Prévia do material em texto
2018 Logística EmprEsariaL E EngEnharia dE tráfEgo Oniwendel Felipe de Morais Pereira Copyright © UNIASSELVI 2018 Elaboração: Oniwendel Felipe de Morais Pereira Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: P436l Pereira, Oniwendel Felipe de Morais Logística empresarial e engenharia de tráfego. / Oniwendel Felipe de Morais Pereira. – Indaial: UNIASSELVI, 2018. 172 p.; il. ISBN 978-85-515-0227-3 1.Logiística empresarial. – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 658.78 III aprEsEntação Caro(a) acadêmico(a)! Bem-vindo(a) ao livro basilar para os estudos da disciplina de Logística Empresarial e Engenharia de Tráfego que tem por objetivo construir conhecimentos gerais teóricos e práticos a respeito da logística, bem como da engenharia de tráfego aplicada à indústria da construção civil, no que tange ao planejamento, execução e operação das estruturas afins. É com grande satisfação que escrevo este livro com o intuito de que você, caro(a) acadêmico(a), aproxime-se desta disciplina e perceba o quanto o seu estudo é indispensável na aplicação focada ao desenvolvimento da sociedade brasileira em uma direção que melhore o deficitário setor de logística, bem como promova a modernização da infraestrutura de transportes, tudo isso embasado no respeito à preservação ambiental. Começaremos nossos estudos na Unidade 1, onde são apresentados os fundamentos da Logística Empresarial e os principais conceitos, tais como, projeto de rede, transporte, estoque etc. Também são abordados a evolução da logística até o período atual, a gestão de transportes, os tipos de modais, a gestão de armazéns, a cadeia de suprimentos e a importância do entendimento do processo logístico em escala global, bem como do processo da logística reversa. Por fim, será discutido o processo logístico aplicado à indústria da construção, com o destaque para a relevância da logística direcionada à otimização dos canteiros de obras. Na Unidade 2 são apresentados os principais fundamentos e aplicações da Engenharia de Tráfego. Esses assuntos são abordados em três tópicos. No primeiro é mostrado como identificar os elementos conceituais da Engenharia de Tráfego e como proceder com estudos do volume de tráfego, velocidades de veículos etc.; no segundo são apresentadas as principais definições e fundamentações sobre sinalizações, dimensionamento semafórico etc.; no terceiro são apresentados os principais aspectos relacionados ao estudo de polos geradores, bem como a capacidade de vias simples, vias de duas faixas, vias de faixas múltiplas, dimensionamento de rampas e estacionamentos. Por sua vez, a Unidade 3 trata do estudo dos Sistemas de Transporte Coletivo Urbano, para isso, apresenta-se uma breve introdução sobre a estrutura institucional do transporte público no Brasil, realizando uma revisão da história, importância e desenvolvimento do transporte público, desde o período colonial até os idos atuais. Nesta unidade busca-se o entendimento sobre os conceitos, metodologias básicas e contemporâneas para identificação das características físicas, técnicas e operacionais de IV Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA veículos, equipamentos e os elementos de infraestrutura de transportes, bem como do dimensionamento do sistema de transporte coletivo por ônibus, que atualmente é o mais utilizado no Brasil. Para tanto, este livro de estudos visa contribuir para sua formação acadêmica enquanto parte essencial da construção de um perfil profissional diferenciado a fim de torná-lo conhecedor de suas responsabilidades para com a sociedade cada vez mais ávida por pessoas que façam a diferença. Boa leitura e bons estudos! Prof. Me. Oniwendel Felipe de Morais Pereira V Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais que possuem o código QR Code, que é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar mais essa facilidade para aprimorar seus estudos! UNI VI VII UNIDADE 1 – LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA ............................ 1 TÓPICO 1 – LOGÍSTICA EMPRESARIAL: ASPECTOS GERAIS ................................................ 3 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3 2 FUNDAMENTOS DA LOGÍSTICA EMPRESARIAL .................................................................. 3 3 VISÃO ESTRATÉGICA DA LOGÍSTICA ....................................................................................... 5 4 EVOLUÇÃO DA LOGÍSTICA EMPRESARIAL ............................................................................ 7 5 GESTÃO DE TRANSPORTES E DISTRIBUIÇÃO ....................................................................... 9 5.1 TIPOS DE DISTRIBUIÇÃO FÍSICA .............................................................................................. 11 5.2 MÉTODOS DE DISTRIBUIÇÃO .................................................................................................... 12 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 14 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 15 TÓPICO 2 – PLANEJAMENTO E CONTROLE LOGÍSTICO ........................................................ 17 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 17 2 CADEIA DE SUPRIMENTOS E GERENCIAMENTO DA CADEIA DE SUPRIMENTOS .. 17 3 OPERAÇÕES: PREVISÃO DE DEMANDA E A GESTÃO DE ESTOQUES ............................ 21 3.1 PREVISÃO DE DEMANDA ........................................................................................................... 21 3.2 GESTÃO DE ESTOQUES ................................................................................................................ 23 3.3 PLANEJAMENTO DE ESTOQUES ...............................................................................................27 4 DISTRIBUIÇÃO, ARMAZENAGEM E LOGÍSTICA REVERSA ............................................... 28 4.1 DISTRIBUIÇÃO ............................................................................................................................... 29 4.2 ARMAZENAGEM ........................................................................................................................... 29 4.2.1 Armazenagem: o almoxarifado e sua gestão ...................................................................... 30 4.3 LOGÍSTICA REVERSA ................................................................................................................... 31 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 34 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 35 TÓPICO 3 – LOGÍSTICA APLICADA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL ............. 37 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 37 2 A CONSTRUÇÃO CIVIL E A INDUSTRIALIZAÇÃO ................................................................. 37 3 A CADEIA DE SUPRIMENTOS NA CONSTRUÇÃO CIVIL ..................................................... 38 4 A ETAPA DA MANUFATURA NA CADEIA DE SUPRIMENTOS DA CONSTRUÇÃO .... 41 5 AS ESTRATÉGIAS LOGÍSTICAS NA CONSTRUÇÃO .............................................................. 42 6 TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO NA CONSTRUÇÃO ........................................................ 44 7 TECNOLOGIAS OPERACIONAIS .................................................................................................. 46 8 A LOGÍSTICA NO CANTEIRO DE OBRAS .................................................................................. 48 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 50 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 53 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 54 sumário VIII UNIDADE 2 – ENGENHARIA DE TRÁFEGO .................................................................................. 55 TÓPICO 1 – FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO ............................................ 57 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 57 2 SISTEMAS DE TRANSPORTE .......................................................................................................... 57 3 ELEMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO ........................................................................ 62 3.1 VIA ..................................................................................................................................................... 63 3.2 VEÍCULO .......................................................................................................................................... 64 3.3 PEDESTRE ........................................................................................................................................ 65 3.4 MOTORISTA .................................................................................................................................... 65 3.5 MEIO AMBIENTE............................................................................................................................ 66 4 CARACTERÍSTICAS BÁSICAS DO TRÁFEGO ........................................................................... 66 5 ESTUDO DO VOLUME DE TRÁFEGO .......................................................................................... 69 6 ESTUDO DA VELOCIDADE DOS VEÍCULOS ............................................................................ 71 7 PESQUISA ORIGEM-DESTINO ....................................................................................................... 73 7.1 MÉTODOS DE PESQUISA ............................................................................................................. 73 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 77 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 78 TÓPICO 2 – SINALIZAÇÃO ................................................................................................................. 79 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 79 2 TIPOS DE SINALIZAÇÃO ................................................................................................................. 79 2.1 SINALIZAÇÃO VERTICAL ........................................................................................................... 80 2.2 SINALIZAÇÃO HORIZONTAL.................................................................................................... 86 2.3 SINALIZAÇÃO SEMAFÓRICA .................................................................................................... 89 3 DIMENSIONAMENTO DE SEMÁFOROS ................................................................................... 91 4 SEGURANÇA NO TRÂNSITO ........................................................................................................ 94 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 95 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 96 TÓPICO 3 – ESTUDO DE POLOS GERADORES E CAPACIDADE DE VIAS .......................... 99 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 99 2 ESTUDO DE POLOS GERADORES DE VIAGENS E SEUS IMPACTOS NO SISTEMA VIÁRIO ................................................................................................................................................... 99 3 CAPACIDADE DE VIAS ..................................................................................................................... 102 4 RAMPAS DE ACESSO E ENTRELAÇAMENTO .......................................................................... 104 4.1 RAMPAS DE ACESSO .................................................................................................................... 104 4.2 ENTRELAÇAMENTO ................................................................................................................... 107 5 DIMENSIONAMENTO DE ESTACIONAMENTOS .................................................................... 108 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 111 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 113 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 114 UNIDADE 3 – SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO ....................................... 115 TÓPICO 1 – ESTRUTURAÇÃO INSTITUCIONAL DO TRANSPORTE COLETIVO ............. 117 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 117 2 HISTÓRIA, IMPORTÂNCIA E DESENVOLVIMENTO DO TRANSPORTE PÚBLICO ..... 117 3 TECNOLOGIAS ALTERNATIVAS ...................................................................................................123 3.1 ÔNIBUS CONVENCIONAIS ........................................................................................................ 123 3.2 BRT (BUS RAPID TRANSIT) ......................................................................................................... 123 3.3 VLT (VEÍCULO LEVE SOBRE TRILHOS) .................................................................................. 125 IX 3.4 VLP (VEÍCULO LEVE SOBRE PNEUS) ...................................................................................... 126 3.5 METRÔ .............................................................................................................................................. 127 3.6 MONOTRILHO ................................................................................................................................ 128 3.7 TRANSPORTE AUTOMATIZADO DE PASSAGEIROS (APM) ............................................... 130 4 FONTES DE ENERGIA ....................................................................................................................... 131 4.1 DIESEL ............................................................................................................................................... 132 4.2 ENERGIA ELÉTRICA ..................................................................................................................... 134 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 135 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 136 TÓPICO 2 – SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS .......................... 137 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 137 2 DEFINIÇÕES DE CARÁTER OPERACIONAL .............................................................................. 137 3 CARACTERÍSTICAS FÍSICAS, TÉCNICAS E OPERACIONAIS DE VEÍCULOS, EQUIPAMENTOS E ELEMENTOS DE INFRAESTRUTURA DO SISTEMA ......................... 139 3.1 SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO POR ÔNIBUS ..................................................... 139 4 INDICADORES DE DESEMPENHO DO TRANSPORTE PÚBLICO ....................................... 146 5 CONCEPÇÃO E CARREGAMENTO DA REDE DE TRANSPORTE PÚBLICO .................... 148 6 SISTEMA TRONCO-ALIMENTADO E SISTEMAS INTEGRADOS ....................................... 149 7 PERFIL TEMPORAL E ESPACIAL DA DEMANDA ..................................................................... 151 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 153 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 154 TÓPICO 3 – INTRODUÇÃO AO DIMENSIONAMENTO DE SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO POR ÔNIBUS................................................................. 155 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 155 2 PLANEJAMENTO OPERACIONAL ................................................................................................. 155 3 TARIFAÇÃO .......................................................................................................................................... 157 3.1 CÁLCULO DO CUSTO VARIÁVEL MENSAL (CV) .................................................................. 159 3.2 CÁLCULO DO CUSTO FIXO MENSAL (CF) ............................................................................. 159 3.3 CÁLCULO DA REMUNERAÇÃO PELA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS (RPS) .................. 160 3.4 CÁLCULO DOS TRIBUTOS DIRETOS (ATR) ............................................................................ 161 3.5 CÁLCULO DO CUSTO DA TARIFA PÚBLICA (TPU) ............................................................. 161 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 162 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 164 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 165 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................... 167 X 1 UNIDADE 1 LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir dos estudos desta unidade, você será capaz de: • explicar os aspectos gerais da logística, como seus fundamentos, visão es- tratégica, a evolução, bem como a gestão de transporte e distribuição na logística empresarial; • analisar e definir sobre a cadeia de suprimentos e a importância do seu gerenciamento; • realizar melhorias em operações logísticas, partindo do conhecimento de previsão de demanda, gestão de estoques e da logística reversa; • reconhecer os métodos de aplicação da logística na construção civil, bem como o fluxo da cadeia de suprimentos ligados à construção civil; • realizar atividades básicas de planejamento do canteiro de obra na cons- trução civil. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – LOGÍSTICA EMPRESARIAL: ASPECTOS GERAIS TÓPICO 2 – PLANEJAMENTO E CONTROLE LOGÍSTICO TÓPICO 3 – LOGÍSTICA APLICADA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 LOGÍSTICA EMPRESARIAL: ASPECTOS GERAIS 1 INTRODUÇÃO O mercado moderno é altamente competitivo e nesta competição, a logística surge como um elemento diferenciador para auxiliar na subsistência de empresas e sua relevância ocorre pelo fato de ser um processo de planejamento do fluxo de materiais que foca em duas vertentes, a primeira são as necessidades e a segunda é o tempo. Elas se relacionam no momento da entrega, já que se deve garantir a demanda com a qualidade desejada no tempo certo, otimizando recursos. Essa unidade do conhecimento, denominada logística empresarial, surgiu nos Estados Unidos, na década de 1960 e no meio desse processo se observava que a tarefa de entregar o produto na quantidade certa, no local certo, na hora certa, incluía mais do que o transporte em si. Dessa forma, a logística não se resume apenas ao transporte. De fato, a gestão de transporte acaba sendo um ponto vital para o sucesso da logística, porém o controle e o planejamento no transporte e na distribuição são os elementos que devem ser trabalhados harmonicamente para o sucesso de uma operação logística e, além disso, o entendimento da cadeia de suprimentos é fundamental para a qualidade no produto final. 2 FUNDAMENTOS DA LOGÍSTICA EMPRESARIAL O primeiro fundamento para subsidiar um adequado entendimento da logística é compreender claramente o que esse termo significa. A seguir apresentaremos três conceitos que consideramos importantes. O primeiro deles é este: A logística é o processo de gerenciamento estratégico da compra, do transporte e da armazenagem de matérias-primas, partes e produtos acabados (além dos fluxos de informação relacionados) por parte da organização e de seus canais de marketing, de tal modo que, a lucratividade atual e futura seja maximizada mediante a entrega de encomendas com o menor custo associado. Nesse conceito destacamos a ênfase que se deve atribuir ao controle estratégico da compra, transporte e armazenagem, elementos fundamentais no processo logístico (CHRISTOPHER, 2007 apud COVA; MOTTA, 2009, p. 15). UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 4 Destacamos, a seguir,o segundo conceito, observe com muita atenção que relaciona três elementos, o planejamento; a implementação e o controle da eficiência. Tais elementos são diretamente ligados ao fluxo de armazenagem. A logística é o processo de planejamento, implementação e controle de eficiência, e do custo efetivo relacionado ao fluxo de armazenagem de matéria-prima, material em processo e produto acabado, bem como do fluxo de informações, do ponto de origem ao ponto de consumo com o objetivo de atender às exigências do cliente. Nesse conceito, observa-se a inserção de outro elemento de grande importância para o processo logístico, o cliente, na qual suas demandas devem ser levadas em consideração (LAUGENI et al., 2006 apud COVA; MOTTA, 2009, p. 15). O terceiro conceito é estabelecido por Ronald H. Ballou, um dos profissionais mais respeitados no campo da logística. Nesse aspecto, o autor enfatiza a importância do planejamento, organização e controle nas atividades de fluxo. A logística empresarial estuda como a administração pode prover melhor nível de rentabilidade nos serviços de distribuição aos clientes e consumidores, através de planejamento, organização e controle efetivos para as atividades de movimentação e armazenagem que visam facilitar o fluxo de produtos (BALLOU, 1993 apud COVA; MOTTA, 2009, p. 15). Nos três conceitos apresentados, destaca-se que o planejamento, seja ele na sua forma simples ou de gerenciamento estratégico, sustenta o êxito do processo logístico quando se atende ao planejamento das atividades. Além disso, conforme se observa nos conceitos expressos, bem como na Figura 1, o processo logístico envolve a relação entre três elementos fundamentais: fornecedor, indústria e cliente. FIGURA 1 – PRINCIPAIS MACROPROCESSOS LOGÍSTICOS FONTE: Adaptado de Arbache et al. (2011) Com base nos conceitos observados, surge uma pergunta: Qual deles adotaremos? Para responder a esse questionamento, abordaremos um último conceito difundido também por Ronald Ballou. De acordo com Terzian (2007), Ballou é professor emérito da Weatherhead School of Management da Case Western Reserve University, EUA. Além disso, é reconhecidamente autoridade mundial em logística, sendo considerado por muitos como pai da logística. TÓPICO 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL: ASPECTOS GERAIS 5 Logística é o processo de planejamento do fluxo de materiais, objetivando a entrega das necessidades na qualidade desejada no tempo certo, otimizando recursos e aumentando a qualidade nos serviços (BALLOU, 1999 apud PAURA, 2012). Com base no entendimento do conceito de logística, deve-se esclarecer quais são as atividades que a compõem, para tal essas atividades são divididas em primárias e de apoio da logística. As atividades primárias são transportes; manutenção de estoques; e processamento de pedidos; no que se refere às atividades de apoio: a manutenção das informações, armazenagem, obtenção, embalagem de proteção, manuseio de materiais, bem como a programação de produto. Destacaremos as atividades primárias devido a sua importância como fundamento da logística (PAURA, 2012). O transporte é a atividade de movimentação de materiais, sendo dentro da própria empresa ou entre regiões diferentes. Por sua vez, a manutenção de estoques está relacionada às atividades necessárias para que o estoque esteja adequado à necessidade da demanda. Nesse sentido, essa manutenção desenvolve no produto valor de tempo e permite que haja disponibilidade nos materiais e produtos que serão aplicados à produção. O processamento de pedidos é a atividade com um custo relativamente baixo, porém de grande importância, pois mantém os processos logísticos abastecidos de informações necessárias para o planejamento. 3 VISÃO ESTRATÉGICA DA LOGÍSTICA A logística é um elemento estratégico no mercado moderno, de tal forma que a sua falta de consideração pode levar a diversos fracassos numa cadeia produtiva. A visão estratégica do sistema logístico que uma empresa adotará deverá ser estruturado em pilares que subsidiem o desempenho consistente ao longo do tempo contribuindo para os registros, controles e transmissão de dados instantâneos bem como confiáveis, através de uma contínua redução em dois segmentos: o custo e o nível de investimento em estoques, tanto das matérias- primas como em produtos acabados. Além disso, é fundamental garantir o suprimento contínuo dos materiais estratégicos, de tal forma que a matéria-prima adquirida seja adquirida no tempo adequado para garantir a continuidade da produção sem atrasos ou produção que gere estoques desnecessários. Fomentando o trabalho com essa visão é possível atingir dois objetivos que norteiam o sucesso no mundo empresarial, o primeiro é melhorar a qualidade dos bens vendidos ou dos serviços prestados aos clientes, e o segundo é colocar o produto certo, no local certo, na hora certa, pelo menor preço (OLIVEIRA et al., 2003). UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 6 Caro acadêmico, perceba que a grande meta para qualquer empresa/ indústria moderna é garantir o produto certo, no local certo, na hora certa e pelo menor preço. Não é possível atingir esse objetivo sem haver integração entre todas as atividades que compõem a logística (transporte, armazenagem, estoque entre outras). O foco da instituição deve ser pautado em trabalhar com sincronia, como se fosse um relógio, com peças bem ajustadas e harmonicamente desenvolvendo suas funções; nesse sentido, a frase-chave para o êxito é a comunicação no tempo certo. O sistema de administração eficiente e eficaz é a base de sustentação para alcançar os objetivos estratégicos que são estipulados pela organização, seja a entrega da obra no prazo, a satisfação do cliente com entrega do seu apartamento com a qualidade planejada ou penetração de novos mercados (OLIVEIRA et al., 2003). Basicamente é trivial que a logística é um conceito gerencial indispensável na estrutura do mercado, tanto relacionado em escala regional quanto em escala nacional. Em tempos de crise, muitas empresas/indústrias que não estejam adaptadas às necessidades e ao ritmo do mercado são suplantadas por instituições que trabalham levando em consideração a importância da logística em seu desenvolvimento e até de sua subsistência. Atualmente, a dinâmica do mercado é completamente diferente daquilo que era praticada há algumas décadas. A globalização possibilitou reduzir as barreiras de comércio, de tal forma que um produto pode ser vendido em diversas partes do mundo, o que reflete diretamente nos custos logísticos. Além disso, os avanços tecnológicos possibilitam o gerenciamento mais eficiente e eficaz das operações logísticas, o que desencadeia modelos tecnológicos mais complexos e com acelerada evolução. Isso exige uma postura gerencial desarraigada de modelos tradicionais obsoletos (FLEURY, 2012 apud RODRIGUES; RABELO, 2017). Nesse sentido, chamamos a atenção para indústria da construção civil, que é um dos agentes que impulsionam o desenvolvimento de uma nação. Contudo, essa indústria é fortemente ancorada a técnicas e tecnologias tradicionais, o que prejudica a difusão da logística nesse segmento. Como destacado por Barbosa et al. (2007), ao estabelecer uma comparação entre as indústrias manufatureiras, ele afirma que o subsetor de edificações da construção civil é o que menos usa a logística na gestão de tal forma que isso repercute na produtividade, qualidade, nos prazos e em altos índices de desperdícios. Desse modo, a logística, através da visão estratégica, tende a mitigar grandes problemas relacionados à produtividade, qualidade, prazo e desperdícios na indústria da construção civil. Portanto, torna-se um elemento estratégico, que não deve ser negligenciado. TÓPICO 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL: ASPECTOS GERAIS 7 4 EVOLUÇÃO DA LOGÍSTICA EMPRESARIAL O início da logística empresarial é datado por volta de meados da década 1960, nos Estados Unidos. O setor de transporteestava passando por uma mudança, era notório que somente a atividade de transporte não era suficiente para entregar o produto no local certo, na quantidade certa e no local certo. Estava começando a nascer a ideia de que era necessário promover a integração entre as diversas unidades da logística para que fosse estabelecido um serviço que agregasse um menor custo. Nesse sentido, começava a se consolidar o pensamento de que a logística não era apenas transporte. Parte desse pensamento foi resultado do termo logística que fora empregado pelos militares americanos durante a segunda guerra mundial para designar a atividade que se resumia na entrega dos suprimentos de munições, bem como as demais provisões às tropas em campo. Com o término da segunda guerra, esse termo passou a ser adotado pelo mercado da época, contudo necessitou passar por mudanças e a mais significativa foi retratada no início da década 1960, quando as empresas consolidaram uma nova visão logística embasada principalmente na criação de modelos matemáticos que subsidiavam a solução de problemas complexos, tais como, que unidades de uma instituição deveriam distribuir produtos nos mercados? E como reduzir custos com esse processo? (MACHLINE, 2011). Destacam-se que nesses cenários começaram a surgir fortemente as técnicas quantitativas que empregavam os algoritmos em diversos casos. Uma das áreas que fazia uso dessa roteirização computacional era a gestão de estoques. Com relação aos casos heurísticos, era comum o emprego no segmento da programação da produção; no entanto, a simulação de modelos logísticos era um recurso que demandava de conhecimentos bem mais complexos, de tal forma que o uso dos algoritmos não alcançava esse segmento (MACHLINE, 2011). Caro acadêmico, você sabe o que significa o termo heurístico? Em caso negativo, vamos entender. Esse termo se refere aos processos de aquisição de conhecimentos empregados em decisões não racionais, sendo definidas como estratégias que ignoram parte da informação com o objetivo de tornar a escolha mais fácil e rápida. NOTA Na busca de tecnologias que dessem condições de desenvolver esses modelos logísticos complexos, inicia um processo de modernização inaugurado com o surgimento da teoria dos sistemas que popularizou o conceito de otimização do sistema, visto como um todo, por oposição à subotimização de uma ou algumas de suas partes. Mas o que é subotimização? O funcionamento desse sistema é simples de entender. Se há duas variáveis no sistema logística e a UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 8 gestão prioriza uma em detrimento de outra, ocorre a subotimização, reduzindo o custo de uma variável, mas aumentando o custo de outra. Nesse sentido, Jay Forrester, no Massachussets Institute of Technology (MIT), produziu um material relativo à dinâmica dos sistemas em 1958 e focava na análise bem como na influência da demanda do consumidor final sobre o ritmo de produção para atender ao mercado. Era o princípio de uma nova abordagem na logística, em que as variáveis estão interligadas (MACHLINE, 2011). A partir de então, a logística empresarial ganhou destaque e a partir de 1957 diversas publicações eclodiram sobre essa temática. Os títulos dos livros publicados mostram a evolução do pensamento gerencial, do transporte para a nova área, que, por tradição, guardou a designação de logística, mas, por necessidade de diferenciação do campo militar, denominou-se logística empresarial (business logistics). Em 1957, os professores George P. Baker e Gayton F. Germane escreveram um livro de 523 páginas, Case Problems in Transportation Management. Entre 1960 e 1966, o professor Karl M. Ruppenthal, da Graduate School of Business da Stanford University, editou cinco volumes de trabalhos relativos a transporte, denominados Revolution in Transportation, Challenge in Transportation, Transportation Frontiers, Issues in Transportation Economics e Transportation and Tomorrow, num total de 1.126 páginas. Todavia, em 1963, editou um volume de 173 páginas, com o título New Dimensions in Business Logistics; e outro, em 1968, Business Logistics in American Industry, de 403 páginas. A expressão business logistics estava fazendo sua entrada em cena. Esse marco foi em 1963, J. L. Heskett, igualmente da Stanford University, editou uma obra de 146 páginas sobre Business Logistics: Appraisal and Prospect. Em 1964, veio à luz o primeiro livro didático sobre o tópico em foco, de autoria de J. L. Heskett, Robert M. Ivie e Nicholas A. Glaskowsky Jr, os dois últimos da Ohio State University, com o título Business Logistics, Management of Physical Supply and Distribution. Os livros de logística empresarial sucedem-se. Em 1968, aparece o conhecido livro-texto de John F. Magee, Industrial Logistics; Analysis and Management of Physical Supply and Distribution Systems. Ronald H. Ballou produz, em 1978, seu famigerado livro Basic Business Logistics, Transportation, Materials Management, Physical Distribution. Contudo, no cenário nacional o primeiro livro de logística foi de autoria do então professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Reginald Uelze, saiu do prelo em 1974, com o título Logística Empresarial, uma Introdução à Administração dos Transportes. Deve-se creditar também ao professor Uelze, secundado por colegas de Departamento de Produção e Operações Industriais da FGV-EAESP, notadamente os professores Kurt E. Weil e Wolfgang Schoeps, a iniciativa de convidar os professores Germane e Ruppenthal para ministrar palestras, no ano de 1972, sobre logística empresarial, em São Paulo. Foram as primeiras conferências proferidas no Brasil sobre o tema. Nesse contexto se destacam também o Instituto de Movimentação e Armazenamento de Materiais (IMAM), em São Paulo, e o Centro de Estudos em Logística (CEL), do Instituto de Pós- graduação e Pesquisa em Administração de Empresas (Coppead), fundado em 1991, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Essas instituições foram pioneiras em pesquisas, consultorias e publicações na fase de introdução da logística no Brasil (MACHLINE, 2011, p. 229). TÓPICO 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL: ASPECTOS GERAIS 9 5 GESTÃO DE TRANSPORTES E DISTRIBUIÇÃO Após uma breve revisão histórica da evolução da logística, adentremos os importantes campos da gestão de transportes e distribuição. Primeiramente, é importante sabermos diferenciar a logística daquilo que se entende como “um processo de movimentação de materiais”; pessoas leigas no assunto geralmente confundem o significado de logística e associam exclusivamente ao processo de transporte. Lamentavelmente, essa confusão foi agravada, especialmente, através de um episódio que se tornou fatídico e remonta ao período em que a temática da logística adquiriu grande notoriedade no mercado brasileiro. O segmento empresarial voltado ao transporte de cargas julgou o termo “logística” como uma oportunidade de publicidade e começaram com uma ação simples que ganhou destaque, eles substituíam o nome transportadora, e de forma errônea, gravavam o termo logística. Essa ação ajudou significativamente que houvesse um aprofundamento da associação instantânea da logística como sinônimo de transporte (PAURA, 2012). O transporte, na verdade, é uma importante atividade dentro da logística. Essa atividade é inclusive considerada atividade primária e consiste basicamente na movimentação de mercadorias, não somente de uma região para outra, mas também dentro da empresa. Por exemplo, se necessita levar uma carga de cimento de um estoque de uma determinada concreteira para outro local, onde o cimento entrará em estágio de pré-operação, então essa movimentação é considerada transporte, além disso, quando é computado o levantamento desse custo, esse entra como custo de transporte. A etapa de transporte é vital para a adequada continuidade de operação de qualquer empresa, não importando sua localização geográfica. Não existe empresa que nãodependa do transporte para exercer suas funções, esse processo pode ocorrer de duas formas distantes e/ou dependentes: forma direta e/ou indireta. Como assim? Imagine que você é um engenheiro e trabalha em uma empresa de produção de concreto usinado (concreteira). Sabendo que é você mesmo quem autoriza que haja deslocamento de um funcionário da empresa para trazer o cimento da loja da fornecedora até a concreteira para que assim, posteriormente, possa ser produzido o concreto, então é você quem está fazendo o serviço de transporte! Além disso, como a matéria-prima necessária para produzir o concreto chegou à loja onde você compra o material? Nessa outra etapa também houve um transporte do fabricante de cimento, por exemplo, até a loja onde você adquire este material; e depois o transporte da loja até sua concreteira. Melhorou o entendimento? Em resumo, podemos afirmar que nenhuma empresa consegue administrar seu negócio sem a atividade de transporte. Sem essa atividade não conseguiríamos desenvolver nossa economia, por exemplo (PAURA, 2012). É indiscutível que o transporte é agente fomentador do crescimento econômico para qualquer nação. Caro acadêmico, vamos compreender essa importância? Imagine que uma construtora no estado do Pará foi contratada para executar a construção de um grande galpão para estocar uma grande produção UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 10 de pimenta-do-reino de um fazendeiro na cidade de Tomé-Açu, cujas estradas são de terra e de difícil trafegabilidade no período das chuvas. Os caminhões e maquinários, para adentrarem alguns ramais de acesso, provavelmente irão atolar, talvez demorem dias para cobrir um espaço de 40 km, que em condições normais seria percorrido em aproximadamente trinta minutos. Como se trata de região agrícola e com altíssima trafegabilidade de máquinas pesadas, a construtora dependeria de uma boa condição climática para iniciar as obras e no estado do Pará somente durante, aproximadamente, seis meses do ano é que as chuvas ficam menos intensas. Sabedora dessa dificuldade, a construtora se limitaria a executar obras somente durante seis meses do ano em regiões de difícil acesso. Agora vamos supor que o governo resolva dar uma manutenção mínima a essa estrada, isto é, resolva asfaltá-la. Com essa certeza a construtora aumentaria consideravelmente os seus atendimentos em regiões com estradas ruins e o aumento da produção resultaria na contratação de mais funcionários e haveria mais infraestruturas construídas para atendimento de mais pessoas. Esse exemplo foi hipotético, mas é uma demonstração de como essa articulação motivaria mais empregos, consequentemente mais dinheiro circulando, proporcionando um desenvolvimento econômico à região (PAURA, 2012). Nazário (2012) apud Rodrigues e Rabelo (2017) reforça que o transporte é o segmento que abarca a maior parcela dos custos logísticos, tanto em empresas quanto na participação dos gastos logísticos em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) em países mais desenvolvidos, por isso existe preocupação com a redução de seus custos, para tal a Figura 2 destaca essa análise. FIGURA 2 – CUSTOS LOGÍSTICOS EM RELAÇÃO AO PIB FONTE: Rodrigues e Rabelo (2017, p. 196) TÓPICO 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL: ASPECTOS GERAIS 11 Além da atividade de gestão de transportes, a gestão da distribuição física é outro foco importante dentro do processo logístico. A distribuição se preocupa principalmente com a movimentação de produtos para o cliente. Vale lembrar que não estamos nos referindo ao cliente final. Geralmente, o cliente de uma fábrica não é o consumidor final do produto. Por exemplo, uma empresa que produz tijolos cerâmicos não vende seu produto diretamente à pessoa que irá utilizar o produto. O produto é vendido a um revendedor (atacadista ou varejista). E só depois chega ao cliente final, isto é, aquele que realmente quer comprá-lo para usufruir dele. O processo logístico responsável por essa movimentação é a distribuição física. Algum tempo atrás, especialistas no assunto consideravam que era uma fonte de custos que consumia os ganhos de um determinado período, porém, se queremos minimizar custos totais da empresa e, ao mesmo tempo, maximizar a renda, a abordagem deverá ser feita de tal maneira que um aumento de custo em determinado setor seja, no mínimo, equivalente à redução de custo em outro. Destaca-se que nem sempre aumentar o custo em um processo significa gastar mais. Um custo elevado em um ponto pode significar redução de custos em outro. Cabe, portanto, decidir e calcular se essa redução compensa em relação ao custo extra. Quando se fala em distribuição física é comum que essa expressão seja remetida diretamente ao transporte, porém, esse processo logístico envolve muito mais que isso. A embalagem de um cimento, por exemplo, faz parte deste processo, uma vez que o material escolhido para a proteção do produto depende do modal de transporte utilizado e da roteirização escolhida. Assim, esse é um dos processos logísticos mais complexos dentro da cadeia (PAURA, 2012). 5.1 TIPOS DE DISTRIBUIÇÃO FÍSICA A distribuição física é complexa e na indústria da construção civil esse fato é ainda mais complexo, é natural que haja alguns tipos, os quais variarão de acordo com as diversas circunstâncias que a empresa/indústria venha a enfrentar. Dessa forma, a distribuição física se divide em basicamente duas formas, a primeira é a distribuição que se dá por intermédio da própria empresa que fornece o produto/ serviço e a segunda ocorre quando a empresa contrata um agente terceiro para executar a distribuição, nesse contexto surgem os representantes de vendas e os distribuidores especializados. Esse último pouquíssimo empregado na indústria da construção civil (PAURA, 2012). No que se refere à escolha do tipo de distribuição, ela dependerá de elementos que estão presentes durante o processo de origem até destinação do produto. Para pontuar esses elementos, é essencial identificar bem como deixar claro se será feita a distribuição de bens de produção ou de consumo. Com a identificação do tipo de bem, deve-se proceder à definição do tipo de produção, se será em ritmo acelerado para atender a uma demanda alta do mercado ou se será dentro de um plano industrial para servir a uma demanda baixa, média ou UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 12 esporádica. Por fim, deve-se proceder à definição se o produto será destinado para o consumo em massa, para um uso técnico especializado, para uma transformação realizada em processos de beneficiamento industrial ou para uso supérfluo em alguma cadeia produtiva. Conhecido esse processo, pode-se operar com execução da distribuição física, para tal existem diversos métodos que serão mostrados no próximo subtópico (DIAS, 1993 apud PAURA, 2012). Para saber mais sobre o transporte como estratégia logística, indicamos a leitura do artigo “A importância do transporte na logística empresarial”, de Karina Rodrigues e Maria Helena Rabelo. Acesse: <http://revista.fasf.edu.br/index.php/conecta/article/download/58/pdf>. DICAS 5.2 MÉTODOS DE DISTRIBUIÇÃO Caro acadêmico, quando ocorre uma produção em larga escala para atendimento de uma demanda célere do mercado, como no caso da produção de carne vermelha em que os bovinos são abatidos e beneficiados para atendimento de uma demanda rápida do mercado, é necessário que a empresa possa garantir a execução da distribuição física através dos próprios recursos da instituição, haja visto que quaisquer atrasos na distribuição podem acarretar prejuízos irreparáveis para a empresa. Entre os mais diversos métodos que são aplicados no mercado, este é o mais difícil de observar na realidade, geralmente é aplicado em casos específicos, como aquele citado no exemplo anterior. O que se observa no mercado é que a maior parte dos produtos são comprados frequentemente através de terceiros. Quando ocorre essa situação,a organização passa a utilizar a estratégia de distribuição de seus produtos através de fornecedores especializados em prestar esse atendimento, ou seja, o produtor está utilizando a distribuição por meio de organizações de vendas realizado por terceiros. Além disso, frequentemente a fábrica está instalada numa zona de atratividade fiscal e que por consequência disso é afastada do consumidor final, gerando uma procura por clientes que a organização direciona para terceiros. Além disso, temos outro aspecto, quando o volume de pedido realizado por um comprador é pequeno, torna-se inviável, do ponto de vista financeiro, para a fábrica enviar o pedido de compra (PAURA, 2012). Vamos esclarecer um pouco mais a situação, imagine que você seja um produtor de louças sanitárias. O consumidor, quando adquire esse tipo de produto, compra no máximo algumas unidades, se não apenas uma. Imagine se a fábrica fosse responsável em enviar o produto solicitado? Com certeza seria uma TÓPICO 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL: ASPECTOS GERAIS 13 distribuição extremamente onerosa, haja vista que seria apenas uma unidade. Agora fica mais fácil entender por que as fábricas utilizam uma distribuição terceirizada, leigos podem imaginar que se fosse eliminado o varejista no meio desse processo, o produto sairia com um custo menor, ledo engano, esse raciocínio somente será realista para produtos distribuídos em grandes quantidades (PAURA, 2012). 14 Neste tópico, você aprendeu que: • A logística é o processo de planejamento do fluxo de materiais, objetivando a entrega das necessidades na qualidade desejada no tempo certo, otimizando recursos e aumentando a qualidade nos serviços. • As atividades primárias da logística são transportes; manutenção de estoques; e processamento de pedidos; quanto às atividades de apoio são a manutenção das informações, armazenagem, obtenção, embalagem de proteção, manuseio de materiais e programação de produto. • A logística empresarial surgiu nos Estados Unidos, na década de 1960 e se destaca como a busca pela integração da gestão dos estoques, do armazenamento, das compras, da produção, da comunicação e da informação como necessidade básica para abastecer corretamente, ao mínimo custo possível. • O transporte, na verdade, é uma importante atividade dentro da logística sendo considerada atividade primária. • A distribuição é um ramo da logística que se destina principalmente para a movimentação de produtos para o cliente. • A distribuição feita pela própria organização de venda é o método mais indicado quando existe produção em grande escala para uma distribuição necessariamente acelerada. RESUMO DO TÓPICO 1 15 1 Faça uma dissertação de no mínimo 20 linhas argumentando sobre: “A importância da logística para uma empresa moderna”. Para fundamentar sua argumentação, use trechos desse tópico. 2 Assinale verdadeiro (V) ou falso (F) nas sentenças a seguir: I ( ) Logística é o processo de planejamento do fluxo de materiais, objetivando a entrega das necessidades na qualidade desejada no tempo certo, otimizando recursos e aumentando a qualidade nos serviços. II ( ) O transporte é a atividade de movimentação de materiais, sendo realizada apenas dentro da própria empresa. III ( ) O subsetor de edificações da construção civil é o que mais usa a logística na gestão de tal forma que isso repercute na produtividade, qualidade, nos prazos e em altos índices de desperdícios. IV ( ) Distribuição física se divide em basicamente duas formas, a primeira é a distribuição que se dá por intermédio da própria empresa que fornece o produto/serviço e a segunda ocorre quando a empresa contrata um agente terceiro para executar a distribuição. Agora, com base na sua análise, podemos considerar como CORRETAS, respectivamente: a) ( ) I, III e IV. b) ( ) I, II e IV. c) ( ) Somente I e IV. d) ( ) Somente a IV. e) ( ) Somente I e III. AUTOATIVIDADE 16 17 TÓPICO 2 PLANEJAMENTO E CONTROLE LOGÍSTICO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Com relação ao estudo da logística, é imprescindível compreender e determinar corretamente a cadeia de suprimentos para que desse exercício possa ocorrer o planejamento, bem como o controle dela. De uma forma geral, uma cadeia de suprimentos típica é composta por fornecedores de matéria-prima que entregam insumos de natureza variada para a indústria principal e também para os fabricantes dos componentes que participam da fabricação de um determinado produto. A indústria, no caso a construção civil, fabrica o produto em questão, que é distribuído aos clientes. Nesse contexto, surge o Supply Chain Management, que objetiva a junção harmonizada dos processos industriais com os comerciais, iniciando do consumidor final até os fornecedores iniciais, de tal forma que desenvolvam produtos, serviços e informações que tenham valor para o cliente. Para gerenciar essa cadeia fazem-se necessários diversos métodos, tais como o método de previsão de demanda, que se divide basicamente em dois grandes grupos, métodos qualitativos e métodos quantitativos. Tais métodos ajudam a determinar a alimentação da cadeia de suprimentos. No entendimento desse processo e aplicação na construção civil, torna-se muito importante gerir o estoque de uma obra adequadamente, já que ele reflete um desequilíbrio entre oferta e demanda que pode gerar três situações intencionais: estoque intencional, estoque ocasionado por ausência de planejamento e estoque ocasionado por falha de planejamento. 2 CADEIA DE SUPRIMENTOS E GERENCIAMENTO DA CADEIA DE SUPRIMENTOS Quando adquirimos um produto, não imaginamos o longo processo necessário para converter matéria-prima, mão de obra e energia em algo útil ou prazeroso. Muitas vezes, produtos complexos, como um apartamento, requerem matéria-prima de natureza variada (metais, plásticos, borracha, madeira) e são montados a partir de um número muito elevado de componentes. Noutros casos, como um bloco cerâmico para alvenaria, o produto é formado por um elemento básico (argila/argilito), mas há que se considerar também o suporte de aditivo, a UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 18 água e o fogo. Na maioria dos casos, o caminho é mais longo. Uma central de ar, por exemplo, utiliza componentes fabricados por outras indústrias, como é o caso do compressor. A fábrica de compressores, por sua vez, demanda fios elétricos e outros elementos para sua fabricação, componentes que são produzidos por outras empresas. Esse longo caminho que abrange desde as fontes de matéria-prima e vai até as fábricas dos componentes passando pela manufatura do produto, pelos distribuidores e chegando finalmente ao consumidor através do varejista constitui a cadeia de suprimento. A cadeia de suprimento típica é mostrada na Figura 3. Os insumos de natureza diferenciada são entregues por diversos tipos de fornecedores para a indústria principal, bem como para os fabricantes dos componentes que participam do processo de desenvolvimento de determinado produto. Por sua vez, a indústria fabrica o produto em questão, que é distribuído aos varejistas e, em parte, aos atacadistas e distribuidores. Esses últimos fazem o papel de intermediários, pois muitos varejistas não comercializam um volume suficiente do produto que lhes possibilite a compra direta, a partir do fabricante. As lojas de varejo, abastecidas diretamente pelo fabricante ou indiretamente por atacadistas ou distribuidores, vendem o produto ao consumidor final. Há ainda outros aspectos não considerados na Figura 3, como a logística reversa e as operações de pós-venda. Quando se fala na cadeia de suprimento, pensa- se imediatamente no fluxo de materiais, formado por insumos, componentes e produtos acabados. Por isso, as setas na Figura 3 são orientadas de cima para baixo. Mas esse não é o único tipo de fluxo na cadeia de suprimento (NOVAES, 2007). FIGURA 3 – CADEIA DE SUPRIMENTO TÍPICA FONTE: Novaes (2007, p. 39) TÓPICO2 | PLANEJAMENTO E CONTROLE LOGÍSTICO 19 Até algumas décadas atrás, as grandes indústrias geravam a maior parcela dos objetos necessários à fabricação de seus produtos. Isso era possível porque conseguiam produzi-los com custos mais baixos e, por questões estratégicas e de poder econômico, não gostavam de ficar na dependência de fornecedores. A tendência então era a verticalização industrial. Nesse contexto, os estudos de Michael Porter, divulgados por volta dos idos de 1980 sobre estratégias competitivas, possibilitaram adquirir a visão de que a vantagem competitiva é conquistada quando a instituição adota esquemas direcionadas e a partir daí cria um itinerário para alcançá-los. No entanto, caro acadêmico, convido-o a pensar na seguinte questão, como definir meios para chegar aos objetivos criados? Porter (1999), quando desenvolve o seu conceito de core competence, elucida que a empresa deve focar na execução de determinados itens da sua atividade primaria, aqueles que tiver maior domínio técnico e tecnológico, possibilitando gerar elementos da cadeia de produção com melhor qualidade e menor custo e além disso, para produzir os demais elementos que constituíram o restante do produto, deve estudar cuidadosamente a delegação da produção para empresas que detenham melhor domínio técnico e tecnológico. Percebe-se que essa ideia permeou fortemente diversas empresas de tal forma que além dos componentes e matérias-primas, atualmente, variados serviços de naturezas distintas são desenvolvidos por outras empresas, tais como a distribuição, armazenagem, transporte bem como muitos outros. Contudo, é fundamental o entrosamento entre as empresas participantes, com um grau de confiança mutuamente elevado (NOVAES, 2007). Contudo, destaca-se que esse entrosamento da cadeia produtiva é imperado ainda por uma atitude classista. Assim como a Lei de Darwin se aplica ao meio ambiente selecionando o ser vivo mais adaptado ao meio para continuar existindo em um hábitat, o mesmo ocorre numa cadeia produtiva, o elemento mais forte nessa cadeia é aquele mais adaptado a lidar com as nuances dos membros mais influentes dela. Dessa forma, muitas empresas que não coadunam com as práticas desleais/classistas são expurgadas do mercado. Novaes (2007) cita um exemplo corriqueiro, oriundo da existência de uma ligação mais íntima das empresas na atualidade, quando ocorre geralmente que em caso da entrega de uma carga de um determinado produto em atraso ao transportador, a documentação evidenciará que esse atraso não existiu na etapa predecessora, dessa forma se transfere a ineficiência de um dos participantes aos demais elementos da cadeia. Esse tipo de atitude está obviamente relacionado ao desbalanceamento de poder entre as empresas participantes. Aquela que fala mais alto, mostrando seu poder, acaba, muitas vezes, impondo situações irregulares aos elos mais fracos da cadeia de suprimento (NOVAES, 2007). A realidade de muitas empresas no mercado brasileiro, caracterizado como estagnado por uma crise política e econômica iniciada ainda em 2014 e presente até os dias atuais, permite criar a tese de que uma abordagem classista não é bem-vinda no mercado, haja vista que gera incredulidade, isso prejudica imagem de qualquer empresa. Considera-se como importante fator de crescimento a mentalidade de que os ganhos que são obtidos pelas empresas quando avaliadas UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 20 num esquema de integração justa de atividades são bem mais expressivos que aqueles praticados por membros individuais na cadeia de produção. Como citado por Novaes (2007), deve-se empregar o jargão logístico, a união dos participantes da cadeia de suprimento, buscando ganhos globais, deve se transformar em um processo ganha-ganha, em que todos ganham e não somente uns em detrimento dos demais. Contudo, esse sonho tangível necessita da extirpação de algumas barreiras e uma delas é a alta cúpula organizacional da empresa que precisa passar por uma atualização, além disso a empresa necessita buscar a implantação meios tecnológicos no controle da cadeia, e por fim uma outra grande barreira é fomentar a continua realização Benchmarking. Caro acadêmico, você sabe o que significa o termo benchmarking? Basicamente, consiste no processo de busca das melhores práticas numa determinada indústria/empresa e que conduzem ao desempenho superior. Alguns associam erroneamente ao termo “espionagem industrial”, contudo, é completamente diferente, haja vista que é troca de experiências consentida e programada pelos participantes. NOTA Esse tipo de operação logística integrada moderna é denominado Supply Chain Management (SCM), ou, em português, Gerenciamento da Cadeia de Suprimento (NOVAES, 2007). A seguir podemos observar a famigerada definição que foi adotada no Fórum de Gerenciamento da Cadeia de Suprimento realizado na Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos. Supply Chain Management é a integração dos processos industriais e comerciais, partindo do consumidor final e indo até os fornecedores iniciais, gerando produtos, serviços e informações que agreguem valor para o cliente. É importante notar que o novo conceito de SCM focaliza o consumidor com um destaque excepcional, pois todo o processo deve partir dele, buscando equacionar a cadeia de suprimento de maneira a atendê-lo, na forma por ele desejada. Outro ponto importante a destacar é a integração exigida entre todos os elementos da cadeia de suprimento. Há também o caráter estratégico da Logística, dentro da conceituação moderna do SCM (NOVAES, 2007, p. 40). Essa nova concepção da logística é caracterizada, principalmente, pelo surgimento dessa visão integracionista no tratamento dos problemas logísticos. O SCM promove uma nova forma de entendimento em que a união entre os processos ao longo da cadeia de suprimento continua a ser realizada baseada no fluxo de materiais, de informação e de dinheiro, mas, agora, os agentes participantes atuam em harmonia e de forma estratégica, objetivando que os resultados possíveis sejam os melhores, tanto em relação à redução de custos quanto aos desperdícios e à agregação de valor para o consumidor final. Há, assim, uma quebra de fronteiras, que antes separavam os diversos agentes da cadeia TÓPICO 2 | PLANEJAMENTO E CONTROLE LOGÍSTICO 21 logística. Nas outras fases, cada elemento da cadeia de suprimento tinha um papel bem delineado: o fornecedor entregava a matéria-prima para o fabricante, a indústria fabricava o produto e o entregava ao varejista, e este o comercializava em suas lojas. Na quarta fase da logística, essa separação já não é mais nítida, havendo uma interpenetração de operações entre elementos da cadeia – Figura 4 (NOVAES, 2007). FIGURA 4 – GERENCIAMENTO DA CADEIA DE SUPRIMENTO FONTE: Novaes (2007, p. 49) 3 OPERAÇÕES: PREVISÃO DE DEMANDA E A GESTÃO DE ESTOQUES No sistema de gerenciamento logístico as atividades de operação se destacam por garantirem um controle adequado dos recursos dentro da organização, já que entre os diversos objetivos desenvolvidos no segmento de operações, encontra-se aquele voltado para identificar e equilibrar a previsão de demanda ao nível de estoque que uma organização armazenará com intuito de atender a uma produção contínua, sem gerar desperdícios ou acúmulos desnecessários de matéria- prima, bem como do produto em si. 3.1 PREVISÃO DE DEMANDA Considerando que há uma desigualdade entre o fornecimento e a demanda, bem como uma diferença de tempo entre o início da produção de um produto e sua disponibilização para os consumidores, as empresas devem buscar a previsão de demanda para estar sempre à frente do mercado e possibilitar que seus consumidores tenham seus produtos conforme a sua ânsia de consumo. Para UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 22 consegui atender à expectativa do mercado garantindo planejamento rentável ao empresário, surge os métodosde previsões de demanda, esses aspectos são reforçados logo a seguir por Soares e Pereira (2006, p. 2), vejamos. Nesse sentido, as previsões de demanda são a peça-chave em diversas áreas na gestão de organizações. A área financeira, por exemplo, planeja a necessidade de recursos analisando previsões de demanda de longo prazo; as mesmas previsões também servem às áreas de recursos humanos e marketing, no planejamento de modificações no nível da força de trabalho e no agendamento de promoções de vendas. Talvez mais do que em qualquer outra área de uma organização, previsões de demanda são essenciais na operacionalização de diversos aspectos do gerenciamento da produção. Há vários exemplos, tais como a gestão de estoques, o desenvolvimento dos planos agregados de produção e a viabilização de estratégias de gerenciamento de materiais. Baseado no tipo de série temporal que se deseja analisar, há diversos parâmetros que podem ser utilizados na previsão de seus valores futuros. A escolha do modelo mais adequado é realizada partindo do somatório dos erros produzidos por cada modelo. Uma vez que o cálculo dos erros pode resultar em valores positivos e negativos, diferentes formas de cálculo para o somatório dos erros podem ser empregadas. Essas diferentes formas de cálculo constituem-se em critérios para escolha de modelos mais apropriados às séries temporais. Rosa (2011) salienta que o cálculo da previsão de demanda nem sempre é simples e sofre influência de vários fatores, como envolvimento humano, comportamento da economia, incertezas naturais do futuro, mudanças de comportamento social e introdução de novos produtos pelos concorrentes. Os métodos de previsão de demanda são agrupados em dois tipos: métodos qualitativos e métodos quantitativos. Os métodos qualitativos são construídos embasados numa visão não numérica, fruto da experiência de profissionais da instituição que apresentam certa vivência no mercado, tais como, os gerentes, os executivos, entre outros. No que se refere aos métodos quantitativos, podem ser denominados também de métodos estatísticos, são fundamentados em modelos matemáticos concretos, extraídos da teoria da estatística para fazer análises mais detalhistas e que subsidiem resultados tangíveis a realidade empregada no mercado. Como existem vários métodos quantitativos, eles basicamente podem ser divididos nos seguintes tipos: previsão ou séries temporais (média móvel, média móvel ponderada, entre outros), regressão estatística e simulação de cenários (ROSA, 2011). Dentre esses métodos, citam-se: • Pesquisa de mercado, método qualitativo que busca levantar as necessidades e a satisfação dos clientes por meio de informações, como o nível atual de satisfação do cliente e o impacto da introdução de novos produtos/serviços. • O painel de consenso, método qualitativo que visa aglutinar as diversas experiências dos diversos profissionais do mercado. • A analogia histórica, método qualitativo que tem a função de analisar a história do mercado e o comportamento da sociedade para prever como será a introdução de novos produtos no mercado. TÓPICO 2 | PLANEJAMENTO E CONTROLE LOGÍSTICO 23 • A média móvel, método quantitativo que nada mais é do que a soma dos valores históricos divididos pelo mesmo número de dias, ou outro intervalo, do período analisado, gerando um novo ponto que ligado ao gráfico gera uma linha chamada de média móvel. FIGURA 5 – CÁLCULO DA DEMANDA PELO MÉTODO DA MÉDIA MÓVEL SIMPLES FONTE: Rosa (2011, p. 103) O método de correlação entre variáveis, ou regressão, consiste numa metodologia quantitativa, na qual embasado numa rede de dados históricos buscar-se-á a correlação entre as variações que ocorrerem/ocorrerão entre dois mais dados desse conjunto. Vamos exemplificar para você entender melhor: quando há uma greve de caminhoneiros, tende a ocorrer uma falta de insumos básicos da construção civil, como o cimento, e deve aumentar também o valor financeiro desses produtos em falta no mercado; ou, quando aumenta a temperatura da cidade, deve-se aumentar os cuidados com o processo de cura no concreto. Dessa forma, podemos estabelecer diversos exemplos em que um fato histórico afeta de forma significativa toda uma cadeia de produção, isso pode acarretar diversos prejuízos, como aumento de insumos, mão de obra, atrasos em cronogramas etc. (ROSA, 2011). 3.2 GESTÃO DE ESTOQUES O estoque pode ser entendido como determinada quantidade da base produtiva ou do produto final que ainda não foi utilizado pela empresa ou comprado pelo seu cliente. O estoque basicamente gera um desequilíbrio entre oferta e demanda que pode ocasionar pelos menos três situações: estoque intencional, estoque ocasionado por ausência de planejamento e estoque ocasionado por falha de planejamento (ROSA, 2011). A formação de estoque intencional se dá quando a organização objetiva galgar vantagem, tais como a redução nos gastos de aquisição ou de transporte, através da compra de uma quantidade maior de produtos para atender a sua necessidade ligada à base de produção. Na manufatura de produtos acabados, é possível que ocorram estágios em que o lote ideal de produção gera uma redução UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 24 significativa do custo de produção que justifica o custo do estoque. Na situação de estoque gerado por falta de planejamento, não existem justificativas para a área de logística da empresa. É irracional permitir a hipótese de tratar da questão de estoque sem planejamento. Caso ocorra a falta de planejamento, deve-se readequar toda a estrutura da equipe de logística e da alta direção da empresa, visando implantar o planejamento de estoque e de logística para atendimento dos preceitos da organização. Se houve erros no planejamento de estoque, a equipe deve ser educada imediatamente para que desenvolva ações visando que não ocorram mais equívocos. Podemos considerar três motivos corriqueiros: variações de demanda não previstas, problemas no sistema de transporte não previstos e erro técnico do próprio planejamento. Conforme o produto e seu mercado, as demandas podem variar substancialmente. No entanto, existem ferramentas de marketing muito eficazes que permitem uma previsão de demanda com faixas de variação bem pequenas e que devem ser usadas para amenizar esses erros. Essa falha reflete a falta de capacitação da equipe de Gestão de Estoque, seja no mercado em que está atuando, seja na falta de capacitação para o uso de ferramentas modernas de marketing. No caso de produtos, há diversas ferramentas para auxiliar o analista de logística. Problemas sistemáticos de transporte refletem uma política de transporte ineficiente da organização que, por conseguinte, interfere diretamente na Gestão de Estoque. Nesse caso, a equipe de Gestão de Transporte deve agir de forma contundente, visando à reformulação de toda a rede de transporte, seja de suprimento, seja de distribuição física (ROSA, 2011). Uma organização deve analisar a manutenção de estoques, haja vista que é praticamente impossível que ela trabalhe com estoque zero. Por isso, analisaremos a seguir os estoques e os seus diversos tipos em relação ao seu material de composição. O estoque de matéria-prima são aqueles insumos básicos da produção que são adquiridos pela empresa/indústria e acondicionado em local próprio para a garantia da produção. Por exemplo, na construção civil é comumente adquirido um quantitativo grande de cimento, que será estocado por até três meses e é utilizado como matéria-prima para diversos produtos/serviços, como assentamento da alvenaria, chapisco, concretagem de uma viga etc. Estoques durante o processo de trabalho surgem em cadeias de produção que apresentam uma rede de trabalho em série. Podemos exemplificar com o caso da execução de uma viga de concreto: primeiramente, ocorre a armação da ferragem da estrutura de concreto, o aço é montado pelo armador de ferragem de acordocom o projeto e posteriormente estocado; na segunda etapa, é montado a forma de madeira da estrutura de concreto no local aonde será futuramente concretado o elemento; na terceira etapa, a armação metálica será colocada na forma; e na última etapa ocorre a concretagem da viga (basicamente a fabricação desse produto ocorre dessa forma, com algumas variações construtivas que dependem da região do país bem como do tamanho das estruturas). Enfim, todos esses produtos recebem a nomenclatura de estoques durante o processo de trabalho. TÓPICO 2 | PLANEJAMENTO E CONTROLE LOGÍSTICO 25 O estoque de produtos acabados, no caso da construção civil, isso ocorrerá em determinadas situações de mercado. O produto acabado é resultado da produção manufatureira da indústria da construção civil. Nesse caso podemos pensar na situação da entrega de um edifício com diversos apartamentos, onde o produto estará concluído, porém nem sempre todas as unidades estão vendidas e às vezes ficam meses ou até anos estocadas, até que se consiga vender. Para o estoque de peças de reposição, o seguimento da construção civil geralmente adota essas reservas para atendimento de demandas ligadas à manutenção da jornada contínua da produção ou ainda podem ser produtos adquiridos de forma peculiar e que porventura de características específicas não serão mais passíveis de fabricação ou serão produzidas com outras características. Um exemplo que ocorre com muita frequência na construção se refere à execução de pisos cerâmicos. As peças cerâmicas são oriundas de uma matriz de produção que utiliza argila em sua composição, o que implica uma grande variação de tonalidade de um lote para outro. Quando a construtora realiza a medição do quantitativo que será empregado para execução do serviço, ela solicita peças de reposição, geralmente no percentual 3% a 5%, em virtude das perdas que ocorreram ao longo da construção e que porventura da peculiaridade produtiva do material dificilmente se conseguirá comprar com uma tonalidade igual ao de um outro lote. Para Rosa (2011) ainda podemos classificar os estoques em razão do papel que ele exerce na organização. No quadro a seguir apresentaremos esta classificação. TIPO DE ESTOQUE DEFINIÇÃO Estoque de trabalho Não muito aplicável na construção civil, mas se refere ao que está disponível para oferta/entrega no mercado, seja ele um apartamento, casa ou até mesmo serviço. Estoque de ciclo de produção Refere-se ao estoque necessário de suprimentos para atender à demanda de produção no canteiro de obras ou um serviço fim de uma empresa de construção civil. Por exemplo, fios elétricos para execução da instalação de um sistema de baixa tensão ou equipamentos de sondagem de solo, para atender execução de testes do tipo SPT (Stand Penetration Test). QUADRO 1 – ESTOQUES APLICADOS NA CONSTRUÇÃO CIVIL UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 26 Estoques de Segurança (ESs) São comumente empregados na construção civil e são mais utilizados para os suprimentos do que para produtos acabados. No suprimento, normalmente, o Estoque de Segurança (ES) é gerado em razão das incertezas do tempo de entrega dos produtos adquiridos. Essa incerteza pode ser causada por um fornecedor que não seja muito confiável ou por um sistema de transporte pouco confiável. Uma fórmula prática de cálculo de ES, pressupondo a demanda variável e o intervalo de reabastecimento fixo, é a seguinte: ES = (Intervalo de abastecimento Médio x Demanda Média)/ [Dias úteis] FONTE: Rosa (2011, p. 97-98) Quanto aos custos, destacam-se sete itens que compõem o custo total do estoque: 1º - Custo de capital: é o valor pecuniário empregado para se manter estocado um produto. O custo destinado ao estoque poderia ser aplicado em instituições financeiras e propiciar ganho de capital à empresa em contraposição ao estoque parado, bem como o dinheiro estagnado nos estoques poderia também ser aplicado em investimentos em outras áreas da empresa para gerar mais produção ou torná-la mais eficiente. 2º - Custo de gerenciamento do estoque: diz respeito ao custo de pessoal necessário para controlar o estoque e o custo de seguro necessário para os produtos em estoque. 3º - Custo de armazenagem: é formado pelo custo do espaço ocupado, do manuseio do produto e de outros custos de armazenagem que porventura existam. 4º - Custo referente ao risco: ocorre quando existem roubos e avarias no estoque armazenado, além de o custo do estoque se tornar obsoleto em razão da introdução de novos produtos. 5º - Custo de colocação de um pedido: apesar de não ser um custo específico do estoque, é fixo, independentemente do tamanho do pedido, e, portanto, deve ser analisado. Pedidos maiores tendem a ter custos de gerenciamento menores. 6º - Custo de setup: refere-se aos pedidos específicos de um cliente. A organização deve parar toda a produção visando configurar, setup, todas as máquinas, a fim de produzir o produto solicitado. Nesse caso, também, o custo de setup é constante, independentemente do tamanho do pedido, e, portanto, quanto maior o pedido, mais diluído será esse custo. 7º - Custo da perda de venda: é de difícil mensuração, no entanto, deve ser sempre analisado o custo de cada produto e, sobretudo, o impacto da perda de um cliente e, consequentemente, o custo do esforço eventual para se recuperar esse cliente. Normalmente, esse esforço é feito pela equipe de marketing. TÓPICO 2 | PLANEJAMENTO E CONTROLE LOGÍSTICO 27 3.3 PLANEJAMENTO DE ESTOQUES O planejamento de estoque, principalmente no que tange a produtos acabados, pode ser dividido em duas categorias: método de empurrar estoques e método de puxar estoques. Devemos sempre analisar a possibilidade de utilizar qualquer um dos dois e verificar qual dos dois gera o menor custo global para a organização (ROSA, 2011). A metodologia de empurrar estoques é comumente empregada para as empresas que tenham diversos Centros de Distribuição (CDs) e funciona através de um fluxo intermitente de envio. Na construção civil, esse caso geralmente ocorre quando uma empresa possui diversos canteiros de obras e a administração central pode planejar o envio de materiais excedentes para um determinado canteiro, aproveitando assim para alimentar com recursos a obra que possui menos aparatos logísticos para a demanda de produtos (ROSA, 2011). A metodologia de puxar estoques é o tipo mais aplicado na construção civil, a construtora solicita o quantitativo de materiais aos diversos membros da cadeia produtiva, sejam eles outros canteiros de obras ou lojas especializadas na venda de produtos. Dessa forma, o planejamento de estoque deve ser mais preciso e detalhista. Por causa desse melhor planejamento, frequentemente, a empresa consegue quantidades totais de estoques menores e, por conseguinte, gastos de estoques menores. Contudo, o custo do processamento do pedido tende a aumentar, uma vez que há uma tendência ao aumento de pedidos, os quais possuem custos de tratamento independentemente do seu tamanho, dessa forma, pode haver, eventualmente, aumento do custo da produção fomentado por esse fato (ROSA, 2011). Segundo Rosa (2011), existe outro método de planejamento de estoque aplicado a matérias-primas e a produtos acabados. Apesar de não ser um método de gerenciamento de estoque, é importante entender essa ferramenta, pois com ela é possível concentrar os esforços nos produtos que realmente geram impactos significativos nos resultados do gerenciamento. Além disso, destaca-se que esse método é amplamente utilizado na construção, por isso requer uma atenção especial. A Curva ABC, também denominada de Gráfico de Pareto, possui diversas aplicações, mas é frequentemente utilizada como um método de planejamento de estoque aplicado em matérias-primas. Na construção civil, ela consiste na execução de um diagnóstico embasado numa frequência de tempo, normalmente de 30 a 90 dias. Nela, o consumo é determinado emfunção de duas variáveis, o valor monetário e a quantidade de itens no estoque. Por fim, esses dados são exibidos através de um esquema que fornece uma classificação em ordem decrescente de importância. Como sugere o nome do gráfico, ela é dividida em três classes que irão determinar as prioridades que serão adotadas. Acompanhe abaixo a definição dessas classes. UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 28 • Classe A: são elencados itens muito importantes, 10 a 20% dos itens representam algo em torno de 80% dos valores monetários. • Classe B: são itens de importância intermediária, 20 a 50% dos itens representam aproximadamente 20% dos valores monetários. • Classe C: são os componentes de menor importância, representam cerca 50% dos itens que estão relacionados acerca de 5% da utilização em valores monetários. Contudo, reforçamos que os valores indicados não são absolutos. Tais quantitativos podem variar em função da complexidade da obra. FIGURA 6 – SISTEMATIZAÇÃO DA CURVA ABC FONTE: Rosa (2011, p. 113) 4 DISTRIBUIÇÃO, ARMAZENAGEM E LOGÍSTICA REVERSA Atualmente, no segmento da construção civil, é extremamente importante entender que um planejamento consciente se executa através do controle preciso do processo de distribuição e armazenagem, de tal forma que isso possibilita o desenvolvimento de um cenário de vantagem competitiva diante de um mercado em crise. Além disso, é fundamental entender que a mentalidade da logística reversa permeia vários segmentos do mercado e estabelece um novo marco para as empresas competirem num ambiente voltado à redução da degradação ambiental. Por exemplo, uma máquina utilizada no canteiro de obras que atingiu sua vida útil não deve ser mais descartada em qualquer local, algumas fabricantes já oferecem a possibilidade de receber de volta esse material, quando será adequadamente descartado. TÓPICO 2 | PLANEJAMENTO E CONTROLE LOGÍSTICO 29 Mas, antes de tudo, vamos entender acerca do processo de distribuição, o que já começou a ser visto nos subtópicos anteriores. 4.1 DISTRIBUIÇÃO No tópico anterior se realizou uma sucinta explanação acerca do processo da distribuição, e nesse trecho destacamos que esse importante elemento da logística é destinado ao planejamento e controle dos elementos que compõem o processo produtivo, garantindo que os produtos consigam ser alocados em seu destino final através de etapas organizadas, que englobam as atividades de gestão de estoque, transporte e armazenagem. O primeiro elemento que deve ser considerado é a distribuição física, que se dá através do deslocamento dos produtos/serviços de um lugar para outro. Esse deslocamento geralmente ocorre da origem da produção até o lugar de uso e consumo, com ou sem a presença de intermediários. Outra modalidade aplicada no mercado para a distribuição é aquela que ocorre através da venda direta, na qual não se utilizam atravessadores no processo, contudo a outra modalidade denominada de venda indireta é o processo mais comum no mercado e também da indústria da construção civil, ocorre quando o produto/serviço passa por vários intermediários até chegar ao consumidor final (FERNANDES; CORREIA, 2012). 4.2 ARMAZENAGEM A armazenagem é a gestão do ambiente físico adequado para manter os estoques de produtos. Ela agrupa os problemas como o dimensionamento de área; a ordenação física; a reposição de estoque; o projeto de docas, ou de baias de atracação; e o layout do armazém. Além disso, se ocupa também da organização dos processos que envolvam a transferência dos produtos bem como dos veículos de transporte para dentro dos armazéns e vice-versa. Na atualidade, esses depósitos devem ser considerados em duas vertentes. A primeira, refere- se ao caráter ocupacional do espaço, onde os armazéns devem ser planejados como locais de armazenagem e guarda dos produtos e/ou matérias-primas. A segunda, deve considerar esses depósitos como componentes de ligação dentro de uma cadeia produtiva, oferecendo a oportunidade de transferência conforme o surgimento da necessidade. Tais depósitos apresentam um alto custo para empresa, que perpassam desde a sua construção até no processo de operação, o que gera uma despesa considerável no orçamento de qualquer companhia. Por isso, devem ser planejados com criteriosa analise e estudo para evitar investimento desnecessários. (ROSA, 2011). UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 30 4.2.1 Armazenagem: o almoxarifado e sua gestão Na construção civil a armazenagem se destaca pela sua importância dentro da cadeia construtiva e recebe uma nomenclatura própria, almoxarifado. O almoxarifado é um local destinado ao acondicionamento e à manutenção em estado perfeito de materiais e adequado à natureza dos produtos ali depositados. Atende à entrada e à saída de qualquer material do estoque, mantendo os registros de todas as movimentações. No que se refere ao uso de tecnologias, destacamos uma das ferramentas mais utilizadas nos almoxarifados que são os WMS (Warehouse Management System), programas computacionais utilizados para reduzir a ação humana nesses espaços, executando o planejamento eletrônico do trabalho. Percebe-se que através da implantação desses softwares é possível à empresa obter informações bem detalhadas, perpassando desde a entrada/saída do estoque bem como da localização de cada item dentro da área de armazenamento, de tal forma que se possa vencer os erros e a acelerar os processos do armazém. Assim, aplicação dessas ferramentas bem como outras têm o objetivo de garantir que não haja divergências de inventário e perdas de qualquer natureza (ROSA, 2011). Basicamente, o almoxarifado apresenta três missões fundamentais. A primeira é de receber materiais, etapa que inicia quando os materiais são entregues fisicamente pelo fornecedor e finalizar quando os produtos/insumos recebidos são acondicionados no estoque. A segunda é a entrega de materiais, ressalta-se que essa ação não é apenas despachar o que fora recebido na fase anterior, mas consiste em aplicar um sistema de controle de saída de materiais para que se possa determinar fidedignamente o que está deixando o estoque, geralmente em canteiros de obras mais estruturados esse processo se dá através do preenchimento de formulários de requisições. Por último, o almoxarifado tem a função de realizar a manutenção do estoque, através do controle do quantitativo mínimo necessário ao seu adequado funcionamento bem como prover aos interessados as informações mínimas de cada item de sua composição. Nota-se que a fase inicial do processo de entrada de materiais num canteiro de obras é fundamental para o avanço qualitativo da obra, haja visto que caso ocorra um problema na entrada este avançará para outras etapas da cadeia produtiva de tal forma que prejudicará a qualidade do produto final. Nesse sentido Rosa (2011, p. 135) destaca que “na recepção, deve ocorrer a conferência quantitativa e qualitativa do material recebido. O recebimento compreende quatro fases”. Tais fases destacamos logo a seguir. • Entrada de materiais: o primeiro passo a que o responsável do almoxarifado deve proceder é a conferência da documentação, principalmente através de três elementos, o primeira é se a carga possui nota fiscal, o segundo é se o carregamento chegou conforme a programação agendada e o terceiro é inspecionar a estrutura física do carregamento para identificar possíveis avarias na carga. Não havendo problemas, autoriza-se a descarga, contudo se houver problemas, deve ser realizada a recusa dos materiais para os casos de compras TÓPICO 2 | PLANEJAMENTO E CONTROLE LOGÍSTICO 31 não autorizadas pela administração ou em desacordo com o agendamento, outrora se houver avarias no carregamento se deve contabilizar o quantitativo de produtos danificados para que proceda à devolução ao fornecedor e no verso da nota fiscal transcrever a informação de que o carregamento foi recebido com ressalvas,escrevendo detalhadamente o quantitativo de produtos danificados (ROSA, 2011). • Conferência quantitativa: nesta etapa, Rosa (2011, p. 135) destaca que é indispensável “verificar se a quantidade registrada está igual à física, caso não esteja, ele deve recusar o carregamento”. Portanto, é um trabalho maçante se o carregamento for grande, porém essencial para continuidade da obra e controle financeiro de despesas. • Conferência qualitativa: é extremamente importante e visa repassar a responsabilidade pelas eventuais avarias ao responsável por elas. A existência de avarias é constatada por meio de análise da disposição da carga, observando se as embalagens ou as proteções estão intactas e invioláveis ou se contêm sinais evidentes de quebra, de umidade, de danos etc. (ROSA, 2011). • Regularização: trata-se do processo final. Considera-se uma grande falta de organização quando a empresa não adota os devidos procedimentos que visam ao lançamento e arquivamento de toda a documentação bem como dos trâmites que ocorreram nas fases anteriores em mecanismos confiáveis de arquivo, sejam eles físicos ou computacionais. Logo, deve-se ter muita responsabilidade para armazenar os documentos de tal forma que diante da solicitação administrativa possa ocorrer uma resposta em tempo hábil e completa (ROSA, 2011). 4.3 LOGÍSTICA REVERSA A distribuição física pode ser resumida quando um fornecedor consegue realizar a entrega de sua mercadoria na qualidade desejada ao cliente. Contudo, no mercado essa expressão ganhou mais ênfase do que o necessário e se tornou objeto de confusão ao significar a mesma coisa que gerenciamento da cadeia e do abastecimento, lamentavelmente, é assim que muitas construtoras brasileiras definem essa cadeia, apenas como um mero ponto de entrega. Mas na realidade não deve ser assim, o maior desafio nesse circuito mercadológico é identificar as exigências de seu mercado-alvo e a partir desse marco definir o planejamento da cadeia de suprimento como um processo retroativo. Diversas áreas da administração buscam desenvolver uma melhoria continua na distribuição física bem como no nível de serviço prestado ao consumidor final. Nessa trilha, a necessidade continua em conseguir alocar os produtos certos no lugar certo e na hora certa. Para tal, algumas técnicas e filosofias são empregadas, a qualidade total, just in time, o gerenciamento da cadeia de suprimentos, são exemplos e caracterizam-se por difundir a mentalidade de otimização do tempo de atendimento em relação direta à redução dos gastos totais. Nesse emaranhado de ideias e filosofias, surge a Logística Reversa que tem como proposta a gestão UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 32 consciente de impactos da produção com fins de mitigar os efeitos deletérios dela sobre o meio ambiente e na sociedade ajudando também a promover um cenário atrativo de competitividade econômica (LUCHEZZI; TERENCE, 2013). As atividades administrativas focadas na redução do tempo de atendimento aos clientes e na melhoria da qualidade dos serviços oferecidos tem o seu papel no alcance da melhora dos padrões da empresa e também da sociedade. A logística reversa se encaixa perfeitamente no que fora expressado e deve ser sempre alvo de discussão nas empresas. Deve-se ter em mente que um mercado com menos recursos para investimento e sempre mais exigente, bem como busca aplicar seus recursos através de árdua análise. Um dos cenários mais observáveis no mercado é relacionado à preservação ambiental, de fato os consumidores já conseguem ter uma mentalidade voltada à sustentabilidade. O mercado ou parte significativa dele pensa da seguinte forma: “não adianta consumir tudo o que quero e não deixar uma forma da próxima geração conseguir seus ganhos”. Percebe-se que com esse discurso, a preocupação em vigência não é apenas saber de onde vêm os produtos, mas saber também para onde vão e onde serão descartados. O lixo urbano, como muitos denominam, já é um grave problema ambiental na atualidade de muitas metrópoles. Na maioria dos casos, os resíduos são produzidos por indústrias e armazéns. O reaproveitamento desses rejeitos bem como sua volta à cadeia produtiva é uma possibilidade concreta no mercado. Estabelecer essa ideia ainda é um marco a ser alcançado e para que isso aconteça, é preciso delinear precisamente o fluxo reverso, da mesma forma como acontece no fluxo direto de um produto. Para tal, parte-se do seguinte pressuposto que facilita o entendimento, o processo logístico reverso é composto das mesmas atividades do processo logístico direto, contudo a questão é encontrar a ordem certa nesse quebra-cabeça (LUCHEZZI; TERENCE, 2013). FIGURA 7 – PROCESSO LOGÍSTICO DIRETO X REVERSO FONTE: Guarnieri (2006) apud Luchezzi e Terence (2013, p. 149) TÓPICO 2 | PLANEJAMENTO E CONTROLE LOGÍSTICO 33 Diante dessas necessidades, essencialmente de cunho ambiental, surgiu a Logística Reversa, como uma alternativa de fazer com que os rejeitos sejam transportados de maneira adequada até a organização que o produziu ou para outra que seja capaz de dar o destino correto. Além disso, destaca-se que essa necessidade por proteção ambiental se traduz também no arcabouço legal em vigência no Brasil, por exemplo, a resolução do Conama no 307, publicada em 2002 é um marco muito importante para a construção civil e estabelece diretrizes, critérios bem como procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil. Como observado, a logística reversa entra no mercado fortemente amparada pelo apelo social da busca de uma preservação ambiental, contudo o aspecto essencial na logística reversa precisa ser entendido e respeitado. Esse aspecto é o controle que deve ser promovido em toda a cadeia da logística reversa para que não haja falhas no fluxo (LUCHEZZI; TERENCE, 2013). Nem todos os produtos descartados são facilmente integrados numa cadeia reversa. Há produtos com características intrínsecas, oriundos de uma tecnologia de reciclagem peculiar ou uso restrito. Esse fator é um grande desmotivador para potenciais empreendedores numa rede de logística reversa, somado a isso ainda temos o fluxo do processo reverso que geralmente tende a ser de elevado custo, já que, perpassa por fases bem estruturadas para a garantia do sucesso do processo, tais fases geralmente são o planejamento, operação e controle do fluxo bem como das informações correspondentes ao retorno dos produtos por meio de distribuidores que ainda são uma minoria em meio a um ciclo de negócios produtivo (LUCHEZZI; TERENCE, 2013). FIGURA 8 – FLUXO LOGÍSTICO REVERSO NA CONSTRUÇÃO CIVIL FONTE: Luchezzi e Terence (2013, p. 151) Por fim, considera-se que diante de um mercado exigente, a adoção da logística reversa em construtoras tende a configurar-se em um importante diferencial competitivo e elemento de subsistência bem como crescimento da organização. 34 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A cadeia de suprimentos e o Supply Chain Management são conceitos e formas de gerenciamentos que cada vez mais se consolidam no mercado e propiciam que a empresa possa otimizar o controle de suas despesas e atuação no mercado. • Na cadeia logística existem diversos métodos para previsão de demanda e gestão de estoques, bem como algumas caraterísticas do planejamento de estoques. • Distribuição e armazenamento são aplicados na construção civil especialmente através do sistema de gestão do almoxarifado de obras. • A logística reversa fornece um conceito atual e auxiliar que estimula a otimização do gerenciamento na cadeia de suprimentos, através de uma abordagem multifocal apoiada em três eixos, o social, o ambiental e o econômico. 35 1 Considerando os conceitos estudados, elabore a cadeia de suprimentos para a construção de uma casa de um pavimento, contendo dois quartos, um banheiro social, uma sala, uma cozinha e uma área de serviço, cuja área construída total será de 53 m². 2 Classifiqueos tipos de estoque existentes no almoxarifado de uma obra e descreva como eles funcionam. 3 Calcule o estoque de segurança de cimento para uma obra que entrará em fase de reboco da alvenaria. Sabe-se que serão utilizados 16 sacos por dia, o intervalo de abastecimento será de três dias e serão necessários oito dias úteis para concluir o serviço. AUTOATIVIDADE 36 37 TÓPICO 3 LOGÍSTICA APLICADA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO A indústria da construção civil possui características exclusivamente particulares, de tal forma que os processos de produção necessitam ser adaptados às características desse ambiente dinâmico. Diversos fatores afetam a produtividade dessa indústria, dentre os quais apresentamos a alta condicionalidade ao padrão climático do lugar da obra, além da característica essencialmente de manufatura que torna cada produto único, mesmo de projetos arquitetônicos iguais. A cadeia de suprimentos, bem como a administração dela, tem grande efeito nas economias locais e nacionais, haja vista que há um grande volume de negócios que movimenta. No que se refere à indústria da construção, destaca-se que é caracterizada pela fragmentação, por organizações baseadas em projetos, instabilidades, alta dependência da mão de obra entre outras que tendem dificultar a adequada elaboração e controle de uma cadeia de suprimentos. Nesse sentido, a cadeia de distribuição se apresenta como interligada ao processo logístico de distribuição, que por sua vez envolvem diversos processos, tais como previsão de demanda, planejamento das necessidades de materiais, estocagem dos materiais etc. Ressalta-se que o planejamento logístico da construção civil estabelece as condições essenciais de infraestrutura para o desenvolvimento do processo produtivo que devem ser atendidos. 2 A CONSTRUÇÃO CIVIL E A INDUSTRIALIZAÇÃO Um dos marcos que caracterizam a indústria da construção civil é o seu estilo manufatureiro de produção, a maioria dos processos utilizados nela são artesanais. Uma edificação, uma estrada, uma barragem de concreto, o que todas essas obras têm em comum? Basicamente, o fato de serem produzidas em uma fábrica a céu aberto, tendo que enfrentar situações adversas e exclusivas, tais como o desenvolvimento das atividades sujeitos as intempéries (sol, chuva, vento etc.). Além disso, destaca-se que, na maioria das vezes, cada obra é um produto único, principalmente, por causa das particularidades de aspecto arquitetônico que geralmente são determinadas pelo cliente ou mercado e por fim consolidada 38 UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA através do emprego de uma mão de obra artesanal. Contudo, com o avanço da globalização e a redução das barreiras geográficas, novas tecnologias vêm surgindo, em muitos casos vindas de outras regiões mundiais e até de um estado para outro. Isso possibilita otimizar algumas etapas utilizadas no processo de produção dessa indústria e permitem estabelecer ambientes mais controlados (ALVES, 2016). Em ambientes mais controlados, a possibilidade de equívocos que provêm de ações humanas é reduzida quando comparado aos canteiros de obras clássicos. Geralmente são ambientes inovadores haja vista que se utilizam de maquinário de precisão, conferindo ao produto final maior uniformidade dimensional, melhor acabamento, melhor emprego dos recursos disponíveis, entre outros benefícios. Divisórias de gesso acartonado (Drywall), paredes de concreto pré- moldado, kits hidráulicos pré-montados, são alguns dos muitos exemplos de produtos que otimizam a produção. No entanto, não são apenas materiais que ganham espaço numa indústria da construção civil moderna, temos a presença de técnicas construtivas que inovam em velocidade produtiva e qualidade final do produto, tais como ManuBuild – Open Building Manufacturing (Construção Manufaturada Aberta, em tradução livre), que buscam difundir a aplicação de conceitos da indústria manufatureira, que preza pela alta produtividade com qualidade constante, levando em consideração as necessidades dos clientes, na construção civil. Destaca-se também no curso desse processo a logística reversa, que fora citado no tópico anterior (ALVES, 2016). 3 A CADEIA DE SUPRIMENTOS NA CONSTRUÇÃO CIVIL A indústria da construção civil tem buscado formas de se consolidar em meio a um mercado instável e fortemente abalado pela queda de credibilidade de grandes construtoras brasileiras, algumas alternativas como o aprimoramento do controle da cadeia de suprimentos têm galgado espaço por ser uma alternativa que promove transparência e eficácia quando corretamente aplicada. Além disso, várias empresas têm adotado táticas de sobrevivência no mercado, umas delas é com base nas suas cadeias de suprimentos como um todo, e não mais como entidades isoladas. Ligado a isso, fica evidente que a construção civil e suas cadeias produtivas podem e desempenham um importante papel dentro da economia nacional. Para termos ideia da importância da construção civil para economia nacional, destacamos o construbusiness (conjunto de atividades e fornecedores ligados à construção civil) que movimenta uma grande cifra na economia nacional (ALVES; TOMMELEIN, 2007). Destacamos alguns dados relacionados a construbusiness: • São 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional; • Desse valor 5,9% são referentes a materiais e equipamentos de construção; • 9,1% são referentes à construção em si; • 0,5% é relativo a atividades imobiliárias e de manutenção (ALVES; TOMMELEIN, 2007, p. 32). TÓPICO 3 | LOGÍSTICA APLICADA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL 39 O adequado gerenciamento da cadeia de suprimentos possibilita que economias locais e nacionais experimentem um avanço, haja vista que isso gera um fluxo de negócios intenso que se traduz em elevado retorno financeiro e estabilidade no mercado. Além disso, é importante observar a experiência das empresas que estão no mercado e através de seus casos de sucesso extrair informações que auxiliem uma progressão da instituição para se possa atingir o aperfeiçoamento da cadeia de suprimentos. Não há uma fórmula precisa, mas o fundamental é estudar o que o mercado está praticando com êxito. O trabalho de Forrester, pioneiro no estudo da dinâmica industrial em 1958, foi um importante marco para o estudo das cadeias de suprimentos e nele foi analisado essa dinâmica. Observe o trecho a seguir com muita atenção: Nesse trabalho, Forrester simulou uma cadeia de suprimentos que era formada por uma fábrica com seu depósito, um grupo de distribuidores e as lojas que vendiam determinado produto. Nessa simulação, os atrasos no compartilhamento de informações, a incerteza e as distorções na demanda real causaram flutuações que se desencadearam por todos os níveis da cadeia estudada. Essas flutuações afetaram as ordens de compra e os níveis de produção de todos os participantes da cadeia, e permaneceram por meses até que a cadeia retornasse para a sua demanda e níveis de produção regulares. Com essa simulação, o autor chamou a atenção, entre outras coisas, para a necessidade de colaboração e de troca de informações confiáveis entre participantes de uma mesma cadeia de suprimentos como uma forma de evitar variações em sua demanda. Por fim, destaca-se que ele também ressaltou a importância de se entender como os fluxos de mão de obra, materiais, informação e capital interagem e causam variações em uma cadeia de suprimentos (ALVES; TOMMELEIN, 2007, p. 32). A indústria da construção é marcada por características que são exclusivas, não existe outra indústria que dependa de tantos fatores dinâmicos quanto a construção civil. Entre os que mais a afetam estão os projetos, na maioria das vezes únicos, bem como sujeitos à mudança ao longo do processo produtivo, também podemos constatar a alta dependência na mão de obra etc. Segundo Alves e Tommelein (2007), quando associamos esses diversos componentes, conseguimos identificaras características e classificar a cadeia de suprimentos da construção civil em pelos menos três formas fundamentais: (a) convergentes: os suprimentos convergem para o canteiro de obras onde são montados; (b) temporárias: organizações temporárias são formadas para suprir e construir um projeto de cada tipo. Essas organizações são definidas para um projeto específico e podem não atuar em um projeto seguinte em seu formato original; e (c) Inovadora: produtos feitos a partir de uma solicitação/ordem (make- to-order); cada projeto cria um novo produto ou protótipo (ALVES; TOMMELEIN, 2007, p. 33). De acordo com Mattos (2014) e conforme destacado na figura a seguir, são consideradas três fases que envolvem uma cadeia de suprimentos: a fase de suprimento, a fase de manufatura e a fase de distribuição. 40 UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA FIGURA 9 – SEQUÊNCIA DA CADEIA DE SUPRIMENTOS FONTE: Vieira (2006) apud MATTOS (2014, p. 10) A figura acima ilustra as etapas, resumidamente, de uma cadeia de típica de suprimentos. A fase inicial ocorre quando o fornecedor dos produtos recebe a matéria-prima. No caso da construção civil, podemos exemplificar quando a loja de venda de materiais de construção recebe um carregamento de blocos cerâmicas da fábrica e este é estocado aguardando a aquisição pela produção. A essa fase que envolve dois componentes, damos a nomenclatura de logística de suprimentos. A próxima fase é a principal para o segmento da construção civil, onde ocorre a geração do produto, por exemplo, uma parede, uma viga, uma pavimentação de uma estrada até se atingir o produto final, como uma casa, um apartamento, uma ponte etc. A essa fase áurea do processo construtivo temos a denominação de logística da produção. A próxima fase geralmente ocorre com a aquisição do produto pelo consumidor, porém pode haver a presença de um intermediador que facilitará o processo de aquisição do produto da construção civil. A essa fase damos o nome de logística de distribuição (MATTOS, 2014). Com base na cadeia de suprimentos expressa por Mattos (2014), podemos esclarecer ainda mais e articular a seguinte realidade da construção civil: • A logística de suprimentos: é definida como a parte inicial desse fluxo, apresentando-se como canal introdutório das matérias-primas e fornecedores dentro de uma obra. Por exemplo, a compra de agregado miúdo (areia), compra de cimento etc. • A logística de produção: é a etapa seguinte, em que as matérias-primas são manufaturadas e transformadas em produtos a serem consumidos na etapa final do processo. Por exemplo, a transformação de cimento, água, agregados miúdos (areia) e agregados graúdos (seixo, brita etc.) em um concreto para um elemento estrutural (por exemplo, um pilar). • Por fim, a logística de distribuição: caracterizada pelo processo de entrega do produto final ao cliente, consumidor final. Por exemplo, a entrega de um apartamento. TÓPICO 3 | LOGÍSTICA APLICADA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL 41 4 A ETAPA DA MANUFATURA NA CADEIA DE SUPRIMENTOS DA CONSTRUÇÃO O bem de consumo gerado na construção civil apresenta algumas diferenças com relação aos outros produtos manufaturados que chegam aos consumidores (por exemplo, o tempo de fabricação, a alta rotatividade do setor produtivo, e especificidades técnicas complexas) e dessa forma, esse bem de consumo gerado na construção civil objetiva também a excelência quando avaliado pelo cliente. Pode-se observar o delineamento da cadeia de suprimentos na construção civil através de três processos: planejamento, manufatura e distribuição. O primeiro passo é o planejamento, atividade essencial em qualquer segmento de trabalho, nessa etapa são configurados os cenários que serão alvo de um percurso e na construção civil essa atividade se estabelece basicamente quando ocorre a elaboração do projeto executivo que norteará a etapa de manufatura. O segundo processo, a manufatura, é um encadeamento de atividades organizadas que possui natureza extremamente fragmentada e carga de esforço físico intenso, por exemplo, temos a armação de uma ferragem metálica para atender a fabricação de uma laje; considera-se que essa atividade desenvolvida por um ferreiro armador é uma manufatura para obter o produto final, a laje. A última etapa é a distribuição, que não ocorre de forma convencional na construção, o produto gerado nessa indústria não pode ser transportado até o cliente, ocorre o contrário, as construtoras se utilizam de propagandas e grupos seletos de vendas, que são representados pela classe dos corretores de imóveis. Essas metodologias auxiliam e são a base da distribuição dos produtos gerados na construção civil. Contudo, uma segunda forma de distribuição é muito comum também e deve ser explanada, trata-se da cadeia de suprimento iniciada pela fase de distribuição. Como assim? Isso ocorre quando o cliente contrata a construtora para execução do seu produto, como no caso do imóvel comprado na planta, licitações públicas etc. (MATTOS, 2014). FONTE: <http://motrizengenharia.com.br/portfolio/terraplanagem/>. Acesso em: 25 out. 2018. FIGURA 10 – TERRAPLENAGEM: ETAPA DE MANUFATURA DE UM PRODUTO FINAL 42 UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA A indústria da construção civil, apesar de várias modernizações, é considerada basicamente uma indústria manufatureira. A construção de uma casa, um edifício, uma ponte, uma barragem, são exemplos de produtos da construção civil que necessitam de pessoas para manufaturar (fabricar manualmente) e obter um produto final, que é a soma de vários microprocessos de manufatura. Nesse sentido, a etapa de manufatura é crítica e fundamental para entrega de um produto com qualidade. 5 AS ESTRATÉGIAS LOGÍSTICAS NA CONSTRUÇÃO A logística, quando inserida na construção civil, geralmente lida com um processo multidisciplinar com apenas um nível, múltiplos objetos e nenhuma cooperação entre eles, observamos que esses objetos de interação são geralmente a aquisição, a estocagem, o beneficiamento e a distribuição. Contudo, a primeira coisa que precisamos modificar é a visão, devemos estabelecer uma visão interdisciplinar, baseada numa permuta de informações entre as diversas áreas que compõem a logística para que se possa atingir objetivos que se comunicam e tendem para um proposito, o sucesso da empresa. Para possibilitar que esse processo seja consolidado devem ocorrer atividades de planejamento, organização, direção e controle, com o objetivo integrado, fazendo com que cada setor consiga ter ciência e comunicação, especialmente, dos assuntos de outros setores que afetam sua efetividade operacional (NASCIMENTO, 2014). Nesse sentido surge a gestão da logística, como uma importante estratégia no segmento da gestão da cadeia de suprimentos e através dela se pode considerar a implementação de uma visão interdisciplinar nesse segmento. Os princípios fundamentais dessa gestão estão pautados no planejamento; implementação e controle dos fluxos diretos bem como reversos; armazenagem eficiente da matéria-prima utilizada na produção; e entrega do produto final dentro de condições ótimas de qualidade para o cliente final. Essa gestão responsável busca atingir esses níveis de eficiência através da implantação de um sistema integrado de gestão, informando a todos os membros do sistema, através de uma gerenciamento que supervisiona as atividades envolvidas na movimentação de bens como o transporte de materiais, pessoas e recursos para o lugar certo e no momento certo; em suma, pode-se dizer que passa a se tornar uma ciência com um objetivo concreto: administrar a movimentação de materiais e produtos das fontes até os usuários, de forma a satisfazer as expectativas do cliente e do empresário (NASCIMENTO, 2014). A primeira grande estratégia da logística trata do planejamento dos canteiros de obras. Considera-se que o salão de produção de uma obra é o seu canteiro. Nelesão desenvolvidas todas as atividades necessárias para a construção, desde as refeições, diálogos/reuniões até as atividades operacionais de produção, como escavação, montagem de formas, montagem de ferragens etc. Antigamente não se pensava em planejar um canteiro de obras, contudo TÓPICO 3 | LOGÍSTICA APLICADA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL 43 atualmente isso se tornou uma necessidade, torna-se essencial planejar o seu ordenamento, onde ficaram os banheiros, a entrada de funcionários, o refeitório, sala da administração, almoxarifado e por aí vai. Todos esses espaços adequadamente projetados em consonância com as normas existentes contribuem para uma produção mais eficiente, por exemplo, se o engenheiro planejar um refeitório muito distante do local de produção se perderá muito tempo para retornar dos intervalos da refeição e cansará a mão de obra com um deslocamento desnecessário. Além disso, um projeto bem planejado e executado evita acidentes e reduz o desperdício de materiais. Contudo, é um pré-requisito para a elaboração do projeto o conhecimento dos demais projetos bem como a determinação de um fluxo de trabalho, haja visto que ao longo da vida útil da obra, muitos ambientes serão modificados, uma área reservada para almoxarifado dificilmente seguirá a mesma até o final da obra. Outra estratégia logística trata da logística de distribuição interna e de suprimentos externa a obra. A logística de distribuição vem se tornando uma poderosa aliada quando se pensa em competitividade e liderança por meio de serviços bem prestados no processo de distribuição dos produtos, desde a fábrica que o produz, até o consumidor final na cadeia de suprimento, na qual podem ocorrer situações diversas e a formação de canais típicos de comercialização. As cadeias de distribuição estão interligadas ao processo logístico de distribuição, que por sua vez envolvem os seguintes processos, segundo Nascimento (2014, p. 26): a) Previsão de demanda b) Planejamento das necessidades de materiais c) Estocagem dos materiais d) Armazenagem logística e) Movimentação de materiais f) Estocagem dos produtos acabados g) Planejamento e distribuição física h) Processamento de pedidos i) Transporte de pedidos j) Transporte k) Atendimento ao cliente ou usuário Além disso, outra estratégia citada por Nascimento (2014, p. 28-29) é a seguinte: As empresas devem investir no seu sistema de gestão, para assegurar uma logística eficiente, procurando aperfeiçoar os fluxos físicos e de informações. No caso da logística de suprimentos, deve se fazer a gestão dos materiais e dos componentes, procurando empregar alguns conceitos utilizados por empresas japonesas, com destaque para a Toyota Motor Company, onde há uma visão de gestão voltada para a redução dos prazos, dos custos, das perdas e dos desperdícios, e a criação de um ambiente baseado na melhoria contínua e na flexibilidade. 44 UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA Para uma empresa construtora obter uma logística de canteiro eficiente é importante que ela faça a gestão das interfaces entre os agentes do canteiro, a gestão das praças de trabalho e o controle de fluxos físicos ligados à execução. As atividades têm que ser bem pensadas, de modo que uma equipe não interfira nos serviços das outras, nem que haja o favorecimento do trabalho de uma equipe em relação às outras. O pessoal técnico responsável pela administração da obra tem uma função relevante na organização e gerenciamento da mão de obra, devendo controlar as interfaces e os fluxos físicos ligados à execução, também deve detectar disfunções que possam afetar tanto a logística do canteiro quanto a logística de suprimentos, tomando as medidas necessárias para devidas correções. Enfim, o engenheiro tem a importante tarefa de implementar esse modelo no canteiro de obras, diversas ferramentas computacionais estão disponíveis, mas não existe um software que substitua um planejamento realizado em sintonia com a equipe de trabalho, afinal de contas, o engenheiro é o líder de uma equipe e nesta tarefa interdisciplinar tem que buscar a coesão e fazer com que seus liderados fiquem comprometidos a cumprir suas metas. 6 TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO NA CONSTRUÇÃO Na maioria dos segmentos econômicos, os progressos da tecnologia de informação possibilitaram técnicas eficientes de gerir o fluxo de informações entre as organizações. Com base nessa conjectura, a indústria da construção civil, estigmatizada como conservadora em relação à adoção de novas tecnologias, vem passando por mudanças significativas, porém, como já tratamos anteriormente, esta é uma cadeia produtiva com peculiaridades que não se encontram em outros lugares e um dos fatos mais pertinentes é a sua heterogeneidade empresarial, bem como hierarquia na prestação de serviços, que se define como um segmento marcado por empresas de pequeno até grande porte, com uma frequente relação de terceirização de serviços. Nesse mercado, caracterizado por essas condições, surge a necessidade de aproveitamento dos recursos de tecnologia de informações que existem atualmente e tais tecnologias já conseguem incorporar os processos de modo a coletar, armazenar, distribuir e modificar, convenientemente suas informações. Os benefícios da utilização desses mecanismos modernos são diversos, como os que são citados a seguir, que foram destacados de Moraes, Guerrini; Serra (2006, p. 2): • Redução de tempo e custo através da eliminação de retrabalho durante as fases de projeto e construção, de maneira com que dados similares possam ser elaborados uma vez só e acessados em muitas etapas; • Melhoria na integração e comunicação interna, proporcionando acréscimo de produtividade; • Maior eficiência e rapidez na elaboração de projetos; • Trabalho eficiente de projetos desenvolvidos por equipes virtuais permitindo simplificação na comunicação; TÓPICO 3 | LOGÍSTICA APLICADA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL 45 • Redução no custo de desenvolvimento de softwares, com os programadores usando o padrão definido; • Qualidade no processo de decisão e aprimoramento do aprendizado organizacional através da reutilização do conhecimento; • Grande flexibilidade operacional e considerável aumento de facilidades para associação de tarefas. Desta forma, atualmente, tanto no âmbito nacional como internacional, observa-se o aumento de interesse das construtoras em explorar novas oportunidades de negócio através do uso de tecnologia de informação. No Brasil, o setor da construção tem um papel socioeconômico importante, ainda é um dos setores menos desenvolvidos e mais tradicionais, conforme se observa na afirmação a seguir. No entanto, nos últimos anos, muitas empresas para sobreviverem, tornam-se dinâmicas, utilizando recursos, profissionais e estratégias que permitam tomadas de decisões oportunas e eficazes. Para isto, muitas empresas do setor, vêm se modernizando, em busca de alavancar seus lucros ou até mesmo, sobreviver – investindo, por exemplo, no quadro funcional ou em equipamentos. Nos últimos anos, a indústria da construção está consolidando o uso de TI através de Sistemas de Informação em seus processos – que gerenciam toda a informação gerada. Outro campo que se desenvolve muito na área acadêmica e que precisa migrar com mais rapidez para a prática dos profissionais no setor de construção é aquele relacionada as tecnologias mais avançadas como a de realidade virtual, o CAD-4D, modelos integrados de edifícios etc. Destaca-se ainda que dado o tamanho do setor, suas características de uso intensivo de informação e a ainda atual ineficiência de comunicação e baixa produtividade, os benefícios na integração da TI aos processos do setor seriam enormes. Desta forma, recai sobre a Tecnologia da Informação a expectativa da solução de um grande número de problemas apresentados pelo setor da construção, aprimorando destes produtos que possibilitam o compartilhamento, armazenamentoe troca de informações entre os projetos eletrônicos, tornando fundamental a incorporação do usuário na participação e desenvolvimento de ferramentas que visem à integração dos processos, contribuindo satisfatoriamente para o aumento da produtividade e melhoria da qualidade dos produtos (MORAES, GUERRINI; SERRA, 2006, p. 10). Além disso, destaca-se que Paura (2012) reforça que a integração entre todos os setores e processos que fazem parte da cadeia logística é de extrema importância. Sem as informações fiéis um setor não consegue se planejar e consequentemente não consegue enviar as informações para outro. Tem-se, então, um grande problema, pois o planejamento não poderá ser feito em processo algum e em nível algum. Assim, a TI assume mais uma vez um papel importante para o adequado desenvolvimento da logística, sobretudo, nesse contexto relacionado à construção civil. 46 UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 7 TECNOLOGIAS OPERACIONAIS Nesse trecho apresentaremos algumas tecnologias que são utilizadas na logística. a) Sistema ERP (Enterprise Resource Planning) Ou “Sistemas Integrados de Informação Gerencial” (SIGE ou SIG) e em inglês “Enterprise Resource Planning”. A sua relevância está em conseguir integrar em um único sistema todos os dados e processos vinculados a uma empresa, o que se torna muito positivo para a empresa a partir do momento em que seus processos e ações passam a ser registradas em um único local (software). Outro aspecto desse sistema é o de planejamento dos recursos necessários a operacionalização de um projeto. Esse sistema é capaz de integrar informações das áreas operacionais, administrativas e gerenciais de uma empresa. Ressalta-se que para um adequado uso do sistema, a alimentação e retroalimentação de informações é fundamental já que ele tem como principal objetivo agregar em um único local informações das empresas em suas diversas esferas (SANTOS, 2013, p. 19). b) Sistema WMS (Warehouse Management System) Imagine-se trabalhando em um grande num escritório de projetos de engenharia e seu gerente lhe dá a incumbência de localizar determinado projeto em um menor tempo possível, pois o cliente necessita com urgência executar uma correção nele. Caso você não tivesse o apoio em um sistema informatizado e, fosse novato naquele serviço, poderia passar minutos ou até horas para finalmente encontrar a localização do projeto e assim começar todo o processo. Esta história fictícia serve justamente para apresentar um dos principais benefícios do uso do WMS. O autor Banzato (2005) apud Santos (2013) de forma objetiva nos apresenta a principal característica deste sistema, vejamos: “O WMS torna mais eficiente as operações de gerenciamento de armazéns (depósitos) em forma de planejamento de mão de obra, planejamento de nível de estoques, utilização de espaços e rotina de expedição” (SANTOS, 2013, p. 22). c) Sistemas de Rastreamento GIS (Geographic Information System) e GPS (Global Positioning System) Voltados especificamente para as questões do rastreamento, o Sistema Global de Posicionamento e o Sistema de Informações Geográficas figuram no rol dos mais importantes sistemas utilizados na logística uma vez que fornecem informações precisas acerca de rastreamento e gestão de frotas transportadoras. Vamos conhecer um pouco mais sobre cada um destes sistemas. Baseando-se nos fundamentos oriundos da cartografia, o GIS apresenta-se como um sistema automatizado usado para armazenar, analisar e manipular dados geográficos representativos de objetos e fenômenos em que a localização geográfica é uma característica inerente à informação. Já que estamos falando de sistemas ligados à questão do rastreamento, é importante destacar que rastrear tem ligação com a localização de um veículo a partir do monitoramento geográfico capaz de apresentar TÓPICO 3 | LOGÍSTICA APLICADA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL 47 a cidade, região, bairro, rua ou avenida onde o veículo se localiza. Atrelado ao rastreamento, roteamento de veículos tem a ver com a melhor rota possível para que determinada frota possa fazer a distribuição dos produtos e/ou serviços da empresa. Ao falarmos em roteamento de veículos, podemos pensar em diminuição de tempo a partir da escolha da melhor rota a ser seguida pelo veículo sendo as tarefas processadas sobre um mapa digital (SANTOS, 2013, p. 31). A indústria da construção civil é um segmento altamente competitivo, existem elementos que influenciam diretamente na disputa por subsistência e crescimento que há entre as diversas empresas. Um dos elementos de grande importância nesse contexto é o tempo de obra, ou seja, uma empresa para se manter competitivamente no mercado precisa buscar formas de reduzir as perdas de tempo dentro dos processos produtivos para que, dessa forma, possa atingir um dos grandes desafios das construtoras no período contemporâneo, entregar a obra no prazo. De fato, poucas empresas conseguem entregar a obra no prazo acordado com o cliente e se sabe que esse fato está diretamente ligado a satisfação do cliente, afinal, nenhum consumidor tolera com benignidade e paciência irrestrita atrasos em um produto adquirido. Dentro desse contexto, surge a importância de compreender como as atividades de transporte no canteiro de obras influenciam na celeridade da produção. Numa obra comumente se pode classificar as atividades de transporte em dois tipos, transporte verticais e horizontais, ambos devem ser cuidadosamente identificados ao longo da cadeia produtiva e na medida do possível auxiliados por maquinários modernos que conferem qualidade, velocidade e redução do esforço físico da mão de obra. O gestor moderno deve articular com sua equipe um planejamento metodológico que vise reduzir as atividades que não agregam valor ao produto final e desgastam a eficiência da mão de obra. Por exemplo, quando se implantar uma grua no canteiro de obras, o objetivo buscado pelo gestor será de acelerar a entrega de insumos numa obra vertical/horizontal e reduzir o desgaste da mão de obra para que essa energia possa ser despendida em atividades que agreguem valor ao produto final, afinal de contas um palete de blocos chegará mais rápido ao pedreiro, a argamassa chegará mais rápida para o pedreiro e em consequência disso, ele terminará mais rapidamente sua alvenaria quando comparada a uma metodologia de transporte de insumos tradicional, sem o uso de equipamentos ou máquinas. O artigo de Laurimar Coelho, que se destaca a seguir, reforça essa informação e busca esclarecer sobre as metodologias e maquinários utilizados para acelerar o processo de transporte vertical e horizontal em obra. FONTE: COELHO, Laurimar. Logística interna: como o transporte horizontal e vertical de materiais e pessoas interfere na produtividade e qualidade das obras. São Paulo: PINNI, 2010.Disponível em: <http://techne17.pini.com.br/engenharia-civil/158/canteiro-285481-1. aspx>. Acesso em: 8 jul. 2018. DICAS 48 UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 8 A LOGÍSTICA NO CANTEIRO DE OBRAS O planejamento logístico da construção civil estabelece as condições de infraestrutura para o desenvolvimento do processo produtivo. No que se refere ao planejamento do canteiro de obras é caracterizado como o estabelecimento previamente adequado e organizado do layout logístico das suas instalações provisórias, instalações de segurança e sistema de movimentação e armazenamento de materiais. O primeiro passo é a definição do layout envolve a definição da ordenação física de trabalhadores, materiais, equipamentos, áreas de trabalho e de estocagem. Como expressado anteriormente, um bom projeto de canteiro minimiza desperdícios de materiais e tempo de execução de mão de obra, pelo planejamento das movimentações de pessoas e materiais, pensando em distâncias curtas de acessos e transporte vertical e horizontal (NASCIMENTO, 2014). O canteiro de obras é um espaço de transformação.Isso se dá através de um processo participativo, onde cada alteração quanto à concepção da obra acaba constituindo uma melhor resolução para a mesma. Contudo, se reconhece que para adotar tal diversidade há que se estabelecer roteiro de abordagem para o planejamento do canteiro, ele deverá buscar simplificar e organizar as decisões a se tomar quanto ao canteiro de obras (NASCIMENTO, 2014). Entre os fatores que afetam o planejamento do canteiro de obras e sua roteirização, destacam-se o tempo da obra haja vista que influencia diretamente o processo de uso do canteiro. Diferentes períodos de execução dos serviços da obra correspondem a diferentes demandas por materiais, mão de obra e equipamentos. O projeto do canteiro inicia pela leitura das plantas de topografia e de subsolos, projetos de arquitetura e estrutura do térreo e tipo das torres. Além disso, é pertinente o conhecimento das informações sobre o entorno da obra, como as características das construções vizinhas, condições e disponibilidade de vias de acesso, localização das redes de água e energia elétrica (NASCIMENTO, 2014). Outrora, quando referenciamos a execução de projetos de layout podemos remeter os dois posicionamentos elencados por Renato Faria (2009, p. 2), que destacamos a seguir: Quando se tem ideia sobre as áreas necessárias para estocagem de materiais em cada etapa da obra, sobre os equipamentos que serão utilizados na obra e sobre as dimensões das instalações provisórias, pode-se partir para a concepção do desenho do canteiro. Os croquis são feitos com base nas plantas de topografia e arquitetura dos pavimentos do edifício. Fluxogramas dos processos de execução do empreendimento também são importantes nessa etapa criativa. A disposição dos elementos é pensada considerando as diversas fases da obra; portanto, deve-se buscar a compatibilização do posicionamento de cada instalação com a evolução dos estágios de execução. Aqui, pode-se pensar em executar primeiro o layout da fase da obra considerada crítica, com maior fluxo de pessoas e materiais, e a partir TÓPICO 3 | LOGÍSTICA APLICADA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL 49 dele conceber os demais desenhos. Ou ainda elaborar os projetos de forma sequencial, partindo da configuração inicial da obra. Uma alternativa mista também é possível. Podem ser feitas algumas propostas de layout diferentes para serem avaliadas por um grupo de engenheiros da construtora. O importante é que, conforme a obra evolui, o planejamento e o projeto do canteiro sejam constantemente revistos e adaptados às realidades que vão surgindo. Dessa forma, o engenheiro responsável terá a opção de iniciar a obra com um layout considerando a fase mais crítica da obra ou poderá seguir a etapa de avanço no canteiro. Não há uma melhor forma de implantar um canteiro de obra, deve-se proceder com uma análise das circunstâncias disponíveis e a partir daí desenvolver o planejamento. Nascimento (2014) consegue reproduzir a importância do domínio dos documentos de obra, sejam eles os cronogramas bem como os projetos. Finalizamos destacando esse trecho da sua obra, que fora citação de Ubiraci Souza e deverá ser alvo da sua reflexão: A partir de um cronograma completo ou de um simplificado, pode-se fazer a previsão dos serviços, materiais e mão de obra necessários a cada fase da obra. Com os dados registrados no cronograma físico e de indicadores de consumo usuais do mercado, faz-se o cálculo das quantidades de insumos necessárias para cada atividade executada no canteiro. Como o andamento físico da obra, também a quantificação dos insumos é feita semana a semana. Essas quantidades semanais, multiplicadas por fatores que considerem incertezas (1,5, por exemplo), são comparadas com os lotes usuais de compra pela empresa. Assim, determina-se a cada etapa o estoque máximo em obra e as áreas necessárias. Outro aspecto que se pode calcular a partir dos dados do cronograma físico é a quantidade de operários que circulará no canteiro nas diversas etapas da obra. Essa informação é fundamental para determinar as dimensões das instalações temporárias, quantidade de chuveiros, armários, áreas dos vestiários, necessidade de alojamentos etc., usando como base as exigências da NR-18 bem como da norma NBR 12284. O pico de pessoal na obra costuma ocorrer nas fases intermediárias, quando da execução da estrutura e das alvenarias, no caso de empreendimentos verticais. Com base no levantamento de quantitativos de materiais e no cronograma físico, podem ser estimadas as áreas máximas de estoque para os principais materiais (SOUZA, 1997 apud NASCIMENTO, 2014, p. 24). 50 UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA LEITURA COMPLEMENTAR PLANEJAMENTO – ALMOXARIFADO Bruno Loturco FIGURA 1 – EXEMPLO DO SISTEMA DE PALETIZAÇÃO DE CIMENTOS FONTE: Loturco (2011) Quando o planejamento é deixado de lado, é comum encontrar canteiros que deixam a desejar com relação à organização e segurança. Além de colocar os trabalhadores e os materiais em risco, isso compromete a produtividade. Como não existem regras muito bem-definidas para projetar cada parte do canteiro, geralmente o layout (desenho) é definido com base na experiência do gerente da obra e adaptando o que já foi feito em outros locais. No manual "Planejamento de canteiros de obras e gestão de processos", do Programa de Tecnologia da Habitação (Habitare), os autores Tarcisio Abreu Saurin e Carlos Torres Formoso, orientam sobre como planejar estoques, considerando a evolução dos trabalhos ao longo do tempo. Para dimensionar corretamente o almoxarifado é preciso considerar o porte da obra e o nível de estoques, o que determina o volume de materiais e equipamentos que será guardado. No caso de tubos de PVC, por exemplo, é necessário que ao menos uma das dimensões da instalação tenha, no mínimo, 6 m de comprimento. TÓPICO 3 | LOGÍSTICA APLICADA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL 51 FIGURA 2 – ETAPAS DE UMA OBRA RELACIONADO AO PORTE DO ALMOXARIFADO FONTE: Loturco (2011) Dessa forma é fundamental orçar e planejar esse importante espaço dentro do canteiro, um almoxarifado planejado incorretamente ou não planejado tende a influenciar negativamente a cadeia produtiva dentro da construção civil. Loturco (2011) sugere três preceitos basilares para planejar adequadamente um almoxarifado: 1º - Localização – o ideal é que o almoxarifado fique próximo de três locais, com a seguinte prioridade: descarga dos caminhões – para agilizar a armazenagem de materiais que chegam direto para o estoque; elevador de carga – para facilitar a movimentação de materiais que são transportados apenas no momento do uso; e escritório – devido ao contato entre o mestre de obras e o almoxarife. Preferencialmente, deve ficar no subsolo, protegido de intempéries. 2º - Uso imediato – para diminuir a quantidade de movimentações, o melhor é tentar enviar os materiais diretamente para os andares em que serão utilizados, principalmente quando o volume deles for muito grande. 52 UNIDADE 1 | LOGÍSTICA EMPRESARIAL APLICADA NA INDÚSTRIA 3º - Subempreiteiros – para ficar próximo das suas ferramentas, alguns subempreiteiros utilizam o mesmo local como vestiário e almoxarifado, o que não é recomendável por ser difícil dar as mesmas condições de localização e layout para eles. Se for inevitável, o melhor é construí-los perto dos banheiros. A Figura 3 exemplifica esses três preceitos, na qual a ideia central consiste em reduzir a perda de produtividade causado por deslocamentos desnecessários. FIGURA 3 – EXEMPLIFICAÇÃO DOS TRÊS ELEMENTOS BASILARES NUM PLANEJAMENTO DE ALMOXARIFADO FONTE: Loturco (2011) FONTE: LOTURCO, Bruno. Planejamento: almoxarifado. São Paulo: PINNI, 2011. Disponível em: <http://equipedeobra17.pini.com.br/construcao-reforma/46/ almoxarifado-para-tornar-mais-agil-a-movimentacao-de-materiaisestoque-254302-1. aspx>. Acesso em: 10 jul. 2018. 53 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeuque: • A construção civil é uma indústria com características particulares e os processos de produção necessitam ser adaptados ao modo de operação dessa “fábrica”. • A cadeia de suprimentos da construção civil é caracterizada pela fragmentação, por organizações baseada em projetos, instabilidade, projetos únicos, alta dependência da mão de obra etc. • A logística de suprimentos é definida como a parte inicial da cadeia de suprimentos, apresentando-se como canal introdutório das matérias-primas e fornecedores dentro de uma obra. • A logística de produção é a etapa seguinte, em que as matérias-primas são manufaturadas e transformadas em produtos a serem consumidos na etapa final do processo. • Logística de distribuição é caracterizada pelo processo de entrega do produto final ao cliente, consumidor final. • A principal estratégia logística numa obra se trata do planejamento do canteiro de obras que pode ser definido como o planejamento do layout da logística das suas instalações provisórias, instalações de segurança e sistema de movimentação e armazenamento de materiais. • Há diversas tecnologias operacionais que ajudam a logística na sua operacionalização, tais como o sistema ERP, WMS, GIS etc. • O planejamento logístico da construção civil estabelece as condições de infraestrutura para o desenvolvimento do processo produtivo. 54 1 Cite três características que tornam a construção civil uma indústria peculiar. 2 Justifique as características convergentes e temporárias da indústria da construção civil. 3 Assinale verdadeiro (V) ou falso (F) nas sentenças a seguir: I ( ) Uma cadeia de suprimentos é representada por três fases: Fase de suprimento; Fase de manufatura; e Fase de distribuição. II ( ) A construção civil não é uma indústria manufatureira. III ( ) A logística de distribuição interna e suprimentos externa a obra são importantes estratégias da logística. IV ( ) O sistema ERP tem como uma de suas funções o planejamento dos recursos que são necessários para a execução de um projeto. Agora, com base na sua análise, podemos considerar como CORRETAS, respectivamente: a) ( ) I, III e IV b) ( ) I, II e IV c) ( ) Somente III e IV d) ( ) Somente a IV e) ( ) Somente I e III AUTOATIVIDADE 55 UNIDADE 2 ENGENHARIA DE TRÁFEGO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir dos estudos desta unidade, você será capaz de: • explicar os aspectos gerais da engenharia de tráfego, tais como seus ele- mentos, características básicas e outros, assim como também identificar os sistemas de transportes existentes no Brasil; • analisar, definir e elaborar acerca de estudos do volume de tráfego, veloci- dade dos veículos, bem como sobre as pesquisas de origem-destino; • identificar os tipos de sinalização, bem como elaborar dimensionamentos de sinalizações horizontais, verticais e semafóricas levando em considera- ção os aspectos de segurança viária; • reconhecer polos geradores de viagens e seus impactos no sistema viário; • conhecer e aplicar métodos para determinação da capacidade de vias, di- mensionamento de rampas, entrelaçamentos e estacionamentos. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você en- contrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO TÓPICO 2 – SINALIZAÇÃO TÓPICO 3 – ESTUDO DE POLOS GERADORES E CAPACIDADE DE VIAS 56 57 TÓPICO 1 FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A engenharia de tráfego é indispensável atualmente, haja vista que o processo de globalização e o capitalismo em nossa sociedade intensificaram o crescente uso dos modais de transporte para diversos fins, em especial o deslocamento de pessoas e mercadorias. Por conseguinte, no Brasil o modal de transporte rodoviário se destaca em diversas regiões, independentemente da geografia desta. Na região Norte do país, a realidade não é diferente, os rios de grandes extensões e variedades, vias construídas pela natureza, são pouco utilizados e prevalece o modal rodoviário. Nesse sentido e independentemente do modal de transporte, sempre haverá pelo menos cinco elementos fundamentais nessa engenharia, são eles a via, o veículo, o pedestre, o motorista e o meio ambiente. Tais elementos se relacionam direta ou indiretamente com as características básicas do tráfego, o volume, a velocidade e a densidade. Dessa forma, para fins de adequar o tráfego as características do local, seja ele um município, um porto ou estrada intermunicipal entre outros, é necessário conhecer as características básicas do tráfego. Temos que saber como desenvolver estudos e pesquisas que contribuam para a elaboração dos projetos de uso e implantação do sistema viário. Tais estudos são diversos na engenharia de tráfego, no entanto merecem destaque os estudos do volume de tráfego, da velocidade dos veículos e a pesquisa de origem-destino, por serem metodologias de uso comum e muito frequente na engenharia de tráfego para dimensionar e controlar adequadamente o trânsito no ambiente em análise. 2 SISTEMAS DE TRANSPORTE Atualmente, as cidades brasileiras contam com diversos modais de transporte, sejam eles pelos meios terrestres, aquáticos e/ou aéreos. Frequentemente se emprega também o sistema multimodal de transporte, que é caracterizado por apresentar a conectividade de um sistema com outro. Essa diversidade nos sistemas de transportes existentes no Brasil está particularmente relacionada às peculiares características geográficas do país. Podemos observar alguns dados relacionados a grandiosidade do território brasileiro no trabalho de Simone de Oliveira (2004, p. 9), expresso logo a seguir. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 58 O território brasileiro é tão extenso (8.511.965 km²), que equivale a 47.7% do continente sul-americano, além disso no norte, o Brasil é delimitado pelo Planalto das Guianas e pela Serra Imeri, que representam os pontos mais elevados do território nacional, o que dificulta sua transposição terrestre; o noroeste é tomado pela floresta amazônica, que se estende pelos países vizinhos e tem no Rio Amazonas, com seus 24.000 km de vias navegáveis, o seu principal meio de transporte e fator de integração nacional. Basicamente para entendermos os tipos de sistemas de transporte existentes no Brasil, vamos dividi-los em sete grupos de sistemas: rodoviário, aéreo, fluvial, dutoviário, marítimo (cabotagem), ferroviário e multimodal. O transporte rodoviário é comumente observado por todos nós, sendo caracterizado como aquele que é realizado sobre rodas em vias pavimentadas ou não, realizados por veículos automotores. Como destaca Rocha (2015), por possuir, na maioria dos casos, preço de frete superior ao hidroviário e ferroviário, é adequado para o transporte de mercadorias de alto valor ou perecíveis, produtos acabados ou semiacabados. O modal de transporte aéreo, quanto ao seu uso no espaço brasileiro, é relativamente antigo, datado o seu início nos idos dos anos de 1920 quando duas companhias aéreas estrangeiras dominaram o segmento (PABLO; CUNHA, 2011). Esse modal é caracterizado pelo deslocamento célere, em grande quantidade de carga e com capacidade de vencer barreiras geográficas que o modal terrestre não conseguiria fazer, porém, como grande desvantagem, temos o elevado custo associado a esse modal. Destaca-se também, como expressa Rocha (2015), que apesar de existir empresas dedicadas somente ao transporte de cargas, mesmo assim as de passageiros completam sua capacidade de transporte com cargas, como flores, frutas e aparelhos eletrônicos etc. Essa característica, relacionada com outras, tais como uma constante modernização dos sistemas mecânicos das aeronaves, tende a reduzir consideravelmente o custo para o transporte de cargas e pessoas nas próximas décadas. Caro aluno, agora já falamos sobre dois modais importantíssimos para o transporte, sejamde cargas ou mercadorias, agora falemos sobre o terceiro modal, o Transporte fluvial. A região Norte do Brasil é privilegiada por conter em sua geografia vias naturais de navegação, contudo esses diversos rios são subutilizados, como destaca Nogueira (1994) apud Soares e Souza (2017), o transporte fluvial é uma modalidade de transporte quase exclusiva da região amazônica, em especial no estado do Amazonas, que tem uma grande importância, tanto para as pessoas que utilizam deste meio de transporte como para aquelas que realizam esse trabalho. Além disso, o mesmo autor reforça que apesar de ser o principal meio de locomoção, os proprietários das embarcações convivem com a ausência de uma boa infraestrutura portuária. TÓPICO 1 | FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO 59 Dessa forma, destacaremos a seguir as principais características desse importante modal de transporte para região Norte do Brasil, segundo Almeida (2008) apud Marques et al. (2010, p. 7-8): I – São constituídos por veículos hidroviários com uma tecnologia diferenciada, pois as embarcações deslocam-se por um caminho fluido, a água. II – Basicamente, existem três tipos de veículos hidroviários classificados de acordo com o tipo de objeto a ser transportado: a) embarcação para pessoas; b) embarcação para carga; e c) embarcação mista. Esta última é a mais usada na região amazônica. Além disso, Rodrigues (2011) apud Bueno et al. (2014, p. 4) destaca que esse modal apresenta vantagens muito pertinentes, como no quesito de aporte operacional, vejamos no seguinte exemplo: o trabalho que uma transportadora realiza com a aplicação do custo com a mão de obra empregada para se transportar 10 mil toneladas de carga é precisamente de 556 homens para operar uma frota de 278 caminhões (sendo cada caminhão com capacidade média de 36 toneladas já considerando o motorista e ajudante), enquanto que um comboio fluvial com a mesma capacidade necessita de apenas 12 homens em sua tripulação, isso representa uma redução de custo com a mão de obra em torno de 97% em comparação com o modal rodoviário. Além disso, o modal fluvial também apresenta o menor impacto ambiental no requisito desmatamento. Apesar dessas características apresentadas, convidamos você a observar a Tabela 1 construída por Bueno et al. (2014), nela se destaca que a Amazônia (considerando nessa microrregião brasileira os estados do Pará, Amazonas, Amapá, Roraima, Acre e Rondônia) tem a maior extensão de malha navegável do Brasil (18300 km) e, no entanto, o seu potencial é pouco explorado, algo em torno de apenas 723,5 km, o que gera um aproveitamento de aproximadamente 25% do potencial que pode ser utilizado. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 60 QUADRO 1 – REDE HIDROVIÁRIA BRASILEIRA FONTE: Bueno et al. (2014, p. 2) Agora falaremos sobre outro modal. Para o aluno não familiarizado com a temática acerca da engenharia de tráfego, o entendimento do modal dutoviário pode ser facilitado pela etimologia, ou seja, pela constituição dessa palavra. Por duto entendemos como uma canalização, um tubo. A palavra viária(o) faz com que compreendamos que ocorre transporte, deslocamento. Dessa forma, podemos entender que esse modal trata do deslocamento que é realizado com auxílio de dutos. Um conceito mais técnico é colocado por Oliveira (2004), no qual expressa que o transporte dutoviário consiste no transporte de produtos a granel, por gravidade ou pressão mecânica, através de dutos adequadamente projetados para esta finalidade. Como mencionado, esse modal geralmente é utilizado no transporte de segmento específicos da produção, entre eles destacam-se a mineração, petróleo, gás etc. Dutos utilizados para os fins citados são denominados de minerodutos, oleodutos e gasodutos, respectivamente. Segundo Silva (2013), como principal vantagem se destaca a operacionalidade que pode se dar de forma ininterrupta e como principal desvantagem. Oliveira (2004) reforça que o custo no Brasil é elevado, superando o custo, por exemplo, do modal ferroviário, na qual diversos países apresentam um custo menor do ferroviário em relação ao dutoviário. TÓPICO 1 | FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO 61 O Transporte marítimo tem o seu início desconhecido no Brasil por se tratar do primeiro modal implantado no país, contudo o seu auge mais recente ocorreu na década de 1970. Mas o que é o transporte marítimo? Segundo Rocha (2015), o transporte marítimo é o tipo de deslocamento realizado por meio de embarcações utilizando o mar aberto como via. Agora, caro acadêmico, se faça esta pergunta: O que é cabotagem? Veja a seguir a resposta a essa pergunta. Oliveira (2004, p. 65) destaca que: Cabotagem é considerada o transporte marítimo realizado entre portos do mesmo país. Hoje, no Brasil, a Cabotagem é realizada ao longo da costa brasileira, de Rio Grande a Manaus. Porém, aceita-se também, pela denominação de Grande Cabotagem, o transporte marítimo extensivo às Guianas e à Venezuela ou à Argentina. O transporte de Cabotagem no Brasil é regulado pela Constituição Federal de 1988 e pela Lei 9.432 de 08/01/1997, que dispõe sobre a ordenação do transporte aquaviário no país. A Constituição Federal estabelece que: O transporte de cabotagem é privativo de embarcações brasileiras; O capitão do navio deverá ser brasileiro; Dois terços da tripulação também deverá ser brasileira. Caro acadêmico, procure realizar a leitura da Lei no 9432/1997. É uma leitura rápida, com apenas 22 artigos e cerca de 6 páginas. Acesse <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9432.htm>. Fica a dica! DICAS Segundo Rocha (2015), o transporte marítimo é o principal tipo de transporte nas comercializações internacionais e como principal vantagem permite o transporte de diversos tipos de produtos como veículos, cereais, petróleo, alimentos, minérios e combustíveis. Oliveira (2004, p. 75) aponta alguns problemas para esse modal de transporte: I – O custo do transporte marítimo (uma vez que, geralmente, as receitas em especial na cabotagem são em reais e boa parte dos custos fixos são em dólar). II - Os elevados custos de alguns portos brasileiros (que já passaram por uma redução, com o aumento de produtividade). III - A enorme carga tributária, inclusive sobre o combustível, que continua sendo cotado em dólar, associado a fatores de ordem política, como a enorme pressão exercida pelo modal rodoviário; IV - Fatores de ordem econômica, ligados a questões de desenvolvimento e fatores de ordem social como, por exemplo, a geração de empregos. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 62 O próximo modal de transporte é o Ferroviário. Segundo Rocha (2015), é mais lento e não possui muitas vias de acesso como o rodoviário, no entanto, é mais acessível financeiramente, proporcionando menor frete, transporta maiores quantidades e sem enfrentar congestionamentos. Por fim, destacamos o Transporte multimodal, de acordo com Keedi (2001) apud Oliveira (2004, p. 82), a multimodalidade e a intermodalidade são operações que se realizam a partir da utilização de mais de um modal de transporte, não havendo nenhuma restrição à quantidade de modais utilizada. A semelhança entre as duas está somente no ponto do transporte em si, com a utilização de vários modais diferentes para se realizar um transporte completo desde a origem da carga até o seu destino final. Como vantagem, destacamos Oliveira (2004), que afirma que o transporte multimodal alia a conveniência e a simplicidade jurídico-administrativa do transporte unimodal à eficiência econômico-energética do transporte segmentado, com um único responsável perante o dono da carga. Esse sistema é o mais adequado à realidade brasileira atual, haja vista a forte dependência que mercado interno apresenta do sistema rodoviário. 3 ELEMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO Como vimos, existem vários modais de transporte, que são classificados para fins técnicos em sete grupos. Na primeira etapa não introduzimos um conceitoda Engenharia de Tráfego, haja vista que o nosso objetivo era apresentar os modais que observamos frequentemente no cotidiano e dessa forma despertar o interesse no sentido de que você possa familiarizar-se com o contato dessa ciência ligada à engenharia com nosso conhecimento de vida, afinal de contas, quem nunca pegou ou apenas viu um ônibus? Pois é, esse veículo faz parte do modal da rodoviário. No entanto, agora será necessário introduzirmos o conceito ligado à engenharia de tráfego. Propomos que você possa ser questionar: o que é a engenharia de tráfego? O que ela estuda? Qual é o produto gerado por ela? Enfim, são questionamentos de grande importância e para tal vamos evocar a definição estabelecida por Oliveira (2017, p. 38): A Engenharia de Tráfego é um ramo da Engenharia de Transportes que se relaciona com o projeto geométrico, o planejamento e a operação do tráfego de estradas e vias urbanas, suas redes, os seus terminais, o uso do solo adjacente e o seu inter-relacionamento com os outros meios de transporte. O objetivo principal da Engenharia de Tráfego é proporcionar a movimentação segura, eficiente e conveniente de pessoas e mercadorias, com o planejamento de vias e da circulação do trânsito nas mesmas, com vistas ao seu emprego. A Engenharia de Tráfego utiliza os estudos de tráfego como instrumento para atender às suas finalidades. TÓPICO 1 | FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO 63 O primeiro passo para o entendimento da engenharia de tráfego foi realizado, passemos à próxima etapa. Você conhece os principais elementos que compõem a engenharia de tráfego? Tudo na nossa vida pode ser dividido em elementos menores que, quando somados, geram um produto único. Como exemplo, podemos citar uma parede, a qual podemos dividir em elementos menores, como o tijolo/bloco, argamassa de assentamento e, posteriormente, o revestimento/pintura. A junção desses elementos, através de um procedimento executivo ordenado, resultará no produto final, a parede. Além disso, de acordo com Oliveira (2017), os métodos sistemáticos de coleta de dados são as principais metodologias para a obtenção de informações que subsidiaram os estudos da Engenharia de Tráfego, contudo, onde são coletadas essas informações? A resposta para essa pergunta se resume aos elementos que compõem a engenharia de tráfego, que são a via, o veículo, pedestre, motorista e o meio ambiente. Os elementos que compõem a engenharia de tráfego são a via, o veículo, pedestre, motorista e o meio ambiente. IMPORTANT E 3.1 VIA O critério mais aceito atualmente para a classificação de vias é o que prevê o seu aspecto funcional. Dessa forma, segundo Oliveira (2017, p. 40), podem ser classificadas em: I - Arteriais: São aquelas que proporcionam alto nível de mobilidade para grandes volumes de tráfego; promovem ligação de cidades e outros centros geradores de tráfego capazes de atrair viagens de longas distâncias; II – Coletoras: têm função de atender o tráfego intermunicipal e centros geradores de tráfego de menor vulto não servidos pelo sistema arterial; as distâncias são menores e as velocidades mais moderadas em relação às arteriais; III – Locais: rodovias geralmente de pequena extensão, destinadas essencialmente a proporcionar acesso ao tráfego intramunicipal de áreas rurais e de pequenas localidades às rodovias de nível superior. Outra classificação muito aplicada e aceita é conforme o propósito do projeto, alguma outra classificação também pode ser utilizada para diferenciar as rodovias. seguir, Oliveira (2017, p. 38) cita mais alguns casos de classificações. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 64 Outros exemplos de classificação úteis são: Quanto à espécie: urbana (dentro da área urbanizada), interurbana (ligando duas áreas urbanizadas), metropolitanas (contidas numa região metropolitana) e rurais (com os dois extremos localizados fora das áreas urbanizadas); Quanto à posição: radiais (vias que convergem dos bairros para o centro), perimetrais (vias de contorno), longitudinais (vias direção norte – sul), transversais (vias na direção leste – oeste), anulares (vias que circundam o núcleo urbanizado), tangenciais (vias que tangenciam o núcleo urbanizado), diametrais (vias que cruzam o núcleo urbanizado. Para um projeto e execução de sistema viário, alguns pontos são importantes e devem ser absorvidos como elementos-chave por você, entre eles se destacam a adequada mensuração do volume futuro de tráfego para o cenário em análise, haja vista que, com o passar do tempo, o quantitativo de usuários tende a aumentar; a execução da via tem que apresentar estrutura adequada a velocidade de projeto; o projeto e execução da via tem que contemplar o atendimento pleno aos critérios de segurança para todos os usuários; apresentar economia em relação aos custos iniciais e aos custos de manutenção; ser esteticamente agradável para os motoristas e usuários; possibilitar benefícios sociais aos seus usuários; e não impactar negativamente o meio ambiente. 3.2 VEÍCULO Os veículos são o segundo elemento que constituem a engenharia de tráfego, eles podem ser conceituados como todo objeto fabricado para funcionar com propulsão humana e/ou mecânica que tenha como objetivo prover o deslocamento de pessoas e/ou cargas. Caro acadêmico, pense em pelo menos cinco tipos de veículos. Se você realizou esse exercício, provavelmente um dos primeiros foi o automóvel, contudo, temos vários tipos, como a bicicleta, a motocicleta, caminhão. Segundo o manual do DNIT (2006), para fins de projeto é necessário examinar todos os tipos de veículos em circulação, selecionando-os em classes e estabelecendo a representatividade dos tamanhos dos veículos dentro de cada classe. Nesse sentido, destaca-se que grande variedade de veículos existentes conduz a escolha, para fins práticos, de tipos representativos que, em dimensões e limitações de manobra, excedam a maioria dos de sua classe. A estes veículos é dada a designação de veículos de projeto, os quais são definidos como veículos cujo peso, dimensões e características de operação servirão de base para estabelecer os controles do projeto de rodovias e suas interseções. TÓPICO 1 | FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO 65 Além disso, você deve conhecer as classificações que são consideradas no código de trânsito brasileiro, os veículos podem ser classificados quanto à tração, quanto à espécie e quanto à categoria. Procure ler a o Artigo 96 da Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997. Acesse: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9503.htm>. DICAS 3.3 PEDESTRE Com relação a esse terceiro elemento, a engenharia de tráfego objetiva basicamente a análise do seu fluxo. Considera-se para efeito de projeto que ele tem velocidade de caminhada normalmente entre 1,0 a 1,5 m/s e tem um tempo de reação que varia entre 4 e 5 segundos. A velocidade do pedestre depende também das condições de circulação (livre, condicionada ou congestionada). Além disso, as análises mais comuns para pedestres estão relacionadas à ocorrência de acidentes e cálculos de tempos de sinalização (OLIVEIRA, 2017). 3.4 MOTORISTA Esse quarto elemento afeta as características de movimento dos veículos, que disputam a infraestrutura com os pedestres. O motorista, quando desempenha a tarefa de condução, em cada momento realiza de forma contínua uma série de processos, tais como: a percepção, que é a sensação recebida pelos sentidos, transmitida ao cérebro e reconhecida; a identificação, que envolve o reconhecimento e compreensão; a decisão, que envolve o processo de julgar especificamente nos comandos de parar, ir ao lado etc. E a ação que é a execução da decisão (OLIVEIRA, 2017). Segundo Babkov (1975) apud Oliveira (2017, p. 38), “o condutor necessita de um tempo médio de 0,0625 seg. para a visão, 0,05 seg. para a audição e 0,2 seg. para reações a sustos e choques. Tais informações são importantes no processo de dimensionamento do sistema de tráfego”.Além disso, Costa e Macedo (2008) apud Oliveira (2017, p. 38) concluem que a visão é a principal fonte de informação do condutor e o ângulo da zona central do seu campo de visão (cone de visão) varia normalmente entre 3 e 5 graus, e pode chegar a 10 ou 12 graus. Para além do cone de visão, há a visão periférica, com a qual o indivíduo pode ver os objetos sem clareza de detalhes ou cores. Os ângulos normais para a visão periférica são de 120 a 180 graus. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 66 3.5 MEIO AMBIENTE O meio ambiente é o quinto elemento da engenharia de tráfego. O processo de construção de vias, deslocamento de pessoas, cargas etc., influencia significativamente no meio ambiente natural, seja com o desmatamento de uma área, aterramento de córregos ou desalojamento de famílias. O estudo da implantação de um sistema de tráfego deve considerar uma harmonia com ambiente natural preexistente. 4 CARACTERÍSTICAS BÁSICAS DO TRÁFEGO As pesquisas e estudos de tráfego desempenham um papel fundamental na determinação das características básicas do tráfego, tais como o fluxo, a velocidade e densidade, bem como suas correlações, capacidade e nível de serviço. Caro acadêmico, vale frisar que as características básicas do tráfego são três: fluxo, velocidade e densidade. ATENCAO O volume ou fluxo de tráfego (q) é definido, segundo Oliveira (2017), como o número de veículos passando por um ponto durante um intervalo de tempo. Vamos fazer um exercício mental, me acompanhe! Imagine que você está numa via próxima da sua casa contabilizando num caderno quantos veículos estão passando, ao término de 60 minutos foram contabilizados 540 veículos, logo para encontrarmos o fluxo de tráfego dessa via em minutos, é necessário dividir 540 veículos por 60 minutos, que foi o tempo dedicado nessa situação hipotética. O fluxo de tráfego nessa operação será de 9 veículos/minuto. Contudo, variabilidades de fatores tendem a prejudicar uma mensuração mais célere e simplificada de um fluxo de tráfego numa via qualquer. O tráfego pode mudar consideravelmente conforme o parâmetro de mensuração de tempo adotado (hora, dias, meses etc.). Também varia segundo a faixa de tráfego analisada e o sentido do tráfego. Como há variações no fluxo ao longo de uma hora, o fluxo normalmente é medido dividindo uma hora em quatro intervalos de quinze minutos de contagens e é denominado como taxa de fluxo horário equivalente. Esta distinção é importante, pois a taxa de fluxo horário pode ser diferente do volume que seria obtido se o intervalo de observação fosse de uma hora (SETTI, 2002 apud OLIVEIRA, 2017). TÓPICO 1 | FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO 67 O conhecimento gerado sobre o fluxo de tráfego é usado para o planejamento dos diversos sistemas rodoviários, bem como na análise de tendências de crescimento e outras tais como a análise de acidentes, estudos econômicos para a implantação de pedágios, tendências futuras de variação do volume de tráfego, análises operacionais, projeto de componentes do sistema viário etc. A velocidade de tráfego, segundo Oliveira (2017), é a relação entre a distância percorrida e o tempo gasto para percorrer essa distância. As unidades mais usuais são km/h e m/s. Ela pode ser calculada dividindo o volume pela densidade. Além disso, essa característica é um importante indicador da qualidade do serviço fornecido pelas vias e geralmente é associada a análises de segurança viária. As velocidades podem ser obtidas de diversas formas, Oliveira (2017, p. 43) destaca as principais, que são: • Instantânea ou Média no tempo (VM) é a média aritmética das velocidades instantâneas de veículos individuais, medidas em um certo ponto da via. Expresso pela seguinte equação (I): M V V (I) n = ∑ Aonde o ΣV é o somatório de amostras de velocidades coletadas; e n é o número de amostras coletadas. • Média no espaço (Ve) é a velocidade em um trecho de uma via, a qual pode ser calculada pela relação entre a distância total viajada pelos veículos que passam por um certo trecho da via e o tempo total gasto por esses veículos para percorrer este trecho – incluindo os tempos em que, eventualmente, os veículos estejam parados. Pode expresso pela equação (II); f i e f i V V V (II) T T − = − Onde: Ti = Tempo Inicial da viagem; Tf = Tempo final da viagem, considerando o tempo parado no percurso; Vf = Velocidade final da viagem; Vi = Velocidade Inicial da viagem. • Velocidade diretriz ou de projeto é a velocidade usada para o projeto da via, normalmente é a maior velocidade com que um trecho viário pode ser percorrido com segurança, quando o veículo estiver submetido apenas às limitações impostas pelas características geométricas. Além disso, quando definida a velocidade de projeto, a maioria das características geométricas de projeto serão calculadas em função dessa velocidade. O Quadro 2 apresenta um resumo dos valores das velocidades diretrizes recomendadas para as vias do Sistema Arterial Principal no Brasil. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 68 CATEGORIA DA VIA VELOCIDADE DIRETRIZ (Km/h) DESEJÁVEL MÍNIMO Via expressa primária 110 80 Via expressa secundária 90 60 Via arterial primária 80-60* 50 Ramos de interconexões com vias expressas - direcional 80 60 - semidirecional 60 50 - alça 50 40 Outros ramos: função da velocidade diretriz da via de categoria superior - 80 km/h 70 40 - 70 km/h 60 40 - 60 km/h 50 30 - 50 km/h 40 20 * Em função da importância da via, condições topográficas e urbanísticas, características do tráfego e de controle de acesso. QUADRO 2 – VELOCIDADES DIRETRIZES FONTE: O autor, adaptado de DNIT (2010) • Velocidade de operação (V85) é a velocidade máxima com que um veículo pode ser conduzido com segurança numa dada corrente de tráfego, sem exceder a velocidade de projeto da via. Esse parâmetro é considerado elemento de grande relevância no sistema de gerenciamento de uma via. O método mais utilizado para a determinação dessa velocidade é denominado V85, em que, após coletada diversas amostras de velocidade, é realizada a retirada do parâmetro da velocidade sobre frequência relativa acumulada no intervalo de 85 percentil (OLIVEIRA, 2017, p. 43). Veja o exemplo da figura a seguir. TÓPICO 1 | FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO 69 FIGURA 1 – GRÁFICO DE VELOCIDADE OPERACIONAL (V85 ) FONTE: DER (2006, p. 23) Por fim, a última característica é a densidade, definida como o número de veículos por unidade de comprimento da via. Pode ser medida experimentalmente, ou pela relação: mt mt F D (III) V = Onde: Dt = densidade (veic/km) Fmt = fluxo médio no trecho em (veic/h) Vmt = velocidade média no trecho (km/h) A equação acima é usada para fluxos não saturados. A densidade é um parâmetro crítico dos fluxos contínuos, porque caracteriza a proximidade dos veículos, refletindo o grau de liberdade de manobra do tráfego. 5 ESTUDO DO VOLUME DE TRÁFEGO Como vimos, define-se o volume ou fluxo de tráfego como o número de veículos que passam por uma seção de uma via, ou de uma determinada faixa, durante uma unidade de tempo. É expresso normalmente em veículos/dia (veic/d) ou veículos/hora (veic/h). O projeto de uma rodovia deve ser baseado nos volumes de tráfego e demais características desejadas. Todas as informações devem ser consideradas em conjunto: recursos disponíveis, natureza do solo, disponibilidade de materiais, custo da faixa de domínio e outros fatores que têm importância para o projeto. Entretanto, os volumes e natureza do tráfego são os indicadores das UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 70 necessidades a atender e afetam diretamente as características geométricas, como o número de faixas e suas larguras, os raios das curvas e as rampas. Para projetar uma rodovia, assim como uma ponte, é indispensável conhecer os volumes de veículos e a grandeza das cargas que as utilizarão.Dados de tráfego são obtidos com pesquisas de campo. É função dos órgãos públicos ou concessionárias responsáveis pelas vias levantar regularmente os volumes, tipos e cargas dos veículos da malha viária existente. Essas informações ajudarão na previsão do tráfego a ser atendido no futuro (DNIT, 2010). Podem-se adotar dois métodos básicos para o estudo do volume de tráfego de uma via, o primeiro é o Volume Horário de Projeto (VHP), que é o volume de veículos por hora, que deve ser atendido em condições adequadas de segurança e conforto pelo projeto da via em questão. Caro acadêmico, considere que um dia você poderá projetar uma rodovia, para isso deve ser trabalhado em cenários de estudos que estabeleçam condições ideais e, além disso, o estudo deverá comportar as características que atendam à máxima demanda horária prevista para o ano de projeto, com Nível de Serviço adequado. Nessas condições, em nenhuma hora do ano seria ultrapassado o Nível de Serviço prefixado. Em contrapartida, o empreendimento seria antieconômico, pois a essa via ficaria superdimensionada durante as demais horas do ano. Assim, o dimensionamento da rodovia deve prever certo número de horas do ano em que o nível de serviço é inferior ao desejado. Esse número define o volume horário de tráfego que deve ser usado como base para o projeto. Quando se dispõe de contagens horárias contínuas de uma rodovia, que abranjam um período de um ano inteiro, pode-se determinar o volume horário a ser usado no projeto através do critério denominado “Curva da Enésima Hora”. Esta curva consiste na ordenação decrescente de todos os Volumes Horários Anuais, expressos em porcentagem do Volume Médio Diário (VMD), designado como fator K. Tradicionalmente o volume da 30ª hora tem sido usado nos Estados Unidos para base de projeto de muitas vias rurais. Estudos feitos no Brasil, citados no Manual de Projeto Geométrico de Rodovias Rurais – DNER, 1999, mostram que o volume da 50ª hora, da ordem de 8,5% do VMD, vem sendo utilizado para projeto de vias. Considera-se que não se justifica economicamente investir em melhorias para atender a umas poucas horas do ano em que se tem volumes mais elevados. O volume adotado para dimensionamento dos detalhes geométricos das vias e interseções, determinação de níveis de serviço, planejamento da operação da via, sinalização, e regulamentação do trânsito é designado como Volume Horário de Projeto (VHP). O segundo estudo considerado é uma média dos volumes de veículos que circulam durante 24 horas em um trecho de via é dada a designação de Volume Médio Diário (VMD). Ele é computado para um período representativo, o qual, salvo indicação em contrário, é de um ano. Esse volume, que melhor representa a utilização ou serviço prestado pela via, é usado para indicar a necessidade de novas vias ou melhorias das existentes, estimar benefícios esperados de uma obra TÓPICO 1 | FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO 71 viária, determinar as prioridades de investimentos, calcular taxas de acidentes, prever as receitas dos postos de pedágio etc. São de uso corrente os seguintes conceitos de volume médio diário: – Volume Médio Diário Anual (VMDa): número total de veículos trafegando em um ano dividido por 365. – Volume Médio Diário Mensal (VMDm): número total de veículos trafegando em um mês dividido pelo número de dias do mês. É sempre acompanhado pelo nome do mês a que se refere. – Volume Médio Diário Semanal (VMDs): número total de veículos trafegando em uma semana dividido por 7. É sempre acompanhado pelo nome do mês a que se refere. É utilizado como uma amostra do VMDm. – Volume Médio Diário em um Dia de Semana (VMDd): número total de veículos trafegando em um dia de semana. Deve ser sempre acompanhado pela indicação do dia de semana e do mês correspondente. Para todos esses casos, a unidade é veículos/dia (vpd). O VMDa, ou simplesmente VMD, é o de maior importância. Os demais são geralmente utilizados como amostras a serem ajustadas e expandidas para determinação do VMD. O volume de tráfego inclui todos os veículos que circulam pela via em um só sentido ou em ambos, ou ainda, os que circulam por uma só faixa. Quando o volume for representado pela soma dos veículos, independentemente de suas categorias, ele será expresso em “Unidades de Tráfego Misto”, abreviado pela sigla UTM. Por outro lado, se os veículos componentes daquela soma forem convertidos em números equivalentes, por exemplo, de carros de passeio, o volume será então expresso em “Unidades de Carro de Passeio”, abreviado por UCP. 6 ESTUDO DA VELOCIDADE DOS VEÍCULOS O estudo da velocidade dos veículos é fundamental para a realização dos projetos relacionados à engenharia de tráfego. A velocidade é, entre as características essenciais do tráfego, uma das mais complexas para definir. Assume várias formas, de acordo com o tipo de tempo que é utilizado (em movimento, total etc.) e a base espacial sobre a qual é calculada. Os principais conceitos de velocidade utilizados são: − Velocidade: é a relação entre o espaço percorrido por um veículo (d) e o tempo gasto em percorrê-lo (t). Se chamamos de V a velocidade, então V = d/t. Em estudos de tráfego, a velocidade é usualmente determinada em km/h. − Velocidade instantânea: é a velocidade de um veículo em um instante determinado, correspondente a um trecho cujo comprimento tende para zero. − Velocidade pontual: é a velocidade instantânea de um veículo quando passa por um determinado ponto ou seção da via. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 72 − Velocidade média no tempo: é a média aritmética das velocidades pontuais de todos os veículos que passam por um determinado ponto ou seção da via, durante intervalos de tempo finitos, ainda que sejam muito pequenos. − Velocidade média de viagem (velocidade média no espaço): é a velocidade em um trecho de uma via, determinada pela razão do comprimento do trecho pelo tempo médio gasto em percorrê-lo, incluindo os tempos em que, eventualmente, os veículos estejam parados. Se os tempos de viagem t1, t2, t3,...,tn (em horas) são observados para n veículos que percorrem um segmento L, a velocidade média de viagem pode ser obtida pela expressão: MV n i 1 LV (IV) 1n( ti) n = = ∑ Onde: Vmv = velocidade média de viagem (km/h) L = comprimento do trecho (km) ti = tempo de viagem do veículo i (h) n = número de veículos observados Deve ser indicado o período em que foi realizada a pesquisa a que se refere essa velocidade, já que pode variar de um período para outro. Tempo de viagem: é o período durante o qual o veículo percorre um determinado trecho de via, incluindo os tempos de parada. Velocidade média de percurso: é a velocidade em um trecho de uma via, determinada pela razão do comprimento do trecho pelo tempo médio gasto em percorrê-lo, incluindo apenas os tempos em que os veículos estão em movimento. MP n i 1 LV (IV) 1n( ti) n = = ∑ Onde: Vmp = velocidade média de percurso (km/h) L = comprimento do trecho (km) tj = tempo de percurso do veículo j (h) n = número de veículos observados TÓPICO 1 | FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO 73 Assim como a pesquisa anterior de velocidade, nesta, também deve ser indicado o período em que foi realizada, a que se referiram essas contabilizações, já que podem variar de um período para outro. Para fluxos contínuos não operando no nível de serviço F (representa fluxo severamente congestionado, com demanda superior à capacidade.), a velocidade média de viagem é igual à velocidade média de percurso. Outro conceito importante é tempo de percurso, que é o período durante o qual o veículo se encontra em movimento. 7 PESQUISA ORIGEM-DESTINO Como vimos, a engenharia de tráfego necessita da realização de pesquisas para obtenção de dados aos seus mais variados fins. Entre os diversos tipos de pesquisas que auxiliam a engenharia de tráfego, destacaremos a seguir a pesquisa origem-destino. Agora, caro acadêmico, porqual motivo iremos estudar esse tipo de pesquisa? A resposta é simples, essas informações são de grande importância haja vista que são utilizadas no estudo do comportamento atual e futuro do tráfego, e permitem: • Identificar desvios de tráfego provenientes de alterações do sistema viário. • Determinar as cargas dos veículos transportadas nas rodovias; • Estimar taxas de crescimento. • Determinar custos operacionais, custos de manutenção e outras variáveis relativas à viabilidade de eventuais obras no sistema viário. As pesquisas de origem e destino têm como objetivo básico identificar as origens e destinos das viagens realizadas pelos diferentes tipos de veículos em um determinado sistema de vias. Possibilitam, ainda, conforme a amplitude do estudo que se tem em vista, a obtenção de informações de diversas outras características dessas viagens, tais como: tipo, valor e peso da carga transportada, números de passageiros, motivos das viagens, horários, frequência, quilometragens percorridas por ano etc. 7.1 MÉTODOS DE PESQUISA De acordo com DNIT (2006), temos vários os métodos conhecidos e aplicados, e sua escolha depende dos objetivos do estudo, da precisão requerida e dos recursos disponíveis. Os métodos mais empregados são: a) Método de entrevistas a domicílio (pesquisa domiciliar): é utilizado no estudo de tráfego urbano e é baseado na técnica de coleta de amostras em entrevistas em domicílio. São colhidas informações sobre os movimentos de tráfego, os meios de transporte utilizados e outras informações de interesse, dentro da área de pesquisa. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 74 Selecionados os domicílios a serem pesquisados, cada um de seus residentes com idade superior a cinco anos é submetido a um questionário relativo às viagens realizadas no dia anterior. A escolha do dia anterior evita esforço de memória. O questionário deve procurar obter principalmente as informações sobre o Endereço da residência; Identificação da pessoa que fez a viagem (nome, idade etc.); Origem e destino de cada viagem (endereço/indicação); horário e duração da viagem; motivo da viagem (passeio, trabalho, escola e outros); modo da viagem (carro, ônibus, trem, a pé, metrô etc.); números de carros, motos, da unidade familiar; tipo de residência (casa própria, alugada, pensão etc.). Por fim, reforça- se que dependendo dos objetivos da pesquisa podem ser incluídos outros dados. Com relação aos dias e às horas de entrevistas, devem ser planejados de modo a cobrir os objetivos da pesquisa. Em princípio as viagens devem referir-se aos dias em que o padrão seja o mesmo, ou seja, durante os dias da semana nos quais as variações são pouco sensíveis. A determinação do tamanho da amostra deve ser embasada em procedimentos estatísticos a fim de que a informação obtida seja representativa das viagens realizadas por todos os residentes da região. O tamanho da amostra depende principalmente da homogeneidade da população em relação ao atributo que será estimado, e bem pouco do número de residentes. Depende também do número de zonas de pesquisa consideradas na setorização da área. Estudos já realizados indicam, como mínimo aconselhável, amostra variando de 1.000 a 2.000 residências, sendo esta última cifra para cidades com mais de um milhão de habitantes. Acima deste limite, pode ser tomado 1% como fração mínima de amostragem. Durante a realização da pesquisa, deve-se proceder a um controle de qualidade dos questionários entregues pelos pesquisadores. Desse modo cada lote terá algumas entrevistas refeitas por um segundo pesquisador e os resultados comparados antes de sua completa aceitação. Efetuado o controle de qualidade e refeitos os lotes eventualmente rejeitados, procede-se a tabulações iniciais, tais como: Número de viagens por motivo na origem e no destino; Número de viagens por motivo e por modo; Número de viagens por zona de residência e por tempo de percurso; Número de viagens por zona de residência e por hora da viagem; Número de viagens por hora da viagem, por modo e por tempo de percurso. Estes dados fornecem informações quanto ao padrão dos deslocamentos realizados na área de estudo, permitindo-se tirar decisões quanto às viagens que serão utilizadas na determinação e calibração dos modelos de simulação a serem utilizados. Além desses resultados são determinados também alguns índices, por exemplo: TÓPICO 1 | FUNDAMENTOS DA ENGENHARIA DE TRÁFEGO 75 • média de viagens por pessoa por dia; • número de pessoas por domicílio; • número de viagens por domicílio; • percentagem de viagens por transporte coletivo em relação ao total; • números de transferências realizadas nas viagens por transporte coletivo; • tempos médios de viagem de acordo com os motivos. Esses valores são comparados a índices semelhantes obtidos em estudos anteriores para teste de coerência, visando também auxiliar na determinação dos modelos a serem utilizados. b) Método de identificação de placas: esse método é recomendado para áreas onde o volume de tráfego é muito elevado para ser paralisado para entrevistas e/ou onde o número de entradas e saídas da área for muito grande. É recomendado também para interseções de vários ramos, em que se torna difícil determinar as origens e destinos dos veículos. Dependendo dos objetivos do estudo e do grau de precisão requerido, a pesquisa pode ser executada de três formas: I - A primeira consiste na anotação do número da placa dos veículos que se encontram estacionados em determinados locais. Esses locais são considerados como pontos de destino, enquanto os locais onde os veículos são guardados de forma permanente (dado que se pode obter das listas de registro) são considerados como pontos de origem. II - A segunda forma consiste em colocar observadores em pontos estratégicos de entrada e saída de locais prefixados (praças rotatórias, pontes, passagem de nível etc.), os quais anotam as placas dos veículos que entram e saem dos mencionados locais, bem como qualquer outra informação de interesse (hora de passagem pela seção de entrada ou saída, tipos dos veículos, suas marcas etc.). Os dados tomados por todos os observadores são comparados entre si, sofrendo uma análise para determinação da entrada e saída de cada veículo e que serão considerados como seus pontos de origem e destino. A apuração dos dados de campo requer programas específicos de computador ou uma grande equipe de escritório. Usualmente, não mais de 60% das informações são aproveitadas, já que só são úteis as placas anotadas nas entradas e nas saídas. O conhecimento do tempo de percurso entre cada par de origem e destino facilita bastante a apuração dos resultados. Tem como desvantagem a insegurança na leitura do número da placa, além da suposição “a priori” de que a origem e destino coincidem com os pontos de entrada e saída. O primeiro inconveniente pode ser reduzido anotando- se apenas os três últimos algarismos da placa do veículo, e no caso de dificuldade de anotação da placa (volume muito alto), utilizando-se outro pesquisador para ditar os dados. As anotações devem ser grupadas sempre dentro de um intervalo horário, podendo ser utilizada a mesma ficha de campo das contagens manuais de volume. III - A terceira forma consiste na filmagem contínua do tráfego e leitura posterior por exibição lenta da passagem dos veículos. Apresentará custo mais elevado. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 76 c) Método de tarjetas postais Esse método deve ser utilizado nos locais em que o volume de tráfego tem uma intensidade tal que os veículos não possam ser detidos por muito tempo para entrevistas. As tarjetas são preparadas para serem preenchidas pelos usuários da via e contêm um questionário com endereço para retorno. Elas podem ser distribuídas em um ponto selecionado da via, ou então serem enviadas pelo correio às residências ou locais de trabalho onde se encontrem registrados os proprietários de veículos. O referido método não oferece dadosprecisos porque o fator humano influi sensivelmente sobre ele, exigindo um certo grau de instrução por parte de quem preenche os formulários. Caro acadêmico, agora que você conhece esses três métodos de pesquisa vamos falar sobre o dimensionamento da equipe que é necessária para realizar a pesquisa. Esse dimensionamento das pesquisas de origem e destino deve considerar que um pesquisador bem treinado pode realizar de 10 a 20 entrevistas por hora, levantando três a seis informações em cada uma delas. Para cada posto de pesquisa de origem e destino deve-se dispor de pelo menos dois entrevistadores, um para veículos de carga e um para carros de passeio. As informações relativas a ônibus são normalmente coletadas junto às empresas e órgãos encarregados de sua fiscalização. Um pesquisador experimentado pode contar e classificar por tipo de veículo e por sentido de tráfego, todos os veículos de uma rodovia de uma pista com duas faixas e dois sentidos de tráfego, até o volume da ordem de 350 veículos por hora. Para volumes superiores se utilizarão pelo menos dois pesquisadores, cada um contando e classificando os veículos de uma mesma faixa e sentido de tráfego. Um pesquisador pode ser responsável por até 450 veículos por hora. Convém observar que além de entrevistadores e contadores, para volumes elevados de tráfego necessita-se de selecionadores de veículos, que separarão do tráfego os veículos a serem entrevistados, o que deverão fazer de forma aleatória, de modo a não criar qualquer tendência quanto às suas características. Normalmente bastam dois selecionadores: um para cada sentido de tráfego. Finalmente, cada posto de pesquisa deverá contar com um chefe de equipe, responsável geral pelos serviços. 77 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • Os sistemas de transportes são compostos por sete modais; além disso, aprendeu que os elementos da engenharia de tráfego são a via, veículo, pedestre, motorista e meio ambiente. • Existem aspectos relevantes para as características básicas da engenharia de tráfego, com destaque para volume de fluxo e a velocidade de tráfego. • Nos estudos que abordam o volume e a velocidade de tráfego são necessárias as aplicações de definições e formulações que auxiliam a obtenção desses parâmetros, bem como os aspectos relevantes para a realização de pesquisas que fornecem subsídios para a engenharia de tráfego. • A realização da pesquisa de origem-destino, bem como seus três principais métodos de determinação, é definida conforme as características do ambiente. 78 AUTOATIVIDADE 1 De acordo os sistemas de transporte apresentados nesse tópico, observamos um modal que se adéqua às características geográficas do estado do Pará. À qual modal de transporte nos referimos? a) ( ) Rodoviário. b) ( ) Dutoviário. c) ( ) Ferroviário. d) ( ) Fluvial. e) ( ) Marítimo. 2 Em uma pesquisa de velocidade de tráfego para uma via de fluxo intenso caracterizada como arterial foram registrados os seguintes valores de velocidade para cinco veículos diferentes: 90 km/h, 120 km/h, 100 km/h, 110 km/h e 90 km/h. Com base nestas informações, determine a média no tempo e marque a alternativa correta: a) ( ) 85 km/h. b) ( ) 120 km/h. c) ( ) 102 km/h. d) ( ) 118 km/h. e) ( ) 112 km/h. 3 Sabe-se que as pesquisas de origem e destino têm como objetivo básico identificar as origens e destinos das viagens realizadas pelos diferentes tipos de veículos em um determinado sistema de vias. Possibilitam, ainda, conforme a amplitude do estudo que se tem em vista, a obtenção de informações de diversas outras características dessas viagens. Com base nesse tipo de pesquisa, marque as afirmativas como Verdadeiras (V) ou Falsas (F) e assinale a alternativa correta: I ( ) Permite identificar desvios de tráfego provenientes de alterações do sistema viário. II ( ) Esse tipo de pesquisa possibilita estimar taxas de crescimento. III ( ) Na pesquisa origem-destino, o método da identificação de placas é indicado para aplicação em cidade com pequeno fluxo de veículo. a) ( ) V, V e V. b) ( ) F, V e V. c) ( ) V, V e F. d) ( ) F, F e V. e) ( ) F, V e F. 79 TÓPICO 2 SINALIZAÇÃO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Os sistemas existentes de sinalização são ferramentas essenciais para o bom funcionamento do trânsito e devem ser planejados, bem como implantados, tendo como referência o princípio básico de que as condições de percepção dos usuários da via sejam garantidas através da clara visualização da sinalização. Basicamente a sinalização se divide em três categorias, a sinalização vertical, sinalização horizontal e a sinalização semafórica. No que se refere à sinalização vertical, o CONTRAN (2007a) destaca que esse grupo pode ser dividido em três tipos, sinalização vertical de regulamentação, de advertência e de indicação. A sinalização horizontal é o tipo de comunicação inscrita no pavimento que possui a finalidade de transmitir e orientar os usuários sobre as condições de utilização adequada da via, compreendendo as proibições, restrições e informações que lhes permitam adotar comportamento adequado, de forma a aumentar a segurança e ordenar os fluxos de tráfego. Por fim, a sinalização semafórica é indicada mediante uma avaliação acerca da ineficácia de outras formas de controle, tais como o controle a partir da obediência às normas gerais de circulação e conduta estabelecidas no Código de Trânsito Brasileiro etc. O seu método de dimensionamento ocorre atualmente de acordo com o método de Webster. Para fins de projeto, o próprio CONTRAN estabelece as diretrizes mínimas, que devem ser observadas com muita acuidade para a garantia do atendimento aos padrões de segurança, qualidade e economia. 2 TIPOS DE SINALIZAÇÃO Segundo Oliveira (2017), a sinalização é o conjunto de processos de comunicação visual e/ou sonora, pelo qual a autoridade de trânsito regulamenta, adverte ou indica o uso da via, tornando as operações de trânsito mais seguras, ordenando os fluxos dos veículos e/ou pedestres e permitindo o aumento da capacidade de vazão das vias públicas. Na concepção e na implantação UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 80 da sinalização de trânsito, deve-se ter como princípio básico as condições de percepção dos usuários da via, garantindo a real eficácia dos sinais. Além disso, deve-se procurar atender aos seguintes princípios: • Legalidade: Código de Trânsito Brasileiro – CTB e legislação complementar. • Suficiência: permitir fácil percepção do que realmente é importante, com quantidade de sinalização compatível com a necessidade. • Padronização: seguir um padrão legalmente estabelecido, e situações iguais devem ser sinalizadas com os mesmos critérios. • Clareza: transmitir mensagens objetivas de fácil compreensão. • Precisão e confiabilidade: serem precisas e confiáveis, corresponderem à situação existente; ter credibilidade. • Visibilidade e legibilidade: ser vista a distância necessária; ser lida em tempo hábil para a tomada de decisão. • Manutenção e conservação: estar permanentemente limpa, conservada, fixada e visível. Agora que você já conhece esses princípios, vamos estudar os três tipos de sinalização que são pertinentes ao estudo da engenharia de tráfego, a sinalização vertical, sinalização horizontal e a semafórica. No entanto, abordaremos a sinalização semafórica com mais atenção no subtópico a seguir. 2.1 SINALIZAÇÃO VERTICAL A primeira espécie de sinalização é a vertical, na qual esse grupo é dividido em três tipos. O primeiro tipo, de acordo com O CONTRAN (2007a), é a sinalização vertical de regulamentação, que é um conjunto de cinquenta e um símbolos que têm por finalidade transmitir aos usuários as condições, proibições, obrigações ou restrições no uso das vias urbanas e rurais. Assim, o desrespeito aos sinais de regulamentação constitui infrações de trânsito. FIGURA 2 – EXEMPLO DE ALGUNS CONJUNTO DE SINAIS DE REGULAMENTAÇÃO FONTE: CONTRAN (2007a, p. 24) TÓPICO2 | SINALIZAÇÃO 81 Acesse <http://www.denatran.gov.br/images/Educacao/Publicacoes/Manual_ VOL_I_2.pdf>. Caro acadêmico, nesse site você encontrará os parâmetros normativos e técnicos para elaboração de sinalização vertical de regulamentação. É um documento muito importante, com 222 páginas, que auxilia na elaboração dos projetos de sinalização. NOTA A maioria dos sinais de regulamentação tem validade no ponto em que está implantado ou a partir deste ponto. Outros têm sua validade na face de quadras onde estão implantados vinculados à sinalização horizontal ou às informações complementares. A forma padrão do sinal de regulamentação é a circular, e as cores são: vermelho, preto e branca. Constituem exceção, quanto à forma, os sinais de “Parada obrigatória” e “Dê a preferência”. A Figura 3 demonstra visualmente esse importante elemento que deve ser observada pelo projetista. FIGURA 3 – CARACTERÍSTICAS DOS SINAIS DE REGULAMENTAÇÃO FONTE: CONTRAN (2007a, p. 26) Devem ser sempre observadas as dimensões mínimas estabelecidas por tipo de via conforme os quadros a seguir. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 82 QUADRO 3 – DIMENSÕES MÍNIMAS – SINAIS DE FORMA CIRCULAR QUADRO 4 – DIMENSÕES MÍNIMAS – SINAIS DE FORMA OCTOGONAL QUADRO 5 – DIMENSÕES MÍNIMAS – SINAIS DE FORMA TRIANGULAR FONTE: CONTRAN (2007a, p. 27) FONTE: CONTRAN (2007a, p. 28) FONTE: CONTRAN (2007a, p. 29) Via (m) (m) (m) Urbana (trânsito rápido) 0,75 0,075 0,075 Urbana (demais vias) 0,50 0,050 0,050 Rural (estrada) 0,75 0,075 0,075 Via Lado(m) Orla interna branca(m) Orla externa vermelha(m) Urbana 0,35 0,028 0,014 Rural (estrada) 0,35 0,028 0,014 Rural (rodovia) 0,50 0,040 0,020 Via Lado(m) Tarja (m) Urbana 0,90 0,15 Rural (estrada) 0,90 0,15 Rural (rodovia) 1,00 0,20 Os sinais de regulamentação podem ser aplicados em placas pintadas, retrorrefletivas, luminosas (dotadas de iluminação interna) ou iluminadas (dotadas de iluminação externa frontal). Nas rodovias ou vias de trânsito rápido, não dotadas de iluminação pública, as placas devem ser retrorrefletivas, luminosas ou iluminadas. Em vias urbanas recomenda-se que as placas de “Parada obrigatória”, “Dê a preferência” e de “Velocidade máxima” sejam, no mínimo, retrorrefletivas. Estudos de engenharia podem demonstrar a necessidade de utilização das placas retrorrefletivas, luminosas ou iluminadas em vias com deficiência de iluminação ou situações climáticas adversas. TÓPICO 2 | SINALIZAÇÃO 83 Agora vamos falar sobre o segundo tipo de sinalização vertical. O CONTRAN (2007b) estabelece que a sinalização vertical de advertência tem por finalidade alertar aos usuários as condições potencialmente perigosas, obstáculos ou restrições existentes na via ou adjacentes a ela, indicando a natureza dessas situações à frente, quer sejam permanentes, quer sejam eventuais, ou seja, deve ser utilizada sempre que o perigo não se evidencie por si só. Essa sinalização exige geralmente uma redução de velocidade com o objetivo de propiciar maior segurança de trânsito. Atualmente são sessenta e nove sinais de advertência para alertar o usuário, contudo, a aplicação dessa sinalização deve ser precedida após estudos de engenharia que levem em conta os aspectos físicos, geométricos, operacionais, ambientais, dados estatísticos de acidentes bem como uso e ocupação do solo lindeiro. A decisão de colocação dessa sinalização dependerá do exame apurado das condições do local e do conhecimento do comportamento dos usuários da via. Reforça-se que se deve evitar o uso indiscriminado e excessivo, pois compromete a confiabilidade e a eficácia da sinalização. FIGURA 4 – EXEMPLO DE ALGUNS CONJUNTO DE SINAIS DE ADVERTÊNCIA FONTE: CONTRAN (2007b, p. 12) Acesse <http://www.denatran.gov.br/images/Educacao/Publicacoes/Manual_ VOL_II_(2).pdf>. Caro acadêmico, nesse site você encontrará os parâmetros normativos e técnicos para elaboração de sinalização vertical de advertência. É um documento muito importante, com 220 páginas, que auxilia na elaboração dos projetos de sinalização. NOTA A forma padrão dos sinais de advertência é a quadrada, devendo uma das diagonais ficar na posição vertical, quanto às cores, são a amarela e a preta. Como exceção quanto à forma temos os sinais de “sentido único”, sentido duplo” e “cruz de Santo André”. Com relação à cor, as exceções são para “semáforo à frente” e “obras”, na qual o fundo e a orla externa devem ser na cor laranja. O quadro a seguir exibe esses padrões sem exceções que foram mencionadas. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 84 QUADRO 6 – CARACTERÍSTICAS DOS SINAIS DE ADVERTÊNCIA FONTE: CONTRAN (2007b, p. 15) Com relação às dimensões das placas, devem ser observadas as dimensões mínimas estabelecidas por tipo de via conforme os quadros a seguir. Via Lado mínimo(m) Orla externa mínima (m) Orla interna mínima (m) Urbana 0,450 0,009 0,018 Rural (estrada) 0,500 0,010 0,020 Rural (rodovia) 0,600 0,012 0,024 Área protegidas por legislação especial(*) 0,300 0,006 0,012 Via Lado maior mínimo (m) Lado menor mínimo (m) Orla externa mínima (m) Orla interna mínima (m) Urbana 0,500 0,250 0,005 0,010 Rural (estrada) 0,800 0,400 0,008 0,016 Rural (rodovia) 1,000 0,500 0,010 0,020 Área protegidas por legislação especial(*) 0,400 0,200 0,006 0,012 QUADRO 7 – DIMENSÕES MÍNIMAS – SINAIS DE FORMA QUADRADA FONTE: CONTRAN (2007b, p. 18) QUADRO 8 – DIMENSÕES MÍNIMAS – SINAIS DE FORMA RETANGULAR FONTE: CONTRAN (2007b, p. 18) TÓPICO 2 | SINALIZAÇÃO 85 QUADRO 9 – DIMENSÕES MÍNIMAS – SINAL DE SANTO ANDRÉ Parâmetro Variação Relação entre dimensões de largura e comprimento dos braços de 1:6 a 1:10 Ângulos menores formados entre os dois braços entre 45 o e 55o FONTE: CONTRAN (2007b, p. 18) O terceiro tipo de sinalização vertical é de indicação. Segundo o CONTRAN (2014a), é a comunicação efetuada por meio de um conjunto de placas, com a finalidade de identificar as vias e os locais de interesse, bem como orientar condutores de veículos e pedestres quanto aos percursos, destinos, acessos, distâncias, serviços auxiliares e atrativos turísticos, podendo também ter como função a educação do usuário. Esse tipo de sinalização pode ser dividido nos seguintes grupos: • Placas de identificação. • Placas de orientação de destino. • Placas educativas. • Placas de serviços auxiliares. • Placas de atrativos turísticos. • Placas de postos de fiscalização. FIGURA 5 – EXEMPLO DE ALGUNS CONJUNTO DE SINAIS DE INDICAÇÃO FONTE: CONTRAN (2014a, p. 82) UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 86 Acesse <http://www.denatran.gov.br/download/Resolucoes/ManualSinalizacao Indicativa2(alterado%20pela%203).pdf>. Caro acadêmico, nesse site você encontrará os parâmetros normativos e técnicos para elaboração de sinalização vertical de indicação. É um documento muito importante, com 343 páginas, que auxilia na elaboração dos projetos de sinalização. NOTA Com relação às formas, os elementos, as cores e as dimensões mínimas que constituem a sinalização de indicação são objeto de Resolução nº 160/04 do CONTRAN e devem ser rigorosamente seguidos pelo projetista, para que se obtenha o melhor entendimento por parte do usuário. Destacamos que as dimensões das placas de indicação devem ser calculadas em função da velocidade regulamentada na via, do tipo de placa, do número de informações e da maior legenda nelas contida, assim como dos demais elementos que as compõem (setas, orlas, tarjas, pictogramas, símbolos e diagramas). 2.2 SINALIZAÇÃO HORIZONTAL De acordo com CONTRAN (2007c), a sinalização horizontal tem a finalidade de transmitir e orientar os usuários sobre as condições de utilização adequada da via, compreendendo as proibições, restrições e informações que lhes permitam adotar comportamento adequado, de forma a aumentar a segurança e ordenar os fluxos de tráfego. A sinalização horizontal é classificada segundo sua função de ordenar e canalizar o fluxo de veículos; orientar o fluxode pedestres; orientar os deslocamentos de veículos em função das condições físicas da via, tais como geometria, topografia e obstáculos; complementar os sinais verticais de regulamentação, advertência ou indicação, visando enfatizar a mensagem que o sinal transmite; regulamentar os casos previstos no Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Em algumas situações, a sinalização horizontal atua, por si só, como controladora de fluxos. Pode ser empregada como reforço da sinalização vertical, bem como ser complementada com dispositivos auxiliares. Acerca do padrão de formas e cores, a sinalização horizontal é constituída por combinações de traçado e cores que definem os diversos tipos de marcas viárias. De acordo com o CONTRAN (2007c), tais padrões podem ser: TÓPICO 2 | SINALIZAÇÃO 87 • Contínuos: caracterizado pelas linhas sem interrupção, aplicadas em trecho específico de pista. • Tracejado ou seccionado: correspondem às linhas interrompidas, aplicadas em cadência, utilizando espaçamentos com extensão igual ou maior que o traço. • Setas, símbolos e legendas: correspondem às informações representadas em forma de desenho ou inscritas, aplicadas no pavimento, indicando uma situação ou complementando a sinalização vertical existente. Quanto ao padrão de cores, podem ser dos seguintes tipos: • Amarela, utilizada para: – Separar movimentos veiculares de fluxos opostos. – Regulamentar ultrapassagem e deslocamento lateral. – Delimitar espaços proibidos para estacionamento e/ou parada. – Demarcar obstáculos transversais à pista (lombada). • Branca, utilizada para: – Separar movimentos veiculares de mesmo sentido. – Delimitar áreas de circulação. – Delimitar trechos de pistas, destinados ao estacionamento regulamentado de veículos em condições especiais. – Regulamentar faixas de travessias de pedestres. – Regulamentar linha de transposição e ultrapassagem. – Demarcar linha de retenção e linha de “Dê a preferência”. – Inscrever setas, símbolos e legendas. • Vermelha, utilizada para: – Demarcar ciclovias ou ciclofaixas. – Inscrever símbolo (cruz). • Azul, utilizada como base para: – Inscrever símbolo em áreas especiais de estacionamento ou de parada para embarque e desembarque para pessoas portadoras de deficiência física. • Preta, utilizada para: – Proporcionar contraste entre a marca viária/inscrição e o pavimento, (utilizada principalmente em pavimento de concreto) não constituindo propriamente uma cor de sinalização. Quanto às dimensões, as larguras das linhas longitudinais são definidas pela sua função e pelas características físicas e operacionais da via. As linhas tracejadas e seccionadas são dimensionadas em função do tipo de linha e/ ou da velocidade regulamentada para a via. A largura das linhas transversais e o dimensionamento dos símbolos e legendas são definidos em função das características físicas da via, do tipo de linha e/ou da velocidade regulamentada para a via. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 88 O manual do CONTRAN (2007c) classifica as sinalizações horizontais em cinco tipos: I - Marcas longitudinais: as marcas longitudinais separam e ordenam as correntes de tráfego, definindo a parte da pista destinada à circulação de veículos, a sua divisão em faixas de mesmo sentido, a divisão de fluxos opostos, as faixas de uso exclusivo ou preferencial de espécie de veículo, as faixas reversíveis, além de estabelecer as regras de ultrapassagem e transposição. II - Marcas transversais: as marcas transversais ordenam os deslocamentos frontais dos veículos e os harmonizam com os deslocamentos de outros veículos e dos pedestres, assim como informam os condutores sobre a necessidade de reduzir a velocidade e indicam travessia de pedestres e posições de parada. III - Marcas de canalização: as marcas de canalização são utilizadas para orientar e regulamentar os fluxos de veículos em uma via, direcionando-os de modo a propiciar maior segurança e melhor desempenho, em situações que exijam uma reorganização de seu caminhamento natural. IV - Marcas de delimitação e controle de parada e/ou estacionamento: as marcas de delimitação e controle de estacionamento e/ou parada delimitam e proporcionam melhor controle das áreas onde é proibido ou regulamentado o estacionamento e a parada de veículos, quando associadas à sinalização vertical de regulamentação. Nos casos previstos no CTB, essas marcas têm poder de regulamentação. V - Inscrições no pavimento: as inscrições no pavimento melhoram a percepção do condutor quanto às condições de operação da via, permitindo- lhe tomar a decisão adequada, no tempo apropriado, para as situações que se lhes apresentarem. Possuem função complementar ao restante da sinalização, orientando e, em alguns casos, advertindo certos tipos de operação ao longo da via. A figura a seguir apresenta um exemplo genérico de sinalização horizontal. FIGURA 6 – EXEMPLO DE SINALIZAÇÃO HORIZONTAL FONTE: CONTRAN (2007c, p. 39) TÓPICO 2 | SINALIZAÇÃO 89 Acesse <http://www.denatran.gov.br/images/Educacao/Publicacoes/Manual_ VOL_IV_2.pdf>. Caro acadêmico, nesse site, você encontrará os parâmetros normativos e técnicos para elaboração da sinalização horizontal. É um documento muito importante, com 130 páginas, que auxilia na elaboração dos projetos de sinalização. NOTA 2.3 SINALIZAÇÃO SEMAFÓRICA Caro acadêmico, a sinalização semafórica frequentemente observada no nosso cotidiano é adotada mediante uma avaliação acerca da ineficácia de outras formas de controle, tais como o controle a partir da obediência às normas gerais de circulação e conduta estabelecidas no Código de Trânsito Brasileiro (CTB); o controle com o uso de sinalização vertical de regulamentação e/ou de sinalização horizontal (faixa de travessia de pedestres tipo zebrada);e implantação de rotatórias ou outras formas de canalização do tráfego em interseções. Se nem uma dessas alternativas funcionar, adota-se a sinalização semafórica, que, de acordo com o CONTRAN (2014b), é o subsistema de sinalização que tem por finalidade transmitir aos usuários a informação sobre o direito de passagem em interseções e/ou seções de via onde o espaço viário é disputado por dois ou mais movimentos conflitantes, ou advertir sobre a presença de situações na via que possam comprometer a segurança dos usuários. De acordo com o CONTRAN (2014b, p. 24), pode-se classificar em dois tipos a sinalização semafórica: 1º - Sinalização semafórica de regulamentação: tem a função de efetuar o controle do trânsito numa interseção ou seção de via, através de indicações luminosas, alternando o direito de passagem dos vários fluxos de veículos e/ou pedestres; 2º - Sinalização semafórica de advertência: tem a função de advertir sobre a existência de obstáculo ou situação perigosa, devendo o condutor reduzir a velocidade e adotar as medidas de precaução compatíveis com a segurança para seguir adiante. A figura a seguir exibe alguns tipos de indicadores luminosos aplicadas na sinalização semafórica. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 90 FIGURA 7 – ALGUNS EXEMPLOS DE SINALIZAÇÃO LUMINOSA SEMAFÓRICA FONTE: CONTRAN (2014b, p. 25) Com relação a formas, cores e sinais, existem diferentes combinações integrantes da sinalização semafórica que por sua vez possuem significados distintos e transmitem informações específicas ao condutor e pedestre. Essas informações são repassadas através da Resolução nº 160 do CONTRAN, publicada em 2004. Essa mesma resolução estabelece os parâmetros técnicos mínimos às formas e dimensões das lentes. O quadro a seguir exibe esse resumo de informações para fins de projeto. QUADRO 10 – FORMAS E DIMENSÕES DAS LENTES DOS FOCOS SEMAFÓRICOS FONTE: CONTRAN (2014b, p. 26) TÓPICO 2 | SINALIZAÇÃO 91 Acesse <http://www.denatran.gov.br/images/Educacao/Publicacoes/Manual_VOL_V_2.pdf>. Caro acadêmico, neste site, você encontrará os parâmetros normativos e técnicos para elaboração da sinalização semafórica. É um documento muitoimportante, com 314 páginas, que auxilia na elaboração dos projetos de sinalização. NOTA 3 DIMENSIONAMENTO DE SEMÁFOROS O atual método para dimensionamento de semáforos que foi publicado em 2014 no Manual Brasileiro de Sinalização de Trânsito – Volume 5, do CONTRAN (CONTRAN, 2014b), se baseia na definição de um tempo de ciclo ótimo calculado pelo método de Webster, ou seja, esse método trabalha com o melhor desempenho para a trecho controlado. De acordo com Costa e Silva (2017), o dimensionamento de semáforos pode ser resumido de acordo com fluxograma da Figura 8. UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 92 FIGURA 8 – FLUXOGRAMA DO PROCESSO DE DIMENSIONAMENTO DE SEMÁFOROS FONTE: Costa e Silva (2017, p. 61) Taxa de ocupação: denomina-se taxa de ocupação de um grupo de movimentos, representada pelo símbolo y, a relação entre sua taxa de fluxo e o respectivo fluxo de saturação, expressos na mesma unidade. É calculada pela Fy FS = em que y – taxa de ocupação; F – Taxa de fluxo do grupo de movimentos, em veículos por hora, ou ucp por hora; FS – Fluxo de saturação do grupo de movimentos, em veículos por hora ou ucp por hora. TÓPICO 2 | SINALIZAÇÃO 93 n i 1 Tp tep (tpini tpfni) = = + +∑ O tempo perdido total, representado por Tp, será calculado, então, com o uso da seguinte equação: em que Tp - tempo perdido total, em segundos; tep – tempo de estágio exclusivo para pedestres, caso existente, em segundos; n – número de estágios veiculares existentes; tpini – tempo perdido no início do estágio i, em segundos; tpfni – tempo perdido no final do estágio i, em segundos. O tempo de ciclo: denomina-se ciclo a sequência completa das indicações de uma sinalização semafórica. Calcula o tempo de ciclo, denominado pelo autor de tempo de ciclo ótimo, de forma que o tempo de espera veicular seja mínimo, será calculado, então, com o uso da seguinte equação: n ii 1 1,5xTp 5Tco 1 y = + = −∑ em que, tco – tempo de ciclo ótimo, em segundos; Tp – tempo perdido total, em segundos; yi – taxa de ocupação do grupo de movimentos crítico do estágio i; n – número de estágios. O tempo de verde efetivo: é calculado pela equação a seguir: i n ii 1 y tv,efet, i (tc Tp)x 1 y = = − −∑ em que, tv,ef,i – tempo de verde efetivo do estágio i, em segundos; tc – tempo de ciclo, em segundos; Tp – tempo perdido total, em segundos; yi – taxa de ocupação do grupo de movimentos crítico do estágio i; n – número de estágios. O tempo de verde real: é calculado pela equação a seguir: tv,real tv,efet tent tpin tpfn= − + + em que tv,real – tempo de verde real, em segundos; tv,efet– tempo de verde efetivo, em segundos; UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 94 tent – tempo de entreverdes, em segundos; tpin– tempo perdido no início, em segundos; tpfn – tempo perdido no final, em segundos. Findado o procedimento de cálculo de acordo com o fluxograma da figura acima, deve-se proceder ao ajuste do intervalo da programação semafórico, se este for caso. 4 SEGURANÇA NO TRÂNSITO De acordo com Lima, Santos e Alves (2015), a violência no trânsito é uma das dez maiores ‘causas mortis’ no mundo, com cerca de 1,2 milhão de óbitos por ano. Segundo a estimativa da OMS (Organização Mundial de Saúde) apud Lima; Santos e Alves (2015, p. 2), em 2020 os acidentes de trânsito serão o terceiro maior problema de saúde pública em escala mundial, perdendo apenas para doenças coronarianas e para a depressão. Verificando esse flagelo mundial, a Organização das Nações Unidas lançou em 2009 a Década de Ações pelo Trânsito Seguro marcada para 2011 a 2020, com o intuito de reduzir em até 50% as mortes no trânsito em todo o mundo. O Brasil é signatário desse acordo. Com uma sinalização de trânsito bem implantada, sendo ela horizontal, vertical ou semafórica, espera-se que os resultados contribuam para a melhoria na qualidade de vida de toda a sociedade em geral, nos fatores tempo de deslocamento, economia de recursos na diminuição dos atrasos, preservação do meio ambiente, e principalmente a redução de acidentes. Caro acadêmico, você já está ciente da grande responsabilidade que terá ao trabalhar nesse segmento da engenharia. A sinalização viária desempenha diretamente uma função de grande relevância na preservação da vida humana sujeita ao trânsito intenso cotidianamente e do maio ambiente, bem como na garantia de uma segurança de trânsito coerente aos parâmetros normativos mais atualizados. 95 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Sinalização de trânsito e seus princípios são fundamentais para o adequado dimensionamento de um sistema viário. • O projeto de sinalização vertical de regulamentação, de advertência e indicação são definidos como formas gráficas de orientar os usuários das vias; além disso, aprendemos sobre os parâmetros técnicos relacionados à forma, cores, entre outros. • Os padrões de traçado viário são resumidos em três tipos: contínuos, tracejados e simbólicos. • Existem cinco classificações e alguns parâmetros técnicos estabelecidos pelo CONTRAN indispensáveis para qualquer projeto viário. • A conceituação da sinalização semafórica aborda uma divisão em dois níveis paralelos, as sinalizações de regulamentação e sinalizações de advertência. • Para o dimensionamento de semáforos, utilizamos o método de Webster e vimos os conceitos fundamentais para a determinação desse dimensionamento, tais como taxa de ocupação, tempo perdido total e o tempo de ciclo. 96 AUTOATIVIDADE 1 Na concepção e implantação da sinalização de trânsito, deve-se ter como princípio básico as condições de percepção dos usuários da via, garantindo a real eficácia deles. Com base no conhecimento acerca dos princípios básicos, assinale a alternativa que corresponde ao seguinte princípio: “Permitir fácil percepção do que realmente é importante, com quantidade de sinalização compatível com a necessidade”. a) ( ) Legalidade. b) ( ) Padronização. c) ( ) Clareza. d) ( ) Suficiência. e) ( ) Manutenção e conservação. 2 A sinalização vertical de regulamentação é um conjunto de cinquenta e um símbolos que tem por finalidade transmitir aos usuários as condições, proibições, obrigações ou restrições no uso das vias urbanas e rurais. Com base nos conhecimentos construídos sobre sinalização, quando se dimensiona o tamanho das placas em projetos de sinalização viária para vias urbanas de trânsito rápido, quais devem ser as dimensões mínimas para uma placa de forma octogonal? a) ( ) Lado = 0,35 m; orla interna = 0,028 m e orla externa= 0,014 m. b) ( ) Lado = 0,35 m; orla interna = 0,018 m e orla externa= 0,010 m. c) ( ) Lado = 0,35 m; orla interna = 0,028 m e orla externa= 0,010 m. d) ( ) Lado = 0,30 m; orla interna = 0,018 m e orla externa= 0,010 m. e) ( ) Lado = 0,25 m; orla interna = 0,018 m e orla externa= 0,010 m. 3 A sinalização semafórica é adotada mediante uma avaliação acerca da ineficácia de outras formas de controle, tais como o controle a partir da obediência às normas gerais de circulação e conduta estabelecidas no Código de Trânsito Brasileiro (CTB); o controle com o uso de sinalização vertical de regulamentação e/ou de sinalização horizontal (faixa de travessia de pedestres tipo zebrada); e implantação de rotatórias ou outras formas de canalização do tráfego em interseções. Dessa forma, acerca do dimensionamento de semáforos, marque as afirmativas como Verdadeiras (V) ou Falsas (F) e assinale a alternativa correta. I ( ) A taxa de ocupação para uma taxa de fluxo de 12 horas e um fluxo de saturação de 3 horas é 4. II ( ) O tempo de ciclo é definido como o ciclo da sequência completa das indicações de uma sinalização semafórica. III ( ) Considera-se que o método de Webster não deve ser aplicado para o dimensionamento semafórico segundo o tempo de ciclo ótimo. 97 a) ( ) V, V e V. b) ( ) F, F e F. c) ( ) V, V e F. d) ( ) F, F e V. e) ( ) F, V e F. 98 99 TÓPICO 3 ESTUDO DE POLOS GERADORES E CAPACIDADE DE VIAS UNIDADE2 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, imagine a implantação de shopping center, de um hospital de grande porte ou estádio de futebol. Você conseguiu imaginar? Agora, pense na quantidade de pessoas, veículos e mercadorias que iriam circular nesses empreendimentos. Provavelmente, deve ter imaginado uma quantidade grande. De fato, será grande! Tudo isso ocorrerá e tenderá a ocasionar impactos sobre a circulação nas vias adjacentes. Por isso, é muito importante o estudo dos polos geradores de viagens, como os citados anteriormente. Haja vista que tais estudos buscam a redução de congestionamentos, da deterioração das condições ambientais e implantação das condições de acessibilidade aos usuários. Além de ser necessário prever polos geradores de tráfego com a acuidade necessária em respeito aos parâmetros normativos existentes, destacamos mais quatro elementos que adquirem grande relevância por se tratarem de estruturas pertencentes à malha viária dos ambientes urbanos que, quando não planejados, afetam toda ou parte do fluxo de uma via, tais elementos são: • O estudo da capacidade de vias, segundo o método da HCM. • O dimensionamento de rampas de acesso. • O dimensionamento de entrelaçamentos. • O dimensionamento de estacionamentos. 2 ESTUDO DE POLOS GERADORES DE VIAGENS E SEUS IMPACTOS NO SISTEMA VIÁRIO De acordo com o DENATRAN (2001), os polos geradores de tráfego são empreendimentos de grande porte que atraem ou produzem grande número de viagens, causando reflexos negativos na circulação viária em seu entorno imediato e, em certos casos, prejudicando a acessibilidade de toda a região, além de agravar as condições de segurança de veículos e pedestres. A implantação e operação de polos geradores de tráfego comumente causam impactos na circulação viária, requerendo uma abordagem sistêmica de análise e tratamento que leve em conta simultaneamente seus efeitos indesejáveis na mobilidade e acessibilidade de pessoas e veículos e o aumento da demanda de estacionamento em sua área de influência. 100 UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO Os impactos sobre a circulação ocorrem quando o volume de tráfego nas vias adjacentes e de acesso ao polo gerador de tráfego se eleva de modo significativo, devido ao acréscimo de viagens gerado pelo empreendimento, reduzindo os níveis de serviço e de segurança viária na área de influência. Essa situação produz muitos efeitos indesejáveis, tais como alguns citados pelo Manual do DENATRAN (2001, p. 6-7): • Congestionamentos, que provocam o aumento do tempo de deslocamento dos usuários do empreendimento e daqueles que estão de passagem pelas vias de acesso ou adjacentes, além do aumento dos custos operacionais dos veículos utilizados; • Deterioração das condições ambientais da área de influência do polo gerador de tráfego, a partir do aumento dos níveis de poluição, da redução do conforto durante os deslocamentos e do aumento do número de acidentes, comprometendo a qualidade de vida dos cidadãos; • Conflitos entre o tráfego de passagem e o que se destina ao empreendimento e dificuldade de acesso às áreas internas destinadas à circulação e ao estacionamento, com implicações nos padrões de acessibilidade da área de influência imediata do empreendimento. Com relação ao aumento da demanda de estacionamento, os efeitos serão indesejáveis se o projeto do polo gerador de tráfego deixar de prever um número suficiente de vagas de estacionamento em seu interior, conduzindo o usuário ao uso irregular da via pública e, consequentemente, restringindo a capacidade da via, visto que os veículos passam a ocupar espaços até então destinados à circulação, reduzindo mais a fluidez do tráfego. Toda essa situação é agravada quando as áreas de carga e descarga e de embarque e desembarque não são previstas no projeto ou são subdimensionadas, acarretando, mais uma vez, a utilização de espaços nas vias de acesso para tais atividades. Caro acadêmico, mas o que é considerado um polo gerador de tráfego? Vejamos a Tabela 1, que nos mostra o enquadramento de empreendimentos de vulto como polos geradores de tráfego, estejam eles situados em áreas urbanas ou às margens de rodovias. TABELA 1 – EDIFICAÇÕES QUE ULTRAPASSAM LIMITES DE ÁREA OU CAPACIDADE FONTE: DENATRAN (2001, p. 26) TÓPICO 3 | ESTUDO DE POLOS GERADORES E CAPACIDADE DE VIAS 101 Apresenta-se a seguir um roteiro para a elaboração de estudos de impacto de polos geradores de tráfego, de acordo com o DENTRAN (2001). Incialmente se deve considerar duas premissas para que os polos geradores de tráfego sejam desenvolvidos segundo planos distintos de análise, porém complementares, quais sejam: I - Análise dos impactos sobre as vias de acesso e adjacentes ao empreendimento em função das prováveis ocorrências de congestionamentos e de pontos críticos de circulação e segurança viárias, pela redução ou esgotamento de sua capacidade de tráfego e assimetria entre oferta e demanda de vagas de estacionamento; II - Análise do projeto arquitetônico do empreendimento no que diz respeito às características geométricas e de localização dos acessos, vias internas de circulação, raios horizontais e declividades em rampas e acessos, bem como ao dimensionamento, arranjo funcional e suficiência das vagas de estacionamento e de carga e descarga de veículos, entre outros aspectos. Partindo dessas premissas, podemos adotar os seguintes passos prescritos pelo DENATRAN (2001): 1º Informações gerais sobre o empreendimento: devem ser apresentadas informações com relação ao nome do empreendimento, localização, nome do responsável legal pelo empreendimento, nome do responsável técnico e nome dos técnicos responsáveis pela elaboração do estudo. 2º Caracterização do empreendimento: deve ser apresentado um memorial com a caracterização do empreendimento contendo, no mínimo, as seguintes informações. I - Síntese dos objetivos e características físicas e operacionais do empreendimento, data prevista de sua entrada em operação e comparação da situação existente com a resultante da futura implantação / operação do empreendimento. II - Delimitação e descrição da área de influência direta e indireta do empreendimento. Identificação e descrição das vias principais de acesso e adjacentes ao terreno destinado à sua implantação. Mapeamento da área de influência em escala adequada, mostrando a localização prevista do empreendimento e das vias de acesso e do entorno imediato; III - caracterização atual do uso e ocupação do solo no entorno do empreendimento; IV - Memorial descritivo do projeto arquitetônico, contendo os parâmetros urbanísticos adotados, bem como: - Posicionamento dos acessos de veículos e pedestres (em relação ao sistema viário existente) e dimensões das áreas de acumulação; - Dimensionamento e distribuição de vagas de estacionamento; - Dimensionamento e distribuição de áreas de carga e descarga; - Dimensionamento e localização de áreas de embarque e desembarque dos usuários do empreendimento; - Localização e dimensionamento de acessos e áreas específicas para veículos de emergência e de serviços. 102 UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO 3º Avaliação prévia dos impactos do polo gerador de tráfego: Deverá ser apresentada uma avaliação prévia, tecnicamente fundamentada, dos prováveis impactos do empreendimento na circulação viária, contemplando os seguintes aspectos. a) Análise da circulação na área de influência na situação sem o empreendimento; b) Previsão da demanda futura de tráfego; c) Avaliação de desempenho e identificação dos impactos na circulação na situação com o empreendimento; d) Revisão do projeto e da planta de situação do empreendimento sob a ótica viária. 4º Recomendação de medidas mitigadoras e compensatórias: Tendo em vista os impactos negativos previstos, em função da implantação /operação do polo gerador de tráfego, devem ser recomendados medidas mitigadoras para os mesmos, que sejam capazes de reparar, atenuar, controlar ou eliminar seusefeitos indesejáveis sobre a circulação viária. 3 CAPACIDADE DE VIAS O método atualmente adotado para o dimensionamento da capacidade de uma via é definido de acordo com os parâmetros do Highway Capacity Manual (HCM). Segundo Setti (2009), o HCM surgiu em 1950, através do Escritório de Estradas Públicas (BPR), o precursor da atual Administração Federal de Autoestradas (FHWA) dos Estados Unidos. Baseado em estudos realizados durante as décadas de 1930 e 1940, a versão inicial tinha a intenção de servir como diretriz para projetos de rodovias e não tratava especificamente da avaliação da qualidade de serviço da corrente de tráfego. A versão mais recente do HCM é a de 2000, que estende, clarifica e fortalece o conceito de nível de serviço. Esta versão inclui orientações de como relacionar os resultados das estimativas de qualidade de serviço com análises econômicas e de impactos ambientais e fornece procedimentos que permitem fazer uma análise global da qualidade de serviço de sistemas formados por componentes heterogêneos. O HCM2000 contém 31 capítulos, divididos em cinco partes; a parte 3 contém procedimentos específicos para avaliação do desempenho, capacidade e nível de serviço de vias e rodovias, bem como de componentes viários destinados a pedestres, bicicletas e transporte coletivo (SETTI, 2009). No HCM, a capacidade de uma via é definida como a máxima taxa de fluxo horária sob a qual veículos conseguem passar por um dado ponto durante um certo período, sob condições usuais de tráfego e da via. De acordo com Setti (2009), o HCM tende a deixar claro que a base para definição da capacidade não é o fluxo máximo observado, mas aquele que pode ser observado repetidamente em períodos de pico com demanda suficiente. TÓPICO 3 | ESTUDO DE POLOS GERADORES E CAPACIDADE DE VIAS 103 A capacidade de uma via é definida como a máxima taxa de fluxo horária sob a qual veículos conseguem passar por um dado ponto durante um certo período, sob condições usuais de tráfego e da via. IMPORTANT E O HCM usa seis níveis de serviço, que são representados pelas letras A a F, sendo A o melhor nível de serviço e F, o pior. O nível de serviço F representa fluxos congestionados, em trechos em que a demanda excede a capacidade da rodovia. A capacidade da rodovia corresponde ao nível de serviço E. Os limites entre os níveis de serviço A–B, B–C, C–D e D–E são definidos de uma forma um tanto quanto arbitrária, pelos membros do Comitê de Capacidade e Qualidade de Serviço do TRB; o limite entre os níveis de serviço E e F, entretanto, corresponde à capacidade da via e é determinado empiricamente, a partir de dados coletados em trechos onde existem condições ideais de geometria da via e do tráfego (SETTI, 2009). De acordo com TRB (2000) apud Setti (2009, p. 5), a determinação do nível de serviço é feita em função do fluxo equivalente, medido em carros de passeio/(hora.faixa), que é obtido através de uma equação que converte o fluxo observado (em veic/h) para a taxa de fluxo nos 15 minutos mais congestionados da hora, cp/ (h.faixa). Dessa forma o valor do fluxo equivalente é dado por: hv p QVp PHFxNxf xf = em que, Vp - fluxo equivalente nos 15 minutos mais congestionados da hora [cp/ (h.faixa)]; Q – Volume observado durante a hora [veic/h]; PHF – fator de pico horário, que reflete a existência de variações no fluxo dentro da hora; N – Número de faixas de tráfego; FHV – fator de ajuste para o efeito dos veículos pesados na qualidade do serviço; fp – Fator de ajuste para o efeito das características dos motoristas na qualidade do serviço. 104 UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO Com o valor do fluxo equivalente calculado, procede-se o cálculo da densidade da via, que é determinado pela equação fundamental do tráfego, expresso pela seguinte fórmula: TAXA DE FLUXO EQUIVALENTEDENSIDADE VELOCIDADE DA CORRENTE DE TRÁFEGO = Agora, acadêmico, que nós temos a densidade calculada, podemos encaminhar para a determinação da capacidade da via expressa pelo seu nível de serviço de acordo com os parâmetros da tabela a seguir. TABELA 2 – CRITÉRIOS PARA DEFINIÇÃO DOS NÍVEIS DE SERVIÇO FONTE: Setti (2009, p. 6) 4 RAMPAS DE ACESSO E ENTRELAÇAMENTO Rampas de acesso e entrelaçamento são estruturas comumente empregadas nas cidades brasileiras para atribuir fluidez aos veículos. Lamentavelmente, as políticas públicas adotam a construção dessas estruturas rodoviárias sem planejamento integrado à fase inicial de implantação, ocasionando atrasos e, em muitos casos, projetos isolados, que perdem a eficiência com os outros modais de transporte. Mas vejamos como projetar estruturas desse tipo. 4.1 RAMPAS DE ACESSO De acordo com DNIT (2010), as características de cada tipo de via devem ser tais que estimulem os motoristas a manter um padrão uniforme de operação em todos os seus trechos. Os valores e as extensões das rampas podem influenciar diretamente as características operacionais de uma via urbana. Em áreas densamente urbanizadas, as condicionantes urbanísticas restringem de tal maneira o traçado em planta, que muitas vezes o greide (nível de referência) resultante deve ser simplesmente aceito. Porém, em áreas de menor densidade e sempre que for viável, as rampas devem ser as mais suaves possíveis. Mesmo assim, rampas íngremes e curtas podem tornar-se necessárias para TÓPICO 3 | ESTUDO DE POLOS GERADORES E CAPACIDADE DE VIAS 105 diminuir a extensão de obras de arte importantes, poupar aquelas existentes ou possibilitar um arranjo mais favorável de cruzamentos sucessivos em desnível. Onde não for possível contornar a necessidade de rampas mais íngremes em maiores extensões, deve ser procedida uma análise da capacidade específica para o trecho, objetivando determinar a necessidade de uma faixa de rolamento adicional. Para situações que envolvam rampas, temos três casos a considerar. O primeiro se refere as vias expressas, cuja a rampa máxima desejável será de 3%. Onde forem necessárias rampas mais íngremes, estas não devem ultrapassar os 5%. Entretanto, em trechos onde a conjugação de fatores topográficos e urbanísticos, ou ainda o fato desse trecho anteceder uma via de padrão inferior, impuserem uma redução da velocidade diretriz e consequentemente dos raios de curvatura, a rampa máxima pode ser de 6%, respeitada a coerência com os outros elementos de projeto. Por sua vez, a questão da rampa mínima prende-se essencialmente ao aspecto de drenagem da pista, principalmente, quando esta é limitada lateralmente por meios-fios. A rampa mínima desejável é de 0,5%. O valor mínimo absoluto da rampa pode ser de 0,35%. Fica contornada assim a influência de recalques diferenciais, de desnivelamentos construtivos e do desgaste natural da superfície de rolamento. Casos extremos podem ser considerados, desde que atendidas as dificuldades adicionais de drenagem da pista. Segundo o DER (2006), por definição, o raio de curvatura em qualquer ponto da clotoide varia inversamente com a distância medida ao longo da espiral, ou seja, a curvatura varia linearmente com a extensão do arco de espiral. A expressão que caracteriza tal relação é: A 2 = R × L Onde: A: parâmetro da clotoide (m). R: raio de curvatura no final da clotoide = raio da curva circular (m). L: comprimento da clotoide até ser atingido o raio de curvatura R (m). NOTA Nos casos de vias arteriais, por se situarem geralmente em áreas urbanizadas ou aproveitarem vias já existentes, há menos oportunidades de suavizar o greide. Mesmo assim, havendo possibilidades, é desejável que este fique limitado a 5% ou, no máximo, a 6%, onde a velocidade diretriz for da ordem de 80 km/h. Para velocidades de 60 a 50 km/h, em terrenos planos e ondulados os valores podem atingir 7-8 e 8-9%, respectivamente. Entretanto, é desejável, em qualquer caso, não ultrapassar os 6%, uma vez que valores mais elevados já causam sensíveis restrições de capacidade, baixam o padrão global da via e afetam significativamente osserviços de ônibus que certamente a utilizam. Nessas condições, a extensão da rampa deve ser reduzida ao mínimo possível e devem 106 UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO ser esgotadas as possibilidades de utilizar um percurso menos acidentado para a implantação da arterial, ou de operá-la em duas vias de mão única. No caso de mão dupla, deve ser cuidadosamente determinada a necessidade de divisão assimétrica da faixa de domínio disponível, para proporcionar maior largura de pista no sentido ascendente. No caso de interconexões, são admissíveis condições mais severas de projeto, em consequência da maior predisposição do motorista em aceitar uma rampa mais acentuada, combinada a um traçado menos fluente. A escolha da rampa máxima está condicionada, em cada caso, às velocidades de projeto fixadas para o ramo e à composição do tráfego. Valores mais elevados que os apresentados no quadro a seguir são admissíveis em curtas extensões, por exemplo, se contribuírem para aceleração ou desaceleração dos veículos onde for necessário ou, ainda, se o ramo tiver volumes muito baixos e reduzida participação de veículos comercias. QUADRO 11 – RAMPAS MÁXIMAS PARA INTERCONEXÕES (CRITÉRIO GERAL) FONTE: DNIT (2010, p. 294) O quadro a seguir resume os valores máximos recomendados para as diferentes categorias de vias urbanas, em função da velocidade diretriz e tipo de terreno. É importante frisar que, na medida do possível, esses valores máximos deverão ser evitados. A rampa mínima necessária para fins de drenagem deve ser de 0,35% e, desejavelmente, de 0,5%, especialmente no caso de pistas dotadas de meios-fios. QUADRO 12 – RAMPAS MÁXIMAS PARA VIAS URBANAS (%) FONTE: DNIT (2010, p. 294-295) TÓPICO 3 | ESTUDO DE POLOS GERADORES E CAPACIDADE DE VIAS 107 4.2 ENTRELAÇAMENTO De acordo com DNIT (2010), o entrelaçamento (também denominado de entrecruzamento) é o conjunto de cruzamentos de duas ou mais correntes de tráfego de mesmo sentido ao longo de um trecho da rodovia. A figura que segue exibe os exemplos mais comuns de trechos com entrecruzamentos. FIGURA 9 – TIPOS DE ENTRECRUZAMENTO FONTE: DNIT (2010, p. 83) 108 UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO Trechos de entrecruzamento ocorrem quando correntes de tráfego de mesmo sentido se cruzam, executando manobras de convergência e divergência. Os entrecruzamentos podem ser simples ou múltiplos, em função da sobreposição das manobras de entrecruzamento, como exemplificado na figura seguinte. FONTE: DNIT (2010, p.84) FIGURA 10 – TRECHOS DE ENTRECRUZAMENTO Entrecruzamentos simples são quando uma única entrada na corrente de tráfego é seguida por uma única saída. No entanto, nos entrecruzamentos múltiplos, duas entradas consecutivas na corrente de tráfego são seguidas por uma ou várias saídas, ou uma entrada na corrente de tráfego é seguida por duas ou mais saídas. Esses últimos casos ocorrem frequentemente em áreas urbanas onde há necessidade de captação e distribuição de grandes concentrações de tráfego. Os trechos com manobras de entrecruzamento devem ser projetados de modo a apresentar níveis de serviço compatíveis com o restante da rodovia. O nível de serviço do trecho é função de seu comprimento, número de faixas e volumes das correntes que se entrecruzam e que seguem em frente. Valor elevado do volume total de entrecruzamento causa redução considerável na velocidade do tráfego. Acima de um determinado limite ocorrem sérios congestionamentos. 5 DIMENSIONAMENTO DE ESTACIONAMENTOS O estacionamento restringe o tráfego, tanto pela diminuição da largura de pista disponível como pelos movimentos de espera e entrada/saída da vaga. Essas restrições não são desejáveis no sistema arterial principal, sobretudo em vias com velocidades elevadas. Em consequência, quando se trata em vias de menor velocidade e fluxo, é conveniente proporcionar faixas de estacionamento em arteriais secundárias. TÓPICO 3 | ESTUDO DE POLOS GERADORES E CAPACIDADE DE VIAS 109 Entretanto, em locais em que é necessário estacionar e não há áreas adequadas para esse fim, pode ser admitido estacionamento lateral, desde que seja atendida a capacidade necessária para o tráfego. Nesses casos, é preferível que essas faixas sejam dispostas ao longo de um recuo no meio-fio, de um ou de ambos os lados da via. A previsão e permissão para estacionamento à direita pressupõem baixos volumes de tráfego de ônibus e a consideração de suas necessidades de parada. A experiência mostra que a maioria dos veículos estaciona junto ao meio- fio a uma distância de 0,15 a 0,30 m de sua face e ocupa uma largura de cerca de 2,10 m. A largura mínima desejável para estacionamento é, portanto, 2,40 m. Entretanto, para reduzir o atrito lateral e permitir o uso da faixa de estacionamento como faixa complementar nos períodos de pico, uma largura de 3,00 a 3,60 m é desejável, permitindo acomodar veículos comerciais. Onde se espera o uso futuro como faixa de tráfego permanente, a faixa de estacionamento deve ter, no mínimo, 3,30 m. Essa faixa pode ser usada como faixa de tráfego adicional nas horas de pico, proibindo o estacionamento nesses períodos. Uma faixa com 3,00 m pode ser usada para armazenagem de veículos executando manobras de giro em interseções, proibindo o estacionamento a alguma distância da interseção. Essa largura pode ser reduzida para 2,70 m se a velocidade na via arterial é igual ou inferior a 60 km/h. Assim, o manual do DNIT (2010) recomenda que a largura das faixas de estacionamento seja de 2,50 m (mínimo absoluto de 2,20 m), no caso de uso predominante por veículos leves e tráfego moderado, e 3,00 m em locais com algum uso por veículos comerciais ou onde o tráfego for muito intenso. Onde houver previsão de grande volume de veículos comerciais estacionarem, a largura deve ser igual à de uma faixa de rolamento. A marcação com pintura das áreas de estacionamento resulta em utilização mais eficiente nos locais em que é mais intenso o seu uso e ajuda a impedir a invasão de áreas junto aos hidrantes, paradas de ônibus, áreas de carga e descarga, proximidades de esquinas, áreas deixadas livres junto a ilhas e outros locais em que se proíbe o estacionamento. Faixas contínuas de estacionamento, projetadas para serem usadas com esse fim nos períodos fora do pico, mas que são usadas pelo tráfego como faixa de rolamento nas horas de pico, devem ter a mesma capacidade estrutural das faixas de rolamento. Os valores básicos a serem adotados para a largura da faixa de estacionamento, função do tipo predominante de veículo que a utilizará e da intensidade do tráfego na via arterial, encontram-se resumidos no quadro a seguir. 110 UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO QUADRO 13 – LARGURA DAS FAIXAS DE ESTACIONAMENTO FONTE: DNIT (2010, p. 312) Para outras situações, pode-se aplicar as dimensões mínimas previstas no quadro seguinte. QUADRO 14 – LARGURA DAS FAIXAS DE ESTACIONAMENTO – DEMAIS SITUAÇÕES FONTE: PMSM (2014, p. 2) TÓPICO 3 | ESTUDO DE POLOS GERADORES E CAPACIDADE DE VIAS 111 LEITURA COMPLEMENTAR A importância da engenharia de tráfego nas cidades brasileiras Você sabe o que é engenharia de tráfego? Não? Vou explicar. Esse é um assunto relativamente novo nos debates políticos e nas discussões sobre a situação das cidades e de seu desenvolvimento, no entanto, a engenharia de tráfego é algo muito importante em relação às mudanças das cidades e à coexistência de seus munícipes. A engenharia do transporte e da mobilidade tem o intuito de melhorar o trânsito caótico das grandes metrópoles, as políticas de transportes urbanos, as alterações e construções de novas ruas, avenidas e estradas, e a implantação de sistemas de incentivos a outras maneiras de trafegar pela cidade. O estudo detalhado sobre as mudanças nos grandes centros urbanos é uma forma de melhorar todos os aspectos que envolvem a convivência das pessoas dentro desses grandes aglomerados de prédios e asfaltos, desde a construção das vias até a fiscalizaçãodos serviços e dos órgãos responsáveis pelo controle do tráfego. No Brasil, a engenharia de tráfego evoluiu como um ramo da engenharia a partir do final da década de 50, quando as cidades do país começaram a crescer de forma abundante por causa da industrialização dos novos centros urbanos. Esse novo modo da engenharia trata do planejamento e do desenho geométrico das vias, relacionando sempre a convivência entre o fator humano e os veículos presentes nesses centros. A engenharia de tráfego, como o próprio nome já diz, é o estudo do planejamento da construção de obras relacionadas aos aspectos viários. O profissional dessa área fica responsável por criar, monitorar e coordenar o fluxo dos veículos nas ruas, avenidas e até mesmos nas estradas do país. Todavia, ele também fica incumbido de organizar e elaborar as propostas de terminais rodoviários, ferroviários, portuários e aeroportuário, ou seja, de toda a locomoção dos munícipes. Nas cidades, a engenharia de transportes e mobilidade atua objetivando: a viabilização da mobilidade urbana, cuidando e localizando pontos necessários para a implantação de semáforos, sinais horizontais (pinturas no chão) e verticais (placas); e o planejamento dos transportes urbanos (ônibus, metrôs, trens, etc.). Ainda é de responsabilidade da área a definição das planilhas e caixa das obras, a fiscalização dos serviços de inspeção e de administração do transporte de cargas e pessoas. 112 UNIDADE 2 | ENGENHARIA DE TRÁFEGO No cenário atual, a engenharia de transportes e mobilidade está em crescimento, principalmente após o reconhecimento da sua importância para os governos federais, estaduais e municipais, pois, com o amplo crescimento dos grandes centros metropolitanos sem o devido planejamento, foi necessária a criação de políticas públicas voltadas para a expansão das cidades. No dia 3 de janeiro de 2012, o Governo Federal sancionou a lei de nº 12.587, que instituiu as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana: Art. 1º A Política Nacional de Mobilidade Urbana é instrumento da política de desenvolvimento urbano de que tratam o inciso XX do art. 21 e o art. 182 da Constituição Federal, objetivando a integração entre os diferentes modos de transporte e a melhoria da acessibilidade e mobilidade das pessoas e cargas no território do Município. Parágrafo único. A Política Nacional a que se refere o caput deve atender ao previsto no inciso VII do art. 2º e no § 2º do art. 40 da Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001 (Estatuto da Cidade). O objetivo principal da lei é contribuir para o acesso universal à cidade, ou seja, garantir o direito de ir e vir dos munícipes. Nessa lei, também são explicados todos os conjuntos que fazem parte do sistema de mobilidade urbana, como os modos de transportes, os tipos de serviços ofertados para a população e as infraestruturas que compõem esse sistema. No texto, é citado o inciso XX do artigo 21 e o artigo 182 da Constituição Federal. No primeiro texto, as competências da União são abordadas: "Art. 21 Compete à União: [...] XX - instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos". O texto do artigo 182 está diretamente relacionado ao desenvolvimento urbano de obrigação do executivo municipal: "Art. 182 A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem- estar de seus habitantes”. Ou seja, é de total responsabilidade das prefeituras municipais o desenvolvimento das melhores formas de mobilidade urbana na cidade, e o profissional que possui o conhecimento necessário para isso é o engenheiro de tráfego. FONTE: O TEMPO. 17/05/18. <https://www.otempo.com.br/blogs/tr%C3%A2nsito-19.1123204/ a-import%C3%A2ncia-da-engenharia-de-tr%C3%A1fego-nas-cidades brasileiras-19.1342546/>. Acesso em: 12 ago. 2018. 113 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Os polos geradores de tráfego são empreendimentos de grande porte que atraem ou produzem grande número de viagens, causando reflexos negativos na circulação viária em seu entorno imediato. Para isso, se torna necessária a elaboração de estudos de impacto de polos geradores de tráfego, que visam mitigar os problemas que advêm da instalação de grandes empreendimentos. • O método atualmente adotado para o dimensionamento da capacidade de uma via é definido de acordo com os parâmetros do Highway Capacity Manual (HCM). • No HCM, a capacidade de uma via é definida como a máxima taxa de fluxo horária sob a qual os veículos conseguem passar por um dado ponto durante um certo período, sob condições usuais de tráfego e da via. • O correto dimensionamento e locação das rampas de acesso, bem como pontos de entrelaçamento do sistema viário, estimulam os motoristas a manterem um padrão uniforme de operação em todos os seus trechos. • Estacionamento restringe o tráfego, tanto pela diminuição da largura de pista disponível como pelos movimentos de espera e entrada/saída da vaga. Portanto, essas restrições devem ser evitadas no sistema arterial principal e planejadas para os sistemas arteriais secundários. Tais parâmetros mínimos de dimensionamento de estacionamentos foram abordados para fins de projeto. 114 1 A implantação e operação de polos geradores de tráfego comumente causam impactos na circulação viária, requerendo uma abordagem sistêmica de análise e tratamento que leve em conta simultaneamente seus efeitos indesejáveis na mobilidade e acessibilidade de pessoas e veículos e o aumento da demanda de estacionamento em sua área de influência. Acerca dos passos para a elaboração dos estudos de impacto de polos geradores de tráfego, assinale a alternativa que corresponde à seguinte frase: “Deve ser apresentado um memorial com a caracterização do empreendimento”. a) ( ) Informações gerais sobre o empreendimento. b) ( ) Caracterização do empreendimento. c) ( ) Avaliação prévia dos impactos d) ( ) Recomendação de medidas mitigadoras e compensatórias. e) ( ) Nenhuma das alternativas anteriores. 2 O fluxo equivalente é um importante elemento utilizada para determinar a capacidade de uma via. Sabendo que para uma determinada via a taxa de fluxo equivalente é 513 cp/hxfaixa e a velocidade da corrente de tráfego é 60km/h, determine o nível de serviço dessa pista e assinale a alternativa correta. a) ( ) Nível de serviço B. b) ( ) Nível de serviço A. c) ( ) Nível de serviço C. d) ( ) Nível de serviço E. e) ( ) Nível de serviço F. 3 As rampas e os pontos de entrelaçamento são estruturas comuns no sistema viário e devem ser planejados, bem como dimensionados com muita cautela pelo projetista. Acerca dessa temática, marque as afirmações como Verdadeiras (V) ou Falsas (F) e assinale a alternativa correta. I ( ) Para uma categoria de via expressa com relevo ondulado e velocidade diretriz de 80 km/h se permite uma rampa com inclinação máxima de 6%. II ( ) A escolha da rampa máxima está condicionada, em cada caso, às velocidades de projeto fixadas para o ramo e à composição do tráfego. III ( ) Entrecruzamentos simples são quando uma única entrada na corrente de tráfego é seguida por uma única saída. Já para os entrecruzamentos múltiplos duas entradas consecutivas na corrente de tráfego são seguidas por apenas uma saída. a) ( ) V, V e F. b) ( ) F, F e F. c) ( ) V, V e V. d) ( ) F, F e V. e) ( ) F, V e F. AUTOATIVIDADE 115 UNIDADE 3 SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir dos estudos desta unidade, você será capaz de: • explicar os aspectos gerais da estruturação institucional do transporte co- letivo, tais como a história, importância e desenvolvimento do transporte público, assim como também quais são as tecnologias e fontes de energia empregados; • identificar as definições decaráter operacional bem como as características físicas, técnico-operacionais de veículos, equipamentos e elementos da in- fraestrutura do sistema de transporte público por ônibus; • dominar os aspectos relativos ao planejamento operacional, bem como a execução do dimensionamento do valor da tarifa pública para o caso do transporte público por ônibus. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você en- contrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – ESTRUTURAÇÃO INSTITUCIONAL DO TRANSPORTE COLETIVO TÓPICO 2 – SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS TÓPICO 3 – INTRODUÇÃO AO DIMENSIONAMENTO DE SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO POR ÔNIBUS 116 117 TÓPICO 1 ESTRUTURAÇÃO INSTITUCIONAL DO TRANSPORTE COLETIVO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Os sistemas de transporte possuem uma história que não data de tempos recentes. No Brasil foram estruturados ainda no período colonial, mediante a exploração econômica do território e outros fatores menos preponderantes. Dos idos de 1500 até meados dos idos de 1600, o Brasil era majoritariamente ocupado em sua região litorânea e as atividades de transporte se resumiam de forma predominante na extração e exportação de recursos naturais para Portugal. E, ao longo do tempo de colônia, Portugal sempre investiu muito pouco no desenvolvimento do transporte no Brasil. Foi somente após o século XIX que o Brasil passou a ter políticas e investimentos significativos nos sistemas de transportes, com destaque para as ferrovias, muito embora, posteriormente, tenham sido deixadas em segundo plano para que o modal rodoviário se fortalecesse e dominasse em vários aspectos a rede transporte brasileira. Nesse sentido, surgiram tecnologias que são atualmente utilizadas para o transporte coletivo de passageiros, dentre elas destacamos a forma mais predominante no Brasil, o ônibus. No entanto, existem outras formas, como o VLT, VLP, metrô, BRT entre outras que propiciam deslocamentos mais produtivos, porém requerem maior investimento em construção e manutenção do sistema. Para fornecer subsídios de energia aos sistemas de transportes atuais, basicamente existem duas fontes que são utilizadas no mercado brasileiro em grande escala, uma é o diesel, combustível fóssil derivado do petróleo e altamente poluente e outra é a energia elétrica, muito utilizada em trens e metrôs, mas com forte tendência à expansão para outros sistemas. 2 HISTÓRIA, IMPORTÂNCIA E DESENVOLVIMENTO DO TRANSPORTE PÚBLICO A história dos transportes públicos no Brasil não é algo recente, o seu início remonta os períodos coloniais. É importante para o acadêmico que ingressa na temática de transportes públicos compreender o início dos meios de mobilidade no país. UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 118 Os sistemas de transporte no Brasil, como já foi dito, foram evoluindo e estruturados ainda no período colonial, mediante a exploração econômica do território e outros fatores menos preponderantes, tais como a expansão do território brasileiro, a procura de ouro e pedras preciosas, a servidão dos indígenas e a busca por regiões com vegetações pastáveis para o gado. Esses fatores motivacionais relativos ao processo de expansão dos sistemas de transportes no Brasil estiveram associados ao melhor aproveitamento possível da geografia do país, fato que levou ao uso prioritário dos rios, de bons relevos, cursos d’água, vales e outros. No primeiro século, o Brasil se encontrava majoritariamente ocupado em sua região litorânea e as atividades de transporte se resumiam de forma predominante na extração e exportação de recursos naturais para Portugal, entre eles se destacou o pau-brasil. Ao longo dos idos dos séculos XVII e XVIII, desenvolveu-se no Brasil a exploração econômica de terras para o cultivo de espécimes agrícolas que regeram a economia por um longo, como a cana-de- açúcar, e esse fato contribuiu para a ocupação interiorizada no país durante aquele período. Além disso, outra questão que necessita ser colocada, haja vista ter condicionado em muito o sistema de transportes do país, foi acerca do povoamento e a exploração econômica do território. Isso se relacionou da seguinte forma, o caráter isolado das unidades produtoras se constituía em sua maioria por fazendas, este fator culminou na reduzida importância econômica das vilas, também no seu distanciamento com outras que iam sendo criadas, a ausência de integração interna nas regiões, a existência de mundos regionais completamente distantes, bem como ignorados, com leis e características próprias. E toda essa situação em um enorme território agravou ainda mais os sentimentos defensivos de isolamento e autossuficiência, fazendo com que não houvesse uma preocupação com o transporte, tanto pelo poder público quanto pelo capital privado que se instalara nas diversas regiões do Brasil. Contudo, como destaca Pereira (2015), na Europa e nos Estados Unidos, o uso dos rios navegáveis foi fundamental no desenvolvimento econômico de enormes áreas desde o princípio, consolidou portos, terminais, armazenagem e cidades que dependiam daquele transporte. Observe, caro acadêmico, que os investimentos em transportes no Brasil, sejam eles urbanos ou de quaisquer outros tipos, não eram privilegiados pelo poder público. A realidade mudou no início do século XIX, devido às grandes transformações que ocorreram no Brasil por causa da vinda de D. João VI e toda a sua corte para o país, que naquele momento vivia à margem de iminente invasão de Portugal pelas forças de Napoleão. A cidade que vivenciou de forma significativa esse processo inicial de investimento foi o Rio de Janeiro, não somente por abrigar a corte real de Portugal, mas por possuir uma ligação forte com a produção de café, que se intensificou com a vinda da corte portuguesa e mais tarde com a independência do Brasil. Assim, em um primeiro momento, dada a proximidade da região de produção cafeeira com os portos das baías de Guanabara e de Angra, houve um grande desenvolvimento em termos de extensão e do ponto de vista técnico das estradas, TÓPICO 1 | ESTRUTURAÇÃO INSTITUCIONAL DO TRANSPORTE COLETIVO 119 de forma a facilitar o precário transporte ainda feito por parelhas de mulas. Como destaca Pereira (2015), as melhorias observadas passaram de traçados mais adequados, desde a construção de pontes, de sistemas de drenagem até proteção de encostas. Na figura a seguir podemos observar a estrada união e indústria, Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro e Juiz de Fora, em Minas Gerais, obra importante, iniciada no século XVIII, que influenciou no futuro desenvolvimento rodoviário do país. FIGURA 1 – ESTRADA UNIÃO E INDÚSTRIA, PETRÓPOLIS, NA REGIÃO SERRANA DO RIO E JUIZ DE FORA, EM MINAS FONTE: <http://g1.globo.com/rj/regiao-serrana/noticia/2016/04/mostra-lembra-160-anos-da- estrada-uniao-e-industria-em-petropolis-no-rj.html>. Acesso em: 10 ago. 2018. Outro grande marco nos transportes públicos ocorreu também no século XIX, mais precisamente quando Dom Pedro II inaugurou a primeira ferrovia do Brasil no dia 30 de abril de 1854, projeto que foi encabeçado na época pelo visionário Irineu Evangelista de Souza, que nessa mesma ocasião recebeu do imperador o título de Barão de Mauá. Posteriormente, ele também criou a Imperial Companhia de Navegação a Vapor e a Estrada de Ferro de Petrópolis. Um grande marco para o Brasil, haja vista que o poder público nos séculos anteriores não havia ainda demonstrado interesse em desenvolver esse segmento no Brasil. UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 120 Após esse marco, a malha ferroviária cresceu rapidamente no Brasil, em cerca de 70 anos o quantitativo de trechos ferroviários saltou de 14,5 km para 28.535 km. Um crescimento de mais de 200 vezes. Era como se em cada ano se construíssem cerca de 407 km de ferrovias. Esse vertiginoso crescimento foi impulsionado por diversos fatores,tais como destaca Pereira (2015): • a opção de transporte até então empregada, de parelha de mulas, era extremamente deficiente em pequenos trechos e impossível em várias situações; • a urgência política e econômica do império de promover uma integração entre as cidades e as regiões com base em seu projeto centralizador a partir da capital do Rio de Janeiro; • as exigências derivadas da grande expansão das atividades cafeeiras na direção de São Paulo e de sua interiorização naquele estado, onde iria encontrar a melhor combinação de terras; • a opção de incentivos dada em 1873 por meio do pagamento de 30 contos de réis por quilômetro de ferrovia, que levou à construção de estradas de baixo custo e reduzidas características técnicas; • as possibilidades que se abriam para o desenvolvimento do comércio entre as cidades e entre as pessoas, com impacto no aumento do mercado interno. Contudo, o sistema ferroviário logrou êxito até os idos de 1935, quando a partir daí o sistema entrou em crise e, de acordo com Pereira (2015), essas dificuldades perduram até os dias atuais. Ressaltam-se que muitos fatores influenciaram para estagnação do transporte ferroviário, entre eles, o evidente despreparo inicial na implantação de um complexo sistema de transportes; a ausência de critérios técnicos em sua expansão; a gestão deficiente, em especial quando a maioria das ferrovias passou para a administração pública. No entanto, o aspecto mais importante foi a concorrência com o transporte rodoviário, que começou a emergir no início do século XX, mas que tem relevância no declínio das ferrovias. O século XX foi acompanhado de uma eclosão de grandes descobertas e avanços tecnológicos, entre eles, alguns impulsionaram a intensificação do modal rodoviário para o transporte de cargas e pessoas. O avanço dos motores a combustão proporcionou uma expansão revolucionária dos automóveis e com intensificação do uso concreto armado foi possível realizar obras de infraestrutura viária com melhor qualidade, tais como pontes e vias pavimentadas. Caro acadêmico, diante dessas regressões históricas sobre o processo de instalação dos transportes públicos, nos deparamos com a seguinte a pergunta: O que aconteceu com os modais aquaviário e aéreo? Começaremos pelo entendimento da situação do modal aquaviário. Primeiramente, vale ressaltar que fazia parte da política colonial não investir no sustentáculo para a evolução desse modal, os portos. O objetivo da política colonial era de investir o mínimo possível em facilidades de transportes para não comprometer a rentabilidade dos produtos exportados. Foi somente em 1892 que foram entregues os primeiros 260 metros de cais do principal terminal portuário daquele período, o Porto de Santos. TÓPICO 1 | ESTRUTURAÇÃO INSTITUCIONAL DO TRANSPORTE COLETIVO 121 Posteriormente, em 1935 foi entregue o Porto de Paranaguá, existente desde 1872, contudo sem uma estrutura que minimamente garantisse um adequado funcionamento. Na realidade, o que tínhamos no Brasil do final do século XIX eram portos sem cais, sem docas e sem armazenagem, que usavam trapiches e alvarengas para carga, descarga de mercadorias, bem como de passageiros. Somente em meados do século XX é que os portos brasileiros receberam investimentos e melhorias. Além disso, se destaca que o transporte de cabotagem, que havia apresentado alguma importância ao longo do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, perdeu força por uma série de razões, entre as quais, o processo paulista de substituição de importações internas, tais como açúcar e carne, e, no caso de passageiros, o aumento de competição da ferrovia e dos veículos coletivos rodoviários. Ou seja, a grande observação é que a cabotagem nunca mais teve relevância econômica e, da mesma forma como aconteceu com o transporte ferroviário, não estava preparada minimamente para enfrentar a concorrência rodoviária. Caro acadêmico, você está lembrado o que é cabotagem? Em caso negativo, recomendamos que reveja a Unidade 2. Mas vamos reforçar o conceito para você. Entende- se como transporte de cabotagem o deslocamento marítimo realizado entre portos do mesmo país e, no caso do Brasil, também se considera como cabotagem o transporte extensivo para as Guianas, a Venezuela e/ou a Argentina. IMPORTANT E Com relação ao transporte aeroviário, mencionamos um pouco na Unidade 2 e vamos retornar ao ponto que interessa para que possamos relacionar ao transporte público. O transporte aéreo no Brasil inicia por volta dos idos de 1920, contudo é na década de 1970, com a criação do Decreto no 72.898, quando o Estado passa a intervir no mercado e instala um período denominado de “regulação estrita”, em que o mercado ficou dividido praticamente em quatro companhias nacionais e cinco regionais. Contudo, a aviação civil passou a ser responsabilidade da Aeronáutica bem antes, e com a criação do DAC em 1969, esse controle se intensificou. O controle pelos militares dessa área vital para o desenvolvimento do setor aéreo nacional vai durar mais de setenta anos, passa pela criação da Empresa de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), em 1972, vinculada inicialmente ao Ministério da Aeronáutica e, posteriormente, em 1999, ao Ministério da Defesa, da mesma forma que a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), criada em 2005 em substituição ao DAC, também inicialmente vinculada ao Ministério da Defesa. Esse controle somente se encerra em 2011, com a criação da Secretaria UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 122 Especial de Aviação Civil, no âmbito da Presidência da República. A partir desse estágio, a aviação civil passa a ser tratada com mais notoriedade pelo governo, principalmente através das políticas de privatizações dos aeroportos e as constantes flexibilizações para a entrada de empresas internacionais no país para o transporte aéreo. Entre os modais que vimos, todos possuem características que possibilitam o transporte coletivo de passageiros, contudo, segundo Pereira (2015), atualmente quando nos referimos ao transporte interestadual, inter-regional e internacional, o predomínio do rodoviário é total, esse modal responde por 98% do total das viagens, seja por meio de coletivos rodoviários, seja de veículos individuais. Um dos principais motivos do uso predominante se deve à criação dessa dependência histórica desse modal de transporte. Caro acadêmico, observe uma transcrição que demonstra claramente como a escolha política influencia significativamente no desenvolvimento dos transportes, sejam eles para atender a fins de carga e/ou pessoas. O desenvolvimento dos transportes nos Estados Unidos seguiu uma lógica quase cartesiana: desde meados do século XVIII (cerca de 1765) até 1830 houve um predomínio absoluto das hidrovias, com investimentos públicos e privados na construção de canais, barragens e eclusas que atingiu algo em torno de 43 mil quilômetros de vias navegáveis; em 1825, foi iniciada a implantação da malha ferroviária, que chegou a alcançar 450 mil quilômetros e cobriu praticamente todo o território americano, porém com objetivos iniciais de integração com o forte sistema hidroviário existente e principalmente com os terminais portuários fluviais, lacustres e marítimos (nas embocaduras dos rios), que já se encontravam definidos e consolidados; na década de 1920, foi criada a enorme rede rodoviária, de mais de 6 milhões de quilômetros, com o objetivo claro de complementar as duas redes existentes no que tange ao transporte de mercadorias, até com limitações de percursos médios; finalmente foi implantada uma rede de oleodutos e de gasodutos para um tipo de transporte específico, de mais de 2,5 milhões de quilômetros, que responde por mais de 20% da demanda total de transportes (PEREIRA, 2015, p. 97). Ou seja, o investimento em transportes pelo setor público começou tardiamente no Brasil e atualmente amargamos essa inércia do passado. É o caso da capital do estadoPará, a cidade de Belém, uma região banhada pelo rio Guamá, que circunda quase toda a região litorânea e de grande potencial de navegabilidade, que é pouquíssimo aproveitado para o transporte de pessoas. Atualmente o meio de transporte preponderante para o transporte coletivo de passageiros nessa região é o modal rodoviário, essa cidade com mais de quatrocentos anos de existência e cerca de 1,5 milhão de habitantes, basicamente, depende de apenas um modal de transporte, com o predomínio massivo há décadas de apenas uma tecnologia, o ônibus. Outros modais são negligenciados e não existem, tais como trens e metrô, e outros são parcamente utilizados, como o aquaviário. TÓPICO 1 | ESTRUTURAÇÃO INSTITUCIONAL DO TRANSPORTE COLETIVO 123 3 TECNOLOGIAS ALTERNATIVAS Existem diversas tecnologias empregadas para o transporte público nas cidades brasileiras. Não há uma única tecnologia certa ou errada, já que tudo depende das circunstâncias locais. Há vários fatores que afetam a escolha tecnológica e devem ser ponderados cuidadosamente pelo poder público, tais como os investimentos (infraestrutura e custo de terrenos), custos operacionais, considerações de projeto e implementação, desempenho e impactos econômicos, sociais e ambientais. Nós iremos destacar as principais tecnologias nesse sentido. 3.1 ÔNIBUS CONVENCIONAIS Quando se menciona o termo transporte público, uma das primeiras coisas que vem à mente de muitas pessoas são os ônibus. De fato, os ônibus são tecnologias famigeradas no segmento de transporte público em várias partes do mundo. O transporte público baseado na circulação de linhas de ônibus constitui- se em um conjunto de elementos que, interligados, geram um ciclo repetitivo de deslocamento em horários instáveis de embarque e desembarque. Essas instabilidades nos horários dos itinerários são geralmente ocasionadas na maioria das vezes pela grande dependência desse sistema da malha viária urbana, que em grande parte sofre as consequências do compartilhamento com outros meios de transporte, tais como caminhões, automóveis de passeios/ utilitários, motocicletas etc. Os elementos que compõem essa rede são basicamente três tipos, o veículo automotor de tração mecânica denominado ônibus, os pontos de parada/terminais de embarque e vias de circulação. 3.2 BRT (BUS RAPID TRANSIT) Essa tecnologia é relativamente recente, a primeira aplicação desse sistema foi na cidade de Adelaide, Austrália, por volta dos idos de 1986, na qual, naquele momento, após a realização de estudos técnicos foram constatados que era viável a aplicação de um sistema de ônibus guiado num trecho de 12 km, substituindo um projeto de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). Mas o que vem ser esse BRT? O governo federal publicou, no ano de 2008, um documento norteador para auxiliar as cidades que objetivassem a implantação desse sistema. O documento intitulado Manual de BRT – Guia de Planejamento foi e ainda é muito importante para a temática, haja vista que prescreve informações e representa o ápice de cinco anos de esforços para documentar e aperfeiçoar o estado da arte das soluções de transportes de custo eficiente para cidades. Nesse manual destacamos a seguir o conceito dessa tecnologia: UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 124 Bus Rapid Transit (BRT) é um sistema de transporte de ônibus de alta qualidade que realiza mobilidade urbana rápida e eficiente e com custo eficiente através da provisão de infraestrutura segregada com prioridade de passagem, operação rápida e frequente e excelência em marketing e serviço ao usuário. BRT basicamente imita as características de desempenho e conforto dos modernos sistemas de transporte sobre trilhos, mas a uma fração do custo. Um sistema BRT custa, em geral, entre 4 a 20 vezes menos que um sistema de bondes ou de veículo leve sobre trilhos (VLT) ou entre 10 a 100 vezes menos que um sistema de metrô. O termo BRT surgiu de sua aplicação na América do Norte e na Europa. Entretanto, o mesmo conceito é conhecido no mundo com muitos nomes diferentes, entre eles: Sistemas de ônibus de alta capacidade; Sistemas de ônibus de alta qualidade; Metro- ônibus; Metro de superfície; Sistemas de ônibus expressos; e Sistemas de corredores de ônibus. Ainda que os termos variem de país para país, a mesma premissa básica permanece comum: Um serviço de transporte público de alta qualidade, bastante competitivo com carros particulares e a custos acessíveis (MC, 2008, p. 12). Essa tecnologia tem pouco em comum com serviços convencionais de ônibus. Em boa parte do mundo, serviços convencionais de ônibus são lentos, demorados (baixa frequência), inadequados, desconfortáveis e irregulares, além de carecerem de serviços e status. Há muito tempo, serviços de ônibus têm um estigma negativo e isso associado ao péssimo desempenho operacional e serviço inadequado ao usuário. “transporte público”, em geral, tem a mesma conotação lamentável que “banheiro público”. Contudo, o sistema BRT remonta a uma história que consiste de uma variedade de esforços anteriores que culminaram em uma melhoria do transporte público para o usuário. As origens do conceito de BRT podem ser remontadas a até 1937, quando a cidade de Chicago delineou seus planos para converter três linhas férreas dentro da cidade em corredores de ônibus expressos. Vias de ônibus exclusivas foram desenvolvidas para muitas outras cidades nos EUA, incluindo: Washington, DC (1955-1959), St. Louis (1959) e Milwaukee (1970) (MC, 2008). FIGURA 2 – EXEMPLO DE UM SISTEMA BRT, IMPLANTADO NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO FONTE: <https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimasnoticias/2018/05/26/brt-do-rio-suspende- operacao-de-onibus-por-tempo-indeterminado.htm>. Acesso em: 12 ago. 2018. TÓPICO 1 | ESTRUTURAÇÃO INSTITUCIONAL DO TRANSPORTE COLETIVO 125 3.3 VLT (VEÍCULO LEVE SOBRE TRILHOS) São tecnologias baseadas no sistema de transporte de metrô e trem, de acordo com Pedroso (2012), o VLT tem suas origens nos denominados tramways ou aqui denominados bondes, que começaram a ser desativados e convertidos em ônibus na década de 1930, na maior parte das cidades em que circulavam. Contudo, essa tecnologia ressurge acompanhada dos aparatos mais modernos do século XX e XXI que, diante do apelo mundial pela redução da poluição ambiental, ganha notoriedade devido as suas características de meio tecnológico de baixa agressão ambiental, quando comparado a outros meios, como os ônibus. O VLT atualmente é bastante utilizado nos Estados Unidos, Europa e Canadá, tem como grande diferença em relação ao BRT o uso de rodas de ferro em vez de pneus. Contudo, tanto o BRT quanto VLT possuem como boas características o elevado conforto e pontualidade quando comparados aos ônibus convencionais. Quanto à capacidade, Pedroso (2012) destaca que o VLT é capaz de atender a uma demanda da ordem de 20.000 passageiros/hora/sentido (p/h/s) e opera com velocidade comercial média de até 30 km/h. Além disso, destacamos algumas vantagens em relação ao sistema de ônibus convencionais: • Maior capacidade de transporte. • Menor custo com operadores (em horários de pico, os veículos os veículos podem ser acoplados e dirigidos com segurança por somente um piloto). • Viagem confortável, com pouco ruído e solavancos. • Os trilhos funcionam como guias que facilitam a convivência da circulação dos veículos em meio ao trânsito rodoviário e circulação de pedestres (no entanto, há o custo adicional da infraestrutura de rolamento). • Em locais em que há grande presença de pessoas, a circulação do VLT é mais conveniente do que ônibus, pois aqueles não emitem poluentes e são menos ruidosos. • Estações e cruzamentos podem (e geralmente são) ser feitos em nível, que demandam baixos custos de investimentos. Atualmente, no Brasil, já existem algumas cidades que implementaram essa tecnologia, tais como o Rio de Janeiro e Santos, no entanto, o conceito por trás do VLT é mais antigo e remonta os idosde 1978, na cidade de Edmonton, Canadá e atualmente várias cidades do mundo já operam com essa tecnologia, como Londres, Madri, Paris, Dallas etc. A Figura 3 exibe um exemplo de um sistema VLT que atualmente se encontra operando no Rio de Janeiro e interliga o aeroporto ao centro da capital carioca. UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 126 FIGURA 3 – EXEMPLO DE UM SISTEMA VLT, IMPLANTADO NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO FONTE: <https://g1.globo.com/especial-publicitario/em-movimento/ccr/noticia/vlt-e-barcas- resgatam-historia-e-identidade-do-rio.ghtml>. Acesso em: 12 ago. 2018. 3.4 VLP (VEÍCULO LEVE SOBRE PNEUS) Possui a mesma conceituação do VLT, contudo a diferença está no sistema na composição, no qual a motorização elétrica roda sobre pneus e é guiada por um trilho central que fica sob o pavimento, pode ser considerado um VLT sobre pneus. Essa tecnologia apresenta algumas características peculiares, tais como as citadas por Sousa (2016, p. 2): • capacidade de vencer aclives: graças a sua motorização e tipo de pneu utilizado, pode subir inclinações de até 13%; • adequação ao meio urbano: raio mínimo de curva de 10,5 metros; • dimensões: largura de 2,20 m, altura de 3,12 m; • baixa ocupação do solo: bitola reduzida, deixa mais espaço para outros modos de transporte (pedestres, carros, bicicletas); • menos ruído: não há contato aço/aço, e graças aos pneus, pouca vibração é transmitida ao solo; • modulação: composições podem ser montadas em módulos, em várias combinações; • acessibilidade: piso baixo permite acesso do mesmo nível a partir de plataforma com 23 cm. • autonomia: Sistema pode ser alimentado por baterias, como em Pádua, Itália. Pode circular mais de 500 metros, com alimentação nos pontos de parada. O sistema se encontra aplicado em diversas cidades do mundo, dentre elas Clermont Ferrand (França), que foi marco para aplicação dessa tecnologia e na América do Sul a primeira cidade que recebeu este meio de transporte foi Medellín, em 2016. Atualmente, a cidade brasileira que está mais avançada na TÓPICO 1 | ESTRUTURAÇÃO INSTITUCIONAL DO TRANSPORTE COLETIVO 127 discussão para implantação dessa tecnologia é Curitiba, no Paraná, onde, segundo Junior (2016), o poder público municipal se encontra articulando um estudo para mudança do sistema de metrô pelo do VLP. A Figura 4 exibe o VLP de Medellín, em funcionamento desde 2016, os veículos possuem 39 metros de comprimento e recebem um fluxo em média de 85 mil passageiros através de uma operação em uma rede de 4,3 km. As autoridades locais estimam que com a implantação do VLP cerca de 7 mil toneladas de gás carbônico deixem de ser lançados na atmosfera anualmente com o novo sistema de transporte (LOBO, 2015). FIGURA 4 – EXEMPLO DO UM SISTEMA VLP, IMPLANTADO NA CIDADE DE MEDELLÍN, NA COLÔMBIA FONTE: <http://viatrolebus.com.br/2015/10/medellin-na-colombia-inaugura-linha-de-vlt>. Acesso em: 16 ago. 2018. 3.5 METRÔ Os metrôs são sistemas relativamente antigos e que até hoje são aplicados em diversas partes do mundo. Essa espécie de trem urbano funciona tipicamente abaixo da superfície sendo dedicado ao transporte de passageiros. O primeiro metrô entrou em funcionamento no século XIX, mais precisamente em 1863, em Londres, no Reino Unido. Apesar desse sistema de transporte ser muito antigo em relação aos demais, ele continua a ser eficiente bem como atual, por exemplo, em Londres continua em expansão e melhoria. Caro acadêmico, observe e leia com muita atenção acerca do conceito de metrô que consideramos o mais completo e que é expresso a seguir. UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 128 Os metrôs são sistemas de alta capacidade – movimentam de 40.000 a 80.000 passageiros por sentido por hora – que operam em vias totalmente segregadas, podendo utilizar infraestrutura subterrânea, de superfície, elevada e em trincheira. Nas zonas centrais, predomina o traçado subterrâneo e, nos bairros, os metrôs podem circular também em superfície, elevados ou em trincheira, mas sempre com segregação total. Há um espaçamento de 700 a 1.200 metros entre as estações e o intervalo entre trens é reduzido, sendo de 90 a 180 segundos no horário de pico (1,5 a 3 minutos) – fora do horário do pico, esse intervalo não aumenta excessivamente. A dinâmica de mobilidade dos metrôs é predominantemente urbana, interna ao município, ainda que os traçados de algumas linhas possam se estender para os municípios limítrofes. Os veículos, sustentados com rodas de ferro ou de borracha (pneus), são movidos por tração elétrica, com elevada capacidade de aceleração e desaceleração. O embarque é feito por portas com grande largura, para facilitar a entrada e a saída de passageiros (CNT, 2016, p. 17). No Brasil, o sistema metroviário mais antigo se encontra na cidade de São Paulo com a sua operação iniciada em 1974. Atualmente, esse sistema conta com cerca de 77,4 km linha férrea e 68 estações. A Figura 5 exibe uma linha do sistema metroviário de São Paulo. FIGURA 5 – EXEMPLO DO METRÔ IMPLANTADO NA CIDADE DE SÃO PAULO FONTE: <https://noticias.r7.com/sao-paulo/apreensoes-de-mercadorias-no-metro-de-sp- triplicam-desde-2014-24082018>. Acesso em: 13 ago. 2018. 3.6 MONOTRILHO O monotrilho se constitui de um VLT ou VLP, no qual o seu diferencial está na forma de deslocamento haja vista que ocorre sobre a movimentação em um único trilho, em oposição às vias férreas tradicionais, que possuem dois carris paralelos. TÓPICO 1 | ESTRUTURAÇÃO INSTITUCIONAL DO TRANSPORTE COLETIVO 129 A Confederação Nacional de Transportes apresenta um conceito pertinente conforme segue. Os monotrilhos são um sistema de transporte de média capacidade, composto de um material rodante leve, que circula em via elevada. Transportam de 20.000 a 48.000 passageiros por sentido por hora, com espaçamento entre estações de 500 a 1.000 metros e intervalo entre trens de 180 a 480 segundos no horário de pico (3 a 8 minutos). Apoiado em um único trilho, de concreto ou aço e de seção retangular, o veículo é sustentado por pneus – que também guiam o veículo lateralmente. Os pneus permitem a adoção de traçados com inclinação mais acentuada e com menores raios de curvatura. A estrutura do trilho único, por ser delgada, ocupa menos espaço e tem menor impacto visual na cidade, com menores custos de construção (CNT, 2016, p. 17). Dadas as características dessa tecnologia de transporte, destacamos que isso facilita o processo de intervenção na malha urbana, haja vista que há uma redução do uso e ocupação do espaço viário, quando se apresenta segundo a modelagem suspensa do solo. Essa tecnologia pode ser usada em via terrestre ou subterrânea, contudo sua aplicação mais frequente ocorre em via suspensa por conta das suas características de liberação do solo, visto que que esse sistema possui como uma de suas mais peculiares qualidades o transpasse das barreiras físicas pela facilidade de elevação e estrutura delgada. Esse fator contribui para que as composições não cruzem com outros modais de transportes, evitando acidentes e podendo integrar-se aos outros modais de forma objetiva. Outra característica peculiar desse sistema é que os monotrilhos modernos têm normalmente pneus de borracha, em vez das usuais rodas de ferro. Estes pneus rolam por cima e pelos lados do trilho, de forma a fazer movimentar e estabilizar o trem, constituindo-se num sistema de propulsão silencioso, o que concorre para a prevenção da poluição sonora. Além disso, os trilhos guias dos monotrilhos contemporâneos possuem várias tipologias. Entretanto, em função custos de implantação, manutenção e operação menos elevados, há um predomínio dos monotrilhos em vigas de concreto armado e tração dos carris utilizando pneus (PASQUALETTO; SOUZA, 2014). No Brasil, o primeiro monotrilho foi construído na cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais. As operações dele começaram em 1981 e o modal foi desativado no ano de 2000.Esse sistema de propriedade particular, com linha elevada, que interligava o terminal rodoviário da cidade até a área central, totalizava 6 km de extensão e 11 estações. Contudo, após o descarrilamento que ocorreu em setembro de 2000, a prefeitura da cidade não voltou a reativá-lo até os dias atuais, demonstrando que uma boa tecnologia foi abandonada por falta de manutenção. UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 130 FIGURA 6 – MONOTRILHO DA CIDADE DE POÇO DE CALDAS, MINAS GERAIS FONTE: Adaptado de Pasqualetto e Souza (2014, p. 48) 3.7 TRANSPORTE AUTOMATIZADO DE PASSAGEIROS (APM) São tecnologias recentes e de acordo o CNT (2016), distingue-se dos seus congêneres pelo tipo de propulsão utilizada. Esses veículos são caracterizados em muitos casos com tipos de transporte urbano sem condutor e não motorizados, são impelidos por propulsão pneumática – ou aerodinâmica. A CNT (2016, p. 19) apresenta o seguinte conceito de APM, vejamos: O chamado automated people mover – APM (termo em inglês para sistema de transporte automático de passageiros) é comumente implantado em circuitos fechados de pequena extensão, tais como terminais de aeroportos e parques temáticos. Os veículos, geralmente de baixa capacidade (5.000 a 15.000 passageiros por sentido por hora) e sem condutor, operam com elevada frequência (60 a 180 segundos, ou seja, 1 a 3 minutos), em oferta contínua ou quase contínua e com segregação total. O funcionamento do APM do tipo aeromóvel ocorre da seguinte forma, o veículo é apoiado em rodas de aço sobre trilhos, fixados em uma plataforma elevada. Um duto no interior da plataforma é percorrido por ar soprado por ventiladores industriais. Sob o veículo estão fixadas aletas que ficam contidas no duto, são pressionadas pelo ar e impulsionam o veículo. Por não ter motor embarcado, tem menos peso próprio e, por conseguinte, um acréscimo de eficiência energética por passageiro transportado. A título de exemplo, destacamos o sistema de transporte de passageiros sobre trilhos de Porto Alegre, Rio Grande do Sul – trem metropolitano e aeromóvel – que conta com 43,9 km de extensão –, sendo 42,9 km para o trem metropolitano TÓPICO 1 | ESTRUTURAÇÃO INSTITUCIONAL DO TRANSPORTE COLETIVO 131 e 1,0 km para o aeromóvel – em duas linhas e 23 estações – sendo 20 locais, uma terminal para o trem metropolitano, uma terminal para o aeromóvel e uma integrando os dois sistemas (Estação Aeroporto). No ano de 2018, esse sistema completou cinco anos de funcionamento (CNT, 2016). A Figura 7 exibe o aeromóvel de Porto Alegre. FIGURA 7 – AEROMÓVEL DA CIDADE DE PORTO ALEGRE-RS FONTE: Extraído de: < https://diariodotransporte.com.br/2018/08/11/aeromovel-de-porto- alegre-completa-cinco-anos-de-atividades/>. Acesso em: 13 ago. 2018. 4 FONTES DE ENERGIA Em 2009, o setor de transporte brasileiro respondeu por 28% do consumo final de energia, o modal rodoviário representou 92% desta fração, sendo 76,34% para os derivados de petróleo (diesel e gasolina), porém utilizou frações significativas de biocombustíveis (etanol e biodiesel) (20,45%) e gás natural (3,21%). Neste contexto, o ônibus foi o principal meio de transporte público de passageiros nos 501 municípios brasileiros com mais de 60.000 habitantes, representando de 26% a 27% das viagens urbanas entre 2003 e 2009. O diesel de petróleo ainda é a principal fonte de energia dos ônibus urbanos no Brasil. No entanto, desde 2008, o governo brasileiro tornou obrigatória a adição de biodiesel a este combustível, atingindo em janeiro de 2010 o patamar de 5%. Além disso, já existem alternativas tecnológicas que permitem o uso de gás natural, de forma dedicada ou em conjunto com o diesel de petróleo e de etanol hidratado aditivado nos ônibus brasileiros (D'AGOSTO; OLIVEIRA; ASSUMPÇÃO, 2014). Nesse contexto, onde ocorre um “império” do diesel nos diversos modais de transporte público brasileiros, vamos apresentar o óleo diesel e a outra fonte de energia mais utilizada no segmento, a energia elétrica. UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 132 4.1 DIESEL Como vimos, esse combustível de origem fóssil é o mais utilizado no Brasil para alimentação dos transportes públicos. O óleo diesel é o produto oleoso mais abundante obtido a partir do refino do petróleo bruto. Sua composição apresenta, basicamente, hidrocarbonetos (compostos orgânicos que contêm átomos de carbono e hidrogênio) e, em baixas concentrações, enxofre, nitrogênio e oxigênio. É um produto inflamável, com nível médio de toxicidade, pouco volátil, sem material em suspensão, límpido, com cheiro forte e característico. Ele é utilizado em motores de combustão interna e ignição por compressão (motores do ciclo diesel) empregados nas mais diversas aplicações, tais como: automóveis, furgões, ônibus, caminhões, pequenas embarcações marítimas, máquinas de grande porte, locomotivas, navios e aplicações estacionárias (geradores elétricos, por exemplo). A Figura 8 mostra o processo de produção do óleo diesel que é obtido durante o refino do petróleo, por meio do processo de destilação fracionada, são obtidas frações chamadas de óleo diesel leve e pesado, essenciais para a produção do óleo diesel. A uma temperatura entre 250 °C e 350 °C podem ser associadas a outras frações, como a nafta, o querosene e o gasóleo leve. FIGURA 8 – ESQUEMA DA PRODUÇÃO DO DIESEL A PARTIR DA DESTILAÇÃO DO PETRÓLEO FONTE: Adaptado de CNT (2012, p. 8) TÓPICO 1 | ESTRUTURAÇÃO INSTITUCIONAL DO TRANSPORTE COLETIVO 133 Dentro do contexto de uso extensivo desse combustível fóssil não renovável, o governo brasileiro passou a ponderar o uso biodiesel que é um combustível biodegradável derivado de fontes renováveis, que pode ser obtido por diferentes processos como craqueamento, esterificação e outros. Tem origem mais comum a partir da reação química de óleos ou gorduras de origem animal ou vegetal com álcool na presença de um catalisador. Desde dos idos de 2008, em função da Lei no 11.097, de 13 de janeiro de 2005, que todo óleo diesel nacional disponível ao consumidor final é acrescido de biodiesel. Em janeiro de 2005 alcançou-se a mistura de 5%. Essa mistura é denominada óleo diesel B5. O óleo diesel B5, além de corrigir a lubricidade do óleo diesel, reduz os níveis de emissão dos veículos. Quanto ao teor de enxofre, os combustíveis comercializados ao consumidor final, possuem 50 mg/kg de enxofre (S50), 500 mg/kg de enxofre (S500) e 1.800 mg/kg de enxofre (S1800). Com relação ao uso desse combustível no segmento de transporte público de passageiros, para fins de mensuração do custo na composição final do serviço, segundo dados do CNT (2012), o valor empregado com o óleo diesel pode chegar até 25% do valor total gasto no fornecimento do serviço. Como vimos, o óleo diesel representa uma despesa pesada no orçamento do transporte público de passageiros que demandam dessa fonte de combustível para o seu funcionamento e aliado a esse fator negativo temos um outro fator negativo de grande peso, senão até o mais importante, a poluição ambiental que esse combustível gera. O diesel é constituído pela mistura de gasóleos, querosene e nafta, entre outros elementos químicos. Por isso, contém hidrocarbonetos, nitrogênio e enxofre. O enxofre é um elemento químico indesejável para o meio ambiente e também para os motores diesel. Durante a combustão, o trióxido de enxofre, ao se juntar à água, forma o ácido sulfúrico, que corrói partes metálicas do motor, como mancais, guias de válvulas etc. Além disso, se a concentração desse elemento for elevada, as emissões de material particulado também serão elevadas, assim como as emissões de poluentes primários como SO2 e SO3, acarretando grandes prejuízos à saúde humana. Destaca-se também que o dióxido de enxofre, em contato com a umidade atmosférica, gera o ácido sulfúrico que contribui consideravelmente para a chuva ácida. A chuva ácida pode acidificar o solo e a água, fazendo com que larvas,pequenas algas, insetos não se desenvolvam. Além disso, pode provocar um arraste de metais pesados do solo para lagos e rios, intoxicando toda a vida aquática e contaminando os que dependem dela para sobreviver. Além disso, destacamos também que com a recente política de preços da Petrobras estipulada no ano de 2016, que se baseia em dois fatores, primeiro na paridade com os preços do mercado internacional e segundo na margem praticada para remunerar riscos inerentes à operação, observamos que o preço desse combustível aumentou de forma vertiginosa num intervalo tempo relativamente curto, de 2016 a 2018, representando um aumento global de cerca de 30% no seu valor final. UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 134 4.2 ENERGIA ELÉTRICA Em oposição ao diesel, essa fonte renovável de energia é pouco usada no segmento de transporte público brasileiro e apresenta pouco impacto ambiental. Além disso, haja vista que, diante da forte demanda do segmento de transportes por fontes energéticas, um estudo divulgado em 2016 pela Empresa Pesquisa Energética afirma que esse setor é segundo maior responsável pela demanda energética no país, com 32% de consumo anual . Ora se diante desse fato o mercado não modificar seus padrões de consumo e buscar outras fontes de energia, como o aumento do uso da energia elétrica, poderemos ter uma futura crise energética (EPE, 2016). Outrora, convém ressaltar que a geração de energia elétrica no Brasil é considerada uma das mais limpas em todo o mundo. De acordo com CNT (2016), 74% da geração de energia elétrica no País é realizada a partir de fontes renováveis e, desse montante, mais de 86% provêm de hidrelétricas. 135 Neste tópico, você aprendeu que: • A história, importância e desenvolvimento do transporte público são fundamentais para entender a realidade do transporte público na atualidade brasileira. • Existem várias tecnologias aplicadas nos sistemas de transporte públicos, desde as mais convencionais até aquelas mais modernas, com destaque dado para aqueles que não consomem combustíveis fósseis. • No mercado brasileiro existem diversos tipos de fontes de energia que são usados nos transportes públicos de passageiros e nesse aspecto enfatizamos o óleo diesel, combustível altamente agressivo ao meio ambiente, porém largamente utilizado no Brasil. RESUMO DO TÓPICO 1 136 1 Faça uma redação de no mínimo 15 linhas sobre o tema: “A história e importância dos transportes públicos no Brasil”. 2 Essa tecnologia utilizada no transporte público de passageiros é caracterizada por possuir a capacidade de vencer aclives podendo subir inclinações de até 13%; possui um raio mínimo de curva de 10,5 metros e as seguintes dimensões: Largura de 2,20 m e altura de 3,12 m. Com base nessas informações assinale qual o tipo de tecnologia nos referimos. a) ( ) VLP b) ( ) BRT c) ( ) VLT d) ( ) Metrô e) ( ) AMP AUTOATIVIDADE 137 TÓPICO 2 SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO O transporte coletivo de coletivo de passageiros possui alguns elementos de caráter operacional que integram o sistema e permitem um melhor entendimento da temática, tais definições vão desde o conceito de serviço, linha até findar na definição de tarifa. Esses elementos estão presentes na operação dos sistemas de transportes públicos, sejam eles ônibus, metrô, barcos, BRT, entre outros tipos. Com base no entendimento desses conceitos, podemos partir para o entendimento das características físicas, técnicas e operacionais do sistema de transporte público. Nesse sentido, pode-se classificar esse sistema em três tipos: por veículo; por equipamentos que integrarão o sistema; e pela infraestrutura necessária para a garantia do correto funcionamento. Com a caracterização dos parâmetros físicos, técnicos e operacionais dos sistemas de transportes públicos, pode-se aplicar indicadores de desempenho. Nos transportes públicos se deve ter em mente que esses indicadores dependeram de um ponto de vista, sejam os operadores, os passageiros ou da comunidade. Para o nosso estudo, abordaremos os IPK e IPV. Por fim, dentro desse contexto para melhorar o desempenho dos transportes públicos, é fundamental um correto planejamento do carregamento da rede, com adequada previsão do tipo de alimentação, se tronco-alimentados ou integrados, além de saber determinar o perfil temporal e espacial da demanda para as localidades em análise de oferta bem como ampliação ou redução do serviço. 2 DEFINIÇÕES DE CARÁTER OPERACIONAL Os sistemas de transportes públicos estão presentes no nosso cotidiano, nos fornecem os meios adequados para a realização dos deslocamentos diários para atendimento das diversas necessidades que possuímos. Caro acadêmico, convidamos a refletir sobre como seria a sua vida se não houvesse meios de transportes públicos, tais como ônibus, metrô etc. Reck (2018, p. 39) cita alguns elementos de caráter operacional acerca do transporte público que viabilizam um melhor entendimento da temática. Dessa forma, convidamos você a ler com muita atenção estas dez definições que são base para o entendimento desse assunto. 138 UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO I – Serviço: está relacionado às diversas modalidades operacionais de atendimento das necessidades de deslocamentos dos usuários, como, por exemplo, o transporte regular (utilizado para deslocamentos comuns, tais como supermercados, faculdades, trabalhos), especial (utilizado para deslocamentos específicos, tais como a travessia de balsa de uma margem a outra de um rio), turístico etc. FIGURA 9 – EXEMPLO DE UM SERVIÇO DE TRANSPORTE REGULAR FONTE: < http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2016/11/df-muda-partir-deste-sabado- linhas-de-onibus-do-paranoa-e-itapoa-veja.html>. Acesso em: 13 ago. 2018. II – Linha: refere-se ao serviço regular de determinado meio de transporte, seguindo regras operacionais próprias, identificando, unicamente, um conjunto de componentes, a saber: itinerário, pontos terminais, frota operacional, tarifas etc. As linhas componentes de uma rede de transporte público devem ser planejadas a partir das características dos usuários da sua área de influência específica, considerando tanto as condições da demanda (volumes de passageiros) como os aspectos socioeconômicos da população e os urbanísticos da região. III – Viagem: refere-se à movimentação unidirecional do veículo entre os pontos extremos da linha. IV – Itinerário: refere-se ao trajeto predeterminado a ser percorrido pelos veículos de uma linha para se deslocarem entre os seus dois pontos extremos, trajeto este definido pelas vias e localidades atendidas. V – Ponto terminal: são os pontos extremos do itinerário de uma linha onde se dará o início ou o término das viagens. VI – Frota: conjunto de veículos de um mesmo tipo à disposição dos serviços de transporte público da região e/da linha. VII – Frequência: número estipulado de viagens unidirecionais por unidade de tempo ou período fixado. VIII – Intervalo: tempo decorrido entre a passagem de dois veículos sucessivos de uma mesma linha, num sentido, por um ponto de referência. Também é conhecido como “headway” e representa o inverso da frequência. TÓPICO 2 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS 139 IX – Seccionamento: são delimitações de trechos dos itinerários onde podem ocorrer ajustes operacionais (retornos) ou tarifários (mudança no valor da tarifa). X – Tarifa: valor a ser cobrado do usuário, par garantir o direito de transporte numa determinada linha, no veículo, horário e trecho preestabelecido. Esses elementos estão presentes na operação dos sistemas de transportes públicos, sejam eles ônibus, metrô, barcos, BRT, entre outros tipos. Por isso, caro acadêmico, comece a se familiarizar com esses termos técnicos. 3 CARACTERÍSTICAS FÍSICAS, TÉCNICAS E OPERACIONAIS DE VEÍCULOS, EQUIPAMENTOS E ELEMENTOS DE INFRAESTRUTURA DO SISTEMA Os sistemasde transporte público são um conjunto organizado de elementos que propiciam o deslocamento dentro dos ambientes urbanos. Basicamente, podemos segregar esses sistemas em três tipos, o veículo, os equipamentos que integrarão o sistema e a infraestrutura necessária para a garantia do correto funcionamento. Quando esses elementos são projetados com acuidade e rigor nas observâncias de suas limitações físicas, técnicas e operacionais, podemos considerar como atingidos bons parâmetros de projeto. 3.1 SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO POR ÔNIBUS Os ônibus funcionam em basicamente três diferentes níveis de prioridade: faixa exclusiva, corredor central e BRT. Consolidados em diversas cidades brasileiras, tais sistemas atendem a amplas faixas de demanda, apresentam menores custos de investimento quando comparados aos sistemas sobre trilhos, embora tenham menor vida útil, e são flexíveis a pequenas alterações de demandas. Além disso, utilizam tecnologia veicular consolidada no país, onde há parque industrial amplo e experiência acumulada para operação e manutenção. Os veículos podem ser caracterizados a partir de aspectos, tais como: capacidade, tecnologia de tração, altura do piso e climatização. As variações nas configurações de ônibus em razão do número e largura do vão das portas, do desenho interno, da existência de escada e de catraca embarcada e do comprimento da carroceria alteram a capacidade do veículo. A Figura 10 apresenta a capacidade dos ônibus organizado em sete classes. 140 UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO FIGURA 10 – CAPACIDADE POR CLASSES DE ÔNIBUS FONTE: Adaptado de BNDS (2017, p. 22) Quanto à tecnologia de tração, nos deparamos com uma realidade que abordamos no tópico anterior: quase a totalidade dos ônibus que operam nas cidades brasileiras é movida a diesel. Em razão das políticas de redução de emissões de poluentes, outras tecnologias vêm sendo oferecidas no mercado, embora com disseminação ainda restrita, algumas em fase de testes de escala e outras, por ora, com custos mais elevados (veículos elétricos, híbridos e movidos a hidrogênio, etanol ou diesel de cana). No segmento de novos veículos, surgem os ônibus elétricos, que podem ser chamados de trólebus, cujos motores são usualmente alimentados por rede aérea (catenárias), ou podem ser movidos a baterias ou capacitores. Estes últimos ainda estão em fase inicial de testes e disseminação. A Figura 11 fornece-nos essa distinção. TÓPICO 2 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS 141 FIGURA 11 – TIPOS DE ÔNIBUS MOVIDOS A ELETRICIDADE FONTE: Adaptado de BNDS (2017, p. 24) Os ônibus movidos a hidrogênio, ainda em fase de testes, utilizam hidrogênio armazenado em tanques que alimentam um motor de combustão interna. Outra tecnologia é a de conversão em célula de combustível, na qual o hidrogênio é combinado com o oxigênio gerando energia elétrica. Nesse caso não há emissão de poluentes locais. Por possuir domínio da tecnologia para fabricação e operação de ônibus movidos a etanol, o Brasil fez parte do programa internacional BEST – BioEthanol for Sustainable Transport – focado em desenvolver e disseminar o uso deste combustível. A composição do diesel brasileiro vem sendo modificada com o aumento na proporção de biodiesel. A substituição do diesel por soluções não dependentes de combustíveis fósseis e de baixa ou nenhuma emissão de poluentes locais e gases de efeito estufa entra progressivamente na agenda brasileira. Com relação à altura do piso dos ônibus, deve-se ter ciência de que interfere no conforto e no tempo de embarque e desembarque dos usuários e, consequentemente, na velocidade comercial. O melhor desempenho operacional ocorre com o embarque em nível, ou seja, quando é eliminado o desnível entre os pisos do ponto de parada e do veículo. A adoção de ônibus de piso baixo exige uma infraestrutura viária de qualidade. Os ônibus mais utilizados nas cidades brasileiras têm piso interno elevado, com altura de 95 cm em relação ao pavimento da via, com degraus – uma parte da frota tem plataforma elevatória para cadeira de rodas. A maior parte dos BRTs brasileiros emprega plataformas elevadas (95 cm) nas estações em razão do uso de ônibus com piso interno elevado. Os ônibus de piso baixo total (low floor) têm o “salão do veículo” inteiramente em piso baixo, proporcionando acesso praticamente sem degraus (28cm de altura). Os de piso baixo dianteiro (low entry) têm a parte dianteira de piso baixo (com sistema de suspensão que permite o rebaixamento do veículo nas paradas, “ajoelhamento” ou “knelling”) e a parte traseira do veículo em nível mais elevado com degraus 142 UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO internos devido ao espaço necessário para acomodar o motor. É possível, ainda, o uso de veículos com piso baixo central, no qual apenas a área entre os eixos do veículo tem o piso baixo, e as partes dianteira e traseira são elevadas. A Figura 12 exibe a configuração apresentada voltada para o tema da acessibilidade. FIGURA 12 – ALTURA DO PISO EM ÔNIBUS FONTE: Adaptado de BNDS (2017, p. 26) Com relação à climatização, o ar-condicionado nos ônibus é um item de conforto relevante em função das condições climáticas de boa parte do país. Algumas cidades têm adotado medidas para tornar a sua frota totalmente equipada com esta comodidade. O uso de veículos com ar-condicionado é padrão em várias soluções de BRT, o que contribui significativamente para a imagem do serviço e o conforto do usuário. O preço do veículo com ar-condicionado pode estar entre 7% e 15% acima do valor do veículo sem ar-condicionado. O custo operacional total pode ser superior em cerca de 6%. Os aspectos operacionais mais importantes são a frequência e velocidade comercial. A frequência de atendimento e a velocidade comercial são aspectos operacionais determinantes para a escolha do nível de prioridade e das condições de compartilhamento da via entre o tráfego geral e os ônibus. A partir de frequências da ordem de 100 ônibus/hora/sentido, as interferências de tráfego e os retardamentos gerados por filas de ônibus em pontos de paradas provocam redução relevante na velocidade de operação. Nesse caso são recomendadas medidas para priorização dos ônibus no sistema de mobilidade tais como Faixa Exclusiva, Corredor Central e BRT. A velocidade comercial considera, além dos tempos em percurso, os tempos de parada nos pontos e nas estações de embarque e desembarque de passageiros. Em cidades de porte médio e grande, independentemente da solução por ônibus adotada, considera-se como razoável um padrão de operação em que a velocidade comercial dos ônibus esteja no patamar entre 18 e 22 km/h. Em sistemas de priorização alta, com linhas expressas, podem ser alcançadas velocidades comerciais superiores a 30 km/h. TÓPICO 2 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS 143 No caso da aplicação das medidas de prioridade aos ônibus, um conceito a ser destacado é o de segregação física ou de compartilhamento da via com o tráfego geral. A segregação condiciona diversos atributos de desempenho, como a capacidade de transporte e a velocidade comercial. A priorização da circulação dos ônibus requer, em tese, a supressão de faixas do tráfego geral, porém promove uma maior equidade no uso do espaço viário na medida em que o transporte coletivo transporta mais pessoas por área das vias do que o transporte individual motorizado. Eixos viários com alta frequência de ônibus e grande movimentação de embarque e desembarque requerem soluções que proporcionam prioridade aos ônibus com relação aos demais veículos na via. Essas soluções contemplam medidas que melhoram significativamente o desempenho da circulação dos ônibus, permitindo operações com maiores frequências e velocidades comerciais. Com relação aos aspectos de infraestrutura, podemos classificá-los em três tipos, primeira, as faixas de ultrapassagem, segundo o pavimento e terceiroos pontos de paradas e estações. No que se refere às faixas de ultrapassagem, destacamos que se aplicam as soluções de prioridade aos ônibus, na qual podem ser implantados com ou sem faixas para ultrapassagem nas áreas das estações ou nos pontos de paradas. A adoção da ultrapassagem aumenta a capacidade do corredor de ônibus. Duas situações, de forma isolada ou conjunta, determinam a necessidade de ultrapassagem: I – Corredores de ônibus com elevada frequência (acima de 100 ônibus/ hora/sentido) e elevado número de passageiros que realizam embarques ou desembarques nas paradas, geram altos índices de saturação na parada e requerem dois ou mais módulos de parada para eliminar ou reduzir as filas de ônibus. II – Corredores de ônibus com modelos operacionais que utilizam linhas expressas ou semiexpressas requerem faixa de ultrapassagem por não pararem para embarque e desembarque em todos os pontos de parada do corredor. Implantar uma faixa de ultrapassagem exige uma largura de seção viária maior, que nem sempre está disponível. Nestes casos pode haver a necessidade de redução de faixas de tráfego veicular geral ou de aumento da caixa viária, eventualmente exigindo desapropriações localizadas. Caro acadêmico, vimos o primeiro tipo relacionado ao aspecto da infraestrutura, agora passaremos para verificar o segundo elemento, o pavimento. O pavimento das faixas exclusivas para circulação de ônibus pode ser flexível (asfalto) ou rígido (concreto). De modo geral, as faixas exclusivas e os corredores centrais utilizam asfalto, e os BRTs, concreto. Nos dois primeiros casos, ainda que seja feita a opção por pavimento asfáltico ao longo das faixas de circulação, deve ser adotado o pavimento rígido nos pontos de parada e cruzamentos, incluindo áreas de aceleração e desaceleração dos veículos, pois nesses locais o piso é mais afetado e sujeito a deformações. 144 UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO A escolha da solução de pavimento deve levar em conta a frequência dos ônibus no eixo viário. A frequente movimentação dos ônibus em um “leito” fixo pode ocasionar deformações no pavimento, o que afeta a velocidade operacional e gera problemas de segurança e desconforto aos usuários. Veja a Figura 13. FIGURA 13 – EXEMPLO DE DEFORMAÇÕES EM PAVIMENTO EM PARADA DE ÔNIBUS FONTE: Adaptado de BNDS (2017, p. 30) Orienta-se o emprego de pavimento rígido ao longo do traçado de BRT e nas áreas de pontos de parada e cruzamentos de corredores centrais e faixas exclusivas. Em tese, o custo adicional do investimento no pavimento rígido é compensado pelo prazo de durabilidade e redução nos custos de manutenção. O custo do pavimento em concreto é aproximadamente 10% superior ao do asfáltico, caso a estrutura completa do pavimento venha a ser reconstruída neste último. Se forem considerados apenas os serviços de fresa e recapeamento do asfalto, a diferença é superior: o pavimento em concreto passa a custar cerca de quatro vezes mais. Mesmo assim, como o custo de manutenção do pavimento asfáltico é maior, estima-se que os custos das duas soluções sejam equivalentes em um prazo de cinco a seis anos. O terceiro elemento que compõe a infraestrutura são os pontos de parada e estações, esses são eixos centrais nos transportes públicos coletivos com emprego de ônibus e podem ter configuração de módulos simples (com extensão suficiente para a parada de um veículo) ou duplos (com extensão para a parada de dois veículos simultaneamente). A configuração depende da frequência de ônibus e dos tipos de serviços oferecidos. Um módulo comporta uma frequência da ordem de 60 ônibus/hora (padrão de serviço satisfatório) ou de até 100 ônibus/ hora (padrão de serviço limite). Para frequências maiores, é recomendado utilizar dois ou mais módulos de parada. No caso de necessidade de vários módulos, deve-se atentar para a extensão total da plataforma de forma a não configurar uma barreira à circulação de pedestres e ciclistas. TÓPICO 2 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS 145 Dentro desse contexto, existe um elemento de grande importância que é o índice de saturação de um ponto de parada de ônibus. Esse indicador usualmente é utilizado para definir a quantidade de módulos de parada necessários no ponto e a necessidade de faixa de ultrapassagem. Ele indica a porcentagem do tempo que o ponto de parada está ocupado por um ônibus (tempo de ocupação). Para calculá-lo, deve-se considerar a soma de duas parcelas: (i) quantidade de ônibus que param no ponto durante uma hora, multiplicada pelo tempo médio que cada veículo consome para manobrar, parar, abrir e fechar as portas; e (ii) quantidade de passageiros que embarcam e desembarcam no ponto durante uma hora, multiplicada pelo tempo médio da movimentação de cada passageiro. Dividindo-se o tempo de ocupação por 3.600 segundos (correspondente a uma hora), obtém-se o índice de saturação do ponto de parada. A fórmula a seguir exemplifica esta situação: (Qi x Ti) (Qf x Tf)IS (I) 3600 + = Onde: Qi = Quantidade de ônibus que param no ponto durante uma hora; Ti = Tempo médio (em segundos) que cada veículo consome para manobrar, parar, abrir e fechar as portas; Qf = Quantidade de passageiros que embarcam e desembarcam no ponto durante uma hora; Tf = Tempo médio da movimentação de cada passageiro (em segundos). Os tempos de manobra, parada e abertura e fechamento de portas variam em função do tráfego, das condições de acostamento na plataforma, da perícia do motorista e das características dos veículos. Consideram-se 13 segundos por veículo como um tempo médio de referência para estas manobras em condições satisfatórias. Os tempos de embarque são distintos em função do tipo de parada e do tipo de veículo. Nas paradas convencionais, o embarque é realizado por uma única porta. Nas estações fechadas, do tipo BRT, a movimentação ocorre por todas as portas do veículo e em nível, sem degraus. O tempo médio de um embarque convencional é de 3 segundos/passageiro, enquanto no BRT é de 0,75 segundos/passageiro. Assim, a capacidade de um sistema por ônibus, como qualquer outro sistema de transporte rodoviário ou sobre trilhos, depende de várias características físicas e operacionais, que podem afetar a regularidade da parada dos veículos e os tempos gastos nas estações. Estes fatores têm reflexos no valor do índice de saturação. Para obter um bom nível de serviço, isto é, para garantir uma margem operacional segura, o índice de saturação deve ser menor que 0,4, ou seja, o ponto de parada deve estar ocupado por um ônibus em operação de embarque e desembarque em no máximo 40% do tempo. Índices acima de 0,4 indicam a ocorrência de filas e a necessidade de adicionar mais um módulo de parada dependendo do nível de serviço desejado para a parada e do tipo de solução adotada. Em situações específicas, pode haver uma operação localizada 146 UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO com índices de saturação de valor maior que 0,4 (no máximo 0,6), porém isto é admissível em breves momentos e em poucos locais, não devendo ser considerado como regra para o dimensionamento do sistema. Caro aluno, muitos órgãos públicos que trabalham com o dimensionamento do transporte público negligenciam a importância etapa de projeto e determinação do índice de saturação, o resultado disso é a insatisfação da população, descredito no transporte público e longas esperas bem como filas nas estações de passageiros/pontos de parada. Cabe destacar que para obter um bom nível de serviço, isto é, para garantir uma margem operacional segura, o Índice de Saturação deve ser menor que 0,4. IMPORTANT E 4 INDICADORES DE DESEMPENHO DO TRANSPORTE PÚBLICO Para a mensuração do desempenho nos transportes públicos se deve ter em mente que ele dependerá de um ponto de vista, sejam os operadores, os passageiros ou da comunidade. Por exemplo, um aumento da relação passageiros/ ônibus pode ser avaliado positivamente pelos operadorese negativamente pelos passageiros. Caro acadêmico, com base nesse cenário inicial apresentado, levantaremos a seguinte questão, quais seriam os indicadores básicos desempenho? Para o segmento de transportes públicos de passageiros executado por ônibus, adotaremos dois parâmetros da Associação Nacional de Transportes Urbanos (2008), primeiro o Índice de Passageiros por Quilômetro (IPK) e o Índice de Passageiros por Veículo (IPV). Índice de Passageiros por Quilometro (IPK): mais conhecido pela sigla IPK (Índice de Passageiros por Km), esse indicador é dos mais utilizados pelos analistas para dar uma ideia da produtividade do sistema. Ele representa também a rotatividade dos lugares oferecidos nos ônibus. Valores muito baixos mostram que a renovação de passageiros é pequena, típica dos movimentos pendulares em linhas de longo percurso, em que a maioria dos passageiros entra no ponto inicial e desce no ponto final, percorrendo grandes distâncias. O indicador tem valores baixos também quando há excessiva quilometragem percorrida em relação à demanda efetiva. TÓPICO 2 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS 147 NTIPK (II) QT = O índice de passageiros por quilômetro pode ser visto também na perspectiva do usuário. Valores muito elevados significam níveis de serviço baixos (alta relação passageiros/m2) e, portanto, perda de conforto. Usamos a expressão a seguir para a determinação desse índice: Onde: NT = Quantidade total de passageiros por dia; QT = Quantidade de quilômetros percorridos por dia. A Figura 14 expressa os valores adequados para relação equilibrada entre passageiros e operadores por faixa de habitantes populacionais. FIGURA 14 – GRÁFICO PASSAGEIRO/ DIA QUILÔMETRO FONTE: Adaptado de ANETU (2008, p. 10) Índice de Quilômetro por Veículo (IPV): este indicador fornece a quilometragem média percorrida pelos veículos da frota de transporte coletivo durante um dia útil. Ele nada indica sobre a ocupação dos veículos. Assim como em outros indicadores, é calculado para veículos padrão. A diminuição do valor do indicador nos grandes centros urbanos pode estar relacionada aos congestionamentos que aumentam os tempos de viagem e induzem o aumento da frota para que se possa cumprir a programação horária. QtNIPV (III) Nd = ∑ 148 UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO Onde: NQt = Somatório da quantidade total de quilômetros percorridos em um dia, geralmente no mínimo três dias alternados. Σ Nd = Quantidade dias, geralmente no mínimo três dias alternados. A Figura 15 expressa os valores adequados para relação equilibrada entre passageiros e operadores por faixa de habitantes populacionais. FIGURA 15 – GRÁFICO QUILÔMETRO/ DIA (VEÍCULO PADRÃO) FONTE: Adaptado de ANETU (2008, p. 18) 5 CONCEPÇÃO E CARREGAMENTO DA REDE DE TRANSPORTE PÚBLICO Os sistemas de transporte público urbano por ônibus de uma cidade bem como os demais meios de transporte que o compõem, constituem, muitas vezes, um sistema complexo em termos de concepção, organização e funcionamento. Tal sistema é peculiar a cada cidade e possui sua história, sua dinâmica de desenvolvimento, suas características técnicas próprias e seus regulamentos de operação. Não existe, portanto, uma metodologia plena para todas as situações. É possível, no entanto, analisar a oferta de transporte como uma noção complexa ligada à presença e características das linhas, localização dos terminais, pontos de parada e estações e a forma de exploração dos serviços (RECK, 2018). Os problemas de caráter operacional de uma rede de transporte público, em geral, ocorrem nas principais vias que o compõem (chamados corredores de transporte). Uma via é caracterizada como corredor de transporte quando por ela transitar um volume significativo de ônibus urbanos (de uma ou mais linhas). A determinação dos trechos da rede que formam os corredores de transporte TÓPICO 2 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS 149 pode ser feita no mapeamento geral das linhas que, anexado às informações da tabela operacional (frequências), permite determinar os trechos mais carregados da rede de transportes. Nesses trechos deve-se concentrar a coleta de dados pelas equipes de pesquisa a fim de avaliar o desempenho de todo o sistema. Nos demais trechos, face aos reduzidos volumes que apresentam, os eventuais problemas existentes não deverão ser de caráter operacional de transportes, e sim relacionados ou com problemas de circulação viária (trânsito em geral) ou com o uso do solo lindeiro (local do ponto de parada), ou ainda com as condições da pavimentação. Os corredores de transporte, após identificados, deverão ser divididos em trechos característicos (de 1 a 2 km) e, a partir de pesquisas de campo, serão relacionadas as seguintes informações básicas referentes a cada um dos trechos (RECK, 2018, p. 58): • Características físicas: obtidas a partir de levantamentos expedidos em campo, destacando-se: largura das pistas, do canteiro central, das calçadas, greide das pistas, uso do solo lindeiro (realçando eventuais polos geradores) etc. • Fluxos horários de ônibus: obtidos por contagem direta em pontos notáveis do corredor, separando-os por sentido, por períodos típicos e por dias da semana. • Número de passageiros embarcados/desembarcados: nos principais pontos de parada do corredor, obtido por contagem, nos horários de pico durante um dia útil. • Volume de passageiros: obtido por avaliação da ocupação do veículo, através de pesquisa por contraste visual em pontos notáveis do corredor, em diferentes períodos típicos de um dia útil, com distinção do sentido. • Velocidades de percurso e operacional: obtidas por pesquisa durante os períodos e entrepicos, em dias úteis. • Caracterização da lentidão: Obtida a partir da constatação de uma grande diferença (> 30%) entre as velocidades do ônibus nos horários de pico e de entrepicos com destaque para as perdas de tempo nos semáforos, pontos de parada, operações de carga / descarga de mercadoria, estacionamento irregular. 6 SISTEMA TRONCO-ALIMENTADO E SISTEMAS INTEGRADOS A concepção e carregamento do transporte público coletivo por ônibus requerem a pesquisa para a determinação, bem como a identificação do carregamento da malha viária. Caro acadêmico, nesse contexto, direcionamos a nossa atenção para os tipos de alimentação dos ônibus. Não existe uma forma correta de alimentar os ônibus, logo para a determinação dos pontos em que ocorrerão alimentação dos ônibus, torna-se necessário o projetista responsável, estudar cuidadosamente o desenho urbano, a fim de buscar pontos estratégicos com vistas para não prejudicar o deslocamento viário na cidade. 150 UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO Geralmente, as redes de transporte público coletivo por ônibus são compostas por linhas estruturais e alimentadoras, onde as linhas estruturais (principais ou troncais) são receptoras da demanda captada pelas linhas de acessibilidade aos bairros (linhas alimentadoras). Forma-se, então, um sistema tronco-alimentado (Figura 46), conceito de redes de transporte público que podem ser baseadas apenas em ônibus ou também incluir sistemas sobre trilhos (integração intermodal). FIGURA 16 – SISTEMA TRONCO-ALIMENTADO FONTE: Adaptado de BNDS (2017, p. 17) A alimentação realizada com veículos de menor capacidade e a troncalização realizada com sistemas de maior capacidade (baseados em ônibus ou trilhos) permitem o aumento dos índices de ocupação veicular, isto é, a ocupação mais próxima à capacidade dos veículos, proporcionando racionalidade, com ganhos de economia de escala, e gerando menor custo por passageiro transportado. Nos sistemas que utilizam ônibus, que é o nosso foco, a reestruturação da rede busca racionalizar o número de linhas e os trajetos nos corredores em que as medidas de prioridade são implantadas. O objetivo é melhorar a regularidade da operação e garantir a oferta nos trechos e nos períodos demaior concentração da demanda, além de viabilizar maior cobertura territorial. Essa estrutura deve garantir o atendimento ao desejo de deslocamento do usuário utilizando mais de um serviço de transporte para completá-lo, quando for o caso. Para tanto, é necessário que o projeto de rede contemple: Integração física: A proximidade das estações e pontos de parada dos diferentes sistemas. Integração tarifária: A possibilidade de pagar uma única tarifa para mais de um deslocamento na mesma viagem. TÓPICO 2 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS 151 Integração operacional: A coordenação dos horários e dimensionamento da oferta de viagens dos diferentes serviços. Os projetos integrados em sistemas tronco-alimentados proporcionam benefícios à sociedade em diversos aspectos, tais como: (i) redução do tempo de viagem dos usuários, (ii) redução do número de veículos em circulação, (iii) redução dos custos de manutenção do sistema viário, (iv) eliminação de viagens ociosas, (v) aumento da oferta de ligações transversais e interbairros, (vi) redução da incidência tarifária para os usuários que atualmente têm que utilizar mais de uma linha sem integração, (vii) maior confiabilidade, melhor desempenho operacional e mais rapidez, (viii) redução do consumo de combustíveis, (ix) melhorias em termos ambientais e (x) melhor circulação nos centros de cidade e nos corredores (BNDS, 2017). 7 PERFIL TEMPORAL E ESPACIAL DA DEMANDA A demanda de usuários de uma linha de transporte público está intimamente ligada à ocupação urbana de sua área de influência, em especial às características do uso e nível de ocupação do solo (residencial, industrial, comercial, serviços etc.). A relação entre estas atividades urbanas, por sua vez, provoca motivações e frequências diversas para os deslocamentos da população, tais deslocamentos se classificam de duas formas: Deslocamentos pendulares: são aqueles que se repetem de forma sistemática, como por exemplo a interação casa-trabalho ou casa-escola- casa; esses deslocamentos têm um padrão praticamente constante ao longo de tempo, variando apenas quanto a sua intensidade (quantidade) em função da própria ocupação urbana da área de influência da linha; como característica marcante dos mesmos, pode-se destacar a sua elevada concentração em pequenos intervalos de tempo (no início da manhã e final da tarde) correspondendo aos horários de início e final do expediente de trabalho (ou de horários letivos) e caracterizando “períodos de pico”; Deslocamentos ocasionais: são aqueles que se apresentam sem uma característica marcante e sofrem interferências diversas, podendo-se citar como exemplos: dia do mês, nas viagens para compras; final de semana, nas viagens para lazer; horários intermediários do dia nas viagens para negócios. Assim, o transporte é uma atividade-meio para a consecução das demais atividades urbanas e como decorrência existe uma forte interdependência entre essas e o sistema de transporte ofertado na região. Portanto, o planejamento e a programação da operação do transporte público devem se basear, a princípio na intensidade com que o sistema existente atende às necessidades da população e em projeções sobre o comportamento futuro dos usuários, função direta das atividades urbanas da região. 152 UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO Nesse contexto, a análise da demanda manifesta pode ser executada, elaborando-se o seu perfil segundo suas duas variações: • Temporal: relativa às intensidades de uso do transporte público em diferentes unidades de tempo (ano, dia ou hora). • Espacial: relativa às intensidades de solicitação dos diferentes trechos componentes de uma linha de transporte público. 153 Neste tópico, você aprendeu que: • As definições de caráter operacional, bem como as características físicas, técnicas dos veículos, equipamentos e elementos de infraestrutura são importantes para o adequado dimensionamento dos sistemas de transporte público. • Os indicadores de desempenho do transporte público são elementos que auxiliam na mensuração da qualidade do sistema. • Para a concepção e o carregamento da rede de transporte público, o projetista tem que conhecer sobre sistema tronco-alimentados e sistemas integrados, bem como desenvolver estudos que consigam definir o perfil temporal e espacial da demanda. • O sistema de transporte coletivo por ônibus apresenta termos técnicos que são aplicados no setor, tais como a frota, linha, ponto terminal, entre outros. • O estudo sobre níveis de prioridade que se expressam através das faixas exclusivas, corredor central e mais recentemente o BRT são conhecimentos fundamentais dos engenheiros que lidam com o transporte público. • Sobre indicadores de desempenho, dois são muito relevantes para o sistema de transporte público por ônibus, o IPK e o IPV. Quanto a concepção e carregamento da rede de transporte público, um corredor de transporte existe quando por ela transitar um volume significativo de ônibus urbanos. RESUMO DO TÓPICO 2 154 AUTOATIVIDADE 1 A respeito das características técnicas operacionais dos sistemas de transporte público por ônibus, assinale a alternativa que corresponde ao seguinte conceito: “são delimitações de trechos dos itinerários onde podem ocorrer ajustes operacionais (retornos) ou tarifários (mudança no valor da tarifa)”. a) ( ) Linha. b) ( ) Trilha. c) ( ) Ponto terminal. d) ( ) Seccionamento. e) ( ) Frota. 2 Com relação à altura do piso dos ônibus, deve-se ter ciência de que interfere no conforto e no tempo de embarque e desembarque dos usuários e, consequentemente, na velocidade comercial. A adoção de ônibus de piso baixo exige uma infraestrutura viária de qualidade. Os ônibus mais utilizados nas cidades brasileiras têm piso interno elevado, com altura de quantos centímetros em relação ao pavimento da via? a) ( ) 95 cm b) ( ) 90 cm c) ( ) 85 cm d) ( ) 80 cm e) ( ) 50 cm 3 Sabemos que o Índice de Passageiros por Km (IPK) é um dos indicadores mais utilizados pelos analistas para dar uma ideia da produtividade do sistema. Ele representa também a rotatividade dos lugares oferecidos nos ônibus. Calcule o IPK, para uma quantidade total de passageiros de 1700 pessoas durante um quantitativo total de 800 km por dia. a) ( ) 2,12 b) ( ) 2,14 c) ( ) 2,01 d) ( ) 1,75 e) ( ) 1,20 155 TÓPICO 3 INTRODUÇÃO AO DIMENSIONAMENTO DE SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO POR ÔNIBUS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, os sistemas de transportes públicos por ônibus têm como grande vantagem a versatilidade operacional para adequação dos itinerários às novas realidades urbanas, contudo historicamente tem se mostrado contraproducente. Tais sistemas de linhas de ônibus foram se implantando irracionalmente, nem sempre de acordo com interesses de toda comunidade envolvida e, face à realidade energética atual, têm onerado de forma significativa o transporte público. Para vencer as deficiências no sistema de transporte público por ônibus é indispensável o planejamento operacional que tem sempre que encaminhar as soluções para os problemas que surgem. Dentro do cenário, vamos focar neste capítulo uma etapa muito importante do planejamento operacional do sistema de transporte coletivo por ônibus, a tarifação. Os custos bem como consequentemente o preço pago pelos usuários dos sistemas de transporte público por ônibus (tarifa pública) são um assunto de grande importância para o segmento e essa história remete ao início dos anos 1980. E ao longo desses quase quarente anos, concluiu-se que a quantificação dos custos deve ser realizada considerando os principais insumos necessários para a manutenção e operação dos serviços. Basicamente se dividem em: • Custo fixo mensal do sistema. • Custo variável mensal do sistema. • Remuneração pela prestação dos serviços. • A soma dos tributos diretos. 2 PLANEJAMENTO OPERACIONAL O nosso enfoque é o segmento dos transportespúblicos urbanos por ônibus e esse sistema deve se adequar às características da região, ser passível de adaptações constantes à própria dinâmica urbana, tanto em termos quantitativos quanto à tecnologia do veículo. Com isso é possível obter uma constante racionalização operacional e redução dos custos de transporte. Na realidade econômica atual, as soluções baseadas em altos investimentos (metrô, trem de subúrbio, bondes) têm sido restritas às grandes metrópoles, buscando as demais cidades resolver seus problemas de transporte com soluções de capital não intensivo, como é o caso do tradicional sistema por ônibus. UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 156 Nesta situação, sobressaem as soluções de caráter operacional quando se procura maximizar o uso da infraestrutura existente, racionalizando e coordenando os diferentes meios de transporte público até atingir as respectivas capacidades nominais de transporte e, se possível, superá-las através de estratégias operacionais. Na esmagadora maioria das cidades brasileiras o sistema de transporte público de passageiros está baseado na tecnologia do ônibus, com suas variantes dimensionais (micro, convencional, PADRON), e em algumas cidades com os trólebus. Entretanto, a sua grande vantagem – versatilidade operacional para adequação dos itinerários às novas realidades urbanas – historicamente tem se mostrado contraproducente. Os sistemas de linhas de ônibus foram se implantando irracionalmente, nem sempre de acordo com interesses de toda comunidade envolvida e, face à realidade energética atual, têm onerado de forma significativa o transporte público. Para vencer as deficiências no sistema de transporte público por ônibus é indispensável o planejamento operacional que tem sempre que encaminhar as soluções para os problemas que surgem, reconhecendo que, na maioria, os usuários são cativos do transporte público, por não possuírem veículos próprios ou não disporem de meios para sua utilização frequente. Além disso, as condições econômicas destes usuários não permitem que as tarifas deste serviço público sejam elevadas, ocasionando um permanente conflito entre melhor qualidade dos serviços x elevado custo do transporte e tarifas reduzidas de caráter social. Além disso, ao contrário do transporte particular, o transporte público de passageiros necessita de adequada definição de rotas/itinerários, conveniente agregação da demanda, organização da operação, programação da oferta e informação aos usuários. Assim, o planejamento operacional deve contemplar os aspectos anteriormente citados, formulando regras operacionais fixadas pelo poder público, a serem cumpridas pelas operadoras do transporte e previamente informadas e discutidas com os usuários. Reck (2018) esclarece que para a obtenção desse equilíbrio é fundamental a conciliação de interesses de três grupos, com preocupações distintas quanto ao desempenho do sistema: • Usuários: que se utilizam de um serviço público para suprir suas necessidades de deslocamento e que não têm maiores preocupações com a operação dos serviços. Na utilização do transporte público este segmento pondera uma série de atributos – regularidade, tempo de deslocamento, conforto, custos etc. – para a tomada de decisão de quando, onde e como usar o transporte. • Operadores: que se encarregam de administrar e fazer funcionar um complexo sistema de transportes) financiamento, aquisição, manutenção, renovação da frota etc.) e de comercializá-lo, sob a forma de prestação de um serviço público. Suas preocupações estão relacionadas com as variáveis que influenciam os custos e receitas na oferta do serviço. TÓPICO 3 | INTRODUÇÃO AO DIMENSIONAMENTO DE SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO POR ÔNIBUS 157 • Poder público: que sendo legalmente o responsável pelo transporte público, deve regulamentar, planejar, programar e fiscalizar a execução dos serviços, servindo constantemente como árbitro nos conflitos de interesse entre usuários e operadores, valendo-se para tanto, da legislação específica. A esses três grupos, pode-se associar um quarto, comunidade em geral, cujos interesses são indiretos, provocados pelas externalidades do sistema (ruído excessivo, poluição ambiental, conflitos com o uso do solo lindeiro etc.). Dado que cabe ao poder público a defesa dos interesses da comunidade, incluindo os acima relacionados. A partir das informações de caráter operacional, o planejamento operacional se materializará para todos os entes envolvidos no transporte público por ônibus através da tabela operacional consolidada (TOC) de todo o sistema existente. A tabela operacional constitui-se num cadastro simplificado que complementa o mapeamento geral e permite uma consulta mais rápida às informações sobre a operação programada para cada linha. No esboço da tabela operacional proposta, destacam-se: • empresa operadora; • código numérico e nome da linha; • terminais, inicial e final; • dias e horários de funcionamento; • períodos típicos e respectivas frequências/intervalos; • extensões de ida e volta, de acordo com o tipo de pavimento; • número e características da frota operacional; • tempos de viagem, nos terminais e do ciclo total, por períodos típicos; • número de viagens realizadas por sentido e em dia útil; • volumes de passageiros transportados por dia útil e total anual; • IPK médio; • tarifação. Por fim, como aspecto mais pertinente para a temática será a determinação da tarifação do sistema, assunto que vamos abordar no próximo subtópico. 3 TARIFAÇÃO Os custos e consequentemente o preço pago pelos usuários dos sistemas de transporte público por ônibus (tarifa pública) são um assunto de grande importância para o segmento e essa história remete ao início dos anos 1980, quando o Geipot – Empresa Brasileira de Planejamento de Transportes/EBTU – Empresa Brasileira dos Transportes Urbanos definiu uma forma de cálculo da tarifa de ônibus, ao desenvolver uma metodologia que culminou no lançamento das “Instruções Práticas para Cálculo de Tarifas de Ônibus Urbanos". O atual modelo de cálculo tarifário do ônibus urbano, adotado pela maioria das cidades brasileiras, está baseado nessa metodologia. UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 158 Caro acadêmico, vamos tratar dessa temática embasados no modelo do Geipot e também na metodologia de cálculo atualizada pela Agência Nacional de Transporte Públicos (ANTP). Essa metodologia resulta numa planilha de custo que consiste no demonstrativo de todos os custos, impostos e taxas de um determinado produto ou serviço. Por meio dela é possível obter o custo final do produto e, a partir disso, poderá ser estabelecido o preço de venda assegurando uma margem de lucro satisfatória. No caso dos serviços públicos prestados por terceiros, ela torna-se ainda mais importante, já que é o instrumento de demonstração dos reajustes de tarifas. Na prestação de serviços de transporte coletivo, a planilha de custos segue a abordagem econômica tradicional do Geipot, onde os custos são divididos em variáveis e fixos. Os custos fixos representam a parcela de desembolso necessária para a prestação do serviço independentemente da quantidade do serviço (mobilização de frota e pessoal), e os custos variáveis estão diretamente relacionados à quantidade de viagens realizadas na prestação do serviço (quilometragem percorrida). Tendo como referência todo o conjunto de especificações dos serviços, podem ser quantificados os custos associados à operação do sistema de transporte público coletivo por ônibus para a área urbana de interesse. A quantificação dos custos é realizada considerando os principais insumos necessários para a manutenção e operação dos serviços. Ademais, considera-se as outras despesas incidentes sobre a atividade, tais como a remuneração pela prestação dos serviços e os tributos. A fórmula a seguir apresenta matematicamente a composição dos custos. CT (IV) 1 TRD = − V FC + C + RPS Onde:CT = É o custo total mensal do sistema; CV = é o custo variável mensal do sistema; CF = é o custo fixo mensal do sistema; RPS é a remuneração pela prestação dos serviços; e TRD é a soma dos tributos diretos. TÓPICO 3 | INTRODUÇÃO AO DIMENSIONAMENTO DE SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO POR ÔNIBUS 159 CT (V)= CMB + CLB + CAR + CRD + CPA + CAB 3.1 CÁLCULO DO CUSTO VARIÁVEL MENSAL (C V ) Os custos ou despesas variáveis ocorrem quando o serviço é prestado à população, mantendo relação direta com a quilometragem percorrida, ou seja, a incidência só ocorre quando o veículo está em operação. Esses custos são constituídos pelas despesas com combustível (CMB), lubrificantes (CLB), ARLA 32 (CAR), rodagem (CRD), peças e acessórios (CPA) e custos ambientais (CAB), conforme a equação a seguir. Caro acadêmico, talvez o elemento de que você não faça ideia do que seja nessa formulação é o custo com o ARLA 32 (CAR). O ARLA 32 é um reagente usado com a tecnologia de pós-tratamento dos gases de escapamento dos veículos chamada SCR (Selective Catalytic Reduction, ou Redução Catalítica Seletiva), para reduzir quimicamente a emissão de óxidos de nitrogênio (NOx), família de gases responsáveis pela poluição atmosférica e a formação do ozônio na baixa atmosfera, além de contribuir para a formação do “smog” em centros urbanos e causar vários problemas adversos ao sistema respiratório. O ARLA 32 converte os óxidos de nitrogênio, nocivos, da exaustão do veículo a diesel em nitrogênio e vapor de água, inofensivos. Ele não é um combustível nem um aditivo para combustíveis, e sim uma solução de ureia com elevada pureza que é colocada em um tanque exclusivo no veículo. Cada um desses componentes do CV utiliza coeficientes de consumo como referência. Para o cálculo desses coeficientes de consumo, devem ser utilizados critérios de medição específicos. Não se recomenda a utilização de relatórios contábeis, tendo em vista que variam, significativamente, conforme as políticas de compra e de estoque das empresas. Além desses componentes, podem existir mudanças tecnológicas que levem à utilização de novos insumos que devem passar a ser considerados no cálculo do CV. 3.2 CÁLCULO DO CUSTO FIXO MENSAL (C F ) O custo fixo é a parcela do custo total que não tem relação diretamente proporcional à quilometragem rodada. Consideram-se como custo fixo as parcelas relativas à depreciação (CDP), à remuneração do capital (CRC), às despesas com pessoal (CPS), às despesas administrativas (CAD), às despesas de comercialização, aos serviços prestados em terminais e centrais de controle da operação (CCM), à locação dos equipamentos e sistemas de bilhetagem eletrônica e ITS (CLQ), à locação de garagem (CLG) e à locação de veículos de apoio (CLA). Para encontrar o valor relativo ao custo fixo, executa-se o somatório dos itens descritos acima conforme a equação a seguir. CF (V)= CDP + CRC + CPS + CAD + CLQ + CLG + CLA UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 160 Para os casos em que a empresa operadora não possua garagem própria, deverão ser excluídas as parcelas correspondentes às despesas de remuneração do capital imobilizado em terrenos e edificações. Ainda, nestes casos, poderá ser incluída a parcela correspondente ao custo mensal de locação de garagem (CLG). Da mesma forma, para os casos em que a empresa operadora não adquiriu os equipamentos de bilhetagem e ITS, optando pela locação dos mesmos, deverá ser excluída a parcela correspondente às despesas de remuneração do capital imobilizado em sistemas de bilhetagem e ITS. Ainda, nestes casos, poderá ser incluída a parcela correspondente ao custo mensal de locação destes equipamentos (CLQ). 3.3 CÁLCULO DA REMUNERAÇÃO PELA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS (RPS) A prestação de serviços de transporte coletivo de passageiros, operado por empresas privadas através de um processo de concessão, deve ser um negócio lucrativo como qualquer outra atividade empresarial, seja ela industrial, comercial ou de serviços. É uma atividade que envolve riscos e requer uma grande quantidade de pessoas para a sua produção, desde a equipe de colaboradores que atuam nas garagens até aqueles responsáveis pela condução dos veículos com segurança para que os usuários possam realizar os seus deslocamentos diários. A adoção de uma taxa de lucro visa garantir ao empresário investidor o retorno justo pelo serviço produzido. No entanto, devem ser observados alguns atributos de qualidade (eficiência e regularidade, entre outros), para a definição do valor a ser atribuído à margem de lucro. É proposta a utilização do método do Mark-up ou Taxa de Marcação ou Índice Multiplicador, em que são consideradas todas as variáveis de custos envolvidos numa atividade empresarial, seja ela industrial, comercial ou de serviços, bem como a margem de lucro desejada. É um índice aplicado sobre o custo de um produto ou serviço para a formação do preço de venda, baseado na ideia de cost plus pricing ou preço margem, que consiste basicamente em somar- se ao custo unitário do produto ou serviço uma margem de lucro para obter- se o preço de venda. Assim, o Mark-up (γ) será aplicado sobre o somatório do custo variável e custo fixo. A seguir apresenta-se matematicamente o cálculo da Remuneração pela Prestação dos Serviços. RPS ( )(VI)= Yx CV + CF Onde: RPS = Remuneração pela Prestação dos Serviços; Y = é o coeficiente da remuneração pela prestação de serviço, que é igual ao risco total da prestação dos serviços. De acordo com ANTP (2017), pode ser resumido em três níveis: TÓPICO 3 | INTRODUÇÃO AO DIMENSIONAMENTO DE SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO POR ÔNIBUS 161 • Risco baixo - 5,02%; • Risco médio - 7,31%; e • Risco alto - 12,00%. CV = é o custo variável mensal do sistema; CF = é o custo fixo mensal do sistema. 3.4 CÁLCULO DOS TRIBUTOS DIRETOS (ATR) Os impostos, contribuições e taxas que incidem sobre a receita operacional devem ser incluídos na planilha de custos. TRD é a soma dos custos relativos a todos os tipos de impostos e tributos incidentes no sistema de transporte público por ônibus. A equação a seguir expressa matematicamente esse item de custo. TRD x(CV CF RPS)(VII)= + +ATR 1 - ATR Onde: TRD = É a soma dos tributos diretos; ATR = É a soma das alíquotas dos tributos diretos; CV = é o custo variável mensal do sistema; CF = é o custo fixo mensal do sistema; RPS = Remuneração pela Prestação dos Serviços. 3.5 CÁLCULO DO CUSTO DA TARIFA PÚBLICA (TPU) É o resultado da divisão do valor total que será pago pelos usuários do serviço pela média mensal de passageiros pagantes equivalentes (PE), considerando o valor do subsídio (SUB). A Equação VIII expressa matematicamente esse cálculo. TPU (VIII)= CT - SUB PE Onde: SUB = é o subsídio do sistema; e; PE = é a média mensal de passageiros pagantes equivalentes (passageiros/mês). UNIDADE 3 | SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO URBANO 162 LEITURA COMPLEMENTAR POLÍTICA TARIFÁRIA Agência Nacional de Transportes Públicos – ANTP A Tarifa Pública é um dos elementos que estabelece a ligação entre a demanda de passageiros e a oferta de serviços de transporte e está diretamente associada aos tipos e às variações no número de passageiros transportados. O usuário do sistema tem o direito de usar os serviços desde que possa pagar o valor da tarifa pública ou desfrutar de algum benefício tarifário. Dependendo da estrutura institucional e regulatória estabelecida para a área urbana, diversos tipos de Tarifa Pública podem existir em função da limitação do número de utilizações (única ou múltipla), da temporalidade (limite de horas, dia, mês etc.) e das integrações possíveis com outros modos de transporte (um ou mais modos). Os valores obtidos pelo pagamento da Tarifa Pública constituem a Receita Tarifária, e os passageiros podem ser divididos entre pagantes e não pagantes da Tarifa Pública. Na categoria dos não pagantes estão incluídas todas as integrações gratuitas (geralmente vinculadas a um período temporal)e todas as gratuidades relacionadas a grupos sociais, que recebem esse benefício por força legal. Entre eles, destacam-se os idosos (maiores de 65 anos de idade, ou de acordo com legislação municipal específica) e pessoas com necessidades especiais, carteiros, estudantes de baixa renda, policiais, bombeiros etc. Entre os pagantes, há ainda a categoria das reduções tarifárias, como é o caso dos estudantes que recebem descontos em relação à tarifa pública integral. A combinação entre o valor da Tarifa Pública e o número de passageiros pagantes influencia diretamente na Receita do Sistema de transporte público coletivo por ônibus. Na maioria dos sistemas, a receita é aquela apenas pela arrecadação tarifária e, em alguns casos, o poder público tem estabelecido uma receita associada aos passageiros com benefícios tarifários, em geral proveniente de orçamento próprio ou de outras secretarias diretamente beneficiadas pelos descontos e isenções (Educação e Saúde), caracterizando o subsídio direto. Também é comum a associação de outras estratégias para ampliar a Receita do Sistema como, por exemplo, a obtenção de recursos com publicidade dentro e fora dos veículos, estações e terminais. Nos últimos anos, observou-se uma tendência da definição da Tarifa de Remuneração como elemento de remuneração dos serviços prestados pelos operadores do sistema de transporte coletivo por ônibus. No entanto, a necessidade de manter a tarifa pública em patamares satisfatórios à população e, ainda, de garantir a qualidade e regularidade dos serviços, é cada vez mais premente a necessidade de constituir uma Política Tarifária específica para cada localidade, que leve em conta as peculiaridades, necessidades e possibilidades existentes. TÓPICO 3 | INTRODUÇÃO AO DIMENSIONAMENTO DE SISTEMAS DE TRANSPORTE COLETIVO POR ÔNIBUS 163 Nesse contexto, a Lei nº 12.587/2012 (ou Lei da Mobilidade) indica que outras receitas devem ser agregadas para o financiamento de transporte, sejam elas receitas extratarifárias, receitas alternativas, subsídios orçamentários, subsídios cruzados intrassetoriais e intersetoriais provenientes de outras categorias de beneficiários dos serviços de transporte, entre outras fontes, instituídos pelo poder público delegante. Dessa forma, é possível a ampliação da Receita do Sistema visando cobrir os reais custos do serviço prestado ao usuário, além da remuneração do prestador. Em termos práticos, o valor da Tarifa de Remuneração pode estar completamente dissociado do valor da Tarifa Pública, desde que o poder público estabeleça essa diferenciação como parte de uma política tarifária. Apesar da tendência já observada, a maioria dos sistemas de transporte coletivo por ônibus ainda adota a Tarifa de Remuneração igual à Tarifa Pública, ou seja, a remuneração do operador ainda vem predominantemente da receita tarifária com os passageiros pagantes (tarifa pública integral ou parcial). FONTE: ANTP. Custos dos serviços de transporte público por ônibus. São Paulo: ANTP, 2017, p. 69-70. Disponível em: <http://files.antp.org.br/2017/8/21/1.-metodo-de-calculo--final-impresso.pdf>. Acesso em: 3 ago. 2018. 164 Neste tópico, você aprendeu que: • O segmento dos transportes públicos urbanos por ônibus deve se adequar às características da região, ser passível de adaptações constantes à própria dinâmica urbana, tanto em termos quantitativos quanto à tecnologia do veículo. • Os sistemas de linhas de ônibus foram se implantando irracionalmente, nem sempre de acordo com interesses de toda comunidade envolvida e, face à realidade energética atual, têm onerado de forma significativa o transporte público e para vencer as deficiências no sistema de transporte público por ônibus é indispensável o planejamento operacional que tem sempre que encaminhar as soluções para os problemas que surgem, reconhecendo que, na maioria, os usuários são cativos do transporte público, por não possuírem veículos próprios ou não disporem de meios para sua utilização frequente. • Por meio da tarifação é possível obter o custo final do produto e, a partir disso, poderá ser estabelecido o preço de venda assegurando uma margem de lucro satisfatória. No caso dos serviços públicos prestados por terceiros, ela torna-se ainda mais importante, já que é o instrumento de demonstração dos reajustes de tarifas. • A quantificação dos custos é realizada considerando os principais insumos necessários para a manutenção e operação dos serviços sendo as quatros variáveis, o custo variável mensal do sistema; custo fixo mensal do sistema; a RPS, que é a remuneração pela prestação dos serviços; e o TRD, que é a soma dos tributos diretos. RESUMO DO TÓPICO 3 165 AUTOATIVIDADE 1 Sabemos que o planejamento operacional deve contemplar vários aspectos, formulando regras operacionais fixadas pelo poder público, a serem cumpridas pelas operadoras do transporte bem como previamente informadas e discutidas com os usuários. Dessa forma, qual dessas atribuições não corresponde à competência do poder público quando relacionada ao transporte público: a) ( ) Regulamentar a execução dos serviços. b) ( ) Isoladamente executar os serviços oferecidos à população. c) ( ) Planejar a execução dos serviços. d) ( ) Programar a execução dos serviços. e) ( ) Fiscalizar a execução dos serviços. 2 Determine o custo mensal total do sistema de transporte considerando a seguinte situação: Numa cidade “Y”, existe a necessidade de atualizar o valor da tarifação pública existente, sabe-se o custo variável mensal é de 390 mil reais, o custo fixo mensal e de 452 mil reais, a remuneração pela prestação do serviço é de 830 mil reais e a TRD é de 0,22. a) ( ) R$ 2.143.589,74 b) ( ) R$ 2.103.500,04 c) ( ) R$ 2.350.500,14 d) ( ) R$ 2.987.100,27 e) ( ) R$ 2.443.589,04 166 167 REFERÊNCIAS ALVES, M. K. Industrialização na construção civil: análise da possibilidade de adoção de ações de um programa de desenvolvimento tecnológico europeu na construção civil brasileira. Porto Alegre: Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2016. ALVES, T. C. L.; TOMMELEIN, I. D. Cadeias de suprimentos na construção civil: análise e simulação computacional. Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído. Revista Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 7, n. 2, p. 31-44, 2007. ANETU. Desempenho e qualidade nos sistemas de ônibus urbanos. São Paulo: ANETU, 2008. Disponível em: <https://www.ntu.org.br/novo/upload/ Publicacao/Pub635109544561475593.pdf>. Acesso em: 25 out. 2018. ANTP. Custos dos serviços de transporte público por ônibus: método de cálculo. São Paulo: ANTP, 2017. ARBACHE, F. S. et al. Gestão de logística, distribuição e trade marketing. 4. ed. Rio de Janeiro. Editora FGV, 2011. BARBOSA, A. A. R.; MUNIZ, J.; URIAS, ANGELO. Contribuição da logística na indústria da construção civil brasileira. Associação Educacional Dom Bosco, AEDB, Resende, 2007. BERTUCCI, J. O. Os benefícios do transporte coletivo. Rio de Janeiro: IPEA, 2011. BNDS. Guia TPC: orientações para seleção de tecnologias e implementação de projetos de transporte público coletivo. Brasília: BNDS, 2017. BUENO, M. J. C. et al. Modal fluvial na Amazônia: desafios e oportunidades. Revista Eletrônica da Faculdade de Ciências Exatas e da Terra, construção e tecnologia, v. 3, n. 5, Dourados, 2014. BUENO L. M. P. Logística aplicada na construção civil. Campinas: Faculdade de engenharia civil, arquitetura e urbanismo da Universidade Estadual de Campinas, 2011. CCR. VLT e barcas resgatam história e identidade do Rio. G1, Rio de Janeiro, 24 abr. 2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/especial-publicitario/em- movimento/ccr/noticia/vlt-e-barcas-resgatam-historia-e-identidade-do-rio. ghtml>. Acesso em: 12 ago. 2018. 168 CNT. Transporte metroferroviário de passageiros. Brasília: CNT, 2016. ______. Os impactos da má qualidade do óleo diesel brasileiro. Brasília: CNT, 2012. CONTRAN. Sinalizaçãovertical de indicação. Brasília: CONTRAN, 2014a. ______. Sinalização semafórica. Brasília: CONTRAN, 2014b. ______. Sinalização vertical de regulamentação. Brasília: CONTRAN, 2007a. ______. Sinalização vertical de advertência. Brasília: CONTRAN, 2007b. ______. Sinalização horizontal. Brasília: CONTRAN, 2007c. ______. Resolução n. 160. Brasília: CONTRAN, 2004. COSTA, G. S.; SILVA, J. M. S. Dimensionamento do semáforo do cruzamento das ruas Matriz da Conceição e Siqueira campos em Tucuruí – PA à luz do novo manual de sinalização semafórica do DENATRAN. Tucuruí: Faculdade de Engenharia Civil da Universidade Federal do Pará, 2017. COSTA, A. H. P; MACEDO, J. M. G. Engenharia de tráfego: conceitos básicos. Porto: CCDRN, 2008. COUTO, D. M. Regulação e controle operacional no transporte coletivo urbano: estudo de caso no município de Belo Horizonte/MG. Belo Horizonte. Curso de Mestrado em Geotecnia e Transportes da Universidade Federal de Minas Gerais, 2011. COVA, C.; MOTTA, R. Logística empresarial. V. 1. Rio de Janeiro: Fundação CECIERJ, 2009. D'AGOSTO, M. A.; OLIVEIRA, C. M; ASSUMPÇÃO, F. C. Alternativas energéticas para o transporte público urbano no Rio de Janeiro: uma análise utilizando Inventário de Ciclo de Vida (ICV). Revista Eletrônica Transportes, v. 22, n. 1, São Paulo, 2014. DENATRAN. Manual de procedimentos para o tratamento de polos geradores de tráfego. Brasília: DENATRAN, 2001. DER/SP. Notas técnicas de projeto geométrico. São Paulo: DER, 2006. DNIT. Manual de projeto geométrico de travessias urbanas. Rio de Janeiro: DNIT, 2010. ______. Manual de estudos de tráfego. Rio de Janeiro: DNIT, 2006. 169 DURÃO, André. SP tem 40% da frota de ônibus nas ruas; BRT Rio suspende operação. UOL, São Paulo. 26 maio 2018. Disponível em: <https://noticias.uol. com.br/cotidiano/ultimasnoticias/2018/05/26/brt-do-rio-suspende-operacao-de- onibus-por-tempo-indeterminado.htm>. Acesso em: 12 ago. 2018. EPE. Nota Técnica DEA 13/15: demanda de energia 2050. Brasília: EPE, 2016. FARIA, Renato. Canteiro racional. Revista Téchne, São Paulo, out. 2009. Disponível em: <http://www.revistatechne.com.br/engenharia-civil/151/ imprime154407.asp>. Acesso em: 30 jun. 2018. FERNANDES, A. P. L. M.; CORREIA, J. D. Processo de armazenagem e distribuição física dos produtos do gênero alimentício. Anais do VIII Congresso Nacional de Excelência em Gestão, Rio de Janeiro, 2012. JÚNIOR, Oliveira. Sem VLT. Gazeta Digital, Cuiabá. 26 nov. 2016. Disponível em: <http://www.gazetadigital.com.br/conteudo/show/secao/60/ materia/496915/t/sem-vlt>. Acesso em: 12 ago. 2018. KATO, R. B.; BORDALO, B. M.; CAMELO, T. S. Análise de percepção qualitativa do transporte público: um estudo de caso na cidade de Belém/PA. Revista Eletrônica de Engenharia Civil, v. 11, n. 2, Goiânia, 2016. LANÇA, J. F. A. Metodologia para análise de sistema de transporte coletivo por ônibus através de indicadores de qualidade. Bauru: programa de Pós- Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, 2015. LIMA, S. C. R.; SANTOS, M. A. A; ALVES, E. V. A relação entre a sinalização viária e os acidentes de trânsito em um trecho da BR-251. Associação Nacional dos Transportes Públicos. São Paulo: ANTP, 2015. LOBO, Renato. Medellín, na Colômbia inaugura linha de VLP. Via Trolebus, Brasília, out. 2015. Disponível em: <http://viatrolebus.com.br/2015/10/medellin- na-colombia-inaugura-linha-de-vlt>. Acesso em: 16 ago. 2018. LUCHEZZI, C.; TERENCE, M. C. Logística reversa aplicada na construção civil, Revista Mackenzie de Engenharia e Computação, São Paulo, v. 13, n. 1, 2013. MACHLINE, C. Cinco décadas de logística empresarial e administração da cadeia de suprimentos no Brasil. Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 3, n. 51, 2011. MARQUES, A. O. et al. A influência do sistema de transporte hidroviário na logística dos APLS do Amazonas. Anais do XXX Encontro Nacional de Engenharia de Produção. São Carlos: ENEGEP, 2010. 170 MATTOS, A. M. Logística na construção civil. Campinas: Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas, 2014. MC. Manual de BRT – Bus Rapid Transit: Guia de Planejamento. Brasília: MC, 2008. MORAES, R. M. M.; GUERRINI, F. M.; SERRA, S. M. B. Aplicação de tecnologia de informação no setor da construção civil. Anais do XII SIMPEP, Bauru, 2006. MOSTRA lembra 160 anos da Estrada União e Indústria, em Petrópolis, no RJ. G1, Brasília, 13 abr. 2016. Disponível em: <http://g1.globo.com/rj/regiao-serrana/ noticia/2016/04/mostra-lembra-160-anos-da-estrada-uniao-e-industria-em- petropolis-no-rj.html>. Acesso em: 10 ago. 2018. NASCIMENTO, R. R. Logística na construção de edifícios. Estudo de caso em grande construtora. São Paulo: Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, 2014. NETO, J. C. Relações básicas: volume, densidade e velocidade. São Paulo: Departamento de Engenharia Civil da Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2018. NETO, U. J. S.; SANTANA, L. C. Logística e serviço ao cliente como estratégia competitiva. Revista de Iniciação Científica – RIC, Salvador, v. 2, n. 2, 2015. NOVAES, A. G. Logística e gerenciamento da cadeia de distribuição. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. OLIVEIRA, L. M. et al. Gestão estratégica da logística e seus fatores críticos de sucesso. Anais do X Congresso Brasileiro de Custos, Guarapari, 2003. OLIVEIRA, R. W. H. Introdução ao transporte e pavimentação: volume 1. Ouro Preto: Editora da UFOP, 2017. OLIVEIRA, S. Sistema de transportes no Brasil: o multimodalismo como opção logística. Rio de Janeiro: Coordenação de Pós-Graduação e Atividades Complementares da Universidade Gama Filho, 2004. PABLO, B.; CUNHA, C. M. A evolução do setor de transporte aéreo brasileiro. Revista Eletrônica Novo Enfoque, v. 13, n. 13, Rio de Janeiro, 2011. PADULA, R. Transportes: fundamentos e propostas para o Brasil. Brasília: CONFEA, 2008. 171 PANNUNZIO, Pedro. Apreensões de mercadorias no metrô de SP triplicam desde 2014. R7, São Paulo, 24 ago. 2018. Disponível em: <https://noticias. r7.com/sao-paulo/apreensoes-de-mercadorias-no-metro-de-sp-triplicam- desde-2014-24082018>. Acesso em: 13 ago. 2018. PASQUALETTO, A.; SOUZA, F. A tecnologia de monotrilho para o transporte de passageiros. Revista Estudos, v. 41, Goiânia, 2014. PAURA, G. L. Fundamentos da logística. Curitiba: IFTPR, 2012. PEDROSO, G. Avaliação comparativa de sustentabilidade de sistemas VLP (Veículo leve sobre pneus) e VLT (Veículo leve sobre trilhos): um estudo exploratório. São Paulo. Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, 2012. PELEGI, Alexandre. Aeromóvel de Porto Alegre completa cinco anos de atividades. Diário do Transporte, Porto Alegre, 11 ago. 2018. Disponível em: <https://diariodotransporte.com.br/2018/08/11/aeromovel-de-porto-alegre- completa-cinco-anos-de-atividades/>. Acesso em: 13 ago. 2018. PEREIRA, V. B. Transportes: história, crises e caminhos. Brasília; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. PMSM. Anexo X: d imensionamento de calçadas, ciclovias, vias e inclinação das vias. Espirito Santo: PMSM, 2014. PORTER, M. E. Competição: estratégias competitivas essenciais. Tradução de: SERRA, Afonso da Cunha. Rio de Janeiro: Campus, 1999. RECK, G. Apostila transporte público. Departamento de Transporte da Universidade Federal Paraná, UFPR, 2018. ROCHA, C. F. O transporte de cargas no Brasil e sua importância para a economia. Ijuí: Departamento de Ciências Administrativas, Contábeis, Econômicas e da Comunicação da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, 2015. RODRIGUES, K. C.; RABELO, M. H. S. A importância do transporte na logística empresarial. Revista Acadêmica Conecta (FASF), Luz, 2017. ROSA, R. A. Gestão de operações e logística I. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração/UFSC, 2011. ROSA, R. A.; CARDOSO, P. A. Logística aplicada ao setor público. Ponta Grossa: UEPG/ NUTEAD,2017. 172 SANTOS, F. A. M. Tecnologia da informação aplicada à logística. Recife: Secretaria de Educação de Pernambuco, 2013. SETTI, J. R. Highway Capacity Manual ou um Manual de Capacidade Rodoviária Brasileiro? Anais do CBR&C. Florianópolis: CBR&C, 2009. SILVA, A. R. C. Tipos de transporte: modais. Recife. Secretaria da Educação, 2013. SOARES, H. F.; PEREIRA, N. A. Da gestão de demanda ao planejamento de operações: uma revisão da literatura. Anais do XXVI ENEGEP, Fortaleza, 2006. SOARES, M. V.; SOUZA, J. C. R. Transporte fluvial: estreitamento as distâncias econômicas e sociais entre Mocambo do Arari e Cidade de Parintins/AM. Repositório Institucional da Universidade Estadual do Amazonas, Manaus, n. 699, 2017. SOUSA, Marcos. Você sabe o que é o VLP? Mobilize, São Paulo, 10 jun. 2016. Disponível em:<http://www.mobilize.org.br/noticias/9611/voce-sabe-o-que-e-o- vlp.html>. Acesso em: 14 ago. 2018. TERZIAN, F. Quem é Ronald Ballou? Revista GV executivo, São Paulo, v. 6, n. 4, 2007. VAREJÃO, Edmilson; PESSÔA, S. Transporte coletivo e a nova política de preços da Petrobras. Valor Econômico, São Paulo, 27 out. 2016. Disponível em: <http://www.fetranspordocs.com.br/downloads/MobArtigo_Valor_ Transportecoletivonovapolitica2016.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2018. VENTURA, Pedro. DF muda a partir deste sábado linhas de ônibus do Paranoá e Itapoã. G1, Brasília, 11 nov. 2016. Disponível em: <http://g1.globo. com/distrito-federal/noticia/2016/11/df-muda-partir-deste-sabado-linhas-de- onibus-do-paranoa-e-itapoa-veja.html>. Acesso em: 13 ago. 2018.