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16/09/2020 UNINTER - XINTOÍSMO
https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 1/14
 
 
 
 
 
 
 
XINTOÍSMO
AULA 5
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Robert Rautmann
16/09/2020 UNINTER - XINTOÍSMO
https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 2/14
CONVERSA INICIAL
Uma forte característica das tradições religiosas é a regulação e a celebração dos ritmos de vida.
Nascimento, crescimento, reprodução e morte são acontecimentos ordinários da vida. O ser humano,
contudo, procura dar significado existencial a esses momentos. Já não se tratam, apenas, de eventos
naturais. Sua realização transcende o objetivo puramente biológico.
Cada tradição, portanto, segundo a sua cosmovisão, irá proporcionar ritos religiosos próprios
aos momentos fortes do ciclo da vida de seus adeptos. Dentro do estudo dos fenômenos religiosos
se dá o nome, para essas situações, de ritos de passagem. Trata-se de uma circunstância da vida na
qual o indivíduo transita de um status para outro – seja em relação a um papel social que exerce, seja
uma fase da vida que ultrapassa.
As partes que compõe um rito de passagem podem ser assim designadas:
Separação: trata-se do primeiro estágio. Nele, o indivíduo é removido de seu grupo,
comunidade original ou de seu status inicial.
Liminaridade: nesse estágio, o indivíduo ainda não se encontra em seu novo status e, ao
mesmo tempo, também já não pertence ao seu status original. Permanece em uma posição
“liminal”, no limite.
Reincorporação: terceira fase do rito de passagem, na qual o indivíduo retorna à sua
comunidade, agora com um novo status.
Nesta aula, apresentaremos alguns momentos da vida do praticante do xintoísmo que podem
ser considerados ritos de passagem. Veremos como os adeptos do xintoísmo (com os familiares)
celebram esses acontecimentos. Os momentos que veremos se configuram em aspectos
fundamentais da existência – o nascimento (aqui, os eventos que estão ligados, como a gravidez e a
apresentação à comunidade), a passagem para a vida adulta, o matrimônio, as diversas idades
consideradas como momentos fortes e, por fim, a morte (e os ritos funerários).
Algumas advertências são necessárias. O xintoísmo confunde-se com a própria história do Japão.
Não é, pois, de se estranhar que certas datas ou eventos sejam, atualmente, celebradas pela
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população em geral e, não somente pelos adeptos do xintoísmo.
Vejamos, então, na sequência, alguns dos momentos fortes do ciclo da vida humana
interpretados pelo xintoísmo.
TEMA 1 – SHINZEN KEKKON
O termo shinzen kekkon significa literalmente “rito matrimonial na presença dos kami”. Na ampla
noção do termo, poderiam ser incluídos os vários ritos pré-nupciais que possam ser realizados diante
dos kami. Comumente se refere aos ritos que são realizados pelos kannushi nos santuários xintoístas
ou em salão preparado para isso.
Essa percepção de que um matrimônio deveria ser realizado “diante dos kami” já se encontra
registrada em fins do século XVI. Entendia-se que as obrigações matrimoniais do casal estavam
ligadas, de alguma forma, com os kami. Segundo estudiosos antigos, os ritos matrimoniais estão
associados, como uma forma de culto, à relação entre Izanagi no Mikoto e Izanami no Mikoto. A
forma contemporânea de celebração tem início na Era Meiji, com certa influência dos ritos
matrimoniais provenientes do cristianismo. No início, ela não encontrou muita aceitação. Somente
com o casamento do príncipe herdeiro Yoshihito, em 1900, que mais tarde tornou-se o Imperador
Taishō, que a forma do shinzen kekkon foi sendo difundida.
No ano seguinte, a “Seção para a Correta Prática dos Rituais Nacionais” da “Associação Secular
de Apoio do Grande Santuário de Ise” (Jingūhōsaikai kokureishugyōbu), realizou um shinzen kekkon
como que simulado, ou ensaiado, na forma como havia sido realizado para o príncipe herdeiro, com
a intenção de explicar as formas rituais e orientar nas realizações para algumas pessoas da elite. Ao
se ordenar a forma como o rito estava sendo celebrado, o shinzen kekkon começou a se espalhar.
A cerimônia do shinzen kekkon é relativamente simples e breve – normalmente leva em torno de
20 a 30 minutos e envolve os nubentes e os familiares próximos. Ela se inicia com uma procissão,
com músicas rituais, com os noivos (e os convidados) adentrando o santuário. No santuário xintoísta
coloca-se um altar matrimonial que contém alguns alimentos cerimoniais, como sal, água, arroz,
saquê, frutas e legumes e, além desses, as alianças. O kannushi (sacerdote) fica à direita do altar e a
miko (noiva), ao lado esquerdo. Os noivos permanecem no centro do ambiente.
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No início do rito, o kannushi realiza a purificação da noiva, do noivo e do santuário (esse rito se
chama shubatsu-no-gi). Em seguida, o sacerdote irá anunciar o matrimônio aos kami do santuário.
Esse rito é conhecido como Norito-soujou. Se há possibilidades, a dançarina sagrada do templo fará
uma dedicação aos kami (dança chamada de Kaguramai). O kannushi apresenta os alimentos e o
saquê como oferecimento aos kami. É feita, em seguida, uma litania de norito (uma prece específica
para o momento) e, em seguida, o banquete ritual (naorai). Um pouco do saquê é derramado em
oferecimento pelos noivos. Segue-se o rito do san-san-ku-do (literalmente, “três-três-nove-vezes”),
no qual o noivo e a noiva alternam-se em beber o saquê que lhes é oferecido pelo oficiante. Por três
vezes eles o fazem e, a cada vez, em três goles sucessivos. Como já vimos anteriormente, o xintoísmo
considera determinados números auspiciosos e o três é um deles. Bebe-se o saquê, ainda que não
seja uma bebida exatamente saborosa, mas como significado, justamente, de que a vida matrimonial
é composta de tempos favoráveis e outros mais difíceis.
Segue-se a esse rito a leitura dos votos de casamento por parte do noivo, enquanto a noiva
escuta. Era costume de que a “casamenteira” (nakodo) agradecesse os votos. Essa função era exercida
por uma pessoa da comunidade que “arranjava” os casamentos entre os jovens. Hoje em dia,
praticamente caiu em desuso. Os noivos farão ofertas de tamagushi para os kami. Em seguida é feita
a troca das alianças (para quem as utilizará). Ao final são feitas as preces pelo novo casal. Nessas
orações são invocados Izanagi e Izanami.
O traje utilizado pelas noivas chama-se shiromuku, e é um tipo de quimono. Usa-se um e outro
tipo de chapéu: o wataboshi (durante os ritos religiosos) e o tsunokakushi (durante a recepção do
casamento). A cor do traje é branca (também considerada, entre os japoneses, como símbolo de
pureza). Outro detalhe interessante é que a noiva carrega, dentro do quimono, à altura do coração,
um pequeno punhal chamado de futokoro-gatana (resquício de tradição das mulheres samurais).
Podemos perceber que os atos e ritos relacionados ao matrimônio xintoísta são ricos de
significados simbólicos por meio de objetos, alimentos, ações, palavras, cultura e, inclusive,
elementos supersticiosos (como cores, por exemplo) e folclore.
Atualmente muitos dos ritos de casamentos são realizados em hotéis ou locais preparados para
isso. A supervisão dos kannushi continua, ainda que o número de casais que recorram aos rituais
xintoístas tenha diminuído radicalmente. Em 1999 houve, pela primeira vez, um casamento entre
pessoas do mesmo sexo em um santuário xintoísta. Contudo não é uma prática difundida e a
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Associação dos Santuários não tem uma posição clara sobre essa questão. De forma geral podemos
dizer que, no Japão, 63% são celebrados segundo o modelo xintoísta, 30% segundo o modelo cristão
e apenas 2% segundo o modelo budista. Os demais, segundo modelos apenas civis ou ligados a
outras manifestações religiosas, especialmente, mais recentes. Certamente, muitos casaisirão
elaborar celebrações que mesclam elementos do xintoísmo com elementos ocidentais.
Diferentemente do xintoísmo, o budismo não considerou o matrimônio como uma celebração
do tipo sacramental, inclusive realizados, normalmente, nos recintos domésticos.
TEMA 2 – PRIMEIRA APRESENTAÇÃO AO SANTUÁRIO
Esse momento que ocorre com a criança recém-nascida é chamado de Hatsu Miyamairi,
Omiyamairi (“Visita ao Santuário”) ou, ainda, simplesmente, miyamairi. Trata-se de uma
“apresentação” da criança ao kami local, ou também chamada de “divindade tutelar” (ujigami).
Segundo esse costume, o menino é apresentado no 32º dia de vida, enquanto a menina, no 33º
dia. O costume antigo ainda exigia que fosse a avó (ou mesmo a parteira) a pessoa responsável por
apresentar a criança, pois a mãe estaria em uma situação de impureza ritual. Esse tabu, atualmente,
foi superado. Dessa forma, a mãe da criança participa ativamente da cerimônia.
Com essa visita, a família deseja “apresentar” a nova integrante da família à divindade local. E,
com essa apresentação, podemos dizer que a criança apresentada é recebida na comunidade
religiosa local. O próprio sacerdote que realiza a cerimônia apresenta a criança, dizendo o nome dela,
dos pais, o endereço e a data de nascimento. A cerimônia é curta (de 10 a 15 minutos), porém, tem
por objetivo agradecer ao kami local pelo nascimento e pedir saúde e felicidade à criança. Há um
costume de se fazer a criança chorar diante do kami. Esta atitude se dá para que se possa chamar a
atenção da divindade para a criança.
Logo no início, na chegada ao santuário, o kannushi faz a purificação e a bênção da criança.
Próximo do altar o sacerdote entoa cânticos japoneses e balança o tamagushi para a direita e a
esquerda sobre a criança, como ritual de purificação. O sacerdote inscreve, com lápis de carvão, sobre
a testa do menino, o caractere japonês referente a “grande” (大 ), e sobre a testa da menina, o
caractere “pequeno” (小) – eventualmente, a marcação para as meninas será feita em vermelho e, dos
meninos, em preto.
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Ao final da cerimônia, saquê é distribuído em copos de madeira para os participantes e
pequenos presentes são oferecidos às crianças.
As celebrações praticadas pelo xintoísmo são compartilhadas como um “costume” pela
população japonesa em geral. No Japão, as famílias que participam do ritual não irão,
necessariamente, identificar-se totalmente com a crença xintoísta ao participarem dos ritos aqui
descritos. Além do costume japonês, a alegação feita, também, é a da pressão social em relação à
realização do ato. Não é difícil compreender essa pressão social – se olharmos para a realidade de
nosso próprio país e percebermos que existe um “catolicismo social” vigente: a realização de atos
celebrativos (especialmente o batismo, o casamento e a missa de sétimo dia) como uma “regra
social”, sendo que aqueles que participam dessas celebrações não se compreendem,
necessariamente, como católicos.
Um costume interessante em relação aos recém-nascidos é de que se acredita que uma criança
começa a viver quatro meses antes de seu nascimento. Esse momento é considerado, pois se acredita
que é quando a alma começa a existir na pessoa. Alguns irão considerar a idade da pessoa a partir
desse momento.
Antes, ainda, da celebração de Hatsu Miyamairi, o primeiro momento de “socialização” da
criança chama-se de O-Sichiya, ou “Cerimônia do Nome” (ou de nomeação). Ela se realiza na
residência da família (e não no santuário, como o Hatsu Miyamairi). Nessa primeira celebração o pai
da criança escreve o nome dela, com a caligrafia japonesa, em um tipo de certificado. Esse certificado
ficará exposto na casa. Ao receber esse nome, a criança é acolhida pela comunidade familiar e se
acredita que ela deixa, então, o mundo dos espíritos. Os parentes e amigos, convidados para o
momento trazem presentes, especialmente ofertas em dinheiro.
TEMA 3 – SHICHIGOSAN
Para conhecermos esse importante rito do xintoísmo, podemos desmembrar o termo: shichi (que
significa “sete”), go (“cinco”) e san (“três”). Ele designa, literalmente, as idades correspondentes das
crianças japonesas que são celebradas pelas famílias. Normalmente as datas celebradas para os
meninos são 3 e 7 anos, para as meninas, 3 e 5 anos.
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No dia 15 de novembro (caso a data coincida com dia de semana, transfere-se para o final de
semana seguinte, uma vez que não se trata de um feriado nacional), as famílias japonesas vão até os
santuários com os filhos para agradecer aos kami pela vida das crianças e celebrar o crescimento
delas. A celebração é dirigida aos pais cujos filhos têm essas idades, singularmente desta forma:
menino ou menina com 3 anos, menina com 5 anos e menino com 7 anos.
Além do Shichigosan, o calendário japonês prevê mais dois dias para a celebração com as
crianças: 3 de março (Hina matsuri) – Dia das Meninas (ou Festival da Boneca) – e 5 de maio (Kodomo
no hi) – Dia dos Meninos.
Esse rito tem em vista, além dos agradecimentos e pedidos em relação às crianças, a prática de
suplicar também o afastamento de maus espíritos (ainda que essa intenção ocorra em muitos outros
momentos das celebrações xintoístas).
A história dessa celebração nos leva ao Período Heian (794-1185), quando as famílias nobres
recorriam às preces em favor dos filhos, pedindo saúde e felicidade. Já nesse período realizavam-se
três rituais distintos: 1) kamioki; 2) hakamagi; 3) obitoki.
No ritual kamioki, segundo os costumes da época, as crianças até a idade de 3 anos tinham os
cabelos raspados. Somente a partir dessa idade poderiam deixá-los crescer. Esse costume foi
abandonado a partir da Era Meiji (1868-1912). Outras tradições permanecem, como, por exemplo,
meninos e meninas usarem um adorno na cabeça e as meninas usarem, pela primeira vez, um
quimono.
No rito hakamagi, o menino é apresentado, usando pela primeira vez o hakama, peça que deve
ser vestida sobre o quimono.
Na celebração obitoki, as meninas poderiam trocar as faixas comuns pelo obi.
Após a Era Meiji as celebrações começaram a se tornar comuns, também, às classes mais
populares, especialmente na região Kanto. Havia, nas regiões rurais, o costume de se celebrar todos
os anos da vida de uma criança. Contudo o Shichigosan foi sendo estabelecido como a celebração
mais grandiosa e, aos poucos, foi sendo acolhida em todo o território japonês. Hoje em dia essas
celebrações envolvem toda a população e não se restringem ao xintoísmo.
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Explica-se que a escolha das idades se daria devido ao apelo supersticioso que designa os
números ímpares como auspiciosos. Outra explicação aponta que, uma vez que no passado os
índices de mortalidade infantil eram muito elevados, procurou-se uma solução para a questão dentro
da crença xintoísta, sendo solicitado, portanto, aos kami que dessem saúde às crianças.
Atualmente, alguns costumes antigos ainda se mantêm – como o uso dos quimonos, do obi
(para as meninas) e do hakama (para os meninos). Outros costumes se agregaram – os meninos
preferem utilizar o terno (traje mais ocidental), o que caracteriza um dia de gala para toda a família. A
celebração se assemelha àquela de comemoração dos 20 anos, nas quais se dá a maioridade para os
jovens.
Em Tóquio, as famílias costumam, nessa data, visitar o Santuário de Meiji (Meiji Jingu) ou outros
santuários famosos para realizarem o ritual de Shichigosan.
Outro costume interessante nessa celebração é a entrega do chitose ame, que é conhecida como
“bala dos mil anos” ou “bala da longevidade”. É uma bala longa e fina, com as cores vermelha e
branca. Ela vem enrolada em um papel de arroz comestível. As embalagens do chitose ame são
decoradas com tartarugas e garças, símbolos da longevidade no Japão. Ao entregar os docesàs
crianças, faz-se o desejo de que a vida delas seja longa e próspera. A origem dessa bala está no
bairro de Asakusa, em Tóquio.
Por fim, destacamos que o Shichigosan pode ser celebrado, também, em templos budistas.
TEMA 4 – CELEBRAÇÃO DA MATURIDADE
O nome Seijin Shiki ou Seijin no Hi significa algo como “dia da chegada à idade adulta”, e
corresponde à celebração que acontece para todos os jovens (homem ou mulher) que atinjam a
idade de 20 anos no Japão. É considerado um rito de passagem para a maioridade.
A data desse rito era o dia 15 de janeiro, contudo, a partir do ano 2000, o calendário foi alterado
e passou a ser celebrado na segunda segunda-feira do mês de janeiro. É um único dia para todo o
país comemorar aqueles que completaram 20 anos entre 2 de abril do ano anterior até 1º de abril do
mês em curso.
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Historicamente consta que a celebração se iniciou em torno de 714 quando um jovem príncipe
decidiu, para marcar a idade adulta, vestir-se com roupa nova e um novo penteado. No Período Edo,
contudo, a idade de maioridade para os meninos era de 15 anos e, para as meninas, de 13 anos.
Houve uma celebração antiga que se chamava kanrei e, nessa ocasião, era dada à criança, que
pertencia à aristocracia e que atingia a maioridade, um chapéu kammuri. Para aqueles que
pertenciam ao povo em geral, a cerimônia se chamava heko-iwai e a criança recebia um fundoshi (um
tipo de roupa de baixo). Foi em 1876 que a idade de 20 anos foi fixada como maioridade. E, em 1948,
a data foi considerada como dia solene nacional (atualmente se trata de um feriado nacional,
inclusive).
Nesse dia os rapazes vestem-se com o hakama, contudo, o terno ocidental tem sido preferido,
ultimamente. As moças vestem o furisode, que é o quimono tradicional usado pelas solteiras, com
mangas largas. A respeito desse traje, guarda-se o costume de que, quando a mulher se case, as
mangas sejam cortadas pela metade, significando a fidelidade dela ao marido. As moças utilizam,
ainda, as sandálias zōri.
Pode-se traçar alguns paralelos entre esta celebração da maioridade e a celebração de
Shichigosan, vista anteriormente. Aos 3 anos as meninas recebem seu primeiro quimono infantil e,
aos 20 anos, o primeiro quimono da vida adulta. Esse quimono raramente será usado novamente.
Após o casamento, o quimono da mulher casada terá suas mangas cortadas. Os rapazes, como
citamos ao falarmos da celebração de Shichigosan, utilizam, normalmente, ternos escuros.
A cerimônia, ainda que tenha um caráter estatal, por ser feriado nacional, acontece nos
santuários xintoístas (há casos de acontecerem em estabelecimentos públicos e, podemos encontrar
vídeos da celebração sendo realizada em igrejas católicas). Para os jovens que, ao invés de entrarem
em uma faculdade, decidiram ingressar diretamente no mercado de trabalho, a cerimônia acontece
no santuário principal da empresa. As preces, que são dirigidas aos kami, procuram apresentar as
ambições, esperanças e expectativas desses jovens em relação à empresa.
Os jovens recebem presentes dos parentes e, após a celebração, irão jantar com os convidados.
Essas comemorações são vivenciadas, especialmente com seus amigos e amigas.
Um costume frequente é se recorrer a adivinhos e quiromantes para se adivinhar o futuro –
casamento e carreira. Esses consulentes se encontram nos restaurantes e nas grandes lojas de
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departamentos nesse dia para “cumprir” esse costume. Muitos jovens alegam que recorrem a essa
prática mais como curiosidade ou diversão do que, exatamente, como uma crença do tipo religiosa.
Percebe-se que a adesão a esse momento celebrativo tem diminuído ao longo dos anos. Um dos
motivos é a diminuição da taxa da natalidade, contudo, esse fato não é a única causa. Na realidade,
houve muitos incidentes, durante as celebrações, ocasionados por excesso de álcool ou confusões
generalizadas. Muitos jovens também consideram o Seijin Shiki como uma tradição ultrapassada. De
certa forma, essa diminuição ou resistência à celebração causa constrangimento às gerações
anteriores
TEMA 5 – OUTROS MOMENTOS
Além das celebrações que marcam algumas das etapas da vida do praticante do xintoísmo (e,
atualmente, de grande parte dos japoneses), queremos apresentar, ainda que brevemente, outros
momentos importantes para os adeptos do xintoísmo e para os japoneses em geral.
5.1 ANZAN KIGAN
Anzan kigan significa, aproximadamente, “oração pela segurança do bebê”. As mães grávidas são
convidadas a visitarem um santuário xintoísta no primeiro Dia do Cachorro, logo após elas terem
entrado na 20ª semana de gestação. No santuário (e um dos mais concorridos para isso é o santuário
de Suitengu, em Tóquio), o casal faz as orações e recebe uma “faixa de gravidez” abençoada para ser
usada no período da gestação. No santuário de Suitengu há uma estátua de uma cachorra com
filhotes, e é costume da mulher gestante tocar essa escultura para ser agraciada com uma boa
gravidez.
Acredita-se que o costume tenha surgido durante o Período Edo (1603-1867), quando os
infanticídios eram comuns. Como uma forma de conter esse costume, o aborto tornou-se proibido a
partir do momento que a gestante realizava essa celebração.
Esse rito está ligado aos ritos próprios do nascimento de uma criança. Como havíamos apontado
no início desta aula, o nascimento é momento de realização de celebrações que são ritos de
passagem. A criança que está sendo gerada no ventre da mãe passa por “estágios” nos quais está
sendo constituída como “pessoa”: o recebimento da alma, a prece pela segurança da criança e da
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gestante, o nascimento e, por fim, a apresentação da criança (Hatsu Miyamairi). Da mesma forma, a
mulher que está gestando tem seus ritos próprios. Ela passa do status de “apenas” mulher para
“mãe”. Junto com o bebê em seu ventre, ela irá se apresentar no santuário e, mais tarde, com ele no
colo, fará a entrega do mesmo para o kami local. Um costume interessante é que, após o nascimento,
a mãe irá permanecer (com a criança, obviamente) junto à casa de seus pais até essa primeira
apresentação no santuário.
5.2 RITOS FUNERÁRIOS
Entre os japoneses, é mais comum que o casamento seja feito por meio dos rituais xintoístas; já
as cerimônias fúnebres, por meio dos rituais budistas. Isso se explica, em parte, pelo fato da proibição
de que nos santuários xintoístas possa haver a presença de cadáveres, o que macularia o ambiente
purificado. Além disso, o ofício dos kannushi está em relação aos kami, faltando a esses sacerdotes,
portanto, o hábito de realizar ritos funerários.
A população japonesa, em sua esmagadora maioria (próximo de 100%) faz a opção pela
cremação do corpo dos falecidos. Isso se deve a dois motivos. Um de ordem da crença – devido à
influência do budismo, uma vez que a prática foi trazida ao Japão já no século VI, outro de ordem
prática – a escassez de espaço no território japonês.
Para o xintoísmo, bem como para o budismo, seria uma desonra e uma profanação que o corpo
passasse pelo processo de corrupção e decomposição, por isso a escolha pela cremação. Essa
compreensão é tão importante que, antigamente, somente os condenados tinham seus corpos
enterrados e não cremados.
Vejamos a seguir algumas etapas dos ritos funerários japoneses.
Em primeiro lugar, o corpo do falecido é preparado. Algumas famílias levam o falecido para casa
para passar a última noite. Pode acontecer de a cerimônia não acontecer no mesmo dia ou dia
seguinte, pois ela pode ser agendada para serem respeitados os dias auspiciosos. Em seguida, é
realizado o velório, quando o falecido é depositado em um caixão e os familiares e amigos se
aproximam para fazerem orações. Um sacerdote (budista) rezará alguns sutras. No caixão são
colocados objetos pessoais do falecido,inclusive moedas e alimentos.
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O que se segue é a cremação do corpo, com a participação da família, que receberá uma urna
com as cinzas do falecido. Essa urna é levada ao altar da família, onde poderá permanecer por 49
dias. Eventualmente é solicitado a um monge budista que dê o “nome póstumo” ao falecido. Esse
nome estará inscrito em uma tabuleta junto à urna. Essa prática é realizada para evitar que o falecido
retorne do mundo dos mortos se o nome dele for pronunciado.
Por fim, as cinzas são enterradas em um jazigo familiar. Essa cerimônia é chamada de nōkotsu.
Uma fotografia emoldurada do parente falecido irá para o altar da família. Algumas datas são
motivos de cerimônias particulares – 7º, 21º, 49º e 100º dias após a morte, bem como o 1º, 3º, 5º, 7º
e 13º anos de falecimento.
5.3 “ANIVERSÁRIOS”
Algumas idades das pessoas têm um significado especial dentro do xintoísmo. Ainda que não
sejam realizadas, necessariamente, celebrações específicas para essas datas, vamos conhecer a
nomenclatura, apenas a título informativo.
Yakudoshi – “anos desafiadores”. São etapas da vida consideradas “desafiadoras”, seja no
aspecto físico, seja nos aspectos psicológico ou emocional. Considera-se a idade de 42 anos
para os homens e de 33 para as mulheres. Cada pessoa, ao atravessar essas marcas, é
convidada a refletir sobre si e reconhecer os desafios e oportunidades que estão à frente.
Kanreki – 61 anos de idade. Coincide com um ciclo completo do zodíaco. Celebra-se o início de
um novo ciclo de vida, avaliando o sentido da própria vida.
Koki – 70 anos. Celebração baseada em um poema do poeta chinês Tu Fu (ou Du Fu), que
enunciava a dificuldade de se chegar a essa idade. Ainda que se perceba um declínio das forças
físicas e intelectuais, é o momento de se focar no essencial da vida.
Kiju – 77 anos. Formado pelos termos ju, que significa longevidade, e ki, cujo caractere kanji é
utilizado para designar sete-dez-sete, ou setenta e sete significando felicidade.
Beiju – 88 anos. Bei utiliza o caractere de “arroz”, o mesmo designado para oito-dez-oito.
NA PRÁTICA
Pesquise na internet que tradições religiosas, como o xintoísmo, recorrem a cremação como rito
funerário. Qual a compreensão de vida pós-morte que essas tradições têm em comum? Relacione,
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em um texto, as diferenças/semelhanças dessas perspectivas pesquisadas com a da tradição religiosa
a que você pertence (ou que você melhor conhece).
FINALIZANDO
Nesta aula vimos que, assim como ocorre em todas as religiões, o xintoísmo também procura
marcar os eventos que compõem o ciclo da vida com cerimônias próprias. Certamente, nem todas as
pessoas que recorrem a essas cerimônias ou que delas participam podem ser consideradas
praticantes ou se identificam como xintoístas, uma vez que muitas dessas celebrações se tornaram
eventos sociais.
Todos esses momentos se apresentam como ritos de passagem para a religião xintoísta – a
entrada na vida (o reconhecimento do indivíduo como membro de uma comunidade maior), a
passagem para a vida adulta, a entrada em uma nova vida por meio do matrimônio com um parceiro,
a passagem para o além-vida por meio da morte e da crença em um novo renascimento. Podemos
perceber que cada um dos momentos segue uma estrutura que se compõe de outros ritos menores e
guardam semelhanças entre si.
Uma mãe, quando está grávida, irá realizar o Anzan kigan, que é a visita a um santuário xintoísta,
pedindo pela saúde e prosperidade da criança. Quando a criança nasce, é levada, com
aproximadamente 30 dias de vida, a um santuário para a “primeira visita” – Hatsu Miyamairi.
Durante a infância, algumas cerimônias são dedicadas a pedir pela vida e agradecer a saúde das
crianças. Para as crianças pequenas temos a cerimônia de Shichigosan. A maioridade é marcada pela
celebração de Seijin Shiki ou Seijin no Hi.
Os ritos matrimoniais são realizados “diante dos kami”. Para tanto, se recorre às orações dos
kannushi nos santuários, no rito que é conhecido como shinzenkekkon.
Algumas idades são lembradas como importantes devido aos desafios que vão surgindo – 42
anos para os homens e 33 para as mulheres. Também os 61, 70, 77 e 88 anos são previstos
momentos de celebração.
Ao fim da vida, os praticantes do xintoísmo realizam ritos funerários que são ligados à tradição
budista, uma vez que não é permitida a construção de cemitério em santuários xintoístas e o enterro
16/09/2020 UNINTER - XINTOÍSMO
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de corpos é visto como uma desonra. Por isso, eles são cremados e colocados em urnas mortuárias e,
só então, enterrados. Seus retratos permanecerão nos altares domésticos para veneração.

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