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33 1 Lisia Urtubeny Rodrigues Milena Pessoa Neves A REALIDADE DAS MULHERES NO SISTEMA PENITENCIÁRIO BRASILEIRO CURSO DE DIREITO- UNIIVERSO 2022 2 LISIA URTUBENY RODRIGUES MILENA PESSOA NEVES PAULO POSSENER A REALIDADE DAS MULHERES NO SISTEMA PENITENCIÁRIO BRASILEIRO Artigo apresentado ao Núcleo de Trabalho de Curso da Universidade Salgado de Oliveira, como exigência parcial para a obtenção do grau de bacharel em Direito, sob a orientação do Professor Gustavo Adolfo Menezes Vieira. SALVADOR – 2022 3 LISIA URTUBENY RODRIGUES MILENA PESSOA NEVES A REALIDADE DAS MULHERES NO SISTEMA PENITENCIÁRIO BRASILEIRO Salvador Banca Examinadora 4 RESUMO Este Artigo visa analisar a realidade da mulher dentro dos presídios brasileiros pondo em vista seus Direitos e garantias fundamentais, uma análise dos aspectos históricos e frisando suas maiores dificuldades. O primeiro capítulo traz a Observância na contemporaneidade dos presídios femininos bem como em sua evolução histórica visando os Direitos assegurados a cada mulher em cárcere bem visando patentear desafios diários e escassez de suprimentos das necessidades básicas de cada mulher. Nesse fluxo, o segundo capítulo trata da legislação e das garantias constitucionais, dos Direitos fundamentais que regem a mulher no sistema carcerario visando seu Direito a Dignidade humana, e ainda retrata a condição feminina sob a prespectiva de gênero. Por fim, o terceiro capítulo abrange mais precisamente sobre a mulher presa, privação de necessidades básicas de cada mulher levando-se em conta a maternidade e ainda a capacidade ressocializadora da pena. Palavras-chave: Garantismo Penal, Execução Penal, Direitos da mulher. 5 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 1 CAPÍTULO I – REALIDADE NOS PRESÍDIOS FEMININOS BRASILEIROS 3 Evolução histórica dos presídios ....................................................................3 Realidade das unidades prisionais 3 A mulher encerada 7 Principais dificuldades dentro dos presídios femininos 9 CAPÍTULO II – DIREITOS E GARANTIAS DA MULHER ENCARCERADA A Dignidade da Mulher no Cárcere...................................................................10 Garantias Constitucionais dos Direitos Fundamentais da mulher em cárcere 14 Condição Feminina Sob a Prespectiva de Gênero...........................................16 CAPÍTULO III – REALDADE DA MULHER PRESA 20 Necessidades básicas da mulher 20 Materndade e cárcere 24 Capacidade Ressocializadora da Pena 28 CONCLUSÃO 30 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 32 1 INTRODUÇÃO A cada ano, o número de mulheres encarceradas aumenta no Brasil, seja por questões financeiras, ou questões afetivas, dados da Infopen Mulheres mostrou um aumento de 567% de mulheres privadas de liberdade. Mas ainda assim a realidade de grande parte dos presidios e unidades carcerárias no Brasil tendem a apresentar péssimas condicoes para suprir as garantias fundamentais. Os problemas enfrentados pelas mulheres nas unidades carcerárias, vai desde o machismo enfrentado diariamente, como relacionado a outras questoes como: higiene básica e maternidade. As mulheres encarceradas são abandonadas pela familia e pelo Estado, e nao são ofertadas condições básicas para o dia a dia: locais sujos, problemas nas instalacões, alimentação inadequada, o que comprete a saúde fisica e mental das mesmas com inúmeros casos de depressão, crises de pânico, afecções ginecológicas, entre inúmeros outros. Esse Trabalho visa, com isso, identicar a realidade das mulheres nos presidios femininos, identificando a realidade histórica dos presidios, os direitos que devem ser assegurados as mulheres encarceradas, as dificuldades encontradas. Serão utilizadas metodologia bibliográfica, em livros, artigos cientificos, sites na internet, sobre dados estatisticos do INFOPEN (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárioas) e DEPEN (Departamento Penitenciário Nacional), o código de Direito penal, Direitos Humanos. Objetivando identifcar a realidade da mulher em estado de cárcere, identificar seus direitos e uma visibilidade sobre a real situação das unidades prisionais e deficiência do Estado no quesito de sanar necessidades básicas das mulheres. CAPÍTULO I - REALIDADE NOS PRESÍDIOS FEMININOS BRASILEIROS 1.1 Evolução histórica dos presídios Punir as pessoas por crimes e atos contra a ordem sempre esteve presente no processo de formação das comunidades. Foram inúmeros processos e transformações que levaram até ao modelo atual onde a punição é feita através da privação de liberdade. Na idade antiga, o aprisionamento eram feitos em calabouçõs, ruínas, masmorras para que assim pudessem exercer a punição. De acordo com Filho (2002) os locais insalubres, mal iluminados e sem condições higienicas na qual os encarcerados aguardavam julgamento e condenação tornavam mais propício para a morte dos mesmos. Na Idade Média, o cárcere era um local de custódia antes da realização de castigos corporais ou pena de morte. Nao havia a construção de um local específico para tal fim. As punições variavam entre amputações, degolamento, queimaduras em brasa, guilhotina e era como se fosse uma forma de “espetáculo” para a população, considerando ainda Filho (2002). Nesse período da Idade Média, com as inquisições da Igreja Católica que surgem dois tipos de cárcere: do Estado e o eclesiático. No cárcere do Estado, o que se exercia era uma custódia, enquanto o individuo aguardava a sua punição. Já o eclesiático, era destinado a clérigos, que era mantidos em mosteiros, e que através de penitëncias, pudessem se arrepender e serem “corrigidos”. E foi nesse momento que surge o que entende-se hoje como “Penitenciária”. Na idade Moderna, o fim do sistema Feudal e a ideía da monarquia absoluta, e o poder absoluto do rei, as punições e as condutas não eram sequer questionadas. E o cárcere ainda era o local onde o cidadão aguardava a sua punição. Duas questões foram fundamentais para a transformação no que se refere ao cárcere e a pena privativa de liberadade: o Iluminismo e as dificuldades econômicas. No século XVIII havia muita miséria, um número alto de pobreza, e a criminalidade acabou também aumentando. A pena de morte começou a se tornar uma falha, nao havia mais o temor da pena de morte, e assim a privação de liberdade surgiu como alternativa para o controle social de criminalidade. E aos iluministas, que segundo Foucault (1998), buscavam o uso da razão contra o antigo regime, e anciavam por liberdade econômica e política; quanto mais conhecimento, mais caberia ao Estado propor melhorias para ele mesmo e para a população. Assim, deu-se início a mudança de pensamento em relação às punições e pena criminal. Autores como Cesare Beccaria era contra a violência e vexame das penas, e assim muitos também passaram a se contra as penas desumanas que sempre houveram. Segundo Miche Foucault (1998, p63) “É preciso punir de outro modo: eliminar essa confrontação física entre soberano e condenado; esse conflito frontal entre a vingança do príncipe e a cólera contida do povo, por intermédio do supliciado e do carrasco”. A partir do século XVIII, então, as prisões passaram a assumir a função de modelo punitivo e privação de liberdade. Para Filho (2002), o objetivo deveria ser reprimir o delito e promover a reinserção social. Considerando o mesmo autor, o capitalismo, o aumento da pobreza e da criminalidade, devastação de países, crise feudal contribuiram para que a pena de privacao de liberdade se tornasse a alternativa para punição. O direito de punir nao era mais função do soberano e sim uma forma de defesa da sociedade. E assim, mudam-se as concepções e a necessidade de criar locais específicos para a correção dos apenados; a idéia principal era a prevenção do delito e readaptação do criminoso, para Foucault (1998) deixou de ser para a dor física, e uma forma do Estado de ‘vigiar’ para que os aprisionados obedeçãoas leis e nao interfiram na ‘normalidade” da sociedade. Surgindo assim as prisões, penitenciárias que conhecemos até hoje: o local onde o indíviduo é privado de liberdade, sem contato com familia ou qualquer relação social, para que durante o isolamento possa refletir sobre seu crime. 1.2 Realidade das Unidades Prisionais Brasileiras Para Motta (2011), as unidades prisionais brasileiras não possuem o mínimo de condições de sobrevivência. Isso porque mesmo com as leis que regulamentam a importancia e a necessidade de um ambiente prisional adequado e humanitário, capaz de promover a ressocialização, isso raramente ocorre. Focault (1975) demonstra que a ressocialização acaba se tornando apenas uma “utopia”, uma vez que a realidade em que os aprisionados estão é completamente diferente, com falta de condições de higiene, falta de espaço, alimentação inadequada e falta de assistência a saúde. As unidades prisionais acabam cumprindo a função apenas de vigiar e punir. Um dos principais problemas prisionais do Brasil é a superlotação, o que contribui para a profileração de doenças, o poder judiciário nao consegue atender toda a demanda. E além disso, a maioira nao possui estruturas hidraúlicas, sanitárias e elétricas adequadas, os espaços de banho de sol possuem esgotos abertos, a alimentação não é adequada, entre tantos outros problemas. Para GREGO, 2015, A superlotação carcerária parece não preocupar as autoridades competentes, sobretudo a classe política, que não vislumbra nenhuma “vantagem” com o preso. As celas continuam sendo úmidas, fétidas, extremamente frias ou quentes, sem areação, a comida servida aos detentos ainda é de péssima qualidade, eles não trabalham, não podem exercitar-se, seus parentes são impedidos de vê-los com frequência [...] (GREGO, 2015, p. 176 e 180). E considerando a realidade feminina encarcerada, pode se tornar ainda pior. 1.3 A mulher encarcerada no Brasil Existe para o gênero feminino as Regras de Bangkok pela ONU, que busca adaptar o espaço prisional para a realidade feminina, mas o Brasil está longe de conseguir atender a essas necessidades. A encarcerada brasileira estão abandonadas pela familia, abandonadas pelo Estado, sofrendo com abusos sexuais e psicológicos de funcionárias, companheiras de celas. Dados do DEPEN (2019), indicam que a maioria das mulheres estão presas pelo crime de tráfico de drogas, e em sua maioria também são mães, e há um aumento de 656% da população feminina encarcerada. Um aumento cujo sistema prisional, que já é falho, não está preparado para receber. O relacionamento afetivo é o qual muitas mulheres entram para a criminalidade: acobertando cônjuges, entrando em presídios como “mulas” com drogas, e o deficit judiciário contribui para que essas mulheres permaneçam mais tempo que o necessário nas unidades prisionais. 1.3 Direito das Detentas O príncipio básico é que a mulher detenta tenha o mesmo direito que um detento do sexo masculino: alimentação adequada, espaço limpo, educação, saúde, mas que na realidade sabe-se que nao é isso que ocorre nas unidades prisionais. Além disso, o gênero feminino possui necessidades específicas como condições de gestante e lactantes, e que isso nem sempre ocorre de maneira adequada. Outro ponto relevante é a falta de materiais básicos de saúde como papel higiênico, escova de dentes e absorventes intimos; muitas mulheres utilizam miolo de pão para conter o fluxo menstrual. Entre algumas leis que asseguram o direito feminino, mas que nem sempre sao cumpridas, tem-se: · Constituição Federal artigo 5º, inciso L, direito de presidiárias terem locais adequados para no período de amamentação estar com seus filhos; · Lei de nº 11.942, de 28 de maio de 2009, aseegura às mães presas e aos recém-nascidos condições mínimas de assistência; · A Lei de Execução Penal em seu artigo art. 83, § 2º, é dever do Estado em criar berçários nos estabelecimentos femininos para a amamentação de detentas encarceradas; · Lei 11.942, assegura às presidiárias o direito de um período de amamentação de no mínimo seis meses e cuidados médicos aos bebês e a elas. (o que nao ocorre na maiorias das penitenciarias, e as mulhres amamentam seus filhos em locais precários e separadas brutalmente das crianças após o período) · Artigo 318, incisos IV e V, e 318 – A, do Código de Processo Penal, garante o direito de prisão domiciliar para gestantes e a mulheres com filhos deficientes ou menores de 12 anos presas preventivamente. Referencias BARCELLOS, Ana Paula de. Violência urbana, condições das prisões e dignidade humana. Revista de Direito Administrativo nº 254. Belo Horizonte/MG, 2010. Disponível em: <http://www.editoraforum.com.br/wp-content/uploads/2017/01/violencia-urbana.pdf>. Acesso em: 04 de julho de 2019. BRASIL. Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, atualização junho de 2017 / organização, Marcos Vinicíus Moura. Brasília/DF: Ministério de Justiça e Segurança Pública, Departamento Nacional Penitenciário, 2019a. Disponível em: <http://depen.gov.br/DEPEN/depen/sisdepen/infopen/relatorios-sinteticos/infopen-jun-2017-rev-12072019-0721.pdf>. Acesso em: 14 de abril de 2022 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de direito administrativo. 24ªed. Rio de Janeiro: LUMEN JURIS, 2002. CARVALHO, FL. A Prisão. Publifolha. São Paulo, 2002. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 5ªed. Petrópolis: Vozes, 1987. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Tradução de Raquel Ramalhete. 20 ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 1987. Disponível em: < https://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/centrocultural/foucault_vigiar_punir.pdf>. Acesso em: 15 de outubro de 2019. GRECO, Rogério. Sistema Prisional: Colapso Atual E Soluções Alternativas. Rio de Janeiro/RJ: Impetus, 2015. 21