Prévia do material em texto
DESIGN E SUSTENTABILIDADE AULA 6 Prof. Jaime Ramos 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, falaremos sobre a importância do planejamento e da construção de cenários para o futuro, tanto para empresas, quanto para os designers. A Agenda 2030, com suas metas e compromissos dos países para o desenvolvimento social e ambiental, é apresentada como balizador para as mudanças que devem ocorrer nos próximos anos. O papel da experiência do usuário (UX) e da indústria 4.0 como indutores de mudanças nos comportamentos e na tecnologia também será abordado. Finalmente, serão apresentadas algumas perspectivas para o futuro do design, em função das novas demandas ambientais e sociais. CONTEXTUALIZANDO O design deverá mudar no futuro próximo para atender às novas demandas da sociedade. As consequências dos impactos ambientais tendem a ficar cada vez mais visíveis. Isso leva a mudanças na legislação e na cooperação entre os países. Como resultado, as empresas terão de se adequar, e o design faz parte desse processo. Isso já é realidade para algumas empresas que, por exigência da legislação, dos investidores e dos clientes, estão de fato buscando melhorar sua interação com o meio ambiente. Outras ainda estão tentando esconder os efeitos nocivos dessas interações enquanto vendem uma imagem de amigas do meio ambiente, em uma estratégia conhecida como greenwashing. Os designers têm um papel importante no sentido de auxiliarem essas empresas a adotarem práticas mais amigas do meio ambiente e de informar aos usuários essas mudanças. Por outro lado, para que isso aconteça, o design também precisa mudar. A capacidade de perceber tendências e de, com base nisso, imaginar o que irá acontecer no futuro é um exercício extremamente importante não apenas para empresas mas também para os profissionais. Isso em muitos casos vai determinar a sobrevivência ou o desaparecimento tanto de empresas quanto de algumas profissões. A necessidade de adequar os nossos sistemas de produção e consumo aos limites do planeta deve obrigar muitas empresas a mudarem seu foco no futuro próximo. As que não se adequarem às mudanças correm o risco de 3 desaparecer. Para os designers, a grande questão que surge é: de que forma as exigências na área ambiental podem impactar nos modos de fazer do design? TEMA 1 – CONSTRUÇÃO DE CENÁRIOS A palavra design é frequentemente usada como sinônimo de planejamento. Isso não deve ser surpresa pois designers são profissionais que estão constantemente tentando resolver situações, levando em conta o passado, bem como o contexto presente, mas sempre pensando e planejando como será o nosso mundo no futuro. Grandes empresas investem recursos na construção de cenários para o futuro. Essa ação é importante para garantir a sobrevivência de um empreendimento ao longo do tempo. Muitas empresas falharam em prever ou se adaptar as mudanças e encolheram ou foram extintas como provavelmente aconteceu aos dinossauros. A Kodak era a maior fabricante de câmeras e filmes fotográficos do mundo. Eles inventaram a câmera digital, mas não se interessaram muito por essa nova tecnologia. Eram os líderes da fotografia analógica e acreditaram que continuariam dominando o setor. Isso deu certo por um tempo, mas quando japoneses popularizaram a fotografia digital, a Kodak perdeu mercado rapidamente e quase desapareceu. Não faz muito tempo, existiam grandes locadoras de filmes em DVDs. Muitas ignoraram a evolução das tecnologias e acreditaram que bastaria serem as melhores do setor para se manterem no topo, mas desapareceram com a popularização dos serviços de streaming em demanda, como a Netflix. Prever o futuro nem sempre é uma tarefa fácil. Algumas coisas são mesmo difíceis de prever. Quem iria prever que em 2020 teríamos uma pandemia que iria provocar tantas mudanças nas relações comerciais, de trabalho e até entre os grupos? Mesmo nesse caso, seria possível identificar antes algumas mudanças que já estavam acontecendo. Trabalho em home office, compras pela internet e educação a distância já existiam antes. A pandemia apenas acelerou essas mudanças em uma velocidade nunca vista antes. Quem estava mais preparado para o futuro se saiu melhor. Também nesse caso muitas empresas foram extintas e outras tantas surgiram nesse processo. Quando falamos em construir cenários para o futuro do design, não se trata de buscar informações em uma bola de cristal ou em algo mágico. Trata-se 4 de identificar tendências levando-se em conta apenas as informações que temos. Por exemplo, na área da sustentabilidade, podemos verificar que no passado recente a natureza era vista muitas vezes como um empecilho para o progresso. Atualmente podemos dizer que há uma consciência muito forte de que os ecossistemas naturais são importantes para a manutenção da vida no planeta. Podemos, em função disso, imaginar que, em um futuro próximo, a sociedade, os governos e até mesmo empresas se envolvam cada vez mais na busca de soluções ambientalmente sustentáveis. Figura 1 – Tendências podem ser traçadas com base em comportamentos do passado e do presente Créditos: Eans/Shutterstock. Assim, podemos dizer que o design do futuro, além de questões estéticas, funcionais e de usabilidade, deve levar um conta a sustentabilidade nos seus projetos, não apenas por uma postura ética, mas também porque isso será uma exigência da sociedade. À medida que nos aproximamos dos limites do planeta, tanto para a capacidade de fornecer recursos naturais quanto para a capacidade de absorver nossas emissões, observamos que consumidores e governos passam a exigir mais responsabilidade ambiental das empresas. Novos empregos vêm surgindo na esteira dessas mudanças. Vagas para analista de sustentabilidade, especialista socioambiental e ecodesigner são ofertadas por empresas com uma frequência cada vez maior. As mudanças na área ambiental trazem desafios, e o design pode contribuir para resolvê-los. Você, como usuário de uma série de produtos, com certeza já teve dúvidas sobre como descartar uma embalagem. Devo jogar no lixo comum ou ela pode ser reciclada? Seria possível usá-la em outra função? 5 Como designer, você pode colocar informações sobre a reciclagem no rótulo dessa embalagem. Pode também sugerir futuras reutilizações, evitando que ela acabe em um aterro sanitário ou lixão. Os designers devem levar em conta que o seu trabalho muitas vezes tem implicações ambientais, éticas e sociais. Muitas vezes, esse trabalho contribui para piorar esses aspectos. A obsolescência planejada, o incentivo ao consumo desenfreado, a expansão dos descartáveis que aumentam também o problema do lixo. Todas essas ações, negativas do ponto de vista ambiental, contaram com a participação do design. O design tem um papel importante na criação de interfaces entre o meio artificial e o ser humano. Ajuda a estabelecer pontes entre as empresas e os clientes e, assim, também tem a possibilidade de influenciar tendências positivas para a sustentabilidade ao incentivar comportamentos ambientalmente responsáveis. TEMA 2 – AGENDA GLOBAL Para entender melhor o que será a busca da sustentabilidade no futuro, vale a pena levantar as iniciativas que já estão sendo feitas em nível local e global. De um ponto de vista global, é interessante conhecer os acordos internacionais e inciativas promovidas pela ONU (Organização da Nações Unidas) e os compromissos assumidos pelos países para a busca da sustentabilidade no presente e no futuro. No Encontro da Terra no Rio (Rio 92), foram assentadas bases importantes para busca do desenvolvimento sustentável. Os países fizeram acordos sobre a necessidade de reverter as mudanças climáticas, a conservação das florestas e a preservação da biodiversidade. Com base nessas discussões, emergiuuma série de princípios conhecidos como a Agenda 21 visando atacar os problemas ambientais para buscar o desenvolvimento sustentável ou atender às necessidades humanas levando em conta a necessidade de proteger o meio ambiente no século 21. De acordo com dias (2015), Na Agenda 21 os governos elaboraram pautas de ação detalhadas que, se aplicadas, poderiam fazer o mundo abandonar o modelo de crescimento in- sustentável em favor de atividades que protegeriam e renovariam os recursos naturais dos quais dependem o crescimento e o desenvolvimento. 6 Na Rio+20, em 2012, foram formulados metas e objetivos que deveriam ser alcançados pelos países nas busca da sustentabilidade, o “documento O Futuro que Queremos”, reconheceu que a formulação de metas poderia ser útil para o lançamento de uma ação global coerente e focada no desenvolvimento sustentável.” (Plataforma Agenda 2030, 2020). Nessa conferência, foram elaborados os objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) com metas que deveriam ser alcançadas pelos países, dentro das possibilidades e limitações de cada um. Mas era necessário reformular, estabelecer metas, acompanhar e ampliar os objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS). Em 2015, os países se reuniram novamente, e na Assembleia Geral das Nações Unidas formularam a Agenda 2030, que estabelece os 17 ODS que deveriam ser cumpridos pelos participantes desse acordo global nos 15 anos seguintes ao encontro. Esses ODS previam a busca de ações em parceria para tentar resolver problemas crônicos tais como a redução das desigualdades e da miséria, com mais acesso à saúde e a educação, ações para promover o desenvolvimento econômico e social, mantendo o foco no combate às mudanças climáticas e preservação do solo e da água. Segundo a Plataforma Agenda 2030 (2020), Os 17 objetivos são integrados e indivisíveis, e mesclam, de forma equilibrada, as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a econômica, a social e a ambiental. São como uma lista de tarefas a serem cumpridas pelos governos, a sociedade civil, o setor privado e todos cidadãos na jornada coletiva para um 2030 sustentável. 7 Figura 2 – Os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 Créditos: Mintblac/Shutterstock. Dias (2015) relaciona os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável conforme apresentados no quadro a seguir: Quadro 1 – Objetivos do desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (ODS) Objetivo 1 Erradicar a pobreza em todas as suas formas em todas as partes. Objetivo 2 Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável. Objetivo 3 Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar de todos em todas as idades. Objetivo 4 Garantir uma educação de qualidade e equitativa e promover as oportunidades de aprendizagem permanente para todos. Objetivo 5 Alcançar a igualdade de gênero e a autonomia de todas as mulheres e meninas. Objetivo 6 Garantir a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos. Objetivo 7 Garantir o acesso à energia acessível, confiável, sustentável e moderno para todos. Objetivo 8 Promover um crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, um emprego pleno e produtivo e um trabalho digno para todos. Objetivo 9 Construir infraestruturas resistentes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e promover a inovação. Objetivo 10 Reduzir a desigualdade dentro e entre países. Objetivo 11 Tornar as cidades e assentamentos humanos inclusivos, seguros, resistentes e sustentáveis. Objetivo 12 Assegurar padrões de consumo e produção sustentáveis. 8 Objetivo 13 Adotar medidas urgentes para combater as mudanças climáticas e seus impactos. Objetivo 14 Conservar e utilizar de modo sustentável os oceanos, os mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável. Objetivo 15 Proteger, restaurar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, o manejo sustentável das florestas, combater a desertificação e deter e reverter a degradação da terra e deter a perda da biodiversidade Objetivo 16 Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, facilitar o acesso a justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis. Objetivo 17 Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria mundial para o desenvolvimento sustentável. Fonte: Dias, 2015. Os ODS da Agenda 2030 são o resultado de discussões e acordos entre as nações que se comprometeram a cumprir e colocar em prática as ações previstas nesses objetivos. Para que isso seja possível esses governos precisam da participação dos estados, munícipios e da sociedade como um todo. O planejamento dessas ações tem desdobramentos com a atribuição de metas para esses atores. Além disso, as empresas também são chamadas a fazer a sua parte. Assim, o design do futuro próximo também será orientado no sentido de desenvolver ações, dentro do seu campo de atuação, para reduzir impactos ambientais e promover o desenvolvimento econômico e social com base nessas ações. A World Design Organization, ou Organização Mundial do Design, WOD, (2020) identifica quais são os objetivos de desenvolvimento sustentável que estão fortemente relacionados com o design e sobre os quais os designers podem contribuir de forma mais significativa para que possam ser alcançados até 2030. O Quadro 2 apresenta esses objetivos e a sua relação com o design de um modo amplo: Quadro 2 – Como o design pode contribuir com as metas dos ODSs ODS N. POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES DO DESIGN 3 Promover a inovação baseada no design para ajudar a reduzir doenças e fortalecer a saúde e o bem-estar 4 Fortalecer a educação em design de qualidade que enfatize a sustentabilidade, a responsabilidade social, o contexto, o pensamento sistêmico, e que oriente e incentive a próxima geração de líderes de design sustentável 6 Melhorar o acesso à água potável e fortalecer os serviços de higiene e saneamento 9 7 Aumentar nosso uso de energia limpa e melhorar a eficiência energética em nossas operações, produtos e cadeias de abastecimento para ajudar a combater as mudanças climáticas 9 Promova infraestrutura inclusiva e sustentável, industrialização e inovação com foco na acessibilidade e acessibilidade do usuário 11 Usar o design como uma ferramenta para tornar as cidades e assentamentos humanos mais inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis 12 Incentivar o uso eficiente de recursos e de alternativas sustentáveis, contribuindo para um sistema de produção e consumo mais responsável 17 Promover parcerias públicas, privadas e da sociedade civil, fortes e inclusivas, que compartilhem conhecimento e se baseiem em experiências e estratégias de recursos, para apoiar a realização dos ODS em todos os países, em particular nos países em desenvolvimento Fonte: WDO, S.d. TEMA 3 – EXPERIÊNCIA DO USUÁRIO No tema anterior, vimos que o consenso internacional sobre a necessidade de mudanças no futuro próximo nos fornece uma valiosa direção para caminharmos em busca da sustentabilidade. Para o bem ou para o mal, o design e a tecnologia são poderosos agentes de mudanças. Ao planejar soluções em produtos e sistemas visuais que moldam hábitos de consumo e o comportamento de milhares de pessoas, os designers precisam estar conscientes dos impactos ambientais e sociais dessas soluções. Uma das maneiras de incentivar o uso de soluções que contribuam para a redução de impactos ambientais é projetá-las para que sejam mais acessíveis e que proporcionem uma boa experiência para os usuários. Websites leves, com acesso rápido e fáceis de navegar, não apenas promovem uma experiência de uso mais agradável mas também ajudam a reduzir o consumo de energia,que é uma das grandes fontes de impactos ambientais na atualidade e que tende a continuar sendo no futuro. A mesma tecnologia que nos permite executar tarefas a distância, reduzindo a necessidade de transportes e o consumo de combustíveis fósseis, também faz com que passemos a usar cada vez mais computadores interligados com provedores e outros sistemas que utilizam energia elétrica em grande quantidade, com os impactos ambientais desse consumo. Isso cria novos desafios para os designers de interfaces no sentido de continuarem inovando sem esquecer da necessidade de reduzirmos a nossa pegada ecológica. É muito comum deixarmos aparelhos elétricos ligados por mais tempo que o necessário. Isso implica não apenas despesas maiores mas também impactos 10 ambientais devidos ao uso da energia. A lista vai de ferros de passar roupa até consoles para videogames. O design pode ajudar a reduzir o consumo desses aparelhos, criando alertas sonoros ou visuais para o usuário, dispositivos que desligam após um tempo de inatividade ou até mesmo por meio da gamificação, criando jogos que dão pontos ou recompensas para comportamentos ambientalmente sustentáveis. Outra tecnologia já existente, mas que deve ganhar cada vez mais destaque no futuro vem da IOT (Internet of things) ou, em português, Internet das Coisas. Essa tecnologia visa conectar vários aparelhos via internet tornando possível gerenciar o seu consumo de energia por meio de um smartphone, por exemplo. O design pode contribuir na criação de interfaces que facilitem a interação entre usuário e aparelhos, que melhor gerenciados podem ter melhor performance do ponto de vista ambiental. O design tem buscado apoio na UX (user experience ou experiência do usuário), buscando soluções para melhorar a satisfação do usuário com os produtos, com a consequente fidelização desse usuário. De início, busca-se melhorar a unboxing experience, momento em que o usuário recebe um produto e abre a caixa. Esse momento, às vezes esperado com ansiedade, deve ser memorável. A caixa deve ser de qualidade fácil de abrir e entender, recados, brindes, e às vezes até aromas podem contribuir que essa experiência seja positiva. As pessoas chegam a filmar esse momento para compartilhar depois nas redes sociais. Em um segundo momento, vem a dúvida: o que fazer com essa embalagem? Pode ser reaproveitada? Pode ser descartada como material reciclável? No futuro próximo, o designer deverá pensar em como melhorar a experiência do usuário também no momento do descarte ou reaproveitamento de embalagens e outros objetos quando atingem o final da sua vida útil. Não é uma tarefa muito fácil. Quem gosta de colocar o lixo para fora? Como criar mecanismos que incentivem o usuário a adotar procedimentos mais sustentáveis na sua relação com o meio é um dos desafios do design sustentável no futuro. TEMA 4 – INDÚSTRIA 4.0 Para o futuro próximo, o design assumirá uma importância cada vez maior. A tarefa do designer será ainda mais complexa e desafiadora por incorporar requisitos ambientais ao processo de projeto. Isso exigirá mudanças 11 de atitudes e da forma de atuar. Mudanças do foco na produção para o foco na entrega de serviços criaram uma nova área de atuação chamada de design de serviços. Uma nova Revolução Industrial que já está acontecendo com o surgimento da Indústria 4.0 também terá impacto no design e na sustentabilidade ambiental. Segundo a ABDI (2020), As 3 primeiras revoluções industriais trouxeram a produção em massa, as linhas de montagem, a eletricidade e a tecnologia da informação, elevando a renda dos trabalhadores e fazendo da competição tecnológica o cerne do desenvolvimento econômico. A quarta revolução industrial, que terá um impacto mais profundo e exponencial, se caracteriza, por um conjunto de tecnologias que permitem a fusão do mundo físico, digital e biológico. Figura 3 – Alguns dos componentes da indústria 4.0 Créditos: ElenaBSL/Shutterstock. A indústria 4.0 pode dar uma grande contribuição na direção da sustentabilidade. A busca da eficiência nos processos, por meio da automação e da redução de desperdícios, leva à redução do consumo de materiais, de energia e também da geração de lixo. Tudo isso evidentemente contribui também para reduzir os impactos ambientais associados a essas ações. Um dos princípios da indústria 4.0 é a descentralização da produção. Produzir localmente ajuda a reduzir os impactos ambientais do transporte. A outra característica é a personalização. A ideia é produzir segundo a demanda e atendendo às necessidades do usuário. Imagine você entrando em uma loja 12 para comprar um tênis. Na entrada, o vendedor obtém as medidas do seu pé utilizando-se de um scanner 3D. Você também escolhe cores adereços e outras aplicações. Uma impressora 3D imprime o tênis e você sai com um produto feito sob medida e personalizado segundo as suas preferências. O que isso tem a ver com a sustentabilidade e com design? Primeiramente, ao eliminar a necessidade de transporte, de milhares de caixas de tênis, o meio ambiente é beneficiado, pois o transporte marítimo é hoje uma das grandes fontes de poluição. Para o design, surgem novas oportunidades para pensar os produtos dentro de uma ótica da personalização e diferenciação. Figura 4 – Tênis feito em impressora 3D Créditos: Ronaldl/Shutterstock Ao projetar pensando em atender às necessidades individuais e não apenas às de um usuário médio, o designer dever estar ainda mais próximo deste. Como conhecer esse usuário para poder oferecer a ele soluções personalizadas? A Big Data, outro componente da indústria 4.0, pode dar a resposta. De acordo com Siltori (2020), “Big Data: é um termo utilizado para referenciar ao armazenamento de todas as informações que necessitam ser registradas na organização, permitindo que os mesmos sejam analisados posteriormente ou em tempo real caso seja necessário”. No nosso caso, com base nessas informações levantadas em tempo real, o designer pode tomar decisões de projeto para atender melhor a cada um desses usuários. De acordo com Milanez (2020), 13 O potencial de crescimento orientado ao design é enorme. Projetar com usuários, stakeholders, para negócios, com a responsabilidade de humanizar produtos criando experiências consistentes, satisfatórias, composicional e de valor, são ações mandatórias. Um temor frente a esse processo de mudanças vem do fato de que ele tem potencial para eliminar muitos empregos e profissões. Por outro lado, é fato conhecido que muitas outras atividades relacionadas à análise de dados irão surgir. O design terá um papel importante nesse processo pois encontra-se na linha de frente da criação de interfaces entre o homem e a máquina, que serão cada vez mais importantes. TEMA 5 – PERSPECTIVAS A contribuição do design para a busca da sustentabilidade ambiental pode ser vista em inciativas de ecodesign que visam à redução do consumo de materiais e energia, bem como a redução do volume lixo. Projetar pensando no fim da vida útil dos objetos, planejando esse final com estratégias de reúso, upcycling e redução de consumo de energia tem sido uma prática cada vez mais frequente frente à emergência dos problemas ambientais. Para o futuro serão necessárias mudanças ainda mais radicais. O design continuará levando em conta a estética como requisito em seus projetos. Mas possivelmente a interpretação do que é estético seja vista de uma forma mais ampla e considere também a beleza de uma interação mais saudável com a natureza. Uma estética que considere também os alcances impactos sociais de cada solução de design. O foco na resolução de problema e necessidade humana vai continuar fazendo parte do briefing de qualquer projeto. Mas o leque de soluções deve ser ampliado. Em lugar de vender produtos muitas empresas,irão vender serviços ou soluções para atender a uma determinada necessidade. Isso está sendo cada vez mais comum nos dias de hoje com o aparecimento de serviços de locação por assinatura para veículos e outros bens que antes teríamos de comprar. Do ponto de vista do design e da sustentabilidade, isso tem implicações. É necessário projetar pensando em durabilidade, mínimo de manutenção e em múltiplos usuários para um mesmo produto. Novos negócios deverão surgir em decorrência dessas mudanças com potencial para a geração de novos empregos. 14 Na crescente urgência das empresas em alinhar seus esforços de inovação em torno da sustentabilidade, o design de serviços terá um papel fundamental. Ele pode impulsionar o design de modelos de negócios centrados no necessidades do cliente e contribuir para mudar os paradigmas de produção e consumo atuais focados no incentivo a compra e ao descarte para um modelo mais sustentável. Os desafios para o desenvolvimento sustentável são bastante complexos e interconectados. As mudanças para resolvê-los exigem um pensamento sistêmico e aberto para múltiplas possibilidades. O modelo atual, orientado para produzir bens e fazer com que eles cheguem até o consumidor, precisa mudar para um modelo bem mais amplo e complexo. Imagine um sistema em que você possa levar um sapato velho para uma loja para que ele seja encaminhado para a fábrica, onde possa ser usado para a fabricação de um novo sapato. Isso requer mudanças em todo o sistema de produção e consumo para a implantação de sistema de logística reversa que dependem de mudanças na comercialização, comportamento do consumidor e também do design. Um bom design hoje precisa cativar o usuário e ser desejado. Para isso, o foco das empresas e dos designers tem sido o atendimento aos interesses desse usuário. Para o futuro esse foco precisa mudar um pouco e envolver para além do usuário também o interesse coletivo, pensando nas interações e produtos e sistemas de produtos e serviços com o meio ambiente e com o impacto que isso pode ter na coletividade. Outra preocupação do design é com a viabilidade de um ponto de vista produtivo e comercial. Hoje, para se tornarem realidade, as soluções criadas pelos designers devem ser factíveis do ponto de vista da tecnologia disponível e dos sistemas de produção. No futuro, essas soluções devem considerar também que a tecnologia, materiais e sistemas de produção utilizados devem ser de baixo impacto ambiental. Ou seja, devem levar em conta os limites dos ecossistemas tanto para fornecer recursos naturais quanto para absorver as emissões das ações humanas. 15 TROCANDO IDEIAS No fórum, comente com seus colegas sobre novos campos de atuação para os designers no futuro, considerando as mudanças geradas pelas demandas ambientais e de sustentabilidade nesse futuro. Compare com as respostas dos seus colegas. NA PRÁTICA Construa, de forma simplificada, um cenário para o futuro (próximos 15 anos) considerando a área do design em você pretende atuar, e as possíveis mudanças na forma de atuação do design nessa área, em função das exigências provocadas pela busca da sustentabilidade ambiental. FINALIZANDO A sustentabilidade ambiental não é apenas um modismo. É um tema que precisamos discutir por ser importante para o nosso bem-estar, para o nosso futuro e para a garantir um futuro para os nossos filhos e netos. Ela deve ser buscada pelas empresas, tanto por ser uma demanda da sociedade, quanto por questões éticas e morais. Hoje já estamos vivenciando uma série de mudanças nos processos tecnológicos e nos comportamentos de consumo que terão impacto no modo de operar das empresas. Os designers têm um papel importante no sentido de utilizarem a tecnologia e orientarem comportamentos de consumo na direção de um modo de vida que promova o bem estar sem deixar de lado a sustentabilidade ambiental. O design participa da construção do mundo em que vivemos. Os objetos, as nossas roupas, os espaços onde vivemos, os nossos acessos às informações por meio da programação visual, o mundo digital e virtual que nos envolve cada vez mais, tudo isso tem a participação do design. Nesse novo mundo que podemos antever, teremos de interagir cada vez mais com as máquinas. O design tem um papel importante na construção de interfaces visuais que facilitem essa interação e pode contribuir para que os resultados dessas interações sejam também mais sustentáveis. Como vimos nesta aula, o design do futuro continuará tendo de levar em conta aspectos relacionados a estética, funcionalidade, viabilidade comercial, 16 entre outros. Mas deverá incorporar de forma definitiva a consideração dos impactos ambientais das suas soluções e projetos. Se, no passado recente, o design auxiliou na construção de uma sociedade consumista, no futuro próximo deverá mudar o foco para o desenvolvimento de soluções que incentivem comportamentos mais amigos do meio ambiente. 17 REFERÊNCIAS ABDI – Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial. Agenda brasileira para a Indústria 4.0: o Brasil preparado para os desafios do futuro. Brasília: ABDI, 2020. Disponível em: <http://www.industria40.gov.br/>. Acesso em: 17 dez. 2020. DIAS, R. Sustentabilidade: origem e fundamentos; educação e governança global; modelo de desenvolvimento. São Paulo: Atlas, 2015. MILANEZ, T. Design de interação e UX para a indústria 4.0: A “era” dos produtos digitais para o mercado B2B. UX Collective, 8 jan. 2020. Disponível em: <https://brasil.uxdesign.cc/design-de-intera%C3%A7%C3%A3o-e-ux-para-a- ind%C3%BAstria-4-0-7e32ff7133bf>. Acesso em: 17 dez. 2020. PLATAFORMA AGENDA 2030. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Plataforma Agenda 2030, 2020. Disponível em: <http://www.agenda2030.org.br/sobre/>. Acesso em: 17 dez. 2020. SILTORI, P. F. S. Análise dos impactos da Indústria 4.0 na sustentabilidade empresarial. Dissertação (Mestrado em Endgenharia Mecânica) – Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, 2020. WDO World Design Organization. World Design Agenda. WDO, S.d. Disponível em: <https://wdo.org/resources/world-design-agenda/>. Acesso em: 17 dez. 2020.