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HANSENÍASE: Conhecida também como lepra, ou mal de Lázaro, a doença surgiu na Índia e na China e acredita-se que tenha sido levada para o Mediterrâneo pelas conquistas de Alexandre, o Grande, rei da Macedônia. Mas o número de doentes na Europa aumentou na época das Cruzadas, no final do século XI. Foi nesse período também o início da perseguição aos “leprosos”, que duraria três séculos. Na França, milhares de doentes foram queimados nas fogueiras. O doente recebia um par de luvas e uma espécie de sino para anunciar sua chegada a lugares públicos. Milhares de pessoas foram expulsas das comunidades, ingressando nas colônias de leprosos ou mendigando na periferia das cidades. No Brasil, os doentes eram vítimas de internação compulsória. A prática do isolamento continuou até 1976. Dos 101 antigos hospitais-colônia do país, 33 ainda estão em atividade e abrigam antigos doentes que passaram a vida nas colônias e hoje não têm para onde ir. O aspecto humanista só passou a ter espaço recentemente. A hanseníase é uma infecção crônica, granulomatosa, curável, que tem como agente etiológico o Mycobacterium leprae ou bacilo de Hansen, um micro-organismo de elevada infectividade, porém baixa patogenicidade, isto é, poucos indivíduos infectados adoecem. O Mycobacterium leprae foi descrito em 1873 pelo norueguês Amauer Hansen, razão pela qual é chamado Bacilo de Hansen (BH) –. É um Bacilo Álcool-Ácido Resistente (BAAR), parasita intracelular obrigatório com predileção pelas células do sistema reticuloendotelial, especialmente os histiócitos do sistema nervoso periférico (célula de Schwann), células da pele e mucosa nasal. Uma importante diferença morfológica com o bacilo da tuberculose (BK) é que o BH, quando em grande quantidade nas lesões, forma aglomerados bacilares, denominados globias. O BH ainda não pode ser cultivado in vitro, um dos fatores que dificultam o estudo de suas propriedades, embora saibamos que apresenta uma multiplicação extremamente lenta (justificando a apresentação insidiosa da doença e o período de incubação de anos) e também que possui preferência para ambientes com temperatura mais baixa (inferiores a 36,5ºC). Classicamente, o acometimento cutâneo caracteriza-se por máculas hipocrômicas, hipo ou anestésicas. Entretanto, na dependência da forma clínica, placas, nódulos, tubérculos e mesmo infiltração sem lesões de pele aparentes podem ser observados. O bacilo, quando identificado à histopatologia, localiza-se nas partes profundas da derme. Com a evolução da doença não tratada, as manifestações dermatológicas e neurológicas associam-se a deformidades e mutilações, alterações que tanto estigmatizam os pacientes. Desta forma, o diagnóstico precoce da doença, o tratamento com a poliquimioterapia e o reconhecimento imediato dos quadros reacionais garantem a interrupção da cadeia de transmissão e a prevenção das incapacidades físicas. Tem notificação compulsória em todo o território nacional e é de investigação obrigatória. Após concluir o diagnóstico, o caso deve ser notificado ao órgão de vigilância superior, através de uma ficha de notificação do SINAN. EPIDEMIOLOGIA: Nos últimos anos, observou-se bastante sucesso com a implantação dos programas de controle da hanseníase, apoiados pela OMS. O foco desses programas está na detecção precoce de casos novos, tratamento gratuito com poliquimioterapia, sustentabilidade dos ganhos alcançados e na redução da carga da doença nas comunidades endêmicas. No Brasil, o Ministério da Saúde também tem dado prioridade às ações para os casos em menores de 15 anos, a partir da “Campanha Nacional de Hanseníase, Geo-Helmintíases e Tracoma”. Pode-se dizer que a prevalência da doença vem diminuindo em todo o mundo nos últimos anos. Entretanto, esse declínio desacelerou mais recentemente. A taxa global de incidência da hanseníase também parece estar diminuindo, ainda que lentamente e que, em muitas áreas, permaneça estática ou mesmo em crescimento. No mundo, foram reportados à Organização Mundial da Saúde (OMS) 202.185 casos novos da doença em 2019. Desses, 29.936 (93%) ocorreram na região das Américas e 27.864 (93% do total das Américas) foram notificados no Brasil. Do total de casos novos diagnosticados no país, 1.545 (5,5%) ocorreram em menores de 15 anos. Quanto ao Grau de Incapacidade Física (GIF), entre os 23.843 (85,6%) avaliados no diagnóstico, 2.351 (9,9%) apresentaram deformidades visíveis (GIF2). Diante desse cenário, o Brasil é classificado como um país de alta carga para a doença, ocupando o segundo lugar na relação de países com maior número de casos no mundo, estando atrás apenas da Índia. Por aqui, embora os compromissos internacionais não tenham sido plenamente atingidos, observamos nos últimos anos uma redução importante do coeficiente de prevalência de hanseníase – e o mesmo se deu para a incidência. Entretanto, a prevalência de hanseníase ainda apresenta importantes variações regionais e estaduais. Nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste (exceto Rio Grande do Norte e Distrito Federal), ainda há coeficientes elevados, sobretudo nos estados de Mato Grosso, Tocantins e Maranhão. Mais recentemente, o Ministério da Saúde elaborou a Estratégia Nacional para Enfrentamento da Hanseníase 2019-2022 que tem como objetivo geral reduzir a carga da doença no país ao fim de 2022, e possui as seguintes metas: (1) reduzir para 30 o número total de crianças com grau 2 de incapacidade física; (2) reduzir para 8,83/1 milhão de habitantes a taxa de pessoas com grau 2 de incapacidade física; e (3) implantar em todas as Unidades da Federação canais para registro de práticas discriminatórias às pessoas acometidas pela hanseníase e seus familiares. TRANSMISSÃO E PATOGÊNESE: O homem é considerado o único reservatório natural do bacilo, apesar do relato de animais selvagens naturalmente infectados (tatus e macacos). Os pacientes portadores de formas multibacilares são a principal fonte de infecção (são capazes de eliminar grande quantidade de bacilos para o meio exterior – carga de cerca de 10 milhões de bacilos na mucosa nasal), embora o papel dos paucibacilares na cadeia de transmissão tenha sido demonstrado. A existência de portadores sadios tem sido relatada pelos estudos de DNA utilizando a técnica da reação em cadeia da polimerase (PCR), entretanto o papel desses na transmissão e o seu risco de adoecimento não estão definidos. As vias aéreas superiores provavelmente constituem a principal via de inoculação e eliminação do bacilo. Soluções de continuidade na pele eventualmente podem ser porta de entrada da infecção. Secreções orgânicas como leite, esperma, suor e secreção vaginal podem eliminar bacilos, mas não possuem importância na disseminação da hanseníase. A hanseníase atinge pessoas de todas as idades, ambos os sexos, no entanto raramente ocorre em crianças abaixo de cinco anos de idade. A distribuição da doença em conglomerados, famílias ou comunidades com antecedentes genéticos comuns sugere a possibilidade de uma predisposição genética à infecção pelo BH. Existem marcadores imunológicos relacionados à capacidade dos macrófagos em destruir o bacilo ou simplesmente deixá-lo se multiplicar. Os fenótipos HLA-DR2 e HLA-DR3 estão relacionados à forma paucibacilar; e o fenótipo HLADQ-1, à forma multibacilar da doença. O período de incubação é longo, em média de dois a cinco anos, podendo ser de meses a mais de dez anos. Isso ocorre em virtude do M. leprae ser um micro-organismo “lento”, que se reproduz por divisão binária simples a cada 14 dias, sendo necessários muitos anos para que o organismo possua uma carga bacilar capaz de expressar-se clinicamente. Depois da sua entrada no organismo, não ocorrendo a sua destruição, o bacilo de Hansen irá se localizar na célula de Schwann e na pele. Sua disseminação para outros tecidos (linfonodos, olhos, testículos, fígado) pode ocorrer nas formasmais graves da doença, nas quais o agente infectante não encontra resistência contra a sua multiplicação. A imunidade humoral (dependente de anticorpos) é ineficaz contra o M. leprae. A defesa é efetuada pela imunidade celular, capaz de fagocitar e destruir os bacilos, mediada por citocinas (TNF-alfa, IFN-gama) e mediadores da oxidação, fundamentais na destruição bacilar no interior dos macrófagos. Na forma paucibacilar (lesões tuberculoides), há predomínio de linfócitos Th1, produzindo IL-2 e IFN-gama, enquanto que na forma multibacilar (lesões virchowianas ou lepromatosas), o predomínio é de linfócitos T supressoras e Th2, produzindo IL-4, IL-5 e IL-10. Na hanseníase tuberculoide, a exacerbação da imunidade celular e a produção de citocinas pró-inflamatórias (IL1 e TNF-alfa) impedem a proliferação bacilar, mas podem se tornar lesivas ao organismo, causando lesões cutâneas e neurais, pela ausência de fatores reguladores. Na hanseníase virchowiana, a produção de substâncias pelo bacilo (ex.: PGL-1), no interior do macrófago, favorece seu escape à oxidação, pois estes possuem função supressora da atividade do macrófago e favorecem a sua disseminação. OBS: A hanseníase é uma doença de ALTA infectividade e BAIXA patogenicidade. CLASSIFICAÇÃO: Existem três classificações diferentes para hanseníase: a classificação de Madri, a de Ridley e Jopling e a operacional. A classificação de Madri (Congresso Internacional, 1953) é a mais utilizada no Brasil. Consideram-se dois polos estáveis e opostos (virchowiano e tuberculoide)) e dois grupos instáveis (indeterminado e dimorfo), que caminhariam para um dos polos, na evolução natural da doença. A classificação proposta por Ridley e Jopling (1962), divide a hanseníase em forma Tuberculoide (TT), casos borderline ou dimorfos que são subdivididos em Dimorfo-Tuberculoide (DT), Dimorfo-Dimorfo (DD) e DimorfoVirchowiano (DV), Virchowiano-Subpolar (VVs) e Virchowiano (VV). A classificação operacional da OMS se dá pelo número de lesões; quando até cinco lesões, é classificado como paucibacilar, e quando apresentar mais de cinco lesões, é classificado em multibacilar. CLÍNICA: Nesse momento, é importante que você pare por alguns segundos e faça uma comparação! Que outra doença, que muitos que estão lendo este material e residem no Brasil podem ter sido infectados, mas não adoeceram e que também é causada por uma micobactéria? Exatamente – a tuberculose! E é assim que a hanseníase deve ser lembrada – uma doença semelhante à tuberculose. Inclusive a própria transmissão se dá pela via respiratória. A diferença está basicamente no tipo de lugar que esta bactéria “gosta” de fazer lesão! Podemos marcar a hanseníase como uma doença de duplo acometimento: dermatoneurológica. E se tivermos um sinal marcante para destacarmos na hanseníase, este é, sem dúvidas, a perda de sensibilidade nas áreas afetadas pelas lesões (ou em outras áreas inervadas por nervos periféricos). Ela é mais frequente nos pacientes paucibacilares, nos quais a imunidade celular está exacerbada e, com isso, ao englobar o bacilo, acaba atingindo o nervo. Assim, os macrófagos são, na realidade, os que têm papel fundamental na neurite. É importante salientar, contudo, que, nos pacientes com o vírus HIV, o curso da hanseníase não se altera. Eventualmente, outros achados sistêmicos podem ocorrer em virtude do processo inflamatório associado, como uveíte ou glomerulonefrite, ou da própria extensão da doença em quadros de baixa resistência ao bacilo (linfonodomegalia e hepatoesplenomegalia). HANSENÍASE INDETERMINADA: Caracteriza-se pelo aparecimento de mancha(s) hipocrômica(s), anestésica e anidrótica, com bordas imprecisas. As lesões são únicas ou em pequeno número e podem se localizar em qualquer área da pele. Não há comprometimento de troncos nervosos nesta forma clínica, apenas ramúsculos nervosos cutâneos. A baciloscopia é negativa. A HI é considerada a primeira manifestação clínica da hanseníase; e, após período de tempo que varia de poucos meses até anos, dependendo da imunidade, ocorre evolução para cura ou para outra forma clínica, quer seja paucibacilar ou multibacilar. A sua histopatologia apresenta infiltrado perivascular e perineural. Apresenta como diagnóstico diferencial: pitiríase alba, pitiríase versicolor, vitiligo, pinta, leucodermia gutata, nevo acrômico, nevo anêmico, hipomelanose idiopática do tronco, entre outros. OBS: A principal diferença entre a lesão da hanseníase e de outras doenças dermatológicas é a alteração de sensibilidade. HANSENÍASE TUBERCULOIDE (HT): A HT surge a partir da HI não tratada, nos pacientes com boa resistência. No polo de resistência, a hanseníase tuberculoide caracteriza a forma clínica de contenção da multiplicação bacilar, dentro do espectro da doença. As lesões são bem delimitadas, em número reduzido, eritematosas, com perda total da sensibilidade e de distribuição assimétrica. Descrevem-se inicialmente máculas, que evoluem para lesões em placas com bordas papulosas, e áreas de pele eritematosas ou hipocrômicas. Seu crescimento centrífugo lento leva à atrofia no interior da lesão, que pode, ainda, assumir aspecto tricofitoide, com descamação das bordas. Observam-se, ainda, a variedade infantil e a forma neural pura. A primeira manifesta-se em crianças conviventes com portadores de formas bacilíferas e localiza-se principalmente na face. Pode se manifestar como nódulos, placas, lesões tricofitoides ou sarcoídicas. Portanto, é uma forma paucibacilar (a baciloscopia é tipicamente negativa), cujo foco foi um paciente multibacilar. A neurite normalmente se apresenta com um quadro agudo de dor intensa e edema, sem que haja, a princípio, comprometimento funcional do nervo. Contudo, a lesão se torna crônica e passa a evidenciar o dano, identificado por anidrose e ressecamento cutâneo; alopecia; alteração sensitiva (na ordem em que é perdida: térmica, dolorosa e tátil) e motora, cursando com dormência e perda da força muscular. Se não tratado, o acometimento neural pode provocar incapacidades e deformidades. Em alguns casos, as alterações de sensibilidade e motricidade podem aparecer sem os sintomas agudos de neurite (neurite silenciosa). Outra forma é a forma neural pura, quando não se encontram lesões cutâneas, mas encontramos espessamento do tronco nervoso e dano neural precoce e grave. Na hanseníase tuberculoide podemos ver emergindo da placa o espessamento neural, o qual denominamos de sinal da raquete. Os principais troncos nervosos periféricos acometidos na hanseníase são: 1. Face – trigêmio e facial: podem causar alterações na face, nos olhos e no nariz; 2. Braços – radial, ulnar e mediano: podem causar alterações nos braços e nas mãos; 3. Pernas – fibular e tibial: podem causar alterações nas pernas e nos pés. A forma tuberculoide (HT) e a forma indeterminada (HI) constituem as formas paucibacilares da hanseníase. Apesar da possibilidade de cura espontânea na HT, a orientação é de que os casos sejam tratados para reduzir o tempo de evolução da doença e o risco de dano neural. HANSENÍASE VIRCHOWIANA (HV): Esta é a forma multibacilar da hanseníase (também chamada de lepra ou hanseníase lepromatosa), reconhecida por corresponder ao polo de baixa resistência imunológica ao bacilo. Pode evoluir a partir da forma indeterminada ou se apresentar como tal desde o início. Caracteriza-se pela infiltração progressiva e difusa da pele, mucosas das vias aéreas superiores, olhos, testículos, nervos; podendo afetar, ainda, os linfonodos, o fígado e o baço (hepatoesplenomegalia). Na pele, descrevem-se máculas, pápulas, nódulos e tubérculo. A infiltração é difusa e mais acentuada na face e nos membros. A pele torna-se luzidia, xerótica, com aspecto apergaminhado e tonalidade semelhante ao cobre. Há rarefação dospelos nos membros, cílios e da cauda da sobrancelha (madarose). A infiltração da face e pavilhões auriculares, com madarose sem queda de cabelo, forma o quadro conhecido como fácies leonina. O comprometimento nervoso ocorre nos ramúsculos da pele, na inervação vascular e nos troncos nervosos. Estes últimos vão apresentar deficiências funcionais e sequelas tardias. São sinais precoces de HV a obstrução nasal, rinorreia serossanguinolenta e edema de membros inferiores. Um subtipo de HV, com infiltração difusa da pele, mas sem nódulos ou placas, é denominado lepromatose difusa ou “lepra bonita”. Outra variedade é chamada de histoide, na qual encontramos lesões nodulares que se assemelham com dermatofibromas (caracterizado por histiócitos fusiformes). O acometimento dos testículos pode levar à diminuição da produção de testosterona, ocorrendo aumento do FSH e LH com queda da libido e eventualmente ginecomastia. O acometimento da câmara anterior do olho resulta em glaucoma e formação de catarata. A insensibilidade da córnea pode levar ao trauma (triquíase) e infecção secundária. Na HV avançada pode ocorrer perfuração do septo nasal e desabamento nasal. A HV apresenta baciloscopia fortemente positiva (multibacilar) e representa, nos casos virgens de tratamento, importante foco infeccioso ou reservatório da doença. A histopatologia demonstra aglomerado de bacilos nas camadas profundas da derme (globias). Na realidade, o micro-organismo pode ser isolado de qualquer tecido ou órgão (fígado, baço, medula óssea, etc.) com exceção do pulmão e sistema nervoso central. HANSENÍASE DIMORFA (HD) OU BODERLINE (HB): Este grupo é marcado pela instabilidade imunológica, o que faz com que haja grande variação em suas manifestações clínicas, seja na pele, nos nervos, ou no comprometimento sistêmico. As lesões da pele revelam-se numerosas e a sua morfologia mescla aspectos de HV e HT, podendo haver predominância ora de um, ora de outro tipo. A infiltração assimétrica da face e dos pavilhões auriculares, bem como a presença de lesões no pescoço e nuca, é elemento sugestivo desta forma clínica. As lesões neurais são precoces, assimétricas e, com frequência, levam a incapacidades físicas. Dependendo da morfologia, número de lesões e simetria, a hanseníase dimorfa é subclassificada em: Borderline Tuberculoide (BT): placas ou manchas eritematosas, por vezes anulares, de maior extensão, distribuição assimétrica, pouco numerosas ou com lesões satélite. A baciloscopia é negativa ou discretamente positiva. Borderline Borderline (BB): lesões bizarras, semelhantes ao “queijo suíço” (“esburacadas”), também descritas como anulares ou foveolares, com limite interno nítido e limites externos imprecisos, com bordos de cor ferruginosa. As lesões são mais numerosas que a BT, mas de distribuição assimétrica. A baciloscopia geralmente é moderadamente positiva. Borderline Virchowiana (BV): múltiplas lesões elevadas eritematoinfiltradas, algumas de aspecto anular (FIGURAS 12). A baciloscopia é francamente positiva (tal como na hanseníase virchowiana). HANSENÍASE REACIONAL: Os surtos reacionais são definidos como episódios inflamatórios que se intercalam no curso crônico da hanseníase. Muitas vezes podem chamar mais atenção do que as próprias lesões primárias da hanseníase, pela riqueza de sinais e sintomas. Ao contrário da apresentação esperada para uma hanseníase, possuem evolução aguda. Os tipos de reação mais importantes são a reação reversa ou reação do tipo 1 e a reação do tipo 2 ou Eritema Nodoso da Hanseníase (ENH) - ver Tabela 2. As reações seguem-se a fatores desencadeantes, tais como: infecções intercorrentes, vacinação, gravidez e puerpério, medicamentos iodados, estresse físico e emocional. Os quadros reacionais, às vezes, antecedem o diagnóstico da hanseníase, surgem durante o tratamento ou após a alta. Reação tipo 1 (reversa): a reação do tipo 1 tende a surgir mais precocemente no tratamento, entre o segundo e o sexto mês, caracteristicamente na hanseníase dimorfa. É considerada reação mediada pela imunidade celular. Caracteriza-se pela exacerbação das lesões preexistentes, que se tornam edemaciadas, eritematosas, brilhantes, semelhante à erisipela; podem surgir novas lesões, embora pouco numerosas. Os sintomas sistêmicos variam (geralmente uma febre baixa). Surgem lesões novas à distância e as neurites mostram-se frequentes e graves, podendo ser a única manifestação clínica. Se não tratadas precocemente, deixam sequelas. As neurites podem ser silenciosas, ou seja, o dano funcional do nervo se instala sem quadro clínico de dor e espessamento do nervo. Os nervos mais comprometidos são os ulnares e medianos nos membros superiores, fibular comum e tibial posterior nos membros inferiores, e facial e grande auricular no segmento cefálico. Reação tipo 2 (eritema nodoso hansênico): observada nas formas multibacilares (virchowianas ou dimorfas), em geral, após seis meses de tratamento. O eritema nodoso hansênico é uma paniculite (inflamação da hipoderme) lobular (predomina nos lóbulos), acompanhado de vasculite. É uma síndrome desencadeada por depósito de imunocomplexos nos tecidos e vasos, mas a imunidade celular possui importância em etapas iniciais do processo. Há aumento de citocinas séricas, como o fator de necrose tumoral alfa e o interferon gama sem, contudo, haver mudança definitiva da condição imunológica do paciente. As manifestações clínicas incluem: Febre e linfadenopatia; Neurite – nervo ulnar é o mais comumente acometido; Uveíte; Orquite; Glomerulonefrite. Na pele, a lesão típica (eritema nodoso –) se caracteriza por lesões eritematosas, dolorosas, de tamanhos variados incluindo pápulas e nódulos localizados em qualquer região da pele. Os nódulos evoluem para ulceração, e é chamado de eritema nodoso necrotizante. O eritema poliforme também pode acompanhar a reação tipo 2. Em alguns casos, o quadro reacional evolui com neurite, orquite, epididimite, irite, iridociclite, artralgia ou artrite, linfadenopatia generalizada, proteinúria e dano hepático. Edema de membros inferiores, pré-tibialgia e febre acompanham esta reação. Às vezes, a febre alta e prolongada domina o quadro clínico. Leucocitose (incluindo reação leucemoide), com desvio para esquerda, anemia normocítica-normocrômica, VHS bastante elevado e proteína C- reativa aumentada são achados frequentes. Títulos altos de fator reumatoide e FAN podem ser encontrados, confundindo o diagnóstico com o das colagenoses. As reações do tipo 2 repetem- se e evoluem indefinidamente em surtos subentrantes. Fenômeno de Lucio: ocorre antes do tratamento em poucos pacientes com hanseníase virchowiana, especialmente naqueles com a forma “lepra bonita” ou lepra de Lucio. Lesões maculares equimóticas (necróticas) que se ulceram podem ocorrer em pequeno número ou por uma área extensa da pele, sendo observada mais comumente em extremidades inferiores. No caso de lesões generalizadas, o paciente pode comportar-se como um grande queimado, e a infecção secundária das lesões por Pseudomonas aeruginosa é uma complicação temida. A histopatologia demonstra necrose isquêmica da epiderme e derme superficial, parasitismo intenso de células endoteliais, proliferação de células endoteliais e formação de trombos em grandes vasos das porções profundas da derme. O tratamento consiste na poliquimioterapia, medidas de suporte, antibioticoterapia e transfusões de troca. Os glicocorticoides e a talidomida não são úteis. Ainda se discute se pode ou não ser considerada uma reação. DIAGNÓSTICO: Esta é uma etapa essencialmente clínica e epidemiológica, com base na história e condições de vida do paciente, além do exame derma-toneurológico. Tem-se como objetivo identificar lesões ou áreas de pele comalteração de sensibilidade e/ou comprometimento de nervos periféricos (sensitivo, motor e/ou autonômico). No exame neurológico, a identificação das lesões deve ser feita pelas seguintes etapas no exame físico: 1. Inspeção dos olhos, nariz, mãos e pés; 2. Palpação dos troncos nervosos periféricos; 3. Avaliação da mobilidade articular; 4. Avaliação da força muscular; e 5. Avaliação de sensibilidade nos olhos, membros superiores e membros inferiores. O exame dos nervos periféricos é fundamental, procurando-se deficit motores, sensitivos e espessamento dos troncos nervosos pela palpação. O nervo deve ser palpado com as polpas digitais do segundo e terceiro dedos, deslizando-os sobre a superfície óssea, acompanhando o trajeto do nervo, no sentido de cima para baixo. Deve-se verificar se há queixa de dor espontânea no trajeto do nervo; de choque ou de dor; se há espessamento do nervo palpado comparado com o nervo correspondente, no lado oposto; se há alteração na consistência do nervo (endurecimento, amolecimento); se há alteração na forma do nervo (abscessos e nódulos); se o nervo apresenta aderências. Os nervos comumente avaliados são: nos membros superiores, o nervo ulnar, o mediano e o radial; nos membros inferiores, o tibial posterior e o fibular comum; no segmento cefálico, o grande auricular e o nervo facial que é motor e não é palpável. Sequelas bem definidas podem ser encontradas já no período do diagnóstico, tais como: paralisia facial do tipo periférico unilateral ou bilateral, ou paralisia do ramo orbicular do nervo zigomático, provocando o lagoftalmo, epífora (escoamento de lágrimas devido à obstrução do canal lacrimal) e exposição da córnea; mão em garra (garra do quarto e quinto quirodáctilos ou garra completa); mão caída; pé caído, garra de artelhos, que pode ser acompanhada do mal perfurante plantar. Para avaliação da sensibilidade, devemos explicar o teste que será realizado e apresentá- lo numa área da pele com sensibilidade normal. Em seguida, a sensibilidade (térmica, dolorosa e tátil) deve ser testada com o paciente de olhos fechados. Examina-se a sensibilidade térmica através de dois tubos de ensaio, um aquecido e outro frio. Pede-se para o paciente não olhar o exame e encosta o tubo em uma área sadia e outra com lesão, perguntando se ele acha que o tubo está quente ou frio. Para a sensibilidade dolorosa utilizamos uma agulha e tocamos suavemente na pele do paciente, o suficiente para sentir a sensação álgica. A sensibilidade tátil é verificada através de um leve toque, utilizando um tampão de algodão, cuja extremidade foi enrolada de forma a ficar afunilada. Isso permite exercer sobre a pele uma pressão muito leve. (Em caso de falta de algodão, pode-se utilizar o toque muito leve de uma pena de ave). Não se deve mexer o algodão nem fazê-lo escorregar sobre a pele: é mais fácil perceber a sensação de uma coisa que está em movimento. Dessa forma pode-se deixar de notar uma área onde a sensibilidade está diminuída, mas ainda não completamente perdida. Dá-se o nome de anestesia à perda total de sensibilidade e de hipoestesia à sua diminuição. Grosseiramente, para analisar a sensibilidade protetora, alguns textos sugerem a testagem em diferentes pontos com a caneta esferográfica de ponta grossa perpendicularmente à pele. No entanto, o melhor é que sejam utilizados os monofilamentos de Semmes-Weinstein (monofilamentosde 0,05 g, 0,2 g, 2 g, 4 g, 10 g e 300 g) – aqueles mesmos do diabetes!!! Para os olhos, o fio dental (sem sabor) é o indicado para avaliar a sensibilidade da córnea. Considera-se como grau 1 de incapacidade a ausência de resposta ao filamento igual ou mais pesado que o de 2 g (cor violeta). A baciloscopia é o exame complementar mais útil no diagnóstico; é de fácil execução e baixo custo. Deve ser feito com a linfa obtida em pelo menos quatro locais (lóbulos das orelhas direita e esquerda, cotovelos direito e esquerdo) e em lesão cutânea suspeita. A coloração é feita pelo método de Ziehl-Neelsen e apresenta-se o resultado sob a forma de Índice Baciloscópico (IB), numa escala que vai de 0 a 6+. A baciloscopia mostra-se negativa (IB = 0) nas formas tuberculoide e indeterminada, fortemente positiva na forma virchowiana e revela resultado variável na forma dimorfa. Considera-se um caso de hanseníase a pessoa que apresenta um ou mais dos seguintes sinais cardinais: 1. Lesão(ões) e/ou área(s) da pele com alteração da sensibilidade térmica e/ou dolorosa e/ou tátil; 2. Comprometimento do nervo periférico, geralmente espessamento, associado a alterações sensitivas e/ou motoras e/ou autonômicas; e 3. Presença de bacilos M. leprae, confirmada na baciloscopia de esfregaço intradérmico ou na biópsia de pele. Em caso de dúvida, pode-se lançar mão de provas complementares, que são o teste da histamina (ausência do eritema secundário) e da pilocarpina (anidrose). O teste de histamina é feito colocando-se uma gota de solução de cloridrato de histamina a 1:1.000 sob a pele. Com uma agulha fina faz- se uma escoriação embaixo do líquido, de modo que não haja sangramento. O esperado normalmente é que ocorra a tríplice reação de Lewis: (1) eritema inicial no local da picada, no máximo com 10 mm, 20 a 40 segundos após a picada; (2) eritema pseudopódico com 30 a 50 mm após aproximadamente um minuto, devido à vasodilatação arteriolar por ato reflexo axônico; e (3) seropápula, dois a três minutos após a escarificação. É um exame útil para auxiliar no diagnóstico de manchas hipocrômicas hansenianas iniciais, pois nestas falta o eritema pseudopódico. Não se realiza este exame na raça negra devido à dificuldade de leitura. O teste é classificado em completo e incompleto. No teste da pilocarpina utilizamos injeção intradérmica de cloridrato de pilocarpina a 1%. Normalmente ocorre sudorese na área picada dois minutos após. Nas lesões hansênicas ocorre anidrose. Os dois testes acima devem ser feitos em áreas sadias e doentes, preferencialmente simétricas. A reação de Mitsuda é um teste de aplicação intradérmica cuja leitura é tardia (28 dias). Utiliza-se na classificação da doença e na definição do prognóstico. Não possui valor para o diagnóstico, pois de um modo geral é encontrado de forma positiva na população sã, que já teve contato com o bacilo, porém não desenvolveu a doença por apresentar boa imunidade. O teste consiste na aplicação intradérmica – na superfície extensora do antebraço direito – de 0,1 ml de um preparado que contém 40 a 60 milhões de bacilos mortos por mililitro. Após cerca de 48 a 72 horas da injeção, observa-se uma reação localizada (semelhante à reação tuberculínica), denominada reação de Fernandez, de significado incerto. Depois de 28 a 30 dias pode ocorrer uma segunda reação tardia à mitsudina ou lepromina: é a reação de Mitsuda. Esta consiste na presença de uma pápula ou nódulo, que pode ou não ulcerar. Segundo a Organização Mundial de Saúde, reações até 5 mm chamamos de mitsuda negativo, e acima de 5 mm chamamos de mitsuda positivo. Na lepra de Lucio existe a leitura da chamada reação de Medina, seis horas após a inoculação intradérmica da lepromina. Os casos com suspeita de comprometimento neural sem lesão cutânea (suspeita de hanseníase neural pura) e aqueles que apresentam área com alteração sensitiva e/ou autonômica duvidosa e sem lesão cutânea evidente deverão ser encaminhados para unidades de saúde de maior complexidade, para confirmação diagnóstica. Nessas unidades, serão submetidos mais uma vez a um exame dermatoneurológico criterioso, bem como à coleta de material para exames laboratoriais (baciloscopia ou histopatologia cutânea ou de nervo periférico sensitivo), exames eletrofisiológicos e/ou outros mais complexos. Em crianças, diante da dificuldade de aplicação e interpretação dos testes de sensibilidade, recomenda-se utilizar o Protocolo Complementarde Investigação Diagnóstica de Casos de Hanseníase em Menores de 15 anos. O antígeno glicolípide fenólico-1 (PGL-1) é específico do M. leprae e leva à formação de anticorpos das classes IgG e IgM. Os títulos de IgM correlacionam-se com a forma clínica e a atividade da doença. Níveis aumentados do anti-PGL-1 têm sido descritos na hanseníase virchowiana e tendem a decrescer com o tratamento específico. Por outro lado, na hanseníase tuberculoide não há resposta desses anticorpos. A identificação do Mycobacterium leprae pela reação em cadeia da polimerase (PCR), que serve para detectar quantidades mínimas de micobactérias, tem sido estudada em centros de pesquisa, mas não é realizada rotineiramente. TRATAMENTO: Toda pessoa afetada pela hanseníase deverá ter fácil acesso ao diagnóstico e ao tratamento gratuito com a poliquimioterapia (PQT). E este tratamento vem apresentando um sucesso contínuo; nem a questão da recidiva, nem a resistência a drogas têm sido problemas significativos e os esquemas são bem tolerados. O risco potencial de surgimento e transmissão de cepas resistentes à rifampicina deve ser contido assegurando a maior regularidade do tratamento e a rigorosa adesão aos esquemas da PQT. Além disso, é importante estabelecer uma rede de vigilância mundial para monitorar a resistência a drogas na hanseníase, e promover pesquisas sobre esquemas de tratamento mais eficazes e breves contra a doença. Procedimentos claros são fornecidos para tratar pacientes que utilizaram a PQT de forma irregular. Para o Ministério da Saúde, o êxito do tratamento está diretamente ligado à compreensão e à assimilação do paciente sobre a sua importância, tarefa que muitas vezes só é conseguida após exaustiva orientação quanto à tomada correta do medicamento, além é claro do acolhimento durante as consultas, principalmente no primeiro atendimento. A definição do esquema antimicrobiano para hanseníase depende da classificação operacional do caso, baseada no número de lesões cutâneas (Tabela 3): Paucibacilares (PB) – casos com até cinco lesões de pele; Multibacilares (MB) – casos com mais de cinco lesões de pele (seis ou mais). A baciloscopia positiva classifica o caso como multibacilar, independentemente do número de lesões. No Brasil, a proporção de casos novos multibacilares foi de 78,4% em 2019, mostrando um aumento de 32,6% em relação a 2010. As drogas são administradas por via oral. A PQT é distribuída em blisteres convenientes com tratamento para quatro semanas. Existem blísteres para crianças, com as mesmas drogas em dosagens menores. Nos esquemas padronizados pela OMS e MS, são utilizadas a rifampicina (única bactericida dos esquemaspadrão), dapsona e clofazimina. O fornecimento da medicação é gratuito em todo o país. Até 2020, o esquema utilizado para PB era composto de duas drogas (rifampicina e dapsona) e para MB, de três drogas (rifampicina, dapsona e clofazimina). No entanto, diante da baixa disponibilidade da baciloscopia, da insuficiente acurácia dos profissionais de saúde no diagnóstico e classificação da hanseníase, além da alta rotatividade dos profissionais, é fato reconhecido que erros de diagnóstico e classificação podem ocorrer. Isso acaba levando pacientes MB a serem erroneamente tratados como PB. Ao mesmo tempo, estudos como o UMDT-CT-BR, que compararam a utilização do mesmo esquema terapêutico independentemente da classificação em PB e MB, mostraram efetividade similar dos dois esquemas, sem diferença estatisticamente significante (inclusive para os MB com altas cargas bacilares). Além disso, o Brasil já adotava a clofazimina como droga de escolha no lugar da dapsona, quando suspensa, com dose mensal supervisionada. Tab. 3: Classificação operacional da hanseníase e relação com formas clínicas e baciloscopia. Assim, a unificação do tratamento da hanseníase utilizando as três drogas, passou a ser recomendada, com a adição da clofazimina ao tratamento de paciente PB. Inicialmente, a recomendação foi adiada em decorrência de desabastecimento de medicamentos ocasionados pela pandemia de Covid-19. Contudo, o Ministério da Saúde lançou uma Nota Técnica mais recente implantando, de fato, o esquema a partir de julho de 2021. No documento, a associação dos fármacos rifampicina + dapsona + clofazimina, na apresentação de blísteres, para tratamento de hanseníase, passa a ser denominada “Poliquimioterapia Única – PQT-U”. Assim, a recomendação é: 1. Todos os pacientes diagnosticados com hanseníase PB devem utilizar o PQT-U, por seis meses (cartela adulto ou criança) com os mesmos critérios de alta por cura vigentes; 2. Todos os pacientes diagnosticados com hanseníase MB devem utilizar o PQT-U, por doze meses (cartela adulto ou criança) com os mesmos critérios de alta por cura vigentes. Nos casos em que não seja possível utilizar algum medicamento do esquema-padrão, a diretriz em hanseníase prevê esquemas substitutivos de tratamento combinados com os medicamentos ofloxacino 400 mg e/ou minociclina 100 mg. Nos casos de crianças abaixo de 30 kg, as doses de rifampicina, clofazimina e dapsona deverão ser ajustadas conforme peso corporal (rifampicina: 10-20 mg/kg; clofazimina: 1 mg/kg diariamente e 5 mg/kg mensalmente; dapsona: 1,5 mg/kg diariamente e mensalmente). Os critérios de falta, abandono e de encerramento do tratamento na alta por cura, estabelecidos nas diretrizes para vigilância, atenção e eliminação da hanseníase como problema de saúde pública permanecem inalterados. Tab. 4 Esquemas terapêuticos utilizados na hanseníase Duração: 6 a 12 doses. Seguimento dos casos: comparecimento mensal para dose supervisionada. Critério de alta: na forma PB, o tratamento estará concluído com seis (6) doses supervisionadas em até nove meses; na 6ª dose, os pacientes deverão ser submetidos ao exame dermatológico, à avaliação neurológica simplificada e do grau de incapacidade física, antes de receber alta por cura. Na forma MB, o tratamento estará concluído com doze (12) doses supervisionadas em até 18 meses. Na 12ª dose, os pacientes deverão ser submetidos ao exame dermatológico, à avaliação neurológica simplificada e do grau de incapacidade física, antes de receberem alta por cura. Os pacientes MB que, excepcionalmente, não mostrarem melhora clínica, apresentando lesões ativas da doença ao final do tratamento preconizado de 12 doses (cartelas), deverão ser encaminhados para avaliação em serviço de referência (municipal, regional, estadual ou nacional), para se verificar a conduta mais adequada para o caso. SITUAÇÕES ESPECIAIS: HANSENÍASE E INFECÇÃO POR HIV/AIDS: Deve ser mantido o esquema de PQT, de acordo com a classificação operacional. A hanseníase não se modifica basicamente pela coinfecção com o vírus HIV; entretanto existe a possibilidade de maior gravidade nas reações hansênicas. HANSENÍASE E TUBERCULOSE: Deve ser mantido o esquema terapêutico apropriado para a tuberculose (lembrando que, nesse caso, a dose de rifampicina, de 600 mg, será administrada diariamente), acrescido dos medicamentos específicos para a hanseníase, nas doses e tempos previstos no esquema-padrão de PQT. HANSENÍASE E GRAVIDEZ: As alterações hormonais da gravidez causam diminuição da imunidade celular, fundamental na defesa contra o Mycobacterium leprae. Portanto, é comum que os primeiros sinais de hanseníase, em uma pessoa já infectada, apareçam durante a gravidez e puerpério, quando também podem ocorrer os estados reacionais e os episódios de recidivas. A gestação nas mulheres portadoras de hanseníase tende a apresentar poucas complicações, exceto pela anemia, comum em doenças crônicas. A gravidez e o aleitamento materno não contraindicam a administração dos esquemas de tratamento poliquimioterápicos da hanseníase que são seguros tanto para a mãe como para a criança. Contudo, mulheres com diagnóstico de hanseníase e não grávidas devem receberaconselhamento para planejar a gestação após a finalização do tratamento de hanseníase. Algumas drogas são excretadas pelo leite, mas não causam efeitos adversos. Os recém-nascidos, porém, podem apresentar a pele hiperpigmentada pela clofazimina, ocorrendo a regressão gradual da pigmentação, após a parada da PQT. Em mulheres na idade reprodutiva, deve-se atentar ao fato de que a rifampicina pode interagir com anticoncepcionais orais, diminuindo sua ação. EFEITOS ADVERSOS DOS MEDICAMENTOS: DAPSONA (DDS): Nas dosagens utilizadas, o medicamento é muito seguro e os efeitos adversos são raros. Os doentes com anterior alergia às sulfonas não devem receber dapsona. Para doentes com anemia grave, o nível de hemoglobina deve ser elevado, mediante tratamento apropriado, antes de se iniciar a terapêutica com dapsona. Efeitos colaterais e medidas a serem tomadas: 1. Perturbações no estômago – tomar a DDS após as refeições; 2. Insônia – tomar a DDS de manhã; 3. Reações da pele (Stevens-Johnson) – parar com a DDS; 4. Urticária – se a alergia for grave, enviar o doente ao hospital e tratar com prednisolona; 5. Erupção fixa – se a alergia for leve, tratar com anti-histamínicos; após uma semana, pode-se reiniciar a DDS com doses baixas: 1/8 de comprimido (= 12,5 mg), observar o doente por um dia; 6. Dermatite (raramente exfoliativa) – parar com a DDS por uma semana e reiniciar com 50 mg (= ½ comprimido), controlando o doente semanalmente; 7. Metaemoglobinemia (o doente aparece com a pele ligeiramente azulada) – parar com a DDS por uma semana e reiniciar com 50 mg (= ½ comprimido), controlando o doente semanalmente; 8. Anemia – pode ter outras causas, que devem ser procuradas (parasitoses intestinais, dieta inadequada, malária). Se for grave, suspender a DDS, administrar sulfato ferroso e controlar a Hemoglobina (Hb); Quando houver melhoria (Hb > 10), reiniciar DDS controlando semanalmente a Hb; 9. Agranulocitose (poucas células brancas). Frequentemente associada com úlceras da garganta e febre alta – suspender DDS e enviar o doente ao hospital. A DDS não pode ser utilizada mais (o supervisor provavelmente pode avaliar a possibilidade de utilizar clofazimina); 10. Hepatite (escleróticas e pele amarelas) – suspender a DDS (e a rifampicina) e enviar ao hospital. CLOFAZIMINA (LAMPRENE ®): A clofazimina é geralmente bem tolerada e praticamente não tóxica nas dosagens utilizadas. A sua eficácia é maior quando administrada diariamente. Atenção: quando houver dor abdominal e/ou diarreia crônica intermitente, deve-se evitar o uso da clofazimina. Efeitos colaterais: 1. Coloração escura, avermelhada da pele, das palmas das mãos, das plantas dos pés, da esclerótica e das urinas (o sol agrava estes efeitos). Coloração escura das lesões da pele. Não é um problema sério. Após terminar o tratamento, a cor regressa lentamente ao normal (em alguns meses); 2. Secura da pele especialmente na face anterior das coxas. Neste caso devemos untar com óleo a pele seca e continuar com a clofazimina. RIFAMPICINA: Não estão assinalados efeitos adversos importantes na administração mensal, com exclusão da síndrome semigripe. Os doentes com insuficiência hepática ou renal grave não devem tomar rifampicina. A rifampicina funciona melhor quando é tomada com estômago vazio (se possível, não comer durante as seis horas antes da tomada da rifampicina e durante a meia hora depois de ter tomado). Efeitos colaterais: 1. Urina avermelhada (no dia da tomada supervisionada, durante algumas horas); lágrimas e outras secreções avermelhadas. Não é efeito negativo e é devido à eliminação do medicamento através da urina. Explicar previamente ao doente e continuar com o tratamento; 2. Prurido e pele avermelhada, particularmente na face e couro cabeludo, com lacrimejamento e eritema dos olhos. É um efeito transitório e leve: não interromper o tratamento; 3. Perturbações no estômago (dor, náusea, às vezes vômito, raramente diarreia; anorexia). Se o incômodo for grave, referir o doente ao hospital para consulta médica. TRATAMENTO DAS FORMAS RACIONAIS: O diagnóstico correto e o tratamento adequado e precoce das reações são de grande valor para a prevenção de incapacidades, principalmente para evitar o dano neural. A busca de fatores desencadeantes deve ser rotineira, especialmente para infecções intercorrentes. Deve-se manter a poliquimioterapia, se o doente ainda estiver em tratamento específico; imobilizar o membro afetado com tala gessada, em caso de neurite associada; monitorizar a função neural sensitiva, e motora, e programar e realizar ações de prevenção de incapacidades. Neurites refratárias aos corticoides poderão necessitar de tratamento cirúrgico. Para a reação do tipo 1 ou reversa, recomenda-se iniciar prednisona na dose de 1-1,5 mg/kg/dia (excepcionalmente de 1,5-2 mg/kg/dia), conforme avaliação clínica, reduzindo a dose, conforme resposta terapêutica. Para a reação do tipo 2 ou eritema nodoso hansênico, a talidomida é a droga de escolha na dose de 100 a 400 mg/dia, conforme a intensidade do quadro. A corticoterapia pode ser indicada em determinadas situações: - Contraindicações à talidomida; - Mulheres grávidas ou sob risco de engravidar; - Presença de lesões oculares reacionais, com manifestações de hiperemia conjuntival com ou sem dor, embaçamento visual, acompanhadas ou não de manifestações cutâneas; - Edema inflamatório de mãos e pés (mãos e pés reacionais); - Glomerulonefrite; orquiepididimite; artrite; vasculites; eritema nodoso necrosante; - Reações de tipo eritema polimorfo-símile e síndrome de Sweet-símile. Nos casos de reação crônica ou subintrante reação intermitente (surtos muito frequentes), que normalmente recrudescem tão logo a dose seja reduzida ou retirada, recomenda-se avaliar a coexistência de fatores desencadeantes (parasitose intestinal, infecções concomitantes, cárie dentária, estresse emocional). Além disso, após excluir atividade de doença (recidiva), utilizar a clofazimina, associada ao corticosteroide ou talidomida (clofazimina em dose inicial de 300 mg/dia por 30 dias, 200 mg/dia por mais 30 dias e 100 mg/dia por mais 30 dias). Outra opção na reação tipo 2 é a pentoxifilina, após alimentação, na dose de 1.200 mg/dia, dividida em doses de 400 mg de 8 em 8 horas, associada ou não ao corticoide. Ela pode ser uma opção para os casos em que a talidomida for contraindicada, como mulheres grávidas e sob risco de engravidar; pode beneficiar os quadros com predomínio de vasculites. Deve-se reduzir a dose conforme resposta terapêutica, após pelo menos 30 dias, observando a regressão dos sinais e sintomas gerais e dermatoneurológicos. A ocorrência de reações hansênicas não contraindica o início da PQT, não implica sua interrupção e não é indicação de reinício de PQT se o paciente já houver concluído seu tratamento. RECIDIVA: No momento da alta, mesmo com tudo tendo sido feito adequadamente, as lesões cutâneas nem sempre já terão desaparecido por completo. Ainda, a alteração da função neural pode persistir, indefinidamente, se o dano neural ocorrer em mais de 1/3 do nervo. A baciloscopia pode necessitar de um tempo maior para negativar, uma vez que o índice baciloscópico diminui em média 0,6 a 1,0 log/ano. E as reações hansênicas podem ocorrer em até 30% dos casos! Ou seja, ao final do tratamento o paciente deve continuar sendo avaliado e é muito importante diferenciar um deficit residual ou estado reacional de um caso de recidiva (ver Tabela 5). No caso de estados reacionais, por exemplo, a pessoa deverá receber tratamento específico, sem reiniciar, porém, o tratamento PQT/OMS. No caso de suspeita de recidiva, o paciente deverá ser encaminhado para um centro de referência para confirmação e reinício do tratamento. Por definição, a recidiva é a situação em que o paciente completa o tratamento (poliquimioterapia) com sucesso e,depois, desenvolve novos sinais e sintomas da doença. Não se pode falar de recidiva para os doentes que anteriormente tenham sido tratados somente com monoterapia ou para aqueles que não tenham completado o tratamento (abandonos) e que voltem com novos sinais de atividade da doença. Trata-se de um evento raro naqueles tratados regularmente, com os esquemas poliquimioterápicos preconizados e, geralmente, ocorre cinco anos após a alta. Entre as causas relacionadas à recidiva, temos: tratamentos irregulares (principal!); persistência bacilar (bacilos latentes não são afetados pelos medicamentos); resistência bacilar e reinfecção. De acordo com o MS, os critérios clínicos para o diagnóstico de recidiva, segundo a classificação operacional, são: TRATAMENTO CIRURGICO DAS NEURITES: A dor neuropática (neuralgia) pode ocorrer durante o processo inflamatório, associada ou não à compressão neural, ou por sequela da neurite. Pacientes com dores persistentes, com quadro sensitivo e motor normal ou sem piora, devem ser encaminhados aos centros de referência para o tratamento adequado. Poderão ser utilizados antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina), fenotiazínicos (clorpromazina, levomepromazina) ou anticonvulsivantes (carbamazepina, oxicarbamazepina, gabapentina, topiramato). Para pacientes com quadro neurológico de difícil controle, as unidades de referência poderão também adotar protocolo clínico de pulsoterapia com metilprednisolona endovenosa, na dose de 1 g por dia, até melhora acentuada dos sinais e sintomas. A terapia cirúrgica é uma modalidade terapêutica de exceção, tendo como indicações os quadros refratários à abordagem clínica: Abscesso de nervo; Neurite que não responde ao tratamento clínico padronizado, em quatro semanas; Neurites subintrantes; Neurite do nervo tibial após avaliação, por ser, geralmente, silenciosa e, nem sempre, responder bem ao corticoide. A cirurgia pode auxiliar na prevenção da ocorrência de úlceras plantares.