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31 Os “4 Cs do crédito” (Caráter; Capacidade; Capital; Condições) Introdução Existem diversas maneiras de analisar os riscos de crédito, dentre elas a aplicação de metodologias subjetivas e financeiras, aparentemente simples, mas que deman- dam cautela e responsabilidade. Este capítulo pretende fornecer condições para a identificação de alguns critérios subjetivos e financeiros, geralmente adotados pelas instituições financeiras na análise do eventual tomador de empréstimos. O que se pretende destacar são os diferentes critérios que são aplicados às propostas de negócio pelos gerentes das instituições financeiras. “Creditar” consiste no ato da instituição financeira colocar à disposição dos toma- dores de recursos determinados valores sob a forma de empréstimos, financiamentos ou outra operação bancária mediante promessa de pagamento. As instituições financeiras têm como costume realizar operações somente com pessoas que sejam seus clientes. Quando esses clientes necessitam de recursos, eles recorrem ao banco, que tem como norma elaborar uma análise minuciosa para a con- cessão do crédito pretendido, baseados primordialmente em critérios pessoais e finan- ceiros. O banco busca com isso colher indícios de insolvência de clientes, pois a preo- cupação é que a quantia emprestada não retorne mais com os respectivos encargos financeiros, que são juros e correção monetária. Referindo-nos aos critérios geralmente utilizados para a concessão de crédito, as instituições financeiras identificaram quatro critérios básicos para análise dos clientes, iniciados com a letra “C”: Caráter, Capacidade (critérios subjetivos), Capital e Condi- ções (aspectos financeiros). O autor Preisler afirma que o método lógico utilizado para analisar cada situação é baseado nos ‘Cs’ de crédito. Embora este método não aborde todo o conjunto de instrumentos disponíveis para a avaliação de riscos e crédito, na realidade ele se constitui numa das ferramentas mais modernas de análise de risco e crédito, voltados para situações concretas. (PREISLER, 2003, p. 48) 32 Ao analisar uma proposta de crédito, a instituição financeira costuma fazer, no mínimo, dois tipos de análises: uma análise subjetiva composta por critérios não mensuráveis (caráter e capacidade), e uma análise objetiva composta por parâme- tros mensuráveis e concretos (capital e condições). Os quatro critérios referidos não esgotam todos aqueles aplicados pelas instituições financeiras, cada uma delas pode ter critérios próprios, subjetivos e objetivos para efetuar a análise global de seus clientes. Existem dois critérios adicionais, que também fariam parte desse grupo, mas cuja aceitação não é consenso entre os estudiosos, o Colateral, que significa garantia, e o Conglomerado, que é o exame conjunto das empresas do grupo empresarial, ou das pessoas físicas do grupo que pleiteiam o crédito. Não basta apenas conhecer a situa- ção econômica e financeira de uma empresa, é preciso que se conheça também todas as empresas do grupo empresarial para se formar um conceito único sobre a solidez do conglomerado. As palavras “caráter” e “capacidade” derivam do inglês, e compõem os critérios pessoais na análise de crédito (SCHRICkEL, 2000, p. 48). Aborda-se, abaixo, os quatro critérios de análise iniciados com a letra “C”. Caráter Gitman (1997) acredita que um dos critérios mais importantes na tomada de de- cisão de crédito é o julgamento subjetivo que o analista financeiro faz para decidir se é válido ou não, assumir riscos com determinado cliente. Para Silva (2008, p. 60), o Caráter está relacionado com a intenção do devedor (ou mesmo do fiador ou avalista) em cumprir a promessa de pagamento. O caráter do cliente está relacionado ao pagamento da dívida que tem com a instituição financeira emprestadora. Assim, essas entidades devem fazer uma pesquisa minuciosa sobre a vida do cliente, seus antecedentes, informações normalmente colhi- das através da “ficha cadastral”. Para Santi Filho (1997, p. 15) [...] o documento resultante do trabalho de levantamento de informações é a Ficha Cadastral do Cliente. Para o profissional do crédito e no que se refere especificamente à avaliação do caráter do cliente, este documento é sua base mais importante. Na ficha cadastral do cliente deve estar refletida a performance do eventual tomador de crédito, destacando-se os seguintes aspectos: identificação, pontualidade, existência de restrições, experiência em negócios e atuação na praça. O s “ 4 Cs d o cr éd ito ” ( Ca rá te r; Ca pa ci da de ; C ap ita l; Co nd iç õe s) 33 O s “4 Cs do crédito” (Caráter; Capacidade; Capital; Condições) A ficha cadastral, entretanto, não esgota a pesquisa sobre a verdadeira intenção do tomador de recursos. Schrickel (2000, p. 49) escreve que a ficha cadastral elaborada pela instituição financeira possibilita o levantamento de informações do potencial to- mador de recursos do banco sobre a identificação e qualificação do indivíduo (nome, endereço, registros, profissão etc.) e sobre experiências de outras instituições com a pessoa (pontualidade de pagamentos, protestos, anotações diversas e outras). Schrickel (2000, p. 49) lembra que “o emprestador deve construir um conjunto de informações adicionais sobre o tomador [do empréstimo], alicerçado na sensibilidade de seus contatos diretos com o mesmo, e com o mercado ou segmento social em que o tomador atua”. Assim, as instituições financeiras devem pesquisar os hábitos e a cultura do cliente, além de sua postura ética e honestidade. A finalidade é reunir o máximo de informações com o intuito de diminuir o risco do não recebimento da quantia emprestada. Um ponto importante, quando se analisa o caráter da pessoa, é analisar as restri- ções de empregabilidade, crédito junto a outras instituições e outros fatos cerceadores do livre arbítrio do tomador de empréstimos. Schrickel (2000, p. 49) acrescenta que “é no momento de aperto (desemprego ou vendas e lucros abaixo das expectativas ou necessidades) que o caráter é colocado à prova, não só em termos factuais – disponibi- lidade de recursos –, como também em termos de criatividade e pragmatismo”. O caráter é um conceito que transcende ao indivíduo, ensina Schrickel (2000, p. 49) ele alcança a camada social e econômica da qual o indivíduo faz parte, de modo que as decisões que envolvem crédito devem levar em conta a integridade ética do grupo social à qual pertence o cliente. Em um processo de análise de crédito, a análise do caráter do tomador do recurso é um fator dos mais relevantes. Assim, Preisler (2003, p. 61) escreve que “o caráter é fator eliminatório, insubstituível no processo de análise de risco e crédito”. Capacidade A capacidade está relacionada à habilidade do indivíduo ou grupo de gerir estra- tégica e operacionalmente os negócios da empresa. A pesquisa sobre o cliente cos- tuma ser feita através da análise do currículo de seus administradores para verificar se eles conhecem o ramo de atividade em que atuam e das atribuições que exercem. Silva (2008, p. 67) entende que a capacidade “deve estar relacionada aos fatores que contribuem para a empresa ser competente e competitiva”. 34 Preisler (2003, p. 51) escreve que a [...] previsão da capacidade de pagar, ou seja, da competência empresarial do cliente, é a parte mais difícil da avaliação do risco. Embora ainda não sejam dispensadas utilizações de balanços, análises de fluxo de caixa e qualidade das garantias prestadas, existem outros elementos a serem avaliados, por exemplo, a capacidade gerencial do administrador e o relacionamento que a empresa mantém com o banco são tão importantes quanto os demais itens, como afirmam alguns autores. Para Santos (2000, p. 46), a capacidade refere-se ao julgamento subjetivo daquele que analisa a proposta de crédito sobre os critérios de habilidade dos clientes no ge- renciamento e conversão de seus negócios em renda ou receita. Schrickel (2000) diferencia carátere capacidade, escrevendo que, se caráter diz respeito à vontade de pagar, a capacidade refere-se à habilidade de pagar. O conceito de capacidade não se confunde com o conceito de caráter, pois o cliente-tomador de empréstimos pode ser honesto e não ter a capacidade para pagar naquele momento em virtude de algum fato que desorganizou a sua vida pessoal, como a perda do emprego, um sinistro em seus bens ou outro fato da vida corrente. Para analisar a capacidade do tomador de empréstimos, a instituição financeira emprestadora deverá, em termos práticos e objetivos, obter respostas claras às seguin- tes perguntas (SCHRICkEL 2000, p. 50): Qual é a sua idade? Qual é o seu grau de educação? Qual é a sua formação acadêmica, se for o caso? Qual é a sua experiência profissional? Como foi construída a sua carreira profissional? Ele é um indivíduo de sucesso? Já fez ou está fazendo sucesso? Qual? Como esse sucesso pode ser medido? Os membros de sua família sempre atuaram (ou já atuaram) no setor a que está se dedicando no momento? Qual é o seu posicionamento gerencial sobre os negócios? É conservador ou arrojado? É espe- culador? Sabe antecipar-se aos problemas? É inovador? É econômico ou perdulário? É centrali- zador ou adota a gerência colegiada (team work)? Os negócios são do tipo familiar? Existe linha sucessória definida? Os sucessores são igualmente capacitados (assumindo que o indivíduo em análise o seja)? Qual é a idade, formação e experiência dos sucessores? Como se materializa o processo de decisão e sucessão nos negócios? Quando isto ocorrerá? Ele é mais ou menos capaz, comparativamente, a outros indivíduos de seu setor de atividade? Ele exerce algum tipo de liderança em seu setor de atuação?O s “ 4 Cs d o cr éd ito ” ( Ca rá te r; Ca pa ci da de ; C ap ita l; Co nd iç õe s) 35 O s “4 Cs do crédito” (Caráter; Capacidade; Capital; Condições) Ele tem algum passatempo ou hobbie que, além de custoso, é perigoso? Será que ele utilizará o empréstimo na essência de seus negócios ou o aplicará em seu hobbie ou em outra área? Os fins do empréstimo são lícitos e/ou produtivos? Haverá retorno suficiente, ou existem meios de “produzir” recursos, de tal sorte a permitir o repagamento do crédito? Santi Filho (1997, p. 30-31) escreve que os pontos fundamentais a serem observa- dos na concessão do crédito são: estratégia empresarial – está condicionada à meta, assim, se a meta é aumentar a fatia do mercado, a estratégia é a necessidade de forte assistência financeira; organização e funcionamento – a atenção deve estar voltada para a gerên- cia e para a gestão do negócio, alterações na administração, seja no controle acionário, ou nas pessoas-chave, devem ser vistas como fatores de risco do negócio; capacitação dos dirigentes – administradores/sócios-dirigentes têm forma- ção técnica/acadêmica e experiência compatíveis com área de atuação, têm melhores condições para conduzir o negócio de forma a reduzir seus riscos. A capacidade é a análise subjetiva das condições do devedor em retornar ao credor a quantia emprestada, no prazo acordado. O conceito de capacidade torna-se mais relevante para as instituições financeiras a partir do momento em que o sistema econômico torna-se mais volátil, expondo crises originárias de desequilíbrios estrutu- rais do sistema globalizado, atingindo os tomadores de empréstimos e financiamen- tos. Essas crises, de caráter global, costumam afetar a quantidade de crédito disponível, pois geralmente vêm acompanhadas da intervenção dos Bancos Centrais, reguladores do sistema financeiro, ora aumentando juros, ora adotando medidas para restringir ou aumentar a quantidade de crédito disponível. Analisar a capacidade do cliente em condições de instabilidade econômica torna a tarefa mais difícil, por que aumenta o risco da operação, dado que as novas condi- ções pós-crise podem afetar a sua capacidade de pagamento. Não obstante os problemas que possam surgir ao se avaliar a capacidade do to- mador de empréstimos/financiamentos, “a atenta observação de como o indivíduo ad- ministra suas finanças pessoais [...] é valiosa fonte de informação para a construção do conceito de qual seja sua Capacidade de Crédito” (SCHRICkEL, 2000, p. 51). Schrickel (2000, p. 51) lembra que a “análise do currículo profissional” do toma- dor é outro ângulo a ser considerado na diferenciação da capacidade entre indiví- duos. Assim, através da análise da estabilidade no emprego, assunção de cargos de mais alto nível e responsabilidade, atingimento de resultados relevantes ao longo de sua carreira profissional, o cliente demonstrará mais capacidade do que outro em situação inversa. 36 Sobre os critérios subjetivos de caráter e capacidade, Preisler (2003, p. 52) afirma: “trata-se de dois atributos que se misturam ou se confundem a partir do momento em que se depara com uma situação do tipo ‘quero pagar, mas não posso’”. No que diz respeito ao caráter, por princípio não se questiona a vontade e disposição para pagar o devedor, porém essa vontade não se concretiza quando há incapacidade para fazê-lo. Capital O critério “capital” refere-se à situação econômico-financeira do tomador de em- préstimos/financiamento, ou seja, diz respeito à qualidade do montante de recursos que esse possui para saldar seus débitos. No capital, procura-se analisar as demonstra- ções contábeis para se obter informações sobre a solidez e o desempenho do cliente. O capital é critério próprio de análise de crédito de pessoas jurídicas, e não de pessoas físicas. Assim, é oportuno referir-se à capital quando se analisa o potencial de crédito de uma pessoa jurídica que deseja operar com um Banco. Com pessoas físicas, é mais conveniente referir-se às expressões “fonte de renda”, “ganhos mensais”, “salários percebidos”. A ideia de capital em análise de crédito tem duas acepções: 1) critério geral em- pregado na investigação da capacidade de pagamento do cliente; e 2) à rubrica do Balanço Patrimonial das empresas, que abriga os recursos dos sócios, e que compõe o grupo Patrimônio Líquido. Tratando-se de análise de crédito de pessoas jurídicas, Preisler (2003, p. 76) escreve que “a ideia de capital não deve restringir-se à mera rubri- ca [“Capital Social”] do Patrimônio Líquido do Balanço Patrimonial, mas transcendê-la, alcançando toda estrutura econômico-financeira da empresa.” No Balanço das empre- sas, o patrimônio líquido é formado pelo grupo de contas que abriga os investimentos dos proprietários, ou sócios, (conta capital social), as Reservas, destinatárias dos lucros apurados, e os prejuízos (conta prejuízos acumulados). A pergunta subjacente à análise do critério pode ser formulada assim: será que o tomador potencial de crédito tem bastante capital para operar em níveis adequados de eficiência e retorno? “Eficiência” e “retorno” são variáveis relevantes na análise do cliente-tomador de empréstimos, pois as instituições financeiras, quando emprestam, buscam eficiência na alocação de seus recursos disponíveis, e retorno dos valores em- prestados para voltarem a emprestar, auferindo ganhos na intermediação financeira. O capital costuma ser o primeiro critério não subjetivo a ser analisado, pois ele lida com o montante de recursos a ser devolvido pelo cliente à instituição que os em- prestou. O critério começa a ser analisado após o cliente ter recebido aprovação nos critérios subjetivos anteriores. O s “ 4 Cs d o cr éd ito ” ( Ca rá te r; Ca pa ci da de ; C ap ita l; Co nd iç õe s) 37 O s “4 Cs do crédito” (Caráter; Capacidade; Capital; Condições) Referindo-se ao critério de análise de capital, Silva (2008, p. 76) escreve que “o capital é medido por meio de análise de índices financeiros, tendo, evidentemente, um significado muito mais amplo do que aquele que é dado à conta de capital na contabilidade”. Portanto, o “C” de capital equivale à situação econômica, financeira e patrimonial do cliente. Schrickel(2001, p. 52) escreve que “o aspecto capital nas empresas tomadoras de empréstimos implica em uma análise global, as chamadas Análise de Balanço e Aná- lise Econômico-Financeira”, através das quais “será possível detectar, por exemplo, o quanto dos recursos próprios está investido em Ativos Fixos”. Sabe-se que o Ativo do Balanço Patrimonial das empresas abrigam seus bens e direitos. Localizam-se do lado esquerdo do Balanço, enquanto o Passivo e Patrimônio Líquido registram as obriga- ções e os recursos próprios da empresa, respectivamente. Schrickel escreve: Ato contínuo será necessário ponderar o quão adequados e eficientes são tais ativos: há espaço físico suficiente e adequado? As instalações são planejadas? As máquinas são modernas e comparáveis as dos concorrentes? Há seguros? Podem ser acomodadas novas expansões? Por outro lado, deve- se ponderar quanto dos recursos está aplicado em Ativos Circulantes e Semifixos, notadamente em Contas a Receber e Estoques: os produtos são vendáveis? O mercado está em expansão? A participação no mercado é expressiva ou relevante? Os clientes são de boa qualidade e têm pago pontualmente? Há diversificação de clientes? Há contas incobráveis de valor expressivo? (SCHRICkEL 2001, p. 52) O conceito do capital difere nas micro e pequenas empresas. Essas entidades ne- cessitam de cuidados especiais quando se analisa sua capacidade, devido à precarie- dade dos dados geralmente fornecidos às instituições financeiras. Santi Filho (1997, p. 61), escreve: [...] Nas micros e, em boa parte, nas pequenas empresas, os relatórios contábeis fornecidos – base importante para a análise [...] – não estão em completo acordo com a respectiva realidade. Geralmente, são elaborados por escritórios de contabilidade externos à empresa e cumprem finalidades basicamente fiscais. A avaliação de riscos relacionados ao “C” capital, neste caso, é feita mais em função dos números inerentes aos proprietários – patrimônio, etc. – do que a partir dos demonstrativos contábeis.[...] Não existe um só conceito de micro e pequenas empresas no Brasil, Lei Comple- mentar de acordo com a Lei Geral para Micro e Pequenas Empresas, n.° 123 de 2006, as microempresas são as que possuem faturamento anual de, no máximo, R$ 360 mil por ano. As pequenas devem faturar entre R$ 360.000,01 e R$ 3,6 milhões anualmente para ser enquadradas (valores vigentes a partir de 01/01/2012 – sujeitos à alteração). Para o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), as microempresas são aquelas que empregam até nove pessoas no caso do comércio e serviços, ou até 19, no caso dos setor industrial ou de construção. Já as pequenas são definidas como as que empregam de 10 a 49 pessoas, no caso de comércio e serviços, e 20 a 99 pessoas, no caso de indústria e empresas de construção (IDRIUNAS, 2008). 38 O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), organismo federal, enquadra a microempresa como sendo aquela que tem receita bruta anual de até R$ 2,4 milhões, enquanto as pequenas empresas devem tê-la superior a R$ 2,4 milhões e menor ou igual a R$ 16 milhões. Schrickel (1995, p. 82-83) escreve a respeito dos balanços das micro e pequenas empresas: [...] Quanto aos balanços das micros, pequenas e médias empresas, não raro ouve-se a alegação de que os balanços das empresas em geral não revelam, em absoluto, a sua realidade operacional ou factual [...]. Os demonstrativos destas empresas seriam, portanto, invariavelmente ajustados a fim de poder esquivar-se da carga tributária, sem dúvida elevada, consoante as mais recentes discussões nos mais diferentes canais, o que conduziria, inclusive, a uma ampla reforma fiscal num futuro próximo [...]. Embora a qualidade das fontes de pesquisa do capital dos tomadores de emprés- timos de instituições financeiras fosse questionável até pouco tempo atrás (Santos, 2000, p. 46), ressalta-se que, existem no Brasil fontes de pesquisa disponíveis usadas pelas instituições financeiras para investigar as condições de pagamento do cliente. São elas: a Centralização dos Serviços Bancários SA – SERASA –, empresa privada que permite a consulta em tempo real das condições do cliente, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), mantido pelas Associações Comerciais, além dos bancos de dados das próprias instituições financeiras. Condições Este é o quarto “C” financeiro dos “Cs” de crédito estudados. Refere-se aos cenários micros e macroeconômicos em que o cliente está inserido. Tratam-se dos fatores externos e macroeconômicos que podem afetar o funcio- namento e a situação econômica e financeira da empresa-cliente (SCHRICkEL, 2000, p. 53). A análise das condições visa avaliar o momento em que o crédito é solicitado (timing) e quando será eventualmente desembolsado. A análise de condições está associada ao estudo dos impactos sistemáticos e ex- ternos sobre a receita da empresa postulante ao crédito. A adequada avaliação do risco do cliente está ligada a esse critério, pois ele pode influenciar as condições necessárias para a devolução da quantia emprestada. Um exemplo contemporâneo de avaliação das condições para a concessão de empréstimos diz respeito ao seguinte fato: em outubro de 2008, por ocasião da crise financeira norte-americana, a expectativa de aprovação pelo Congresso dos Estados Unidos do aporte de US$ 850 bilhões ao mercado americano ocasionou oscilações O s “ 4 Cs d o cr éd ito ” ( Ca rá te r; Ca pa ci da de ; C ap ita l; Co nd iç õe s) 39 O s “4 Cs do crédito” (Caráter; Capacidade; Capital; Condições) acentuadas nas cotações das ações “listadas” nas principais Bolsas de Valores de todo o mundo, além de impactos no mercado financeiro como um todo (CALLIGARIS, 2008). Esse fato aumentou o risco de crédito dos tomadores de empréstimos e das institui- ções financeiras emprestadoras, pois afetou a confiança no mercado e, em decorrên- cia, a quantidade de recursos disponível para se emprestar. Em outubro de 2008, os Estados Unidos passaram por uma crise financeira ade- quadamente analisada por João Antônio Castillo Perea, executivo da Finabank Corre- tora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários Ltda, localizada em São Paulo, através de um exemplo didático: Paul comprou um apartamento, no começo dos anos 1990, por 300.000 dólares financiados em 30 anos. Em 2006 o apartamento do Paul passou a valer 1,1 milhão de dólares. Aí, um banco perguntou para Paul se ele não queria um dinheiro emprestado, algo como 800.000 dólares, dando seu apartamento como garantia. Ele aceitou o em- préstimo, fez uma nova hipoteca e pegou os 800.000 dólares. Com os 800.000 dólares, Paul, vendo que imóveis não paravam de valorizar, com- prou três casas em construção dando como entrada algo como 400.000 dólares. À di- ferença, 400.000 dólares que Paul recebeu do banco, ele se comprometeu: comprou carro novo (alemão) para ele, deu um carro (japonês) para cada filho e com o resto do dinheiro comprou TV de plasma de 63 polegadas, 43 notebooks, 1 634 cuecas, tudo financiado a crédito. Em agosto de 2007 começaram a correr boatos que os preços dos imóveis esta- vam caindo, as casas que Paul tinha dado entrada e estavam em construção caíram vertiginosamente de preço e não tinham mais liquidez. O negócio era refinanciar a própria casa, usar o dinheiro para comprar outras casas e revender com lucro. Parecia fácil, só que todo mundo teve a mesma ideia ao mesmo tempo, as taxas que o Paul pagava começaram a subir (as taxas eram pós-fixadas) e ele percebeu que seu investimento em imóveis se transformou em um desastre. Milhões tiveram a mesma ideia de Paul, tinha casa para vender como nunca. Paul foi aguentando as prestações da sua casa refinanciada, mais as das 3 casas que ele comprou, como milhões de compatriotas, para revender, mais as prestações dos carros, as das cuecas, dos notebooks, da TV de plasma e do cartão de crédito. Aí as casas que Paul comprou para revender ficaram prontas e ele tinhaque pagar uma grande parcela. Só que neste momento Paul achava que já teria revendido as três casas, mas não havia compradores, ou os que haviam só pagariam um preço muito menor que Paul havia pago. Então Paul começou a não pagar aos bancos as hipotecas da casa que ele morava e das três casas que ele havia comprado como investimento. Os bancos ficaram sem receber de milhões de especuladores iguais a Paul. 40 Paul optou pela sobrevivência da família e tentou renegociar com os bancos que não quiseram acordo. Ele entregou aos bancos as três casas que comprou como inves- timento perdendo tudo que tinha investido. Paul quebrou, e ele e sua família pararam de consumir. Milhões de Pauls deixaram de pagar aos bancos os empréstimos que haviam feito baseado nos preços dos imóveis. Os bancos haviam transformado os empréstimos de mi- lhões de Pauls em títulos negociáveis. Esses títulos passaram a ser negociados com valor de face. Com a inadimplência dos Pauls esses títulos começaram a valer bem pouco. Bilhões e bilhões em títulos passaram a valer quase nada e esses títulos esta- vam disseminados por todo o mercado, principalmente nos bancos americanos, mas também em bancos europeus e asiáticos. Os imóveis eram as garantias dos empréstimos, mas esses empréstimos foram feitos baseados num preço de mercado desse imóvel. Com os preços despencando, um empréstimo que foi feito baseado num imóvel avaliado em 500.000 dólares de re- pente passou a valer 300.000 dólares e mesmo pelos 300.000 não havia compradores. Os preços dos imóveis eram uma bolha, um ciclo que não se sustentava, como os esquemas de pirâmide, era especulação pura. A inadimplência dos milhões de Pauls atingiu fortemente os bancos americanos que perderam centenas de bilhões de dólares. Com a inadimplência dos milhões de Pauls, os bancos pararam de emprestar por medo de não receber. Os Pauls pararam de consumir porque não tinham crédito, mesmo quem não devia dinheiro não conseguia crédito nos bancos e quem tinha cré- dito não queria dinheiro emprestado. O medo de perder o emprego fez a economia travar, a recessão é sentimento de medo. Mesmo quem pode, para de consumir. O FED1 começou a trabalhar de forma árdua, reduzindo fortemente as taxas de juros e as taxas de empréstimo interbancários. O FED também começou a injetar bi- lhões de dólares no mercado, provendo liquidez. O governo Bush lançou um plano de ajuda à economia sob forma de devolução de parte do imposto de renda pago, visando incrementar o consumo, porém essas ações levam meses para surtir efeitos práticos. Essas ações foram corretas e não era possível afirmar que os EUA estava tec- nicamente em recessão. O FED trabalhava e o mercado ficava atento e as famílias esperançosas. Até que o impensável aconteceu, o pior pesadelo para uma economia: a crise bancária. Corren- 1 FED: é o “Sistema Federal de Reservas” (ou Sistema Bancário Central), dos Estados Unidos, como a Wikipédia define: “The Federal Reserve System (also the Federal Reserve; informally The Fed) is the central banking system of the United States”. O s “ 4 Cs d o cr éd ito ” ( Ca rá te r; Ca pa ci da de ; C ap ita l; Co nd iç õe s) 41 O s “4 Cs do crédito” (Caráter; Capacidade; Capital; Condições) tistas saíram correndo para sacar suas economias. Um dos grandes bancos da América, o Bear Stearns, amanheceu quebrado e insolvente. O FED, de forma inédita, fez um empréstimo ao Bear, apoiado pelo JP Morgan Chase, para que o banco não quebrasse. Depois disso o Bear foi vendido para o JP Morgan por 2 dólares por ação. Sendo que um ano antes elas valiam 160 dólares. Logo em seguida dezenas de boatos voltaram a acontecer sobre quebra de bancos. O que começou com o Paul afeta o mundo inteiro. E dia 15 de setembro de 2008, o Lehman Brothers pediu falência, desempregando mais de 26 mil pessoas e provocan- do uma queda de mais de 500 (quinhentos) pontos no Indice Dow Jones, que mede o valor ponderado das ações das 30 maiores empresas negociadas na Bolsa de Valores de Nova York – a maior queda em um único dia, desde a quebra de 1929. Outro exemplo das alterações das condições de mercado, e que afetam o risco de operações de crédito, refere-se aos Planos de Ajustamento Econômico que foram apli- cados na economia brasileira no ano de 2007. Tais planos envolveram a alteração de padrão monetário e da relação entre os agentes econômicos – indivíduos e empresas, além do “congelamento” de recursos dos indivíduos nas instituições financeiras, altera- ção da política cambial, modificação da política monetária e outras providências. Os Planos de Ajustamento Econômico que ocorreram no Brasil, em 2007, altera- ram as condições micro e macroeconômicas do mercado, abalando a confiança dos agentes econômicos nas instituições e nos contratos assinados, pois tais planos cos- tumavam alterar as condições previamente acordadas entre credor e devedor, ocasio- nando mudança nas condições de risco dos tomadores de recursos. De 1942 a 2008, a moeda brasileira passou de réis para cruzeiros (1942), de cru- zeiro para cruzeiro novo (1967), de cruzeiro novo para cruzeiro (1970), de cruzeiro para cruzado (1986), de cruzado para cruzado novo (1989), de cruzado novo para cruzeiro (1990), de cruzeiro para cruzeiro real (1993) e do cruzeiro real para real (1994). Schrickel (2000, p. 54) escreve que os fatores derivados dos Planos Econômicos, [...] associados ao momento peculiar em que foram adotadas as medidas e à realidade particular dos indivíduos e empresas em cada momento, introduziram profundas alterações nas condições gerais dos negócios, tomadores e empréstimos, da economia [...]. “As condições do empréstimo em si devem ser bem entabuladas. Se o ciclo operacional de uma empresa é de 180 dias, pouco provavelmente ela terá condições de saldar compromissos em 45 dias [...] se alguém tem um salário de $20 mil, não poderá assumir compromissos de $30 mil para pagar “no fim do mês, a não ser que haja alguma outra fonte de recursos, que é preciso identificar e avaliar clara e corretamente. 42 Considerações finais Essa aula teve o intuito de proporcionar as condições de identificar os principais critérios subjetivos e financeiros pelos quais a análise de crédito faz em grande parte das instituições financeiras brasileiras. Os principais critérios utilizados pelos bancos para analisar o risco de crédito divi- dem-se em critérios subjetivos e critérios objetivos (financeiros), que podem ser iden- tificados como iniciando com a letra “C”. Assim, os critérios subjetivos são o caráter e a capacidade e os critérios objetivos são o capital e as condições. Tais critérios não esgotam a fonte de instrumentos que estão à disposição do ana- lista de crédito, mas constituem-se em parâmetros úteis na análise do risco de crédito. Texto complementar Mercado Financeiro e o Sistema de Risco (CATTANI; STADUTO, 2003) [...] Para que o crédito seja bem concedido é necessário o gerenciamento do risco. A adoção de um sistema eficiente de risco não é apenas para o provisionamen- to, mas, também, para o adequado julgamento das propostas de crédito. O provisio- namento funcionaria como um seguro contra eventuais problemas de perdas dos recursos emprestados. A atividade bancária é um setor que está sujeito ao risco sistêmico, além de serem alavancados valores financeiros vultuosos; assim, buscam-se ferramentas mais eficazes para combater ou minimizar o risco. As instituições financeiras analisavam o risco de seus clientes e das suas opera- ções de crédito com base em critérios variados, no entanto apresentavam-se alguns problemas que resultavam em muitas surpresas desagradáveis, os quais podiam culminar com o problema de insolvência. A contabilização era feita com base na Resolução 1.748 do Bacen, que previa o provisionamento para os créditos em liqui- dação duvidosa apenas para as operações que ultrapassassem 61 dias vencidos. Em dezembro de 1999, o Bacen divulgou nova Resolução 2.682, que alterouos procedimentos para provisionamento do risco das operações de crédito. A partir O s “ 4 Cs d o cr éd ito ” ( Ca rá te r; Ca pa ci da de ; C ap ita l; Co nd iç õe s) 43 O s “4 Cs do crédito” (Caráter; Capacidade; Capital; Condições) dessa resolução, as operações passaram a ser provisionadas a partir do instante da concessão do crédito. Para tanto, foi criada uma escala de risco de AA até H, ponde- rando uma série de fatores relacionados ao cliente tomador, valor financiado, prazo da operação, garantias oferecidas, dentre outros itens. Para cada letra da escala de AA até H estabeleceu-se um percentual de provisionamento de 0,0% até 100%. A Resolução 2.697, que complementa a 2.682, estabelece que, nas operações de crédito com o valor superior a R$50.000,00, a provisão deve ser feita, no mínimo, a cada seis meses. Dessa forma, no momento da concessão do crédito, é possível atribuir o risco do cliente e da operação e prever se é viável ou não ao agente finan- ceiro, inclusive monitorá-lo do ponto de vista do risco. A grande diferença entre a Resolução 1.748 (antiga) e a 2.682 (nova) reside no fato de que, na antiga, só se tomava conhecimento da gravidade de determinada operação de crédito depois de vencida, quando as ações para minimizar o risco do agente financeiro já eram mais limitadas, ao passo que, pela resolução 2.682, o agente financeiro atua com ações prévias, avaliando as operações desde o início, o que possibilita uma correção de possíveis distorções durante a vigência da mesma, evitando, assim, a inadimplência e possibilitando resultados mais confiáveis. O mercado financeiro, tradicionalmente, costuma identificar os cincos Cs do crédito, definidos originalmente por Weston (apud SILVA, 1997). Silva (1997) acres- centa um sexto C (conglomerado), completando os componentes do risco de crédi- to, simplificadamente expostos a seguir: caráter: refere-se à intenção de pagar; traduz-se pela identificação do con- junto de boas ou más qualidades de um tomador em face do hábito de pa- gar suas contas; capacidade: refere-se à habilidade, à competência empresarial do indivíduo ou do grupo de indivíduos e ao potencial de produção, administração e co- mercialização da empresa; condições: tão importante quanto avaliar as condições internas à empresa é considerar os aspectos macroeconômicos que a envolvem e afetam; capital: refere-se à situação econômico-financeira da empresa no que diz respeito aos seus bens e recursos possuídos para saldar seus débitos; colateral: refere-se à capacidade do cliente em oferecer garantias comple- mentares; 44 conglomerado: além dos tradicionais Cs apresentados, deve-se considerar o exame do conjunto, do conglomerado de empresas ou pessoas físicas re- lacionadas, que pleiteiam o crédito. Não basta conhecer a situação de uma empresa; é preciso que se conheça sua controladora (ou controladoras) e suas controladas e coligadas para se formar um conceito sobre a solidez do conglomerado. Com base nas variáveis de risco e sua interdependência e interação, podem-se classificar os clientes, definindo seu grau de risco, ou seja, a probabilidade de esses virem a não cumprir seus compromissos junto à instituição. O enquadramento de clientes/operações nos graus de risco deve ser realiza- do com base em fatores quantitativos ajustados por valores qualitativos. Os crité- rios devem estar tecnicamente fixados, buscando evitar julgamentos pessoais que possam não coincidir com a política de crédito da instituição. Atividades Quais são os critérios subjetivos de análise de crédito geralmente aplicados pe-1. las instituições financeiras às propostas de operações feitas por clientes? Explique o critério “capital” de análise de crédito?2. Por que Schrickel (2000) afirma “que é no momento de aperto (desemprego 3. ou vendas e lucros abaixo das expectativas ou necessidades) que o caráter é colocado à prova”? a) Porque no momento de aperto, o devedor endivida-se mais facilmente e, assim, tem recursos para pagar seus débitos. b) Porque no momento de aperto, as instituições financeiras abaixam a taxa de juros e, assim, tornam mais fácil o pagamento da dívida. c) Porque no momento de aperto, o devedor paga suas dívidas como forma de cumprir o contrato pré-estabelecido. d) Porque no momento de aperto, as instituições financeiras consultam a ficha cadastral do cliente e verificam sua idoneidade. O s “ 4 Cs d o cr éd ito ” ( Ca rá te r; Ca pa ci da de ; C ap ita l; Co nd iç õe s)