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1 Khilver Doanne Sousa Soares Colelitíase Fígado e Vesícula Biliar O fígado é o responsável pela produção da bile e secreta cerca de 600 a 1000 ml/dia. A bile serve a duas funções importantes: I. Tem papel importante na digestão e na absorção de gorduras, não por realizar a digestão de gorduras, mas porque os ácidos biliares realizam duas funções: (1) ajudam a emulsificar as grandes partículas de gordura nos alimentos, a muitas partículas diminutas, cujas superfícies são atacadas pelas lipases secretadas no suco pancreático; e (2) ajudam a absorção dos produtos finais da digestão das gorduras através da membrana mucosa intestinal; II. Serve como meio de excreção de diversos produtos do sangue como a bilirrubina, um produto da degradação de hemácias. Fonte: GUYTON, A.C.; HALL, J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. A bile é secretada pelas células principais do fígado (hepatócitos) – nessa secreção inicial há grande quantidade de ácidos biliares, colesterol e outros constituintes orgânicos essa solução é secretada para canalículos biliares (originam-se entre as células hepáticas). Após esses processos, a bile flui pelos canalículos em direção aos septos interlobulares para desembocar nos ductos biliares terminais, fluindo, então, para ductos progressivamente maiores e chegando finalmente ao ducto hepático e ao ducto biliar comum. A partir desses ductos, a bile flui diretamente para o duodeno OU é armazenada por minutos ou horas na vesícula biliar, onde chega pelo ducto cístico. Nesse caminho a segunda porção da secreção hepática (solução aquosa de íons sódio e bicarbonato) é acrescentada à bile inicial, aumentando a quantidade total da bile em até 100% ou mais – essa segunda secreção é estimulada pela secretina, que estimula a secreção de íons bicarbonato para suplementar a 2 Khilver Doanne Sousa Soares secreção pancreática e neutralizar o ácido que vem do estômago em direção ao duodeno. A bile é produzida continuamente pelas células hepáticas e armazenada na vesícula biliar até ser secretada pelo duodeno. O volume máximo que a vesícula biliar consegue armazenar é de apenas 30 a 60 mililitros. NO ENTANTO, até 450 mililitros de bile podem ser armazenados na vesícula já que água, sódio, cloreto e grande parte de outros eletrólitos menores é continuamente absorvida pela mucosa da mesma, concentrando ali sais biliares, colesterol, lecitina e bilirrubina. COMPOSIÇÃO DA BILE As substâncias mais abundantes, secretadas na bile, são os sais biliares, responsáveis por cerca da metade dos solutos na bile. Também secretados ou excretados em grandes concentrações são a bilirrubina, o colesterol, a lecitina e os eletrólitos usuais do plasma Quando o alimento começa a ser digerido no trato gastrointestinal superior, a vesícula biliar começa a se esvaziar, especialmente quando alimentos gordurosos chegam ao duodeno, cerca de 30 minutos depois da ingestão da refeição. O esvaziamento da vesícula biliar se dá por contrações rítmicas da parede da vesícula biliar, com o relaxamento simultâneo do esfíncter de Oddi, que controla a entrada do ducto biliar comum no duodeno. O estímulo mais potente para as contrações da vesícula biliar é o hormônio CCK (colecistocinina). O estímulo principal para a liberação de CCK no sangue pela mucosa duodenal é a presença de alimentos gordurosos no duodeno. O precursor dos sais biliares é o colesterol, presente na dieta ou sintetizado nas células hepáticas, durante o curso do metabolismo de gorduras. O colesterol é, primeiro, convertido em ácido cólico ou ácido quenodesoxicólico. Esses ácidos, por sua vez, se combinam em sua maior parte com glicina e, em menor escala, com taurina, para formar ácidos biliares glico e tauroconjugados. Os sais desses ácidos, especialmente os sais de sódio, são então secretados para a bile. Os sais biliares desempenham duas ações importantes: a. Ação detergente sobre as partículas de gordura dos alimentos. Isso diminui a tensão superficial das partículas, permitindo que a agitação no trato intestinal as quebre em partículas diminutas; b. Ajudam na absorção de: ácidos graxos, monoglicerídeos, colesterol e outros lipídios (micelas) que são semissolúveis no quimo. Assim os lipídios intestinais são “carregados” para a mucosa intestinal e absorvidos no sangue sem a presença dos sais biliares no intestino até 40% da gordura ingerida é perdida nas fezes e causa déficit metabólico. Secreção Hepática de Colesterol e Formação de Cálculos Biliares Os sais biliares são formados nas células hepáticas a partir do colesterol no plasma sanguíneo. No processo de secreção dos sais biliares, cerca de 1 a 2 gramas de colesterol são removidos do plasma sanguíneo e secretados na bile todos os dias. O colesterol é quase completamente insolúvel em água, mas os sais biliares e a lecitina na bile se combinam fisicamente com o colesterol, formando micelas ultramicroscópicas em solução coloidal. Quando a bile se concentra na vesícula biliar, os sais biliares e a lecitina se concentram de forma proporcional ao colesterol, o que mantém o colesterol em solução. Sob condições anormais, o colesterol pode se precipitar na vesícula biliar, resultando na formação de cálculos biliares de colesterol. A quantidade de colesterol na bile é determinada, em parte, pela quantidade de gorduras que a pessoa ingere. Por essa razão, pessoas que 3 Khilver Doanne Sousa Soares ingerem dieta rica em gorduras, durante período de anos, tendem a desenvolver cálculos biliares. Fonte: Site MSD manuais. Visão do Fígado e da Vesícula Biliar. Acesso em 01/05/2021. https://www.msdmanuals.com/pt/casa/doen%C3%A7as-hep%C3%A1ticas-e-da-ves%C3%ADcula- biliar/manifesta%C3%A7%C3%B5es-da-doen%C3%A7a-hep%C3%A1tica/colestase Fonte: GUYTON, A.C.; HALL, J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. Colelitíase Quando as concentrações de colesterol excedem a capacidade de solubilização da bile (supersaturação), o colesterol pode não permanecer disperso e torna-se nucleado em cristais monoidratados de colesterol sólido. Quatro condições aparentam contribuir para a formação de cálculos de colesterol: (1) supersaturação da bile com colesterol; (2) hipomotilidade da vesícula biliar; (3) nucleação de cristais de colesterol acelerada; (4) e hipersecreção de muco na vesícula biliar, que retém os cristais nucleados, resultando no acúmulo de mais colesterol e no surgimento de cálculos macroscópicos. https://www.msdmanuals.com/pt/casa/doen%C3%A7as-hep%C3%A1ticas-e-da-ves%C3%ADcula-biliar/manifesta%C3%A7%C3%B5es-da-doen%C3%A7a-hep%C3%A1tica/colestase https://www.msdmanuals.com/pt/casa/doen%C3%A7as-hep%C3%A1ticas-e-da-ves%C3%ADcula-biliar/manifesta%C3%A7%C3%B5es-da-doen%C3%A7a-hep%C3%A1tica/colestase 4 Khilver Doanne Sousa Soares Cálculos pigmentados da vesícula são misturas complexas de sais de cálcio insolúveis de bilirrubina não conjugada, juntamente com sais de cálcio inorgânico. Os distúrbios que são associados a níveis elevados de bilirrubina não conjugada na bile, como anemias hemolíticas crônicas, disfunção ileal severa ou derivação, e contaminação bacteriana da árvore biliar, aumentam o risco de desenvolvimento de cálculos pigentares. Bilirrubina não conjugada, normalmente, é um componente menor da bile, porém aumenta quando a infecção do trato biliar provoca a liberação de β-glicuronidases microbianas, que hidrolisam os glicuronídeos de bilirrubina. Destacam-se entre os sintomas a cólica biliar, que pode ser excruciante. Apesar de sua caracterização como “cólica”, ela é geralmente constante, e não espasmódica. Ela geralmente ocorre após uma refeição gordurosa, a qual força um cálculo contra a saída da vesícula biliar, resultando no aumento da pressão no órgão, causando dor. A dor é localizada no quadrante superior direito ou naregião epigástrica, que pode irradiar para o ombro direito ou costas. Quanto maiores os cálculos, menor a probabilidade de entrarem nos ductos císticos ou comuns para produzir obstrução; são os cálculos muito pequenos, ou “pedregulhos”, que são os mais perigosos. Ocasionalmente um cálculo grande pode causar erosão diretamente para uma alça adjacente do intestino delgado, gerando obstrução intestinal (“íleo do cálculo biliar” ou síndrome de Bouveret). Pancreatite por Cálculo Biliar (aguda) A pancreatite aguda é caracterizada por lesão reversível do parênquima pancreático associada à inflamação e tem diversas etiologias: agressões tóxicas, obstrução do ducto pancreático, defeitos genéticos herdados, lesão vascular e infecções. A pancreatite aguda resulta da liberação e ativação inadequadas de enzimas pancreáticas, que destroem o tecido pancreático e estimulam uma reação inflamatória aguda. As enzimas pancreáticas, incluindo a tripsina, são sintetizadas na forma de proenzimas inativas. A ativação intrapancreática inapropriada de tripsina pode, por sua vez, provocar a ativação de outras proenzimas, tais como a pró-fosfolipase e a próelastase que, em seguida, degradam as células adiposas e danificam as fibras elásticas dos vasos sanguíneos, respectivamente. A consequente inflamação e as tromboses de pequenos vasos (que podem levar à congestão e ruptura de vasos já enfraquecidos) danificam as células acinares, ampliando ainda mais a ativação intrapancreática das enzimas digestivas. A dor abdominal é a manifestação principal da pancreatite aguda. Caracteristicamente, a dor é constante e intensa e se localiza na parte superior das costas e, ocasionalmente, no ombro esquerdo. Sua gravidade pode variar de leve e desconfortável a severa e incapacitante. Sintomas como anorexia, náuseas e vômitos frequentemente acompanham a dor. Os níveis plasmáticos elevados de amilase e lipase favorecem o diagnóstico de pancreatite aguda, assim como a exclusão de outras causas de dor abdominal. O desenvolvimento de pancreatite aguda é uma emergência médica Esses pacientes costumam apresentar um calamitoso aparecimento súbito de “abdome agudo”. Muitas das características sistêmicas da pancreatite aguda grave podem ser atribuídas à liberação de enzimas tóxicas, citocinas e outros mediadores na circulação e à explosiva ativação da resposta inflamatória sistêmica, resultando em leucocitose, coagulação intravascular disseminada, edema, síndrome da angústia respiratória aguda e necrose gordurosa difusa. Podem ocorrer choque, devido à síndrome da resposta inflamatória sistêmica e necrose tubular renal aguda. 5 Khilver Doanne Sousa Soares Obstrução dos ductos pancreáticos A obstrução é mais comumente causada por cálculos biliares e lama biliar. Qualquer que seja a causa, a obstrução ductal intrapancreática aumenta a pressão e leva ao acúmulo de líquido rico em enzimas no interstício. Embora a maioria das enzimas pancreáticas seja secretada na forma de zimogênios inativos, a lipase é produzida numa forma ativa e tem o potencial de causar necrose da gordura local. Fonte: GUYTON, A.C.; HALL, J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. Provavelmente, a morte dos adipócitos produz sinais de “perigo” locais, estimulando miofibroblastos periacinares e leucócitos a liberarem citocinas pró-inflamatórias e outros mediadores inflamatórios que iniciam a inflamação local e promovem o desenvolvimento de edema intersticial através do extravasamento da microvasculatura. O edema pode comprometer ainda mais o fluxo sanguíneo local, causando insuficiência vascular e lesão isquêmica às células acinares. REFERÊNCIAS GUYTON, A.C.; HALL, J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. KUMAR, V.; ABBAS, A.K.; FAUSTO, N.; ASTER, J.C. Bases Patológicas das Doenças. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.