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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Orlandi, Eni Puccinelli. /
Eu, Tu, Ele - Discurso e real da história /
Eni Puccinelli Orlandi
Campinas, SP: Pontes Editores, 2' Edição· 2017
Bibliografia
ISBN 978-85-7113-832-2
1. Lingulstica 2. Analise de discurso 1. Titulo
Índices para catálogo sistemático:
1. Lingulstica - 41 O
2. Análise de discurso • 4 IO
E REAL DA HISTÓRIA
Eni Pm::dnem Orlau1:di
Eu, Tu, ELE - DlscURSO E REAL DA HISTÓRIA
A ORDEM DA LÍNGUA E A DÊIXIS DISCURSIVA
(UMA CRÍTICA AO LINGUISTI.CAMENTE CORRETO)
···················~··············
• • • • •
"E <:~da instante é diferente, e cada homem é
diferente, e somos todos .iguais".
(Carlos Drurnmond de -Andrade)
· Q. uando se fala em.tempo, nos estudos linguísticos tradicionais,
são diversas .as possíveis ·formulaçõe~ de sua organização,
mas, .invariavelmente, a cronologia está pr§.ente. Nesta linha de
reflexões, também invariavelmente, E. Benveniste (1966 ) é o autor
de que se lança mão para falar que se pode tratar desta questão de
outra maneira, através da tomada em consideração da enunciação.
Aqui não vàmos fazer uso deste autor, nem das teorias da
.. ellllilciação, mas da teoria do discurso .. Vamos colocar em questão
·, _ ~.que ~o,~ dispp;~v~;ula~t~,n;pas -,.. . e sentidos, Qll_a!}<lo se trata de olhar a língua eriq~to ~ -ma-
t-erial de funcionamento dos processos discursivos, da produção
de sentidos. ·:;:..
, ~7. Pesse,modo, podemos afirmar q~. discursiv.µnente, ao entrar
~ cena.a materialidade, não podemos desconsiderar o que tenho
~ad(), :aolo-ngo de meustrabalhos, quando ligo interpretação
e ,ideologia (E. Orlandi, _1996): o sentido não é exato. A relação
, disarrso e texto não se pauta pela linearidade (E. Orlandh 2001),
ou, como tenho Sl!Steotado, quando se pensam os processos de
203
' ! -
1 -
Eu, Tu, ELE - DtsOJRSO E REAL DA HISTÓRIA Eu, Tu, ELE - DISOJRSO E REAL DA HlSTÔRIA
significação (E. Orlandi, 2012): sujeito e sentido constituem-s_e ao
mesmo tempo, mas não coincidem, n·o processo de significaçà-0, ·
em que a memória discursiva (o interdiscurso, o Outro), tomada '.:,.
em conta a ideologia, fata por conta própria. .,
pretérito perfeito), em que aque/a indica, também, outro espaço e
tempo simbólicos, os de umjá vivido, em outro espaço concreto,
marcado na historicidade. Condições de propução: espaço/tempo,
situação, sujeitos. O verbo continua no presente em sua forma
empírica, mas, materialmente, em termos de seu funcionamento
discursivo, esta forma se carrega de passado e de outro espaço,
em sua his1;oricidade: esta "coisa" cuja construção discursiva refe-
rencial resulta em "paisagem", está, por exemplo, no passado e em
outro espaço vivido. Há aí um "lá", em outro lugar e tempo. Dêixis
discursiva, que eu chamaria de equívoca, em que o afeto é, pois,
conjugado no passado, vivido em outro espaço simbólico. Posso
dizer, então, que o nome (paisagem) aí é conjugado no passado e
em outro lugar1•
E aí entra, na relação discurso/texto (E. Orlandi, 2001, 2015), :·
uma reflexão que venho desenvolvendo: na formulação, textuali- ·,,
zação do discurso, há espaços de interpretação e de construção
. de sentidos que são descontínúos, impalpáveis; e que resultam
quase invisíveis nii'formulação . Mas funcionam produzindo efeitos
de sentidos. ·
Isto, se pensarmos nossa língua, por exemplo, e, para dar maior
explicitação ao que estou considerando, tomo as línguas indíg--;;;as,
em paralelo, como o fiz no capítulo sobre a Mantiqueira. Prop~s a
distinção (1985) entre língua fluida e língua imaginária, tomando,
como exemplo, o sufixcr"rana" (vindo da língua geral); presente' na
nossa língua, a língua brasileira. Segundo o que afirmo, então, este
sufixo modaliza o nome: um exemplocé.a palavra "netarana"(lfngua
geral) que significa como se fosse ne_ta, Ql!P9i:!~é! ser.oeta. Podemos~-
assim, vislumbrar o funcionamento de formas das línguas indígenas
que atestam não só o funcionamento do modo nos nomes, mas tam-
bém o tempo: a denominação "roça", em tapirapé;.quando referida
ao passado, tem forma e estrutura diferente da denominação "roça"
no presente. Os nomes se conjugam em sua temporalidade. Na língua
brasileira, também há muitos funcionamentos, como o de "rana",
que não se esgotam em categorias, geralmente, reconhecidas, em
formas e estruturas visíveis, para nossa lírigua.
OUSANDO MAIS
Do ponto de vista do funcionamento discursivo, podemos ir
além, e pensar também em marcas de espaço estruturando dizeres
junto à temporalidade: ao dizer, "Eu amo aquela paisagem" (acen-
tuando a pronúncia de aquela), posso estar indicando, simultanea-
mente uma forma (pronominal) marcada por um tempo (no caso,
204
Da mesma forma, o "fá" em uma textualização como ''Aí eu
.chego lá e encontro quem? Justamente quem eu estava evitando . .. ,
encontrar .... ". Pode ser um "lá" conjugado no passado, embora os
verbos estejam com marcas de presente. .;,;-;
.$ A 2._artir de reflexões como estas, podemos chegar ao fato de
:·~ ;$- que, pensando a ordem da língua, materialmente ligad~ ao funcio-
;r, ;f namento discursivo, entra necessariamente em questão a memória
· }i discursiva; como dissemos acim·a. A memória, como temos afirmado
(E. Orla11di, 2014), não é cronológica, é histórica. E aqui o histórico
'J se vincula, na análise de discurso, à exterioridade (constitutiva), à : . :-t deriva, como parte da constituição material do sujeito e dos sen-
, l tidos. O que me permite dizer que é o funcionamento da memória
.' ;~ na língua que determina a relação espaço/tempo discursivos. ,,.~
} j. Um exemplo: falando de sua formação, um professor afirma:
""·.Z "E 1968 ' . . 1 .1 , m , e meu pnme,rc ar :; ç"mo a uno da universidade x".
-' X Ora, pensando-se na correçà~ gramatical, deveríamos ter:foi meu
primeiro ano na universidade x. É assim que podemos compreen-
r Não_ pos_so deixar de observar aqui que estou indo na contramão das explicações e
teonzaç_oes que P.e~sa~ o ~hamado "não lugar" (lá). Ao contrário, considerando o
que cham~ de.~e1x1s d1scurs1va no.trabalho do equívoco, hâ uma concentração, pela
natu_reza s1mbohca do eu/tu/ele _e do espaço indistinto, em que há concentração de
sentidos, levar:,do ao mal entendido. O hoje lâ. O "o que·. Pretérito.
205
Eu, Tu, Elf - D!sCURSO E REAL DA tlJ5TÓRIA
der o real da língua, no funcionamento da memória como parte da
constituição, como disse, do sujeito e dos s~ntidos.
A distinção, a exatidão, o ·segmentável, fazem parte de uma
reflexão que deixa de lado à discursividade, a relação não unívoca.
Nós trabalhamos com o que se mistura, o que se presta a equívoco, o
que nem sempre se pode separar em unidades distintas, tudo junto
e misturado. E há uma declaração de um ator que me ficou na me-
mória, na tragédia em que naufragou Domingos Montagner:. •~gora
eu sou eu e eu sou tu. Agora eu sou eu e tu. Eu vou com você para
sempre! Esse, de mim, nunca vai sair! Te amo". Renato Góes, 2016.
LINGUISTICAMENTE CORRETO?
Linguisticamente aqui pode tanto dizer respeito à gramática
(normatividade) como, e é o que nos interessa tra~ar, relação
Iinguagem/pensamento/mui:ipo: .
Discursivamente, sabemos que esta não é uma relação nem
imediata, nem linear, nem simples. Não há relação termo a termo
entre linguagem, pensamento e mundo. Como, também discursi-
vamente, fazemo~ entrar, nesta relação, a ideologia, pensada do
ponto de vista materialista, ou.seja, considerando a ideologia como
relação imaginária que liga os sujeitos a suas rnndi_ções materiais
de existência. História e sociedade aí se apresentam.
Em meus trabalhos (E. Orlandi, 1996), tenho apontado para a
ligação entre ideologia e interpr~tação._Etrago, para. esta minha
reflexão, esta ligação, que considero constitutiva de qualquer dis-
cursividade, na produção de sentidos.
Com isto, estou .afirmando que há uma mediação na relação
Iinguagem/pensamento/m~ndo que ·se materializa pela interpreta-
ção, e que, nos termos nos quais trabalho , se liga, teoricamente,
a"o funáonamento da ideologia. A ideologia .se manifesta para o
analista na consideração da interpretação. Assim, é observando a
interpretaçãó que podemos compreender o funcionamento dis-
cursivo da ideologia.
206
.~~;
;--
< ' .)<:~· ·.•
Eu, Tu, Elf - DiscuRSo E REAL DA HISTÓRIA
Isto nos leva a afirmar, como Pêcheux (1990), que há formula-
ções (ele diz enunciados) estabilizadas e outras sujeitas a ~quívoco.
E há cruzamento entre elas. Ou seja, não há como desvmcular o
estabilizado do sujeito a equívoco. A relação palavra e coisa não
é nem direta, nem transparente. E, como tenho afirmado (1987,
1996), ler é saber que to.do sentido pode ser outro. Instabilidade,
equívoco, movimento, pluralidade.
ENTRADA DA NARRATIVIDADE NA REFLEXÃO
Ainda discursivamente, e pensando o funcionamento da me-
mória, entra a questão da narratividade, como a tenho definido:
o modo como a memória se diz. Deslocamos assim a concepção
da narratividade de uma concepção retórica (como gênero). Ao
mesmo tempo, também a noção de memória desloca-se, não só
de_uma concep.ção_p.sicológica, como cognitiva
Ora, no caso da memória, há um se_u funcionamento que de-
termina as relações com as formações discursivas.para os sujeitos,
em situações espeáficas. Os sujeitos, individuados, inscrevem-se
em algumas, e não outras formações discursivas, identificando-
se assim com certos sentidos, determinados pela relação com
a ideologia, que resultam em determinadas posições-sujeito. A
memória, como temos tratado, em nossas pesquisas, se diz, de
um modo que é acessível, para o analista, através do que tenho
chamado de narratividade. É analisando o modo como a memória
se diz:""" nartatividade-,quê.podemos compreender como ela fun-
ciona na produção de sentidos para e pelos sujeitosrem condições
determinadas. O que nos leva a dizer que nem há este exato, em
t~mo.s de sentidos e de constituição dos sujeitos, como não há,
na p olissemia, como temos afirmado,.coincidência entre sentidos,
e4tre, st/jeitos e sentidos,_entre.sujeitos e suj_eitos. A polissemia
se apresenta, no que tenho proposto (E. Orlandi, 2012), como
9ife.r~ntes movimentos. de sentidos no mesmo objeto simbólico ·
·/ -e que se orientam em múltiplas direções. Sempre aberto a novos ·,.
207
Eu, Tu, ELE • D~cuRSo E REAL o• HISlÓRIA
movimentos. A exploração do funcionamento da memória, no
sujeito, pode nos dar apoio para uma melhor compreensão da
produção de sentidos.
A EQUÍVOCA BUSCA DO EXATO
Vamos tomar, para análise, a questão do assim chamado gê-
nero, neste caso, o gênero como sinônimo de sexo: masculino ou
feminino, l>inário na sociedàde capitalista. ··
Há, desde que se aguç~ram o~ ~ovimentos cÍe "minorias"
(E. Orlandi, 2013), uma vontade da verdade que se configura na
proposição do linguisticamente correto: não é negro, não é preto, é
afro-brasileiro; não é homem (sexo masculino), não é mulher (sexo
feminino), é homossexual, ou, mais correto linguisticamente, ho-
moafetivo; não é nem uma coisa nem outra, é "trans".
Eu, Tu, ELE • DrscuRSo E REAL DA HISTÓRIA
com o órgão sexual masculino, se expressa socialmente
confonne dita o papel de gênero masculino e se reco-
nhece como um homem (identidade de gênero), logo
este pode ser considerado um homem cisgênero. Para
compreender melho• a definição de cisgênero, deve-se
analisar a origem etimológica deste termo: eis significa
"do mesmo lado" ou ·ao lado de", em latim. Ou seja,
este prefixo faz referência a concordância da identidade
de gênero do indivíduo com a sua configuração hormo-
nal e genital de nascençat
Há, ainda, outras especificidades: o conceito da identidade de
gênero não está relacionado com os fatores biológicos, mas sim
com a identificação do indivíduo com determinado gênero (mascu-
lino, feminino ou ambos). Além disso, seria incorreto relacionar a
identidade de gênero com a orientação sexual, porque um indivíduo
trans pode ser homo ou heterossexual.
E, nesta região de sentidos, que busca a exatidão do que se Há várias observações que podem ser feitas, se pensarmos esta
nomeia, na precisão .do que se pensa que se é - ilusão de _uma __ definição discursivamente. Como sabemos, não tratamos, quando
_ _ _ __ possíy_elidentidade entre nome e coisa-, atualmente, se formula __ _ J' .. .::,."'"~- -""-'Pellsa o disoJrso, da. wmdo.empírico, mas si!)1bolicamente. E,
o que é "eis". , { neste caso, falamos da construção disrursiva do referente e não do
Na busca do que é "eis", encontramos uma sua definição geral
e, a meu ver, provisória, pois o mundo se movimenta, e ainda mais
rapidamente, quando se trata de denominações que mexem com
sujeitos, sentidos e políticas públicas. Vejamos:
: 208
"Cisgênero é o termo utilizado para se referir ab •in-
divíduo que se identifica, em· todos os ospectos, com
o seu "gênero de nascença•~. No âmbito dos estudos
relacionados ao gênero humano, o cisgênero é a opo-
sição do transgênero, pois este último se identifica com
um gênero diferente daquele que 'lhe foi atribuído
quando nasceu. Por exemplo, uma pessoa· que nasce
Eu não saberia dizer se me identifico ·em todos os aspectos· com meu gênero de
nascença. Exigência forte de definição. Nunca pensei em como devia me sentir porque
sou mulher, ou como se sente um homem, etc. Mas compreendo o que me disse um
amigo: O homem (leia-se: ser humano)é o único animal que luta a vida toda para ser
o que é. Co~strução discursilla do referente e processo de identificação cruzando-se. i . . . .
referente em si.A que juntamos a afirmação, acima, de que não há
uma relação termo a termo entre linguagem, pensamento e mundo.
E, no processo de identificação, não entra apenas a "vontade de
verdade". Mesmo porque o sujeito não tem acesso direto ao que
o constitui como tal, já que neste processo intervém ideologia e
inconsciente. Ou seja, ele não é transparente nem para-.si mesmo.
Tratamos, em discurso, da língua funcionando no mundo
por e para sujeitos. Acontecimento do significante no ser, nos
sujeitos (E. Orlandi, 2001). Nc p~:.K,-;so de significação não tra-
tamos do sentido em si, mas dos efeitos de sentidos produzidos
entre sujeitos no mundo. ls\o significa que levamos em conta, na
constituição de sujeitos e de sentidos, a relação imaginária destes
sujeitos com suas condições de existência. Isto a que, na análise de
discurso, chamamos de condições de produção: sujeito, situação
209
Eu, Tu, ELE - DJScuRSo , REAL DA HISTÓRIA
(imaginariamente constituída: projeção imaginária da situação
para a posição no discurso), conjuntura da fonnulação e memória
disrursiva. Além disso, interessa, como tenho proposto, que se
considerem os modos de individuação do sujeito pelo Estado, em
sua articulação simbólico-política, pelas instituições3 e discursos,
pois é este sujeito individuado que vai se identificar com uma ou
outra formação discursiva e constituir-se em sua posição-sujeito
na produção de efeitos de sentidos, na fonnação social em que
vive e significa(-se).
Como vemos.já nos distanciamos de uma posição que pensa o
sentido como exato, e que pensa a relação dos sujeitos e sentidos
com o mundo de forma direta, não mediada e sujeita a equívocos,
como a consideramos.
Eu, Tu, ELE • DISCURSO E REAL DA HISTÓRIA
e mulheres. Por ser considerado um "papel" social, dizem alguns
autores que afinnam esta noção, o gênero pode _ser construído e
desconstruído, ou seja, pode ser entendido como algo mutável e
não limitado, como definem as ciências biológicas. Ora, não é bem
assim, na perspectiva disrursiva. Pois, se não é a ciência biológica,
ou o binarismo social (homem-mulher), que nos determina, no
funcionamento da ideologia, nãoé nossa vontade pessoal tam-
pouco que inscreve/define nossos processos de identificação, nem
apenas o modo como somos individuados. Há rupturas, há falhas.
Mais complexo ainda é esse processo, se pensarmos em como
se dão nossos processeis de- identificação, nossa interpelação em
sujeitos, pela ideologia, afetados pelo inconsciente. Tudo f~e ao
nosso controle e vontade. Entra, nessa questão, nossa vivência;
nossa interpelação pela ideologia, as condições em que se produ-
No caso que estamos colocando em análise, Q do "gênero", , zem efeitos de sentidos e se constituem os próprios sujeitos, em
temos, eÍltão; na·definiçãcrde"cis", a cm1c0rdanda de ldenfidaâ',........;.;a.;.;.,, -seus modos de individuação. Entra a alteridade; a·exterior-idad.----------- -
do "gênero" (não é ·sexo) cdm ·o indivíduo (honnonal e genital) constitutiva. E as "imagens" que resultam do imaginário social. Em
em sua nascen·ça. Misturam-se aí, sem nenhuma cerimônia, o nossa perspectiva, não ignoramos a força efetiva que a imagem,
que é da instância do simbólico, com o empírico e com o que é no funcionamento da ideologia, tem na constituição do dizer. O
da ordem genética e cognitiva. E tem de haver "concordância de imaginário - as imagens que nos ligam às nossas condições reais
identidade". Ora, em discurso, como sabemos, a identidade resulta de existência e que falam socialmente por elas - faz necessaria-
de um processo de identificação. E é o sujeito• individuado pelo mente parte do funcionamento da linguagem. Ele é eficaz. Ele não
Estado (em suas instituições e disrursos} que se identifica. Não se "brota" do nada: assenta-se no modo como as relações sociais se
identifica com um gênero, mas com sentidos, com uma fonnação inscrevem na história e são regidas, em uma sociedade como a
disrursiva, ou seja, com aquilo que em uma conjuntura dada, em nossa, por relações de poder. A imagem que temos deum homem,
uma situação dada, o sujeito.pode!e deve dizer, significar. Na re- oude.J.lIIla.mulhei; .por exemplo, não cai do céu. Ela se constitui
lação com a ideologia, no-funcionamento da memória··disrursiva -. nesse e::onfronto do-,simbólico com o político, em processos que
(interdisrurso). Interpretação, em nossos tennos. · ligam discursos e instituições. É nece~ário, com nossas práticas,
Segundo. o qu~ se lê, a partir do ponto de vista das ciências a1:ravessar esse imaginário que condiciona os sujeitos em suas
sociais e da psicologia, principalmente, o gênero é entendido como .. ~ siv(~ades e, explicitando O mo10 como sentidos estão sen-
aquilo que diferencia socialmerite as-pessoas;-ievando em· consi- dpwrodµzidos, compreender melhor o que está sendo dito, para
deração os padrões histórico-culturais atribuídos para os homens rontesta-lo, efetivamente, nas práticas sociais. Os sentidos não
nas palavras elas.mesmas. Estão aquém e além delas. Por
A i~içã_o ."~~ é instituição se náo houver alguém que dê voz a ela. Ai se instala a ·;
. pos,ção-,uJe,to instaurada pela articulação simbólico-pol~ica do Estado. issó,'atingi-los é tão difícil. .
que. n~o está em _s~a próp~a origem, mas resulta da inte,;pelação do indivíduo (psico-
b1olog1co) em su1e1to pela tdeologia, afetado pela linguagem.
210 211
r:
r
-!
Eu, Tu, ELE - 0tsOJRSO E REAL 011. HISTÓRTA
Concordamos em que não é corno se considera o sexo (binaria-
mente) que nos levará a uma melhor compreensão dos efeitós de
sentidos produzidos em relação ao que aí se tem significado. Mas
não é tampouco mudando de nome - de sexo para gênero - e ten-
tando redefinir este sítio de significação, de forma linguísticamente ·"'
correta, que se pode interpretar esta equação. O linguisticamente
correto é, sernpr.e, politicamente falho . .E desrespeita a ordem
-da língua. Esta também, com seu impossível. Há que se aceitar
a incompletude·, o-sujeito a falhas, o sujeito (a interpretáção} a
equívoco. O incompreensível.
Eu, Tu, ELE - DlsruRSO E REAL DA HISTÓRIA
eh), por autoras como Julia Sera no, além de militantes
- especialmente as transfeministas - e acadêmicos
anglófonos. Para as pessoas transgênero bem infor-
madas, sempre soou estranho. por exemplo, chamar
pessoas não-trans de "heterossexuais", óbvia analogia
a "homossexuais" (reafirmando a confusão comum
entre orientação sexual e gênero). Nem toda pessoa
trans é homossexual, e nem- toda pessoa que não é
trans é heterossexual.'.
Como ·~-e pode .observar, o subtítulo é "A verdade cisgênero'',
onde poderia ser, por paráfrase, "a definição de cisgênero" . Mesmo
Palavras e coisas não são coincidentes. E iludem-se os que se, na sequência, se faz apelo a argumentos do discurso da ciência
pretendem encontrar a palavra exata para cad_a coisa. Tanto a lin- (sexologia, autor legitimado etc), do discurso político (militante).
guagem con:io o mundo não são transparentes e, como dissemos, Podemos, em um recorte que mostraremos em seguida, analisar
não se ligam termo a termo. Tampouco se encontram palavras neu- este jogo de formações discursivas diversas - a militante, a que
tras em suas,interpretações.-A interpretação é sujeita ao múltiplo, se quer linguísticamente correta- em que se pretende dãrnomes
ao incompleto, ao equívoco, ao incerto, ao político. Trabalho da justos para que os sujeitos se definam como querem, em um.mundo
interpretação e da ideologia. Em que a falha é o lugar do possível. justo e-capaz de ligar palavra e coisa sem valoração, sem falha, sem __
- ----- - ·\ ;· equívoco. Ou seja, sem interpretação. Sem po\ítica,_se_m p_o_d_er_,"_se_m_-___ _ _
ALGUMAS CONSíDERAÇÕES-Ai'íAIÍTICfiS"SOBRfU-C/S----} r ·-- ideologia.Palavra e coisa se colariam na medida certa. Ainda que se
Não podemos ignorar o discurso que se faz sobre o cisgênero. -. saiba das dissirnetrias e posições-sujeito politicamente significadas
Em que salta aos olhos a busca da "verdade", do "preciso", da da nossa formação social c_apitalista, se levamos em· conta a sua
relação justa entre palavras e seres ou coisas. Em que se apaga historicidade (materialidade).
da reflexão tanto o político como ai deologia, a possibilidade de
equívoco. A incompletude, Vejamos um exemplo como segue:
212
· "A verdade cisgênero
Postado em: 28/01/2015 por: Autoras Convidadas
Texto de Jaqueline Gomes de Jesus.
Tentarei escrever da maneira mais didática possível.
Foi uma sacada excelente a de quem, lá pelos anos
2000, resolveu utilizar a palavra "cisgênero" para se
referir a pessoas não-trans. L~go foi adotada, às vezes
como "cissexual" (dizem que o primeiro a cunhá-la foi
o sexólogo, físico e sociólogo alemão Volkmar Sigus-
Vamos a outro recorte:
·contudo, para além destas denúncias que precisamos fazer para
viver, também oferecemos nosso olhar sobre vocês e nossa vivência
do corpo nesta sociedade tão restritiva_ Quando eu chamo uma
pessoa de cisgênera, estou dizendo que não a-genitalizo: Se vejo
uma mulher, não vejo necessariamente uma vagina, se vejo um
homem, não vejo necessariamente um pênis. Não vejo também
as pessoas necessariamente com uma função e um papel sexual a
exercer. E nesta não-necessidade cabem função-nenhuma e papel-
nenhum. Quando digo que uma pessoa é cisgênera, estou dizendo
que ela tem liberdade para autodeterminar-se_ Eu reconheço esta
autodeterminação como um direito humano, um que está tolhido.
213
Eu, Tu, ELE - DJSOJRSO E REAL DA HISTÓRIA
A liberação e emancipação trans não começa e termina nas pessoas
trans. Ela busca uma sociedade que promova a vida em todas as
suas manifestações. E a quem queira refletir mais um pouco, que
pense nas alternativas: pense no mundo sem cisgênero e no terrível
normalidade compulsória por trás da ausência de um nome. Há muito
mais que 'opressão por trás dos termos eis. Eles são a chave para a
partilha e a expansão de nossas vivências na alteridade.[grifo nosso].
Os links desta página foram verificados em 15/DEZ/2014
Liberdade, normalidade compulsória na falta de um nome etc.
Discurso militante, idealizando pontos devista, e vontades.Ilusões
do linguisticamente correto. Como se o sujeito pudesse autode-
terminar-se sem que a linguagem, em sua ordem, funcionasse,
apesar de nossas vontades. Vontade de saber, vontade de poder aí
se juntam. Sem esquecer que a linguagem, não sendo transparente,
-----a=q'l'u=i~lg~q"l'Y=e est.á.dito-acima,-a favor deste linguisticamente correto; -
escapasse a alguma ·d~erminação, à falha, ao equívoco. A crença
no nome esquece que tudo é sujeito à interpretação e .à ideolo-
gia. E isto é pre<ciso levar ein conta para fazer "as denúncias que
precisamos fazer para viver". De acordo que é preciso denunciar:
Não posso deixar de acentuar, também, a invocação da palavra
"alteridade" como solução de tudo. Ora, há sempre contradição,
e na ilusão da unívocidade, esquece-se que esta alteridade, que
nos é constitutiva, também inscreve neste outro, o Outro, ou seja,
a memória discursiva, a ideologia que já vem com seus já-ditos,
já significados:''0 infemo'São ·os outros", diz Sartre (2007). Há,
ainda, a observar, ·que, nesta situação disãirsiVã,"à alteridaêle vale
pelo sujeito que poderia viver "outros" eu. 9 que não caracteriza a
alteridade. E, como sabemos, não se pode falar do"lugar do outro.
214
Podemos ler, ainda, em outra defesa do uso dá palavra cisgênero:
"Mais que uma palavra, cisgênero é um posicionamen-
to. E ressalte-se, quando falamos em "cisgeneridade"
estamos nos referindo a uma identidade social, e não
apenas a uma expressão de gênero. No Brasil, ele vem
Eu, Tu, ELE - DJSaiRSO E REAL DA HISTÓRIA
sendo progressivamente utilizado, não apena~ por
transfeministas, e com uma surpreendente velocidade
de apropriação. Nesse ritmo, notam-se algumas re_ações
contrárias à sua adoção, que por vezes são emotivas e
chegam ao rechaço. [grifo nosso l-
Reconhece-se, ao menos, que, uma vez introduzido, o que
se -poderia chamar um "neologismo", ele se expande, cria um
movim~to no percurso soçial: de aceitação e de re:11aço. Mas,
diswrsivamente como sa~mos, se não ressoar, se nao ecoar na
·história, como-di~ M. Pêcheux, não pega, não cola, não permanece.
P-0rrani:o, não depende só da-vontade do sujeito, nem muito menos
da@laboração "científica" dos que pensam no-linguisticamentemr-
r~to como sendo capaz de "consertar" a realidade. A palavra vale
pelo que significa. Depende da ideologia (j.ogos da.interpretação
na formação social, na história). Além disso, a palavra c:isgênero
aparece, neste recorte, como um "posicionamento", uma tomada ___
de posição política, face a identidade social, ou seja, uma palavra
militante. Se é militante, certamente, é sujeita, politicamente, a
contestação e a disputa .de seus sentidos. E os sentidos, como
aprendemos com Canguilhem, são sempre relação a. Neste caso,
vale pelo que pode significar enquanto militãncia que dá visibili-
dade a uma questão5• Isto, sem dúvida, importa. E aí voltamos à
qu~ão das minorias (cf. E. Orlandi, 2013).
Penso,.egfim, que o equívoco é trabalhar-se com categorias
sli~cas-{p.ipcl.sooal, por~emplo}.quando, o qoofun-cion.ana . . .. e.-">
"í/i.;~agem é o ~~bólico: a ideologia, o-inconsciente: o que funciona ·-
parir os sujeitos e os sentidos, não são;os papéis sociais, mas sua
pró)eção imaginária, nos mod·os de ~viduação do sújéito face às
Jii:w31¾~ discursivas, em oµtras Palav,ras, as _posições (disrursivas)
S --: Remeto aqui a um trabalho que fiz (MQsaico_dé Falas, 1988), a partir de uma discussão
'_ ...... -ptoiJlbvida •pela revista -Cláudia; sobre mulheres -e o feminismo. Em certo momento,
' lemt,ro que o "nós, mulheres", ao afirmar a particularidade do agrupamento, pode
exduir (pastoralmente) a singularidade do sujeito. Além disso, ainda-que sej_a uma
, forma de resistência, na ideologia das minorias, a forma·como o Estado gerenc1a suas
rêiâções com os grupos toma as mulheres mais visíveis, logo mais passiveis de controle.
Mais ainda, na visibilidade está também o objeto do ódio. Não podemos, pois, deixar
de pensar a contradição. Ao preço de nos deixarmos imobilizar.
215
Eu, Tu, ELE - DlscuRSO E REAL DA HISTÓRIA
sujeito. E estas não são controláveis e nem significam pela nossa
vontade de verdade. E aqui poderia introduzir a noção de "vontade
do sistema" de Nietzsche (1887). A isto voltaremos mais à frente.
Nesse passo, basta referirmos ao fato de que, discursivam~~te,
o que está funcionando, mesmo em relação ao eis, é a interpeJação
do indivíduo em sujeito-pela ideologia, afetado pela língua, assim
como os modos de individuação do sujeito pelo Estado, seu pro-
cesso de identificação e sua posição-suJéito na forma.çãÕ social.
· ·-Esta,_ c'or)Stitufda ·por relações dissiffietricas e àfetatla: peros·vafores
produzidos pelas relações de poder. O político, o social, o histórico
e o ideológico se artiéulam na produção da vida e de como colo-
camos nomes nas coisas. A língua, por seu lado, se impõe em sua
ordem, em seu-real. O que significa que não temos controle sobre
os sentidos ou sobre os sujeitos, mudando palavras, pensando com
isto mudarmos a realidade-(sobretudo a social com seu imaginário,
sua dissimétria e seus valores ideologicamente constituídos). ~•
Observei este funcionamento _n_g_análise d;;s palavras de um
_ _ _ ____S)Jj.eiJ:o trans falando sobre sua posição em ~elação_a_estªs ques- _
tões. Vejamos mais um recorte discursivo.
Trata-se dejoão Nery (Estúdio i/Globonews, 29/06/2016), que
escreveu um livro cujo tí!:9l0 já diz muíto em sua escolha: Viagem
solitária. Distancia-se da sociedade binária e propõe, justamente,
o reconhecimento de todas as formas de sexualidade. Mostra
também, de forma importante, como, em termos deformação dos
~ujeitos, de nossa sociedade, esta questão só é pensada; qua~êio
pensada, no fim da formação, e não no início, como deveria ser. ·;;,
Esta solidão está também aí, na forma como a própria form·ação se
dá. Isto é tão forte que, muitas ve'zes, o sujeito, individuado por
esta articulação simbólico-política, que desconhece as inúmeras
possibilidades do sujeito relacionar-se com sua sexualidade - J.
Nery diz gênero (distinção sexo/gênero ortodoxa) - não_ consegue
se identificar - pois tem de relacionar-se com os valores binários
da sociedade, masculino/feminino - e resta um indivíduo solitário
216
Eu, Tu, ELE - DtscuRSO E REAL DA HISTÓRIA
e sem lugar, frente ao papel social que desempenha. João Nery,
que é trans heterossexual (ele tem sua mulher) diz que nunca "se
séntiu" mulher.- E, contrariamente ao que se poderia espera~ nesta
relação com o outro, ele nos mostra que el_e era homem para os
desconhecidos (o que o deixava mais à vontade), mas era mulher
para os conhecidos (ou seja, aqueles que conheciam sua carteira
de identidade, seu nome etc). Há um largo questionamento das
regras sociais para a emissão de carteiras de identidade_que, para
nós, remete, fundamentalmente, aos modos de denominação do
sujeito em nossa sociedade, taxonomia com seus valores, papeis e
posições de poder que podem estigmatizar ou promover os sujeitos
assim individuados, pela denominação oficial, em sua carteira de
identidade. O administrativo gerindo um nome e uma forma de
vida. Burocraticamente.
Aí, a questão da denominação, -1I_çança uma, digamos, rea-
lidade, na medida em que não é só uma de.nominação, mas uma
designação oficial, que fixa a taxonomia, a classificação oficial,
binária: ou é homem, ou é mulher. E é em relação a esta taxonomia
- -oficial -que;-sem-dúvida, faz-mais-sentido-o-discurso militante do
cisgênero.
Nery faz, também, em sua entrevista, uma crítica a uma afir-
mação de Freud, a de que a anatomia é um destino. Ele discorda,
afirmando que o corpo a gente cria. Afirmação que não está longe
do que diz Simone de Beauvoir sobre o "tomar-se mulher", no
caso do "segundo" sexo. Ou do que afirma Sartre (idem) de que é
a'existência que preside a consciência.
Mais forte é sua crítica ao discurso médico , que cria as doen-
ças, segundo suas palavras, no final do século XIX, considerando
o trans comodoença mental (CID 10, DSMS, 64,0). Ou seja, há até
um indexador para os que aí são identificados. Em seu discurso,
como em outros que observei, há um forte investimento também
em distinguir a identidade trans e a orientação sexual; um trans
pode ser homo ou heterossexual, ou mesmo transexual.
217
Eu, Tu, Eu - DlscuRSO E REAL DA HISTÓRIA
. Enfim, e~tas observações, que faço, vão em direção à crítica
muito bem f~1ta'. ~o binarismo social• e a suas consequências par;
os ?1odos de md1V1duação dos sujeitos. Para nºós, este é um sintoma
da impossível _relação termo a termo entre linguagem/pensamento/
mundo. E da irrecusável presença da ideologia atestada na inter-
pretação. O que não invalida, em termos políticos, uma tomada
de posição na práxis social. Ao contrário, reforça. , '.f '.~:·
_· , Nossa crítica é em relação ao linguisticamente correto, pois, se ,J.:· ,-
tJvessemos que obedecer a todas esta~ condições-do real das coisas ;j · ·)
fac~ ao real da Hngua, toparíamos com o impossível. Se pensarmos '~·
assim, todas as palavras teriam que ter o seu ds, as eis palavras, t
pois não há esta correspondência unívoca entre palavra e coisa, J .
em termos de categorias gramaticais, na medida em _que se fala em Ji
eis, pensando-se gênero (designação) e não a identidade7• Porque, 'j
_ p_an1 a identidade,-não é necessária, nem exis..te,_es:ta.p_i:..eci.são,_e_s.ta_ -4 •
fixide_i;. j>or isso ._ reafirmo a importância de se falar em sexo, de ,~
forma direta, e não mudar um termo, chamar de gênero, pois não $: [ri.
resolve a questão, ao contrário, ilude-se.' E arrefece a importância de {;.
reivindicar-se a indefinição, a mobilidade, a mudança, as nuances. -[
~-
A vida não é um argumento.
Afirmação forte. Só um autor pode sustentar isto de manei-
ra tão definitiva: Nietzsche (1887). Mas se nos impressionamos
6 "Lemos nesta página do bJog, que menciona Hailey Kass: ·Quero deixar aqui uma
mensagem mais positiva a respeito da cisgeneridade. Esta é uma gentileza de co-
ração: RÍ!coríhecer a cisgeneridade significa. sim; o reconhecimento das assimetrias,
dos lugares de fala desiguais, das diferenças. E significa também ouvir as pessoas
trans. Saber que estamos passando por dificuldades que_ as pessoas císgêneras não
passam. Que sofremos tje exclusão, ignorância, ódio e violência. (_.)_ E a quem queira
refletir mais um pouco, que pense nas alternativas: pense no mundo sem cisgênero e
~.terrível normalidade compulsória por trás da ausência de um nome. Há muito mais
que opressão por trás dos termos eis. Os links desta página foram verificados em 15/
DEZ/2014". Sem dúvida, nestas palavras lemos a importância crucial das palavras, da
denominação, na vida dos sujeitos. E não podemos ficar indiferentes. . ..
7 Devemos referir ao que se apresenta como discurso acadêmico. Disrursos que já são
criticados por eles: ·E estãmos escrevendo para demandar que nossos Corpos sodopo-
líticos deixem de ser apêndices dos corpos cisgêneros nos disrursos médicos,jurídicos,
sociais e antropológicos·. E çontinuam: ·A palavra 'cisgênero' estática, dos rebuscados
textos académicos, parece a mim uma versão gourmet, assinada por um chef de um
prato que nós, pessoas trans, preparamos em nossa quebrada- nosso gueto intelectual.
Parece o que fazemos, mas é uma releitura mais cara e menos autêntica.•.
218
{i·.·
·i . ,.
Eu, Tu, Eu - OJSCuRSo E REAL DA HISTÓRIA
com a força desta afirmação, não nos é menqs importante, e isto
para nossos fins, outra de suas asserções:_ "Não é o mundo que é
absurdo, mas a vontade de lhe dar sentido". Também de Nietzs-
che. E ainda outra, aparentada a esta: "Não existem fatos, apenas
interpretações". Afirmação que sustenta, a meu ver, a que tenho
trabalhado em meus projetos: "Não há senão versões". Pois, se é
absurda a vontade de dar (eu diria "um") sentido ao mundo, não
é menos certo que o sentido é.
Já se pressente que a pal_avra "vontade" que estamos colocando
em nosso texto, não é a vontade psicológica. Trata-se de algo mais
furte e menos acessível. Na Íinha de reflexões que fazemos, e na
esteira de Nietzsche, é, agora, a vontade de sistema que aí se alinha,
na sua proposta crítica. Nesta direção, se pensarmos a questão da
alteridade, não é o semelhante que Nietzsche visa, no encontro,
mas o outro, através das diferenças, o estrangeiro. Solitário. Ele
·busca a distância. Mesmo porque, para ele, nao há suJe1to, mas
urria pluralidade de "moi" possíveis. Porque o sujeito é múltiplo.
O corpo, neste caso, é o edificio de um múltiplo.
De acordo com esta perspectiva, o que fala em mim são os
outros. Porque já me identifiquei como diferente deles. Tome-se o
que você é, adverte Nietzsche. E isto significa, segundo o autor, que
crem;lo que já é (simples e não múltiplo) você não vai ser o que é.
As coerções são parte desta formação de unidade, de uniformidade
e ~e espírito gregário. A moral, diz Nietzsche (idem), existe para
. -~ -ª ~luraHdade em mim e fazer emer.gir o. su]éito forjado na
·ia,entidãde éoletiva cjo ''.tfoupeau" (m!J!1é!da). -".
Entra, então, a questão da liberdade (em Sartre, somos obri-
g%fos a ser livres). Para Nietzsche, o caminho na existência se faz
~eeentramentos sucessivos, em fac~ de si mesmo, daquilo que
~~:deteçmina para o idêntico. Quand_à_ajo, ç!g__Q AUtor, introduzo
a,~ erença entre eu e eu mesmo, liberando-me do que fui (sujeito
g~.~i!Ilte). Assim, podemos dizer que, nesta maneira de pensar
o sujeito e o outro, a identidade é feita de distância, de errância.
219
Eu, Tu, ELE - DlsOJRSo E REAL oA HISTÓRIA
Distanciar-se da situação na própria situação. A identidade é feita ,
de movimento, digo eu (E. Orlandi, 1990), e a distância, dõ' que ':
nos determina, é parte das falhas que nos constituem. Tornar-se
o que se é.
Nesta mesma direção podemos pensar a interpreta_ção, a
compreensibilidade, de que fala Nietzsche.
V0NTADÉ DE SISTEMA E COMPREENSIBILIDADE:
ESTACIONANDO NO INEQUÍVOCO
Esta discussão da vontade (da verdade), da busca do um, do
exato, do unívoco, do linguísticamente correto, que, neste estudo,
está representada pela nossa proposta de discussão do chamado
"gênero", nos leva a uma questão fulcral que é a da interpretação.
-Que, em Nietzsche, segundo nossa observação, é posta na discus-
são da compreensibilidade· e na vontade do sistema .. Filosofia da
interpretação, diz ele, que afirma o indivíduo e não o universal.
Vamos passar rapidamente por esta reflexão ~ra-chegar, em
nosso trabalho, à questão dos sentidos (polissemia, silêncio e fuga)
e dos sujeitos (decentrados), pensados discursivamente frente à
ordem da língua.
Podemos partir, na reflexão sobre a compreensibilidade, do
que Nietzsche parte, ou seja, de que "não se quer apenas ser
compreendido, mas também não ser compre~ndido". Com isto
Nietzsche questiona se um homem pode compreender o outro
(Nachlass/FP Outono 1887). Pela vontade de sistema, caracterizada
pela compreensão universal, supra-individual , visa-se esta meta-
compreensibilidade, diz ele. O que Nietzsche considera coino um
preconceito moral, uma patologia, que levana a uma filosofia de
que "se todos se compreendem bem, então é verdade". Esta é a "'
exigência de uma doutrina supra-individual, de uma desinvidi- ;
vualização da argumentação, segundo palavras de Nietzsche. O
processo de desindividualização de argumentos cria um ·sistema
220
Eu, Tu, ELE • DlsOJRSO E REAL DA HISTÓRIA
de conceitos cujo fundamento é considerar o semelhante como um
igual. O algo comum que haveria com os outros e com as coisas.
• o chamado "gemein" (comum) que também pode ser considerado
,. inferior e vulgar.
Ora, ao contrário disso, Nietzsche propõe o distanciamento ,
a alma superior não vulgar (nobre), que não quer nada em comum.
Temos, assim, sua filosofia da interpretaçào e do signo. Distancia-
mento dénitaação na própria situação. Fluidez: Nuance. Esta
filosofia da interpretação (1880},"que~el~ propõe, é uma filosofia
da individualidade · (não universalidade),busca de superação da
compreensibilidade.
Com isto se nega o estabelecimento de um conceito com
validade universal, que pudesse ser compreendido univocamente
por todos, pressupondo algo comum (gemein) entre os homens.
Somos irremediavelmente dimmtes, e não temos algo em comum.
A nuance, o equívoco, a fluidez de sentido é o revés da vontade
do sistema, da doutrina, do unívoco. E, no meu entender, isto é o
discurso, isto está no modo de individ-úâção dos suJeitos. Que me
leva ao não coincidente na polissemia, à fugã" de sentidôs,'à flui:-
dez da língua. Que, agora, lido nesta perspectiva, para que aponta
Nietzsche, me faz referir ao·que diz M. Pêcheux (1975): a linguagem
serve para comunicar e para não comunicar. E o modo de individu-
ação do sujeito não é feito do comum, nem do compreensível. Só
é assim quando pensamos na coerção produzida· pela articulação
simbólico-política do Estado por suas instituições e discursos. A
diferença é constitutiva. A falha, a ruptura. O equívoco.
Quero, além disso, insistir sobre este aspecto da interpretação
e da individuação, tal como tenho proposto em r,1inhas pesquisas.
Relacionando-as agora à questão da alteridade.
Se, em meus trabalhos, tenho afirmado a não coincidência en-
~re sujeitos, d.o sujeito consigo mesmo e do sujeito com o sentido,
importa aqui ressaltar a _não coincidência do sujeito com o outro.
221
Eu, Tu, ELE - D&uRso , REAL DA HISTÓRIA Eu, Tu, Eus - OlsOJRSO , REAL DA HISTÓRIA
Orlandi, 2014). Aqui acrescentaria que somos nuance, diferença
em relação ao conceito.
INDISTINÇÃO E DÊIXIS DISCURSIVA
No pensamento de Nietzsche entra aí, apensa à questão de
compreensibilidade, a da fluidez, da distância, e a de "amigos".
Aliadas à noção de Spielraum (traduzida como margem de mano-
bra). E como há sempre um espaço de mal entendido na com-
preensão, só entre amigos este pode configurar a nuance. Neste
caso, segundo o autor, a não-concordância não é ofensiva, mas . t, Vou retomar, de meu projeto de produtividade do CNPq, ª
revela uma sutileza de interpretação, um espaço para O equívoco, ~- : proposta que fiz para trãbalhar com a questão da indistinção e as
margem de manobra. Nuance. Nesta direção, não posso deixar 'f fronteiras, ou melhor, nas fronteiras da linguagem,
de-trazer o ·aforismo 371 de A Gaia Ciência, cujo título é "Nós, t .· Na perspectiva em que tomo a sociedade na história, discur-
os incompreensíveis". E o faço, se não fosse pela minha própria , ,. ' sivamente, ou seja, signjficàda e significando, distingo movimento
experiência com a incompreensão, sempre tão presente em minha 1·, ':' social' e movimento da/na formàção social, ou movimento_dda/na socieda-
vida (não só) acadêmica, mas pensando M. Pêcheux, marcado, em J/" .. de. Na perspectiva discursiva em que refletimos, cons1 eramos que
suas intervenções, pelo mal e~tar que sentia em relação aos seus são movimentos sociais as organizações de grupos, com reivindicações
ouvintes, voltando para casa com a formulação fatal: ''.Je déran- t:; ,,. que os identificam (as dos sem terra, as dos sem teW, as da Lgbt
ge". Signo do mal entendido, do equívoco, da in-compreensão. etc), que se praticam na instância do imaginário social, enquanto
,-----"istância."Marge,m de' intérpretãção.· · -------- - -'-,..il=- ~o~m=o=v""1m=e=n=o~n=a"""onimção social/sociedade é da instãncia da ordem, no
Para esta discussão, trago uma noção, que venho trabalhando .,. , que tenho tratado como distinção entre ordem (real} e organização
em minhas pesquisas', que é a de indistinção, noção que, por sua ~,, (imaginário} (E. Orlandi, 1996, entre outros}.
vez, nesta perspectiva que estamos apontando, nos leva à de suti· - .:b Desta perspectiva que assumo, a sociedade está em contínuo
. N
leza de mterpretação, de nuance. Que Nietzsche usa na definição - · movimento. Esta concepção de movimento do social (ou da socieda-
de si mesmo: "apesar de mim, eu sou uma nuance" (Nietzsche, de) é parte do que produz o que tenho concebido discursivamente
O caso Wagner). A nuance, se~ndo o autor, é distanciamento do como resistência, ou como violência, quando este movimento é
conceito, é a diferença em relação ao conceito. Daí minha pergunta: contido, reprimido, interditado. Se, como digo (E. Orlandi, 1992),
por que esta vontade do inequívoco, do unívoco, do uso comum onde há censura (interdição de circulação de sentidos •pelas dife-
(gemein)7 Não estariam aí a falta de sutile~a da interpretação, a r~ ÍQJJllilÇÕes dis,rursivas possíveis) há N$~ii, taJ;n!;>éJD
vontade dã·ç~mpreên;iÍJilidade, de qes-inyLdualização?_ A vontade quanto ao movimento da/na sociedade, onde há interdiçã.o d~ss~
do linguísticamente correto não é também a vontade de siste~a?
Do universal abstrato? Quando, se pensarmos a diferença como
diferençàienf sua ordem, saímos da validade do universal abstrato
e vamos em direção à superação da compreensibilidade. O que
afirmo em um de meus trabalhos: Ser diferente é ser diférênte (E:-
222
A questão da indistinção apareceu-me.já há alguns anos, no trabalho com os rneni-
po~ d? tráfico, com. o~ pi~adores etc. Impunha-se, na anâlise, a relação, muitas vezes
mdrstmta, entre res1stenc1a e marginalidade. Ou no que é denominado terrorismo, a
fronteira com o que é resistência. ·
9. Volto a referi~ aqui E. l.adau {1991} que oitic.a a transparência da noç.ão de classes,
par~ os ma~stas, o que leva a deslocament~s como o .da sociedade politica para a
.~ocied~d,e ~li eda luta de dasses para os movunentos sociais. P.rocesso de •descoberta
,~·,, ·_da·sõaedade cotno lugar da política", diz l eH~s (1987). Laclau (~ mestra como
' ! .;a qu_e~ do SUJert~ é tratada de maneira diferenciada na teoria '50cio16gica com o
;·- . su~1rnento de m_ov1mentos c-entrad?s em questões identitárias c•novos movimentos
, s?':iais"'). A a_proxr~a~o de A Tourame (2003), com suas distinções (mOVimentos so-
crars, culturais~ h1stóncos), toman~o a contest~'!ão como pennanente, com Castells,
r~s~lta na Teona dos Novos M?~1mentos ?oc1a1s. Também Melucci (1999) trabalha
d1sbnções_em que os atores {SUJei:tos) colet1vos têm o papel de revelar 05 problemas
para a soaedade, e ele fala em redes de grupos. Deixa de centrar--se · · ·t
fala em at~res conectados. em um SUJe1 o e
223
1
1
--!--
Eu, Tu, ELE - DrscuRSO e REAL oA I-ISTÓRIA
movimento, há condições para rupturas, sejam elas chamadas r:
. sistência e/ou violência. Explosão do real social contido. Vi~lênci'
ou resistência? São muitos os materiais de análise que lidt~i pa··
esta pesquisa, ao longo de meus trabalhos.
A partir da análise dos movimentos da/na socieda(\e - e
pesquisa com mulheres de um bairro de periferia de Campinas :
cheguei a alguns pontos de referência para meus trabalhos. uni:
deles, em refaçãÕ à questão dos movimentos d~ social, é que no ·, ,
funêionarrfento da sociedade aé cfasses, do ·Estado capit~lista, '•
formam-se "nichos de vida", como denomino. Restos de relações :
sociais que "derivam" do movimento do social, para a não dete- •
rioração radical do corpo social, com a segregação desses corpos :
viventes. Formulações que analisei nos discursos dessas mulheres, .;
como "Sempre me ajudaram", "O policial me dava a passagem ou
me dava um dinheiro pra: eu ir pra outra:·cidade", "Pi!; vezes, uma
lata de lavagem ... que eu comia pra poder amamentar meus fio com
mais leite", "Eles raspavam do prato direto na lata", levaram-me a
compreender a condição humana ein detritos, que se encontra, nos
ãtravessamentos1º, que resultam no que ·chamo "nichos de vida".
A da família que dá a lata de comida, a do caminhoneiro que dá
"carona" e divide o "lanche", a da "colega"11 que vai junto procurar
emprego, etc Podemos chamar estas relações de "relações sociais",
tal como estão formalmente definidas no ca~o da sociologia?
Certamente, só se fosse com uin sentido muito particular. Não se
caracterizam como tal, mas são laços que se ptoduzem, produzindo
nichos de subsistência. (R)existênciã, apesar de tudo. Buscaper-
manente de laços com a sociedade que os segrega. Corpos em sua J
presença, apesar da segregação, sem as condições necessárias de
sobrevivência, teimam em (r)existir, no corpo social. Segregados,
agregados. Restos do social. Do modo de indiviQJJação desses sujei-
tos resultam sentidos, tanto para o que são, como para as relações
10 Observe-se que não uso aqui a palavra ·encontro·.
11 Observamos que nunca é uma amiga ou uma pessoa da família que ajuda. São relações
com outros sujeitos, desconhecidos, que caracterizam •taças sociais• embora não
constituam •relações sociais• em seu sentido mais próprio, formal. '
224
j
Eu, Tu, ELE - Dt5aJRso E REAL DA HISTÓRIA
~- ue estabelecem e que dão impulso para se passar do ainda não
::qignificado para o sentido possível.
Criam-se assim situações em que se constituem sujeitos, por-
que se constituem outras posições que vão materializar novos ( ou
outros) lugares na formação social (E. Orlandi, 2005); ou para que
"territórios de existência possam ganhar corpo" (S. Rolnik, 1997).
Situação que se distancia da situação, diria Nietzsche? E, com
eles, outros sentidos, outras posições-sujeitos com suas formas de
significar. "A sociedade se-movimenta em processos de significação
de resistência e/ou violência. ·- -
Na relação da indistinção, como esta que acabamos de referir,
funcionam, a meu ver, na dependência da relação com a "alteri-
dade" que estabelecemos, as margens de manobra, as sutilezas
na fluidez dos sentidos: as nuances. Questão de superação da
compreensibilidade, liberação· dos espaços de manobra. Fluidez
não só dos sentidos, mas também desse "outro". Fluidez do "tu"(o
outro). Fluidez do "ele" (o Outro). Assim, pensando o exemplo que
demos, do "gênero", do "cis'•:refletindo sobre a questãó.da fluidez,
podemos dizer que esta vontade desistema que busca exatidão
nas formas de denominação para encontrar a justeza dos sentidos,
a justiça social, esbarra na ilusão da compreensibilidade (univer-
sal), no jogo da interpretação, na construção dos mal entendidos
sodais. Não é no nome_, m·as na constituição desta alteridade que
reside a possibilidade de sentidos, com suas nuances, sua fluidez,
seus equívocos e deslizamentos. Na sutileza da interpretação. Mal
entendidos. NãQ no sistema, mas na individualização da compre-
ensibilidade.
Penso aqui na noção que c1.ü1hei para trabalhar estas :nargens ·
do dizer, estes sentidos distantes, que é a noção de falas desorga-
nizadas (E. Orlandi, 2003). E proporia que se pensasse, pois, não
em organizar a linguagem, definir palavras, fazê-las unívocas, mas
desorganizar a linguagem, levá-la a suas fronteiras. Abrir fronteiras
para a vida. Nas palavras.
225
' r
Eu, Tu, ELE - DISCURSO E REAL DA HISTÔRlA
NARRATIVIDADE E DENOMINAÇÃO
Trabalhando com.a interpretação, e considerando a articulação
entre estrutura e acontecimento, relação do estabilizado e o sujeito
a equívoco, nossa reflexão· e análise se apoiam em noções como
paráfrase e polissemia, deriva (efeito metafórico), incompletude,
silêncio, visando o processo discursivo. Pensamos o processo dis-
cursivo como "o sistema de relações de substituição, paráfrases,
sinõnimos, etc que funcionam entre elementos significantes, em
uma formação discursiva dada" (M. Pêcheux, 1975). Observe-se
que não é em relação ao texto, mas à formação discursiva, ou
seja, é. na relação do ·texto com a situação discursiva (condições
de produção) e a ideologia, que está nossa observação. A busca do
processo discursivo nos faz alcançar, ao mesmo tempo, o modo de
produção dos sentidos e de identificação dos sujeitos.
Analíticamente, considero dois funcionamentos discursivos
interligados que são aqui fundamentais: a narratividade (E. Orlandi,
2001, 2012) e a denominação (2011, 2012, 2013ª).
,_ Sobre a narratividade, em E.- Orlandi (1990), já anunciamos
nosso interesse em deslocar esta forma de linguagem da trilogia
refém de uma dassificação retórica datada: a do eixo tradicional
entre narração, descrição e dissertação. Em projeto sobre Disrurso,
memória, processo de individuação e constituição da identidade
(201 O), redefinimos a narratividade como a maneira pela qual uma
memória se diz em processos identitários, apoiados em modos de
individuação do sujeito, afirmandoMnculando-seu pertencimento/
sua posse de mundo a espaços de interpretação determinados, con·
soantes a espeçíficas práticas discursivas. Essa definição discursiva
qué pro·curamôs imprimir em nossa reflexão pressupõe um deslo-
camel1_!:Q _ql!_e n~ faz sair, tanto do campo da retórica e cja questão
dos gêneros 0iterários), quanto do campo da pragmática, para nos
inscrevermos no campo da discursividade, tomando a narratividade
no funcionamento do interdiscurso, memória constitutiva.
226
Eu, Tu, ELE - DlsruRSO E REAL DA HISTÓRIA
. Para ilustrar O que estamos referindo como narratividade, re-
tiramos um exemplo da mídia: a jornalista, da 1V Globo,_diz_ a_:•~~
vândalos se infiltraram e depredaram os carros em concess1onanas ,
enquanto outra forma de intervenção da narratividade possível
seria b. ''.jovens que estavam na manifestação depredara~ ~arros
em-concessionárias". Diferentes funcionamentos da memona dis-
cursiva, em (a.) pelo estabilizado na imprensa, funciona o efeit_o de
pré-construído, que divide (vândalos e manifestantes~, produ~mdo
sentidos ·contra manifestantes que fazem gestos ditos noavos à
propriedade privada; estes são os que chamam "vândalos" e nã~
manifestantes, em uma tâla que produz uma divisão. Em (b.) a di-
ferença entre os manifestantes aparece, mas sem ap_elo a sentidos
já estabilizados na memória discursiva da própria mídia, por isso o
jovem é dito/significado como estando na manifestação e não como
"alguém infiltrado". Eles são parte. Duas formações discursivas
em confronto,enqoant-0-difereAt-es-regiões-do-interdisEUrso~Um
manifestante - o significado/narrado como vândalo - ataca/depreda
objetos de consumo, Bancos, propriedade privada. O outro mani-
festante também atenta contra o poder constituído, desta feita via
reivindicação: gritando por transporte coletivo, política pública
(preço mais baixo). Na realidade, ambos são contra as mesmas
coisas, mas na medida em que.hã diferentes modos de funciona-
mento da narratividade, uns são denominados vândalos, perdem
o d/reito à palavra, e o que fazem é chamado de violência. Na fala
da} ornalista há, por esta forma de denominação, silenciamento
d9wlfiico, t4ossa questão é~ os manifestantes que reivimüG\111,
seriilfl] m que resistem? Resistência aí significa diferentemente de
violência? Os vândalos são os produtores de violência? Não são os
W;:1'"~ (esist.e~? Questão jurídica. Questã~ de intei:pretação, questão
~f política. Ao denominar o mani~te de "vândalo", todo
~ pr?,c~so dis~rsiv~ é desencadeado :pe~a narrativ_idade. E~se
·Qutro. que fünaona a1, neste espaço de interpretação produzido
i :_ ~ _mídia e outros protagonistas, põe em funcionamento . um
. processo de significação rião voltado para o "amigo", e não deixa
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-i
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1
1
Eu, Tu, ELE - DISC\JRSO e REAL o• HISTÓRIA
muita margem de manobra para os gestos de interpretação. Não
há sutileza, não há nuance, não há fluidez. Já os denominados
"manifestantes" podem ser nuançados, transitam pelo espaço ele
manobra, na sutileza de diferentes gestos de interpretação (e de
inscrição ideológica). . 1-
Da mesma maneira, ao falarmos em "cisgênero", um processo
Eu, Tu, ELE - ll!scuRSO e REAL o• HISTÓRIA
'· considerando, aparece como segregado ou parte do corpo social?
Do mesmo modo, difuso, indistinto, movente. Consideramos não só
o corpo, na relação com o corpo social, mas o sujeito individuado e
os sentidos que o identificam e com que ele se identifica, enquanto
presença, procurando analisar o funcionamento da narratividade e
da denominação. Incompletude, inexatidão, imprecisão, equívoco,
limites vagos ~mbaçam a leitura em seus gestos de interpretação.
Sentidos· soltos 12, se presi:ama equívocos. Margem de manobra.
Ou mal.entendidos. "'
· .ri Temos refletido sobre a n:oção de relações sociais, de indivíduo
de si?Jificação se põe· em marcha. Diríamos que a denominação
escande o funcionamento narrativo e produz os efeitos de sentidos
que Séparam, dividem (sexo maseillino/feminino; àsgênero/tr~ru).
A narratividade é que, por seu lado, dá sustentação ao processo de
escansão dos sentidos, nesse caso, produzido pela denominação,
através da maneira.como a memória se conta.
~. enquanto sujeito individuado, no seu modo de constituição e dos
,? :~ sentidos com que se identifica, em que entram, além da linguagem,
! .. '·!! que é fundamental, noções como a de Estado, de historicidade, de
Pensando este processo, a partir do que diz M. Pêcheux (1975) -""' , ·.., interdiscurso, de ideologia, de formação social, de formação discur-
sobre a construção discursiva do referente, pensamos a denomi- .;, ''1Í .--\• siv.ae.do político, p.ensados.na contemporaneidade, fazendo intervir,
nação (E. Orlandi, 2011), em seu procésso de produção do que · "' i quando necessário, a conjuntura da mundialização. Observamos a
funciona, discursivamente, como nome, e con_sideramos que o gesto · ,'!. eh d ·1: ama a "crise das representações", que toma a forma abundante de
de nomear (E. Orlandi, 2011) dá existência simbólica ao "referente" , ·~: sentidos de "segregação", de "violência", de "resistência" na relação
(construído/ no processo de__signjftcação . Na determinação_ biStÓrica_ ·• ,~- dos-strjeitos-com-a-vidãsoclat-E-assim-buscamos compreender os
dos processos de significação, a denominação traz para si a relação " "' d • .,-,, ·'li proce~sos e constituição do~ sujeitos e dos sentidos que entram
linguagem e memória discursiva, materializada na narratividade. ,t: nesses processos de significação,. no mundo contemporâneo, nas
Entendendo ã denominação como a marca da entrada da constru- .,. suas diferentes formas dê· existência. Que distinções aí se traçam,
ção discursiva do referente no processo discursivo de significação, como nestes limites difusos, abertos, indecisos. Temos nos dedicado a ex-
o fazemos (2012, idem, 2013•.), podemos retomar aqui M. Pêcheux piorar "a introdução do nada" (A. Wahrol, apud_ Baudrillard, 2003), as
(1990), quando fala do título: "a prefigurar o acontecimento, a formas do silêncio, o esquecimento, a incompletude, o vago, o não
dar-lhe forma e figura, na esperançà de apressar a sua vincla ... ou · exato, o impreciso, o dissimétrico, pensando os sentidos e os sujeitos
de impedi-la( ... ) Mas esta novidade não tira a opacidade ·do aé:on- e sua constituição pela ideologia, na formação social contemporânea,
tecimento, inscrita no jogo oblíquo de suas denominações"; O que J; e em suas condições de produção. A estas se juntam a de fluidez,
retemos aqui, desta afirmação, é a opacidade do acontecimento ,· , , de nuance, de sutileza de interpretação, tal coma fizerr:os intervir
inscrita no jogo oblíquo de suas denominações. Ou seja, a relação " _f_· em nossa reflexão. E há mais, na medida em que, nesta questão de
acontecimento/denominação, em que introduzimos a equivoddade. , gênero "eis", que estamos observando, entra uma questão de cultura
(as chamadas minorias).
Isto nos dá a dimensão significativa do que mais acima chamei
de "presença"(09/2013).Aparição. Sentido que eclode, a-presenta-
se no processo de identificação. No caso do "gênero", que estamos
228
·, .
. ·y '
12 Não posso deixar de fazer uma consideração: não seria melhor tennos sentidos soltos
que fixos? Por que esta vontade do exato? Esta ilusão de pertendmento social trazido
por um nome que dá •unidade·?
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Eu, Tu, Eu - D!scuRSo E REAL DA Hl5lÓRIA Eu, Tu, ELE - DlscuRSo E REAL DA HI5!ÓRIA
Luce Giard (1993): em "Abrir Possíveis", apresentação da obra e reconhecer o conteúdo e o efeito de sua ação interventiva nas
La culture au plurie/ de M. de Certeau, nos mostra que, nesta obra, formas sociais"(1844). Ou seja, a cultura para de Certeau pede a
0 autor estuda os momentos em que as tradições se fraturam e não alienação como propõe Marx, a não negação do sujeito naquilo
rivalizam, e a lucidez cambaleia, interrogando caminhos obscuros * que faz, e sua compreensão dos efeitos de sua ação na socieda-
não para julgar ou para designar o campo da verdade mas "para de em que desenvolve suas práticas, compreensão da sociedade
aprender do passado, como um grupo social atravessa a derrota de em que vive. O que, para de Certeau, significa que "toda cultura
~uas crença~ e consegue tirar proveito das condições impostas, para chama uma atividade, um modo de apropriação, uma tomada em
inventar sua ftberdade, se arrumar um espaço de movimento" !grifo meuj. conta e uma transformação pessoais, e uma troca instaurada em
eh um grupo social": A noção de.cultura toma um sentido particular, . . amo ª. tenção pa.ra o que está em itálico. Porque nesta · em de Certeau; como "proliferação de invenções em espaço .de interrogação está um de meus objetivos nesta reflexão com a
d.ti ' coerções, vista como trabalho a fazer ao longo da vida social". 1 erença que não buscarei no passado mas em tempos recentes. w · · fa Invenção. Combate. Trabalho, ideologia, ruptura, transformação. ª~ exoraza~ei, como O z de Certeàü, segundo Giard (idem), os Como estes distintos sentidos se cotejam em sua vizinhançà, seu
pengos do presente, transportando, por necessidade, minhas ques-
- estranhamento, sua incerteza, sua indistinção? toes para o passado. Porque, na análise de dfscurso que pratico,
a memória _é_ estruturada.pelo esquecimento, e a historicidad,-'e,.,.!é,__!a'!___4 ue._ Para compreender essa relação sujeito/indivíduo/sociedade,
dobra.na qual trabalhamos o.fora.dentro,.na materialidade mesma ·-iiiiãfisamos·su1e1tos que se propõem outra denommaçao, eu dma,
da textualidade; formulação que dá corpo ao sentido (E. Orlandi, os cisgêneros, os trahs, o~ politicamente correto propiciando uma
2001). A historicidade não sendo cronologia, mas estrutura e espécie de neutralização do ilegítimo na convivência social.
acontecimento, 0 funcionamento do interdiscurso é memória não Trazemos para nossas considerações o discurso da diversidade
representável, sem passado, presente ou futuro. Acontecimento. e do preconceito, como pano de fundo em que sobressai, nanar-
Também interessa como, em uma formação social, como diz ratividade, a chamada estigmatização/criminalização da diferença,
Giard (idem), atravessam-se as condições impostas, as barreiras ide- em geral, e a formação de grupos de contestação, de outro lado.
ológicas, para se encontrar um espaço de movimento (movimento Resistência. ·
da/na sociedade), inventar:se sua liberdade13 • Tenho lançado mão ,- 1 Nos mat.erfais que analisamos, há algumas constantes, como a
de procedimentos .analíticos que entrecruzam conhecimentos de t'érofrênóa'aóõisa:üisb'dosifrreitoshun'!anos; 0 ditêiro·à'diferença
uma-12onstelação de processos disrursivos, para. trabalhar a multi- Também é constqn.te o que se diz do proresso-<le-segregação.
plicidade de saberes, as contradições em que se constituem nossos
objetos de análise. Pensando a cultura no plural, como a concebe .,: .. De forma i~po~an~e, h~ u~ discurso sobre a Sllbjetividade.
de Certeau, segundo o qual "Para que haja verdadeiramente cultura ff:_considerações sobre_e5t~ sujeito contemporâneo, temos refe-
não basta ser autor de práticas sociais; é preciso que e~as prá!l:-_ ', ·,i~,) nuii::1_5.vezes, 0 que diz O psicana\Ísta Melman (2005) sobre a
cas sociais tenham significação para aquele que as efetuaº (cap. '.:~ ec~nomia psíquica" que não existia antes. As·que existiam,
VI, 1974). Ou, como diz Marx, a propósito do que é alienação "A • '!i!}le, eram de oposição (revolta, marginalidade etc). Hoje não
alien;ição desenvolve-se quando o indivíduo não consegue discémir ~,,ijm movimento de oposição é um movimento que se faz sobre
seµ próprio impulso. Uma crise de referências. Ele se int~rroga, 13 Que é o que está claramentepresente na fala de João Nery.
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• 1
Eu, Tu, El, - OISOJRSO E REAL DA HIS!ÓRIA Eu, Tu, El.E - OISOJRSO E REAL DA HSTôRIA
então,- sobre esses homens novos - esses homens sem gravidade, aval para nossa existência em nossa especificidade? E isto é exato?
quase mutantes - que nós temos que tompreender. Completo? Imóvel? Não sujeito a equívoco?
Tomando a inclinação da análise de discurso, n~o é a ''nova · Da perspectiva discursiva, podemos afirmar que, para a com-
economia psíquica" q9e retém nossa atenção, ll)as as "nritas preensão desses processos de significação, é fundamental levar
formas de assujeitamento, desenvoÍvidas pelo capitalismq" .(M. em conta o político e o funcionamento da ideologia (o Outro) no
Pêcheux, 2010), e seus modos de individuação dos sujeitos,' em discurso, tendo em conta a necessidade histórica e o acaso. Não
suas divisões, assim como os processos de identificação dos su- deixamos de considerar, nas análises, as ilusões dos sujeitos em
jeitos, ·uma vez que nos interessam a ideologia e o político, na " seus modos de individuação na sociedade, pelo Estado, e o imagi-
constituição de discursos, de identificação de sujeitos em- seus nário que constitui a realidade desses sujeitos, tendo assim seus
modos de individuação e de produção das significações, em efeitos sobre suas práticas. Nessa conju~tura político-ideológica
suma, de suas práticas significativas, repartidas entre estigmati- ' pensamos compreender os tênues limites e relações instáveis que
zação e resistência. Em cujos processos entram os processos de marcam, nas fronteiras da linguagem, e da vida, na relação indiví-
denominação. duo/sociedade, os sentidos de sua existência.
Nossa questão, que já tivemos a ocasião de fazer, tratando Finalmente, buscamos compreender processos de significação
- da ·marginalidade, a segregação sóêiàl (E. Orlandi; 2002r. então, e de constituição de sujeitos em uma conjuntura como a que vive-
é: como pensar aqueles sujeitos que, por necessidade histórica, mos em que, muitas vezes, e por processos de denominação que
_ seriam "mutantes", mas que, pelas c9,ndiçõe$ _da domi_n<!ção, da escandem o funcionamento narrativo, oscilamos entre os sentidos
ideologia capitalista, não podem sê-lo~7_O~s"-'"m=u"'ta"'-n"'te"'s'-"-L-"'se""m.,,_,,a,,,_s__,,:;.a... _ _ d_ifi_c_ilm_ e_nt_e_d_i_sc_e_mí~ejs ~ -~as bordas. ~em m~rg~m de manobra:_~~ __
condições favoráveis do capitalismo, são o "resto", e/ou também Há o retorno, na questão da indistinção, do estatuto da alte-
- os "inomináveis"? Nos exemplos que·demos, qual o sentido de ridade. Da incompreensibilidade. Distância entre O eu e O outro,
"vândalos" em manifestações? Os "Falcões", meninos que vivem O Outro.
do/no tráfico, s.eriam "homens sem gravidade"? As mulheres do
Núcleo Eldorado dos Carajás não têm "gravidade" ou buscam. No que concerne a indistinção, o que vem à tona é a necessida-
algum sentido que lhes dê sentido, em seus "laços" construídos , de da nuance, da sutileza da interpretação. No i'ndistinto, trabalha
em qualquer resto de situação? E como compreender os que-não O mal-entendido. E, no movimento da interpretação -variança, ver-
são "eis"? Que sentidos vão-se constituindo na determinação são, equívoco - no que é dito como sua "sutileza", são as nuances
histórica dos processos de significação (estigmatização/violência/ que irrompem na distância entre sujeitos e entre sujeito e sentidos.
resistência), a vida sendo cada dia mais inviáve!? Por que precisamos Colocar nomes, etiquetar todas as nuances seria tentar fixar 0
distinguir homo e heterossexual, cisgênero e transgênero? Por que i! impossível de não ser assim, em outras palavras, o real. Não temos
a necessidade de definir tudo exatamente para podermos existir este controle, estando postos entre o real da língua e O da história,
socialmente com nossos direitos e deveres, com nossa presença? o mundo. Deste impossível resultam outras denominações, desta
Se falarmos de modo linguísticamente correto, podemos ter um vez etiquetando as posições-sujeito: o autêntico (relação com a·
14 Cabe, aqui, a referência ao "homem impedido\ da peça de Tchekov, "Plátonov~, ou ·A
peça sem nome".
232
verdade); o engajado (na ordem do político); o correto (determina-
ção moral). Outros processos de denominação que não estancam,
233
. Eu, Tu, Eu - DISCURSO , REAL o• HISTÓRIA ' , ·r
tampouco, o preconceito, as divisões, repartições do poder e do
trabalho ~a ideologia. Que não impedem que se possa significar
que o estigma da alteridade é o outro, o Outro, o estranho, que
neste processo significa o "mau", talvez o "Mal".
No processo em que se busca, com razão, mas equivocadamen-
te, formas de d~n~n:iinação outras, linguísticamenrte corretas, para
se pr~".:1rar ?_Juridicamente justo, se está no discurso militante. l-'
A pos1çao m1htante. pode trazer a discussão para o espaço social, + '
pode alertar, mostrar gestos de resistência. Mas não é suficiente.
E, s~ olha~os para isto discursivamente, podemos dizer que 0
eqmvoco e pensar-se que se está lutando pela língua, ou pela
~alavra: quando se está lutando pela vida, pelo possível e pelo
1mposs1vel. Nossa posição é d·e que não é na instância da busca
pelo linguístican_iente correto, como procuramos mostrar, que se
---- -encontrao-poss1veLdeslocamento para outras condiç-ôe-&-<le-Vi41.
-Porque o deslocamento, como o concebemos disrursivamente,
tem que se dar na instância da interpretação, produzindo abalos
nas fronteiras dos sentidos.
Fizemos intervir, em nossa análise, algumas noções e reflexões
de Nietzsche, sobre o "Spielraum". Noção esta que aparece já, no
século XVIII, no círculo de Viena, com a noção de movimento e
de condições de movimento. E, sobretudo, nas reflexões de Wit-
tegenstein (1979), em que esta noção é fundamental, enquanto
"margem de manobra delimitada da ação de possibilidades". O
·" que define casos limites, tautologia, paradoxos-e-a contradição·
-·•nisto que chãm:nnos· as fronteiras da linguagem. Por isto, minha
reflexão vai em direção a não apagarmos, ao contrário, fazermos
valer estes mal- entendidos, este mal estar, estas flutuações, como
práticas da significação. Sutilezas de interpretação.
- -Pensando no que é a conjuntura atual, irrompe, sem dúvida,
na questão da subjetividade, as novas formas de assujeitainento,
e na dos· sentidos, os gestos de interpretação em sua materiali·
d_ade, que é histórica e que se movimenta tanto no tempo como
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Eu, Tu, Eu - DtsCURSo , REAL DA HJSlÔRIA
no espaço. Tenho afirmado que a identidade é um movimento
na história (E. Orlandi, 1990); a de cada um de nós, e também a
que se faz em sua constituição histórica mais geral, em termos da
forma-sujeito histórica, em sua relação com a alteridade. Quando
muda algo na forma de assujeitamento, também se altera a relação
com a alteridade. E, certamente, isto afeta a maneira como estas
denominações, estas distinções, significam as diferenças.
Podemos dizer que, considerando que a materialidade do
sujeito implica o corpo e o sentido, levando-se em co"nta as novas
formas de assujeitamento, apresenta-se também outra organização
na materialidade da língua, e: no'mundo, novas formas de articula·
ção entre eu-tu-ele. Novas corporalidades. Gestos de interpretação
afetam esta materialidade. O que nos leva a colocar que, em se
tratando das questões da organização simbólica do que está posto
no "gênero", não podemos nos deterno que tem sua representação
nas "minorias", e no linguisticamente correto, mas observar estas
formas de denominação como busca de rupturas no real da história
e na ordeni da língua .
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