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DESIGN DO MOBILIÁRIO Cristiano Da Cunha Pereira Desenho de móveis para espaços internos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir as formas de representação gráfica de mobiliário para espaços internos. Aplicar os conhecimentos de representação gráfica em desenhos perspectivados. Desenvolver desenhos para projetos de mobiliário para espaços internos. Introdução A representação de mobiliários consiste em um meio de comunicação entre o designer e o executor. O seu papel é reunir informações de di- mensionamento, material, estrutura e composição de peças visando ao desenvolvimento do mobiliário. Essa reunião de informações proporciona a composição de uma peça com base em uma linguagem e uma conceitua- ção específicas e em estudos ergométricos visando à aplicabilidade desse mobiliário em ambientes adaptados aos seus usuários. Neste capítulo, você vai estudar as formas de representação gráfica de mobiliários para espaços internos, verificando conceitos de perspectiva e desenhos perspectivados e o desenvolvimento de desenhos para móveis internos. Formas de representação gráfica de mobiliário para espaços internos As formas de representação gráfi ca são conjuntos de técnicas e modelos de projeção geralmente tridimensional, mas que podem ser projetados em um plano bidimensional, conforme leciona Ching e Binggeli (2013). A representação gráfi ca de projetos de design é considerada uma impor- tante ferramenta para a transmissão de ideias e conceitos, facilitando o entendimento do cliente. A maioria dos desenhos de projeto arquitetônico se encaixam em uma destas categorias: croquis (Figura 1); desenho de conceito (Figura 2); desenhos em perspectivas (Figura 3); desenhos paralelos (Figura 4). Figura 1. Croquis. Fonte: Adaptada de Leggitt (2008). Figura 2. Desenhos de conceito. Fonte: Adaptada de Leggitt (2008). Desenho de móveis para espaços internos2 Figura 3. Desenhos em perspectiva. Fonte: Adaptada de Leggitt (2008). Figura 4. Desenhos paralelos. Fonte: Adaptada de Leggitt (2008). A maior parte desses desenhos representa conceitos, e nem sempre o me- lhor desenho será aquele rico em detalhes, ou o mais colorido ou complexo, conforme aponta Leggitt (2008). Essas representações podem ser artísticas, quando representam um con- ceito a ser desenvolvido, ou técnicas, quando buscam mostrar, com uma 3Desenho de móveis para espaços internos maior clareza de detalhes, informações importantes para a sua confecção. Os desenhos técnicos devem ser desenvolvidos em escala e devem obedecer a regras de tamanho e proporções coerentes. Esse tipo de material gráfico orienta a execução do projeto e especifica materiais, detalhamentos, ferragens, etc. Os desenhos iniciais do processo de projeto, denominados croquis, ou esboços, não seguem regras específicas. São desenhos empregados no processo criativo e envolvem a compreensão e análise do espaço e das ideias. O croqui é a rápida transcrição das ideias que surgem à mente e é essa imediaticidade que o distingue da pintura e evidencia a sua natureza (LEGGITT, 2008). Ortega (2000) aponta a origem do termo croqui no ano de 1650, como de- rivado do termo croquer, que é utilizado na pintura para designar aquilo que é tomado rapidamente do natural. O autor ressalta que, em todas as definições de croqui, o adjetivo mais utilizado para representá-lo é “rápido”, evidenciando que não se trata de um desenho acabado, mas, sim, de uma transmissão instantânea do pensamento para o papel. Trata-se de um desenho que, a princípio, não é bem definido, mas que vai se desenvolvendo e adquirindo maior precisão, conforme aponta Ragonha (2014). Em outra etapa do processo aparecem os desenhos executivos, que serão levados à obra para que ela se concretize. Tais desenhos apresentam uma lin- guagem técnica e universal que permite a comunicação adequada do projeto aos demais profissionais envolvidos em sua construção. Nesse caso, plantas, cortes, elevações e detalhamentos são bastante utilizados, de modo a garantir que as ideias do arquiteto sejam colocadas em prática do modo como foram pensadas. Atualmente, os meios computacionais se caracterizam como importantes ferra- mentas para o processo de projeto e cada vez mais vêm ocupando os escritórios de arquitetura. Os meios digitais permitem amplas possibilidades ao fazer arquitetônico, sobretudo ao processo de experimentação criativa. Isso significa que esses meios não são utilizados apenas para traduzir informações previamente projetadas, mas também assumem papel no processo de desenvolvimento das ideias de projeto, conforme leciona Ragonha (2014). As representações gráficas utilizadas em desenhos de móveis internos orientam o processo criativo do artista, bem como sua execução e montagem. Para que isso aconteça, é necessária uma padronização de desenhos que Desenho de móveis para espaços internos4 possa orientar diferentes profissionais em todas as etapas. Geralmente, os desenhos técnicos de mobiliário correspondem a vistas superiores, todas as vistas laterais, cortes na peça e detalhamentos de pequenas áreas ou juntas mais complexas. Esse tipo de abordagem gráfica permite apresentar todos ou grande parte dos aspectos necessários para a execução do projeto. A Figura 5 traz um exemplo de planta comercial. Figura 5. Exemplo de planta comercial. Fonte: Adaptada de tele52/Shutterstock.com. Representação gráfica dos desenhos perspectivados As linhas que, na realidade, são paralelas e recuam em relação ao ob- servador parecem, ao serem representadas em um desenho, convergir para um mesmo ponto. Podemos reconhecer essa convergência de linhas paralelas na representação clássica dos trilhos de trem “sumindo” em um horizonte distante. Quando observamos duas linhas paralelas a caminho do horizonte, temos a sensação ótica de que elas se cruzam. Isso acontece porque nossos olhos enxergam em três dimensões (altura, largura e profundidade). A perspectiva é uma técnica de desenho que incorpora o conceito de três dimensões a um plano bidimensional, conforme leciona Curtis (2015). 5Desenho de móveis para espaços internos Perspectivas cônicas Foi Filippo Brunelleschi (1377–1446), designer italiano, quem redescobriu os princípios da perspectiva cônica, antes trabalhados por gregos e romanos. Porém, foi Leon Battista Alberti (1404–1472), artista italiano, quem tornou esses princípios amplamente acessíveis para os artistas em seu livro Della Pittura (Sobre a Pintura). A introdução da perspectiva geométrica como fer- ramenta para criar a ilusão de um espaço tridimensional aumentou o prestígio de pintores e artistas. Por volta de 1445, a perspectiva, como estudada pelos pintores, era ensinada nas universidades renascentistas. A introdução da perspectiva de Brunelleschi não substituiu os métodos de perspectiva já utilizados pelos artistas para criar a ilusão de espaço, mas se somou a eles. Essas outras técnicas espaciais monoculares não só eram com- patíveis com a perspectiva cônica como também serviam como incrementos valiosos. Tanto é que o sentido completo de perspectiva renascentista é entendido como uma combinação de técnicas, não limitado às regras estabe- lecidas por Alberti. A perspectiva cônica de Brunelleschi corresponde a uma linguagem visual sintética em uma superfície plana de desenho que não reflete como de fato enxergamos o ambiente. O autor partiu da percepção de que a integridade da relação espacial de um objeto com o observador e com os outros objetos em um espaço ilusionista é apropriada quando: a imagem contém o que pode ser visto com apenas um olho fixo em um único ponto (ponto de fixação); a linha de observação entre o olho do observador e o ponto fixo é paralela ao plano-base e perpendicular ao plano do desenho (Figura 6). Visto que o ponto de fixação, na perspectiva cônica clássica, sempre está no nível do observador, uma linha traçadahorizontalmente através desse ponto é a própria linha do horizonte, conforme leciona Curtis (2015). Desenho de móveis para espaços internos6 Figura 6. Perspectivas cônicas. Fonte: Adaptada de Curtis (2015). A visão humana periférica proporciona cerca de 180° de informação visual, enquanto o sistema de perspectiva cônica de Brunelleschi responde apenas às informações visuais de até 45°. Esse cone de 45º foi escolhido porque gera uma quantidade mínima de distorção do tamanho, do formato, da proporção e do aspecto retilíneo do objeto. As câmeras fotográficas são basicamente ferramentas de desenho mecânicas baseadas nos princípios de Brunelleschi. A câmera geralmente tem apenas um foco de visão (a lente), a qual geralmente registra apenas o que estiver dentro de um cone de 45°. Quando o plano de desenho é paralelo a dois pares de arestas frontais de um objeto retilíneo (ou nivelado com a superfície frontal), cria-se uma perspectiva com um ponto de fuga em relação ao objeto. Os elementos no primeiro plano são desenhados com mais detalhes do que aqueles à distância, conforme aponta Leggitt (2008). Nessa perspectiva, não há esforço das proporções reais das arestas frontais do sólido retilíneo. Quase todas as arestas do sólido retangular observado que se afastam do observador (perpendiculares à superfície frontal) parecerão convergir precisamente para o ponto de fixação. Se uma aresta do objeto, que recua em relação a uma perspectiva com um ponto de fuga, estiver logo abaixo do 7Desenho de móveis para espaços internos ponto de fixação, aparecerá como uma linha vertical. Todas as outras arestas em perspectiva com as quais essa linha vertical for paralela no mundo físico estarão inclinadas, convergindo para o ponto de fixação, conforme leciona Curtis (2015) e mostra a Figura 7. Figura 7. Relações entre os elementos das perspectivas cônicas. Fonte: Adaptada de Curtis (2015). As relações de perspectivas com dois pontos de fuga (Figura 8) se baseiam nas mesmas premissas da perspectiva com um ponto de fuga. Se o plano do desenho for paralelo a um par de arestas frontais (geralmente verticais), o observador criará, em relação ao objeto, uma perspectiva de dois pontos de fuga. Quando objetos ortogonais são alinhados, compartilham os mesmos pontos de fuga. Para sólidos que giram, o objeto em perspectiva tem dois pontos de fuga que estão sempre na linha do horizonte e em lados opostos do ponto de fixação. Desenho de móveis para espaços internos8 Figura 8. Perspectiva cônica com dois pontos de fuga. Fonte: Adaptada de Curtis (2015). O sistema original de Brunelleschi foi criado para lidar apenas com formas retilíneas que estão totalmente assentadas no plano-base ou têm um lado inteiro (quatro arestas) paralelas a ele. Quando não há pares de arestas paralelas ao plano do desenho, cria-se uma perspectiva com três pontos de fuga em relação ao objeto. Nessa relação espacial, o ponto inicial de contato será a quina do objeto que estiver mais próxima. Essa quina possui três arestas em perspectivas; cada uma delas converge com todas as arestas que lhes são paralelas. Qualquer objeto ortogonal nessa relação terá três conjuntos de arestas convergindo para três pontos de fuga diferentes. Nessa relação, os pontos de perspectivas não se encontram na linha do horizonte. 9Desenho de móveis para espaços internos Figura 9. Perspectiva cônica de objetos não assentados no plano-base. Fonte: Adaptada de Curtis (2015). Desenhos para projetos de mobiliários para espaços internos Manuri (1997, apud GUBERT, 2008), apresenta um esquema de projeto (Figura 10) em que a sucessão das atividades deve ser realizada com base na seguinte organização: enunciação do problema; identificação dos aspectos e das funções; limites; disponibilidades tecnológicas; criatividade; desenvolvimento de modelos/protótipos. Desenho de móveis para espaços internos10 Figura 10. Esquema de projeto. Fonte: Adaptada de Gubert (2011). Os desenhos de mobiliários de espaços internos podem ser desenvolvidos seguindo duas intenções: intenções artísticas e intenções técnicas. As intenções artísticas (Figura 11) levam em consideração aspectos estéticos referentes à forma, ao tamanho e aos materiais e geralmente servem para ilustrar um conceito inicial de projeto ou representar a imagem do produto idealizado. Já as intenções técnicas (Figura 12) levam em consideração aspectos técnicos para o seu desenvolvimento. Nessa etapa, o designer acrescenta informações im- portantes, formalizando o projeto do mobiliário, como dimensões, detalhamentos, especificações, etc. Um projeto tem como finalidade a representação gráfica de um produto com todas as informações necessárias para o seu desenvolvimento. 11Desenho de móveis para espaços internos Figura 11. Desenhos com intenções artísticas. Fonte: Adaptada de mixform design/Shutterstock.com. Figura 12. Desenhos com intenções técnicas. Fonte: Angel_Vasilev77/Shutterstock.com. Os diferentes tipos de projeto podem ser separados em quatro classes quanto ao nível de complexidade e inovação (DEVIDES, 2006): Desenho de móveis para espaços internos12 Projetos incrementais — trata-se da modificação de componentes ou de partes do produto, sem alterar o conceito original. Projetos complexos — projetos de grande porte, com grandes equipes e sistemas de informação complexos. Projetos criativos — projetos originais lidando com problemas tec- nologicamente simples. Projetos incisivos — projetos que envolvem situações inteiramente novas e muito complexas. A maioria dos projetos de novos móveis se encaixa na classe de projeto criativo, uma vez que utiliza tecnologia de baixa complexidade, em geral já dominada ou de fácil/média obtenção. As representações técnicas podem ser bidimensionais ou tridimensionais, dependendo da sua intenção e necessidade. Por exemplo, usamos represen- tações bidimensionais para a apresentação de vistas (todos os quatro lados da peça) ou plantas (vista superior da peça). Nesse tipo de representação, o autor do projeto deve especificar os materiais utilizados, seu posicionamento no ambiente, as cotas de dimensionamento de cada objeto e as informações quanto ao seu funcionamento (fechamento, tipo de abertura, entre outros). As representações tridimensionais são utilizadas para dar informações gerais de cada objeto de forma isolada ou do ambiente e a sua composição. Em alguns casos, as representações tridimensionais esclarecem um detalhe do objeto, como seu funcionamento ou sua montagem. É interessante ressaltar que, assim como as representações artísticas, os modelos tridimensionais, em sua grande maioria, servem como estudo de volumes e composição es- tética — exceto quando usados na forma de representações de montagem e funcionamento, como já mencionado. Quanto à representação gráfica de mobiliários internos, podemos citar os seguintes desenhos: Vista superior — vista aérea que compreende o objeto visto de cima ou a secção do objeto no plano horizontal. Vistas laterais — vistas laterais, frontais e traseiras do objeto. Cortes — secção do objeto no plano vertical. Detalhamento — detalhes de amarrações, encaixes ou algum outro tipo de peça ou junta que necessite de maiores esclarecimentos. 13Desenho de móveis para espaços internos A Figura 13 mostra as vistas frontal, posterior, lateral e superior de uma pol- trona, a Figura 14 apresenta seu detalhamento, e a Figura 15 mostra sua perspectiva. Figura 13. Vistas de uma poltrona. Fonte: Adaptada de Gava (2015). Figura 14. Detalhamento de uma poltrona: (1) suporte base para cama, acoplado à base posterior do encosto; (2) base posterior do encosto e tampo de mesa; (3) encosto; (4) estrutura lateral; (5) braço retrátil; (6) base superior do assento; (7) suporte para mouse; (8) base para armazenagem de objetos; (9) tampa fecho para entrada de gadgets; (10) entrada para gadgets; (11) entrada para suporte de mouse.Fonte: Adaptada de Gava (2015). Desenho de móveis para espaços internos14 Figura 15. Perspectiva de uma poltrona. Fonte: Adaptada de Gava (2015). CHING, F. D. K.; BINGGELI, C. Arquitetura de interiores ilustrada. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2013. CURTIS, B. Desenho de observação. 2. ed. Porto Alegre: AMGH, 2015. DEVIDES, M. T. C. Design, projeto e produto: O desenvolvimento de móveis nas indústrias do Polo Moveleiro de Arapongas, PR. 2006. 120 f. Dissertação (Mestrado em Design) — Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2006. Disponível em: <http://hdl.handle.net/11449/89766>. Acesso em: 5 dez. 2018. GAVA, A. S. Móvel multifuncional: mobiliário em tempos de espaços reduzidos. 2015 Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização) — Curso de Design de Produto, UNESC, 2015. Disponível em: <http://repositorio.unesc.net/bitstream/1/4015/1/Aline%20 Savi%20Gava.pdf>. Acesso em: 5 dez. 2018. GUBERT, M. L. Design de interiores: a padronagem como elemento compositivo no ambiente contemporâneo. 2011. Dissertação (Mestrado em Design) — Programa de Pós-graduação em Design, Escola de Engenharia, Faculdade de Arquitetura, UFRGS, Porto Alegre, 2011. Disponível em: <https://lume.ufrgs.br/handle/10183/36398>. Acesso em: 5 dez. 2018. LEGGITT, J. Desenho de arquitetura: técnicas e atalhos que usam tecnologia. Porto Alegre: Bookman, 2008. 15Desenho de móveis para espaços internos ORTEGA, A. R. O projeto e o desenho no olhar do arquiteto. São Paulo: USP, 2000. RAGONHA, J. As formas de representação em arquitetura: os arquitetos da família Bratke. Relatório científico final. Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, São Carlos, 2014. Disponível em: <https://www.iau.usp.br/pesquisa/grupos/nelac/wp-content/ uploads/2015/01/RAGONHA_FAPESP_relat%C3%B3rio-final.pdf>. Acesso em: 5 dez. 2018. Leitura recomendada HEIDEGGER, R. Designer fala sobre o toque decorativo da madeira no mobiliário. Emobile, 22 out. 2016. Disponível em: <http://www.emobile.com.br/site/design-e-decoracao/ monica-cintra-madeira-em-mobiliario/>. Acesso em: 5 dez. 2018. Desenho de móveis para espaços internos16 Conteúdo: