão mais reveladora sobre as concepções de juven- tude nas entrevistas feitas é, justamente “O que é ser jovem para você?”. Em relação a este questionamento, as respostas foram as seguintes: Ser jovem é querer conhecer as coisas, ter ambição e curiosi- dade sobre o mundo, querer descobrir. No entanto, ser jovem também é ser displicente, ser muito afoito; isto leva o jovem a andar por caminhos errados. Acabam se descontrolando e Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 145 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo entrando para o mundo das drogas, da criminalidade ou tendo problemas com a sexualidade (coordenadora do CRAS 1). Ser jovem é estar em plenitude, é o início de uma vida mais consciente, desfrutando-a com toda vitalidade. É a melhor fase da vida, quando se tem saúde, consciência, e tudo é belo e maravilhoso, sendo o jovem um ser iluminado (coordenadora do projeto esportivo). Ser jovem para eles (ela destacou que responderia o que é ser jovem para os “meninos do projeto”) é estar na moda, poder estar onde gostam, fazer as atividades que gostam. Normalmente eles agem em conjunto, são conduzidos pela “febre do momento”. Se um aparece com um pulseirinha, todos começam a fazer e dali a pouco estão todos usando, trocando ou competindo para ver quem tem a mais bonita (coordenadora do Núcleo). Acho que é viver com toda a potencialidade da idade, é ter energia e esbanjar criatividade. É a essência da vida, viver e fazer acontecer as coisas (coordenadora do projeto de formação musical). Nossa! Não sabia que ia ser difícil assim... Ser jovem... gente! Nossa, isso para mim tem relação com muita coisa. Porque eu estou em um movimento da juventude, mas eu já estive em outros movimentos, como de religião, e é muito complicado porque, nos outros grupos em que eu participei, ser jovem é ter responsabilidade e tal. É ser reprimido o tempo todo... Mas, eu não sei... Acho que ser jovem é... estar no caminho... Para mim é como se fosse uma fase, uma ponte, sabe? Você está apren- dendo, decidindo as coisas. Tem sim, muita responsabilidade. Eu acho que é uma fase muito difícil, mas eu a vejo como um caminho. Uma fase de escolha, de decisão. Acho que é isso! (coordenadora pedagógica do cursinho popular). Percebe-se que as respostas ativam uma série das imagens ou concepções de juventude descritas nos Quadros 3 e 4. Ao se fazer a leitura dos dados de acordo com as concepções de Dayrell, preocupa a presença pequena da noção de juventude como sujeito social. Abundam, sim, as imagens mais limitadas Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 146 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo e limitadoras de juventude. Destaca-se a noção romântica e romantizadora da juventude, especialmente quando as quatro primeiras entrevistadas relacionam os jovens à moda, “fazer o que se gosta”, vitalidade, “iluminação” e energia. Também é típico o recurso retórico de, depois de elencar os aspectos supostamente positivos da juventude – justamente, a imagem romantizada dela –, tratar de aspectos ditos negativos, quando se convoca a imagem do jovem como problema. Isto é marcante na fala da gestora do CRAS, que elenca os três “perigos” da juventude: a criminalidade, as drogas e os “problemas com a sexualidade”. O cultivo de imagens limitadoras sobre a juventude não explica por si só as limitações das práticas socioeducativas para jovens. Ou seja, o cultivo desta retórica, que vai da imagem romântica da juventude à concepção do jovem como problema social, não leva automaticamente a prática ou instituição à adoção do paradigma da “inclusão social”. É que, nestes quatro casos, há pelo menos uma exceção, o projeto de formação musical. Contudo, a tendência de que estas imagens de juven- tude e o paradigma da “inclusão social” se complementem é forte, como indica também a pesquisa na região de Campinas. Retomar dados tratados antes, ao lado de outros levantados pelas entrevistas, ajuda a discutir tal possível correlação. Inicialmente, discuto a exceção. Apesar de a gestora do projeto de formação musical incorrer nas mesmas imagens limitadoras de juventude, isto não levou automaticamente o projeto que coordena a adotar o paradigma da “inclusão social”. Primeiro, a própria coordenadora admite que sua função é exercida mais de modo formal do que concreto, pois a condução do grupo no dia a dia fica muito mais a cargo dos músicos monitores, alguns experientes músicos externos à universidade, outros estudantes da própria universidade. Segundo, porque Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 147 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo o projeto muito cedo se adequou à exigência de, por ser um serviço público, estar aberto a todos os interessados. De espaço a princípio criado para abrigar certos músicos eruditos do município, se tornou um projeto de educação não formal para jovens músicos e aprendizes, com tom “universalista” e não como ação social destinado a público específico e vulnerável (que é o caso do CRAS e, em parte, do projeto esportivo e do Núcleo). O ambiente universitário, público e “erudito” levou a que o projeto, a menos até o momento, tenha como objetivo o cultivo da arte musical como “fim em si mesmo”. O aprendizado de um saber complexo, que exige treinamento aprofundado e rigoroso, em prol do domínio de um instrumento, é o objetivo desta educação musical não formal. Não se faz da música uma “ferramenta para a inclusão”, ou meio de “tirar os jovens das ruas”. Isto distingue o projeto de formação musical de boa parte das práticas socioeducativas que lidam com artes e com esportes, cuja meta inclusivista tem justificado a oferta de cursos, oficinas e projetos precários, frágeis e distantes da promoção do direito à cultura, ao lazer e aos esportes. (SPÓSITO, 2008). Em relação às principais tendências das práticas socioe- ducativas, mais bem expressas no município investigado pelas três práticas anteriores que são mantidas pelo poder público municipal, podem ser vários os motivos da associação entre as imagens limitadoras da juventude– especialmente a visão romântica e a do jovem problema – e o paradigma da inclusão social. A imagem do jovem problema é bastante presente nas ações de caráter socioassistencial, inclusive nos termos oficiais que descrevem as populações com que lidam, “em situação de vulnerabilidade” e “de risco”. Esta imagem reforça os perigos, riscos e vulnerabilidades em que vivem os jovens das classes trabalhadoras. O paradigma da inclusão social tende a Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 148 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo considerar que as causas disto estão nas fragilidades sociocul- turais destas populações, a serem superadas especialmente por um trabalho socioeducativo que lhes forneceria capacitações, habilidades e competências. Estas aquisições tornariam possível a passagem da situação de “exclusão” à de “inclusão”. Quanto à imagem romântica do jovem, ela tende a valo- rizar qualidades supostamente naturais e universais a todos os jovens, a saber, sua vitalidade, criatividade e disposição, as quais poderiam ser cultivadas pelos educadores, de modo a ser ponto de acesso ao aprendizado daquelas habilidades necessá- rias à sua “inclusão”. Nesse sentido, soma-se às imagens estereotipadas sobre os jovens, que pouco ajudam a compreender os jovens reais, uma noção de inclusão social que foca apenas as supostas carências, faltas e falhas das populações ditas excluídas e que transforma o trabalho educativo e assistencial em uma “missão civilizatória”. Estas concepções estereotipadas, reducionistas e mesmo elitistas da realidade social talvez ajudem a explicar o fato de que, em parte importante de suas entrevistas, as gestoras destas três ações municipais, especialmente a do CRAS e a do Núcleo, enfatizaram o que seria a incompreensão da população atendida sobre os objetivos do trabalho socioassis- tencial realizado. A ignorância e o suposto excesso de direitos, sem as devidas contrapartidas, seriam, segundo os discursos delas, responsáveis pelo fracasso das práticas socioeducativas voltadas à “inclusão social”. Quanto à imagem do jovem como sujeito social, ela, no nosso entender, aparece praticamente apenas no último relato, a da jovem coordenadora pedagógica do cursinho popular. É este relato e o seu contraste com os demais que mais vale a pena investir neste momento. A imagem do jovem como sujeito social Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 149 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo aparece ali, não tanto pela definição que ela titubeia em dar – a juventude como transição – mas pelo fato de que ela busca definir a condição juvenil por suas experiências pretéritas e presentes em grupos juvenis, primeiro em grupos religiosos, segundo em um movimento social. A condição juvenil é asso- ciada com a experiência de ser jovem ativa em coletivos. Há também uma forte crítica a coletivos que têm práticas autori- tárias, fazendo com que o jovem seja “reprimido o tempo todo”. Em sua experiência pessoal, ela transitou para uma organização – de acordo com outros trechos de sua entrevista – pratica- mente autogerida por jovens, em que ações manipulativas de lideranças adultas parecem ausentes. Por outro lado, o modo como vem a definir juventude como transição, pela sua própria indecisão e o jogo de imagens, indica que se trata antes da noção de “transições plurais” (formulação 3 do Quadro 4). Isto se reforça pelo reconhecimento de que esta fase é também de dificuldades. Os jovens passam, portanto, por diferentes grupos, pertencimentos, ensaiam a adoção de diversas “responsabilidades”, têm de aprender e decidir, enquanto estão “no caminho”, atravessando a “ponte”. Como anunciado, esta concepção de transições plurais (tão bem desenvolvida na obra de José Machado Pais [2012]) tem sido apresentada ao lado da noção do jovem como sujeito social, como seu complemento – já que se advoga que são os próprios jovens quem devem tomar a iniciativa de dar coerência as suas diversas experiências sociais e buscar interferir nos processos que têm levado (ou dificultado) a transição para a vida adulta. Assim sendo, é possível dizer que, para além do aparente titubeio e indecisão, a jovem gestora é aquela que, entre as entrevistadas, pela sua própria condição juvenil, melhor faz a leitura dos modos de “ser jovem” na atualidade. Como temos Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 150 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo deixado já de nos surpreender, não é a primeira vez que os jovens, movimentos e grupos juvenis têm sido, por meio de suas ações, discursos e protestos, os portadores do novo, da crítica e da ruptura. (SOUSA, 2008). Esta contraposição entre o relato da jovem e os relatos das adultas não pode ser generalizada. Trata-se de um retrato que flagra algumas das tendências do campo das práticas socioeducativas no local pesquisado. Análises anteriores sobre as gestoras das práticas socioeducativas na região de Campinas e suas concepções de juventude tinham demonstrado também a mera incipiência das noções de juventude como sujeito social, do jovem como sujeito de direitos e das transições plurais, inclu- sive entre algumas gestoras que eram jovens e recém-graduadas (GROPPO, 2015). Ou seja, a condição juvenil da gestora ou gestor não garante a adoção da concepção do jovem como sujeito social, nem a superação de imagens reducionistas sobre a juventude. Também, aqui, no município do Sul de Minas, o discurso diferenciador não deve ser atribuído apenas ao fato da entrevistada ser jovem, mas também por ser militante de um movimento social. Não é, portanto, o fator idade que, por si só, explica o caráter supostamente progressista ou conservador de um sujeito (MANNHEIM, 1968), mas também outros condicio- nantes sociais e experiências políticas e culturais. Mais que as lições aprendidas no movimento social, contou para esta jovem coordenadora o fato de relacionar a condição juvenil com o pertencimento a coletivos juvenis, na verdade, a sua própria experiência em grupos juvenis, primeiro religioso, depois político e educacional. Esta suposta singularidade indica algo mais geral: a importância passada e presente dos movimentos sociais para que as práticas socioeducativas adquiram teor mais progressista Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 151 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo e politizador. Este é um dos pontos a ser recuperado nas consi- derações finais, ao lado do papel da universidade neste mesmo processo renovador. Afinal, o grupo da jovem coordenadora tinha a universidade como forte base de apoio. Considerações finais Em debates com colegas pesquisadores, alguns demons- traram incômodo com a recorrência, nos relatos de gestores e educadores de práticas educativas não formais, de imagens idealizadas e limitadoras de juventude. Imagens como a do jovem como “problema” e a noção romântica de juventude. Eles afirmaram que seriam necessários outros modos de se perguntar o que era, afinal, ser jovem. Os discursos tendiam a incidir nas imagens recorrentes, mas talvez não revelassem a riqueza e a complexidade das práticas educativas no cotidiano. Este texto foi construído a partir de uma investigação de campo que, infelizmente, já tinha sido feita antes dessas insti- gantes conversas. O roteiro de entrevistas e a questão-chave estavam de novo lá. E se repetiram nas respostas aquelas recor- rentes imagens idealizadoras da juventude. Mas a provocação dos colegas ajudou a trazer um outro olhar sobre as respostas. Na verdade, outro olhar sobre uma das respostas, a da jovem coordenadora pedagógica do cursinho popular. O olhar incidiu também sobre o modo como se fez o dito, não apenas seu conteúdo. A transcrição anterior tentou, com o uso de reticências e o registro do espanto da jovem com a pergunta, trazer um pouco das reações dela. Também, a indecisão, a dúvida,o titubeio e, afinal, o uso de metáforas Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 152 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo como “caminho” e “ponte”. Metáforas que ilustram não uma transição linear a uma condição adulta clara e segura, mas, antes, um trajeto difícil, instável e incerto a uma maturidade de contornos que são pouco nítidos. O relato, ao falar por metá- foras, ao conseguir expressar sentimentos, trouxe mais do que prenoções sobre a condição juvenil que pouco dizem realmente dos jovens atuais. A singularidade deste relato e as virtualidades contidas nele vieram por trazer novos elementos e possibilidades para a análise das práticas socioeducativas com jovens, não apenas nesta localidade, mas em todo o país. Outros relatos singulares, com experiências igualmente diversas, podem trazer novas possibilidades para a compreensão deste campo das práticas socioeducativas. Mas, aqui, cabe explorar o que há de diferente nos casos trazidos neste trabalho. Na verdade, entre as cinco práticas discutidas mais a fundo, duas parecem destoar do que se encontrou de modo predominante, não apenas no Sul de Minas, mas também na região de Campinas: o projeto de educação musical e o cursinho popular. O projeto de educação musical, por sua prática. O cursinho, por sua prática e discurso em relação à juventude. Em primeiro lugar, estas duas práticas diferenciadas indicam a importância da universidade, dos movimentos sociais e dos partidos políticos de índole progressista para diversificar, politizar e trazer ou recuperar heterodoxias ao campo das práticas socioeducativas. Nos últimos anos têm predominado neste campo as políticas públicas de caráter setorial (voltadas a setores “excluídos” ou em “situação de risco”), efetivadas por meio de órgãos estatais como os CRAS, pelo “mercado social” (composto de organizações não governamentais e fundações) e mesmo por instituições que outrora se classificavam como Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 153 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo “de caridade” ou filantrópicas. Mas a história do serviço social, assim como da educação escolar e não formal, trazem vários exemplos de renovação destes setores, no Brasil, graças à influ- ência ou atuação inovadora de movimentos sociais e políticos, por vezes, baseados em universidades ou apoiados por elas, como as campanhas de educação popular no início dos anos 1960, ou o movimento de “reconceituação” no Serviço Social nos anos 1970 e 80. Em segundo lugar, o projeto de educação musical e o cursinho popular indicam a possibilidade do estreitamento do vínculo da universidade pública em relação ao campo das práticas socioeducativas, mas em sentidos distintos daquele que defende simplesmente a “inclusão social”. Por um lado, pode- riam ser fomentadas ações mais politizadoras. Por outro, ações preocupadas com o cultivo do lazer, esportes e cultura como “fins em si mesmos” e/ou direitos de cidadania, não apenas como meios para objetivos, tais como a pacificação social. Esta contribuição da universidade poderia se dar na forma de projetos e programas de extensão, bem como na formação de profissionais. Em terceiro lugar, há de se cultivar a autoconsciência pelos movimentos sociais sobre a importância desta sua presença neste campo, atuando diretamente, com suas próprias práticas, ou influenciando educadores e instituições para que se atentem mais à formação política, para além do lema “tirar os jovens das ruas”. Aliás, a rua pode e deve ser também lugar a ser recuperado para o exercício da cidadania, lazer, esportes, cultura etc. As próprias práticas socioeducativas, especialmente quando lidam com os jovens, podem, ao contrário de “proteger” os educandos na redoma da instituição, apresentar a eles os recursos e as riquezas culturais da cidade (FERNANDES, 2012). Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 154 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo Enfim, as singularidades, especialmente o cursinho popular, indicam a possibilidade e a necessidade do cultivo de práticas de real participação de jovens na proposição, plane- jamento e execução da educação não formal, para além das limitações da ideologia e prática do “protagonismo juvenil”, as quais tendem a ser meras técnicas de absorção dos jovens em projetos, objetivos e ações já definidas a priori por gestores adultos. (SOUZA, 2009). A participação efetiva e democrática parece tão grande entre os jovens educadores e militantes do cursinho popular, que este se aproxima mesmo da configuração de um grupo autogerido de jovens. O cursinho popular oferece, enfim, a imagem de práticas socioeducativas voltadas a adolescentes e jovens que não são apenas oferecidas por jovens educadores, mas também concebidas, planejadas e recriadas por eles. A lição contida nas práticas autogeridas por jovens educadores talvez seja a mais importante para os jovens educandos, raiz de heterodoxias criativas e necessárias no campo das práticas socioeducativas. Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 155 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo REFERÊNCIAS BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Difel, 1989. BRANDÃO, Carlos Rodrigues; ASSUMPÇÃO, Raiane. Cultura rebelde: escritos sobre a Educação Popular ontem e agora. São Paulo: Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2009. BRASIL. Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. Brasília, 2009. Disponível em: http://www.assistenciasocial. al.gov.br/legislacao/Tipificacao_servicos_socioassistenciais. pdf/at_download/file. Acesso em: 19 fev. 2015. DAYRELL, Juarez. O rap e o funk na socialização da juventude. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 28, n. 2, p. 117-136, jan./jul. 2002. DAYRELL, Juarez. O jovem como sujeito social. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 24, n. 2, p. 40-52, set./dez. 2003. FERNANDES, Renata Sieiro. Formação de educadores e o trabalho na educação não formal: juventude, cidade e tempo livre. Comunicações, ano 19, n. 1, p. 57-70, 2012. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004. FURIATI, Nídia Maria de Ávila. Juventude e Estado no Brasil: a lógica constituinte do Conselho Nacional da Juventude no Governo Lula. 2010. 360 f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Programa de Pós-graduação em Sociologia, Universidade de Brasília, Brasília, 2010. Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 156 Luís Antonio Groppo, Lívia Silva Macedo GEBER, Saulo. Jovens educadores no contexto de uma ação pública voltada para a juventude na periferia de Belo Horizonte. 2010. 149 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010. GROPPO, Luís Antonio. Juventude e práticas socioeducativas. Alfens/MG: UNIFAL, 2018. GROPPO, Luís Antonio. O jovem educando e o jovem voluntário, segundo gestores de práticas socioeducativas em dois municípios da Região Metropolitana de Campinas-SP. In: REUNIÃO NACIONAL DA ANPED, 37., 2015, Florianópolis. Anais [...]. Rio de Janeiro: ANPEd, 2015. Disponível em: http://37reuniao.anped.org.br/wp-content/uploads/2015/02/ Trabalho-GT03-3474.pdf. Acesso em: 4 fev. 2016. GROPPO, Luís Antonio et al. Sociologia da Educação Sociocomunitária: ensaios sobre o campo das práticas socioeducativas e a educação não formal. Holambra: Setembro, 2013. MANHEIM, Karl. O problema da juventude na sociedade moderna. In: BRITTO, Sulamita de (org.). Sociologia da juventude. Rio de Janeiro: Zahar, 1968. v. I. p. 69-93. ORTIZ, Renato. Introdução. A procura de uma sociologia da prática. In: ORTIZ, Renato (org.). Bourdieu: Sociologia. São Paulo: Ática, 1983. p. 5-30. (Coleção Os Grandes Cientistas Sociais). Práticas socioeducativas e jovens em um município do Sul de Minas Gerais 157 Luís Antonio Groppo, Lívia SilvaMacedo PAIS, José Machado. A esperança em gerações de futuro sombrio. Estudos Avançados, v. 26, n. 75, p. 267-280, 2012. SILVA, Roberto da (org.). III Congresso de Pedagogia social. Revista de Ciências da Educação, ano 12, n. 22, p. 167-448, 1º sem. 2010. VON SIMSOM, Olga R.; PARK, Margareth B.; FERNANDES, Renata S. (org.). Educação não-formal: Cenários da criação. Campinas: Editora da Unicamp; Centro de Memória, 2001. SOUSA, J. T. Os jovens contemporâneos e a política contra o instituído. In: GROPPO, L. A.; ZAIDAN FILHO, M.; MACHADO, O. L. (org.). Movimentos juvenis na contemporaneidade. Recife: Editora Universitária UFPE, 2008. p. 117-156. SOUZA, Regina M. Protagonismo Juvenil: o discurso da juventude sem voz. Revista Brasileira Adolescência e Conflitualidade, v. 1, n. 1, p. 1-28, 2009. SPÓSITO, Marília Pontes. Juventude e educação: interações entre a educação escolar e a educação não-formal. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 33, n. 2, p. 83-97, jul./dez. 2008. TOURAINE, Alain. Juventud y democracia en Chile. Última Década, Viña del Mar, v. 8, n. 1, p. 71-87, mar. 1998. WEBER, Max. Metodologia das ciências sociais: Parte 2. São Paulo: Cortez, 1995. PARTE 2 VIVÊNCIAS E EXPERIMENTAÇÕES SOCIAIS JOVENS 159 1 Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens Michael Ungar1 Aspectos positivos do desenvolvimento humano, como a capa- cidade de criar outros seres humanos, de criar vínculos2, e de viver em sociedade, podem ser suprimidos pela exposição a riscos tanto agudos como crônicos. No entanto, estudos longi- tudinais iniciados em meados dos anos 1900 demonstraram que a maioria das crianças vai sobreviver à adversidade com apenas alguns episódios de declínio das suas funções (SCHOON, 2006; WERNER; SMITH, 2001). Enquanto há acordo sobre a probabili- dade de êxito, os mecanismos que agem para o desenvolvimento positivo continuam obscuros. O estudo da resiliência em crianças e jovens busca compreender as qualidades do indivíduo e da sua ecologia social e física, a fim de aprender daqueles que foram bem-sucedidos. O objetivo deste programa de pesquisa é usar esse aprendizado para orientar práticas com populações em risco (por exemplo, crianças expostas à violência, pobreza ou imigração forçada). 1 Texto traduzido por Juliana de Morais Peres. 2 Nota da tradutora: A palavra “attachment” foi traduzida por vezes como vínculo, e em outras como apego, para melhor adequação ao contexto. Do mesmo modo, algumas outras palavras foram adaptadas por mais adequa- damente exprimir no contexto brasileiro a ideia originalmente pretendida. [Juliana Peres] Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 160 Michael Ungar Neste artigo, vou revisar brevemente o que entendemos por fundamentos da resiliência e, então, discutir a necessidade de uma interpretação mais ecológica do construto. Uma defi- nição de resiliência do ponto de vista da ecologia social sugere que a resiliência é mais uma qualidade do ambiente do que um traço do indivíduo. A implicação desta apreensão sobre resiliência para a prática atravessando diferentes culturas e contextos também é discutida. As Raízes Históricas da Teoria da Resiliência O estudo da resiliência tem suas raízes em narrativas de sobrevivência, incluindo aquelas que se seguiram aos bombar- deios de 1940 e 1941 em Londres (COLES, 1967; GARMEZY, 1983) e aos campos de concentração da Alemanha Nazista (COHEN et al., 2003). Padrões de enfrentamento são evidentes nesses relatos, quer seja na continuidade do vínculo entre pais e filhos, que prevê melhor adaptação diante da exposição à guerra, quer seja na espiritualidade e no sentido de vida que sustentam os expostos a campos de concentração. Investigações mais rigo- rosas vieram pouco depois. Elas incluíram os estudos de Rutter (1989) na Ilha de Wight com filhos de pais diagnosticados com esquizofrenia e os estudos de Werner e Smith (1982) na Ilha de Kaui com uma população de quase setecentas famílias pobres e seus recém-nascidos. Estudos subsequentes, como o condu- zido por Garmezy, Masten e Tellegen (1984) em Minnesota, e reanálises de dados de coorte, como a conduzida por Schoon (2006) na Inglaterra, orientaram vários processos protetivos que acarretaram em maior probabilidade de uma criança ser Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 161 Michael Ungar bem-sucedida no seu desenvolvimento, independentemente da exposição ao risco. Listas desses processos geralmente incluem acesso a experiências que reforçam a autoestima, redução da exposição ao risco, prevenção de uma cadeia de eventos negativos, abertura de oportunidades para desenvolvimento positivo e acesso a recursos de desenvolvimento, como um grupo positivo de pares, ou apego a um tutor adulto. Frequentemente, os processos protetivos não funcionam em geral de forma semelhante em ambientes de baixo e alto risco. Schoon (2006), por exemplo, nota que alguns processos, como o envolvimento com educação ou o êxito em relações próximas em longo prazo, podem ser mais vantajosos para aqueles que crescem em ambientes de maior risco (em outros termos, o relacionamento ajuda a mudar a trajetória de vida ou protege da exposição a maior risco), mas têm menos influência naqueles que enfrentam menor vulnerabilidade. Por outro lado, outros potenciais de desenvolvimento podem ter efeito igualmente benéfico em ambientes de baixo ou alto risco (um relacionamento positivo com o cuidador é uma vantagem para qualquer criança). Também pode haver aspectos da resiliência que covariam com o risco de exposição. Quanto mais desafios uma criança experiencia, mais importantes serão alguns meca- nismos protetivos (um tutor adulto fora da casa da criança se torna mais e mais útil para ela à medida que os pais aumentam seus comportamentos abusivos ou de abuso de drogas). Enquanto estudos iniciais tenderam a mostrar a resili- ência de uma perspectiva individual, nomeando os processos que aumentavam a chance de enfrentamento dos indivíduos em relação a riscos específicos, como a colocação para fora de casa ou o transtorno mental de um dos pais, recentemente, mais atenção vem sendo dada ao ambiente da criança. Por Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 162 Michael Ungar exemplo, Rutter (2009), na sua análise de correlações e inte- rações entre gene e ambiente, descreve que da mesma forma um perfil genético ou de personalidade pode afetar a resposta do ambiente à criança e, portanto, mediar o desenvolvimento positivo, também é provável “que ambientes adversos possam predispor a desordens em mecanismos geneticamente mediados, assim como ambientalmente mediados. De forma mais ampla, fazem-se necessárias investigações sobre as origens das experiências de risco, ao invés de apenas focar nos seus efeitos” (RUTTER, 2009, p. 45). O mesmo pode ser dito a respeito da resiliência. Aspectos positivos do desenvolvimento os quais resultam de predisposições genéticas (tais como uma habilidade para aprender matemática ou linguagens) são ativados por uma ecologia social ou física da criança (a matriz dos relacio- namentos e a qualidade dos ambientes tanto natural quanto construído nos quais a criança cresce). Em outras palavras, ambientes alteram a expressão genética. Claro, a questão se mantém: quanta variação é expli- cada pela predisposição genética e quanta pelo ambiente? Rutter (2009) não responde a essa pergunta, mas convoca mais pesquisas para testar “Como os genes se manifestam ‘para fora da pele’ (através das correlações e interações gene-ambiente) e como ambientes se manifestam ‘por dentro da pele’ (por meio da programação biológica e efeitos em perturbações desenvol- vimentais)” (RUTTER, 2009, p. 49). Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 163 Michael Ungar A Importância da Ecologia Social dos Jovens para a Resiliência Tudo isso sugere que o ambiente precisaser muito mais estudado sistemicamente no campo do desenvolvimento infantil se quisermos entender a resiliência. Em especial, existe a necessidade de se explorar tanto a homogeneidade como a heterogeneidade entre culturas e contextos em relação aos fatores que predispõem desenvolvimento positivo sob estresse. Superficialmente, o suporte ao universalismo (BERRY, 1979) é grande. De acordo com o trabalho realizado por Achenbach (2008), o comportamento análogo ao transtorno de conduta mostra altas taxas de correspondência em diversas culturas. Tais conclusões não são falsas, mas epistemologicamente tendenciosas por suas escolhas metodológicas. O que estudos como esses não nos dizem é quais fenômenos locais, ou endógenos, também estão presentes, os quais podem explicar melhor o comportamento observado. Além disso, ao exportar um construto como transtorno de conduta de um contexto anglo-europeu ocidental, os pesquisadores filtram os dados observados, causando no mínimo dois riscos potenciais para validade externa. O primeiro deles é que os pesquisadores já são provavelmente treinados ao estilo das instituições ocidentais e, por isso, predispostos a nomear fenômenos com os mapas conceituais da comunidade psiquiátrica ocidental. O segundo consiste na ausência de uma linguagem que privilegie explica- ções locais para fenômenos bastante similares. Para ilustrar, Ungar, Theron e Didkowsky (2011) condu- ziram um estudo de métodos visuais sobre experiências de parentificação de filhos em cinco países. Usando entrevistas em profundidade, foto-elicitação e a filmagem de um dia inteiro na Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 164 Michael Ungar vida de 16 jovens de 13 a 16 anos identificados como resilientes por membros da comunidade, foi demonstrado que a assunção de papéis adultos é vantajosa para adolescentes que enfrentam ambientes pobres ou adversos no que diz respeito a recursos. Nos casos em que os cuidadores mantêm um apego seguro ao jovem e reconhecem o valor da contribuição do filho (mesmo se essa contribuição é um fardo para o filho), os jovens reportam que exercer um papel de adulto é útil para manter a própria dignidade e a interdependência. Essas experiências também são descritas como úteis ao prover oportunidades para o desenvolvimento de habilidades necessárias ao funcionamento autônomo mais tarde na vida. Jovens foram observados por Ungar e colaboradores perfor- mando várias funções parentais que eram similares a trabalho emocional e provisão de suporte instrumental para pais/cuida- dores e irmãos. Se nós importássemos a contextos ocidentais a noção positiva de parentificação em ambientes de estresse, nós poderíamos razoavelmente encontrar vários jovens ocidentais com falta de habilidade de enfrentamento autônomo ou capaci- dade de oferecer ajuda a outrem em questões práticas e prover suporte emocional a adultos. Enquanto tal ciência especulativa pode nos causar um riso (ou uma careta), existem consequências bastante reais de discursos culturalmente concorrentes que definem resili- ência. É, por exemplo, comum neste momento que refugiados Sudaneses no Canadá (onde eu moro) sejam investigados pelos Child Protection Services (CPS), Serviços de Proteção à Criança, por uma preocupação com relação a crianças de dez anos sendo deixadas como cuidadoras de seus irmãos menores. Nesse caso, a percepção de risco pela cultura majoritária é uma vantagem Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 165 Michael Ungar diante da habilidade da minoria em argumentar pela razoabi- lidade das práticas dos seus pais. Miller (1997) chega a um ponto semelhante com seu olhar sobre as implicações de um senso de si e uma psicologia mais culturalmente baseadas na Índia. Quão bem, ela pergunta se os modelos de apego funcionam na Índia Hindu quando eles são “precedidos por uma tensão entre muita autonomia, com a sua ameaça de isolamento, e muita conexão, com a sua ameaça ao si mesmo” (MILLER, 1997, p. 223). Um conceito como apego realmente é relevante em uma cultura onde o isolamento é improvável e a abnegação é raramente vista como um problema? Em outras palavras, forças mais amplas de interação social cabem nas regras nas quais um construto como apego é definido? A evidência sugeriria que é necessário indigenizar o discurso psicológico a fim de entender a resiliência como um construto culturalmente e contextualmente integrado. Logo, é imperativo que prestemos atenção a expressões de resiliência específicas à cultura, as quais refletem adaptação às crenças comunitárias sobre as necessidades de desenvolvi- mento infantil e a forma como os recursos para satisfazer tais necessidades são disponibilizados. A este respeito, o ambiente molda o que a resiliência vai ser na prática. O desafio para pesquisadores e profissionais da saúde mental é encontrar uma forma de valorizar a ecologia social das crianças tanto quanto os traços da esfera individual. Para tanto, podemos nos basear na distinção de Murphy (1962) de dois tipos de Coping (do inglês, enfrentamento) 3: Coping I, referindo-se à integração interna e, Coping II, 3 Nota da tradutora: Optou-se aqui por manter a palavra em inglês coping por tratar-se de um conceito. Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 166 Michael Ungar adaptação externa. Muitos dos pesquisadores em resiliência como Masten e Obradović (2006) têm adotado essa mesma dicotomia descontextualizada. Também existe evidência do que eu vou chamar de Coping III – a adaptação do ambiente ao indivíduo de modo a atenuar o risco à exposição. Mudanças nas ecologias social e física criam as condições para oportunidades de crescimento que resultam em desenvolvimento positivo em longo prazo entre crianças em risco. Mesmo que crianças individualmente não demonstrem sinais de Coping I ou Coping II imediatos ou mensuráveis, mudanças no ambiente (Coping III) potencializam bons resultados para a maioria dos indivíduos. Uma abordagem da ecologia social para a resiliência (UNGAR, 2008) requer que foquemos menos na criança, descentralizan- do-a como o foco primário de estudo e, em vez disso, olhemos mais profundamente para a forma como o entorno da criança é estruturado. Sete aspectos da Resiliência Baseando-se nesta interpretação da ecologia social sobre a resiliência, pode-se dizer que a resiliência é definida da seguinte forma: no contexto de exposição à adversidade signi- ficante, resiliência é a capacidade de os indivíduos navegarem pelo seu próprio caminho até os recursos psicológicos, sociais, culturais e físicos que sustentam seu bem-estar e sua capacidade de negociar individual e coletivamente pela provisão e vivência destes recursos de maneiras culturalmente relevantes (UNGAR, 2008). A ênfase nesta definição está na habilidade de o indivíduo garantir acesso de forma exitosa aos recursos disponíveis (tais Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 167 Michael Ungar como apego aos demais, oportunidades de experienciar auto- estima, segurança, educação, rituais de passagem que marcam etapas desenvolvimentais etc.) e em assegurar que os recursos que são providos façam sentido para o indivíduo, refletindo seus valores e crenças construídos culturalmente. Em um estudo de métodos mistos com mais de 1.500 jovens de 11 países, Ungar e membros do Resilience Research Centre (UNGAR et al., 2007; UNGAR, 2008) demonstraram que há uma tensão entre homogeneidade e heterogeneidade na forma como essas navegações e negociações ocorrem. Especificamente, eles identificaram sete aspectos da resiliência que são codeter- minados (ver Quadro 1). Aspecto Explicação 1. Acesso a recursos materiais • Disponibilidade de recursos financeiros e educacionais; serviços médicos; oportuni- dades de emprego; acesso à alimentação, vestimenta e abrigo. 2. Relacionamentos • Relacionamentos com pares significantes,tutores e membros da família dentro do lar e da comunidade. 3. Identidade • Um sentido pessoal e coletivo de quem se é, que fomenta sentimentos de satisfação e/ ou orgulho; senso de propósito para a vida; autoconhecimento de forças e fraquezas; aspirações; crenças e valores; identificação espiritual e religiosa. 4. Poder e controle • Experiências de ser capaz de cuidar de si e dos outros; eficácia pessoal e política; a ha- bilidade de influenciar a mudança em seu ambiente social e físico a fim de acessar re- cursos; poder político. Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 168 Michael Ungar 5. Adesão à cultura • Adesão a práticas da cultura local ou glo- bal; afirmação de valores e crenças que vêm sendo transmitidos pelas gerações ou entre contextos familiares e comunitários. 6. Justiça social • Experiências relacionadas a encontrar um papel significante na comunidade; igualda- de social; direito à participação; oportuni- dades de contribuir. 7. Coesão • Balancear interesses pessoais e senso de responsabilidade para o bem maior; senti- mento de pertencimento a algo maior que si mesmo, social e espiritualmente. Quadro 1 – Sete aspectos da Resiliência. Fonte: Adaptado de Ungar et al. (2007). Mudanças em um aspecto tendem a inf luenciar alguns ou todos os outros. Nenhuma categoria é rigidamente independente. Aplicação da Teoria da Resiliência em Vidas Vividas em Circunstâncias Adversas Três breves exemplos de casos do estudo de onze países demonstraram como podemos usar estes sete aspectos da resiliência como uma estrutura interpretativa. Em cada caso, o jovem entrevistado era identificado por membros de um comitê consultivo como um jovem que se dá bem apesar da exposição à adversidade significante. As entrevistas cobriam todos os sete tópicos. Para fins de ilustração da expressão ecologicamente dependente da resiliência, excertos de três entrevistas são Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 169 Michael Ungar discutidos com foco nos relacionamentos destas jovens com suas famílias e comunidade. Ângela, uma jovem sul-africana de 14 anos, crescendo em Delft, um povoado fora da Cidade do Cabo, descreve sua comuni- dade como tendo altos índices de violência e pobreza. A percepção da menina sobre a sua comunidade é de que, apesar de algumas pessoas quererem fazer mudanças, a maioria das pessoas vive com um reduzido senso de coesão social. Quando questionada sobre suas estratégias de enfrentamento, ela explicou: Ângela: Há muitas pessoas que se preocupam, que se importam, que realmente querem fazer alguma coisa pela comunidade, que ainda não… porque as pessoas, as pessoas não levam isso adiante ainda. Elas simples- mente não se preocupam. Elas pensam que está tudo bem, só isso. É quase, tipo, tudo bem, é só mais uma criança grávida ou tudo bem, é só mais um morto por conta das drogas. Então elas, elas realmente não se importam, mas isso na verdade as atinge em cheio, dá para ver como as pessoas se implicam em Delft. A reação de Ângela foi de negar onde ela mora ou de se afastar: “Eu realmente quero ir e morar em algum outro lugar? Eu nunca vou ficar em Delft. Eu nunca vou colocar meus filhos lá. Eu, é por isso que eu trabalho duro para, para alcançar algo mais alto, ser alguém na vida”. Contraste a experiência de Ângela de viver em uma comunidade com pouca coesão social com a de Natasha, uma garota afro-americana de 16 anos crescendo no Sudeste da Flórida, EUA. Natasha mora com sua avó. Nesse caso, há uma evidência de conexões familiares e comunitárias que oferecem suporte ao desenvolvimento da jovem: Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 170 Michael Ungar Natasha: Eu ainda visito a minha mãe, ela é como minha irmã. Nós conversamos sobre várias coisas. É como se minha mãe fosse minha irmã e minha vó, a minha mãe. Meu tio é meu irmão mais velho. Entrevistador: O que a sua avó espera de você? Natasha: Ela disse pra amiga dela um dia desses que eu não vou a lugar nenhum. Eu agora vou ficar aqui pra sempre. E vou me graduar, arranjar um emprego, arranjar um carro e ir para a escola. Entrevistador: Então ela te vê dentro dessa casa. Natasha: Sim. Entrevistador: É isso que você quer fazer? Natasha: Sim. Eu gostaria de me afastar, mas eu sou muito próxima à minha avó, eu não posso. Em outro exemplo, Paulette, uma jovem canadense, descendente anglo-europeia, vivendo em uma cidade de tamanho médio na costa oeste, pediu ao CPS para colocá-la em uma casa-abrigo para enfrentar a negligência que ela expe- rienciou vivendo com seus pais, que eram seriamente afetados pelo abuso de substâncias. “Eu me coloquei numa casa-abrigo porque eu precisava de um lugar estável para viver”. Seu apego à família e comunidade parecem bastante diferentes de Ângela ou Natasha: Paulette: Antes, eu costumava estar com muita, muita raiva por dentro, muito, muito deprimida, triste, uma puta emotiva, nunca fui bem na escola, usava drogas, fazia isso e aquilo com qualquer um, não tava nem aí pra nada, não ligava pra o meu corpo, não me importava com nada além de manter minha família, digamos, abastecida com seringas. Eu me importo com eles mas nunca pude demonstrar. Eu costumava estar com raiva o tempo todo, por anos, praticamente. Agora eu ainda tenho problemas com a raiva, mas eu não estou tão mal Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 171 Michael Ungar como eu costumava estar... Eu sou uma pessoa boa. Quando eu encontro, se eu estou tentando ajudar alguém, algumas vezes eu tento ajudar muito, não muito, mas eu realmente tenho um coração grande. Porque eu sou feliz e eu quero que as pessoas se sintam do mesmo jeito que eu porque é muito bom. A permanência fora de casa tem ajudado Paulette a assegurar um conjunto de suportes e quebrar um ciclo de comportamento autodestrutivo que incluía seu próprio abuso de drogas. Ainda que as três jovens mulheres tenham sido indi- cadas para o estudo por serem percebidas como resilientes, são as qualidades facilitadoras da sua ecologia social que moldam seus caminhos para resiliência. Todas têm vantagens com os recursos que estão disponíveis e acessíveis a elas. Ângela decide deixar uma comunidade que é deficiente em suporte ou coesão social, sua separação planejada necessária para evitar ameaças ao seu desenvolvimento. Natasha renuncia pensamentos de ir embora a fim de manter a continuidade no seu apego à família estendida. Paulette deixa o lar e escolhe viver numa casa-abrigo para manter-se segura, mas mantém conexões com sua família e comunidade mais ampla. Em cada caso, elementos da motivação das garotas para manter-se a salvo são fatores relacionados ao seu desenvolvimento bem-sucedido (poder pessoal), mas são balanceados com a necessidade de negociar apropriadamente barreiras com sua família e comunidade a fim de superar as adversidades que experienciam. A assunção de que manter laços com os pais durante a adolescência predispõe o filho a um desenvolvimento mais saudável é refutada por cada uma dessas três histórias. Além disso, em cada caso, a jovem mulher procura por uma noção de eficácia, continuidade nos relacionamentos, uma noção de participação em uma comunidade que ofereça suporte, Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 172 Michael Ungar recursos materiais e em que ela sinta que é tratada de forma justa; são aspectos das suas vidas que se relacionam. Enquanto elas procuram melhorar em uma área, necessariamente influenciam outras. Por exemplo, ao se afastar da sua família, Paulette evita a reação em cadeia de eventos negativos que com certeza a levariam mais longe no abuso de drogas. Fazer isso aumenta sua noção de eficácia pessoal, ao custo de diminuir o relacionamento com seus pais. O contexto e a cultura moldam a forma como cada fator interage com os outros. Alguém pode imaginar que Paulette,em outro contexto com um sistema de assistência social menos desenvolvido teria que enfrentar essa situação de forma mais independente, provavelmente se expondo a um grande risco se ela deixasse sua casa. Da mesma forma, alguém poderia igual- mente argumentar que se Ângela escolhesse permanecer na sua comunidade, como Natasha, sua trajetória de vida poderia ser seriamente comprometida. O contrário também é verdade. Em cada caso, quanto mais as famílias e as comunidades das garotas moldam as ecologias sociais que as cercam para facilitar seu crescimento (Paulette, afinal, tem uma casa-abrigo e um sistema estatal suficientemente bem fundado para mantê-la), mais provavelmente cada uma delas vai experienciar o suporte necessário para evitar trajetórias de desenvolvimento nega- tivas, um mecanismo protetivo para o desenvolvimento em ambientes estressores. Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 173 Michael Ungar Múltiplos Caminhos para a Resiliência Empregar os conceitos de navegação e negociação sugere que existe equifinalidade nos padrões variados de resiliência infantil. Muitos padrões diferentes de enfrentamento podem, quando relevantes para o contexto, produzir vários resultados positivos. Tal pluralismo de caminhos sugere muitas e variadas possibilidades de intervenção. Qualquer grupo marginalizado (por exemplo, pessoas com “necessidades especiais” ou pessoas cuja orientação sexual desafia os padrões heteronormativos), vai requerer recursos para sustentar o bem-estar. Cada um, no entanto, enfrenta barreiras de acesso que definem o indivíduo como uma pessoa em dificuldades. São, geralmente, pessoas que não enfrentam essas ameaças ao seu desenvolvimento, que agem como guardiões da assistência necessária para o bem-estar e participação integral na comunidade de crianças em risco. Só recentemente, por exemplo, entendemos o direito das pessoas com deficiência à acessibilidade pública, ou ouvimos as pessoas gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros, quando elas enfrentam a heteronormatividade do discurso psicológico que rotula sua orientação sexual como desviante (LEV, 2004). Nesses casos, como com minorias étnico-raciais, existe a necessidade de abordar barreiras estruturais para a resiliência e os discursos que legitimam práticas excludentes. Precisamos descobrir e privilegiar os caminhos para a resiliência que são significantes para aqueles em maior vulnerabilidade (SECCOMBE, 2002). Para ilustrar, Alegria, Takeuchi, Canino, Duan, Shrout e colaboradores estudaram a epidemiologia e padrões de uso de serviços psiquiátricos de estadunidenses de ascendência latina ou asiática. Os resultados do The National Latino and Asian Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 174 Michael Ungar American Study (NLAAS) mostram que “O risco de transtornos psiquiátricos é relacionado em primeiro lugar a posições sociais, em segundo ao contexto ambiental e em terceiro a fatores psicossociais” (ALEGRIA, et al., 2004, p. 210). Esses padrões, dizem eles, que colocam ênfase no contexto antes da psicopatologia individual, possibilitam entender tamanha variação nas taxas de transtornos psiquiátricos e padrões de uso de serviço entre os dois grupos étnico-raciais. Apesar de o cuidado psiquiátrico continuar sendo muito importante, garantir o maior número de crianças com bom desenvolvi- mento é muito mais dependente da provisão de habitação de qualidade, suporte social e emprego dos pais. Intervenções Dois tipos de intervenções podem afetar dramatica- mente as ecologias sociais que promovem a resiliência. Ambas instruem de forma adequada a prática clínica e comunitária. A primeira, e mais óbvia, é se dedicar à pesquisa de modo mais participatório, com aqueles cuja posição social é a minoria. Pesquisa de métodos mistos e a inclusão de estudos de variáveis tanto dependentes quanto independentes, as quais sejam rele- vantes à população estudada, podem ajudar os participantes da pesquisa a falarem do seu ponto de vista singular sobre o que é e o que não é essencial para o desenvolvimento positivo no seu contexto específico. Um exemplo dessa abordagem de pesquisa é a de Liebel (2004) que descreve uma pesquisa ação conduzida com crianças em situação de trabalho, as quais consideram sua experiência como empoderadora, em contextos onde outros Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 175 Michael Ungar significados de enfrentamento à pobreza não estão disponí- veis ou são inacessíveis. Liebel (2004) trabalha diretamente com organizações geridas por jovens para garantir que as experiências de enfrentamento desses jovens e crianças sejam compreendidas. Para os profissionais da saúde mental (sejam membros de um grupo minoritários, sejam estranhos à experi- ência vivida por nossos pacientes), é necessário perguntar quais aspectos da resiliência são mais relevantes nas suas ecologias sociais específicas. As convicções médicas referentes ao que funciona e não funciona devem ser descentralizadas, e não mais entendidas como única explicação possível ou intervenção satisfatória para promover resiliência. Isso não quer dizer que a base do conhecimento do cuidador em saúde mental não é útil para os seus pacientes. Uma segunda solução para o desafio de superar as diferenças entre as perspectivas individual e universal é compartilhar o conhecimento científico dos profissionais com os pacientes, instruindo-os no que for entendido pelo profissional como uma prática baseada em evidências. A ciência da psicofarma- cologia e a terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, podem ser relevantes para a população de crianças em risco, embora seja mais provável que a resiliência ocorra quando as intervenções para cada paciente são satisfatoriamente nego- ciadas. Uma criança com TDAH, por exemplo, pode recusar uma intervenção psicofarmacológica se sua percepção é de que os medicamentos o deixarão letárgica ou ao menos o que ela imagina ser ela mesma. Nesses casos, a resiliência da criança é reforçada quando o recurso correto é provido com a forma que a criança deseja (por exemplo, com uma dosagem que não faça a criança se sentir letárgica ou modifique sua personalidade). A responsabilidade de avaliar a validade de Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 176 Michael Ungar um tratamento proposto recai tanto sobre os que partilham quanto sobre os que recebem. Naturalmente, protocolos de tratamento tão específicos podem não ter base de evidência. Nesse caso, faz-se necessário documentar caminhos próprios para a resiliência e demonstrar por meio de estudos de caso se eles são, em ecologias sociais específicas, alternativas viáveis às intervenções mais comuns. Conclusão Conforme nosso entendimento sobre resiliência cresce, mais consistente fica a nossa descrição do termo (UNGAR, 2005). Ao invés de reificar o construto como uma qualidade individual, a pesquisa agora está mostrando que a resiliência é mais uma qualidade da ecologia social do indivíduo. Os recursos disponí- veis e acessíveis aos indivíduos e sua relevância irão moldar os caminhos que as populações de crianças em risco percorrem para chegar ao bem-estar. À medida que os cuidadores em saúde mental intervenham com sensibilidade aos múltiplos e variados caminhos para a resiliência dos jovens, as crianças que crescem expostas à adversidade serão capazes de enfrentá-la. Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 177 Michael Ungar REFERÊNCIAS ACHENBACH, T. M. Multicultural perspectives on developmental psychopathology. In: HUDZIAK, J. J. (ed.). Developmental psychopathology and wellness: Genetic and environmental influences. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2008. p. 23-48. ALEGRIA, M. et al. Considering context, place and culture: the National Latino and Asian American Study. International Journal of Methods in PsychiatricResearch, v. 13, n. 4, p. 208-220, nov. 2004. BERRY, J. W. A cultural ecology of social behavior. Adv Exp Soc Psychol., v. 12, p. 177-206, 1979. COLES, R. Children of crisis: A study of courage and fear. Boston (MA): Little, Brown and Company, 1967. COHEN, E. et al. Posttraumatic stress symptoms and fear of intimacy among treated and non-treated survivors who were children during the Holocaust. Soc. Psychiatry Psychiatr Epidemiol., v. 38 n. 11, p. 611-617, nov. 2003. GARMEZY, N.; MASTEN, A. S.; TELLEGEN, A. The study of stress and competence in children: A building block for developmental psychopathology. Child Dev., v. 55, n. 1, p. 97-111, feb. 1984. GARMEZY, N. Stressors of childhood. In: GARMEZY, N.; RUTTER, M. (ed.). Stress, coping, and development in children. New York: McGraw-Hill, 1983. p. 43-84. Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 178 Michael Ungar LEV, A. I. Transgender emergence: therapeutic guidelines for working with gender-variant people and their families. New York: Haworth, 2004. LIEBEL, M. A will of their own: Cross-cultural perspectives on working children. London: Zed Books, 2004. MASTEN, A. S.; OBRADOVIĆ, J. Competence and resilience in development. In: LESTER, B. M.; MASTEN A. S.; MCEWEN, B. (ed.). Resilience in children. Boston, MA: Blackwell, 2006. p. 13-27. MILLER, J. G. Culture and the self: Uncovering the cultural grounding of psychological theory. In: SNODGRASS J. G.; THOMPSON R, L. (ed.). The self across psychology: Self- recognition, self-awareness, and the self concept. New York: New York Academy of Sciences, 1997. p. 217-231. MURPHY, L. B. The widening world of childhood: Paths toward mastery. New York: Basic Books, 1962. RUTTER, M. Understanding and testing risk mechanisms for mental disorders. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 50, n. 1-2, p. 44-52, jan. 2009. RUTTER, M. Isle of Wright revisited: Twenty-five years of child psychiatric epidemiology. Journal of American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, v. 28, n. 5 p. 633-653, sep. 1989. RUTTER, M. Psychosocial resilience and protective mechanisms. American Journal of Orthopsychiatry, v. 57, n. 3, p. 316-331, jul. 1987. Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 179 Michael Ungar SCHOON, I. Risk and resilience: Adaptations in changing times. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. SECCOMBE, K. “Beating the odds” versus “Changing the odds”: Poverty, resilience, and family policy. Journal of Marriage and Family, v. 64, n. 2, p. 384-394, may 2002. THEOKAS, C.; LERNER, R. M. Observed ecological assets in families, schools, and neighbourhoods: Conceptualisation, measurement and relations with positive and negative developmental outcomes. Applied Developmental Science, v. 10, n. 2, p. 61-74, 2006. UNGAR, M. Resilience across cultures. British Journal of Social Work, v. 38, n. 2, p. 218–235, feb. 2008. UNGAR, M. et al. Unique pathways to resilience across cultures. Adolescence, v. 42, n. 166, p. 287-310, 2007. UNGAR, M. A thicker description of resilience. International Journal of Narrative Therapy & Community Work, v. 2005, n. 3-4, p. 89-96, 2005. UNGAR, M.; THERON, L.; DIDKOWSKY, N. Adolescents’ precocious and developmentally appropriate contributions to their families’ well-being and resilience in five countries. Family Relations, v. 60, n. 2, p. 231–246, 2011. WERNER, E. E.; SMITH, R. S. Journeys from childhood to midlife: Risk, resiliency, and recovery. Ithaca, NY: Cornell University Press, 2001. Fatores e processos associados à resiliência em crianças e jovens 180 Michael Ungar WERNER, E. E.; SMITH, R. S. Vulnerable but invincible: A longitudinal study of resilient children and youth. New York: McGraw-Hill, 1982. 181 2 Educação Não Formal na Comunidade do Coque Resiliência e Juventudes Periféricas Aurino Lima Ferreira Nadja Maria Acioly-Régnier Tatiana Lima Brasil Silas Carlos Rocha da Silva Introdução Iniciamos este texto com um conjunto de cenas que trazem as juventudes no seu centro. A primeira cena reproduz um momento dramático do atentado na noite de novembro de 2015 em Paris, na qual jovens se abraçam com uma mulher enquanto um policial os observa. Segundo a imprensa: [Os] ataques com tiros e explosões deixaram 129 mortos em Paris, na pior violência a atingir a França desde a Segunda Guerra (1939-1945) e apenas dez meses depois da carnificina no semanário satírico Charlie Hebdo. (ATAQUES..., 2015, documento online sem paginação) Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 182 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil Ainda nessa cena, podemos incluir a émeute desenca- deada por jovens franceses em 2005 em resposta à situação de violência, exclusão social e “[...] clamor pela “igualdade” contra desigualdades alimentadas pelo capitalismo global e políticas neoliberais, do modo como aparecem nos subúrbios da França” (GROPPO, 2006, p. 90). Assim como indica Peralva (2004, p. 100): Por trás dos levantes urbanos que vêm ocorrendo na França há 25 anos, não está apenas uma crise social; está também uma crise de representação, na medida em que os habitantes dos bairros populares, jovens ou não, excluídos do mundo do trabalho, não têm acesso à esfera política. A outra cena, “Crimes nas escolas”, trazida pelo jornal Diário de Pernambuco indica que: Foram registradas 223 ocorrências nas escolas e arredores de escolas do Distrito Federal até 30 de maio de 2015, segundo dados da Polícia Militar. Confira as principais ocorrências: Uso e porte de entorpecentes 84, Roubo 31, Ameaça 28, Ato infracional (cometido por menores de 18 anos) 26, Vias de fato 21, Furto 19. (CAMPOS, 2015, documento online sem paginação). Esta segunda cena de crimes é corroborada pelo aumento das mortes de jovens, em sua grande maioria negros, tal como apontado pelo “Mapa da Violência 2015” (WAISELFISZ, 2015, p. 10) quando indica que: [...] se no período compreendido entre os anos de 1980 e 2012 a população teve um crescimento em torno de 61%, as mortes matadas por arma de fogo cresceram 387%, Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 183 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil mas entre os jovens esse percentual foi superior a 460%. Em outras palavras, mais jovens morrem por armas de fogo, apesar da redução inicial provocada pela apro- vação do Estatuto do Desarmamento. E a gravidade se torna ainda maior quando se sabe que, em sua maioria, são os jovens negros as vítimas dessa escalada. Racismo, violência e impunidade se associam na degradação do ambiente social brasileiro. A terceira cena apresenta a violência produzida pela escola. Segundo Charlot (2002, p. 434), este tipo de violência pode englobar: [...] uma violência institucional, simbólica, que os próprios jovens suportam através da maneira como a instituição e seus agentes os tratam (modos de compo- sição das classes, de atribuição de notas, de orientação, palavras desdenhosas dos adultos, atos considerados pelos alunos como injustos ou racistas). Aqui, damos destaque à violência promovida por uma professora contra um aluno. [...] em Piracicaba (SP), um aluno de 13 anos disse ter sido agredido por uma professora durante a aula na escola estadual do Jardim Gilda, no dia 8 de abril. A mãe do garoto registrou um boletim de ocorrência em que relatava que após empurrrão da docente, o menino bateu a cabeça na parede da sala e teve um corte na testa. (CASOS..., 2014, documento online sem paginação). Essas três cenas, apesar das diversidades e localidades, suscitam no espaço midiático e no imaginário social uma associação direta entre juventudes e violência. Não importa a Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 184 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasilclassificação e diversificação, proposta por Charlot (2002), das violências na/à/da escola, os jovens são rapidamente postos como seus responsáveis. Assim, a visibilidade das juventudes periféricas vem ganhando destaque no campo social a partir da associação dos discursos de violência e periculosidade a esses sujeitos. Na França, Duprez (2006 apud ALMEIDA, 2010) aponta que os levantes dos jovens das banlieues em novembro de 2005 refor- çaram os estereótipos, cristalizando imagens midiáticas que põem as juventudes periféricas como sinônimo de violência. Este fenômeno também é amplamente encontrado no Brasil (ALMEIDA, 2010). A associação entre violência e juventudes periféricas legi- timou a criação de políticas públicas visando à superação dos riscos e da vulnerabilidade, sem, contudo, discutir-se a criação de uma nova categoria de exclusão embutida nesta visão: as juventudes de risco. Assim, os espaços coletivos de constituição subjetiva destes sujeitos, em especial das periferias, são esva- ziados, pois, nesta lógica, oferecem apenas vulnerabilidade e marginalidade e não uma possibilidade de formação humana. As três cenas congregam desafios e apontam que a socie- dade contemporânea tem exigido novos modos de compreender os processos de formação humana, ou seja, questionando-se como os sujeitos tornam-se humanos sem a intencionalidade que visa à humanização em suas várias dimensões. Em especial, desafia-nos a romper as formas de assujeitamento presentes nos modelos que pensam a constituição do sujeito moderno, além de problematizar as possibilidades e desafios de formação do sujeito ético nos espaços escolares (RODRIGUES, 2001). Do ponto de vista acadêmico, alguns estudiosos têm discutido a situação das juventudes: Zaluar (1998, 1999) e Zaluar Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 185 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil e Leal (2001) destacam o aspecto institucional da desigualdade no Brasil e a consequência desta para a vulnerabilidade dos jovens pobres; Spósito e Carrano (2003), Dayrell et al. (2009) e Fanfani (2000) indicam a precariedade visível nos processos de escolarização e profissionalização dos jovens; Dayrell, Carrano e Maia (2014) problematizam o processo formativo desta população, além de incluir uma extensa discussão acerca de um currículo capaz de mesclar as exigências escolares e um projeto de vida. Benéc’H-Le (2007), Lazerges (2008), Baranger e Salas (2008), Mucchielli (2005), Danet (2008) e Bailleau (2009), apontam a intensificação dos conflitos da lógica entre educação e repressão nas reformas penais na França. Duru-Bellat (2004), analisando o sistema educacional francês indica que a massi- ficação do acesso à escola não reduziu significativamente as desigualdades sociais, enquanto Wacquant (2007) destaca que o comportamento das juventudes periféricas, tidas como amea- çadoras para sociedade, trata-se de uma reação à percepção da falência do sistema em incluí-los. Em um estudo do tipo estado da arte, Takeiti e Vicentin (2015) realizaram um levantamento de teses e dissertações nas áreas de psicologia e saúde, entre os anos de 1998 a 2008, acerca da temática da juventude. Eles concluem que é [...] necessário problematizar o binômio juventudes-vio- lências que se tece nas vulnerabilidades do cotidiano, mas, como bem apontou Salazar (1998), compreender tal produção como um dispositivo de resistência que produz sujeitos e outros modos de subjetivação inse- ridos numa dada cultura. (TAKEITI; VICENTIN, 2015, p. 945). Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 186 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil No que diz respeito aos desafios destes sujeitos na escola tem surgido um conjunto de trabalhos com olhares diversos que vão da sociologia à psicologia (ABRAMO, 1997, 2005; CORTI; SOUZA, 2004; DAYRELL, 2003; CARRANO, 2000; SPÓSITO, 2008, 2008; ALMEIDA, 2010; DAYRELL; CARRANO; MAIA, 2014), mas que em seu conjunto problematizam os desafios de inserção e permanência dos jovens em um sistema que os exclui sistema- ticamente. Em pesquisa do estado da arte, Dayrell et al. (2009, p. 105) indicam uma ampliação do debate da violência para [...] além da escola, buscando articular a violência praticada na escola com aquela observada fora dela, seja na família ou na comunidade, ou mesmo ampliar o debate incluindo novas questões como as relações de gênero. Neste caso, podemos observar também uma complexificação das análises realizadas, explicitando as múltiplas variáveis que interferem na produção do fenômeno. Todavia, as reflexões acerca da formação dos sujeitos periféricos, sistematicamente excluídos e marcados pelos processos de estigmatização (GOFFMAN, 1993), criminalização (WACQUANT, 2001) e de psicologização (BOCK, 2007), precisam ser ampliadas, principalmente no que diz respeito ao processo formativo de educadores e psicólogos que realizam intervenções junto aos jovens de periferias, pois como indica Arroyo (2012, p. 36, grifo nosso): [...] antes de programar estas ou aquelas atividades, dedicar dias de estudo, para mostrar e explicitar, enquanto gestores, docentes-educadores, como pensamos os setores populares e seus filhos e suas Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 187 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil filhas. [pois] a tendência é pensá-los tendo como referência as representações tão arraigadas em nossa cultura política segregadora, inferiorizante e preconceituosa; ver o povo e os subalternos, como foram e continuam sendo vistos ao longo de nossa formação social, política e cultural, pelo lado negativo: carentes de valores, dedicação, esforço; carentes de cultura, de racionalidade; com problemas mentais, de aprendizagem, lentos, desacelerados, desmotivados, indisciplinados, violentos. Assim, um dos maiores desafios que se coloca para as políticas públicas no cenário nacional é, sem dúvida, a educação da juventude brasileira. Especialmente, em se tratando das juventudes periféricas que se apresentam excluídas do acesso e permanência no ensino médio e na educação superior, sendo estigmatizadas e criminalizadas como potencialmente peri- gosas, em risco ou vulneráveis (NUNES; FREITAS, 2009). O impacto desta exclusão nos processos de subjetivação tem sido contraposto por meio do fenômeno resiliência que, segundo Grotberg (2005, p. 15) é definido como “[...] a capacidade humana para enfrentar, vencer e ser fortalecido ou transfor- mado por experiências de adversidade”. Esse fenômeno não é um traço da personalidade ou atributo pessoal, ou seja, não se trata de uma qualidade individual, única e extraordinária, mas é uma capacidade que pode ser desenvolvida por qualquer pessoa, no contexto psicossociocultural em que está inserida, sendo o aspecto biológico, subjetivo, social e cultural o que influenciam na promoção da resiliência. Esse fenômeno é forjado pela abertura a experiências e a interdependência com os outros indivíduos. As experiências vividas nas relações com esses outros, nas diversas formas de interação, o modo como eles afetam a pessoa, ou as marcas Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 188 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil que eles deixam, por meio de suas palavras e gestos, adquirem especial relevância na relação afetiva, que pode repercutir, na construção da resiliência. Destarte, esse fenômeno é um processo a ser desenvol- vido de forma dinâmica, que pode ser alcançada, adquirida e é circunstancial, e a chave dessa positividade está nos contatos humanos, na solidariedade e na relação afetiva estabelecida entre o grupo social no qual a pessoa pertence e que aciona esse constructo adormecido em cada pessoa. Sobre isso, é possível então considerarque “[...] o meio social, o espaço de experiência da pessoa, representa assim um meio (instrumento, recurso) para o seu desenvolvimento” (ROSSETTI-FERREIRA et al., 2004, p. 26). Tendo isso em vista, este trabalho insere-se em uma pesquisa mais ampla desenvolvida pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na associação civil Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis (NEIMFA), comunidade do Coque, Recife, Pernambuco. Com população de 40 mil habitantes excluída das políticas públicas básicas, esta comunidade passou a ser considerada, no imaginário local, como uma das favelas mais violentas da região, sendo estigmatizada nos jornais como “morada da morte”. Neste espaço de educação não formal, procurou-se mapear as estratégias de promoção de resiliência postas em ação com os jovens da instituição. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 189 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil Educação não Formal na Comunidade do Coque: uma Experiência de Promoção de Resiliência com Jovens de Periferia A educação formal é socialmente compreendida como responsável pela formação dos indivíduos, sobretudo no que diz respeito ao acesso aos conhecimentos historicamente acumulados e sistematizados. No entanto, já não é mais o espaço hegemônico de educação e formação humana, pois o conceito de educação se ampliou e passou a transpor os limites do sistema oficial de ensino e, com isto, uma nova dimensão se estrutura: a da educação não formal. Destarte, o conhecimento passa a ser compartilhado em outros espaços. Compreende-se que o papel da educação não formal não é assumir o da escola formal, ela é um acontecimento que pode fornecer contribuições, vindas de experiências, que muitas vezes, não são priorizadas na escolarização formal. Sobre isso, o espaço de educação não formal: [...] aborda processos educativos que ocorrem fora das escolas, em processos organizativos da sociedade civil, ao redor de ações coletivas do chamado terceiro setor da sociedade, abrangendo movimentos sociais, ONGs e outras entidades sem fins lucrativos que atuam na área social; ou processos educacionais frutos da articulação das escolas com a comunidade educativa, via conselhos, colegiados, etc.(GOHN, 2008, p. 7). A educação não formal apresenta-se disponível para todas as classes sociais, mas no caso dos jovens de periferia, ela surge como um dispositivo de resistência, capaz de acolher Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 190 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil e desenvolver as potencialidades de cada um e preparando para o mundo da vida; possibilitando ao educando a sua leitura do mundo de maneira a compreender tanto seu entorno como o externo a ele e também pensar em soluções dos problemas da comunidade. A maneira pela qual se educa vai depender dos inte- resses e das necessidades do grupo envolvido, respeitando a heterogeneidade do mesmo e singularidade de cada indivíduo, atuando sobre os aspectos subjetivos, ajudando na construção da identidade coletiva e colaborando para o desenvolvimento da autoestima. A educação não formal “prepara os cidadãos, educa o ser humano para a civilidade, em oposição à barbárie, ao egoísmo, individualismo etc.” (GOHN, 2006, p. 30). Nesse sentido, é no NEIMFA, espaço de educação não formal, que procuramos mapear via pesquisa bibliográfica e documental (CRESWELL, 2010) as estratégias de promoção de resiliência postas em ação com os jovens da instituição, em que o “outro” é o agente educador que interage e integra com as pessoas nos momentos das relações interpessoais. Neste artigo, apresentamos algumas experiências de promoção de resiliência, apoiadas nas quatro categorias do constructo da resiliência de Grotberg (2005): eu sou, eu tenho, eu posso e eu estou. Estas experiências ocorreram na comunidade do Coque, Recife, PE com jovens e apresentavam-se disponíveis como fonte bibliográfica, seja em forma de livros, artigos, seja em forma de textos tornados públicos. Antes de apresentarmos estas experiências, destacamos que a comunidade do Coque, situada no coração do Recife, surgiu a partir da ocupação e aterramentos do manguezal e passou a ser estigmatizada pela mídia como a morada da morte (Diário de Pernambuco, 1997). Com um grande contingente de Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 191 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil habitantes distribuídos em um espaço sem infraestrutura em relação aos serviços básicos de educação, saúde, comunicação, transporte, saneamento e energia elétrica, apresentando o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) local (PNUD, 2005), o Coque apresenta-se como um signo das periferias urbanas brasileiras. Neste contexto, está inserido o Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis (NEIMFA), uma Instituição da Sociedade Civil, criada a partir da parceria entre moradores da comunidade do Coque e um grupo de jovens em 26 de setembro de 1986, objetivando a superação da violência e promoção de uma cultura de paz em defesa das crianças, adolescentes e jovens. O NEIMFA, por meio do seu Espaço de Psicologia Integral/ Transpessoal Ser e TranScendER em parceria com os programas de extensão da Universidade Federal de Pernambuco, Rede Coque Vive e Observatório das Periferias montaram um conjunto de projetos com base na promoção de resiliência, buscaremos analisar como estes trabalhos lidam com as juven- tudes periféricas. Resiliência: um Constructo em Formação Em se tratando do fenômeno resiliência, o termo, no Brasil, é relativamente novo no campo da Psicologia (fim da década de 1990), mas importou da física, ciência na qual esse constructo é definido como “propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora duma deformação elástica” (DICIONÁRIO Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 192 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil AURÉLIO ELETRÔNICO SÉCULO XXI, 1999, documento eletrônico sem paginação). Contudo, a Psicologia adequou o conceito para sua área de conhecimento e de acordo com Walsh (2005, p. 4) pode se definido como: “[...] a capacidade de se renascer da adversi- dade fortalecido e com mais recursos. É um processo ativo de resistência, reestruturação e crescimento em resposta à crise e ao desafio”. No que se refere à característica peculiar entre a resili- ência estudada nesses dois campos de conhecimento, Junqueira e Deslandes (2003) explicam que há uma diferença importante no que se refere ao retorno ao estado anterior da pessoa e objeto após sofrer pressão. Para a Psicologia, esse fenômeno significa a superação, ou seja, vai além do retorno ao que era antes, pois envolve um desenvolvimento ou crescimento a partir dessa superação frente à adversidade. Mas, por questão muito lógica: a pessoa não pode passar por situações de vida difíceis e voltar ao estado primitivo. Ela enfrenta, aprende, desenvolve e supera. Diferentemente para a física, um material resiliente não sofre dano algum e ao cessar a pressão retorna o seu estado inicial intacto. Pode-se dizer, então, que esse fenômeno tem a ver com a capacidade do indivíduo de ultrapassar os traumas e cons- truir-se apesar das feridas, o que significa não sair ileso, mas conforme Melillo et al. (2005, p. 24), “[...] o indivíduo é afetado pelo estresse ou pela adversidade e é capaz de superá-lo e sair fortalecido”. Entretanto, uma pessoa com capacidade de resiliência não significa que resista a todas as pressões do meio, pois pode chegar a um ponto em que não tolere mais a pressão externa. Nesse ponto, há um paralelo com a física, que explica que os Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliênciae Juventudes Periféricas 193 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil materiais resilientes também suportam até certo limite de pressão (FERREIRA, 2009). Sobre isso, Brandão (2009) defende ser esse fenômeno processual e dinâmico, que se transforma quando as circuns- tâncias mudam, ou seja, o processo de enfrentamento de adversidades ocorre de formas diversas levando-se em conta quem enfrenta, o que se enfrenta e quais as circunstâncias envolvem o processo. Uma pessoa pode apresentar o processo de resiliência de formas variadas em situações distintas, podendo usar de mecanismos de enfrentamento distintos, bem como sofrer mais ou menos em cada situação. Desse modo, é nessa perspectiva que o presente trabalho se apoia: na concepção de resiliência entendida como um processo a ser desenvolvido de forma dinâmica. Ela pode ser alcançada, adquirida e é circunstancial, ou seja, pode se mostrar ou não dependendo das situações por que passam as pessoas. Somando-se a isso, defende-se que esse fenômeno tem um sentido de superação, pois “[...] envolve um processo de superação de adversidades e crescimento a partir de uma elaboração pessoal” (BRANDÃO, 2009, p. 108). Destarte, a pessoa aprende com a adversidade e acredita que seu sofrimento a torna melhor do que teria sido sem ele, é seguir o lema de acreditar no sucesso e aprender com o fracasso. É como Walsh (2005, p. 246) defende: “[...] uma premissa básica da resiliência é que fracasso não é cair, mas permanecer no chão”. Na psicologia, o fenômeno resiliência é construído e não é tarefa do sujeito enquanto pessoa isolada, pois ele precisa do suporte do outro para lhe ajudar a enfrentar as adversidades. De acordo com Cyrulnik (2001, p. 225), a resiliência: Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 194 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil [...] trata-se de um processo, de um conjunto de fenó- menos harmonizados em que o sujeito penetra dentro de um contexto afectivo, social e cultural. A resiliência é a arte de navegar nas torrentes. Um trauma empurrou o agredido numa direcção para onde gostaria de não ter ido mas, visto que caiu numa vaga que o enrola e o leva para uma cascata de mortificações, o resiliente tem de fazer apelo aos recursos interiores impregnados na sua memória, tem de lutar para não se deixar arrastar pelo declive natural dos traumatismos que o fazem cansar-se de lutar, de agressão em agressão, até que uma mão estendida lhe ofereça um recurso exterior, uma instituição social ou cultural que lhe permita sair da situação. As pessoas com capacidade de resiliência têm o suporte de figuras significativas ou “tutores de resiliência” (CYRULNIK, 2001), que podem ser um ou mais membros da família ou não pertencentes a ela, mas que aceitam as pessoas que estão enfrentando algum tipo de adversidade, de forma incondicional, independentemente dos seus temperamentos, inteligências ou aspectos físicos. Estão genuinamente interessadas nas histórias de dificuldades que as pessoas enfrentam e preocupadas com o bem-estar delas, compreendem suas dificuldades, criam empatia com seus sofrimentos e encorajam seus maiores esforços. Diante disso, a figura significativa tem um papel impor- tante para ajudar a pessoa a enfrentar as adversidades e de acordo com Brandão (2009, p. 114) é possível afirmar que se insere no conceito de fatores de resiliência, pois estes “[...] influem positivamente na maneira como a pessoa enfrentará as adversidades”. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 195 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil Grotberg (2005) organizou os fatores resilientes em quatro categorias que favorecerem o enfrentamento efetivo das situações adversas e que abarcam habilidades interpessoais e de resolução de conflitos, apoio social e força intrapsíquica e que foram utilizadas para mapear as ações dos projetos desen- volvidos com os jovens. São elas: Eu tenho • Pessoas do meu entorno em quem confio e que me querem incondicionalmente. • Pessoas que me põem limites para que eu aprenda a evitar os perigos ou problemas. • Pessoas que me mostram, por meio de sua conduta, a maneira correta de proceder. • Pessoas que querem que eu aprenda a me desenvolver sozinho. • Pessoas que me ajudam quando eu estou doente, ou em perigo, ou quando necessito aprender. Eu sou • Uma pessoa pela qual os outros sentem apreço e carinho. • Feliz quando faço algo bom para os outros e lhes demonstro meu afeto. • Respeitoso comigo mesmo e com o próximo. Eu estou • Disposto a me responsabilizar por meus atos. • Certo de que tudo sairá bem. Eu posso • Falar sobre coisas que me assustam ou inquietam. • Procurar a maneira de resolver os problemas. • Controlar-me quando tenho vontade de fazer algo errado ou perigoso. • Procurar o momento certo para falar com alguém. • Encontrar alguém que me ajude quando necessito. (GROTBERG, 2005, p. 17). Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 196 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil Compreende-se que essas categorias apoiam um conjunto de ações que buscam oferecer recursos expressivos e de ascese que possibilitam um continente para o mundo vivido dos jovens. Juventudes Periféricas: uma Marca da Resistência Neste momento histórico, as juventudes ainda são marcadas pela lógica do risco e do patológico ou como, no mínimo, um período de moratória1 que em nossa cultura se tornou problemática uma vez que “[...] o olhar adulto não reco- nheceu nelas os sinais de passagem para a vida adulta”. (BOCK, 2007, p. 66). Segundo Bock (2007), a maioria das concepções de juventude utilizadas pela Psicologia considera apenas um tipo particular de jovem, geralmente branco, burguês e masculino como parâmetro de modelo. Essa concepção naturalizante da juventude não considera as singularidades e contextos socioe- conômicos e culturais das diferentes juventudes. Sendo assim, destacamos o caráter sócio-histórico da juventude, indicando a necessidade de se “despatologizar” ou “desnaturalizar” os modelos de desenvolvimento humano construído a partir deste referencial. Indicando que os psicólogos perdem as oportunidades de elaborar políticas públicas a partir de uma visão de juventude que contemple a perspectiva que as suas características não 1 Moratória social é um conceito muito usado atualmente na compreensão da adolescência e juventude. Foi usado pela primeira vez por Erik Erickson, em 1960, em seu livro Identidade: juventude e crise. A expressão é usada para designar este período de espera que a sociedade oferece aos jovens como momento de preparação para a vida adulta. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 197 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil são naturais e, sim fruto das relações sociais e das formas de produção da sobrevivência, ajudando a ressignificação, pelo adulto, deste período, e sugerindo novas formas de relaciona- mento que tenham no jovem um parceiro social. De acordo com Malvasi e Trassi (2010), ao fazermos as discriminações desses vários conceitos, acabamos por desco- brir que a juventude, para além de suas particularidades, nas diferentes sociedades e culturas, inclui um grande número de situações e indivíduos/grupos que devem ser considerados adquirindo visibilidade. Somente assim, poderemos ter dife- rentes juventudes marcadas pelo cenário histórico e interação constante do organismo com o meio. Diferentemente das sociedades tradicionais, nas quais os jovens eram conduzidos nessa passagem por meio de um ritual de iniciação que os confrontava com aquilo que a comunidade cobrava deles para passarem a ser vistos como um iniciado, na nossa cultura não é oferecido nem orientações clarase nem tampouco papéis precisos do que seja ser adulto. No entanto, considerando a juventude uma experiência subjetiva peculiar da nossa cultura, precisamos contar com as inúmeras variáveis que podem estar produzindo e indicando diferenças e especifi- cidades da condição juvenil em determinados contextos locais (COUTINHO, 2009). Assim, a teorização e a investigação sobre as juventudes são valiosas para a nossa cultura porque expressa determi- nadas singularidades de uma organização social, mas também é uma tarefa delicada pelo risco de produzir ideais a serviço da reprodução de determinadas normas sociais hegemônicas, da exclusão da diferença e da neutralização da palavra dos próprios sujeitos juvenis. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 198 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil Devendo considerar aqui, particularmente, o caso dos jovens pobres e/ou marginalizados, que, tão grave quanto à condição de privação material em que muitas vezes vivem, é a condição de desamparo discursivo em que se encontram. Sem um lugar no discurso social que não seja o lugar da estigma- tização e do preconceito, estando, assim esses jovens privados da possibilidade de serem escutados enquanto sujeitos, o que, muitas vezes só vem a ocorrer após algum ato extremo de violência, como única resposta possível (COUTINHO, 2009). Dessa forma, pode-se dizer que: Costuma-se vincular a vida dos jovens pobres no Brasil, de maneira geral, à violência, à criminalidade e ao tráfico de drogas. Uma forma comum usada para se referir, indiscriminadamente, a crianças e adoles- centes pobres é chamá-los de “menor”, termo que deriva de uma representação social sobre a criança e os adolescentes pobres como despossuídos [...], ou seja, as caracterizações dessa parcela da adolescência e da juventude existentes no imaginário social e veiculadas pelos meios de comunicação tendem ser estereotipadas e preconceituosas (MALVASI; TRASSI, 2010, p. 49). Assim, pensarmos em juventudes periféricas (FERREIRA, 2011), significa retomarmos esta categoria a partir de uma pers- pectiva crítica capaz de resistir aos processos de normalização e de assujeitamento, tão comuns em nossa cultura. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 199 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil Promoção de Resiliência nas Juventudes Periféricas: Desafiando o Risco O conceito de risco, segundo Sapienza e Pedromônico (2005), estava inicialmente associado ao modelo biomédico, que procurava identificar padrões de doenças estando, com frequ- ência, relacionado ao termo mortalidade. Nesta perspectiva, o conceito de risco tem sido representado tradicionalmente como um fator que antecipava resultados negativos, ou seja, com a presença de um único fator de risco já bastava para se prever consequências indesejáveis, conforme indica Paludo e Koller (2005). Atualmente, existe uma visão mais dinâmica, na qual o risco passa a ser visto como uma variável vinculada direta- mente ao resultado provocado. Assim, de acordo com Yunes e Szymanski (2001, p. 24), os fatores de risco precisam ser vistos sempre como processo e não como variável em si e “relacio- nam-se com toda sorte de eventos negativos de vida, e que, quando presentes, aumentam a probabilidade de o indivíduo apresentar problemas físicos, sociais ou emocionais”. De acordo com Luthar e Zelazo (2003 apud BRANDÃO, 2009), o que diferencia basicamente os dois enfoques é o caráter negativo ou positivo dos fatores que cada um focaliza. Na abordagem de risco, o que são focalizados são os resultados e os fatores negativos que nele interferem, como por exemplo, a presença de distúrbios psicológicos e a doença mental de um dos pais. Enquanto na abordagem da resiliência, dimensões tanto positivas quanto negativas são focalizadas nos resultados de um desenvolvimento e nos fatores que atuam sobre o mesmo. Assim, pode-se afirmar que uma mesma variável pode causar resultados diferentes para uma mesma pessoa em Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 200 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil etapas diferentes do seu desenvolvimento ou, ainda, poderá causar determinados resultados a uma pessoa e a outra não. Sendo assim, Rachman (2008) sugere com essa flexibilidade que ao invés de fatores ou variáveis de risco esses eventos sejam chamados de mecanismos ou processos. Yunes e Szymanski (2001), em pesquisa realizada com famílias de baixa renda com o propósito de identificar os fatores determinantes da resiliência familiar, concluíram que a pobreza não pode ser considerada como fator de risco. É preciso iden- tificar que processos ou mecanismos influenciaram o que liga risco a consequência, em um determinado ponto da história do indivíduo. Koller e Lisboa (2007 apud POLETTO; KOLLER, 2008) alertam para o fato de que a pobreza não pode ser adotada como um fator de risco a priori, de forma descontextualizada, uma vez que em países como o Brasil, considerado pobre, pessoas ricas podem passar por experiências estressoras e de risco ao sentir medo de ser sequestrada, assaltadas ou violentadas. Segundo Grotberg (2005), o paradigma da promoção está comprometido com a elevação do potencial e do bem-estar das pessoas e não apenas preocupado com os problemas de saúde. Esse modelo estaria mais condizente com o paradigma que focaliza a construção de fatores de resiliência, comprometen- do-se com o comportamento resiliente e com a obtenção de resultados positivos, incluído um valor agregado de bem-estar e qualidade de vida. Vários pesquisadores estão investindo na capacidade de se promover a resiliência, obtendo resultados satisfatórios. Monteiro et al. (2001, p. 12) sugerem algumas estratégias centradas na pessoa, tais como: (1) redirecionamento do impacto de risco; (2) redirecionamento da reação que se faria Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 201 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil por uma trajetória negativa; (3) desenvolvimento da autoestima e do poder de ações positivas, por meio de relações pessoais, de novas experiências e de aprendizagem para suplantar desafios; e (4) criação de oportunidades que permitam ao indivíduo ter acesso a recursos. A partir de suas primeiras pesquisas, Grotberg (2005) identificou alguns fatores de resiliência organizando-os em quatro níveis diferentes: Eu tenho, Eu sou, Eu estou e Eu posso. O manejo do conjunto destas categorias favorece a criação de intervenções que visam à promoção da resiliência. A seguir, apresentaremos brevemente sete projetos desenvolvidos desde 2006 na comunidade do Coque por meio dos projetos de Extensão da UFPE em parceria com o NEIMFA. Curso de Educadores Holísticos (NEIMFA/PPGE-UFPE) Projeto desenvolvido pelo NEIMFA, em parceria com a UFPE, teve uma duração de cinco anos. Nele, as intervenções procuram construir com os jovens os aspectos resilientes apon- tados por Grotberg (2005), tanto na relação professor-aluno, na qual esses jovens são apoiados no processo de melhoria da sua autoestima, como na relação aluno-aluno em que o apoio e a confiança entre si possibilitavam que as dificuldades fossem compartilhadas coletivamente. O curso está na sua terceira turma e atende uma média de 17 participantes, sendo sistematicamente estudado por Ferreira (2007, 2009, 2011). Os encontros ocorriam durante toda semana com disciplinas que envolvem raciocínio lógico, prazer de ler, Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 202 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil cuidar do ser, artes e trabalhos com Psicologia. Nas disciplinas ministradas tentava-se potencializar e estimular a promoção da resiliência nointuito de favorecer o desenvolvimento abran- gente de modo que esses jovens pudessem ser fortalecidos sendo capazes de enfrentar as adversidades. No curso também, os jovens vivenciavam aulas de filosofia, fotografia, arte, linguagens, tradições espirituais, meditação, trabalho terapêutico, tudo permeado pela preocu- pação central do cuidado com o ser (FERREIRA, 2007), atendendo todas as categorias apontadas por Grotberg (2005). Projetos da Rede Coque Vive Entre os anos 2007 e 2008, a Rede Coque Vive desen- volveu três projetos: Rede de Agentes de Educomunicação Solidária (2006- 2007 MEC/SESu/Depem. ProExt-UFPE), Rede de Comunicação e Cultura: Filhos e Filhas do Coque, (ProExt Cultura 2007 Ministério da Cultura) e o Programa de Formação de Agentes de Mediação Sociocultural (PFAMS) (MEC/SESu/ Depem 2007-2008. ProExt-UFPE). As intervenções desses projetos buscavam estimular a formação de novas redes de promoção social, articulando os jovens das pesquisas e disciplinas do curso de Jornalismo/UFPE com os jovens moradores da comunidade, no intuito de criar um agendamento positivo do bairro do Coque na mídia local, ocupação de redes virtuais. A promoção de resiliência ocorria por meio do trabalho de estímulo ao protagonismo juvenil que se materializava num processo de formação humana e crítica com jovens, além de Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 203 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil oferecer subsídios teóricos para estes realizassem interven- ções sociais, oficinas de qualificação técnica (mídias digitais, expressão sonora e visual, redação, leitura, expressão e outras); realização de circuitos socioculturais (eventos culturais – oficinas, mostras, eventos memória – contação de histórias, circuitos universitários – eventos acadêmicos); ocupação da rede virtual, estímulo à formação de redes de promoção social; implantação da Estação Digital de Difusão de Conteúdos; Cine Coque Vive. Ensino e intervenção social: conteúdos articulados à ação extensionista no Coque (produções jornalísticas de alunos da graduação veiculadas na mídia local sobre o Coque e ações do projeto “Narração de histórias das Mães do Coque”). No conjunto, estes projetos tomavam o jovem de periferia como autor de sua vida, potencializando os fatores de resiliência apontados por Grotberg (2005), em especial o eu sou e o eu tenho são detalhados em Vale Neto (2009). No ano de 2008-2009, foi realizado o projeto Coque Vive: Estação Digital de Difusão de Conteúdos (2008-2009, ProExt- UFPE). Este projeto buscava construir uma estação digital que abordava estratégias de promoção de resiliência por meio do enfrentamento midiático, na qual os jovens moradores do Coque poderiam relatar suas inquietações e seus medos. A Estação Coque Vive é um espaço físico, composto por equipamentos para produção musical e audiovisual e um espaço virtual, que reúne um conjunto de iniciativas articuladas de inserção de conteúdos sobre e a partir do Coque em diferentes plataformas na internet (Picasa, Ning, YouTube, flickrs, blogs etc.), assim como a manutenção deste site colaborativo. E mais do que isso, é uma proposição: uma proposição que compreende a construção de um novo regime de interação, de relação entre universidade e a comunidade (COQUE VIVE, 2009). Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 204 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil Em 2010, foi elaborado o projeto Coque Vive: mídias de sinergia Criatividade para romper os muros (in)visíveis (ProExt-UFPE), que consistia de uma ação integrada que proble- matizava, via ação juvenil, “os processos de criminalização da pobreza, paradigmas solidários nas ciências humanas e nos movimentos sociais”. Neste projeto, reuniram-se: quatro agentes em “sinergia”: Universidade, Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis, Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis e o grupo de artesãs Cor do Coque em torno de um mesmo objetivo: re-pensar a relação dos espaços populares com a cidade, construindo para isso uma mídia sinérgica rica em conteúdo e formas que remetam a essa “reunião”(COQUE VIVE, 2010). As estratégias de promoção de resiliência eram postas em ação por meio da produção de mídias colaboracionistas: O Estúdio Coque Livre e Estação Digital Coque Vive, sediados no NEIMFA, ajudavam na redescrição subjetiva de novas imagens dos jovens das periferias, superando as visões de risco e vulne- rabilidade, assim como as oficinas de reciclagem artesanal de papel realizadas por jovens mulheres, produziam uma diversi- dade de produtos que incluíam agendas, bloco de notas e caixas para presente. Em 2011, foi elaborado o Programa de Extensão Observatório das Periferias (ProExt-UFPE) que tem na promoção de resiliência em jovens de periferias um elemento central. Destacamos que a promoção de resiliência é um dos possíveis caminhos de superação dos processos de exclusão vividos pelos jovens moradores da periferia. Um ponto marcante no conjunto de todas as ações reali- zadas pelos projetos investigados foi a presença de promoção de valores humanos e que podem ser descritos pelos seis valores apontados por Disken (2008, p. 8): “respeitar a vida, rejeitar a Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 205 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil violência, ser generoso, ouvir para compreender, preservar o planeta e redescobrir a solidariedade”. A promoção de resiliência está diretamente associada à promoção de cultura de paz. Percebe-se que o uso das categorias desenvolvidas por Grotberg (2005) para o estudo da resiliência foi posta como prática nos projetos desenvolvidos. Eu tenho (apoio); eu sou, eu estou (relativo ao desenvolvimento da força intrapsíquica); eu posso (aquisição de habilidades interpes- soais e resolução de conflitos) estavam imbricados nas ações e convergem na tentativa de promoção de resiliência e redução de violência contra estes participantes. Nessa linha de pensamento, a resiliência, essa inaudita dimensão de construção humana, como aponta Cyrulnik (2001), nos faz pensar na necessidade que temos de nos inventar e reinventar a cada dia, a cada adversidade, exigindo a aprendi- zagem de novos modos de ser capazes de superar as imposições e determinações socioculturais. Considerações Finais Este artigo buscou verificar a possibilidade de promoção de resiliência em jovens moradores das periferias, mais dire- tamente indicamos alguns projetos desenvolvidos na periferia do Coque, Recife, que trabalha com a promoção de resiliência como estratégia de superação do paradigma do risco. Inicialmente, fizemos um breve histórico sobre a resili- ência, expondo suas diferentes concepções. Fizemos também uma distinção entre o paradigma do risco e o paradigma da resiliência, mostrando que no risco o que se focaliza são os Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 206 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil resultados e os fatores negativos que nele interferem. Já na abordagem da resiliência, tanto as dimensões positivas quanto as negativas são focalizadas nos resultados de um desenvolvi- mento e nos fatores que atuam sobre ele. Pensar a possibilidade de promoção de resiliência a partir das categorias de Grotberg (2005): eu tenho (suporte social), eu posso (habilidades) eu sou e eu estou (força interna), permi- tiu-nos perceber que é possível ensinar e aprender estratégias positivas que favoreçam a construção de processos de subjeti- vação que vão além dos estereótipos com os quais são tratados os jovens das periferias. Em relação às juventudes periféricas, procuramos mostrar uma visão sócio-histórica, na qual a juventude se constrói a partir das relações do sujeito com o contexto no qualele está inserido. Diferentemente da concepção naturalizante de juventude que não considera as singularidades e contextos socioeconômicos e culturais das diferentes juventudes, apon- tamos uma visão crítica, no intuito de superar os modos como são implantadas as ações da psicologia nas periferias. Situamos sete projetos de extensão que buscavam promover resiliência em jovens da periferia do Coque, indi- cando como o protagonismo, a autoestima e o colocar os jovens no centro da problematização ajuda a criar rotas de fuga dos modelos de dominação e normalização. Mesmo apresentando uma breve contribuição, a ideia de promoção de resiliência em jovens nas periferias, indicamos a importância de uma ampliação deste estudo que se centrou nas produções bibliográficas, não analisando a participação direta nas experiências. Esta participação direta poderia contribuir na percepção mais clara do fenômeno investigado. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 207 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil REFERÊNCIAS ABRAMO, H. W. Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil. Revista Brasileira de Educação, São Paulo, n. 5-6, p. 25-36, 1997. ABRAMO, H. W. Condição juvenil no Brasil contemporâneo. In: ABRAMO, H. W.; BRANCO, P. P. M. (org.). Retratos da juventude brasileira. São Paulo: Instituto Cidadania; Fundação Perseu Abramo, 2005. ALMEIDA, M. da G. B. (org.). A violência na sociedade contemporânea. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010. ARROYO, M. G. O direito a tempos-espaços de um justo e digno viver. In: MOLL, Jaqueline (org.). Caminhos da educação integral no Brasil: direito a outros tempos educativos. Porto Alegre: Artmed, 2012. p. 33-45. ATAQUES coordenados aterrorizam Paris e deixam 129 mortos. Folha de São Paulo. 13 nov. 2015. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ mundo/2015/11/1706236-policia-francesa-registra-tiroteio- e-explosao-em-paris.shtml. Acesso em: 30 set. 2020. BAILLEAU, F. La France, une position de rupture? Les réformes successives de l’ordonnance du 2 février 1945. Déviance et Société, v. 33, n. 3, p. 441-468, 2009. BARANGER, T.; SALAS, D. Le juge des enfants fait-il encore autorité?. Archives de Politique Criminelle, n. 30, p. 7-23, 2008. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 208 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil BENÉC´H-LE, R. Procureur de la République, une identité professionnelle renforcé. Questions Pénales, n. 24, 2007. BOCK, A. M. B. A adolescência como construção social: estudo sobre livros destinados a pais e educadores. Revista da associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, v. 2, n. 1, p. 2007. BRANDÃO, J. M. Resiliência: de que se trata? O conceito e suas implicações. 2009. 136 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social) – Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade de Minas Gerais, Belo Horizonte 2009. CAMPOS, Rafael. Escolas do Distrito federal lutam contra a violência e crimes frequentes. Diário de Pernambuco. 6 jul. 2015. Disponível em: http://www.diariodepernambuco.com. br/app/noticia/brasil/2015/07/06/interna_brasil, 584842/ escolas-do-distrito-federal-lutam-contra-a-violencia-e- crimes-frequentes.shtml. Acesso em: 30 set. 2020. CARRANO, P. C. R. Juventude: as identidades são múltiplas. Juventude, Educação e Sociedade, n. 1, p. 52-72, 2000. CASOS de violência escolar naregião de Piracicaba deixam marcas e medo. G1. 30 dez. 2014. Disponível em: http:// g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2014/12/ casos-de-violencia-escolar-na-regiao-de-piracicaba- deixam-marcas-e-medo.html. Acesso em: 30 set. 2020. CHARLOT, B. A violência na escola: como os sociólogos franceses abordam essa questão. Revista Sociologias, Porto Alegre, ano 4, n. 8, p. 432-443, jul./dez. 2002. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 209 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil CYRULNIK, B. Resiliência, essa inaudita capacidade de reconstrução humana. Lisboa: Instituto Piaget, 2001. COUTINHO, L. G. Adolescência, cultura contemporânea e educação. Estilos da clínica. São Paulo, v. 14, n. 27, 2009. Disponível em: http://www.revistasusp.sibi.usp. br/scielo.php?pid=S141571282009000200009&script=sci_ arttext Acesso em: 21 fev. 2012. COQUE VIVE. Projeto Gestão de Processos Comunicacionais no Coque (ProExt – UFPE). 2009. Disponível em: http://www. coquevive.org/admin /pdf/02201001002837coquerelatorioPFAMS 2007final anexo. pdf. Acesso em: 15 abr. 2012. COQUE vive: estação digital de difusão de conteúdos. 2010. Disponível em: http://www.coquevive.org/ admin/pdf/02201001013419_Relatorio_CoqueVive_ ProextUFPE_final_.pdf – Acesso em: 20 abr. 2012. CRESWELL, J. W. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. 3. ed. Porto Alegre: Artmed; Bookman, 2010. DANET, J. Cinq ans de frénésie pénale. In: MUCCHIELLI, Laurent (org.). La frénésie sécuritaire: Retour à l’ordre et nouveau contrôle social. Paris: La Découverte, 2008. p. 19-29. DAYRELL, J. O jovem como sujeito social. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, set./dez. 2003. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 210 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil DAYRELL, J.; CARRANO, P.; MAIA, C. L. Juventude e ensino médio: sujeitos e currículos em diálogo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. DAYRELL, J. et al. Juventude e Escola. In: SPOSITO, M. P. (coord.). Estado da Arte sobre juventude na pós-graduação brasileira: educação, ciências sociais e serviço social (1999- 2006). Belo Horizonte, MG: Argvmentvm, 2009. v. 1. DICIONÁRIO AURÉLIO ELETRÔNICO SÉCULO XXI. Rio de Janeiro: Nova Fronteira e Lexicon Informática, 1999. CD-ROM. versão 3.0. DISKEN, L. Cultura de Paz: Notas para uma construção Polifônica. In: PELIZZOLI, Marcelo. Cultura de Paz: educando do novo tempo. Recife: Editora Universitária UFPE, 2008. p. 219. DURU-BELLAT, M.; MONS, N.; SUCHAUT, B. Organisation scolaire et inéga-lités sociales de performance: les enseignements de l’enquête PISA. Education et Formations, v. 70, p. 123-131, 2004. FANFANI, E. T. Culturas jovens e cultura escolar. Brasília: Ministério da Educação, 2000. Documento apresentado no seminário “Escola Jovem: um novo olhar sobre o ensino médio”. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/ arquivos/pdf/EmilioTentiF.pdf. Acesso em: 23 jan. 2016. FERREIRA, A. L. Do entre-deux de Merleau-Ponty à atenção/ consciência do budismo e da abordgem transpessoal: a busca de uma pedagogia direcionada para integralidade da formação. 2007. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2007. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 211 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil FERREIRA, A. L. “Aprender a ser” como um dos caminhos de promoção da resiliência. In: FERNANDES, F. L.; FERRAZ, A. F.; SENNA, A. C. (org.). Redes de valorização da vida. Rio de Janeiro: Observatório de Favelas, 2009. p. 63-78. FERREIRA, A. L. Adolescências periféricas: o espaço grupal transpessoal como dispositivo de formação humana. Manaus: EPPEN, 2011. GOFFMAN, E. Estigma: la identidad deteriorada. 5. ed. Buenos Aires: Amorrortu, 1993. GOHN, M. da G. Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas. Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v. 14, n. 50, p. 27-38, jan./mar. 2006. GOHN, M. da G. Educação não-formal e cultura Política: impactos sobre o associativismo no terceiro setor. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2008. GROPPO, L. A. A condição juvenil e as revoltas dos subúrbios na França. Política & Sociedade: Revista de Sociologia Política, Florianopólis, v. 5, n. 8, 2006. GROTBERG, E. H. Introdução: novas tendências em resiliência. In: MELILLO,A. et al. Resiliência: descobrindo as próprias fortalezas. Trad. V. Campos. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 15-22. JUNQUEIRA, M. F. P. S.; DESLANDES, S. F. Resiliência e maus-tratos à criança. Cadernos de Saúde pública, v. 19, n. 1, p. 227-235, 2003. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 212 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil LAZERGES, C. Un populisme pénal contre la protection des mineurs. In: MUCCHIELLI, Laurent (org.). La frénésie sécuritaire. Paris: La Découverte, 2008. p. 30-40. MALVASI, P. A.; TRASSI, M. L. “Violentamente Pacíficos”: desconstruindo a associação juventude e violência. São Paulo: Cortez, 2010. MELILLO, A. et al. Resiliência: descobrindo as próprias fortalezas. Trad. V. Campos. Porto Alegre: Artmed, 2005. MONTEIRO, D. S. dos A. et al. Resiliência e Pedagogia da Presença: intervenção sócio-pedagógica no contexto escolar. In: BELLO, José Luiz de Paiva. Pedagogia em Foco. Vitória: [s.n.], 2001. Disponível em: http://www.pedagogiaemfoco. pro.br/fundam01.htm. Acesso em: 14 mar. 2012. MUCCHIELLI, L. Les ‘centres éducatifs fermés’: Rupture ou continuité dans le traitement des mineurs délinquants?. Revue d’Histoire de l’Enfance Irrégulière, n. 7, 2005. NUNES, C. B.; FREITAS, A. S. Biopolítica e Resistência: uma análise foucaultiana das políticas públicas de Juventude na Contemporaneidade. Recife: PIBIC/UFPE/CNPQ, 2009. PALUDO, Simone dos Santos and KOLLER, Silvia Helena. Resiliência na rua: um estudo de caso. Psic.: Teor. e Pesq., v. 21, n. 2, p. 187-195, 2005. PERALVA, A. Levantes urbanos na França. Tempo Social: Revista de Sociologia da USP, v. 18, n. 1, p. 81-104, jun. 2004. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 213 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO – PNUD. Recife mescla IDH da África e da Europa. Recife, 2005. Disponível em: http://www.pnud.org.br/pobreza_desigualdade/ reportagens/index.php?id01=1666&lay=pde Acesso em: 30 jan. 2012. PROGRAMA DE FORMAÇÃO DE AGENTES DE MEDIAÇÃO SOCIOCULTURAL – PFAMS. Disponível em: http://www.coquevive.org/admin/ pdf/02201001002837CoqueRelatorioPFAMS2008finalanexo%20 desdobrado.pdf. Acesso em: 15 abr. 2012. POLETTO, M.; KOLLER, S. H. Contextos ecológicos: promotores de resiliência, fatores de risco e de proteção. Estudos de Psicologia, Campinas, 2008. POLETTO, M.; KOLLER, S. H. Resiliência na rua: um estudo de caso. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 21, n. 2, 2005. Disponível em: http/www.scielo.br. Acesso: 29 set. 2011. RACHMAN, V. C. B. Resiliência: o emprego desse conceito nas áreas de Educação e Psicologia da Educação no Brasil (2002 a 2007). 2008. 255 f. Dissertação (Mestrado em Educação: Psicologia da Educação). Pontifícia Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. REDE de Agentes de Educomunicação Solidária (MEC/Sesu/ Depem. ProExt-UFPE). Disponível em: http://www.coquevive. org/admin /pdf/02201001013419_ Relatorio_CoqueVive_Proext UFPEfinal_.pdf - 2009 Acesso em: 20 abr. 2012. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 214 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil RODRIGUES, N. Educação: da formação humana à construção do sujeito ético. Revista Educação & Sociedade, ano 22, n. 76, out. 2001. ROSSETTI-FERREIRA, M. C. et al. Rede de Significações e o Estudo do Desenvolvimento Humano. Porto Alegre: Artmed, 2004. SAPIENZA, G.; PEDROMÔNICO, M. R. M. Risco, proteção e resiliência no desenvolvimento da criança e do adolescente. Psicologia em estudo, Maringá, v. 10, n. 2, 2005. SPOSITO, M. P. Espaços públicos e tempos juvenis. Um estudo sobre ações do poder público em cidades de regiões metropolitanas brasileiras. São Paulo: Global, 2007. SPOSITO, M. P. Juventude e Educação: interações entre a educação escolar e a educação não-formal. Educação e Realidade, v. 33, n. 2, p. 83-97, 2008. SPOSITO, M. P.; CARRANO, P. C. R. Juventude e políticas públicas no Brasil. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, set./dez. 2003. TAKEITI, B. A.; VICENTIN, M. C. G. A produção de conhecimento sobre juventude(s), vulnerabilidades e violências: uma análise da pós-graduação brasileira nas áreas de Psicologia e Saúde (1998-2008). Saúde Soc., São Paulo, v. 24, n. 3, p. 945-963, 2015. Educação Não Formal na Comunidade do Coque: Resiliência e Juventudes Periféricas 215 Aurino Lima Ferreira, Nadja Maria Acioly-Régnier, Tatiana Lima Brasil VALE NETO, J. P. Coque: morada da morte? Práticas e disputas discursivas em torno de uma comunidade do Recife. 2009. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2009. WALSH, F. Fortalecendo a resiliência familiar. Tradução M. F. Lopes. São Paulo: Roca, 2005. WAISELFISZ, J. J. Mapa da Violência: Mortes Matadas por Arma de Fogo. 2015. Disponível em: http://www.mapadaviolencia.org. br/pdf2015/mapaViolencia2015.pdf. Acesso em: 30 set. 2020. WACQUANT, L. Punir os pobres. Rio de Janeiro: Revan, 2007. WACQUANT, L. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. YUNES, M. A. M.; SZYMANSKI, H. Resiliência: noção, conceitos afins e considerações críticas. In: TAVARES, J. (org.). Resiliência e educação. São Paulo: Cortez, 2001. p. 13-42. ZALUAR, A. Violência e criminalidade: saída para os excluídos ou desafio para a democracia? In: MICELI, S. (org.). O que ler para conhecer o Brasil. São Paulo: Anpocs, 1999. v. 1. ZALUAR, A. Para não dizer que não falei de samba. Os enigmas da violência no Brasil. In: SCHWARTZ, L. (org.). História da vida privada. São Paulo: Cia das Letras, 1998. v. 4. p. 246-302. ZALUAR, A.; LEAL, M. C. Violência extra e intramuros. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 16, n. 45, 2001. 216 3 Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural Juarez Tarcísio Dayrell Warley Fabiano Santos Introdução Este artigo tem como objetivo desenvolver uma análise acerca das trajetórias de jovens egressos de processos forma- tivos em arte e cultura, com o intuito de compreender como os jovens significam as formações em arte que tiveram, bem como as interferências da arte e da cultura em seus processos de formação. Na cidade de Belo Horizonte, existem inúmeros projetos sociais que oferecem formação em arte e cultura voltados para o público juvenil, como o programa Arena da Cultura da Prefeitura de BH, por exemplo, no qual boa parte dos alunos são jovens. Há também outros projetos que ofertam oficinas de arte, como o Valores de Minas, realizado pelo Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas), que oferece cursos de artes plásticas, música, dança, circo e teatro; ou mesmo o Instituto Undió, que além de oferecer cursos de arte (teatro, música, artes plásticas), oferta cursos de comunicação (vídeo) e formação de multipli- cadores culturais. No entanto, ainda são poucos os projetos que se dedicam a processos formativos que estabelecem um Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 217 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos cruzamento entre arte e tecnologia em uma perspectiva socio- profissional. Das várias instituições que existem, grande parte delas trabalha especificamente com arte ou comunicação. Parte desses projetos e programas voltados para arte e tecnologia em Belo Horizonte configura-se como cursos livres e não tem necessariamente interlocução direta com a inserção no mundo do trabalho. Essa perspectiva profissionalizante dos cursos de arte e tecnologia torna-se mais presente em cursos técnicos e tecnológicos, como, por exemplo, os cursos do SENAI, bem como em cursos de graduação oferecidos por algumas facul- dades da cidade. Diante deste cenário, foi realizado um estudo de caso tendo como universo empírico a Oi Kabum! BH1, uma escola de arte e tecnologia que oferece cursos voltados para artesvisuais, audiovisual e multimídia, com duração de 18 meses, para jovens entre 16 e 24 anos que estejam cursando ou tenham completado o Ensino Médio em escolas públicas. A investigação demandou a utilização de diferentes procedimentos de coleta de dados. No primeiro momento, foi necessário sistematizar as informações sobre a escola e seu projeto político-pedagógico. Neste sentido, foi feito um levan- tamento de documentos relacionados à escola, sua concepção metodológica, ações desenvolvidas e todas as informações necessárias para a compreensão do processo formativo viven- ciado pelos jovens. Após esta etapa foram realizadas entrevistas semiestruturadas com seis garotas e quatro rapazes, tendo como um dos critérios a idade, sendo entrevistados aqueles que, em 2014, no período das entrevistas, possuíam idades entre 21 e 26 anos. Um outro critério foi o campo de formação específico 1 Há também outras escolas Oi Kabum! em Recife, Rio de Janeiro e Salvador. Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 218 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos entre os cinco cursos que a escola dispunha na época, sendo eles: Fotografia, Design Gráfico, Webdesign, Vídeo e Computação Gráfica. Um último critério foi o fato de terem cursado o Núcleo de Produção, uma etapa posterior à formação inicial que visava um aprofundamento dos campos específicos de atuação e uma reflexão sobre o mundo do trabalho, entre os anos 2011 e 2012. Sendo o universo empírico constituído de jovens, faz-se necessário, então, explicitar a nossa compreensão a respeito da noção de juventude. Entendemos que a juventude não se limita apenas a um momento de transição entre a infância e a maturidade; ela configura-se como um período que traz ques- tões específicas ao seu estágio da vida2. Entre as representações sociais sobre os jovens, é necessário superar o entendimento da juventude como uma etapa de transição como alguém que ainda não está pronto. Nessa concepção, os jovens tendem a ser definidos como um “vir a ser” (DAYRELL, 2005), desconsiderando que estes vivem no presente, participando de alguma forma da vida social, seja trabalhando, votando ou vivendo sua sexualidade, além do que não podemos esquecer que o caráter de transi- toriedade está presente em todas as etapas da vida (CORTI; SOUZA, 2004). Como afirma Dayrell (2007), a juventude é uma cate- goria socialmente construída e ganha contornos próprios em contextos históricos, sociais e culturais distintos, marcados pela diversidade nas condições sociais, culturais, de gênero e até mesmo geográficas, entre outros aspectos. Além de ser marcada pela diversidade, a juventude é uma categoria dinâmica, que 2 Para uma discussão mais ampla sobre o conceito de juventude, ver Corti e Souza (2004), Dayrell (2005) e Feixa (1999), entre outros. Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 219 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos se transforma ao longo da história. Na realidade, não há uma “juventude” e sim jovens enquanto sujeitos que experimentam, se expressam e sentem segundo determinado contexto sociocul- tural. Por isso, é preciso pensar a juventude no plural levando em conta sua diversidade. Dessa forma, nesta investigação a noção de juventude foi pensada no plural, juventudes, para dar conta da diversidade sociocultural existente ao se referir aos jovens. Carles Feixa (1999) afirma que os jovens, inclusive os que provêm das camadas médias e altas, costumam ter escasso controle sobre a maior parte dos aspectos em sua vida, e estão submetidos à tutela das instituições adultas. A condição juvenil diferencia-se das outras condições sociais subalternas por se tratar de uma condição transitória, em que os jovens passam a ser adultos. O caráter transitório da juventude tem sido utili- zado frequentemente para menosprezar os discursos culturais dos jovens. Apesar disso, em condições desiguais de poder e recursos, determinados grupos juvenis têm sido capazes de manter níveis de autoafirmação consideráveis, principalmente aqueles ligados a grupos culturais, como o caso de vários dos jovens entrevistados nesta pesquisa. Nas entrevistas, as condições em que os jovens e suas famílias vivenciaram suas trajetórias foram aos poucos sendo relatadas por eles. Dos dez entrevistados, apenas Júnior3 sempre morou em um bairro de classe média e seus pais possuem formação superior, bem como vivenciaram experiências profissionais de maior prestígio social e econômico, enquanto que os outros entrevistados foram caracterizados como jovens pobres. Nesse sentido, vale salientar que observar o aspecto 3 Os nomes dos sujeitos foram substituídos por pseudônimos no momento de redação. Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 220 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos socioeconômico torna-se relevante por ajudar a compreender o lugar social dos jovens, podendo perceber seus limites e possibilidades de experiência ao longo de suas trajetórias. A família Os depoimentos evidenciaram que há grande influência da família na formação do gosto cultural, seja ele musical, seja no contato com a arte ou nas práticas culturais. De acordo com os relatos de alguns dos jovens, a escolha por determinado tipo de filme, o costume de ler desde cedo, a relação com determi- nado estilo música ou com as artes plásticas são oriundos das referências familiares, conforme Júnior conta: Por inf luência de meu pai eu gostei muito de rock antigo, e blues, assim, hoje em dia, é o que eu mais gosto. E acabou que eu aprendi instrumento. Eu toco violão, aprendi a tocar por um acaso, um amigo meu estava aprendendo a tocar, e eu não tinha nada para fazer na casa dele, e ele falou assim: ‘Ou! Deixa eu lhe ensinar?’ Mas aí eu já tinha esse gosto pela música, só que eu não interessava em tocar assim, eu achava legal guitarra, mas, assim, querer... nem pensava muito nisso. Mas aí depois eu comecei a tocar e fui direcionando isso para o blues, até mesmo eu tocar e ter aprovação do meu pai (JÚNIOR, 22 anos, Computação Gráfica). Conforme o jovem aponta, seu pai possuía uma gama de conhecimentos muito grande em música. Como se pode ver, o conhecimento artístico do pai do jovem colaborou para a ampliação de seu repertório cultural. Assim como ele, outros três jovens apontaram a influência dos pais no gosto cultural. Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 221 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos Estas influências não só ocorrem no campo cultural, mas também no que se refere às perspectivas profissionais. As famílias de quatro dos dez jovens são exemplos de famílias que vêm oferecendo grande apoio ao desenvolvimento artístico/ cultural dos jovens, respeitando seus limites e estimulando-os em suas escolhas profissionais e de formação. Se por um lado há famílias que oferecem apoio aos jovens, por outro observa-se que houve também a falta de apoio de alguns pais na trajetória escolhida pelos jovens. Charles conta de uma certa desconfiança sobre os caminhos escolhidos, bem como de uma falta de compreensão sobre as atividades culturais que desenvolve. Para Minetto e Flores (2006), a família é a principal promotora de afeto, educação, alimentação, moradia, valores e repertório cultural, ou seja, todos os pré-requisitos imprescin- díveis para que se possa desenvolver com o mínimo de preparo para lidar com as questões cotidianas da vida, sejam elas na infância, adolescência, juventude, sejam no mundo adulto. Na maioria das vezes, é dentro do núcleo familiar que os jovens lidam fortemente com experiências marcadas por restrições e incentivos. Da mesma forma que há pais menos permissivos, que muitas vezes nem se colocam disponíveis para discutir sobre determinado assunto, há também aqueles que colaboram, incentivando e oferecendo mais liberdade nas escolhas. Essas características são marcas que os jovens trazem em seus depoi- mentos aorelatarem suas trajetórias. Fica evidente também a participação da família ao longo de seus percursos, oferecendo contribuições nas trajetórias educacionais, artísticas/culturais e profissionais dos jovens. As famílias também ofereciam apoio em casa, no acompanha- mento das atividades escolares. Júnior, por exemplo, afirma que Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 222 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos sua mãe sempre acompanhava e estimulava o que ele estudava, dispondo-se a acompanhá-lo em seus exercícios, assim como Amora, que também poderia contar com o reforço em casa. A escola Ao levantarmos questões sobre suas experiências escolares, os jovens foram aos poucos relembrando as vivên- cias que tiveram na escola e mencionando aspectos que lhes chamavam atenção. Charles, por exemplo, conta que os alunos da instituição onde estudou contavam com espaços de discussão política dentro da escola. A participação dos jovens em grêmios estudantis pode tornar-se um exercício importante de auto- nomia e envolvimento político. Participar de uma ação coletiva exige por parte dos sujeitos a assimilação de um projeto coletivo contextualizado e situado (PRADO; PERUCCHI, 2011). No geral, todos os jovens entrevistados afirmaram ter um gosto especial pelos estudos, embora criticassem a escola, os professores e seus conteúdos. Os jovens também tecem considerações sobre os métodos de ensino adotados pela escola. Sandra, por exemplo, coloca em cheque o sentido que a escola teria em sua vida. Nessa mesma perspectiva, Charles narra seu desconforto em relação aos métodos de ensino que vivenciou na escola. Ao considerar que o estilo da aula lhe incomodava, Charles toca em dois pontos importantes de serem observados: um primeiro ponto diz respeito à ênfase dos professores na transmissão de conteúdos, o que, de acordo com o jovem, não se traduzia, efetivamente, em educação. Este questionamento remete à noção de “concepção bancária” (FREIRE, 1987) da Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 223 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos educação que muitos professores adotam em sala de aula. A “concepção bancária” tem como foco a transmissão dos conteúdos das matérias, que Paulo Freire (1987), em seu livro Pedagogia do Oprimido, já colocava como questão ao afirmar que este método servia como instrumento de opressão dos educa- dores frente aos educandos. Para Freire (1987), a “narração de conteúdos”, por parte dos professores, “tende a petrificar-se ou a fazer-se algo quase morto, sejam valores ou dimensões concretas da realidade” (FREIRE, 1987, p. 61). Além de ques- tionar sobre a abordagem conteudista dos professores, Charles também apresenta um segundo ponto vista sobre a escola, que está relacionado à demanda dos alunos por serem ouvidos pelos professores. Segundo Freire (1987), esta falta de escuta dos professores acontece porque a “narração ou dissertação” implica que um sujeito narrador tenha como objetos pacientes, ouvintes, os educandos (alunos). Ao longo dos depoimentos, nenhum jovem comentou a respeito de uma dimensão da cultura na escola o que pode levar a entender que os jovens não reconhecem a escola como um espaço para sua formação artística e cultural e, nesse sentido, a escola parece ter contribuído muito pouco. Os projetos sociais e a formação extraescolar Durante as entrevistas, os jovens relatam terem frequen- tado muitos processos formativos em programas sociais, como Projeto Providência, Núcleo de Apoio à Família (NAF) e Fica Vivo! – grupos populares como Grupo Cultural NUC e ONGs como Favela é Isso Aí!, Associação Imagem Comunitária (AIC), Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 224 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos Oficina de Imagens. O objetivo principal de boa parte dessas instituições não é essencialmente formar artistas, justamente por seus objetivos estarem vinculados ao desenvolvimento dos jovens enquanto cidadãos que se mantenham distantes da violência e da criminalidade (SANTOS, 2009). É possível notar que estes projetos sociais foram aos poucos possibilitando que os jovens passassem a ter acesso a diferentes linguagens e expressões culturais. Essa constatação ajuda a compreender onde os jovens pesquisados tiveram seus primeiros processos de formação, tendo em vista que a escola pouco contribuiu para sua formação artística cultural. A partir dos anos 1990, surgiram inúmeras iniciativas de Organizações não Governamentais (ONGs) e políticas públicas voltadas para os jovens. De acordo com Sposito (2007), em meados dos anos 1990, foi possível observar um emergente quadro de ações federais e municipais em torno da temática da juventude. A autora observa que houve a formação de uma agenda pública que considerava os jovens um problema político, que resultou na constituição da categoria social como objeto específico de intervenção do Estado. Sposito (2007) também destaca que essa agenda pública em âmbito nacional em torno da juventude somente ocorreu a partir de 2002, o que indica que a visibilidade da categoria como alvo da ação pública ainda é algo recente no país. Parte dessas políticas públicas voltadas para a juventude, mas principalmente, os trabalhos desenvolvidos pelas ONGs vêm oferecendo contribuições para a formação dos jovens. De acordo com Santos (2009), as organizações têm adquirido noto- riedade e experiência por meio da mobilização e participação na articulação com setores públicos e privados, comunidades locais e organizações internacionais, bem como na atuação e execução Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 225 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos de projetos de interesse social. Vale ressaltar que há também denúncias de que as ONGs podem ser um caminho fácil para a corrupção por meio de apadrinhamentos políticos. Em meio a uma diversidade de campos de atuação das políticas públicas e organizações não governamentais que desenvolvem atividades para a juventude, as ações que envolvem a arte e a cultura parecem ganhar um lugar especial neste processo. Segundo Santos (2009), a arte tornou-se, então, um pilar de sustentação e uma estratégia de intervenção de diversos projetos desenvol- vidos pelas ONGs. Os relatos dos jovens entrevistados parecem apontar para essa constatação de Santos. Ao analisar o que os jovens expressam, torna-se evidente que na trajetória de pelo menos sete dos dez jovens entrevistados, as ações promovidas pelas ONGs, projetos, programas e equipamentos públicos vão aparecendo como algo significativo em seus percursos. Programas e projetos dessa natureza, como se mencionou anteriormente, emergiram na década de 1990 (SPOSITO, 2009) e ganharam grande força ao longo dos anos 2000. Em Belo Horizonte, muitas iniciativas marcaram um cenário de formação para os jovens das periferias, como, por exemplo, os trabalhos desenvolvidos pelo Programa Agente Jovem, criado em 2000 e implantado pela Secretaria Municipal de Assistência Social, que visava propiciar uma oportunidade de “ocupação para jovens de 15 a 17 anos em situação de risco e vulnerabilidade social” (DAYRELL; LEÃO; REIS, 2007, p. 2). Houve também forte mobilização de grupos populares como Associação Cultural Tambolelê, Grupo Cultural NUC, Arautos do Gueto, e ONGs como Corpo Cidadão, Memória Gráfica, Associação Imagem Comunitária, Favela É Isso Aí!, Oficina de Imagens, entre outros. Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 226 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos Charles, por exemplo, é um dos jovens que participou de atividades culturais em sua comunidade e nos conta que: [...] lá para meus 12 anos eu comecei a frequentar o Centro Cultural Alto do Vera Cruz e aí foi daí que eu comecei a desen- volver esse gosto por arte, pelo desenvolvimento cultural, principalmente pela minha comunidade. Comecei a me juntar com outros adolescentespara articular eventos, participar de eventos lá (CHARLES, 26 anos, Design Gráfico). Conforme o jovem afirma, é neste momento que ele inicia uma relação com as atividades culturais. O Centro Cultural Alto Vera Cruz é um equipamento público municipal existente na comunidade, que dispõe de vários projetos de formação cultural para os jovens. Além disso, no decorrer da entrevista, o jovem vai relembrando várias atividades artísticas e culturais que ocorriam em seu bairro como, por exemplo, eventos que aconteciam em duas escolas públicas, que abriam os portões para o uso dos moradores da comunidade aos finais de semana. Segundo Charles, havia também grupos culturais e entidades locais que realizavam eventos numa praça do bairro. O jovem ainda afirma que aos poucos foi alimentando seu gosto por arte e cultura, procurando saber mais e estar à frente das atividades. Em geral, os jovens pesquisados valorizam as experi- ências que tiveram dentro dos projetos sociais e afirmam ter participado de vários programas diferentes. Embora esses projetos sociais sejam caracterizados por uma educação não escolar, eles contribuem, em certa medida, para a formação dos jovens na escola formal. Alguns deles já nascem com a proposta de parceria com as escolas ou, até mesmo, são idealizados e realizados no interior dela. Vários outros adotam como critério Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 227 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos de seleção e participação que os jovens estejam matriculados e frequentando regularmente a escola. Sandra, por exemplo, ao entrar em contato com a Associação Imagem Comunitária, passou a participar das formações em rádio, que era uma das atividades promovidas pela instituição. No entanto, para continuar participando do curso, precisou frequentar a escola novamente, já que esta era uma condição para fazer o que almejava. Exemplos como estes mostram como os projetos sociais tendem a assumir um papel importante na formação artística e cultural dos jovens. Ao comentar sobre as experiências que teve durante o projeto, Sandra também recorda dos momentos em que passou a relacionar-se com os colegas que conheceu ao longo do curso. A jovem afirma haver um grande número de jovens envolvidos em grupos culturais que promoviam uma série de eventos, dos quais sempre era convidada para participar. Percebemos, então, que há um movimento de ampliação das redes de contato, que não se limitavam a seus bairros de origem. Na medida em que os jovens foram se envolvendo com as práticas culturais, eles passaram a interagir e atuar junto a jovens de outras partes da cidade, em um movimento de ampliação da sociabilidade. Segundo Dayrell (2007), a sociabilidade se expressa em uma dinâmica de relações, com as diferentes gradações que definem aqueles que são os mais próximos (“os amigos do peito”) e aqueles que são mais distantes (a “colegagem”), bem como o movimento constante de apro- ximações e afastamentos, numa mobilidade entre diferentes turmas ou galeras. Ainda segundo o autor, a sociabilidade tende a ocorrer em um fluxo cotidiano, seja nos projetos sociais, seja no bairro ou pela cidade. Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 228 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos Nesse sentido, os projetos sociais surgem como “pontapé” inicial para que os jovens ampliem seus leques de atuação, que passaram pela apropriação de novos espaços de produção cultural dentro do próprio bairro, seguindo por uma expansão dessas atividades junto a atores de outras partes da cidade e, aos poucos, deixando o papel de jovens atendidos pelos programas para se tornarem promotores de cultura junto aos grupos culturais. Os grupos culturais Como uma das consequências das ações desenvolvidas pelos projetos sociais, boa parte dos jovens pesquisados passa a constituir grupos culturais, por meio dos quais foram aos poucos se tornando também produtores de cultura, atuando como agentes culturais. Sandra, por exemplo, afirma que dentro do processo de formação já existiam alguns grupos juvenis que lhe serviram de inspiração. A partir de então, ela fundou junto a outros jovens o Grupo Cultural Entreface, ao término do curso, para dar sequência às atividades que estavam desenvolvendo, nos mostrando que há uma tendência dos jovens em assumirem um papel ativo como produtores de cultura (FEIXA, 1999) e saírem em busca de novos parceiros. A articulação desses jovens faz com que eles colaborem para uma “cena cultural na periferia da cidade” (CAROLINA; DAYRELL, 2007), onde se forma uma rede entre os pares. Dayrell (2001), ao analisar o rap e o funk, afirma que para estes jovens, aos quais é negado o direito à juventude, essas expressões Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 229 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos culturais constituem um espaço e um tempo nos quais podem afirmar a experiência da condição juvenil. Também, deve-se levar em conta a juventude na perspec- tiva das culturas juvenis. Tendo em vista o contexto da sociedade contemporânea, cada vez mais os jovens se expressam de forma simbólica e lançam mão das expressões culturais como fonte importante em suas vidas. Nessa perspectiva, a arte e a cultura parecem constituir-se como elementos centrais para os jovens. Para Feixa (1999, p. 1, tradução nossa), em um sentido mais amplo, o conceito de cultura juvenil “se refere à maneira que as experiências sociais dos jovens são expressas coletivamente mediante a construção de estilos de vida distintos”. Segundo Feixa (1999), as culturas juvenis se expressam por meio de múltiplas e imaginativas vias que os jovens usam, humanizam, decoram e dotam de sentido os seus espaços vitais e as suas práticas sociais: a linguagem, a produção e a audição de música, a moda, a ornamentação corporal, o uso ativo e seletivo dos meios audiovisuais, a decoração da própria casa, os rituais de namoro, a criatividade artística etc. A música parece ganhar uma centralidade nessa cons- trução dos estilos. Poliana e Júnior, por exemplo, comentam que passaram por algumas bandas ao longo de suas trajetórias até encontrarem grupos com os quais se identificassem musical- mente. De acordo com Dayrell (2001), é por meio desses estilos que vários deles constroem determinados modos de ser jovem. Para Feixa (1999), para muitos desses jovens, as produções musicais, elementos centrais na maioria dos estilos juvenis, vêm sendo utilizadas como meio de autodefinição, como um emblema para marcar sua identidade de grupo (FEIXA, 1999). Os depoimentos mostram que a participação desses jovens nos grupos culturais trouxe experiência formativa, tanto Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 230 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos no campo artístico quanto em atuação política. A cena cultural que os grupos constroem vai se contrapondo a uma ideia muito presente no senso comum, de que os jovens de hoje “não querem nada com a vida” e são apenas consumistas e pouco interessados pela participação política. Nesse sentido, Feixa (1999) vai afirmar que parte desses grupos não é meramente receptor passivo dos meios audiovisuais, mas se manifesta publicamente numa série de produções culturais como grafites, murais, pinturas e tatuagens, bem como a partir da utilização dos recursos tecnológicos para produção de revistas, blogs, fanzines, vídeo, rádios livres, cinema, games etc. Os grupos que os jovens criaram após passarem pelos projetos sociais, de certa forma, servem de exemplo para confirmar esta afirmação de Feixa (1999). A experiência na Oi Kabum! BH Ao buscar a percepção dos jovens, faz-se necessário sentir e compreender como eles visualizam suas experiências. A noção de experiência na perspectiva de Bondia (2002) é apontada como algo “singular”, a qual cada jovem vivencia à sua maneira. De acordo com o autor, “somente o sujeito da experiênciaestá, portanto, aberto à sua própria transformação” (BONDIA, 2002, p. 26). Já, John Dewey (2010, p. 28) afirmava que “tudo depende da qualidade das experiências”. Para esse autor, “a qualidade de qualquer experiência tem dois aspectos: o aspecto imediato de ser agradável ou desagradável e o segundo aspecto, que diz respeito a sua influência sobre experiências futuras” (DEWEY, 2010, p. 28). A ideia de experiência permeia o universo da arte. Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 231 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos Ela está presente nos discursos de artistas, pesquisadores, professores e, principalmente, nas propostas pedagógicas de formação em arte. De acordo com o Projeto Pedagógico da Oi Kabum! BH (MATOSINHOS; MENDONÇA, 2011), desde 2009, quando a escola foi inaugurada em Belo Horizonte, sua concepção metodológica veio baseando-se em algumas propostas de Ensino de Arte para construir seus processos formativos. A proposta da escola visa proporcionar aos jovens um aprendizado significativo, a partir do qual eles possam desenvolver suas capacidades criativas e críticas por meio da arte e da tecnologia. Os três pilares da Abordagem Triangular (fazer, apreciar e contextualizar), conce- bidos por Ana Mae Barbosa (1998), fazem parte das propostas que, em grande parte, orientam as práticas educativas da escola. Essa abordagem esteve presente nas cinco linguagens trabalhadas na escola (fotografia, design gráfico, webdesign, computação gráfica, vídeo) ao longo das duas turmas que concluíram o curso. E foram adotadas como uma aposta meto- dológica na formação dos alunos, para que eles ampliassem suas possibilidades de reflexão e criação. Após passarem pelos 18 meses de formação, os jovens que se formaram tiveram a possibilidade de participar do Núcleo de Produção, posterior à formação de um ano e meio, com foco nas experiências de trabalho. Esta etapa é considerada pela escola como uma “fase complementar de formação, focada na criação de oportunidades qualificadas para que os jovens vivenciem o mundo do trabalho nas áreas em que se formaram” (MATOSINHOS; MENDONÇA, 2011, p. 48). Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 232 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos Relações, Redes e Sociabilidades No período em que os jovens estiveram na Oi Kabum!, eles construíram coletivos. A sociabilidade aparece como uma marca importante nos depoimentos. A experiência dos jovens na Oi Kabum! está marcada pela ampliação das redes de contato. Os dados da pesquisa mostram que as amizades e o contato com os professores e demais membros da equipe da Oi Kabum! estão presentes na memória dos jovens. Os jovens contam que a experiência na Oi Kabum! deixou amizades que vêm se estendendo até os dias atuais. Os depoimentos evidenciam que a boa relação entre os jovens e os professores (ou educadores, como a escola prefere usar) parece ter sido importante no processo de socialização dos jovens. O convívio entre os jovens e professores possibilitou “experiências sociais” (FEIXA, 1999) significativas para suas trajetórias. Essa “dinâmica de relações” (DAYRELL, 2007) que os jovens vivenciaram estimulou a construção de grupos culturais. Assim que entraram para a Oi Kabum!, os jovens rapidamente formaram coletivos de arte para atuarem também fora da escola. Ao conservarem essa lembrança do processo que viven- ciaram, os jovens relatam vários acontecimentos que marcaram esta passagem pela formação em arte e tecnologia. Stela, por exemplo, afirma que a partir do contato com os jovens da Oi Kabum! passou a pensar de forma diferente. De acordo com ela, os outros jovens lhe ajudaram a “pensar fora da caixa”, conforme diz. Para ela, estar naquele espaço possibilitava ampliar suas relações para além da família e do bairro sem negar sua identidade. Os depoimentos mostram que os contatos que jovens tiveram entre eles durante o tempo que estiveram na escola Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 233 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos produzia interferências em suas relações com a própria iden- tidade. Nessa perspectiva, Amora relata: [...] a Brenda, a Poliana foram pessoas muito decisivas na minha vida, até hoje, assim, são; questão de afirmação de sexualidade, antes eu era muito... tipo! ok, sou lésbica, mas, assim, era isso, assim, sou e vou ficar quieta e vamos ver se muda né, era esse tipo de coisa, se mudar, bem, se não mudar, amém, era isso mesmo. Mas aí, quando eu tive contato com elas, que era essa coisa de expressar isso, colocar isso para fora, eu cresci demais. Você aceita, sabe, para de fugir de si mesma, tipo assim: ‘Sou lésbica, se dá, bem, se não dá, amém, seja, sabe, viva isso.’ Também, se você continuar negando para si mesmo, não vai ser proveitoso e não vai fazer diferença nenhuma positiva para você. (AMORA, 21 anos, Webdesign). Este depoimento de Amora explicita que a jovem teve um maior esclarecimento sobre si mesma e conta que foi a partir do contato com algumas colegas da Oi Kabum! que pôde trabalhar a afirmação da sua identidade sexual. Lembrando que “a construção da identidade é antes de tudo um processo relacional, ou seja, um indivíduo só toma consciência de si na relação com o Outro” (DAYRELL, 2005, p. 35). Nessa perspectiva: É uma interação social, o que aponta para a importância do pertencimento grupal e das suas relações solidárias para o reforço e garantia da identidade individual. Fica evidente a importância do grupo de amigos, das esferas culturais, das atividades de lazer, da escola, entre outros, como espaços que podem contribuir na construção de identidades positivas. (DAYRELL, 2005, p. 35). Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 234 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos Além da sua relação de afirmação da identidade sexual, Amora também conta que, depois do contato com outros jovens, sentiu-se à vontade para mudar o estilo do cabelo: Eu mudei meu cabelo quando eu vim para cá... eu me vi outra pessoa mesmo. Eu tinha cabelo comprido, vivia preso porque não gostava do meu cabelo cacheado, solto, virava sempre um ninho de guaxinim. Aí eu sempre prendi, enrolava, tal, e aí sempre escutava lá em casa: ‘Esse cabelo seu tá mofando’. Não sei o que é, eu achava um saco do mesmo jeito, tanto solto quanto preso. Aí, quando eu vim para cá, o pessoal era muito mais confortável do que eles eram, aceitavam muito mais o que eles eram, e eu aprendi isso aqui também, essa questão de valorizar o que você é, faz de tudo que você puder para fazer você se sentir com si mesmo. Então, independente do que o pessoal possa dizer, se um dia você cortar o cabelo, alguma coisa do tipo, você está se sentindo bem consigo mesma e é isso aí. E foi na época que eu cortei o cabelo, cheguei para ela e disse: ‘Ah, mãe, eu quero cortar o cabelo, vai ser melhor, não sei o quê.’ E aí ela gostou da ideia e aí eu cortei. Aí agora tá curtinho, assim, mini Black. (AMORA, 21 anos, Webdesign) Amora, conforme comenta sobre a mudança que fez em seu cabelo, mostra que também passou por outro processo de aceitação, o do cabelo crespo, diante do contato com os outros jovens. Este ato “também apresenta uma dimensão simbólica”, tendo em vista que “o cabelo crespo é objeto de constante insatisfação, principalmente das mulheres” (GOMES, 2002, p. 2). O cabelo mini Black de Amora propiciou que ela estivesse “se sentindo bem consigo mesma”, conforme aponta. De acordo com Gomes (2002, p. 4), o cabelo, assim como a pele negra, que Amora também possui, “podem ser considerados expressões e suportes simbólicos da Identidade negra no Brasil”. A identidade negra na Oi Kabum! já foi pauta de diversas produções dos jovens, Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 235 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos sobretudo, temáticas ligadas ao cabelo Black (ou afro). Assim como Amora, váriosoutros jovens “assumiram o cabelo Black” ao final do curso, conforme consta nos registros fotográficos da escola, o que revela um processo de aceitação e afirmação da identidade como negra, um passo para uma relação mais positiva consigo própria, resultantes da qualidade das relações na Oi Kabum!. A Relação com a Arte e Tecnologia A experiência em arte e tecnologia parece assumir um lugar especial na trajetória dos jovens que passaram pela Oi Kabum! Os depoimentos apontam para uma relevância das experiências que tiveram ao longo de seus percursos dentro da escola. Os jovens relatam que ao vivenciarem o processo formativo puderam ampliar a noção de arte e tecnologia, bem como as noções de cultura, comunicação, trabalho e educação, ou seja, a formação desdobrou-se na abordagem de conceitos, que também são importantes para a formação dos jovens. A Arte sempre dialogou com as tecnologias (MATOSINHOS; MENDONÇA, 2011). Ela e a tecnologia sempre estiveram, de uma forma ou de outra, atreladas (BARBOSA, 1998). Neste sentido, é preciso dizer que a Arte constrói um diálogo com várias outras áreas do conhecimento. Tendo em vista sua dimensão criadora, a Arte é inter e transdisciplinar pela própria natureza de seu processo poético (SCHMIDLIN, 2015). Neste sentido, é natural que sejam múltiplas as percepções que os jovens apresentam sobre a relação que tiveram com a arte e a tecnologia. Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 236 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos Amora afirma que a Oi Kabum! representou um pontapé inicial para novos aprendizados, no sentido de abrir os olhos para atividades culturais. Em outros momentos da entrevista, ela também afirma que tinha um gosto especial por tudo que estava estudando na Oi Kabum!, mas ainda lhe faltava uma certeza de como poderia atuar profissionalmente no meio cultural. No entanto, ao longo do Núcleo de Produção passou a compreender como se davam as possibilidades de trabalho, na medida em que via outros jovens realizando trabalhos independentes. Desde então, passou a pensar que esta poderia ser uma prática possível. Assim como Amora, os outros jovens também perceberam as possibilidades profissionais voltadas para o campo artístico. De acordo com Júnior, a Oi Kabum! pôde oferecer caminhos que foram ao encontro do que gosta de fazer e considera a experi- ência que teve na escola o pontapé inicial para sua trajetória profissional. Charles comenta que melhorou sua compreensão acerca da arte e de cultura. Para ele, a formação ampliou as vivências culturais a partir das práticas artísticas que ocorriam no interior da escola e dos contatos que teve com outros artistas que iam à Oi Kabum! para realizar palestras e workshops. Charles também comenta que antes de conhecer a Oi Kabum! ficava muito fechado no próprio bairro, sem acessar outras partes da cidade. Segundo ele, o fato de deslocar-se para outros lugares ampliou sua apropriação dos espaços públicos. Para Poliana, além do acesso aos bens culturais, a escola também contribuiu para o acesso à tecnologia. Ela conta que não tinha computador em casa e que ficou sem acesso até 2009, quando entrou para Oi Kabum! De acordo com a jovem, este processo mudou significativamente o jeito de realizar pesquisas e trabalhar no campo da arte. Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 237 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos Os Significados da Formação A percepção dos jovens sobre o processo de formação que vivenciaram na Oi Kabum! BH apontou para três pontos em que os jovens reconhecem como importantes para suas trajetórias: o encontro das expectativas que os jovens já traziam de suas experiências anteriores4 com aquilo que vivenciaram na escola; o reconhecimento de si mesmos enquanto sujeitos autônomos e a liberdade de expressão que encontraram no interior da Oi Kabum!; os deslocamentos e novos aprendizados que ocorreram durante o processo de formação. O primeiro ponto aparece principalmente nos depoi- mentos de Charles, Igor e Sandra. Estes três jovens já tinham uma passagem por grupos culturais e projetos sociais nos quais havia uma prática das linguagens artísticas. Entrar para a Oi Kabum! significou para eles estar em um espaço onde seus desejos estavam próximos de serem conquistados. Igor, por exemplo, afirma que o que ficou de mais significativo neste processo foi a possibilidade de realizar um sonho de fazer arte. Para ele, ter entrado para o curso fez com que encontrasse na escola um espaço propício para fazer daquilo que gosta, a sua atividade profissional. Sandra também afirma que a formação ajudou a reforçar os desejos que já tinha, principalmente em relação às questões voltadas para o cinema. Os depoimentos mostram a impor- tância dos Projetos Educativos, sejam eles escolares, sejam não escolares, públicos ou privados, apreenderem e levarem em conta os desejos e experiências que os jovens trazem em suas 4 As experiências anteriores se deram nos grupos culturais, coletivos juvenis, projetos sociais e demais espaços de formação. Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 238 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos trajetórias anteriores ou até mesmo ao longo dos processos formativos articulando-os com a proposta a ser desenvolvida. Conhecer os jovens para além da condição de alunos é um desafio que está colocado para as instituições educativas. De acordo com Dayrell (2005, p. 45): A escola pouco conhece o jovem que a frequenta, a sua visão de mundo, os seus desejos, o que faz fora da escola. Ao mesmo tempo, predomina uma representação negativa e preconceituosa em relação à juventude. O jovem é visto na perspectiva da falta, da incompletude, da desconfiança, o que torna ainda mais difícil para a escola perceber quem ele é de fato. Muitas vezes os jovens são vistos pela falta de interesse. Dayrell (2005, p. 45) também afirma que “já existem muitas experiências que apontam para uma nova postura da escola na relação com os jovens, com algumas características que devem ser ressaltadas”. Nesse sentindo, esta última colo- cação do autor parece aproximar-se das trajetórias vivenciadas pelos jovens na Oi Kabum. O segundo ponto que os jovens reconhecem como algo significativo na experiência na formação da Oi Kabum! está relacionado a uma compreensão de que estes têm a escola como um espaço propício para o exercício de autonomia e de liber- dade. Para Júnior, além de reconhecer a liberdade de expressão, o jovem também reconhece a possibilidade que teve de viver coisas novas e ter um contato mais próximo com a diversidade cultural. Para Diego, o que ficou de mais significativo foram as reflexões sobre autonomia e participação. O jovem comenta que a escola tinha uma relação direta com sua realidade, apre- sentando questões que propiciavam refletir melhor sobre sua Juventude, Projetos Sociais e Formação Artística Cultural 239 Juarez Tarcísio Dayrell, Warley Fabiano Santos atuação dentro da comunidade. Para Sandra, além de um espaço de autonomia e liberdade, a Oi Kabum! foi um ambiente muito agradável. De acordo com ela, uma das coisas mais significativas foi a gestão, que era coletiva, o que fazia com que os jovens participassem do processo de construção cotidiana da escola. Assim como Sandra, os outros jovens também reconhecem o processo dialógico que estava presente na proposta metodoló- gica da escola. Nessa perspectiva, Freire (1987, p. 79) afirma que [...] o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro que se solidariza o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não poder reduzir-se a um ato de depo- sitar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de ideias a serem consumidas pelos permutantes. Assim como Freire (1987), Dayrell (2005, p. 47), ao ques- tionar as propostas de formação voltadas para a juventude, também