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Cerveja Prof.a Ana Carolina Prudenciatto Ortelani Prof. Roberto Cesar Santos de Sousa Prof.a Verena Fiscina de Melo Introdução à SommelIer de Indaial – 2022 1a Edição Impresso por: Elaboração: Prof.a Ana Carolina Prudenciatto Ortelani Prof. Roberto Cesar Santos de Sousa Prof.a Verena Fiscina de Melo Copyright © UNIASSELVI 2022 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI O77i Ortelani, Ana Carolina Prudenciatto Introdução à sommelier de cerveja. / Ana Carolina Prudenciatto Ortelani; Roberto Cesar Santos de Sousa; Verena Fiscina de Melo. – Indaial: UNIASSELVI, 2022. 152 p.; il. ISBN 978-85-515-0535-9 ISBN Digital 978-85-515-0531-1 1. Escolas cervejeiras. - Brasil. I. Ortelani, Ana Carolina Prudenciatto. II. Sousa, Roberto Cesar Santos de. III. Melo, Verena Fiscina de. IV. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 663.42 Olá, acadêmico! Seja bem-vindo ao Livro Didático Introdução à Sommelier de Cerveja! Nosso conteúdo está dividido em três unidades que irão auxiliar no seu entendimento sobre as qualidades e expectativas relacionadas aos aspectos sensoriais das cervejas de diferentes escolas cervejeiras e como trabalhar com cada ingrediente para gerar a excelência final esperada para a bebida planejada. Na Unidade 1, abordaremos a separação das cervejas, compreendendo quais são e como surgiram as principais escolas cervejeiras do mundo. Além disso, iremos ver os principais estilos cervejeiros de cada escola e quais são suas características sensoriais mais marcantes. Em meio a isso tudo, vamos abordar um pouco do cenário cervejeiro no Brasil e como ele se comporta hoje em face dos demais. Em seguida, na Unidade 2, aprenderemos as características sensoriais dos insumos cervejeiros e como eles afetam os atributos sensoriais da bebida pronta para consumo. Passaremos por todos os ingredientes base da cerveja (água, malte, lúpulo e levedura) a fim de relacionar suas características químicas e bioquímicas com o resultado sensorial promovido por cada um deles durante o processamento. Por fim, na Unidade 3, estudaremos um pouco sobre a introdução a análise sensorial como ciência. Entenderemos sua importância para a indústria cervejeira e como o papel de provadores treinados na identificação das principais características e dos problemas mais comuns do processo cervejeiro em suas diferentes etapas pode conduzir ou não a bebida para uma qualidade superior diante do mercado. Além disso, vamos identificar as características sensoriais marcadas como esperadas e como problemáticas para a cerveja como um todo. Bom estudo! Prof.a Ana Carolina Prudenciatto Ortelani Prof. Roberto Cesar Santos de Sousa Prof.a Verena Fiscina de Melo APRESENTAÇÃO Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos. GIO Olá, eu sou a Gio! No livro didático, você encontrará blocos com informações adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender melhor o que são essas informações adicionais e por que você poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto estudado em questão. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. 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SUMÁRIO UNIDADE 1 — TIPOS DE CERVEJA E SEUS RESULTADOS ................................................... 1 TÓPICO 1 — SEPARAÇÃO DAS CERVEJAS ...........................................................................3 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................3 2 HISTÓRIA DA CERVEJA NO BRASIL E NO MUNDO ............................................................3 3 ESCOLAS CERVEJEIRAS ...................................................................................................8 3.1 ESCOLA ALEMÃ......................................................................................................................................8 3.2 ESCOLA BELGA ................................................................................................................................... 10 3.3 ESCOLA AMERICANA ..........................................................................................................................12 3.4 ESCOLA INGLESA ............................................................................................................................... 14 3.5 ESCOLA BRASILEIRA ......................................................................................................................... 15 RESUMO DO TÓPICO 1 ......................................................................................................... 16 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................. 17 TÓPICO 2 — CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS DOS INSUMOS E SEUS RESULTADOS ..... 19 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 19 2 COMPOSIÇÃO DA CERVEJA ............................................................................................20 3 PROPRIEDADES FÍSICAS E SENSORIAIS ....................................................................... 22 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................................ 26 AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................27 TÓPICO 3 — ANÁLISE SENSORIAL DOS INSUMOS E COMPARATIVO COM PRODUTO FINAL ............................................................................................. 29 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 29 2 ANÁLISE SENSORIAL DE INSUMOS CERVEJEIROS ...................................................... 30 2.1 ÁGUA ........................................................................................................................................................31 2.2 MALTE ....................................................................................................................................................32 2.3 LÚPULO .................................................................................................................................................32 2.4 LEVEDURAS .........................................................................................................................................33 2.5 AUXILIARES DE PROCESSAMENTO ...............................................................................................33 3 OUTRAS CONSIDERAÇÕES ............................................................................................. 34 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................................ 35 RESUMO DO TÓPICO 3 .........................................................................................................37 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 38 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................... 41 UNIDADE 2 — AROMAS E PROFUNDIDADE DE SABORES ................................................ 43 TÓPICO 1 — DIFERENTES TIPOS E ESTILOS DE CERVEJA E SEUS SABORES ................ 45 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 45 2 TIPOS DE CERVEJA ......................................................................................................... 46 2.1 CERVEJA ALE ...................................................................................................................................... 48 2.1.1 Weizenbier ou Weissbier ........................................................................................................... 48 2.1.2 Witbier ...........................................................................................................................................49 2.1.3 Stout .............................................................................................................................................50 2.1.4 India Pale Ale (IPA) .....................................................................................................................51 2.1.5 Pale Ale ........................................................................................................................................52 2.1.6 Strong Golden Ale .....................................................................................................................53 2.1.7 Red Ale ..........................................................................................................................................53 2.1.8 Kölsch ...........................................................................................................................................54 2.1.9 Porter ............................................................................................................................................55 2.2 CERVEJA LAGER ................................................................................................................................56 2.2.1 American Lager ..........................................................................................................................56 2.2.2 Pilsen ........................................................................................................................................... 57 2.2.3 European Amber Lager ...........................................................................................................58 2.2.4 Dark Lager ..................................................................................................................................58 2.2.5 Bock .............................................................................................................................................59 2.3 CERVEJA DE FERMENTAÇÃO ESPONTÂNEA...............................................................................60 2.3.1 Gueuze ..........................................................................................................................................61 2.3.2 Faro ...............................................................................................................................................61 2.3.3 Fruit Lambic ................................................................................................................................61 2.4 FERMENTAÇÃO HÍBRIDA ..................................................................................................................62 2.4.1 Cream Ale ....................................................................................................................................62 2.4.2 Blonde Ale ..................................................................................................................................62 2.4.3 American Wheat ........................................................................................................................62 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................................ 63 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 64 TÓPICO 2 — SENTIDOS HUMANOS ENVOLVIDOS NAS AVALIAÇÕES SENSORIAIS .........67 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................67 2 MEMÓRIA SENSORIAL ..................................................................................................... 68 2.1 TIPOS DE MEMÓRIA SENSORIAL......................................................................................................68 2.1.1 Memória icônica ou memória visual ......................................................................................69 2.1.2 Memória ecoica ou memória auditiva ..................................................................................70 2.1.3 Memória háptica ou memória tátil ........................................................................................70 3 A IMPORTÂNCIA DE GERAR, MANTER E APERFEIÇOAR A BIBLIOTECA SENSORIAL .....70 4 SENTIDOS HUMANOS ENVOLVIDOS E SUAS RELAÇÕES ...............................................72 4.1 VISÃO ...................................................................................................................................................... 73 4.2 OLFATO .................................................................................................................................................. 74 4.3 AUDIÇÃO ............................................................................................................................................... 74 4.4 TATO .......................................................................................................................................................75 4.5 PALADAR .............................................................................................................................................. 75 RESUMO DO TÓPICO 2 ......................................................................................................... 77 AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................78 TÓPICO 3 — CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS E COMPARATIVO DE SABORES ..............81 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................81 2 CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS DOS ALIMENTOS ...................................................... 82 2.1 APARÊNCIA ...........................................................................................................................................82 2.2 ODOR/AROMA ..................................................................................................................................... 84 2.3 TEXTURA .............................................................................................................................................. 84 2.4 SABOR E GOSTO .................................................................................................................................85 3 COMPARATIVO DE SABORES .......................................................................................... 86 3.1 ANÁLISE VISUAL ..................................................................................................................................86 3.2 ANÁLISE DE AROMA ..........................................................................................................................87 3.3 ANÁLISE DE SABOR ...........................................................................................................................87 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................................ 89 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................................ 93 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 94 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................97 UNIDADE 3 — ANÁLISE SENSORIAL DA CERVEJA ............................................................99 TÓPICO 1 — TEORIA E TÉCNICAS DA ANÁLISE SENSORIAL ............................................ 101 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 101 2 DEFINIÇÃO DE ANÁLISE SENSORIAL ............................................................................102 3 COMUNICAÇÃO SENSORIAL ......................................................................................... 104 3.1 VISÃO ....................................................................................................................................................105 3.2 OLFATO ................................................................................................................................................106 3.3 AUDIÇÃO .............................................................................................................................................106 3.4 TATO ..................................................................................................................................................... 107 3.5 PALADAR ............................................................................................................................................ 107 4 O QUE INFLUENCIA NUMA ANÁLISE SENSORIAL .........................................................108 4.1 FATORES FISIOLÓGICOS ..................................................................................................................108 4.2 FATORES PSICOLÓGICOS ...............................................................................................................109 4.3 FATORES FÍSICOS .............................................................................................................................109 5 RODA DE AROMAS ...........................................................................................................111 RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................... 113 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 114 TÓPICO 2 — TIPOS DE TESTES SENSORIAIS .....................................................................117 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................................117 2 DISCRIMINATIVOS .......................................................................................................... 121 2.1 COMPARAÇÃO PAREADA .................................................................................................................121 2.2 TRIANGULAR ..................................................................................................................................... 122 2.3 DUO-TRIO ........................................................................................................................................... 122 2.4 ORDENAÇÃO ...................................................................................................................................... 123 2.5 COMPARAÇÃO MÚLTIPLA ............................................................................................................... 123 3 AFETIVOS ........................................................................................................................124 3.1 TESTE DE PREFERÊNCIA ................................................................................................................. 124 3.2 TESTE DE ACEITAÇÃO ..................................................................................................................... 125 4 DESCRITIVOS ..................................................................................................................125 4.1 ANÁLISE DESCRITIVA QUANTITATIVA (ADQ) .............................................................................. 126 4.2 PERFIL DE TEXTURA ........................................................................................................................ 127 4.3 MÉTODO CATA (CHECK-ALL-THAT-APPLY) ................................................................................128 RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................130 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 131 TÓPICO 3 — TEORIA E PRÁTICA DE IDENTIFICAÇÃO DE DEFEITOS (OFF-FLAVORS) .....133 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................133 2 O QUE SÃO OS OFF-FLAVORS ........................................................................................134 3 QUAIS OS PRINCIPAIS OFF-FLAVORS DAS CERVEJAS ...............................................135 3.1 ACETALDEÍDO..................................................................................................................................... 135 3.2 ADSTRINGENTE................................................................................................................................. 136 3.3 ALCOÓIS SUPERIORES .................................................................................................................... 137 3.4 OXIDAÇÃO ..........................................................................................................................................137 3.5 DIACETIL .............................................................................................................................................138 3.6 DIMETILSULFURETO (DMS) ...........................................................................................................138 3.7 ÉSTERES ............................................................................................................................................. 139 3.8 CLOROFENOL .................................................................................................................................... 139 3.9 METÁLICO ...........................................................................................................................................140 3.10 MOFO ..................................................................................................................................................140 3.11 SABÃO ................................................................................................................................................140 3.12 GAMBÁ OU LIGHT-STRUCK..............................................................................................................141 3.13 FERMENTO .........................................................................................................................................141 4 O QUE CAUSA E COMO EVITAR OS OFF-FLAVORS ........................................................142 LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................143 RESUMO DO TÓPICO 3 .......................................................................................................145 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................146 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................149 1 UNIDADE 1 — TIPOS DE CERVEJA E SEUS RESULTADOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • aprender o que caracteriza cada cerveja em seu sabor; • conhecer a diferença dos resultados mediante seus ingredientes; • medir a qualidade da cerveja por meio da análise; • identificar potencialidade em cervejas com suas análises. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – SEPARAÇÃO DAS CERVEJAS TÓPICO 2 – CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS DOS INSUMOS E SEUS RESULTADOS TÓPICO 3 – ANÁLISE SENSORIAL DOS INSUMOS E COMPARATIVO COM PRODUTO FINAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 SEPARAÇÃO DAS CERVEJAS TÓPICO 1 — UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, abordaremos as origens da cerveja e sua importância no desenvolvimento social e econômico das regiões onde era produzida. A impulsão econômica e social que ocorreu nos locais onde foi identificada sua produção, bem como o desenvolvimento e criação das Escolas Cervejeiras, a importância de cada uma delas e também suas particularidades. A literatura cervejeira popular está repleta de receitas para os tipos tradicionais de cerveja. Esses produtos são produzidos em grande parte variando a composição do grão de malte (e adjunto). Isso é conseguido incluindo maltes, caramelos e açúcares especializados. Outras variações envolvem a mudança da natureza das variedades de lúpulo usadas, variando os tempos de adição de lúpulo à chaleira e o dry hopping. A natureza do processo de condicionamento e o uso de açúcares primários também afetam marcadamente o sabor da cerveja. Evidências apontam que a fabricação de cerveja surgiu historicamente pelo menos no mesmo período em que o homem iniciou o cozimento do pão, e, certamente, ambos são tão antigos quanto o início da história registrada. A cerveja é mencionada por Xenofonte e Aristóteles (como citado por Ateneu). Entre outros, o cônsul romano e estudioso Plínio, o Jovem, estimou que cerca de 200 tipos de cerveja estavam sendo fabricados na Europa no primeiro século. Os textos latinos referem-se às bebidas de cevada como cerevisia ou cerevisium, palavras de raiz que ainda estão conosco nas palavras espanholas e portuguesas para cerveza e cerveja, bem como no nome latino para a levedura de cerveja, Saccharomyces cerevisiae. 2 HISTÓRIA DA CERVEJA NO BRASIL E NO MUNDO A maior parte dos historiadores concordam que o ser humano pré-histórico deixou de ser nômade quando desenvolveu as primeiras técnicas de agricultura e passou a cultivar grãos. Posteriormente, com a possibilidade de cultivar cereais como o sorgo, a cevada e o trigo, permitiu-se a fixação desses grupos, os desobrigando a constantemente estar em locomoção para buscar alimentos. 4 A fabricação de cerveja é geralmente considerada como um subproduto do desenvolvimento da agricultura, embora a opinião minoritária sustente que o cultivo de cereais se originou como consequência do desejo do homem pelo álcool, e não vice- versa. Quaisquer que sejam as origens exatas da fabricação de cerveja, os artefatos históricos sobreviventes nos permitem rastreá-la até os mesopotâmios cerca de 6.000 ou 7.000 anos atrás. Os antigos egípcios eram cervejeiros, e a cerveja, fabricada do sorgo cereal nativo, ainda é parte integrante da política da vida tribal africana. O desenvolvimento histórico da cerveja e da indústria cervejeira está, no entanto, ligado ao norte da Europa, onde o frio inibiu o desenvolvimento da viticultura. Há também registros com símbolos que denotam que essas bebidas fermentadas eram usadas como mercadorias e moedas de troca aproximadamente em 4000 a.C., antes até do surgimento da escrita, os hieroglifos que identificavam comida eram o pão e os vasos onde foram identificados os resquícios da bebida fermentada (cerveja) (ESSLINGER, 2009; MOSHER; TRANTHAM, 2017). Existem ainda registros de bebidas fermentadas a base de cereais em várias civilizações e partes do mundo, como: sumérios e babilônios (1730 a.C.), egípcios (2200 a.C.), gregos e romanos (49 a.C.), trácios e celtas (cerca de 23-79). A cerveja era parte integrante da cultura da população agrária do norte e centro da Europa no período medieval e no início da era moderna. As cervejas mais fracas eram aceitas como parte essencial da dieta de todos e as cervejas mais fortes como uma fonte necessária de consolo em períodos muito breves de lazer em um mundo inóspito. Durante os períodos das idades clássica e média, a produção de cerveja foi muito condicionada a pequenos volumes para consumo local, nos próprios locais de produção. Esse processo absolutamente caseiro foi, por muito tempo durante este período, de inteira responsabilidade das mulheres/esposas da família constituída. Isso ocorria, porque a cerveja fazia parte da dieta destas pessoas. Em adição a isso, a fabricação de cerveja, que à época levava uma gama de especiarias e ervas (o Gruit, por exemplo), possuía atividades curativas, sendo muitas vezes tratada como um produto medicinal, além de ser um bom substituinte para a água, que tinha baixa potabilidade naquele período (CABRAS; HIGGINS, 2016; MOSHER; TRANTHAM, 2017). A escala de fabricação de cerveja variou de alguns hectolitros (hL) anualmente na casa média para centenas, ou, ocasionalmente, milhares de hectolitros nos maiores mosteiros e casas de campo. A fabricação de cerveja doméstica ainda representava bem mais da metade da cerveja produzida no final do século XVII. 5 A fabricação de cervejacomercial era geralmente confinada a tavernas e pequenas cervejarias. Estas últimas produziram uma ampla seleção de cervejas de diferentes intensidades, de cor marrom clara a escura, predominantemente para consumo local. A maior dessas cervejarias poderia chegar a dezenas de milhares de hectolitros, mas a verdadeira industrialização da fabricação de cerveja não começou até que o aumento da urbanização e o crescimento populacional concentrado forneceram um mercado pronto para a cerveja produzida em grande escala (ESSLINGER, 2009; MOSHER; TRANTHAM, 2017). FIGURA 1 – ABADIA DE NOTRE DAME D'ORVAL, FAMOSA PELA PRODUÇÃO DE CERVEJA BELGA TRAPISTA FONTE: <https://shutr.bz/35lOVFp>. Acesso em: 3 mar. 2022. Ainda em período anterior à profissionalização e industrialização cervejeira, os monges tornaram-se pesquisadores, aprimoraram métodos de fabricação e introduziram o conceito de conservação a frio das bebidas. Esses locais eram organizados, ali foram desenvolvidas várias receitas que eram guardadas em segredo, tornando esses mosteiros, os únicos locais com capacidade para produção em maior escala. A demanda por cerveja apresentava um crescimento significativo, exigindo especialização e profissionalismo daqueles envolvidos na produção, tendo em vista as dificuldades inerentes de uma produção cada vez maior, que demandava altos investimentos em equipamentos e matérias-primas. O processo de urbanização dos séculos XII e XIII ajudou na criação de negócios especializados em cerveja e na concentração do público consumidor. Durante esse período, notou-se a criação de estabelecimentos e instituições ligadas à produção e comércio dessas bebidas, consolidando-as como um produto comercial. Aos poucos, a produção deixou de ser caseira, responsabilidade das mulheres donas de casa e produção artesanal. Começavam a surgir grupo de pessoas que se juntavam para produzir, comercializar em maior escala e com isso, visar lucro. 6 A divisão do trabalho e a especialização eram as características mais significativas das economias urbanas. Os artesãos e comerciantes especializados eram os pilares da economia urbana. Os artesãos foram rápidos em se organizar em corporações, guildas autônomas responsáveis pela admissão à fabricação de cerveja, treinamento, qualidade do produto e provisão de pensões e fraternidades para caridade. As guildas tinham considerável poder decisório na política ao representarem os produtores de cerveja da época. Isso permitia as guildas impor multas e outros tipos de regulamentos e decretos. Registros de guildas de cervejeiros existem já em 1200 para Londres, 1230 para Regensburg, 1267 para Ypern e 1280 para Munique. Guildas de malteadores também surgiram em meio a uma especialização em cidades como Brunswick. Pouco depois, os trabalhadores também se organizaram. Em 1447, em Bruges (Flandres), a primeira associação de trabalhadores de cervejaria (fraternitas sancti vincenti) reuniu-se para se proteger contra “estalajadeiros, mulheres e reitores”. A especialização na produção de cerveja foi um marco da transformação localizada e caseira para um perfil profissional e lucrativo. A partir do século XVI, guildas de cervejeiros eram encontradas nas mais importantes cidades europeias e acumulavam e exerciam pressões políticas até o início do século XIX (ESSLINGER, 2009). No início do século XVII, graças à alta de demanda por cevada, os produtores viram a elevação do preço do cereal diminuir a margem de lucro na venda do produto, acirrando a competição entre os mercados. Novas cervejarias foram introduzidas e países que, até então, lucravam com a exportação da bebida, começaram a enfrentar concorrentes locais. Foi um período de grandes mudanças de hábitos, não apenas relacionados a cerveja, mas também na busca por novidades, principalmente no que se referia ao paladar. O século XIX caracterizou-se por um forte e contínuo crescimento na produção de cerveja. Tanto produção quanto consumo de cervejas aumentaram significativamente a partir de 1975 até as vésperas da Primeira Guerra Mundial, momento marcado por uma queda acentuada nos preços globais dos grãos (CABRAS; HIGGINS, 2016). No entanto, a evolução no século XX é caracterizada tanto pelo crescimento quanto pelo declínio. Na maioria dos países, a produção de cerveja diminuiu drasticamente no período de 1915-1950, mas por razões diferentes. Na Europa, a produção caiu cerca de 70% durante a Primeira Guerra Mundial. A indústria cervejeira sofreu muito, principalmente nas partes ocupadas da Europa. A mobilização fez que muitos trabalhadores da indústria cervejeira fossem dispersos, o que levou à escassez de funcionários nas cervejarias. Além disso, materiais metálicos (como cobre), veículos e animais de tração foram requisitados pelas forças de ocupação. Como consequência, muitas cervejarias tiveram que fechar seus negócios. 7 Após a guerra, a escassez de matérias-primas persistiu por vários anos. As cervejarias que queriam recomeçar ou aumentar a produção tinham que improvisar com o que podiam encontrar. Por vários anos após a guerra, todos os tipos de grãos, ervilhas, beterrabas e feijões foram usados para produzir cerveja. No entanto, a produção de cerveja recuperou-se fortemente em alguns países europeus após a guerra (CABRAS; HIGGINS, 2016). Algumas leis em países mundo afora também começaram a limitar o consumo, como o Vandervelde Act (1919, Bélgica) e a Lei Seca nos Estados Unidos (1920), que se encerrou em 1933 após revogação enviada pelo então eleito presidente, Franklin Roosevelt. O Brasil era marcado pelo alto consumo da cachaça entre a população em geral, enquanto a elite aristocrata era voltada para o consumo de vinhos europeus. A introdução da cerveja no país ocorreu apenas em meados do século XVII pelos holandeses por meio da Companhia das Índias Orientais. Logo após a expulsão dos holandeses, a cerveja parou de circular no mercado interno, retornando apenas 150 anos depois com a abertura do comércio nacional para outras nações como a Inglaterra, que passou a exportar para o Brasil as suas cervejas. O fim do século XIX foi marcado pelo que são, atualmente, grandes marcas cervejeiras nacionais. A Antarctica Paulista surgiu em 1888 e se tornou, a partir de 1891, a Companhia Antártica Paulista, estabelecida no estado de São Paulo. Enquanto isso se estabelecia no estado do Rio de Janeiro a Manufatura de Cerveja Brahma, que mais tarde, em 1904, se tornaria a Companhia Cervejaria Brahma. Mais adiante, já no século XX, outras indústrias foram inseridas no mercado cervejeiro como a Cerpa (Cervejaria Paraense) e a Skol, ambas no fim da década de 1970. Ainda sobre a Skol, esta foi responsável pela primeira cerveja comercializada nacionalmente em lata, a Skol Pilsen, já nos anos 1980. A proliferação do mercado cervejeiro nacional passou por crescimento significativo desta época em diante, evidenciados pela instauração de diversas marcas como a Cervejaria Kaiser em 1980 em Divinópolis (MG) e a Primo Schincariol em 1989, no interior do estado de São Paulo. Muitas outras cervejarias de distintos portes surgiram até que, em 1999, ocorreu a fusão da Antarctica com a Brahma, dando origem ao grupo AmBev (Companhia de Bebidas das Américas) com alcance multinacional. Posteriormente, o grupo AmBev passou pela fusão com a cervejaria belga Interbrew, dando assim prosseguimento à entrada desta nova cervejaria a um nível de produção e comércio global. 8 3.1 ESCOLA ALEMÃ A Alemanha tem sido uma das nações cervejeiras mais importantes do mundo e a principal nação produtora de cerveja da Europa.A indústria cervejeira alemã também foi conhecida por sua estrita adesão à Reinheitsgebot, a “Lei da Pureza da Cerveja Alemã” ou “Lei da Pureza da Baviera”. Promulgado pela primeira vez em 1516 na cidade de Ingolstadt, na Baviera, foi adotado em toda a Alemanha. De fato, a Baviera insistiu em sua adoção como pré- condição para ingressar no Império Alemão em 1871. Especificamente, a lei restringe os ingredientes permitidos na cerveja a água, cevada e lúpulo. Nenhuma menção foi feita à levedura porque o papel desse microrganismo não era conhecido nem entendido até o trabalho de Louis Pasteur no século XIX. 3 ESCOLAS CERVEJEIRAS Neste subtópico, falaremos um pouco de cada uma das maiores e mais expressivas escolas cervejeiras, sua importância dentro da história da bebida e suas características individuais. Se toda a cerveja do mundo fosse feita de uma receita idêntica, o julgamento seria baseado apenas no processo do cervejeiro, ou seja, se o cervejeiro seguiu a receita corretamente. Mas este não é o caso. A cerveja no mundo não é a mesma de região para região e até mesmo de cervejaria para cervejaria. No universo cervejeiro podem ser encontradas inúmeras receitas e dicas de processamento semelhantes, que podem até indicar pouca variabilidade das bebidas disponíveis, mas que despontam a resultados significativamente distintos. Com isso, várias tentativas de organizar essas receitas foram aplicadas, resultando em uma classificação usual na cultura cervejeira, conhecida como estilo. Algumas listas de estilos de cerveja chegam a mais de 100 entradas. Como em qualquer sistema de taxonomia, como a classificação de espécies em biologia, organizar os estilos em grupos com características semelhantes. Algumas cervejas são classificadas por cor, algumas por seu bico de malte (as proporções de grãos maltados usados), algumas por seu país de origem e algumas pela espécie de levedura usada na fermentação. Todos estes diferentes tipos de cervejas, suas técnicas de produção e seus ingredientes base surgiram do conhecimento e de tecnologias disponíveis nas proximidades de fabricação. Esse conhecimento agregado evoluiu dentro dos preceitos culturais de fabricantes de cervejas próximos. Com isso, foram sendo criados centros de conhecimento que originaram o que se conhece hoje como escolas cervejeiras, cada qual contribuindo com suas particularidades e estilos cervejeiros para atender aos mais variados grupos consumidores. 9 Como forma de restringir as importações para a Alemanha, o Reinheitsgebot foi derrubado em uma decisão do Tribunal de Justiça Europeu de 1988, mas para a cerveja fabricada na Alemanha, os cervejeiros alemães geralmente ainda seguem o Reinheitsgebot por uma questão de orgulho – e porque é uma boa publicidade para descrever suas cervejas como sendo fabricadas sob este antigo regulamento. As cervejas da Escola Alemã não são tão complexas e variadas quanto as cervejas belgas ou americanas. A cerveja Lager é predominante na maioria dos países, inclusive no Brasil, mas as cervejarias alemãs produzem uma variedade de Lagers. A maioria das cervejarias oferece uma variedade que inclui Pale Lagers (helles), Dark Lagers (dunkel), cervejas sazonais (incluindo märzen), Bocks e Double Bocks (doppelbocks). As cervejas de trigo são cada vez mais populares e são conhecidas como Weiss (branca) ou Weizen (trigo). A Hefeweizen, hoje copiada mundialmente, é literalmente uma cerveja de trigo (weizen) que não é filtrada e, portanto, ainda possui levedura (hefe) em suspensão. A cerveja de trigo é fabricada em toda a Alemanha com estilos específicos indígenas do norte da Alemanha, Baviera e especialmente Berlim, onde a Berliner Weisse é a marca registrada da cidade. Em 1930, a Alemanha produziu 58 milhões de hectolitros de 4.669 plantas em comparação com 20 milhões de hectolitros de 610 plantas na Grã-Bretanha e nenhuma produção nos Estados Unidos por causa da Lei Seca. A Segunda Guerra Mundial esmagou toda a produção industrial alemã, mas em cinco anos, 2.637 cervejarias foram reabertas e estavam produzindo 10 milhões de hectolitros. Em 1965, a produção era de 66 milhões de hectolitros de 2.125 cervejarias. Até o início da década de 1970, a maioria das cervejas vendidas na Alemanha era fabricada em uma cervejaria local, mas depois disso foi feito um movimento para a criação de mais marcas nacionais. O festival da cerveja conhecido como Oktoberfest, realizado em Munique, é o maior do mundo, recebendo cerca de seis milhões de participantes anualmente. Oktoberfest originou-se como uma celebração do casamento do príncipe herdeiro Ludwig da Baviera (mais tarde rei Ludwig I) e da princesa Teresa de Saxe-Hildburghausen, em 12 de outubro de 1810. As festividades ocorreram em Munique no campo conhecido como Theresienwiese (prado de Theresa), e ainda são mantidos lá hoje. A Oktoberfest dura 16 dias, terminando no primeiro domingo de outubro, a menos que esse dia caia antes do Dia da Unidade Alemã (3 de outubro), caso em que a Oktoberfest continua por um décimo sétimo dia. Esta Oktoberfest original inspirou inúmeras outras Oktoberfests na Alemanha e em todo o mundo. INTERESSANTE 10 Os principais estilos de cerveja produzidos pela Escola Alemã (HERZ; CONLEY, 2015; YENNE, 2014; MOSHER; TRANTHAM, 2017): • Pilsner ou Pilsen, não só é o estilo mais produzido quanto o mais consumido do mundo, cujas características marcantes se relacionam à cor dourada e à facilidade em consumi-la. • Helles é um estilo que se assemelha em características à Pilsen, sendo mais adocicada em virtude dos maltes aplicados, causando uma impressão geral de menos amargor. • Bock, também conhecida como “cerveja de inverno”, tem cor avermelhada e intensa, leva em sua receita bastante malte, tem teor alcoólico mais elevado e, na boca, deixa a sensação de caramelização bem presente, graças ao sabor do malte. • Oktoberfest ou Märzen é comercializada apenas na Oktoberfest. Possui maior teor alcoólico que a tradicional Pilsen. No entanto, também apresenta a cor dourada e refrescância. • Schwarzbier é cerveja de malte tostado, sabor amargo e sem gosto de café ou chocolate, como boa parte das cervejas escuras, além de ser bem leve. • Rauchbier é cerveja com alta carga de malte do processo de produção, dando a ela um aroma e sabor bastante defumado. • Weissbier ou Weizen é feita de trigo, turva, de coloração amarela, com formação de espuma cremosa e refrescante, com uma leve acidez no sabor. • Altbier é produzida principalmente na região de Dusseldorf. Amarga, frutada e de coloração marrom ou vermelha escura. • Kölsch é produzida principalmente na região de Colônia. Tem notas herbais no sabor além de um leve frutado. • Berliner Weisse é ácida e bastante consumida no verão Alemão. Geralmente é servida acompanhada de xarope de frutas, deixando a cerveja com uma coloração diferente além de um sabor bastante doce. 3.2 ESCOLA BELGA A Escola Belga de cervejas pode ser classificada como a mais tradicionalista. Originária da região da Gália, o que, atualmente, compreende entre a França e Bélgica, a Escola Belga começou a produção de suas cervejas características ainda durante a expansão do Império Romano. Com a queda do Império Romano e a expansão da influência da Igreja Católica, muitos mosteiros se estabeleceram na região equipados com instalações próprias para a produção e consumo de cerveja entre os monges. Embora seja uma nação pequena e um produtor de cerveja de volume relativamente pequeno, a Bélgica é classificada como uma das nações cervejeiras mais importantes do mundo e uma experiência sem precedentes para o viajante de cerveja. A Bélgica é o lar da misteriosa e rara Westvleteren 12, uma cerveja fabricada em um mosteiro que sempre apareceno topo de quase todas as listas sérias das dez melhores cervejas do mundo. Entretanto, é difícil encontrar tal lista em que os cervejeiros belgas não estejam bem representados. 11 Na Bélgica, seja na Flandres ao norte ou na Valônia francófona ao sul, o viajante pode escolher entre uma variedade estonteante e um nível de qualidade quase inédito em outros lugares. O fato de cada estilo de cerveja – e muitas marcas dentro dos estilos – ter seu próprio copo distinto, é um assunto de grande fascínio para o viajante cervejeiro ao visitar um bar que tem muitas cervejas de pressão. Prateleiras e mais prateleiras de vidros de formas diferentes estão acima, ao redor e atrás do bar. O viajante de cerveja também apreciará a Bélgica por sua compacidade. Muitas cervejarias artesanais de classe mundial estão localizadas a uma distância relativamente curta umas das outras, separadas apenas pela pitoresca paisagem flamenga e valônica. De fato, o terreno plano permite que muitos viajantes façam seus passeios pela cervejaria de bicicleta. Nesse passeio, o viajante encontrará muito mais cervejarias do que se pode imaginar. A maior cervejaria do mundo, AB InBev, tem sede nominal na Bélgica, embora seja uma empresa multinacional com muitos centros de gravidade de Nova York a São Paulo, e é negociada na Bolsa de Valores de Nova York, bem como na Euronext. Ele evoluiu de pontos em três continentes. O ponto belga foi a Interbrew, formada em 1988 por intermédio da fusão das duas maiores cervejarias da Bélgica, Brouwerij Artois (famosa por sua Stella Artois lager) em Leuven e Piedboeuf em Jupille (famosa por sua Jupiler lager). Enquanto isso, no Brasil, em 1999, uma empresa chamada AmBev foi criada por uma consolidação de cervejarias das quais a principal cervejaria era a Brahma. A Interbrew e a AmBev fundiram-se em 2004 para se tornar a InBev, compraram a Anheuser-Busch em 2008 e tornaram-se a AB InBev. INTERESSANTE Ao definir as cervejas belgas em geral, o que é difícil porque há tantas exceções, devemos dizer que as cervejas belgas não são tão lupuladas com lúpulo amargo quanto as cervejas artesanais no mundo anglo-americano, e que as cepas de leveduras belgas fornecem um sabor frutado e caráter floral. Ao contrário das cervejas alemãs, que aderem às rígidas restrições de água, lúpulo e cevada do Reinheitsgebot, a tradição belga permite especiarias, frutas, açúcar adicionado e muita experimentação. A Escola Belga é representada por seis estilos (HERZ; CONLEY, 2015; YENNE, 2014), a saber: • Belgian-Style Dubbel variam de marrom a muito escuro na cor. As cervejas têm uma doçura maltada e podem ter sabores de chocolate, caramelo, toffee, passas e ameixa. O amargor do lúpulo é médio-baixo a médio. Ésteres frutados gerados por leveduras (especialmente banana) podem ser aparentes. Muitas vezes condicionado em garrafa, uma leve névoa e sabor de levedura também podem ser perceptíveis. Como você poderia esperar, um dubbel é o irmão mais novo do quadrupel de estilo belga. 12 • Belgian-Style Tripel estão frequentemente na extremidade superior do espectro ABV, mas são acessíveis a muitos paladares diferentes. O sabor complexo, às vezes suave, mas picante, caracteriza este estilo, juntamente com a complexidade impulsionada pela levedura. As cervejas são geralmente acondicionadas em garrafa e terminam secas. As Tripels são semelhantes às Golden Strong Ales de estilo belga, mas geralmente são mais escuras e têm um nível mais perceptível de doçura do malte. • Witbier são fabricados com trigo não maltado (e às vezes aveia), bem como cevada maltada. No entanto, o que a maioria das pessoas percebe primeiro é o tempero, tradicionalmente coentro e casca de laranja. Wits também pode ter uma nota de fundo baixa de acidez láctica. Um estilo que remonta a centenas de anos, a sagacidade caiu em relativa obscuridade até ser revivida pelo cervejeiro belga Pierre Celis na década de 1960. Este estilo está atualmente passando por um renascimento, especialmente no mercado americano. • Flanders caracterizam-se por acidez láctica leve a forte. Este estilo é uma maravilha em complexidade de sabor, combinando malte, levedura, microorganismos, acidez e baixa adstringência do envelhecimento em barris. Sabores semelhantes à cereja são frequentemente encontrados e, às vezes, também um caráter semelhante ao cacau. Carvalho ou outros sabores de madeira podem estar presentes, mesmo que a cerveja não tenha sido envelhecida em barris. • Belgian-Style Lambic são douradas a âmbar, com certa turbidez aceitável. Este estilo pode incluir atributos florais de lavanda. O caráter de lúpulo é obtido usando lúpulos envelhecidos em baixas concentrações. Com pouco amargor, estas cervejas apresentam aromas fenólicos característicos e sabores derivados da levedura Brettanomyces estão frequentemente presentes em níveis moderados. Ésteres frutados altos a muito altos estão presentes. • Belgian-Style Fruit Lambic recebem a adição de frutas que podem influenciar não só no sabor e aroma, mas também na cor da cerveja. Este estilo resguarda muitas características semelhantes ao estilo Lambic, com a adição de um certo azedume vindo das frutas. 3.3 ESCOLA AMERICANA A história da cultura cervejeira na maioria das nações ao redor do mundo está profundamente enraizada e afetada por uma tradição antiga e estabelecida que continua a exercer sua influência hoje. Nos Estados Unidos, por outro lado, foi encontrada uma situação em que a tradição foi interrompida, suspensa por uma dezena de anos, efetivamente descartada por meio século, depois completamente reinventada. Desde as duas últimas décadas do século XX, a cultura cervejeira americana tem sido impulsionada por cervejeiros que abordaram um cenário bruto com determinação obstinada, motivados por sua própria criatividade, uma quase obsessão por inovação e uma base de consumidores aguardando ansiosamente a grandeza de fascinantes novas marcas de cerveja que são lançadas a cada ano. Na segunda década do século XXI, havia mais de 2.500 cervejarias nos Estados Unidos, um aumento de 50 vezes em relação a 1980. 13 Após a revogação da Lei Seca nos Estados Unidos, em 1933, apenas 756 cervejarias reabriram, e muitas delas faliram durante a Grande Depressão. A ascensão das marcas nacionais, com suas cervejarias de escala industrial em vários locais, definiu o cenário de uma indústria. Os pequenos cervejeiros locais e regionais não conseguiram competir e muitos desapareceram. Em 1965, menos de 200 cervejarias permaneciam nos Estados Unidos e apenas 15 anos depois o número de cervejarias havia caído para menos de 50. Enquanto isso, o volume de cerveja produzido pelas marcas nacionais fez dos Estados Unidos a maior nação cervejeira do mundo por mais de meio século. De 105 milhões de hectolitros em 1959, a indústria dobrou para mais de 200 milhões (170 milhões de barris) em 1979. Os números correspondentes para a segunda colocada, Alemanha, naqueles anos foram 46 e 94 milhões de hectolitros. Na segunda década do século XXI, havia mais de 2.500 cervejarias nos Estados Unidos, um aumento de 50 vezes em relação a 1980. A Escola Americana, mais nova, caracteriza-se, então, por diversas releituras dos estilos tradicionais de escolas mais antigas e o uso de variedades próprias de seus ingredientes, principalmente no que diz respeito ao lúpulo (HERZ; CONLEY, 2015; YENNE, 2014). • American Amber Lager: uma adaptação da cerveja estilo Viena mais seca e menos centrada no lúpulo. É um estilo de cerveja artesanal amplamente disponível que mostra malte e lúpulo. As Amber Lagers são de corpo médio com um caráter de malte tostado ou caramelo. O amargor do lúpulo pode variar de muito baixo a médio-alto. • American India Pale Ale: caracterizada por lúpulos americanos florais, frutados, cítricos, pinheiros ou resinosos.Este estilo tem tudo a ver com sabor, aroma e amargor do lúpulo. Esta tem sido a categoria mais procurada no Great American Beer Festival por mais de uma década, e é o estilo cervejeiro americano mais vendido em supermercados e lojas de bebidas americanas. • American Pale Ale: amplamente considerada a cerveja artesanal americana original, o estilo começou em 1980 com Sierra Nevada Pale Ale e o lúpulo Cascade. Na verdade, era uma interpretação americana de um estilo inglês clássico. Hoje em dia, é provável encontrar uma American Pale Ale na maioria das cervejarias locais. E fácil de beber e, portanto, amigável para iniciantes em cerveja artesanal, mas ainda complexo o suficiente para agradar até o bebedor de cerveja artesanal mais experiente. Caracteriza-se pelo caráter frutado e cítrico do lúpulo da variedade americana, produzindo amargor, sabor e aroma de lúpulo médio a médio-alto. Corpo médio e malte baixo a médio, esta cerveja pode incluir baixo caráter de malte caramelo. A chave para esta cerveja é o equilíbrio entre malte e lúpulo, deixando ambos brilharem no sabor. • American Stout: esta é uma cerveja de café e chocolate, mas com um aroma e sabor de lúpulo perceptíveis, muitas vezes de uma variedade cítrica. As stouts americanas são ousadas, com um distinto amargor torrado no final. Os ésteres frutados devem ser baixos, mas a retenção de espuma é alta. Oatmeal é um ingrediente comum em American Stouts, dando mais corpo e retenção de espuma. A cevada torrada é o ingrediente que realmente diferencia essas cervejas das porters. 14 3.4 ESCOLA INGLESA A Escola Britânica de cervejas é, em conjunto com a alemã, uma das mais tradicionais e antigas. Abrangendo os estilos cervejeiros produzidos na Inglaterra, Irlanda e Escócia, este estilo é intimamente ligado à alta fermentação, tipo de fermentação em temperaturas maiores que utilizam a levedura Saccharomyces cerevisiae como base. As maiores temperaturas características deste modelo de fermentação estimulam as leveduras a produzir substâncias adicionais que compõem sabor e aroma das cervejas do tipo Ale. Neste sentido, as Ales são conhecidas por apresentarem características mais complexas e menos limpas que as Lagers. Por causa disso, existe uma variedade maior de estilos na Escola Britânica. A classificação das Ales da Inglaterra, Escócia e Irlanda inclui uma grande variedade de produtos relativamente semelhantes. As semelhanças não são muito óbvias, mas existem no tipo de malte e lúpulo que são usados na criação dessas cervejas. Embora agrupar a miríade de estilos diferentes nesta categoria elimine muitos dos estilos especiais que merecem menção individual, as tendências gerais nas diferenças dos estilos são a intenção (YENNE, 2014; MOSHER; TRANTHAM, 2017). • English Pale Ale/Extra Special Bitter (ESB): este estilo combinado de English Pale Ales e ESBs abrange uma gama de três estilos, amargo comum, amargo especial e amargo extra especial, ou ESB. Cada um é mais cheio de sabor e mais alto em álcool e açúcar residual do que o anterior. As Pale Ales inglesas possuem sabores terrosos e notas do lúpulo próprio da região. O amargor do lúpulo varia de médio a mais acentuado, quando as características da planta devem predominar. As cepas de levedura usadas nessas cervejas conferem um sabor frutado aos seus aromas e sabores, chamados de ésteres. O malte residual e a doçura definidora desta cerveja encorpada e de sabor rico é de médio a médio-alto. O ESB é conhecido por seu equilíbrio e pela interação entre o amargor do malte e do lúpulo. Scottish Ales: este estilo cervejeiro é marcado pelo sabor do malte. Possui sabores terrosos ou de ésteres sutis em razão da menor quantidade de lúpulo adicionado. Isso permite o destaque ao malte e pouco amargor característico do lúpulo. O resultado é uma cerveja maltada que tem muito pouco lúpulo ou amargor. Embora este seja o caso, o resultado não é um sabor excessivamente enjoativo ou doce. A faixa de ABV deste estilo varia entre 2 e 5%. Irish Ales: dentre os estilos de alta fermentação da Irlanda, o mais conhecido é a Stout. Trata-se de uma cerveja marcada pela coloração escura, quase preta, graças à quantidade significativa de maltes torrados aplicados, além do amargor acentuado próprio do lúpulo. Estas características resultam em sabores tostados e uma adstringência notável. Maiores valores de ABV são visíveis nas variedades de exportação das Irish Stouts, cuja versão mais conhecida é oriunda da marca 15 Guinness. Uma curiosidade inerente a este estilo é que a Guinness Extra Stout surgiu historicamente como a Extra Superior Porter, refletindo que a origem do estilo se conecta ao uso da palavra “Stout” como um indicativo de que a Stout era uma versão mais forte do estilo Porter. 3.5 ESCOLA BRASILEIRA O Brasil ainda não apresenta uma Escola Cervejeira robusta como as mais tradicionais do Reino Unido ou Alemanha. Mesmo assim, a produção cervejeira brasileira é alta e, segundo o Governo Federal, cerca de 14 bilhões de litros da bebida foram produzidas nacionalmente apenas no ano de 2016. Em razão do alto volume de produção e a grande demanda de mercado, o setor cervejeiro é responsável por cerca de 2,2 milhões de empregos e por 1.6% do PIB. A história cervejeira no Brasil iniciou-se por meio do Conde Maurício de Nassau, que introduziu as primeiras amostras da bebida no ano de 1637, quando desembarcou em Recife. Em companhia do Conde veio ao Brasil o cervejeiro Dirck Dicx, que auxiliou na construção da primeira cervejaria do continente em 1640. O comércio de cervejas em território nacional não deslanchou por causa da obrigatoriedade de compra dos vinhos portugueses à época. Esse cenário só foi alterado com a abertura das fronteiras econômicas do Brasil por força de decreto do rei Dom João VI, fato que permitiu a entrada das cervejas inglesas no país. No entanto, com o estabelecimento de colônias de imigrantes em várias regiões do país a partir de 1850, a preferência por cervejas da Escola Alemã estabeleceu-se, e foram difundidas. O mercado atual brasileiro de cervejas tem se destacado pelo surgimento de diversas microcervejarias que disponibilizam no mercado variações de estilos com notas próprias de sabor e aroma. Identifica-se o uso de adjuvantes para aumentar a complexidade sensorial da bebida como frutas e mel. Tudo isso resultou no primeiro estilo cervejeiro brasileiro reconhecido internacionalmente, a Catharina Sour. Desde 2007, o número de cervejarias e cervejas brasileiras cresceu seis vezes. Atualmente, temos registrada no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) 1383, dados do final do ano de 2020. FONTE: <https://bit.ly/3IbWsUE>. Acesso em: 7 mar. 2022. INTERESSANTE 16 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • As cervejas são muito mais que bebidas fermentadas em água, malte e lúpulo. Há muita história e complexidade em cada estilo de cerveja produzida pelo mundo, mostrando características locais e as preferências de consumo ao longo dos anos. • Desde os primórdios da história humana documentada, a produção de cervejas atravessou por diversas modificações quanto às técnicas aplicadas, tecnologias disponíveis e sabores mais preferidos. • Com a difusão do mercado globalizado, o rompimento de barreiras culturais permitiu o surgimento de novas escolas cervejeiras capazes de agregar muito valor à cultura cervejeira, como é o caso das Escolas Americana e Brasileira. Esta última é muito recente, mas já marcada por bastante criatividade e seu primeiro estilo reconhecido internacionalmente. RESUMO DO TÓPICO 1 17 AUTOATIVIDADE 1 As diferentes escolas cervejeiras difundiram-se por meiode seus característicos estilos. Hoje, estão disponibilizadas cervejas para todos os gostos, que atendem a sabores doces ou amargos, frutados ou ácidos. No entanto, a base para a produção de cerveja continua a mesma desde os primórdios. De acordo com o material de estudo e seus conhecimentos, considerando os quatro ingredientes básicos na produção da cerveja, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Água, malte, coentro e açafrão b) ( ) Água, malte, lúpulo e levedura. c) ( ) Água, mosto, fermento e levedura. d) ( ) Água, mosto, fermento e condimentos. 2 A Escola Alemã é uma das mais importantes e tradicionais da cultura cervejeira. Surgida na região da Bavária, que compreende aos territórios atuais da Alemanha, parte da França e República Tcheca. Essa escola guarda características únicas e possui o estilo mais consumido do mundo, a Pilsen. Considerando a Escola Alemã, sua origem, características e Estilos de Cervejas produzidos lá, analise as afirmativas a seguir: I- Surgiu por meio de movimentos migratórios vindos da Mesopotâmia. As tribos Alemãs adotaram a produção e se tornaram, junto com os Celtas, os maiores produtores e consumidores da bebida na Europa, no início da Era Cristã. II- A Escola Alemã está intimamente relacionada à família de cervejas Lager, cervejas de alta fermentação. III- Fazem parte dos estilos produzidos pelos Alemães: Helles, Bock e Berliner Weisse. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. b) ( ) Somente a afirmativa II está correta. c) ( ) As afirmativas I e III estão corretas. d) ( ) Somente a afirmativa III está correta. 3 Uma das escolas cervejeiras mais marcantes da história, sem dúvida, é a Escola Belga. Essa escola teve sua origem na região da Gália, o que, atualmente, diz respeito às regiões de França e Bélgica. Conceituando a Escola Belga e suas características, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: 18 ( ) É a mais tradicionalista das Escolas existentes. ( ) Existem, atualmente, 22 Cervejarias Trapistas e todas ficam na Bélgica. ( ) Witbier, um estilo de Cerveja Belga, é caracterizada pela coloração clara e acréscimo de trigo não maltado e condimentos, como a casca da laranja amarga. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V - F - F. b) ( ) V - F - V. c) ( ) F - V - F. d) ( ) F - F - V. 4 A Escola Alemã sempre prezou pela excelência das cervejas produzidas no país. Para garantir que a qualidade fosse mantida, o governo alemão decretou a Lei da Pureza no século XVI e mudou o destino desta escola cervejeira para sempre. Disserte sobre a Lei da Pureza, sua importância para a Escola Alemã e as alterações sofridas pela Lei ao longo dos anos. 5 A Escola Americana de cervejas é marcada pela releitura de estilos clássicos experimentados em outras escolas. Isso permite que a Escola Americana transite pelos tipos Lager e Ale com criatividade e muito sabor. Nesse sentido, disserte sobre a American India Pale Ale e explique como ela pode ser considerada um exemplo de releitura. 19 CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS DOS INSUMOS E SEUS RESULTADOS UNIDADE 1 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, estudaremos os insumos e matérias-primas, entenderemos a importância de cada um e, também, iremos conhecer como cada um desses componentes presentes na cerveja afeta as suas características finais. A cerveja, produto final do processo de fabricação por meio de fermentação, é projetada para ser um produto líquido pronto para consumo. É uma mistura complexa. Bem mais de 450 constituintes foram caracterizados e, além disso, contém macromoléculas como proteínas, ácidos nucléicos, polissacarídeos e lipídios. Juntos, todos esses constituintes produzem o caráter da cerveja. Os constituintes da cerveja podem ser divididos em componentes voláteis e não voláteis. Os componentes voláteis têm maior pressão de vapor e são responsáveis pelo bouquet ou aroma da cerveja. Eles estão concentrados no headspace acima do líquido em um recipiente fechado e passarão para o destilado se a bebida for destilada. A mistura complexa de componentes voláteis no headspace ou em um extrato solvente da cerveja pode ser resolvida por cromatografia gás-líquido, usando colunas empacotadas ou capilares, e os componentes identificados por espectrometria de massa (GC-MS ou CG-EM). Os constituintes não voláteis incluem sais inorgânicos, açúcares, aminoácidos, nucleotídeos, polifenóis e resinas de lúpulo juntamente com macromoléculas como polissacarídeos, proteínas e ácidos nucleicos. Tais compostos são geralmente resolvidos por cromatografia líquida de alta precisão (HPLC ou CLAE). Outra maneira de classificar os constituintes orgânicos da cerveja é com referência aos heteroátomos presentes. As cervejas contêm apenas vestígios de hidrocarbonetos, a maioria dos constituintes contém carbono, hidrogênio e oxigênio. Pequenas quantidades de constituintes contendo nitrogênio estão presentes, sendo que as proteínas são importantes para as propriedades físicas da cerveja. Em geral, cervejas diferentes contêm proporções diferentes dos mesmos constituintes. Somente quando novas matérias-primas são usadas, novos constituintes são encontrados na cerveja, como, por exemplo, cervejas de frutas belgas como a Framboise. No entanto, a contaminação acidental ou deliberada do mosto ou cerveja com microrganismos estranhos pode produzir novos metabólitos e sabores. 20 2 COMPOSIÇÃO DA CERVEJA O constituinte mais abundante da cerveja é a água, o meio no qual, na cerveja clarificada, todos os outros constituintes são dissolvidos (ROSA; AFONSO, 2015). O licor cervejeiro normalmente contém apenas vestígios de matéria orgânica, enquanto os íons principais são os cátions potássio, sódio, cálcio e magnésio e os ânions cloreto, sulfato, nitrato e fosfato. O excesso de nitrato na cerveja é indesejável, pois potencialmente os nitratos podem ser reduzidos a nitritos, que, com aminas, podem formar N-nitrosaminas cancerígenas (BRIGGS et al., 2004). O dióxido de carbono é um produto natural da fermentação e as cervejas contêm 3,5 ± 4,5 g/L. Cervejas supersaturadas e cervejas naturalmente condicionadas podem conter até 6 g/L, mas o gás será liberado assim que a pressão for liberada. O limiar sensorial de dióxido de carbono é de cerca de 1 g/L, portanto, a quantidade presente influenciará o sabor da cerveja. O teor de cerveja e outras bebidas alcoólicas é expresso em álcool por volume (ABV), que é a razão entre o volume de álcool etílico contido no licor e o volume do licor incluindo o álcool etílico (expresso em porcentagem para uma casa decimal). As cervejas podem conter entre 0,05% ABV, em uma cerveja sem álcool, até cerca de 12,5%. Na Alemanha, as cervejas bock devem conter mais de 6,0% ABV e as cervejas double bock mais de 7,5% ABV (BRIGGS et al., 2004). Os carboidratos totais remanescentes na cerveja podem ser estimados espectrofotometricamente com antrona em ácido sulfúrico a 85% para uma faixa de cervejas com valores entre 0,89 ± 5,98%, conforme a glicose encontrada. Cervejas light com baixo teor de carboidratos totalmente atenuadas, originalmente fabricadas para pacientes diabéticos, agora estão geralmente disponíveis com teores de carboidratos de 0,4 ± 0,9% p/v como glicose. Dos carboidratos presentes no mosto, glicose, frutose, sacarose, maltose e maltotriose geralmente serão fermentados. As cepas de levedura subatenuantes não fermentam maltotriose, enquanto as cepas superatenuantes fermentam parcialmente a maltotetraose, mas, em geral, as cervejas conterão apenas baixos níveis de açúcares fermentáveis além daqueles adicionados como substratos. No entanto, vestígiosde muitos outros açúcares podem ser detectados na cerveja, incluindo os monossacarídeos D-ribose, L-arabinose, D-xilose, D-manose e D-galactose, os dissacarídeos isomaltose, celobiose e kojibiose, e os trissacarídeos panose e isopanose (BRIGGS et al., 2004). Outros constituintes contendo carbono, hidrogênio e oxigênio podem ser encontrados na cerveja. Muitos componentes não voláteis são produtos do metabolismo da levedura. A maioria dos intermediários nas vias metabólicas foi detectada na cerveja. Em geral, as cervejas de alta fermentação apresentaram níveis de glicerol mais elevados 21 do que as cervejas do tipo Pilsen. A cerveja também contém butano-2, 3-diol (até 280 mg/L) e quantidades menores de pentano-2, 3-diol junto com 3-hidroxibutan-2-ona (acetoína, 3 ± 26 mg/L) e 3 -hidroxipentan-2-ona. É possível encontrar também nas cervejas alguns ácidos orgânicos como ácido pirúvico, ácido málico, ácido lático e ácido cítrico. Os níveis mais altos de ácido lático (e ácido acético) foram encontrados em cervejas 'ácidas' belgas. O nível de ácido oxálico nas cervejas é importante porque o sal de cálcio insolúvel pode causar turbidez na bebida. Ácidos fenólicos presentes na cerveja que, com outros polifenóis, são extraídos do malte e do lúpulo. Os polifenóis dão cores com sais férricos. As cervejas também contêm proantocianidinas (antocianogênios) das quais predomina a procianidina dimérica B-3. Polifenóis, particularmente proantocianidinas, reagem com proteínas durante o armazenamento da cerveja para produzir névoa não biológica, mas os rendimentos de antocianidinas, liberadas com ácido, não se correlacionam com a vida útil da cerveja (ESSLINGER, 2009; ROSA; AFONSO, 2015). Intimamente relacionadas aos polifenóis estão as resinas de lúpulo. Os principais agentes amargos na cerveja são os isômeros cis e trans da isocohumulona, isohumulona e isoadhumulona. Cervejas fabricadas com lúpulo fresco, o IBU aproxima- se de mg de iso-α-ácidos/L (ESSLINGER, 2009). As cervejas podem conter 10 ± 60 IBU e excepcionalmente 100 IBU. O limiar de detecção sensorial dos iso-α-ácidos é de 5 ± 6 mg/L e os tetraidro- e hexa-hidroiso-ácidos são ainda mais amargos. Embora pequenas quantidades dos constituintes voláteis do malte e do lúpulo possam sobreviver à fervura do mosto, a maioria dos constituintes voláteis da cerveja são produtos de fermentação. Depois do etanol, o maior grupo de constituintes voláteis são os álcoois superiores. Os principais álcoois superiores encontrados na cerveja são 3-metilbutanol (álcool isoamílico), 2-metilbutanol (álcool amílico ativo), 2-metilpropanol (álcool isobutílico), propanol (álcool propílico) e β-feniletanol (álcool fenetílico). Os compostos 4-vinilfenol e 4-vinilguaicol (4-hidroxi-3-metoxiestireno) são considerados off-flavors na maioria das cervejas. No entanto, o 4-vinilguaicol, que tem um sabor de cravo e especiarias, fornece parte do caráter essencial de Weizenbier e Rauchbier. Variedades de Ale e Lager podem conter 0 ± 0,09 mg/L de 4-vinilguaicol, abaixo do valor sensorial limite de 0,3 mg/L, mas a Weizenbier contém 0,8 ± 1,5 mg/L. Esses fenóis são formados pela descarboxilação do ácido trans-p-cumárico e ácido trans-ferúlico, respectivamente. Isso pode ocorrer termicamente durante o forno ou fervura do mosto ou enzimaticamente durante a fermentação. A capacidade das leveduras de descarboxilar ácidos cinâmicos (fenótipo Pof+) é forte em cepas selvagens de Saccharomyces, mas ausente em leveduras de cervejaria Lager e na maioria das leveduras de cervejaria. No entanto, está presente nas leveduras utilizadas na produção de cervejas de trigo. O nível de 4-vinilguaicol na cerveja diminui durante 22 o armazenamento (com meia-vida em torno de 60 dias a 18 °C), presumivelmente graças à formação de 4-(1-etoxietil)guaiacol. A descarboxilação do ácido cinâmico dará estireno, que é relatado como carcinogênico. Assim, as cepas de levedura Pof+ são evitadas na fabricação da maioria das cervejas. Cada um dos álcoois presentes nas cervejas é teoricamente capaz de esterificar cada um dos ácidos potencialmente dando quase 4.000 ésteres na cerveja. O acetato de etila é o principal éster encontrado. Os ésteres são biossintetizados durante a fermentação. Dos outros ésteres encontrados na cerveja, os ésteres etílicos predominam, mas os acetatos dos álcoois superiores (os chamados "ésteres de banana") também são importantes. Os ésteres, sem dúvida, contribuem para o sabor geral da cerveja e níveis anormalmente altos podem ser considerados como sabores estranhos. As cetonas são, como os aldeídos, compostos carbonílicos, mas não são os principais produtos da fermentação. Muitos dos presentes na cerveja podem ser derivados do óleo de lúpulo ou produtos de degradação da resina do lúpulo. Uma exceção pode ser o 2-acetilfurano, que ocorre em níveis mais altos em ales do que em lagers. Os derivados de 4-hidroxi-3 (2H)-furanona também contribuem para o sabor da cerveja. 5-Metil-4-hidroxi-3(2H)-furanona tem uma nota de sabor de cárneos, mas o nível na cerveja (0,12 ± 0,77 ppm) é inferior ao limiar sensorial. Vicinal ou α-dicetonas têm dois grupos carbonil em átomos de carbono adjacentes. A dicetona vicinal (VDK) mais importante na cerveja é a diacetil (butano- 2,3-diona) que é acompanhada por pequenas quantidades de pentano-2,3-diona. Essas dicetonas produzem sabores de caramelo com limites de 0,07 ± 0,15 mg/L e 0,9 mg/L, respectivamente. Diz-se que quantidades superiores a 0,15 mg/L de diacetil produzem um sabor estranho na cerveja Lager, mas níveis mais altos podem ser aceitáveis em Ales e Stouts. As cepas de levedura diferem na quantidade de diacetil que produzem e a escolha da cepa de levedura é provavelmente o fator mais importante no controle do nível de VDK na cerveja (BRIGGS et al., 2004). 3 PROPRIEDADES FÍSICAS E SENSORIAIS As propriedades físicas avaliadas por um bebedor de cerveja incluem cor, clareza, viscosidade e espuma (BETANCUR et al., 2020). Obviamente, se a cerveja for bebida diretamente de uma lata ou garrafa, essas propriedades terão menos impacto no consumidor. A cor da cerveja é, em grande parte, em razão das melanoidinas e caramelo presentes no malte e adjuntos usados, mas pode ocorrer caramelização adicional durante a fervura do mosto. Pequenos ajustes na cor da cerveja podem ser feitos pela adição de caramelo ao cobre ou com os substratos. Outros contribuintes para a cor da cerveja são os polifenóis oxidados, especialmente na presença de traços de metais, como ferro ou cobre. Em cervejas claras, a vitamina amarela riboflavina (<1 µM) pode contribuir significativamente para a cor. 23 Clareza é a ausência de turbidez. A maioria dos bebedores espera que sua cerveja seja límpida e pode rejeitar a cerveja turva sem sabor. As névoas da cerveja são de dois tipos: biológicas e não biológicas. A infecção da cerveja clarificada com bactérias ou leveduras selvagens produzirá uma névoa biológica por causa do crescimento do organismo invasor, quando a cerveja geralmente se tornará azeda e inaceitável. Com o uso de pasteurização e filtração estéril, a infecção biológica e a formação de turbidez são bastante raras. No entanto, cervejas estéreis mantidas por um período de tempo desenvolverão uma névoa não biológica. As névoas não biológicas mais comuns encontradas na cerveja são formadas por interações entre proteínas e polifenóis (ROSA; AFONSO, 2015). Névoas frias contém entre 45,5 e 66,8% de proteínas, cujos hidrolisados são ricos em resíduos de ácido glutâmico, prolina, arginina e ácido aspártico. A hidrólise alcalina das névoas da cerveja produz uma variedade de ácidos fenólicos, incluindo: ácidos ferúlico, sinápico, vanílico, siríngico, gálico, protocatecuico e cafeico.Em contraste, o tratamento ácido das névoas de cerveja libera os pigmentos cianidina e delfinidina, mostrando a presença de proantocianidinas na névoa de cerveja. As névoas contêm 0,7 ± 3,3% de cinzas ricas em muitos metais. Alguns dos metais, por exemplo, cobre, ferro e alumínio, estão concentrados em neblina até 80.000 vezes o nível da cerveja residual. As névoas também contêm 2 ± 4% de glicose e traços das pentoses arabinose e xilose. Durante a fervura do mosto, algumas proteínas são removidas, mas os complexos proteína-polifenóis, que se dissociam a 80 °C, não são retirados, devendo ser eliminados após esfriamento. As proteínas não removidas durante a fervura do mosto, pois podem sobreviver à fermentação e persistir na cerveja causando turbidez. No entanto, nem todas as proteínas nem todos os polifenóis são capazes disso. A sugestão de que as proteínas hidrofílicas são responsáveis pela turbidez e as proteínas hidrofóbicas são necessárias para a retenção de espuma é provavelmente muito fácil. As proteínas ou polipeptídeos ativos na cerveja são derivados principalmente das prolaminas ou hordeínas da cevada, que são solúveis em álcool e ricas em prolina. De fato, os resíduos de prolina parecem ser necessários para a formação de névoa. Da mesma forma, nem todos os polifenóis presentes na cerveja são ativos em névoa; proantocianidinas e flavanóis são os mais importantes. Catequina, epicatequina e galocatequina fornecem pequenas quantidades de névoa com uma proteína ativa em névoa de cerveja, mas os dímeros, por exemplo, procianidina B-3, produzem muito mais névoa. A viscosidade dinâmica é definida como a resistência ao fluxo de cisalhamento dentro de um líquido. A viscosidade cinemática é uma medida do tempo que um líquido leva para fluir por meio de um orifício sob influência da gravidade. A viscosidade do mosto e da cerveja é influenciada pelas macromoléculas presentes como arabinoxilano, β-glucanos e dextrinas, todas aumentando a viscosidade das soluções modelo com as dextrinas tendo o maior efeito. 24 As espumas de cerveja são sistemas coloidais constituídos por uma fase líquida contínua e uma fase gasosa descontínua; a densidade aparente do sistema aproxima- se da densidade de um gás em vez de um líquido. Os consumidores diferem, ao longo de linhas regionais e de gênero, em seus requisitos para a quantidade de espuma de cerveja, sua estabilidade e se ela amarra o copo. Alguns preferem a cerveja com pouca ou nenhuma espuma, mas outros gostam com uma espuma cremosa rica que transborda o copo é esperado. Espumas contendo oxigênio e nitrogênio produzem bolhas menores e uma espuma mais estável do que aquelas contendo dióxido de carbono, que é mais solúvel no filme líquido. Para o consumidor, a secagem ou drenagem da espuma resulta apenas em uma mudança modesta no volume da espuma, mas a coalescência ou desproporção das bolhas, com a formação de bolhas maiores e mais grossas, é um sinal mais óbvio de desestabilização da espuma (BRIGGS et al., 2004; ESSLINGER, 2009). O parâmetro final da qualidade da cerveja é o paladar do consumidor e este pode apresentar grande variação entre indivíduos, entre áreas geográficas e até mesmo de uma época para outra (BETANCUR et al., 2020). Qualidade é definida como "grau de excelência, natureza relativa, ou tipo, ou caráter" e, portanto, o cervejeiro se refere às muitas variedades de cervejas Ale, Stout e Lager que ele produz para satisfazer a demanda variada como qualidades diferentes. Quando o cliente escolhe a qualidade que deseja beber, ele exige que sua bebida tenha o 'grau de excelência' que ele espera e isso não mudará de dia para dia. Grande parte da arte dos cervejeiros está, portanto, preocupada com o controle de qualidade, com a produção de um produto constante oriundo de matérias-primas variáveis por um processo biológico. É o sabor e o aroma, que realmente determinam a aceitabilidade e a facilidade de consumo da cerveja. Originalmente, era o paladar do cervejeiro chefe que decidia se a cerveja era aceitável, mas depois essa responsabilidade foi transferida para um painel de degustação e, à medida que os painéis de degustação se tornaram mais sofisticados, surgiu a ciência da análise sensorial. O sabor é a combinação de atributos olfativos e gustativos percebidos durante a degustação, incluindo efeitos táteis, térmicos, dolorosos e cinestésicos. O sabor de qualquer bebida ingerida na boca é discernido virtualmente simultaneamente por ambos os sentidos. Isso acontece, quando os vapores voláteis passam para o órgão olfativo na parte de trás da cavidade nasal. O sentido cinestésico é o sentido de pressão profunda, ou propriocepção. O sentido somestésico é o sentido tátil, ou sensação da pele, ambos fazem parte do sentido do tato. Os sentidos táteis referem-se mais a alimentos sólidos, mas na cerveja estão relacionados ao que é chamado de “plenitude do paladar”, “corpo” ou “sensação de boca” (LEWIS; YOUNG, 2012). O sabor da cerveja não é estático, mas está em contínuo estado de mudança. O ponto em que a maturação termina e começa a deterioração é, sem dúvida, diferente para diferentes cervejas e, provavelmente, diferente para diferentes consumidores. O 25 off-flavour em uma cerveja pode ser um caráter essencial de outra. Como os cervejeiros agora podem controlar amplamente a instabilidade biológica e a névoa não biológica, provavelmente é a instabilidade do sabor que determina a vida útil do produto (BRIGGS et al., 2004; ESSLINGER, 2009). As influências predominantes no sabor geral da cerveja são derivadas do amargor e aroma do lúpulo, dos componentes do malte (antes e depois do metabolismo pela levedura) e do uso de maltes e adjuntos especializados. Assim, as taxas de lupulagem, o uso de dry hopping e/ou adição de maltes especializados para cor e sabor geram tipos especializados de cerveja. Os adjuntos são frequentemente usados para aumentar a doçura ou como diluentes de sabores de malte. Dois extremos seriam usar amido no mosto para diluir o sabor geral e misturar a polpa de frutas na fervura para extrair um sabor específico. O malte é uma fonte de muitos compostos de sabor. Os sabores característicos de todas as cervejas também derivam direta e indiretamente dos produtos do metabolismo das leveduras. O álcool, em virtude de sua alta concentração, dá uma grande contribuição, mas são os produtos menores do metabolismo das leveduras que dão à cerveja seu sabor característico. Existem certamente mais de 700 desses constituintes da cerveja. A maioria destes está presente em níveis logo abaixo daqueles em que são facilmente percebidos. No entanto, agindo de forma sinérgica e antagônica, e em conjunto com os constituintes do lúpulo e do malte, conferem o caráter geral da cerveja e os sabores específicos associados à bebida. Quando esses componentes individuais estão presentes em níveis do dobro ou mais daqueles em que podem ser facilmente discernidos, eles exibem notas de sabor específicas. Estes podem ser característicos (portanto, desejáveis, sabores) ou não característicos da cerveja (e, portanto, indesejáveis) (LEWIS; YOUNG, 2012). 26 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Os ingredientes bases de uma cerveja, ou seja, água, malte, lúpulo e leveduras já são responsáveis por trazer uma série de complexas características a bebida, modificando suas propriedades finais. • O papel das leveduras no processo cervejeiro é crucial para o resultado final também do ponto de vista sensorial. A quantidade de álcool produzido, o nível de carbonatação e a presença de compostos orgânicos voláteis e não voláteis podem ter influência direta do metabolismo das leveduras. • Estar atento a quais cepas utilizar e aos parâmetros de fermentação é determinantepara a excelência do produto final. • A experimentação do sabor de qualquer cerveja vem de uma complexa interação de sensações olfativas e gustativas que sinalização ao Sistema Nervoso Central o resultado químico e biológico desta situação. Neste caso, entra o papel dos adjuvantes para complexação de sabores, cores e aromas. RESUMO DO TÓPICO 2 27 AUTOATIVIDADE 1 A cerveja, como bebida, possui uma complexa mistura de compostos ao final de seu processamento. Uma maneira de classificar estes compostos é quanto à volatilidade. Assim, a cerveja possui uma série de compostos não voláteis dissolvidos na cerveja e outros tantos voláteis que podem estar presentes no líquido ou que escapam para o headspace da embalagem. Sobre os compostos não voláteis, analise as afirmativas a seguir: I- Estes compostos voláteis invadem a cavidade nasal e ativam os receptores olfativos, participando diretamente da composição de aroma e sabor da cerveja. II- Os compostos voláteis correspondem a moléculas maiores, incapazes de serem solubilizadas na cerveja como proteínas e açúcares complexos. III- A origem destes compostos voláteis pode ser tanto de ingredientes como o malte quanto do metabolismo das leveduras. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas. b) ( ) As afirmativas II e III estão corretas. c) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. d) ( ) As afirmativas I e III estão corretas. 2 Uma série de açúcares podem estar presentes no mosto cervejeiro para fermentação vindos dos maltes aplicados e de outros adjuvantes que possam ser aplicados. Alguns açúcares são essenciais para que a fermentação aconteça, enquanto outros não são utilizados, visto que as leveduras não são capazes de metabolizá-los. Com base no tema, quanto ao açúcar metabolizável pelas leveduras cervejeiras, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Celobiose. b) ( ) Manose. c) ( ) Galactose. d) ( ) Maltotriose. 3 Compostos voláteis na cerveja são responsáveis por uma série de características físicas e sensoriais. Diversas moléculas possuem volatilidade e essa complexidade pode modificar significativamente o resultado final da bebida. Com base no tema, analise as afirmativas a seguir: 28 I- Compostos fenólicos podem surgir do malte e do lúpulo adicionados para compor o mosto cervejeiro, mas dificilmente se mantém estáveis durante a fervura. II- Alguns polifenóis presentes no mosto ou na fermentação podem reagir com outros compostos como sais e proteínas e modificar propriedades físicas da cerveja. III- As resinas do lúpulo, responsáveis pelo amargor da cerveja, são compostos que se relacionam quimicamente com os polifenóis. IV- O metabolismo das leveduras durante a fermentação é responsável por eliminar muitos dos compostos voláteis que estariam presentes na bebida final. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas. b) ( ) As afirmativas II, III e IV estão corretas. c) ( ) As afirmativas I e IV estão corretas. d) ( ) As afirmativas I, II e IV estão corretas. 4 O processo cervejeiro trabalha com uma enormidade de nutrientes e demais componentes orgânicos, o que aumenta a complexidade da bebida. Enquanto algumas moléculas são desejáveis em certos estilos, outras são consideradas off- flavors em outros. Tomando por base a substância 4-vinilguaicol, disserte sobre seu aparecimento em cervejas e como ela podem modificar o sabor e aroma finais. 5 Uma das características importantes da cerveja é sua clareza. Essa propriedade se relaciona com a limpidez da bebida quando servida. Em certas garrafas ou latas, não é possível analisar essa característica. No entanto, ela deve estar presente no consumo. Sendo assim, disserte sobre a clareza da cerveja, abordando os fatores que o comprometem e como evitá-los. 29 TÓPICO 3 — ANÁLISE SENSORIAL DOS INSUMOS E COMPARATIVO COM PRODUTO FINAL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO A análise sensorial utiliza o ser humano como instrumento para medir as características sensoriais de um produto. Os seres humanos têm diferentes sensibilidades aos compostos de sabor e podem experimentar diferentes respostas aos mesmos estímulos. Grande parte do projeto de condução de análise sensorial é implementar controles para o ambiente, técnicas e painéis/degustadores para reduzir a variabilidade inerente resultante do uso de humanos como instrumento de medição (BRIGGS et al., 2004). A importância de realizar uma análise sensorial significativa é entender a base científica por trás da disciplina, a fim de garantir que os resultados sejam seguros, válidos e confiáveis para tomar decisões de negócios sólidas. Os livros-texto sensoriais geralmente definem a análise sensorial usando a descrição: “A avaliação sensorial é uma disciplina científica usada para evocar, medir, analisar e interpretar reações a essas características de alimentos e materiais conforme são percebidas pelos sentidos da visão, olfato, paladar, tato e audição” (STEWART, 2017, p. 700). Com efeito, os humanos têm usado seus sentidos para avaliar a qualidade de tudo o que comem, bebem ou usam desde o início. Com o aumento do comércio veio a classificação de bens, como vinho, chá e café, com base na qualidade. Isso, por sua vez, deu origem ao provador profissional, ou “mestre” de seu ofício e ao desenvolvimento de “testes organolépticos”. Embora na época considerado o teste objetivo das características sensoriais de um produto, essas avaliações “organolépticas” usavam poucos provadores e eram, muitas vezes, subjetivas em comparação com os métodos formalizados, estruturados e sistemáticos agora usados na análise sensorial. Todas as cervejarias terão alguma forma de análise sensorial contínua para avaliar a qualidade de sua cerveja, variando de cervejarias maiores com departamentos sensoriais estabelecidos responsáveis por programas sensoriais globais até o julgamento definido de um cervejeiro chefe e tudo mais. Para executar uma análise sensorial confiável, a cervejaria deve ter à disposição pessoal treinado sensorialmente, instalações de teste, equipamentos, recrutamento de avaliadores e métodos para coleta de dados (STEWART, 2017). 30 2 ANÁLISE SENSORIAL DE INSUMOS CERVEJEIROS O nível em que a análise sensorial é conduzida nas cervejarias depende em grande parte do tamanho da cervejaria e dos recursos disponíveis. Na maioria das vezes, o papel da análise sensorial está sob a responsabilidade do controle de qualidade laboratorial. Recomenda-se que qualquer membro da equipe de controle de qualidade com a responsabilidade de ser um gerente sensorial receba treinamento, pois é uma função especializada e técnica que envolve uma base de conhecimentos e habilidades que abrange muitas disciplinas, como design experimental, estatística, psicologia, ciência de alimentos e química, para citar alguns. Além disso, os tipos de testes realizados dependerão do número de provadores disponíveis para participar das degustações (STEWART, 2017). Os testes de diferença, mais comumente usados em cervejarias maiores, incluem testes triangulares e testes Duo-Trio. Cervejarias menores têm a desvantagem de números recomendados para realizar alguns dos testes de discriminação (18 + painelistas para teste triangular de diferença e 40 + para teste de similaridade) e, portanto, tendem a realizar testes de Aprovado/Reprovado (LEWIS; YOUNG, 2012). Testes de passagem são o método mais simples usado para avaliar se a amostra pode ser liberada para a próxima etapa do processo de fabricação de cerveja para amostras em processo ou para liberação para comercialização de cerveja embalada. O procedimento exige que os avaliadores estejam familiarizados com as característicassensoriais das amostras que estão avaliando, e eles devem ter treinamento em problemas relevantes que possam ser encontrados. O resultado do teste é sim/não. A indústria cervejeira usa uma combinação das partes mais práticas e robustas de vários métodos quantitativos de perfil descritivo para produzir um método de perfil de sabor de cerveja padronizado mundialmente, que foi estabelecido usando a terminologia da Roda Sensorial da Cerveja. O perfil descritivo completo dos atributos em uma cerveja fornece a impressão digital definitiva do sabor para avaliação da qualidade. O treinamento de um painel de perfil é demorado e caro, mas as recompensas fornecidas por um painel totalmente treinado e com desempenho consistente são consideráveis. A implementação de um painel de perfil treinado por especialistas pode fornecer informações sobre os tipos e intensidades dos atributos de sabor de uma cerveja, medir as diferenças entre as cervejas de uma cervejaria e as cervejas dos concorrentes e, também, pode contribuir para a garantia de qualidade, consistência da marca e, em última análise, sucesso da marca e fidelidade do consumidor. É importante garantir que quaisquer possíveis problemas de sabor sejam destacados o mais cedo possível durante a produção da cerveja. A avaliação das matérias-primas é essencial para garantir que elas apresentem os caracteres sensoriais corretos conforme esperado e estejam livres de quaisquer manchas ou defeitos que possam afetar a cerveja final. Os provadores devem estar familiarizados com os 31 caracteres sensoriais normais das matérias-primas do licor cervejeiro, malte, lúpulo e levedura, e ser treinados para saber o que é aceitável na aparência visual, cheiro e sabor das amostras. As amostras em processo devem ser degustadas rotineiramente para garantir que a fermentação esteja progredindo sem desvio da norma. Recomenda-se, também, a verificação de quaisquer matérias-primas e auxiliares de processamento que possam entrar em contato com o produto em qualquer fase. Em alguns casos, nos quais pode não ser seguro provar amostras em razão de potenciais riscos microbiológicos, como água de poço ou amostras de malte desconhecidas, a avaliação do aroma pode ser suficiente, pois o olfato de um ser humano é mais sensível que o paladar. Mas deve-se notar que alguns taints, como metálico e adstringência, não são detectados no aroma. É fundamental que os responsáveis pela avaliação da qualidade sensorial das amostras tenham o treinamento correto para que possam avaliar as amostras de forma eficaz. Na maioria dos casos, para a avaliação sensorial de matérias-primas e amostras em processo, é suficiente que o avaliador seja treinado para reconhecer os aromas e sabores mais comuns que se espera encontrar nessa fase. O número de provadores utilizados em cada etapa dependerá dos recursos disponíveis, mas recomenda-se que pelo menos dois avaliadores treinados avaliem cada amostra em cada etapa do processo (STEWART, 2017). 2.1 ÁGUA As impurezas comuns que afetam a água incluem contaminantes à base de água, como cloro e bromoanisóis e fenóis com sabor de mofo (como tricloroanisol) e sabores terrosos, como geosmina. Outros compostos de contaminação incluem compostos de enxofre de microrganismos e sabores oleosos de vazamentos do condensador. Algumas manchas fenólicas também podem ser transmitidas pela regeneração incorreta de deionizadores. Todas as fontes de água utilizadas na cervejaria, incluindo licores cervejeiros, águas de diluição e quaisquer condensados de vapor que são reutilizados na corrente principal da cerveja, devem ser avaliados quanto ao aroma e sabor. Portanto, é essencial que os avaliadores responsáveis pelo teste de passagem dos licores cervejeiros e, assim por diante, sejam treinados para garantir que eles possam detectar esses compostos contaminantes. No entanto, a água não tratada não deve ser provada por motivos microbiológicos, mas deve ser avaliada pelo aroma. Também é recomendado que quaisquer sais incluídos no processo devem ser avaliados quanto a sabores estranhos. 32 2.2 MALTE Todos os maltes, incluindo maltes especiais, devem ser verificados visualmente e quanto ao aroma e sabor. Os maltes devem primeiro ser verificados para garantir que a cervejaria recebeu o malte correto. Defeitos comuns em maltes são sabores verdes originados da umidade que foi absorvida, o que resulta no início da germinação do malte, e sabores mofados do crescimento de mofo. Um procedimento comum é colocar maltes no micro-ondas por um curto período de tempo para destruir parte da microfauna e flora presentes no malte, mas deve-se ter cuidado para não deixar no micro-ondas por muito tempo, pois sabores incomuns podem ser criados no malte. Suspeita de maltes mofados “não devem ser provados”, pois potenciais micotoxinas podem estar presentes. Além de uma verificação visual e de aroma, o sabor do malte pode ser avaliado pela mastigação direta dos grãos de malte, enquanto alguns cervejeiros fazem um extrato do malte em água quente para avaliar o sabor. No entanto, os extratos de água quente não fornecem uma representação verdadeira dos sabores transmitidos pelo malte, pois as amilases presentes no malte e na boca do provador convertem o amido do malte em açúcares. Portanto, o sabor desses extratos de água quente é tipicamente extremamente doce. Uma avaliação mais completa pode ser feita moendo o malte e misturando-o com água fria para obter uma pasta que possa fornecer um sabor mais representativo do malte. Tanto o aroma quanto o sabor do malte podem ser avaliados e, dessa forma, sabores de malte mais sutis podem ser detectados, incluindo quaisquer impurezas e compostos adstringentes. Da mesma forma que os painéis de sabor de cerveja podem produzir um perfil de cerveja, os maltes também podem ser perfilados para fornecer um perfil de sabor detalhado. Adjuntos como arroz, grãos de milho, farinha de trigo e xaropes cervejeiros devem ser avaliados visualmente e pelo aroma para detectar possíveis defeitos. As manchas comuns em xaropes cervejeiros são ácido butírico e lático em virtude da contaminação bacteriana. As enzimas de fabricação de cerveja também devem ser avaliadas quanto a notas estranhas. 2.3 LÚPULO Defeitos comuns para o lúpulo incluem descoloração amarela/marrom e aromas de queijo, que indicam que o lúpulo foi exposto à umidade ou está envelhecido. Lúpulo cru, cones de folhas ou pellets devem ser avaliados visualmente e cheirando e esfregando para detectar sinais de deterioração. Extratos de água quente podem ser preparados com base em cones e pellets de lúpulo, mas os extratos podem ser avassaladores e muito inebriantes, levando rapidamente à fadiga sensorial e até dores de cabeça, portanto, deve-se ter cuidado ao preparar e avaliar chás de lúpulo. 33 Os extratos de água fria fornecem uma avaliação menos pungente do aroma, mas também produzem um espectro diferente de compostos de aroma em comparação com a água quente. 2.4 LEVEDURAS Quase todos os cervejeiros usam leveduras do gênero Saccharomyces (seja a cepa de levedura Ale S. cerevisiae ou a espécie Lager S. uvarum, também conhecida como S. carlsbergensis). No entanto, dentro das principais espécies, existem milhares de linhagens únicas. Para elaborar ainda mais as características, há um interesse crescente em aplicar também várias cepas da levedura selvagem Brettanomyces. Em suma, todas as leveduras convertem os açúcares fermentescíveis do mosto em álcool e dióxido de carbono, juntamente com muitos outros subprodutos que contribuem significativamente para o sabor geral da cerveja. Os sabores típicos de levedura fresca incluem um aspecto agradável, fresco e de pão com ésteres de banana e notasde enxofre. A levedura iniciadora deve ser avaliada visualmente e quanto ao aroma, e não deve haver sabores de levedura autolisada (carne) presentes. Embora o álcool e a carbonatação tenham um efeito na sensação na boca, os subprodutos que a levedura cria durante a fermentação são realmente nos quais a levedura contribui para o sabor e o aroma. Dependendo do fermento, pode criar sabores como banana, maçã, pêra, anis, pimenta, chiclete, cravo, limão e frutas tropicais (abacaxi, manga, goiaba). Também pode dar à cerveja um caráter terroso, mofado, de pão, noz ou até mesmo ácido. 2.5 AUXILIARES DE PROCESSAMENTO Auxiliares de processamento, como agentes de clarificação e estabilização, incluindo isinglass, polivinilpolipirrolidona (PVPP), alginato de propilenoglicol (PGA), antiespumantes e outros auxiliares de filtragem, devem ser avaliados visualmente e pelo aroma para garantir que estejam livres de contaminação. Muitos desses materiais são higroscópicos e podem captar facilmente sabores estranhos, principalmente quando em trânsito ou em armazenamento. Além disso, podem ocorrer manchas de coroas e tampas de latas, que devem ser verificadas quanto à presença de descoloração de ferrugem, que indicará exposição à água, e manchas mofadas, oleosas ou fenólicas apanhadas durante o transporte. Qualquer dióxido de carbono recuperado também deve ser verificado após a dissolução em água (STEWART, 2017). 34 3 OUTRAS CONSIDERAÇÕES O processamento de uma cerveja possui etapas bem compartimentadas que criam pontos críticos importantes nos quais é recomendável avaliar as amostras de produção para garantir que tudo esteja progredindo conforme o esperado com a fermentação. O número de amostras em processo avaliadas depende do tamanho da cervejaria e de seus recursos. No entanto, independentemente do tamanho da cervejaria, os pontos críticos de controle incluem a produção de mosto doce e mosto lupulado, tanques de fermentação, tanques de maturação e tanques de clarificação. Em cada etapa, é importante verificar se as amostras estão exibindo as notas de sabor corretas para aquela etapa, mesmo que isso signifique que notas de diacetil e enxofre devam estar presentes, por exemplo. O aspecto crucial é que a cerveja está livre de contaminantes e impurezas. Até a produção de cerveja clarificada, se a cerveja tiver um perfil de sabor levemente atípico, as cervejarias têm a opção de misturar a cerveja com outras cervejas. A etapa mais crítica é a avaliação da cerveja embalada a ser despachada para venda. Há muitos desafios enfrentados pela indústria cervejeira no mercado cada vez mais competitivo de hoje: uma recessão mundial levando a menos renda disponível; a globalização das grandes cervejarias à medida que mais e mais fusões continuam, resultando em menos marcas líderes; o aumento contínuo do número de pequenas cervejarias artesanais que oferecem estilos de cerveja diversos e muito diferentes; aumento da concorrência de novas bebidas alcoólicas misturadas com fusão da moda; e o avanço do mercado de refrigerantes com ingredientes e botânicos percebidos como saudáveis fazem que a fidelidade do consumidor e a repetição da compra sejam cada vez mais vitais para a existência da marca. A análise sensorial nunca teve um papel tão importante na cervejaria, com pequenos e grandes cervejeiros investindo na garantia que uma capacidade sensorial sólida, competente e confiável pode fornecer (STEWART, 2017). 35 LEITURA COMPLEMENTAR APLICATIVO AUXILIA ANÁLISE SENSORIAL DE CONCURSOS E INDUSTRIA CERVEJEIRA Guia da Cerveja Avaliar a qualidade e o padrão de uma cerveja é uma tarefa comum da indústria e dos concursos do setor. E uma ferramenta criada pelo Science of Beer Institute pode ser usada por ambos os elos da cadeia. É o Beer Sensory, um aplicativo de análise sensorial que foi utilizado no Brasil Beer Cup, competição cervejeira realizada em Florianópolis, no fim de novembro. As características específicas a qualidade da cerveja e provocam estímulos fundamentais no consumidor, sendo para que uma indústria entregue um bom produto ao seu público. Ajudar a compreender-las é o objetivo do software, idealizado pela CEO do Science of Beer, Amanda Reitenbach, e que foi construído a partir de metodologias internacionais de análise sensorial. Sua utilização, rigorosa em prática no Brasil Beer Cup, pode indicar um foco nos concursos, mas também foi adaptado, durante os meses mais graves da pandemia do coronavírus, para utilização nas aulas e treinamentos online aplicados pelo instituto. “Esse software começou a ser utilizado durante as aulas dos cursos do Science porque ele permite que o professor, por exemplo, abra uma sala onde os alunos entram e avaliam uma cerveja específica, e ele [professor] ter uma noção da avaliação de cada hum. E, com isso, também gera dados estatísticos sobre essas estimativas” explica Amanda. “Ele pode ser utilizado em concursos, tendo sido desenvolvido com esse objetivo, e em aulas, treinamentos sensoriais…”, acrescenta. A análise sensorial é utilizada, analisando e analisando, a partir de sentidos, analisando e analisando. Com isso, não auxilia o desenvolvimento de critérios de qualidade além do controle que está sendo fabricado, também pode servir como novos produtos ou funcionar como base para as pesquisas de prevenção e identificação de erros. Assim, para além do seu uso em concursos e aulas, o aplicativo foi criado a partir da percepção da necessidade de adaptação de ferramentas de análise sensorial para a indústria cervejeira, como CEO do Science of Beer (https://www.instagram. 36 com/scienceofbeer/). “No meu trabalho, trabalhei muito com diversas ferramentas estatísticas para análise sensorial e notem que elas podem ser elaboradas para a inteligência artificial e podem ser combinadas às necessidades do setor”, afirma. Como funciona o Beer Sensory? O Beer Sensory funciona como um acompanhamento de desempenho dos alunos a avaliação e preenchimento de fichas técnicas relacionadas às cervejas degustadas em aula. No concurso Brasil Beer Cup, a ferramenta foi utilizada para acompanhar e antecipar a evolução do painel de juízes em tempo real. Conforme as fichas de avaliação foram sendo reenchidas por cada juiz, o sistema atualizava como medições e estatísticas observadas por especialistas em análise sensorial. A ideia de que a ferramenta corrige das queixas principais de concursos cervejeiros: a discreância entre fichas de avaliações de avaliações de participantes por diferentes juízes para uma mesma revisão. Mas, além das respostas de cada mesa de julgamento, a tecnologia também é capaz de dinamizar o trabalho dos juízes, uma vez que a descrição das cervejas será feita diretamente no sistema, agilizando a etapa de preenchimento das fichas de avaliação. FONTE: APLICATIVO auxilia análise sensorial por concursos e indústria cervejeira. Guia da Cerveja, [s. l.], 2 jan. 2022. Disponível em: https://guiadacervejabr.com/aplicativo-analise-sensorial-industria-concursos- science-of-beer/. Acesso em: 19 jan. 2022. 37 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • A análise sensorial é uma ciência em crescimento e sua entrada na indústria cervejeira se justifica pela importância de seu trabalho no controle e garantia da qualidade, além da conquista do mercado. • A análise sensorial não se restringe apenas à cerveja pronta para consumo. Os insumos devem possuir qualidade suficiente para garantir um produto final de excelência. Isso corresponde a testes sensoriais na água, malte, lúpulo, adjuvantes e aditivos. • Todos os pontos críticos de processamento devem ser igualmente monitorados para atestar que os resultados estão de acordo comas especificações propostas. Para isso, os painelistas são treinados para identificar os principais problemas por meio das percepções sensoriais. RESUMO DO TÓPICO 3 38 1 A análise sensorial é um campo científico que visa estabelecer características sensoriais base para determinado produto com base na experimentação dos cinco sentidos humanos. Ela se aplica a diversos materiais, inclusive à cerveja. Sobre o assunto, analise as afirmativas a seguir: I- Toda característica da cerveja é importante, podendo a análise sensorial focar em uma específica ou em uma avaliação geral. II- Por se tratar de uma aferição de atributos por meio de experimentação humana, torna-se impossível quantificar os resultados ou mensurá-los com ferramentas estatísticas. III- Muitas características da cerveja afetam mais de um sentido simultaneamente, como o sabor que afeta paladar e olfato. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas. b) ( ) As afirmativas II e III estão corretas. c) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. d) ( ) As afirmativas I e III estão corretas. 2 Fazer a prova da cerveja final a fim de atestar que seus atributos estão de acordo com o esperado é importante. No entanto, até o término do processamento muitas etapas ocorrem e, com elas, vários pontos de controle são instaurados, incluindo a análise sensorial dos insumos. Sendo assim, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) É preciso treinamento dos provadores para que eles consigam identificar os problemas associados aos insumos em cada etapa a fim de evitar prejuízos na produção. b) ( ) Cada estabelecimento deve construir sua própria ferramenta de atributos cervejeiros, visto que não há nada disponível que seja capaz de padronizar os descritores sensoriais. c) ( ) Se o teste dos insumos antes da introdução destes no processamento não identificar problemas, o próximo teste necessário será apenas quando a cerveja estiver pronta. d) ( ) Compostos como água, malte e lúpulo devem ser testados minunciosamente por painelistas treinados. No entanto, aditivos e adjuvantes industrializados já passaram por este controle. AUTOATIVIDADE 39 3 O malte, seja ele de cevada ou de outro cereal como é o caso do estilo Weissbier que utiliza o malte de trigo, também deve ser categoricamente analisado por meios laboratoriais e sensoriais já que este insumo é a base para a produção da cerveja e sem o malte, não há bebida. A análise sensorial destes componentes possui particularidades. Sobre este assunto, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A inspeção do malte deve focar estritamente no aroma e sabor já que este será amassado e triturado até o ponto de purê, o que permite desconsiderar a aparência. b) ( ) Problemas de umidade nos grãos são comuns e resultam em germinação descontrolada ou mesmo desenvolvimento de mofo. c) ( ) A prova do malte deve ser realizada necessariamente com a mastigação do grão já que outros elementos podem interferir no resultado. d) ( ) Apenas os maltes que serão utilizados como base para o processamento cervejeiro devem ser igualmente avaliados do ponto de vista sensorial. 4 A análise sensorial da água em um complexo cervejeiro é de suma importância para garantir a qualidade final do produto, visto que este é o ingrediente mais abundante na composição da bebida. Sendo assim, disserte sobre a importância desta análise e de suas dificuldades. 5 Há vários pontos críticos distribuídos pelo processamento cervejeiro que devem ser controlados. Além do controle laboratorial por meio de análise físico-químicas e microbiológicas, os testes sensoriais também são aplicados nesses pontos para atestar que está tudo conforme o esperado. Sendo assim, disserte quais são esses pontos de controle e como os resultados podem interferir na produção. 40 41 APLICATIVO auxilia análise sensorial por concursos e indústria cervejeira. Guia da Cerveja, [s. l.], 2 jan. 2022. Disponível em: https://guiadacervejabr.com/aplicativo- analise-sensorial-industria-concursos-science-of-beer/. Acesso em: 19 jan. 2022. BETANCUR, M. I. et al. Factors influencing the choice of beer: A review. Food Research International, [s. l.], v. 137, p. 109367, 2020. Disponível em: https://www.sciencedirect. com/science/article/abs/pii/S0963996920303926. Acesso em: 19 jan. 2022. BRIGGS, D. E. et al. Brewing: science and practice. Inglaterra: Woodhead Publishing, 2004. CABRAS, I.; HIGGINS, D. M. Beer, brewing, and business history. 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REFERÊNCIAS 42 43 AROMAS E PROFUNDIDADE DE SABORES UNIDADE 2 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • identificar os estilos e seus sabores e aroma; • exercitar e criar sua memória sensorial; • evidenciar erros por meios de suas análises sensoriais; • comparar e desenvolver sabores por meio das análises. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – DIFERENTES TIPOS E ESTILOS DE CERVEJA E SEUS SABORES TÓPICO 2 – SENTIDOS HUMANOS ENVOLVIDOS NAS AVALIAÇÕES SENSORIAIS TÓPICO 3 – CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS E COMPARATIVO DE SABORES Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 44 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 45 TÓPICO 1 — DIFERENTES TIPOS E ESTILOS DE CERVEJA E SEUS SABORES UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO As cervejas caracterizam-se por suas famílias e estilos que se diferenciam pelo tipo de levedura usada no processo de produção. Mesmo utilizando um processo de produção semelhante, é a etapa de fermentação que determina as particularidades de cada família e estilo de cerveja, já que as leveduras utilizadas são de espécies diferentes. A variedade de cervejas produzidas é muito ampla, considerando que cada país possui suas particularidades, por exemplo: clima, solo, mercado e disponibilidade de ingredientes que influenciam no tipo de cerveja consumido. Para produzir uma cerveja artesanal, é preciso definir um estilo, criar uma receita, selecionar os ingredientes, moer o malte, misturar, filtrar, ferver, resfriar, fermentar, maturar e envasar. Ou seja, o processo geral é comum a todos os fabricantes. O que diferencia um produto do outro é basicamente os tipos de ingredientes selecionados. Palmer (2017) aborda que cada estilo de cerveja tem um sabor característico, por causa dos diferentes tipos de leveduras, maltes, lúpulos, água, ou da soma dos quatro. Um estilo é melhor definido nomeando todos os ingredientes e detalhes da fermentação. Cada país, cada região geográfica e mesmo cada cidade pode ter seu próprio estilo de cerveja. Nesse sentido, além dos ingredientes obrigatórios, definidosem decreto, pode-se agregar uma lista infinita de outras opções, que ajudam a dar sabor, aroma e característica específica a cada estilo de cerveja. As cervejas são divididas em três grandes famílias que contém variados estilos, são elas: Lager, Ale e fermentação espontânea. A família Lager é composta por cervejas de baixa fermentação, os estilos que pertencem a essa família, na sua grande maioria, são cervejas leves e claras. Já a família Ale são cervejas de alta fermentação, nas quais os estilos possuem maior corpo e paladar frutado, com gosto e aromas variados. As cervejas de fermentação espontânea são fermentadas por leveduras selvagens presentes, principalmente, no ambiente de fermentação. A mais tradicional e conhecida é a Lambic, proveniente da Bélgica, que possui um paladar bem distinto e alto teor de gás carbônico, que acaba lembrando um espumante. 46 Acadêmico, ao longo do Tópico 1, vamos diferenciar cada família e os vários estilos de cerveja. Iremos ainda abordar as principais características como cor, sabor e aroma, visto serem os principais aspectos de interesse desta bebida, e, por fim, a harmonização e alguns exemplos nacionais de cada estilo cervejeiro. Acadêmico, conheça o “Glossário cervejeiro: da cultura à ciência”, de Gabriel Gerber Hornink e Gabriel Galembec, com cerca de 700 termos cervejeiros específicos, para você se aprofundar ainda mais no mundo cervejeiro. Disponível em: https://bit.ly/3tEf762. DICA 2 TIPOS DE CERVEJA A fabricação de uma cerveja abrange quatro ingredientes principais: água, malte, lúpulo e fermento. Além desses ingredientes pode ser adicionado frutas, ervas, café, chocolate e plantas diversas. Alguns fabricantes utilizam cereais não maltados em suas receitas como arroz e milho – esses produtos são utilizados para dar à cerveja um corpo mais baixo e baratear seu consumo. Existem três principais tipos (ou famílias) de cerveja, que estão relacionadas ao tipo de fermento usado no processo de fabricação. Cada família possui processos de fermentação diferentes, já que as leveduras utilizadas são de espécies distintas. É o processo fermentativo que determina os perfis sensoriais e as características de cada estilo de cerveja. Esse fermento diferenciará a cor, sabor, teor de álcool e várias outras características da cerveja, que, depois, fará parte de grupos distintos de acordo com os ingredientes utilizados. O fato é que o universo das cervejas artesanais é imenso, cada fabricação, cada família e estilo tem sua história, sua tradição e até mesmo descobertas novas em virtude da evolução da ciência. E, ao pedir uma cerveja em um restaurante, é preciso saber apreciá-la, degustá-la e não apenas matar a sede (SILVA; GUARNIERI, 2014). Os tipos de cerveja são: Ale, Lager, fermentação espontânea ou Lambic e fermentação híbrida. Há mais de 150 estilos de cerveja, e os principais das famílias Ale e Lager são mostrados na Figura 1. 47 FI GU RA 1 – PR IN CI PA IS E ST IL O S D E CE RV EJ A A LE E L AG ER E C O PO S A D EQ U A D O S PA RA C A DA E ST IL O (M A PA D A C ER V EJ A ) FO N TE : < ht tp s: //s hu tr .b z/ 3s BU U 1j >. A ce ss o em : 3 m ar . 2 02 2. 48 O copo certo para cada estilo de cerveja é um dos itens essenciais para que se possa ter uma melhor experiência sensorial da bebida, e, assim, aproveitar ao máximo o que ela tem para oferecer. Ele pode destacar características como aroma e visual da bebida. A espessura da borda, o material que é feito, o peso, formato e transparência são alguns atributos que, além de colaborarem na apresentação, valorizam os aspectos sensoriais de cada tipo de cerveja. 2.1 CERVEJA ALE As cervejas Ale são de alta fermentação, utilizam leveduras Saccharomyces cerevisae e fermentam em uma temperatura mais elevada, que varia entre 15 e 24 °C, e flotam após a sua fermentação, ou seja, suas leveduras sobem, aos poucos, para a parte superior do tanque de fermentação, formando uma espécie de nata em cima do líquido, após cinco a seis dias de fermentação. Produzem uma bebida de sabor forte, ligeiramente ácida e com teor alcoólico variando entre 4 e 8% (v/v). Geralmente, são mais aromáticas e complexas e podem variar os estilos, que vão desde o doce ao amargo, e das claras às escuras, além de possuir maior corpo e de paladar frutado. Logo, dentro das Ales surgem diversas variações. 2.1.1 Weizenbier ou Weissbier Dentre os diferentes estilos de cerveja da família Ale, um dos que mais se destaca é a Weizenbier ou Weissbier. São cervejas de trigo, típicas da região da Baviera, no sul da Alemanha, Ela leva basicamente malte trigo em sua composição, mas alguns tipos de cerveja podem levar também a cevada maltada em pequena quantidade. Na sua grande maioria são turvas, com sabores frutados, possuem baixo amargor, em torno de 13 IBU e baixo teor alcoólico, entre 4,5% e 5,5% (v/v), e possui um médio corpo. Graças a essas características, há uma alta drinkability. Por causa do seu processo de fermentação, a cerveja abrange um sabor que lembra banana e cravo, sua cor varia de um amarelo claro a escuro. Existem também diversas variações dentro da Weizenbier, a Dunkel Weizenbier, por exemplo, é uma delas - uma cerveja escura e com gosto mais marcante. Outra derivação deste estilo, é a Weizenbock, a qual possui um teor alcoólico maior que as outras variações. A Paulaner Hefe-weizbier também é um exemplo deste estilo de cerveja. 49 O que é IBU e drinkability? • IBU é uma sigla para International Bitter Unit e mede a escala de amargor da cerveja, que vai de 0 a 100, ou seja, mede o potencial de amargor atribuído pelos lúpulos à cerveja. Quanto maior o índice, mais a cerveja é lupulada. O amargor é medido com base nos alfa-ácidos presentes no lúpulo, que guarda nas suas pétalas óleos essenciais. E é neles que se encontram os alfa-ácidos que, no processo de produção da cerveja, são liberados, dando o amargor a bebida. • Drinkability é a facilidade em que o degustador tem de tomar um certo estilo de cerveja, ou seja, o quanto ela é agradável de se beber, a qualidade que uma cerveja tem em ser tomada várias vezes, tomar vários goles ou um copo atrás do outro. NOTA 2.1.2 Witbier Assim como a Weizenbier, este estilo de cerveja também é feito com base em trigo. A diferença está na origem: a Witbier é tradicionalmente produzida na Bélgica e, nela, é adicionado casca de laranja e sementes de coentro, deixando-a com um sabor cítrico mais intenso. É uma cerveja turva, por causa da refermentação e leveduras que ficam em suspenção na garrafa, possui uma variação de cor que se inicia com uma cor amarelo palha até o dourado bem claro, além de possuir um médio corpo. Para degustação de cervejas de trigo, tanto o estilo Weizenbier, quanto o Witbier, o copo de 500 ml, na Figura 2, comporta exatamente a quantidade de bebida que vem na garrafa, e, a cada gole, o fermento que se encontra no fundo do copo se mistura novamente com a bebida. FIGURA 2 – COPO IDEAL PARA WEIZENBIER E WITBIER FONTE: <https://shutr.bz/3Mk2eGH>. Acesso em: 3 mar. 2022. 50 As Witbiers têm baixo amargor, variando entre 11 e 13 IBU, logo é considerada uma cerveja com alta drinkability, em que os sabores cítricos e das especiarias se sobressaem. Seu teor alcoólico varia de 4,5% a 5,5% (v/v). A cerveja Hoegaarden é um exemplo de Witbier. 2.1.3 Stout Estilo de cerveja típica do Reino Unido e Irlanda. Essas cervejas escuras possuem um marcante sabor de chocolate, café e malte torrado, e, dependendo da variante do estilo (Dry Stout, Foreign Extra Stout, Oatmeal Stout, American Stout, Russian Imperial Stout), ela pode ter baixo ou alto corpo e cor que pode variar do preto brilhante ao marrom muito profundo. O copo ideal para degustar este estilo de cerveja é o Pint(Figura 3), copo tradicional do Reino Unido, que tem capacidade para 568 ml. Já dos EUA, cabem 473 ml. FIGURA 3 – COPO PINT COM CERVEJA STOUT FONTE: <https://shutr.bz/3pzjT3C>. Acesso em: 3 mar. 2022. O teor alcoólico deste estilo pode chegar a 8% (v/v), e o amargor varia de 30 a 45 IBU, logo, possui uma baixa drinkability. A marca mais conhecida é a irlandesa Guinness, considerada por muito tempo como a melhor cerveja do mundo pelo Guinness Book. 51 2.1.4 India Pale Ale (IPA) As IPAs são cervejas que possuem um amargor mais intenso, por causa da alta concentração de lúpulos, bastante aromáticas e bem refrescantes. Geralmente, possuem o tom de cor dourado mais fechado, puxando para o cobre. Este estilo pode ser de três subtipos, que variam na intensidade de amargor: English IPA, American IPA e a Imperial IPA. • English IPA: forma original que foi criada a IPA, pelos ingleses. Subestilo que possui um toque de malte mais evidente do que as American IPAs e os aromas de lúpulo mais discretos. Além de ter um perfil aromático diferente. • American IPA: são o subestilo mais famoso das IPAs. Suas principais características são amargor marcante e qualidades cítricas, frutadas e resinosas. No Brasil, não é tão comum, mas nos Estados Unidos esse subestilo ainda é divido em mais dois subestilos: A East Coast IPA e a West Coast IPA. • Imperial IPA: variação mais forte da IPA tradicional, possui doses bem maiores de lúpulo, tornando-a mais amarga e um alto teor alcoólico. Ela também é conhecida como Double IPA ou Double Pale Ale. Este subestilo é recomendado para quem gosta de sabores extremos. Seu teor alcoólico pode variar de 9% a 13% (v/v). Tradicionalmente, as IPAs, assim com as cervejas Stout, conciliam com o copo Pint (Figura 4). De origem inglesa, assim como as IPAs, o pint é uma unidade de medida que deu nome ao copo mais utilizado para as IPAs, Stouts e outras Ales inglesas. FIGURA 4 – COPO PINT COM CERVEJA IPA FONTE: <https://shutr.bz/3MmAbGX>. Acesso em: 3 mar. 2022. 52 2.1.5 Pale Ale De origem inglesa, as Pale Ale são cervejas que têm uma quantidade maior de lúpulo de amargor na sua receita, tornando-a uma cerveja mais amarga. Elas apresentam uma coloração cobre e aroma frutado e terroso. Alguns subestilos das Pale Ale são: • Belgian Pale Ale: são cervejas da versão belga, claras, leves, que possuem aroma frutado e sutilmente condimentado. • American Pale Ale: é a mais suave e uma das mais famosas dos subestilos da Pale Ale. Pode ter desde uma coloração dourada clara até um âmbar mais escuro. Tem um sabor bastante semelhante com o de pão torrado, um amargor médio, que acaba ficando suave no final. • English Pale Ale ou Bitter: é um subestilo com forte amargor, tem menos lúpulo do que a americana, mas também é bastante balanceada. Sua cor varia entre o dourado e o cobre profundo, com aroma terroso de lúpulo e malte. O copo ideal para servir uma Pale Ale também é o Pint (Figura 5). FIGURA 5 – COPO PINT PARA PALE ALE FONTE: <https://shutr.bz/3MlRlEo>. Acesso em: 3 mar. 2022. Em geral, as cervejas deste estilo são pouco encorpadas, com teor alcoólico em torno de 5% e amargor em torno de 50 IBU, o que torna um estilo com média drinkability. Este estilo de cerveja é caracterizado pelos aromas florais, cítricos, frutais e resinosas da variedade de lúpulos utilizados. É bem-marcado pelos sabor, aroma e amargor do lúpulo, que varia entre 50 e 70 IBU, e teor alcoólico, geralmente, varia entre 5,5 e 7,5% (v/v). Logo, as cervejas do estilo IPA possuem uma baixa drinkability. 53 2.1.6 Strong Golden Ale São cervejas belgas, complexas e delicadas, são refermentadas na garrafa, o que a torna bastante efervescentes e com uma espuma densa e cremosa. Estilo que possui coloração amarelo-dourado com aparência brilhante e translúcida e sabor frutado, são mais fortes e encorpadas. Seu teor alcoólico pode chegar a 10% (v/v), e amargor em torno de 30 IBU, o que torna este estilo com média drinkability. O copo ideal para apreciar uma Strong Golden Ale é a tulipa (Figura 6). De características delicadas e com uma pequena curva para fora, este copo expande os aromas e facilita a evolução da espuma. FIGURA 6 – TULIPA COM STRONG GOLDEN ALE FONTE: <https://shutr.bz/3tjXGra>. Acesso em: 3 mar. 2022. No seu sabor é possível sentir notas frutadas, lupuladas, condimentadas e de álcool, além de um suave sabor de malte. Um exemplo deste estilo é a Duvel, que significa “diabo”, produzida na cervejaria Duvel Moortgat desde o fim da Primeira Guerra Mundial. 2.1.7 Red Ale Este estilo de cerveja tradicional da Irlanda, possui corpo de médio-leve a médio, cor avermelhada, aroma e notas de malte tostado, originário do malte caramelizado, possui um amargor suave, o que proporciona um equilíbrio com seu corpo. Este estilo é dividido entre as: • Irish Red Ale: cervejas que possuem corpo médio, um leve dulçor de caramelo e pouco amargor. 54 • Belgian Flanders: são cervejas originárias da Bélgica com acidez láctica ou acética, por causa da fermentação com Lactobacillos, possui aroma frutado de cereja, sem presença do lúpulo. • American Red Ale ou Amber Ale: são cervejas de corpo macio, amargor médio e no paladar traz notas de malte torrado e biscoito. • Double Red Ale: cervejas intensas, que possuem um amargor intenso, malte com notas levemente tostadas com aromas que vão até ao chocolate. • Imperial Red Ale: são cervejas com alto teor alcoólico, elevado amargor que é balanceado por um malte caramelizado. O copo ideal para degustação da Red Ale é o Nonic Pint (Figura 7), uma variação sobre o design cônico do Pint. Possui o vidro alargado na parte superior, o que melhora a aderência, evita que os copos fiquem grudados quando empilhados e reduz o risco de o aro ser lascado. FIGURA 7 – COPO NONIC PINT COM RED ALE FONTE: <https://shutr.bz/3MlRI1K>. Acesso em: 3 mar. 2022. A Red Ale possui corpo é médio e o amargor suave, em torno de 25 IBU, proporciona um equilíbrio. Sua carbonatação moderada deixa essa cerveja com alta drinkability, mas o teor alcoólico, em torno de 5,0% (v/v), pode ser percebido mais rapidamente nas versões mais potentes. Um exemplo deste estilo de cerveja é a Baden Baden Red Ale. 2.1.8 Kölsch Neste estilo originário da Alemanha, as cervejas são filtradas e bastante claras, com coloração que varia entre amarelo-palha e amarelo-ouro, possui notas frutadas no aroma, e um leve amargor, e um paladar ligeiramente seco, com um dulçor sutil e um pouco adstringente. 55 FIGURA 8 – COPO CILÍNDRICO COM CERVEJA KÖLSCH FONTE: <https://shutr.bz/3sEJ2vR>. Acesso em: 3 mar. 2022. Este estilo de cerveja possui baixo amargor, variando entre 18 e 25 IBU, final seco e teor alcoólico que varia entre 3,5 e 5% (v/v), deixando-a com uma alta drinkability. É uma boa opção para os dias mais quentes em virtude de sua alta refrescância. Um exemplo deste estilo é a Graffel Kölsch. O copo tradicional alemão, copo cilíndrico (Figura 8), é usado para servir este estilo de cerveja. Ele é fino e com o mesmo diâmetro da boca ao fundo, contribui para a formação de espuma e concentração dos aromas. Também é chamado de Stange na Alemanha e Stick na Inglaterra, palavras que significam vareta. 2.1.9 Porter As cervejas deste estilo são fabricadas no Reino Unido, são escuras, encorpadas, elaboradas com bastante malte torrado. Porém, normalmente, formam pouca espuma pela fermentação que são produzidas. Os sabores de café e malte são uma de suas principais características, além do lúpulo que garante um leve sabor amargor. A diferença entre Porters e Stouts é muito sútil. De modo geral, a primeira possui o malte tostado menos acentuado em relação à segunda. Além disso, a Poter possui amargor entre 18 e 35 IBU e teor alcoólico entre 4,0 e 5,5% (v/v), deixando este estilo com média drinkability. Ocopo utilizado para degustação deste estilo é o mesmo da Stout, e um exemplo é a London Poter. 56 2.2 CERVEJA LAGER Este tipo de cerveja caracteriza-se pela baixa fermentação; são cervejas produzidas em temperaturas mais baixas, que varia entre 8 e 14 °C e por leveduras que, geralmente, são da espécie S. pastorianus, um híbrido da S. cerevisiae e da S. eubayanus, que aos poucos descem para o fundo do tanque de fermentação após sete a dez dias de fermentação. As cervejas Lagers são mais leves e claras e possuem um menor teor alcoólico e são menos amargas que as Ales, já que possuem pouco lúpulo. São mais gasosas e refrescantes e pouco frutadas. Este tipo corresponde a mais de 90% das cervejas produzidas no mundo, sendo, a mais conhecida, a Pilsen, uma cerveja clara, bastante carbonatada e com baixo amargor, em que a recomendação é degustá-la gelada. 2.2.1 American Lager Um estilo que é muito consumido em todo o mundo, principalmente, por se tratar de cerveja do público de massa. Essas cervejas são leves e límpidas, com coloração dourada, corpo baixo e espuma límpida, além de possuir um sabor suave, com baixo a moderado-baixo sabor granulado ou de milho, podendo ser detectado como doçura e aroma neutro. Seu alto nível de carbonatação pode evidenciar a frescura de um final seco. O copo ideal para degustar uma American Lager é o Lager (Figura 9). Um dos mais populares para servir cerveja em bares e restaurantes. Ele possui a base estreita, propício para manter a espuma da cerveja, e o seu formato permite ver bem a cor e a turbidez das cervejas mais claras e douradas. Além do copo americano, bastante conhecido entre os brasileiros. FIGURA 9 – COPO LAGER COM CERVEJA AMERICAN LAGER FONTE: <https://shutr.bz/3vB6pIC>. Acesso em: 3 mar. 2022. 57 O amargor do lúpulo presente neste estilo é baixo para médio-baixo, variando entre 8 e 18 IBU e teor alcoólico entre 4,2 e 5,3% (v/v), o que faz que este estilo tenha uma boa drinkability. As cervejas do estilo mais encontradas no Brasil são: Skol, Brahma, Antártica, Original, Bohemia, Budweiser. 2.2.2 Pilsen Cerveja originária da cidade de mesmo nome, na região da Bohemia. São cervejas leves, com aroma do próprio malte, espuma consistente, e de cor dourada translúcida. Pode aparecer em três subestilos: Bohemian Pilsner, German Pilsner e Classic American Pilsner. Assim como as American Lager, o copo ideal para degustar uma Pilsen é o Lager, tendo também como opção o copo americano, a tulipa e a caneca de vidro (Figura 10). A caneca é muito usada para servir chopps e, normalmente, é robusta, com alça, pesada, grande e pode ser feita de vidro grosso, cerâmica e metal, sendo preferida a de vidro para não influenciar no sabor. FIGURA 10 – CANECA DE VIDRO COM CHOPP PILSEN FONTE: <https://shutr.bz/3CaktKc>. Acesso em: 3 mar. 2022. Este estilo de cerveja deve ser feito de acordo com a lei de pureza alemã (Reinheitsgebot), que determina que podem ser usados somente água, malte de cevada, lúpulo e levedura. As cervejas que levam cereais não maltados, como milho e arroz, não são puras, logo, não podem ser chamadas de Pilsen, são as American Lager. Ela apresenta amargor de leve a alto, variando entre 25 e 45 IBU e teor alcoólico médio, em torno de 5,0% (v/v), o que torna uma cerveja com alta drikability. Eisenbahn, Império, Dama Bier e Wals são exemplos de Pilsen fabricados no Brasil. 58 2.2.3 European Amber Lager As Amber Lagers estão dentro do grupo de cervejas puramente Lager, produzidas por meio do processo de baixa fermentação, tendo como produto mais famoso no Brasil a Heineken. Possui a cor acobreada, como o próprio nome diz, é uma cor âmbar de pouca variação entre diferentes marcas, podendo ser mais clara ou mais escura. O copo ideal para degustação é a tulipa (Figura 11), que possui uma pequena curva para fora no topo e direciona o aroma do lúpulo para o nariz. FIGURA 11 – COPO TULIPA COM EUROPEAN AMBER LAGER FONTE: <https://shutr.bz/3HF6CfS>. Acesso em: 3 mar. 2022. Em sua composição, variados tipos de maltes e lúpulos conferem o tom característico, o que também se aplica ao sabor e aroma. Possui um sabor adocicado, com um final levemente amargo (apesar de algumas terem o amargor mais acentuado), com amargor próximo de 30 IBU e teor alcoólico em torno de 5,6% (v/v), deixando-a com uma alta drinkability. 2.2.4 Dark Lager O estilo Dark Lager é rico, maltado e escuro. Seu aroma apresenta notas maltadas e, às vezes, adocicadas de casca de pão, tostado, nozes, frutas frescas e caramelo. A coloração vai do cobre escuro a quase preto e pode apresentar reflexos avermelhados. É uma cerveja com aparência brilhante e espuma volumosa. A Malzbier é a mais famosa Dark Lager encontrada no Brasil. Escura e doce, com teor alcoólico baixo entre 4,2 e 4,8% (v/v) e amargor baixo, na faixa de 12 e 20 IBU, após a sua fermentação é acrescentado xarope de açúcar e caramelo. O copo tulipa (Figura 12), assim como nos outros estilos, é usado para servir este estilo de cerveja. 59 FIGURA 12 – COPO TULIPA COM CERVEJA DARK LAGER FONTE: <https://shutr.bz/3pCmaej>. Acesso em: 3 mar. 2022. São divididos em três subestilos. • American Dark Lager: são cervejas muito escuras, com baixo corpo, ótima carbonatação e sua espuma é de coloração que tende a ir para o dourado, além de serem muito refrescantes. Sua cor varia de âmbar para o marrom escuro, e seu aroma quase não aparece na bebida, tornando muito difícil de notar o malte e o lúpulo nela. • Schwarzbier: é uma cerveja que possui uma coloração que vai do marrom escuro ao negro, aroma de malte em média intensidade, notas tostadas evidentes, amargor baixo a médio e pode ser perceptível notas frutais, além de apresentar notas de chocolate, café e caramelo. • Munich Dunkel: é considerada a original Dark Lager da Europa, sua cor varia do cobre ao marrom escuro e seu colarinho de espuma cremosa tem uma coloração clara a bronze. Geralmente, é uma cerveja limpa, mas sem filtragem, ela é turva. Possui um sabor incomparável, pois o seu malte Munich dá a ela um doce amargor com notas de chocolate, caramelo e nozes. Seu corpo é médio e a carbonatação moderada. 2.2.5 Bock São cervejas que tem origem na Alemanha e apresentam no sabor e aroma notas de chocolate, caramelo e pão tostado, proveniente do blend de malte utilizado na sua produção. São mais robustas e alcoólicas, se comparadas com outras Lagers. Possui a cor que varia do avermelhado ao marrom. O copo para apreciar este estilo de cerveja é o tulipa. Pode apresentar variações do estilo tradicional, são eles: Doppelbock, Eisbock e Dunkler Bock. • Doppelbock: cerveja de origem bávara, o termo “Doppel”, em alemão, significa dobro, ou seja, são mais fortes que as tradicionais cervejas do estilo Bock. Já foi chamada de “Salvator”, porque foi criada por monges em jejum, que não podiam comer alimentos sólidos, para não morrer de fome. Seu teor alcoólico é mais elevado, podendo chegar até 10% (v/v), além disso, possui o amargor do lúpulo diferenciado. Exemplares nacionais do estilo Doppelbock são as cervejas: Bambergerator e Baden Celebration. 60 • Eisbock: consiste basicamente numa Doppelbock que, depois de produzida, é congelada e filtrada. Assim, possui um teor alcoólico mais alto, variando de 9 a 14% (v/v), e o amargor do lúpulo é quase inexistente. • Dunkler Bock: o malte é moderadamente percebido como pão em seu aroma, já o lúpulo quase não é perceptível e também tem menor evidência no sabor dessa cerveja. O teor alcoólico é mais baixo, variando entre 6 e 7,5% (v/v), e são menos encorpadas. 2.3 CERVEJA DE FERMENTAÇÃO ESPONTÂNEA Nas cervejas de fermentação espontânea as bactérias e leveduras selvagens que estão presentes no ambiente fermentam o mosto. Esses microrganismostambém podem estar presentes no próprio malte, frutas, cascas de árvores etc. Este tipo de fermentação confere à cerveja um sabor mais ácido. Segundo Trommer (2020, s. p.), As cervejas Lambics da Bélgica são as únicas cervejas espontâneas que sobreviveram ao tempo. Para fazer a melhor cerveja, os belgas misturam cervejas com datas diferentes de produção, que maturaram em barris por tempo indeterminado. Por décadas essas cervejarias reutilizavam os barris que armazenaram a melhor cerveja e se livravam dos barris que não traziam o resultado desejado. Muitas cervejarias queimavam estes barris na caldeira. Cervejas que apresentavam uma flora de microrganismos que produzia cervejas de alta qualidade, eram inoculadas no mosto de uma nova batelada, afim de repetir a mesma qualidade. Algumas cervejarias utilizavam a espuma que transbordava dos barris em fermentação para inocular uma nova produção de mosto. Nas Lambics, o mosto é depositado em tanques abertos que são expostos a microrganismos que estão presentes no meio ambiente. Esses microrganismos preenchem os tanques, paredes e as instalações da cervejaria. A principal levedura utilizada é a Brettanomyces. Após a fermentação, a cerveja é armazenada por meses em barris de madeira. As cervejas são envelhecidas em barris de carvalho de seis meses (Lambic jovem) a dois anos (Lambic velho). Uma cervejaria que produz Lambics não adquire suas leveduras e bactérias somente do ar externo, mas também da própria microflora criada na sua instalação e equipamentos. O lúpulo, neste tipo de cerveja, é utilizado para dar estabilidade e um certo amargor à cerveja, seu aroma é indesejado em uma cerveja Lambic. O processo de fermentação das Lambics gera fortes sabores peculiares, como ácidos, notas florais e frutadas. As cervejas Gueuze, Faro e Fruit Lambic são alguns exemplos. 61 2.3.1 Gueuze A cerveja Gueuze é um blend de Lambic velha com Lambic jovem. A Lambic envelhecida dá corpo e aroma, já a jovem, que pode ter em torno de seis meses de fermentação, dá frescor à bebida. Após o blend, a cerveja é engarrafada, refermentada na garrafa, ou seja, os açúcares residuais da Lambic jovem continuam a fermentar o que se traduz em intensa carbonatação, semelhante à de espumante, e armazenada por, no mínimo, seis meses para que os açúcares residuais da Lambic jovem possam fermentar (A FAMÍLIA [...], 2017). Este estilo possui uma cor dourada, tendendo ao âmbar, e se torna mais escura com o passar do tempo e pode apresentar uma leve turbidez, por causa dos sedimentos no fundo da garrafa. São cervejas bem ácidas, com o paladar seco, e, mesmo assim, são agradáveis e refrescantes. Possui notas rústicas, que remetem ao couro, além de apresentar baixo dulçor e nenhum amargor, alta carbonatação e baixo corpo. 2.3.2 Faro É um estilo histórico de cerveja que quase desapareceu. São feitas tomando-se como base um blend de Lambic jovem e açúcar mascavo ou melaço de cana, e o gosto doce se contrapõe à acidez da fermentação espontânea. Possui a cor âmbar, com aromas rústicos característicos das Lambics, podem ser adicionados temperos como pimenta, coentro e cascas de laranja, o que traz um retrogosto suave acompanhadas de notas adocicadas. Também possui uma boa carbonatação, com formação de espuma densa e teor alcoólico em torno de 5 % (v/v). 2.3.3 Fruit Lambic As Fruit Lambics recebem frutas (cereja, morango, framboesa, pêssego etc.) após o blend entre uma Lambic envelhecida e uma Lambic jovem. Essas frutas são adicionadas num volume que varia de 10 a 30%, durante o período de maturação, que podem levar até um ano. Os estilos mais comuns são a Kriek, que são adicionadas cerejas, e a Framboise, com adição de framboesas. Nestas cervejas as características de cor, aroma e sabor acabam sendo influenciadas pela adição das frutas. Possuem baixo corpo, acidez característica das Lambics e teor alcoólico que varia ente 5 a 7% (v/v). 62 2.4 FERMENTAÇÃO HÍBRIDA Na fermentação híbrida podem ser usados os dois tipos de leveduras, da família Ale ou da família Lager, ou usar um tipo com fermentação em temperatura de uso característico no outro tipo de fermentação. Por exemplo: utilizar uma levedura Ale, fermentando em temperatura comum de fermentação para o fermento Lager ou vice-versa. São cervejas conhecidas como Light Hybrid Beer, e se dividem em três estilos: Cream Ale, Blonde Ale e American Wheat. 2.4.1 Cream Ale Este estilo é típico dos EUA, e as cervejas são claras, leves e refrescantes, com mais corpo do que as típicas lager americanas. É a soma do estilo American Pale Ale com adjuntos de cereais não maltados (milho ou arroz), com leveduras da família Lager. Por levar cereais não maltados na receita, possui notas de malte médio-baixas, e notas de lúpulo de médio-baixo a nenhum, com amargor entre 8 e 20 IBU e teor alcoólico variando entre 4,2 e 5,6% (v/v). O exemplo mais famoso é a Genesee Cream Ale. 2.4.2 Blonde Ale São cervejas naturais da Bélgica, possui um dulçor em evidência e final seco. Possui notas maltadas que remetem ao pão e ao mel. Um dulçor que se equilibra com o amargor, que varia de baixo a moderado, além de possuir corpo médio. Possui a cor variando do amarelo palha ao dourado, com uma espuma branca, densa e persistente. Há uma harmonia entre seu teor alcoólico, que varia entre 6,0 e 7,5% (v/v), o amargor, que varia entre 15 e 30 IBU, dando um leve aroma terroso e condimentado do lúpulo e o malte, que dá um sabor adocicado a cerveja. 2.4.3 American Wheat Pode-se dizer que a American Wheat é uma cerveja de trigo “reduzida”, pois não possui as fortes características das Weizen. São cervejas leves, claras e refrescantes, além de possuir pouca espuma. Tem um sabor mais cítrico e de especiaria e são mais amargas que as de trigo tradicionais alemãs. Possui o aroma de lúpulo baixo-médio e pode ter notas cítricas, picantes, floral ou de frutas. Quanto o sabor, pode ter um dulçor do malte moderado e terminar bastante seco, que acaba equilibrando com o amargor do lúpulo (varia entre 15 e 30 IBU). O teor alcoólico é baixo, ficando entre 4,0 e 5,5% (v/v). 63 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Os tipos de cerveja diferem-se com base na receita e no tipo de fermento usado no processo de fabricação, que irá diferenciar o sabor, a cor, teor alcoólico, entre outras características da cerveja. Existem três famílias ou tipos de fermentação: as Ales, as Lagers e as Lambics. • As cervejas Ale são de alta fermentação e fermentam por intermédio da levedura Saccharomyces cerevisiae em uma temperatura mais elevada, que varia entre 15 e 24 °C, e flotam após a sua fermentação, formando uma espécie de nata em cima do líquido, após quatro a seis dias de fermentação. Os principais estilos da família Ale são: Weizenbier, Witbier, Stout, Porter, Dubbel, Pale Ale, India Pale Ale (IPA), entre outras. • As cervejas Lagers caracteriza-se pela baixa fermentação, produzidas em temperaturas mais baixas, que varia entre 8 e 12 °C e por leveduras leveduras que, geralmente, são da espécie S. pastorianus, que aos poucos descem para o fundo do tanque de fermentação após sete a dez dias de fermentação. Os principais estilos da família Lager são: American Lager, Pilsen, Bock, Dunkel, entre outros. • A fermentação espontânea é considerada a forma rústica de fazer cerveja, em que nenhum microrganismo é adicionado ao mosto. As leveduras e bactérias selvagens fermentam este tipo de cerveja, e elas são adquiridas por meio das frutas, cascas de árvores, do malte, do ambiente ou mesmo do ar. As Lambics, produzidas tradicionalmente na Bélgica, foram as únicas que sobreviveram ao tempo. Os principais estilos são: Gueuze, Faro e Fruit Lambic. • Existe aindaas cervejas de fermentação híbrida, que ocorre quando duas ou mais cepas de leveduras e/ou processos de fermentação Ale e Lager são utilizados na mesma cerveja. Os estilos mais conhecidos deste tipo de cerveja são: Cream Ale, Blonde Ale e American Wheat. RESUMO DO TÓPICO 1 64 1 No processo de fermentação das cervejas Ale acabam realçando os sabores frutados e lupulados. Este tipo de cerveja acaba sendo mais encorpado, porém, podem variar muito de um estilo para o outro, com características variadas que vão do doce ao amargo, das claras às escuras, entre outras. Quanto à exemplificação dos estilos de cerveja Ale, assinAle a alternativa CORRETA: a) ( ) Schwarzbier, Munich Dunkel e Bock. b) ( ) Witbier, Stout e Porter. c) ( ) Porter, Eisbock e Gueuze. d) ( ) Witbier, India Pale Ale (IPA) e Pilsen. 2 As cervejas de fermentação híbrida combinam processos e leveduras de diferentes famílias na sua produção. Geralmente, são cervejas que combinam processos e leveduras das famílias cervejeiras Ales e as Lagers. Quanto ao que representa os três estilos de cerveja híbrida, assinAle a alternativa CORRETA: a) ( ) Blonde Ale, Cream Ale, American Wheat. b) ( ) American Wheat, Belgian Pale Ale e American Lager. c) ( ) Blonde Ale, Cream Ale e Red Ale. d) ( ) Helles Bock, Gueuze e Cream Ale. 3 Em todo o mundo, existem mais de 150 estilos de cerveja classificados de acordo com: método de produção, origem da bebida, teor alcoólico, aroma, sabor, cor, dentre outros aspectos que diferenciam um estilo do outro. Com base nas características de cada estilo de cerveja, analise as afirmativas a seguir: I- A cerveja Pilsen é um estilo que é muito consumido em todo o mundo, principalmente, por se tratar de cerveja do público de massa. Tem a cor amarelo pálido a amarelo médio, possui uma espuma branca muito límpida. No aroma, há a presença de baixo a nenhum de malte, que quando presente pode ser percebido como granulado, doce ou milho. II- As IPAs são cervejas que possuem alta concentração de lúpulos, o que faz que seu sabor seja mais puxado para o amargo. Sua graduação alcoólica também é um pouco maior que o normal. Foi criada na Inglaterra, mas possui diversas variações como é o caso da American IPA. III- A Poter é um estilo de cerveja típica do Reino Unido e Irlanda. Essas cervejas escuras possuem um marcante sabor de chocolate, café e malte torrado, e dependendo da variante do estilo ela pode ter baixo ou alto corpo. AUTOATIVIDADE 65 Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. b) ( ) Somente a afirmativa II está correta. c) ( ) As afirmativas II e III estão corretas. d) ( ) Somente a afirmativa III está correta. 4 A cerveja é uma bebida bastante versátil e permite muitas oportunidades de variações quanto aos ingredientes utilizados, à proporção entre eles, ao grau de torra e tipo de malte, ao tipo de lúpulo, ao tipo de levedura, à temperatura de fermentação, entre outros. Existem três tipos (ou famílias) de cerveja que estão relacionadas a essas variações usadas no processo de fabricação. Disserte sobre a diferença entre as três famílias de cerveja. 5 As cervejas híbridas ocorrem quando duas ou mais cepas de leveduras e/ou processos de fermentação são utilizados na mesma cerveja. As leveduras de alguns estilos de cerveja híbrida podem fermentar bem dentro do limite projetado para fermentos do estilo Ale. Entretanto, mesmo assim, ainda retém o caráter e a leveza de um fermento Lager. Tomando-se por base essa afirmativa, disserte sobre os três principais tipos das cervejas híbridas. 66 67 SENTIDOS HUMANOS ENVOLVIDOS NAS AVALIAÇÕES SENSORIAIS UNIDADE 2 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO A avaliação sensorial é usada pelos seres humanos de maneira inconsciente, no momento que estes julgam e decidem sobre suas preferências. Segundo Bento, Andrade e Silva (2013), esse processo existe graças aos receptores sensoriais, o qual são estruturas responsáveis por receber as informações dos estímulos e fornecer uma resposta ao indivíduo. Nós possuímos cinco sentidos: audição, olfato, paladar, tato e visão. Eles são divididos em dois grupos: sentidos de natureza física, que são audição, tato e visão, e os sentidos de natureza química, que são olfato e paladar. Os sentidos de natureza física, como o próprio nome já indica, são estimulados por uma ação física, enquanto os de natureza química envolvem reações químicas e bioquímicas. Portanto, cada uma será trabalhada em áreas específicas do nosso cérebro. E como se sabe, em alguns casos, a diminuição de sensibilidade ou mesmo da ausência de uma delas faz que outras se amplifiquem. Ao iniciar uma alimentação, acionamos um mecanismo que é resultado da interação entre as percepções dos cinco sentidos humanos (visão, audição, olfato, tato e paladar), por isso devemos conhecer com detalhes como cada um dos sentidos pode influenciar na percepção dos alimentos durante sua degustação, permitindo trazer um diferencial importante para assegurar o sucesso do produto no mercado ou ao desenvolver um novo produto. De acordo com Teixeira (2009), a qualidade sensorial do alimento e a sua manutenção favorecem a fidelidade do consumidor a um produto específico em um mercado cada vez mais exigente. Atualmente, o consumidor está ampliando sua consciência quanto às características dos alimentos que escolhe consumir, buscando maior diversificação, praticidade e, acima de tudo, qualidade. Nenhum instrumento, ou combinação de instrumentos pode substituir os sentidos humanos. Estes medem parâmetros únicos, enquanto os sentidos humanos permitem descrever uma impressão holística da complexidade de um determinado produto (BIEDRZYCKI, 2008). 68 Acadêmico, ao longo do Tópico 2, vamos abordar a memória sensorial e a biblioteca sensorial, além de entender como cada órgão do sentido interfere na avaliação sensorial. 2 MEMÓRIA SENSORIAL A memória sensorial representa a porta de entrada dos primeiros estímulos recebidos pelo cérebro antes dele processar qualquer informação a nossa volta. Ela está sempre trabalhando, seja consciente ou inconscientemente (O QUE A MEMÓRIA [...], 2019). Pode-se dizer que a memória sensorial é o ato de fixar as informações que são percebidas pelos nossos cinco sentidos antes delas serem processadas em nossa memória de curto prazo. No entanto, o vestígio de memória sensorial pode permanecer caso ela seja estudada e treinada, mesmo que inconscientemente. Ela é responsável por fornecer os estímulos auditivos, visuais, táteis, gustativos e olfativos para a nossa memória. A percepção sensorial varia entre os indivíduos, ou seja, cada pessoa identifica os sabores de uma forma e, além disso, não é possível reconhecer um sabor que nunca foi sentido antes. Dessa forma, é preciso experimentação e repetição, para que a pessoa possa adquirir memória sensorial e, com isso, identificar a maior gama possível de sabores na cerveja, por exemplo. Por exemplo, quando pensamos em uma laranja, conseguimos imaginar sua imagem, sentir seu sabor, seu aroma, sua textura, mesmo não tendo nenhuma laranja por perto. Segundo Braga (2017, s. p.), […] isso é uma ideia de memória sensorial que já está exercitada pela nossa mente, e que agora já faz parte do que podemos chamar de biblioteca sensorial, que é um banco de dados gravado e exercitado pelo nosso cérebro. É isso que os sommeliers praticam para apurar os sentidos durante a degustação, eles treinam os sentidos e fazem com que essas memórias de curto prazo, se prolonguem a ponto de conseguir sentir o aroma de uma laranja isoladamente dentre muitos outros aromas à sua volta e em um líquido que não foi adicionada nenhuma laranja para que o aroma estivesse ali. 2.1 TIPOS DE MEMÓRIASENSORIAL Como possuímos cinco sentidos (audição, olfato, paladar, tato e visão) (Figura 13), também existem cinco tipos de memória sensorial. Porém, todos os tipos de memória sensorial possuem características em comuns apesar de trabalharem independentemente e se diferenciarem na região do cérebro, tempo de retenção e velocidade. 69 FIGURA 13 – CINCO SENTIDOS FONTE: <https://shutr.bz/3ttTLbl>. Acesso em: 3 mar. 2022. Os cinco sentidos possuem diferentes tipos de memória sensorial, que demonstraram ter durações ligeiramente diferentes. Os tipos de memória sensorial são: memória icônica, memória ecoica e memória háptica. Que representam a memória visual, auditiva e tátil respectivamente. A seguir, veremos os tipos de memória sensorial e quando são utilizados. 2.1.1 Memória icônica ou memória visual A memória icônica é aquela que abrange uma memória muito breve. Também conhecida como memória sensorial visual. Ela registra informações sobre o que enxergamos por apenas 500 milissegundos, tempo necessário para o impulso elétrico persistir no lobo occipital, local onde são processados os estímulos visuais, também são conhecidos como córtex visual. O cérebro recorda uma imagem depois de ter mostrado brevemente o visual, ou seja, a memória icônica é o resultado neurológico das informações ambientais que são detectadas pelos nossos olhos. A memória icônica fornece ao cérebro humano a habilidade de tomar decisões rápidas e definitivas sobre acontecimentos que ocorrem no ambiente. É chamada memória icônica, porque as representações mentais dos estímulos visuais são referidas como ícones. Um exemplo de memória sensorial icônica ocorre quando enxergamos um objeto que não conhecemos, ao fechar os olhos, alguns traços visuais em forma de ícone desse objeto continuam em nossa visão – essa é a nossa memória icônica funcionando. 70 2.1.2 Memória ecoica ou memória auditiva A memória ecoica é a memória sensorial muito breve de alguns impulsos auditivos, ou seja, é a capacidade da gente perceber as informações auditivas do ambiente. Geralmente, as memórias ecoicas são armazenadas por períodos de tempo ligeiramente mais longos do que as memórias icônicas, durando entre dois e três segundos, porém tem menor capacidade de armazenar processos em sequência. Este tipo de memória sensorial refere-se à maneira como o cérebro pode reproduzir o que é ouvido, é o que chamamos de eco, que é reproduzido na nossa mente durante o breve período de tempo após o estímulo auditivo. Esse estímulo auditivo é percebido pelo lobo temporal do cérebro. Alguns exemplos da memória sensorial ecoica ocorrem quando lembramos do nome de uma pessoa que acabamos de conhecer, ou repetimos o número de telefone ou endereço que acabaram de nos falar. 2.1.3 Memória háptica ou memória tátil A memória háptica é a memória sensorial que traz informações que podem ser recordadas quando são sentidas pelo tato, por isso é conhecida também como memória tátil. Ela envolve a memória muito breve de um toque e pode ser armazenada por um período de dois segundos. Porém, ela é mais extensiva que os outros tipos de memórias sensoriais, pois é capaz de receber estímulos de várias partes do corpo, trazendo sensações como dor, coceira, calor, formigamento etc., e acaba sendo refletida em toda superfície do cérebro. A aptidão de capturar memórias hápticas desenvolve-se na infância, já que é importante para a alimentação. Um exemplo da memória háptica é recordar quando furamos o dedo no espinho, quando recuperamos em nossa mente, podemos lembrar da sensação de dor que sentimos. 3 A IMPORTÂNCIA DE GERAR, MANTER E APERFEIÇOAR A BIBLIOTECA SENSORIAL A percepção sensorial é muito subjetiva, algumas pessoas têm “paladar cego” para alguns sabores, enquanto outras se mostram supersensíveis, mas há formas de treinar o paladar e o olfato, seja fazendo cursos de off-flavors ou até mesmo provando e sentindo alimentos que vão além dos tradicionais que conhecemos. Por isso, é importante treinar a percepção sensorial, ou seja, não ter medo de provar o novo, para se obter uma ampla biblioteca sensorial, além de treinar novos vocabulários sensoriais, principalmente quando se trabalha com cervejas, vinhos, cafés etc. 71 Ao longo da vida, vamos armazenando as sensações que determinados estímulos nos provocam. Essa complexidade se dá pela capacidade do cérebro em agrupar a resposta de estímulos (químicos e físicos) pelos nossos sentidos. A essa memória, chamamos de biblioteca sensorial. Quanto mais diferenciados os alimentos e aromas que provamos e aprendemos a nomear, maior é nosso repertório sensorial. (MENOCCI, 2020, s. p., grifo do original). Cada um dos cinco sentidos humanos (tato, olfato, audição, visão e paladar) é responsável em transmitir sinais e impulsos elétricos até o cérebro através do sistema nervoso, por meio dos neurônios, que levam a informação que sentimos ao comer ou beber algo, por exemplo. Assim ocorre a percepção sensorial, que é o reconhecimento do que estamos sentindo, e, assim, percebemos o estímulo. Nogueira (2021, p. 18) relata que […] é possível acontecer o caso de um estímulo odorífero não ser localizado, tanto pelo fato de o indivíduo nunca ter sentido determinado odor quanto pela perda de memória da informação. Desta forma, pode-se dizer que determinado odor não é localizado na biblioteca sensorial pois não está gravado na memória. Quando isso acontece, as conexões nervosas tendem a registrar o novo odor conforme suas características, de forma a gerar uma nova memória e armazená-la. A Figura 14 representa a condução do estímulo sensorial, a rota do alimento ao cérebro. FIGURA 14 – CONDUÇÃO DO ESTÍMULO SENSORIAL (ARCO REFLEXO) FONTE: <https://shutr.bz/3pzSWge>. Acesso em: 3 mar. 2022. 72 O córtex é a parte externa do cérebro, conhecida popularmente por massa cinzenta. Essa região é responsável pela competência de pensar e interpretar o que é enviado pelos cinco sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato). Logo, diferentes respostas podem ser adquiridas no cérebro, dependendo do tipo do estímulo: os receptores visuais geram energia elétrica em resposta à luz; já o tato e a audição respondem à energia na forma mecânica (pressão e vibração); o gosto e o aroma são especializados em receber energia química (BENTO; ANDRADE; SILVA, 2013). O gosto umami foi o último gosto básico a ser reconhecido cientificamente por volta dos anos 2000, e quer dizer saboroso em japonês. Ele é reconhecido pelo nosso paladar quando comemos alimentos que possuem aminoácidos na forma de glutamato e nucleotídeos, ou seja, alimentos ricos em proteínas, e alguns vegetais como tomates e aspargos e em alguns fungos. As duas principais características do umami são o aumento da salivação, permitindo uma melhor percepção do sabor dos alimentos e a continuidade do gosto por alguns minutos após a ingestão do alimento. INTERESSANTE Assim, podemos concluir que nossos gostos surgiram como resultado da nossa criação, dos nossos cinco sentidos que estão interligados e das ocasiões que estão correlacionadas a esses sentidos, que nos fazem gostar ou desgostar de alguma coisa. 4 SENTIDOS HUMANOS ENVOLVIDOS E SUAS RELAÇÕES Ao iniciar uma refeição ou alguma degustação, iniciamos também uma experiência sensorial bastante variada. A partir daí, processamos os cinco sentidos (visão, audição, tato, paladar e olfato) e criamos variadas sensações sensoriais em um conjunto complexo de comunicações. Cada um dos sentidos possui suas próprias características, que participam na percepção final dos alimentos. Ao combinar os ingredientes na preparação de alguma receita, ativamos nossos sentidos e estimulamosas melhores percepções sensoriais, e assim despertamos uma sensação de prazer no momento da degustação. Vamos agora estudar como cada sentido influencia diretamente nas avaliações sensoriais. 73 4.1 VISÃO Os olhos são os órgãos físicos que nos permitem o sentido da visão, que é um dos sentidos mais importantes dentro da avaliação sensorial, pois é por meio dela que são obtidas as primeiras impressões dos alimentos quanto ao tamanho, cor, brilho, formato, opacidade, consistência, espessura, integridade, defeitos e outros atributos referentes à expectativa da textura. A aparência é o parâmetro que mais influencia em nossa opinião, com relação a qualquer outro atributo, interferindo na decisão de compra, e, consequentemente, consumo ou não. Assim, as indústrias de alimentos vêm utilizando o visual como prioridade para tornar um alimento mais atrativo, como, por exemplo, adicionar cores, formas e decorações diferenciadas nos produtos (BENTO; ANDRADE; SILVA, 2013). São as características visuais que nos induzem a esperar certo sabor correspondente, além de preparar os demais sentidos sensoriais para as suas próprias percepções. Existem cores que são consideradas mais vibrantes, como o vermelho e o laranja, que instigam o paladar. Por outro lado, o azul e marrom são exemplos de cores consideradas menos estimulantes. De acordo com Hultén (2013), a visão é um dos sentidos mais dominantes que provoca aos indivíduos uma necessidade de sentir os produtos e serviços que os rodeiam, pois, a visão é um sentido que condiciona, desde logo, a opinião do consumidor diante de uma marca, e que o faz interpretar só por ver o produto, e sem o sentir. Sendo assim, o estímulo visual é um componente que envolve a imagem da marca, e que pode ser trabalhado tomando-se por base a cor, de gráficos, de letras, de embalagens e da construção de logótipos, podendo fazer parte da estratégia de uma marca. O fenômeno da visão é bastante complexo, porém, em resumo, ocorre quando, a luz refletida pelos objetos atravessa a córnea, o cristalino e incide sobre a retina do olho, gerando um impulso elétrico que leva, através do nervo óptico, o estímulo para o cérebro. Entretanto a percepção só ocorre quando a luz atinge o espectro 380 a 760 nm, variação essa visível ao humano. INTERESSANTE 74 4.2 OLFATO O olfato é um dos sentidos químico. De acordo com Bento, Andrade e Silva (2013), o olfato é percebido quando o odor dos alimentos provenientes de substâncias voláteis entra em contato com as narinas através do nariz. O nariz humano é capaz de estimular emoções e relembrar memórias, diante as variedades de odores, e essa sensibilidade pode ser variada de indivíduo para indivíduo, bem como diminuído como consequência da idade ou patologias. Ao mastigar um alimento, seu aroma característico é liberado na boca, passando às narinas através da nasofaringe até o epitélio (BENTO; ANDRADE; SILVA, 2013). O epitélio olfativo é uma área com pelos e possui terminações dos neurônios, que são responsáveis pela conexão com o cérebro. O ser humano é capaz de perceber mais de 10 mil diferentes odores, cada um definido por uma estrutura química diferente (PEREIRA, 2007). É por causa desta capacidade que faz que o olfato tenha grande participação no gosto que a sentimos nos alimentos. Grande parte do que identificamos como “gosto” é, essencialmente, aroma. Existe uma diferença entre odor e aroma, segundo explica a ISO 5492:2008 (apud SENSORIALIDADE [...], 2018, s. p.): “O odor é uma propriedade sensorial perceptível pelo órgão olfativo quando certas substâncias voláteis são aspiradas e, o aroma, como uma propriedade sensorial perceptível pelo órgão olfativo via retronasal durante a degustação”. Ou seja, a diferença está ao sentir algum cheiro que está no ambiente, um estímulo externo, através do olfato nasal, e sentir algo que está dentro da nossa boca, algum alimento, através do olfato retronasal, quando estamos mastigando e deglutindo. O olfato possui um grande poder de discriminação e apresenta alta sensibilidade, com limites de percepção menores do que do gosto e sabor. A percepção do olfato depende: da concentração substância, da umidade e temperatura do ambiente, do tempo; da presença de ruídos, da fome, da ingestão de álcool, e das características e estado fisiológico do indivíduo. 4.3 AUDIÇÃO O aparelho auditivo tem função de manutenção do equilíbrio e audição. O receptor da audição é o ouvido, e este é dividido em ouvido externo, médio e interno. As vibrações chegam o ouvido interno pelas trompas de Eustáquio. A audição nos dá informação ao manipular algum alimento, durante a mordida e mastigação, completando a percepção da textura e a satisfação em comer. Ao pensar em algum alimento, já imaginamos qual som ele reproduz. Esses sons despertam a vontade do consumidor em degustar algo, e a depender, um produto pode ser aceito ou rejeitado. 75 Ao consumir um biscoito, por exemplo, esperamos que ele tenha uma crocância, acompanhado do efeito do sabor; se o biscoito não tiver a devida crocância na hora da mastigação, passa a ideia de um alimento fora do prazo de validade, impróprio para o consumo. O mesmo acontece ao consumir um espumante – esperamos ouvir o barulho das borbulhas de gás para passar a percepção de frescor. Dessa forma, a audição é algo fundamental durante avaliação sensorial. 4.4 TATO As informações sobre textura, peso, forma, consistência e temperatura de um produto são apuradas pelo sentido do tato. E essas percepções podem influenciar completamente no ato de comer. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o tato não está somente nas mãos. Esse sentido não se encontra em uma região específica, pois todo o corpo possui terminações nervosas responsáveis pela percepção do toque. Bento, Andrade e Silva (2013, p. 24) define a textura como […] todas as propriedades geométricas e estruturais de um alimento pelos receptores mecânicos, táteis e eventualmente pelos receptores visuais e auditivos. A textura é um importante atributo físico dos alimentos, sendo que as percepções táteis podem influenciar drasticamente o prazer de comer. Cada alimento tem a sua própria textura e, por meio dela, torna-se possível especificar, por exemplo, a qualidade de cada um. Assim é possível diferenciar entre o calor de um café e o gelado de uma cerveja; ou distinguir a fluidez de um refrigerante e a dureza de um biscoito crocante, ou a maciez de um sorvete. 4.5 PALADAR Paladar é o sentido que nos possibilita sentir os gostos dos alimentos por meio das papilas gustativas que estão distribuídas por toda a boca, na língua, palato, bochechas e esôfago). De acordo com Bento, Andrade e Silva (2013, p. 26), “[…] a língua é o principal órgão físico que captura através dos botões gustativos, e transmite os sinais pelos neurotransmissores até o cérebro”. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que os gostos básicos eram percebidos em áreas diferentes da língua, mas, recentemente, descobriu-se que as células receptoras dos gostos estão localizadas nas papilas espalhadas por toda a boca, principalmente na frente, dos lados e no final da língua, além da mucosa dos lábios, palato duro, bochechas, esôfago, epiglote e amídalas. Os gostos básicos são divididos em doce, salgado, amargo, ácido e umami, e cada pessoa é capaz de apresentar sensibilidades diferentes em relação a esses gostos, algumas pessoas são mais sensíveis ao gosto doce, outras são sensíveis ao ácido etc. 76 Gosto é diferente de sabor! Gosto restringe-se aos cinco gostos básicos (doce, salgado, ácido, amargo e umami), sabor é resultado da combinação das percepções do gosto, aroma e textura do alimento. ATENÇÃO 77 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Utilizamosa avaliação sensorial de maneira inconsciente, desde o momento em que julgamos e decidimos sobre nossas preferências, graças os receptores sensoriais que recebem as informações dos estímulos e nos fornece uma resposta. • A porta de entrada dos primeiros estímulos recebidos pelo nosso cérebro é a memória sensorial. Ela está o tempo todo trabalhando, seja consciente ou inconsciente, e pode ser dividida em três tipos: memória icônica, memória ecoica e memória háptica. Que representam a memória visual, auditiva e tátil respectivamente. • Biblioteca sensorial pode ser definida como memórias e sensações que armazenamos ao longo da vida e que determinados estímulos nos provocam. Essa complexidade se dá pela capacidade do cérebro em agrupar a resposta de estímulos (químicos e físicos) pelos nossos sentidos. A essa memória, chamamos de biblioteca sensorial. • Ao iniciar uma refeição, despertamos uma experiência sensorial. Em poucos segundos, os cinco sentidos são acionados, criando diferentes sensações em um conjunto complexo de interações. Cada um dos sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar) possui características próprias, que vão participar ativamente na percepção final dos alimentos. RESUMO DO TÓPICO 2 78 1 A qualidade sensorial, além de ser uma característica do alimento, é o resultado da relação entre o alimento e o homem, e interagem com suas condições fisiológicas, psicológicas, culturais e sociológicas e está diretamente ligado aos cinco sentidos humanos. Quanto aos cinco sentidos utilizados na percepção dos alimentos, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Audição, olfato, paladar, sabor e visão. b) ( ) Odor, audição, aparência, visão e tato. c) ( ) Audição, olfato, paladar, tato e visão. d) ( ) Aroma, visão, tato e sabor. 2 Como existem cinco sentidos (audição, olfato, paladar, tato e visão), existem cinco tipos de memória sensorial. No entanto, todas as formas de memória sensorial têm algumas características comuns. Os diferentes tipos de memória sensorial também demonstraram ter durações ligeiramente diferentes. De acordo com os princípios sobre memória sensorial, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A memória icônica, também conhecida como memória táctil, envolve a memória muito breve de um toque. ( ) A memória ecoica é o ramo da memória sensorial utilizado pelo sistema auditivo. ( ) A memória háptica envolve uma imagem muito breve, ou seja, a memória visual retém informações sobre o que enxergamos por apenas 500 milissegundos. ( ) A memória ecoica tem efeitos de retenção superiores da memória visual, durando entre dois e três segundos. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V - F - F - V. b) ( ) V - F - V - F. c) ( ) F - V - F - V. d) ( ) F - F - V - V. 3 A memória ecoica é um dos tipos de memória sensorial, muito curta, mas resistente às lesões cerebrais. Ela é a capacidade cerebral de utilizar uma certa quantidade de informação por um curto período de tempo. Quanto ao que exemplifica a memória ecoica, assinale a alternativa CORRETA: AUTOATIVIDADE 79 a) ( ) Sensação de ter tocado uma tomada e levar choque quando criança nos garante ter vivenciado a experiência de seu perigo para sempre. b) ( ) Quando acordamos durante a noite, acendemos uma luz da casa e voltamos a apagar a luz, alguns traços visuais continuam em nossa visão. c) ( ) Não localizar um estímulo odorífero, tanto pelo fato de o indivíduo nunca ter sentido determinado odor quanto pela perda de memória da informação. d) ( ) Quando ouvimos o nome de uma pessoa e solicitamos que repita seu nome novamente. 4 Ao degustar algum alimento, nos preocupamos com seu sabor. Para sentir o gosto dos alimentos, contamos com células sensoriais localizadas na boca que estão agrupadas em pequenas elevações chamadas de papilas gustativas. As papilas contêm em torno de 250 gemas gustativas, onde se encontram as células receptoras, que são responsáveis pela percepção do gosto, causado pelas sensações gustativas básicas: doce, salgado, ácido, amargo e umami. Tomando-se por base essa afirmativa, diferencie gosto, sabor e paladar. 5 O olfato é um dos cinco sentidos, considerado um dos sentidos químicos, e apresenta como seu principal órgão olfativo o nariz, órgão que permite que nós possamos sentir o odor ou o aroma dos alimentos. O ser humano é capaz de sentir mais de dez mil odores diferentes, fazendo que o olfato tenha uma importante participação no gosto. Com base nessa afirmação disserte sobre a diferença entre odor e aroma. 80 81 TÓPICO 3 — CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS E COMPARATIVO DE SABORES UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A qualidade de um alimento alcança três aspectos fundamentais, são eles: o nutricional, o microbiológico e o sensorial; o aspecto sensorial é o que está mais relacionado à escolha de um alimento pelo consumidor. Um alimento de boa qualidade deve apresentar atributos sensoriais próprios do produto, como cor, textura, aroma e sabor característicos. A expressão “sensorial” deriva de “sentido”, originário da palavra “sensus”. A anatomia humana, dotada de órgãos como olhos, ouvidos, língua, mãos e nariz, possibilita com que os indivíduos utilizem os sentidos para a percepção sensorial através de estruturas responsáveis por receber informações de estímulos, denominadas receptores sensoriais localizados em cada um desses órgãos. Tais estímulos podem ser tanto químicos quanto físicos, como por exemplo a presença de uma substância química no alimento ou a pressão da pelo exercida no alimento, respectivamente, sendo captados pelos receptores e traduzidos em forma de resposta (NOGUEIRA, 2021, p. 13, grifo nosso). As características sensoriais tendem a ser percebidas na seguinte ordem: aparência, aroma, textura e sabor. Porém, ao iniciarmos uma degustação e no processo de percepção sensorial, a maioria, ou todas as características se sobrepõem, ou seja, passamos por uma experiência complexa de influências sensoriais. Os cinco sentidos humanos são utilizados na percepção do alimento, o que determina a qualidade sensorial específica da sensação provocada. Assim, as características dos alimentos são manifestadas com base na maneira como são percebidas pelos sentidos humanos (olfato, visão, audição, tato e paladar). Acadêmico, ao longo do Tópico 3, vamos abordar as características sensoriais dos alimentos, além de entender sobre a percepção sensorial e fazer uma análise de comparativo de sabores. 82 As características sensoriais dos alimentos são denominadas segundo sua cor, consistência, textura, sabor, odor, temperatura e aparência. Bento, Andrade e Silva (2013, p. 27) definem características sensoriais […] como as sensações adquiridas quando experimentamos um alimento e são divididas em quatro categorias básicas: aparência, propriedades (cor, forma, tamanho, consistência); odor e aroma (percebidos e avaliados no momento da inalação); textura (sensação obtida pela pele) e sabor e gosto (um conjunto de sensações percebidas por mais de um órgão de sentido (paladar, olfato, tato)). As características sensoriais como odor, textura, aparência, cor e sabor, estão entre os principais motivos na compra, consumo, aceitação e preferência dos alimentos e bebidas. Veremos agora cada característica sensorial com detalhes. 2 CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS DOS ALIMENTOS 2.1 APARÊNCIA A aparência destaca-se por ser o primeiro contato do consumidor com o alimento por meio da sua apresentação visual. Todo alimento possui uma aparência esperada, que está associada às respostas pessoais do consumidor em relação à aceitação, preferência, indiferença ou rejeição. Aaparência geralmente tem relação com a forma natural ou a forma comercial renomada culturalmente do produto e refere-se às propriedades visíveis do produto, como cor, aspecto, brilho, transparência, opacidade, tamanho, forma, consistência, espessura, grau de carbonatação e as características de superfície. A cor, por exemplo, é uma propriedade da aparência que tem sua percepção restringida à uma fonte de luz, portanto, ao ser avaliada, deve-se usar uma iluminação adequada, natural ou artificial. A cor de um produto possui três características importantes, são elas: • tom: é estabelecido pelo comprimento de onda da luz que é refletida pelo produto; • intensidade: atributo que depende da concentração de substâncias que dão cor ao alimento; • brilho: quantidade da luz refletida pelo produto em comparação com a quantidade de luz que ele incide. 83 Segundo Koppman (2015, s. p.), “tanto a cor quanto a forma de um alimento criam expectativas sobre o que vamos degustar. Sua influência é tão importante que a intensidade com que se percebem alguns sabores varia de acordo com a cor do alimento, e um mesmo alimento pode ter sabor distinto se sua cor for alterada”. Um exemplo é a cor azul: é difícil encontrar alimentos naturais de cor azul, apenas o mirtilo, logo, qualquer alimento que possua essa cor parece pouco atraente e apetitosa e, assim, menos saborosa, como mostra a Figura 15: FIGURA 15 – FRAMBOESAS AZUIS FONTE: <https://shutr.bz/373WxwN>. Acesso em: 3 mar. 2022. As indústrias de alimentos têm dado prioridade ao aspecto visual dos produtos como critério para deixá-los mais atraentes, já que a aparência geral do alimento é o atributo que exerce maior influência sobre a decisão de compra e consumo de um determinado produto. Além disso, o sentido da visão acaba gerando uma resposta do consumidor sobre um alimento, podendo estimular outras respostas sensoriais, como o aumento da salivação, ao perceber uma aparência atraente. Por que não existem alimentos naturalmente da cor azul? A pigmentação azul é muito mais sensível à luz, ao oxigênio e à acidez do que as outras cores, assim ela se degrada muito mais facilmente, que outros tipos de pigmentos como o da cor verde ou vermelha, por exemplo. Por isso, todos os outros alimentos evoluíram ao longo da história e originaram novas espécies, enquanto os azuis só foram desaparecendo aos poucos. INTERESSANTE 84 2.2 ODOR/AROMA Percebemos o odor/aroma por intermédio do olfato, quando as substâncias voláteis são inaladas diretamente pelo nariz (nasal), no caso do odor, ou aspiradas pela boca durante a mastigação (retronasal), no caso do aroma. As substâncias voláteis, em diferentes concentrações, estimulam os receptores de acordo com seus valores de limiar específicos. Muitas substâncias apresentam notas características, e os alimentos podem ser compostos por várias dessas notas, por exemplo, notas ácidas no limão, notas doces e notas ácidas na laranja, notas amargas na cerveja. E os especialistas em odores e aromas identificam facilmente essas notas, principalmente por meio da sua biblioteca sensorial. O odor possui diferentes características, são elas: intensidade, persistência e saturação. • Intensidade: está relacionada com a concentração da substância volátil. • Persistência: está relacionada indiretamente com a intensidade e diretamente relacionada com o tempo de duração da substância no nariz. • Saturação: está relacionada com a capacidade do sistema nervoso em habituar ao odor e passar a não o perceber conscientemente. O aroma é a propriedade que percebe as substâncias aromáticas de um alimento depois de colocá-lo na boca, durante a mastigação via retronasal. Teixeira (2009, p. 13) relata que […] esta propriedade é essencial para compor o sabor dos alimentos. Os provadores de cerveja, vinho, ou café avaliam esta característica sensorial, apertando tais amostras com a língua contra o palato, induzindo a difusão das substâncias aromáticas pela membrana palatina, e também aspirando pelo nariz para perceber o odor das substâncias que se volatilizam na boca. 2.3 TEXTURA A textura é a principal característica do alimento que é percebida por meio do tato. É definida como o conjunto de todas as propriedades reológicas e estruturais de um alimento, que são percebidas pelos receptores táteis e, possivelmente, pelos receptores visual e auditivos. Cada alimento possui texturas diferentes, que é notada quando o alimento sofre alguma deformação, ao ser mordido, cortado etc. É por intermédio dessa intervenção que podemos ter informações sobre resistência, deformação, crocância, mistura, hidratação com a saliva, temperatura, mudança de tamanho, entre outros, além de diversos fatores que variam de acordo com a expectativa que criamos em relação a um produto. Em relação a um chocolate, por exemplo, esperamos que seja macio, que se espalhe facilmente e derreta na boca. Os atributos de textura podem ser agrupados em três propriedades principais, de acordo com o grau em que cada um está presente e com a ordem em que eles acontecem. 85 • Propriedades mecânicas: estão relacionadas à reação do produto à força e à pressão: viscosidade, dureza, coesividade, adesividade e elasticidade. • Propriedades geométricas: estão relacionadas ao tamanho, forma e orientações das partículas de um produto: densidade, conformação e granulosidade. • Propriedade da superfície: estão relacionadas às propriedades lubrificantes: umidade ou gordura situadas na superfície do produto. 2.4 SABOR E GOSTO Sabor é uma mistura de sensações que envolve outros sentidos humanos além do paladar, principalmente o olfato. Já o gosto é uma propriedade sensorial, percebida por meio da boca e está relacionada ao paladar. Ao degustar um alimento, estamos detectando seu gosto, através da cavidade bucal, por células especializadas, denominadas receptores, que estão situadas nas papilas gustativas, de cinco tipos de moléculas: doce, salgado, amargo, ácido e umami. Sabor (equivalente ao inglês flavour), é definido como experiência mista de sensações de olfato, gosto e tato percebidas durante a degustação de um alimento. É percebido, principalmente, através dos sentidos do gosto e olfato e influenciado pelos efeitos táteis, térmicos, dolorosos e/ou sinestésicos e essa relação entre características é o que diferencia um alimento do outro. Algumas características devem ser levadas em consideração em alguns alimentos (ou ingredientes de alimentos) e uma delas é o tempo de percepção, ou seja, o tempo para ser percebida pelo paladar. Outra característica importante para se observar é o sabor residual que permanece na boca algum tempo após o alimento ser deglutido (TEIXEIRA, 2009, p. 13). Sinestésico tem a ver com aquele que é “sensorial”, ou seja, aquele que é capaz de fundir ou misturar diferentes sentidos humanos. • Algumas pessoas conseguem ouvir um movimento visual (audição + visão). • Conseguem sentir cheiro vendo alguma imagem (olfato + visão). • Sentir gosto ou sabor de uma imagem visual (paladar + visão). • Visualizar cores ao ouvir uma música (visão + audição). NOTA 86 3 COMPARATIVO DE SABORES Uma experiência sensorial multidimensional é despertada na alimentação. Em poucos segundos, os cinco sentidos são acionados, criando diferentes sensações em um conjunto complexo de interações. Antigamente, acreditava-se que entre os cinco sentidos, apenas o paladar se referia propriamente ao alimento. Porém, hoje em dia, já antes de provar um alimento, percebemos que todos os nossos sentidos participam dessa experiência gustativa. Cada um dos sentidos possui características e particularidades que participam ativamente na percepção final do alimento.A disposição das características dos ingredientes de cada alimento estimula os sentidos e estimula as melhores percepções, dando ao consumidor uma sensação de prazer no momento da degustação. A análise sensorial reúne diferentes técnicas que permitem avaliar as propriedades organolépticas de um alimento por intermédio de análises: visual, de aroma e de sabor. 3.1 ANÁLISE VISUAL A percepção geral do alimento começa no primeiro contato visual. De acordo com Nogueira (2021, p. 18-19), “[…] aspectos do produto alimentício como a cor, a textura da superfície, o brilho, a forma e o tamanho são características percebidas pela visão que ajudam o consumidor a decidir se deseja ou não o consumir”. Dentre os diversos fatores que influenciam e determinam as decisões de compra do consumidor está a aparência do alimento, ou seja, a análise visual o estimula se vai ou não comprar aquele produto. As indústrias de alimentos têm dado prioridade ao aspecto visual, deixando-o mais atrativo, incluindo o desenvolvimento de embalagens, que, além de proteger, conservar e transportar, também têm se destacado como uma importante ferramenta de marketing. Além disso, o sentido da visão, ao gerar uma resposta do indivíduo sobre um produto alimentício, pode estimular outras respostas sensoriais, como o aumento da salivação, ao perceber uma aparência agradável (NOGUEIRA, 2021). Os atributos de aparência visual da embalagem do produto alimentício também são influências poderosas na aceitabilidade, aspectos de design, forma, símbolos, cor, logotipos e nomes de itens também devem ser considerados. É por intermédio das características visuais que o consumidor espera certo sabor de um produto, além de preparar os demais sentidos para ter suas próprias percepções. Alguns alimentos deteriorados, por exemplo, são acompanhados de variação de cor. A carne vermelha, ao sofrer uma deterioração microbiana, fica esverdeada, se for mantida a uma temperatura acima do recomendado, fica vermelho escuro ou amarronzada. Alguns exemplos de análises visuais relacionadas à cor são: a cor vermelha aumenta a percepção do gosto doce em bebidas de frutas de sabor característico de iogurte de morango ou frutas vermelhas; a cor amarela aumenta a percepção de dulçor em sucos de laranja. 87 3.2 ANÁLISE DE AROMA As moléculas voláteis solúveis na mucosa do nariz são responsáveis pela percepção dos odores e aromas dos alimentos. Além disso, a concentração dessas substâncias deve estar acima do nosso limiar de percepção. Segundo Nogueira (2021, p. 17), […] o sistema olfativo é composto inicialmente pela mucosa nasal, onde encontram-se milhares de receptores, pelo epitélio olfatório que possui células ciliadas onde estão contidas cerca de 3 milhões de células receptoras. Na sequência, os impulsos olfatórios são transmitidos pelo nervo olfatório e chegam até cérebro humano através do bulbo olfativo. Para compor um aroma, o número de substâncias aromatizantes pode variar muito de sabor para sabor. A grande quantidade de matérias-primas aromáticas e diluentes exige habilidade especial em memorizar odores e sabores, o que pode levar vários anos de treinamentos em degustações. De acordo com o Zenebon, Pascuet e Tiglea (2008, p. 281-282), […] o bulbo olfativo apresenta conexão direta com um “banco de dados” presente no cérebro, responsável pelo armazenamento das memórias dos odores sentidos ao longo da vida por cada indivíduo. Funciona como um sistema “chave-fechadura”, de modo que quando uma informação chega ao cérebro, imediatamente é comparada com os padrões conhecidos por aquela pessoa, e quando apresenta compatibilidade acontece o encaixe, como ocorre com uma chave em sua fechadura, acontecendo o reconhecimento. Existe uma imensa lista de componentes aromáticos que fazem parte da natureza e integram um aroma. A manga, por exemplo, tem o seu aroma definido pela composição de mais de 250 substâncias aromáticas individuais. A maçã tem o seu aroma composto por mais de 130 componentes individuais voláteis. O café possui mais de mil componentes aromáticos, que vão variar conforme as diferentes torragens e cocções. 3.3 ANÁLISE DE SABOR Sabor é definido como a sensação unitária constituída do somatório das sensações olfativas, gustativas e táteis percebidas durante a degustação. As substâncias que são responsáveis pelo sabor são polares, solúveis em água e não voláteis. • Sabor doce: resulta da presença de açúcares nos alimentos, porém, nem todos têm a mesma potência de sabor, ou seja, não provocam a percepção da mesma doçura (vale também para os adoçantes dietéticos). 88 • Sabor salgado: é resultado do sal comum ou de outros sais, que, assim como o sabor doce, também não geram esse sabor com a mesma intensidade. É sentido muito rapidamente, porém demora a desaparecer. • Sabor ácido: a substância que provoca o gosto ácido é o íon de hidrogênio (H+). Esse sabor também se percebe rapidamente, assim como o sabor salgado, porém sua velocidade de percepção pode variar de acordo com as substâncias presentes na saliva. • Sabor amargo: ao contrário do sabor salgado e ácido, é de percepção lenta, porém duradoura. Nem todas as pessoas conseguem detectar o sabor amargo, por causa da genética do indivíduo. • Sabor umami: está presente em alimentos ricos em aminoácidos, principalmente aqueles que contém glutamato e nucleotídeos, como carnes, frutos do mar, queijo, tomate e cebola. Ele realça o sabor das comidas, mantém este sabor por mais tempo na boca e estimula a produção de saliva, o que aumenta a interação dos alimentos com as papilas gustativas e promove a sensação de prazer ao comer. Segundo Koppman (2015, s. p.), temos que: […] entre os gostos básicos também existem interações, por exemplo: o amargo e o doce, em altas concentrações, se anulam mutuamente, como acontece no caso do café com açúcar. Também se contrabalançam o ácido e o doce, como suco de limão e o açúcar. No entanto, misturar salgado e doce, em concentrações baixas, aumenta o sabor doce, porém em altas concentrações, podem anular a doçura ou não ter efeito sobre esta. Essas interações têm produzido resultados gastronômicos muito apreciados, como colocar um pouco de açúcar no molho de tomate para ocultar a acidez, ou usar um pouco de sal no chocolate amargo para suprimir a percepção do amargor. Existem duas particularidades importantes que devem ser levadas em consideração nos alimentos: uma é o sabor residual que persiste na boca após ser deglutido; a outra é o tempo de percepção que o paladar leva para distinguir o sabor do alimento. O amargor em algumas cervejas, por exemplo, leva um certo tempo de percepção e persiste na boca mesmo após a cerveja ser ingerida. 89 LEITURA COMPLEMENTAR HARMONIZAÇÃO DE CERVEJAS: O GUIA COMPLETO Carlos Lara Você já ouviu falar em harmonização de cervejas? O processo de harmonização consiste em unir cervejas e alimentos que não sobreponham suas características ligadas ao paladar um sobre o outro. A ideia é harmonizar a bebida com alimentos de forma a conservar o sabor de cada um para que não se perca as características principais de ambos. Quem busca pela harmonização de cervejas não pode, por exemplo, degustar uma cerveja de trigo em um churrasco, já que este tipo de cerveja possui um sabor mais leve e combina mais com alimentos sem muito tempero. Para fazer uma boa harmonização de cervejas, é preciso levar alguns fatores em consideração, como: • amargor da cerveja e nível de picância de um alimento; • coloração da cerveja com a coloração do alimento, que deve ser semelhante; • sabores que criam contrastes entre si, como o sabor amargo e o doce,o picante e o refrescante, o ácido e neutro etc.; Você gostaria de saber melhor como é feita a harmonização de cervejas e quais tipos combinam com quais alimentos? Acompanhe a gente e continue lendo a seguir! Harmonizando com cerveja Pilsen Assim como as cervejas de trigo, a cerveja Pilsen requer pratos leves, com alimentos não muito fortes. Alimentos muito temperados e com sabor forte podem quebrar o sabor da cerveja Pilsen. Alimentos como pasteis, aperitivos não gordurosos como queijo, azeitona e mandioca são boas pedidas. Outros petiscos como oleaginosas, como nozes, castanha, castanha do Pará, amêndoas e amendoim também combinam muito com a cerveja Pilsen. Alguns frutos do mar como camarão, lagosta e peixes também combinam com este tipo de cerveja, mas é bom sempre atentar ao modo de produção, já que alimentos muito fortes poderão quebrar o sabor da Pilsen. 90 Harmonizando com IPA As cervejas Indian Pale Ale são bem mais amargas do que a American Pale Ale, por causa da quantidade alta de lúpulo presente em sua composição. Por isso, elas combinam mais com alimentos mais temperados e gordurosos. Uma boa pedida para acompanhar um churrasco é uma IPA. Carnes como bisteca, costelinha suína e bovina, alcatra, linguiça e outras carnes mais gordurosas são excelentes para acompanhar a IPA. Outros alimentos que também são responsáveis pela harmonização de cervejas IPA são pizzas com recheios mais gordurosos, nachos, pimentões recheados e salmão. Harmonizando com Weiss - Cerveja de trigo A harmonização de cervejas de trigo é um pouco mais complexa, já que existem tipos variados que podem variar com diferentes alimentos. Elas podem combinar desde comida mexicana bem apimentada até saladas leves e comidas de boteco. Nachos, taco e chilli são alimentos típicos mexicanos que combinam com a Weiss. Algumas saladas temperadas ou não também são boas pedidas para a cerveja de trigo. Já as comidas de boteco se resumem a porções de quibes, pasteis, queijo, salame, azeitona, mandioca frita e até mesmo salsicha. O importante é que os alimentos não contenham temperos muito fortes que possam quebrar a harmonização do trigo. Harmonizando com American Pale Ale A harmonização de cervejas do tipo American Pale Ale também é versátil. Este tipo de cerveja, que possui um teor de amargor mais alto, combina com diferentes tipos de alimentos. Frutas como abacate combinam com a APA quando usadas em pratos como guacamole ou em saladas. Amêndoas, amendoim e castanhas também são aperitivos que combinam. Carne com chilli, taco e burritos também são boas pedidas para a APA, assim como pratos que combinam com a Weiss. Ela combina com vários tipos de carnes, que variam de frutos do mar a frango assado, hambúrguer e frituras. Pimentão recheado, pizza de calabresa e bolo de carne também são ótimos alimentos para trabalhar a harmonização de cervejas como a American Pale Ale. Como você viu, no geral são alimentos mais fortes e temperados. 91 Harmonizando com Malzbier E falando em harmonização de cervejas, não poderíamos deixar a Malzbier de fora, que combina bastante com alimentos doces. Sobremesas como Appfeltrudel, cheesecake, chocolates, pizzas doces e sorvetes são ótimas para combinar com a Malzbier. Outras sobremesas que também trabalham essa harmonização são tortas de frutas, em especial de frutas vermelhas, morango e maçã. A cerveja é levemente adocicada e possui aroma característico de caramelo em sua composição. Harmonizando com Amber Lager A Amber Lager é uma cerveja que tem sua cor bem variada, bem como os tipos de malte e lúpulo, podendo ser mais ou menos amargas. Uma das marcas mais conhecidas no Brasil é a Heineken. A harmonização de cervejas do tipo Amber Lager é bem versátil. Ela combina com pratos e petiscos bastante variados. Os principais pratos que combinam com essa cerveja são: frango assado, frito ou grelhado; carne branca, como peru, peixe e frango; carnes pouco gordurosas e vermelhas, como churrasco; siri; salpicão. Já os petiscos que mais combinam com a Amber Lager são: amendoim; castanhas; amêndoas; batata frita; mandioca frita; linguiça; calabresa; pizza; hambúrguer; castanha de caju; nozes. Harmonizando com cerveja Porter A harmonização de cervejas mais escuras, como a Porter e Stout, é também bastante versátil. Ela combina com doces, carnes e petiscos. Carnes não tostadas, mas bem passadas, são ótimas para combinar com a Porter, principalmente quando regadas ao molho barbecue ou quando são mais apimentadas. Alguns tipos de queijo também combinam bastante com essa cerveja, principalmente o gorgonzola, o gouda e o parmesão, que são queijos com sabores bem mais fortes e acentuados. Sobremesas também são bem-vindas, como mousse de chocolate ou de frutas mais fortes, como maracujá, bolos e tortas de chocolate. Em geral, doces mais fortes e preparados com chocolate combinam melhor com a Porter. Já se você preferir doces preparados com frutas, o pedido é ideal são tortas preparadas com frutas vermelhas, tortas de framboesa, amora e morango. 92 Você pode ter basicamente uma refeição completa para acompanhar uma cerveja Porter, lembrando também que a harmonização de cervejas desse estilo pode ser feita de acordo com o contraste de sabores, como o doce com o amargo, ou mesmo através da semelhança entre um tipo de cerveja e um prato, com por exemplo cervejas com fortes traços de cacau que combinariam com doces preparados com chocolate. Esses são os alimentos indicados para os principais tipos de cerveja mas, obviamente, a escolha do alimento em si depende muito do gosto de cada pessoa. Escolha bem o seu tipo de cerveja favorito e aproveite sua degustação! FONTE: LARA, C. Harmonização de cervejas: o guia completo. Homini Lúpulo, [s. l.], 23 mar. 2018. Disponível em: https://www.hominilupulo.com.br/harmonizacao-de-cervejas/. Acesso em: 6 jan. 2022. 93 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Os seres humanos utilizam os sentidos (olhos, ouvidos, língua, tato e nariz) para a percepção sensorial por meio de estruturas responsáveis por receber informações de estímulos, que são denominadas receptores sensoriais e estão localizados em cada um desses órgãos. • As características sensoriais são as sensações adquiridas quando experimentamos um alimento, tendem a ser percebidas na seguinte ordem: aparência, aroma, consistência e sabor que estão entre os principais determinantes na aquisição, consumo, aceitação e preferência dos produtos alimentícios. • A formação dos atributos dos ingredientes de cada alimento usados para estimular os sentidos e despertar as melhores percepções é uma das fórmulas para conferir uma sensação de prazer no momento da degustação. A análise sensorial reúne diferentes técnicas que permitem avaliar as propriedades organolépticas de um alimento por intermédio de análises: visual, de aroma e de sabor. RESUMO DO TÓPICO 3 94 1 Durante o processo de percepção das características sensoriais dos alimentos, todos os atributos ou sua maioria acabam se sobrepondo, como se a pessoa recebesse as impressões sensoriais quase que simultaneamente. Todos os sentidos são utilizados durante o processo e determinam a qualidade da sensação que o alimento provoca. Quanto a esses atributos, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) São eles: paladar, sabor, aparência e aroma. b) ( ) São eles: aparência, odor, sabor e textura. c) ( ) São eles: odor, aparência, olfato e textura. d) ( ) São eles: aparência, odor, sabor e dulçor. 2 A textura é percebida pelas papilas gustativas em contato com o alimento, que estimula a audição e o tato na mastigação. Cada alimento possui uma textura diferente que se manifesta quando o alimento sofre uma deformação. Os atributos de textura podem ser agrupadosem três propriedades principais, de acordo com o grau em que cada um está presente e com a ordem em que eles acontecem. Sobre essas propriedades, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As propriedades mecânicas estão relacionadas às propriedades lubrificantes: umidade ou gordura situadas na superfície do produto. b) ( ) As propriedades geométricas estão relacionadas à reação do produto à força e a pressão. c) ( ) As propriedades da superfície são: viscosidade, dureza, coesividade, adesividade e elasticidade. d) ( ) As propriedades geométricas estão relacionadas ao tamanho, forma e orientações das partículas de um produto. 3 O perfil volátil de um alimento possui centenas de componentes presentes, que são moléculas de diversos tipos e produzem o sabor e aroma que atraem o consumidor. Aroma é a sensação que ocorre quando as moléculas alcançam as células olfatórias pelas vias aéreas e pela parte retronasal, processo que acontece durante o mastigar e engolir do alimento. Odor acontece quando moléculas alcançam os receptores pelo nariz. Com base nas características sobre odor e aroma, analise as afirmativas a seguir: AUTOATIVIDADE 95 I- Para que a percepção dos odores ou aromas aconteça é dispensável que as moléculas voláteis sejam solúveis na mucosa olfatória e que sua concentração se encontre acima do limiar de percepção do indivíduo. II- Existem substâncias no alimento que evaporam e são captadas pelo olfato, e que podem indicar alguma alteração no produto. III- O odor compõe o sabor do alimento e pode ser percebido melhor quando colocamos o alimento na boca. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. b) ( ) Somente a afirmativa II está correta. c) ( ) As afirmativas II e III estão corretas. d) ( ) Somente a afirmativa III está correta. 4 As características visuais do alimento induzem o consumidor a esperar o sabor equivalente. A aparência de um produto é um dos fatores mais importantes avaliados pelo consumidor no momento da compra, logo, o impacto visual é um elemento que a indústria de alimentos e bebidas utilizam para tornar um alimento mais apetitoso. Disserte sobre as análises visuais que podem influenciar sobre a decisão de compra e consumo de um determinado alimento. 5 As substâncias químicas presentes nos alimentos são capazes de desencadear o impulso nervoso responsável por identificar cada tipo de gosto. O paladar nos permite reconhecer o sabor dos alimentos, assim como a textura. Neste contexto, disserte sobre a análise de sabor que fundamentam a relação do consumidor com o alimento. 96 97 A FAMÍLIA Lambic e seus estilos. Mestre-Cervejeiro.com, Curitiba, 2017. Disponível em: https://mestre-cervejeiro.com/familia-lambic/ . Acesso em: 12 jan. 2022. O QUE A MEMÓRIA sensorial representa e como aproveitá-la?. Aprimore sua Mente, [s. l.], 2019. Disponível em: https://www.aprimoresuamente.com/memoria-sensorial/. Acesso em 12 jan. 2022. BENTO, R. A.; ANDRADE, S. A. C.; SILVA, A. M. A. D. Análise sensorial de alimentos. Recife: Editora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, 2013. Disponível em: http://proedu.rnp.br/bitstream/handle/123456789/950/Analise_Sensorial_BOOK_ WEB.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 10 fev. 2022. BIEDRZYCKI, A. Aplicação da avaliação sensorial no controle de qualidade em uma indústria de produtos cárneos. 2008. 64 f. Monografia (Graduação em Engenharia de Alimentos) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2008. 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Fundamentação teórica para compreensão acerca da produção de cerveja artesanal com estudo de caso. In: CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA, 13., 2014, Ourinhos. Anais [...]. Ourinhos: Faculdades Integradas de Ourinhos, 2014.Disponível em: https://cic.unifio.edu.br/anaisCIC/anais2014/pdf/arq032. pdf. Acesso em 12 jan. 2022. TEIXEIRA, L. V. Análise sensorial na indústria de alimentos. Rev. Inst. Latic. “Cândido Tostes”, Juiz de Fora, v. 64, n. 366, p. 12-21, 2009. Disponível em: https://www. revistadoilct.com.br/rilct/article/view/70/76. Acesso em: 10 fev. 2022. TROMMER, M. Fermentação espontânea. Engarrafador Moderno, [s. l.], 2020. Disponível em: https://engarrafadormoderno.com.br/processos/fermentacao- espontanea. Acesso em 12 jan. 2022. ZENEBON, O.; PASCUET, N. S.; TIGLEA, P. Capítulo VI – análise sensorial. In: ZENEBON, O.; PASCUET, N. S.; TIGLEA, P. (coord.). Métodos físico-químicos para análise de alimentos. São Paulo: Instituto Adolfo Lutz, 2008 p. 279-320. Disponível em: http://www.ial.sp.gov.br/resources/editorinplace/ial/2016_3_19/ analisedealimentosial_2008.pdf. Acesso em 12 jan. 2022. 99 ANÁLISE SENSORIAL DA CERVEJA UNIDADE 3 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • identificar substâncias que são desejáveis em certo produto (flavor); • aprender a detectar na cerveja substâncias indesejáveis e relacionar os off-flavors; • compreender as diferenças de insumos e técnicas abordadas nas escolas; • identificar problemas relacionados à produção da cerveja. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – TEORIA E TÉCNICAS DA ANÁLISE SENSORIAL TÓPICO 2 – TIPOS DE TESTES SENSORIAIS TÓPICO 3 – TEORIA E PRÁTICA DE IDENTIFICAÇÃO DE DEFEITOS (OFF-FLAVORS) Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 100 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 101 TÓPICO 1 — TEORIA E TÉCNICAS DA ANÁLISE SENSORIAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO As indústrias de alimentos têm aumentado o uso de tecnologias e os consumidores estão cada vez mais exigentes, e isso tem provocado uma revolução mundial no mercado alimentício. Segundo Nogueira (2021, p. 9), “[…] ascaracterísticas sensoriais dos alimentos, como aparência, aroma, sabor e textura refletem diretamente na intenção de adquirir e/ou consumir ou não um produto pelos consumidores”. Com isso, a indústria de alimentos empenha em encontrar instrumentos para identificar e considerar as características que são esperadas pelos consumidores em um mercado cada vez mais competitivo. A análise sensorial tem grande utilidade na busca por informações de um produto em relação ao que as pessoas sentem na utilização ou consumo do mesmo, ou seja, é uma ferramenta que indica a aceitação pelo consumidor de um produto em particular (CHIARI et al., 2012). A análise sensorial permite preparar as percepções do ser humano em relação a um alimento e descobrir quais características devem ou não estar presentes e em qual intensidade. Os atributos sensoriais de uma cerveja são importantes para definir sua qualidade e a aceitação do consumidor. O modo como a bebida impulsiona os sentidos humano faz que o consumidor se interesse pelo produto. Para avaliar essas características sensoriais, a indústria utiliza um conjunto de métodos que aproveitam os sentidos humano para garantir a qualidade da cerveja; é a análise sensorial, que pode ser aplicada em vários objetivos, como identificar substâncias desejáveis e indesejáveis na cerveja, defeitos no processo de produção, além do desenvolvimento de novos produtos. Acadêmico, ao longo do Tópico 1, vamos entender a definição de análise sensorial, além de aprender sobre algumas aplicações e sobre comunicação sensorial, analisar o que pode influenciar numa análise sensorial e, por fim, aprender a utilizar a roda de aromas para cerveja. 102 Leia o livro “Análise sensorial de alimentos”, de Roberta de Albuquerque Bento, Samara Alvachian Cardoso Andrade e Argélia Maria Araújo Dias Silva, para aprofundar seus conhecimentos sobre análise sensorial, além de aprender os conceitos básicos, conhecer as ferramentas básicas presentes em um laboratório sensorial e ter a oportunidade de preparar amostras para serem aplicadas em um painel sensorial na seleção de candidatos. Acesse em: https://bit.ly/3ClG1n7. DICA 2 DEFINIÇÃO DE ANÁLISE SENSORIAL Os alimentos, além de exercerem seu papel nutritivo, também são capazes de provocar sensações de prazer e bem-estar, por meio de atributos como cor, aroma e sabor, a análise sensorial também tem o objetivo de estimular essas sensações no ser humano. A qualidade sensorial do alimento e sua manutenção auxiliam na fidelidade do consumidor a um produto específico em um mercado que está cada vez mais exigente. A percepção humana sobre os alimentos é única e por isso será dificilmente substituída por equipamentos na avaliação de produtos. Ao comer um alimento, nossos 5 sentidos são despertados e formam uma experiência complexa. Há ainda o fato de que nossas memórias afetivas estão altamente ligadas à nossa percepção, além da influência da cultura e experiências de vida. Por isso, o conhecimento e avaliação desses mecanismos são valiosos no desenvolvimento de produtos e na proporção de sensação de prazer ao momento da degustação pelo consumidor (O QUE É [...], 2019, s. p.) De acordo com a ABNT (1993 apud BENTO; ANDRADE; SILVA, 2013, p. 15), a análise sensorial é uma “[…] disciplina da Ciência usada para evocar, medir, analisar e interpretar as reações às características dos alimentos e materiais tal como são percebidas pelos sentidos da visão, olfato, paladar, tato e audição”. Ou seja, análise sensorial é uma pesquisa que leva em consideração os sentidos humanos. Os principais objetivos da análise sensorial é entender o que o consumidor deseja, além dos motivos pelos quais os sentidos definem as escolhas e de que forma isso acontece. A análise sensorial foi empregada pela primeira vez na Europa com o propósito de controlar a qualidade de indústrias de cervejas e cachaças. Já durante a Segunda Guerra Mundial, começou a ser aplicada nos Estados Unidos, pois surgiu a necessidade de produzir alimentos de qualidade que não fosse recusado pelos soldados do exército. No Brasil, os métodos de análise sensorial chegaram em 1954, no laboratório de degustação do Instituto Agronômico de Campinas, com o intuito de avaliar a qualidade do café. 103 De acordo com Dutcosky (2013), a evolução da análise sensorial é dividida em quatro fases: • 1ª fase – período anterior a 1940: época artesanal/pré-científica da indústria de alimentos, quando a qualidade sensorial era determinada pelo dono da indústria. • 2ª fase – período entre 1940 e 1950: ocorreu a expansão da indústria alimentícia e agregação de suporte técnico com contratação de químicos e farmacêuticos. Também foi introduzido os conceitos de controle de qualidade, com a utilização de métodos químicos e instrumentais. Ainda não se utilizava métodos de análises sensoriais. • 3ª fase – período entre 1950 e 1970: a indústria de alimentos começou a considerar a utilização de seres humanos como instrumento de medidas dos atributos sensoriais dos alimentos. A partir desse período, surgiu a definição das características primárias que completam a qualidade sensorial dos alimentos e os sentidos humanos relacionados a eles e a compreensão de que o homem tem uma habilidade natural em comparar, diferenciar e quantificar as características sensoriais. A partir daí, desenvolveram-se os métodos de avaliação sensorial e foram projetados instrumentos que reproduziam a ação do homem e métodos estatísticos que correlacionavam medidas sensoriais e instrumentais. • 4ª fase – período após 1970: época em que se determinou que a qualidade sensorial de um alimento não é um atributo só do alimento, mas o resultado da relação entre o alimento e o homem, constatando-se que a qualidade sensorial é função dos estímulos provenientes dos alimentos, quanto das condições de quem avalia, são elas: fisiológicas, sociológicas e psicológicas. Definiu-se também que as medidas instrumentais só são úteis quando apresentam uma boa relação com as medidas sensoriais. Podemos usar a análise sensorial em diversas áreas, como no desenvolvimento de novos produtos, no controle do processo de fabricação, entre outros. Segundo Teixeira (2009, p. 12), “para alcançar o objetivo específico de cada análise, são elaborados métodos de avaliação diferenciados, visando a obtenção de respostas mais adequadas ao perfil pesquisado do produto. Esses métodos apresentam características que se moldam com o objetivo da análise”. Para cada método sensorial que é aplicado, o resultado deve ser expresso de forma específica, sendo estudado estatisticamente, concluindo assim a condição do produto. Algumas aplicações da análise sensorial, tanto para a indústria de alimentos quanto para instituições de pesquisa, são exemplificadas a seguir: • identificação de características sensoriais, além da ordem de percepções humanas e sua intensidade; • desenvolvimento de novos produtos; • competição no mercado; • estabilidade de um produto; • busca pela redução de custos ao produzir um produto; 104 • estabelecimento de padrões; • classificação ou graduação de produtos (padrão estabelecido com amostras de referência); • testes de aceitação do consumidor; • seleção e treinamento de provadores; • elucidação dos mecanismos de percepção fisiológica; • avaliação da qualidade de um alimento; • controle do efeito de diferentes embalagens sobre produtos acabados; • testes de mercado; • melhoria de um produto já existente; • correlação de medidas sensoriais com medidas físico-químicas; • estudo de vida de prateleira (shelf life); • alteração de processos; • redução de custo e/ou nova fonte de suprimento; • testes de controle de qualidade; • condiçõesde armazenamento; • estudo da percepção humana. 3 COMUNICAÇÃO SENSORIAL Nas últimas décadas, algumas técnicas se mostraram eficientes no ramo dos negócios e estão melhorando o desempenho de determinadas instituições. Uma das técnicas utilizadas é o marketing sensorial (BECKENKAMP et al., 2020). De acordo com Camargo (2013), tais técnicas buscam entender as reações e as funcionalidades dos órgãos sensitivos, com o intuito de gerar mecanismos mais eficazes para criar vínculos entre consumidores e marcas. Atribuir percepções sensoriais que estimulem de forma positiva nossos sentidos podem ser o segredo para o sucesso na indústria alimentícia. A comunicação sensorial é a forma que a indústria tem de se fazer presente tanto no momento da compra como no cotidiano do consumidor, fazendo que permaneçam as sensações e as experiências provocadas. Deve-se criar formas para que o consumidor possa sentir e lembrar da marca por meio do paladar, do tato, do olfato, da visão e da audição, conforme mostra a Figura 1. 105 FIGURA 1 – CINCO SENTIDOS HUMANOS UTILIZADOS NA COMUNICAÇÃO SENSORIAL FONTE: <https://shutr.bz/3trP3uP>. Acesso em: 3 mar. 2022. Os estímulos sensoriais são explorados de modo que seja criado um elo emocional entre o produto e o consumidor. Esses estímulos alcançam o subconsciente do consumidor e geram algumas reações, que influenciam o comportamento de compra e geram uma necessidade de consumir. A seguir, veremos a influência de cada um dos sentidos na comunicação sensorial: 3.1 VISÃO As imagens e textos que são visualizados pelo consumidor trazem informações importantes sobre os produtos, motivando ou aumentando o interesse por eles. Uma boa identidade visual com cores e fontes bem características da marca estimulam positivamente a visão, que irá associar facilmente essa identidade a marca. A indústria de alimentos tem dado prioridade ao aspecto visual dos produtos como critério para torná-lo mais atrativo, já que a aparência geral do alimento exerce uma forte influência sobre a decisão de compra do consumidor. Além disso, a visão estimula outras respostas sensoriais ao gerar uma resposta ao homem, como aumento da salivação ao perceber um alimento com uma aparência agradável. 106 3.2 OLFATO O olfato é um dos sentidos mais poderosos na hora de construir a “personalidade sensorial” de uma marca. Odores ou aromas trazem lembranças que são associados de forma praticamente instantânea por parte do consumidor. O ser humano consegue lembrar de até 45% dos cheiros e de até 100 mil aromas que sentiu. O grande diferencial do olfato está no fato de que raramente ele passará despercebido pelo consumidor, uma vez que, por meio da respiração, o odor sempre chama a atenção e mantém o cérebro ativo ao que está acontecendo à sua volta (GONÇALO, 2017). Para produtos alimentícios é importante utilizar termos técnicos, como “aroma”, no lugar de “cheiro” ou “fragrância”. O termo “aroma” é utilizado para a análise sensorial de alimentos, porque corresponde aos seus odores quando são mastigados. Já o termo “cheiro” e “fragrância” são aplicados em cosméticos. 3.3 AUDIÇÃO Quando pensamos em algum alimento, já imaginamos o som que ele irá produzir. A percepção auditiva é tão sensível que, quando emitido um som, o consumidor tem a capacidade de ouvir e escutar. Apesar de ambos os termos parecerem significar a mesma coisa, há uma pequena diferença: ouvir é quando o receptor, no caso o consumidor, apenas recebe informações; mas escutar é quando o consumidor assimila e filtra esse estímulo, gerando, então, uma reação (LINDSTROM, 2011). Associamos cada alimento a um som específico, ou seja, quando lembramos de um alimento, involuntariamente conseguimos imaginar o seu som em função das suas características. É o caso da diferença que esperamos no som gerado ao mastigarmos uma cenoura crua ou cozida. Assim como a resposta sonora que esperamos ao consumir um alimento crocante como um amendoim japonês. Ou o som das borbulhas de bebidas gaseificadas, como espumantes, está associado às memórias auditivas que esperamos quando consumimos essa bebida. Portanto, os sons dos alimentos são associados à sua textura e seu reconhecimento se dá por intermédio da memória referente a experiências anteriores do consumidor. 107 3.4 TATO O tato fornece informações sobre forma, textura, temperatura e peso de um alimento por meio das percepções geradas pela pele e pela boca. O tato é a forma de ter contato com o mundo, uma conexão para “possuir”. Na comunicação, é primordial e praticamente inevitável, pois, logo depois de um incentivo, o próximo passo para o consumidor é pegar o produto. O tato também pode ser resgatado pelos outros sentidos, comprovando mais uma vez, o quanto que a integração torna eficaz a comunicação sensorial (OLIVEIRA; BRAGA, 2013). Algumas terminologias utilizadas no uso do tato são importantes para a comunicação sensorial, são elas: • sensações somestéticas: segundo Nogueira (2021, p. 20), “[…] somestesia são sensações de pressão (tato), temperatura, e dor percebidas pelos receptores localizados na pele e lábios, incluindo mucosa oral, língua e membrana periodontal”. Sentimos as sensações somestéticas nas terminações nervosas da superfície da pele; nos alimentos, são consideradas a granulosidade, a arenosidade, a cristalinidade e a floculação; • sensações cinestésicas: de acordo com Nogueira (2021, p. 20), “[…] cinestesia corresponde à sensação de posição, movimento e tensão de partes do corpo percebidos por meio de nervos e órgãos nos músculos, tendões e juntas”. Sentimos as sensações cinestésicas ao fazer movimentos mecânicos dos músculos como a mão, o maxilar ou a língua e a sensação da forma resultante, compressão, ruptura ou corte, sobre um alimento que está sendo degustado. São exemplos de sensações cinestésicas a firmeza, a viscosidade e a adesividade. 3.5 PALADAR O paladar é o mais impactado pelos demais sentidos do ser humano, ou seja, ele é facilmente influenciado pela visão, audição, tato e, principalmente, o olfato; há uma conexão clara e direta do paladar com o olfato, principalmente por serem dois sentidos que dependem de estimulantes químicos derivantes de alimentos ou aromas (GONÇALO, 2017). Ao consumir uma cerveja envolvemos todos os sentidos humanos. Começamos a escolha da bebida e sua análise pela visão, para identificar cores e tons, e com as mãos para pegar e tatear a garrafa. Ao abrir a bebida, aguçamos a audição para ouvir o som característico do gás concentrado e exalado pela garrafa. Sentimos o aroma da cerveja pelo olfato para, finalmente, sentirmos o sabor da bebida pelo paladar. São os sentidos perceptivos que propiciam nosso relacionamento com a cerveja e nos ajudam a compreender o estilo da cerveja e a degustar todas as suas características (CARDOSO, 2014). 108 4 O QUE INFLUENCIA NUMA ANÁLISE SENSORIAL O consumidor é considerado o mais importante julgador sensorial, pois é ele quem decide o que vai consumir. Além disso, o consumidor tem se tornado cada vez mais exigente com sua alimentação, adotando uma prática mais responsável de consumir um alimento e buscando qualidade, diversidade e produtos de fácil preparo, mas que respeitem as características esperadas, nas prateleiras dos supermercados. Por isso, é importante entender os fatores que chamam atenção e conquistem o consumidor na hora da formulação de um produto. A qualidade sensorial dos alimentos tem relação com às percepções interpretadas pelos avaliadores sensoriais, assim como tem grande influência nas suas condições psicológicas e fisiológicas. Por isso, é resultado da interação entre o homem e o alimento. Portanto, as características sensoriais de um determinado alimento podem variarentre os avaliadores, assim como pode ser influenciada pelo ambiente. Para se desenvolver uma análise sensorial, deve-se estruturar uma metodologia que possui quatro etapas: organização, planejamento, desenvolvimento e análise dos dados. No decorrer desse processo, cada pessoa envolvida precisa reconhecer a importância do seu papel, principalmente os avaliadores, já que suas respostas irão conduzir toda a pesquisa. Por isso, a análise sensorial é realizada por uma equipe treinada para essa função. Informações dos alimentos como cor, textura, tamanho, odor etc. são aspectos que podem causar diferentes interpretações e devem ser trabalhadas com cautela, buscando a melhor maneira para melhorar a experiência do consumidor. Existem fatores relevantes que devem ser considerados no momento da escolha de um julgador, são eles: os fatores fisiológicos, psicológicos e físicos. 4.1 FATORES FISIOLÓGICOS Os fatores fisiológicos afetam a capacidade de percepção dos sentidos humanos, podendo prejudicar, assim, a avaliação dos julgadores. Segundo Bento, Andrade e Silva (2013, p. 59), […] a adaptação sensorial, tanto no caso dos sentidos do olfato, paladar e visão relacionados a estímulos prolongados, também reduz a capacidade de percepção dos julgadores, assim como a diminuição das percepções quando se avalia um alimento com estímulo de maior intensidade antes de outro que apresenta menor intensidade. 109 De acordo com Gularte (2009 apud NOGUEIRA, 2021, p. 22-23), […] realizar avaliações sensoriais com fome ou em condição de plena saciedade, acarreta o aumento e na diminuição da sensibilidade do indivíduo, respectivamente, o que pode afetar a resposta dos julgadores. Por outro lado, o uso de medicamentos como antialérgicos, antibióticos histamínicos, e procedimentos como radioterapia e quimioterapia podem diminuir a capacidade sensorial. O sexo afeta a percepção em função dos hormônios reprodutivos de cada indivíduo, com isso, normalmente as mulheres apresentam maior sensibilidade que os homens, porém menor constância em função da variação hormonal, que ocorre de forma muito mais sutil nos homens. A idade é um importante fator que pode afetar a capacidade de percepção dos sentidos humanos, a idade avançada, por exemplo. Geralmente, a faixa etária ideal para avaliação da maioria dos alimentos é entre 18 e 50 anos. 4.2 FATORES PSICOLÓGICOS Os fatores psicológicos podem influenciar na análise sensorial, induzindo a erros de avaliação ou a julgamentos tendenciosos. Segundo Stone, Rebecca e Heather (2012), são eles: • erro de expectativa: quando já se tem o conhecimento prévio sobre o produto, gerando expectativa de encontrar atributos ou diferenças específicas com base nesse conhecimento; • erro de hábito: tendência do julgador de atribuir sempre a mesma classificação por força do hábito; • erro de tendência central: provadores que evitam os extremos das escalas de classificação; • erro contraste: quando várias amostras são avaliadas ao mesmo tempo, verificando- se que os produtos são classificados como muito diferentes um do outro e que a magnitude da diferença é bastante superior à esperada. 4.3 FATORES FÍSICOS Os fatores físicos são aqueles que causam alterações e, possivelmente, podem afetar a qualidade sensorial dos alimentos; são fatores como temperatura, iluminação, embalagem, entre outros. Nos espaços físicos para realização das avaliações sensoriais, exceto nos casos em que envolvam testes diretos com consumidores, condição em que deve haver uma adaptação do espaço, para as demais análises sensoriais, deve-se ter um local apropriado para sua condução, com uma estrutura planejada e construída para essa finalidade. 110 De acordo com Teixeira (2009, p. 15), “o local dos testes deve ter cabines preferencialmente individuais, a iluminação deve ser com luz natural ou fluorescente natural, porém também deve-se ter o recurso adicional de lâmpadas coloridas para mascarar a cor de certas amostras ou homogeneizá-las”. Além disso, as cabines devem ser em locais tranquilos e silenciosos para facilitar a concentração do provador e devem ficar longe de odores que possam interferir na análise. Os laboratórios devem ser de fácil acesso, não podendo exigir que os provadores tenham que subir vários lances de escada para ter acesso. A temperatura no local da análise deve ser agradável, em torno de 22 °C, e a umidade relativa do ar deve estar entre 50 e 55%. As paredes devem ser de cores neutras, de preferência brancas, e a área de preparo das amostras não deve estar em contato com os avaliadores. Também é importante ter uma mesa redonda, já que em alguns treinamentos e testes sensoriais existem momentos em que os avaliadores precisam discutir a análise, realizar treinamento, padronizar procedimentos e caracterizar amostras padrão. Também são necessários equipamentos específicos como equipamentos para o preparo das amostras, como fogões, fornos, processadores, facas etc. Assim como equipamentos necessários para o armazenamento das amostras, como freezers e geladeiras. Aparelhos e instrumentos como termômetros, balanças, cronômetros. E equipamentos para servir as amostras, como copos, pratos, talheres, a depender do tipo de teste. FIGURA 2 – LABORATÓRIO DE ANÁLISE SENSORIAL FONTE: <https://shutr.bz/3sC4d1u>. Acesso em: 3 mar. 2022. O controle geral da estrutura física dos laboratórios é de fundamental importância; deve-se priorizar a busca pela neutralidade e naturalidade de aspectos como as cores do ambiente, iluminação, temperatura, odores, ruídos, ventilação, para gerar uma sensação de conforto nos avaliadores em relação ao ambiente. 111 5 RODA DE AROMAS Considerando que existem variados tipos de cerveja, todas possuidoras de características particulares, a caracterização sensorial de uma cerveja remete à utilização de um conjunto de descritores sensoriais gerais e próprios para este tipo de bebida (BRINGMANN, 2018). A roda de aromas e sabores (Figura 3), utilizado para cafés, chás, vinhos e cervejas, é uma representação visual dos aromas mais comuns que podemos encontrar nessas bebidas e é uma ótima ferramenta de apoio durante uma degustação. FIGURA 3 – RODA DE AROMAS FONTE: <https://shutr.bz/3pABGHI>. Acesso em: 3 mar. 2022. 112 A roda de aromas para a cerveja foi criada na década de 1970 pelo engenheiro químico dinamarquês Morten Meilgaard e possui 14 grupos sensoriais, que estão relacionados a gostos, aromas e sabores que são percebidos na cerveja. Essa representação visual possibilita que os degustadores avaliem os aromas e sabores existentes na bebida. Sabemos que existe um vasto número de estilos de cerveja, cada uma com características particulares, sendo resultado da utilização de diferentes matérias-primas ou de diferentes processos na fabricação, a análise sensorial de uma cerveja permite a utilização de um conjunto de instrumentos sensoriais próprios para este tipo de bebida. Atualmente são conhecidos cerca de 800 compostos diferentes na cerveja, e a roda de aromas é estruturada em categorias que são identificadas por cores, e tornou-se uma grande companheira durante o processo de exercício da memória olfativa, sobretudo quando ainda está se desenvolvendo essa memória. Ela reúne uma lista de conceitos que representam aromas perceptíveis na cerveja, e o grande objetivo desse instrumento é o de poder analisar com clareza os aromas de uma cerveja. Esses aromas possuem referências naturais, que a maiorias das pessoas conseguem reconhecer. 113 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • A análise sensorial possibilita preparar as percepções do ser humano em relação a um alimento e descobrirquais atributos sensoriais devem ou não estar presentes além da sua intensidade. • Nenhum instrumento substitui a percepção humana sobre os alimentos na análise sensorial. Ao comer um alimento, os cinco sentidos humanos são despertados formando uma experiência complexa. • A análise sensorial é uma pesquisa usada para medir, analisar e interpretar as reações humanas as características dos alimentos, levando em consideração os sentidos humanos. Os principais objetivos da análise sensorial é entender o que o consumidor deseja, além dos motivos pelos quais os sentidos definem as escolhas e de que forma isso acontece. • A comunicação sensorial é a forma que a indústria tem de se fazer presente tanto no momento da compra, como no cotidiano do consumidor, fazendo que permaneçam as sensações e as experiências provocadas, devendo-se criar formas para que o consumidor possa sentir e lembrar da marca, por meio do paladar, do tato, do olfato, da visão e da audição. • Geralmente, a análise sensorial é realizada por uma equipe especialmente voltada e treinada para essa função. Os fatores fisiológicos, psicológicos e físicos são fatores importantes que devem ser considerados ao escolher um julgador. • A roda de aromas é muito utilizada para cafés, chás, vinhos e cervejas, e é uma representação visual dos aromas mais comuns que podemos encontrar nessas bebidas, sendo uma ótima ferramenta de apoio durante uma degustação. RESUMO DO TÓPICO 1 114 1 A análise sensorial utiliza as características organolépticas dos alimentos para obter informações importantes em relação à aceitação de um produto pelo consumidor, bem como para o controle de qualidade de produtos e processos, entre outros. Sobre a definição de análise sensorial, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A percepção humana sobre os alimentos pode ser facilmente substituída por equipamentos na avaliação de produtos. b) ( ) Ao comer um alimento, apenas o sentido do olfato e paladar são despertados formando uma experiência complexa. c) ( ) A análise sensorial tem o objetivo de estimular sensações de prazer e bem-estar no ser humano. d) ( ) A análise sensorial é uma pesquisa que não leva em consideração os sentidos humanos. 2 A comunicação sensorial tem como principal objetivo criar vínculos emocionais com marcas e produtos, ou seja, como uma informação provocada por meio dos sentidos humano é processada no cérebro e como interfere nas emoções e, consequentemente, nas decisões do consumidor. Com base nas definições sobre comunicação sensorial, analise as afirmativas a seguir: I- Atribuir percepções sensoriais que estimulem de forma positiva os sentidos da visão e olfato podem ser o segredo para o sucesso na indústria alimentícia. II- Uma boa identidade visual, com cores e fontes que caracterizam a marca estimulam positivamente a visão, que irá associar facilmente essa identidade a marca. III- O olfato é o sentido mais impactado pelos demais sentidos humanos. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. b) ( ) Somente a afirmativa II está correta. c) ( ) As afirmativas I e III estão corretas. d) ( ) Somente a afirmativa III está correta. 3 A qualidade sensorial dos alimentos repercute na aparência, primeiro atributo que irá ser objeto da análise do consumidor, que é o mais importante provador sensorial, pois é ele que decide o que vai consumir e como esse produto será consumido. De acordo com os fatores que influenciam a análise sensorial, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: AUTOATIVIDADE 115 ( ) Os fatores físicos são considerados fatores que causam alterações e, eventualmente, podem afetar a qualidade sensorial dos alimentos, como temperatura, iluminação, entre outros. ( ) Os fatores fisiológicos podem influenciar na análise sensorial, induzindo a erros de avaliação ou a julgamentos tendenciosos. ( ) Informações como cor, tamanho, textura e odor são aspectos que causam diferentes interpretações sensoriais. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V - F - F. b) ( ) F - V - F. c) ( ) F - F - V. d) ( ) V - F - V. 4 A análise sensorial é uma pesquisa que leva em consideração os sentidos humanos e tem como principais objetivos compreender o que o consumidor deseja e quais motivos os sentidos definem as escolhas e de que forma isso acontece. Existem várias aplicações da análise sensorial, usadas tanto para a indústria de alimentos quanto para instituições de pesquisa. A partir dessa afirmação exemplifique algumas aplicações da análise sensorial. 5 A análise sensorial é uma ciência que estimula, verifica, analisa e interpreta os comportamentos dos consumidores em relação às características dos alimentos, utilizando os sentidos humanos (visão, olfato, tato, audição e paladar). Geralmente, a análise sensorial é realizada por uma equipe especialmente voltada e treinada para essa função. Existem fatores relevantes que devem ser considerados no momento da escolha de um julgador, são eles: os fatores fisiológicos, psicológicos e físicos. A partir dessa afirmação disserte sobre os fatores que podem influenciar na análise sensorial. 116 117 TIPOS DE TESTES SENSORIAIS UNIDADE 3 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO A análise sensorial é um importante método usado para avaliar a qualidade de um alimento e sua aceitabilidade no mercado, também serve para determinar o tempo de prateleira de um produto. Portanto, ela está correlacionada ao controle de qualidade. Para a realização de uma análise sensorial algumas variáveis devem ser severamente controladas; para o ambiente de realização dos testes, deve haver um preparo criterioso das amostras, além de um treinamento adequado da equipe de avaliadores. Para isso, é necessário que os testes sensoriais sejam realizados em um ambiente adequado, ou seja, um laboratório de análise sensorial. O laboratório de análise sensorial deve ser comandado por uma equipe capacitada, como engenheiros de alimentos, tecnólogos, químicos, que são responsáveis por aplicar diferentes métodos para avaliar os alimentos e medir as reações que são provocadas nos consumidores. Dessa forma, a análise sensorial pode oferecer vantagens como o monitoramento do produto no mercado, melhoria nas fórmulas e métodos de processamento, controle e manutenção da qualidade, entre outros. Acadêmico, o órgão responsável pela implementação da análise sensorial no Brasil é a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que se baseia nas normas da International Organization for Standardization (ISO), e estabelece regras sobre a análise sensorial, como metodologias, vocabulário utilizado, ambiente de testes etc., são elas: • ABNT NBR ISO 5492:2017 – Vocabulário. • ABNT NBR ISO 8589:2015 – Guia geral para o projeto de ambientes de teste. • ABNT NBR ISO 8586:2016 – Guia geral para a seleção, treinamento e monitoramento de avaliadores selecionados e de especialista ou experts. • ABNT NBR ISO 11136:2016 – Guia geral para condução de testes hedônicos com consumidores em ambientes controlados. • ABNT NBR ISO 13299:2017 – Orientação geral para o estabelecimento de um perfil sensorial. DICA 118 Para a realização de uma análise sensorial, são necessárias diversas etapas até a obtenção de dados para a análise estatística, por isso é muito importante fazer o levantamento inicial de todas as informações referentes ao teste para evitar imprevistos durante a sua execução. Deve-se observar, por exemplo, qual tipo de amostra vai servir, quais utensílios irão necessitar, a quantidade mínima de provadores, a temperatura que a amostra deverá ser servida, formulários, entre outras informações. O recrutamento de pessoas dispostas a participar de umaequipe de avaliadores precisa ser realizado com cautela. A análise sensorial pode ser realizada por meio de três tipos de avaliadores: • participante: todas as pessoas que participam de um teste sensorial; • provador: indivíduos definidos por sua capacidade de realizar um teste sensorial; • provador qualificado: indivíduos selecionados e treinados com experiência em testes sensoriais, capazes de fazer avaliações sensoriais consistentes e repetitivas de diversos produtos. É importante ter sempre dois tipos de provadores para a realização de um teste sensorial – os não treinados e os treinados. Para testes afetivos, não há necessidade de utilizar provadores treinados, já para testes discriminativos e descritivos, que são considerados métodos analíticos, o provador é considerado como um instrumento, logo, há necessidade de serem treinados. O avaliador deve saber como se expressar, além de ter um bom vocabulário para definir as características das amostras com clareza e detalhes. Também deve ter uma boa percepção sensorial e aptidão para diferenciar cores, odores, texturas e gostos. O avaliador deve estar em bom estado de saúde e se estiver com qualquer doença deve comunicar. Deve-se evitar fumantes e avaliadores que utilizem aparelho dentário, já que, em algumas análises, os dentes desempenham uma importante função durante a mastigação. Os julgadores não devem usar cosméticos com odores fortes, nem consumir alimentos picantes nos dias de testes, além de alguns medicamentos que podem afetar no paladar. Para testes sensoriais em cerveja, segundo Sousa et al. (2021, p. 25), […] a escolha acontece, quando os interessados em fazer parte do time sensorial são treinados e testados em sua aptidão em relação à: água gaseificada (com gás carbônico); cerveja, onde é adocicada com açúcar de cana, como com Isoalfa-ácido; amargor adicionado na cerveja e cerveja sem adição (sem alteração, amostra em branco). 119 Sobre a quantidade de amostras, em testes sensoriais focados no sabor e/ ou aroma das amostras, a aparência das amostras deve ser idêntica. Amostras com cores diferentes geralmente têm sua aparência mascarada pela utilização de lâmpadas coloridas, porém, em amostras de cor igual ou semelhante, o tamanho em que a amostra é apresentada ao provador deve ser o mais próximo possível. Amostras sólidas devem ser cortadas em cubos padronizados, amostras líquidas devem ser medidas em vidrarias específicas, amostras pastosas são mais complicadas de medir por causa sua textura e sua medida pode variar dependendo da viscosidade que ela apresentar, por esse motivo, colheres de medida devem ser aplicadas a fim de alcançar uma padronização dessa quantidade (ANÁLISE SENSORIAL, 2019). Já em relação à temperatura, a apresentação das amostras deve acontecer na temperatura habitual de consumo, que pode variar de acordo com a amostra. Alimentos consumidos quentes devem ser servidos de 60 a 66 °C, já alimentos consumidos frios, como cervejas, refrigerantes e sucos são servidos de 7 a 10 °C. Pães, biscoitos, água, podem ser servidos em temperatura ambiente. Para a ordenação e codificação das amostras, deve-se monitorar a ordem de distribuição, a codificação e a quantidade de amostras. Cada amostra deve aparecer em uma mesma posição em um mesmo número de vezes. As amostras devem ser codificadas a fim de evitar tendência ou predisposição por parte dos provadores à escolha de uma amostra baseada na letra ou no número utilizados para sua identificação. Segundo Trommer (2015), para a cerveja, os copos devem ser de vidro e lavados com detergentes neutros; deve-se armazenar a cerveja (garrafas que serão analisadas) na temperatura da análise sensorial uma noite antes do teste, fazer, de preferência, a degustação entre 10 e 12 h em uma sala a 20 °C sem odor, com luz natural e não permitir a visualização do rosto de um provador pelo outro, a fim de não influenciar na dedução do provador. Durante a análise sensorial de cervejas, fatores como aparência, sabores e sensação na boca são avaliados. O avaliador deve colocar uma pequena quantidade de amostra na boca, deixando a cerveja tomar conta de toda a cavidade bucal, para alcançar o máximo de células sensoriais. Existem diferentes técnicas de degustação para líquidos, como vinhos e cervejas; primeiramente, deve-se sentir o odor, deixando o copo próximo ao nariz, sem agitar, e depois sentir o odor da amostra com agitação, assim, podemos sentir os aromas mais voláteis presentes na cerveja com maior facilidade (OLIVEIRA, 2010). 120 O próximo passo seria mover uma pequena quantidade do líquido na boca, garantindo que ele alcance todas as partes internas da boca, facilitando a identificação e caracterização da amostra. Após realizar as etapas anteriores, pode-se ingerir o produto, espera-se de cinco a dez segundos, para se avaliar a intensidade das características sensoriais sentidas, e, após 30 segundos, aproximadamente, avalia-se a “intensidade residual” que seria o sabor residual da cerveja na boca. Por meio da análise de inspeção visual, é possível se avaliar a opacidade do produto, se existem sedimentos, ou sólidos em suspensão, formação e coloração da espuma. Para a análise de cor da cerveja existem duas escalas principais, SRM (Standard Reference Method) utilizado nos Estados Unidos ou EBC (European Brewery Convention) utilizada na Europa. A coloração final da cerveja se dá pela coloração inicial do malte (HOUSTON, 2013). Os testes de análise sensorial dos alimentos têm o objetivo avaliar os atributos sensoriais do produto. São eles: • cor: o tom, a intensidade e o brilho são características necessárias na cor de um alimento. Quando um desses atributos é alterado, a qualidade do alimento também pode ser afetada. Por isso, é necessário relacionar estes fatores aos resultados esperados; • aroma: algumas substâncias no alimento são voláteis e acabam sendo captadas pelo olfato, podendo também indicar alguma alteração no produto, além disso, o aroma participa do sabor do alimento e pode ser percebido melhor quando colocamos o alimento na boca; • textura: é percebida ao pressionar, cortar ou morder o alimento. Por meio da textura podemos avaliar a maciez, elasticidade, crocância, entre outras características do alimento; • sabor: o gosto do alimento é percebido ao identificar características primárias (doce, amargo, ácido, salgado e umami). O paladar é responsável por identificar o sabor do alimento. Na realização dos testes, deve-se instruir os avaliadores de forma clara e objetiva como proceder. Alguns procedimentos são importantes, como lavar a boca com água em cada troca de amostra, ou utilizar pão, bolacha ou maçã. Sempre deve provar as amostras da esquerda para a direita. O recomendado é que o julgador cuspa a amostra para evitar desconfortos como enjoos ou sensação de saciedade, principalmente em testes que possuem muitas amostras. Acadêmico, neste Tópico 2, iremos abordar os principais tipos de análise sensorial: os discriminativos, que estabelecem diferenças entre as amostras; os afetivos, também conhecidos como teste de consumo, que expressam a opinião do consumidor; e os descritivos, nos quais são feitas descrições das amostras. 121 2 DISCRIMINATIVOS O principal objetivo dos testes discriminativos é identificar as diferenças qualitativas e/ou quantitativas entre as amostras. Esse tipo de teste avalia os resultados específicos de cada produto por meio da discriminação simples, indicando se existe diferenças sensoriais entre as amostras. São conhecidos como testes de diferença e pode ser usado para estudar como um atributo específico do produto pode variar durante sua vida útil. Neste método, são avaliados produtos que sofreram mudanças nos ingredientes,no processamento, na embalagem ou estocagem. Sua execução é rápida e a análise dos resultados é considerada fácil. Para a realização dos testes, é necessário um painel selecionado e treinado que varia conforme os objetivos. De acordo com Nassu (2007, p. 1), “os provadores podem ser do tipo que avalia a diferença global entre amostras ou do tipo direcional, em que o julgador indica se existe diferença em determinado atributo. Os provadores são familiarizados com a análise sensorial e o seu número pode variar de 20 a 30, dependendo do teste”. Os testes discriminativos mais utilizados são: comparação pareada, triangular, duo-trio, ordenação e comparação múltipla. 2.1 COMPARAÇÃO PAREADA O teste de comparação pareada é considerado o mais simples e o mais utilizado na análise sensorial. Ele tem a finalidade de determinar a diferença ou a preferência entre dois produtos com relação a uma característica sensorial, é uma das formas mais simples, fáceis e seguras para determinar diferenças e similaridades sensoriais de um produto. Uma das suas principais vantagens é não causar fadiga aos sentidos. A comparação pareada consiste na apresentação de duas amostras e o julgador deve dizer qual das duas tem maior intensidade de uma característica bem definida, qual a mais doce, ou mais salgada, por exemplo. Portanto, deve-se garantir que o provador saiba detectar corretamente a característica sensorial: aroma, textura, doçura, acidez, entre outros. Ele pode ser utilizado também como teste de preferência. Esse tipo de teste pode ser monocaudal ou bicaudal. • Monocaudal ou unilateral: sabe-se que há diferença entre as amostras e deseja- se saber se essa diferença é perceptível. Por exemplo, se estamos verificando se os julgadores conseguem diferenciar o amargor entre uma cerveja com 0,1% de lúpulo e outra com 0,2% de lúpulo, neste caso, sabemos a priori qual amostra deveria apresentar maior intensidade do atributo avaliado. 122 • Bicaudal ou bilateral: não se sabe ainda se há alguma diferença entre as amostras. Por exemplo, se substituímos o tipo de lúpulo na cerveja e desejamos saber se as cervejas diferem no sabor. 2.2 TRIANGULAR O principal objetivo do teste triangular é observar se existe diferenças significativas entre duas amostras e uma padrão que sofreram alterações sensoriais, cabendo ao julgador identificar a amostra diferente e descrever quais foram as diferenças observadas. O teste discriminativo triangular é um método que detecta pequenas diferenças entre três amostras. Dessas três, duas amostras são iguais e apenas uma é diferente. Cabe ao julgador identificar a amostra diferente e descrever em uma ficha quais foram as diferenças observadas. Para a análise dos resultados, deve-se consultar uma tabela com o número de provadores em uma prova triangular, que mostra o número de acertos (julgadores que identificaram corretamente a amostra diferente) para um determinado nível de significância arbitrado O número de julgadores deve ser entre 20 e 40, caso as diferenças entre as amostras sejam sutis, ou apenas 12 em caso de diferenças mais significativas. Se o número de acertos for maior ou igual ao tabelado, conclui-se que há diferença significativa entre as amostras. (ANÁLISE [...], 2019, s. p.) De acordo com Meilgaard, Carr e Civille (1991), o teste poderá ser aplicado nas seguintes condições: • para identificar se houve alguma alteração no produto ao mudar algum ingrediente, ou em alguma etapa do processamento, ou na embalagem ou armazenamento; • para determinar se existe diferença entre os produtos; • para selecionar e supervisionar julgadores com habilidade em diferenciar as diferenças entre os produtos; • para detectar pequenas diferenças entre as amostras, por isso esse tipo de teste pode ser utilizado antes de outros testes. 2.3 DUO-TRIO Este teste também consiste na análise de três amostras, sendo uma padrão e duas codificadas. Cabe ao julgador identificar qual das amostras é igual à padrão. O número de julgadores deve ser de, no mínimo, sete especialistas ou 15 treinados. Também existem tabelas disponíveis para esse teste e a forma de análise é semelhante à do método triangular: se o número de acertos for igual ou maior do que o valor tabelado, então, conclui-se que há diferenças significativas entre as duas amostras codificadas (ANÁLISE [...], 2019). 123 O teste duo-trio é eficiente para comparar diferentes formulações e para treinar e testar a percepção sensorial dos julgadores. É recomendado quando a amostra padrão é bem conhecida dos provadores. Um exemplo da sua utilização é no controle de qualidade de bebidas alcoólicas. 2.4 ORDENAÇÃO É considerado o principal teste discriminativo. É utilizado na comparação de três ou mais amostras ao mesmo tempo com relação à diferença da intensidade de uma determinada característica sensorial. O julgador deve ordenar as amostras em ordem crescente ou decrescente de acordo com sua preferência, ou intensidade da característica que está sendo analisada. Utiliza-se no mínimo 15 julgadores selecionados, já em testes com consumidores, deve-se ter 100 ou mais julgadores. É um teste largamente utilizado em virtude da sua simplicidade, facilidade de aplicação e interpretação, podendo ser utilizado para avaliar um grande número de amostras ao mesmo tempo. É recomendado para avaliar o desempenho dos provadores, além de avaliar os produtos, fazendo uma pré-seleção entre as amostras. 2.5 COMPARAÇÃO MÚLTIPLA Esse método sensorial é aplicado quando se quer determinar se existe diferença entre uma amostra padrão (ou referência) e uma ou mais amostras-teste, assim como estipular o grau de diferença existente. É indicado para avaliar apenas um atributo sensorial, no qual a amostra padrão, que pode ser de uma formulação ou marca conhecida, descrita com a letra P, e várias outras codificadas, totalizando mais de três amostras. Essas amostras são oferecidas aos julgadores, que irão avaliá-las comparando-as com o padrão, de acordo com o grau de diferença entre a amostra codificada e a referência, utilizando uma escala feita para esse propósito. Esse tipo de teste também pode ser utilizado para mostrar até qual concentração pode-se adicionar um determinado ingrediente sem alterar as características sensoriais do alimento. Não é recomendada a utilização de um número muito grande de amostras para a realização desta prova, pois pode causar fadiga sensorial, especialmente quando o atributo analisado é sabor. 124 3 AFETIVOS Os métodos afetivos acessam diretamente a opinião do consumidor sobre características sensoriais específicas do produto, e traz uma avaliação quanto ao seu gosto, ou seja, se ele gosta ou não daquele produto, tentando entender as preferências do público-alvo. Por esse motivo, o teste afetivo é chamado de teste do consumidor. De acordo com Bento, Andrade e Silva (2013, p. 111), […] são testes qualitativos, ou seja, avaliam subjetivamente as respostas de uma amostra de consumidores em relação às propriedades sensoriais de um produto, ou impacto de uma ideia, embalagem, propaganda etc., ou simplesmente na investigação detalhada de seus hábitos, atitudes e expectativas em relação a um tema ou produto. Eles podem ser realizados de maneira isolada, ou podem complementar resultados obtidos nos testes descritivos e discriminativos. O teste afetivo pode ser aplicado: • entre produtos concorrentes, para verificar quanto o consumidor gosta ou desgosta do seu produto em relação ao que está disponível no mercado; • quando há a necessidade de se trocar uma ou mais matérias-primas; • para descobrir o gosto do público-alvo potencial do produto; • para o desenvolvimento de novos produtos. Os parâmetros a serem considerados naescolha dos avaliadores podem variar, mas no geral são: frequência de uso do produto, idade, sexo e renda. Podem ainda ser considerados fatores culturais e étnicos, além de critérios demográficos (ligado a cultura local, clima e tempo etc.). Os métodos afetivos são o de preferência e o de aceitação. 3.1 TESTE DE PREFERÊNCIA Neste tipo de teste, avalia-se qual amostra é preferida em comparação a outra amostra. Geralmente, depois de provar, o avaliador assinala, entre duas amostras disponíveis, qual a sua preferida. São necessárias equipes grandes de avaliadores para se obter uma diferença estatisticamente significativa nos resultados, que representem exatamente a população à qual o produto se destina. É considerado um dos métodos mais importantes da análise sensorial, pois ele representa a soma de todas as percepções sensoriais e expressa o julgamento, por parte do consumidor, sobre a qualidade do produto. Os testes que podem ser empregados para determinação da preferência são teste pareado, teste de ordenação e escala hedônica. 125 • Teste pareado: tem-se dois produtos (A e B), e o consumidor irá escolher com base em sua preferência, ou seja, ele irá dizer se prefere o produto A ou B. Este teste força o provador a escolher uma amostra em comparação com outra, e não indicando se o indivíduo gostou ou não do produto. • Teste de ordenação: o consumidor deve avaliar três amostras codificadas e, em seguida, colocá-las em ordem crescente ou decrescente, de acordo com sua preferência, dando um para a amostra mais preferida e quatro para a menos preferida. • Escala hedônica: avalia o quanto o julgador gostou ou desgostou de uma determinada amostra por meio de uma escala que vai do “desgostei extremamente” até o “gostei extremamente” (BENTO; ANDRADE; SILVA, 2013). A escala hedônica é uma forma de apresentar as amostras ao acaso e o avaliador expressa o quanto gostou ou desgostou de um determinado produto, de forma globalizada ou em relação a um atributo sensorial específico, sendo facilmente compreendida pelo provador. Os tipos de escala hedônica, quanto à estrutura são: escala estruturada ou escala não estruturada. A escala estruturada pode ser: verbal, facial numérica e mista. A escala não estruturada é uma linha demarcada no extremo esquerdo com o termo “desgostei extremamente”, e no direito, “gostei extremamente”, sem utilizar valores numéricos associados com a resposta, minimizando as possíveis tendências do consumidor em evitar ou preferir determinados números ou expressões. NOTA 3.2 TESTE DE ACEITAÇÃO O teste de aceitação é o teste afetivo mais conhecido e utilizado. Ele analisa o grau de aceitação ou não de um produto, ou seja, o quanto o avaliador gosta ou desgosta do produto. O método mais utilizado é a escala hedônica. Por meio do teste de aceitação é possível entender o que os consumidores pensam em relação ao produto, também pode-se afirmar se consumidores provavelmente comprariam, provavelmente não comprariam, ou certamente comprariam o produto na intenção de compra. 4 DESCRITIVOS Também conhecidos como testes analíticos, são os métodos mais potentes e largamente utilizados na análise sensorial. Estes testes são assim denominados, pois descrevem e quantificam as informações a respeito da característica sensorial que está sendo avaliada, ou seja, descrevem qualitativa e/ou quantitativamente descrições como odor, sabor, textura etc. por intermédio de avaliadores treinados. Esse tipo de teste leva muito tempo para sua execução, por causa da longa etapa de treinamento. 126 Os dados qualitativos são obtidos quando os avaliadores descrevem os atributos sensoriais que definem o produto em relação a sua aparência, sabor, textura e aroma. Já os dados quantitativos são adquiridos quando os julgadores determinam a quantidade de cada aspecto por meio de uma escala de intensidade. Segundo Lawless e Heymann (2010, p. 341), “[…] os testes descritivos são usados quando se deseja obter uma descrição detalhada de um único produto em relação aos atributos sensoriais, ou quando se deseja comparar vários produtos em relação às suas diferenças sensoriais”. Esse método pode ser aplicado no estudo das características sensoriais de um produto, podendo ser usado para compreender o comportamento do consumidor em relação a essas características. Assim, pode ser usado no desenvolvimento de novos produtos, no controle de qualidade, no monitoramento das mudanças sensoriais ao longo do tempo para estabelecer prazos de validade, estudar sua vida de prateleira, além de entender os efeitos dos ingredientes e do processamento. O julgador deve avaliar o grau de intensidade que cada característica sensorial está presente no alimento, para isso, deve ser treinado a usar as escalas de intensidade de forma consistente com relação a sua equipe sensorial e com relação às amostras. Os métodos descritivos mais utilizados são: Análise Descritiva Quantitativa (ADQ), perfil de textura e método CATA. 4.1 ANÁLISE DESCRITIVA QUANTITATIVA (ADQ) Este método possui várias aplicações na indústria de alimentos, como no desenvolvimento de novos produtos, controle de qualidade, avaliação do tempo de armazenamento, acompanhamento de marcas concorrentes, além da análise de possíveis alterações do produto em relação ao tempo de prateleira e da embalagem utilizada. Segundo Stone e Sidel (1993), existe algumas vantagens da ADQ sobre os outros métodos de avaliações, são elas: • confiança no julgamento de uma equipe composta por dez a 12 julgadores treinados, ao invés de poucos especialistas; • desenvolvimento de uma linguagem descritiva objetiva, mas próxima à linguagem do consumidor; • desenvolvimento consensual da terminologia descritiva a ser utilizada, o que implica em maior concordância dos julgamentos entre os avaliadores; • os produtos são analisados com repetições por todos os participantes do teste “à cega” e, em seguida, os resultados são analisados estatisticamente. A ADQ é o método descritivo mais utilizado na indústria de alimentos. É um método que avalia, por meio de pontos, a aparência, cor, odor, sabor e textura de um produto. Além de medir a intensidade com que essas características são percebidas 127 pelos provadores. É utilizado para desenvolver o perfil sensorial de um produto ou dos componentes sensoriais de seus ingredientes por meio de julgadores com alto grau de treinamento. A ADQ permite reconhecer características sutis de um produto, por isso os objetivos do treinamento são melhorar suas habilidades em identificar e reconhecer os atributos sensoriais em alimentos, familiarizar o julgador com os procedimentos do teste, além de melhorar a sensibilidade e memória de modo a oferecer medidas sensoriais precisas, consistentes e padronizadas. Os julgadores devem ser capazes de detectar e descrever as características sensoriais de cada amostra, e também devem saber indicar a intensidade com que cada atributo é percebido nas amostras, permitindo a discriminação e caracterização das diferenças entre elas (FARIA; YOTSUYANAGI, 2002, s. p.). Para o desenvolvimento do vocabulário desse tipo de teste é a adequação do método de rede. Para isso, os julgadores recebem pares de amostras diferentes do produto e devem escrever as semelhanças e diferenças sensoriais que são observadas. No final, essas semelhanças e diferenças, são discutidas em mesa redonda com os membros da equipe. 4.2 PERFIL DE TEXTURA A análise de textura de um alimento é feita por meio do uso de recursos instrumentais e de metodologias sensoriais específicas com o objetivo de avaliar as propriedades mecânicas, geométricas e de superfície de diversos produtos. A textura de um alimento é um atributo importante no controle de qualidadee determinante na aceitabilidade do consumidor. O método de perfil de textura pode ser usado para: • pré-seleção e treinamento dos avaliadores; • orientação dos avaliadores para o desenvolvimento de definições e técnicas de avaliação das características de textura; • caracterização dos atributos de textura de um produto para estabelecer um perfil- padrão, a fim de saber diferenciar alterações posteriores; • melhoria dos produtos atuais e desenvolvimento de novos produtos; • estudo dos vários fatores que podem afetar os atributos de textura de um produto, por exemplo, mudança no processo, tempo, temperatura, ingredientes e embalagens. • estudo de vida útil e condições de armazenamento; • comparação de um produto com outro produto similar para determinar a natureza e a intensidade das diferenças na textura; • correlação das medidas sensoriais com as instrumentais e/ou físicas. 128 A análise do perfil de textura descreve o procedimento de submeter alimentos à compressão por algum sistema mecânico resultante da mastigação e, por meio dela, podem-se definir os atributos mais importantes para cada produto. Muitos métodos instrumentais têm sido desenvolvidos para determinar as propriedades de textura dos alimentos. Relacionar dados instrumentais e dados de análise sensorial é importante para definir quais os parâmetros instrumentais que garantem uma máxima aceitação sensorial. Desta forma, a indústria não precisa utilizar um método sensorial para avaliar se um determinado atributo de um produto está adequado, ela pode apenas utilizar os atributos definidos por meio da relação de dados instrumental e dados da análise sensorial, diminuindo o tempo e o custo que uma análise sensorial necessita. A análise de perfil de textura é comum ser utilizada em carnes, queijos, iogurtes, biscoitos, frutos, vegetais, entre outros. 4.3 MÉTODO CATA (CHECK-ALL-THAT-APPLY) A metodologia check-all-that-apply (tradução: “marque tudo que se aplique”) consiste em uma lista de palavras ou frases em que o julgador seleciona quais se aplicam ou respondem a perguntas sobre a amostra. Assim, o formato do teste CATA permite aos avaliadores escolher os atributos que julgam necessário para descrever o produto ao invés de julgar em uma determinada escala. Pode-se, também, adicionar características não sensoriais na lista, como hábitos de consumo e emoções. Ultimamente, é o método que mais tem sido utilizado para reunir informações sobre a percepção dos consumidores em relação às características sensoriais dos produtos. A seleção de descritores desta lista pode ser gerada por meio de um painel de julgadores treinados ou por um grupo de consumidores, ao testar o produto. O número ideal entre 50 e 100 provadores para realização do teste CATA, podendo variar a depender do tamanho das diferenças entre as amostras. Pode-se utilizar termos sensoriais (doce, salgado, amargo), emocionais (aconchegante, fresco) e funcionais (prático, útil). E a ordem apresentados no questionário pode influenciar na resposta do avaliador. Assim, os termos que estão mais próximos do topo da lista tendem a ser mais utilizados, por isso é recomendado que a ordem seja apresentada de forma aleatória entre os julgadores e as amostras. A depender da finalidade específica do estudo e dos atributos sensoriais do produto, utiliza-se um número de amostras entre 1 e 12, levando em consideração a fadiga sensorial. 129 A análise dos dados consiste em dados binários, cuja unidade pode assumir apenas dois estados possíveis, tradicionalmente rotulados como 0 e 1, indicando se cada consumidor selecionou (1) ou não (0) um determinado termo para descrever cada uma das amostras incluídas no estudo. A relevância de cada termo é determinada pelo cálculo da frequência de seleção, normalmente resumidos em tabelas de possibilidades que contêm o número do consumidor que selecionou cada termo para descrever cada amostra, e podem ser exibidos em contagens ou porcentagens, sendo o último mais utilizado (SARTOR et al., 2021, p. 109). Umas das principais vantagens do método CATA é a simplicidade e a rapidez da realização das análises, já as desvantagens é o fato de que não são medidas as intensidades dos atributos determinados, além de que esse método requer um número alto de consumidores (ALCANTARA, 2017). 130 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Para a realização de uma análise sensorial, é importante o controle de algumas variáveis, como o local de realização dos testes, a preparação das amostras e a equipe de avaliadores. Para que este tipo de controle seja possível, é necessário que os testes sensoriais sejam realizados em ambiente adequado, ou seja, em um laboratório de análise sensorial. • Para a execução de um teste sensorial, é importante adotar algumas práticas, como recrutar e treinar pessoas que estejam dispostas a participar de uma equipe de avaliadores, saber como servir as amostras, em relação a tamanho, cor, temperatura, quanto a codificação e ordenação etc. • Os testes de análise sensorial têm como objetivo avaliar os atributos sensoriais de um alimento. São eles: testes discriminativos, testes afetivos e testes descritivos. • Os testes discriminativos verificam se existem diferenças qualitativas e/ou quantitativas entre as amostras, os métodos mais utilizados são: comparação pareada, triangular, duo-trio, ordenação e comparação múltipla. • Os testes afetivos demonstram a opinião pessoal do consumidor. Os mais utilizados são: preferência e aceitação. • Os testes descritivos descrevem de maneira qualitativa e/ou quantitativamente as características sensoriais das amostras incluindo odor, textura, aparência e sabor. Os mais utilizados são a Análise Descritiva Quantitativa (ADQ), perfil de textura e método CATA. RESUMO DO TÓPICO 2 131 1 A análise sensorial, considerada uma importante ferramenta de controle de qualidade da indústria de alimentos, pode ser aplicada por meio de diferentes técnicas e metodologias e, normalmente, é realizada por uma equipe montada para analisar as características sensoriais de um produto para um determinado fim. Sobre os métodos de avaliação sensorial dos alimentos, quanto à classificação dos testes, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Descritivos, analíticos ou afetivos. b) ( ) Discriminativos, descritivos ou afetivos. c) ( ) Discriminativos, descritivos ou analíticos. d) ( ) Discriminativos, de diferença ou analíticos. 2 Para se fazer uma análise sensorial de um produto, existem vários métodos com objetivos específicos que são selecionados conforme o objetivo da análise. Os principais tipos de análise sensorial são os discriminativos, os afetivos e os descritivos. Com base nos métodos de análise sensorial, analise as afirmativas a seguir: I- No teste triangular, um teste discriminatório normalmente usado em análise sensorial dos alimentos, são apresentadas aos julgadores três amostras codificadas, sendo duas idênticas e uma diferente. II- O teste pareado é um método sensorial, no qual tem-se dois produtos, e o consumidor irá escolher qual produto ele prefere. III- O teste de ordenação é um método sensorial aplicado quando se quer determinar se existe diferença entre uma amostra padrão e uma ou mais amostras-teste. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. b) ( ) Somente a afirmativa II está correta. c) ( ) As afirmativas II e III estão corretas. d) ( ) Somente a afirmativa III está correta. 3 Um dos recursos utilizados para avaliar se um produto é bem aceito ou não é a análise sensorial. Ela é um importante parâmetro para avaliar a qualidade do produto e sua aceitabilidade no mercado,além de determinar o tempo de prateleira de um produto. Logo, ele anda lado a lado com plano de controle de qualidade. De acordo com os princípios sobre análise sensorial, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: AUTOATIVIDADE 132 ( ) No teste de aceitação, o consumidor indica a sua opinião utilizando uma escala hedônica, representada por expressões numéricas ou descrita por palavras como “gostei muitíssimo” a “desgostei muitíssimo” ou, ainda, representada por expressões faciais. ( ) A análise descritiva quantitativa (ADQ) relaciona dados instrumentais e dados de análise sensorial. ( ) O teste de ordenação é usado quando se deseja comparar três ou mais amostras ao mesmo tempo, com relação a intensidade de um determinado atributo sensorial, e verificar se diferem entre si. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V - F - F. b) ( ) V - F - V. c) ( ) F - V - F. d) ( ) F - F - V. 4 Uma indústria cervejeira deseja realizar uma pequena alteração na formulação de sua cerveja. Após a realização da mudança desejada, o responsável pelo Controle de Qualidade da indústria deseja avaliar se essa mudança será percebida por seus consumidores. A partir do exposto, disserte sobre a análise sensorial mais adequada para ser realizada nessa cerveja. 5 Os testes descritivos, como o próprio nome já diz, descrevem qualitativa e/ou quantitativamente as características das amostras, como detalhar o odor e sabor, além de propriedades de textura, aparência e sabor por intermédio de uma equipe de avaliadores treinados. Dentre os testes descritivos mais conhecidos e usados está a análise descritiva quantitativa (ADQ). Disserte sobre a Análise Descritiva Quantitativa (ADQ). 133 TÓPICO 3 — TEORIA E PRÁTICA DE IDENTIFICAÇÃO DE DEFEITOS (OFF-FLAVORS) UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO O processo de fabricação de uma cerveja envolve basicamente as seguintes etapas: sanitização dos utensílios e equipamentos, moagem do malte, mosturação (ou brasagem), filtração, lavagem do malte, fervura, lupulação, resfriamento do mosto, inoculação do fermento, fermentação, maturação e envaze. Esse processo resultará nos sabores, cores e aromas da cerveja que bebemos. Alguns sabores inesperados, ou até indesejados, podem ser detectados na cerveja e, muitas vezes, se torna complicado relacionar a sua presença a uma das etapas do processo de produção. Algumas características indesejáveis podem ter origem de fatores externos ao processo de fabricação (sanitizantes, por exemplo) e sua identificação pode se tornar ainda mais difícil. A produção de cerveja nem sempre sai como desejado e no processo pode ocorrer o chamado off-flavor. É importante saber que também existe o seu antônimo, on-flavor, que significa o sabor desejado da cerveja. Produtores e degustadores de cerveja devem se concentrar nas qualidades, cores e características que são desejadas na mesma. Entretanto, é preciso estarem treinados também para perceber quando aparece algum defeito. Mais do que isso, os cervejeiros devem conhecer os defeitos e saber a sua causa, a fim de evitar que os chamados off-flavors ocorram na cerveja. É no processo de fabricação que o cervejeiro pode empregar esforços para controlar a presença de compostos desejáveis e evitar aqueles indesejáveis que podem constituir a bebida final. Assim como todo alimento, a análise sensorial na cerveja é extremamente importante, pois é decisivo na liberação ou não do produto no mercado. Ela pode ser utilizada em todas as etapas do processo de fabricação. A qualidade dos ingredientes usados para produzir uma cerveja é importante, pois a reação entre elas pode causar os off-flavors. Os off-flavors mais comuns e conhecidos são: metálico, dimetil sulfeto (DMS), papelão, diacetil, acetaldeído, clorofenol, éster, sabão, cítrico, adstringente, caprílico. Entretanto existem dezenas de off-flavors catalogados. Acadêmico, no Tópico 3, iremos aprender a identificar substâncias que são desejáveis (flavors) e indesejáveis (off-flavors) na cerveja, além de compreender as diferenças de insumos e técnicas abordadas nas escolas cervejeiras e saber identificar problemas relacionados à produção da cerveja. 134 Na apostila “Flavors de cerveja”, temos termos associados, concentrações, threshods (limites), importância e origem dos flavors mais comuns em cerveja. Acesse em: https://bit.ly/3sNI6Fi. DICA 2 O QUE SÃO OS OFF-FLAVORS Durante o processo produtivo e fermentação da cerveja, além do álcool e gás carbônico, são formados outros compostos em pequenas quantidades, mas trazem um grande impacto no sabor da cerveja. Esses produtos formados podem ser secundários das leveduras ou de algum erro ocorrido durante a produção e podem influenciar de maneira negativa ou positivamente no aroma e sabor das cervejas. Os subprodutos indesejáveis são chamados de off-flavors. Flavor é denominado a sensação fisiológica de interação entre paladar e olfato. Os off-flavors são falhas na cerveja como aroma, gosto ou sabor que não fazem parte do perfil sensorial da cerveja. Na maioria dos casos, o off-flavor indica alguma falha no processo, seja ela de contaminação, tempo de fermentação ou algum descuido durante a produção. Entretanto, a presença deste, não causa nenhum mal, o problema está na experiência sensorial que pode ser bastante desagradável quando presente na cerveja (SOARES, 2019, s. p., grifos nossos). Off-flavors são considerados como defeitos na cerveja. Eles são identificados quando a bebida apresenta um sabor ou aspecto diferente do padrão. Existem muitos tipos de off-flavors e muitos aparecem de forma natural, e, em diversos casos, eles podem ser evitados – o processo e outros fatores podem influenciar nessa característica indesejada. Não é fácil identificar esses defeitos, já que eles podem ser imperceptíveis ou mais perceptíveis, dependendo do paladar e experiência do consumidor. Normalmente, são identificados por profissionais da área como químicos, sommeliers, mestre cervejeiros, entre outros. De acordo com Venturini Filho (2010, p. 46), […] existem muitos off-flavors, e é importante saber que o estilo de cerveja fará diferença na aceitação dela, uma vez que um determinado flavor pode ser aceito em baixa concentração para um determinado estilo, enquanto para outros estilos, o mesmo composto não poderá estar presente, mesmo em baixa concentração. 135 Para controlar esses defeitos na cerveja, é importante tomar cuidado com o uso das matérias-primas, que deve ser de boa qualidade, dentro do prazo de validade, armazenada corretamente. Além disso, deve-se ter controle durante o processo de fabricação, durante a moagem, mosturação, fervura e fermentação, em que todo o material deve ser higienizado e sanitizado, principalmente após a fervura. Outro controle que deve ser feito também é no envase e armazenagem da cerveja. Ainda não existe um acordo sobre a origem dos compostos que podem causar os off-flavors na cerveja. Porém, acredita-se que o envelhecimento, seguido da deterioração, além da temperatura da cerveja pode ser atribuído à aceleração da oxigenação de ácidos graxos insaturados, principalmente o ácido linoleico. 3 QUAIS OS PRINCIPAIS OFF-FLAVORS DAS CERVEJAS Muitas vezes uma cerveja pode ter um leve off-flavor que, muitas vezes, é aceito em baixas concentrações, a depender do estilo da cerveja, porém, em outros estilos pode ser completamente indesejado. Logo, deve-se saber qual a proposta de cada estilo antes de julgar a cerveja. A cerveja contém, no mínimo, quatro ingredientes base: água, malte, lúpulo e fermento, cada um deles pode estar envolvido a aromas esabores específicos. O malte está presente tanto no aroma quanto na aparência e paladar, podendo oferecer notas de panificação, caramelo, chocolate, café e defumado. O lúpulo tem maior força no sabor e aromas, que variam de acordo com a quantidade e qual variedade foram utilizadas, notas florais, cítricas, amadeirado (resinoso) e frutado. A fermentação é a fase em que mais ocorrem os problemas de controle e desprendem defeitos para a bebida, principalmente gerando álcool, ésteres e fenóis. Aqui o controle de temperatura e sanitização devem ser rigorosos para evitar problemas (CLUBE DO MALTE, 2017, s. p.) A seguir, vamos estudar os principais off-flavors encontrados nas cervejas. 3.1 ACETALDEÍDO O acetaldeído, segundo Lara (2018, s. p., grifo nosso), […] é um off-flavor que remete um sabor de maçãs verdes ou abóboras frescas: é um composto intermediário na formação de álcool. Algumas leveduras produzem mais do que outras, mas geralmente a presença indica que a cerveja é muito jovem e precisa de mais tempo de maturação. 136 O composto acetaldeído (C2H4O), é um composto comum que está presente desde frutas maduras até café. É um produto intermediário produzido pela levedura durante a fermentação. À medida que a fermentação finaliza, todo o acetaldeído é normalmente convertido em etanol. Porém, se a cerveja não atenuar (finalizar a fermentação), o acetaldeído pode estar presente no produto final. Isso pode acontecer por vários motivos relacionados à saúde do fermento. As principais maneiras de evitar o acetaldeído está ligada à fermentação, deve-se adicionar uma quantidade suficiente de leveduras saudáveis e ativas para a fermentação, fazer o aeramento do mosto, além do controle da temperatura. 3.2 ADSTRINGENTE A adstringência é um defeito que pode se formar no processo de produção, difere do amargor por ter uma sensação de enrugar a boca, como chupar um saquinho de chá ou como se tivesse mastigado um caroço de uva ou comido uma banana verde. Ele é mais comumente percebido no retrogosto. De acordo com Lara (2018, s. p.), É seco, como pó e é muitas vezes é resultado de grãos de malte muito tempo em infusão ou quando o pH do mosto excede níveis entre 5,2 e 5,6. A lavagem do mosto utilizando água muito quente é comum exceder a faixa de pH do mosto. Também pode ser causado pelo excesso de lúpulo, durante a fase de isomerização do lúpulo ou na fase final, e contaminação bacteriana também podem causar adstringência. Ao colocar muito lúpulo durante o processo de fervura do mosto pode aumentar a extração de taninos e deixar a cerveja com o aspecto adstringente. Existem algumas formas para evitar essa adstringência, como usar um lúpulo com baixo índice de alfa- ácido e fazer adições tardias do lúpulo, caso se queira ter uma cerveja muito lupulada. Assim, o tempo de isomerização dos alfa-ácidos do lúpulo será menor. Outra forma de evitar o aspecto adstringente é utilizar o extrato de lúpulo no lugar de lúpulo em flor ou em pellets. A casca do malte também contém taninos que podem provocar adstringência, e se algum processo for feito de forma inadequada pode levar uma maior quantidade de taninos para a cerveja. Na lavagem do malte, por exemplo, quando o malte é lavado com água muito quente, superior a 80 °C, logo, é recomendado que a água esteja até 78 °C. O pH da água acima de seis também pode arrastar mais taninos para a cerveja. Além disso, uma moagem muito fina do malte pode transferir pequenos pedaços de casca para a mosturação, aumentando os níveis de taninos no mosto. 137 3.3 ALCOÓIS SUPERIORES Durante a fermentação da cerveja, há produção de álcool, porém pode-se produzir também álcoois superiores, provocando um sabor acentuado que pode ser sutil e agradável ou quente e incômodo. Duas causas podem ser identificadas quando o gosto alcoólico prejudica o sabor da cerveja, são elas: • temperatura de fermentação muito alta: em temperaturas acima de 26 °C, as leveduras podem produzir muito mais álcoois pesados que têm menores limiares de sabor que o etanol, e esses sabores de álcoois acabam permanecendo na língua; • mistura de vários álcoois: a presença de elevadas concentrações de álcoois superiores, que podem ser produzidos por quantidades excessivas de levedura, ou quando a levedura assenta muito tempo sobre o Trub. Para evitar esses dois problemas, é necessário controlar a temperatura da fermentação e calcular corretamente a taxa de inóculo de leveduras, de acordo com o volume e densidade do mosto. 3.4 OXIDAÇÃO É um dos off-flavors mais comuns com a cerveja, inclusive nas cervejas comerciais, principalmente nas long necks. Acontece quando o mosto é exposto ao oxigênio a temperaturas acima de 26 °C – a cerveja desenvolve um sabor de papelão molhado ou pão mofado. O envelhecimento da cerveja também pode acentuar esse defeito, mas em alguns casos ocorre uma diminuição da percepção dos sabores ligados à oxidação, por causa de alguns ingredientes usados na cerveja que podem acelerar e outros, inibir esse processo. As principais causas desse off-flavor são: aeração do mosto quente; aeração indevida durante a transferência do fermentador para o maturador, entrada de oxigênio em excesso na garrafa, durante o envase; entrada de oxigênio na cerveja envasada (por vedação imperfeita da garrafa); armazenamento da cerveja em temperaturas acima de 15 °C (as temperaturas mais altas aceleram as reações de oxidação); envelhecimento da cerveja (DINSLAKEN, 2017) A oxidação da cerveja pode acontecer em diferentes estágios da produção. Por isso, é preciso ter atenção em cada etapa. O malte moído e o lúpulo podem sofrer oxidação. Deve-se evitar usar maltes que estão armazenados há muito tempo e utilizar os lúpulos frescos. Evitar mexer muito o mosto, evitando a oxigenação excessiva. O fermentador e o tanque de maturação devem estar bem vedados, o ar em contato com o líquido nestas duas etapas pode causar a oxidação, ou seja, deve-se evitar ao máximo o contato da cerveja com o ar. 138 3.5 DIACETIL O diacetil pode ser consequência de uma contaminação bacteriana no processo de fermentação ou pode ser produzido no início da fermentação pela levedura e gradualmente consumido até o final da fermentação. Uma cerveja que leva um longo tempo para fermentar por causa de um fermento fraco ou aeração insuficiente, também produzirá diacetil, e, nesse caso, poderá dominar o sabor da cerveja. De acordo com Lara (2018, s. p.), […] é frequentemente descrito como sabor de manteiga, pipoca de microondas ou creme de leite e é parte natural do processo de produção da cerveja. É desejado a um certo nível em muitas cervejas, mas em alguns estilos (principalmente Lagers) e em algumas circunstâncias é indesejável e pode provocar notas rançosas. Esse off-flavor pode ser consequência da taxa de inóculo baixa, do uso de leveduras não saudáveis, da exposição ao oxigênio após o processo fermentativo, gerenciamento incorreto da fermentação ou contaminação. […] existem algumas práticas que são realizadas para evitar o diacetil na cerveja, algumas delas são: utilizar leveduras em quantidades certas e que não produzam diacetil, empregar o descanso de diacetil durante a fermentação e após a fermentação primaria elevar a temperatura em cerca de cinco graus e deixar por um período de três a quatro dias (O QUE É [...], 2020, s. p.). 3.6 DIMETILSULFURETO (DMS) O DMS é produzido no processo de fervura do mosto pela redução de um outro composto, S-metil-metionina (SMM), que é produzido durante a malteação. Quando é um malte torrado ou tostado, o SMM é reduzido antes e não se manifesta como DMS no mosto, por isso é mais presente nas Lagers. Em outros estilos, o DMS é umoff- flavor comum (sabor indesejado), e pode ser causado por más práticas na produção ou contaminações bacterianas. O DMS é continuamente produzido no mosto enquanto ele está quente e geralmente é removido por vaporização durante a fervura. Se o mosto é resfriado lentamente estes compostos não serão removidos e vai dissolver de volta no mosto (LARA, 2018). O DMS possui uma característica mais rançosa, caso seja provocado por contaminação bacteriana e, geralmente, é resultado de más condições de higienização e sanitização. Para evitar esse defeito, deve-se observar as especificações do malte e ter cuidado com a fervura intensa, pois favorece a evaporação do DMS. 139 3.7 ÉSTERES Os ésteres dão à cerveja um aroma e sabor frutado, que pode ser de banana, maçã, pera, morango, framboesa entre outros, dependendo do éster, podem ser considerados on-flavor encontrados principalmente nas cervejas da família Ale. Porém, quando estão presentes em altas concentrações na cerveja, provocam um sabor de solvente, acetona ou esmalte de unhas que não são agradáveis. Nesse caso são considerados off-flavors. De acordo com Lara (2018, s. p.), em geral, temperaturas de fermentação mais elevadas produzem mais ésteres. Para evitar esse off-flavor deve-se usar cepas de leveduras adequadas a cada estilo de cerveja, usar temperatura de fermentação ideal para cada tipo de cerveja (em torno de 15 °C para as Ales e, no máximo 10 °C para as Lagers), evitar oscilações na temperatura durante a fermentação, aerar bem o mosto antes de fermentar, utilizar uma boa taxa de inóculo, fazer o starter (propagação) nas leveduras, reduzir a densidade do mosto. Existem duas variedades de éster frequentemente encontradas na cerveja, o acetato de etila e o acetato de isoamila, que dão sabor de pera e de banana, respectivamente, à bebida. Segundo Dinslaken (2017, s. p.), “[…] os ésteres são compostos orgânicos que resultam da combinação de álcoois e ácidos graxos formados durante a fermentação da cerveja. A reação química que dá origem a eles é conhecida como esterificação”. 3.8 CLOROFENOL Diferentemente de outros sabores ou aromas, que podem ser considerados defeitos, mas que são bem-vindos em alguns estilos, o sabor “medicinal”, gerado pelo clorofenol presente na cerveja, em qualquer concentração, é sempre indesejado. Nas grandes cervejarias, essa falha é verificada pela cromatografia gasosa e por testes colorimétricos (DINSLAKEN, 2017). Esse off-flavor apresenta sabores e aromas que lembram o de band-aid, esparadrapo ou antisséptico, podendo também provocar uma sensação de adstringência na boca. Tanto as cervejas frescas quanto as envelhecidas podem apresentar essa falha, que não desaparece nem se intensifica com o tempo. As causas mais comuns das cervejas com esse off-flavor são: presença de cloro na água da brasagem, erro na diluição de sanitizantes com base em cloro e lavagem inadequada dos equipamentos cervejeiros após a limpeza ou sanitização (DINSLAKEN, 2017). 140 Para evitar o aparecimento do clorofenol, deve-se usar filtros de carvão ativado ou água mineral na produção de cerveja, usar a concentração correta de sanitizantes (recomendada pelo fabricante) ou utilizar produtos que não sejam com base em cloro. 3.9 METÁLICO Os sabores metálicos geralmente são causados por metais desprotegidos que se dissolvem no mosto, quando a cerveja entra em contato com equipamentos de metal de má-qualidade ou por meio de embalagens de lata, tampa de garrafa e barris. Também pode ser provocado pela hidrólise de lipídios no malte armazenado incorretamente, assim como o ferro e o alumínio, que podem causar sabores metálico no mosto durante a fervura. Fissuras em panelas de aço que são revestidas com cerâmica são as causas mais comuns, por isso é recomendado o uso de panelas de aço inoxidável. Para evitar esse off-flavor deve-se investir em equipamentos de metal de qualidade ou utilizar o aço inox, além de utilizar grãos de boa procedência e armazená- los corretamente. 3.10 MOFO O mofo é reconhecido pelo seu aroma e sabor. Esse off-flavor acontece por causa do contato da cerveja com matérias-primas que tiveram algum tipo de contaminação, que é provável se alguma matéria-prima, o mosto ou a própria cerveja ficar muito expostos a áreas úmidas no armazenamento ou durante a fermentação. Geralmente, está relacionado ao desenvolvimento de fungos em maltes e auxiliares de filtração. Se a contaminação é detectada cedo o bastante, pode muitas vezes ser removido por desnatação ou limpeza da superfície antes de se contaminar significativamente toda a leva. Entretanto as chances são de que os esporos tenham contaminado a leva e que podem surgir novamente (LARA, 2018). Para evitar esse off-flavor, deve-se armazenar o malte e o produto final corretamente. 3.11 SABÃO Os sabores de sabão são causados por não enxaguar direito o recipiente após a lavagem. Também podem ser produzidos a partir das condições da fermentação; ao deixar a cerveja no fermentador primário por um longo período de tempo logo após o final da primeira fermentação, os sabores de sabão podem resultar da degradação de ácidos graxos do Trub. Para evitar o sabor de sabão na cerveja, deve-se seguir as instruções do fabricante na hora da sanitização dos equipamentos e utensílios e transferir a cerveja de tanque para a maturação. 141 3.12 GAMBÁ OU LIGHT-STRUCK Esse defeito aparece mais em cervejas engarrafadas em garrafas de vidro claro por causa de uma reação química entre a luz que atravessa o vidro da garrafa e subprodutos do lúpulo, na qual a luz quebra as moléculas do lúpulo provocando esse off-flavor. As garrafas da cor âmbar protegem mais a cerveja do que as garrafas verdes e as transparentes. Aromas de gambá ou de gato-molhado na cerveja são causadas por reações fotoquímicas da isomerização dos compostos do lúpulo. Os comprimentos de onda de luz que causam o cheiro de gambá são a onda azul e do ultravioleta. Garrafas de vidro marrom (ambar) efetivamente eliminam estes comprimentos de onda, ao contrário das garrafas verdes e transparentes. Cervejas terão aroma de gambá se a cerveja for deixada exposta à luz solar direta ou armazenados sob luzes fluorescentes. Em cervejas que utilizam pré-extrato isomerizado de lúpulo e muito pouca adição de lúpulos aromatizantes, serão bastante imunes a danos causados por luz ultravioleta (LARA, 2018, s. p.). O composto químico formado por esse off-flavor, o 3-Metil-2-buteno-1-tiol (MBT), é o mesmo secretado pelos gambás, por isso a descrição desse aroma. Para evitar o desenvolvimento desse off-flavor, deve-se usar preferencialmente garrafas âmbar e armazená-las ao abrigo da luz. 3.13 FERMENTO O sabor de fermento também é considerado como uma falha na cerveja, pois causa a impressão de que a bebida ainda está fermentando. Esse defeito pode ser provocado por uma cerveja muito jovem, que não finalizou a fermentação, ou se a levedura é insalubre e entra em autólise, liberando compostos com sabor de fermento. O off-flavor de levedura, ou sabor de fermento na cerveja, em geral, acontece de duas formas: quando a cerveja é fresca, ainda está em contato com as leveduras; ou o contrário, quando a cerveja é mais velha e está há muito tempo em contato com as leveduras. Ou seja, pode acontecer quando ainda não teve floculação completa ainda e tem muita levedura na superfície da cerveja ou a cerveja está há muito tempo em contato com a levedura. Neste último caso, o processo de maturação é mais longo (mais de 30 dias) e a cerveja começa a entrar em autólise (FALHAS [...], 2020). 142 4 O QUE CAUSA E COMO EVITAR OS OFF-FLAVORS Existem inúmeras causas para o aparecimentodos off-flavors, na maioria das vezes são provocados pelos seguintes problemas: • matérias-primas de má qualidade, armazenadas inadequadamente ou fora do prazo de validade; • falhas em alguma etapa do processo de produção; • descuido com a higienização/sanitização dos equipamentos; • falhas no envase; • falha nas condições de armazenamento. Para evitar os off-flavors, muitas vezes, depende do que provocou cada um, para cada tipo de defeito existe uma ou várias possíveis formas de controlar. Assim, além das características naturais de cada ingrediente ou processo, os off-flavors também podem ser produzidos a partir da falha na execução de alguma etapa da produção. Na maioria dos casos, pode-se evitá-los das seguintes formas: • evitar matérias-primas de má qualidade ou fora do prazo de validade; • armazenar adequadamente os ingredientes; • evitar falhas nos processos de produção, como moagem dos grãos, fervura ou fermentação, evitando contaminações; • fazer a higienização dos equipamentos e utensílios corretamente; • tomar cuidado com a contaminação durante o envase e o armazenamento da cerveja; • utilizar equipamentos de metal de qualidade usar equipamentos de aço inox. 143 LEITURA COMPLEMENTAR BEER SENSORY: UM APLICATIVO PARA ANÁLISE SENSORIAL NA INDÚSTRIA DE BEBIDAS As características sensoriais de uma cerveja são essenciais para definir sua qualidade e aceitação pelo consumidor. É o modo como a bebida impacta e estimula os sentidos que faz com que as pessoas queiram conhecer melhor e consumir mais o produto. As cervejarias já entenderam a necessidade do público em saber mais sobre as características das cervejas, e utilizam isso para marketing e fidelização do cliente. Dados da Brewers Association mostram que, em 2016, microcervejarias com salas de degustação cresceram mais rápido do que aquelas que não ofereciam essa experiência ao consumidor. Para avaliar essas características sensoriais, a indústria utiliza um conjunto de práticas que empregam os sentidos para definir a qualidade da cerveja, a análise sensorial. De acordo com a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), a análise sensorial é usada para evocar, medir, analisar e interpretar reações obtidas a partir dos sentidos da visão, tato, olfato, audição e paladar. É realizada por uma equipe selecionada para avaliar a qualidade da textura, sabor, aroma, entre outros. A análise sensorial pode ser usada para o estabelecimento de critérios de qualidade, suporte técnico para a pesquisa, controle de qualidade na produção industrial, e desenvolvimento de novos produtos. Para auxiliar a indústria cervejeira nesse processo de avaliação e controle de qualidade, o Science of Beer lança em breve o Beer Sensory, um aplicativo para avaliar e descrever cervejas. A CEO do Science of Beer e idealizadora do Beer Sensory, Amanda Reitenbach, explica que a ideia do aplicativo surgiu da necessidade de adaptar ferramentas de análise sensorial para a indústria cervejeira. “No meu doutorado trabalhei muito com diversas ferramentas estatísticas para análise sensorial e inteligência artificial e pude notar que essas ferramentas poderiam e deveriam ser aliadas às necessidades do setor cervejeiro”, conta Amanda. Como funciona o Beer Sensory O Beer Sensory serve tanto para avaliação sensorial da cerveja de forma individual, quanto em conjunto, como é o caso de aulas, eventos e concursos em que se deseja parametrizar as respostas de um grupo. 144 Beer Sensory: o aplicativo de avaliação é gratuito e vai permitir que qualquer pessoa possa baixar e fazer a avaliação das cerveja e armazenar seus dados. Vai contar também com uma versão paga para gestores de aulas e eventos, cujo valor e funcionalidades varia de acordo com a necessidade de cada aula, turma ou evento. Beer Sensory Pro: é um software pago que utiliza ferramentas estatísticas e de inteligência artificial para mapear o perfil sensorial de produtos e estabelecer o controle de qualidade por meio da análise sensorial. É indicado para cervejarias e profissionais que desejam mapear e controlar o perfil sensorial, estabilidade, vida de prateleira, intenção de consumo, perfil de oxidação ou envelhecimento, gestão de sensorial para off flavors entre outras análises importantes para a produção de cervejas. Uma das principais vantagens do Beer Sensory é a possibilidade de avaliar e descrever cervejas de forma rápida, prática e em qualquer lugar. Entre os recursos e possibilidades da versão PRO estão: • criação de mapa sensorial de cada produto; • mapeamento da vida de prateleira (melhor prazo para consumo, melhor temperatura de armazenamento); • conhecimento do perfil e mudanças de cada cerveja dentro do prazo de validade; • teste de aceitação; • teste para padronização; • teste para troca de matéria-prima; • teste para desenvolvimento de produto; • treinamento de painel sensorial e validação dos dados. Além disso, a ferramenta também ajuda a cervejaria a conhecer melhor o seu produto, escolher os fornecedores mais adequados, identificar e prevenir falhas nas cervejas e fidelizar seus clientes. “A grande importância do controle de qualidade é implantar regras e instruções para que se diminua e reconheça os erros que acontecem nos processos. O controle de qualidade serve para manter o padrão de excelência de cada cerveja produzida”, destaca Amanda Reitenbach. FONTE: BEER sensory: um aplicativo para análise sensorial na indústria de bebidas. Science of Beer Institute, Florianópolis, c2022. Disponível em: https://www.scienceofbeer.com.br/br/post/beer-sensory- um-aplicativo-para-analise-sensorial-na-industria-de-bebidas. Acesso em: 24 jan. 2022. 145 Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como: • Os off-flavors são considerados como defeitos na cerveja e são reconhecidos quando a bebida apresenta um sabor ou aspecto diferente do padrão. Existem muitos tipos de off-flavors e muitos aparecem de forma natural. Porém, o processo e outros fatores podem influenciar na característica, que em muitos casos podem ser evitados. • Esses defeitos podem ser imperceptíveis ou mais perceptíveis, dependendo do paladar e experiência do consumidor. Normalmente, são identificados por profissionais da área como químicos, sommeliers, mestre cervejeiros, entre outros. • Os off-flavors mais comuns e conhecidos são: metálico, papelão, acetaldeído, diacetil, clorofenol, dimetil sulfeto (DMS), sabão, cítrico, éster, adstringente, caprílico. Entretanto existem dezenas catalogados. • Os off-flavors podem ter várias causas como: utilizar ingredientes de má qualidade, armazenados inadequadamente ou fora do prazo de validade, falhas em alguma etapa do processo de produção, descuido com a higienização/sanitização dos equipamentos e falhas no envase e nas condições de armazenamento da cerveja. • Para evitar os off-flavors, existem uma ou várias possíveis formas de controlar. Assim, além das características naturais de cada ingrediente ou processo, os off-flavors também podem ser produzidos a partir da falha na execução de alguma etapa da produção. RESUMO DO TÓPICO 3 146 1 Off-flavors, também conhecidos como defeitos sensoriais da cerveja, são diagnos- ticados quando a bebida apresenta um sabor ou aroma diferente do considerado padrão. A cerveja pode apresentar alguns defeitos, os quais são atribuídos às falhas no processamento e/ou à escolha inadequada da matéria-prima. Em relação aos defeitos da cerveja, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A presença de diacetil em baixas concentrações não constitui um defeito da cerveja. b) ( ) O Dimetilsulfureto (DMS) é produzido na etapa de fermentação da cerveja. c) ( ) Para evitar o aparecimento de álcoois superiores, énecessário fermentar a cerveja em temperaturas baixas. d) ( ) O acetaldeído é um off-flavor que remete um sabor de manteiga na cerveja. 2 Na maioria dos casos, os compostos responsáveis pelos off-flavors estão presentes na cerveja e são poucos percebidos pelos consumidores. A presença de off-flavors na cerveja pode ser causado em diversas etapas da cadeia cervejeira, desde a qualidade das matérias-primas até o serviço da cerveja, e sua análise deve ser feita com foco em melhorias da produção. Um dos off-flavor presente na cerveja é o adstringente. Sobre esse defeito, analise as alternativas a seguir: I- A adstringência é um defeito que pode se formar na fermentação da cerveja. II- A adstringência pode ser proveniente dos taninos presentes no lúpulo ou na casca do malte. III- O pH da água acima de seis pode arrastar os taninos para a cerveja. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. b) ( ) Somente a afirmativa II está correta. c) ( ) As afirmativas II e III estão corretas. d) ( ) Somente a afirmativa III está correta. 3 Para controlar os off-flavors na cerveja, deve-se tomar cuidado no uso de matéria- prima que deve ser de boa qualidade, dentro do prazo de validade e armazenada adequadamente. Deve-se, também, ter controle na produção da cerveja durante a moagem, mosturação, filtração, fervura e fermentação. De acordo com as ações que devem ser utilizadas para controlar os off-flavors na cerveja, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: AUTOATIVIDADE 147 ( ) Todo o material utilizado na produção deve ser higienizado e sanitizado, principal- mente, após a fermentação da cerveja. ( ) Deve-se ter controle de higienização e sanitização no envase e armazenamento da cerveja. ( ) É necessário controlar a temperatura da fermentação e calcular corretamente a taxa de inóculo de leveduras. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V - F - F. b) ( ) V - F - V. c) ( ) F - V - F. d) ( ) F - V - V. 4 A análise sensorial é usada para distinguir sabores e aromas que são característicos de cada estilo de cerveja, um dos objetivos dos testes sensoriais é descobrir os defeitos na cerveja, conhecidos como off-flavor. Off-flavors são os atributos sensoriais formados a partir de reações químicas ou microbiológicas nos processos de fabricação, envasamento, distribuição ou armazenamento da cerveja. Eles podem ter inúmeras causas. A partir dessa afirmação disserte sobre as possíveis causas de aparecimento de off-flavors na cerveja. 5 Os off-flavors presentes na cerveja, na maioria das vezes, são sensorialmente perceptíveis, cujos aromas e sabores estão descritos na roda sensorial de atributos. Alguns destes aromas, inclusive, podem não ser considerados off-flavors, e sim on- flavors, dependendo da quantidade percebida e/ou do estilo de cerveja em que ele aparece. A partir dessa afirmação exemplifique e disserte sobre um off-flavor que pode ser considerado on-flavor na cerveja. 148 149 REFERÊNCIAS ALCANTARA, M. Caracterização sensorial de bebidas de café utilizando técnicas sensoriais baseadas na percepção do consumidor: uma comparação com análise descritiva clássica. 2017. 134 f. Tese (Doutorado em Ciência Tecnologia de Alimentos) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017. ANÁLISE sensorial de alimentos: como fazer e por quê. EJEQ, Curitiba, 22 maio 2019. 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