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FACULDADE MAURÍCIO DE NASSAU
CARLEIDE DAMASCENO RISAFFI
CENTRO HUMANITÁRIO DE AMPARO À MATERNIDADE –
CHAMA: OS DESAFIOS CONFRONTADOS PELO
ASSISTENTE SOCIAL NA GARANTIA DA EFETIVAÇÃO DO
PROJETO ÉTICO-POLÍTICO NO TERCEIRO SETOR E AS
POSSIBILIDADES DE SUA ATUAÇÃO.
FORTALEZA
2017
CARLEIDE DAMASCENO RISAFFI
CENTRO HUMANITÁRIO DE AMPARO À MATERNIDADE – CHAMA:
OS DESAFIOS CONFRONTADOS PELO ASSISTENTE SOCIAL NA
GARANTIA DA EFETIVAÇÃO DO PROJETO ÉTICO-POLÍTICO NO
TERCEIRO SETOR E AS POSSIBILIDADES DE SUA ATUAÇÃO.
Monografia apresentada no Curso de
Serviço Social, como requisito para a
obtenção de nota da disciplina de
Trabalho de Conclusão de Curso.
Professor: Roberta Diniz
FORTALEZA
2017
CARLEIDE DAMASCENO RISAFFI
CENTRO HUMANITÁRIO DE AMPARO À MATERNIDADE –
CHAMA: OS DESAFIOS CONFRONTADOS PELO
ASSISTENTE SOCIAL NA GARANTIA DA EFETIVAÇÃO DO
PROJETO ÉTICO-POLÍTICO NO TERCEIRO SETOR E AS
POSSIBILIDADES DE SUA ATUAÇÃO.
Monografia apresentada no Curso de
Serviço Social, como requisito para a
obtenção de nota da disciplina de
Trabalho de Conclusão de Curso.
Aprovada em ___, de _________ de ____.
BANCA EXAMINADORA:
__________________________________________________
Prof. (orientador).
Faculdade Maurício de Nassau
__________________________________________________
Prof.
Faculdade Maurício de Nassau
__________________________________________________
Prof.
Faculdade Maurício de Nassau
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus por um dia ter permitido que eu realizasse o
meu sonho de acessar o curso de Serviço Social.
Agradeço a minha mãe, Lucicleide, que esteve ao meu lado em todas as
batalhas vencidas e nas que não venci me ajudou a levantar.
Agradeço as minhas crianças de quatro patas, Yuki, Emily, Léo, Pretinha e
Francisco que, mesmo sem entenderem me dão muito amor e confortam meu
coração nos momentos de tristeza e me fazem provar de um dos amores mais puros
e verdadeiros.
Agradeço aos meus amigos Aline, Jefferson, Cíntia e Ysayna, por nos
apoiarmos uns nos outros durante o período da graduação e por criarmos um laço
de irmãos que cuidam uns dos outros e por não terem deixado que eu desistisse
quando pensei que não conseguiria.
Meu muito obrigada ao meu namorado João que esteve ao meu lado, me
dando força, amor e ensinamentos de como ser uma pessoa melhor.
Agradeço a dona Tania que me acolheu como filha e me deu teto e comida por
muito tempo.
Sou muito grata a esta banca por fazerem parte desse momento tão especial
em minha vida.
Agradeço a cada um dos (as) professores (as) que estiveram comigo desde o
primeiro semestre e que de forma cuidadosa me passaram seus conhecimentos e
me mostraram o caminho para ser uma boa profissional.
Agradeço em especial a Professora Roberta que por diversas vezes esteve ao
meu lado como amiga, me encorajando, me ajudando com suas palavras e nesses
dois últimos semestres como minha orientadora.
Agradeço a família CHAMA como um todo por tudo que vivenciei e aprendi, à
equipe técnica e a cada uma das internas que me permitiram fazer parte de suas
vidas.
RESUMO
O presente estudo tem por objetivo apresentar a atuação profissional do assistente
social no Centro Humanitário de Amparo à Maternidade – CHAMA, enquanto
organização do Terceiro Setor, retratando o posicionamento deste profissional como
trabalhador assalariado e gestor de políticas sociais. A pesquisa foi construída no
decorrer do período de estágio, utilizando métodos como a pesquisa bibliográfica,
pesquisa exploratória, pesquisa documental e observação participante. Como
resultados, ao final do período da pesquisa foi possível apresentar reflexões sobre
as críticas relativas aos impactos desses espaços para o assistente social, sua
formação profissional permanente e ao seu modo de enfrentamento dos desafios
colocados pelas expressões da questão social de forma a colaborar para a
percepção dos pontos desfavoráveis e positivos presentes nas organizações não-
governamentais.
Palavras chave: ASSISTENTE SOCIAL; ATUAÇÃO PROFISSIONAL; CHAMA;
TERCEIRO SETOR; POLÍTICAS SOCIAIS.
ABSTRACT
The present study aims to present the professional work of the social worker at the
Humanitarian Center for Maternity Support – CHAMA, as organization of the Third
Sector, portraying the position of this professional as a salaried employee and
manager of social policies. The research was built during the internship period, using
methods such as bibliographic research, exploratory research, documentary
research and participant observation. As a result, at the end of the research period it
was possible to present reflections on the criticisms related to the impacts of these
spaces on the social worker, their permanent professional training and their way of
coping with the challenges posed by the expressions of the social question in order
to collaborate for the perceptions of unfavorable and positive points in non-
governmental organizations.
Key words: SOCIAL WORKER; PROFESSIONAL PERFORMANCE; CHAMA;
THIRD SECTOR; SOCIAL POLITICS.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ABONG – Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais
Centro POP – Centro de Referência Especializado para População em
Situação de Rua
CRAS – Centros de Referência de Assistência Social
CREAS – Centros de Referência Especializado de Assistência Social
CHAMA – Centro Humanitário de Amparo à Maternidade
DSTs – Doenças Sexualmente Transmissíveis
ONG – Organização Não Governamental
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO..............................................................................................................8
1. O TERCEIRO SETOR NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS SOCIAIS E A
ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL......................................................................11
1.1 POLÍTICA SOCIAL E O TERCEIRO SETOR.......................................................11
1.2 O SERVIÇO SOCIAL E O TERCEIRO SETOR....................................................15
1.3 FAZER PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL NO TERCEIRO SETOR...20
2. TERCEIRO SETOR EM AÇÃO – CENTRO HUMANITÁRIO DE AMPARO À
MATERNIDADE..........................................................................................................25
2.1 PÚBLICO-ALVO, OBJETIVOS, VIABILIZAÇÃO DE DIREITOS E 
FORTALECIMENTO DE VÍNCULOS..........................................................................26
2.2 PROJETOS QUE NORTEIAM E BUSCAM EFETIVAR OS OBJETIVOS DA 
INSTITUIÇÃO..............................................................................................................29
3. DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NO
CHAMA.......................................................................................................................31
CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................43
REFERÊNCIAS...........................................................................................................46
8
INTRODUÇÃO
No decurso de sua história o sistema capitalista fez uso de constantes
transformações e manobras que visam a superação de suas crises e o seu
fortalecimento, desta forma, várias foram os direcionamentos tomados ao longo do
processo de desenvolvimento desse sistema e, atualmente o pensamento
hegemônico o qual vivenciamos é a ideologia neoliberal.
Com seu surgimento no neoliberalismo, o Terceiro Setor, de acordo com
Montaño (2010, p. 53), tem sua origem nos Estados Unidos, no ano de 1978 e no
Brasil chega por intermédio da Fundação Roberto Marinho e representa os
interesses de uma classe específica (a burguesia). Traz consigo características
como o voluntariado, como algo indispensável à vida em comunidade e a
perspectiva de cidadania, direcionando a oferta de serviços assistenciais de váriostipos à sociedade civil.
Em Terceiro setor e questão social (2010), Carlos Montaño faz uma crítica a
esse segmento e traz um recorte para o Brasil acerca do quantitativo de
Organizações Não Governamentais, o autor coloca que se estima hoje no país,
“cerca de 400 mil organizações não-governamentais (ONGs) registradas e cerca de
4 mil fundações […]”. Aproximadamente 60% dessas entidades estão associadas à
Abong (Associação Brasileira de ONGs) e surgiram a partir de 1985, trazendo à luz
um contexto historicamente novo no Brasil. O autor detalha que “[…] 15,4% dentre
elas são ‘novíssimas’, tendo sido criadas de 1990 a fevereiro de 1994. Apenas 21%
delas foram fundadas da década de 70” (Landim 1998, apud Montaño 2010, p. 205-
206).
E foi a oportunidade de estagiar em uma Organização Não Governamental e
vivenciar o cotidiano desse espaço que me propiciou a reflexão e a conexão entre a
teoria estudada na disciplina de Terceiro Setor e a efetividade do Serviço Social na
realidade, desconstruindo uma visão unilateralmente negativa e resistente no que se
refere a esses âmbitos ocupacionais e suas possibilidades de ação no atendimento
9
as refrações da questão social sem, entretanto, lançar mão da necessidade de
pensar nos efeitos desse contexto sobre a profissão e a desresponsabilização do
Estado, perante as necessidades sociais.
Desta forma, o objetivo geral proposto foi apresentar a atuação do assistente
social no Centro Humanitário de Amparo à Maternidade – CHAMA, que visa a
preservação da vida intra-uterina e viabilização de direitos a mulheres gestantes em
situação de vulnerabilidade. Portanto será retratado sobre a situação deste
profissional enquanto proletário inserido nas relações trabalhistas tensionadas pelo
sistema capitalista e como ocorre sua articulação com as políticas sociais, para o
atendimento de suas usuárias, para a compreensão das dificuldades encontradas
(logística, financeira, política, dentre outras) e as ações tomadas para superação
desses obstáculos, salientando a relevância da ocupação do Serviço Social no
Terceiro Setor.
Com isso, o relato de experiência que será apresentado neste trabalho foi
realizado seguindo métodos que visassem a qualidade na apreensão da realidade
vivida. Realizou-se o levantamento de dados através da pesquisa bibliográfica como
meio de adquirir conhecimento e revisar o que já foi produzido acerca de Terceiro
Setor, utilizando-se principalmente de Montaño (2010) e Guerra (2000), no tocante a
atuação do assistente social e a instrumentalidade. In locus, iniciou-se o processo de
pesquisa exploratória onde, as informações sobre o estatuto e perfil da instituição,
dos usuários, os registros realizados pelo Serviço Social e os instrumentais
utilizados foram conhecidos através de verificação documental.
Concomitantemente aos processos acima, transcorreram momentos de
observação participante que é a “tentativa de colocar o observador e o observado do
mesmo lado, tomando-se o observador um membro do grupo de modo a vivenciar o
que eles vivenciam e trabalhar dentro do sistema de referência deles” (Mann 1970,
apud Lakatos e Marconi 2003, p. 194); assistemática1 e natural pois a possibilidade
1Lakatos e Marconi (2003) apresentam como uma técnica de observação informal, livre e simples,
onde é possível recolher e registrar os fatos sem a necessidade de utilizar técnicas especiais. Não há
a necessidade de determinar previamente quais aspectos deverão ser relevantes para a observação.
10
de passar a pertencer ao grupo que compõem o CHAMA, proporcionou o contato
direto com a realidade, além da participação das atividades relacionadas ao Serviço
Social da instituição assim como das demais ações, da elaboração de relatórios,
preenchimento de instrumentais, conversas com os usuários e seus familiares.
Assim, de forma natural e dentro do cotidiano foram ocorrendo as
organizações das ideias e a captação das vivências relacionando as competências e
atribuições do assistente social. Chizzotti (2006, p. 19) fala que o processo,
denominado de pesquisa é a definição de um esforço constante de observações,
reflexões, análises e sínteses que visam a descoberta de forças e de possibilidades
da natureza e da vida e a transformação desta em favor da humanidade.
Para a sistematização e organização desta monografia, esse trabalho foi
estabelecido em seis capítulos onde, nesta introdução discorro um pouco sobre o
Terceiro Setor contextualizando sua historicidade e o objetivo da pesquisa. No
primeiro capítulo foi tratado sobre o Terceiro Setor no âmbito das Políticas Sociais
trazendo a visão de autores que desenvolvem uma crítica sobre os espaços que o
compõem e, a relação fazer profissional do Serviço Social e Terceiro Setor no
tocante a repercussão desse contexto para a profissão. 
No segundo capítulo discutiu-se acerca do Centro Humanitário de Amparo à
Maternidade, objetivos, público que atende e atividades desenvolvidas na instituição;
e o terceiro capítulo foi o momento de apresentar os obstáculos e as possibilidades
para o Serviço Social na instituição, fazendo uma relação sobre a capacidade de
mediação profissional e a efetividade de sua instrumentalidade.
No quarto capítulo temos as colocações resultantes do processo de vivência
no CHAMA, o qual possibilitou a articulação do que foi visto na teoria em relação a
prática profissional e a síntese da ideia geral proposta pela escolha da temática em
questão e, por fim as considerações finais sobre todo o processo da pesquisa.
11
1. O TERCEIRO SETOR NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS SOCIAIS E 
A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL
Em face da inserção do Terceiro Setor no Brasil, a reflexão acerca da atuação
do assistente social nas organizações não governamentais remete às alterações no
enfrentamento das consequências provenientes da relação capital/trabalho o que
resulta na diminuição da oferta de políticas públicas e direciona a mediação do
profissional do Serviço Social ao âmbito privado.
1.1 POLÍTICA SOCIAL E O TERCEIRO SETOR
O Estado tende a se posicionar, em face das demandas sociais,
apresentando diferentes aspectos sob a ótica da ideologia capitalista vigente a qual
objetiva sua própria manutenção e recuperação diante das crises cíclicas pelas
quais o sistema passa desde o início de sua constituição. A esfera governamental é
direcionada a atuar mais ou atuar menos, conforme as necessidades de ação da
classe hegemônica sendo instrumento de manobras que reafirmam o sistema
capitalista.
As ações de reorganização das relações de produção e sociais efetuadas
pelo capitalismo exprimem um rearranjo da produção e da economia, assim como
uma redefinição das políticas públicas e dos espaços sócio-ocupacionais, desta
forma o Estado se reapresenta exercendo-se de forma a manter a ordem social em
defesa da burguesia, tornando-se um espaço de tensões e conflitos, pois, ao passo
que foi histórica e originalmente instituído para representatividade da sociedade
como um todo e para administrar os recursos públicos, responde de forma mínima
às demandas apresentadas pela sociedade.
Para Alencar (2010, p. 2) as alterações sociais mundiais ocorrentes desde a
década de 1970 não se findam no contexto produtivo e tecnológico, contudo também
12
tratam sobre a regulação socioestatal com impactos relevantes nos sistemas de
proteção sociais brasileiro. Nesse atual pano de fundo social houve a retomada das
perspectivas liberal-conservadoras, entretanto, sob roupagem do neoliberalismo que
dissemina a autorregulação do mercado como solução para o reajuste entre oferta e
demanda de trabalho e a redução da atuação estatal no âmbito social e econômico.
A filosofia neoliberal conduz, vinculada a crise capitalista no decorrer dos
últimos anos do século XX, uma ofensiva que ecoafortemente nos movimentos de
reprodução social estabelecendo diferenciações na relação entre o trabalho, o
capital e o Estado. Este último, sendo chamado a intervir apenas diante o
pauperismo daqueles que não tenham condição alguma de suprir suas
necessidades.
O ajuste neoliberalista preconiza que para a superação da crise do sistema
capitalista é necessário a centralização do mercado como principal instrumento de
regulação das relações sociais e para que isso ocorra da forma devida o Estado
deve recolher sua função de intervenção na economia para que haja o livre estimulo
a competição individual e consequentemente a busca pelo bem-estar privado.
De acordo com Netto (1993 apud Alencar 2010, p. 3), a ofensiva neoliberal,
ao estabelecer o mercado como principal instância mediadora das relações sociais e
econômicas, manifesta que sem mercado livre não há liberdade pois esta está
hipotecada à condição de livre concorrência e da propriedade privada, não cabendo
nenhuma intervenção estatal na economia.
Desta forma, o Estado tem seu espaço limitado às necessidades do mercado
e as respostas às demandas da classe trabalhadora ficam submetidas a
movimentação dos interesses privados e individuais, cabendo a cada indivíduo a
busca pelo suprimento de suas necessidades.
Portanto, o processo atualmente em curso, deixa o capitalismo livre de
regulações que no período do Bem-Estar social buscava a garantia mínima de um
13
contrato social2, sendo substituído pela globalização da economia de mercado
totalmente liberalizada de regulamentação, libertando a movimentação do capital
(ALENCAR 2010, p. 4).
É nesse panorama de recolocação do papel do Estado que se percebe a
transferência de uma parte dos serviços sociais para a sociedade civil, onde esse
Estado é afastado de sua responsabilidade nas obrigações de responder as
expressões da questão social, ocasionando o retorno das práticas filantrópicas em
detrimento da garantia de políticas sociais efetivas que passado estas a serem
fragmentadas e pontuais. Além da privatização dos serviços nas áreas da saúde,
educação e previdência, deixando o acesso a essas políticas submetido a prática da
compra.
Desta forma, aos que não possuem as condições de prover seu bem-estar
individual, cabem as ações da sociedade civil fundadas no discurso da solidariedade
e da parceria, despolitizando as demandas sociais e retirando o Estado de sua
incumbência política.
Nesse bojo, entra em cena o Terceiro Setor ocupando seu lugar ao lado do
Estado e do Mercado, como um elemento na atuação do enfrentamento e executor
de respostas as expressões da questão social e na privatização das políticas
sociais.
Contudo, o Terceiro Setor traz debates contraditórios, pois expõe à luz o que
não é discutido em relação as suas finalidades não tão esclarecidas. Esse segmento
da sociedade civil carrega em seu contexto o caráter de voluntariado como ação
cívica e representa os interesses de classe.
De acordo com Montaño (2010, p. 54), o Terceiro Setor veio para dar
resolutividade a um problema de oposição entre o público e privado, sendo o público
2Contrato esse no qual o Estado desempenhava o papel de redistribuir os ganhos da produtividade,
garantia de políticas voltadas para o pleno emprego, consumo e massa, proteção do trabalho
assalariado.
14
o âmbito estatal e o privado o mercado, classificação essa de cunho liberal. O autor
coloca que “Se o Estado está em crise e o mercado tem uma lógica lucrativa, nem
um nem outro poderiam dar resposta às demandas sociais.” Portanto o Terceiro
Setor viria como a articulação entre ambos os setores. Tem seu caráter de espaço
público, entretanto pertencente ao privado. Diante o cenário neoliberal o Terceiro
Setor vem como estratégia para minimização da ação estatal no tocante a oferta de
políticas sociais.
A ideologia carrega o discurso da ineficiência, da burocratização e da
incapacidade financeira do Estado para o atendimento das demandas sociais. Busca
direcionar a responsabilização das problemáticas sociais para o âmbito da própria
sociedade civil, articulando o pensamento de coletividade para a ajuda:
Nesse sentido, o objetivo de retirar o Estado (e o capital) da
responsabilidade de intervenção na “questão social” e de transferi-lo para a
esfera do “terceiro setor” não ocorre por motivos de eficiência (como se as
ONGs fossem naturalmente mais eficientes que o Estado), nem apenas por
razões financeiras: reduzir os custos necessários para sustentar esta função
estatal. O motivo é fundamentalmente político-ideológico: retirar e esvaziar a
dimensão de direito universal do cidadão quanto a políticas sociais (estatais)
de qualidade; crias uma cultura de autoculpa pelas mazelas que afetam a
população, e de auto-ajuda e ajuda mútua para seu enfrentamento; […].
(MONTAÑO, 2010, p.23)
Essa responsabilização da sociedade civil poderá – diante a incapacidade
estatal – possibilitar o acesso à cidadania e a educação, através da ação de caráter
filantrópico e voluntário. Em face deste movimento, busca-se na realidade, a
diminuição da intervenção estatal para que possa dar espaço às relações
predominantes do mercado, colocar a sociedade civil no bojo social articulando as
parcerias entre o público e o privado.
Montaño (2010, p. 53) fala que: “Assim, o termo é construído a partir de um
recorte do social em esferas: o Estado (‘primeiro setor’), o mercado (‘segundo setor’)
e a ‘sociedade civil’ (‘terceiro setor’).” O autor continua: “Recorte este […],
claramente neopositivista, estruturalista, funcionalista ou liberal, que isola e
autonomiza a dinâmica de cada um deles […]”. Para Montaño esse movimento faz
15
com que não seja considerada a construção histórica da realidade social,
classificando o contexto político como pertencente à esfera estatal, o econômico
inserido no âmbito do mercado e o social devesse estar sob a responsabilidade da
sociedade civil. Tais processos caracterizam a transformação do capital e a reforma
do Estado.
Entretanto, essa “divisão” das “obrigações” é utópica, visto que a sociedade
civil, o Estado e o mercado compõem uma mesma sociedade e que, embora tenham
representações distintas, se relacionam entre si através da produção e reprodução
das relações sociais oriundas do sistema capitalista. (MONTAÑO 2010, p. 53)
Conforme Alencar (2010, p. 9) conclui que o crescente destaque do Terceiro
Setor tem resultado na despolitização da questão social, direcionando seu
confrontamento ao contexto privado, deslocando-se, portanto, os direitos sociais ao
caráter de direito moral, dependente da caridade.
Desta forma, além do movimento de retirada do Estado do cenário da função
de provedor e mantenedor das políticas sociais, como forma de efetivação dos
direitos historicamente conquistados, há a necessidade de destacar que as políticas
sociais acessadas nesses espaços, não atendem de forma abrangente e universal,
fragmentando a intervenção nas refrações da questão social.
1.2 O SERVIÇO SOCIAL E O TERCEIRO SETOR
Conforme já explicitado anteriormente, as orientações da esfera estatal nas
últimas décadas passam por transformações, alterando-se da perspectiva de bem-
estar social para a inclinação neoliberal. Desta maneira as políticas sociais que se
caracterizam como formas de mediação do Estado para com a sociedade, diante
das transformações no âmbito social, econômico, político e, por conseguinte das
relações sociais, também são afetadas. Montaño (2010, p. 244) coloca que “[…]
consequentemente, as políticas sociais, no atual contexto neoliberal, ‘global’ e
produtivo, são substantivamente alteradas em suas orientações e em sua
16
funcionalidade.” (grifo do autor).
Portanto, se as políticas sociais fazem parte da estruturaprofissional do
assistente social como agente executor, elaborador e gestor das mesmas, que estão
sob alterações devido ao atual contexto socioeconômico e político, é certo que a
profissão também sofra transformações impactantes em seu espaço de atuação e
sua forma de intervir na questão social.
Montaño (2010, p. 244-245) retrata que é mister compreender a diferença
entre entender as políticas sociais como “base de sustentação funcional-
ocupacional” do assistente social e como “instrumentos” do fazer profissional. O
autor explica que a política social é o instrumento de intervenção do Estado e que
desta forma cria o espaço de exercício profissional, dá legitimidade e funcionalidade
à profissão. Ele fala que “O assistente social é que é o agente de implementação da
política social (instrumentalizado por esta), e não o contrário, a política social o
instrumento de intervenção profissional”.
No que se refere a interpretação da política social como “instrumento de
intervenção” do assistente social, esta gera compreensão enganosa da relação entre
Serviço Social e Estado e, por consequência, um viés distorcido da avaliação da
profissão, assim o autor mencionado relaciona que nesta ocasião o Serviço Social
faria uso da política social como instrumento de mediação profissional. (MONTAÑO
2010, p. 245)
Desta forma, em face do movimento de esquiva da responsabilidade do
Estado nas formas de dar respostas as expressões da questão social, precarizando
as políticas sociais, reforçando a ideia de refilantropização e atuando de forma
reduzida, há uma repercussão efetiva sobre a profissão, independente de, a partir de
qual das interpretações anteriores for tomada para reflexão.
Acerca da reflexão sobre a primeira interpretação que coloca a política social
como base que dá suporte ao Serviço Social e seu profissional como ferramenta que
17
executa a política social, todo o retrocesso e alterações nos rebatimentos à questão
social, lesam efetivamente a profissão diante do pressuposto que o assistente social
depende da política.
Montaño compara que:
[…] como o trabalhador moderno depende da máquina – se esta constitui a
“base da sustentação” que dota de funcionalidade e legitimidade e que cria
o espaço laborativo para a inserção profissional, e se as políticas sociais
[…] estão sendo recortadas, precarizadas, focalizadas etc., nessa
interpretação da relação Serviço Social/política social, as mudanças nas
funções e responsabilidades sociais do Estado, […] rebatem direta e
radicalmente na coluna vertebral da profissão […]. (MONTAÑO 2010, p.
245-246)
Essas consequências seriam as mudanças no tipo e na quantidade de
demanda direcionada ao Serviço Social, no modo de intervenção do profissional, na
sua redução de possibilidades de emprego, nas condições de trabalho e de modo
geral, na desfiguração profissional, que veremos melhor mais à frente.
Em relação a compreensão da política social como dispositivo da ação
profissional, as formulações neoliberais estatais, em especial nas políticas sociais,
são recebidas como impasses no âmbito profissional e suas aplicações.
Neste contexto é possível apreender acerca de duas vertentes. A primeira
que estabelece que as alterações no espaço estatal, alicerçadas no projeto
neoliberal resultam em uma “crise de materialidade” do Serviço Social. (Serra 1993 e
2000, apud Montaño 2010, p.246). Esse processo ocasionaria um crescimento
excessivo no que tange as funções sócioeducativas do Serviço Social.
Deste modo há uma necessidade de direcionamento de atenção para com a
metamorfose de finalidades do assistente social devido a possibilidade de ocorrer a
transferência da competência da prestação de serviços para a ação político-
educativa. Entretanto, as duas funções – educativas e de prestação de serviços – na
realidade profissional são indivisíveis, sendo equivocado pensar a atuação
profissional do assistente social sem a articulação da base material (prestação de
18
serviços) com a sua função educativa.
Ora, em seu cotidiano é necessariamente presente a ação profissional
viabilizadora de direitos e de orientação aos seus usuários, o que reflete o caráter
educador do assistente social, porém com cuidados para que não ultrapasse para
uma ação que imponha ajustamentos e orientação de condutas.
Montaño (2010, p. 246) explica que a crise das políticas e serviços sociais de
cunho estatais não resulta em uma “hipertrofia da função sócioeducativa”, mas sim
em um declínio da autenticidade da profissão. Desta forma a instabilidade em
qualquer uma das funções, impacta obrigatoriamente na outra.
A respeito da segunda vertente que compreende que a política social é
instrumento de intervenção do assistente social, esta argumenta que o surgimento
de um terceiro setor da expediente acerca das novas mazelas da questão social e,
se coloca como resposta a negação de responsabilização do Estado sobre as
políticas sociais. Como consequência, diante da utilização da política social como
simples instrumento de intervenção profissional, a sua precarização (da política)
sucede somente na transferência do espaço de intervenção do Estado para o
Terceiro Setor.
Pelo que se pode observar então, é que nesse contexto a política social não é
priorizada como alicerce de apoio funcional-ocupacional do Serviço Social, senão
como instrumento do mesmo, o que impede uma visão clara e real da significação
das alterações impostas pelo receituário neoliberal na reestruturação do Estado, nas
políticas sociais e no tipo de tratativa dada à questão social.
Portanto, para o Serviço Social é relevante o cuidado para que não ocorra a
transformação da ação de seu profissional no âmbito da caridade e filantropia, visto
que essa perspectiva está imersa na ocasião do deslocamento do espaço sócio-
ocupacional do assistente social da esfera estatal para o Terceiro Setor, visto que
em face das ações neoliberais, está ocorrendo uma redução dos espaços nos
órgãos públicos estaduais e federais, dando ampla margem para as práticas
19
filantrópicas de caráter voluntário exercidas nas organizações sem fins lucrativos.
Ademais de todas as consequências aqui expostas, decorrentes das
alterações no trato a questão social, é necessário salientar que o aumento da
presença de assistentes sociais no Terceiro Setor, não resulta em afirmação de que
este equipamento neoliberal dá presteza ao desemprego crescente advindo da
precarização e redução dos espaços de trabalho inseridos no Estado.
Além dessa questão, de acordo com Montaño (2010, p. 249), aos
profissionais que estão inseridos no Terceiro Setor, não compensa em relação as
formas dos vínculos empregatícios que ocorrem de forma instável, flexível e
dependente de financiamento de projetos momentâneos.
Netto detalha que acerca do tipo de demanda direcionada ao assistente social
no que cerne ao Terceiro Setor, também não compensa pois:
[…] se, na maioria das instituições estatais, o que essencialmente rebate do
capitalismo tardio em busca da ‘flexibilização’ é a restrição de coberturas,
nas da ‘iniciativa privada’, o que se altera mais rapidamente são as
atribuições e papéis profissionais, […] assim, numa perspectiva conciliadora
do fazer profissional, “mediar as relações da empresa com os segmentos
populacionais afetados imediatamente por sua ação” e/ou, numa
perspectiva doutrinadora, “contribuir na gerência de novas ‘parcerias’ entre
capital e trabalho […], na administração de ‘benefícios sociais’ e,
crescentemente, na condução de ‘novos métodos de organização do
trabalho […]. (grifo do autor) (NETTO 1996, p. 122-123 apud MONTAÑO
2010, p. 249)
Das mudanças na institucionalidade e na prática profissional,em particular, a
descentralização administrativa operacionalizada por intermédio da municipalização
no gerenciamento das tratativas as expressões da questão social, resulta nas
insatisfatórias condições de emprego para o assistente social. Em relação ao
processo de privatização e transferência das políticas sociais para o Terceiro Setor,
também apresenta precarizações da contratação e do exercício do profissional.
Ambos os procedimentos – descentralização administrativa e a privatização e
transferência – são estratégias da ideologia neoliberal para a redução da
20
intervenção social do Estado nas respostas as necessidades sociais de classe
trabalhadora, especificamente.
Tais estratégias são facilmente comprovadas pela redução da contratação de
assistentes sociais no âmbito estadual e federal através de concursos, sendo
substituídas pelo vínculo empregatício a nível municipal, que tem características de
emprego inconstante e fragilizado. A terceirização desses profissionais também é
algo crescente e preocupante, visto que tal método fornece perda de direitos
trabalhistas e instabilidade. E paralelamente ocorre o movimento do direcionamento
de assistentes sociais para o Terceiro Setor, conforme explanado anteriormente
neste subtítulo, entretanto não sendo uma alternativa de resolutividade efetiva no
tocante a redução de espaços sócio-ocupacionais para os profissionais do Serviço
Social.
Quanto a isso Montaño (2010, p. 255) coloca que resumidamente no que se
refere ao contexto da inserção do assistente social no Terceiro Setor não aparece
como algo positivo para este profissional tanto acerca da estabilidade e nas
condições de trabalho, quanto no tocante a como passa a ocorrer sua intervenção
profissional, não sendo uma vantagem como alternativa de emprego que supriria o
encolhimento dos espaços de âmbito federal e estadual.
Entretanto o desafio a ser enfrentado é o da capacidade de superar as
ofensivas propelidas pelo projeto neoliberal, indo de encontro a crescente
desvalorização profissional em todos os espaços de ocupação do assistente social
aqui especificamente o Terceiro Setor, porém sem deixar de ocupá-los pois, é em
campo, no cotidiano de atendimento aos usuários que se pode efetuar o rebatimento
as limitações impostas à efetividade da garantia de direitos defendida pelo Projeto
Ético Político da profissão. Portanto, assim como nos dos órgãos públicos, o os
espaços inseridos no âmbito do Terceiro Setor também são arenas de lutas e de
posicionamento profissional.
21
1.3 FAZER PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL NO TERCEIRO SETOR
No tocante ao mercado de trabalho para os assistentes sociais na atual
conjuntura, o Terceiro Setor traz alterações na divisão social e técnica do trabalho,
solicitando novas exigências, sobretudo para o Serviço Social, tornando-se um
espaço de atuação para estes profissionais em alternativa a sua principal área de
trabalho, a esfera estatal, porém não dando resolutividade a redução de campos de
atuação, conforme citado anteriormente.
Alencar coloca que:
[…] com a tendência de redução do Estado, tem-se a diminuição do espaço
profissional do assistente social, mediante os processos de diminuição das
despesas estatais na órbita da esfera social, acarretando a racionalização
dos gastos sociais com as políticas sociais, com implicações nos postos de
trabalho para o assistente social na esfera pública, com a diminuição de
demandas, sucateamento do aparato organizacional e institucional, a
precarização das condições de trabalho principalmente em face do perigo
da terceirização. (ALENCAR 2010, p. 12)
Esses processos são facilmente identificados mediante a redução de
concursos públicos, ou quando ocorrem, refletem a desvalorização dos profissionais,
não somente do Serviço Social, oferecendo salários que vão de encontro a luta da
categoria por um piso salarial mais justo.
A mesma autora mencionada acima, fala que o Terceiro Setor: 
[…] delineou novos contornos para o mercado de trabalho do assistente
social, com novas atribuições, funções, bem como requisitos habilidades,
sob novas condições e relações de trabalho com incidências sobre a
autonomia profissional. (ALENCAR 2010, p. 1).
O atendimento das demandas pertinentes à questão social nesses espaços
modifica a orientação e funções das políticas sociais e, como resultado, altera as
demandas apresentadas ao Serviço Social, sua forma de intervenção e seu vínculo
empregatício.
22
Acerca do assistente social como indivíduo integrante da classe trabalhadora
e mesmo como possibilidade de um novo espaço de atuação para ele, sob a
administração do Terceiro Setor, esse profissional sofre com a hegemonia do
receituário neoliberal pois, se insere nas condições de flexibilização do trabalho:
[…] a inserção dos assistentes sociais nestes espaços sócio-ocupacionais
tende a ser caracterizada pela precariedade das inserções empregatícias,
predominando a flexibilização das relações contratuais, marcada pela
rotatividade de emprego, multiplicidade dos vínculos de trabalho e níveis
salariais reduzidos, jornada de trabalho de tempo parcial.’ (SERRA 2000,
apud ALENCAR 2010, p. 12)
No que se refere as articulações de atendimento do Terceiro Setor, este
apresenta uma metamorfose do modo de enfrentamento das mazelas da questão
social, presentes na redefinição da função do Estado em relação as respostas dadas
as necessidades da sociedade, conforme mencionado no capítulo primeiro desta
pesquisa. A atuação do assistente social nesse âmbito, se caracteriza por ações de
solidariedade e seletividade, o que faz emergir a possibilidade da ausência de um
atendimento social mais amplo pois, os objetivos colocados à frente são de cunho
privado visto que apenas segmentos específicos da sociedade são atendidos.
Para o assistente social enquanto profissional historicamente construído e
reatualizado, que projetam seu exercício para o atendimento das necessidades da
classe trabalhadora, diante das exigências do Terceiro Setor, ocorre a possibilidade
de desprofissionalização do mesmo já que as proposições colocadas vão de
encontro ao objetivo de parte da categoria pela busca “[…] de imprimir nortes ao seu
trabalho, afirmando-se como sujeito profissional.” (IAMAMOTO 2010, p. 8).
Quanto a efetivação das ações, nesses espaços é colocado ao assistente
social a exigência de capacidades para atuar na gestão de programas sociais pois
se faz mister que esse profissional busque atualizações constantes em relação à:
meios para captação de recursos, às legislações sociais, à análise de conjuntura, ao
conhecimento sobre administração, sobre planejamento, à articulação com a rede
socioassistencial, dentre outros. 
23
Ainda segundo Iamamoto: 
É esse solo histórico movente que atribui novos contornos ao mercado
profissional […], diversificando os espaços ocupacionais e fazendo emergir
inéditas requisições e demandas a esse profissional, novas habilidades,
competências e atribuições. (IAMAMOTO 2010, p. 3)
Ao assistente social do Terceiro Setor é ofertada a possibilidade de
participação nas representações relevantes da sociedade civil no âmbito das
políticas sociais, com o objetivo de firmar parcerias com os mecanismos públicos
buscando uma participação mais ativa desses órgãos no atendimento das
demandas dos usuários acolhidos, além da possibilidade da captação de recursos
via convênios. 
Raichelis também fala sobre a representação do assistente social nos
espaços de debate da sociedade civil. A autora coloca que:
Neste contexto, ganha destaque a participação dos assistentes sociais que,
como é sabido, tem sido uma das categorias com maior presença nos
Conselhos em suas diferentes áreas. A contribuição dos assistentessociais
é irrecusável. Mas, impõe-se à profissão e aos profissionais a colaboração
cada vez mais qualificada, tanto do ponto de vista teórico-metodológico
como sobretudo ético-político, para atuar nos Conselhos e Fóruns, em seus
vários níveis notadamente no plano municipal, onde a força das elites locais
se faz mais presente. (RAICHELIS 2009, p. 85)
Neste bojo é relevante a atuação do profissional no sentido de impulsionar
uma movimentação em defesa das políticas e dos direitos, apresentando novas
estratégias de enfrentamento das demandas sociais, desempenhando papel de
formulação e gestão das políticas e programas. (RAICHELIS 2009, p. 85)
Iamamoto em “Os espaços sócio-ocupacionais do assistente social” (2010 p.
6), traz um breve retrato geral dessas participações, relatando que cerca de 30,44%
de assistentes sociais estão presentes nos Conselhos de Direitos ou de Políticas
Sociais, nos movimentos de base, acompanhando e participando da gestão,
apreciação e implementação das políticas, dos recursos e de seus planejamentos.
As maiores frequências nos conselhos e políticas são: 35,45% na assistência,
criança e adolescente com 25,12%, no âmbito da saúde ocorre uma representação
24
de 16,67%, do idoso teremos 7,08%, direitos humanos com 6,57%, relativas à
mulher temos o número de 4,23% e deficientes com 1,41%.
Porém, mesmo diante de toda reflexão crítica necessária realizada acerca do
contexto da inserção do assistente social no Terceiro Setor e, tomando como
exemplo o Centro Humanitário de Amparo à Maternidade, é possível apreender na
realidade do assistente social uma intervenção que exige dinamismo e criatividade.
No cotidiano vivenciado no CHAMA, a atuação profissional ocorre de maneira
dinâmica, visto que a realidade das demandas apresentadas pelos usuários estão
em constantes modificações e são apreendidas em seu contexto geral mediante a
dimensão investigativa necessária a atuação profissional.
Quanto a essa apreensão Guerra explica que:
Ao ser apreendida como processo de totalização e interpretada numa
perspectiva de totalidade, a realidade é concebida de maneira mais
abrangente: como totalidade em permanente processo de totalização. As
partes que a compõem devem ser analisadas também como totalidades em
processo, de modo que elas não possam ser explicadas por si mesmas,
mas em relação, através de seus nexos com outras partes. (GUERRA 2010,
p. 9)
Portanto, os sujeitos ali presentes estão imersos em suas cargas históricas,
suas subjetividades, suas relações e etc., o que faz com que suas necessidades
estejam carregadas de novos e velhos elementos, exigindo uma atuação perspicaz e
hábil, acompanhando os usuários em seu dia a dia e por diversas aproximações.
Desse modo, visto que o principal objeto de intervenção do Serviço Social é a
questão social, se faz necessário que os assistentes sociais se apropriem desses
espaços e os utilizem como meio para a efetivação das proposições do projeto ético-
político da profissão e como âmbito de defesa dos direitos até então conquistados.
25
2. TERCEIRO SETOR EM AÇÃO – CENTRO HUMANITÁRIO DE 
AMPARO À MATERNIDADE
As organizações não-governamentais são uma das principais representações
das ações do Terceiro Setor e visam o atendimento aos de indivíduos em situação
de vulnerabilidade atuando como um equipamento da política de assistência social.
Esses locais se mantêm tanto por doações realizadas por pessoas físicas e/ou
empresas, como por intermédio de parceria público-privado, por intermédio de
convênios estabelecidos com os órgãos da administração pública, porém, existem
instituições que não estão sob nenhuma parceria com o Estado e que, mesmo
surgindo de iniciativas de empresas privadas, dependem também da ação
filantrópica da sociedade civil.
O CHAMA é uma organização não governamental com perfil direcionado para
casa de acolhimento, sem fins lucrativos, localizado no município de Eusébio –
Ceará, fundado no final de 2011, porém efetivamente executando suas atividades
desde março de 2015 com capacidade para acolher quatorze mulheres,
simultaneamente. Está vinculado a um grupo empresarial que disponibiliza o espaço
físico, assim como provê parte dos gastos com alimentação, custeio do fornecimento
de energia elétrica, abastecimento de água e manutenção física do equipamento.
A instituição busca suprir o restante de suas necessidades através da
parceria com pessoas e outras empresas possam vir a colaborar com auxílios de
material de limpeza, material de higiene pessoal para as gestantes, puérperas3 e
bebês, alimentação, medicação, vestuário, móveis entre outros.
Atualmente o CHAMA é composto por uma equipe multiprofissional, sendo
esta integrada por assistente social, psicóloga, estagiárias, monitores, parteira,
orientador, professora de artesanato e cozinheira. Das atribuições de cada membro
teremos que, a assistente social exerce também a função de coordenadora, a
3 O mesmo que parturiente; aquela que deu a luz recentemente. Disponível em:
<https://www.priberam.pt/dlpo/pu%C3%A9rperas>. Acesso em 06 de novembro de 2017.
26
psicóloga realiza atendimentos individuais e atividades em grupo que visam
trabalhar sentimentos ligados à gestação, convivência e conflitos, as estagiárias
tanto do Serviço Social quanto da Psicologia dão suporte a execução da maioria das
atividades. 
Os monitores fazem o trabalho de supervisão noturna. A parteira efetua
orientações sobre a gestação, parto, pós-parto, amamentação, sexualidade, dentre
outras. O orientador realiza rodas de conversa acerca da dependência química e
espiritualidade. Nas aulas de artesanato a professora oferta ensinamentos sobre
como confeccionar artigos com retalhos de pano, papelão, linhas dentro outros
materiais recicláveis e por fim, a cozinheira cuida das refeições diárias assim como
da manutenção e higienização da cozinha e dispensa.
Além das atividades executadas pela equipe fixa, periodicamente o CHAMA
recebe grupos de voluntários que se propõem a realizar ações que propiciem
compartilhamento de orientações sobre amamentação, doenças sexualmente
transmissíveis, espiritualidade, saúde e beleza. Algumas dessas atividades estão
ligadas a projetos que visam à aplicação dos objetivos propostos pela casa de
acolhimento.
2.1 PÚBLICO-ALVO, OBJETIVOS, VIABILIZAÇÃO DE DIREITOS E 
FORTALECIMENTO DE VÍNCULOS
O objetivo central do CHAMA é a garantia da preservação das vidas de mães
e de seus filhos, que estão sob algum tipo ameaçada. O público-alvo da instituição
são gestantes que estejam em situação de vulnerabilidade social e violação de
direitos como: dependência química, exploração sexual, situação de rua,
toxicodependência, rejeição familiar, violência sexual, violência doméstica, violência
psicológica, extrema pobreza, entre outras.
As regras do projeto não determinam período gestacional e nem localização
para que haja o acolhimento da mulher, permanecendo sob os cuidados da
27
organização até sessenta dias após o parto. Entretanto esse prazo se torna flexível
diante a efetivação ou não dos planos propostos pela equipe multiprofissional e pela
gestante para o alcance de seus objetivos após o desligamento.
As usuárias podem ser encaminhadas ao CHAMA tanto por outras
organizações não governamentais, por órgãos públicos como os Conselhos
Tutelares Municipais, Hospitais (Hospital Geral de Fortaleza, Gonzaguinha de
Messejana, entre outros), Centro de Referência Especializado para População em
Situação de Rua – Centro POP, Centros de Referência de Assistência Social –
CRAS, Centros de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS, que
identificam a necessidade de acolhimento daquela gestante, como podemtambém
vir por demanda espontânea. Entretanto, em sua maioria são direcionadas pelos
equipamentos do município de Fortaleza.
Ao chegar à instituição, em um primeiro momento é realizada a recepção da
gestante onde, um integrante do Serviço Social ou da Psicologia faz apresentação
do CHAMA e seus objetivos, como também são explicados os compromissos que
serão assumidos pela mesma como: regras de convívio, a responsabilidade pela
limpeza e organização do espaço, a participação nas atividades propostas, o
cumprimento dos horários da rotina diária, a não permissão de acesso a celulares
(exceto sob autorização), os dias e horários para o recebimento de visitas e ligações
telefônicas.
A decisão de permanecer ou não é da própria gestante, por isso, o ingresso
da mesma só é realizado caso ela esteja de acordo com as determinações
colocadas. No ato da admissão da usuária, através de instrumental próprio do
Serviço Social, são feitas algumas perguntas para que seja possível obter um perfil
geral da situação da gestante. O instrumento utilizado possibilita agrupar
informações que perpassam desde a situação da documentação básica,
recebimento ou não de benefícios, quadro familiar, quantidade de gestações,
situação de moradia, origem da gestação atual e, se foi realizado algum
acompanhamento, informações sobre internações anteriores, até os planos que a
28
gestante tem para quando seu período de acolhimento chegar ao fim.
Essa sondagem de informações permite que a equipe multiprofissional faça o
plano de acompanhamento e intervenção diante a situação apresentada por
gestante, visto que algumas demandas exigem trabalho de reinserção familiar,
outras de desenvolvimento da emancipação financeira e autonomia da mulher
através do acesso aos benefícios sociais, reinserção escolar, alfabetização e
inserção no mercado de trabalho. Há casos em que a gestante, por motivos
diversos, declara o interesse em entregar seu filho para adoção.
Ocorrem inclusive situações em que a família relega a gestante e o bebê, por
vários determinantes que podem ser: o uso persistente das substâncias psicoativas,
o fato da usuária já ter tido outros filhos que ficaram sob responsabilidade dos
familiares ou foram entregues para adoção, conflitos domésticos constantes,
agressões físicas, a gravidez ser fruto de prostituição, entre outros.
Dentre as demandas apresentadas ao Serviço Social existem casos de
gestantes que vem de situação de rua, ou que percebem a necessidade de acionar
a justiça para requerimento de pensão alimentícia e/ou reconhecimento de
paternidade, dentre outras situações.
Diante do levantamento inicial realizado no ato da admissão são tomadas as
medidas preliminares mais urgentes como a utilização da rede de saúde do
município em que o CHAMA está localizado, para que a gestante – que em muitos
casos não fez nenhum tipo de exame pré natal – possa ter sua gestação
acompanhada, ou seja, ter acesso a exames que possibilitem o diagnóstico de
alguma enfermidade que exija tratamento urgente, como por exemplo as DST’s/HIV,
que podem trazer complicações no parto e consequentemente afetar a saúde da
criança.
Após a verificação de quais documentos a usuária possui, são realizados os
devidos procedimentos para a emissão da documentação básica faltante, pois diante
29
das situações em que haverá o encaminhamento para acesso as políticas sociais,
faz-se necessária a posse de documentos diversos, como por exemplo, quando da
inclusão no Cadastro Único.
Todas essas intervenções são previamente informadas às internas e quando
possível feita em parceria com a família para que além de um suporte, possa ser
realizado um trabalho de responsabilização do grupo familiar sobre os cuidados com
a futura puérpera e seu recém-nascido e o que também pode vir a possibilitar o
restabelecimento de vínculos rompidos ou fragilizados.
2.2 PROJETOS QUE NORTEIAM E BUSCAM EFETIVAR OS OBJETIVOS DA 
INSTITUIÇÃO
O CHAMA desenvolve atividades que objetivam a garantia e o acesso a
direitos, a reinserção social e familiar e a busca pelo desenvolvimento da autonomia
feminina, além do trabalho direcionado para a dependência química sob o uso
mínimo de medicação. Essas atividades são desenvolvidas e facilitadas tanto pela
equipe multidisciplinar, quanto pelos voluntários. Seguem abaixo os projetos que
dão forma aos ideais propostos:
Projeto afeto de mãe: orientação e reflexão acerca da relevância e
benefícios do parto natural e da amamentação como garantia de saúde para o bebê;
Projeto Ciranda: conversas semanais que propiciam momentos de partilhas
e orientação a respeito da dependência química, direitos da mulher, mediação de
conflitos, respeito às diferenças, convivência e etc.;
Projeto farmácia viva (em construção): atividades de cultivo da terra com
objetivo de proporcionar integração entre as internas, além de possibilitar o
tratamento natural de algumas doenças;
Projeto Beleza Pura: aprendizado sobre cabelo, maquiagem e manicure,
30
para que além de propor uma capacitação, as mulheres possam ter o resgate de sua
autoestima que muitas vezes está fragilizada pela gestação ou pelos sofrimentos
vivenciados;
Projeto Clique de Vidas: através do registro fotográfico, pretende despertar
a maternidade e/ou fortalecer o vínculo entre mãe e filho, além de também auxiliar
no trabalho de resgate da autoestima;
Projeto Mama Chef: orientação nutricional para uma alimentação saudável e
aprendizado sobre receitas que permitam a venda de alimentos como uma fonte de
renda após o período de acolhimento;
Projeto Mãe-me-quer: são realizadas oficinas, rodas de conversa,
atendimento individualizado, exibição de filmes e palestras, com o objetivo de
repassar informações e orientações sobre temas diversos para a garantia de
direitos, mediação de conflitos e a manutenção e consolidação dos vínculos
familiares;
Projeto Falando com Deus: visa trabalhar a espiritualidade de cada usuária,
respeitando sua crença e proporcionando momentos de reflexão. Tanto as internas,
visitantes, quanto os familiares participam desses momentos;
Projeto Mariana: realização de dinâmicas e rodas de conversa que têm como
eixo o desenvolvimento de competências, assim como a compreensão acerca do ser
humano e significado de nascimento. Abordam-se os valores humanos.
Contudo, ademais dos projetos existentes a casa de acolhimento sempre está
receptiva a propostas que venham a somar com os objetivos da instituição e agregar
conhecimentos para suas usuárias, acionando a articulação da profissional, também
enquanto coordenadora, na busca de parcerias que possibilitem a manutenção das
ações atuais e a execução de novas iniciativas.
31
3. DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE ATUAÇÃO DO ASSISTENTE 
SOCIAL NO CHAMA
No cotidiano de sua atuação, o assistente social se depara com vários
desafios que lhe exigem posicionamento e criatividade. Os espaços ocupacionais
desse profissional são submersos de contradições que se colocam para ele como
objeções, o que remete a necessidade de conhecimento e domínio tanto da
dimensão ético-política, teórico-metodológica, quanto técnico-operativa. Costa
(2008, p.43) diz que essas três dimensões referem-se a “um conjunto de referências
teóricas e metodológicas, valores e princípios, instrumentos, técnicas e estratégias
que deem conta da totalidade da profissão e da realidade social, […]”.
Desta forma, é diante do cenário de dificuldades colocadas ao assistente
social que o mesmo faz uso de sua capacidade de articular os instrumentos
necessários para estabelecer as respostas que deverão ser dadas às demandas
apresentadas pela sociedade e pelos espaços nos quais atuam.(COSTA, 2008)
O assistente social, desde seu processo de formação acadêmica, é chamado
a assumir o compromisso com o projeto ético-político da profissão e desta forma
assume também seu posicionamento em defesa da classe trabalhadora e da
proteção intransigente de seus direitos. 
Ainda de acordo com Costa:
[…] o objetivo é que a formação deva viabilizar o desenvolvimento de
competências e habilidades que tenham como requisito fundamental a
capacitação teórico-metodológica e ético-política para o exercício das
atividades técnico-operativas. (COSTA 2008, p. 47)
Entretanto, os desafios impostos ao profissional não são tão simples de
serem elucidados, visto que diante a atual conjuntura de perdas de direitos e da,
cada vez maior, enfatização da retirada do Estado de sua intervenção no tocante as
políticas sociais, conforme já foi explanado neste trabalho, esse profissional se vê
32
limitado às possibilidades que seu empregador lhe dispõe.
Como já visto anteriormente, o âmbito do Terceiro Setor está saturado de
limitações, pois, seu caráter privado o direciona para uma intervenção não muito
abrangente e que em hipótese alguma vai de encontro ao cerne da questão social,
ainda mais por se tratar de um instrumento do próprio sistema capitalista.
Porém, o profissional que tem o compromisso com os objetivos de sua
profissão não se deixa cair em conformismo limitando-se apenas a aparência dos
fatos, tampouco assume uma postura fatalista diante os desafios. Pelo contrário, ele
se apropria das situações adversas como oportunidade de efetivar sua capacidade
de mediação e de transformação da realidade através de sua práxis profissional.
Conforme Pontes fala:
Portanto, o processo de alcance da essência invariavelmente ocorre
mediatizado pela aparência, pelo fenômeno, ou seja sempre o sujeito parte
dos fatos – que na forma fenomênica é uma abstração -, desocultando a
essência através da superação da positividade dos fatos, negando-os para
agarrar, através de múltiplas mediações, a totalidade concreta que, em
última análise, se constitui na própria essência das coisas. (PONTES 1997,
p. 83)
No que se refere a assistente social do CHAMA, diversos são os obstáculos
colocados a ela pois, além de ter que lidar com as condições que a instituição lhe
dispõe, ainda há certa resistência encontrada quando necessária a articulação com
a rede, na busca por inserir as usuárias nos programas sociais existentes e na
utilização das políticas sociais.
Atualmente o Centro Humanitário de Amparo à Maternidade é visto por muitos
equipamentos, tanto públicos estatais quanto por outras organizações da sociedade
civil, como uma possibilidade de parceria para o acolhimento de mulheres gestantes
que chegam a esses locais, porém que muitas vezes não tem como ser atendidas,
visto que esses espaços já não têm suporte suficiente para dar respostas as
problemáticas a eles colocadas, pois, ou se encontram demasiadamente lotados ou
não tem a preparação técnica para lidar com a demanda, especificamente, de uma
33
gestante em situação de vulnerabilidade social. Desta forma, acabam por solicitar
auxílio ao CHAMA.
Entretanto, como se trata de uma instituição privada, são atendidos na
instituição apenas os casos que estejam no perfil de seu público-alvo e, dentro do
limite suportado pela estrutura física e técnica da organização, o que resulta em uma
restrição a um acolhimento mais amplo. 
Contudo a de se considerar a relevância desses acolhimentos, visto que se
não houvesse esse espaço, as mulheres que foram e são encaminhadas para o
CHAMA, poderiam ter permanecido na rua durante sua gestação e/ou fazendo uso
de drogas, e/ou sendo violentadas, rejeitadas, exploradas dentre outros. 
Nos últimos anos, em virtude da atual crise econômica no país, houve e ainda
ocorre, uma intensificação das expressões da questão social, o que
consequentemente, resulta em uma insuficiência da oferta de atendimento e
acolhimentos nos espaços públicos e também nos privados visto que o investimento
para manutenção e criação de políticas tem sido cada vez mais reduzido.
Portanto, durante a vivência no cotidiano das ações da assistente social do
CHAMA, diante a inevitabilidade de articulação com a rede, pôde-se notar que essa
recessão social e econômica tende a induzir o modo de receptividade e solução no
atendimento as demandas das internas da instituição, principalmente no âmbito dos
equipamentos públicos estatais.
Entretanto, ao longo do período de formação acadêmica é ofertada a
oportunidade de apreender sobre os direitos universais historicamente conquistados
e garantidos a todos os cidadãos. Direitos esses que estão previstos em lei e que o
assistente social tem como principal objetivo da sua profissão a garantia, resgate e
preservação dos mesmos conforme disposto no projeto ético-político do Serviço
Social e nos documentos que direcionam a profissão como, por exemplo, a Lei n º
8.662, de Sete de Junho de 1993 que dentre outras coisas diz: “[…] encaminhar
34
providências, e prestar orientação social a indivíduos, grupos e à população; […]”
(p.43).
Desta forma, no dia a dia da organização pude perceber que a realidade de
atuação do assistente social requer uma constante luta em favor de suas usuárias
visto que, o acesso às políticas não ocorre da maneira garantida, pois alguns
equipamentos públicos, tanto do município onde o CHAMA está localizado como dos
municípios adjacentes, se colocam de forma resistentes, com tendência a centralizar
as políticas sociais, não cumprindo com a garantia de oferta e acesso aos direitos
previstos a todos os cidadãos, assumindo uma postura engessada e burocrática no
atendimento as gestantes, puérperas e nutrizes que estão sob os cuidados da casa
de acolhimento.
O argumento utilizado pelos funcionários dos órgãos públicos do município
onde o CHAMA está é que as prioridades de atendimento são para os munícipes e
que, as mulheres abrigadas pela instituição, não podem ser inseridas nos programas
sociais pela rede local por não serem, em alguns casos, cidadãs daquele território e
que as demandas referentes a elas devem ser atendidas pelos equipamentos de
seus municípios de origem. Diante disso, várias são as barreiras enfrentadas
diariamente para que seja possível garantir alguns atendimentos básicos como, por
exemplo, marcação de pré natal, realização de cirurgias de laqueadura, marcação
de consulta com psiquiatra do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), acesso ao
Cadastro Único, recebimento de medicação, realização de tratamentos, dentre
outros. 
Uma outra colocação relevante é a centralização dos programas e políticas
sociais ocorre, também, pela questão que as internas do CHAMA não exercem seu
direito de voto na zona eleitoral do município de localização da instituição colocando
a assistente social da instituição diante de uma politicagem, na qual as ações da
rede estão submetidas, requisitando da profissional um constante posicionamento e
resistência a essa ofensiva seletiva.
Porém, no tocante aos dispositivos públicos das localidades de origem das
35
internas, como, por exemplo, em uma visita a um CREAS localizado em Fortaleza,
argumentou-se que o atendimento deveria ser direcionado e efetuado pela rede
pública do território no qual as internas estão acolhidas, expressando assim ações
de resistência e violação de direitos. Foi claramente possível perceber um
desinteresse em adentrar acerca das problemáticas apresentadas, o que findou por
refletir um posicionamento de que “isso não é problema nosso”.
Entretanto, contraditoriamente a dificuldade de articulação com a rede
pública, o CHAMA é acionado com certa frequência pelos mecanismos públicos,
independente de territorialização conforme já explicitado anteriormente e, isso
resultaem um grande desafio acerca do retorno das usuárias aos municípios nos
quais as mesmas se reconhecem como cidadãs ou até mesmo de sua permanência,
após o período de acolhimento, no município aonde estão abrigadas visto as
problemáticas acima mencionadas.
O que se percebe em alguns casos é a falta de conhecimento,
reconhecimento ou de entendimento por parte dos que compõem o aparato público,
de que as políticas sociais, como por exemplo, a política de saúde, é direito
universal, conforme descrito na lei nº 8.080 de 19 de setembro de 1990: 
[…] I – universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis
de assistência; II – integralidade de assistência, entendida como um
conjunto articulado e contínuo de ações e serviços preventivos e curativos,
individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de
complexidade do sistema; III – preservação da autonomia das pessoas na
defesa de sua integridade física e moral; IV – igualdade da assistência à
saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie; V – direito à
informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde; VI – divulgação de
informações quanto ao potencial dos serviços de saúde e a sua utilização
pelo usuário; […]. (LEI 8080/1990, Capítulo II, artigo 7, incisos I ao VI)
Contudo, para que a assistente social do CHAMA execute o planejamento de
intervenções, já explicitado no subtítulo 2.1 deste trabalho, é inevitavelmente
necessária o contato com a rede, principalmente com os CRAS, com os CREAS,
com as Unidades Básica de Saúde, com hospitais da rede pública pois,é também,
através desses equipamentos que ocorrem e devem ocorrer o acesso das internas
36
aos programas e políticas que propiciarão a busca pelo resgate de direitos violados.
Ademais, acerca da territorialização das usuárias, cada indivíduo tem o direito
de considerar-se como cidadão de onde lhe convir, de acordo com o que diz o artigo
13 da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 10 de dezembro de 1948:
“Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das
fronteiras de cada Estado; 2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país,
inclusive o próprio, e a este regressar.”
Todavia, a articulação com a rede pública não é a única objeção apresentada
a atuação da assistente social da instituição, pois, dentre as diversas problemáticas
que as gestantes, puérperas e nutrizes apresentam, a fragilidade e rompimento de
vínculos familiares também se coloca como algo a ser trabalhado.
Por diversas vezes, o âmbito familiar das mulheres acolhidas, está saturado
de violências, de precariedade e de adoecimento. E cabe à assistente social, através
da capacidade investigativa necessária a esta profissional, perceber o contexto das
relações e também trabalhar a família, visto que a reinserção familiar é uma das
principais estratégias pensadas e analisadas no tocante as ações direcionadas as
problemáticas das usuárias. 
Sobre a relevância da investigação Marx fala que:
[…] a investigação tem de apoderar-se da matéria em seus pormenores, de
analisar suas diferentes formas de desenvolvimento, e perquirir a conexão
íntima que há entre elas. Só depois de concluído este trabalho é que se
pode descrever, adequadamente o movimento do real. (MARX 1988, apud
PONTES 1997, p. 64)
Acerca da atuação profissional para com as usuárias e suas famílias, a
mesma ocorre de forma complexa, entretanto reflete a capacidade de orientação e
acompanhamento necessárias ao exercício profissional, pontuando mais uma
exigência colocada a este profissional, conforme já debatido neste trabalho.
Ademais, essa intervenção se apresenta como uma possibilidade da busca pela
37
consolidação dos propósitos da profissão através das concepções do projeto ético-
político. (MIOTO 2010, p. 1)
Desta forma, as ações diárias empreendidas pela assistente social da
instituição conotam o caráter educativo da profissão, formado historicamente no
arranjo das relações sociais submetidas ao sistema capitalista. Essas ações se
desempenham mediante a articulação com as políticas, programas e benefícios
sociais.
Esse caráter pedagógico da profissão se expressa claramente pela relação
firmada entre a assistente social e suas usuárias, diante das orientações e
esclarecimentos acerca das ações que se pretende realizar. A intervenção
profissional perpassa pelas práticas da busca por garantias, por clarificações e
indução à reflexão que objetivam a possibilidade de emancipação desses indivíduos.
Para Vasconcelos (2000, apud Mioto 2010, p. 2), discutir orientação e
acompanhamento, resulta em discutir o cunho educativo das ações profissionais,
visto que interferem diretamente na construção de condutas e subjetividades dos
usuários que comparecem cotidianamente nos espaços sócio-ocupacionais do
Serviço Social.
Mioto (2010, p. 2) coloca, “postula-se a orientação e o acompanhamento
como ações de natureza socioeducativa que, como os próprios nomes indicam,
interferem diretamente na vida dos indivíduos, dos grupos e das famílias.” (grifo do
autor)
Desta forma, após a captação da relação de cada interna com seus familiares
percebendo aqueles que poderão ser aproximados ou reaproximados ao convívio
com a mesma, são realizadas ações que visam à reaproximação entre as partes
como o contato da equipe técnica, por telefone, com os integrantes da família, visitas
domiciliares que visam a apreensão mais aprofundada das relações entre os
familiares, por convites para virem até o CHAMA e conhecer onde a gestante,
38
puérpera ou nutriz está acolhida e sua rotina, por realização de atividades de
entretenimento com temas de datas específicas (dia das crianças, festas juninas, dia
das mães e etc.) que visam convidar a família a participar e interagir no processo de
cuidado, dentre outras, além de proporcionar a conexão entre a família e a rede
socioassistencial, quando necessário. 
Contudo, o trabalho de fortalecimento e/ou restabelecimento dos vínculos
familiares ocorre somente quando é vontade da interna e quando esse contato não
demonstra, dentro do que é possível perceber, que a usuária tende a voltar para a
mesma situação de vulnerabilidade. Nos casos em que a reinserção familiar não se
mostra como viável, outras alternativas são analisadas, como por exemplo o
desenvolvimento da autonomia e independência financeira, conforme citado em
capítulos anteriores.
A assistente social do CHAMA também exerce a função de coordenadora da
instituição, o que coloca para ela cotidianamente, a necessidade de se articular entre
as duas funções. Como assistente social, além da intervenção sobre as demandas
até aqui apresentadas, a mesma contribui para a formação profissional das
estagiárias de Serviço Social, mostrando-lhes como ocorre a prática da profissão ao
passo que também aprende junto com as acadêmicas. 
Acerca da função de coordenadora, irrompem nesse momento as novas
exigências colocadas ao profissional diante do atual cenário neoliberal, também já
dialogado neste trabalho. Vê-se o movimento da capacidade do assistente social em
estar presente no âmbito da gestão de políticas. Entretanto, é perceptível a
densidade do acúmulo de requisições sobrepostas à profissional.
Enquanto gestora, no tocante a manutenção das atividades e suprimento dos
gastos, a assistente social da instituição, tem entre suas demandas a atribuição de
administrar os recursos disponíveis que, de acordo com o que foi explanado
anteriormente no capítulo dois, são em parte, financiados pelo instituidor da ideia
CHAMA e, de captar novos recursos sejam eles em dinheiro ou não o que remete a
39
ela a indispensabilidade de almejar parcerias que possam vir a colaborar com a
alimentação,com vestuário, produtos de higiene pessoal para as usuárias e bebês,
produtos de limpeza, móveis, medicação e voluntários que venham a contribuir no
processo de capacitação das internas em busca de proporcionar futuras fontes de
renda para as mesmas.
Diante do suporte limitado para atendimento da dinâmica da instituição, a
própria assistente social tende a disponibilizar uma maior parte do seu tempo, indo
muito além do que está previsto em seu acordo contratual. Nesse bojo fica claro que
esta profissional que é articulada para defesa de direitos e tem uma formação que
lhe clarifica sobre a exploração do capital sobre o trabalhador, finda por se submeter
a extração de sua mais valia.
Ainda sobre as demandas que surgem na instituição algo relevante de
registrar é que devido ao CHAMA ser um projeto pioneiro no Estado do Ceará no
que se refere ao acolhimento específico de mulheres gestantes e, em face da
crescente divulgação do espaço, tanto nos setores públicos, quanto nas redes
sociais, televisão dentre outras e do processo de adoção no Brasil ser moroso e
burocrático, tem ganhado bastante visibilidade e consequentemente atraído famílias
que almejam pela possibilidade de adotar uma criança.
Entretanto, algumas pessoas veem na instituição a oportunidade de
facilitação do processo transparecendo, muitas vezes, o intuito de uma adoção "à
brasileira" conforme uma ex voluntária se colocou ao expressar sua vontade de
adotar um bebê por meios que fogem aos procedimentos legais.
Porém, respeitando acima de tudo a vontade da gestante em entregar seu
filho para adoção, o Serviço Social da instituição trabalha acerca dessa demanda, de
acordo com os meios cabíveis, acionando prontamente o Conselho Tutelar
municipal, sempre que uma interna expressa sua intenção em destituir o poder
familiar que lhe cabe, não aceitando qualquer postura que vise ir de encontro aos
procedimentos corretos e, muitas vezes as próprias gestantes por não terem o
40
conhecimento dos meios legais, veem de forma natural a entrega direta da criança
para uma família adotiva não percebendo a delicadeza de tal situação.
As pessoas que buscam essa adoção de forma ilegal, muitas vezes se
aproximam do CHAMA primeiramente com a fala de ter o interesse em proporcionar
alguma cooperação, sendo que se favorecem dos contatos diretos com as internas e
passam a assediar aquelas que não pretendem ficar com seus bebês, oferecendo-
lhes alguma recompensa e as olham como a "solução para o seu problema".
Entretanto, a assistente social do CHAMA, alicerçada na ética que a profissão
exige e do cuidado com as usuárias, logo que identifique alguma postura diferente,
tanto da gestante, quanto do voluntário ou visitante, coloca de forma profissional e
direta a maneira como a instituição trabalha e dá as devidas orientações para estas
acerca do processo de adoção via meios legais e sob responsabilidade do órgãos
públicos competentes.
Desta forma e mais uma vez é notável a ação profissional direcionada para o
cumprimento de uma intervenção dentro dos princípios da profissão não se deixando
influir pela carga de sentimentos exteriorizados pelos sujeitos envolvidos, mesmo
que em algumas vezes haja um impacto enquanto ser humano suscetível a empatia
pelo sofrimento do outro.
E esses são alguns dos desafios acometidos pela assistente social, os quais
pude perceber durante o período de estágio no Centro Humanitário de Amparo à
Maternidade. Desafios que podem ocorrer em quaisquer outros espaços de atuação
do assistente, porém, o que foi de relevante apreensão são as possibilidades de
atuação e atendimento aos usuários, mesmo diante das limitações, pois, é no campo
de contradições que esse profissional se cria, recria, se supera e se afirma como
ator essencial no enfrentamento das múltiplas expressões da questão social.
Porém, mesmo diante da crítica feita ao Terceiro Setor, seja em relação a sua
real finalidade para com o sistema capitalista, seja a respeito de sua delimitação, as
41
oportunidades de uma intervenção mais próxima de seus usuários é algo muito claro
no CHAMA além de uma extensa articulação com várias políticas o que possibilita
uma amplificação de conhecimentos.
Em consequência das usuárias permanecerem acolhidas por um considerável
espaço de tempo, a relação criada cotidianamente com as mesmas, torna-se algo
diferenciado em comparação com o atendimento realizado em alguns outros campos
de atuação profissional onde a prestação de serviços é realizada de forma pontual e
imediata. 
Por terem a oportunidade de relatar suas vidas, seus sofrimentos e sonhos,
as internas findam por estabelecer uma relação de confiança com a equipe, relações
que permitem uma escuta de forma mais humanizada e próxima, porém, sem que
seja ultrapassado ou confundido o âmbito profissional e o pessoal, mesmo em casos
que venham a mexer de forma mais intensa com os profissionais enquanto seres de
sentimentos e sem que isso interfira na objetividade da intervenção.
A possibilidade de acompanhar o processo de alteração da realidade da
maior parte das internas, de forma positiva, permite especialmente ao Serviço Social
da organização, um reflexo de que sua atuação está resultando de acordo com os
objetivos propostos. 
Todas as ações praticadas durante o acolhimento, almejam que as usuárias
percebam que é possível sair da condição de sofrimento que as trouxeram ao
CHAMA, que como mulheres capazes, elas podem reorganizar suas vidas e buscar
seus objetivos, seja com uma nova família, seja com os familiares que as esperam.
Lá elas têm a oportunidade de trabalhar sua auto-estima e suas competências,
redescobrindo-se como condutoras de suas vidas.
A busca por inseri-las ou reinseri-las no mercado de trabalho formal ou
informal, por capacitarem-se em algo que elas percebam que têm competência, a
oportunidade de aprender a ler e escrever, a possibilidade de iniciar uma nova
42
história de vida em um local que não seja o mesmo no qual elas tiveram seus
direitos negligenciados e violados, a orientação acerca de seus direitos como
cidadãs, visam o empoderamento4 das mesmas.
Algumas chegam ao CHAMA sem perspectiva de melhorias e durante sua
estadia, são desafiadas a refletir sobre o que elas poderiam colocar como meio de
alcançar uma realidade diferente da que vivenciaram até ali. Porém sempre
orientadas a almejar por coisas possíveis e sendo esclarecidas acerca da realidade
social e econômica do país.
Outra possibilidade apreendida foi a de respeitar as subjetividades de cada
uma, trabalhando seus pontos positivos e os que podem ser melhorados, sem,
entretanto, reforçar padrões que a sociedade impõe, pelo contrário, desmistificando
vários deles, como por exemplo, que uma família obrigatoriamente deve ser
composta por pai, mãe e filhos. No caso das que tem companheiro, “desfabular” que
a responsabilização dos cuidados com os filhos é dever único da mulher. Trazer a
tona para ser trabalhado o falso pensamento de que gestação e ser mãe são
situações mágicas e livres de sofrimento e de conflitos, dentre outros paradigmas.
Todos esses direcionamentos ofertados as usuárias, são oportunidades
colocadas ao Serviço Social do CHAMA, pois possibilitam o acesso a
conhecimentos ainda não provados e a busca pela reatualização constante, além de
perpassar pelas políticas como a Assistência, a Saúde, a Educação, a Habitação, o
âmbito jurídico e com a própria sociedade civil.
Portanto, diante desse contexto permanente de desafios e demandas que
mostram especificidades que requerem da assistente social da ONG uma atuação
diferenciada, solicitam da mesma um novo meio de articulação com as políticas e
equipamentos sociais e proporcionam um contínuo processo de aprendizado. 
4 O empoderamento vem comoo reconhecimento por parte do sujeito e da sociedade sobre as
restrições sociais a que a categoria (mulher) está submetida, tornando-se imperativo a alteração
dessa situação, através de mudanças em uma conjuntura mais macro e público, como por exemplo a
inserção da mulher em cargos de poder e decisão, uma educação não reduza essa mulher ao seu
sexo, serviços de saúde eficientes. Além de transformações no âmbito da reogarnização do trabalho
doméstico e o aumento da auto-estima e autonomia da mulher. (CORTEZ e SOUZA, 2008)
43
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante o processo de pesquisa e de observação em campo, já nos primeiros
contatos com o espaço de atuação profissional, aqui em questão uma organização
não-governamental, foi possível perceber a relevância da crítica feita, durante o
estudo realizado na disciplina sobre o Terceiro Setor, acerca de seu viés que busca
o fortalecimento do capital e seu direcionamento que vai de encontro à
universalização das políticas direcionando a intervenção profissional para um público
específico, quando o acesso a política da Assistência Social deveria ser amplo em
todos os espaços.
Entretanto, apesar do que já foi escrito sobre esse tema vir a destacar, em
sua maioria, apenas os pontos negativos das proposições do Terceiro Setor, não se
deve deixar de observar as problemáticas que o assistente social perpassa para
atender seus usuários, se defrontando com limitações colocadas por setores
públicos que primordialmente deveriam atuar de forma democrática e
descentralizada, mostrando que a focalização das políticas não é algo que ocorre
apenas do âmbito das instituições privadas do Terceiro Setor.
Pelo contrário, o que se pôde apreender durante o processo de pesquisa e de
vivência na realidade dos sujeitos que estão inseridos no CHAMA, é que por
diversas vezes se faz necessário rebater o posicionamento resistente dos
colaboradores e administradores dos órgãos estatais na tentativa de garantir o
ingresso das usuárias da instituição às políticas e programas sociais.
A profissional do Serviço Social da ONG, em parceria com sua equipe de
apoio, não se limitam aos entraves apresentados do decorrer desta pesquisa eque
não se limitam aos que foi exposto até aqui e, através de ações de divulgação
acerca da instituição e seus objetivos, de reuniões e articulação com a equipe da
rede socioassistencial com vistas a parcerias, de momentos direcionados para suas
internas com objetivo de proporcionar orientação e informação, buscam ultrapassar
as dificuldades de acesso clarificando e ratificando o aspecto universal das políticas.
44
Ademais, a significância do acolhimento e atendimento as demandas
apresentadas pelas gestantes que chegam a organização, expressa a fragilidade e
precariedade dos setores públicos que não alcançam mais, nem minimamente, a
magnitude das problemáticas apresentadas pela questão social enquanto fruto das
relações de exploração resultantes da movimentação do sistema capitalista em
busca da obtenção desmedida de lucro.
Em vários casos, se não fosse o acolhimento realizado pelo CHAMA, muitas
das mulheres que ali estão ou que já passaram pela casa de acolhimento,
continuariam em situação de violação de direitos, permanecendo em vulnerabilidade
e até tendo suas próprias vidas e de seus filhos em risco.
O CHAMA, permite ao assistente social o que muitos espaços sócio-
ocupacionais nem se quer chegam a refletir sobre, que é a possibilidade de atuar de
forma mais humanizada e próxima, criando com suas usuárias uma relação de
confiabilidade, o que proporciona o conhecimento mais profundo da totalidade na
qual o sujeito está inserido, permitindo realizar uma intervenção mais direcionada
para cada interna, vindo a trabalhar vários aspectos de suas vidas.
Porém, mesmo diante de todo empenho profissional em executar um trabalho
que possibilite a retirada de seres humanos da situação de fragilidade social e
mesmo da expressiva relevância da instituição no atendimento as demandas sociais,
muito ainda tem que ser feito, principalmente sobre as políticas sociais que deveriam
estar em crescimento e fortalecimento mas, pelo contrário, estão cada vez mais
reduzidas, o que reflete diretamente na vida das gestantes, puérperas e nutrizes
atendidas no CHAMA pois, os benefícios e programas sociais, assim como as
políticas básicas, deveriam ser o suporte também pós o período de acolhimento para
que as mesmas pudessem dar continuidade aos seus projetos de vida, mas pelo
que pude perceber, nem sempre isso ocorre e que algumas das mulheres que por ali
passaram, findam por “recair” na precariedade por não haver um acompanhamento
efetivo da rede socioassistencial.
45
Contudo, diante de toda essa riquíssima vivencia refleti que a formação
profissional não se limita ao espaço acadêmico e estar como estagiária de um
equipamento como o CHAMA, me permitiu uma complementaridade que a sala de
aula não proporciona, visto que no processo de aproximação com o cotidiano
profissional deve-se de antemão direcionar-se pelo aparato que orienta a profissão
alicerçando-se pelo Código de Ética profissional do/a assistente social, como
instrumento chave para a investigação, a ética como base principal, o respeito, a
nudez de prejulgamentos, a ausência de discriminação por qualquer que seja o
motivo – gênero, idade, classe social, religião e etc – conforme o norteamento dos
princípios do projeto ético-político do Serviço Social e que não se separa a postura
do profissional da postura do indivíduo enquanto ser complexo e que a ética é
indissociável perante qualquer papel que se esteja exercendo.
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	INTRODUÇÃO
	1. O TERCEIRO SETOR NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS SOCIAIS E A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL
	1.1 POLÍTICA SOCIAL E O TERCEIRO SETOR
	1.2 O SERVIÇO SOCIAL E O TERCEIRO SETOR
	1.3 FAZER PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL NO TERCEIRO SETOR
	2. TERCEIRO SETOR EM AÇÃO – CENTRO HUMANITÁRIO DE AMPARO À MATERNIDADE
	2.1 PÚBLICO-ALVO, OBJETIVOS, VIABILIZAÇÃO DE DIREITOS E FORTALECIMENTO DE VÍNCULOS
	2.2 PROJETOS QUE NORTEIAM E BUSCAM EFETIVAR OS OBJETIVOS DA INSTITUIÇÃO
	3. DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NO CHAMA
	CONSIDERAÇÕES FINAIS
	REFERÊNCIAS

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