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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GARNDE DO NORTE 
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES 
DEPARTAMENTO DE LETRAS 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA LINGUAGEM 
LITERATURA COMPARADA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Inês Macedo Florence 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Mariana”, “Pai contra mãe” e “O caso da vara”: escravidão e 
chão histórico em Machado de Assis 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Natal 
2007 
Inês Macedo Florence 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Mariana”, “Pai contra mãe” e “O caso da vara”: escravidão e chão histórico em 
Machado de Assis 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Dissertação apresentada a fim de obter o título 
de mestre em Literatura Comparada, pelo 
Programa de Pós-Graduação em Estudos da 
Linguagem. 
 
Orientador: Prof. Dr. Afonso Henrique Fávero. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Natal 
2007 
 
Inês Macedo Florence 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Mariana”, “Pai contra mãe” e “O caso da vara”: escravidão e chão histórico em 
Machado de Assis 
 
 
 
 
 
 
 
Banca: 
 
 
 
(1° Membro) 
 
 
 
 
(2° Membro) 
 
 
 
 
(3° Membro) 
 
 
 
 
Natal 
2007 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dedico este trabalho à memória de meu pai 
e à minha grande mãe e amiga. 
 
 
 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
 
 Antes de mais nada, gostaria de dedicar este trabalho à memória de 
meu pai, João Ramão Garcia Florence. Ele foi meu grande companheiro nas 
minhas conquistas acadêmicas, desde o ingresso na graduação e todo o seu 
apoio na minha escolha do curso, ao ingresso no mestrado. Infelizmente, ele não 
pôde estar presente em outro momento importante da minha vida, mas tenho a 
certeza de que, lá da estrela mais brilhante onde ele se encontra, está orgulhoso 
disso tudo. Sim, a estrela é a mais brilhante, pois ele levou consigo as borbulhas 
de cerveja e o céu agora está bem mais alegre. Obrigada por todo o carinho. 
Obrigada por ter sido o pai maravilhoso que foi. 
 Gostaria também de agradecer à mulher que foi sua companheira 
durante 44 anos, Lenira Florence, e minha grande e melhor amiga: mãe, eu te 
amo. Segui teus passos e foi nisso que deu... Tu és muito especial. Obrigada por 
me apresentar o mundo maravilhoso das Letras. E pelas revisões do meu texto 
também (o crédito é todo dela). 
 Mano, Maninho, Gilce, Angélica, Gabi, Duda, Aninha, Lelinho e 
Larissa. Apesar de tudo (parecemos uma família italiana!), vocês são uma família 
maravilhosa. Obrigada por tudo! Jório, você também faz parte desta família e não 
poderia ficar de fora! 
 Todos os meus mestres foram importantes, mas há algumas pessoas 
em especial que eu gostaria de citar: meu orientador, Afonso Henrique Fávero, por 
sempre me estimular e nunca me deixar desistir. Ele foi um grande incentivador e 
um grande amigo também. Sempre entendendo minhas angústias e dando força, 
com palavras de carinho. Sem ele e Roberto Schwarz, nada seria possível. À 
professora Ilza Matias, que foi a primeira pessoa a acreditar em mim e a dar a 
idéia de tentar a seleção do mestrado. E viva Hilda Hilst, a culpada por me fazer 
amar tanto isso tudo. Professora Francisca Aurinete Girão, do Departamento de 
História, que me ajudou muito com a revisão da ABNT. Finalmente, professor 
Raimundo Arrais, também do Departamento de História, sempre tão prestativo e 
cordial. Obrigada. 
Agradecimentos especiais a Armando, Fabiano Moura e Yuma 
Ferreira – amigos que puderam colaborar com a consultoria em História. Wilton 
“Joselito”, você que agüentou tantas vezes meu mau humor e minhas 
reclamações também merece um carinho especial. Ao Daniel “Ceasa”, obrigada 
pelos “galhos” que quebrou! 
 Pessoal de “Satélite City” (Maíra, Gilson, Kruell, Breno, Mariana) 
vocês são muito importantes, nunca se esqueçam disso. 
 E a todos que não foram citados, mas sabem que, de alguma forma, 
têm sua parcela de culpa também! 
Finalmente, agradeço “ao verme que primeiro roeu as frias carnes de 
meu cadáver”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Os autores mais espirituosos provocam o 
sorriso mais imperceptível.” 
 
(NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Humano, demasiado 
humano: um livro para espíritos livres. São Paulo: 
Companhia das Letras, 2005) 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
 
RESUMO 08
ABSTRACT 09
 
INTRODUÇÃO 10
 
1 MARIANA 26
1.1 Os personagens de “Mariana”: algumas considerações 28
1.2 Relação de dependência e política de favores 34
1.3 Pobreza x riqueza: amor impossível? 45
1.4 “Idéias que a razão pode condenar, mas que nossos costumes aceitam 
perfeitamente” 54
1.5 Escarvidão: banalidade 60
 
2 PAI CONTRA MÃE 64
2.1 Escravidão, instrumentos de tortura e decadência de sistema 
representado no conto 65
2.2 Cândido Neves: um personagem longe da candura 74
2.3 Arminda: “nem todos os filhos vingam” 78
 
 
3 O CASO DA VARA 85
3.1 Alguns aspectos do conto 86
3.2 Autoritarismo e servilismo 92
 
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 97
 
5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 101
OBRAS CONSULTADAS 101
SOBRE MACHADO DE ASSIS 102
GERAL 103
 
 
 
8
RESUMO 
 
 
Machado de Assis captou seu tempo e projetou nos textos que escreveu sua 
percepção sobre a sociedade brasileira do século XIX e seus múltiplos aspectos – 
economia, política, cultura, dentre outros. Nas tensões vividas em seus contos e 
romances, Machado retrata a realidade da sociedade brasileira e as mudanças por 
que o Brasil vinha passando. “Mariana” e “Pai contra mãe” retratam a crise do 
sistema escravocrata, a relação de dependência, o tratamento dado aos cativos e 
a incoerência de um país que procurava adotar o Liberalismo como ideologia, mas 
que vivia às sombras da escravidão e suas conseqüências. Um país cujas 
prioridades eram dadas aos grandes senhores de terras e de escravos, 
protegendo-se apenas seus interesses de classe. “O caso da vara” aponta como 
eram tratadas as “crias da casa” – menininhas negras agregadas que aprendiam 
bordados de bilro. Como e quais eram os castigos aplicados em caso de 
desobediência, como deveria se portar uma criança que estava à margem da 
sociedade. Dessa forma, este trabalho procura fazer um jogo de espelhos entre 
História e ficção. Mas não simplesmente jogar, mas analisar de que forma 
Machado lida com os reflexos da História do Brasil oitocentista em seus contos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
9
ABSTRACT 
 
Machado de Assis understood his time and brought his perception of Brazilian 
society in the 19th century, with its multiple aspects – economy, politics, culture, 
amongst others - to the texts he wrote. Through the tensions lived in his novels and 
short stories, Machado displays Brazilian social reality and the changes it had been 
undergoing. “Mariana” and “Pai contra mãe” show the crisis of the slavery system, 
the relation of dependency, the treatment given to the captives and the lack of 
coherence of a country that intended to adopt Liberalism as an ideology, but which 
kept on living under the shadow of slavery and its consequences. A country where 
the priorities were given to the landlords, owners of slaves, in protection of their 
interests. “O caso da vara” tells about how the “crias da casa” – little black girls 
who lived in the household and learned how to make spool embroidery – were 
treated. What were the punishments for desobedience and how they were levelled 
out, how should be the behaviour of a child who lived as a social outcast. Thus, 
this paper aims at playing a game of mirrors between History and fiction. Not only 
to play it, but to analyze how Machado deals with the reflections of 19th century 
Brazil on his short stories. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
10
INTRODUÇÃO 
 
A expressão da epígrafe, “sorriso mais imperceptível”, serve como 
uma metáfora da sutileza e ironia machadianas, traços tão marcantes nas 
narrativas do escritor. 
A proposta de Machado de Assis era a de incorporar nas artes – 
literatura e teatro, por exemplo – temas diretamenteligados à nacionalidade, 
assuntos que fizessem parte do cotidiano do país. A intenção do escritor era 
aguçar nos brasileiros o gosto por uma arte nacional na sua essência. 
Os três contos analisados no presente estudo possuem forte ligação: 
eles tratam de um assunto importante, relacionado à realidade do país no recorte 
temporal em que Machado de Assis os compôs – a escravidão. Além disso, todos 
eles são contos urbanos, sendo seu cenário a cidade do Rio de Janeiro, então 
capital do Império. O gênero “conto” foi escolhido para esta dissertação porque é 
uma parte da Literatura não tanto abordada. Têm-se muitos estudos sobre os 
romances machadianos, mas não acontece o mesmo com seus contos. Segundo 
Julio Cortázar, no ensaio Alguns aspectos do conto, “enquanto os críticos 
continuam acumulando teorias e mantendo exasperadas polêmicas acerca do 
romance, quase ninguém se interessa pela problemática do conto” (CORTÁZAR, 
1974, p. 149). 
Em Visões da liberdade, de Sidney Chalhoub, há uma passagem em 
que o autor fala de sua experiência na pesquisa com documentos sobre a 
escravidão, no arquivo do Primeiro Tribunal do Júri da cidade do Rio de Janeiro: 
 
 
 
11
Com efeito, um pouco de intimidade com os arquivos da escravidão 
revela de chofre ao pesquisador que ele está lidando com uma 
realidade social extremamente violenta: são encontros cotidianos 
com negros espancados e supliciados, com mães que têm seus 
filhos vendidos a outros senhores, com cativos que são ludibriados 
em seus constantes esforços para a obtenção da liberdade, com 
escravos que tentam a fuga na esperança de conseguirem retornar 
à sua terra natal (CHALHOUB, p. 35). 
 
 
Nesse sentido, dois dos contos analisados nesta dissertação têm o 
objetivo de abordar esta violência sofrida pelos escravos – são eles “Pai contra 
mãe” e “O caso da vara”. Nestes textos é explícito o tratamento cruel por que 
passavam os cativos, e, em “Pai contra mãe”, Machado de Assis revela com 
detalhes os castigos mais comuns aplicados aos escravos. 
O objetivo maior desta dissertação, no entanto, é demonstrar como 
Machado de Assis representou em sua obra um assunto tão delicado para a 
época, o sistema escravista. Através de personagens como Mariana e Coutinho 
(“Mariana), Cândido Neves e Arminda (“Pai contra mãe”) e Lucrécia e Sinhá Rita 
(“O caso da vara”), é possível traçar um panorama de como se davam certas 
relações dentro desse sistema, o cotidiano dessas pessoas e a maneira como elas 
“encaravam” a situação do país naquela época. Machado descreve cenários e 
episódios, cria diálogos e situações em que são abertas as cortinas e vem à tona 
um pedaço da História do Brasil, tornando-se, assim, a sua obra documento 
histórico que ajuda a compreender o que acontecia no país do século XIX. “Da 
observação de cada detalhe, no plano das experiências, desdobra-se a 
verossimilhança geral, com fundos de alicerce na realidade”, como afirma Alcides 
Villaça (2006, p. 18). 
 
 
12
Além disso, o que se pretende é reafirmar a consciência de Machado 
acerca dos problemas relacionados à política e à sociedade fluminenses. Ou seja, 
os contos de Machado não são só textos que distraem e atendem ao gosto do 
leitor requintado, dado à arte da Literatura, mas também são a representação de 
uma sociedade e neles estão sutilmente presentes dados que podem auxiliar os 
estudos sobre o Rio de Janeiro do século XIX. 
Este trabalho pretende, ainda, mostrar a importância da Literatura 
para a História e do contexto histórico para o processo de criação literária. A 
Literatura pode servir como instrumento que auxilia a História e, da mesma forma, 
na Literatura estão presentes as tensões por que passam a sociedade no 
momento em que uma obra é escrita, e o contexto histórico e refletido na criação 
de um texto. 
A pesquisa tem como base a leitura de textos de importantes 
estudiosos de Machado de Assis, como Roberto Schwarz, John Gledson e Sidney 
Chalhoub e obras sobre o Rio de Janeiro e o Brasil oitocentistas dão suporte à 
pesquisa sobre História. 
Machado de Assis foi a escolha para o trabalho tendo em vista que 
mescla a Literatura com a História, assunto que sempre encantou a autora desta 
dissertação. Além de tratar da sociedade fluminense em sua obra, Machado 
geralmente apresenta como protagonistas membros da elite e os representantes 
de estratos sociais marginalizados são constantes, possuindo um papel 
secundário. Em “Mariana”, por exemplo, o protagonista é um rapaz rico e a 
escrava que dá título ao conto aparece apenas como o pivô de uma tragédia – 
numa primeira leitura despretensiosa. 
 
 
13
Em “O caso da vara” ocorre algo semelhante: à primeira vista, o 
enredo gira em torno de Damião e Sinhá Rita, mas, assim como em “Mariana”, em 
que o personagem da escrava cresce durante o enredo, Lucrécia, a escrava que 
recebe castigos de Sinhá Rita, também ganha importância no conto, pois ela é a 
causa do dilema de entregar a vara ou não à viúva. A exceção para esses casos 
em que geralmente pessoas ligadas à elite são protagonistas é para “Pai contra 
mãe”, pois o personagem principal é um fracassado pai de família que busca 
ganhar dinheiro para o sustento do filho. 
A introdução deste trabalho percorre um pouco das Histórias do 
Brasil – meados do século XIX – e da Literatura Brasileira, começando pelo 
Romantismo: “Romances Históricos” e representação do cenário histórico do 
Brasil pela ficção. 
Como se sabe, o Romantismo é uma fase muito importante na 
Literatura Brasileira pela grande consciência que os românticos possuíam no 
papel de retratar a Nação. Com ele, surge a ficção como uma manifestação da 
realidade social e do contexto histórico e, dentro desse espírito, os escritores 
desse período eram possuidores de um exacerbado espírito nacionalista 
procurando mostrar a realidade do país, o contexto histórico e social, os tipos 
humanos, a geografia local; por isso davam grande importância à riqueza de 
detalhes, às coisas locais, descrição de cenas, aos costumes. Sobre o 
Romantismo, afirma Antonio Candido: 
 
 
Ora, os estudos das sucessões históricas e dos grupos sociais, da 
rica diversificação estrutural de uma sociedade em crise, não 
 
 
14
cabia de modo algum na tragédia ou no poema: foi a seara 
própria do romance, que dele se alimentou, alimentando ao 
mesmo tempo o espírito histórico do século (CANDIDO, 2000, 
p.98). 
 
 
Os romances surgidos no século XIX mostram aquilo que a poesia 
até então não havia enfocado: retratar os detalhes de um país feito de uma 
infinidade de tipos humanos, de uma grande extensão territorial, de uma 
diversidade cultural enorme. Antonio Candido equivale o romance oitocentista à 
epopéia, mas “em vez de arrancar os homens à contingência para levá-los ao 
plano do milagre, procura encontrar o miraculoso nos refolhos do quotidiano” 
(CANDIDO, 2000, p. 98). Segundo Alfredo Bosi, algumas obras do Romantismo, 
como “a poesia social de Castro Alves e Sousândrade, o romance nordestino de 
Franklin Távora, a última ficção citadina de Alencar” (BOSI, 1994, p. 163) já 
retratam um Brasil em crise. 
Machado de Assis passa por essa escola. Seus primeiros textos, 
apesar de já estarem matizados de traços realistas, foram essencialmente 
românticos. É o caso de “Mariana”, um dos contos que serão analisados nesta 
dissertação, datado do ano de 1871, que, ao relatar a frustração de uma escrava 
apaixonada pelo seu senhor e ter como desfecho o suicídio, acaba opinando 
sobre um assunto delicado para a época. Segundo John Gledson, Machado 
aborda a escravidão, como é o caso de “Mariana”: 
 
 
Já em princípios da década de 1870, já casado e com emprego 
mais seguro, tendo se afirmado como escritor a ponto de se 
 
 
15
aventurar no primeiro romance, Machado podia ser mais direto e 
ousado. “Mariana”, publicado no ano da Lei do Ventre Livre (1871), 
ocupa-se outra vez da escravidão, e de modo muitomais realista, 
ainda que a história se passe agora em circunstâncias domésticas. 
O conto nunca foi republicado, talvez pelo perigoso do tema; mas 
na própria história algumas das dinâmicas da escravidão ficam bem 
evidenciadas, até nos apartes “cômicos”, como os do tio do 
narrador, que saberá exatamente que maneira “perdoar” a fugitiva 
quando esta for capturada (GLEDSON, 1998, p.24). 
 
 
 
É interessante perceber que Machado publica este texto num 
folhetim no ano da Lei do Ventre Livre, quando o abolicionismo estava a se 
consolidar e pressionava cada vez mais os senhores escravocratas. Sendo assim, 
o escritor utilizava-se do veículo que tinha poder – a imprensa – a fim de chamar 
atenção para os problemas da nação brasileira. 
Dadas as mudanças pelas quais o país passava – abolicionismo e 
ideais republicanos, por exemplo –, o Romantismo dá lugar ao Realismo, os 
autores abandonam a escrita de tendências ufanistas e patrióticas, além do tema 
do amor idealizado, e passam a dar lugar a uma maior objetividade e 
impessoalidade. “Assim, do Romantismo ao Realismo, houve uma passagem do 
vago ao típico, do idealizante ao factual” (BOSI, 1994, p. 173). Há necessidade de 
menos floreio e mais coerência na narração dos fatos, e “uma sede de 
objetividade que responde aos métodos científicos cada vez mais exatos nas 
últimas décadas do século” (BOSI, 1994, p. 167). É no Realismo que Machado se 
consagra como escritor. 
Durante muito tempo, Machado de Assis foi visto como alheio aos 
problemas nacionais. Alguns críticos acusavam-no de não “denunciar” o que 
 
 
16
acontecia na época em que escreveu. Lúcia Miguel Pereira, por exemplo, afirma, 
em seu Machado de Assis: estudo crítico e biográfico, que o escritor foi rotulado 
como um “‘absenteísta’ que nunca quis se preocupar com política, que viu a 
Abolição e a República como quem assiste a espetáculos sem maior interesse” 
(PEREIRA, 1988, p. 20). 
Em sua juventude, todavia, Machado de Assis escreveu várias 
crônicas para jornais, principalmente para O Diário do Rio de Janeiro, onde o 
escritor ataca a política do Brasil dos primeiros anos de 1860 (início de sua 
carreira), anos estes que “tinham sido fecundos como preparação de uma ruptura 
mental com o regime escravocrata e as instituições políticas que o sustentavam” 
(BOSI, 1994, p. 163). 
Nesse sentido, não há dúvida, para Brito Broca, de que 
 
 
Machado de Assis sempre acompanhou os acontecimentos políticos 
com interesse, formulando sobre eles juízos definidos. Mas o que 
se deu foi o seguinte. No começo da carreira, nos primeiros tempos 
de jornalismo, como bom romântico, formou na ala dos liberais e, 
colaborando em jornais dessa corrente, não hesitou em criticar os 
fatos políticos do ponto de vista de um liberal. Mais tarde, absorvido 
pela arte, absteve-se gradativamente do ardor primitivo até recair na 
ironia dissolvente que lhe caracteriza a maior parte da obra. Na 
mocidade, combatia; na maturidade passou a sorrir com descrença 
(In BOSI, 1982, p. 365). 
 
 
 
 Embora “o Machado que se indignara, quando jovem cronista liberal, 
ante os males de uma política obsoleta” tenha mudado “nos anos de maturidade o 
sentido do combate” (BOSI, 1994, p. 176), ele continuou a escrever sobre um país 
que se encontrava em crise, pois foi contemporâneo de várias mudanças no Brasil 
 
 
17
do século XIX; a maior delas foi a crise do regime escravocrata. Podem-se notar 
em seus textos alfinetadas contra tal regime; os contos “Mariana”, “Pai contra 
mãe” e “O caso da vara” são exemplos disso. Neles, o escritor retrata as relações 
existentes entre senhores e escravos, o trabalho dos “capitães do mato” e como 
se davam as relações entre pessoas brancas e os negros. 
Segundo Sérgio Buarque de Holanda, 
 
 
 mesmo depois de inaugurado o regime republicano, nunca, talvez, 
fomos envolvidos, em tão breve período, por uma febre tão intensa 
de reformas como a que se registrou precisamente nos meados do 
século passado1 e especialmente nos anos de 51 a 55 (1995, p.84). 
 
 
 
 Essas mudanças ocorreram nos mais variados campos: na área dos 
transportes, com a construção de estradas de ferro; com o incentivo ao mercado 
de capitais, através da criação de bancos, como o Banco Rural e Hipotecário; com 
as agitações relativas à abolição, pois o governo era duramente pressionado pela 
Inglaterra. Um exemplo dessa pressão foi o fechamento dos portos, o que 
dificultou, senão encerrou, temporariamente, as relações entre os dois países. 
 O Brasil se transformava num país cujas idéias estavam “fora do 
lugar”2: pregava ideais de igualdade, com a República acompanhada da 
democracia, mas ainda vivia à sombra da escravidão, elemento que traçou o 
desenvolvimento de sua economia, uma vez que os escravos eram a mão-de-obra 
utilizada. 
 
1 Século XIX. 
2 Utilizando a expressão de Roberto Schwarz. 
 
 
18
 Os liberalistas brasileiros adotaram o modelo europeu do liberalismo, 
“importaram princípios e fórmulas políticas, mas ajustaram às suas próprias 
necessidades” (COSTA, 1999, p. 132). Enquanto a burguesia européia lutava 
contra “os abusos da autoridade real, os privilégios do clero e da nobreza, os 
monopólios que inibiam a produção, a circulação, o comércio e o trabalho livre” 
(COSTA, 1999, p. 133), o Brasil procurava uma nova política que protegesse os 
grandes proprietários de terras e de escravos. 
Segundo Emília Viotti da Costa, o liberalismo no Brasil pode ser 
assim resumido: 
 
 
As estruturas sociais e econômicas que as elites brasileiras 
desejavam conservar significavam a sobrevivência de um sistema 
de clientela e patronagem e de valores que representavam a 
verdadeira essência do que os europeus pretendiam destruir. 
Encontrar uma maneira de lidar com essa contradição (entre 
liberalismo, de um lado, e escravidão e patronagem, do outro) foi o 
maior desafio que os liberais brasileiros tiveram de enfrentar. No 
decorrer do século XIX, os discurso e a prática liberais revelaram 
constantemente essa tensão (COSTA, 1999, p. 134). 
 
 
 
 Embora as idéias de Abolição já existissem há bastante tempo – em 
meados do século XVII, sacerdotes residentes no Brasil já protestavam contra o 
tratamento dado aos escravos e as críticas à escravidão eram formalmente feitas 
– o processo se deu a passos lentos: a Lei Eusébio de Queiroz, em 1850, a Lei do 
Ventre Livre, em 1871, e a Lei dos Sexagenários, em 1885 precederam ao ato 
assinado pela Princesa Izabel em 1888, que regulamenta a abolição da 
escravatura no Brasil. Todas estas leis tinham o intuito de tornar a abolição um 
 
 
19
processo lento e gradual pois, de um lado, havia a aristocracia agrária brasileira, 
que defendia a escravidão, já que era a mão-de-obra necessária para sua 
produção. De outro, o governo brasileiro, que estava sendo pressionada a abolir a 
escravidão no país. 
Para Silva Lisboa apud Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do 
Brasil – escritos publicados a partir de 1819, o que acontecia era o menosprezo 
pelo trabalho físico, braçal (que era realizado principalmente por escravos) e a 
supervalorização do trabalho mental como “inteligência”. Mas este pensamento 
começava a mudar, mudança essa que vinha acompanhando as outras 
transformações pelas quais o país passava. Para Sérgio Buarque de Holanda, 
 
 
pode-se mesmo dizer que o caminho aberto por semelhantes 
transformações só poderia levar logicamente a uma liquidação mais 
ou menos rápida de nossa velha herança rural e colonial, ou seja, 
da riqueza que se funda no emprego do braço escravo e na 
exploração extensiva e perdulária das terras de lavoura (1995, 
p.74). 
 
 
Segundo Salete de Almeida Cara, no ensaio “Machado de Assis nos 
anos 1870: a preparação do romance realista”, em citação de crônica do próprio 
Machado, 70% da população da época não era alfabetizada: 
 
 
E por falar neste animal, publicou-sehá dias o recenseamento do 
Império, do qual se colige que 70% da nossa população não sabem 
ler. Gosto dos algarismos porque não são meia dúzia de medidas 
nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes 
um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São 
sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para as frases; o 
 
 
20
algarismo não tem frases, nem retórica (CARA in COELHO; 
OLIVEIRA, 2004, p.46). 
 
 
 Ora, se os 30% restantes são alfabetizados, este é o público leitor 
em potencial de Machado de Assis. E se, nesta população alfabetizada, a maioria 
das pessoas faz parte da elite ou burguesia brasileira, qual a intenção de Machado 
em abordar temas como a política e a sociedade em seus textos? Era para esta 
classe que passava por tais mudanças, visto que eram eles os leitores – a 
população alfabetizada – a quem Machado escrevia e procurava mostrar a 
situação do país. 
 Utilizando a expressão de John Gledson, a ficção de Machado é 
“realismo enganoso”. É necessário que se leia nas entrelinhas para entender de 
fato suas reais intenções. Para Nicolau Sevcenko, “todo o fundamental, essa é a 
grande arte do escritor, está nas entrelinhas e nas referências citadas” 
(SEVCENKO, 2003, p. 304). 
Por trás de relações amorosas fracassadas, que parecem banais, o 
autor mostra as disparidades sociais. E descreve geralmente a sociedade da elite 
fluminense – esta parcela da sociedade que possivelmente era sua leitora. O que 
não deve ser apenas coincidência; existe aqui a intenção de retratar, por assim 
dizer, o que se passava na alta sociedade brasileira, quais suas idéias e opiniões 
acerca de determinados conceitos e situações. 
 A História, por sua vez, tentando firmar-se enquanto ciência, 
distancia-se de forma sistemática da Literatura, deixando-a em segundo plano. 
Contudo, no presente trabalho será mostrado o quanto a Literatura pode ser uma 
 
 
21
fonte de conhecimento inesgotável e por mais que não tenha preocupação e até 
mesmo obrigação com a “verdade” narrada, sua importância consiste 
principalmente em entender e analisar a historicidade, uma vez que, assim como 
os fatos e acontecimentos históricos, é fruto de uma produção humana constituída 
de discursos e práticas sociais presentes em um determinado contexto histórico, 
não podendo assim abstrair-se dele e nem tampouco deixar de sofrer suas 
influências. 
Por muito tempo, ambas as disciplinas estiveram afastadas devido 
ao fato de que o Positivismo – como corrente historiográfica – defendia a História 
como uma ciência a mais exata possível. Deveria haver um distanciamento entre a 
ficção e a “realidade”, e a análise de fatos históricos dava-se exclusivamente 
através de documentos autênticos. Essa concepção começou a mudar no início 
dos anos 703, quando a Literatura voltou a servir como uma espécie de “espelho” 
da História, refletindo os contextos social, econômico e político. Assim, a História 
do Brasil e as tensões da sociedade do século XIX são uma constante nos textos 
de Machado; História e Literatura andam de mãos dadas. Atualmente, 
historiadores têm encontrado em autores da ficção fontes para suas pesquisas, 
como é justamente o caso de Machado de Assis. De acordo com Maria Izabel 
Oliveira, “a linguagem utilizada pelo autor, além de ter significado, tem o efeito de 
ações positivas: o texto traz consigo a intenção do autor em intervir, em advertir 
sobre algo que está acontecendo ou que, em seu entender, está prestes a 
acontecer” (OLIVEIRA, 2003, p. 61). 
Para Josué Montello, 
 
3 Século XX. 
 
 
22
 
O texto literário, na urdidura do romance, converte-se em 
testemunho histórico, dando-nos a impressão nítida de que o 
narrador está a guardar ali, não a urdidura romanesca, e sim o 
testemunho do país que se transformava. O memorialista fixou 
flagrantes que ficaram para trás e em que o narrador tornou perene 
o que anotou com o gosto da vida fielmente testemunhada. 
(MONTELLO, 1998, p. 15) 
 
 
No caso de Machado de Assis, o autor advertia sobre os fatos e, em 
sua obra, encontram-se relatos sobre o que estava acontecendo dentro do país. 
Sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas, assim afirma Flávio Loureiro Chaves: 
 
 
Já não se poderá distinguir esquematicamente, no romance 
psicológico, o que é psicológico e o que é social. Ou melhor 
dizendo, seus grandes temas (apenas três ou quatro a se repetirem 
sempre) podem estar na inteira dependência das crises individuais 
das personagens, mas não estão aí senão como metáforas da 
realidade, iluminando o mundo circundante que se degradou em 
danação e absurdo (CHAVES, 1988, p. 31). 
 
 
Assim, será traçado um panorama de como Machado via o país e 
como o retratava em sua obra a partir da análise dos personagens – seus 
comportamentos e suas crises individuais – encontrados nos contos abordados 
neste trabalho. 
Machado representa, nos três contos analisados nesta dissertação, 
as tensões pelas quais passavam os escravos e as pessoas com quem se 
relacionavam – senhores e sua família. 
No posfácio de Literatura como Missão, por exemplo, Nicolau 
Sevcenko analisa o conto “Evolução”, de Machado, que trata de um encontro 
 
 
23
causal entre dois homens numa viagem do Rio para Vassouras, os quais, 
“encetando conversação para aliviar o tédio da viagem, acabam se tornando 
amigos, passando a se encontrar com freqüência daí em diante” (SEVCENKO, 
2003, p. 304). Chamam-se Inácio e Benedito – o primeiro representa uma nova 
mentalidade da sociedade com idéias inovadoras, ideais republicanos; o segundo, 
fazendeiro de café, representa as oligarquias do Brasil do Segundo Reinado. O 
que Sevcenko constata é que Machado mostra uma sociedade fundada em 
princípios tradicionais que já estava se apropriando das idéias de uma nova 
mentalidade em formação no país, uma vez que esta oligarquia havia se 
“desgastado com o Império” e “resolve apoiar a onda republicana ascendente” 
(SEVCENKO, 2003, p. 305). Quanto ao “advertir” sobre o que estaria para 
acontecer, o ensaísta faz importante observação: “note-se que Machado escreveu 
a história em 1884, quatro anos antes da Abolição e cinco antes da República” 
(SEVCENKO, 2003, p. 305). 
Sobre o binômio História x ficção, observe-se o que afirma Harlan: 
 
 
(...) após uma ausência de cem anos, a literatura volta à história, 
montando seu circo de metáfora e alegoria, interpretação e aporia, 
traço e signo, exigindo que os historiadores aceitem sua presença 
zombeteira bem no coração daquilo que, insistiam eles, consistia 
sua disciplina própria, autônoma e verdadeiramente científica. (Apud 
OILIVEIRA, 2003, p. 60) 
 
 
Convém ressaltar que o autor abordado nesta dissertação utiliza-se 
grandiosamente da metáfora e da alegoria para representar o espaço político, 
econômico e social chamado Brasil, sendo aqui analisados “a densidade da prosa, 
 
 
24
a sua potência intelectual, a quantidade e sutileza das observações de realidade, 
a malícia dos arranjos formais, o alcance estratégico do ângulo narrativo, a feição 
caracteristicamente nacional”4 dos contos de Machado. 
Um trecho de Roberto Schwarz, em Um mestre da periferia do 
capitalismo, pode servir para exemplificar as preocupações deste trabalho: 
 
 
Ainda assim, questões de eficácia literária à parte, a charada 
histórica é uma presença importante na obra machadiana, como os 
estudos de Gledson vêm demonstrando, e é imprescindível levá-la 
em conta, sob pena de desconhecer a razão de grande número de 
pormenores. Com certeza, indica o intuito de comentar a história 
nacional em chave inconformista, ainda que prudentemente cifrada 
e reservada ao pequeno número dos leitores atentos ou iniciados 
(SCHWARZ, 2000, p. 76). 
 
 
Ao ser inquirido sobre a consciência de Machado acerca do que 
revela em sua obra, na entrevista “Tira-dúvidas”, in Scriptoria II, Roberto Schwarz 
responde: 
 
 
Aligação entre a intenção do autor e a qualidade das obras, e 
mesmo o sentido delas, é uma questão aberta, a examinar caso a 
caso. Quando se fala de pessoas, a consciência clara é um valor, 
sem dúvida nenhuma. Em relação às obras, que não são juízos, 
mas configurações, o caso é outro. Você pode escrever grandes 
obras tendo consciência limitada a respeito, e pode escrever obras 
ruins tendo um grau considerável de clareza. Dito isso, a lucidez em 
arte é um tipo de superioridade, que o Machado tinha em alto grau, 
o que com certeza caracteriza a grandeza dele. Basta pensar na 
inteligência com que ele desqualifica uma figura tão ideal e acima 
de qualquer suspeita como o Bentinho. Ainda assim, a intenção do 
autor não é um dado absoluto (p. 21). 
 
 
4 Resposta de Roberto Schwarz na entrevista “Um mestre na periferia do Capitalismo”, contida no 
livro Seqüências Brasileiras. 
 
 
25
 
 A citação acima faz-se para ressaltar que a obra de Machado 
configura dado contexto histórico – como a maior parte da Literatura, uma vez que 
toda ela está repleta de historicidade e não há como separá-las, o que não faz do 
autor um panfletário; sua obra vai além disso. Ela está dentro dos cânones do 
Realismo, que objetiva descrever a realidade “como ela é”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
26
1 MARIANA 
 
“Mariana”, conto publicado em 1871 n’O Jornal das Famílias, 
apresenta a saga de uma escrava que se apaixona pelo filho de sua senhora. 
Sabendo que o amor é “impossível”, dada a situação da jovem, ela foge, é 
apanhada duas vezes, confessa seu amor e, com um trágico desfecho, suicida-se 
com veneno, trazendo muita dor e remorso ao protagonista do conto. O ambiente 
onde se passa o conto é a casa de Coutinho, de família rica e influente no Rio de 
Janeiro, envolta por uma aura fortemente paternalista, em que há uma rígida 
separação entre senhores e escravos, embora Mariana seja considerada “quase 
senhora” por seus proprietários. No desenrolar da trama, percebe-se o quanto 
Mariana era “quase”, pois é no momento em que tenta se libertar – através de 
duas fugas – que se sente ainda mais aprisionada pelo fato de seus proprietários 
irem ao seu encalço. 
Além de atender ao público leitor de suas publicações em folhetins – 
geralmente as damas da elite carioca –, Machado ali deixava suas críticas sobre a 
situação do país. Atendia ao público por escrever histórias que o divertisse, 
prendesse e o deixasse ansioso pela próxima publicação, ao mesmo tempo em 
que o criticava por abordar assuntos relativos à sociedade carioca. 
O conto é da fase romântica do escritor, já possuindo traços do 
Realismo, escola que consagrou Machado. Segundo Bosi, “Machado nunca foi, a 
rigor, um romântico (o Romantismo está às suas costas)”, mas sua obra possui 
 
 
27
“gosto sapiencial da fábula que traz, na coda ou nas entrelinhas, uma lição a tirar” 
(BOSI, 2003, p. 79). 
A escolha pelo conto “Mariana” não foi aleatória, pois a narrativa é o 
“espelho” de uma época em que o regime escravocrata está em declínio, pondo 
abaixo todo um sistema socioeconômico que modificaria a mentalidade que 
persistia desde o período colonial. Apesar de ter sido publicado em 1871, o texto 
remete a meados de 1850, período marcado pela outorgação da lei que extinguia 
o tráfico de negros vindos da África e por pressão para que o regime escravocrata 
fosse abolido. 
O conto é dividido em três partes. A primeira consta do reencontro 
de Macedo com velhos amigos. A voz narrativa é tomada por Coutinho, que conta 
todo o incidente ocorrido em sua mocidade, dando início à segunda parte do 
conto. Por fim, Macedo apresenta o desfecho da história, quando os ex-rapazes – 
que no início do conto já se encontram “quarentões” – saem pelas ruas da capital 
do Império a reparar nas moças que ali passavam. Assim, o texto pode ser 
inserido dentro de dois recortes temporais: a legitimidade do regime escravista e o 
de colapso desse mesmo sistema. Percebe-se isso quando Macedo, vindo de uma 
ausência de quinze anos passados na Europa, ouve as confidências de seu velho 
amigo Coutinho, que lhe relata o caso da escrava ocorrido no passado; aí 
constata-se, então, o tempo transcorrido e se tem idéia aproximada da cronologia 
e da data dos acontecimentos. 
“Mariana” é um conto que ilustra os costumes e a mentalidade de 
uma época: enfoca o sistema escravista, a relação de dependência entre escravos 
e senhores, o preconceito, a busca do prazer sexual fácil originado da “obrigação” 
 
 
28
das escravas, a banalização da complexidade que era tal sistema. Assim, 
utilizando-se da narrativa, existe aqui a tentativa de ilustrar, por meio da Literatura, 
“denúncias”5 (ou mesmo a descrição crítica, sob a ótica de quem assistia de perto 
ao que aconteceu) de um indivíduo que vivia aquele momento e sofreu influências 
em sua escrita, além de reflexos de uma sociedade que passava por crise, que 
estava mudando. O gênero literário utilizado não serve só como ilustração, mas 
como um documento que é escrito de acordo com um contexto nas perspectivas 
de um homem culto e politizado, ciente do que acontecia ao seu redor. 
As relações de dependência e paternalismo, o pensamento 
construído por mais de dois séculos que não pode ser tão facilmente derrubado, 
leis que não conseguem aplicação, são temas discutidos no decorrer do capítulo. 
São mais de dois séculos de violência e crimes sem punição, 
facilmente esquecidos, sob a ótica de Macedo, após duas horas de conversa entre 
amigos. 
 
 
1.1 Os personagens de “Mariana”: algumas considerações 
 
 
Os protagonistas do conto são, claramente, Mariana e Coutinho. Mas os 
personagens secundários também possuem papel importante e decisivo para o 
 
5 Não há a intenção de reduzir o autor a um simples panfletário que utiliza a Literatura para 
campanhas de abolição ou de qualquer outra espécie. 
 
 
29
enredo, para o quadro social e econômico e para o ambiente em que se passa a 
trama. 
Macedo é um viajante com ares de bon vivant, despreocupado com as 
desilusões e cansaço que a vida pode causar aos homens: 
 
 
Eu, entretanto, vinha tão moço como fora, não no rosto e nos 
cabelos, que começavam a embranquecer, mas na alma e no 
coração que estavam em flor. Foi essa a vantagem que tirei das 
minhas constantes viagens. Não há decepções possíveis para um 
viajante, que apenas vê de passagem o lado belo da natureza 
humana e não ganha tempo de conhecer-lhe o lado feio 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 152). 
 
 
Ele descreve aos amigos as viagens que fez, dando um ar afetado e 
casual à experiência que era atravessar toda a Europa até o Oriente Médio – 
enfatizando, assim, sua condição de homem abastado: 
 
 
Contei-lhes o que tinha visto desde o Tejo até o Danúbio, desde 
Paris até Jerusalém. Fi-los assistir na imaginação às corridas de 
Chantilly e às jornadas das caravanas no deserto; falei do céu 
nevoento de Londres e do céu azul da Itália. Nada me escapou; 
tudo lhes referi (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 152). 
 
 
Pelo fato de ser Macedo um homem viajado – passou quinze anos na 
Europa –, deduz-se que o personagem fazia parte da elite carioca da época. Além 
disso, seu círculo social confirma a hipótese, pois quando ele dá informações 
sobre que rumo tomaram as vidas de seus amigos, percebe-se que também eles 
eram homens bem-sucedidos: “Alguns amigos tinham morrido, outros estavam 
 
 
30
casados, outros viúvos. Quatro ou cinco tinham se feito homens públicos, e um 
deles acabava de ser ministro de Estado” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 151).6 
Após grande surpresa ao reencontrar o amigo Coutinho, Macedo o 
convida para almoçar no hotel em que estava hospedado, “com a condição porém 
que iria buscar mais dois amigos” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 152). Macedo 
faz rápidas considerações sobre a situação sociale financeira dos outros amigos – 
que não têm seus nomes citados –, afirmando que eram “dois excelentes 
companheiros de outro tempo. Um deles estava a frente de uma grande casa 
comercial; o outro, depois de algumas vicissitudes, fizera-se escrivão de uma vara 
cível” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 152). O único dos companheiros que não 
possuía posição de prestígio era este último – o escrivão. Os demais amigos de 
Macedo foram feitos homens de sorte e de posição prestigiada na sociedade. 
Enquanto o amigo “que estava a frente de uma grande casa comercial” 
contava o quão difícil foi chegar aonde chegou, o escrivão preferia abster-se de 
comentários: 
 
 
Cada qual fez suas confissões. O negociante não hesitou em dizer tudo 
quanto sofrera antes de alcançar sua posição atual. Deu-me notícia de 
que estava casado, e tinha uma filha de dez anos no colégio. O 
escrivão achou-se um tanto envergonhado quando lhe tocou a vez de 
dizer a sua vida; todos nós tivemos a delicadeza de não insistir nesse 
ponto (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 152). 
 
 
 
6 Grifos meus. 
 
 
31
O narrador parece fazer questão de mostrar o quanto era vergonhoso 
para o amigo escrivão não possuir a mesma posição e não ter alcançado o 
mesmo sucesso financeiro que os demais amigos. 
Coutinho era moço rico, filho de uma família abastada e grande 
proprietária de escravos do Rio de Janeiro. Quando Macedo pergunta como 
estava sua vida, Coutinho “não hesitou em dizer que era mais ou menos o que era 
outrora a respeito da ociosidade” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 152-3), ou seja, 
o mesmo filho de família rica não disposto a trabalhar e produzir. Rapidamente um 
de seus amigos responde que Coutinho continua o mesmo de quinze anos atrás: 
 
– Não te casaste? perguntei eu. 
– Com a prima Amélia? disse ele; não. 
– Por quê? 
– Porque não foi possível. 
– Mas continuaste a vida solta que levavas? 
– Que pergunta! exclamou o negociante. É a mesma coisa que era 
há quinze anos. Não mudou nada. 
– Não digas isso; mudei. 
– Para pior? perguntei eu rindo. (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 
153) 
 
 
Ou seja, mesmo tendo se passado uma década e meia, Coutinho 
continuava o mesmo: o filho burguês de uma família abastada. Contudo, o 
personagem é dono de caráter e escrúpulos, pois em momento algum procura tirar 
proveito do amor de Mariana. Passam-lhe pela cabeça desejos de possuir a moça, 
mas ele mesmo logo os condena. 
Mariana era a típica “escrava de casa”: possuía certas “regalias” – como 
aprender a ler e escrever, além de Língua Francesa, costura e bordado – que os 
escravos de fora da casa-grande não tinham. Era mais bem tratada que os demais 
 
 
32
e seus donos tinham-lhe um apreço diferenciado. Na noite de Natal, por exemplo, 
a mãe de Coutinho, seguindo costume deixado por sua mãe, dava festas às 
escravas. “As festas consistiam em dinheiro ou algum objeto de pouco valor7. 
Mariana recebia as duas coisas por especial graça” (MACHADO DE ASSIS, 1998, 
p. 165). Segundo o próprio Coutinho, “não se sentava à mesa, nem vinha à sala 
em ocasião de visitas, eis a diferença; no mais, era tratada como se fosse pessoa 
livre8, e até minhas irmãs tinham certa afeição fraternal” (MACHADO DE ASSIS, 
1998, p. 154). 
Era inteligente e aprendia muito rápido tudo aquilo que lhe era ensinado; 
entretanto, tinha ciência de seu lugar. Sabia que o tratamento que lhe era dado 
resultava de sua obediência e por isso era muito grata a seus senhores. 
Mas a moça passa de obediente a insolente quando descobrem sua 
fuga. Mesmo sem saber os motivos de Mariana, Coutinho e sua família indignam-
se com o fato, e atribuem a isso desobediência e ingratidão. 
A figura do pai de Coutinho não é citada no conto. Sua mãe deve ser 
viúva e ocupa o lugar do marido no comando da casa. A ausência da figura 
paterna nesta família parece indicar uma certa crise no patriarcalismo, visto que é 
a mãe quem assume a chefia da casa. É uma mulher de pulso firme, mas dotada 
de muita compaixão. Sua compaixão é tanta que Mariana é absolvida de qualquer 
castigo ao ser resgatada. Quando toma ciência do casamento de Coutinho com a 
prima Amélia, os olhos de Mariana ficam marejados de lágrimas e a bondade da 
 
7 Observe-se aqui que até mesmo para “agradar”, Machado chama atenção para o valor do que é 
dado aos escravos. “Objetos de pouco valor” são oferecidos como presentes e significam grande 
bondade por parte da mãe do protagonista e representam a inferioridade das crias, embora a 
“sinhá” lhes fizesse agrados. 
8 Grifos meus. Note-se sempre o distanciamento, apesar de Coutinho e sua família possuírem 
verdadeiro apreço pela moça. 
 
 
33
mãe do protagonista para com seus escravos parece evidente: achando que 
Mariana havia cometido alguma falta e tivesse recorrido a ele para protegê-la junto 
de sua mãe, comenta: “a falta devia ser grande, porque minha mãe era a bondade 
em pessoa, e tudo perdoava às suas amadas crias” (MACHADO DE ASSIS, 1998, 
p. 157). 
Mas o conceito de senhor “justo” ou “cruel” só legitima o sistema 
escravista: 
 
 
A noção de um “cativeiro justo” ou do “bom senhor” em primeira 
análise está reconhecendo a própria legitimidade da instituição 
escravista. Trata-se de discutir as condições de seu funcionamento 
e não o direito de propriedade sobre seres humanos. Apenas, essas 
noções assumem tal papel se são construídas com base no 
reconhecimento da primazia do senhor. A universalização de um 
padrão de comportamento senhorial pressuporia o reconhecimento 
de direitos (também universais) aos escravos, o que, em si, é 
incompatível com a dominação escravista. (CASTRO, 1997, p. 356) 
 
 
Assim, o conto machadiano demonstra que, mesmo sendo a mãe de 
Coutinho uma senhora de escravos justa e boa, o que está em jogo é a 
legitimidade da escravidão, instituição que está em seu auge no recorte temporal 
em que se dá o acontecimento do conto (meados de 1850), conforme já referido. 
Mesmo com toda a bondade para com a escrava Mariana, Machado mostra que a 
família de Coutinho não deixa de fazer parte das estatísticas da época – uma 
família de elite, proprietária de escravos, cujas atividades domésticas tinham como 
base o trabalho forçado e não-remunerado. 
 
 
34
Josefa é uma das irmãs de Coutinho e quem primeiro desconfia da 
paixão de Mariana. É com ela que o irmão conversa sobre o que se passa com a 
escrava e é com ela também que ele trama as soluções para o caso de “exaltação 
de sentidos” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 160) da jovem. 
Há, ainda, a figura de João Luís, tio de Coutinho, que sempre utiliza 
gracejos ao mencionar Mariana, além de sentir certos desejos pela moça. E 
Amélia, sua filha e noiva do sobrinho Coutinho, uma moça geniosa e ciumenta que 
critica o tratamento dado aos escravos de sua tia. 
 
 
1.2 Relação de dependência e política de favores 
 
 
Mudar uma mentalidade que já havia se concretizado na sociedade 
brasileira por dois séculos – desde a implantação do escravismo até a composição 
de Mariana – foi muito difícil. Como tratar um escravo como se fosse uma pessoa 
branca se ainda havia o sentimento de posse? Por isso a dificuldade de se 
aplicarem e se aceitarem leis que estavam sendo criadas para se promover a 
abolição de fato. Muitas delas não chegavam nem a ser aplicadas; a Lei Euzébio 
de Queirós (1850), que proibia o tráfico negreiro, por exemplo, não impediu a 
comercialização de escravos dentro do país. 
Em “Mariana” isso é muito claro. A moça era tratada como “escrava, 
é verdade, mas escrava quase senhora”. Contudo, a partir do momento em que 
ela tenta se livrar do “amor impossível” fugindo, demonstrando certa autonomia, 
 
 
35
característica exclusiva dos senhores, passa de “quase senhora” a “insolente” e 
ingrata pelo fato de não lembrar os benefícios que recebera sendo tratada “como 
filha da casa”; ou seja, Mariana era“quase senhora”, mas não poderia esquecer 
que isso se dera pelo fato de sua senhora o permitir. 
O “mérito” dos favores recebidos pelos escravos estava presente em 
várias ocasiões: desde o tratamento diferenciado na casa até a distribuição de 
alforrias em testamentos. Apesar de atípicos, alguns senhores que não tinham 
herdeiros deixavam em seu testamento a alforria de escravos: 
 
 
Sem dúvida, esses senhores eram atípicos, no que se refere à 
freqüência de doações de alforria e propriedade a escravos. Suas 
práticas, contudo, tornam visível uma política de domínio 
largamente baseada na distribuição de prêmios por “mérito” entre 
“dependentes”, difundida no escravismo da época (SLENES, 1997, 
p. 267). 
 
 
A relação que se dava entre Mariana e a família de Coutinho 
baseava-se nessa política de favores: em troca de ser tratada como uma moça 
branca e filha da casa, Mariana deveria ser obediente e prestativa. E vice-versa – 
mantendo o bom comportamento, as “regalias” seriam mantidas para a escrava. 
Com o fim do tráfico intercontinental, o tráfico interno de escravos 
intensificou-se. E, com os escravos urbanos, surgiu esta negociação entre cativos 
e senhores; devido ao abolicionismo, a possibilidade de fuga dos escravos era 
muito maior, pois havia muitos abolicionistas dispostos a acobertar fugas. Assim, 
 
 
36
escravos de “maus cativeiros” julgavam-se no direito de não dever obediência aos 
seus senhores: 
 
É verdade que eles [os escravos] leram as “concessões senhoriais” 
e as práticas costumeiramente sancionadas como “direitos 
pessoais” que os faziam – de seu ponto de vista – um pouco menos 
escravos que os outros. A originalidade da argumentação dos 
cativos negociados no tráfico interno, nas últimas décadas da 
escravidão, está no sentido genérico que atribuíam ao “mau 
cativeiro”, sem o qual o senhor não merecia obediência (MATTOS, 
1997, p. 359). 
 
 
Escravos dos “bons cativeiros” estavam sujeitos aos cortes de 
privilégios devido à política de favores, e Machado de Assis mostra Mariana como 
a representação desta política. Ela é filha de um “bom cativeiro”, e a relação da 
escrava com os seus senhores, apesar das regalias que possuía, é a da 
obediência, pelo fato de ser propriedade da família de Coutinho. 
O fato de uma escrava se apaixonar por um senhor mostra que a 
então sociedade brasileira se firmava nos alicerces patriarcais. Um senhor de 
escravos representava a autoridade máxima dentro de sua propriedade. A ele, 
suas crias deviam respeito e obediência. Coutinho parece ser um proprietário 
justo, fato que rende encantos à moça Mariana. Até mesmo os amigos de 
Coutinho, na ocasião do reencontro com Macedo, espantam-se quando ouvem 
sua declaração de que “antes e depois amei e fui amado muitas vezes; mas nem 
depois nem antes, e por nenhuma mulher fui amado como jamais fui...” 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 154). Quando perguntado por Macedo se foi sua 
 
 
37
prima Amélia quem o amou dessa maneira, Coutinho responde: “Não, por uma 
cria da casa” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 154). 
A surpresa vem logo em seguida: 
 
 
Olhamos todos espantados um para outro. Ignorávamos esta 
circunstância, e estávamos a cem léguas de semelhante conclusão. 
Coutinho não parece atender ao nosso espanto; sacudia 
distraidamente a cinza do charuto e parecia absorto na recordação 
que o seu espírito evocava (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 154). 
 
 
Coutinho tratava a moça como uma pessoa próxima, mas quando se 
vê pivô de um “amor impossível”, trata logo de colocá-la em seu devido lugar: o de 
escrava. No momento em que o rapaz encontra Mariana na primeira fuga, 
esbraveja: “Ver-me? mas por que saíste de casa, onde eras tão bem tratada, e de 
onde não tinhas o direito de sair, porque és cativa? (MACHADO DE ASSIS, 1998, 
p. 162) (...) Sofrias muito! Tratavam-te mal? Bem sei o que é; são os resultados da 
educação que minha mãe te deu. Já te supões senhora e livre. Pois enganas-te; 
hás de voltar já, e já, para casa. Sofrerás as conseqüências da tua ingratidão. 
Vamos...” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 163). Mariana se nega a ir; o rapaz a 
acusa de “abusar da afeição que todos” na casa têm por ela (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 163) e, utilizando-se de sua autoridade como proprietário, 
ameaça a moça de ser carregada para casa por dois soldados, à força. Pergunta 
ainda à escrava se alguém a seduziu para fugir; é nesse momento que ela 
confessa seu amor. 
 
 
38
“Resultados da educação que minha mãe te deu” (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 163), segundo Coutinho, significam aqui a alfabetização da moça, 
além das aulas de francês e de costura. Amélia, a noiva de Coutinho, fica 
enciumada com a atenção dada a Mariana e, depois da captura da moça, em 
visita à família do noivo, critica o tratamento dado às escravas e afirma ser mau 
exemplo ensinar-lhes alguma coisa. Diz que as escravas devem ser tratadas com 
severidade. Embora todos ali estivessem desapontados com Mariana, a mãe de 
Coutinho e suas irmãs criticam com aspereza a atitude de Amélia: “Minha mãe 
admirou-se muito desta linguagem da boca de Amélia e redargüiu com aspereza o 
que lhe dava direito a sua vontade. Amélia insistiu; minhas irmãs combateram as 
suas opiniões” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 164). Ou seja, os escravos da 
família de Coutinho, como propriedade que eram, teriam o tratamento que seus 
proprietários melhor decidissem e achassem justo. Coutinho diz ainda à noiva que 
sua atitude era de “humilhar-se diante de uma escrava” (MACHADO DE ASSIS, 
1998, p. 165). Amélia não entendeu que a humilhação sofrida se deu pelo fato de 
demonstrar a todos da família que estava com ciúmes da escrava. Ciúmes sem 
fundamento, pois, embora muito bem tratada, Mariana não passava de uma “peça” 
que fazia parte da “decoração” da casa. 
Ainda segundo Coutinho, sobre a educação de Mariana: 
 
 
(...) a sua educação não fora tão completa como a de minhas irmãs; 
contudo, Mariana sabia mais do que outras mulheres em igual caso. 
Além dos trabalhos de agulha que lhe foram ensinados com 
extremo zelo, aprendera a ler e a escrever. Quando chegou aos 
quinze anos teve desejo de saber francês, e minha irmã mais moça 
lho ensinou com tanta paciência e felicidade, que Mariana em pouco 
 
 
39
tempo ficou sabendo tanto como ela (MACHADO DE ASSIS, 1998, 
p. 154-5). 
 
 
Apesar do uso de eufemismos para indicar o lugar de Mariana como 
escrava – por exemplo, a expressão outras mulheres em igual caso –, em todos 
os momentos em que alude à escrava, fica muito clara a situação de inferioridade 
da moça, que podia até ter direito à educação, mas nunca seria igual à das 
senhorinhas brancas. 
Para Chalhoub, 
 
 
os senhores mostram estima pelos dependentes, mas ao fazê-lo 
produzem apenas sofrimento e humilhação; os dependentes – 
escravos e livres, Mariana ou Helena – são sinceramente 
agradecidos aos senhores, mas sabem que não há perspectivas e 
que serão sempre lembrados de sua situação de inferioridade social 
(CHALHOUB, 2003, p. 134). 
 
 
Em História da vida privada no Brasil, sobre este estreitamento de 
laços, encontra-se o seguinte: 
 
 
Da análise dessas vivências9 emerge o retrato de uma classe 
senhorial prepotente e freqüentemente arbitrária, mas sobretudo 
ardilosa: uma classe que branda a força e o favor para prender o 
cativo na armadilha de seus próprios anseios. Dentro de certos 
limites10, os senhores estimulam a formação de laços de parentesco 
entre seus escravos e instituem, junto com a ameaça e a coação, 
 
9 O autor relata o ocorrido em 1869, no município de Campinas, em São Paulo, em que, tornando-
se maior de idade, um rapaz chamado Isidoro Gurgel Mascarenhas alforria a escrava Ana, sua 
mãe, que fazia parte da herança deixada por seu pai. 
10 Grifo meu. 
 
 
40
um sistema diferencial de incentivos – no intuito de tornar os cativos 
dependentes e reféns de suas próprias solidariedadese projetos 
domésticos (SLENES, 1997, p. 236). 
 
 
O mesmo acontece com Mariana: tratando-a como filha da casa, 
estreitando laços entre senhores e cativa, a família de Coutinho pode usar os 
argumentos de que ela era tratada como pessoa branca para justificar sua 
indignação diante da fuga da moça. Devido a esta relação, a família poderia 
achar-se no direito de tachar a escrava como insolente e ingrata. 
Quando encontra pela primeira vez a escrava fugida, o rapaz faz 
questão de lembrar-lhe de que é cativa, que não pode se supor “senhora e livre”. 
Mariana, ciente do seu “erro”, volta para o cativeiro com Coutinho. 
Sobre a relação de dependência e hierarquia social presentes na 
narrativa, Sidney Chalhoub tece o seguinte comentário: 
 
 
A aproximação entre escravidão e liberdade, para enfatizar a 
precariedade e os limites de qualquer experiência de liberdade 
numa sociedade paternalista, organizada em torno da reprodução 
dos laços de dependência pessoal, politiza eficazmente o drama do 
processo de emancipação dos escravos, então em evidência. 
Escravidão e paternalismo, cativeiro e dependência pessoal, 
pareciam faces da mesma moeda. “Mariana” transforma-se então 
em documento sobre um impasse histórico, visão ou interpretação 
de uma crise que mobilizava a sociedade inteira (CHALHOUB, 
2003, p. 135). 
 
 
Apesar de os senhores demonstrarem estima por seus escravos, 
estes devem sempre ficar em seus devidos lugares: os de cativos. Apesar da 
 
 
41
gratidão, os escravos sentem-se humilhados e sabem que não há perspectivas, 
pois não havia ascensão social. A única opção era a de serem gratos e realizarem 
seus afazeres com dedicação e obediência para, assim, não sofrerem os castigos 
aplicados ao escravos “insolentes”. Mariana, ao fugir, passa de “boa moça” a 
“insolente” e ingrata. 
Até mesmo quando Mariana adoece de amor, deve obedecer ao seu 
dono, que, com pena da escrava, vai ter com ela para pedir-lhe que viva. É 
interessante o jogo de palavras que Machado faz nesta passagem: 
 
 
Foi nestas circunstâncias que eu resolvi fazer um ato de caridade. 
Fui ter com Mariana e pedir-lhe que vivesse. 
– Manda-me viver? 
– Sim. 
Foi eficaz a lembrança; Mariana estabeleceu-se em pouco tempo. 
Quinze dias depois estava completamente de pé (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 161)11. 
 
 
 
Obviamente, Mariana ficou curada pela esperança de haver neste 
ato de Coutinho uma reciprocidade de sentimentos. Sobre o jogo de palavras, 
note-se que Coutinho diz pedir e Mariana lhe pergunta se ele a manda viver. A 
palavra mandar possui uma conotação de superioridade que pedir não tem; 
senhores mandam e escravos obedecem. 
Uma observação bastante interessante se faz na passagem em que 
Mariana é interrogada por Josefa, que quer saber o motivo da tristeza da moça e 
por quem a escrava está enamorada: 
 
11 Grifos meus. 
 
 
42
 
Mariana recusou-se a dizer coisa nenhuma a minha irmã. Debalde, 
empregou esta todos os meios de sedução possíveis entre uma 
senhora e uma escrava. Mariana respondia invariavelmente que 
nada havia de confessar. (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 159) 
 
 
Embora a escrava tivesse sido criada como membro da família e 
considerada por todos da mesma forma, é claro o distanciamento que se faz entre 
as duas personagens. 
Inclusive, quando há a primeira fuga da escrava, Coutinho dá seu 
parecer de resolução para a irmã, Josefa: “– Creio que devemos fazer esforços 
para capturá-la, e uma vez restituída à casa, colocá-la na situação verdadeira de 
cativeiro” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 162). Então, achavam Coutinho e sua 
família que, por tratarem bem a escrava, dar-lhe “mimos de senhora”, não era ela 
cativa e sua casa estava longe de ser um cativeiro? 
A segunda fuga da escrava, no dia do Natal, causou ainda mais 
irritação na família; na primeira fuga, “houve alguma mágoa e saudade de mistura 
com a indignação. Desta vez, indignação apenas. Que sentimento devia inspirar a 
todos a insistência dessa rapariga em fugir de uma casa onde era tratada como 
filha?” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 165). Machado de Assis mais uma vez 
chama a atenção para a postura da família diante do tratamento dado à escrava e 
a indignação causada pela ingratidão da moça, evidenciada por duas fugas. É no 
amor que aparecem as limitações sociais; é quando se vê apaixonada por seu 
dono que Mariana percebe de fato o distanciamento que havia entre aquela família 
da elite e o seu lugar de escrava. 
 
 
43
Na primeira fuga, Coutinho diz que a escrava deve ser capturada e 
colocada em seu devido lugar, mas diz isso apenas por sentir dor em ver o 
desespero de sua mãe. Mas na segunda fuga foi bastante diferente: “ficou 
assentado que se procuraria a fugitiva e se lhe daria o castigo competente. Deixei 
que esse movimento de cólera se consumasse, e levantei-me para ir procurar 
Mariana” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 166). Coutinho foi tocado e movido por 
seus sentimentos de proprietário. Ao encontrar Mariana, Coutinho a vê jogando-se 
em seus braços e toma verdadeira atitude de um senhor de escravos, repelindo 
“aquela demonstração com toda a brandura que a situação exigia” (MACHADO 
DE ASSIS, 1998, p. 167). E ainda diz para a escrava: “não vim aqui para receber-
te abraços, (...); venho pela segunda vez buscar-te para casa, donde pela 
segunda vez fugiste” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 167). 
Coutinho já não se sente tão penalizado e a sua intenção é a de 
levar Mariana embora e colocá-la no lugar de onde nunca deveria ter saído. Cogita 
que deveria ter sido mais delicado, não utilizando a palavra “fugiste”, mas conciliar 
os próprios sentimentos com os deveres de senhor, “e não fazer com que a 
mulher não se esquecesse de que era escrava” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 
168). A partir desse momento até as páginas finais do conto, a posição assumida 
por Coutinho é a de um proprietário de escravos zangado com a fuga de uma de 
suas crias. 
Sobre a política de favores, assim diz Robert Slenes: 
 
 
 
 
44
Mesmo quando formada ao largo da casa-grande, tais relações [de 
favor e de compadrio] contribuíam para tornar o escravo mais refém 
ainda dos próprios projetos. Quem conseguia avançar no caminho 
do favor ficava cada vez mais vulnerável, pois tinha mais a perder 
(SLENES, 1997, p. 276). 
 
 
Mariana não possuía projetos de ser alforriada, mas com todas as 
regalias que possuía, ela estava vulnerável e prestes a perdê-las, resultado de sua 
fuga; é, todavia, uma personagem construída em moldes românticos por essência, 
que parece não se preocupar com tais perdas. Por outro lado, a família de 
Coutinho fica indignada com a fuga da moça, sentindo-se prejudicada não 
somente por perder uma de suas “peças”, mas também por sentir-se enganada 
em ter “investido” tanto numa escrava que acaba fugindo. 
Machado de Assis, ao descrever a situação da escrava Mariana 
dentro e fora da casa, utiliza-se de um paradoxo: para ser livre, Mariana deveria 
estar exatamente no lugar de sua “prisão”, a casa de seus senhores; uma vez 
longe da privacidade do lar, num local que por excelência é de liberdade, é onde 
está mais presa à sua condição de cativa. A antiga situação de “escrava quase 
senhora” vem ao chão, pois fora dela a situação de posse torna-se mais evidente, 
o que demonstra, de forma sucinta, a mentalidade de uma sociedade patriarcal, 
fortemente hierarquizada, já que na primeira oportunidade lhe é lembrado o estado 
de inferioridade social e de dependente. 
No período em que se passa a primeira parte da narrativa, não eram 
muitos os casos de escravos alforriados e um hábito que se tornou comum entre 
os escravos era o suicídio, uma alternativa para aqueles que queriam ser livres. 
 
 
45
Assim aconteceu com Mariana: tomando veneno, libertou-se do “amor impossível” 
e da situação de cativa. 
 
 
1.3 Pobreza x riqueza: amor impossível? 
 
 
Após saber do casamentode Coutinho com Amélia, Mariana chora 
diante dele. Coutinho pergunta o que havia acontecido e não obtém resposta. Mas 
como estava de saída, retira-se e logo esquece o incidente. Acaba lembrando-se 
do acontecido após o jantar e pergunta à sua irmã Josefa o que se passava com a 
moça Mariana. Josefa diz que pode ser algum namoro. Irônico e desdenhando da 
escrava, o moço diz em tom de galhofa: “e quem seria o namorado da senhora 
Mariana (...) O copeiro ou o cocheiro?” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 157). 
Percebe-se aqui, mais uma vez, o distanciamento que há entre os dois não só 
pela diferença de classes, mas pelo próprio preconceito e desdém com que 
Coutinho enxerga a moça. 
Curioso pelo que se passava com a escrava, Coutinho decide 
investigar as causas de sua tristeza e, na primeira ocasião, lhe indaga: “Que tens, 
Mariana? (...) andas triste e misteriosa. É algum namorico? Anda, fala; se gostas 
de alguém, poderás ser feliz com ele porque ninguém te oporá obstáculos a teus 
desejos” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 158). 
E assim continua o diálogo: 
 
 
 
46
– Ninguém? Perguntou ela com singular expressão de incredulidade. 
– Quem teria interesse nisso? 
– Não falemos nisso, nhonhô. Não se trata de amores, que eu não posso 
ter amores. Sou uma simples escrava. 
– Escrava, é verdade. Mas escrava quase senhora. És tratada aqui como 
filha da casa, esquece esses benefícios? 
– Não os esqueço, mas tenho grande pena em havê-los recebido. 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 158). 
 
 
 
A conversação segue com a acusação que Coutinho faz a Mariana, 
chamando-a de insolente. Mariana pede perdão, ajoelha-se, “voltando à sua 
humildade natural” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 158). Coutinho comove-se: 
“alguma grande preocupação teria feito com que Mariana esquecesse por 
instantes a sua condição e o respeito que nos devia a todos” (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 159). Ele a desculpa, mas pede que não torne a repetir coisas 
que o obrigassem a contar à sua mãe. 
Sendo assim, o que se pode observar neste pequeno diálogo entre 
os dois personagens é que, em primeiro lugar, Coutinho foi movido apenas pela 
curiosidade de saber o que seria o namoro de uma escrava, mas finda por 
compadecer-se e se questiona depois, cogitando inclusive em pedir a alforria da 
moça: 
 
 
Que seria uma paixão daquela pobre escrava educada com mimos 
de senhora? Refleti longamente nisto tudo, e concebi um projeto 
romântico: obter a confissão franca de Mariana e, no caso em que 
se tratasse de um amor que a pudesse tornar feliz, pedir a minha 
mãe a liberdade da escrava (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 159). 
 
 
 
47
Segundo: em momento algum passa pela cabeça do moço ser ele 
mesmo o motivo da tristeza de Mariana; para ele, o merecedor do afeto da 
escrava seria uma pessoa como o copeiro ou o cocheiro, já que estavam eles 
nivelados socialmente. Eis aqui a mentalidade de um proprietário de escravos. E, 
em terceiro lugar, tendo ciência de sua posição na escala social, Mariana prefere 
calar-se a assumir sua paixão e tornar-se motivo de chacotas ou xingamentos. Por 
isso a moça preferia não ter tido os benefícios que recebeu na casa; assim não 
teria se apaixonado e não passaria pelo sofrimento e pela humilhação de estar 
amando seu senhor, sofrimento por ter abafado seus sentimentos, humilhação por 
saber que sua situação – a de escrava – jamais mudaria; e, mesmo que mudasse, 
ainda assim não teria seu amor correspondido. 
O narrador sempre faz questão de salientar que não corresponde 
aos sentimentos da moça – visto que, para aquela sociedade e para a sua família, 
seria uma vergonha um homem branco da alta classe enamorado de uma escrava 
– mas sente remorso de ser a causa de uma tragédia. Na segunda fuga de 
Mariana, Coutinho encontra-se bastante preocupado com a escrava e refere: “não 
porque eu correspondesse aos seus sentimentos por mim, mas porque eu sentia 
sérios remorsos de ser causa de um crime. (...) Minha vaidade não era tamanha 
que me abafasse os sentimentos de piedade cristã” (MACHADO DE ASSIS, 1998, 
p. 166). 
Roberto Schwarz, no capítulo “A sorte dos pobres”, sobre as 
Memórias Póstumas de Brás Cubas, faz a seguinte colocação: “do que depende o 
desfecho? da simpatia do moço ou de uma família de posses. Noutras palavras, 
depende de um capricho da classe dominante” (SCHWARZ, 2000, p. 87). 
 
 
48
Trazendo o comentário para “Mariana”, pode-se afirmar que, embora 
Coutinho desejasse a mulata e pensasse em vir a ter com ela algum tipo de 
relação, isso apenas dependeria dele. Mas, uma vez que a família, da alta 
sociedade carioca, não veria tal relação com bons olhos, o relacionamento não 
dependia apenas da simpatia do rapaz pela moça. A questão vai bem além de 
simpatias ou antipatias. Deveria colocar-se em seu lugar – até porque, quando 
não o fizesse por própria conta, os ricos o fariam – uma vez que se vivia numa 
sociedade escravocrata onde os menos favorecidos não tinham voz. Com Mariana 
e Coutinho não é diferente, já que a moça é “quase senhora”, mas escrava, 
desistindo do amor que sente pelo seu “dono”. 
Segundo Schwarz, 
 
 
todas as situações de nossa amostra12 vêm escudadas no 
sofrimento familiar. (...) Ao lado da norma liberal e com presença tão 
sistematizada quanto a dela, há aqui uma ideologia familista, 
calcada na parentela de tipo brasileiro, com seu sistema de 
obrigações filiais e paternais abarcando escravos, dependentes, 
compadres, afilhados e aliados, além dos parentes. Esta ideologia 
empresta familiaridade e decoro patriarcal ao conúbio difícil de 
relações escravistas, clientelistas e burguesas. À condenação liberal 
da sociedade brasileira, estridente e inócua, soma-se a sua 
justificação pela piedade do vínculo familiar, cuja hipocrisia é outra 
especialidade machadiana (SCHWARZ, 2000, p. 70). 
 
 
 
Por este motivo, Coutinho vê-se na obrigação de “salvar” Mariana. 
Pelo mesmo motivo, sente-se tão culpado pelo suicídio da escrava. A hipocrisia 
 
12 Schwarz refere-se às relações de dependência e clientelismo criadas com base na “norma 
burguesa oitocentista”. 
 
 
49
está aqui presente pelo fato de o narrador mostrar que o “ex-moço”, agora um 
quarentão, preocupava-se mais com a sua imagem moral (a de um moço bem-
nascido que se tornou o motivo da morte de uma jovem escrava) do que com o 
suicídio cometido por Mariana. Na realidade, o que importava não era a morte da 
moça que o amava incondicionalmente, mas sim as manchas que esse episódio 
poderia trazer à sua reputação de “bom moço”. Diz o rapaz, depois da captura da 
escrava fugida: “a situação da pobre rapariga interessara-me bastante, o que era 
natural, sendo eu a causa indireta daquela dor profunda” (MACHADO DE ASSIS, 
1998, p. 164). Coutinho era a causa direta da dor da escrava, mas sempre 
encontrava uma maneira de ser absolvido ou possuir menor parcela de culpa. 
Este amor torna-se impossível apenas pelo fato de serem os 
protagonistas membros de diferentes estratos sociais – Mariana, uma escrava, 
não poderia casar-se com um senhor até mesmo pelo fato de as normas da 
sociedade assim não o permitirem. Ainda em Schwarz, tem-se o seguinte: 
 
 
O efeito crítico está na frustração do desejo romanesco do leitor (já 
que Eugênia, conhecendo o quadro, abafa o sentimento e sai de 
cena em silêncio). Dada a assimetria destas relações, em que, pela 
razão exposta, a parte pobre não é ninguém, tudo se resume na 
decisão da parte proprietária (...) (SCHWARZ, 2000, p. 90-1)13. 
 
 
Da mesma forma que Eugênia conhece o quadro e retira-se em 
silêncio, Mariana também o faz, silenciando-se pelo suicídio por envenenamento, 
 
13 Eugênia é a moça coxa por quem Brás Cubas sente-se atraído, mas com quem acaba não tendo 
envolvimento. 
 
 
50
o que gera a frustração do leitor de “Mariana”, já que o desfecho se faz de forma 
extremamente trágica,apesar de em nada afetar o pivô do incidente, Coutinho. 
Uma vez tendo desabafado para seus amigos, narrando o acontecido, o 
personagem se sente redimido e sem culpa alguma. 
A escrava poderia ser acusada de querer ascender socialmente 
através de um casamento com o seu senhor. Teria sua alforria, conquistando, 
assim, sua liberdade. Mas isso não ocorre, pois, durante o regime escravocrata, 
era muito raro que um senhor concedesse alforria a uma escrava que lhe 
“prestasse favores”: 
 
 
(...) os senhores se opunham a conceder ao escravo no código 
escrito o direito de redimir-se do cativeiro mediante a apresentação 
de seu valor no mercado. Na ótica escravista, qualquer direito desse 
tipo minaria a base do sistema de domínio, ao restringir a vontade 
senhorial. Era necessário que a alforria pudesse ser representada 
pelo senhor sempre como concessão ou dádiva, mesmo quando a 
“graça” cruzava com dinheiro na outra mão. Pelas mesmas razões 
recusara-se o direito à liberdade à escrava amancebada com o 
senhor ou ao parente cativo do mesmo14 (SLENES, 1997, p 260). 
 
 
 Da mesma forma que a escrava poderia ser acusada de querer 
ascender (ou ter sua alforria), há em Helena a acusação de que a protagonista 
poderia almejar a ascensão social casando-se com um rico herdeiro. “Machado 
 
14 Grifo meu. 
 
 
51
atribui a Helena um ideal de nobreza íntima”, afirma Alfredo Bosi (2003, p. 47) 
sobre Helena15. 
 
O desfecho de Helena atinge a fronteira que separa o possível do 
improvável. Dizer que é um final romântico será meia verdade. A 
questão de fundo é saber o que significaria, no universo da ficção 
machadiana, uma personagem que morre em razão de uma crise 
moral. Uma resposta viável é a que concede ao narrador certa 
margem de liberdade na sua invenção; liberdade que a grade do 
bom senso convencional lhe vedaria: a faculdade de conceber 
personagens que não se reduzam à mediania estatística dos 
homens e mulheres representantes de um certo tipo – por exemplo, 
o da moça pobre que se agrega a uma família rica (BOSI, 2003, p. 
45-6). 
 
 
No caso de “Mariana”, o desfecho é tipicamente romântico, 
combinando os elementos “amor inatingível” e “suicídio”. Mas já neste conto, que 
faz parte da fase romântica do autor, Machado apresenta traços que o diferenciam 
dos demais escritores da fase romântica da Literatura Brasileira. 
Assim como a morte de Helena é resultado de uma crise moral, a 
morte de Mariana pode ser entendida da mesma forma. A moça jamais poderia ter 
se apaixonado por um rapaz que estava tão acima de seu nível social, o que 
pesava em sua consciência. Mariana sabia que jamais daria certo e, aos olhos de 
seus senhores, poderia até mesmo ser uma afronta de sua parte almejar qualquer 
tipo de relação que não fosse a de escravo-senhor com Coutinho. E para 
Coutinho, era realmente um atrevimento da parte de Mariana ter se apaixonado 
 
15 Romance da fase romântica de Machado, em que uma moça é adotada e só descoberta a 
adoção após a morte do pai adotivo. A família a reconhece como membro da família; ela se 
apaixona pelo “irmão” – também apaixonado pela moça –, que depois descobre que não eram 
parentes consangüíneos. Envergonhada, Helena morre após essa descoberta por parte da família. 
 
 
52
por ele. Desconfiada dos motivos da tristeza da escrava, a irmã do rapaz lhe dá 
seu parecer. Coutinho se assusta e dá margem ao seguinte relato aos amigos: 
 
 
– Que seja eu o querido de Mariana? perguntei-lhe com um riso de 
mofa e incredulidade. Estás louca, Josefa. Pois ela atrever-se-ia!... 
– Parece que se atreveu. 
– A descoberta é galante; e realmente não sei o que pense disto 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 160). 
 
 
 
Ao confessar seu amor pelo moço, a escrava justifica-se pela fuga e 
sabe que deve arcar com o que fez: 
 
 
– Se alguém me seduziu? perguntou ela; não, ninguém; fugi porque 
eu o amo, e não posso ser amada, eu sou uma infeliz escrava. Aqui 
está por que fugi. Podemos ir; já disse tudo. Estou pronta a 
carregar com as conseqüências disto (MACHADO DE ASSIS, 1998, 
p. 163). 
 
 
Ainda em Bosi, sobre a obra de Machado de Assis: 
 
 
Em Machado a percepção do social médio leva, em geral, a nivelar 
por baixo o comportamento das suas criaturas, e nisto guarda 
sempre algum ar de família com a visão “realista” do ser humano, 
que é a do seu tempo, em que o evolucionismo se enraíza em um 
radical pessimismo em relação aos móveis da própria evolução. O 
que se poderá inferir do romance é que este social médio trazia em 
si germes de violência que poderiam, no limite, levar à morte o 
indivíduo que não se conformasse integralmente com o seu padrão 
(BOSI, 2003, p. 48). 
 
 
 
 
53
A fuga de Mariana parece, aqui, estar nesses parâmetros de “nivelar 
por baixo o comportamento de suas criaturas”, uma vez que a atitude de fugir 
alude a um ato de covardia. 
Embora Mariana não se enquadre no perfil “médio social” (encontra-
se na base da pirâmide socioeconômica), também ela não suportava sua condição 
de escrava pelo fato do distanciamento que havia entre os dois (ela e Coutinho), 
por não poder realizar seus desejos mais íntimos. O que acaba por levá-la à morte 
passa a deixar de ser o simples fato resultante de um amor não-correspondido. 
Talvez se não houvesse esse sentimento de superioridade que havia 
em Coutinho – e aceitável para os valores da época –, ambos poderiam ter-se 
entregue à paixão; ou poderia Coutinho, vendo em Mariana uma boa e prendada 
moça, ter correspondido aos sentimentos da menina. Há, ainda, uma terceira 
hipótese: a aceitação de Coutinho dos seus instintos viris e a conseqüente 
consumação de uma abordagem carnal com a escrava – fato comum entre os 
senhores e escravas e que não acontece pelo enfoque romântico do conto. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
54
1.4 “Idéias que a razão pode condenar, mas que nossos costumes aceitam 
perfeitamente” 
 
 
 
 
 
Gilberto Freyre, em Casa-grande & Senzala16, refuta os argumentos 
de alguns estudiosos que dizem ser do negro a “culpa” da depravação sexual no 
Brasil. Ele contra-argumenta, afirmando: 
 
É absurdo responsabilizar-se o negro pelo que não foi obra sua nem 
do índio mas do sistema social em que funcionaram passiva e 
mecanicamente. Não há escravidão sem depravação sexual. É da 
essência mesma do regime. Em primeiro lugar, o próprio interesse 
econômico favorece a depravação criando nos proprietários de 
homens imoderado desejo de possuir o maior número possível de 
crias. Joaquim Nabuco colheu em um manifesto escravocrata de 
fazendeiros as seguintes palavras, tão ricas de significado: “a parte 
mais produtiva da propriedade escrava é o ventre gerador” 
(FREYRE, 2004, p. 399). 
 
 
 
Ou seja, o sistema escravocrata favoreceu e fortaleceu a 
mentalidade de que a escrava, como propriedade que era, deveria servir aos seus 
senhores sempre que estes o desejassem. Além do mais, ter filhos bastardos 
gerados nos ventres das escravas era mesmo rentável, pois um bebê nascido 
dentro na propriedade do seu senhor acabava por virar escravo sem sequer se 
desembolsar dinheiro para sua compra. Afinal, “o que se queria era que o ventre 
das escravas gerassem. Que as negras produzissem moleques” (FREYRE, 2004, 
p. 399). 
 
16 Embora a obra citada trate do Nordeste, o assunto em pauta pode se estender também ao Rio 
de Janeiro, já que a escravidão fez parte como mão-de-obra para serviços braçais em todo o 
território nacional. 
 
 
55
As meninas escravas eram muito cedo entregues aos moços 
brancos, quando ainda virgens: 
 
 
Foram os senhores das casas-grandes que contaminaram de lues17 
as negras das senzalas. Negras tantas vezes entregues virgens, 
ainda molecas de doze e treze anos, a rapazes brancos já podres 
de sífilis das cidades (FREYRE, 2004, p.399-40)18. 
 
 
Muitos meninosbrancos, por exemplo, tinham suas mães mortas no 
parto e acabavam sendo criados pelas amas, ficando a cargo delas, muitas vezes, 
a iniciação sexual dos sinhozinhos: 
 
 
Ficava então o menino para as mucamas criarem. Muito menino 
brasileiro do tempo da escravidão foi criado inteiramente pelas 
mucamas. Raro o que não foi amamentado por negra. Que não 
aprendeu a falar mais com a escrava do que com o pai e a mãe. 
Que não cresceu entre moleques. Brincando com moleques. 
Aprendendo safadeza com eles e com as negras da copa. E cedo 
perdendo a virgindade. Virgindade do corpo. Virgindade do espírito 
(FREYRE, 2004, p. 433)19. 
 
 
Mesmo sendo Coutinho um rapaz de muito escrúpulo ao castrar os 
seus desejos de possuir Mariana, esta passagem de Gilberto Freyre justifica o 
surgimento em seus pensamentos da “idéia que a razão pode condenar, mas que 
nossos costumes aceitam perfeitamente” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 161). O 
 
17 Sífilis. 
18 Não há aqui a intenção de falar sobre as epidemias de doenças sexualmente transmissíveis 
ocorridas no Brasil, mas sim de se destacar a iniciação sexual das meninas escravas por seus 
senhores. Curiosamente, Gilberto Freyre afirma existir, nessa época, a superstição de que a cura 
para a sífilis estava em desvirginar uma negrinha. 
19 Grifos meus. 
 
 
56
convívio dos meninos brancos com as escravas, unido aos valores de propriedade 
e de superioridade de raça, justificavam a relação sexual – muitas vezes forçada – 
entre escravas e rapazes brancos. Era da cultura do regime escravocrata e da 
sociedade brasileira, desde a implantação deste sistema, a iniciação de um 
“nhonhô” com uma escrava. 
 
 
O que sempre se apreciou foi o menino que cedo estivesse metido 
com raparigas. Raparigueiro, como ainda hoje se diz. Femeeiro. 
Deflorador de mocinhas. E que não tardasse a emprenhar negras, 
aumentando o rebanho e o capital paternos (FREYRE, 2004, p. 
456). 
 
 
Apesar de se desconhecer se a iniciação de Coutinho fora conforme 
Freyre – tudo leva a crer que não, pois ele já possuía idade entre 20 e 25 anos, 
idade em que um rapaz teoricamente já teria sido iniciado há muito –, esta 
mentalidade de o homem branco possuir a escrava negra está bastante presente 
nos comentários do tio João Luís. 
Segundo Coutinho, “Mariana era apreciada por todos quantos iam a 
nossa casa. Meu tio, João Luís, dizia-me muitas vezes: – ‘Por que diabos está tua 
mãe guardando aqui em casa esta flor peregrina? A rapariga precisa de tomar ar’” 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 155). Observe-se a ironia do termo “tomar ar”: 
dito com segundas intenções, significava expor a escrava para o deleite 
masculino, pois se tratava de uma moça bonita e educada. 
O comentário do tio de Coutinho acaba por demonstrar uma 
preocupação fútil, pois Mariana era muito bem tratada e, aos olhos de seus 
 
 
57
senhores, não precisava sair de lá “para tomar ar”. Afirma o próprio Coutinho: 
“esta preocupação do tio nunca me passou pela cabeça; acostumado a ver 
Mariana bem tratada parecia-me ver nela uma pessoa da família” (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 155). 
Dando continuidade ao relato feito aos amigos, Coutinho diz que, 
após a fuga e captura de Mariana, foi à casa do tio João Luís, a fim de visitar a 
noiva. Ocorre, novamente, uma alusão maliciosa a respeito da escrava: 
 
Falei muito nesse episódio em casa de minha prima. O tio João Luís 
disse-me em particular que eu fora um asno e um ingrato. 
– Por quê? perguntei-lhe. 
– Porque devia ter posto Mariana debaixo da minha proteção, a fim 
de livrá-la do mau tratamento que vai ter. 
– Ah! não, minha mãe já lhe perdoou. 
– Nunca lhe perdoará como eu (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 
164). 
 
 
Ora, João Luís deveria perdoá-la pelo quê, se a escrava nem lhe 
pertencia? Mais uma vez a ironia presente no texto. E, sabendo da bondade da 
mãe de Coutinho para com suas crias, por que haveria ele de livrar a moça de 
castigos? Ainda: falar em particular de uma situação sobre a qual todos já 
estavam a saber. Machado, aqui, sutilmente mostra o interesse que João Luís 
tinha em Mariana e deixa nas entrelinhas o “tratamento” que daria à menina. Para 
John Gledson, em “Os contos de Machado de Assis”, presente no início de 
Contos: uma antologia, “na própria história [do conto Mariana] algumas das 
dinâmicas da escravidão ficam bem evidenciadas, até nos apartes ‘cômicos’, 
 
 
58
como os do tio do narrador, que saberá exatamente de que maneira ‘perdoar’ a 
fugitiva quando esta for capturada” (GLEDSON, 2004, p. 24). 
Conforme Coutinho, a citação que segue reflete claramente a 
mentalidade construída acerca da escravidão: a escrava servindo de objeto 
sexual. 
 
 
Confesso, entretanto, que, apesar de não competir de modo 
nenhum dos sentimentos de Mariana, entrei a olhar pra ela com 
outros olhos. A rapariga tornara-se interessante para mim, e 
qualquer que seja a condição de uma mulher, há sempre dentro de 
nós um fundo de vaidade que se lisonjeia com a afeição que ela nos 
vote. Além disto, surgiu em meu espírito uma idéia que a razão 
pode condenar, mas que nossos costumes aceitam perfeitamente 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 161). 
 
 
 
Coutinho começa a sentir-se atraído por Mariana. Em uma parte da 
conversa com Macedo e os outros companheiros, ele relata: 
 
 
Mariana aos dezoito anos era o tipo mais completo da sua raça. 
Sentia-se-lhe o fogo através da tez morena do rosto, fogo inquieto e 
vivaz que lhe rompia dos olhos negros e rasgados. Tinha os cabelos 
naturalmente encaracolados e curtos. Talhe esbelto e elegante, colo 
voluptuoso, pé pequeno e mãos de senhora (MACHADO DE ASSIS, 
1998, p. 155). 
 
 
 
“Tais sentimentos [o do “amor impossível” vivido por Mariana] 
contrastavam com a fatalidade da sua condição social. Que seria uma paixão 
daquela pobre escrava educada com mimos de senhora?” (MACHADO DE ASSIS, 
 
 
59
1998, p. 159). Apaixonada pelo senhor, o fato não poderia ser aceito jamais. Mas, 
para prestar o “serviço” que Coutinho desejava, Mariana poderia estar disponível. 
Conforme já referido – de acordo com Gilberto Freyre – ter na 
escrava objeto de satisfação sexual foi um costume que perdurou durante todo o 
regime da escravidão no Brasil; era do direito do senhor usufruir suas 
propriedades como bem entendesse ou desejasse. Coutinho, apesar de seu 
discurso humanitário, analisa o corpo da mulatinha, ressalta a sua beleza, 
demonstrando que não seria nem um pouco desagradável “deliciar-se” em tal 
formosura. 
O que, para Joaquim Nabuco, era um imenso crime. Em suas 
palavras, o que poderia ser 
 
 
 mais criminoso, anuir a que suas filhas formem o serralho do senhor, ou 
deflorar pobres mulheres, que não têm guarda nem proteção? O que 
revolta mais, entrar para a família como uma fera desapiedada e sensual 
ou não consentir que a família seja outra coisa? O que é mais cínico, viver 
na promiscuidade ou organizar a promiscuidade no interesse da 
reprodução? (NABUCO, 1999, p. 19) 
 
 
 
Embora sua visão acerca da escravidão e da abolição seja deveras 
romântica, Nabuco foi utilizado nesta dissertação pelo fato de ter sido um 
importante abolicionista, por ter visto de perto e em seu tempo o crime do sistema 
escravocrata, além de ter sido grande amigo pessoal e correspondente de 
Machado de Assis. Com os relatos feitos por Nabuco e sua visão acerca da 
 
 
60
escravatura, é possível se ter um panorama de quem vivenciou este recorte da 
História do Brasil. 
 
 
1.5 Escravidão: banalidade 
 
 
Para Joaquim Nabuco, a escravidão violava as leis morais da 
humanidade. Além disso, segundo ele, o sistema já estava, por sua natureza, 
condenado à morte porque ia de encontro a essas mesmas leis. Existe aqui a 
conscientização da evolução da humanidade, ou seja, os valores estavam 
mudando. Já não se admitia mais que pessoas comercializassem como peças e 
escravizassem outras pessoas como animais. Para esteautor e abolicionista, 
 
 
Da moral, a escravidão fez duas morais; uma para cada classe (...) 
Do trabalho, o mais nobre dos esforços, fez ela a mais rebaixada 
das ocupações; a atividade que trazia em seu próprio arbítrio o 
caráter da liberdade tornou-se, na sociedade, servil, como se a 
sociedade fosse outra coisa mais que o meio do desenvolvimento 
das atividades livres. (...) A virtude perde-se ao contato dessa 
instituição: ela é escola do crime, envenena o coração do senhor e 
do escravo, muda a caridade em palavra vã, desnatura a lei do 
mérito: é a sentina de todos os vícios (NABUCO, 1999, p. 03-4). 
 
 
 
Ou seja, a escravidão trouxe o progresso e o desenvolvimento para 
o país às custas de muitos sacrifícios: 
 
 
 
61
 
Toda a nossa existência social é alimentada por esse crime: 
crescemos sobre ele, é a base de nossa sociedade. Nossa fortuna 
donde vem? De nossa produção escrava. Suprimi hoje a 
escravidão, tereis suprimido o país. Eis como a lei moral reage. 
Nossa liberdade fez-nos escolher o caminho do crime, seguimo-lo: 
hoje que queremos dele sair estamos a ele pregados. Está 
esboçado o quadro geral das afinidades de cada elo de nossa 
sociedade com a escravidão: ela tudo corrompeu, a começar pelo 
povo a que roubou as virtudes dos povos que trabalham: a 
diligência, a economia, a caridade, o patriotismo, o desprezo da 
morte, o amor da liberdade (NABUCO, 1999, p. 06). 
 
 
 O sistema escravocrata corrompeu pessoas, humilhou famílias, 
distorceu valores. Arrependido somente pelo que havia acontecido a uma moça, 
dentre tantas outras que passaram por igual ou semelhante situação, ao relatar 
seu passado naquele reencontro com amigos, Coutinho realiza mera catarse do 
que lhe ia no íntimo por tantos anos. Ao confessar “uma coisa, que nunca saiu de 
mim” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 154), parece ter se livrado de um peso que 
carregara por anos, mas que agora, já “confesso o crime”, passou a ter relevância 
nenhuma. 
 Após Coutinho narrar o fato que marcou sua mocidade, os “ex-
rapazes” saem pela Rua do Ouvidor tecendo comentários sobre “os pés das 
damas que desciam dos carros, e fazendo a esse respeito mil reflexões mais ou 
menos engraçadas e oportunas” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 170), mostrando 
que o que havia se passado naquele tempo nada representava diante dos pés das 
damas cariocas e dos acontecimentos que então os rodeavam. O desfecho do 
conto se dá de maneira banal, ou seja, após o dramalhão, os amigos passeiam e 
riem como se nada houvesse acontecido. Citação que bem ilustra esta afirmação 
 
 
62
está em Machado de Assis: Historiador: “o crime da escravidão produzira cinco 
minutos de ‘remorsos’ aos quarentões bem-pensantes que, remoçados, voltam 
logo ao papel de predadores sociais e sexuais” (CHALHOUB, 2003, p.136). 
Por fim, há um parágrafo em Nabuco – “A escravidão degrada a 
alma do escravo e do senhor” – carregado de questionamentos do abolicionista e 
que merece sua transcrição na íntegra: 
 
 
A escravidão é como um desses venenos que se infiltram pelo 
perfume: ela se infiltra pelo egoísmo. Depois de se haver introduzido 
na sociedade e de ter alimentado uma raça à custa da outra ela 
corrompe a ambas. Duas palavras únicas temos a dizer a respeito: 
que vícios não deve ter uma alma que obedece, que está sempre 
curva e humilhada, que rasteja diante de um homem? Que às vezes 
é a encarnação de todos os crimes? Que vícios por outro lado não 
deve ter aquela que está habituada a mandar e a não ser mandada, 
a castigar a homens como a animais, a contemplar a máxima 
degradação da nossa natureza, a satisfazer brutalmente a todos os 
seus caprichos? Nada há mais parecido com a alma de um senhor 
como a de um escravo. Quereis ver o paralelo? Considerando 
sempre perante o ideal da justiça, o que é mais degradante – a 
baixeza deste ou a altivez daquele? O que fica deprimido num, 
cresce no outro: são duas molas, uma desce quando a outra sobe; a 
um vício corresponde outro, os extremos tocam-se. O que afronta 
mais a justiça, a obedecer um ou mandar o outro? O que é mais 
degradante, o servilismo ou o despotismo, a covardia do medo ou a 
covardia da força, açoitar ou ser açoitado? O que é mais criminoso, 
anuir a que suas filhas formem o serralho do senhor, ou deflorar 
pobres mulheres, que não têm guarda nem proteção? O que revolta 
mais, entrar para a família como uma fera desapiedada e sensual 
ou não consentir que a família seja outra coisa? O que é mais 
cínico, viver na promiscuidade ou organizar a promiscuidade no 
interesse da reprodução? (NABUCO, 1999, p. 18-9) 
 
 
 Para Joaquim Nabuco, a sociedade deveria ser entendida como um 
lugar em que os seres humanos, mesmo sendo escravos, mereciam respeito. 
Naquele contexto social, entretanto, o que prevalecia era a mentalidade dos 
 
 
63
senhores brancos. Para o abolicionista pernambucano, a marginalização do negro 
e o vício do branco em se aproveitar da inferioridade imposta à raça negra eram 
fatos indignos do ser humano. 
 Assim acontece com Mariana: bem tratada dentro de casa, é 
açoitada com palavras após suas fugas, é a cativa que vê a situação de escrava 
intensificada fora do cativeiro. É a filha da marginalização e da inferioridade da 
raça negra, além de vítima do sistema escravocrata. Embora Mariana não tenha 
sido vítima de castigos e açoites, a violência contra ela era a violência de um amor 
marcado pela desigualdade de classe. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
64
 
2 PAI CONTRA MÃE 
 
 
Publicado em 1882, o conto “Pai contra mãe” tem como enredo a 
história de Cândido Neves, que, depois de muito tentar se encontrar em algum 
ofício, escolhe ser capturador de escravos fugidos. No início, a atividade era 
rentável e Cândido sempre voltava com algum dinheiro para casa. O autor reporta-
se à data do acontecimento, que se dera “há meio século”, quando “os escravos 
fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão” 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 483). O personagem conhece Clara, com quem 
posteriormente se casa. Os dois amavam-se muito – só mesmo dessa forma para 
o amor sobreviver a uma grave crise de finanças da família. Para piorar a 
situação, Clara informa aos parentes que está grávida, o que, segundo sua tia 
Mônica, era terrível, pois o aumento da família só traria mais dificuldades, já que 
era mais uma boca a ser alimentada. A tia, então, sugere que eles deixem a 
criança na roda dos enjeitados, uma vez que não teriam condições de sustentar a 
criança. Tal sugestão soou como afronta aos ouvidos de Candinho que, no fundo, 
sabia que uma criança não sobreviveria às dificuldades por que passavam. 
Quando a criança nasceu, os pais foram tomados de imensa alegria, 
mas não muito duradoura, pois eles deveriam acatar a sugestão da tia e entregar 
o bebê à roda. Mas, no caminho em direção à roda, Cândido depara-se com uma 
escrava fugida, cuja recompensa era de cem mil réis. Aquele dinheiro seria a 
 
 
65
salvação para a família e significava não entregar o filho à roda. Foi então que 
Cândido saiu no encalço da fugitiva. 
Ao ser capturada, a negra pedia por todos os santos que ele a 
soltasse, pois estava grávida e, com o castigo que receberia, certamente perderia 
a criança. Mas Candinho não deu ouvidos às suas lamentações, visto que só 
pensava na hipótese de perder seu filho também. 
A fugitiva é entregue ao seu dono, perde o bebê na porta de casa e 
Candinho volta à farmácia onde havia deixado seu filho, aos cuidados do 
farmacêutico. Com a recompensa, o bebê não precisava mais ser entregue à roda 
dos enjeitados. 
 
2.1 O ofício de caçar escravos, instrumentos de tortura e decadência do sistema 
representados no conto 
 
Quando Machado de Assis diz que “a escravidão levou consigo 
ofícios e aparelhos” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 483), refere-se não só aos 
instrumentos de tortura, mas também a ofícios como o de feitor, homem 
responsável peladisciplina e organização dos escravos, e o de caçador de cativos 
fugitivos. 
Neste conto, Machado retrata com precisão como era feita a captura 
dos escravos: descreve instrumentos de tortura utilizados em escravos fujões ou 
viciados em bebiba alcoólica: “o ferro ao pescoço, outro ferro ao pé” e a “máscara 
de flandres” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 483). Machado refere-se ao “ferro 
ao pescoço”, também conhecido como “gargalheira, gorilha ou golinha”, que é 
assim descrito pelo narrador: 
 
 
66
 
 
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma 
coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, 
até o alto da cabeça e fechada atrás com chave. Escravo que fugia 
assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com 
pouco era pegado (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 483). 
 
 
 
 Jean-Baptiste Debret, em Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, 
também relata os castigos sofridos pelos escravos, além de retratá-los através de 
suas ilustrações: 
 
O colar de ferro tem vários braços em forma de ganchos, não 
somente no intuito de torná-lo ostensivo, mas ainda para ser 
agarrado mais facilmente em caso de resistência, pois apoiando-se 
vigorosamente sobre gancho a pressão inversa se produz do outro 
lado do colar, levantando com força o maxilar preso; a dor é horrível 
e faz cessar qualquer resistência principalmente quando a pressão 
é renovada com sacudidelas (DEBRET, 1965, p. 
255).
FIG 1 – O colar de ferro (Jean-Baptiste Debret, 1965). 
 
 
 
67
 
Segundo Emília Viotti da Costa, era por meio destes sinais de castigo 
e tortura que um comprador poderia saber a índole da peça a ser comprada, e 
durante muito tempo estas marcas não traziam boa recomendação ao escravo. 
Após os movimentos abolicionistas, estas marcas, entretanto, provavam a má 
índole e o abuso de poder por parte do senhor, o que trazia, por outro lado, má 
recomendação do dono do escravo. A autora descreve também como 
funcionavam estes aparelhos de tortura, que serviam para a disciplina do escravo. 
 Havia também a “máscara de flandres”, assim descrita por Machado 
no conto: “A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes 
tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada 
atrás da cabeça por um cadeado” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 483). 
 Para que se mantivesse a disciplina entre os escravos, os senhores 
recorriam aos mais variados tipos de castigo e brutalidade. Em “Pai contra mãe”, 
pode-se ter idéia do que se passava. Além dos instrumentos de tortura já 
mencionados, o autor ainda mostra como eram os resgates e como era o trabalho 
de um caçador de escravos. O ofício de capturar escravos não era dos mais 
nobres, pois, segundo Machado, “a necessidade de uma achega, a inaptidão para 
outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por 
outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem 
à desordem” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 484). 
 A violência aparece mais uma vez, durante a busca dos fugitivos, 
que geralmente reagiam diante da captura. Cândido às vezes também saía 
machucado, mas eram os escravos quem saíam com mais ferimentos: “Nem 
 
 
68
sempre [Cândido] saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, 
mas geralmente ele os vencia sem arranhão” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 
488). 
A nobreza deste ofício se dava de outra maneira: colocando “ordem 
à desordem” e utilizando-se da força para manter a lei e a propriedade, o caçador 
de negros fugidos estava servindo à sociedade. Sobre a nobreza do ofício, diz 
Machado: “não seria nobre, mas por ser instrumento de força com que se mantêm 
a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações 
reivindicadoras” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 484). 
O alarde feito pelos escravos capturados também era muito comum 
e, além disso, não causava o mínimo espanto aos que assistiam ao espetáculo, 
uma vez que era algo que fazia parte do cotidiano dessas pessoas: “Quem 
passava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia” 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 493). A expressão “naturalmente” demonstra a 
normalidade do ato de violência do sistema em questão e do ofício de Cândido 
Neves. Além do mais, as pessoas não perderiam seu tempo acudindo um escravo, 
já que, mesmo que conseguissem acudir, ele voltaria aos açoites caso fosse 
recuperado novamente. E, ainda, para a maioria, o escravo fazia parte da 
propriedade de alguém e seria injusto violar este direito. 
Cândido Neves não era dado aos trabalhos que exigiam paciência 
para o aprendizado do ofício, por isso recorreu à captura de escravos fujões, pois, 
para pegá-los, não era obrigado “a estar longas horas sentado. Só exigia força, 
olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os 
 
 
69
anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas” (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 487). 
Os escravos fugidos passaram a ser alvo de outros homens, visto 
que os que estavam desempregados entregavam-se cada vez mais ao mesmo 
ofício. Cândido Neves passou, então, a sofrer pressão da concorrência no 
trabalho. As dívidas começaram a crescer, e Clara trabalhava ainda mais. As 
atrapalhadas de Cândido, ainda que raras, aconteciam e só serviam para que tia 
Mônica lhe mostrasse cada vez mais que se fazia necessário outro emprego: 
 
Certa vez [Cândido] capturou um preto livre; desfez-se em 
desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os 
parentes do homem. 
– É o que lhe faltava! exclamou tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois 
de ouvir o equívoco e suas conseqüências. Deixe disso, Candinho; 
procure outra vida, outro emprego (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 
488). 
 
 
Acerca dos anúncios, Machado também relata como se davam a 
publicação, a descrição feita do escravo e como era anunciada a gratificação que 
seduziria e despertaria o interesse dos que eram dados ao ofício: 
 
 
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho 
levasse. Punha anúncio nas folhas públicas, com os sinais do 
fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por 
onde andava e a quantia de gratificação. (...) Muita vez o anúncio 
trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, 
correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 484). 
 
 
 
 
70
 
 Há de se notar que Machado faz questão de mostrar a “vinheta” que 
acompanhava o anúncio. Uma figura caricata, mal vestida, correndo assustada, 
provavelmente com medo das chibatadas a que se submeteria caso fosse 
apanhado. Essa caricatura era muito comum no imaginário do Brasil escravista do 
século XIX, demonstrando, também, a inferioridade imposta ao negro naquela 
sociedade. Um escravo não deveria aparecer bem vestido e elegante nessas 
vinhetas, pois esta era característica exclusiva dos brancos. 
 Um exemplo destes anúncios é transcrito por Emília Viotti e valida o 
relato de Machado nesta citação: 
 
Escravo fugido. Acha-se acoutado nesta cidade o escravo pardo de 
nome Adão de 29 anos de idade, pertencente ao fazendeiro abaixo 
assinado. É alto, magro, tem bons dentes e alguns sinais de 
castigos nas costas, com a marca S.P. nas nádegas. É muito 
falador e tem por costume gabar muito a Província da Bahia de 
onde é filho. Quem o levar à casa de correção será gratificado com 
a quantia de 200$000. São Paulo, 17 de dezembro de 1884. 
Saturnino Pedroso (COSTA, 1998, p. 343). 
 
 
 E, ainda, em História da vida privada no Brasil, há um breve 
comentário sobre estes anúncios, que traz consigo uma observação sobre “Pai 
contra mãe”: 
 
 
Anúncios de escravos fugidos eram publicados diariamente nos 
jornais e criavam um clima de insegurança nas cidades. Em “Pai 
contra mãe”, um dos textos mais dramáticos de Machado de Assis, 
um paupérrimo caçador de escravos, atrás da recompensa paraalimentar seu filho, captura nas ruas do Rio de Janeiro uma escrava 
 
 
71
grávida em fuga. Espancada, a escrava acaba abortando (SLENES, 
1997, nota da figura na página 244). 
 
 
Ainda sobre os castigos aplicados aos cativos e os anúncios de 
escravos fujões, Robert Slenes tece o seguinte comentário: 
 
 
Retirando-se da análise os anúncios mais lacônicos, que registram pouco 
mais do que os dados pessoais básicos da pessoa, a proporção de 
fugitivos com sinais explícitos de punições sobe para aproximadamente um 
em cinco (SLENES, 1997, p. 278). 
 
 
 Os anúncios de escravos fugidos servem também para mostrar os 
castigos e a violência sofridos por eles, assunto abordado no conto de Machado. 
Entre as ruas do Rio de Janeiro antigo, após um longo período sem 
trabalho e cheio de dívidas (foi despejado da casa onde devia o aluguel), Cândido 
encontra a presa que lhe renderia cem mil-réis: a escrava Arminda. 
O tempo da narrativa é dado no seguinte trecho: 
 
 
Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e 
nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente 
apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 483). 
 
 
 
 
72
A “pancada” mais comum era o açoite, assim retratado e descrito por 
Debret como “pena aplicável a todo escravo negro culpado de falta grave” 
(DEBRET, 1965, p. 264): 
 
 FIG 2 - Aplicação do castigo do açoite (Jean-Baptiste Debret., 1965). 
 
Já nesta passagem, o autor utiliza a ironia para se referir à situação 
dos escravos, quando diz que “’nem’20 todos gostavam da escravidão”. Ora, se a 
escravidão foi um marco de sangue e tortura na História do Brasil, qual escravo 
haveria de gostar? 
Como já visto em “Mariana”, apesar de toda violência sofrida pelos 
cativos, em “Pai contra mãe” reaparece o caso dos escravos que pertenciam a 
“bons cativeiros”: “grande parte [dos escravos] era apenas repreendida; havia 
alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau” 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 483). Mas, neste caso, Machado mostra que 
 
20 Grifo meu. 
 
 
73
havia outro motivo para que não se castigassem um cativo até a morte ou tanto 
que ele ficasse incapaz de trabalhar por muito tempo: não era apenas bondade – 
queria-se também evitar prejuízos. Um escravo a menos ou debilitado devido aos 
castigos significava menos braços para trabalhar. Assim relata Machado: “além 
disso [da bondade de certos senhores], o sentimento da propriedade moderava a 
ação, porque dinheiro também dói” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 484). 
Machado também relata casos de escravo de ganho, que, segundo 
Alencastro, era “dono de um pecúlio tirado da renda obtida para seu senhor no 
serviço de terceiros” (ALENCASTRO, 1997, p. 79). Quando havia fuga de 
escravos contrabandeados, por exemplo, ocorriam casos de o cativo negociar com 
o senhor: “dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao 
senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando” (MACHADO 
DE ASSIS, 1998, p. 483). 
Nas cidades já não era possível manter o escravo tão preso ao 
cativeiro tanto quanto no campo, como já referido no capítulo “Mariana”. Muitas 
vezes a negociação se fazia necessária para que o escravo fujão continuasse a 
trabalhar sem dar prejuízos ao senhor. 
Joaquim Nabuco faz observações sobre o sistema de leis21 que 
legitimava a aplicação de penas aos escravos desobedientes ou criminosos. Diz o 
abolicionista que estas leis serviram apenas para garantir a segurança da 
sociedade e a força que exercia uma raça superior (os brancos) sobre outra 
inferior (os negros). Segundo Nabuco, 
 
 
21 O abolicionista refere-se ao Art. 60 do Código Criminal e à lei de 10 de junho de 1835. 
 
 
74
 
(...) Essa lei de segurança, para se mostrar que uma lei imoral, 
basta dizer-se que ela importa uma desigualdade e uma opressão, 
que é a lei da força. Fulminada contra os fracos, deixa de ter o 
caráter principal das leis que governam as sociedades: o caráter da 
soberania. De uma origem exclusiva ela só pode abranger a 
sociedade que a faz, não a sociedade que a sofre; e ainda que esse 
mesmo fato vicie a instituição-mãe, a escravidão, ainda que isso 
mesmo se deva alegar contra esta, todavia daí não se segue que o 
que é justo contra a causa seja injusto contra o efeito. Ao contrário, 
parece-nos que nós que viciamos a escravidão por ser ela a 
opressão de uma raça sobre outra, o domínio da força, um ato e 
não uma instituição, temos o dever de impugnar o código negro, por 
ter a mesma origem, por ser uma lei arbitrária de segurança e de 
defesa imposta por uma sociedade a outra completamente diferente 
(NABUCO, 1999, p. 36). 
 
 
 
 Dessa maneira, o sistema que legitimava a caça aos escravos fujões 
e os castigos que lhes seriam dados protege apenas os interesses dos 
proprietários, sendo indiferente ao que pode vir a acontecer àquela que era vista 
como “raça inferior”. É o caso de Arminda e seu dono: a escrava que é capturada 
aborta na sala do seu proprietário, mas ele está, ainda assim, satisfeito pelo 
prejuízo desfeito, que era a perda de uma de suas peças. 
 
 
2.2 Cândido Neves: um personagem longe da candura 
 
 
A ironia continua no nome do personagem principal, “Cândido”, que 
remete à pureza, à doçura e à ingenuidade; ironia ao nomeá-lo desta forma, pois 
representa a crueldade e a dor, já que o ofício de Cândido Neves nada tem de 
 
 
75
inocência ou doçura. Ao contrário, Cândido representa um sistema cruel, que 
torturou pessoas e condenou milhares à morte devido ao exagero nos castigos 
adotados. Cândido Neves é descrito, no início do conto, como um homem forte, 
robusto, embora não muito dado a aprender ofícios e a trabalhar. No decorrer da 
narrativa, o protagonista transforma-se em um caçador de escravos derrotado 
que, apenas por um golpe de sorte, consegue capturar uma fugitiva. Cândido, um 
homem fisicamente forte, mas derrotado pelas circunstâncias, representa, 
também, a força e a decadência do sistema escravocrata. 
Em artigo publicado na revista Nossa História, Jefferson Cano 
aponta um paralelo entre a História e os personagens Pedro e Paulo, os gêmeos 
de Esaú e Jacó, romance publicado em 1904: 
 
Um dos motivos do conflito entre eles era a divergência de opinião 
política, porém o monarquismo de Pedro e o republicanismo de 
Paulo não apenas caracterizavam estes personagens, mas serviam 
para caracterizar os dois regimes. (...) passado e presente, como 
aqueles personagens, opunham-se em tudo, porém eram gêmeos 
(CANO, 2005, p. 79). 
 
 
 O mesmo paralelo acontece com a família Neves: Cândido há muito 
não se ocupava de um emprego, passando a família, assim, por grave crise 
financeira. Força e decadência conviviam num cabo de força. De um lado, os 
senhores tentando manter o regime escravocrata, de outro, abolicionistas e 
simpatizantes da causa lutando pela liberdade dos cativos. 
A indisposição de Cândido para o trabalho era tão visível que até 
mesmo as amigas de Clara, com um quê de inveja, foram contra o casamento: 
“Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo 
 
 
76
que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem 
ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas” 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 485). 
Clara trabalhava cada vez mais, fazendo costuras com sua tia, para 
arcar com as despesas domésticas. Foi ela, junto com sua tia, quem sustentou a 
família por muito tempo, pois nem sempre Cândido conseguia levar dinheiro para 
casa: “não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. 
Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma coisa e outra; não tinha 
emprego certo” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 486). 
Observa-se aqui, como em “Mariana”, a mulher ganhando mais 
espaçoe assumindo cada vez mais o lugar masculino quanto ao provimento do 
lar. Em “Mariana”, a mãe tem o lugar de senhora da casa: é ela quem administra o 
lar, inclusive a parte que toca à disciplina dos escravos; em “Pai contra mãe”, é 
Clara quem trabalha para garantir o sustento da família. Candinho, como era 
conhecido em família, possui papel de coadjuvante diante do orçamento 
doméstico. 
Com a notícia de que a família aumentaria, Clara passou a trabalhar 
ainda mais que antes. Além de precisar do dinheiro das costuras para a 
sobrevivência da família, a futura mãe cosia roupas para o bebê que esperava: “a 
esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, 
além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança“ 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 486). 
Dívidas de aluguel os despejaram da casa onde moravam. A família 
Neves − assim como Pedro e Paulo, que representam Monarquia e República, 
 
 
77
como exemplifica Jefferson Cano − simboliza a decadência de um sistema já 
ultrapassado. Com todas as idéias de abolicionismo e pressão por parte dos que 
as defendiam, começava a ficar difícil manter a escravidão e não ceder aos apelos 
daqueles que queriam ver livres os escravos no Brasil. 
Dessa forma, pode-se observar o enfraquecimento da escravidão 
quando Tia Mônica diz para Cândido que ele deveria encontrar um ofício que lhe 
rendesse dinheiro certo: “Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o 
tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; 
não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu, é vaga. Você passa 
semanas sem vintém” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 487). Machado ironiza 
usando na fala da tia de Clara os ofícios que Candinho já havia tentado exercer 
sem sucesso por causa de seu “caiporismo”. Cândido só arrecadava dinheiro 
quando havia fuga de escravo e, ainda assim, se o recuperasse. Seu ofício estava 
próximo do fim, assim como o sistema escravocrata. Ora, se havia cada vez 
menos escravos no Brasil, havia menos ainda possibilidade de escravos fugirem. 
 Sobre Dom Casmurro, afirma Luiz Roncari, no ensaio Dom Casmurro 
e o retrato do país: 
 
 
O Dom Casmurro também parece não retratar outra coisa: um 
primeiro ensaio desastroso de mudança no plano do microcosmo 
familiar, equivalente ao que se passou no macrocosmo da vida 
política e institucional (RONCARI, 2004, p. 85). 
 
 
 
 
78
 No caso da família Neves, o plano do microcosmo familiar representa 
o cenário nacional, onde a escravidão já apresentava traços de perda de força. 
 
 
2.3 Arminda: “nem todos os filhos vingam” 
 
 
 Joaquim Nabuco afirma que a escravidão viola os princípios da 
propriedade pelo fato de fazer com que o escravo não seja propriedade de si 
mesmo – um direito básico do ser humano. Através de alguns argumentos feitos 
em A Escravidão, retrata a forma como eram tratados os escravos e como eram 
privados das necessidades básicas de um ser humano. Observando-se as 
privações por que passa a escrava Arminda, há de se notar a perfeita aplicação 
destas observações feitas pelo abolicionista: 
 
 
Quereis mais saber em que a escravidão viola os santos princípios 
da propriedade? Roubando-a ao escravo que nem se domina a si, 
nem possui na terra seu descanso, seu sono, seu corpo, sua vida, 
seu sangue, sua alma, sua honra. Não possui seu descanso porque 
ele é um arbítrio de feitor, que às vezes o faz trabalhar sem fôlego. 
Não possui seu sono porque ele é regrado pelo chicote sem 
atenção às dores do dia. Não possui seu corpo porque os senhores 
podem tirá-lo impunemente cansando-os, martirizando-os, 
deixando-os sem socorro nas doenças, sem alimento de todos os 
modos, enfim, porque se tem o visto. Não possui seu sangue 
porque ele corre sob o azorrague. Não possui sua alma porque não 
pode ter as luzes da ciência, do bem e de Deus. Não possui enfim 
sua honra porque nasceu infamado e ao passo que suas mulheres 
estão entregues à promiscuidade das senzalas suas filhas moças 
são a partilha da luxúria dos senhores (NABUCO, 1999, p. 8-9). 
 
 
 
79
 
A escravidão foi responsável por grande desestruturação familiar. No 
caso de Arminda, seu direito à maternidade é violado no momento em que é 
capturada e, ao ser entregue ao seu dono, aborta o filho na porta de casa. Nas 
palavras de Joaquim Nabuco, 
 
 
a família, como o direito à família, não é violada nela [na 
escravidão]; como a mesma família não é ultrajada e vilipendiada, a 
escravidão ataca-a porque não a permite, porque a relaxa, porque a 
dissolve: ataca a família na dignidade da mãe porque a açoita, na 
honra da mãe porque a viola, no amor da mãe porque apaga-o, na 
vida da mãe porque a rouba (...) (NABUCO, 1999, p. 04). 
 
 
 
 Os escravos não eram donos de suas vontades, por isso a violação 
no direito à propriedade. Ainda em Nabuco, tem-se a seguinte passagem: 
 
 
A escolha da vontade era seguida do ato: a liberdade reconhecia-se 
na sua obra. Com os escravos deu-se o oposto: nos menores atos a 
atividade ficou reprimida, não podendo o ato exterior conformar-se 
com a escolha. Querer para eles não é poder: assim habituaram-se 
a não considerarem livres na vontade porque não o eram na ação: a 
atividade resumida a determinações sem realização possível, 
abafada pelo temor, pelo despotismo, suicidou-se ou antes morreu à 
míngua (NABUCO, 1999, p. 22). 
 
 
 Sobre maternidade e escravidão, assim afirma Nabuco: 
 
 
 
 
80
Antes de o escravo nascer, sofre na mãe. Desde as vísceras da 
mãe está ele condenado à sua morte. (...) As entranhas, que o 
geraram, figuram nos apontamentos do senhor comum, como uma 
máquina produtora: ele mesmo é intercalado entre os lucros 
prováveis até o dia em que o batismo recebe um nome, que é um 
número de galé. O partus sequitur ventrem, máxima do direito 
romano, é o incentivo à luxúria dos brancos. Pouco se importam 
estes em engrossar o patrimônio dos amigos com filhos seus, que 
jamais reconhecerão. Assim considerada pela força produtiva de 
seu ventre, a negra é tratada como a árvore seca ou como a árvore 
carregada. No primeiro caso é um objeto ruim, destinado a perecer; 
no segundo é um valor econômico que se perpetuará na 
descendência (NABUCO, 1999, p. 27-8). 
 
 
 Dessa maneira, após a reflexão feita pelo abolicionista, percebe-se 
que Machado trata da indiferença que havia a respeito da maternidade das 
escravas. Para o senhor de Arminda, o feto morto deixado na porta de sua sala 
não passava de mais um dos que não sobreviveu às barbáries impostas pelo 
sistema escravocrata. A mãe também não passava de mais uma, que dali a 
alguns dias poderia estar grávida novamente – lucro fácil para um proprietário que 
teria mais um escravo sem precisar desembolsar nada para sua compra. 
 Ao mencionar a sugestão da tia de Clara de levar o filho para a 
Roda, o narrador explica que ela já o havia insinuado, “mas era primeira vez que 
fazia com tal calor, – crueldade, se preferes” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 
489). Sendo assim, o ato de tia Mônica equivale ao de Candinho, uma vez que ele 
pensava mais na recompensa, para, de alguma forma, estabilizar a situação da 
família, mesmo que por tempo limitado, do que na mãe que desejava tanto quanto 
ele a vinda de um filho. O que pesava na atitude de tia Mônica era a possibilidade 
do abalo que o filho de Clara e Cândido faria à fraca estrutura familiar. 
 
 
81
 Machado costura o texto de uma forma a equivalerem-se os 
comportamentos de Cândido e Mônica – comportamento abominado pelo 
protaganista, mas tão vivenciado por ele mesmo. A situação seria praticamente a 
mesma, não fosse a escrava fugida a pessoa em que Cândido deveria se colocar 
no lugar. A cogitação sobre o destino incerto do filho de Cândido foi a certeza do 
filho de Arminda: “seria maior miséria, podendo suceder que o filho [de Cândido] 
achasse a morte sem recurso” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p.492). 
 Cândido Neves nem pensa no filho que a mulata carregava em seu 
ventre, pois só pensava no próprio filho, que havia deixado na farmácia para poder 
correr atrás da fugitiva. A mulher ainda tenta, em vão, suplicar pelo amor que seu 
algoz tivesse por um filho: “Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa 
Senhoria tem algum filho, peço-lhe pelo amor dele que me solte; eu serei sua 
escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor” (MACHADO 
DE ASSIS, 1998, p. 493). 
 Mas Cândido não precisava de uma escrava e sim da quantia pela 
recompensa do resgate; ele ainda insulta a escrava: “Você é que tem culpa. Quem 
lhe manda fazer filhos e fugir depois?” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 493). 
 Ele só não havia se dado conta de que o ato de entregar seu bebê à 
Roda era uma espécie de fuga também. Cândido fugia da responsabilidade, 
mesmo que inconscientemente e a contragosto. Se fosse um homem centrado, 
dado a aprender algum ofício e investir num emprego certo, não precisaria passar 
por situação tão extrema. 
 Cândido então entregou a escrava ao seu dono, na Rua da 
Alfândega, que lhe passou a recompensa: duas notas de cinqüenta mil-réis. 
 
 
82
Preocupado com o filho que o esperava, ele saiu às pressas em direção à 
farmácia, “sem querer conhecer as conseqüências do desastre” (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 494). 
 Chegando em casa com o filho, ele recebeu algumas palavras duras 
de tia Mônica; não pelo filho que trazia de volta, mas pela escrava: “[Tia Mônica] 
disse, é verdade, algumas palavras duras contra22 a escrava, por causa do aborto, 
além da fuga” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 494). 
 No pensamento da tia, era um erro uma escrava fugir e abortar, mas 
nesse momento ela não se lembrou de que havia sugerido o abandono do bebê 
dos sobrinhos. E Cândido, sem pensar na vida que havia impossibilitado de 
nascer, beija seu filho, agradecendo, ainda, à fuga que lhe tinha rendido a 
recompensa e o direito de ter o bebê consigo: “Cândido Neves, beijando o filho 
entre lágrimas verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava ao aborto” 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 494). 
 A violência sofrida pelos escravos foi notada e relatada na literatura 
feita por estrangeiros que passavam pelo Brasil. Com a abertura dos portos, a 
passagem pela cidade do Rio de Janeiro – espaço em que se passa “Pai contra 
mãe” e os outros contos nesta dissertação analisados – era necessária e, na 
chegada, os visitantes deparavam-se com cenas estranhas aos seus olhos. 
Segundo Eneida Maria Mercadante Sela, “é patente que a escravidão foi um tema 
que perpassou a grande maioria dos registros que compõem o heterogêneo da 
literatura de viagem sobre o Brasil oitocentista” (SELA, 2006, p. 194). 
 
22 Grifo meu. 
 
 
83
 Sela cita, dentre os que formam a literatura de viagem sobre o Brasil, 
nomes como Jean-Baptiste Debret, Auguste de Saint-Hilaire e Gilbert Mathison, 
em que se encontravam, 
 
 
condensadas, várias das tópicas mais comuns no conjunto dos 
relatos oitocentistas sobre a cidade: o susto com a multidão negra e 
seus emblemas – rostos feios, marcas corporais, seminudez, uma 
língua estranha e incômoda, canções incompreensíveis e, por fim, o 
acinte dos castigos físicos (SELA, 2006, p. 195). 
 
 
 Em trecho de Mathison citado por Sela, nota-se a importante 
observação do estrangeiro sobre a situação dos escravos que circulavam pela 
cidade, no que diz respeito aos castigos: “Quando um viajante pisa no Rio, sua 
atenção será naturalmente atraída pela aparência dos negros. (...) o ranger das 
correntes, e as coleiras de ferro usadas por criminosos ou fugitivos nas ruas” 
(MATHISON apud SELA, 2006, p. 194). 
 Sendo assim, é notória a validade e a precisão com que Machado 
relata a vida destes negros que viviam na cidade do Rio de Janeiro; negros como 
Arminda, por exemplo. 
Assim como em “Mariana”, “Pai contra mãe” retrata o desdém com 
que as pessoas livres em sua maioria tratavam os cativos ou o juízo de valor que 
faziam deles. Mesmo estando em situação semelhante à de Arminda – a luta pela 
sobrevivência de um filho –, Cândido não se comove e pouco se importa com o 
filho morto da fugitiva. 
 
 
84
 Além disso, a fragilidade pela qual a escravidão passava naquele 
momento é representada na figura de Arminda. De um lado, o pai que luta para 
não ter de abandonar o filho e deixá-lo na roda dos enjeitados; do outro, a mãe 
que tenta garantir seu direito à maternidade. Nesta disputa, somente um poderá 
sair vencedor: “nem todos os filhos vingam”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
85
3 O CASO DA VARA 
 
 
 Damião, um rapaz recém chegado a um seminário, foge de lá, “às 
onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. (...) ...antes de 1850” 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 378), procurando abrigo na casa de Sinhá Rita, 
uma viúva de “quarenta anos na certidão de batismo, e vinte e sete nos olhos. Era 
apessoada, viva, patusca, amiga de rir; mas, quando convinha, brava como diabo” 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 380). Alcides Villaça observa que o conto foi 
publicado em 1899 e que a situação é “datada, não arbitrariamente, de ‘antes de 
1850’” (VILLAÇA, 2006, p. 19). 
 Sem vocação para ser padre, Damião pede asilo e ajuda de Sinhá 
Rita – que inicialmente se nega – para não voltar ao seminário. Mas a viúva 
propõe-se a ajudar, conversa com o padrinho do rapaz, o Senhor João Carneiro, a 
fim de que vá ter com o pai do seminarista. 
 Sinhá Rita possui uma “escola” em sua casa, onde recebe meninas 
que aprendem a fazer renda de bilro, além de ensinar também as suas crias. 
Dentre estas crias, está Lucrécia, “uma negrinha magricela, um frangalho de nada, 
com uma cicatriz na testa e uma queimadura na mão esquerda. Contava onze 
anos. (...) tossia, mas para dentro, surdamente, a fim de não interromper a 
conversação” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 381). 
 A menina, ao final do conto, é castigada pela vara de Sinhá Rita pelo 
fato de ter rido durante uma conversação com as amigas da viúva, em que o rapaz 
conta anedotas, “uma destas, estúrdia, obrigada a trejeitos”, em que a negrinha 
 
 
86
“esquecera o trabalho, para mirar e escutar o moço” (MACHADO DE ASSIS, 1998, 
p. 381). 
 O rapaz resolve apadrinhá-la e protegê-la, mas, como estava sob o 
jugo da ama de Lucrécia, desiste de impedir o castigo contra a menina, uma vez 
que Sinhá Rita poderia mudar de idéia sobre sua volta para o seminário, por isso 
entrega a vara com que castigaria a negrinha. 
 A data em que se passa a narrativa não é definida, mas coincide com 
a data do conto “Pai contra mãe” – por volta de 1850: “Não sei bem o ano; foi 
antes de 1850” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 378). 
 
 
3.1 Servilismo e autoritarismo 
 
 
 De acordo com Sidney Chalhoub, “a ideologia dos senhores e as 
relações de dependência provocam situações de violência e humilhação” (2003, p. 
134). Este parece ser o caso do conto. “O caso da vara” descreve como eram 
tratadas as crias de Sinhá Rita, mais especificamente o caso de Lucrécia, a 
negrinha de cicatriz na testa e mão esquerda queimada, ameaçada pela vara e 
pelos castigos de sua ama. Assim como em “Pai contra mãe”, existe a temática do 
castigo para as crias desobedientes. Os castigos não são tão cruéis quanto a 
máscara de flandres, o ferro ao pescoço ou a gorilha – como descritas em Pai 
contra mãe. Sinhá Rita utiliza uma vara – “Lucrécia, olha a vara!” (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 381) – e há, ainda, indícios de que a menina tenha sofrido 
 
 
87
castigos mais violentos, uma vez que apresenta cicatriz no rosto e queimadura na 
mão. Pelo tom e ênfase que o narrador dá a este detalhe, as marcas parecem ser 
resultado de alguma desobediência. 
 Na casa, imperam a autoridade de Sinhá Rita e o medo de suas 
criadas. Para Joaquim Nabuco, “os costumes, pelo fato da transição necessária 
dasraças que coabitam em um mesmo lar, tornam-se uma mescla de selvageria e 
de educação, dominada pelo medo e pelo servilismo” (NABUCO, 1999, p. 05). A 
“selvageria” a que Nabuco se refere é o tratamento dado aos escravos, pois os 
castigos que recebem são da mais pura crueldade a que pode chegar um ser 
humano. O medo, em “O caso da vara”, paira no ambiente como uma sombra 
cinza e densa. A negrinha Lucrécia está sempre encolhida e seu comportamento é 
como o de um animal acuado, sempre amedrontado pelo castigo que está por vir. 
 Além de autoritária, Sinhá Ritá é uma mulher vaidosa, o que se 
confirma em duas passagens do texto. A primeira é quando sente-se lisonjeada 
por Damião ter lhe escolhido como sua protetora. Ela ainda tenta “chamá-lo a 
outros sentimentos”, afirmando que “a vida de padre era santa e bonita” 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 380), o que é em vão. Na segunda passagem, 
Sinhá Rita sente seus brios feridos, pois Damião diz que não adiantaria conversar 
com João Carneiro – ele duvidava que o padrinho lhe atendesse. Sinhá Rita 
esbraveja: “Não atende? interrompeu Sinhá Rita ferida em seus brios. Ora, eu lhe 
mostro se atende ou não”. E ordenou que um moleque fosse à casa de João 
avisar-lhe que ela precisava conversar com ele: “e se não estivesse em casa, 
perguntasse onde podia ser encontrado, e corresse a dizer-lhe que precisava 
muito de lhe falar imediatamente” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 380). A viúva, 
 
 
88
para alimentar seus brios, aceita a empreitada de ajudar o moço fugido: “Sinha 
Rita, que sempre pôde, passa a querer, animada não pela solidariedade e 
compaixão, mas pela vaidade e pelo capricho” (VILLAÇA, 2006, p. 25). 
 A relação de dependência é clara neste texto. Sinhá Rita é uma 
mulher influente nas redondezas onde mora e todos lhe têm muito respeito. João 
Carneiro foi chamado por um moleque a comparecer à casa da viúva, que lhe dá a 
ordem de conversar com o pai de Damião. O padrinho do rapaz é relutante em ter 
com seu compadre, pois, como afirma o narrador, ele “era um moleirão sem 
vontade, que por si só não faria coisa útil” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 378). 
Porém, Sinhá Rita foi taxativa, e, assustado, João fica sem saber como agir: 
 
 
(...) lhe cometiam uma luta ingente com os sentimentos mais íntimos 
do compadre, sem certeza do resultado; e se este fosse negativo, 
outra luta com Sinhá Rita, cuja última palavra era ameaçadora: 
“digo-lhe que ele não volta”. Tinha de haver por força um escândalo. 
João Carneiro estava com a pupila desvairada, a pálpebra trêmula, 
o peito ofegante. Os olhares que deitava a Sinhá Rita eram de 
súplica, mesclados de um tênue raio de censura (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 382). 
 
 
 
 A autoridade de Sinhá Rita e o temor de João Carneiro eram 
tamanhos que o homem pensa que “um decreto do papa dissolvendo a igreja, ou, 
pelo menos, extinguindo os seminários, faria acabar tudo em bem” (MACHADO 
DE ASSIS, 1998, p. 382); ou que a morte do afilhado “era uma solução, – cruel, é 
certo, mas definitiva” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 382). Sua autoridade, neste 
momento, estava acima do maior representante da igreja. Além da viúva, havia 
 
 
89
também a possibilidade de seu compadre irritar-se com a idéia de tirar o filho do 
seminário. Assim, Carneiro encontrava-se numa situação um tanto delicada. 
 Damião também é regido por certa dependência a Sinhá Rita; 
mesmo compadecido com a negrinha Lucrécia, ele se vê obrigado a entregar a 
vara a Sinhá Rita, porque estava nas mãos dela a ajuda para não voltar ao 
seminário. Além disso, o rapaz também sofria a repressão paterna; ao pedir ajuda 
à viúva, Damião recebe como resposta a recusa, embora a senhora volte atrás em 
sua decisão posteriormente: “Não, replicou ela abanando a cabeça; não me meto 
em negócios de sua família, que mal conheço; e então seu pai, que dizem que é 
zangado!” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 379). 
 A submissão do rapaz diante de ordens de Sinhá Rita aparece não 
só na ocasião em que deve entregar a vara, mas também quando a senhora pede 
que ele conte a anedota que fez rir a escrava Lucrécia para as cinco amigas que a 
visitavam todas as tardes, para o café da tarde. “Damião não teve remédio senão 
obedecer” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 383). Embora satisfeito com as 
risadas que arrancou das moças, “não esqueceu Lucrécia e olhou para ela, a ver 
se rira também. Viu-a com a cabeça metida na almofada para acabar com a 
tarefa” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 383). 
 Mesmo sabendo que Sinhá Rita havia mandado João Carneiro falar 
com seu pai, Damião temia uma resolução muito severa: “com certeza, o pai fê-lo 
[João Carneiro] calar, mandou chamar dois negros, foi à polícia pedir um pedestre, 
e aí vinha pegá-lo à força e levá-lo ao seminário” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 
384). O afilhado não confiava no padrinho para resolver o caso. A protetora do 
seminarista fugido assume para si aquela causa, pedindo-lhe “que sossegasse, 
 
 
90
que aquele negócio agora era dela” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 384). Havia 
se tornado uma questão de honra e, possuidora de um gênio forte, Sinhá Rita 
afirma: “Hão de ver para o quanto presto! Não, que eu não sou de brincadeiras!” 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 384). 
 Na descrição da entrada do moço fugido na casa de Sinhá Rita, já se 
pode observar o ambiente e se notar que a senhora era uma proprietária de 
escravos: 
 
 
Sinhá Rita olhava para ele espantada, e todas as crias, de casa, e 
de fora, estavam sentadas em volta da sala, diante das suas 
almofadas de renda, todas fizeram parar os bilros e as mãos. Sinhá 
Rita vivia de ensinar a fazer renda, crivo e bordado. (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 379). 
 
 
Lucrécia parece ser o que se chamava de “escravo de ganho”23, e 
Sinhá Rita, um exemplo de senhora que acaba tirando proveito dos filhos de seus 
escravos, ensinando-lhes algum “ofício” e disso fazer lucro. O próprio nome da 
escrava remete a “lucro”, como afirma Alcides Villaça: “Lucrécia (etimológica e 
ironicamente: a que lucra)” (VILLAÇA, 2006, p. 26). 
 Assim como em “Mariana” e “Pai contra mãe”, “O caso da vara” 
descreve o tratamento dado aos escravos e os castigos a que eram submetidos 
no caso de desobediência, o que aparece em três ocasiões distintas. Numa delas, 
quando a viúva chama um moleque para levar um recado a João Carneiro, o 
 
23 Ver página 60, do capítulo “Pai contra mãe”, nesta dissertação. 
 
 
91
narrador utiliza a expressão “bradou-lhe”, o que dá a impressão de que Sinhá Rita 
fala em tom de voz mais alto que o normal: “bradou-lhe que fosse à casa do Sr. 
João Carneiro chamá-lo já e já” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 380). 
 A segunda ocasião se dá no momento em que Lucrécia ri da anedota 
contada por Damião e esquece o trabalho. A negrinha ouve o grito de sua senhora 
e prepara-se para receber o açoite: “A pequena abaixou a cabeça, aparando o 
golpe, mas o golpe não veio. Era uma advertência; se à noitinha a tarefa não 
estivesse pronta, Lucrécia receberia o castigo de costume” (MACHADO DE 
ASSIS, 1998, p. 381). A expressão “castigo de costume” marca a freqüência com 
que Sinhá Rita castigava suas crias para manter a disciplina e a eficiência no 
trabalho. A escravinha acaba não terminando o trabalho junto com as demais crias 
e aí segue a última passagem, que demonstra uma senhora cruel, prepotente e 
autoritária: 
 
 
Sinhá Rita chegou-se a ela, viu que a tarefa não estava acabada, 
ficou furiosa, e agarrou-a por uma orelha. 
– Ah, malandra! 
– Nhanhã, nhanhã! pelo amor de Deus! por Nossa Senhora que 
está no céu. 
– Malandra! Nossa Senhora não protege vadias! 
Lucrécia fez um esforço, soltou-se das mãos da senhora, e fugiu 
para dentro; a senhora foi atrás e agarrou-a. 
– Anda cá! 
– Minha senhora, me perdoe! tossia a negrinha. 
– Não perdôo, não. Onde está a vara? 
E tornaram ambas à sala, uma presa pela orelha, debatendo-se, 
chorandoe pedindo; a outra dizendo que não, que havia de castigar 
(MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 385). 
 
 
 
 
92
 Sendo assim, “O caso da vara” mostra a relação entre um senhor e 
suas crias; mostra também que estas relações podem ir além, pois, neste conto, é 
clara a extensão do poder de um senhor de escravos influente. Sinhá Rita não 
comandava apenas as escravas que estavam sob seu jugo; as pessoas que 
estavam à sua volta e que dependiam dela de alguma forma também curvavam-se 
diante de sua vaidade e de seu autoritarismo. É o caso de Damião, que dependia 
dela para não voltar ao seminário, e de João Carneiro, que temia a senhora 
decerto pela influência que ela exercia. 
 
 
 
3.2. Alguns aspcetos do conto 
 
 
Para o escritor Julio Cortázar, no ensaio “Alguns aspectos do conto”, 
este gênero literário é 
 
 
um gênero de tão difícil definição, tão esquivo nos seus múltiplos e 
antagônicos aspectos, e, em última análise, tão secreto e voltado 
para si mesmo, caracol da linguagem, irmão misterioso da poesia 
em outra dimensão do tempo literário (CORTÁZAR, 1974, p. 149). 
 
 
 
 Cortázar compara o conto com a fotografia, afirmando que, assim 
como a fotografia, o conto recorta 
 
 
 
93
um fragmento da realidade, fixando-lhe limites, mas de tal modo que 
esse recorte atue como uma explosão que abra de par em par uma 
realidade muito mais ampla, como uma visão dinâmica que 
transcende espiritualmente o campo abrangido pela câmara 
(CORTÁZAR, 1974, p. 150). 
 
 
O conto possui um “limite físico”, distinto do romance, que pode se 
alongar por muitas páginas mais. Por isso o autor faz comparações entre conto e 
fotografia e entre romance e cinema: cada um fazendo representações dentro de 
seus limites e elementos combinados. Esta combinação de elementos é, no conto, 
a significação (assunto ou tema), a intensidade (somente o necessário a se narrar) 
e a tensão (clima de envolvimento). 
“O caso da vara” possui apenas oito páginas24; mas é um texto muito 
intenso, em que o narrador se limita a contar os fatos mais importantes e a 
angústia por que passam seus personagens – Damião, Lucrécia e João Carneiro. 
A angústia de Damião se dá pelo fato de estar fugido do seminário, dependendo 
de Sinhá Rita para que não retorne. O personagem se vê diante de uma situação 
sem solução: sente pena da escrava que leva uma surra, mas não pode fazer 
nada, pois está obrigado a entregar a vara a Sinhá Rita porque estava em suas 
mãos a ajuda para não voltar ao seminário – ele não poderia contrariá-la, já que 
correria o risco de perder o valioso auxílio. Lucrécia sofre com os castigos de sua 
senhora. E João Carneiro se vê pressionado pelo autoritarismo de Sinhá Rita para 
ir à casa do pai de Damião, além de temer a reação que o compadre teria. 
 
24 Segundo a edição utilizada neste trabalho. 
 
 
94
Um conto deve chamar a atenção desde suas primeiras páginas, 
dado o condensamento de seu limite físico. Para Cortázar, concordando com um 
escritor argentino amante do boxe, “nesse combate que se trava entre um texto 
apaixonante e o leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto que o conto 
deve ganhar por knock-out” (CORTÁZAR, 1974, p. 152). Além disso, a 
significação de um conto está na ocasião em que ele “quebra seus próprios limites 
com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai 
muito além da pequena e às vezes miserável história que conta” (CORTÁZAR, 
1974, p. 153). 
 “O caso da vara” já começa numa situação tensa, com a fuga de 
Damião do seminário. Os adjetivos utilizados para demonstrar o pavor do rapaz 
diante da possibilidade de ser padre são contundentes: vagando desnorteado 
pelas ruas do Rio de Janeiro, o rapaz encontrava-se “vexado”, “espantado”, 
“medroso”, “fugitivo”. O conto continua muito intenso, até o seu desfecho. Damião 
passa por momentos de angústia, como, por exemplo, quando seu padrinho é 
mandado por Sinhá Rita à casa de seu pai para avisar que ele não voltaria mais 
para o seminário. Lucrécia, a cria castigada, também passa por estes momentos 
durante a trama. É ameaçada e castigada com a varinha por sua senhora. 
Muitas vezes, não é o tema que imprime a um conto significação, 
mas o tratamento literário que lhe é dado, “a técnica empregada para desenvolvê-
lo” (CORTÁZAR, 1974, p. 153). Eis a diferença entre o bom e o mau contista: 
Machado, muitas vezes, aborda temas corriqueiros, mas se utiliza de linguagem e 
tratamento literário que fazem de seus contos verdadeiras obras de arte e 
representações de um cotidiano presente em determinado recorte temporal. O 
 
 
95
bom contista combina a vivência humana e a capacidade de escrever, o que é o 
caso de Machado de Assis. 
Cortázar então questiona as razões de um contista para a escolha 
do tema. Eis a resposta: 
 
 
Parece-me que o tema do qual sairá um bom conto é sempre 
excepcional, mas não quero dizer com isto que um tema deva ser 
extraordinário, fora do comum, misterioso ou insólito. Muito pelo 
contrário, pode tratar-se de uma história perfeitamente trivial e 
cotidiana. (...) um bom tema é como um sol, um astro em torno do 
qual gira um sistema planetário de que muitas vezes não se tinha 
consciência até que o contista, astrônomo das palavras, nos revela 
sua existência (CORTÁZAR, 1974, p. 154). 
 
 
Machado encontra-se nesses “mandamentos do bom contista”, visto 
que os temas de sua escolha prendem o leitor não pela importância do que é 
abordado, mas sim pela engenharia das palavras e da combinação dos elementos 
literários que utiliza. 
“O caso da vara” é um exemplo desses aspectos que Cortázar 
aborda em seu ensaio. Este conto possui um tema corriqueiro – o servilismo, uma 
escravinha castigada por sua senhora, um rapaz que recorre a uma senhora 
influente para resolver um problema e culmina com certa inversão de papéis dos 
personagens: Damião havia chegado desesperado em busca de auxílio e passou 
a se ver diante de uma escrava ameaçada por sua senhora e a vara, rogando por 
ajuda: 
 
 
 
96
A última cena repõe elementos dramáticos bastante familiares ao 
leitor do conto. Ele por certo se lembrará do estado em que Damião 
chegou à casa da viúva e das súplicas, ainda sem argumento, que 
lhe dirigiu. Agora, tanto o apelo de “me acuda, seu sinhô moço”, que 
Lucrécia lança ao aturdido rapaz, quanto ao de “nhanhã, nhanhã! 
pelo amor de Deus! por Nossa Senhora que está no céu!”, que a 
menina dirige à furiosa senhora, expressam a aflição da desvalida e 
ressoam algo da condição inicial do seminarista desesperado, que 
“falou com paixão”. A simetria entra aqui, porém, para acentuar as 
diferenças de condição entre o astuto rapazinho de família, que 
desperta para o engenho ativo das ações necessárias, e a 
subjugada menina escrava, que ou tosse ou ri “para dentro”, presa 
do domínio absoluto, ou grita por piedade, em inúteis clamores 
(VILLAÇA, 2006, p. 28). 
 
 
 
 Mas, diante da figura que estava com seu destino nas mãos, “por 
interesse ou por necessidade (como distinguir entre ambos?), Damião deixa de 
cumprir seu voto secreto de compromisso com Lucrécia – que tanto precisou de 
seu amparo. Fica evidente o abismo que há entre a intenção e o gesto, entre a 
formulação abstrata do intento virtuoso e sua transformação no ato que inclui o 
preço do sacrifício” (VILLAÇA, 2006, p. 29). Encontra-se, então, impotente e o que 
lhe resta é entregar a vara a Sinhá Rita. 
 Assim, o conto revela que, diante dessas diversas relações que 
Machado apresenta, envolvidas nesse sistema de servilismo e obediência, não 
são somente os escravos que sofrem as conseqüências do autoritarismo de seus 
senhores, mas também as pessoas que se encontram penalizadas diante de seu 
sofrimento, que acabam por não poder agir, estando também fazendo parte dessa 
“política de favores” tão comum durante o regime. 
 
 
 
 
97
CONSIDERAÇÕESFINAIS 
 
 
 A economia brasileira, durante o século XIX, foi sustentada pela força 
do trabalho escravo. Negros trazidos da África vieram para o Brasil com o objetivo 
de trabalhar em lavouras e, mais tarde, passaram a exercer diversas funções 
dentro das propriedades das famílias da elite brasileira. 
 Esse trabalho forçado resultou em grande violência sobre os negros. 
A relação que havia entre senhores e peças de sua propriedade era, na maioria 
das vezes, brutal; os negros sofriam com castigos desumanos e, além disso, 
surgiam ofícios que sustentavam esse tratamento – como é o caso dos feitores e 
caçadores de escravos fugidos –, já que a prática era oficializada pelo governo. 
 Os contos nesta dissertação analisados relatam como se davam 
essas relações, o tratamento dado ao escravo e como a sociedade percebia o 
sistema escravocrata. 
 Em “Mariana”, Machado de Assis relata o caso da escrava que se 
apaixona pelo seu dono, não podendo viver este sentimento. O escritor mostra 
como se dava a relação de dependência e como devia ser o comportamento de 
uma “peça” pertencente à propriedade de um senhor. O conto mostra, ainda, que, 
mesmo se sentindo culpado por uma desgraça que ocorre em sua propriedade – o 
suicídio da escrava, no caso –, a questão passa a ser secundária, pois o que 
importa mesmo é o bem-estar do sinhozinho branco diante do acontecido. Não há 
mais peso na consciência, conseqüentemente, não há com o que se preocupar, 
pois a morte de um escravo era algo absolutamente comum e normal. 
 
 
98
 “Pai contra mãe” trata da violência sofrida pelos negros. Castigos e 
modus operandi do caçador de escravos fujões são descritos com detalhes, além 
de o texto mostrar também o início da decadência do escravismo no Brasil. Existe 
um paralelo entre o personagem e o sistema, o primeiro representando o segundo. 
 O mesmo acontece com “O caso da vara”: os castigos e a maneira 
como “se deve” tratar um escravo desobediente ou pouco produtivo são 
presenciados por um rapaz que foge de um seminário, assim como a autoridade 
exercida sobre as crias de uma senhora prepotente e vaidosa. 
 Os contos aqui abordados remetem ao mesmo recorte temporal: a 
década de 1850, quando a mão-de-obra utilizada nas mais diversas atividades era 
escrava. Há de se notar a importância do tema abordado pelo escritor, visto que o 
Brasil já passava por pressões externas (a Inglaterra, por exemplo) e internas (os 
movimentos abolicionistas) para que se extinguisse a escravidão. O contexto em 
que Machado de Assis escreve estes três contos parece influenciar na escolha do 
tema e revela um autor não somente preocupado em escrever sobre a alma 
humana, mas também sobre o quadro social que influencia na formação – e 
desvio – do caráter das pessoas que viviam aquele momento. 
 Machado de Assis mostra, nestes três contos, as duas faces de uma 
mesma moeda: assim como havia sujeitos visando apenas ao seu sustento e 
utilizando a escravidão para isso – como é o caso de Cândido Neves – havia 
aqueles que penalizavam-se diante do descaso e da violência sofridos pelos 
cativos – como Damião. E, ainda, um terceiro caso: aqueles que possuíam 
escravos, sentiam dó e arrependimento em algumas ocasiões, mas que nada 
faziam a respeito disso. O que sentiam durava apenas algumas horas, mas logo 
 
 
99
passava quando havia distração que desviasse sua atenção do assunto. Para este 
caso, o exemplo maior é Coutinho. 
 Através da linguagem, ironia e sutileza com que o autor descreve certas 
cenas para as quais muitos na época fechavam os olhos, pôde-se traçar um 
panorama de como a sociedade sustentava certas relações e como, sob a ótica de 
Machado de Assis, a escravidão aconteceu no Brasil. 
 Assim, os contos de Machado enfocados neste estudo passam a ser 
uma espécie de documento histórico que descreve as situações do cotidiano da 
elite brasileira oitocentista e de suas crias. O contexto histórico vivido por 
Machado de Assis reflete na sua produção e o tema da escravidão e algumas de 
suas conseqüências é precisamente descrito. A intenção desta dissertação não é 
a de considerar Machado de Assis um escritor que tomou partido ou que 
panfletava contra a escravidão e a favor do abolicionismo, mas um autor que, em 
sua grandeza, retratou as marcas da sociedade durante esse regime. 
 Dentre as obras citadas neste estudo, Joaquim Nabuco é o autor 
mais explícito na defesa do escravo como ser humano. Nesse sentido, seria 
interessante apresentar mais uma vez, nestas considerações finais, a figura do 
abolicionista. Mesmo havendo um Joaquim Nabuco a enfocar com alma e 
sentimento o trato desumano dado à figura do escravo, não foi levada em conta, 
na elaboração do presente estudo, a possibilidade do lugar-comum em 
contraponto à escolha dos três contos de Machado. Utilizando as palavras de 
Alcides Villaça, “não haveria novidade, ao fim do século XIX, em apontar as 
barbáries do escravismo, contrastando-as com os privilégios dos proprietários, 
 
 
100
nem Machado aceitaria esse esquema, dócil às retóricas e presa fácil das 
ideologias de fachada” (VILLAÇA, 2006, p. 28). 
 Ambos, Nabuco e Machado, cada um a seu modo, souberam trazer a 
público a questão do negro no Brasil. Nabuco, inflamado, pura afetividade. 
Machado, irônico, retratista da alma humana face ao escravo e, sem ser 
panfletário, sensível – nas entrelinhas – à causa do escravo como ser humano. 
 Apesar de enfocados à exaustão em seus diversos aspectos literário 
e histórico, espera-se que a escolha destes três contos de Machado acrescente 
uma nova visão àqueles que se dedicam à apreciação da obra machadiana: o 
Bruxo do Cosme Velho soube denunciar nas entrelinhas de “Mariana”, “Pai contra 
mãe” e “O caso da vara” algo que a sociedade carrega até hoje como um fardo 
incômodo: as conseqüências da escravidão. 
 Assim, diante da pesquisa realizada acerca do tema e a leitura e 
análise dos contos, pôde-se perceber que Machado, ao contrário do que muitos 
críticos afirmaram, não foi um absenteísta do momento histórico em que viveu e, 
sim, um homem que tentava despertar sutilmente a consciência dos brasileiros 
para o que estava acontecendo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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