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CAPITAL DE GIRO Johny Henrique Magalhães Casado Rodolfo Vieira Nunes Fernanda Rocha de Aguiar Leuter Duarte Cardoso Junior Gustavo de Oliveira Antoni Vanessa Foletto da Silva SOLUÇÕES H EDUCACIONAIS INTEGRADASRevisão técnica: Carlos Artur dos Santos Lencini Mestre em Administração Especialista em Controladoria e Finanças Internacionais Rogério de Moraes Bohn Mestre em Administração com ênfase em RH Especialista em Informática na Educação Henrique Martins Rocha Pós-doutorado em Projetos/ Desenvolvimento de Novos Produtos Doutor em Engenharia Mecânica A238 Administração do capital de giro (recurso / Johny Henrique Magalhães al.) : revisão técnica: Carlos Artur dos Santos Lencini, Rogério de Moraes Bohn e Henrique Martins - Porto Alegre : SAGAH, 2020. ISBN 978-65-5690-044-5 1. Administração - Capital - Giro. Casado, Johny Henrique CDU 658,1 Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto - CRB 10/1023ADMINISTRAÇÃO DO CAPITAL DE GIRO Johny Henrique Magalhães Leuter Duarte Cardoso Junior Casado Mestre em engenharia produção Mestre em Ciências Contábeis Especialista em Administração de MBA em Gestão Comercial Empresas Rodolfo Vieira Nunes Gustavo de Oliveira Antoni Mestre em Controladoria e Finanças Pós-Graduado em Gestão Empresarial Especialista em Finanças Corporativas Engenheiro Metalúrgico & Investment Banking Vanessa Foletto da Silva Fernanda Rocha de Aguiar Especialista em Sustentabilidade e Mestra em Gestão e Negócios Políticas Públicas MBA em Gestão da Produção e Graduada em Administração S a G a H Porto Alegre, 2020Grupo A Educação S.A., 2020 Gerente editorial: Arysinha Affonso Colaboraram nesta edição: Preparação de originais: Nathália Glasenapp; Alessandra Nicolini Editoração: Ledur Serviços Editoriais Importante Os links para sites da web fornecidos neste livro foram todos testados, e seu funciona- mento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Reservados todos os direitos de publicação ao GRUPO A EDUCAÇÃO S.A. (Sagah é um selo editorial do GRUPO A EDUCAÇÃO S. A.) Av. 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Assim, para atender às necessidades tanto dos alunos de graduação quanto das instituições de ensino, livros que buscam essa aproximação por meio de uma linguagem dialógica e de uma abordagem didática e funcional, e que apresentam os principais conceitos dos temas propostos em cada capítulo de maneira simples e Nestes livros, foram desenvolvidas seções de discussão para reflexão, de maneira a complementar o aprendizado do aluno, além de exemplos e dicas que facilitam o entendimento sobre o tema a ser Ao iniciar um leitor, será apresentado aos objetivos de aprendizagem e às habilidades a serem desenvolvidas no seguidos da introdução e dos conceitos básicos para que você possa dar continuidade à leitura. Ao longo do livro, você vai encontrar hipertextos que lhe auxiliarão no processo de compreensão do Esses hipertextos estão clas- sificados como: Saiba mais dicas e informações extras sobre o assunto tratado na seção.6 Apresentação Fique atento Alerta sobre alguma informação não explicitada no texto ou acrescenta dados sobre determinado assunto. A Exemplo Mostra um exemplo sobre o tema estudado, para que você possa de maneira mais eficaz. Todas essas facilidades vão contribuir para um ambiente de apren- dizagem dinâmico e produtivo, conectando alunos e professores no processo do conhecimento. Bons estudos!PREFÁCIO contexto da administração financeira no âmbito das organizações privadas está composto de inúmeras funções em que se destaca a atividade financeira desenvolvida pelos executivos Entre elas podemos enumerar, por exemplo, as atividades de financiamento de capital, o investimento de ativos, orçamento de capital, a política de dividendos e a tesouraria. Outra função importantissima para a área financeira das empresas é a administração do capital de giro, que se relaciona diretamente com o desenvolvimento e a sustentabilidade operacional e financeira de todos os negócios. Nesta obra, você lerá sobre os principais componentes da adminis- tração do capital de giro, que vão desde identificar os níveis de liquidez empresarial por meio do comparativo entre rentabilidade e risco até relacionar as áreas de contas a pagar e contas a receber com os termos de crédito e o estabelecimento de políticas de crédito para minimizar os riscos de inadimplência e gerenciamento do ciclo econômico financeiro. Dessa forma, você poderá se preparar para gerenciar as atividades de caixa e tesouraria e elaborar modelos de fluxo de caixa e investimento operacional em giro. Entrar em contato com os assuntos aqui abordados e desenvolver as suas habilidades na área pode proporcionar recursos para a atividade crucial da administração financeira, que é mensurar a necessidade de capital de giro para a manutenção da atividade organizacional e, consequentemente, a tomada de decisão visando ao melhor resultadoEsta página foi deixada em branco intencionalmente.SUMÁRIO Administração financeira de curto prazo 13 Fernanda Rocha de Aguiar A função financeira de uma empresa 13 Operações financeiras de curto prazo 16 Fontes de capital para operações de curto prazo 21 Rentabilidade e risco 27 Fernanda Rocha de Aguiar Níveis de liquidez da organização 27 Parâmetros de rentabilidade e risco 34 Decisões de investimentos, rentabilidade e risco 39 Gestão do capital de giro: modelo de Fleuriet 45 Leuter Duarte Cardoso Junior Modelo tradicional versus modelo de Fleuriet 45 Contas patrimoniais no modelo dinâmico de Fleuriet 47 Administração financeira do capital de giro líquido 51 Análise financeira dinâmica 57 Leuter Duarte Cardoso Junior balanço patrimonial no modelo dinâmico 57 A demonstração do fluxo de caixa operacional 63 crescimento e a geração de valor 70 Ciclos operacional, econômico e financeiro 75 Vanessa Foletto da Silva Conceitos básicos 75 Os ciclos nas empresas familiares 79 Sistema de gestão empresarial 81 Administração dos estoques 85 Johny Henrique Magalhães Casado Tipos de estoque 86 Estoques e custos associados 90 Técnicas de administração de estoques 9210 Sumário Administração do contas a pagar 97 Johny Henrique Magalhães Casado Passivos espontâneos 98 Renúncia a desconto financeiro 101 Prazo médio de pagamento e ciclo de conversão de caixa 104 Administração do contas a receber 107 Rodolfo Vieira Nunes Prazo médio de recebimento 107 Meios de recebimento no mercado financeiro 112 Contas a receber e inadimplência 114 Crédito 119 Rodolfo Nunes que é crédito? 119 Os 5 Cs do crédito 123 Política de crédito 127 Termos de crédito 133 Rodolfo Vieira Nunes Condições de comercialização 133 Termos de desconto financeiro e bancário 140 Técnicas de cobrança praticadas no mercado 142 Tesouraria 147 Rodolfo Vieira Nunes As funções da tesouraria 148 tesouraria e a controladoria 153 Tipos de controle interno 155 Tesouraria: caixa 161 Rodolfo Vieira Nunes Modelos de determinação do saldo ideal de caixa 162 Planejamento e controle do fluxo de caixa 166 Formas de relacionamento com instituições financeiras 170 Demonstração do fluxo de caixa 175 Gustavo de Oliveira Antoni Conceitos básicos 175 Caixa e equivalentes de caixa 176 Divulgação do fluxos por atividades 176 Métodos do DFC: direto e indireto 177 Considerações sobre o DEC 177Sumário 11 Fluxo de caixa 181 Johny Henrique Magalhães Casado orçamento de caixa 181 fluxo de caixa operacional 186 A estruturação do fluxo de caixa operacional 188 Investimento operacional em giro (IOG) 191 Johny Henrique Magalhães Casado capital circulante líquido 192 ciclo financeiro e investimento operacional em giro 197 capital de giro e o saldo de tesouraria Investimento operacional em giro: efeito tesoura 203 Johny Henrique Magalhães Casado Financiamento e autofinanciamento no investimento operacional em giro 204 Sazonalidade das vendas e investimento operacional em giro 209 Tipos de estruturas financeiras e o efeito tesoura 213Esta página foi deixada em branco intencionalmente.Administração financeira de curto prazo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deverá apresentar os seguintes aprendizados: Descrever a função financeira de uma empresa. Identificar as operações financeiras de curto prazo. Relacionar as fontes de capital para operações de curto prazo. Introdução Em tempos de grande competitividade, e nem sempre em cenários de economia aquecida, as empresas precisam se reinventar para administrar suas finanças. É importante que elas possam vender seus produtos e serviços em tempo hábil, de forma que o capital fique disponível para realizar investimentos ou para cobrir os custos de novas vendas. Nem sempre, porém, há essa circulação de recursos em caixa, per- mitindo garantir o equilíbrio entre bens e obrigações. Isso obriga as empresas a buscarem alternativas para o seu giro de capital, com ope- rações de curto Neste capítulo, você vai estudar a função financeira de uma empresa e as operações financeiras de curto prazo. Por fim, você vai compreender a relação entre as fontes de capital e as operações de curto prazo. 1 A função financeira de uma empresa As empresas oferecem produtos e serviços em troca da maximização de retorno aos seus acionistas ou donos do negócio. Pode-se dizer que o "coração" de uma organização é a administração financeira. Por isso, decisões acertadas de investimento e de financiamento são fundamentais para o seu crescimento. Adquirir esse recurso (o dinheiro) a um custo aceitável e investi-lo em aplica-14 Administração financeira de curto prazo ções que acrescentem valor é, sem dúvida, o principal objetivo dos gestores financeiros (SILVA, 2013). Braga (1995) aponta que a função financeira abrange as atividades relacio- nadas com a gestão dos fundos movimentados por todas as áreas da empresa. Essa função é responsável pela obtenção dos recursos necessários e pela formulação de uma estratégia voltada para a otimização do uso desses fundos. Há dois elementos básicos da função financeira de uma empresa: a obtenção dos recursos nas condições mais favoráveis possíveis e a alocação eficiente desses recursos na empresa. Cabe ressaltar que a função financeira não é uma função independente. Os fluxos financeiros são sempre a contrapartida dos fluxos de bens ou de serviços fluxos físicos (SILVA, 2013). Nesse contexto, destacam-se duas teorias sobre o objetivo das organizações. Na primeira, a abordagem de stakeholder, as tomadas de decisões devem estar alinhadas com os objetivos de todas as partes interessadas na empresa, como proprietários, credores, funcionários, fornecedores, clientes e o Estado (SILVA, 2013). A segunda teoria prevê a maximização da riqueza dos acionistas e se desenvolveu a partir das teorias econômica e financeira. Sob essa visão, a gestão da organização busca a maximização do valor de mercado total da firma (do patrimônio líquido e das dívidas), o que, por conseguinte, aumenta a riqueza dos proprietários (ASSAF NETO, 2010). Ross et al. (2013) explicam que, nas organizações menores, a função finan- ceira normalmente é realizada por um contador, e somente quando a empresa cresce, ganha setores e profissionais específicos para a tomada de decisão de suas finanças, como um administrador financeiro. Segundo os autores, essa administração proporciona maximizar o lucro e o valor de mercado do capital dos proprietários. Para tornar esse conceito mais palatável, os autores apontam que a função financeira pode ser entendida a partir de três grandes áreas: orçamento de capital, estrutura de capital e administração financeira de curto prazo. orçamento de capital é "o processo de planejamento e gerenciamento de investimentos" (ROSS et. al., 2010, p. 2). Nesse orçamento, os administradores financeiros tentam identificar boas oportunidades de investimento para a empresa. No entanto, a preocupação desses administradores não deve ser apenas o quanto eles vão receber pelo investimento que farão. A sua função vai além dessa perspectiva, pois eles devem analisar o tamanho, o tempo e o risco dos fluxos de caixa futuros, para que possam prever possíveis incertezas e agir de maneira adequada, sem perda de capital da empresa. Essa é a essência do orçamento de capital, e o administrador financeiro é, por assim dizer, um tomador de decisões quanto aos investimentos que serãoAdministração financeira de curto prazo 15 feitos, seja uma nova loja a ser aberta, a compra de uma nova máquina, a implantação de um software ou a expansão de uma parte de uma loja. De uma forma ou de outra, a decisão deverá ser pautada nas variáveis apresentadas no contexto do investimento, e essa não é uma ação Gitman (2010) indica que, ao decidir fazer um investimento de longo prazo, uma empresa pode comprometer boa parte de seu dinheiro, e a decisão deve ser muito bem ponderada. Para tanto, surge a necessidade de estabelecer mé- todos para a melhor escolha entre as opções de investimentos, e essa análise se encontra no orçamento de capital. Já a estrutura de capital é a estrutura financeira de uma empresa e deve combinar de maneira equilibrada as contas que precisam ser pagas a longo prazo e o patrimônio que ela tem para sustentar o financiamento de suas operações. Na contabilidade, essa visão de equilíbrio ocorre na comparação entre as chamadas contas de ativo e passivo. Exemplo A contabilidade de uma empresa deve ser devidamente apurada mensalmente, para que, ao final do ano em exercicio, tenha-se a declaração dos seus resultados no balanço patrimonial. balanço recebe esse nome porque justamente compara o patrimônio da empresa, que se divide em ativos (bens e direitos, como as contas a receber), com os seus passivos (obrigações e contas a pagar). Um relatório contábil demonstra a posição financeira e econômica dessa organização. A estrutura do capital analisa essa comparação e pode ser compreendida analogamente como o corte de uma pizza, uma vez que capital da empresa também é Ou seja, ela demonstra qual porcentagem do fluxo de caixa está na mão dos credores (contas a pagar da empresa) e quanto vai para os acionistas ou donos do negócio (dinheiro em caixa ou em ativos). A ponderação sobre essas considerações deve ser feita pelo administrador Na análise da estrutura de capital, o administrador financeiro deve decidir a combinação de financiamentos e quais fontes serão utilizadas para se conseguir o dinheiro. As obrigações que devem ser pagas a longo prazo são chamadas de exigível a longo prazo e podem representar despesas consideráveis, no caso de empréstimos e financiamentos de muitas parcelas, que ultrapassam o ano que está em exercício. administrador financeiro deverá fazer as devidas análises e considerar qual é o tempo de retorno do investimento, para que não haja uma despesa longa sem ganhos sustentáveis para a empresa. Além disso,16 Administração financeira de curto prazo é preciso avaliar a seleção de credores e qual é o melhor tipo de empréstimo, e isso cabe ao administrador financeiro (ROSS et al., 2010) A administração financeira de curto prazo, também chamada de adminis- tração do capital circulante, por sua vez, refere-se ao ativo circulante e ao passivo circulante da empresa. Isso quer dizer que as análises financeiras serão baseadas em ganhos de curto prazo, dentro do exercício vigente, no próprio ano. Os autores mencionam algumas perguntas que devem ser respondidas sobre o capital circulante (ROSS et al., 2010, p. 4), apresentadas a seguir. 1. Quanto de caixa e estoque deve ser mantido? 2. Devemos vender a crédito? Nesse caso, quais condições devemos ofe- recer e para quem serão concedidas? 3. Como obteremos o financiamento de curto prazo necessário? Compra- remos a crédito ou tomaremos empréstimos de curto prazo e pagaremos as compras em dinheiro? Se fizermos empréstimos de curto prazo, como e onde devemos fazê-los? Essas são algumas questões que a administração financeira de curto prazo leva em consideração. 2 Operações financeiras de curto prazo (2010) reforça que a administração financeira de curto prazo é assim chamada porque se relaciona com a gestão do capital de giro. As operações mais comuns nessa área de finanças se referem aos investimentos em créditos a clientes, ao gerenciamento do caixa e à estrutura dos passivos correntes. Além disso, Gitman (2010) destaca que é papel do administrador financeiro buscar o equilíbrio entre rentabilidade e risco, avaliando as contas do ativo e passivo circulantes com operações de curto prazo. Entende-se aqui como curto prazo as operações que ocorrem em um ano ou menos. Vieira (2008) aponta que administrar ativos e passivos consiste em gerir as contas desses grupos no balanço patrimonial, conforme apresentado no Quadro 1.Administração financeira de curto prazo 17 Quadro 1. Exemplo de contas do ativo e do passivo circulantes no patrimonial Ativo total Passivo total Ativo circulante Passivo circulante Disponível Fornecedores Aplicações financeiras Empréstimos e financiamentos de Contas a receber curto prazo Estoques Obrigações fiscais Despesas antecipadas Ordenados e salários a pagar Provisões Ativo não circulante Passivo não circulante Realizável a longo prazo Empréstimos e financiamentos de Investimentos longo prazo Imobilizado Debêntures e outros titulos de divida Patrimônio líquido Capital social Reservas (de capital e de lucros) Fonte: Adaptado de Caixe (2015). Como se observa no Quadro 1, do lado esquerdo do balanço patrimonial estão as contas do ativo circulante e do ativo não circulante. O primeiro representa as contas cujos recursos circulam em tempo menor, dentro de um ano. Como exemplo, temos a conta Disponível, que é a conta Caixa ou, mais especificamente, onde se encontra o dinheiro em espécie da empresa, nor- malmente em alguma conta bancária. Também se encontram nesse grupo as contas Aplicações Financeiras e Contas a Receber, que se referem ao dinheiro disponível que entra e circula nas operações financeiras da empresa, seja como rendimento de aplicações ou como recebimento de produtos vendidos aos clientes. No lado direito do balanço, estão as obrigações que circulam também em curto prazo e se encontram no grupo do passivo circulante. Exemplos dessas contas são Fornecedores e Empréstimos e Financiamentos, que represen- tam saídas de caixa em curto prazo para que a empresa possa cumprir suas Diante dessa abordagem, é importante que se entenda que o capital de giro se refere aos recursos que circulam ou que giram em determinado período. Esses recursos correspondem a uma parcela dos ganhos da empresa, que é18 Administração financeira de curto prazo aplicada em seu ciclo operacional. Podemos citar o exemplo de uma indústria que produz bens para serem vendidos no mercado em que atua. Ao vender esses bens, nem sempre seus clientes pagarão pelas mercadorias em tempo hábil para que entre o faturamento necessário para aquisição de matéria-prima, para que a indústria possa continuar a fabricação dos seus produtos em seus ciclos. Logo, a empresa precisa de capital de giro para empregar em seus custos e despesas, até que novos valores estejam disponíveis no caixa da empresa. No entanto, nem sempre ela possui esses recursos à disposição, o que lhe exige buscar capital para ser pago em curto prazo (até um ano). Caciatori Jr e larozinski Neto (2006) destacam que as maiores causas de falência das empresas, especialmente as pequenas e médias, referem-se à falta de uma tomada de decisão assertiva na gestão financeira de curto prazo, principalmente quanto ao capital de giro. De acordo com Vieira (2008), quanto maior o prazo de uma operação, mais elevado tende a ser o seu risco, uma vez que o investidor ou a instituição financeira ficarão mais tempo com seu dinheiro comprometido com os destinos da organização. Nessa lógica, podemos mencionar que os ativos de longo prazo tendem a oferecer retornos maiores do que os de curto prazo; e os passivos de longo prazo tendem a possuir custos de capital mais elevados do que os de curto prazo (CAIXE, 2015). gestor financeiro deve escolher com cuidado qual operação financeira deve ser realizada. Se a tomada de decisão pender para ativos em prazos maiores, pode haver incremento de rentabilidade, mas isso compromete a capacidade de pagar as contas que a empresa possui, ou seja, a sua liquidez. Por isso, a utilização de fontes de curto prazo é mais comum na busca de uma solução imediata para a falta de liquidez. As aplicações e as obrigações de curto prazo da empresa podem ser classi- ficadas em permanentes, quando são ou sazonais, quando são flutu- antes. As contas estão relacionadas de forma direta com a atividade da empresa. Ao contrário, as contas sazonais não estão vinculadas diretamente à atividade empresa, sendo determinadas por variações temporárias que ocorrem nos seus negócios (VIEIRA, 2008). Esse autor e demais pesquisadores sobre o tema indicam três tipos de estratégias de curto prazo, descritas a seguir. a) Aplicação agressiva: os recursos das empresas são financiados pelo capital de terceiros. Essas aplicações envolvem baixo investimento de capital de giro e elevado volume de financiamento e podem, portanto, levar à maior rentabilidade; porém, os riscos de insolvência e de captação de recursos mais caros também aparecem. Uma forma de analisar o quanto uma empresa utiliza as estratégias de buscar recursos a curtoAdministração financeira de curto prazo 19 prazo de forma agressiva é a relação entre o ativo circulante (de curto prazo) com os ativos totais da empresa. Um volume menor de ativos circulantes representa uma política agressiva de gestão do capital de giro. Isso se explica porque o ativo não circulante é composto de má- quinas, equipamentos, marca, software e instalações e deveria ser de onde vêm os lucros da empresa com o melhor uso. Quanto menos se investir no ativo circulante, menos financiamentos, menos juros e maior a parcela para ser usada no ativo não circulante; assim, mais máquinas podem ser compradas, ocorre maior expansão da empresa, e há menos dívidas a serem pagas. Portanto, embora o crédito de curto prazo seja geralmente mais arriscado do ponto de vista da empresa, ele pode ser obtido mais rapidamente e pode apresentar acordos mais flexíveis e menos onerosos. No entanto, em países como o Brasil, cuja taxa de juros é alta, o custo dessas operações é alto, o que leva muitas empresas a terem dificuldades financeiras BRIGHAM, 2000). b) Aplicação conservadora: nesse caso, todos os ativos da empresa são bancados por recursos de longo prazo. O resultado dessas estratégias é o contrário da anterior: ela oferece o menor retorno e a maior liqui- dez para a empresa. Há baixo volume de financiamentos, diminuindo consideravelmente o risco das operações. Um volume maior de ativos circulantes em relação ao ativo total resultaria, portanto, em uma po- lítica conservadora da gestão do capital de giro, o que significa que a empresa financia suas operações com maior volume de recurso de longo prazo ou capital próprio. O Brasil possui poucas opções de recursos de longo prazo disponíveis, sendo as mais usuais o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e a emissão de títulos de dívida, os chamados debêntures (DE OLIVEIA et al.,2006). A escolha dessa estratégia de financiamento depende das características da conjuntura econômica e do seu setor de mercado e dos objetivos estabelecidos por sua gestão. c) Aplicação moderada: nesse tipo de aplicação, apenas o ativo flutuante é financiado por recursos de terceiros de curto prazo, sendo as demais aplicações patrocinadas pelo patrimônio líquido e pelo passivo não circulante. Entendem-se como flutuantes as contas de curtíssimo prazo do ativo circulante, como caixa, bancos e aplicações financeiras de curto prazo.20 Administração financeira de curto prazo Fique atento Quando observamos o balanço patrimonial de uma empresa, podemos constatar os valores do ativo circulante e do passivo circulante. Se compararmos esses dois valores, observamos qual é a capacidade de caixa que a empresa tem frente às obrigações que precisa pagar. A equação que verifica o ativo circulante menos o passivo circulante se refere ao capital circulante liquido da empresa, conhecido como Nessa análise, quanto mais elevado for o melhor para a empresa, pois mais liquidez ela possui. No Quadro 2, observamos que a diferença entre o ativo circulante e o passivo cir- culante é de R$ A conclusão sobre o seu é que a empresa pode arcar com suas operações por meio de dinheiro próprio. Mas, se a realidade apresentada não fosse essa, e sim um CCL negativo, provavelmente a empresa teria que buscar recursos de terceiros, por meio de empréstimos ou financiamentos, para honrar seus compromissos (contas a pagar). Quadro 2. Exemplo de ativo e passivo circulantes de uma empresa, para análise do seu CCL Ativo Passivo Caixa R$ 20.000 Bancos a pagar R$ 35.000 Clientes a receber R$ 450.000 Fornecedores a pagar R$ 370.000 Estoques R$ 280.000 Salários a pagar R$ 8.000 Total ativo circulante R$ 750.000 Total passivo circulante R$ 413.000 Fonte: Adaptado de Ferreira (2016). Tipos de operações financeiras de curto prazo As operações financeiras de curto prazo, que acontecem para garantir a liquidez da organização, ocorrem dentro do mercado monetário, onde acontecem as transações de curto e curtíssimo prazo, envolvendo principalmente as institui- ções financeiras. Quem regula esse segmento é o Banco Central do Brasil, que realiza a política monetária principalmente por meio de redescontos, depósito compulsório e operações no mercado aberto (SANTOS, 2001).Administração financeira de curto prazo 21 Ross et al. (2010) indicam que a liquidez de uma empresa pode crescer com o aumento da venda de mercadorias à vista, o aumento do patrimônio líquido (lançamento de ações) ou a busca por soluções imediatas de valores disponíveis em caixa, por meio dos empréstimos de curto prazo. A administração de curto prazo existe, portanto, para que haja dinheiro em caixa para suprir a empresa de valores em seu ciclo de caixa. É importante destacar que o ciclo de caixa é representado pelo tempo que a empresa leva entre pagar por sua matéria-prima, pela compra de produtos e os profissionais de serviços até a entrada de pagamento relativo às vendas de seus produtos ou seus serviços aos clientes (GITMAN, 2010). Portanto, quanto maior é esse ciclo, mais recursos a empresa precisa ter para continuar operando. Assim, para reduzir o tempo do ciclo de caixa, a empresa precisa receber mais cedo e pagar mais tarde. Se a empresa não consegue diminuir seus estoques e tampouco receber as contas de seus clientes, deverá fazer uso de operações de curto prazo, como aplicações financeiras, empréstimos bancários ou factoring. 3 Fontes de capital para operações de curto prazo Assaf Neto (2010) destaca que as empresas precisam estabelecer que tipo de riscos pode ser assumido em relação à solicitação de créditos, uma vez que, dependendo da opção, poderão ocorrer danos à saúde financeira da empresa. É comum que as empresas tenham financiamentos de curto prazo à sua dis- posição, mas sempre serão avaliadas quanto ao seu histórico e ao número de vezes que elas tomaram dinheiro de terceiros, podendo ser exigidas garantias, dependendo do caso. Na contabilidade, as contas do ativo são financiadas por contas do passivo: origens e aplicações de recursos. No passivo, encontramos os recursos que financiam a atividade empresarial: recursos próprios e recursos de terceiros. capital próprio é o recurso dos proprietários especificados na conta de Patrimônio Líquido (RAIFUR et al., 2009) A prática de buscar o capital de terceiros é universalmente utilizada, por representar uma alternativa às empresas que não conseguem subsistir apenas com seu capital próprio. Se o custo do capital de terceiros é menor, torna- -se vantajoso utilizá-lo, o que não exclui o endividamento que essa decisão proporciona. As fontes de financiamento de curto prazo utilizado para financiar o capital de giro das empresas estão divididas em duas categorias: o crédito comer-22 Administração financeira de curto prazo cial e o crédito bancário. O crédito comercial é obtido espontaneamente, em decorrência das vendas da empresa. Já o crédito bancário é o empréstimo bancário que se torna uma fonte não espontânea de financiamento. Ele pode ser feito em bancos, instituições financeiras ou administradoras de créditos. A seguir, elencamos as principais modalidades de crédito bancário, apontadas por Lemes Junior et al. (2002). Factoring: é um tipo de financiamento em que a empresa vende as suas contas a receber para terceiros. A empresa que compra esse ativo antecipa o pagamento para a empresa. Ou seja, ela recebe por suas vendas antecipadamente por meio dessa operação. Dessa forma, a empresa recebe em curto prazo um dinheiro a que ela só teria acesso meses depois. Essas vendas possivelmente foram realizadas a prazo, com pagamentos com cartão de crédito, entre outros. Na operação, é descontada uma taxa de juros e de risco de crédito, proveniente do risco de inadimplência. Para Soares (2010), a natureza jurídica do contrato de factoring comporta ato civil e mercantil, bastando o endosso de títulos, sem aos títulos cedidos. Não há endosso para a responsabilização pelo não pagamento, apenas pela seleção do crédito. Cabe ressaltar que não há, no factoring, operação de crédito alguma, pois não envolve a confiança entre as partes nem intervalo de tempo entre o negócio e a contraprestação: trata-se de uma compra e venda de direitos. Vendor: é um financiamento da venda com cessão de É a operação de crédito indicada para aquisição de bens de consumo duráveis. fornecedor vende a prazo e recebe à vista, porém, assume o risco do não pagamento junto à instituição financeira que financia a operação. O público-alvo da operação de vendor é a empresa que precisa de prazo para liquidar uma transição co- mercial; a outra parte, o fornecedor, que é o banco, tem acesso a linhas de crédito com custos mais reduzidos. Rosseti et al. (2008) apontam que o prazo da operação dura cerca de 30 a 90 dias, e a contratação ocorre por meio de uma promessa de financiamento junto à equalização de Os autores alertam que, apesar do menor custo de captação dessa operação, há uma desvantagem a ser avaliada: a possibilidade de transferência da obrigação para a empresa fornecedora, de cuja conta o banco debita o valor correspondente, no caso de a empresa cliente não o pagar. Compror: o compror é uma operação semelhante à citada anteriormente, mas, em vez de ser realizada pelo vendedor, é feita pelo comprador, que passa a ser o fiador do contrato com o banco. O banco efetua o pagamento à vistaAdministração financeira de curto prazo 23 ao fornecedor, proporcionando a redução nos custos de produção e o melhor planejamento do seu fluxo de caixa. Segundo a Federação Brasileira de Bancos, os pagamentos podem ser efetuados por meio de crédito em conta, cheque administrativo, documento de ordem de crédito (DOC), transferência eletrônica disponível (TED), ordem de pagamento, pagamento com autenticação ou títulos de cobrança. O público-alvo dessa operação são as empresas clientes, que, nas compras à vista, conseguem descontos vantajosos de seu fornecedor. O prazo mínimo do compror é de 30 dias, e a operação apresenta a vantagem de não incidência de taxas de operações bancárias; porém, as taxas de juros são altas. Desconto de títulos: é um adiantamento de recursos feito pelo banco aos clientes, sobre valores referenciados em contas a pagar, antecipando, assim, o fluxo de caixa do cliente. Essa operação resulta em uma negociação de um título representativo de crédito, junto a um banco comercial, antes do seu vencimento. Embora a propriedade dos títulos negociados seja transferida para a instituição, a empresa é corresponsável pelo pagamento deles em caso de não liquidação pelo devedor. Assim, o risco do não recebimento do título não é do banco, e sim da empresa que efetuou o Lemes Júnior et al. (2002) destacam as seguintes modalidades de desconto de títulos: desconto de duplicatas, desconto de notas promissórias, empréstimo por contrato e antecipação por Hot money: trata-se de outra forma de empréstimo por contrato. Os emprés- timos dessa modalidade são alternativas para o capital de giro de prazo destinado a suprir necessidades de caixa. Lemes Júnior et al. (2002) destacam que os encargos financeiros desse tipo de operação são cobrados pelo período do empréstimo, o que pode representar elevado custo financeiro. Normalmente, as instituições financeiras costumam criar uma linha de hot como um contrato que estabelece regras de empréstimo, o que facilita a disponibilização dos recursos a serviço dos correntistas. Contas garantidas: são uma alternativa para os momentos em que a conta corrente da empresa tem saldo devedor; ela poderá contar com uma conta vinculada, que faz saques automaticamente para que os débitos sejam supri- dos. Para que essa solução seja efetivada, é necessário ajustar com o banco a transferência da conta garantida para a conta corrente, que terá a incidência do imposto sobre operações financeiras sobre esse saque. sistema permite que os juros devidos pelos excessos das contas correntes sejam cobrados mensalmente, mas não é o mesmo que as transações de cheque especial. Nesse24 Administração financeira de curto prazo caso, a negociação prevê garantias, como aval dos sócios, duplicatas, penhor mercantil e alienação fiduciária. A contratação implica abertura do limite de crédito rotativo em instituição financeira, contrato de limite de crédito e contrato de (ROSSETI et al., 2008). Crédito rotativo: para Lemes Júnior et al. (2002), o crédito rotativo tem um funcionamento semelhante a uma conta corrente, com limite de crédito e prazo preestabelecido. A empresa pode efetuar saques a descoberto dentro desse limite sem maiores burocracias. O crédito rotativo estipula um limite máximo sobre a quantia que pode ser emprestada, e os encargos financeiros são, nor- malmente, altos, mas são pagos somente pelo período que a conta permanece devedora. capital de giro na forma de crédito rotativo é porque os fundos podem ser sacados quando necessário e pagos quando disponíveis durante o período do contrato. Os autores mencionam que o crédito rotativo é pago à medida que a empresa recupera gradualmente seu capital por meio de seu negócio. Outros créditos rotativos, porém, podem durar anos, desde que tenham suficiente valor de liquidação para assegurar a dívida. Diante dos cenários de instabilidade econômica, a administração financeira exerce um importante papel nas estratégias empresariais. As organizações precisam ajustar muito bem seus fluxos de entrada e saída de recursos, para evitar prejuízos à rentabilidade ou aumento de riscos. Decisões imediatas, como a utilização de fontes de capital de curto prazo, podem ser opções para gerar recursos disponíveis à empresa, mas apresentam alto custo, especial- mente em um país com altas taxas de juros, como o Brasil. Caberá ao gestor financeiro realizar a análise sobre as fontes disponíveis para as operações de curto prazo e avaliar as melhores alternativas, para oferecer segurança às finançasAdministração financeira de curto prazo 25 Referências A. Estrutura e análise de um enfoque 9. ed. São Paulo: Atlas, 2010. BRAGA, R. Fundamentos e técnicas de administração financeira. São Paulo: Atlas, 1995. JR, NE A. Classificação das principais dificuldades enfrenta- das pelas pequenas e empresas SIMPOSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, 2006, Anais Bauru: UNESP, 2006. CAIXE, D. Administração financeira. Rio de Janeiro: SESES, D. Capital circulante 2016. Disponível em: Acesso em: 6 maio L. de administração financeira. 12. ed. São Paulo: Pearson, 2010. LEMES A. B. et al. Administração financeira: principios, fundamentos e práticas brasileiras. Rio de Janeiro: Campus, 2002. ROSS, S.A. et al. Fundamentos de administração financeira. 9. ed. Porto Alegre: AMGH, 2010. ROSSE J. P. et. al. Finanças teoria e prática empresarial no São Paulo: Elsevier, 2008. Mercado de capitais. Revista de Contabilidade do Mestrado em Ciências Contábeis da V. 6, n. 2, p. 38-42, 2001. SILVA, E.S. Gestão análise de fluxos 5. ed. Porto: Vida Econômica, 2013. SOARES, M. N. Contrato de factoring. São Paulo: Saraiva, 2010. SOUZA, C. et al. Gestão financeira de curto prazo: a administração financeira da em- presa Virtuacomm Trade LIDA, um estudo de caso. 84 f. Irabalho de conclusão de curso (Curso de Administração) Universidade Federal de Santa Catarina, nópolis. 2007. Disponível em Acesso em: 6 maio 2020. M. Administração estratégica do capital de giro. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2008. J. BRIGHAM, E. F. Fundamentos da administração financeira. São Paulo: Pearson, 2000.26 Administração financeira de curto prazo Fique atento Os links para sites da web fornecidos neste capitulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links.Rentabilidade e risco Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar os níveis de liquidez da organização. Definir os parâmetros de rentabilidade e risco na empresa. Correlacionar as decisões de investimento com rentabilidade e risco. Introdução administrador financeiro precisa estar atento às transformações por que passam suas organizações em cenários econômicos complicados. Tais circunstâncias afetam diretamente a vida financeira das empresas, especialmente a sua liquidez, que é a sua capacidade de honrar seus compromissos e gerar rentabilidade e retorno ao acionista. Para tomar as melhores decisões, esse gestor precisa estudar os níveis de liquidez de sua empresa, observando balanço patrimonial e avaliando as pos- sibilidades de investimento. Neste capítulo, você vai estudar níveis de liquidez que uma em- presa pode apresentar. Você também vai compreender os índices de rentabilidade e a gestão de riscos, que norteiam os administradores no que diz respeito a 1 Níveis de liquidez da organização Ao falar em liquidez, é importante destacar que ela deve ser analisada a partir do balanço patrimonial da empresa. A planilha do balanço patrimonial possui duas partes: no lado esquerdo, estão os ativos; no lado direito, os passivos e o capital dos acionistas. "O balanço patrimonial declara o que a empresa possui e como ela é financiada" (ROSS et al., 2015, p. 22). A liquidez de uma empresa se encontra junto às contas de seu ativo. Os autores mencionam que a liquidez se refere à rapidez com que os ativos de uma empresa são convertidos em dinheiro disponível, ou caixa. Dentro do balanço28 Rentabilidade e risco patrimonial, o ativo circulante contém as contas que apresentam maior liquidez, o que inclui o caixa e os ativos que serão convertidos em caixa em até um ano da data do balanço patrimonial ou seja: as contas a receber e os estoques. As contas a receber representam os valores ainda não cobrados, que são os serviços ou produtos vendidos aos clientes. Os estoques são compostos pela matéria-prima que será utilizada na produção, no material em processo e nos bens acabados. Os dois grupos se referem às contas em que haverá entrada de dinheiro para a empresa em até um ano, seja porque os clientes vão pagar, seja porque o estoque se transformará em produtos, que logo serão recursos para o caixa. Já o ativo imobilizado apresenta menor liquidez, porque inclui bens sedes, filiais e equipamentos. Esses ativos não são convertidos tão rapidamente em caixa nos negócios e devem existir para que a empresa tenha a garantia da continuidade de suas operações. A Figura 1 traz um exemplo de balanço patrimonial. COMPANHIA DE COMPÓSITOS Balance patrimonial 2012 2011 de 2011 circulante Passivo equivalentes 140 $ 213 197 a 294 270 50 53 Estoques 269 280 Despesas a pagar 223 50 Passivo total $ 486 $ 455 Ativo total $ 761 $ 707 Passivo não Ativo $ 117 104 de 471 458 Depreciação acumulada 460 Passivo não circulante total $ $ 562 814 liquido Ativos outros 245 221 Ações 39 39 Ativo não circulante total Ações ordinárias (valor nominal 55 32 de capital 347 327 de lucros 390 347 Menos ações em 26 20 total Ativo total $1,742 Passivo total e Figura 1. Exemplo de balanço Fonte: Ross et p. Se a liquidez dos ativos da empresa é boa e consistente, provavelmente a empresa terá menor possibilidade de apresentar dificuldades no cumprimento de obrigações de curto prazo. Desse modo, a liquidez da empresa pode ser associada à sua probabilidade de evitar problemas financeiros (ROSS et al.,Rentabilidade e risco 29 2015). Gitman (2010) reforça que a liquidez de uma empresa é medida por sua capacidade de pagar as contas que vencem no curto prazo. Índices de liquidez Para Silva (2010), é importante apurar os índices de liquidez de uma empresa, para que se tenha uma visão sistêmica da situação econômica, financeira e patrimonial em que a organização se encontra. Além disso, uma avaliação devidamente apurada é extremamente relevante para a administração financeira da organização. Para tanto, observa-se que há vários níveis de liquidez de uma empresa, que podem ser indicados por meio dos índices. Cada vez que o índice de liquidez for menor do que 1, interpreta-se que a empresa poderá ter dificuldades de realizar os seus pagamentos e indica dificuldades de fluxo de caixa. Por outro lado, um índice de liquidez maior define que a empresa tem condições de realizar os pagamentos. Para esses níveis de análise, podemos identificar os índices de liquidez corrente, seca, imediata e geral. Uma análise mais correta deve implicar a verificação dos quatro níveis de liquidez, de forma simultânea, entendendo-se quais são as necessidades da empresa, qual é o seu segmento e quais são as respostas que os gestores procuram ao calcular esses índices. Um balanço patrimonial bem estruturado e correto proporcionará a geração de índices de qualidade, para uma melhor tomada de decisão (GITMAN, 2010). A seguir, são descritos os quatro índices de Índice de liquidez corrente O índice de liquidez corrente é obtido a partir da razão entre os valores cor- respondentes ao ativo circulante do balanço patrimonial (caixas, bancos, estoques) e às obrigações a curto prazo (empréstimos, financiamentos) que se encontram no passivo circulante. A equação para esse cálculo é indicada por: Liquidez corrente = Ativo circulante/Passivo circulante Como interpretação, entendemos que, quanto maior o índice, maior é a liquidez da empresa. Essa informação deve ser entendida como um quociente que indica o mínimo de 1. Ou seja, a empresa apresenta capital circulante líquido positivo. Se o resultado for abaixo desse índice, a empresa está sem a disponibilidade total de pagar suas contas em curto prazo (ASSAF NETO, 2010).30 Rentabilidade e risco Exemplo Suponha uma situação em que o administrador financeiro de determinada empresa avalia o balanço patrimonial de dois anos No ano 1, as contas que compõem o ativo circulante somam R$ 19.320,00, e as contas referentes ao seu passivo circulante, no outro lado do balanço, somam R$ 15.022,00. Ao se dividir o primeiro valor pelo segundo, encontra-se um igual a 1,29. No ano 2, por sua vez, ao se comparar o ativo circulante de 18.544,00 com o passivo circulante de R$ 17.500,00, obtém-se o indice de 1,06 de liquidez corrente, como se pode observar a seguir. Liquidez corrente Ativo circulante = R$ 1,29 Passivo circulante R$ 15.022,00 Liquidez corrente 2) = = Ativo circulante R$ 18.544,00 Passivo circulante R$ 17.500,00 Mas, que isso quer dizer? A análise demonstra que, em ambos os anos analisados, a empresa apresentou capital circulante liquido, porque ambos os indices trouxeram valores maiores do que 1. No entanto, no ano 2, a empresa tem um de liquidez corrente menor do que no ano anterior. Isso dá indicios ao administrador financeiro de que a liquidez corrente da empresa diminuiu no ano 2 porque seu passivo circulante está maior, e, portanto, pode haver mais obrigações circulando, enquanto seu ativo circulante está menor, deflagrando menos dinheiro no caixa da empresa em curto prazo. No ano 1, havia melhores condições para o pagamento das de curto prazo. Índice de liquidez seca índice de liquidez seca também mede a capacidade da empresa de saldar as suas contas de curto prazo, mas exclui a conta estoques. Esse índice desconta os valores de estoque para comparar "puramente" o disponível em caixa e o que vai entrar em contas a receber, como as obrigações de curto prazo. Isso porque muitos tipos de estoque não podem ser facilmente vendidos, porque ainda são matéria-prima, que ainda precisa gerar produto acabado. Quando acabados, esses produtos possivelmente serão vendidos a prazo, o que significa que vão demorar para se converter em dinheiro em caixa (GITMAN, 2010). Liquidez seca = Ativo circulante Estoque/Passivo circulanteRentabilidade e risco 31 Exemplo Observe o recorte do balanço patrimonial de uma empresa: Consolidado 31.12.2017 Ativos Circulantes Caixa o do caixa 3.559 Contas a receber 3.988 Estoques 4.379 Tributos a recuperar 219 Partes relacionadas 124 Outros ativos 174 Total dos ativos circulantes 12.443 Passivos Circulantes convônio 437 Empréstimos Tributos a pagar 265 Obrigações sociais e trabalhistas 552 Receitas diferidas 368 Partes relacionadas 139 Dividendos a pagar 15 Repasse a terceiros 446 Outros passivos 528 Total dos passivos circulantes 14.278 Fonte: Wainberg (2018a, documento A partir desse balanço, vamos aplicar a fórmula da liquidez seca, conforme mostrado a seguir. Liquidez seca Ativo circulante - Estoques R$ 12.443 - R$ 4. Passivo circulante 14.278,00 Liquidez seca = R$ 8.064,00 = 0,56 R$ 14.278,0032 Rentabilidade e risco Observe que, se calcular a liquidez corrente dessa empresa, de igual forma, o indice seria menor do que 1, porque visivelmente o passivo circulante está maior do que o ativo circulante. Calculando a liquidez seca, comprovamos isso com o de 0,56. Ou seja, no momento da análise, a empresa tem mais obrigações imediatas do que recursos o administrador pode ainda relativizar o valor do estoque junto ao ativo circulante: R$ 4.379,00 em estoques representa 35% do total do ativo circulante (R$ 12.443,00). Dependendo do segmento da empresa, isso pode indicar um valor considerável de estoques, que deve ser baixado. Índice de liquidez imediata índice de liquidez imediata é um nível mais conservador de análise da liquidez, obtido a partir da razão entre os valores de caixa, os saldos bancários e as aplicações financeiras sobre o passivo circulante. É um índice que avalia a capacidade de a empresa saldar suas dívidas apenas com o disponível em caixa. Nesse caso, o administrador financeiro mede o volume de caixa em curto prazo diante de suas obrigações. Ou seja, esse índice mede quantas vezes os recursos da empresa são maiores do que as contas de curto prazo. Liquidez imediata = Disponível/Passivo circulanteRentabilidade e risco 33 Exemplo Observe o recorte do balanço patrimonial de uma empresa: Balanço patrimonial em 31 de dezembro expresses de reals Consolidade Ativo Nota 2017 2016 Circulante equivalentes de Aplicações financeiras de clientes Estoques 9 Tributos 11 capital Despesas pagas 10(b) Operações $387 liquido Circulante 15 16 Operações 630,517 a 20 de de 22 a pagar a ligadas 276,957 Fonte: Wainberg documento on-line). Ao somarmos os valores de caixa e aplicações financeiras, temos o montante de R$ Esse valor, então, é dividido pelo passivo circulante, que apresenta o somatório de o resultado da liquidez imediata é 0,32. A leitura desse indice indica que as disponibilidades imediatas da empresa cobrem 31% (0,31 100%) dos passivos de curto prazo.34 Rentabilidade e risco Índice de liquidez geral O índice de liquidez geral é um indicador que revela a liquidez no curto e no longo prazo. A interpretação para ele pode ser traduzida como o quanto existe de direitos no ativo circulante e no realizável a longo prazo para cada um real de dívida da empresa. Segundo Assaf Neto (2010), é um nível de medida de segurança financeira da empresa de longo prazo, revelando sua capacidade de saldar todos os seus compromissos. O resultado superior a 1 indica que a empresa tem recursos disponíveis em número maior do que as suas obrigações e dívidas. Quando o é menor do que 1, isso demonstra que a empresa possui mais obrigações (tanto de curto como de longo prazo) do que recursos disponíveis para honrar esses débitos. Liquidez geral = Ativo circulante + Realizável a longo prazo/ Passivo circulante + a longo prazo Rentabilidade A rentabilidade está correlacionada à liquidez e ao risco. Se a empresa apre- senta liquidez, terá condições de sobrevivência para manter suas atividades e honrar seus compromissos. A rentabilidade evidencia mais do que isso, pois consiste na capacidade da empresa de produzir lucro e obter retorno de seus investimentos. Nesse caso, o retorno invariavelmente estará sujeito a riscos, pois nem tudo o que é planejado acontecerá como tal, tendo em vista as transformações econômicas e sociais em que as empresas estão inseridas. Portanto, a baixa liquidez compromete a rentabilidade, porque causa endi- vidamento, afetando a possibilidade de lucro. Por outro lado, ainda que haja liquidez, a rentabilidade dependerá do nível de riscos que a empresa sofrerá em seus investimentos, pois pode ocasionar impactos ao negócio, ainda que não o deixe sem retorno. 2 Parâmetros de rentabilidade e risco Uma organização pode ter um alto nível de rentabilidade, mas apresentar alguns problemas financeiros, assim como é capaz de indicar índices rentáveis que não garantam sua liquidez (GITMAN, 2010). A liquidez garante o pagamento de suas obrigações, e a rentabilidade se relaciona ao lucro, pois demonstra a capacidade da empresa em remunerar o investimento realizado (MARTINS;Rentabilidade e risco 35 DINIZ; MIRANDA, 2012). Ambas representam a sustentabilidade de uma empresa e a sua capacidade de continuidade e sobrevivência, mas, às vezes, os gestores precisam optar por uma ou outra no momento de uma análise. Parâmetros de rentabilidade Reis (2009) determina que os índices de rentabilidade traduzem a capacidade de produzir lucro que o capital investido nos negócios é capaz de demonstrar. De acordo com Assaf Neto (2010), os índices de rentabilidade demonstram o desempenho global de uma empresa, por meio da análise das suas taxas de retorno. A rentabilidade de uma empresa pode ser verificada pela margem de lucro bruto, operacional ou líquido, o retorno do ativo total e o retorno do capital próprio. Ao analisar esses índices de rentabilidade, é possível medir os riscos que a empresa pode correr. A seguir, veremos os principais índices de rentabilidade, sugeridos por Gitman (2010) e Matarazzo (2003). Margem bruta A margem bruta ocorre na diferença entre o valor pelo qual a empresa vende seus produtos (preço de venda) e os impostos e custos desses produtos. Quanto maior a margem, maiores são as disponibilidades para as despesas adminis- trativas, de pessoal e financeiras. Dessa forma, divide-se o lucro bruto pelo total de receita de vendas. Suponha que a empresa venda seu produto por R$ 5,00, mas R$ 2,00 desse preço pertencem a impostos e R$ 2,00 são custos. Logo, a margem bruta é de apenas R$ 1,00 por produto: R$ 5,00 R$ 4,00 (R$ 2,00 de impostos e R$ 2,00 de custo). Se a venda do mês foi de 5.000 unidades, a empresa faturou R$ 25.000,00 (5.000 unidades R$ 5,00 de preço de venda), mas a margem bruta foi de 5.000 R$ 1,00 = R$ 5.000,00. Assim: Margem de lucro bruto 5.000,00 0,2 * 100 = 20% 25.000,00 A empresa apresenta 20% de margem de lucro bruto, que pode ser melho- rada com o aumento do preço de venda ou a busca por matéria-prima mais barata. O risco do aumento do preço de venda é a perda de competitividade no segmento de atuação.36 Rentabilidade e risco Margem operacional A análise da rentabilidade sob a ótica da margem operacional deflagra uma pequena diferença em relação à anterior. Ela ocorre na diferença entre o valor pelo qual a empresa vende seus produtos (preço de venda) e os impostos e custos desses produtos e as demais despesas administrativas e de pessoal. É uma abordagem mais detalhada, do ponto de vista do que realmente a empresa lucrou. Suponha os mesmos valores do exemplo anterior. Assim, temos que o pro- duto, vendido por tem R$ 4,00 de impostos e custos e ainda apresenta mais R$ por unidade referente às despesas da empresa. O administrador financeiro fez esse cálculo por unidade. Logo, a margem operacional é de R$ 4,50 = R$ 0,50. Ou seja, para cada produto vendido, o lucro operacional é de cinquenta centavos, o que equivale a 5.000 produtos R$ 0,50 R$ 2.500,00. Assim: Margem de lucro operacional = 2.500,00 Portanto, descontados os custos de fabricação, os impostos e as despesas, a margem de lucro sobre o produto é de 10%, o que demonstra o quanto a empresa apura como lucro operacional na venda de seu produto. Fique atento Faturamento não é mesmo que lucro. É comum que algumas empresas possam superar suas expectativas em faturamento em alguns momentos, mas não necessa- riamente apresentam o lucro na mesma proporção. faturamento corresponde ao montante de recursos financeiros que entram no caixa a partir das vendas dos produtos ou serviços, enquanto o lucro é o resultado da operação, depois de serem descontadas todas as despesas operacionais, tributárias e administrativas. Conclui-se, portanto, que até mesmo as vendas altas geram custos altos, com o aumento de despesas, tributos e recursos, que devem ser abatidos do valor que foi arrecadado com as receitas da empresa. Um bom planejamento financeiro e análises adequadas dos ativos e das obrigações garantem às organizações formas de maximizar o lucro.Rentabilidade e risco 37 Margem líquida A margem líquida considera os descontos anteriormente citados, além de também abater do valor do produto as despesas financeiras, provenientes de juros por empréstimos contraídos ou por aplicações que não renderam o que era previsto. Nesse caso, o lucro estará ainda mais reduzido. A partir do exemplo anterior, podemos imaginar que cada produto carrega R$ 0,10 referentes às despesas financeiras, pois isso precisa ser previsto e poderá sair do caixa da empresa. Logo, ela deve prever esse valor a ser abatido na receita, para que as metas de vendas reflitam o seu ponto de equilíbrio: quanto ela deve vender para cobrir seus custos e, finalmente, gerar rentabilidade. Descontos do preço de venda: Receita pela venda do Descontos (-) produto (R$ 5,00) Impostos e custos (R$ 4,00) Despesas administrativas e de pessoal (R$0,50) Despesas financeiras 0,10) Total de descontos R$ 4,60 Margem líquida R$ 0,40 Ao aplicarmos o valor de R$ 0,40 em 5.000 itens, teremos: Margem de lucro líquido R$ = R$ 25.000,00 Assim, para cada produto vendido, 8% correspondem ao lucro líquido da operação. Rentabilidade do ativo total A rentabilidade do ativo total (ROA) é um índice que mede a eficiência de- monstrada pelo ativo total da empresa em relação à sua rentabilidade. De acordo com Matarazzo (2003), trata-se de um índice que evidencia quanto uma empresa obteve de lucro líquido em relação ao seu ativo ou seja, é a sua potencialidade em gerar lucro. A ROA é uma medida de desempenho que deve ser comparada ano a ano. Para (2010), calcular a ROA significa encontrar uma taxa de retorno38 Rentabilidade e risco gerado pelas aplicações realizadas por uma empresa em seus ativos. índice encontrado indica o retorno gerado por cada R$ 1,00 que a empresa investiu. Ativo total Como exemplo, podemos supor que a soma dos ativos de determinada empresa totalize R$ 10 milhões, a sua receita seja de R$ 1 milhão e todos os descontos necessários resultem em R$ Ou seja, seu lucro líquido é de R$ 600.000,00. Para indicar a rentabilidade do seu ativo, devemos dividir o lucro líquido pelo ativo total: ROA = 600.000,00 10.000.000,00 Rentabilidade do capital próprio (ROE) Matarazzo (2003) destaca que o objetivo de calcular a rentabilidade do ca- pital próprio (ROE, do return on equity) é verificar qual foi a taxa de rendimento do patrimônio líquido da empresa. Esse índice indica o quanto a empresa gerou de lucro para cada R$ 1,00 de recursos próprios investidos; ou seja, é uma forma de medir a capacidade da empresa em fazer o seu próprio capital ter valor. Quanto maior o resultado do índice ROE, mais expressiva é a relação entre o lucro e o capital próprio investido. índice é obtido ao se dividir o lucro líquido pelo patrimônio líquido. Ross et al. (2015) apontam que essa é uma medida que interessa aos acionistas, pois informa como foi o ano da empresa. Como exemplo, podemos supor uma empresa com lucro líquido de R$ 50.000,00 e patrimônio líquido de R$ 250.000,00. ROE da empresa: 50.000,00 / 250.000,00 = 0,25 ou 25% Ou seja, a cada R$ 1,00 investido, o ganho é de R$ 0,25. Geralmente, para as empresas que possuem um alto crescimento e estão em uma fase inicial, deve-se esperar um índice ROE maior. Por essa razão, quando uma empresa está no início, espera-se uma rentabilidade maior, afinal, o risco também será maior para o acionista.Rentabilidade e risco 39 A perspectiva do risco As análises e possíveis tomadas de decisões sobre investimentos devem con- siderar os impactos no risco e no retorno de uma empresa. O objetivo do administrador financeiro é a criação de estratégias eficientes que maximizem o retorno para um determinado nível de risco, ou minimizem o risco para um determinado nível de retorno. Gitman (2010) aponta os tipos de riscos que a administração financeira deve analisar, explicitando que alguns se referem à empresa e outros aos acionistas, conforme descrito a seguir. Risco operacional: trata da possibilidade de a empresa não ser capaz de cobrir seus custos de operação. Seu nível é determinado pela esta- bilidade das receitas e dos custos da empresa. Risco financeiro: revela que a empresa pode não conseguir saldar suas obrigações financeiras. Seu nível é determinado pelas possibilidades dos fluxos de caixa operacionais da empresa e das suas obrigações financeiras com encargos fixos. Risco de taxa de juros: trata do impacto das variações das taxas de juros, que afetam negativamente o valor de um investimento. A maioria dos investimentos perde valor quando a taxa de juros sobe e ganha valor quando ela cai. Risco de liquidez: é a possibilidade de que a empresa não transforme seus ativos em disponíveis com facilidade, a um preço aceitável. A liquidez é significativamente afetada pelo porte e pela profundidade do mercado no qual o ativo é costumeiramente negociado. Risco de mercado: ocorre com a chance de que o valor de um ativo caia por causa de fatores econômicos, políticos ou sociais do mercado. Em geral, quanto mais o valor do ativo reage ao comportamento do mercado, maior é seu risco. 3 Decisões de investimentos, rentabilidade e risco Ao investir seu dinheiro em ações ou aplicações, as empresas ajustam a sua expectativa para que o dinheiro aplicado dê o devido retorno. Esse é o ob- jetivo dos investidores e é o que sustenta qualquer ativo financeiro positivo. A rentabilidade está presente em todos os estilos de financiamento, mas é preciso que o administrador financeiro possa analisar bem as opções dispo-40 Rentabilidade e risco níveis e conhecer a perspectiva de retorno de ativos, para que haja sucesso. A rentabilidade do investimento se apoia no conceito de taxa de retorno, porque ela representará ganhos à empresa e é diferente de quando se analisa lucros, como descrito na seção anterior. No investimento, a rentabilidade depende de quanto o ativo tem possibi- lidade de liquidez porque se transforma rápido em dinheiro no caixa, como dólares, ações de companhias sólidas ou fundos de investimentos. A decisão do investimento dependerá da rentabilidade do investimento diante dos riscos que ele representa. Quanto mais previsível o valor de resgate ou venda, maior a segurança e menor o risco do investimento. Ross et al. (2015) mencionam que o retorno esperado está pautado em uma expectativa sobre um investimento realizado, que pode ser confirmada ou não. Os autores também reforçam que a economia em que a empresa está inserida pode se apresentar em pelo menos quatro estados: depressão, recessão, normalidade ou expansão. Cada um desses cenários apresentará uma taxa de retorno diferente, bem como um possível desvio padrão, que poderá fazer o retorno melhor ou do que o esperado. Gitman (2010) diz que o risco está presente em diferentes níveis e sempre traz a possibilidade de perda financeira. Quanto mais o administrador finan- ceiro conhecer e analisar esses riscos, considerando que haverá variáveis que podem produzir incertezas, maior será a chance de acerto com um investimento. A operacionalização dessas incertezas é a gestão dos riscos. autor ainda menciona que os administradores se comportam de diferentes formais diante do risco: são indiferentes, avessos e de comportamento mais conservador, ou propensos a ele. De uma forma ou de outra, os administradores buscam investir em ações, fundos, títulos, aquisições de equipamentos, novas tecnologias, porque dese- jam expandir suas operações, substituir algum equipamento obsoleto ou uma forma de operação ou desejam empregar seu capital de uma maneira rentável. O objetivo gerencial desses projetos de investimento deve ser sempre o de maximizar a riqueza da empresa e dos acionistas (LAPPONI, 2007). Portanto, os objetivos dos investidores são de origem visando à remuneração sobre o capital investido. Isso poderá representar decisões de financiamento em capital próprio ou de terceiros. Um projeto de investimento pode ser financiado exclusivamente pelo capital dos sócios, que é próprio, ou por capital de terceiros. Também é possível que as duas opções aconteçam, representando um mix de capital: próprio e de terceiros. Quando um projeto é financiado por capital próprio e capital de terceiros, deve-se calcular o custo médio desses doisRentabilidade e risco 41 Técnicas de análise de retorno Para que ocorra a melhor tomada de decisão quanto a um investimento, consi- derando-se os riscos econômicos do momento, é preciso que o investidor use algum método que quantifique o tempo de retorno do dinheiro e as taxas que exemplificam o valor do investimento, para indicar a sua aceitação ou não. Existem técnicas que avaliam as entradas de caixa operacional para abater as saídas, calculando o tempo de retorno em períodos. Outras consideram o valor do dinheiro ao longo do tempo, realizando a sua atualização em relação a valores presentes líquidos, a partir de uma taxa. A seguir, vamos explorar os conceitos de payback, taxa de atratividade (TMA), valor presente líquido (VPL) e taxa interna de retorno (TIR). Payback A palavra payback pode ser traduzida diretamente como retorno do paga- mento. Essa técnica, que é muito utilizada por grandes empresas, demonstra a quantidade de períodos necessários para recuperar o investimento realizado. payback responde à seguinte pergunta: em quanto tempo teremos o inves- timento inicial de volta, para começarmos a ter rentabilidade? Ao utilizar o payback como critério para investir em um determinado projeto, o administrador financeiro aceita ou rejeita o investimento, conforme o número máximo de períodos aceitáveis. Ele poderá fazer uso do payback simples e do descontado. payback simples não considera o custo de capital da empresa no decorrer dos períodos, apenas a quantidade de períodos neces- sários para recuperar o investimento, considerando seus fluxos de caixa. Já o payback descontado considera o custo do dinheiro no decorrer dos períodos de aceitação do retorno do investimento. No Quadro 1, podemos ver um exemplo de payback simples, em que o valor inicial de R$ 100.000,00 foi investido no ano 0. No ano 1, o investimento trouxe R$ 60.000,00 de volta e, no ano 2, novamente o mesmo valor. Portanto, no ano 2, o investimento inicial de R$ 100.000,00 foi recuperado, tendo como saldo R$ 20.000,00. E, desse ano para a frente, foram ganhos consecutivos. Ou seja, o investimento teve seu retorno em aproximadamente dois anos.42 Rentabilidade e risco Quadro 1. Exemplo de payback simples Período Benefícios Custos Fluxo Balanço Ano 0 0,00 100.000,00 100.000,00 100.000,00 Ano 1 60.000,00 0,0 60.000,00 40.000,00 Ano 2 60.000,00 0,0 60.000,00 20.000,00 Ano 3 80.000,00 0,0 80.000,00 100.000,00 Ano 4 100.000,00 0,0 100.000,00 200.000,00 Ano 5 100.000,00 0,0 100.000,00 300.000,00 Quando o projeto recuperou o investimento? Taxa mínima de atratividade (TMA) A TMA reflete a melhor alternativa de investimento com o menor grau de risco disponível para aplicação (SOUZA; CLEMENTE, 2004). Essa taxa, segundo Damodaran (2010), é formada a partir de três componentes básicos, descritos a seguir. Custo de oportunidade: remuneração obtida em alternativas que não são analisadas. Exemplos: caderneta de poupança, fundo de investimento. Risco do negócio: o ganho deve remunerar o risco inerente de uma nova ação. Quanto maior o risco, maior a remuneração esperada. Liquidez: capacidade ou velocidade em que se pode sair de uma posição no mercado para assumir outra. Valor presente líquido (VPL) VPL é bastante utilizado ao se realizar o orçamento de capital para avaliar os projetos de investimentos. propósito é o de atualizar todas as entradas dos fluxos de caixa futuros para um valor presente, considerando-se o custo do dinheiro ao longo do tempo. Para Casarotto e Kopittke (2008, p. 116), o VPL é composto de um cálculo simples, em que, "Em vez de se distribuir o investimento inicial durante sua vida (custo de recuperação do capital), deve- -se somar os demais termos do fluxo de caixa para somá-los ao investimentoRentabilidade e risco 43 inicial de cada alternativa. Escolhe-se aquela que apresentar melhor valor presente líquido". Taxa interna de retorno (TIR) Segundo Hoji (2010), a TIR pode ser também chamada de taxa de desconto do fluxo de caixa; trata-se de uma taxa de juros em uma série de pagamentos (saídas) e recebimentos (entradas). Quando utilizada como taxa de desconto, resulta em VPL igual a zero. Pode-se dizer que a TIR é definida como a taxa de desconto que iguala o valor presente das entradas de caixa ao investimento inicial de um projeto; é, portanto, a taxa que zera o VPL das entradas de caixa (GITMAN, 2010). Referências ASSAF A. Estrutura e análise de balanços: um enfoque 10. ed. São Paulo: Atlas, 2010. CASAROI IO B. H. Análise de investimentos: matemática financeira, engenharia econômica, estratégia empresarial. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2008. DAMODARAN, A. Avaliação de investimentos. 2. edição. Rio de Janeiro: 2010. GIIMAN, L. J. de administração financeira. 12. ed. São Paulo: Pearson, 2010. HOJI, M. Administração financeira e matemática financeira aplicada, estratégias financeiras, orçamento empresarial. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2010. LAPPONI, J. Projeto de investimento na empresa. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. MARTINS, E.; MIRANDA, G. Análise avançada das demonstrações contábeis: uma abordagem critica. São Paulo: Atlas, 2012. D. Análise financeira de abordagem básica e gerencial. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2003. REIS, A. Demonstrações contábeis: estrutura e 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. ROSS. S. A. al Administração financeira. 10. ed. Porto Alegre: AMGH, 2015. SILVA, A. A. da. Estrutura, análise e interpretação das demonstrações 2. ed. São Paulo: Atlas, 2010. A. Decisões financeiras e análise de investimentos: fundamentos, técnicas e aplicações. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2004.44 Rentabilidade e risco WAINBERG, R. Liquidez imediata: descubra como medir saúde financeira no curto prazo. 2018. Disponível em: Acesso em: 23 abr. 2020. WAINBERG, R. Liquidez seca: descubra a utilidade desse indicador pouco conhecido. 2018. Disponível em: Acesso em: 23 abr. 2020. Leitura recomendada PINHO, et al. Risco financeiro: medida e gestão. 2. ed. Lisboa: Edições Silabo, 2011. (E-book). Fique atento Os links para sites da web fornecidos neste capitulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links.Gestão do capital de giro: modelo de Fleuriet Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar seguintes aprendizados: Apresentar a origem do modelo de Fleuriet. Conceituar contas e Contextualizar a ocorrência de necessidade líquida de capital de giro. Introdução capital de giro (CDG) é um dos elementos que influenciam as decisões estratégicas de uma organização e é alvo de muito estudos mundo está globalizado há décadas, e a competividade empresarial é resultado desse fenômeno. Por essa razão, há uma preocupação por parte dos acadêmicos e gestores em aplicar análises e modelos sofisticados na área financeira. Assim, neste capítulo, você vai estudar o modelo tradicional de análise financeira, muito comum na literatura. Na sequência, você vai compreender o modelo de Fleuriet, que tem uma perspectiva distinta da tradicional, propondo uma análise dinâmica, que considera os ciclos operacional e financeiro da empresa. Por fim, você vai aprender sobre os contextos em que ocorre a necessidade líquida de 1 Modelo tradicional versus modelo de Fleuriet No modelo tradicional de análise a análise está con- centrada nos índices decorrentes das demonstrações financeiras. Assim, haverá uma relação lógica entre as contas financeiras e contábeis, com o propósito de apresentar a condição financeira da organização. Para o modelo tradicional, é importante destacar o conceito de capital de giro líquido (CGL).46 Gestão do capital de giro: modelo de Fleuriet CGL é resultado da diferença entre as contas patrimoniais de curto prazo. Assim, o resultado será a diferença entre as contas presentes no ativo circulante e as dívidas presentes no passivo circulante. Com esse conceito, é possível analisar a liquidez da empresa para o curto prazo. Nesse contexto, pode-se diferenciar o CDG e o CGL. o CDG corresponde aos recursos do ativo circulante, enquanto o CGL será a diferença entre o ativo circulante e o passivo circulante. Essa conceituação é fundamental para compreender as bases do modelo tradicional e depois distingui-lo do modelo de Fleuriet. Com a noção clara do CDG, é avançar o estudo dos aspectos de liquidez da empresa. Ao considerar as contas circulantes do balanço patrimo- nial, conseguimos medir a liquidez por meio dos seguintes índices: Liquidez corrente = (Ativo circulante) / (Passivo circulante) Liquidez seca = (Ativo circulante Estoques) / (Passivo circulante) Liquidez imediata = (Disponível) / (Passivo circulante) Esses índices demonstram a capacidade do ativo circulante para honrar com as dívidas do passivo Quanto maior for o índice, melhor será a situação de liquidez da empresa para honrar as obrigações do passivo circulante. Por essa razão, uma empresa solvente, normalmente, terá bons índices de liquidez. Embora o modelo tradicional seja utilizado em larga escala e por diversos estudiosos e profissionais da área financeira, ele sofre algumas críticas de ordem metodológica. Para Fleuriet, Kehdy e Blanc (2003), as contas patrimo- niais no modelo tradicional são classificadas de forma inadequada. correto seria uma classificação considerando os ciclos que ocorrem nas operações da organização. Dessa forma, a análise financeira ocorreria por meio de um modelo É desse entendimento que partem os estudos de Michel Fleuriet, que resul- taram no modelo de Fleuriet. Este tem como propósito realizar uma análise financeira não estática. No modelo de Fleuriet, as contas do balanço patrimonial são reclassificadas em função da análise, que é voltada aos ciclos decorrentes das operações que ocorrem dentro de uma organização. Conforme os estudos de Theiss Júnior e Wilhelm (2000), o modelo de Fleuriet fornece medidas mais apuradas para a sensibilidade da empresa sobre as variações financeiras. Dentro dessa perspectiva, é proposto no modelo analisar os ciclos da empresa, para obter uma visão mais exata do desempenho operacional, econômico e financeiro ao longo do tempo.Gestão do capital de giro: modelo de Fleuriet 47 2 Contas patrimoniais no modelo dinâmico de Fleuriet Nas análises financeiras tradicionais, as contas são classificadas em circulantes e não circulantes. No modelo dinâmico, as contas passam a ganhar um novo caráter e, por isso, elas serão classificadas em operacionais (cíclicas), financeiras (erráticas) e não circulantes (não cíclicas). No Quadro observa-se a nova classificação das contas patrimoniais conforme a metodologia de Fleuriet. Quadro 1. Balanço patrimonial na perspectiva de Fleuriet Ativo Passivo Ativo circulante Passivo circulante Contas erráticas: Contas erráticas: Caixa Empréstimos e financiamentos Bancos Debêntures Aplicações financeiras Dividendos a pagar Contas cíclicas: Contas Clientes Fornecedores Estoques Obrigações tributárias Ativo não circulante Passivo não circulante Contas não Contas não ciclicas Realizável a longo prazo Exigivel a longo prazo Investimentos Imobilizado Patrimônio líquido (não Fonte: Adaptado de Rocha, Klann e Hein (2010). As contas erráticas no ativo circulante são aquelas que envolvem o lado financeiro da empresa, como: caixa, bancos, aplicações financeiras, entre outras. Estas estarão vinculadas às atividades financeiras da organização no curto prazo. No ativo circulante, haverá também as contas ligadas às atividades operacionais, como as contas clientes, estoques, entre outras. Por fim, há o ativo não circulante, considerado como não As contas48 Gestão do capital de giro: modelo de Fleuriet que normalmente o compõem são: realizável a longo prazo, investimentos, imobilizado e intangível. No lado do passivo, haverá as contas classificadas como erráticas, ciclicas e não As contas do passivo circulante ligadas a dívidas e compromissos com as instituições financeiras e outros credores financeiros no curto prazo serão classificadas como erráticas. Por exemplo, as contas empréstimos, finan- ciamento, debêntures e dividendos a pagar serão consideradas como erráticas. As obrigações do passivo circulante decorrentes das atividades operacionais serão classificadas como Nesse sentido, as contas fornecedor e salários a pagar serão entendidas como no passivo circulante. Estas existem em função das operações e atividades afins da organização. passivo não circulante e o patrimônio líquido serão classificados como não Essas contas têm uma rotatividade baixa ou até mesmo são per- manentes na empresa. Por esse motivo, serão consideradas como não na análise financeira dinâmica do modelo. Fique atento No modelo tradicional, considera-se apenas as contas circulante e não circulante. lá no modelo dinâmico, as contas são desmembradas em operacional, financeira e não de uma nova forma de interpretar a dinâmica do ciclo operacional das Segundo Vieira (2008), a nova classificação das contas patrimoniais con- sidera os ciclos financeiro e econômico de uma organização. Esses ciclos são dinâmicos por exemplo, uma mudança nas políticas de estocagem ou nas contas a pagar ou receber vai acarretar novos ciclos dentro da empresa. Na Figura 1, pode-se analisar os respectivos ciclos.Gestão do capital de giro: modelo de Fleuriet 49 VENDAS RECEBIMENTOS Prazo de estoques Prazo concedido aos clientes Prazo recebido dos tempo fornecedores CICLO FINANCEIRO COMPRAS PAGAMENTOS CICLO Figura 1. Ciclo financeiro e ciclo Fonte: Vieira (2008, p. 75). Conforme apresentado na Figura 1, o ciclo econômico corresponde ao período que a mercadoria permanece estocada até ser vendida. Já o ciclo financeiro será o intervalo de tempo entre o pagamento dos fornecedores e o recebimento das vendas. Esses ciclos representam as atividades operacionais (ciclo operacional) da empresa com seus stakeholders. Com o entendimento conceitual das contas patrimoniais e dos ciclos fi- nanceiro e econômico no modelo de Fleuriet, pode-se avançar para a análise dos indicadores econômicos e financeiros do modelo de Fleuriet. Estes são um meio de evidenciar a situação financeira de uma organização. Indicadores econômicos e financeiros do modelo de Fleuriet Os principais indicadores econômicos e financeiros do modelo de Fleuriet são: CDG, necessidade de capital de giro (NCG) e saldo da tesouraria (ST). Cada um desses indicadores vai revelar a situação de liquidez da empresa no curto e no longo prazo. Para uma compreensão clara desses indicadores, vamos analisá-los em princípio de forma isolada. A NCG será a diferença entre o ativo circulante cíclico (operacional) e o passivo circulante (operacional). Assim, a equação 1 representa a NCG: NCG = Ativo circulante operacional Passivo circulante operacional (1) resultado será entendido da seguinte forma: a) um resultado positivo indica que as saídas de caixa ocorrem antes das entradas, e, por esse motivo, será necessário financiar o CDG por meio50 Gestão do capital de giro: modelo de Fleuriet da contratação de empréstimos ou financiamento (capital de terceiros) ou com recursos próprios da empresa; b) se o resultado for negativo, significa que o fluxo de caixa operacional é positivo, ou seja, as entradas de caixa ocorrem antes das Esse é um cenário favorável, e não haverá necessidade para captação de empréstimos e financiamentos ou injeção de recursos por parte dos sócios ou acionistas. Para Assaf Neto (2014), o resultado desse indicador será a quantidade de recursos necessários para financiar o ciclo das principais operações em- presariais, isto é, os ciclos de comercialização, compras e estocagem. Para Matarazzo (2003, p. 338), "[...] a necessidade de capital de giro é a chave para a administração financeira de uma empresa". O CDG é entendido como os recursos permanentes da organização neces- sários para cobrir as NCGs. CDG é obtido pela subtração das fontes de longo prazo (passivo não circulante e patrimônio líquido) pelas aplicações de longo prazo (ativo não circulante). A equação 2 é utilizada para o cálculo do CDG. CDG (Passivo não cíclico + Patrimônio líquido) (Ativo não cíclico) (2) Os resultados serão interpretados da seguinte forma: a) quando o resultado é positivo, entende-se que há fontes de longo prazo (passivo não circulante e patrimônio líquido) para cobrir as NCGs; b) quando o resultado é negativo, não há fontes de longo prazo suficientes para financiar as NCGs. Nessa condição, a empresa deverá buscar alternativas na sua estrutura financeira. ST é a diferença entre o CDG e a NCG. Esse resultado será obtido pela subtração do ativo circulante errático pelo valor do passivo circulante errático. Esse saldo será calculado por meio da equação 3. ST Ativo circulante financeiro Passivo circulante financeiro (3) A interpretação desse resultado é descrita a seguir. a) Quando o ST tem um resultado negativo, a empresa vai utilizar as fontes de curto prazo (empréstimos e financiamento) para cobrir a sua NCG; assim, haverá uma quantidade maior do capital de terceiros na