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SUMÁRIO 1. Introdução .................................................................... 3 2. Bloqueadores Muscarínicos ................................... 8 3. Química e farmacocinética ..................................... 9 4. Farmacodinâmica .....................................................11 5. Efeitos sobre Sistemas Orgânicos ....................13 6. Aplicações Terapêuticas .......................................21 7. Intoxicação colinérgica ..........................................30 8. Bloqueadores Ganglionares ................................31 Referências Bibliográficas .........................................34 3ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) 1. INTRODUÇÃO O sistema nervoso colinérgico é re- ferente ao sistema que depende da liberação de acetilcolina para atuar. No sistema nervoso periférico, os re- ceptores muscarínicos da acetilcolina ocorrem principalmente nas célu- las efetoras autônomas inervadas pelos nervos parassimpáticos pós- -ganglionares. Os receptores mus- carínicos também estão presentes nos gânglios autonômicos e em algu- mas células (por exemplo, células en- doteliais vasculares) que, paradoxal- mente, recebem pouca ou nenhuma inervação colinérgica. Figura 1. Anatomia funcional do sistema Limbico Fonte: retirado de https://bit.ly/2zJg4Si No sistema nervoso central (SNC), o hipocampo, córtex e tálamo têm grandes quantidades de recep- tores muscarínicos. A acetilcolina (ACh) é o neurotransmissor natural para esses receptores e virtualmen- te não tem nenhuma aplicação tera- pêutica sistêmica, porque suas ações são difusas e sua hidrólise é rápida, catalisada pela acetilcolinesterase 4ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) (AChE) e butirilcolinesterase plas- mática. Os agonistas muscaríni- cos reproduzem os efeitos da ACh nesses locais. Em geral, esses ago- nistas são congêneres da ACh ou dos alcaloides naturais com ações mais longas, alguns dos quais estimulam receptores nicotínicos, bem como os muscarínicos. Figura 2. Síntese e reciclagem da acetilcolina na sinapse Fonte: https://escolaeducacao.com.br/acetilcolina/ As sinapses colinérgicas estão presentes: 1. Nas áreas efetoras autonômicas inervadas pelos nervos parassim- páticos pós-ganglionares (ou, no caso das glândulas sudoríparas, pelos nervos pós-ganglionares simpáticos); 2. nas células ganglionares sim- páticas e parassimpáticas e na medula suprarrenal, que é iner- vada por nervos autonômicos pré-ganglionares; 3. nas placas motoras terminais dos músculos esqueléticos, que são inervadas pelos nervos motores somáticos; e 4. em certas sinapses no SNC, onde a ACh pode ter ações pré ou pós-sinápticas. Assim, as sinapses colinérgicas li- beram acetilcolina. Os principais re- ceptores colinérgicos são receptores nicotínicos (nAChR) e os receptores muscarínicos (mAChR), que podem 5ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) ocorrer tanto nos terminais pré-si- nápticos quanto nos pós-sinápticos. Os receptores muscarínicos são aco- plados à proteína G (metabotrópicos). Quando a ACh é administrada siste- micamente, ela pode atuar em todos esses locais potencialmente, contudo, como composto de amônia quaterná- ria, sua penetração no SNC é limitada e a quantidade de ACh que alcança áreas periféricas com baixo fluxo san- guíneo é limitada devido a hidrólise pela butirilcolinesterase plasmática. As ações da ACh, e dos outros fár- macos relacionados, nos locais efe- tores autonômicos são conhecidas como muscarínicas, com base na observação de que o alcaloide mus- carina atua seletivamente nesses locais e produz os mesmos efeitos qualitativos da ACh. As ações mus- carínicas ou parassimpaticomiméti- cas dos fármacos considerados são praticamente equivalentes aos efei- tos parassimpaticomiméticos da ACh. No SNC os receptores muscarínicos estão distribuídos amplamente e têm a função de mediar várias respostas importantes. As diferenças entre as ações da ACh e outros agonistas muscaríni- cos são basicamente quantitativas, com pouca seletividade por um sis- tema orgânico ou outro. Todas as ações da ACh e dos seus congêneres nos receptores muscarínicos podem ser bloqueadas pela atropina. 6ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) Figura 3. Receptores colinérgicos nicotínicos e muscarínicos Fonte: retirado de https://bit.ly/2LD62EW Os receptores muscarínicos foram ca- racterizados inicialmente pela análise das respostas das células e dos siste- mas orgânicos periféricos e do SNC. Por exemplo, os efeitos diferenciados de dois agonistas muscarínicos, be- tanecol e McN-A-343, no tônus do esfincter esofágico inferior levaram à designação inicial de receptores mus- carínicos como M1 (ganglionares) e M2 (célula efetora). A clonagem dos cDNAs que codificam esses recep- tores muscarínicos identificou cinco produtos genéticos diferentes, que hoje são designados como recepto- res muscarínicos M1 a M5. Todos os receptores muscarínicos co- nhecidos são receptores acoplados a proteína-G que, por sua vez, acopla a vários efetuadores celulares. Em- bora a seletividade não seja absoluta, a estimulação dos receptores M1, M3 e M5 causa hidrólise de polifosfoi- nositídeos e a mobilização de Ca2+ intracelular como consequência da ativação da via PLC-Gq, resultando em uma variedade de respostas me- diadas por Ca2+. Em contraste, os receptores muscarínicos M2 e M4 inibem a adenililciclase e regulam canais iônicos específicos por meio da sua proteína G sensível à toxina pertussis, Gi e Go. 7ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) RECEPTORES MUSCARÍNICOS M1 M3 M5 M2 M4 SNC e gânglio Glândulas, músculo liso e endotélio SNC Coração, neurônios, músculo liso SNC Proteína Gq Proteína Gi Ação inibitória Inibem adenililciclase Abre canais de K+ Ação estimulatória IP3 e DAG Mobilização de cálcio intracelular MAPA MENTAL: ATUAÇÃO DOS RECEPTORES MUSCARÍNICOS 8ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) 2. BLOQUEADORES MUSCARÍNICOS Os antagonistas dos receptores mus- carínicos ou bloqueadores muscaríni- cos incluem: • os alcaloides naturais atropina e escopolamina; • derivados semissintéticos des- ses alcaloides, que diferem basi- camente dos compostos originais por sua disposição no organismo ou pela duração da ação; • derivados sintéticos, entre os quais alguns mostram seletivida- de por subtipos dos receptores muscarínicos. Entre as duas últimas categorias, os fármacos dignos de nota são a homa- tropina e a tropicamida, que têm ações menos duradouras do que a atropina e a metescopolamina, o ipratrópio e o tiotrópio, que são compostos qua- ternários e não atravessam a barrei- ra hematoencefálica ou atravessam facilmente outras membranas. Os derivados sintéticos que têm alguma seletividade por receptores incluem a pirenzepina, com seletividade pelos receptores M1 e darifenacina e solife- nacina com seletividade pelos recep- tores M3. Os antagonistas muscarí- nicos evitam os efeitos da ACh por meio do bloqueio da sua ligação aos receptores muscarínicos nas células neuroefetoras em junções parassimpáticas (e simpáticas co- linérgicas), nos gânglios periféricos e no SNC. Ainda que vários efeitos dos anta- gonistas muscarínicos possam ser previstos pelo entendimento das res- postas fisiológicas mediadas pelos receptores muscarínicos nas junções neuroefetoras parassimpáticas (e simpáticas colinérgicas), às vezes são obtidas respostas paradoxais. Por exemplo, receptores muscarínicos pré-sinápticos de vários subtipos es- tão presentes nos terminais de nervos parassimpáticos pós-ganglionares. Como o bloqueio dos receptores pré- -sinápticos em geral aumenta a li- beração do neurotransmissor, assim o efeito pré-sináptico dos anta- gonistas muscarínicos pode neu- tralizar seu bloqueio do receptor pós-sináptico. O bloqueio dos re- ceptores muscarínicos moduladores nos gânglios periféricos representa um mecanismo adicional de respos- tas paradoxais. Importante consideração no usotera- pêutico de antagonistas muscarínicos é o fato que as funções fisiológicas dos diferentes órgãos variam quan- to à sua sensibilidade ao bloqueio dos receptores muscarínicos, mos- trado na tabela abaixo. Doses peque- nas de atropina reduzem as secreções salivares e brônquicas e a sudorese. Com doses mais altas, as pupilas di- latam, a acomodação do cristalino à 9ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) visão de perto fica inibida e os efeitos vagais no coração são bloqueados, resultando em aumento da frequên- cia cardíaca. As doses mais altas an- tagonizam o controle parassimpático da bexiga e do trato gastrointestinal, inibindo a micção e reduzindo o tônus e a motilidade intestinal. Doses ainda maiores são necessárias para inibir a motilidade gástrica e principalmente a secreção do estômago. SE LIGA! As doses de atropina e da maioria dos antagonistas muscarínicos que deprimem a secreção gástrica qua- se sempre também afetam a secreção salivar, a acomodação visual, a micção e a motilidade gastrointestinal. DOSE (MG) EFEITOS 0,5 Discreta redução da frequência cardíaca; algum ressecamento da boca; inibição da sudorese 1 Ressecamento marcante da boca; sede; acelera- ção da frequência cardíaca algumas vezes prece- dida por desaceleração; leve dilatação da pupila 2 Frequência cardíaca alta; palpitações; resse- camento acentuado da boca; dilatação das pupilas; alguma turvação da visão de perto 5 Acentuação de todos os sinais e sintomas descritos anteriormente; dificuldade em falar e deglutir; agitação e fadiga; cefaleia; pele seca e quente; dificuldade em urinar; redução da peristalse intestinal ≥ 10 Acentuação de todos os sinais e sintomas descritos anteriormente; pulso rápido e fra- co; íris praticamente fechada; turvamento visual acentuado; pele ruborizada, quente, seca e escarlate; ataxia, agitação e excita- ção; alucinações e delírio; coma Tabela 1. Efeitos da atropina com relação às doses usadas Fonte: As Bases Farmacológicas da Terapêutica de Goodman & Gilman Essa hierarquia de sensibilidades re- lativas não é decorrente das diferen- ças na afinidade da atropina pelos re- ceptores muscarínicos nesses locais, porque a atropina não possui sele- tividade pelos diferentes subtipos desses receptores. Os determinan- tes mais importantes são os graus de regulação das funções dos diferen- tes órgãos terminais pelo tônus pa- rassimpático, a “reserva” de recep- tores e mecanismos de sinalização, o envolvimento dos neurônios e re- flexos intramurais e a existência de outros mecanismos regulatórios. A maioria dos antagonistas dos re- ceptores muscarínicos disponíveis na clínica é não seletiva e suas ações di- ferem pouco daquelas da atropina, o protótipo desse grupo. Nenhum an- tagonista subtipo-seletivo, incluin- do-se a pirenzepina, é totalmente seletivo. De fato, a eficácia clínica de alguns fármacos pode originar-se de um equilíbrio nas ações antagô- nicas em dois ou mais subtipos de receptores. 3. QUÍMICA E FARMACOCINÉTICA Sobre a química desses fármacos, a atropina e a escopolamina são és- teres formados pela combinação de um ácido aromático (ácido tró- pico) e bases orgânicas complexas, seja tropina (tropanol) ou escopina. Essa última difere da tropina apenas 10ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) por apresentar uma ponte de oxi- gênio entre os átomos de carbono numerados como 6 e 7. A homatro- pina é um composto semissintético produzido pela combinação da base tropina com ácido mandélico. Os deri- vados de amônio quaternário corres- pondentes, modificados pelo acrés- cimo de um segundo grupo metila ao nitrogênio, são conhecidos como nitrato de metilatropina, brometo de metilescopolamina e metilbro- meto de homatropina. O ipratrópio e o tiotrópio também são análogos tropínicos quarternários esterificados com ácidos aromáticos sintéticos. Um fármaco similar, brometo de oxitrópio, derivado quaternário da escopolami- na N-etil substituído, é disponível na Europa. Figura 4. Fórmulas estruturais dos alcaloides da beladona e dos análogos semissintéticos e sintéticos. O C em verme- lho identifica um átomo de carbono assimétrico. Fonte: As Bases Farmacológicas da Terapêutica de Goodman & Gilman. A integridade do éster tropina e do ácido trópico é essencial à ação muscarínica, tendo em vista que o ácido livre ou o álcool básico não pro- duzem atividade antimuscarínica sig- nificativa. A existência de um grupo OH livre na porção acílica do éster também é importante para sua ati- vidade. Quando administrados por via parenteral, os derivados de amô- nio quaternário da atropina e escopo- lamina geralmente são mais potentes do que seus compostos originais, no que se refere às suas atividades blo- queadoras dos receptores muscarí- nicos e ganglionares (nicotínicos). Se forem administrados por via oral, a 11ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) absorção dos derivados quaterná- rios é insatisfatória e imprevisível. Os ácidos trópico e mandélico pos- suem um centro enantiomérico (C em vermelho nas fórmulas da imagem acima). A escopolamina é l-hioscina e muito mais ativa do que a d-hioscina. A atropina é racemizada durante a extração e consiste em d,l-hiosciami- na, mas a atividade antimuscarínica é atribuída quase unicamente ao l-isô- mero natural. Os derivados sintéticos mostram ampla variação estrutural, que replicam espacialmente o ácido aromático e a ponte de nitrogênio da tropina. Esses fármacos diferenciam suas ca- racterísticas farmacocinéticas de acordo com suas estruturas quí- micas. Por exemplo, a absorção de aminas terciárias é melhor que a de aminos quaternários, ocorrendo prin- cipalmente no intestino, pela mem- brana conjuntiva e transdérmica. A metabolização desses medicamen- tos ocorre no fígado e sua elimi- nação é principalmente renal, com a Atropina chegando a 50% de sua dose inalterada na urina. Medicamen- tos por aerossol e inalação são mais eliminados nas fezes. A distribuição é ampla, com a Escopolamina, por exemplo, demorando, em média, de 30 minutos a 1 hora para chegar no SNC. 4. FARMACODINÂMICA A atropina e os compostos seme- lhantes competem com a ACh e com outros agonistas muscaríni- cos por um local de ligação comum existente no receptor muscarínico. Como o antagonismo produzido pela atropina é competitivo, ele pode ser revertido se a concentração de ACh nos receptores muscarínicos do órgão efetor aumentar a nível suficiente. Os antagonistas muscarínicos inibem de forma menos eficaz as respostas à estimulação dos nervos colinérgicos pós-ganglionares, do que aos ésteres da colina administrados por via injetá- vel. Essa diferença pode decorrer da liberação da ACh pelas terminações nervosas colinérgicas em áreas tão próximas dos receptores que resul- tam em concentrações muito altas do transmissor na junção neuroefetora. 12ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) DISTRIBUIÇÃO AMPLA QUÍMICA Característica se alteram de acordo com estruturas químicas FARMACOCINÉTICA FARMACODINÂMICA A atropina e a escopolamina são ésteres formados pela combinação de um ácido aromático e bases orgânicas complexas A integridade do éster tropina e do ácido trópico é essencial à ação muscarínica A existência de um grupo OH livre na porção acílica do éster é importante para atividade desses fármacos O ipratrópio e o tiotrópio são análogos tropínicos quarternários esterificados com ácidos aromáticos sintéticos. INIBIÇÃO COMPETITIVA METABOLIZAÇÃO HEPÁTICA ELIMINAÇÃO RENAL ABSORÇÃO INTESTINAL EXEMPLO: A absorção de aminas terciárias é melhor que a de aminos quaternários Se forem administrados por via oral, a absorção dos derivados quaternários é insatisfatória e imprevisível Competem com a ACh por um local de ligação comum existente no receptor muscarínico Revertido se a concentração de ACh nos receptores muscarínicos do órgão efetor aumentar 13ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) 5. EFEITOS SOBRE SISTEMASORGÂNICOS Os efeitos farmacológicos da atropi- na, o antagonista muscarínico de re- ferência, serve de base para o enten- dimento dos usos terapêuticos dos vários antagonistas muscarínicos. O principal efeito farmacológico de do- ses crescentes de atropina, oferece um guia geral aos problemas asso- ciados à administração desta classe de fármacos. Sistema cardiovascular Coração O principal efeito da atropina no co- ração é a alteração da frequência. Embora a resposta dominante seja taquicardia, não raro a frequência diminui transitoriamente com as doses clínicas médias (0,4-0,6 mg). A diminuição é modesta (4-8 bpm) e em geral está ausente após injeção IV rápida. Não há alterações na pressão arte- rial ou no débito cardíaco. Este efei- to inesperado é atribuído ao bloqueio de receptores muscarínicos M1 pré- -sinápticos nos terminais nervosos pós-ganglionares parassimpáticos no nodo SA, o que normalmente ini- be a liberação de ACh. Doses maio- res de atropina causam taquicardia progressiva por bloqueio dos recep- tores M1 nas células marca-passo SA antagonizando assim o tônus parassimpático (vagal) ao coração. A frequência cardíaca basal aumenta em 35-40 bpm em jovens tratados com 2 mg de atropina intramuscular. A frequência cardíaca máxima não se altera com atropina. A influência da atropina é mais no- tada em adultos jovens saudáveis, nos quais o tônus vagal é conside- rável. Na infância e na idade avan- çada, mesmo doses altas de atro- pina podem não acelerar o coração. A atropina com frequência provoca arritmias cardíacas, mas sem sinto- mas cardiovasculares significativos. A atropina também previne ou abole abruptamente a bradicardia ou as- sistolia causada por ésteres da coli- na, inibidores da acetilcolinesterase ou outros fármacos parassimpati- comiméticos, bem como a parada cardíaca decorrentes da estimula- ção elétrica do vago. A retirada do tônus vagal do coração, pela atropina, também pode facilitar a condução AV. A atropina diminui o período refra- tário funcional do nodo AV e pode aumentar a frequência ventricular em pacientes que têm fibrilação ou flutter atrial. Em certos casos de bloqueio AV de segundo grau, por exemplo, bloqueio AV Wenckebach, no qual a atividade vagal é um fator etiológico (como na intoxicação por digital), a atropina pode reduzir a in- tensidade do bloqueio. Em alguns pacientes com bloqueio AV comple- to, a frequência ventricular pode ser 14ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) acelerada pela atropina, em outros ela se estabiliza. SE LIGA! A atropina pode melhorar a condição clínica de pacientes com in- farto do miocárdio na parede inferior ou posterior aliviando a grave bradicardia sinusal ou nodal ou o bloqueio AV. Figura 5. Bloqueio AV de segundo grau, Wenckebach : Alargamento progressivo do PR até que uma onda P não é conduzida (em vermelho). Fonte: https://pt.my-ekg.com/ Circulação A atropina, em doses clínicas, neutra- liza completamente a vasodilatação periférica e a acentuada queda de pressão arterial causada pelos éste- res da colina. Em contraste, se admi- nistrada só, seu efeito nos vasos e na pressão não é notável nem é constante. Este resultado é esperado, pois a maior parte do leito vascular carece de iner- vação colinérgica significativa. SE LIGA! Em doses tóxicas e ocasional- mente em terapêuticas, a atropina pode dilatar os vasos cutâneos, especialmen- te os da área do rubor (rubor atropínico). Esta pode ser uma reação compensató- ria que permite a radiação do calor resul- tante do aumento da temperatura indu- zido pela atropina ao inibir da sudoração. Sistema respiratório Embora a atropina possa causar broncodilatação e diminuição nas secreções traqueobrônquicas em indivíduos normais bloqueando o tô- nus parassimpático (vagal) aos pul- mões, seus efeitos no sistema res- piratório são mais significativos em pacientes com doença respiratória. A atropina pode inibir a bronco- constrição causada por histamina, bradicinina e os eicosanoides, o que presumivelmente reflete a par- ticipação de atividade reflexa paras- simpática (vagal) na broncoconstri- ção causada por estas substâncias. A habilidade de bloquear os efeitos bronconstritores indiretos destes mediadores fundamenta o uso dos 15ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) antagonistas muscarínicos, junto com os agonistas β-adrenérgicos, no tra- tamento da asma. Os antagonistas muscarínicos também têm um papel importante no tratamento da doen- ça pulmonar obstrutiva crônica. A atropina inibe as secreções do nariz, boca, faringe e brônquios e assim seca as membranas muco- sas do trato respiratório. Esta ação é especialmente acentuada se a se- creção é excessiva e forma a base para o uso de atropina e outros an- tagonistas muscarínicos para evitar que anestésicos inalatórios irritan- tes como o éter dietílico aumentem as secreções brônquicas. Ainda que os novos anestésicos inalatórios se- jam menos irritantes, os antagonistas muscarínicos são usados de modo similar, para diminuir a rinorreia as- sociada ao resfriado comum ou às rinites alérgicas e não alérgicas. SE LIGA! A redução da secreção mu- cosa e a depuração mucociliar podem, contudo, resultar em tampões de muco, um efeito adverso potencialmente inde- sejável em pacientes com doença das vias respiratórias. Olhos Os antagonistas muscarínicos blo- queiam as respostas colinérgicas do músculo esfíncter pupilar da íris e o músculo ciliar que controla a curvatu- ra do cristalino. Assim, eles dilatam a pupila (midríase) e paralisam a acomodação (cicloplegia). A ampla dilatação da pupila resulta em foto- fobia, o cristalino é fixo para visão distante, objetos próximos pare- cem turvos e menores do que são. A constrição reflexa pupilar normal à luz ou à convergência é abolida. Es- tes efeitos ocorrem com administra- ção local ou sistêmica dos alcaloides. Contudo, doses sistêmicas conven- cionais de atropina (0,6 mg) têm pou- cos efeitos oculares, em contraste a dose igual de escopolamina, que cau- sa midríase evidente e perda de aco- modação. A aplicação local de atro- pina produz efeito ocular de duração considerável, os reflexos pupilares e a acomodação podem não se re- cuperar completamente por 7-12 dias. Outros antagonistas muscarí- nicos com durações mais breves são, por isso, preferidos como midriáticos na clínica oftalmológica. A pilocarpina e os ésteres da colina, por exemplo, carbacol, em concentração suficien- te podem reverter os efeitos oculares da atropina. Os antagonistas muscarínicos ad- ministrados por via sistêmica têm pouco efeito na pressão intraocular, exceto em pacientes predispostos a glaucoma de ângulo fechado, nos quais a pressão pode ocasional- mente aumentar perigosamente. O aumento na pressão ocorre quan- do a câmara anterior é estreita e a íris obstrui o efluxo do humor aquoso para as trabéculas. Os antagonistas 16ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) muscarínicos podem precipitar o pri- meiro ataque em casos não reconhe- cidos desta condição relativamente rara. Em pacientes com glaucoma de ângulo aberto, o aumento agudo da pressão é incomum. Fármacos tipo atropina em geral podem ser usados de forma segura nesta última condi- ção, particularmente se o glaucoma está sendo tratado adequadamente. Trato Gastrointestinal O conhecimento das ações dos ago- nistas de receptores muscarínicos no estômago e nos intestinos leva ao uso dos antagonistas muscarínicos como fármacos antiespasmódicos para distúrbios gastrointestinais (GI) e no tratamento da úlcera péptica. Embora a atropina neutralize comple- tamente os efeitos da ACh e outros fármacos parassimpaticomiméticos na motilidade e secreções GI, ela ini- be só parcialmente as respostas a es- timulação vagal. Esta diferença, que é particularmente impressionante nos efeitos da atropina na motilidade intestinal, pode ser atribuída ao fato de que as fibras vagais pré-ganglio- nares inervam o trato GI não só com fibraspós-ganglionares colinérgi- cas, mas também com uma rede de neurônios intramurais não colinérgi- cos. Estes neurônios que formam os plexos do sistema nervoso entérico utilizam inúmeros neurotransmisso- res ou neuromoduladores incluindo serotonina (5-HT), dopamina e pep- tídeos cujos efeitos não são bloquea- dos pela atropina. Outra razão do bloqueio incompleto das respostas GI a atividade vagal pela atropina é que a estimulação va- gal da secreção gástrica é mediada pelo peptídeo liberador de gastri- na (PLG), e não ACh. As células pa- rietais secretam ácido em resposta a três agonistas, no mínimo, gastrina, histamina e ACh, além disso, a esti- mulação dos receptores muscarínicos nas células tipo enterocromafins cau- sa liberação de histamina. A atropina inibe o componente da secreção áci- da que resulta da estimulação mus- carínica das células enterocromafins (secretoras de histamina) e células parietais (secretoras de ácido). Secreções A secreção salivar é particularmen- te sensível a inibição pelos anta- gonistas do receptor muscarínicos que podem abolir completamente a secreção aquosa abundante induzida pela estimulação parassimpática. A boca torna-se seca e a deglutição e fala se tornam difíceis. A secreção gástrica durante as fa- ses cefálica e o jejum também são acentuadamente reduzidos pelos an- tagonistas dos receptores muscarí- nicos. Em contraste, a fase intestinal da secreção gástrica só diminui par- cialmente. A concentração de ácido 17ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) não diminui necessariamente, pois a secreção de HCO3, bem como de H+ estão bloqueadas. As células gástri- cas que secretam mucina e enzimas proteolíticas estão sob controle va- gal mais diretamente do que as cé- lulas secretoras de ácido, e nelas a atropina diminui a secreção. Embora os antagonistas muscarínicos pos- sam diminuir a secreção gástrica, as doses necessárias também afetam a secreção salivar, a acomodação ocu- lar, a micção e a motilidade GI. Assim, antagonistas dos receptores H2 da histamina e, mais recentemente, os inibidores da bomba de prótons substituíram os antagonistas mus- carínicos como inibidores da secre- ção ácida. Contrastando com a maioria dos an- tagonistas muscarínicos, a pirenzepi- na, que mostra alguma seletividade para os receptores M1, inibe a se- creção gástrica em doses que têm pouco efeito na salivação e frequ- ência cardíaca. Como os receptores muscarínicos nas células parietais são principalmente receptores M3 e não parecem ter alta afinidade pela piren- zepina, postula-se que o receptor M1 responsável pela alteração na secre- ção gástrica se localize em gânglios intramurais. O bloqueio dos recepto- res muscarínicos ganglionares, ao in- vés daqueles da junção neuroefetora, pode estar subjacente a habilidade da pirenzepina de inibir o relaxamento do esfíncter esofágico inferior. Aqui, a fisiologia e farmacologia são comple- xas, a pirenzepina declaradamente inibe a secreção ácida estimulada por carbacol em camundongos nocaute isentos de receptores M1. Motilidade Os nervos parassimpáticos aumen- tam o tônus e a motilidade e rela- xam os esfíncteres, facilitando assim a passagem do conteúdo intestinal. Em indivíduos normais e em pacien- tes com doença GI os antagonistas muscarínicos provocam efeito ini- bidor prolongado na atividade mo- tora do estômago, duodeno, jeju- no, íleo e cólon, caracterizado pela redução do tônus e na amplitude e frequência das contrações peristál- ticas. São necessárias doses relati- vamente altas para obter tal inibição. Provavelmente isso pode ser expli- cado pela capacidade de o sistema nervoso entérico regular a motilidade independente do controle parassim- pático, os nervos parassimpáticos só servem para modular os efeitos do sistema nervoso entérico. Outros músculos lisos Trato urinário Os antagonistas muscarínicos dimi- nuem o tônus normal e amplitude das contrações dos ureteres e da bexiga e, com frequência, elimi- nam o aumento do tônus ureteral 18ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) causado por fármacos. Contudo, essa inibição não pode ser obtida na ausência de inibição da salivação, do lacrimejamento e da visão turva. Trato biliar A atropina exerce leve ação anties- pasmódica na vesícula biliar e nos ductos biliares em humanos. Con- tudo, este efeito em geral não é su- ficiente para superar ou prevenir o acentuado espasmo e aumento na pressão do ducto biliar induzido por opioides. Os nitratos são mais efica- zes que a atropina a este respeito. Glândulas sudoríparas e temperatura Pequenas doses de atropina inibem a atividade das glândulas de suor iner- vadas por fibras colinérgicas simpáti- cas. A pele torna-se quente e seca. A sudoração pode ser deprimida a ponto de elevar a temperatura corporal, mas só após grandes doses ou altas tempe- raturas ambientes. Importante caracte- rizar que em adultos essa resposta aos fármacos é tolerada por outros meca- nismos de liberação de calor, contudo, em crianças pode tornar-se perigosa, dando origem a febre colinérgica. Sistema nervoso central Em doses terapêuticas, a atropina tem efeitos mínimos no SNC, embora possa ocorrer leve estimulação de centros parassimpáticos bulbares. Doses tóxicas de atropina promovem excitação mais evidente causando intranquilidade, irritabilidade, deso- rientação, alucinações ou delírio. Com doses ainda maiores a estimulação dá lugar a depressão, levando a co- lapso circulatório e insuficiência res- piratória após período de paralisia e coma. Em contraste com atropina, a escopolamina tem efeitos centrais proeminentes em doses terapêuti- cas baixas, por isso a atropina é pre- ferida ante a escopolamina em várias situações. A base para esta diferença provavelmente é a maior permeação da escopolamina através da barreira hematoencefálica. Especificamente a escopolamina em doses terapêuticas normais causa de- pressão do SNC manifestada por so- nolência, amnésia, fadiga, sono sem sonhos com redução do sono REM. Ela também causa euforia e pode, por isso, causar abuso. No passado, os efeitos depressores e amnésicos eram valorizados quando a escopola- mina era utilizada como coadjuvante aos anestésicos ou como medicação pré-anestésica. Entretanto, nos pa- cientes com dor intensa, as mesmas doses da escopolamina podem cau- sar excitação, agitação, alucinações ou delírio em alguns casos. Esses efeitos excitatórios são semelhantes aos observados com as doses tóxicas da atropina. A escopolamina também 19ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) é eficaz para evitar cinetose, prova- velmente bloqueando vias neurais do aparelho vestibular no ouvido in- terno para o centro emético no tronco cerebral. CONCEITO! Cinetose, também chamada de enjoo de movimento ou mal do movimento é qualquer distúrbio ou condição que se caracteriza pela sensação de enjoo ou náusea quando se anda em qualquer meio de transporte, ou se movimenta o corpo de forma não habitual, perturban- do o sistema vestibular responsável pelo equilíbrio. Os antagonistas dos receptores mus- carínicos têm sido utilizados há mui- to tempo na doença de Parkinson. Esses fármacos podem ser coadju- vantes eficazes ao tratamento com levodopa. Os antagonistas muscarí- nicos também são usados para tra- tar os sintomas extrapiramidais, que ocorrem comumente como efeitos adversos do tratamento antipsicótico convencional. 20ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) Bloqueiam as respostas colinérgicas do músculo esfíncter pupilar da íris e o músculo ciliar que controla a curvatura do cristalino Bloqueia os efeitos bronconstritores indiretos BLOQUEADORES MUSCARÍNICOS Midríase ↓ vasodilatação Cicloplegia+ É eficaz para evitar cinetose Atravessa a barreira hematoencefálica Irritabilidade, desorientação, alucinações ou delírio Escopolamina Doses tóxicas da atropina Neutraliza completamente os efeitos da ACh Inibe só parcialmente as respostas a estimulaçãovagal Atropina ↓ secreções traqueobrônquicas ↓ secreções das mucosas do trato respiratório Evita que anestésicos inalatórios irritantes aumentem as secreções brônquicas ↑ da frequência Doses baixas -> bradicardia Broncodilatação Diminui a rinorreia associada ao resfriado comum ou com rinites + Tratamento da asma MAPA MENTAL: EFEITOS SOBRE SISTEMAS ORGÂNICOS DOS BLOQUEADORES MUSCARÍNICOS 21ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) 6. APLICAÇÕES TERAPÊUTICAS Os antagonistas muscarínicos têm sido usados no tratamento de vários distúrbios clínicos, principalmente para inibir os efeitos do parassim- pático nos tratos respiratório, uri- nário, GI, nos olhos e coração. Os seus efeitos no SNC resultaram no emprego para o tratamento da do- ença de Parkinson, no controle de efeitos adversos extrapiramidais dos fármacos antipsicóticos e na prevenção da cinetose. A limitação principal ao uso dos fár- macos não seletivos geralmente é a impossibilidade de obter as respostas terapêuticas desejadas sem efeitos adversos associados. Apesar desses efeitos adversos em geral não serem graves, eles podem ser incômodos o suficiente a ponto de reduzir a adesão do paciente, principalmente durante o uso prolongado. No presente, a se- letividade tem sido assegurada pela administração local, (por exemplo, ina- lação pulmonar ou instilação ocular), pois poucos antagonistas muscaríni- cos disponíveis têm seletividade ab- soluta. O desenvolvimento de modu- ladores alostéricos que reconhecem locais únicos em subtipos de recep- tores é considerado atualmente uma abordagem importante no desenvol- vimento de fármacos seletivos para o tratamento de condições clínicas específicas. Trato respiratório O ipratrópio e o tiotrópio são im- portantes fármacos no tratamen- to da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), eles são menos eficazes na maioria dos pacientes asmáticos. Estes fármacos em geral são usados com a inalação de ago- nistas β-adrenérgicos de longa ação, embora haja pouca evidência de si- nergismo. O ipratrópio é adminis- trado 4 vezes/dia via um inalado ou nebulizador de dosagem graduada, o tiotrópio é administrado uma única vez ao dia por meio de inalador de pó seco. O ipratrópio também é aprova- do pelo FDA para uso em inaladores nasais contra a rinorreia associada ao resfriado comum ou com rinite perene alérgica ou não alérgica. Apesar da redução das secreções na- sofaríngeas pelos antagonistas mus- carínicos produzir certo alívio sinto- mático este tratamento não afeta o curso natural da condição. É provável que a contribuição dos antihistamí- nicos de primeira geração, incluídos nos remédios de venda livre, con- tra “resfriados” seja decorrente prin- cipalmente das suas propriedades antimuscarínicas, exceto nas condi- ções com base alérgica. O resfriado comum, sem complicações, em geral dura 2 semanas se tratado e 14 dias se não tratado, os remédios contra o resfriado, contudo, podem minimizar algum dos sintomas. 22ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) Trato geniturinário A hiperatividade vesical pode ser tratada eficazmente com antagonis- tas dos receptores muscarínicos. Es- ses fármacos podem reduzir a pressão intravesical, aumentar a capacidade e reduzir a frequência das contrações antagonizando o controle parassim- pático da bexiga, eles também podem alterar a sensação da bexiga durante o enchimento. Os antagonistas muscarí- nicos podem ser usados para tratar a enurese das crianças, principalmente quando o objetivo for aumentar pro- gressivamente a capacidade vesical e, além disso, para reduzir a frequência urinária e aumentar a capacidade da bexiga na paraplegia espástica. Os antagonistas muscarínicos indi- cados para a bexiga superativa são a oxibutinina, a tolterodina, o cloreto de tróspio, a darifenacina, a solife- nacina e a fesoterodina. Embora al- guns ensaios comparativos tenham demonstrado pequenas, mas estatis- ticamente significativas, diferenças na eficácia entre estes fármacos, não está óbvio que estas diferenças tenham significado clínico. As reações adver- sas mais importantes são consequên- cia do bloqueio do receptor muscaríni- co e incluem xerostomia, visão turva e efeitos GI como dispepsia e cons- tipação. Os efeitos antimuscarínicos relacionados ao SNC incluem sonolên- cia, tonturas e confusão e são particu- larmente problemáticos em idosos. Os efeitos no SNC são menos pro- váveis com tróspio, uma amina quaternária, e com darifenacina e so- lifenacina, estes últimos são relativa- mente seletivos para os receptores M3 e por isso têm efeitos mínimos nos receptores M1 do SNC que pare- cem ter papel importante na memória e cognição. Os efeitos adversos limi- tam a tolerabilidade destes fármacos e com o uso prolongado a aceitação dos pacientes diminui. A xerostomia é a causa mais comum para interrupção. A oxibutinina, o mais antigo dos anti- muscarínicos usado atualmente para tratar os distúrbios da bexiga supera- tiva está associado à maior incidência de efeitos adversos antimuscarínicos, particularmente xerostomia. Na tentativa de melhorar a aceitação pelos pacientes, a oxibutinina co- meçou a ser comercializada sob a forma de um sistema transdérmico, que está associado a menor inci- dência de efeitos adversos do que as preparações orais de liberação imediata ou ampliada, uma formula- ção tópica na forma de gel com oxi- butinina também parece apresentar menos os efeitos adversos. Devido a extensa metabolização da oxibutini- na usada por via oral, pelas enzimas CYP3A4 entéricas e hepáticas, são usadas doses mais altas na adminis- tração oral do que na transdermal, a dose deve ser reduzida em pacientes que usam fármacos que inibem a CY- P3A4. A tolterodina mostrou seletivi- dade para a bexiga em animais de la- boratório e estudos clínicos resultando em melhor aceitação pelos pacientes, 23ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) contudo estudos com receptores iso- lados não demonstraram seletivida- de por qualquer subtipo específico. A inibição de uma combinação especial de receptores vesicais pode explicar o sinergismo e a eficácia clínica. A tolterodina é biotransformada pela CYP2D6 em um metabólito hidroxi- metiltolterodina. Como esse meta- bólito possui atividade comparável ao fármaco original, as variações dos níveis de CYP2D6 não afetam a ati- vidade antimuscarínica líquida nem a duração da sua ação. Contudo em pa- cientes que biotransformam mal a tol- terodina via CYP2D6, a via CYP3A4 torna-se importante para sua elimina- ção. Como é difícil saber quais pacien- tes são maus biotransformadores as doses de tolterodina devem ser ajus- tadas em pacientes que fazem uso de fármacos que inibem a CYP3A4 (ajustes de doses em geral não são necessários em pacientes que usam fármacos que inibem a CYP2D6). Pacientes com insuficiência renal ou hepática significativa também devem receber doses menores do fármaco. A fesoterodina, um novo fármaco, é um pró-farmaco que é hidrolisa- do rapidamente ao metabólito ativo, a tolterodina. O tróspio, uma amina quaternária, é tão eficaz quanto a oxi- butinina com maior tolerabilidade. O tróspio é o único antimuscarínico usa- do na bexiga superativa que é elimi- nado primariamente pelos rins; 60% da dose absorvida de tróspio é excre- tada inalterada na urina e a dosagem deve ser ajustada para os pacientes com insuficiência renal. A solifenaci- na é relativamente seletiva para os receptores muscarínicos do subtipo M1 dando-lhe uma relação mais fa- vorável entre eficácia e efeitos colate- rais. A solifenacina é biotransforma- da significativamente pela CYP3A4; assim pacientes recebendo fármacos inibidores da CYP3A4 devem rece- ber doses menores. Como a solifena- cina, a darifenacina é relativamente seletiva para os receptores M3. Ela é biotransformada por CYP2D6 e CY- P3A4, como com a tolterodina, esta última via se torna mais importante em pacientes que são maus metabo- lizadores de fármacos pela CYP2D6.A doses de darifenacina devem ser reduzidas em pacientes que tomam fármacos que inibem alguma destas CYPs. O cloridrato de flavoxato, um fármaco com ação espasmolítica dire- ta nos músculos lisos, especialmente do trato urinário, é usado para alívio da disúria, urgência, noctúria e outros sintomas urinários associados a dis- túrbios geniturinários, por exemplo, cistite, prostatite, uretrite. O flavoxato também tem fraco efeito anti-hista- mínico, anestésico local, analgésico e, em doses altas, antimuscarínico. Trato gastrintestinal Os antagonistas dos receptores muscarínicos foram amplamente usados para o tratamento da úlce- ra péptica. Embora possam reduzir a 24ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) motilidade e a secreção de ácido gás- trico, as doses que bloqueavam a se- creção causavam efeitos adversos acentuados, como ressecamento da boca, perda da acomodação visual, fotofobia e dificuldade de urinar. Em consequência, a adesão dos pacien- tes ao tratamento prolongado dos sin- tomas da doença ácido-péptica com esses fármacos era pequena. A piren- zepina, um fármaco tricíclico seme- lhante estruturalmente à imipramina, tem seletividade pelos receptores M1, em comparação com os M2 e M3, mas a sua afinidade pelos receptores M1 e M4 são semelhantes e, assim, não há seletividade total com o subtipo M1. A telenzepina, um análogo da pi- renzepina, tem potência maior e seletividade semelhante pelos re- ceptores M1. Esses dois fármacos são usados no tratamento da doen- ça ácido-péptica na Europa, no Japão e no Canadá, mas não estão atual- mente disponíveis nos EUA. Com as doses terapêuticas da pirenzepina, a incidência de boca seca, borramento visual e distúrbios muscarínicos cen- trais é relativamente baixa. Os efei- tos centrais não ocorrem porque seu acesso ao SNC é muito limitado. A maioria dos estudos indica que a pi- renzepina (100-150 mg/dia) produ- zia praticamente o mesmo índice de cicatrização das úlceras duodenais e gástricas, em comparação com os antagonistas dos receptores H2 ci- metidina e ranitidina, esse fármaco também pode ser eficaz na profilaxia das recidivas da úlcera. Os efeitos ad- versos impõem a suspensão do trata- mento em < 1% dos pacientes. Estudos realizados em humanos de- monstraram que a pirenzepina é mais potente na inibição da secreção ácida do estômago em resposta aos estí- mulos neurais do que aos agonistas muscarínicos, confirmando a localiza- ção presumida dos receptores M1 nos locais ganglionares. Apesar disso, os antagonistas dos receptores H2 e os ini- bidores da bomba de prótons são con- siderados geralmente como fármacos de escolha para reduzir a secreção áci- da do estômago. Muitas condições co- nhecidas ou presumidas que envolvem aumento do tônus (espasticidade) ou da motilidade do trato GI são tratadas com alcaloides da beladona só ou em combi- nações com sedativos, ansiolíticos. Os alcaloides da beladona e seus subs- titutos sintéticos podem diminuir o tônus e a motilidade quando administrados nas doses máximas toleradas e po- de-se esperar que sejam eficazes nas condições que envolvem simplesmente a contração excessiva da musculatura lisa, o que geralmente é questionável. Os antagonistas seletivos dos recepto- res M3 poderiam assegurar maior sele- tividade, mas é improvável que seriam melhor tolerados pois esses receptores também exercem papel importante no controle de salivação, secreção e con- tração brônquica e motilidade vesical. O glicopirrolato, um antagonista musca- rínico estruturalmente não relacionado 25ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) com os alcaloides da beladona, também é usado para diminuir o tônus e a motili- dade GI, sendo uma amina quaternária, é menos propenso a causar efeitos ad- versos no SNC do que a atropina, esco- polamina e outras aminas terciárias. Os fármacos alternativos disponíveis para o tratamento da motilidade GI aumenta- da e dos sintomas associados. A diar- reia associada a irritação do intesti- no distal (por exemplo, diverticulite e disenterias brandas) pode responder aos fármacos do tipo da atropina, um efeito que provavelmente envol- ve ações no transporte de água, bem como na motilidade. Contudo, os dis- túrbios mais graves como disenteria por Salmonella, colite ulcerativa e doença de Crohn respondem pouco ou nada aos antagonistas muscarínicos. Os al- caloides da beladona e seus substitu- tos sintéticos são muito eficazes para reduzir a salivação excessiva, como a induzida por fármacos e aquela associada à intoxicação por metais pesados e à doença de Parkinson. O cloridrato de diciclomina é um anta- gonista muscarínico fraco que também tem efeitos espasmolíticos diretos não específicos nos músculos lisos do trato GI. É usado, ocasionalmente para tra- tar a síndrome do intestino irritável com predomínio de diarreia. Olhos Efeitos restritos aos olhos podem ser obtidos pela administração tópi- ca dos antagonistas dos receptores muscarínicos para produzir midríase e cicloplegia. Esse último efeito não pode ser obtido sem midríase e re- quer concentrações mais altas ou a aplicação mais prolongada de deter- minado fármaco. A midríase geralmente é necessá- ria durante todo o exame da retina e do disco óptico e nos tratamentos da iridociclite e ceratite. Os midriáti- cos com beladona podem ser alter- nados com agentes mióticos para romper ou evitar a formação de aderências entre a íris e o cristalino. A cicloplegia total pode ser necessá- ria ao tratamento da iridociclite e co- roidite e à avaliação precisa dos erros de refração. O brometo de homatro- pina, um derivado semissintético da atropina, o cloridrato de ciclopento- lato e a tropicamida são fármacos usados na prática oftalmológica. Eles são preferidos à atropina ou escopolamina tópica devido a du- ração mais curta da sua ação. Sistema cardiovascular: Os efeitos cardiovasculares dos anta- gonistas dos receptores muscarínicos têm limitada utilidade clínica. Em geral, eles são utilizados somente nas unidades de cuidados corona- rianos em intervenções a curto pra- zo ou em procedimentos cirúrgicos. A atropina pode ser considerada para o tratamento inicial dos pacientes com infarto agudo do miocárdio, nos quais 26ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) o tônus vagal excessivo estiver cau- sando bradicardia sinusal ou bloqueio AV. A bradicardia sinusal é a arritmia encontrada mais comumente no in- farto agudo do miocárdio envolven- do as paredes inferior ou posterior. A atropina pode evitar deterioração clínica adicional nos casos de hiper- tonia vagal ou bloqueio AV, recu- perando a frequência cardíaca a um nível suficiente para manter o estado hemodinâmico satisfatório e suprimir o bloqueio do nodo AV. A determinação das doses deve ser criteriosa, porque doses muito bai- xas podem causar bradicardia pa- radoxal, enquanto doses excessi- vas causam taquicardia, que pode ampliar o infarto por aumentar as demandas de oxigênio. Em alguns casos, a atropina é útil para redu- zir a bradicardia grave e evitar a síncope associada à hiperatividade do reflexo dos seios carotídeos. Ela produz poucos efeitos na maioria dos ritmos ventriculares. Em alguns pa- cientes, a atropina pode suprimir as contrações ventriculares prematuras associadas a uma frequência atrial muito lenta. Além disso, ela pode re- duzir o grau do bloqueio AV, quando a hipertonia vagal for um fator impor- tante ao distúrbio da condução, como ocorre no bloqueio AV do segundo grau que pode ser produzido pelos digitálicos. Antagonistas seletivos dos receptores M2 são de utilidade potencial no bloqueio da bradicar- dia ou bloqueio AV mediados por ACh, contudo nenhum está disponí- vel para uso clínico atualmente. Sistema nervoso central Os alcaloides da beladona estavam entre os primeiros fármacos usados na profilaxia da cinetose. A escopolami- na é o fármaco profilático mais efi- caz para as exposições breves (4-6 h) ao enjoo grave e, provavelmente, tambémpara as exposições que se estendem por até alguns dias. Todos os fármacos usados para controlar a cinetose devem ser administrados profilaticamente, porque são muito menos eficazes depois que o pacien- te já tiver desenvolvido náuseas ou vômitos. Estudos demonstraram que uma preparação transdérmica da escopolamina é altamente eficaz quando usada antecipadamente para evitar cinetose. Ela está incorporada a uma unidade adesiva de camadas múltiplas, que é aplicada na região mastoidea retroauricular, área na qual a absorção transdérmica do fárma- co é particularmente eficaz e resulta em uma entrega de cerca de 0,5 mg de escopolamina ao longo de 72 h. A xerostomia é comum, a sonolência ocorre com alguma frequência e o turvamento visual é referido por alguns pacientes. Midríase e ciclo- plegia podem ocorrer com a transfe- rência acidental do fármaco aos olhos pelos dedos usados para manusear o adesivo. Existem descrições de raros mas graves episódios de psicose. 27ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) Como dito anteriormente, não é mais recomendado o uso da escopola- mina para produzir tranquilidade e amnésia. Se for administrada iso- ladamente aos pacientes com dor ou ansiedade grave, a escopolami- na pode induzir surtos de compor- tamento descontrolado. Por vários anos os alcaloides da beladona e na sequência os substitutos sintéticos foram os únicos fármacos úteis no tratamento da doença de Parkinson. Atualmente, o levodopa associa- do a carbidopa e agonistas do re- ceptor agonista dos receptores de dopamina são os tratamentos mais importantes, mas tratamentos al- ternativos ou concorrentes com antagonistas muscarínicos podem ser necessários em alguns pacien- tes. Os antagonistas muscarínicos de ação central são eficazes na preven- ção dos efeitos adversos extrapirami- dais como distonias ou sintomas de parkinsonismo em pacientes tratados com fármacos antipsicóticos. Os antagonistas muscarínicos usados contra a doença de Parkinson e sinais extrapiramidais induzidos por fárma- cos incluem o mesilato de benztro- pina, o cloridrato de triexifenidila e o biperideno. Os três são aminas ter- ciárias de fácil acesso ao SNC. As evi- dências correntes, baseadas em es- tudos usando camundongos nocaute de receptores muscarínicos, fármacos seletivos para subgrupos e ensaios clínicos em estágios iniciais sugerem que o bloqueio seletivo de um subtipo de receptor muscarínico específico no SNC pode ter aplicações terapêuticas importantes. Por exemplo, antagonis- tas muscarínicos seletivos para M1 e M4 podem ser eficazes no tratamen- to da doença de Parkinson com me- nos efeitos adversos do que os anta- gonistas muscarínicos não seletivos, enquanto os antagonistas seletivos de M3 podem ser úteis no tratamento da obesidade e anormalidades meta- bólicas associadas. Usos em anestesia O uso de anestésicos que são relati- vamente não irritantes para brônquios praticamente eliminou a necessidade do uso profilático dos antagonistas dos receptores muscarínicos. A atro- pina é utilizada comumente para bloquear as respostas aos reflexos vagais induzidos pela manipulação cirúrgica dos órgãos viscerais. A atropina ou o glicopirrolato é usa- do com neostigmina para bloquear os efeitos parassimpáticos quando este último for administrado para reverter o relaxamento da musculatura es- quelética no pós-operatório. Alguns pacientes desenvolvem arritmias cardíacas graves, talvez decorrentes de bradicardia inicial produzida pela atropina combinada com os efeitos colinomiméticos da neostigmina. 28ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) BLOQUEADORES MUSCARÍNICOS APLICAÇÕES TERAPÊUTICAS OU PRÁTICAS OFTAMOLÓGICAS Brometo de homatropina, o cloridrato de ciclopentolato e a tropicamida PARKINSON CINETOSE Uso alternativo ou concomitante não comum Preparação transdérmica da escopolamina como profilaxia Mesilato de benztropina, cloridrato de triexifenidila e biperideno DIVERTICULITE E DISENTERIAS BRANDAS ÚLCERA PÉPTICA Atropina Pirenzepina 100-150 mg/dia Muitos efeitos adversos HIPERATIVIDADE VESICAL Oxibutinina, tolterodina, cloreto de tróspio, darifenacina, solifenacina e fesoterodina ANESTESIA Atropina ou glicopirrolato RINORREIA DPOC Ipratrópio Tiotrópio - 1 vez ao dia por meio de inalador de pó seco Ipratrópio - 4 vezes/dia via um inalado ou nebulizador de dosagem graduada CUIDADOS CORONARIANOS EM INTERVENÇÕES A CURTO PRAZO OU EM PROCEDIMENTOS CIRÚRGICOS Atropina Bloquear as respostas aos reflexos vagais e bloquear os efeitos parassimpáticos no pós operatório MAPA MENTAL: APLICAÇÕES TERAPÊUTICAS DOS BLOQUEADORES MUSCARÍNICOS 29ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) ORIGEM NATURAL BLOQUEADORES MUSCARÍNICOS Usada como adjuvante em anestesia; na intoxicação por anticolinesterásicos; na bradicardia; como antiespasmódico e no excesso de salivação. Usado na cinetose, náusea e vômitos. Utilizado na doença ulcerosa péptica e também na bradicardia induzida cirurgicamente ou pelo nervo vago Utilizados na asma e na doença pulmonar obstrutiva crônica Usada na bexiga hiper-reflexa, hiperativa e incontinência urinária Utilizados como agentes midriáticos ATROPINA ESCOPOLAMINA PIRENZEPINA IPATRÓPIO/ TIOTRÓPIO OXIBUTINA/TOLTERODINA CICLOPENTOLATO/ TROPICAMIDA SINTÉTICOS MAPA MENTAL: APLICAÇÃO CLÍNICA DOS FÁRMACOS ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS 30ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) 7. INTOXICAÇÃO COLINÉRGICA O uso de inseticidas organofosfo- rados e a ingestão de determinados cogumelos (que encerram musca- rina) podem ocasionar a intoxicação colinérgica pelo excesso de ativida- de da acetilcolina. Os inseticidas que são anticolinesterásicos produzem sintomas e sinais em decorrência da ativação dos receptores muscarínicos e nicotínicos, como, por exemplo, náu- seas, vômitos, sudorese, salivação, lacrimejamento, dispneia, defecação e micção involuntárias, palpitações, bradicardia, vasodilatação, hipoten- são, bloqueio cardíaco transitório, sensação de asfixia iminente, edema agudo do pulmão. É uma síndrome que pode levar à morte e representa uma emergência médica. A fim de combater os efeitos mus- carínicos, usa-se a atropina com a qual se tratam os efeitos sobre o sistema nervoso central e periféri- co dos inseticidas fosforados. Esse tipo de intoxicação pode ocorrer nas fábricas de produção e embalagem dos inseticidas e na sua aplicação na agricultura. As pessoas que manipu- lam esse tipo de inseticida devem ser devidamente instruídas quanto ao perigo de seu trabalho. O paration, quando é o responsável pela intoxica- ção, exige grandes doses de atropina: 1 a 2 mg de sulfato de atropina, por via intravenosa, de 5 em 5 ou 15 em 15 minutos, até que se combatam os efeitos muscarínicos da intoxicação. Os efeitos agudos dos anticolineste- rásicos podem durar 24 a 48 horas. Existe um outro grupo de fármacos que pode ser usado no tratamento da intoxicação colinérgica e que tem como objetivo a regeneração da ace- tilcolinesterase destruída pelos anti- colinesterásicos. Trata-se do grupo das oximas, que incluem a pralidoxi- ma, a diacetilmonoxima e a obido- xima. O grupamento oxima ( = NOH) desses compostos possui grande afi- nidade pelo fósforo e, desse modo, as oximas podem hidrolisar o comple- xo formado pelo anticolinesterá- sico e a enzima, contanto que esse complexo não tenha envelhecido, isto é, que não tenha ocorrido a quebra de uma das ligações entre o oxigênio e o fósforo, o que proporciona maior energia da ligação enzima-fósforo. Quando se aplica a pralidoxima an- tes do envelhecimento da enzima, essa oxima é capaz de regenerar a acetilcolinesterase devido à sua in- tensa propriedade nucleofílica. De- pois do envelhecimento, o complexo enzima-anticolinesterásico não pode ser decomposto pelas oximas. A pra- lidoxima regenera especialmente a colinesterase da placa mioneural. Por ser carregada positivamente, apralidoxima não consegue atraves- sar a barreira hematoencefálica, não sendo capaz de converter os efeitos da intoxicação ao nível do sistema 31ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) nervoso central. A diacetilmonoxima é uma oxima que atravessa a bar- reira hematoencefálica, sendo capaz de regenerar parte da colinesterase central, em animais experimentais. A pralidoxima é administrada por via intravenosa, na dose de 1 a 2 mg durante 15 a 30 minutos. A su- perdosagem da pralidoxima provoca fraqueza muscular e outros efeitos colaterais. EFEITOS ADVERSOS Boca seca Taquicardia Midríase Glaucoma Agitação Hiperplasia prostática benígna Efeitos muscarínicos em outros sistemas Intoxicação Contraindicações relativas MAPA MENTAL: EFEITOS ADVERSOS DOS BLOQUEADORES MUSCARÍNICOS 8. BLOQUEADORES GANGLIONARES Os bloqueadores ganglionares são drogas cuja ação principal é interrom- per a transmissão neural nos re- ceptores nicotínicos dos neurônios autonômicos pós-ganglionares. Essas drogas podem, ainda, bloque- ar diretamente o canal de acetilcolina nicotínico da mesma maneira que os bloqueadores nicotínicos neuromus- culares. Como sua ação é ampla (incluindo o bloqueio dos sistemas simpático e parassimpático), seu uso terapêutico foi muito superado por drogas mais específicas. Os efeitos clínicos serão a diminuição da secreção e motilidade gastrointes- tinal e predomínio do tônus simpático no sistema cardiovascular (ocasio- nando vasodilatação arteriolar e ve- nosa, hipotensão postural, taquicar- dia e diminuição da contratilidade). A mecamilamina, no SNC, pode causar 32ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) sedação, tremores, alterações men- tais e de movimento. Eles ainda podem ser usados para controlar a pressão sanguínea em pacientes com aneurisma aórti- co dissecante agudo, e para induzir hipotensão durante uma cirurgia. Apenas uma droga desta classe, o trimetafano, ainda é usada no trata- mento da hipertensão, em função dos efeitos tóxicos intoleráveis relaciona- dos à sua ação primária. 33ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) Bloqueio do aumento de IP3 Bloqueio da inibição da adenilil ciclase Bloqueador não seletivo Cardiovasculares Vasos sanguíneos Respiratórios Grastrointestinais M1, M3, M5 M2, M4 Atropina Atua mais em glândulas salivares, sudoríparas e brônquicas Efeitos Taquicardia Bradicardia em doses baixas Risco em pacientes com flutter e fibrilação atrial Vasoconstrição Broncodilatação Diminuição das secreções Diminuição da motilidade Diminuição da secreção salivar ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS BLOQUEADORES MUSCARÍNICOS Geniturinários SNC Oftalmológicos Glândulas sudoríparas D. De Parkinson Bloqueiam receptores nicotínicos Lentificação da micição Risco de retenção urinária em Hiperplasia prostática benigna Atropina tem pouco efeito Escopolamina causa amnésia a agitação e coma Midríase Ciclopegia Diminuição da secreção lacrimal Diminuição da sudorese Cinetose Midríase Pré-operatório com anestésicos irritantes DPOC Diarreia Urgência urinária Bloqueio simpático e parassimpático Uso cínico BLOQUEADORES GANGLIONARES IAM Úlcera péptica Bexiga hiperativa MAPA RESUMO DOS ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS 34ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GOODMAN, Louis Sanford. “As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gil- man.” Organizadores: BRUNTON, LL (2012): 335-415. SILVA, Penildon. “Farmacologia: Penildon Silva.” (2013). Surawicz B, Knilans T. Chou’s electrocardiography in clinical practice. 7th ed. Philadelphia: Saunders Elservier; 2008. Rang, Rang, et al. Rang & Dale Farmacologia. Elsevier Brasil, 2015. 35ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS (FARMACOLOGIA)