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UNIDADE 2 - PSICOLOGIA E A PESSOA COM DEFICIÊNCIA 
 
CONCEITO, TIPOS E INCLUSÃO NO CONTEXTO EDUCACIONAL 
 
 
Nesta unidade você verá: 
 
// deficiência: conceituação contemporânea 
// deficiência e educação formal 
// os tipos de deficiência 
// deficiências específicas 
 
 
OBJETIVOS DA UNIDADE 
 
• Entender como a deficiência é conceituada na contemporaneidade; 
• Correlacionar os conceitos de estigma e preconceito à experiência das pessoas com 
deficiência; 
• Compreender o papel da rede de apoio no processo de inclusão educacional; 
• Aprender o que são e quais as tecnologias assistivas utilizadas para a inclusão de 
pessoas com deficiência; 
• Estudar a importância da inclusão no contexto educativo formal; 
• Conceituar e diferenciar os diversos tipos de deficiência: física, sensorial e intelectual; 
• Conhecer o conceito de deficiências múltiplas e suas implicações; 
• Identificar semelhanças e diferenças entre a síndrome de Down, o transtorno do 
espectro autista e a deficiência. 
 
 
 
TÓPICOS DE ESTUDO 
 
• Deficiência: conceituação contemporânea 
// Conceituação da deficiência 
// Capacitismo, estigma e preconceito 
 
• Deficiência e educação formal 
// A importância da inclusão no ambiente escolar 
// Tecnologias assistivas 
// Família e escola: rede de apoio 
 
• Os tipos de deficiência 
// Deficiência sensorial: visual e auditiva 
// Deficiência física 
// Deficiência intelectual 
// Deficiências múltiplas 
 
• Deficiências específicas 
 
 
 
VER VIDEO NO AVA 
 
 
 
DEFICIÊNCIA: CONCEITUAÇÃO CONTEMPORÂNEA 
 
 
VER VIDEO NO AVA 
 
 
Antes de apresentar a conceituação de deficiência, é importante ressaltar que todo 
fenômeno está situado em seu processo histórico e sofre diversas modificações em 
relação às suas concepções ao longo do tempo. Estudar infância, idade adulta, velhice, 
loucura, saúde, doença, maternidade e diversos outros fenômenos implica em estudar e 
entender o processo histórico e a rede de significados atribuídos ao fenômeno. Estudar a 
deficiência não é diferente. 
 
Scliar, ao estudar a evolução histórica da concepção de saúde, afirma que ela sempre 
reflete a concepção econômica e política e o contexto social na qual está inserida. Assim, 
segundo o autor, “saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas. 
Dependerá da época, do lugar, da classe social. Dependerá de valores individuais, 
dependerá de concepções científicas, religiosas, filosóficas” (2007, p. 30). Embora nosso 
foco de estudo seja a deficiência, e diferencie-se do fenômeno estudado por ele, ela 
também recebe todas essas influências em suas concepções. 
 
É importante destacar também que as concepções não estão desalinhadas com as 
práticas. Pelo contrário: o ser humano busca criar teorias (mesmo que fundamentadas no 
senso comum), concepções e ideias que servem para nortear suas práticas sociais. Assim, 
a forma que o indivíduo enxerga e pensa um fenômeno como a deficiência orienta e 
direciona suas atitudes e comportamentos frente a ele. 
 
Um exemplo de como as doenças refletem as concepções sociais é a história de Samuel 
Cartwright, um médico do séc. XIX do estado da Louisiana, conhecido por ser um dos mais 
escravagistas dos Estados Unidos. Ele diagnosticou a drapetomania, evidenciada pelo 
desejo dos escravos de fugir e também criou o diagnóstico da disestesia etiópica, que 
explicava a falta de motivação para o trabalho entre os escravos. Para ambas as situações, 
o tratamento médico recomendado por Cartwright era o açoite. Essa situação notabiliza a 
relação entre período histórico, concepções e práticas. 
 
 
CONCEITUAÇÃO DA DEFICIÊNCIA 
 
Pensando no que foi apresentado, como é possível compreender a deficiência na 
atualidade? Primeiramente, vale ressaltar que o conceito que direciona as práticas, ações e 
legislações na atualidade não é o único existente. 
 
Isso porque, ao longo da história, constrói-se uma perspectiva hegemônica sobre o 
fenômeno; mas as visões anteriores e as críticas que vão propor uma nova visão no futuro 
continuam coexistindo, visto que nenhum conceito é absoluto. 
 
Dito isso, pode-se afirmar que a perspectiva contemporânea de deficiência rompe com o 
discurso biomédico e o mítico-religioso por entender que o ser humano é um ser integral, 
que se constitui biologicamente, socialmente, psicologicamente e espiritualmente. Dessa 
forma, não se pode pensar em nenhum fenômeno que perpassa a humanidade sem 
considerar todas as nuances formativas do indivíduo, o que também vale para a deficiência. 
 
De acordo com o Decreto n. 3.956/2001, que promulga a Convenção Interamericana para a 
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de 
Deficiência, a deficiência é “uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza 
permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades 
essenciais da vida diária, causada ou agravada pelo ambiente econômico e social” (BRASIL, 
2001a, n.p.). 
 
Nessa perspectiva, é possível afirmar que a deficiência é um fenômeno que surge 
necessariamente do encontro entre restrições da estrutura fisiológica e/ou psíquica com a 
forma de funcionamento do meio socioeconômico. Em outras palavras, a deficiência não é 
algo que está na pessoa, um "problema" individual e de ordem biológica; tampouco é uma 
característica unicamente social, que não encontra evidência no corpo. A deficiência 
configura-se, de fato, como um fenômeno decorrente da interação, uma vez que o próprio 
ser humano, seus ideais, parâmetros de saúde e funcionalidade, práticas e crenças também 
decorrem dessa interação. 
 
 
CAPACITISMO, ESTIGMA E PRECONCEITO 
 
Para discutir a forma como se constroem preconceitos acerca do fenômeno da deficiência, 
é necessário discorrer sobre a temática de capacitismo e de estigma e a cultura. Para início 
de conversa, é importante estudar a teoria de cultura do sociólogo clássico Sorokin e a 
maneira como ele acreditava que essa influencia os indivíduos e os faz compartilhar 
preconceitos. Para o autor, toda organização social adota o que ele chama de cultura 
ideológica, a qual consiste na: 
 
[...] totalidade dos valores e normas adotados por indivíduos e grupos interagentes, o 
que consolida o aspecto cultural da interação significativa. As ações e reações 
significativas, por meio das quais os conteúdos da ‘cultura ideológica’ são objetivados e 
socializados, constituem sua ‘cultura comportamental’ e, num terceiro nível, a ‘cultura 
material’, significando todos os demais objetos, veículos e energias materiais por meio 
dos quais a ‘cultura ideológica’ se manifesta, se socializa e se consolida (MAZZOTTA; 
D’ANTINO, 2011, p. 379). 
 
Assim, como forma de entender a si mesmo, aos outros e à estrutura social, o indivíduo 
utiliza-se das ações coletivas, manifestações verbais, símbolos, textos e construções 
materiais. Isso posto, a cultura ideológica é constituída pela forma como o ser humano se 
comporta e reage aos materiais que existem em determinada sociedade. 
 
O ser humano sempre discriminou de maneira positiva ou negativa fenômenos específicos, 
fazendo com que, de maneira simbólica, houvesse uma segregação de diferentes grupos ao 
longo da história. Ao longo da história humana, todos os indivíduos que apresentavam uma 
diferença muito acentuada do padrão eram tratados de forma segregadora, além de serem 
vítimas de violência simbólica. É possível entender a violência simbólica como uma ação 
estratégica que atua como maneira “de impedir outros indivíduos ou grupos de defender os 
seus próprios interesses” (FREITAG; ROUANET, 1993, p. 112). 
 
Embora a lista de grupos sociais que sofreram e sofrem com essa violência simbólica seja 
extensa, nosso objetivo aqui é apresentar de que maneira as pessoas com deficiência, seja 
ela física, mental ou múltipla, sofrem por meio de uma cultura de violência simbólica que os 
colocam como sujeitos da diferença. 
 
Conforme discutido, a cultura pode ser interpretada como um “conjunto de formassimbólicas 
impregnadas nas pessoas e nos grupos estruturados que se exteriorizam nos 
comportamentos e nos recursos materiais” (MAZZOTTA; D’ANTINO, 2011, p. 379). Assim, 
toda expressão de preconceito é construída e alimentada por esse ciclo. Uma das formas 
que têm alimentado esse ciclo de violência simbólica é o capacitismo. 
 
É importante entender que o capacitismo, tal qual outros tipos de desigualdades, não se dá 
apenas por meio de ofensas e segregação voluntárias. Ao contrário: muitas pessoas, mesmo 
conscientes da importância da inclusão, continuam perpetuando discursos e práticas 
capacitistas. Por que isso acontece? Porque, como dito anteriormente, nós tendemos a 
reproduzir os valores de nossa cultura por meio da fala, de símbolos e de comportamentos. 
E, como a cultura na qual estamos inseridos é pautada em padrões, além de supervalorizar 
a produtividade dentro desses padrões, o capacitismo é uma das violências que podem ser 
reproduzidas de forma involuntária. 
 
Outro sociólogo que auxilia a compreender o processo psicossocial que ocorre com a 
deficiência é Erving Goffman. Por meio do estudo de populações marginalizadas, ele 
apresentou uma série de contribuições que se somam ao estudo das sociedades humanas. 
Em seu trajeto acadêmico, teve contato com o interacionismo simbólico, que defende que 
o "eu" individual é formado principalmente por meio das relações sociais que o ser humano 
estabelece com os outros. 
 
Por influência do interacionismo simbólico, em seus trabalhos Goffman estudou 
profundamente as relações humanas e as dinâmicas interpessoais dessas relações. Seu 
trabalho discorre sobre como, nas relações dos indivíduos, há uma troca de significados, 
simbolismos e como se dão essas relações sociais em diferentes grupos, especialmente em 
grupos minoritários. 
 
Em sua obra Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada (1981), ele 
apresenta uma leitura bastante completa das relações humanas. A palavra estigma existe 
desde a Grécia Antiga e referia-se a uma marca no corpo dos escravos, feita para que a 
sociedade fosse capaz de identificar o sujeito e diferenciar-se dele. O estigma servia para 
que a sociedade em geral reconhecesse os escravos e os retirassem de todo e qualquer 
convívio social que os demais cidadãos possuíam. 
 
O que Goffman apresenta enquanto novidade em sua teoria é que o estigma é uma 
característica de todas as sociedades. O estigma seria um desvio do padrão de conduta 
esperado e imposto a determinados grupos e indivíduos. Em sua obra A representação do 
eu na vida cotidiana (2002), Goffman evidencia a presença de papéis sociais que todo sujeito 
exerce ao participar de um grupo. Assim, a variância desse papel pode tornar o sujeito vítima 
de alguma forma de estigma. 
 
Existem três tipos de estigma, segundo Goffman. O primeiro deles seriam as abominações 
do corpo, as quais podem ser visualizadas de maneira mais físico-corpórea. Qualquer 
sujeito que possui um sinal ou marca visível em seu corpo que apresente qualquer 
característica destoante do padrão social estabelecido seria vítima desse estigma. Neste 
grupo encontram-se os sujeitos com alguma deficiência física e sujeitos acima ou abaixo do 
peso padrão estabelecido, entre outros. 
 
Goffman acreditava que toda e qualquer característica física que denote um desvio do 
padrão social estabelecido caracteriza o sujeito como estigmatizado. Esse estigma demarca 
um aspecto da identidade social: a alteridade. Ao excluirmos o outro, ele é colocado em um 
patamar de diferenciação. Assim, somente podemos tratar alguém de maneira diferente se 
ele é diferente de mim. 
 
Goffman ainda preconiza dois tipos de estigma, que não possuem tanta relação com a 
deficiência como o primeiro. O segundo estigma consiste nas culpas de caráter, sendo 
destinado para indivíduos como prostitutas, ladrões e homossexuais, entre outros. 
Diferentemente do primeiro, este grupo recebe o estigma por ter condutas consideradas 
imorais e, por isso, também são vítimas de exclusão. No terceiro, encontram-se os estigmas 
de marcas tribais, raciais ou religiosas. Essas marcas denotam o pertencimento social 
dos indivíduos a tais grupos. 
 
Independentemente do tipo, o mesmo fenômeno empregado com os escravos na Grécia 
Antiga se repete, agora com novas roupagens: a exclusão. E, para que haja exclusão, é 
preciso tratar a vítima de estigma como alguém diferente do padrão, deteriorando assim a 
identidade do outro. Ao tratar o outro como alguém sem identidade, ainda retira-se dele toda 
e qualquer dignidade: o outro não é digno de ser humano, de receber compaixão ou de 
direitos. Por esse motivo, ao longo de vários anos, as pessoas com deficiência, junto ao 
grupo de pessoas com transtornos mentais, sofreram uma série de maus tratos em 
diversos hospitais psiquiátricos espalhados pelo Brasil. 
 
ASSISTA: Para compreender melhor a história da institucionalização de pessoas com deficiência e 
com transtornos mentais no Brasil, assista ao documentário Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex. 
Ele mostra o sofrimento desse público e o tratamento desumanizado que os indivíduos sofriam antes 
da reforma psiquiátrica. 
 
Goffman afirmava que os estigmas variam a depender do contexto. Sobre isso, já foi 
discutido como todo fenômeno está inserido no conjunto de concepções histórico-políticas 
de seu tempo. É por esse motivo que é tão importante que a deficiência seja discutida nos 
mais variados cenários: acadêmico, político, senso comum. À medida que diferentes 
pessoas dialogam, há em conjunto uma série de avanços nos direitos das PCD. Assim 
sendo, um dos locais em que é possível notar esse avanço atualmente é a escola. 
 
 
DEFICIÊNCIA E EDUCAÇÃO FORMAL 
 
A discussão sobre a inclusão no ambiente escolar vem crescendo ultimamente. Desde a 
declaração de Salamanca, em 1994, diversos países vêm trabalhando para que o acesso à 
escola inclusiva chegue a todos. No Brasil, também se percebe uma série de mudanças 
ocasionadas por esse movimento em prol da inclusão. Desse modo, a legislação brasileira 
atua de forma a promover o atendimento aos alunos com necessidades educacionais 
especiais preferencialmente em classes comuns da escola e em todos os níveis, etapas e 
modalidades de educação e ensino. 
 
Apesar da inegável importância de avanços legais como esse, não se nota uma mudança 
nos paradigmas de inclusão ligados ao dia a dia. Pelo contrário: pode-se ver um despreparo 
por parte das escolas, professores e sociedade em geral no papel de implantar as mudanças 
necessárias que a inclusão exige. Assim, mesmo que haja leis que garantam o direito das 
pessoas, ainda persistem diversos traços culturais que orientam concepções e práticas 
sobre a pessoa com deficiência, o que torna a inclusão mais difícil. 
 
Isso ocorre porque não basta apenas implantar uma lei para que as práticas sociais se 
organizem frente a ela, uma vez que também é necessário estruturar e organizar os 
caminhos para sua implantação. Um exemplo disso é a Lei n. 10.216/2001, que preconiza o 
fim dos hospitais psiquiátricos no Brasil. Para extingui-los foi necessário não apenas 
desativar os hospitais, mas estruturar uma Rede de Atenção Psicossocial que os 
substituísse. 
 
Portanto, embora haja uma conscientização maior da população em geral acerca da 
inclusão, as discussões atuais têm apresentado muito mais a importância da inclusão do 
que estratégias para incluir. Educadores, de um modo geral, sabem que devem incluir, mas 
não sabem como fazê-lo. Para atestar-se disso, basta dialogar com educadores e ouvir os 
relatos relacionados às dificuldades de formação para lidar com a inclusão e as queixas 
referentes ao grande número de alunos em sala de aula e altas demandas do trabalho. 
 
Assim, além de apresentar uma discussão sobre o motivo de incluir, é importante 
desenvolver meios que direcionem sobre como incluir. Esses dois tópicos serão discutidos 
a seguir. Primeiramente, é importante levantar o seguinte questionamento: por queincluir? 
 
 
A IMPORTÂNCIA DA INCLUSÃO NO AMBIENTE ESCOLAR 
 
Inicialmente, discorreremos sobre o papel do sistema nervoso em nosso organismo. Para 
isso, é necessário recorrer a alguns conhecimentos da Anatomia e da Fisiologia. 
 
De acordo com Schirmer e colaboradores (2007), o papel do sistema nervoso inclui 
coordenar e controlar a maior parte das funções de nosso corpo. Ele é fundamental, posto 
que orienta a percepção que temos do mundo, além de auxiliar nosso corpo em tarefas que 
envolvem memória, raciocínio e locomover-se, por exemplo. 
 
Nosso corpo possui uma série de órgãos sensoriais. Os principais são pele, língua, nariz, 
ouvidos e olhos. Todos eles captam estímulos físicos e químicos e os transformam em 
impulsos elétricos, que são transmitidos ao sistema nervoso central. Ao chegar no sistema 
nervoso, ele integra as informações recebidas e determina uma resposta como forma de 
reação aos estímulos. Como os estímulos são das mais diferentes ordens, as respostas 
também o são. 
 
Houve um estudo psicológico que demonstrou essa relação entre os órgãos sensoriais e a 
resposta psicológica ao estímulo sensorial: o estudo de Pavlov sobre condicionamento com 
cães. Embora tenha realizado um dos primeiros trabalhos em Psicologia e seja considerado 
um teórico antigo por muitos, seu experimento representa bem o funcionamento do sistema 
nervoso, e o fisiologista ganhou o prêmio Nobel de Medicina em 1904 com seu trabalho. 
 
Em seu experimento, Pavlov realizou o seguinte procedimento: inicialmente, ele 
percebeu que, ao dar comida ao cachorro, ele apresentava uma resposta estímulo, que 
era salivar. Esse elemento já representa o que foi aprendido sobre o sistema nervoso. O 
animal, ao utilizar um órgão sensorial (visão), apresentou uma resposta comportamental, 
que foi salivar. No entanto, Pavlov foi além. 
 
Ele decidiu acrescentar um estímulo neutro e sem qualquer relação com a comida, como o 
toque de um sino. Com isso, o cão não apresentou nenhuma salivação, posto que a saliva 
era uma resposta ao estímulo sensorial de ver a comida. Durante seu processo de 
investigação, Pavlov, antes de dar comida aos cachorros, tocava o sino. Assim, a comida, 
juntamente ao som, gerava a resposta incondicionada dos cães, que era salivar. Depois de 
um período fazendo isso, ele descobriu que, ao tocar o sino, o cachorro começava a salivar 
mesmo sem a presença da comida. 
 
Assim, ele descobriu que os seres também aprendem a apresentar determinadas respostas 
por meio de diversos estímulos. Ao compreender que a comida sempre vinha depois do sino, 
os cães não precisavam mais do órgão sensorial do olho para que o cérebro enviasse a 
resposta. 
 
 
Figura 1. Estudo do condicionamento clássico realizado por Ivan Pavlov. Fonte: SWANSON, 2018, n.p. 
(Adaptado). 
 
Dessa maneira, torna-se possível estabelecer a seguinte relação entre o funcionamento do 
sistema nervoso central: primeiro, há uma experiência sensorial coletada por determinado 
órgão sensitivo no corpo humano. Esse órgão leva a informação até o sistema nervoso, que 
a processa e emite um comportamento resposta. 
 
 
Figura 2. Funcionamento do sistema nervoso central. Fonte: SCHIRMER et al., 2007, p. 15. (Adaptado) 
 
Quanto às respostas, elas podem ser apresentadas de imediato ao estímulo ou 
armazenadas na memória e utilizadas posteriormente. Hoje mais do que nunca, é possível 
afirmar que desde muito novos somos extremamente bombardeados por diversos estímulos, 
com milhares de informações. Porém, “armazenamos e utilizamos aquelas que, de alguma 
forma, sejam significativas para nós e descartamos outras não relevantes” (SCHIRMER et 
al., 2007, p. 15). 
 
Lefévre, citado por Camargo (1994), afirma que o cérebro infantil passa a demonstrar 
evolução desde o nascimento da criança. Parte dessa evolução ocorre por questões 
genéticas, mas também recebe muita influência da relação da criança com o meio. Como 
discutido, a criança percebe o mundo pelos sentidos e, a partir de então, age, interage, 
modifica, entende, pensa de modo complexo e comporta-se de maneira mais assertiva à 
medida que o cérebro desenvolve-se e ela entende melhor seu corpo. 
 
É exatamente por esse motivo que a criança com deficiência não pode estar em um mundo 
à parte para desenvolver suas habilidades motoras, sociais e emocionais. Seu 
desenvolvimento só ocorrerá de maneira completa se feito em interação com seu ambiente 
de pertencimento, com outros que participam desse ambiente e com ferramentas de 
desenvolvimento. Para isso, é necessário que o espaço seja pensado, estruturado e 
organizado de modo a permitir a presença de pessoas com deficiência. 
 
Por esse motivo, torna-se essencial que o espaço escolar seja um espaço de todos. Para 
Schirmer e colaboradores: 
 
O ambiente escolar é para qualquer criança o espaço por natureza de interação de uns 
com os outros. É nesse espaço que nos vemos motivados a estabelecer comunicação, 
a sentir a necessidade de se locomover, entre outras habilidades que nos fazem 
pertencer ao gênero humano. O aprendizado de habilidades ganha muito mais sentido 
quando a criança está imersa em um ambiente compartilhado que permite o convívio e 
a participação. A inclusão escolar é a oportunidade para que de fato a criança com 
deficiência não esteja à parte, realizando atividades meramente condicionadas e sem 
sentido (2007, p. 17). 
 
Conforme já discutido, apesar de compreender a importância da inclusão, manter-se nesse 
lugar ideativo não é o suficiente. É necessário delimitar estratégias sobre como incluir e de 
que maneira a inclusão pode ser realizada em cada espaço e com cada grupo de pessoas, 
uma vez que a inclusão remete sempre a lidar com a diferença. Incluir crianças com 
deficiências visuais na escola é totalmente diferente de incluir crianças com deficiência 
intelectual, por exemplo. 
 
Assim, cabe pensar em estratégias de inclusão para os mais variados cenários. De antemão, 
destaca-se que não há uma fórmula pronta nem um caminho das pedras previamente 
pensado e formulado sobre a inclusão. Ao tratar de qualquer elemento da subjetividade, o 
psicólogo deve levar em consideração esse aspecto. Apesar disso, há dois fatores 
importantes para a inclusão, que serão abordados a seguir. 
 
 
TECNOLOGIAS ASSISTIVAS 
 
O termo "tecnologias assistivas", embora novo, é extremamente importante na promoção de 
inclusão e vida independente para o público PCD. Toda tecnologia, em geral, caminha de 
maneira a facilitar e promover melhor qualidade de vida. Desde o surgimento da escrita, uma 
das primeiras tecnologias desenvolvidas na cultura humana, a comunicação humana foi 
facilitada, e diversas ferramentas surgiram ao longo dos anos com o intuito de simplificar as 
atividades do cotidiano. Lâmpada, talheres, telefones, relógios e mochilas são só alguns 
exemplos de uma lista quase infinita de recursos que pertencem à nossa rotina e a facilitam. 
 
As tecnologias assistivas (TA), por sua vez, referem-se ao conjunto de “equipamentos, 
serviços, estratégias e práticas concebidas e aplicadas para minorar os problemas 
funcionais encontrados pelos indivíduos com deficiências” (COOK; HUSSEY, 1995, n.p.). 
Conforme visto, as deficiências são diversas e, por esse motivo, há também uma enorme 
possibilidade de TA para os mais variados públicos e tipos de deficiências. 
 
Apesar de ser uma discussão relativamente recente, as tecnologias assistivas são debatidas 
em vários países do mundo e por vários grupos. Isso evidencia, de maneira relevante, a 
necessidade de uma classificação geral e universal das TA. Muito embora ainda não se 
tenha estabelecido nenhum documento oficial geral, veremos a seguir 11 categorias de TA. 
 
A primeira delas remete a tecnologias de auxílio para a vida diária. Durante a vida da 
PCD, há uma série de ferramentas que necessitam de pequenas adaptações que promovam 
a autonomia para realizar atividades simples e rotineiras, como tomar banho, comer ou 
vestir-se. Exemplos dessa categoria são talheresmodificados, suportes para utensílios 
domésticos e roupas feitas com maior facilidade para vestir e despir-se (como o velcro no 
lugar de botões, por exemplo). 
 
Na segunda categoria temos a comunicação aumentativa alternativa (CAA), uma 
ferramenta desenvolvida para pessoas sem fala ou escrita funcional ou ainda que possuam 
defasagens entre a necessidade de comunicar-se e a habilidade de comunicação. Os 
recursos presentes são “pranchas de comunicação, construídas com simbologia gráfica 
(Bliss, PCS e outros), letras ou palavras escritas [...] utilizados pelo usuário da CAA para 
expressar suas questões, desejos, sentimentos, entendimentos.” (BERSCH, 2017, p. 6). 
Assim, por meio de pranchas ou softwares específicos, a função comunicativa é garantida. 
 
Há ainda os recursos que tornam acessível o uso do computador. Podem ser tanto 
hardwares como softwares que possibilitem o acesso ao computador de pessoas com algum 
tipo de privação sensorial (seja ela visual ou auditiva), intelectual ou motora. Os exemplos 
podem ser diversos, como mouse e teclado adaptados, softwares de reconhecimento de voz 
e órtese para digitação, entre outros. 
 
O quarto foca nas PCD com alguma dificuldade motora. As tecnologias referem-se 
aos sistemas de controle do ambiente. Indivíduos com alguma dificuldade ou 
impossibilidade motora, por meio desse grupo de TA, conseguem controlar aparelhos 
eletrônicos do seu dia a dia por meio de controles remotos ou de voz. Um exemplo desse 
grupo, bastante famoso e utilizado inclusive por pessoas que não compõem o grupo PCD, é 
a Alexa, entre outras ferramentas de comando de voz. 
 
Juntamente a isso, também para atender ao público com dificuldades motoras, há o grupo 
de projetos arquitetônicos para acessibilidade, composto por “projetos de edificação e 
urbanismo que garantem acesso, funcionalidade e mobilidade a todas as pessoas, 
independente de sua condição física e sensorial” (BERSCH, 2017, p. 8). Toda adaptação 
estrutural, seja em casa, no trabalho ou na cidade entra nesta categoria. Alguns exemplos 
incluem a presença de rampas, elevadores, adequações em banheiros ou qualquer 
mudança que retire ou diminua as barreiras físicas presentes. 
 
A sexta divisão desta categoria, e talvez uma das TA mais famosas, são as órteses e as 
próteses. Enquanto a prótese remete a peças artificiais que vão substituir partes 
inexistentes do corpo, com o objetivo de suprir necessidades e funções sequeladas, as 
órteses são dispositivos ortopédicos colocados junto a uma parte do corpo, servindo para 
apoiar, alinhar, prevenir ou corrigir deformidades e para auxiliar na mobilidade. Ambas são 
feitas sob medida e auxiliam a PCD no dia a dia. 
 
 
Figura 3. Tecnologias assistivas de prótese e órtese, respectivamente 
 
Outra categoria de TA diz respeito àquelas que oferecem auxílio à mobilidade. Esse grupo 
também é bastante conhecido por várias pessoas e inclui bengalas, cadeiras de rodas, 
andadores ou qualquer outro equipamento utilizado cujo foco seja a melhoria da mobilidade 
pessoal. Com o avanço da tecnologia, esses equipamentos estão em melhora constante. 
Um exemplo disso é a cadeira de rodas, que atualmente pode apresentar presença de motor. 
 
Existem grupos também que ampliam a função visual. Normalmente destinados a pessoas 
com deficiências sensoriais de caráter visual, servem para possibilitar novas formas 
sensoriais de relacionar-se com aspectos da vida. Alguns exemplos dessas tecnologias são 
lentes, lupas, softwares ampliadores de tela, material com textura e relevo e recursos que 
traduzem conteúdos visuais em texto. 
 
O nono grupo de TA relaciona-se às tecnologias que ampliam a função auditiva e é 
destinado a pessoas com deficiências sensoriais de caráter auditivo. São exemplos 
dessa categoria aparelhos para surdez, celulares com mensagens escritas, softwares que 
transformam o texto falado em mensagens de texto e livros em geral em linguagem de sinais, 
além do sistema de legenda e de avatares. 
DICA: Você já considerou aprender a Língua Brasileira de Sinais? Segundo o IBGE, a Libras 
é a língua de 10 milhões de brasileiros. Por isso, é essencial que os profissionais, inclusive 
da Psicologia, estejam preparados para acolher esses indivíduos. 
 
A décima categoria de TA inclui aquelas que possibilitam uma maior mobilidade em 
veículos. Esse grupo comporta tanto as tecnologias desenvolvidas para que as PCD dirijam 
automóveis como também as concebidas para facilitar o embarque e o desembarque. 
Exemplos desse grupo são volantes adaptados e a presença de elevadores para cadeira de 
rodas em ônibus, bem como a inclusão arquitetônica em serviços como aeroportos e 
autoescolas, por exemplo. 
 
Por último, mas não menos importante, estão as TA ligadas ao esporte e lazer. A pessoa 
com deficiência, como todas as demais, possui o direito de realizar atividades físicas e 
prazerosas. Devido a algumas limitações causadas pela deficiência, esses indivíduos 
necessitam de determinadas tecnologias que os auxiliem neste aspecto. Assim, todo e 
qualquer recurso que favoreça a prática de esportes e a participação em atividades de lazer 
compõem este grupo. Como exemplos, pode-se citar bola sonora, cadeiras de rodas 
adaptadas para esportes e próteses específicas para determinadas atividades como andar 
no gelo ou de skate, entre outros. 
 
É importante compreender que as tecnologias assistivas dizem respeito a qualquer produto, 
instrumento ou estratégia pensados para prevenir, aliviar, compensar ou neutralizar uma 
deficiência ou incapacidade específica. Nesse sentido, destaca-se que existe uma diferença 
entre as TA e as ferramentas tecnológicas utilizadas para reabilitação na medicina: as TA 
são utilizadas pelas PCD no dia a dia. 
 
 
FAMÍLIA E ESCOLA: REDE DE APOIO 
 
É praticamente consenso que a escola e a família exercem função educativa e de formação 
da personalidade dos indivíduos. Mesmo possuindo características distintas, ao discorrer 
sobre a temática da inclusão, elas podem complementar-se e servir como meios para 
promover o desenvolvimento físico e intelectual de inúmeras crianças. 
 
Do ponto de vista psicossocial, a família é a instituição de socialização primária das crianças, 
a qual é bastante afetiva. Para Portela e Almeida (2009, p. 150), “a família possibilita a 
realização de vínculos filiais expressos em relações afetivas e emocionais entre seus 
membros, difíceis de se encontrar em outros ambientes sociais, pois o ser humano, ao 
nascer, já se encontra integrado numa família específica, com características próprias". 
 
O psicólogo sociointeracionista Lev Vygotsky apresenta, em sua teoria, uma visão bastante 
consistente do papel da família na socialização da criança e na formação do seu psicológico. 
Para ele, o indivíduo, por meio do processo de maturação orgânica, tem as funções 
psicológicas superiores desenvolvidas por meio da interação social. Ele também afirmou que 
a aprendizagem é social e acontece entre semelhantes em uma zona em que o mais 
experiente auxilia o menos experiente, gerando desenvolvimento. 
 
Embora Vygotsky fale da relação do sujeito com todo o meio social, a família é o primeiro 
canal de contato da criança com a cultura em que está inserida, de modo que: 
 
[...] o ser humano realiza ações de ordem externa, que serão analisadas pelas pessoas 
com quem convive, segundo os significados estabelecidos culturalmente. A partir dessa 
análise, será possibilitado ao sujeito conferir significados às suas ações e, 
paralelamente, desenvolver processos psicológicos internos, que podem ser 
interpretados por ele mesmo a partir dos instrumentos colocados pelo grupo social do 
qual participa e compreendidos através dos códigos partilhados pelos membros desse 
grupo. Dessa maneira, para Vygotsky, o desenvolvimento pleno do ser humano depende 
do aprendizado que realiza num certo grupo cultural, através da interação que estabelece 
com os outros indivíduos da sua espécie (PORTELA; ALMEIDA, 2009, p. 151). 
 
Se a educaçãofamiliar é um fator essencial para o desenvolvimento psíquico de qualquer 
criança, ao falar sobre crianças com necessidades educativas especiais esse cenário 
apenas se reforça. A escola, em seu papel educativo, apresenta ganhos diversos quando 
caminha junto aos pais, tanto no que diz respeito ao desenvolvimento emocional dos alunos 
e à inclusão dos estudantes como à relação aluno/escola/comunidade e ao desempenho 
acadêmico. 
 
 
Figura 4. Resultados do SAEB de 1999, comparando a ausência e a presença dos pais. Fonte: PORTELA; 
ALMEIDA, 2009, p. 154. (Adaptado). 
 
Os dados acima são antigos; datam de 1999, do Sistema de Avaliação da Educação Básica 
(SAEB), mas apresentam a realidade e a importância da parceria entre família e escola. É 
importante atentar para que essa relação se dê de maneira saudável: nem uma relação de 
cobrança por parte da família, nem de autoritarismo por parte da escola. 
 
Essa aproximação, é válido dizer, não é apenas levar e buscar a criança na escola e 
comparecer às reuniões: “as famílias precisam se aproximar da escola não apenas 
comparecendo a reuniões [...] mas é preciso que ela se inteire mais diretamente no processo 
educacional acadêmico dos seus filhos, ajudando-os a aprender” (SANTOS, 1999, p. 43). 
 
Por fim, aponta-se que educar crianças com necessidades educacionais especiais remete a 
promover uma educação integral. Embora historicamente família e escola tenham tecido 
uma relação complicada, é importante a presença ativa dos dois, por serem os grupos mais 
ativos na socialização das crianças. Uma relação de proximidade atua para a criança como 
uma rede de apoio capaz de promover qualidade de vida. 
 
 
OS TIPOS DE DEFICIÊNCIA 
 
 
VER VIDEO NO AVA 
 
Ao estudar o fenômeno da deficiência, é possível perceber que esse conceito é 
primordialmente relacionado à socialização, uma vez que a pessoa com deficiência é aquela 
que lida com obstáculos que atrapalham sua participação na sociedade em igualdade de 
oportunidades a partir da presença de um impedimento de longo prazo. 
 
Entretanto, esses impedimentos podem ser de várias ordens, origens e naturezas. As 
pessoas com deficiência são, como qualquer indivíduo, diferentes entre si, e a deficiência 
pode se apresentar de formas diversas. 
 
Por isso, para fins de estudo, pesquisa e construção de políticas públicas, elas são divididas 
de acordo com seus tipos, constituindo-se principalmente em deficiências sensoriais, físicas 
e intelectuais, como será visto a seguir. 
 
 
DEFICIÊNCIA SENSORIAL: VISUAL E AUDITIVA 
 
As deficiências sensoriais são aquelas em que o impedimento atinge um ou mais sentidos 
do indivíduo, ocorrendo por meio de sua perda total ou parcial. Nessa definição, podem ser 
incluídas as perdas sensoriais de qualquer um dos cinco sentidos – tato, olfato, audição, 
visão e paladar. 
 
Entretanto, é possível que você nunca tenha ouvido falar em deficiência olfativa, por 
exemplo. Isso se dá porque apenas são categorizados como deficiência os casos em que 
há desigualdade na participação social em relação às pessoas sem este impedimento. 
Assim, se a pessoa possui uma perda olfativa, mas não há comprometimento de sua 
funcionalidade e participação em sociedade, não há um caso de deficiência. 
 
É por isso que, ao discorrer sobre deficiência sensorial, as deficiências auditivas e visuais 
são mais conhecidas e proeminentes em termos de estudo e conscientização. A deficiência 
auditiva é uma das deficiências consideradas sensoriais e pode ser definida como a 
ausência parcial ou completa da audição. De acordo com o Decreto n. 5.296, há deficiência 
auditiva nos seguintes casos: "perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis 
(dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500HZ, 1.000HZ, 2.000Hz e 
3.000Hz" (BRASIL, 2004, n.p.). 
 
A pessoa surda é aquela que possui perda total da audição, ao passo que a pessoa 
parcialmente surda é aquela que tem perda parcial, mas é compreendida como pessoa com 
deficiência devido às limitações funcionais. As causas da deficiência auditiva são múltiplas, 
podendo ser decorrentes de lesões tanto na orelha quanto no aparelho auditivo como um 
todo, e são categorizadas em condutiva, mista, neurossensorial e central. 
 
 
 
Figura 5. Visão interna da orelha e ouvido com sinalização da origem de cada tipo de perda auditiva. Fonte: 
GOMES, 2018, n.p. (Adaptado) 
 
Conforme evidenciado na Figura 5, a perda auditiva condutiva é aquela decorrente de 
alterações na orelha externa e média que impedem o som de chegar ao ouvido de forma 
satisfatória. Nesses casos, por vezes, é possível que haja reversibilidade da perda do 
sentido. Já a deficiência auditiva de ordem neurossensorial é também conhecida como 
surdez do nervo. Ela se dá, evidentemente, devido a lesões nas células do nervo auditivo ou 
nas células ciliadas da orelha interna. 
 
A mista é aquela em que as causas se encontram tanto no ouvido externo e médio quanto 
no interno, de forma que há dificuldade ou incapacidade tanto de conduzir o som pela orelha 
quanto de processar esse som, uma vez que há lesões no ouvido interno ou no próprio 
nervo. Por fim, a surdez central é aquela em que a impossibilidade de ouvir decorre de 
alterações no sistema nervoso central, e não na captação do som em si. Essas alterações 
podem se dar no córtex cerebral ou em regiões abaixo deste. 
 
Dentro do processo de inclusão das pessoas com deficiência auditiva, ressalta-se uma das 
ferramentas assistivas mais populares: a Libras. A Língua Brasileira de Sinais é considerada, 
pela legislação brasileira, como a língua natural da pessoa surda, uma vez que pode ser 
aprendida mais naturalmente. Além da Libras, a leitura orofacial é essencial para a 
compreensão e comunicação dessa população. 
 
CURIOSIDADE: Você provavelmente já ouviu a expressão "surdo-mudo". Ela serviu por muito 
tempo para designar pessoas que não falam e que são surdas. Entretanto, esse termo é equivocado, 
visto que a pessoa surda que não fala o faz não por incapacidade de seu aparelho fonador, mas sim 
pela perda auditiva. O termo adequado para descrever esse aspecto é "pessoa surda não oralizada". 
 
A deficiência visual é a perda do sentido da visão em grau parcial ou total. Nessa definição, 
a pessoa com deficiência visual é aquela que tem a perda da visão como um impedimento 
irreversível e irremediável, ou seja, que não pode ser tratado com medicação, cirurgias ou 
uso de lentes. 
 
As origens da deficiência visual são diversas, podendo ser tanto congênitas quanto 
adquiridas. Mesmo as adquiridas podem surgir de um episódio repentino(doença, acidente, 
etc) ou mesmo ser consequência de uma perda gradual do sistema ocular/visual. A 
deficiência visual é dividida em três tipos, de acordo com a severidade da perda do sentido: 
baixa visão, próximo à cegueira(ou cegueira parcial) e cegueira total. De acordo com a 
Portaria n. 3.128, de 24 de dezembro de 2008: 
 
Considera-se baixa visão ou visão subnormal, quando o valor da acuidade visual 
corrigida no melhor olho é menor do que 0,3 e maior ou igual a 0,05 ou seu campo visual 
é menor do que 20º no melhor olho com a melhor correção óptica (categorias 1 e 2 de 
graus de comprometimento visual do CID 10) e considera-se cegueira quando esses 
valores encontram-se abaixo de 0,05 ou o campo visual menor do que 10º (categorias 3, 
4 e 5 do CID 10) (BRASIL, 2008). 
 
A pessoa com baixa visão é aquela que, mesmo após procedimentos médicos de tratamento 
ou correção, ainda mantém uma perda significativa da visão, a qual culmina em um 
comprometimento funcional. Essas pessoas encontram barreiras para a realização das 
atividades cotidianas em decorrência da limitação de sua visão, sendo necessário recorrer 
a recursos como lupas ou lentes de aumento, que não tratam mas ajudam a compensar as 
dificuldades encontradas. 
 
Já a cegueira parcial, ou a deficiência visual próximo à cegueira, é aquela em que o indivíduo 
possui o sentido da visão em níveis altamente comprometidos,mas ainda mantém alguns 
atributos, como a percepção da luz. Nesses casos, o indivíduo, por identificar a presença e 
a origem das fontes de luz, consegue também identificar sombras, percebendo os objetos 
como vultos. 
 
A cegueira total, cegueira ou deficiência visual total, como o próprio nome indica, é a 
condição em que há a ausência total da visão. A cegueira pode ser decorrente de alterações 
nos olhos ou mesmo no sistema nervoso. 
 
Em todos os casos, é importante que as pessoas com deficiência tenham acesso a 
tecnologias assistivas aliadas a políticas de construção de um desenho universal de 
sociedade em que haja possibilidades de circulação, participação e apropriação livre para 
todas as pessoas, a despeito das deficiências. Não havendo, porém, essas circunstâncias, 
buscam-se algumas mudanças, as chamadas adaptações razoáveis, que permitem uma 
inclusão da PCD visual mais adequada. 
 
Entre as ferramentas utilizadas, tanto no contexto público quanto na vida cotidiana de 
pessoas com deficiência visual, estão as bengalas, o piso tátil, os recursos e sinais sonoros, 
o cão-guia e o sistema Braille, entre outros. As bengalas são ferramentas que auxiliam a 
pessoa cega a identificar obstáculos e a caminhar com mais autonomia e segurança. Elas 
também permitem a sinalização do tipo de deficiência que o indivíduo possui, de forma a 
garantir mais segurança em casos de emergência ou de necessidade de ajuda (Figura 6). 
 
 
Figura 6. Diferentes bengalas utilizadas por pessoas com deficiência visual. Fonte: REAÇÃO, 2021, n.p. 
(Adaptado) 
 
 
Também faz-se uso do piso tátil, uma ferramenta de facilitação da mobilidade e da 
autonomia da pessoa com deficiência. Ele permite, por meio do tato, que o indivíduo 
identifique a textura e sua respectiva função. A textura em listras é condutora, direcionando 
o trajeto, enquanto a textura em bolinhas é de alerta, chamando a atenção para entradas de 
estabelecimentos e obstáculos no caminho. A presença dos estímulos auditivos também é 
essencial para pessoas com deficiência visual. Por isso, os sinais sonoros nos sinais de 
trânsito, os recursos sonoros de leitura nos dispositivos digitais e mesmo a audiodescrição 
nas produções cinematográficas são essenciais para a inclusão social e o acesso à 
participação em espaços coletivos. 
 
 
Figura 7. Mulher com deficiência visual utilizando bengala branca e caminhando sobre piso tátil. Fonte: 
Shutterstock. Acesso em: 21/09/2021. 
 
O sistema Braille, desenvolvido primariamente no ano de 1824, é um dos recursos assistivos 
mais conhecidos, configurando-se como um sistema de escrita tátil. Em outras palavras, em 
vez de se utilizar do sentido da visão para codificar e decodificar as letras, esse sistema 
recorre ao tato, permitindo assim a comunicação por meio de leitura e escrita também entre 
pessoas com deficiência visual. 
 
 
DEFICIÊNCIA FÍSICA 
 
De acordo com o Decreto n. 5.296, deficiência física é a "alteração completa ou parcial de 
um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física" 
(BRASIL, 2004, n.p.). 
Ou seja, a deficiência física não afeta algum dos sentidos ou as funções intelectuais do 
indivíduo, mas sim suas condições físicas, sejam elas estruturais, motoras ou relativas ao 
funcionamento físico em geral. Essa deficiência, assim como as outras, não se limita a 
apenas uma origem e causa, mas pode ser decorrente de questões genéticas e inatas ou 
adquiridas por meio de doenças, lesões e acidentes, entre outros. 
 
Popularmente, ao pensar em uma pessoa com deficiência física, automaticamente nos 
remetemos à imagem de alguém em uma cadeira de rodas. Isso se dá devido à 
representação em filmes, desenhos e produções audiovisuais em geral, que não costumam 
mostrar a diversidade de tipos de deficiência física, nem os variados jeitos que essas 
pessoas vivem e se apresentam socialmente. Por isso, é importante ter em mente que a 
deficiência física é um conceito amplo que engloba uma série de categorias dentro de si e 
que é importante conhecer e visibilizar esses tipos, a fim de que haja uma promoção eficaz 
da inclusão desses indivíduos. 
 
Assim, além de definir a deficiência física, o Decreto n. 5.296 de 2004 também apresenta 
todas as condições físicas que podem ser assim consideradas: 
 
Deficiência física: alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo 
humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-se sob a forma 
de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia, tetraparesia, triplegia, 
triparesia, hemiplegia, hemiparesia, ostomia, amputação ou ausência de membro, 
paralisia cerebral, nanismo, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto 
as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de 
funções (BRASIL, 2004). 
 
 
Tabela 1. Diferentes tipos de Deficiência Física. Fonte: DEFICIENTE ONLINE, 2021. 
(Adaptado). 
 
É importante observar que boa parte dos tipos descritos culmina em dificuldades de 
locomoção, comprometimento na autonomia para uso de ferramentas e adversidades na 
realização de tarefas. Ter essas competências, porém, é essencial para uma boa qualidade 
de vida. É possível perceber até mesmo que, ao falar em liberdade, são comuns expressões 
como "direito de ir e vir" ou "ir para onde quer". Porém, em uma sociedade capacitista, 
grande parte dos espaços e recursos, sejam públicos ou privados, são projetados por e para 
pessoas sem deficiência. As pessoas com deficiência física, por vezes, não conseguem 
sequer entrar em determinados estabelecimentos. 
 
Assim, para a inclusão da pessoa com deficiência física no contexto social, é preciso lançar 
mão de uma série de tecnologias, dispositivos e estratégias. Alguns exemplos são as 
rampas, corrimãos, elevadores e entradas adaptadas em banheiros e outros espaços. 
Outras tecnologias assistivas relevantes incluem o uso de órteses e próteses, bem como 
cadeiras de rodas, muletas e outros recursos. 
 
Por fim, vale ressaltar que a inclusão da pessoa com deficiência física demanda mudanças 
que vão desde o planejamento e a construção de espaços públicos, passam pela falta de 
acessibilidade em espaços e serviços privados e chegam até as práticas educacionais no 
contexto escolar. É essencial, por isso, buscar incluir essas pessoas não apenas ao permitir 
ou facilitar sua locomoção, mas também garantindo dignidade, respeito e acolhimento nos 
espaços. 
 
 
DEFICIÊNCIA INTELECTUAL 
 
A deficiência intelectual é uma das categorias mais mal compreendidas no que diz respeito 
aos conceitos de deficiência. Isso se dá porque, dentro do campo científico, especialmente 
na Psicologia e na Psiquiatria, observam-se tensões quanto ao conceito de normalidade, ou 
seja, o estabelecimento de qual é o parâmetro do funcionamento psíquico. 
 
Se esse debate já existe em relação às deficiências físicas e sensoriais, a subjetividade da 
constituição psicológica torna essa definição ainda mais desafiadora. Além da dificuldade de 
estabelecer os níveis de inteligência que seriam utilizados como parâmetro – o que também 
é difícil, visto que a noção de inteligência não é estática –, outros conceitos como transtorno 
mental e doença mental agravam a complexidade do assunto. 
 
Sabemos, entretanto, que toda deficiência só o é porque as características do indivíduo 
encontram barreiras no contexto social que tornam sua participação desigual. Ou seja, a 
deficiência intelectual diz respeito a impedimentos permanentes no desenvolvimento 
cognitivo do indivíduo. Segundo o Decreto n. 5.296, a deficiência mental é definida como: 
 
[...] funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com manifestação 
antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades 
adaptativas, tais como: comunicação, cuidado pessoal, habilidades sociais, utilização 
dos recursos da comunidade, saúde e segurança, habilidades acadêmicas, lazer e 
trabalho (BRASIL, 2004). 
 
Apartir dessa definição, compreendemos que a pessoa com deficiência intelectual é 
aquela que não atinge a capacidade cognitiva plena, tendo assim prejuízos no que diz 
respeito a desenvolvimento da autonomia, tomada de decisão e convívio social. Um dos 
parâmetros mais comuns é a defasagem de pessoas com deficiência intelectual na obtenção 
do pensamento abstrato, bem como a dificuldade em se adequar às regras explícitas e 
implícitas que regem o convívio social. 
 
CURIOSIDADE: O uso do termo “especial” para descrever pessoas com deficiência é 
inadequado. Um dos motivos para isso é que o termo é generalista, além de ser 
frequentemente utilizado também para pessoas com transtornos mentais. Os termos 
“pessoa com deficiência” e “pessoa com transtorno mental” são mais específicos e também 
é possível utilizar a expressão “pessoa com necessidades educativas específicas” (NEE) no 
contexto escolar. 
 
As causas da deficiência intelectual também são multifatoriais, podendo ter relação com a 
gestação, incluindo acontecimentos estressantes, lutos e hábitos de vida nocivos; ou com 
episódios na primeira infância. Segundo Tédde: 
 
As causas da D.I. são desconhecidas de 30 a 50% dos casos. Estas podem ser 
genéticas, congênitas ou adquiridas. Dentre as quais as mais conhecidas são: síndrome 
de Down, síndrome alcoólica fetal, intoxicação por chumbo, síndromes neurocutâneas, 
síndrome de Rett, síndrome do X-frágil, malformações cerebrais e desnutrição proteico-
calórica (2012, p. 24). 
 
Sua inclusão se dá por meio da adaptação da metodologia escolar (como, por exemplo, o 
uso de itens concretos para ensinar conceitos abstratos), do acesso ao cuidado 
multidisciplinar e da promoção de políticas de respeito e participação efetiva na 
comunidade. 
 
 
DEFICIÊNCIAS MÚLTIPLAS 
 
Chamamos de deficiências múltiplas o contexto em que há duas ou mais deficiências 
concomitantes no mesmo indivíduo, podendo estas serem de quaisquer origens ou tipos. 
Não há um número ou uma lista específica dos tipos de deficiências múltiplas, uma vez que 
elas podem resultar da combinação de ao menos duas das muitas deficiências existentes. 
Nesses casos, há uma perda ainda mais significativa na funcionalidade, pois torna-se mais 
desafiador encontrar tecnologias assistivas e metodologias de suporte. 
 
Além do aspecto funcional, as múltiplas deficiências podem até mesmo culminar na redução 
da autonomia e em complicações no ato de realizar tarefas, na saúde emocional, na vida 
social e no desenvolvimento acadêmico. Faz-se necessário o cuidado de uma equipe 
multidisciplinar de apoio e intervenção, bem como o uso de políticas e práticas de 
acessibilidade e inclusão já citadas anteriormente. 
 
 
DEFICIÊNCIAS ESPECÍFICAS 
 
Como já visto, o conceito de deficiência é uma macrocategoria que engloba uma infinidade 
de outros conceitos diferentes entre si, mas que compartilham a experiência de viver em 
um mundo capacitista, rodeado de barreiras de diversas naturezas. 
 
Por isso, torna-se importante visibilizar algumas deficiências já categorizadas nos grupos 
anteriores de acordo com o seu tipo, mas que apresentam características específicas e 
relevantes de se analisar. A seguir, conheceremos uma síndrome e um transtorno 
relacionados à questão da deficiência e da inclusão. 
 
 
// SÍNDROME DE DOWN 
 
"A síndrome de Down (SD) ou trissomia do 21 é uma condição humana geneticamente 
determinada, é a alteração cromossômica (cromossomopatia) mais comum em humanos e 
a principal causa de deficiência intelectual na população." (BRASIL, 2013, p. 9). Trata-se 
não de uma doença ou de uma deficiência, mas sim de uma síndrome, ou seja: um 
conjunto de sinais e sintomas. 
 
A princípio, essa diferenciação gera confusão, visto que muitos compreendem a síndrome 
de Down como um tipo de deficiência intelectual, o que não corresponde à realidade. A SD 
é uma síndrome que pode ter como um de seus sinais e sintomas a presença de 
deficiência intelectual. Em outras palavras, ela pode ser uma das causas desse tipo de 
deficiência, mas não é uma deficiência em si mesma. Seu diagnóstico é feito por meio da 
identificação do fenótipo característico e de exames laboratoriais. Em relação às 
características que compõem esse fenótipo, tem-se que: 
 
O fenótipo da SD se caracteriza principalmente por: pregas palpebrais oblíquas para 
cima, epicanto (prega cutânea no canto interno do olho), sinófris (união das 
sobrancelhas), base nasal plana, face aplanada, protrusão lingual, palato ogival (alto), 
orelhas de implantação baixa, pavilhão auricular pequeno, cabelo fino, clinodactilia do 5º 
dedo da mão (5º dedo curvo), braquidactilia (dedos curtos), afastamento entre o 1º e o 
2º dedos do pé, pé plano, prega simiesca (prega palmar única transversa), hipotonia, 
frouxidão ligamentar, excesso de tecido adiposo no dorso do pescoço, retrognatia, 
diástase (afastamento) dos músculos dos retos abdominais e hérnia umbilical. Nem 
todas essas características precisam estar presentes para se fazer o diagnóstico clínico 
de SD. Da mesma forma, a presença isolada de uma dessas características não 
configura o diagnóstico, visto que 5% da população podem apresentar algum desses 
sinais (BRASIL, 2013, p. 15-16). 
 
 
// TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA) 
 
O transtorno do espectro autista, também conhecido como TEA, é um dos transtornos mais 
conhecidos e discutidos atualmente. Apesar disso, ainda há muita confusão sobre sua 
natureza. Afinal, seria o TEA um transtorno mental? Uma deficiência? Como as 
características do TEA afetam o indivíduo e sua vida em coletividade? 
 
O transtorno do espectro autista é definido como um transtorno global do desenvolvimento, 
o que significa que este é um transtorno que afeta funções relevantes para o 
desenvolvimento do indivíduo como um todo. Não se trata, por exemplo, de um transtorno 
da fala, mas sim de uma alteração significativa na forma como as funções cognitivas, 
psíquicas e sociais são constituídas. Apesar de não configurar-se propriamente como uma 
deficiência, para efeito legal, o indivíduo com TEA é também considerado uma PCD. 
 
De acordo com o Manual de orientação da sociedade brasileira de pediatria, o TEA pode 
ser definido da seguinte forma: 
 
O transtorno do espectro do autismo (TEA) é um transtorno do desenvolvimento 
neurológico, caracterizado por dificuldades de comunicação e interação social e pela 
presença de comportamentos e/ou interesses repetitivos ou restritos. Esses sintomas 
configuram o núcleo do transtorno, mas a gravidade de sua apresentação é variável. 
Trata-se de um transtorno pervasivo e permanente, não havendo cura, ainda que a 
intervenção precoce possa alterar o prognóstico e suavizar os sintomas (SOCIEDADE 
BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2019, p. 1). 
 
 
Figura 8. Características do transtorno do espectro autista. Fonte: PET UFMT, 2019. (Adaptado) 
 
Sua nomenclatura remete ao fato de que, como dito, existe uma grande variação de formas 
como esse transtorno se apresenta e que impactam a funcionalidade do indivíduo, 
constituindo assim um espectro de possibilidades. Isso posto, a Figura 9 retrata os graus do 
TEA. 
 
 
 
Figura 9. Níveis de gravidade do TEA e seu impacto na comunicação social. Fonte: SILVA, 2019. (Adaptado) 
 
Compreendidas as características do TEA, é possível observar que há condições de 
pessoas com este transtorno viverem em sociedade com qualidade de vida, autonomia e um 
bom desenvolvimento integral. Entretanto, para que isso aconteça, faz-se necessária a 
ajuda, em diferentes níveis, da família, dos cuidadores, dos educadores e dos profissionais 
de saúde. Ademais, as tecnologias e ferramentas de inclusão e adaptação são essenciais 
para a escolarização e o acesso a serviços e direitos em igualdade de oportunidades. 
 
 
SINTETIZANDO 
 
Pode-se dizer que a deficiência é um fenômeno complexo: ela não pode ser definida de 
maneira completa, pois tanto a deficiência quanto a pessoa com deficiência não apresentam 
conceitos estáticos, mas queencontram-se em aprimoramento, conflito e avaliação. Assim, 
pode-se afirmar que a deficiência é sempre multifatorial e não pode ser tratada como um 
tema em que há uma definição fechada e resumida. 
 
De maneira geral, é importante destacar que a deficiência não é uma doença, mas sim uma 
das diversas maneiras de experienciar a vida social. Dentro dessa experiência, há alguns 
fenômenos sociais pelos quais a PCD passa, como o estigma. Goffman, um sociólogo 
clássico, define o estigma como uma marca presente em pessoas que destoam do padrão 
social. Uma das formas de desvio propostas por Goffman são as abominações do corpo, em 
que o tecido social exclui e estigmatiza pessoas com corpos entendidos como diferentes da 
norma. O estigma é sempre circunscrito em um período, e suas concepções são 
influenciadas pelo cenário social e político. 
 
É devido a isso que é tão importante que a ampliação da discussão sobre a inclusão de PCD 
seja realizada. Esse debate atualmente encontra-se em evolução, pois entende-se que não 
basta apenas discutir sobre o motivo de incluir, mas como incluir. Quanto à classificação dos 
tipos de deficiência, conceberam-se algumas subdivisões com o objetivo de facilitar sua 
compreensão e estudo. 
 
O primeiro grupo é o de deficiências sensoriais, compostas pela deficiência visual e auditiva 
principalmente. Sobre a deficiência auditiva, pode-se dizer que ela existe quando há perda 
parcial ou total da audição. As causas são múltiplas, como lesões ou má formação. Na 
deficiência visual enquadram-se três grupos: pessoas com baixa visão, próximo à cegueira 
ou cegueira. O fator comum que une este grupo é a ausência parcial ou total de visão nos 
dois olhos. Para que seja categorizada como deficiência visual, essa característica precisa 
ser irreversível, não podendo ser tratada com nenhuma ferramenta ou procedimento 
médico. 
 
Temos ainda a deficiência física, que consiste em alterações parciais ou completas em 
alguma parte do corpo humano, e que acarreta no comprometimento da mobilidade e 
coordenação. As causas também são diversas, como fator inato, lesão ou adoecimento nos 
membros. Por fim, há a deficiência intelectual, que consiste em um atraso no 
desenvolvimento. O sujeito com essa deficiência apresenta dificuldades para aprender, para 
realizar as tarefas do dia a dia e na interação com o meio. 
 
O sujeito com deficiência deve ser entendido como um ser integral, um ser de direitos que 
precisa de cuidados e de uma rede de apoio. A escola e a família podem exercer este papel 
de rede de apoio e cuidado para auxiliá-lo nesta experiência. Junto a isso, há também a 
presença de tecnologias assistivas, que remetem ao arsenal de recursos que auxiliam e 
ampliam as habilidades funcionais de PCD. A presença desses fatores auxilia na qualidade 
de vida e na inclusão de pessoas com deficiência. 
 
 
VER VIDEO NO AVA 
 
 
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	OBJETIVOS DA UNIDADE
	TÓPICOS DE ESTUDO
	Deficiência: conceituação contemporânea
	Deficiência e educação formal
	A IMPORTÂNCIA DA INCLUSÃO NO AMBIENTE ESCOLAR
	Os tipos de deficiência
	DEFICIÊNCIA SENSORIAL: VISUAL E AUDITIVA
	DEFICIÊNCIA FÍSICA
	DEFICIÊNCIA INTELECTUAL
	Deficiências específicas
	// Síndrome de Down
	// Transtorno do espectro autista (TEA)
	SINTETIZANDO
	REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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