Prévia do material em texto
A hanseníase é uma doença crônica, infectocontagiosa, cujo agente etiológico é o Mycobacterium leprae, um bacilo álcool-ácido resistente, fracamente gram- positivo, que infecta os nervos periféricos e, mais especificamente, as células de Schwann. A doença acomete principalmente os nervos superficiais da pele e troncos nervosos periféricos (localizados na face, pescoço, terço médio do braço e abaixo do cotovelo e dos joelhos), mas também pode afetar os olhos e órgãos internos (mucosas, testículos, ossos, baço, fígado, etc.). Se não tratada na forma inicial, a doença quase sempre evolui, torna-se transmissível e pode atingir pessoas de qualquer sexo ou idade, inclusive crianças e idosos. Essa evolução ocorre, em geral, de forma lenta e progressiva, podendo levar a incapacidades físicas. Esta moléstia também é denominada “lepra”. Muitos países, incluindo-se o Brasil, adotaram a terminologia “moléstia de Hansen” (MH), ou “hanseníase”, pois o termo antigo “lepra” é altamente estigmatizante tanto para o doente, quanto para sua família e sociedade. A palavra “lepra”, utilizada na Septuaginta, tradução grega da Bíblia hebraica, corresponde à “tsaraáth” e significa desonra, vergonha desgraça, que desagradava coisas, animais e pessoas, condenando-as à destruição ou expulsão para “fora do acampamento ou dos muros das cidades”. Pelas tradições transmitidas verbalmente, a moléstia já era referida 6.000 anos antes da nossa era. As descrições do Levítico na Bíblia referem-na desde 1400 a.C. Os chineses mencionam a MH a partir de 1100 a.C.; e também descreveram: Lai-Ping = hanseníase neural; e, Lai-Fon = hanseníase virchowiana. Epidemiologia Nos anos 1990 a OMS estabeleceu o objetivo de eliminar a hanseníase como um problema de saúde pública até o ano 2000. Essa eliminação foi definida como uma redução em prevalência para <1 caso por 10.000 habitantes em todos os países endêmicos. Entre 1985 e 2011 o número registrado de casos caiu de 5,4 milhões para 219.075. A prevalência caiu de 21,1 por 10.000 para 0,37 (excluindo a europa). Em 2019 a OMS reportou 202.256 novos casos globalmente, sendo 14.893 em menores de 14 anos. Os 5 países com maior número de novos casos são, em ordem: Índia, Brasil, Indonésia, Nepal e Bangladesh. Brasil 2015 – 2019 137.385 casos novos; 75.987 do sexo masculino (55,3%). Observou-se predominância desse sexo na maioria das faixas etárias e anos da avaliação, com maior frequência entre 50 e 59 anos, totalizando 26.156 casos novos. Houve redução nas taxas de detecção para ambos os sexos e todas as faixas etárias entre 2010 e 2019. Cor: 58,7% pardos, 24,3% brancos. No sul e sudeste se encontra uma maior proporção na população branca (69,9% e 42,1%). Escolaridade: Fundamental incompleto 42,2%, Médio completo e superior incompleto 14,5%. Em 17,7% dos casos o cadastro não consta a escolaridade. Novos casos em 2018 • 1º: Maranhão • 2º: Pará • 20º: Sergipe Novos casos em 2019 23.612, sendo 78,2% multibacilares. • 1º MT com 3.731 • 2º MA • 3º PA • 19º SE com 283. Novos casos em 2020 13.807, sendo 672 em menores de 15 anos. Do total de casos novos, 79,5% foram classificados como multibacilares. Os números foram afetados pela pandemia do COVID-19. • 1º MT com 1.853 • 2º MA com 1.565 • 16º SE com 223. Dermatologia: hanseníase Igor Mecenas Fatores de Risco • Contato próximo • Tipo de hanseníase do paciente índice (multi/ virchowiano maior que pauci/tuberculoide) • Exposição a tatus: Nos EUA o M. leprae é enzoótico do tatu de nove bandas (Dasypus novemcinctus) • Idade: Bimodal com picos entre 5-15 anos e após os 30 anos • Genética: Genes de regulação da imunidade inata. • Imunossupressão: transplante de órgão sólido, quimioterapia, HIV ou uso de imunobiológicos para condições reumatológicas Etiologia Em 1874, Gerard H. Armauer Hansen descobriu que era causada por uma micobactéria. E, pela primeira vez, descreve-se a moléstia humana causada por micobactéria. E assim, o M. leprae também é denominado bacilo de Hansen (BH). Admite-se ainda hoje que o reservatório natural do BH seja o homem. Embora existam descrições do bacilo em animais silvestres (tatus, macacos) naturalmente infectados em musgos nas Costas da Noruega etc. A morfologia do BH é a de bastonete reto ou levemente encurvado, com 1 a 8 µm de comprimento por 0,2 a 0,4 µm de largura. Nas preparações para exame bacterioscópico ao microscópio comum, os BH podem ser vistos isolados, agrupados ou em agrupamentos compactos, chamados globias em que os bacilos estão fortemente unidos por material gelatinoso e dispostos de modo semelhante a cigarros colocados paralelamente em um maço. É a única bactéria que apresenta esse tipo de disposição. Geralmente, o bacilo é gram-positivo e corado pelo método Zielh-Neelsen, é álcool-acidorresistente (BAAR); sensível à peridina e tem atividade DOPA oxidase+. Pelo método de Ziehl-Neelsen, os bacilos viáveis se coram uniformemente em vermelho. A cápsula é constituída de dois lipídeos, o dimicocerosato de ftiocerol e o glicolipídeo fenólico (PGL-1), que contém um grupamento trissacarídico específico. Na parede bacteriana, há ácidos micólicos, arabinogalactam e peptidoglicano, também existentes em outras microbactérias. O glicolipídeo fenólico é específico do M. leprae. No citoplasma há vários constituintes, entre eles uma enzima difeniloxidase específica e capaz de oxidar o isômero D da DOPA. Fisiopatologia A hanseníase é transmitida por meio de contato próximo e prolongado de uma pessoa suscetível (com maior probabilidade de adoecer) com um doente com hanseníase que não está sendo tratado. Normalmente, a fonte da doença é um parente próximo que não sabe que está doente, como avós, pais, irmãos, cônjuges, etc. A bactéria é transmitida pelas vias respiratórias (pelo ar), e não pelos objetos utilizados pelo paciente. Estima-se que a maioria da população possua defesa natural (imunidade) contra o M. leprae. Portanto, a maior parte das pessoas que entrarem em contato com o bacilo não adoecerão. É sabido que a susceptibilidade ao M. leprae possui influência genética. Assim, familiares de pessoas com hanseníase possuem maior chance de adoecer. O BH é a única micobactéria com capacidade ou habilidade para invadir o SNP. Ao selecionar a célula de Schwann como nicho preferido, a M. leprae adquiriu vantagem significativa de sobrevivência: na célula de Schwann, o bacilo permanece protegido dos mecanismos de defesa do hospedeiro; como a célula de Schwann não tem capacidade fagocítica profissional, ela é incapaz de destruir patógenos; assim, permite ao bacilo multiplicar-se continuamente; e ainda, a barreira sanguínea do nervo limita o acesso de vários medicamentos na célula de Schwann, habilitando-a, irrestritamente, para a multiplicação BH. Essas “vantagens” tornam a célula de Schwann a hospedeira ideal, na qual o bacilo pode persistir no SNP e desencadear a lesão neurológica. É importante notar que o acometimento neural ocorre em todas as formas e grupos da MH (em especial, de forma tardia), independentemente do estado imunológico do doente. A invasão da célula de Schwann e o consequente dano neural determinam perda sensitiva e, mais tarde, lesões motoras, responsáveis pelas deformidades e incapacidades. É possível que o bacilo seja levado para a célula de Schwann pelos macrófagos. Outra possibilidade é que ele possa ser transportado para a célula neural via capilares intraneurais. O M. leprae, embora sem habilidade locomotora, tem competência para atravessar o endotélio e tecido conectivo e, por meio da lâmina basal, invadir a célula de Schwann, in vivo. Recentemente, foi demonstrado que o simples contato do M. leprae na unidade celular- axonal de Schwann é suficiente para que ele seja absorvido. Os lipídeos do BH são as chaves para a entrada na célula de Schwann. Recentemente, demonstrou-se que o glicolipídeofenólico (PGL-1) do M. leprae é a chave para entrar na célula de Schwann, unindo-se ao receptor alfadestroglicana e laminina α-2 da membrana basal. Na parede de todas as micobactérias, existem ácidos micólicos, lipídeos, arabinomananas, LAM etc. O PGL-1 existente unicamente no BH. Por isso, ele é a única micobactéria neurotrópica. A célula de Schwann também pode ser fonte primária da infecção pelo M. leprae, permitindo contínua liberação de bacilos na circulação e a subsequente disseminação bacteriana no SNP e outras partes do corpo. Esses eventos podem permitir a persistência da infecção ou recidiva observada nos doentes multibacilares. A imunidade celular específica contra o BH (FN de Rotberg) é hereditária e transmitida por um par de genes autossômicos, transmitidos em dominância parcial. Teoria da Polaridade de Rabello (1938) É baseada no trabalho de Rotberg A. sobre imunidade natural e sua correlação com a patogenia, epidemiologia, denominado “Fator N”, 1937; assim, Rabello classificou os doentes em dois polos extremos; de um lado, 1) o tipo “tuberculoide polar”, de maior resistência ao BH; paucibacilar; no outro extremo, 2) o tipo “virchowiano polar”, de anergia ao bacilo; multibacilar; e, entre os dois polos, 3) o grupo dimorfo, subdividido em pauci ou multibacilar. Quando o bacilo de Hansen penetra no organismo humano, verifica-se que a infecção pode evoluir de várias maneiras: O menor número de doentes (30%) com MHI evolui com manifestações espectrais: Tipo tuberculoide polar (TTp): aqui o doente depois de organizar granuloma tuberculoide no nervo e/ou na pele, estimulado pelos bacilos de Hansen, expressa seu fator genético, natural, de defesa celular e sua resposta ao antígeno de Mitsuda torna-se 3+ ulcerada. Nessa forma, haverá elaboração de boa resposta imune celular em que as células CD4 são numerosas e dispõem-se junto aos macrófagos na área central, enquanto na periferia estão localizadas as células CD8. Não ocorre multiplicação dos bacilos que, na grande maioria, serão eliminados. Surgirá granuloma tuberculoide e a pesquisa anti-PGL-1 terá títulos baixos. Grupo tuberculoide subpolar ou dimorfo tuberculoide ou, para o grupo dimorfo-dimorfo, dimorfo virchowiano ou virchowiano subpolar, conforme as características imunológicas do indivíduo e a carga bacilar recebida na infecção: a reação de Mitsuda é negativa, mas pode ser temporariamente, pois os doentes incluídos até nesse grupo nasceram com fator natural de Rotberg; quando a carga bacilar diminui, eles podem organizar granuloma tuberculoide e, então, passam a reagir positivamente ao antígeno de Mitsuda. Tipo virchowiano polar (VVp): se o doente não tiver resistência e pertencer à margem Hansen anérgica de Rotberg, a reação de Mitsuda sempre será negativa e os bacilos se multiplicarão livremente nos macrófagos de todos os tecidos exceto no SNC, caracterizando a forma grave e contagiante da moléstia, hanseníase virchowiana polar. Classificação Classificação de Ridley-Jopling A classificação é baseada nos achados cutâneos, neurológicos e de biópsia. • Hanseníase Tuberculoide (HT) • Borderline Tuberculoide (BT) • Hanseníase Dimorfa (HD) • Borderline Virchowiana (BV) • Hanseníase Virchowiana (HV) • Hanseníase Indeterminado (HI) Classificação da OMS De acordo com a Organização Mundial da Saúde, para fins operacionais de tratamento, os doentes são classificados em: • Grupo paucibacilar: doentes não contagiantes, com poucos bacilos e acometimento neural e cutâneo (PB – presença de até cinco lesões de pele com baciloscopia de raspado intradérmico negativo, quando disponível). Formas: inicial indeterminada e tardia tuberculoide. • Grupo multibacilar: doentes contagiantes – com muitos bacilos em todos os tecidos acometidos (exceto no SNC) e, portanto, também muitas lesões cutâneas (MB – presença de seis ou mais lesões de pele OU baciloscopia de raspa o intradérmico positiva). Formas: dimórfica e virchowiana. Entretanto, alguns pacientes não apresentam lesões facilmente visíveis na pele, e podem ter lesões apenas nos nervos (hanseníase primariamente neural), ou as lesões podem se tornar visíveis somente após iniciado o tratamento. Quadro Clínico Lesões Neurais O M. leprae tem tropismo especial para os nervos periféricos e há comprometimento neural em todas as manifestações clínicas da hanseníase. As lesões neurais podem ser somente ramusculares ou, além dos filetes nervosos, também podem ser lesados os nervos superficiais e troncos nervosos mais profundos. Quando o comprometimento é ramuscular, as alterações são essencialmente sensitivas e a primeira sensibilidade a ser alterada é a térmica, seguida pela sensibilidade dolorosa e finalmente pela tátil. Após a lesão dos ramúsculos nervosos, a doença progride em direção proximal, afetando os ramos secundários e depois os troncos neurais periféricos. Estes podem se tornar espessados e dolorosos à palpação e/ou percussão. Quando o local do nervo é percutido, o doente tem a sensação de choque que se irradia para o território correspondente àquele nervo (sinal de Tinel). A lesão dos troncos neurais determina alterações sensitivas, motoras e autonômicas. • Sensitivos: Entre os distúrbios mais importantes, impedem que o paciente se defenda das agressões sofridas pelas suas mãos e pés durante a vida diária. • Motoras: levam a paresias ou paralisias que correspondem à fraqueza muscular, amiotrofias, retrações tendíneas e fixações articulares (garras). • Simpáticas: distúrbios vasculares e da sudorese. Segmento cefálico • Trigêmeo: sensibilidade da córnea e da face • Facial: musculatura da mímica da face. As lesões podem ser completas, unilaterais ou bilaterais ou somente provocarem lesões do músculo orbicular das pálpebras levando ao lagoftalmo. Membros superiores • Nervo ulnar: paresias ou paralisias de quase toda a musculatura intrínseca das mãos e garra ulnar, hipo ou anestesia da borda interna das mãos e do 4º e 5º dedos, anidrose ou hipo-hidrose nessa área e distúrbios circulatórios cutâneos. • Nervo mediano: na maioria das vezes são secundárias às lesões do nervo ulnar, traduzem-se por paresias ou paralisias dos músculos intrínsecos não inervados pelo nervo ulnar, hipo ou anestesia da borda externa das mãos e dos 1º, 2º e 3º dedos, e alterações da sudorese e vascularização cutânea nessa área. As lesões concomitantes dos nervos ulnar e mediano levam a uma deformidade da mão denominada “simiesca” ou tipo Aran-Duchènne. • Nervo radial: menos comum, é responsável pela inervação de toda a musculatura extensora da mão e, quando lesado, produz um tipo de paralisia conhecida como “mão caída”. Membros inferiores • Fibular: é responsável pela inervação de toda a musculatura da loja anterolateral da perna, que produz a dorsiflexão do pé. Quando lesado, provoca o “pé caído” e, como é um nervo misto, também causa alterações da sensibilidade na face lateral da perna, no dorso do pé e distúrbios autonômicos. • Tibial: desencadeia paralisia dos músculos intrínsecos do pé (“dedos em garra”), hipo ou anestesia plantar e alterações simpáticas vasculares cutâneas e das glândulas sudoríparas. As alterações sensitivas e motoras desse nervo conjugam-se na fisiopatologia da úlcera plantar (mal perfurante plantar), uma das incapacidades mais graves causadas pela hanseníase. Manifestações neurológicas Têm algumas características próprias nas diferentes formas da doença. Nos doentes tuberculoides, as lesões neurais são mais precoces, intensamente agressivas e assimétricas e, muitas vezes, mononeurais. Os granulomas tuberculoides destroem as fibras nervosas e pode ocorrer, na vigência de reação tipo I de melhora imunocelular, necrose caseosa no interior dos nervos afetados, quando aparecem verdadeiras tumorações que chegam mesmo a fistulizar por meio da pele. Nos doentes virchowianos são extensas, simétricase pouco intensas nos primeiros anos. Cronicamente, as fibras nervosas vão sendo lentamente comprimidas pelo infiltrado linfo-histiocitário com bacilos e é por isso que as lesões clínicas se manifestarão tardiamente. Quando ocorrem inflamações agudas (reações tipo I ou II) o processo destrutivo é mais rápido. Nos doentes do grupo dimorfo (borderline), o comprometimento neurológico, em geral, é extenso e intenso, em razão da existência de algum grau de imunidade celular específica. Nessa situação, há destruição de nervos pelos granulomas de uma maneira generalizada. Lesões Cutâneas Hanseníase indeterminada Todos os pacientes passam por essa fase no início da doença. Entretanto, ela pode ser ou não perceptível. Geralmente afeta crianças abaixo de 10 anos, ou mais raramente adolescentes e adultos que foram contatos de pacientes com hanseníase. A lesão de pele geralmente é única, mais clara do que a pele ao redor (mancha), não é elevada (sem alteração de relevo), apresenta bordas mal delimitadas, e é seca (“não pega poeira” – uma vez que não ocorre sudorese na respectiva área). Há perda da sensibilidade (hipoestesia ou anestesia) térmica e/ou dolorosa, mas a tátil geralmente é preservada. A prova da histamina é incompleta na lesão, a biópsia de pele frequentemente não confirma o diagnóstico e a baciloscopia é negativa. Portanto, os exames laboratoriais negativos não afastam o diagnóstico clínico. A baciloscopia, nestes doentes, é negativa. O quadro histopatológico é constituído por infiltrado linfo, histiocitário perianexial inespecífico ou pequeno infiltrado de células mononucleares perivascular ou em torno de filetes nervosos, às vezes, invadindo-os e, muitas vezes, delimitando-os. Em raras ocasiões, é possível observar bacilos em pequeno número, no interior desses filetes. O teste de Mitsuda pode ser positivo ou negativo e não é diagnóstico. O aspecto geral das lesões pode sugerir a evolução do doente. Sendo assim, se o número dessas lesões for pequeno e as alterações sensitivas forem bem acentuadas, é bem possível que a resistência imunocelular aos bacilos tenha sido estimulada; e o doente poderá curar-se espontaneamente ou evoluirá para a forma tuberculoide. Se, ao contrário, o doente apresentar muitas lesões maculosas de limites pouco precisos, nas quais os distúrbios de sensibilidade são discretos, a imunidade celular, provavelmente, é baixa ou nula e a evolução natural, portanto, se não tratada, será para as formas dimorfa ou virchowiana. Os nervos periféricos, superficiais e profundos nunca estão espessados. Hanseníase tuberculoide Mais frequentemente, manifesta-se por uma placa (mancha elevada em relação à pele adjacente) totalmente anestésica ou por placa com bordas elevadas, bem delimitadas e centro claro (forma de anel ou círculo). Com menor frequência, pode se apresentar como um único nervo espessado com perda total de sensibilidade no seu território de inervação. A baciloscopia nas lesões é negativa e o quadro histopatológico se caracteriza, na maioria das vezes, pela presença de granulomas de células epitelioides com células gigantes na sua porção central e um manto de linfócitos na periferia. Esses granulomas, que, às vezes, chegam a tocar a epiderme, envolvem e invadem os filetes nervosos, destruindo-os. Em cortes seriados, é possível detectar bacilos no interior deles. Nos troncos nervosos, esses granulomas, além de exercer ação compressiva, destroem as fibras nervosas. O teste de Mitsuda é fortemente positivo e essa forma clínica tem tendência à cura espontânea. Há uma variedade de hanseníase tuberculoide, que costuma acometer crianças na faixa etária dos 2 a 4 anos e que são contatos de doentes da forma virchowiana. Essa variedade é denominada hanseníase tuberculoide (nodular) da infância e caracteriza-se por pequenas pápulas ou nódulos castanhos ou de tom eritematoacastanhados, únicos ou em pequeno número; localizam-se, em geral, na face ou nos membros. Não há evidências clínicas de comprometimento neural. A baciloscopia é negativa e o quadro histopatológico se caracteriza por granulomas tuberculoides do tipo lipoide, sendo possível o encontro de um ou outro bacilo no seu interior. O teste de Mitsuda é positivo forte (3+). Deve-se salientar que pápulas, nódulos ou placas características da hanseníase tuberculoide (nodular) da infância, com ou sem ramusculites neurais (anestésicas) ocorrem na infância e devem ser tratadas. Vários doentes que tiveram esse diagnóstico, considerados MHT da infância e que outrora não recebiam tratamento, evoluíram com sequelas neuromusculares (garras e paralisias). Borderline Tuberculoide As lesões são máculas bem definidas, às vezes parecidas com lesões em alvo com clareamento central. Na BT as lesões são mais numerosas que na HT e normalmente em um lado do corpo. Hanseníase dimorfa Caracteriza-se, geralmente, por mostrar várias manchas de pele avermelhadas ou esbranquiçadas, com bordas elevadas, mal delimitadas na periferia, ou por múltiplas lesões bem delimitadas semelhantes à lesão tuberculóide, porém a borda externa é esmaecida (pouco definida). Há perda parcial a total da sensibilidade, com diminuição de funções autonômicas (sudorese e vasorreflexia à histamina). É comum haver comprometimento assimétrico de nervos periféricos, as vezes visíveis ao exame clínico. É a forma mais comum de apresentação da doença (mais de 70% dos casos). Ocorre, normalmente, após um longo período de incubação (cerca de 10 anos ou mais), devido à lenta multiplicação do bacilo (que ocorre a cada 14 dias, em média). A baciloscopia da borda infiltrada das lesões (e não dos lóbulos das orelhas e cotovelos), quando bem coletada e corada, é frequentemente positiva, exceto em casos raros em que a doença está confinada aos nervos. Esta forma da doença também pode aparecer rapidamente, podendo ou não estar associada à intensa dor nos nervos, embora estes sintomas ocorram mais comumente após o início do tratamento ou mesmo após seu término (reações imunológicas em resposta ao tratamento). O quadro histopatológico exibe granulomas tuberculoides incompletos, que não chegam a tocar a epiderme. O teste de Mitsuda é, em geral, fracamente positivo. Hanseníase Borderline Virchowiana As lesões podem consistir em máculas eritematosas, pápulas e/ou nódulos e são distribuídas simetricamente no corpo. Existem áreas de pele normal encontradas entre lesões, mas as margens das lesões são normalmente difusas. Lesões maiores (máculas ou placas) aparecem em distribuição assimétrica. Hanseníase virchowiana É a forma mais contagiosa da doença. O paciente virchowiano não apresenta manchas visíveis; a pele apresenta-se avermelhada, seca, infiltrada, cujos poros apresentam-se dilatados (aspecto de “casca de laranja”), poupando geralmente couro cabeludo, axilas e o meio da coluna lombar (áreas quentes). Na evolução da doença, é comum aparecerem caroços (pápulas e nódulos) escuros, endurecidos e assintomáticos (hansenomas). Quando a doença encontra-se em estágio mais avançado, pode haver perda parcial a total das sobrancelhas (madarose) e também dos cílios, além de outros pelos, exceto os do couro cabeludo. A face costuma ser lisa (sem rugas) devido a infiltração, o nariz é congesto, os pés e mãos arroxeados e edemaciados, a pele e os olhos secos. Quando as lesões são muito numerosas na face e há conservação dos cabelos, caracteriza-se o aspecto classicamente descrito como “fácies leonina”. O suor está diminuído ou ausente de forma generalizada, porém é mais intenso nas áreas ainda poupadas pela doença, como o couro cabeludo e as axilas. São comuns as queixas de câimbras e formigamentos nas mãos e pés, que entretanto apresentam-se aparentemente normais. Dor nas articulações também são comuns e, frequentemente, o paciente tem o diagnóstico clínico e laboratorial equivocado de “reumatismo”, “problemasde circulação ou de coluna”. Os exames reumatológicos frequentemente resultam positivos, como FAN, FR, assim como exame para sífilis (VDRL). Na hanseníase virchowiana o diagnóstico pode ser confirmado facilmente pela baciloscopia dos lóbulos das orelhas e cotovelos. O teste de Mitsuda é negativo. O comprometimento difuso, observado na pele, também ocorre nos outros tecidos extracutâneos: • SNP: o bacilo é neurotrópico e, portanto, o SNP é acometido antes da pele. Ocorre infiltração difusa e simétrica dos troncos nervosos e ramos superficiais com os correspondentes distúrbios sensitivos do tipo periférico; tardiamente, ocorrem distúrbios motores e tróficos, em especial, nas mãos, pernas e pés. A pesquisa de sensibilidade, em especial nos doentes com MHV inicial ou com espessamentos discretos, deve ser mais cuidadosa, pois o doente costuma ter apenas algumas “ilhas” de hipoestesia térmica. Só tardiamente ele terá anestesia e, depois de alguns anos, após instalação de fibrose neural, ele terá anestesia em luva e em bota. • Nariz: ocorre rinite específica e precoce, por infiltração difusa, às vezes com hansenomas; tardiamente, podem surgir ulceração, perfuração e desabamento do septo nasal. • Mucosa oral: há infiltração difusa com ou sem lesões papulosas e/ou nodulares nos lábios, língua, palato mole, palato duro, úvula, peridentária (na polpa dentaria); com BH na fase ativa da moléstia. • Laringe: aparece infiltração da epiglote, pregas falsas e dobras aritenoepiglóticas. Nas fases avançadas, pode ocorrer obstrução mecânica da fenda glótica com consequente afonia, dispneia e asfixia (este quadro tornou-se raro desde o advento das sulfonas). • Olhos: além da madarose, ocorre, primariamente, espessamento neural da córnea na íris e no corpo ciliar; o limbo esclerocorneano é o mais acometido. Nas fases avançadas, queratite pontuada, aumento da vascularização, nódulos. A complicação mais grave: iridociclite aguda ou crônica ocorre na vigência dos estados reacionais e não adequadamente tratados, poderá evoluir para uveíte e cegueira. Eventualmente, ocorre glaucoma. O lagoftalmo seguido de conjuntivite e queratite são secundários ao espessamento específico do nervo facial e trigêmeo. • Linfonodos: linfoadenomegalia cervical, axilar, supratroclear, mas principalmente inguinofemurais; porta-hepáticos, ilíacos internos e externos. • Fígado e baço: ocorre hepatomegalia e esplenomegalia; como também, acometimento específico da suprarrenal, às vezes, muito intenso; porém, sem alterações funcionais importantes, pois os granulomas viscerais são pouco destrutivos. • Testículos: inicialmente, a infiltração é marginal (impotência sexual) e, a seguir, medular (esterilidade, ginecomastia). Tardiamente, em especial associada a reações, ocorre atrofia. • Medula óssea: alterações na hematopoiese, com anemia. Baciloscopia positiva à punção medular. • Alterações ósseas: rarefações, atrofia e absorção em especial, nas mãos e pés. Ocorrem osteíte rarefaciente por trauma repetido, déficit de irrigação sanguínea, endarterite (principalmente pós-reação tipo II — eritema nodoso); A osteomielite pode ser por complicação de úlceras crônicas. Há atrofia da espinha nasal anterior (queda da pirâmide nasal) por atrofia do processo alveolar maxilar, com afrouxamento ou perda dos dentes incisivos superiores. Em virtude da insensibilidade e maior força aplicada nas articulações do cotovelo ou tornozelo ou nos pés, pode haver neoformação óssea, característica da artropatia de Charcot. • Músculos: amiotrofias de músculos interósseos no antebraço (menos frequentes) e loja anterior da tíbia. Diagnóstico Exame Físico Uma opção é iniciar o exame clínico pelos nervos cutâneos. Comece pelos nervos da face observando a simetria dos movimentos palpebrais e de sobrancelhas (nervo facial). Em seguida, veja se há espessamento visível ou palpável dos nervos do pescoço (auricular), do punho (ramo dorsal dos nervos radial e ulnar), e dos pés (fibular superficial e sural). Depois, palpe os nervos do cotovelo (ulnar), do joelho (fibular comum) e do tornozelo (tibial). Observe se eles estão visíveis, assimétricos, endurecidos, dolorosos ou com sensação de choque. Caso você identifique qualquer alteração nos nervos, confirme a anormalidade com o teste da sensibilidade no território inervado. Não troque o exame clínico pela baciloscopia ou biópsia. Posteriormente, em sala bem iluminada, é importante examinar toda a pele, inclusive as coxas, dorso e nádegas. Comece pela face, depois examine tronco e membros superiores. Embora respeitando a intimidade do paciente, é indispensável o exame das nádegas e membros inferiores. Não esqueça de examinar palmas e plantas (procure por calosidades, atrofias musculares e úlceras). Quando perceber uma lesão de pele, marque a área com uma caneta esferográfica para não correr o risco de não encontrar a mesma região posteriormente. Como a primeira sensibilidade perdida na hanseníase é a das fibras mais finas (sensibilidade ao calor e dor), faça o teste de sensibilidade térmica nas áreas suspeitas: lesões de pele não elevadas (manchas) ou elevadas (placas, nódulos); áreas de pele secas ou áreas referidas pelo paciente como regiões com alteração de sensibilidade; territórios dos nervos ulnar (quarto e quinto dedos da mão), do nervo radial (dorso da mão até o terceiro dedo), do nervo fibular (lateral da perna e dorso do pé), do nervo tibial (região plantar). Evite áreas “calosas” (com calosidades ou queratósicas). Faça o teste da sensibilidade dolorosa utilizando uma agulha de insulina. Encoste a ponta nas lesões de pele com uma leve pressão, tendo o cuidado de não perfurar o paciente, nem provocar sangramento. Faça isso alternando área interna e externa à lesão, observando expressão facial e queixa de respostas à picada. Certifique-se de que a sensibilidade sentida é de dor através da manifestação de “ai!” ou retirada imediata da região que é estimulada pela agulha. A insensibilidade (anestesia) ou sensibilidade diminuída (hipoestesia) dentro da área de lesão confirma o diagnóstico. Pode- se ainda avaliar a sensibilidade dolorosa alternando a ponta da agulha e o cabo da agulha (parte plástica). Embora a sensibilidade tátil seja frequentemente a última a ser perdida, deve-se buscar as diferenças de sensibilidade sobre a área a ser examinada e a pele normal circunvizinha, utilizando-se algodão, fio dental ou o monofilamento verde (0.05g) do kit estesiométrico. O uso do estesiômetro permite avaliar a sensibilidade protetora das mãos e pés, tendo grande aplicação na avaliação do grau de incapacidade física e para fins de prevenção de incapacidades, sendo seu uso importante para avaliação e seguimento dos casos. Baciloscopia A baciloscopia é um exame complementar ao diagnóstico e deve ser solicitado pelo médico da unidade básica, prioritariamente, nas seguintes situações: a) Em caso de dúvida na classificação operacional para instituição da poliquimioterapia. b) Diagnóstico diferencial com outras doenças dermatoneurológicas. c) Casos suspeitos de recidiva. Como em outros procedimentos laboratoriais, no momento da coleta é necessário que os materiais indicados a seguir, estejam disponíveis e que todos os profissionais estejam devidamente protegidos, utilizando EPI como: luvas, máscaras e avental. Em pacientes com lesões cutâneas visíveis ou áreas com alteração de sensibilidade, a coleta deverá ser feita em lóbulo auricular direito (LD), lóbulo auricular esquerdo (LE), cotovelo direito (CD) e lesão (L). Nas lesões planas, coletar no limite interno. Nos nódulos, tubérculos e placas eritematosas marginadas por microtubérculos, coletar no centro. Em pacientes que não apresentam lesões ativas visíveis, colher material do lóbulo auricular direito (LD), lóbulo auricular esquerdo (LE), cotovelo direito (CD) e cotovelo esquerdo (CE). • Manuseara lâmina pelas bordas evitando colocar os dedos no local onde a amostra será distribuída. • Identificar a lâmina com as iniciais do nome do paciente, o número de registro da unidade e data da coleta. • No momento de cada coleta fazer antissepsia com álcool a 70ºGL ou 70%, dos sítios indicados na solicitação médica. • Com o auxílio da pinça Kelly, fazer uma prega no sítio de coleta, pressionando a pele o suficiente para obter a isquemia, evitando o sangramento. Manter a pressão até o final da coleta tomando o cuidado de não travar a pinça • Fazer um corte na pele de aproximadamente 5mm de extensão por 3mm de profundidade. Colocar o lado não cortante da lâmina do bisturi em ângulo reto em relação ao corte e realizar o raspado intradérmico das bordas e do fundo da incisão, retirando quantidade suficiente e visível do material. Se fluir sangue no momento do procedimento (o que não deverá acontecer se a compressão da pele estiver adequada) enxugar com algodão. • Desfazer a pressão e distribuir o material coletado na lâmina, fazendo movimentos circulares do centro para a borda numa área aproximadamente de 5 – 7mm de diâmetro, mantendo uma camada fina e uniforme. • O primeiro esfregaço deverá ser colocado na extremidade mais próxima da identificação do paciente, e o segundo próximo ao primeiro observando uma distância, de pelo menos 0,5cm entre cada amostra. Os esfregaços devem estar no mesmo lado da parte fosca da lâmina. • Entre um sítio e outro de coleta, limpar a lâmina do bisturi e a pinça utilizada com algodão ou gaze embebido em álcool 70°GL ou 70%, para que não ocorra a contaminação entre eles. • Fazer curativo compressivo. • As lâminas contendo os raspados devem permanecer em superfície plana e à temperatura ambiente, durante cinco a dez minutos até estarem completamente secos. Após essa etapa os esfregaços devem ser fixados passando-se as lâminas duas a três vezes, rapidamente, em chama, com os esfregaços voltados para cima. No laboratório será feita a coloração de Ziehl-Neelsen. Exames Histopatológicos A colheita do material cutâneo se faz com um punch de 4 mm após assepsia e anestesia prévia do local a ser biopsiado. Para a obtenção de fragmentos de nervos periféricos para exame, após assepsia e anestesia prévia, faz-se uma incisão com bisturi no local da pele superposta ao nervo, que é identificado, isolado e tem sua superfície biopsiada. As biópsias são processadas e os cortes histológicos são corados pela hematoxilina e eosina e pelo método de Faraco-Fite para a pesquisa de bacilos. Eventualmente, pode-se usar a coloração pelo Sudão III para a pesquisa de lipídeos. Da mesma maneira que para a baciloscopia, o local escolhido para a biópsia cutânea deve ser uma lesão espessada, pápula ou nódulo, ou a borda de uma mancha ou placa por serem os locais mais ativos. No caso de biópsia de nervos periféricos, quando necessária, os nervos escolhidos devem ser somente sensitivos, ser de fácil acesso e estarem comprometidos, comprometimento este evidenciável pela eletroneuromiografia. No padrão tuberculoide, observa-se um infiltrado granulomatoso dérmico, que pode ter padrão linear conforme segue o curso de um nervo. Células epitelioides e células gigantes de Langhans são rodeadas por linfócitos. Os nervos cutâneos são edematosos e há ausência de micro-organismos, mesmo em colorações especiais. A inflamação e a fragmentação das fibras nervosas na hanseníase tuberculosa a diferenciam da sarcoidose e de outras doenças granulomatosas. No padrão virchowiano, observa-se um infiltrado na derme, no subcutâneo, nos linfonodos, nos órgãos abdominais (p. ex., rins e fígado), nos testículos e na medula óssea. O infiltrado contém células de Virchow, que são macrófagos com numerosos bacilos e gotículas lipídicas em seu citoplasma. Em lâminas coradas pelo H&E, estas células têm aparência espumosa. Pela coloração Sudan III, o lipídio dentro das células de Virchow aparece na cor laranja. Os bacilos na hanseníase podem ser detectados pelas colorações de Gram, Ziehl-Neelsen, Fite (a mais comumente utilizada) ou Wade, todas estas corando o bacilo em vermelho-brilhante. O Sudan III e o Sudan IV (também conhecido como vermelho-escarlate) coram os bacilos em preto e vermelho, respectivamente. A coloração pela prata metanamina é útil para a detecção de bacilos acidorresistentes fragmentados. Em lesões em que os bacilos são escassos, é recomendado o exame de pelo menos seis cortes antes que sejam declaradas negativas. Uma faixa de derme com aparência normal (faixa de Unna ou zona de Grenz) separa a epiderme do infiltrado, que é composto por plasmócitos e linfócitos associados às células de Virchow. Na derme, observam-se tanto bacilos isolados quanto em globias (aglomerados de bacilos), e quando o paciente está tendo sucesso no tratamento, os micro- organismos se fragmentam e se tornam granulares. Os nervos cutâneos demonstram laminação do perineuro ganhando o aspecto de bulbo de cebola. Na variante histoide, uma proliferação bem-circunscrita de células fusiformes (que contêm numerosos bacilos) é observada; os bacilos tipicamente se encontram alinhados ao longo do maior eixo da célula. O padrão borderline contém características histológicas tanto da forma virchowiana (p. ex., células de Virchow) quanto da forma tuberculoide (p. ex., granulomas). O predomínio depende do paciente apresentar as formas BV, BB ou BT. Existem três cenários histológicos diferentes na hanseníase borderline: (1) o paciente apresenta algumas lesões com padrão virchowiano e outras com padrão tuberculoide; (2) observam-se padrões de Virchow e tuberculoide na mesma lesão; e (3) todas as lesões apresentam uma mistura de células espumosas e epitelioides. A hanseníase indeterminada é comumente difícil de diagnosticar histologicamente. Observa-se apenas um pequeno infiltrado de linfócitos ou histiócitos ao redor dos vasos sanguíneos ou anexos. Não há granulomas ou células de Virchow e os micro-organismos estão frequentemente ausentes. Exame Citológico Pelo método de Tzanck, podem-se observar em esfregaços de lesões da hanseníase virchowiana, corados pelo corante de Leishman, células de Virchow e macrófagos cujos citoplasmas se encontram em espaços claros em forma de bastonetes, multidirecionais isolados ou em agrupamentos, correspondentes aos bacilos de Hansen. Esse exame não é utilizado de rotina. PCR Pode-se detectar o M. leprae (amplificação do seu DNA) em casos de infecção subclínica ou nas diversas manifestações da hanseníase. É um método laboratorial cuja utilidade, na prática, ainda não está estabelecida. Exames Sorológicos Na hanseníase virchowiana há, em geral, hipergamaglobulinemia com predomínio de IgG. Durante os estados reacionais tipo ENH, esta situação relacionada com a formação de anticorpos se exacerba com o aparecimento também de autoanticorpos. Em vários casos dessa forma clínica, observa-se o aparecimento de anticorpos antilipídeos responsáveis pelas falsas reações positivas do VDRL. Há uma reação altamente específica na hanseníase em que sua positividade é mais frequente na forma virchowiana conhecida como reação de Rubino. Ela está relacionada com a sedimentação de hemácias formoladas de carneiro pelo soro do doente, fato que não ocorre na grande maioria das doenças. O PGL-1 (glicolipídeo fenólico 1) é um constituinte da parede do M. leprae, espécie-específico, detectado por reação de aglutinação com anticorpos da classe IgM em hansenianos. A especificidade da reação é de 98% e a sensibilidade de 80 a 90% em doentes multibacilares, e de 30 a 60% em paucibacilares. Essa reação vem sendo estudada para sua possível aplicação no diagnóstico da hanseníase, na investigação de infecção subclínica, no controle do paciente multibacilar e na detecção de recidivas. Histamina, Pilocarpina e Mitsuda Três testes clássicos – a histamina, pilocarpinae o Mitsuda – podem ser feitos para auxiliar no diagnóstico e no prognóstico. Entretanto, atualmente estes testes são realizados com menor frequência. No primeiro, uma gota de histamina 0,001% é aplicada na placa suspeita e outra na pele normal. Faz-se uma picada superficial em ambas as áreas com uma agulha (através da gota) e, após 10 minutos, a intensidade e a extensão da urtica e do eritema são registradas. Esta resposta é dependente da integridade das fibras nervosas simpáticas e, nas lesões hipopigmentadas da hanseníase (o tipo de lesão mais comumente testado), ela será reduzida, retardada ou ausente. No teste da pilocarpina, aplica-se tintura de iodo na lesão suspeita (e na pele normal como controle) antes da injeção de pilocarpina nestes locais. Depois, estas áreas são polvilhadas com farinha de amido, que se tornará azulada se houver sudorese normal. A sudorese depende da integridade das fibras nervosas parassimpáticas e, assim, é reduzida nas lesões de hanseníase. A quinizarina, que muda de branco para azul, pode ser utilizada em vez de iodo e amido. O teste da lepromina ou Mitsuda consiste na injeção intradérmica de 0,1 ml de suspensão de M. leprae termicamente mortos. A resposta é positiva quando se forma um nódulo no local da injeção (que é lido 3–4 semanas após) e indica que o paciente é capaz de ter uma resposta celular específica ao bacilo. O teste fornece informação prognóstica, mas não diagnóstica. É positivo nas formas TT e BT. Tratamento As drogas de 1ª linha no tratamento da hanseníase são a dapsona, clofazimina e a rifampicina. Dapsona É a di-amino-difenil-sulfona (DDS), apresentada em comprimidos de 100 mg e, quando administrada por via oral, é quase completamente absorvida. A DDS é essencialmente bacteriostática e seu modo de ação é competir com o ácido paraminobenzoico por uma enzima a di-hidropteroato sintetase, impedindo a formação de ácido fólico pela bactéria. Tem sido demonstrado em muitos países, e de maneira crescente, o aparecimento de resistência do M. leprae ao medicamento, tanto inicial como secundária. O efeito colateral mais comum é a anemia hemolítica que, em geral, é discreta e o número de hemácias tende a atingir os níveis normais no decorrer do tratamento. A anemia pode ser muito grave quando o indivíduo apresentar deficiência da enzima glicose-6-fosfato- desidrogenase. A anemia ocorre precocemente e por isso é aconselhável repetir os exames hematológicos a cada 15 dias no início do tratamento e suspender a medicação se a hemoglobina atingir 9,0 g/mL e o hematócrito for inferior a 32 a 34%. A meta- hemoglobinemia, quando aparece, em geral, é discreta e caracteriza-se por acrocianose. Esse efeito pode ser eventualmente controlado com a administração de vitaminas do complexo B, juntamente com a DDS. A agranulocitose é rara. A síndrome da sulfona foi descrita por Lowe na década de 1940, mas atualmente começou a chamar mais a atenção quando a dapsona passou a ser usada em outras doenças dermatológicas que não a hanseníase. Caracteriza-se, essa síndrome, por febre, uma eritrodermia acompanhada de aumento generalizado de linfonodos, hepatoesplemegalia com icterícia e púrpura. Clofazimina É um corante rimino-fenazínico apresentado em cápsulas de 50 e 100 mg. Tem ação bacteriostática com relação ao bacilo de Hansen e também, segundo alguns, uma ação anti-inflamatória, tanto que é utilizada no tratamento das reações do tipo II. A dose preconizada de clofazimina como monoterapia, no tratamento da hanseníase, é de 100 mg por dia, mas há relato recente sugerindo que uma dose única mensal de 1.200 mg teria o mesmo efeito. É uma droga bem tolerada, mas apresenta alguns efeitos indesejáveis como a coloração que causa na pele, de um tom cinza azulado e que desaparece somente cerca de 1 ano após a suspensão do medicamento. Pode haver também um ressecamento muito grande do tegumento que adquire um aspecto ictiósico. Os efeitos colaterais mais sérios da clozamina estão relacionados com o aparelho digestivo. O paciente pode apresentar dores abdominais, náuseas e diarreia, mas quando está ingerindo doses mais altas do que 100 mg por dia, o que acontece quando se procura tratar reações do tipo II, esses sintomas podem se acentuar e aparecer vômitos, seguindo-se perda de peso, obstrução intestinal, parcial ou completa. Isso está relacionado com o depósito maciço de cristais do medicamento na parede do intestino delgado. Rifampicina É um derivado piperazínico da rifamicina SV, extraído do Streptomyces mediterranei e apresentado em cápsulas de 150 e 300 mg. A rifampicina tem um efeito altamente bactericida contra o M. leprae e atua inibindo a sua RNA polimerase dependente de DNA. Era administrada contra a hanseníase, como monoterapia, na dose de 600 mg/dia antes de ter sido demonstrada a resistência do bacilo de Hansen a ela. É uma droga também bem tolerada e os seus efeitos mais graves ocorrem quando administrada de maneira intermitente. Com a administração diária, podem ocorrer erupções, hepatite e trombocitopenia e, quando administrada uma ou duas vezes por semana, é possível também o aparecimento de uma síndrome semelhante a uma gripe, com febre, coriza e dores no corpo, insuficiência respiratória, choque, anemia hemolítica e insuficiência renal por necrose tubular aguda. Na hanseníase em que a droga é administrada mensalmente, podem assomar eventualmente a “síndrome gripal” e a insuficiência renal. A rifampicina pode interferir com o efeito de outras drogas quando são usadas de maneira concomitante. Assim, ela diminui os níveis plasmáticos da dapsona, corticosteroides, cumarínicos e também estrógenos com redução da atividade de contraceptivos orais. Os derivados da Rifamicina SV, a rifabutina e a rifapentine não têm sido utilizados na rotina do tratamento da hanseníase. Etionamida e Protionamida Já foram consideradas de 1ª linha no tratamento da hanseníase e participavam de esquema alternativo para a poliquimioterapia preconizado pela OMS. Contudo, em razão da sua toxicidade, principalmente quando associadas à rifampicina, o seu uso não é mais recomendado. Esquema Terapêutico Atualmente o tratamento da hanseníase no Brasil, preconizado pelas Diretrizes para Vigilância, Atenção e Eliminação da Hanseníase como Problema de Saúde Pública, baseia-se em esquemas de poliquimioterapia composto por três medicamentos, rifampicina + dapsona + clofazimina, pelo período de doze meses para as formas clínicas da classificação operacional multibacilar e poliquimioterapia composto por dois medicamentos, rifampicina + dapsona, pelo período de seis meses para as formas clínicas da classificação paucibacilar. Em 2018, a Conitec recomendou ao Ministério da Saúde a ampliação do uso do medicamento clofazimina para tratamento da hanseníase paucibacilar no âmbito do SUS. A análise da Comissão ateve-se apenas à composição da associação medicamentosa, permanecendo, portanto, inalterado o tempo de tratamento, sendo de seis meses. Em 2021, a OMS atingiu capacidade técnica para atender a demanda brasileira de poliquimioterapia da associação “rifampicina + dapsona + clofazimina” para todos os casos de hanseníase, possibilitando a implementação desse esquema ao tratamento da hanseníase paucibacilar, no âmbito do SUS. Doses • Dapsona 100 mg/dia (autoadministrada) + • Clofazimina 50 mg/dia (autoadministrada) E 300 mg 1x/mês (supervisionada) + • Rifampicina 600 mg 1x/mês (supervisionada). Caso a dapsona precise ser suspensa, deverá ser substituída pela Ofloxacina 400 mg (na dose diária e na supervisionada) ou Minociclina 100 mg (na dose diária e na supervisionada). Dosagem para crianças: O MS, a partir de 01 de julho de 2021, determina: a) associação de rifampicina + dapsona + clofazimina, na apresentação de blísteres, para tratamento de hanseníase, passe a ser denominada “Poliquimioterapia Única – PQT-U”;b) Prescrições de PQT-U”, tanto para casos paucibacilares, quanto casos multibacilares; c) Todos os pacientes diagnosticados com hanseníase paucibacilar que iniciem tratamento farmacológico a partir de 01 de julho de 2021, passem a ser tratados com PQT-U, por seis meses; d) Todos os pacientes diagnosticados com hanseníase paucibacilar que iniciaram tratamento farmacológico até a data de 30 de junho de 2021, sejam mantidos em tratamento farmacológico com o blister PB (associação rifampicina + dapsona), por seis meses; e) Os pacientes diagnosticados com hanseníase multibacilar, a partir de 01 de julho de 2021, mantenham o tratamento farmacológico com PQT- U, por doze meses. Duração do tratamento Paucibacilares: 6 meses (em até 9 meses). Se houver recidiva, deve-se repetir o tratamento com o mesmo esquema, porém, se for constatada uma mudança para a forma multibacilar, o esquema deve ser o correspondente a ela. Multibacilares: 12 a 18 meses; se necessário, caso o doente ainda apresente sinais de atividade clínica ou laboratorial da moléstia, até 24 meses. Caso ocorra recidiva após esse tratamento, o mesmo esquema deve ser repetido. Resistência e Recidiva A PQT tem como finalidade básica impedir a instalação da resistência bacteriana. A rifampicina, medicação altamente bactericida, destrói a maior parte dos bacilos, inclusive as subpopulações de mutantes resistentes à dapsona e à clofazimina, restando a subpopulação mutante resistente ao próprio medicamento. Essas bactérias mutantes resistentes à rifampicina seriam destruídas pela sulfona e clofazimina após um período mais prolongado. Os resultados terapêuticos com a MDT/PQT têm sido bons e observou-se que, após nove anos do uso dos esquemas, o índice de recidivas para os doentes PB foi de 1,07% ao ano e para os MB foi de 0,72%. Um problema importante é que um paciente MB que recebe alta após dois anos de tratamento continua, muitas vezes, apresentando bacilos mortos no seu organismo que serão eliminados muito lentamente, com cerca de 0,6 a 1 unidade do IB por ano. Dessa maneira, a persistência de antígenos pode manter as reações tipo II (ENH) com todos os seus inconvenientes, inclusive neurites que podem levar a incapacidades. A hanseníase deixa de ser uma doença bacteriana para se tornar essencialmente imunológica. A recidiva terapêutica é importante ameaça ao controle da MH; Poojaylaiah e colaboradores, em 2008, referiram taxa de recidiva de 1,85% no seguimento de 163 doentes, com o uso de MDT uniforme, por período médio de 7,13 anos; e outros relatos recentes também demonstram recidivas de 16 a 36% entre doentes multibacilares com altos índices bacterioscópicos. Em 2010, a OMS relata 887 recidivas e 10% delas com comprovada resistência medicamentosa. O Programa Nacional Norte-Americano de Hanseníase recomenda seguimento pós-alta a cada seis meses, durante cinco anos, para os doentes paucibacilares; e, para os multibacilares, durante 10 anos. Ressalte-se que o programa americano de seguimento dos doentes pós- alta medicamentosa é idêntico aos programas antigos que eram usados no Brasil. Novos Medicamentos na Hansenologia Um esquema ideal para o tratamento de hanseníase seria aquele em que os fármacos que entram na sua composição fossem bactericidas. Há algum tempo, vêm sendo ensaiadas medicações que apresentam excelente atividade bactericida contra o M. leprae. São elas: • Fluorquinolonas: como o ofloxacin, pefloxacin e sparfloxacin. O ofloxacin é a que está sendo mais utilizada contra a hanseníase em experimentações terapêuticas. É empregada na dose de 400 mg/dia, é excretada pelo rim, quase totalmente, na forma não metabolizada. Os efeitos adversos são náuseas, diarreia, cefaleia, insônia e outros, que geralmente não impedem a administração do medicamento. • Claritromicina: macrolídeo administrado na dose de 500 mg/dia. Os efeitos adversos são náuseas, vômitos e diarreia, que em geral não impedem a respectiva administração. • Minociclina: tetraciclina administrada na dose de 100 mg/dia para o tratamento da hanseníase, tem propriedades lipofílicas responsáveis pela excelente ação terapêutica. Os efeitos adversos mais frequentes são pigmentação da pele e mucosas e distúrbios gastrointestinais. São relatadas excepcionalmente reações graves como hepatite, pancreatite, síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica. Com relação à atividade bactericida dessas medicações, pode-se dizer, de maneira geral, que o efeito de uma única dose de rifampicina equivale ao ofloxacina administrada durante 30 dias e à claritromicina e minociclina empregadas durante três meses. Entre outros fármacos que têm sido experimentados contra a hanseníase, como a pirazinamida, a amoxicilina mais o ácido clavulônico, o brodimoprim mais a dapsona, e a tioacetazona, somente o ácido fusídico poderá, talvez, ter a chance de compor novos esquemas para o tratamento da hanseníase no futuro. A imunoterapia com o BCG e suspensões de outras micobactérias como o M. leprae, Mycobacterium vaccae, interferon-gama e interleucina 2 tem mostrado resultados inconclusivos. Profilaxia É realizada pelo diagnóstico precoce e tratamento de todos os doentes, principalmente os multibacilares, com a MDT-PQT/OMS. A vigilância dos contatos também tem uma importância profilática fundamental, mas nem sempre pode ser realizada a contento pelas dificuldades operacionais. Considera-se de excelência o exame dermatoneurológico de todos os contatos intradomiciliares e sua orientação sobre os vários aspectos da hanseníase. Contato intradomiciliar é toda e qualquer pessoa que resida ou tenha residido nos últimos cinco anos com o doente. “Vacinas” com diferentes antígenos de micobactérias, associadas ou não ao BCG, vêm sendo ensaiadas sem conclusões definitivas quanto aos resultados na profilaxia da doença. Apesar disso, admite-se que a BCG isolada confere proteção contra a hanseníase pelo estímulo imunocelular específico contra o M. leprae. Concluindo, deve-se ter em mente, que apesar de todos os progressos tecnológicos no controle desta moléstia, a hanseníase, considerada negligenciada, junto com a tuberculose e outras doenças, predomina em países com grandes problemas socioeconômicos e educacionais; e, a solução indispensável para a erradicação dessa endemia consiste em aumentar a qualificação das equipes de saúde para o diagnóstico e tratamento precoce, melhora da qualidade e condições de vida, controle dos contatos e becegeização. Não se deve esquecer que a Noruega que, no fim do século XIX tinha um número de doentes com MH quase tão grande quanto ao do Brasil de hoje, guardadas as proporções territoriais, acabou com a hanseníase muito antes que surgisse qualquer terapêutica eficaz (a sulfona foi utilizada para MH em 1941); à época, a tuberculose (peste branca) grassava livremente na Europa e, quem não morria por tuberculose, ficava resistente ao bacilo de Hansen (daí a recomendação do BCG); e, também, houve melhora das condições de vida de sua população. Estados Reacionais Um dos maiores problemas encontrados pelos clínicos e pacientes, especialmente durante a fase de tratamento, é o desenvolvimento das reações. Estas são caracterizadas por inflamação aguda que surge subitamente. As reações do tipo 1 podem afetar pacientes com qualquer forma de hanseníase (exceto para a início precoce indeterminado), com predileção pelas categorias limítrofes (borderline), enquanto reações tipo 2 ocorrem com mais frequência em pacientes com hanseníase virchowiana ou borderline virchowiano. Além da administração de drogas antimicrobianas, as causas mais frequentes de reações são a gravidez, outras infecções ou até mesmo distúrbios mentais. Reações Tipo 1 As reações tipo 1 (reversa) são em função da alteração do estado imunológico do paciente e estão frequentemente associadas à neurite. Quando há um aumento da imunidadecelular, são consideradas reações de “upgrading”. Devido a presença quase invariável de lesão neural, ou quando a reação é ulcerada, deve ser iniciada a prednisona 1 mg/kg/dia via oral (pela manhã, no café da manhã) ou dexametasona 0,15 mg/kg/dia em casos de doentes hipertensos ou cardiopatas, conforme avaliação clínica, após avaliação sensitivo-motora com monofilamentos. Para a “dor nos nervos”, associar antidepressivo tricíclico em dose baixa (amitriptilina 25 mg por dia), associado a clorpromazina 5 gotas (5 mg) duas vezes ao dia, ou a carbamazepina 200 a 400 mg por dia. Não trate “dor nos nervos” com prednisona nem com talidomida. A dose de amitriptilina pode chegar a 75 mg por dia e a de clorpromazina até 50 mg por dia, em aumentos graduais. Reações Tipo 2 As reações tipo 2 são secundárias à formação de complexos imunes em associação à excessiva resposta humoral. Ocorrem em pacientes com a forma clínica de hanseníase virchowiana que estão sendo submetidos ao tratamento. A reação tipo 2 representa uma vasculite de pequenos vasos (cutâneos e sistêmicos) e a manifestação clínica mais comum é o eritema nodoso hansênico. Além disso, pacientes com a forma difusa de hanseníase virchowiana podem desenvolver o fenômeno de Lúcio, um estado reacional caracterizado tanto por fenômenos trombóticos quanto por vasculite necrotisante de pequenos vasos. Em âmbito mundial, a hanseníase é uma causa comum de vasculite cutânea, especialmente em países de baixa renda. Para a dor nos nervos, utilizar o mesmo esquema antiálgico da reação tipo 1. Iniciar talidomida 100 a 400 mg/dia via oral (de preferência à noite, pela possibilidade de sonolência), de acordo com a gravidade do caso. Como alternativa, para mulheres em idade fértil ou em pacientes com contraindicações a talidomida, pode-se utilizar a pentoxifilina 400 mg três vezes ao dia, ou antiinflamatórios não hormonais. Associar prednisona 1 mg/kg/dia via oral (pela manhã, após o café da manhã) em casos de comprometimento dos nervos periféricos (bem definido após a palpação e avaliação da função neural), ou de outros órgãos que não a pele (olhos, articulações, testículos, etc), ou se houver ulcerações extensas (necrose da pele). Quando houver associação de talidomida e corticoide, deve-se prescrever ácido acetilsalicílico 100 mg/dia como profilaxia de tromboembolismo. Referências: BRASIL – Boletim epidemiológico: Hanseníase, 2021. BOLOGNIA – Tratado de Dermatologia VERONESI – Tratado de Infectologia UpToDate NOTA TÉCNICA Nº 16/2021-CGDE/DCCI/SVS/MS Guia de procedimentos técnicos: Baciloscopia em Hanseníase, 2010.