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GESTÃO E MAPEAMENTO DE PROCESSOS AULA 1 Prof. Roberto Candido Pansonato 2 CONVERSA INICIAL Olá! Seja bem-vindo à nossa primeira aula da disciplina de Gestão e Mapeamento de Processos. Para começar, vamos aos temas desta aula: 1. O que é um processo 2. Organização por processos 3. Visão geral de metodologias de modelagem de processos 4. Introdução ao BPM 5. Gestão e visão sistêmica Mesmo que muitas pessoas não consigam enxergar, uma empresa é um grande emaranhado de processos, cada qual com suas respectivas entradas e saídas. Enxergar esses processos e a interação deles é um desafio para o administrador. Millard (2002) define desta maneira o mapeamento de processos: “O mapeamento de processos pode ser definido como uma ferramenta ou método que tem como finalidade identificar as informações, as partes interessadas, as especializações, a sequência e os recursos necessários para entender os processos de uma organização”. Ainda segundo o autor, “essa fase inicia-se com o desenho do processo atual, o ‘como é’ (as is), e termina com o desenho do processo que se deseja, o ‘como deve ser’ (to be)”. CONTEXTUALIZANDO Para inserir uma conotação prática sobre o que pode ocorrer em uma empresa que não possui conhecimentos sobre processos, vamos apresentar um caso sobre uma empresa fictícia. A empresa Vanguarda (nome fictício) é uma indústria fabricante de produtos têxteis (roupas masculinas e femininas para o público jovem). Para atender à entrada da estação da primavera, um cliente que representa uma grande loja de departamentos fez uma solicitação ao departamento comercial para criação e produção de uma coleção exclusiva para estação da primavera, que se iniciaria em 6 meses. O departamento comercial solicitou ao departamento de criação o desenvolvimento da coleção. Paralelamente, foi solicitado ao departamento de manufatura a produção das roupas. Para que fossem confeccionadas essas roupas, foi necessária a compra de insumos para 3 produção (tecidos, linhas, botões, zíperes etc.). O departamento financeiro, por meio de suprimentos, realizou a compra dos insumos para pagamento em 28 dias. Até este ponto, tudo ocorria dentro da normalidade; porém alguns problemas vieram a ocorrer: Atraso na entrega dos produtos para o cliente; Discrepância no fluxo de caixa da empresa; Erros na combinação (mix) dos produtos. Quais poderiam ser as causas dos problemas apresentados acima? Como acontece na maioria das empresas, a gestão ocorre de maneira funcional, ou seja, cada departamento enxerga apenas suas atividades e não tem a visão geral do processo. De acordo com o fluxo estabelecido e com as informações anteriores, um dos motivos que pode ter causado estes problemas foi a ausência de uma gestão por processos. Análise A maioria das empresas que trabalha com uma visão de gestão funcional pode ter esses tipos de problemas. O atraso na entrega ocorreu devido a atrasos na manufatura, que não definiu com o departamento comercial os prazos solicitados. A discrepância no fluxo de caixa aconteceu pois o pessoal de suprimentos negociou pagamentos dos insumos num prazo muito mais curto (28 dias) do que o cliente havia se comprometido a pagar (60 dias). Quanto ao erro no “mix” de produtos, o departamento comercial foi informado de mudanças no decorrer do desenvolvimento, aceitou-as perante o cliente, mas não as comunicou a tempo aos demais departamentos. A gestão por processos caracteriza-se por ter como um dos principais direcionamentos o foco no cliente, não deixando que barreiras departamentais bloqueiem esse fluxo. No entanto, antes de entender o que é uma gestão por processos, que tal conceituarmos o que é um processo? É o que veremos a seguir. 4 TEMA 1 – O QUE É UM PROCESSO 1.1 Descrição e contextualização De forma simples, Harrington (1993) define processo como uma ação que recebe uma entrada (input), transforma agregando valor e gera uma saída (output)”. Portanto, para as empresas, “os processos acontecem tanto nos produtos quanto nos serviços, desde o recebimento das matérias-primas pelos fornecedores até a entrega deste produto ou serviço ao cliente. Essa cadeia deve, na teoria, agregar valor a cada processo. Conforme E. Wildauer e L. Wildauer (2015, p. 21), “processo é um conjunto finito, sequencial e ordenado de passos que devem ser executados para transformar um insumo (uma entrada) em algo útil (uma saída), válido, que atenda a especificações predefinidas (parâmetros, dimensões, prazos etc.)”. Para Davenport (2000), processo seria “uma ordenação específica das atividades de trabalho no tempo e no espaço, com um começo, um fim, inputs e outputs claramente identificados, enfim, uma estrutura para ação”. Na Figura 1 apresenta-se uma ilustração básica de como funciona um processo. Figura 1 – Ilustração básica de um processo Portanto, em resumo, um processo é uma série de atividades encadeadas que recebem inputs (entradas) e produzem outputs (saídas) em produtos ou serviços. 5 1.2 Histórico A partir do século XX, surgiram várias técnicas para modelagem de processos, entre elas o fluxograma, diagrama de blocos, diagrama de fluxo de controle, diagrama PERT CPM, entre outros. Já na década de 1990, o termo processo passou a ser um tema constante para se obter ganhos de produtividade. As empresas gradativamente começam a deixar a gestão com uma visão funcional e substituí-la por uma visão de processos. E como isso funciona? Veja a seguir: A estrutura das organizações manteve-se a mesma durante boa parte do século XX, sendo voltada para dentro, sem a visualização completa (interna e externa) de todas as suas atividades. As empresas mesmo tendo seus processos e informações fluindo na horizontal, se organizam em grupos funcionais verticais, com setores agrupados por semelhança de atividades, fazendo com que o fluxo de trabalho com frequência passe de um departamento para outro causando falta de agilidade, erros de comunicação, altos custos e dispersão do foco no cliente. (Rados et al., 1998) Embora ainda haja muita restrição a respeito, hoje é possível verificar algumas empresas trabalhando segundo uma organização por processos, ou seja, com uma visão horizontal voltada para o cliente. Nessa forma de gestão privilegia-se o responsável pelo processo e não pelo departamento. Desse modo, a empresa será gerenciada ao longo da cadeia de processos, os quais irão permear os departamentos (Figura 2). Para o sucesso dessa forma de gestão, o foco deve estar nas atividades que agregam valor ao longo da cadeia. A grande vantagem da gestão por processos refere-se ao foco no cliente (saídas), na melhoria da integração dos trabalhos e na facilidade de se propor mudanças no sistema de gestão. Figura 2 – Organização por processos 6 TEMA 2 – ORGANIZAÇÃO POR PROCESSOS A grande maioria das empresas organiza suas atividades através de processos. Vamos ver como ocorre essa classificação e a hierarquia. 2.1 Classificação dos processos Gonçalves (2000, p. 5), classifica os processos empresariais em três categorias: 1) Processos de Negócios Caracterizam-se na fabricação de produtos ou na geração de serviços. Também conhecidos por processos primários, incluem grande parte das atividades que geram valor ao cliente e atravessam os níveis hierárquicos e funcionais. 2) Processos Organizacionais Responsáveis pelo funcionamento dos vários subsistemas da organização em busca de um desempenho geral, garantindo o suporte adequado aos processos de negócio (Gonçalves, 2000a). Dão suporte aos processos de negócios. 3) Processos Gerenciais Incluem as ações de medição e ajuste do desempenho da organização e tem foco nos gerentes e nas suas relações (Garvin apud Gonçalves, 2000a). Também dão suporte aosprocessos produtivos. A Figura 3 demonstra como funciona essa classificação. Figura 3 – Classificação dos Processos Fonte: Adaptação de Gonçalves, 2000a. 7 2.2 Hierarquia dos processos Harrington (1997) identifica uma hierarquia de processos organizacionais, iniciando por um enfoque global até um específico (pontual). A ideia de hierarquia contribui para a análise sistêmica da organização e o seu desdobramento de macroprocessos para atividades. Quanto à hierarquia, os processos são classificados em: 2.2.1 Macroprocesso Representa mais de uma função na estrutura organizacional e sua operação tem um impacto significativo no modo como a organização funciona. Exemplos: Compras, Fabricação, Logística. 2.2.2 Processo É um conjunto de atividades sequenciais e relacionadas com entradas e saídas definidas. Exemplos (processos de serviços): contas a pagar, recebimento, expedição, fatura etc. 2.2.3 Subprocesso É a parte do processo inter-relacionada de forma lógica com outros subprocessos. Realiza um objetivo específico do macroprocesso. Exemplos: preparação (setup) de máquinas, preparação de máquinas etiquetadoras etc. 2.2.4 Atividades São ações que ocorrem dentro do processo ou subprocesso. São geralmente desempenhadas por uma unidade (pessoa ou máquina) para produzir um resultado particular. Elas constituem a maior parte dos fluxogramas. Exemplo (em uma área de serviço): receber documentos, cadastrar cliente, fazer checklist etc. 8 2.2.5 Tarefa É o menor enfoque do processo, podendo ser um único elemento e/ou um subconjunto de uma atividade. Exemplo: qualquer passo descrito na atividade de receber documentos. A Figura 4 resume a hierarquia dos processos em uma organização: Figura 4 – Hierarquia de processos em uma organização Fonte: Harrington, 1997. TEMA 3 – VISÃO GERAL DE METODOLOGIAS DE MODELAGEM DE PROCESSOS A principal questão é: o que a empresa deve fazer para enxergar os processos? Nas organizações em que a estrutura funcional vem de longa data como modelo tradicional, a mudança de visão parece radical, pois passamos de uma visão vertical da empresa para uma visão horizontal. A principal mudança refere-se à quebra de barreiras entre fornecedores, empresas e clientes. Essa mudança nas organizações é impulsionada “pelo esforço em mudar de patamar em termos de desempenho empresarial, de atendimento aos seus clientes e de resultado para seus acionistas” (Gonçalves, 2000b, p. 9). O centro da mudança organizacional está no foco da empresa. O modelo de gestão funcional está centrado nas próprias empresas, buscando focar a 9 realidade interna. O modelo de gestão por processos foca o ponto de vista do cliente, a realidade externa, facilitando a interação com o meio ambiente. Com base em Stewart, Gonçalves (2000b) apresenta três diferenças básicas entre as organizações funcionais e por processos: As organizações estruturadas por processos têm como metas atingir objetivos externos; Os trabalhadores e recursos são organizados buscando dar conta da operação completa; Inexiste o filtro da hierarquia na condução da informação (Gonçalves, 2000b). A Figura 5 mostra as fases de implantação de uma gestão funcional em substituição a uma gestão por processos. Figura 5 – Fases da implantação da Gestão por Processos Fonte: Anjos; Reis; Soratto, 2002, p. 4. A função dos processos é tão importante que a ISO 9001, que é um conjunto de normas que certifica um sistema de gestão da qualidade, bem como define os requisitos para implantar esse sistema, tem como um dos temas a abordagem de processos. Leia o artigo no link a seguir para entender melhor a integração dos processos na gestão da qualidade: <http://academiaplatonica.com.br/2011/gestao/iso-90012008-0-2-abordagem- de-processo/>. A gestão por processos implica em ser conduzida e praticada por líderes da organização. A cultura organizacional se relaciona com os processos porque influencia e é influenciada pelo comportamento dos grupos da organização. Esses grupos podem eventualmente criar entraves para implementação de 10 inovação e melhoria nas organizações, como a cultura de gestão por processo, por exemplo. Portanto, a participação da média e alta gerência nas empresas é fundamental para a criação de uma cultura organizacional suportada pela gestão por processos, que é um pressuposto básico para a modelagem. Conforme Pavani Junior e Scucuglia (2011), “o mapeamento de processos é uma ferramenta gerencial e de comunicação que tem por finalidade melhorar os processos existentes ou criar uma nova sistemática baseada em uma estrutura voltada para processos”. Saiba mais Assista ao vídeo do consultor Renato Fonseca do Sebrae referente à gestão por processos: <https://www.youtube.com/watch?v=r8nePjrO_fg>. Já conhecemos o que é gestão por processos e sua diferença em relação à gestão tradicional. Agora já podemos conhecer algumas características sobre modelagem de processos. De acordo com E. Wildauer e L. Wildauer (2015, p. 45), “a modelagem de processos de negócios da empresa (setor/departamento) deve ser realizada sempre que oportunidades de melhoria forem identificadas, explicitando e aprimorando pontos fortes”. O resultado visa apresentar alternativas de solução a problemas mapeados, cujas aplicação e desenvolvimento tenham o propósito de agir na direção de mudança, de melhorias, daí a adoção da metodologia em empresas. Vale ressaltar que o profissional de mapeamento de processos deve ter uma visão holística sobre os processos. Ainda de acordo com os autores anteriormente citados, para modelar o negócio da empresa, o profissional deve ter três visões: Visão dos projetos – Com base no Project Management Institute (PMI, 2013), em português Instituto de Gerenciamento de Projetos, apresenta cinco grupos de processos: 1. Inicialização 2. Planejamento 3. Execução 4. Monitoramento/Controle 5. Finalização. Cada um desses grupos é aplicado a cada uma das dez áreas do gerenciamento do conhecimento descritas a seguir: 1. Escopo 2. Tempo 3. Custos 11 4. Qualidade 5. Recursos Humanos 6. Comunicações 7. Riscos 8. Aquisições 9. Partes interessadas 10. Integração. (PMI, 2013) Toda essa integração das áreas de conhecimento se faz necessária para integrar a visão geral de um projeto/processo ao gerente ou profissional de mapeamento de processos. Visão de sistemas com conhecimento dos processos que transformam os insumos (entradas ou inputs) em produtos e serviços (saídas ou outputs) válidos ao sistema. Visão do negócio: com conhecimento de todos os recursos e dos atores que fazem do negócio um ambiente produtivo, com possibilidade de atingir os objetivos estratégicos definidos. Paim et al. (2009) mostram uma divisão interessante em relação ao gerenciamento dos processos, a saber: Atividades para criação e desenho dos processos; Atividades para gerenciar e promover os processos no dia a dia; Atividades para gerar, registrar e usufruir do aprendizado, que algumas empresas chamam de lições aprendidas (lessons learning em inglês). TEMA 4 – INTRODUÇÃO AO BPM No tema anterior destacamos o termo processos de negócios. Neste tema vamos focar uma metodologia que tem como base os processos de negócio das empresas, que é o Business Process Management (BPM). O BPM, sigla que traduzida para o português significa Gerenciamento de Processos de Negócio, é, conforme BPM CBOK v2 (2009), uma abordagem disciplinada para identificar, desenhar, executar, documentar, medir, monitorar, controlar e melhorar processos de negócios (sejam eles automatizados ou não) para alcançar resultados pretendidos, consistentes e alinhados com as metas estratégicas de uma organização. 12 Figura 6 – Ciclo de vida de gestão de processos proposto pela ABPMPFONTE: ABPMP, 2009. O BPM não é algo novo. Alguns conceitos surgiram na década de 1990, como consequência de outros conceitos já aplicados na mesma época, tais quais a qualidade total (TQM), a reengenharia e outros programas de melhoria de processos. Vale salientar que o foco do BPM não é apenas e tão somente automatizar processos por meio de ferramentas de software. Essa visão tem prejudicado, de certa maneira, alguns projetos de implantação de gestão por processos. A utilização de softwares deve ser utilizada a partir do momento em que se os processos estejam mapeados (As-Is, ou como está) e os objetivos estejam bem claros (To-Be, ou como deve ser). O fato de adquirir um software de Enterprise Resource Planning (ERP) não irá resolver ou melhorar os processos internos de uma empresa. O foco deve ser a melhoria e transformação de processos de negócios para que as organizações possam alcançar os resultados esperados: aumento de produtividade, redução de burocracia, melhoria na rentabilidade, redução de defeitos e desperdícios, satisfação e fidelização de clientes. Para muitos estudiosos de processos de negócios, a forma de gestão orientada por processos deverá fazer parte da maior parte das empresas no século XXI. O Gerenciamento dos Processos de Negócios (BPM) é, antes de tudo, uma mudança de atitude com relação a forma de organizar e enxergar os processos. Conforme Gary Capote (2013, p. 121), O BPM é uma mudança de mentalidade, e segundo ele extrapola os limites da empresa: 13 Pense o BPM como uma mudança de mentalidade, e que esta mudança, cada um de nós irá desenvolver e levar para o nosso cotidiano na forma de ações holisticamente responsáveis. Sempre. É uma grande mudança de mentalidade, que nasce com os profissionais, permeia as organizações e espalha seus resultados por toda a sociedade. Um dos grandes benefícios do BPM é o autoconhecimento das organizações, pois com a gestão orientada para os processos a empresa entende como e por que os processos são executados, trazendo à tona os problemas para que possam ser solucionados e a partir desse ponto trabalhar em melhorias. E por falar em autoconhecimento, segundo o BPM CBOK (2009), o BPM é dividido em áreas do conhecimento, conforme mostrado resumidamente a seguir: Modelagem de processos: habilidades para que as pessoas possam interpretar, avaliar e administrar os processos de negócio. Análise de processos: propicia ao profissional a compreensão dos processos de negócio, identificando a eficiência e a eficácia dos mesmos por meio de ferramentas e técnicas. Desenho dos processos: em uma abordagem mais complexa dos processos, fornece informações de como as aplicações de negócios, plataformas tecnológicas e recursos de dados interagem com os demais processos internos e externos. Gerenciamento de desempenho dos processos: é o gerenciamento formal dos resultados dos processos, verificando sua eficiência e eficácia por meio dos indicadores. Transformação de processos: aborda mudanças significativas no ciclo de vida de um processo de negócio. Metodologias como redesenho e reengenharia são exploradas nessa área do conhecimento para revisão dos processos organizacionais. Saiba mais Para enfatizar a relevância do BPM na melhoria dos processos, leia o artigo referente à aplicação do BPM em uma indústria metalúrgica. Acesse <https://periodicos.utfpr.edu.br/revistagi/article/view/792/823> (clique em “pdf” para obter o texto completo). 14 TEMA 5 – GESTÃO E VISÃO SISTÊMICA O nome desta disciplina é Gestão e Mapeamento de Processos, portanto antes mesmo de entrarmos em mais detalhes referentes ao mapeamento de processos, faz-se necessário definirmos o que é gestão. Para Pavani Junior e Scucuglia (2011, p. 36), “gestão pode ser definida como uma ação ou omissão relativa à interferência humana nos processos de uma organização com vistas ao alcance de objetivos ainda não conquistados ou reversão de tendências negativas observadas por métricas previamente estabelecidas e disponíveis aos tomadores de decisão”. Se gerir qualquer negócio não é algo fácil, gerir processos e entender a interação entre eles é algo relativamente complexo. Nesse sentido, será proposto um experimento para ilustrar como isso ocorre na prática. O exemplo a seguir, baseado no experimento do funil (Deming, 1977, p. 149), mostra como uma “ação” pode ser maléfica para os processos de uma organização. Analise a Figura 8. Figura 8 – Experimento A Fonte: Deming, 1977, p. 149. No experimento anterior (A), um funil, disposto perpendicularmente a uma base, é utilizado para direcionar bolinhas de gude a um suposto alvo. Nota-se que existe uma dispersão em relação ao alvo. Após o experimento A, Deming propõe uma alteração na forma de direcionar as bolinhas de gude, conforme Figura 9. 15 Figura 9 – Experimento B Fonte: Deming, 1977, p. 149. No experimento (B) visto anteriormente, a cada resultado indesejado há uma ação no sentido de corrigir o direcionamento do funil, que muitas vezes é o que as organizações têm realizado. Nota-se que a dispersão se tornou maior do que a do experimento A. Não se quer dizer com esse experimento que não se deve fazer nada para melhorar os processos, porém é importante salientar que conhecer a natureza dos processos e as interferências entre eles é primordial na tomada de decisão. Nesse caso específico deste experimento, talvez uma aproximação maior entre a extremidade do funil e o alvo poderia reduzir a dispersão. Segundo Morin (2005), “a experimentação científica constitui por si mesma uma técnica de manipulação e o desenvolvimento das ciências experimentais desenvolve os poderes manipuladores da ciência sobre as coisas físicas e os seres vivos”. Portanto, a administração, embora possa ter resquícios de intuição (arte), deve ser considerada como “técnica/científica”, em que se inclui o mapeamento de processos – tema de nossa disciplina. Outra característica significativa para gestão e mapeamento de processos é a visão sistêmica (ou holística). Esse é um termo utilizado constantemente nas literaturas de gestão. O experimento anterior demonstra que uma visão sistêmica (em que se enxerga o processo como um todo e não em etapas fragmentadas) poderia ajudar a reduzir a dispersão sobre o alvo. Conforme a Fundação 16 Nacional da Qualidade (2010), “pensamento sistêmico é definido como o entendimento das relações de interdependência entre os diversos componentes de uma organização, bem como a organização e o ambiente externo”. Para o entendimento da Gestão por Processos, é imprescindível que se esteja receptivo a ampliar a visão dos sistemas organizacionais além dos limites pré-definidos. TROCANDO IDEIAS Nos parágrafos anteriores foi abordado que a administração, particularmente a parte de gestão, engloba aspectos científicos, técnicos e artísticos. Baseado nesses conceitos, analise o caso a seguir. A seleção brasileira de futebol é pentacampeã mundial. Em todas as Copas conquistadas, sempre havia no time um jogador que fazia a diferença (Pelé em 1958, Pelé e Garrincha em 1962, Pelé em 1970, Romário em 1994 e Ronaldo em 2002). Nessas conquistas, os recursos artísticos e desestruturados foram mais valorizados do que os recursos técnicos-científicos. Por outro lado, temos a seleção brasileira de vôlei, que foi nove vezes campeã da Liga Mundial (1993, 2001, 2004, 2005, 2006, 2007, 2009 e 2010), duas vezes campeã olímpica (1992 e 2004) e três vezes consecutivas campeã do mundo (2002, 2006 e 2010). Ao contrário da seleção de futebol, o pessoal do vôlei utiliza basicamente uma gestão técnico-científica. Conforme conceitos apresentados sobre as definições clássicas de gestão, descreva as principais diferenças dos exemplos acima e justifique qual é a melhor alternativa para umaadministração de sucesso. Disponibilize suas opiniões no Fórum do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e argumente com os demais alunos sobre esse assunto. 17 NA PRÁTICA Responda às questões propostas (as respostas estão ao final deste documento). 1. Observe a figura a seguir. Fonte: Adaptado de M. Paranhos Filho (2007), p. 51. A figura apresenta os fluxos de processos que podem ocorrer dentro das empresas. Baseado no que já foi visto nos parágrafos anteriores, a principal mensagem dessa ilustração é: I. Mostrar a importância do cliente em conhecer os fluxos de processo da empresa da qual pretende adquirir um produto. II. Definir que o centro da mudança organizacional está no foco da empresa. III. Mostrar que o macrofluxo de processo horizontal na ilustração representa a organização por processos. IV. Salientar que a estrutura funcional deve ser conduzida pela integração entre cliente, departamentos e hierarquia vertical. a. II e III estão corretas. b. Apenas a afirmativa II é correta. c. I e IV estão corretas. d. Apenas a afirmativa III está correta. e. Apenas a alternativa II está correta. 18 2. Considere o seguinte conceito existente no Business Process Management (BPM): "conjunto de atividades ou comportamentos executados por humanos ou máquinas para alcançar uma ou mais metas". Essas atividades e comportamentos são disparados por eventos específicos e compostos por várias tarefas ou atividades inter-relacionadas, que solucionam uma questão específica. Nesse caso, esse conceito, no BPM, refere-se a: a. Mapeamento de processos. b. Visão sistêmica. c. Processo. d. Modelagem. e. Modelo de negócio. Saiba mais Para melhorar o entendimento sobre gestão por processos e BPM, sugerimos a leitura de texto da revista BPM em Foco sobre implantação da gestão por processos na empresa Localiza (p. 30-33). Uma ótima oportunidade de enxergar a teoria na prática das empresas. Acesse o link a seguir e boa leitura: <https://issuu.com/elo_group/docs/revista_bpmemfoco_3_876178abf8b ed9>. FINALIZANDO O objetivo desta rota de aprendizagem foi o de estabelecer a base para o entendimento pleno da gestão e mapeamento de processos. Por mais paradoxo que seja, enxergar os processos dentro de qualquer organização não é uma tarefa fácil, porém é a maneira mais eficaz de promover resultados mais alinhados com o cliente. A Gestão por Processos tem como um de seus propósitos a quebra do paradigma da gestão funcional, em que os interesses do processo sobrepujam os interesses departamentais. Vale salientar também que os processos nas empresas não são apenas os processos em que se pode facilmente observar as entradas, saídas e o cliente final, como é o caso dos processos primários (produção e serviços). Em toda organização existem os vários processos de suporte, que demandam muitos recursos e muitas vezes são improdutivos. Para que se possa entender como funcionam os processos nas empresas, a visão sistêmica é de relevante 19 importância. O exemplo do experimento do funil tem como finalidade demonstrar que ações dispersas sem o conhecimento dos processos e suas interações (processos não mapeados) pode provocar colapsos dentro das empresas. Outro enfoque não menos importante diz respeito aos tipos de conceitos de gestão. Destacamos que a gestão eficaz deve estar mais voltada para alternativa técnica-científica do que para a alternativa artística, que muitas vezes utiliza a intuição para tomada de decisões. O objetivo foi o de reforçar que a Gestão e o Mapeamento de Processos devem ser entendidos como uma técnica determinante para o sucesso das empresas. 20 REFERÊNCIAS ABPMP – Association of Business Process Management Professionals. BPM CBOK v2.0. São Paulo: ABPMP, 2009. BPMN – BUSINESS PROCESS MODEL AND NOTATION. Disponível em: <http://www.bpmn.org/>. Acesso em: 2 abr. 2018. CAPOTE, G. Guia para formação de analistas de processos. [S. l.]: CreateSpace Independent Publishing Platform, 2013. DEMING, W.E. A Nova Economia. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1997. E. WILDAUER, W.; S. WILDAUER, L. D. B. Mapeamento de Processos: conceitos, técnicas e ferramentas. Curitiba: InterSaberes, 2015. HARRINGTON, H. J. Gerenciamento total da melhoria contínua. São Paulo: Makron Books, 1997. MAPEAMENTO de processo rádio. Passei Direto. Disponível em: <https://www.passeidireto.com/arquivo/37528331/mapeamento-de-processo- radio>. Acesso em: 2 abr. 2018. MORIN, E. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Betrand Brasil, 2005. PAIM, R.; CARDOSO, V.; CAULLIRAUX, H.; CLEMENTE, R. Gestão de Processos: pensar, agir e aprender. Porto Alegre: Bookman, 2009. PARANHOS FILHO, M. Gestão da Produção Industrial. Curitiba: Ibpex, 2007. PAVANI JUNIOR, O.; SCUCUGLIA, R. Mapeamento e Gestão por Processos: BPM. São Paulo: M. Books 2011. PENSAMENTO Sistêmico. Revista Excelência em Gestão. São Paulo, Fundação Nacional da Qualidade, nov. 2009. PMI – PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Disponível em: <https://www.pmi.org/>. Acesso em: 2 abr. 2018. REVISTA BPM EM FOCO, ano 1, ed. 3. [S. l.], 2013. Disponível em: <https://issuu.com/elo_group/docs/revista_bpmemfoco_3_876178abf8bed9>. Acesso em: 2 abr. 2018. SMITH, H.; FINGAR, P. Business Process Management: the third wave. Tampa: Meghan-Kiffer Press, 2007. 21 STADLER, A.; MUNHOZ, A.; GUERREIRO, K.; FERREIRA, P. Gestão de Processos com Suporte em Tecnologia da Informação. Curitiba: InterSaberes, 2013. RESPOSTAS 1. d Comentário: O grande desafio para gestão das empresas está na dificuldade de romper barreiras entre um modelo tradicional de estrutura funcional (visão vertical da empresa) e um modelo de organização por processos (visão horizontal). 2. c Comentário: Algumas vezes ocorre uma mistura de conceitos referentes a processos e mapeamento de processos. Um conjunto de atividades e tarefas são elementos que compõem um processo e o mapeamento é uma ferramenta gerencial e de comunicação que proporcionará uma leitura da condição atual dos processos para que se possa propor as melhorias necessárias. GESTÃO E MAPEAMENTO DE PROCESSOS AULA 2 Prof. Roberto Candido Pansonato 2 CONVERSA INICIAL Após conhecer os conceitos de processo e de gestão por processos e entender a importância do fluxo horizontal nas organizações, para se absorver melhor este pensamento faz-se necessário ter uma visão sistêmica de todo o processo. Vamos iniciar a aula 2 com foco na compreensão do mapeamento e da modelagem de processos e suas principais técnicas e ferramentas. Vamos aos temas desta aula: 1. Modelagem e técnicas de notações de processos 2. Notações I (BPMN e Fluxogramas) 3. Notações II (SIPOC, Cadeia de Valor e VSM) 4. Notações III (Diagrama Tartaruga e Service Blue Print) 5. Fluxo de Processo e técnicas para mapeamento De acordo com Müller (2003), o mapeamento tem papel de relevância dentro das empresas: O mapeamento de processos nos permite definir e destacar quais são as atividades-chave da empresa, bem como as medidas de desempenho que possibilitarão o estabelecimento de um sistema de controle simultâneo sobre as atividades. Com o mapeamento, é possível visualizar onde e porque os recursos da empresa são alocados. A partir do mapeamento, é possível identificar as oportunidades de melhoria e compreender como as atividades se comportam nos processos de negócio das organizações, tanto para processos correntes como para processos propostos. CONTEXTUALIZANDO A empresa XYZ é uma indústria fabricante de produtos para o segmento de telecomunicações. Em determinado momento, houve um problema na entrada de material de fornecimento de uma empresa terceirizada em condição de anormalidade (fora das especificações dimensionais). Este material,depois de montado com os demais itens para formação do produto final, foi enviado ao cliente, que detectou uma falha no produto, o que ocasionou uma reclamação. Segue o fluxo de processo apresentado (resumido): 3 Figura 1 – Trecho de um fluxograma Como ocorre na maioria das empresas, focou-se mais a busca de possíveis culpados do que a solução da não conformidade, não se chegando a uma solução sistêmica. Agora responda à questão proposta: De acordo com o fluxo estabelecido e com as informações anteriores, um dos motivos que pode ter causado este problema foi: a. Falta de implantação de técnicas de liderança dentro da organização. b. Comunicação ineficiente no processo. c. Ausência de responsabilidades no fluxo de processo. d. Não houve falha no fluxo, pois o ocorrido é inerente a qualquer processo. e. Não seguimento as regras propostas por Frederick Taylor. Análise Neste caso específico que aconteceu em uma empresa real, a causa-raiz estava na indefinição de responsabilidades das atividades dentro do processo estabelecido (procedimento com fluxograma sem raias e/ou sem indicação de responsáveis – handoffs – que será visto mais adiante). Essa indefinição fez com que os procedimentos de inspeção não fossem elaborados, ocasionando falta de informações para o controle de recebimento, o que causou sérios problemas ao cliente. O mapeamento de processos tem como um de seus objetivos apresentar de forma clara os diversos processos de uma empresa e suas respectivas atividades, para que se possa analisá-los e propor as possíveis melhorias. Portanto, resposta certa: alternativa c. TEMA 1 – MODELAGEM E TÉCNICAS DE NOTAÇÕES 4 Como dito anteriormente, o objetivo do mapeamento de processos é buscar um melhor entendimento dos processos existentes e dos futuros para melhorar o nível de satisfação do cliente e aumentar desempenho do negócio, sendo uma ferramenta básica e primordial para execução da Gestão por Processos. Para melhorarmos o nível de entendimento desta disciplina, é importante diferenciarmos alguns termos que ainda geram confusões, tanto no meio acadêmico quanto no meio empresarial, entre Gestão por Processos, Mapeamento de Processos e Modelagem de Processos. Mesmo na literatura técnica especializada não existe um consenso, principalmente referente a mapeamento e modelagem e interpretações de tradução de termos técnicos. Gestão por processos, como mencionado na aula 1, trata-se de um conceito de gestão em que as empresas se organizam por processos, o que requer uma visão horizontal, com as pessoas trabalhando não mais em uma função, mas em um processo voltado para o cliente. “Existem responsáveis pelos processos e não pelos departamentos e funções” (Hammer, 1998). Para retratar esses processos são utilizadas as ferramentas de mapeamento e modelagem de processos. O CBOK 2.0 (ABPMP, 2009) define modelagem como “um mecanismo utilizado para retratar a situação atual e descrever a situação futura dos processos de negócios”. Tem como objetivo otimizar os processos executados dentro de uma organização. Pode ser dividida em dois grandes momentos de análise do ambiente de negócio: situação atual (as is) e situação proposta (to be), portanto entende-se modelagem como sinônimo de mapeamento. No conceito anterior, o termo desenho, proveniente da tradução para o português do termo design, refere-se à criação de novos processos ou modificações em processos existentes. Em uma outra definição, mapeamento de processos é o entendimento de processos já existentes, por meio da sua descrição e representação gráfica, identificando sua inter-relação. É extremamente útil às empresas, visto que com ele consegue-se ter uma visão ampla e mais clara da organização. A modelagem de processos, apesar de ser um conceito comumente citado junto com mapeamento, faz uma análise mais específica e profunda do processo, criando um modelo de seu funcionamento com vistas a atingir algum objetivo, como automação ou acompanhamento de longo prazo, por exemplo. 5 Para a condução desta disciplina, iremos adotar as definições descritas anteriormente, estabelecendo o mapeamento como a descrição de um processo (existente ou não) e a modelagem como o ajuste necessário conforme modelo a ser objetivado (de cunho administrativo, financeiro etc.). Mapeamentos ou modelos devem ser fáceis de entender, objetivos e claros. Atualmente existem várias formas de notações gráficas. Conforme Pavani Junior e Scucuglia (2011), existem três fatores que devem ser levados em consideração para escolha da melhor notação: a cultura da empresa a ser mapeada, os níveis de compreensão das partes interessadas em ler o modelo e o nível de detalhe e informações exigido para o objetivo do modelo. A seguir serão representados os principais tipos de notações utilizados para modelagem de processos. TEMA 2 – NOTAÇÕES (I) – (BPMN E FLUXOGRAMAS) 2.1 BPMN Business Process Modeling Notation (BPMN) é um padrão de notação relativamente novo. É seguramente a maior e mais amplamente aceita notação para modelagem de processo por profissionais de BPM, porém, como possui uma simbologia especial, carece do conhecimento do grande público (profissional, acadêmico etc.). A seguir, apresentamos os principais tipos. Figura 2 – BPM: Diagrama de fluxo de tarefas simples Fonte: CBOK-V 2.0 6 Figura 3 – BPMN: Diagrama de fluxo de tarefas mais detalhado e complexo Fonte: ABMP, 2014. Figura 4 – BPMN: Diagrama tradicional com raias Fonte: CBOK-V 2.0 2.2 Fluxogramas Provavelmente o padrão de notação mais utilizado é baseado em um conjunto simples de simbologia para tarefas, decisões e outros elementos primários do processo. Esse tipo de notação está associado ao surgimento do movimento de Gestão Total da Qualidade (TQM), que surgiu da década de 1950 Fonte: CBOK-V 2.0 7 e foi amplamente utilizado na década de 1970 para representação de fluxos de processos. Existe um padrão de simbologia baseado na norma AISI para fluxogramas, entretanto algumas derivações são utilizadas por profissionais de diversas áreas que adaptam os fluxogramas de acordo com as necessidades pertinentes. No entanto, um típico fluxograma deve ter uma tipologia específica, que será vista mais adiante. 2.3 Fluxograma simples (tradicional) Provavelmente entre os fluxogramas é o modelo mais utilizado em função da facilidade de aplicação. O inconveniente dessa notação é o fato de ela não mostrar os departamentos (ou funções) pelos quais fluem os processos, portanto é mais indicada quando o processo está restrito a um único departamento ou função. Figura 5 – Fluxograma simples 2.3 Fluxograma com raias ou funcional Notação que representa como o fluxo de trabalho cruza unidades organizacionais (departamentos, setores, áreas ou cargos da organização). Possui este nome porque as unidades organizacionais são semelhantes às raias de uma piscina. A vantagem da utilização de raias, como foi evidenciado na problematização, é que a notação permite uma fácil visualização dos 8 departamentos envolvidos no fluxo. Nesse aspecto, é importante salientar a expressão handoff, que significa transferência de controle, tal qual identificado nas raias. A princípio, é de senso comum entender que quanto menor o número de handoffs, mais bem-sucedido é o processo. Figura 6 – Fluxograma com raiais ou funcional TEMA 3 – NOTAÇÕES (II) – (SIPOC, CADEIA DE VALOR E VSM) 3.1 SIPOC – Suppliers/Inputs/Process/Outputs/Customers Tipo de documentação utilizada em Six Sigma. Esta simbologia possibilita visualização simples de um fluxo com a identificação de fornecedores, entradas, processos, saídas e clientes. Como benefício desta notação, pode-se destacar: a. Identifica claramente as fronteiras do processo em estudo; b. Resolve conflitos de equipe;c. Assegura que o analista tenha alcance e controle sobre o processo a ser estudado; d. Identifica os requisitos básicos. 9 Tabela 1 – SIPOC dos processos realizados no galpão da associação Fonte: Lobato, 2010. 3.2 Cadeia de Valor Notação introduzida por Michael Porter e tipicamente aplicada em Planejamento Estratégico, pressupõe um fluxo simples da esquerda para a direita dos processos que contribuem para gerar valor aos clientes. Uma cadeia de valor representa o conjunto de atividades desempenhadas por uma organização desde as relações com os fornecedores e ciclos de produção e de venda até a fase da distribuição final. A adoção da gestão por processos de forma corporativa quase pressupõe obrigatoriamente a existência de cadeias de valor para representar graficamente a lógica de interação dos macroprocessos de uma organização. É muito importante essa representação para abordar as relações genéricas entre os processos da companhia (Pavani Junior; Scucuglia, 2011). 10 Figura 7 – Cadeia de Valor Genérica Fonte: Porter, 1996. 3.3 VSM – Value Stream Mapping (Mapeamento do Fluxo de Valor) Notação bastante utilizada em programas de Lean Manufacturing (Produção Enxuta). Na Toyota, é conhecido como Mapeamento do Fluxo de Informação e Material. Parte do pressuposto de mapear um fluxo de valor num quadro mais amplo, não só os processos individuais – ou seja, melhorar o todo, não só otimizar as partes. É uma ferramenta que ajuda a enxergar e entender os fluxos de materiais, informações e de processos/pessoas para eliminação dos desperdícios e agregação de valor ao cliente. O mapa de fluxo de valor é uma ferramenta qualitativa com a qual se descreve em detalhe como a sua unidade produtiva deveria operar para criar o fluxo. Números são bons para criar um senso de urgência ou como medida de comparações entre antes e depois. O mapeamento do fluxo de valor é bom para descrever o que você realmente irá fazer para chegar a esses números (Rother; Shook, 2003). A Figura 8 demonstra um exemplo prático dessa ferramenta. 11 Figura 8 – Mapeamento do fluxo de valor Fonte: LEAN Summit, 2014. 12 TEMA 4 – NOTAÇÕES (III) – (DIAGRAMA TARTARUGA E SERVICE BLUE PRINT) 4.1 Diagrama Tartaruga Linguagem utilizada em algumas empresas que buscam certificação da gestão da qualidade baseada na norma automotiva ISO/TS 16949. O nome deste diagrama é uma referência ao formato de sua representação, que se assemelha a uma tartaruga vista de cima. Esta ferramenta é composta de quatro perguntas sobre o processo (pernas da tartaruga) e duas perguntas referentes às entradas e saídas do processo (cabeça e rabo da tartaruga). O diagrama apresenta os seguintes elementos: Descreve o processo e as suas atividades principais, podendo ser descrito em forma de fluxograma; Indica como o processo será realizado, incluindo métodos, processos e técnicas necessárias para a sua realização; Lista os materiais, equipamentos e ferramentas necessárias para o processo; São informadas as competências (treinamento, habilidade e conhecimento) que os executantes do processo devem dominar; Indica como o processo será medido e avaliado; São relacionadas as entradas necessárias para a realização do processo; Indica as saídas, ou seja, o que deve ser entregue. Figura 9 – Diagrama tartaruga Fonte: AIGA, 2009. 13 4.2 Service Blue Print Trata-se de uma linguagem dedicada ao mapeamento de serviços. O Service Blueprint foi uma das primeiras técnicas desenvolvidas para o mapeamento de processos de serviços devido à falta de um método sistemático para projeto e controle, diferenciando-se dos demais fluxogramas por considerar o aspecto da interação com o cliente (Shostack, 1984). Cada vez mais a atuação de profissionais da área de engenharia vem sendo utilizada no setor de serviços, no entanto as ferramentas tradicionais de mapeamento de processos não cobriam eficazmente o mapeamento de serviços, pois neste caso o cliente de serviços faz parte do processo de transformação, o que torna difícil a separação entre o projeto do produto e o projeto do processo. Em muitas organizações, os processos ocorrem na presença do cliente (front office ou operações de linha de frente) e outros sem a presença dos mesmos (back office ou operações de retaguarda). O Service Blueprint oferece ao profissional de mapeamento a oportunidade de identificar essas duas frentes, conforme demonstrado na figura a seguir. A principal diferença do Service Blueprint para os outros fluxogramas tradicionais é que ele unifica o cliente e suas ações na mesma estrutura juntamente com toda a operação envolvida, proporcionando a leitura dos processos sob a perspectiva também do cliente e não só da empresa, agregando assim uma visão mais ampla para análise e tomada de decisão. Figura 10 – Exemplo de Service Blueprint em um processo de entregas de refeições Fonte: Adaptado de Mello et al., 2002. 14 TEMA 5 – FLUXO DE PROCESSOS E TÉCNICAS PARA MAPEAMENTO 5.1 Fluxo de processos Para se conseguir elaborar um mapeamento de processos, é necessário que se tenha informações sobre as atividades desempenhadas na organização. Essas atividades devem ser obtidas por meio de entrevistas ao profissional de modelagem (ou mapeamento) de processos e representadas graficamente por fluxos. Dentre as diversas notações para mapear processos, nenhuma delas tem se mostrado mais eficaz do que o fluxograma, por sua simples notação que proporciona um fácil entendimento e compreensão dentro das organizações. Conforme Pavani Junior e Scucuglia (2011), “a modelagem do estado atual (As-Is) pressupõe o retrato fiel da realidade corrente dos processos da organização”. Além disso, “a estrutura hierárquica funcional deve ser representada no mapeamento, sendo um dos fatores para mensurar a qualidade da modelagem” (ABPMP, 2009). Portanto, para organizações ainda com a filosofia de gestão por processos não internalizada (ou em fase de amadurecimento), é necessária a escolha de uma notação que considere a realidade dos cargos do organograma vigente. Neste caso, os fluxogramas atendem plenamente a esse requisito, conforme mostrado na Figura 11. Figura 11 – Estruturas Organizacionais por Processos Fonte: Paim et al., 2009. 15 5.2 Técnicas para mapeamento Para inserir as atividades em forma de fluxo em um mapa de processos, é primordial que se relembre a definição de processo. De forma simples, Harrington (1993) define processo “como uma ação que recebe uma entrada (input), transforma agregando valor e gera uma saída (output)”. Se fizermos uma simulação de uma entrevista para se obter dados das atividades e compor o processo de lavar carros em um posto de combustíveis, por exemplo, provavelmente iremos ouvir do lavador de carros instruções como posicionar o carro dentro do local de lavagem, fechar os vidros, abrir a mangueira de água pressurizada, fazer a primeira lavagem somente com água para eliminar excessos de barro ou poeira etc. Acredito que raramente o lavador saberá dizer o que ele recebe e o que ele entrega – ou seja, recebe carros sujos e entrega carros totalmente limpos –, que são as entradas e saídas de um processo. Portanto, além das atividades, que supostamente todos que as executam devem conhecer, também as entradas e saídas devem ser mencionadas no fluxo. O que se percebe nas organizações é que muitos colaboradores (assim são chamados na maioria das empresas), se questionados sobre o que recebem e o que entregam, provavelmente terão dificuldades em responder a esta questão. Assim sendo, o entendimento desses elementos é de suma importância para criação do mapeamento do processo. Para definição de como iniciar um trabalho de mapeamento dentro de uma empresa, dois principais modos de abordagem podemser utilizados: Efeito chuveiro (top-down ou de cima para baixo): nesta abordagem, são definidos quais são os processos organizacionais por meio de reuniões, workshops, brainstorm ou por determinação de executivos. A partir deste momento, o profissional de mapeamento inicia o trabalho por meio de fluxogramas (ou outro tipo de notação). É a abordagem mais comum e a mais utilizada na condução de mapeamentos. Efeito bidê (bottom-up ou de baixo para cima): nesta abordagem, tem-se como premissa que os fluxogramas devem ser realizados com base nas atividades, porém a definição dos limites dos processos deve ser feita após a existência dos mesmos, em que se obtém o encadeamento real das atividades a partir de fatos e evidências. 16 Figura 12 – Diferenças entre duas alternativas de abordagem Fonte: Pavani Junior; Scucuglia, 2011. 5.3 Critérios para mapeamento de processos A princípio, mapear processos por meio de fluxogramas ou outro tipo de notação parece ser algo relativamente fácil, mas não é bem assim. Processos mal mapeados não irão traduzir na realidade a metodologia utilizada pela empresa estudada. Por experiência, muitas vezes erros no mapeamento fazem com que algumas empresas se precipitem ao adquirir softwares para gestão de processos que não funcionam na prática. São recursos gastos sem que de fato se agregue valor aos processos da organização. Portanto, alguns critérios devem ser levados em consideração. A seguir serão apresentados dez passos importantes para mapear e modelar um processo. Não se trata de uma receita ou regra rígida a ser seguida, mas sim um guia para melhor aplicação dos conceitos de modelagem (elaborado com base em <www.comexito.com.br>). Passo 1 - Identificar os objetivos do processo a. Os objetivos do processo estão relacionados com a razão de existir do processo e com o papel que ele exerce na organização. b. Entender os objetivos do processo é fundamental para avaliar o quanto o processo adiciona valor, bem como para classificar e selecionar seu correto tratamento. Passo 2 - Identificar as saídas do processo a. Saídas são produtos ou serviços produzidos por um processo. 17 b. Saídas podem ser físicas (um relatório ou um produto físico como um televisor, por exemplo) ou informações, como uma decisão. c. Todos os processos, independentemente de seu tamanho ou complexidade, transformam entradas em saídas. Passo 3 - Identificar os clientes do processo a. Muitas pessoas foram ensinadas a reconhecer os clientes como pessoas que recebem produtos acabados ou serviços. Uma descrição mais acurada de um cliente é: alguém que recebe ou usa uma saída de um processo. b. Existem duas classificações de clientes na maioria dos processos: Clientes internos: geralmente empregados ou unidades de uma organização. Clientes externos: indivíduos ou empresas fora da organização. Passo 4 - Identificar as entradas e componentes do processo a. Entradas são itens físicos ou informações que são mudadas pelo processo. b. Componentes do processo são os recursos que fazem ou auxiliam a transformação das entradas em saídas. Os componentes geralmente se enquadram em uma das categorias abaixo: recursos humanos; materiais; tecnologia; métodos; gerenciamento; máquinas; meio ambiente etc. Passo 5 - Identificar os fornecedores do processo a. Fornecedores são os provedores de serviços ou matérias-primas que são entradas para o processo. As entradas que eles entregam permitem o início das atividades do trabalho. b. Existem duas categorias de fornecedores: Fornecedores internos: pessoas na organização que fornecem informação, serviços ou componentes para um processo interno. Fornecedores externos: vendem matéria-prima e serviços para uma organização. Passo 6 - Delimitar os limites do processo a. Os pontos em que os processos iniciam e terminam definem os limites. b. O ponto de início do processo é quando entradas são recebidas de um fornecedor e as pessoas que fazem o trabalho passam a ter controle do processo. c. O ponto final do processo é quando a saída e o controle do processo passam a um cliente interno ou externo. Passo 7 - Documentar o processo atual a. As informações obtidas sobre o processo devem ser colocadas no papel. 18 b. O processo documentado deve ser revisado por todos os envolvidos para garantir que as informações estão corretas e que não faltam informações. c. O modelo utilizado para documentação de processos pode ser o fluxograma. Esta metodologia tem algumas variantes, portanto deve-se escolher a melhor metodologia a ser utilizada. Passo 8 - Identificar as melhorias necessárias ao processo a. Devemos identificar qual a missão do processo para avaliar se não estamos fazendo demais ou de menos. O importante é obter resultados com eficiência e eficácia b. Durante a identificação das diversas atividades do processo devemos já identificar problemas e não conformidades a serem corrigidas (conhecimento de valor agregado neste momento é muito importante, tal qual os sete desperdícios, que serão visto adiante). c. Os problemas identificados devem ser priorizados (por meio de uma matriz GUT ou do gráfico a seguir, por exemplo) e soluções para eles devem ser pesquisadas. Figura 13 – Matriz severidade versus impacto Passo 9 - Conciliar melhorias a serem aplicadas ao processo a. Em função dos objetivos do processo devemos escolher as soluções que mais foquem atingir resultados. b. As soluções identificadas devem ser debatidas com os envolvidos no processo até que se obtenha consenso. c. Um plano de ação deve ser elaborado no modelo 5W2H (por exemplo) para implantação das soluções. d. As ações planejadas devem ser acompanhadas para se garantir que realmente sejam implantadas e sejam eficazes. Passo 10 - Documentar o processo revisado a. O processo revisado deve ser documentado e aprovado pelos envolvidos. b. As ferramentas e a metodologia utilizadas podem ser diferentes da documentação inicial caso se tenha percebido que outra metodologia ou ferramenta é mais adequada. c. Esta alteração de metodologia e ferramenta só deve ser feita na análise do primeiro processo. Todos os processos documentados devem ser consistentes e ao final usarem a mesma linguagem (padrão). d. Os processos devem ter as conexões entre eles claramente identificadas. 19 TROCANDO IDEIAS O exercício proposto tem como objetivo fazer com que alguns conceitos de mapeamento sejam praticados. Considere o processo de fazer pipoca na panela. Imagine passo a passo o que você faria e identifique: Fornecedores Entradas (insumos) Atividades do processo Saídas (produto) Clientes. Neste momento, não se preocupe com padrões de simbologia, utilize uma simbologia macro conforme sugestão abaixo. Para melhor distribuição dos elementos, deixe um espaço maior para os itens de processo ou faça-os fora do fluxo. Faça-o sem ver a possível solução. Figura 14 – Sugestão de solução da atividade Fonte: Comexito.com.br, S.d. Compare a sua proposta com as propostas de outros alunos. 20 Figura 15 – Solução ao exercício "Fazer Pipoca na Panela" Fonte: Comexito.com.br, S.d. 21 NA PRÁTICA Nesta aula deverá ser analisado um artigo referente à aplicação dos conceitos previamente estudados. Após a análise, algumas atividades deverão ser realizadas conforme orientação a seguir. a. Leia o artigo atentamente acessando o link: <http://blog.iprocess.com.br/2014/01/a-diferenca-entre-desenhar-e- modelar-processos/>. b. Identifique no texto de aprendizagem conceitos que se associam ao texto proposto. c. Realize as atividades indicadas a seguir: 1. “Não basta saber usar o editor de texto para ser um bom escritor” (Sganderla, 2014). Fazendo uma analogia com mapeamento/modelagem de processos, o que a autora quisdizer? 2. No artigo, a autora traça um paralelo entre a escrita e a modelagem de processo para construção de uma habilidade prática. Quais são os pontos relevantes para se obter essa habilidade? 3. A autora cita alguns cuidados que o profissional de mapeamento de processos deve ter ao modelar um processo. Entre eles, o de “criar modelos limpos. O que isso significa? Análise do Artigo 1. Ela quis dizer que o que ocorre com a escrita também ocorre com o mapeamento de processos. Não adianta apenas conhecer as notações de processo, é necessário adquirir técnicas para mapear de forma eficaz. 2. Os pontos mencionados pela autora são: ● desenhar os processos; ● após concebê-los, fazer a leitura sob a ótica do leitor; ● validar a gramática e a lógica dos fluxos representados em conjunto com a pessoa interessada; ● após a validação do “cliente”, se possível fazer uma avaliação com os demais analistas no sentido de verificar possíveis alterações para melhorar a interpretação. 22 3. Na elaboração de um diagrama de processo, deve-se pensar nas pessoas que irão analisá-lo, portanto ele deve ser de interpretação fácil. Você pode obter essa clareza de interpretação evitando desenhar linhas sobre linhas, cruzamento de linhas, descontinuidade de fluxo etc. Outra dica para se conceber modelos limpos é a de usar nomes breves e objetivos para os eventos/atividades. FINALIZANDO O propósito desta rota foi aguçar os conceitos de gestão por processos, diagramas, mapeamento de processos e modelagem de processos, pois frequentemente ocorrem dúvidas a respeito desses elementos, tanto da parte acadêmica quanto da parte empresarial. Outro objetivo foi apresentar as principais notações de mapeamento de processos. De entendimento quase que geral, o fluxograma é disparado a notação mais utilizada; no entanto existem várias outras, inclusive a baseada no BPMN que começa a ser utilizado em algumas empresas. Para que o administrador ou o profissional de modelagem de processos consiga implantar o mapeamento de processos, foram abordados os principais passos a serem seguidos. Mais uma vez foi ressaltado que o entendimento dos fluxos de processos é primordial na meta de se implantar a gestão por processos em uma organização e o cuidado que se deve ter com softwares que são vendidos como solução para gestão por processos. 23 REFERÊNCIAS ABPMP BRASIL. CBKOV-V 2.0. ABMP, 2014. BPMN – BUSINESS PROCESS MODEL AND NOTATION. Disponível em: <http://www.bpmn.org/>. Acesso em: 3 abr. 2018. DEMING, W. E. A Nova Economia. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1997. E. WILDAWER; L. WILDAWER, D. B. S. Mapeamento de Processos: conceitos, técnicas e ferramentas. Curitiba: InterSaberes, 2015. LOBATO, K. C. D.; LIMA, J. P. Caracterização e avaliação de processos de seleção de resíduos sólidos urbanos por meio da técnica de mapeamento. Engenharia Sanitária e Ambiental, Rio de Janeiro, v. 15, n. 4, out/dez. 2010, p. 347-356. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413- 41522010000400007&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 3 abr. 2018. PAIM, R.; CARDOSO, V.; CAULLIRAUX, H.; CLEMENTE, R. Gestão de processos: pensar, agir e aprender. Porto Alegre: Bookman, 2009. PAVANI JUNIOR, O.; SCUCUGLIA, R. Mapeamento e gestão por processos: BPM. São Paulo: MBooks, 2011. SMITH, H.; FINGAR, P. Business Process Management: the third wave. Tampa: Meghan-Kiffer Press, 2007 SGANDERLA, K. A diferença entre “desenhar” e “modelar” processos. Iprocess Soluções em tecnologia, 22 jan. 2014. Disponível em: <http://blog.iprocess.com.br/2014/01/a-diferenca-entre-desenhar-e-modelar- processos/>. Acesso em: 3 abr. 2018. STADLER, A.; MUNHOZ, A.; GUERREIRO, K.; FERREIRA, P. Gestão de processos com suporte em tecnologia da informação. Curitiba: InterSaberes 2013. TEIXEIRA NETO, F. Pensamento sistêmico. FNQ, 18 maio 2015. Disponível em: <http://www.fnq.org.br/informe-se/artigos-e- entrevistas/artigos/pensamento-sistemico>. Acesso em: 10 abr. 2018. GESTÃO E MAPEAMENTO DE PROCESSOS AULA 3 Prof. Roberto Candido Pansonato 2 CONVERSA INICIAL Por conta das aulas anteriores, neste momento você já é capaz de conhecer e diferenciar o que é gestão por processos, mapeamento de processos e modelagem de processos. Também foram apresentadas as principais notações para modelagem de processos (BPMN, fluxograma, SIPOC, cadeia de valor e mapeamento do fluxo de valor). Você aprendeu como ocorrem as dificuldades de se identificarem as entradas e saídas de um processo bem como os tipos de abordagem (efeito chuveiro e efeito bidê) e, por fim, viu também os dez passos para mapear e modelar um processo (utilize essas informações sempre que tiver que mapear um processo). Nesta aula serão discutidos assuntos relativos à geração de valor para o cliente e às fontes de desperdício. Para esta aula, estão previstos os seguintes temas: 1. Desperdício e valor; 2. Histórico STP; 3. Os sete desperdícios; 4. Agregação de valor e lead time; 5. Cadeia de valor. CONTEXTUALIZANDO Utilizando o exemplo a seguir, onde foram identificados os principais elementos de um processo, é possível constatar que, na ponta final do “mapa”, estão os clientes. 3 Figura 1 – Exemplo básico de SIPOC Fonte: Com Êxito, 2018. Note que são três clientes distintos: a. O estudante, que no intervalo das aulas se alimenta da pipoca para sanar sua fome. b. O frequentador de cinema, que antes do início do filme adquire o produto para consumi-lo durante a reprodução do mesmo. c. A turma do sofá, que geralmente são pessoas que se agrupam para conversar, assistir filmes, futebol ou outro programa na televisão enquanto comem pipoca. Do ponto de vista da perspectiva de valor pelos clientes mencionados no exercício, pode-se dizer que: a. ( ) Os clientes estão consumindo o produto devido às informações obtidas referentes aos benefícios nutricionais; b. ( ) O frequentador de cinema compra o produto porque é o mais adequado, barato e nutritivo para se consumir dentro do cinema; c. ( ) A turma do sofá consome este produto como forma de substituição de uma refeição tradicional, como o jantar, por exemplo. d. ( ) O estudante, o frequentador de cinema bem como a turma do sofá têm valores diferenciados quanto ao consumo do produto; 4 e. ( ) A pipoca é um produto tradicional e todos possuem uma definição de valor similar. Análise Diferente do que muitos pensam, não é a empresa e sim o cliente que define o que é valor em um produto ou serviço. Para ele, a necessidade gera o valor, e cabe ás empresas identificar qual é a necessidade, procurar satisfazê-la e cobrar por isso um preço específico, a fim de manter a empresa no negócio e aumentar seus lucros através da melhoria contínua dos processos, da redução de custos e do aperfeiçoamento da qualidade. Portanto, para cada cliente haverá uma perspectiva de valor diferente (alternativa correta: “d”). TEMA 1 – DESPERDÍCIO E VALOR O mapeamento de processos tem como objetivo compreender os processos existentes, propor modificações relevantes para melhorar o nível de atendimento ao cliente e aumentar o desempenho do negócio. Esse conceito já é de seu conhecimento, no entanto como proceder após mapear um processo no estado atual (As-Is)? Parece fácil, mas propor melhorias que realmente agreguem valor ao processo não é tão simples, pois, além de enxergar os desperdícios, é necessário que se crie nas empresas uma cultura de combate a eles. E é aí que as coisas se complicam um pouco, principalmente em se referindo à cultura brasileira. Antes de entrar na discussão relativa ao desperdício, gostaria de conceituar a diferença entre desperdício e perda. Embora parecem sinônimos, existe uma diferença peculiar entre ambos.Segundo o Dicionário Aurélio: “Desperdício: Despesa inútil e censurável, Esbanjamento [...] Perda: Carência, privação do que se possuía”. Para ilustrar melhor estes significados, seguem duas figuras que vão ajudar a entender melhor: 5 Figuras 2.1 e 2.2 – A diferença entre desperdício e perda Fonte: Boris Franz/Shutterstock; Slavoljub Pantelic/Shutterstock. Conforme se pode deduzir, a Figura 2.1 mostra que existe perda pelos diversos furos no balde onde se desvia a água, necessitando ser recomposto para se manter a condição de cheio. Na Figura 2.2, nota-se que o balde recebe mais água do que pode comportar, resultando no transbordamento. A equivalência entre os dois é que ambos consomem mais água do que o supostamente necessário. A diferença entre as duas situações é que o desperdício se manifesta de formas diferentes: para o caso 1 (perda), é necessário encher mais o balde para compensar a água que vazará pelos furos. Isso quer dizer que não se conseguirá atingir o nível máximo do balde. Com relação ao caso 2 (desperdício), é despejado mais água do que o balde consegue acomodar. Isso quer dizer que está sendo fornecida mais água do que seria o necessário para encher o balde. Para a tomada de decisões no modelamento do estado futuro (to be), ambos dão sinais que precisam ser eliminados. O objetivo desta reflexão é entender qual abordagem deve ser considerada. Se considerarmos o balde como uma representação dos ativos (máquinas, instalações, etc.) de uma fábrica e a água como os recursos financeiros da empresa, vemos que esses dois sintomas diferentes podem ter remédios diferentes. Em linhas gerais, ambientes com muitas perdas pedem uma abordagem Kaizen mais focada na gestão de ativos, buscando atingir o nível máximo de desempenho (Ex.: projeto de Total Productive Maintenance – TPM), enquanto ambientes com muito desperdício pedem uma abordagem Kaizen mais focada em fluxo de materiais ou informações, buscando a eliminação dos esforços extras e desnecessários despendidos pela empresa. 6 Voltando ao tema desperdício, que é o nosso grande problema, é fato verificar como isso ocorre de norte a sul do Brasil. Exemplos não faltam, desde os serviços públicos, construção civil, consumo de alimentos nas grandes cidades até os desperdícios de água e energia elétrica, os quais estão afetando diretamente o dia a dia dos cidadãos. Invariavelmente, essa cultura, com algumas exceções, migra para as empresas e causa grandes prejuízos a todos, acarretando perda de competitividade em relação a empresas no exterior e custos mais altos também no mercado doméstico. TEMA 2 – HISTÓRICO STP A indústria automobilística foi e ainda é um grande laboratório no que diz respeito ao emprego de conceitos e técnicas de administração da produção. Começando por Henry Ford, que concebeu o modelo “T” em 1908 e deu o início à produção em massa, passando por Frederick Taylor, que criou o taylorismo (estudo científico da tarefa), também conhecido como administração científica até chegar ao Sistema Toyota de Produção (STP), que será o foco dos estudos relativos a desperdícios e valor. Vale ressaltar que os conceitos e os trabalhos realizados anteriormente (Ford, Fayol, Taylor, etc.) formam a base de muitos conceitos administrativos que se utilizam atualmente, inclusive o STP. Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão passava por dificuldades econômicas. No ano de 1950, Eijy Toyoda, então presidente da Toyota, visita os Estados Unidos com o objetivo de verificar o modelo americano de fabricação de automóveis, que na época trabalhava com volumes de produção altíssimos. Para se ter uma ideia, na visita realizada em uma das plantas da Ford, ele recebe a informação de que a planta visitada chegou a produzir 7.000 veículos em um só dia, enquanto a Toyota naquele ano produziria 2.685 carros. A Ford, naquela época, possuía dinheiro e um grande mercado, tanto doméstico quanto internacional. Um dos principais objetivos era produzir veículos em grande escala e com número limitado de modelos. Essa é uma das razões pelas quais os modelos “T” originariamente eram de cor preta. Em contrapartida, a Toyota precisava fabricar pequenos volumes de modelos diferentes utilizando a mesma linha de montagem, pois a demanda dos consumidores era muito baixa para sustentar linhas de montagem dedicadas a um só modelo de veículo. De volta ao Japão, Eijy Toyoda e Taiichi Ohno chegam à conclusão de que o sistema de produção americano jamais funcionaria no Japão. A partir daí, 7 iniciam-se na Toyota vários estudos que mais tarde se tornariam os princípios do Sistema Toyota de Produção, entre eles: kanban, sistema just in time, 5S, fluxo unitário de peças, células de trabalho etc. e, principalmente, o combate incansável aos desperdícios, também conhecido como muda no idioma japonês. Abaixo segue um exemplo de um diagrama conhecido como “Casa do STP”. A incorporação de uma casa como um diagrama é devido à casa ser um sistema estrutural. A casa só é forte se o telhado, as colunas e as fundações são fortes. Uma conexão fraca fragiliza todo sistema. Há várias versões da casa, porém os princípios fundamentais permanecem os mesmos. Figura 3 – A “casa” do STP – Sistema Toyota de Produção Fonte: A Casa..., 2010. Gostaria de ressaltar que um dos objetivos do mapeamento, além de identificar tarefas, atividades e processos, é a de proporcionar melhoria na modelagem e, nessa etapa, os desperdícios devem ser identificados. No período entre 2006 a 2009, quando visitei o Japão a trabalho, tive a oportunidade de verificar de perto e aprender com os japoneses como é feita a abordagem para eliminação dos desperdícios. 2.1 Produção enxuta De acordo com Womack, Jones e Roos (2004), “após a segunda guerra mundial a indústria japonesa desenvolveu um conjunto de novas práticas de 8 manufatura que alavancaram sua competitividade global: trata-se das técnicas da produção enxuta”. Para Womack e Jones (2004), “a palavra alvo da produção enxuta é desperdício, definida como qualquer atividade que absorve recursos e não agrega valor”. Taiichi Ohno (1912-1990), renomado executivo da Toyota, classificou os desperdícios em 7 categorias, que serão vistas adiante. 2.2 Princípios enxutos Para o combate aos desperdícios, felizmente existe uma arma poderosa: o pensamento enxuto. Seguem os princípios que dão sustentação ao pensamento enxuto, definidos por Womack, Jones e Roos (2004). a Valor: a produção enxuta busca eliminar as fontes de desperdícios e criar valor, portanto o ponto de partida do pensamento enxuto é o valor. O valor só pode ser definido pelo cliente, caso contrário corre-se o risco de fornecer eficientemente para o cliente algo que ele efetivamente não deseja. b. Cadeia de valor: a cadeia de valor implica em enxergar o todo. Em geral, o mapeamento da cadeia de valor mostra que ocorrem três tipos de atividades ao longo de sua extensão, ou seja, as atividades que certamente criam valor, as atividades que não criam valor mas que são necessárias e as atividades que não criam valor e que não são necessárias, devendo, portanto ser imediatamente eliminadas. c. Produção puxada: na produção puxada um processo será acionado somente quando o processo seguinte solicitar. O objetivo é construir um processo para fazer somente o que o próximo processo necessita e quando necessita, ou seja, o cliente é quem deve puxar o produto, puxar a produção e puxar o valor; caso contrário os processos fornecedores tenderão a fazer o que os clientes não precisam naquele momento, levando com essa prática ao excesso de produção, á formação de estoques desnecessários, á produção empurrada e consequentemente ao desperdício. d. Fluxo de valor enxuto: especificado o valor com exatidão, mapeada a cadeia de valor e estabelecida a produção puxada, é necessário fazer com queas atividades que criam valor fluam em um fluxo de valor contínuo e estável, o chamado fluxo de valor enxuto. Nesta concepção, os produtos deveriam sempre fluir em fluxo enxuto da matéria prima ao cliente final, sem movimentos inúteis, sem interrupções e sem lotes intermediários. e. Perfeição: à medida que os princípios anteriores sejam alcançados, ocorrerá a todos os envolvidos que as oportunidades de redução de esforço, de tempo e de custo são infinitas, proporcionando a empresa fornecer produtos do mais alto nível e mais próximo daquilo que o cliente almeja TEMA 3 – OS SETE DESPERDÍCIOS Conforme citado anteriormente, a Toyota identificou sete grandes tipos de desperdícios sem agregação de valor nos processos administrativos ou de 9 produção. O reconhecimento por parte do administrador dessas sete categorias é de suma importância no procedimento de mapeamento de processos. Esse conhecimento permite que se tenha o poder de discernimento entre o que é valor e o que é desperdício. Segundo Rother e Shook (2009), “o mapeamento do fluxo de valor ajuda a identificar mais do que os desperdícios. Mapear ajuda a identificar as fontes de desperdício no fluxo de valor”. Algumas literaturas adicionaram um oitavo desperdício aos já catalogados pelo STP (conforme descrito na sequência). Seguem os principais desperdícios identificados pela Toyota. 3.1 Superprodução Produzir mais do que a demanda prevista. Com excesso de produção, há perda com mão de obra, custos com transporte e armazenagem desnecessária devido ao excesso de estoque. Figura 4 – Superprodução 3.2 Espera (tempo sem trabalho) Funcionários que servem apenas para vigiar uma máquina automática ou que ficam esperando pelo próximo passo no processamento, suprimento, peça etc., ou que simplesmente não têm trabalho para fazer devido à falta de estoque, atrasos no processamento, interrupção de funcionamento de equipamento e gargalos de capacidade (desbalanceamento). Figura 5 – Espera 10 3.3 Transporte ou movimentação desnecessários Movimento de estoque em processo em longas distâncias, criação de transporte ineficiente ou movimentação de materiais, peças ou produtos acabados para dentro ou fora do estoque ou entre processos sem necessidade. Figura 6 – Transporte 3.4 Excesso de processo ou processo incorreto Passos desnecessários para processar peças ou serviços. Processamento ineficiente devido a uma ferramenta ou projeto de baixa qualidade do produto, causando movimento desnecessário e produzindo defeitos. Geram-se perdas quando se oferecem produtos com características superiores às que são necessárias. 3.5 Excesso de estoque Excesso de matéria-prima, de estoque em processo ou de produtos acabados, causando longos lead times, obsolescência, produtos danificados, 11 custos com transporte, armazenagem e atrasos. Além disso, o estoque em excesso oculta problemas, como desbalanceamento de produção, entregas atrasadas dos fornecedores, equipamentos em conserto e longo tempo de setup (preparação). Figura 7 – Excesso de estoque 3.6 Movimento desnecessário Qualquer movimento inútil que os funcionários tenham que fazer durante o trabalho, tais como procurar, pegar ou empilhar peças, ferramentas, etc. Caminhar também é perda. Figura 8 – Movimento desnecessário 12 3.7 Defeitos (retrabalho) Produção de peças defeituosas ou correção. Consertar ou retrabalhar, descartar ou substituir a produção por inspeção significam desperdícios com manuseio, tempo e esforço. Figura 9 – Retrabalho 3.8 Má utilização do pessoal (desperdício de criatividade) (este item não faz parte dos tipos de desperdícios catalogados pela Toyota) Perda de ideias, habilidades, melhorias e oportunidades de aprendizagem devido ao não ouvir os funcionários. Figura 10 – Má utilização de pessoal Por mais paradoxal que seja para um gestor, principalmente o gestor da produção, Ohno considerava o desperdício relativo à superprodução como o principal deles, pois gera a maioria dos outros tipos de desperdícios. 13 TEMA 4 – AGREGAÇÃO DE VALOR E LEAD TIME A figura a seguir mostra um processo de transformação muito simples onde é possível verificar a disparidade entre tempos de valor agregado e valor não agregado. Figura 11 – Disparidade entre tempos de valor agregado e valor não agregado Fonte: Liker, 2005, p. 49. Constatamos que o que agrega valor é o que realmente importa ao cliente. A isto é designado o termo de valor agregado, ou seja, tempo dos elementos que efetivamente transformem o produto ou serviço de uma maneira que o cliente esteja disposto a pagar. Outro elemento, o lead time, refere-se ao tempo que um produto ou um serviço leva para mover-se ao longo de todo um processo ou um fluxo de valor, desde o começo até o fim. O terceiro elemento, o tempo de processamento, é o tempo que um produto ou um serviço é realmente completado em um processo. Para entendermos melhor este conjunto de elementos, vejam o exemplo abaixo: • Fagundes foi ao banco pagar uma conta. Do momento em que ele entrou no banco até a sua saída, percorreram-se 45 minutos. O tempo de 14 atendimento foi de 5 minutos. Associando este acontecimento aos elementos acima, temos o seguinte: • Tempo de fila + atendimento = lead time (45 min.); • Tempo de atendimento = tempo de processamento (5 min.) • Valor agregado para o cliente = 5 min.) • % do valor agregado = Tempo de processamento / lead time *100 Para este caso específico, o cálculo é = 5 min. / 45 min. * 100 = 11,1%, ou seja, de todo tempo gasto neste processo, apenas 11,1% agregaram valor ao que o cliente realmente queria, que era pagar a sua conta. Os conceitos de valor e desperdícios muitas vezes remetem aos gestores a recorrerem erroneamente a literaturas e publicações que defendem que o STP é um conjunto de ferramentas que levam a operações mais eficientes. Não é como uma receita médica, pronta para atacar sintomas de ineficiência. De maneira mais ampla, o STP está relacionado a princípios. O foco está na fábrica, porém os princípios são amplos e aplicam-se em áreas como engenharia e administração, tanto na manufatura quanto a serviços. Figura 12 – Princípios administrativos De acordo com Liker (2005), “Basear as decisões administrativas em uma filosofia de longo prazo, mesmo que em detrimento de metas financeiras de curto prazo”. 15 TEMA 5 – CADEIA DE VALOR Num pensamento mais amplo, devemos considerar que é premissa que nenhuma empresa sobrevive sem lucro. Para alcançar este objetivo comum a todas as empresas, há dois caminhos a serem percorridos: a. Aumentar o preço de venda; b. Reduzir o custo. Nos dias de hoje, com a competitividade entre as empresas cada vez maior e com um consumidor mais crítico quando ao custo e a qualidade, torna- se quase que impossível concentrar-se na opção “a”, ou seja, aumentar o preço de venda. Resta então a opção “b”, que é a de reduzir o custo, mas para que isso ocorra, é necessária a redução dos desperdícios, a percepção do que é valor para o cliente e o entendimento de como funciona a cadeia de valor. 5.1 Definição de cadeia de valor Introduzido por Michael Porter em 1985, a ideia de cadeia de valor compreende um conjunto de atividades desempenhadas por uma organização, desde as funções de fornecimento, passando pelos ciclos de manufatura até a distribuição final e tem como objetivo identificar os principais processos dentro de uma organização. Baseia-se em um diagrama que representa uma visão macro de uma empresa, com a identificação das atividades primárias e de apoio, como veremos a seguir. Também tem por característica não se limitar à própria organização, expandindo as relações até os fornecedores e os distribuidores. 5.2 Identificação da cadeia de valor Uma forma eficiente de identificartais atividades é analisar que quanto mais pessoas e áreas funcionais participarem de um processo, ou quanto mais níveis de aprovação existirem, maior a probabilidade de esse processo conter alta proporção de trabalhos que não agregam valor. Em muitos casos, os processos administrativos e de apoio têm mais atividades que não agregam valor do que os processos diretamente ligados à fabricação de um produto ou de prestação 16 de um serviço a um cliente. Quanto mais demorados os processos, maior a probabilidade de eles conterem etapas que não agregam nenhum valor. Segundo Dias (2005, p. 81), “a cadeia generalista de Porter é composta pelos conjuntos de atividades primárias e de atividades de apoio desempenhadas por uma organização, pela margem de valor acrescentado em cada uma das atividades e pelas relações estabelecidas entre si”. A seguir vamos entender em detalhes a identificação proposta por Porter. 5.2.1 Atividades primárias As atividades primárias relacionam-se diretamente com a elaboração física de um determinado bem, venda, manutenção e suporte de um produto ou serviço. As atividades primárias são as seguintes: a. Logística de entrada: Todos os processos relacionados com a recepção, controle de inventário, armazenagem de insumos, etc. Neste ponto, as relações com os fornecedores são um fator decisivo para a criação de valor. b. Operações: Atividades relacionadas com a transformação das matérias-primas em componentes ou produtos finais. Inclui maquinaria, embalagens, montagens e outras atividades de criação de valor que transformam inputs no produto final (outputs), para ser vendido aos clientes. c. Logística de saída: São as atividades associadas com a entrega do produto ou serviço ao cliente, incluindo sistemas de recolha, armazenamento e distribuição e podem ser internos ou externos à organização. d. Marketing e Vendas: Atividades relacionadas com a comercialização e a promoção do produto. São os processos que a empresa utiliza para convencer os clientes a comprarem os seus produtos ou serviços. As fontes de criação de valor aqui são os benefícios que se oferecem e o modo como os transmitem. e. Serviço: Atividades relacionadas com o serviço pós-venda que acrescentam valor ao produto oferecido. Referem-se a atividades que mantêm e aumentam o valor dos produtos ou serviços após a compra. Aqui, incluem-se o apoio ao cliente, serviços de reparação e/ou instalação, formação, atualizações, etc. (Porter, 1989). 5.2.2 Atividades de apoio ou suporte As atividades de apoio ou suporte, como o próprio nome diz, têm a função de suportar as atividades primárias. Conforme Porter (1989), são as seguintes: a. Infraestrutura: atividades relacionadas com a gestão global e a gestão da rede de relacionamentos da organização (planejamento, gestão da qualidade, administração, contabilidade, finanças); b. Gestão de Recursos Humanos: atividades associadas ao recrutamento, desenvolvimento (educação / treinamento), retenção e compensação de colaboradores e gestores. Uma vez que as pessoas são uma fonte de valor significativa, as empresas podem criar grandes vantagens se utilizarem boas práticas de RH. 17 c. Desenvolvimento Tecnológico: investimento aplicado em tecnologia que contribui para a melhoria dos produtos ou processos. Inclui o desenvolvimento tecnológico para apoiar as atividades da cadeia de valor, como Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), automação de processos, design, etc. d. Aquisição: atividades relacionadas com a compra de matérias- primas e outros inputs. Abrange todos os processos que a empresa realiza para adquirir os recursos necessários para se trabalhar: aquisição de matérias-primas, serviços, edifícios, máquinas, etc. Aqui também se inclui encontrar fornecedores com qualidade e negociar os melhores preços. Figura 13 – Esquema da cadeia de valor de Porter Fonte: Porter, 1989. 5.2.3 Margem Como mencionado anteriormente, a formação do preço de um produto passa obrigatoriamente pelo entendimento de valor do cliente. Não vamos entrar no detalhamento entre lucro (valor que sobra após todos os custos e despesas, sendo este positivo) e margem (diferença entre o valor de compra ou de produção de um produto e o valor de venda), no entanto, na cadeia de valor de Porter, margem é o valor que consiste no montante que os compradores estão dispostos a pagar pelo produto que uma organização oferece. Uma organização é rentável se o valor que o produto representa para o comprador é superior ao valor envolvido na sua criação. “A margem é a diferença entre o valor total e o custo coletivo da execução das atividades de valor” (Dias, 2005, p. 145). 5.2.4 Como utilizar a cadeia de valor de Porter (resumo) Os seguintes passos são necessários para identificação e compreensão da cadeia de valor em uma empresa: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cadeia_de_valor#refDias2005 18 1. Identificar as subatividades para cada atividade primária e determinar que subatividades específicas criam valor. Deve ter em conta que existem 3 tipos diferentes de subatividades: Atividades diretas: criam valor por si próprias Atividades indiretas: permitem que as atividades diretas funcionem sem problemas Atividades de garantia de qualidade: asseguram que as atividades anteriores cumprem os padrões necessários. 2. Identificar as subatividades para cada atividade de apoio. Determinar as subatividades que criam valor dentro de cada atividade primária. Por exemplo, como é que a gestão de recursos humanos pode criar valor na logística de entrada, operações, logística de saída, etc. Também aqui deve tentar encontrar atividades diretas, indiretas e de garantia de qualidade. Depois identifique as subatividades que criam valor na infraestrutura da empresa. 3. Identificar ligações. Encontrar as ligações entre todas as atividades de valor identificadas. Vai demorar tempo, mas estas ligações são cruciais no aumento da vantagem competitiva da estrutura da cadeia de valor. 4. Procurar oportunidades para aumentar o valor. Rever cada uma das subatividades e ligações identificados e pense como é que pode mudá-las ou melhorá-las de modo a maximizar o valor que oferece aos seus clientes. 5.2.5 Análise do fluxo de valor Para análise do fluxo de valor em uma empresa, deve-se identificar e separar os processos que efetivamente geram valor para o cliente (tanto externo quanto interno) daqueles que não agregam valor. Os primeiros devem ser maximizados e os demais, minimizados. Os que não geram valor e não são necessários para manutenção dos negócios da empresa devem ser eliminados. Após a identificação, separação e eliminação dos processos que agregam e não agregam valor, tem-se como premissa que os processos devam fluir dentro das organizações de uma maneira contínua, ou seja, obter uma fluidez. A visão de fluidez e continuidade dos processos organizacionais é comparada com a água que corre num rio, pelos autores Tapping e Shuker (2010) no livro Lean Office: gerenciamento do fluxo de valor para áreas administrativas. O fluxo de valor pode ser comparado ao fluxo de um rio onde não haja restrições e curvas acentuadas, de modo que a água corra tranquilamente e sempre num só sentido (sem retorno). Algumas empresas de origem japonesa fazem o uso do termo nagarê, que, em japonês, significa “correnteza, movimento ininterrupto” e é nisso que um sistema de fluxo de valor consiste. O que quer que esteja abaixo, na corrente, receberá, sem grande esforço, o fluxo vindo de cima. Cada processo da organização pode ser encarado como parte do rio na medida em que passa o resultado de seu trabalho (saída) para o próximo cliente interno da corrente. No gerenciamento do fluxo de valor, é desejável que as unidades de trabalho 19 fluam até os consumidores tão tranquilamente quanto possível, no entanto o que ocorre na prática (pelo menos na grande maioria das empresas)é existência de curvas acentuadas e restrições no processo que impedem esse fluxo tranquilo e contínuo. Para se chegar a essa fluidez nos processos, é necessário utilizar princípios e ferramentas adequadas, as quais serão apresentadas no decorrer dos nossos estudos. TROCANDO IDEIAS Nesta aula foi mencionado o caso da fila de um banco como exemplo de não agregação de valor. Para complementação dos nossos estudos, segue o resumo de um processo para abertura de uma microempresa com as principais atividades. O objetivo não é o de apenas e tão somente criar um ambiente crítico ao formato utilizado no Brasil, mas principalmente que vocês exercitem a observação dos processos e os avaliem em função do que vimos nesta aula, determinando quais atividades agregam valor (A) e quais não agregam valor (NA). Os processos foram descritos em forma de tabela para facilitar o entendimento. Eventualmente alguma atividade pode ter sido descartada, porém como o objetivo desse exercício é acadêmico, não afetará o resultado. Após o preenchimento das colunas “A” e “NA”, compartilhe com outros colegas e compare os resultados. 20 Tabela 1 – Esboço de um processo para abertura de uma microempresa Fonte: Passo..., 2017. Saiba mais Para aprimorar o conhecimento, leia as páginas 105 e 151 do seguinte livro, disponível na biblioteca virtual: WILDAWER, W. E.; WILDAWER, L. D. B. S. Mapeamento de processos: conceitos, técnicas e ferramentas. Curitiba: InterSaberes, 2015 NA PRÁTICA Muito se fala em redução de desperdícios, porém na prática do dia a dia não é bem isso que se vê. Desperdícios são observados nas mais diversas áreas, começando com o manuseio de alimentos, que é algo vital para a sobrevivência do ser humano. Segundo a Embrapa (Cruz, 2016), “40.000 ton. de 21 alimentos são desperdiçados por dia no Brasil”. Na construção civil, com processos nem um pouco otimizados, há um grande desperdício na utilização de materiais, e, como mais um exemplo, temos também o desperdício de água potável no Brasil, que segundo a ONU, está em torno de 40% do potencial hídrico. O exemplo apresentado no artigo “Reduza desperdícios na panificação com a pré-pesagem” mostra de forma simples uma forma de reduzir desperdício na panificação. Leia o artigo para responder às questões sobre ele, disponível em <http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/reduza-desperdicios- na-panificacao-com-a-pre- pesagem,e97c9a6053947510VgnVCM1000004c00210aRCRD>. 1. Quais dos tipos desperdícios estudados nessa aula foram utilizados nesse caso? 2. Qual a dificuldade de se implantar esse tipo de melhoria? FINALIZANDO Desperdício e valor, no contexto de mapeamento de processos, estão em posições opostas. Por que o que parece tão óbvio, como distinguir o que é valor para o cliente e o que é desperdício, normalmente deixa de ser atacado pelas empresas? As respostas poderiam ser falta de foco, ausência de uma cultura de combate aos desperdícios, não reconhecimento das reais necessidades dos clientes etc. O exemplo do forte trabalho de eliminação de desperdícios executado pela Toyota reforça a necessidade de se inserir esse item como uma das metas do gestor. Mais do que isso, vale ressaltar que não basta apenas combater o desperdício; é necessário também verificar onde ele ocorre e eliminá-lo de forma sistêmica, para que não volte a ocorrer. Por experiência, muitas vezes as empresas tentam iniciar um programa baseado na cultura STP (ou just in iime, ou lean manufacturing, ou produção enxuta, como queiram denominar), no entanto o que acontece é uma abordagem totalmente ineficaz, em que se atacam pontos isolados de um processo macro, e os resultados prosperam apenas por um espaço curto de tempo. Como o resultado não atende aos objetivos imediatistas da empresa, o programa é abandonado e normalmente se ouve o seguinte: “os conceitos do TPS não funcionam nesta empresa”. 22 Entender o que o cliente de fato deseja e trabalhar para que seus desejos sejam realizados também é crucial na gestão de uma organização. É nesse ponto que se começa a entender o conceito de valor e como ele se relaciona com o cliente. De posse dos conhecimentos de como eliminar os desperdícios e de como gerar valor aos clientes, fica muito mais fácil e “agradável” partir para o mapeamento de processos. Segundo Rother e Shook (2009), no livro Aprendendo a enxergar, “sempre que há um produto para um cliente, há um fluxo de valor. O desafio é enxergá-lo”. 23 REFERÊNCIAS A “CASA” do STP – Sistema Toyota de Produção. Blog do David, 20 jun. 2010. Disponível em: <https://davidkond.wordpress.com/2010/06/28/casastp/>. Acesso em: 28 maio 2018. COM ÊXITO – CURSOS GRAVADOS. Disponível em: <http://comexito.com.br/>. Acesso em: 28 maio 2018. CRUZ, E. P. Brasil desperdiça 41 mil toneladas de alimento por ano, diz entidade. Agência Brasil, 30 jun. 2016. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2016-06/brasil-desperdica- 40-mil-toneladas-de-alimento-por-dia-diz-entidade>. Acesso em: 28 maio 2018. DIAS, J. C. Q. Logística global e macrologística. Lisboa: Edições Sílabo, 2005. FERREIRA, A. B. H. 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São Paulo: Lean Institute Brasil, 2009. 24 SERAFIM, A. O modelo de cadeia de valor de Michael Porter. Portal Gestão, 13 mar. 2013. Disponível em: <https://www.portal-gestao.com/artigos/6991-o- modelo-de-cadeia-de-valor-de-michael-porter.html>. Acesso em: 28 maio 2018. TAPPING, D.; SHUKER, T. Lean Office – Gerenciamento do fluxo de valor para áreas administrativas. São Paulo: Hemus, 2010. WILDAWER, W. E.; WILDAWER, L. D. B. S. Mapeamento de processos: conceitos, técnicas e ferramentas. Curitiba: InterSaberes, 2015. WOMACK, J. P.; JONES, D. l. T.; ROOS, D. A máquina que mudou o mundo. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2004. GESTÃO E MAPEAMENTO DE PROCESSOS AULA 4 Prof. Roberto Candido Pansonato 2 CONVERSA INICIAL Depois de conhecer e compreender o que é desperdício e valor, você já é capaz de começar a elaborar representações gráficas para mapeamento de processos. Na rota anterior, verificamos também o que é valor agregado e lead time (lembram-se do exemplo da fila?); vimos ainda como funciona o conceito de cadeia de valor de Porter, em que se tem uma visão das atividades primárias e de apoio dentro das organizações. Costumo dizer que, como linguagem de expressão do resultado do seu trabalho, as notações para mapeamento de processos, tais como o fluxograma e o mapeamento do fluxo de valor, por exemplo, estão para o analista de processos assim como o desenho mecânico está para o projetista ou engenheiro mecânico. É a principal ferramenta de trabalho para ambos os profissionais. Portanto, após mapear os processos, chegou a hora de traduzi-los para uma linguagem técnica que seja de conhecimentode todos os envolvidos. Por mais que possam parecer fáceis de entender, será que esse entendimento condiz fielmente com as características e os fluxos dos processos? Processos mal desenhados são como textos mal escritos: passam informações confusas, incompletas e que muitas não retratam a realidade do mapeamento. Como foi visto na Aula 2, existem várias linguagens para mapeamento de processos. Para esta aula foram destacadas duas notações importantes: o fluxograma, que, como será visto adiante, possui vários tipos, e o mapeamento do fluxo de valor, também conhecido com VSM, que embora tenha surgido para resolver problemas de manufatura, tem encontrado bastante aplicação na área de serviços. Seguem os principais temas desta aula: 1. Fluxograma de Processo: Representação 2. Fluxograma de Processo: Elaboração 3. Mapa do Fluxo de Valor (VSM): Apresentação 4. Mapa do Fluxo de Valor (VSM): Elaboração 5. Visões no Mapeamento do Fluxo de Valor CONTEXTUALIZANDO Conhecer bem as linguagens e notações para mapeamento de processos pode fazer toda a diferença para um analista de processo, pois para cada processo mapeado poderá ser utilizada uma linguagem específica. O diagrama 3 a seguir é relativo a um mapeamento de um processo simples. Vamos ver se vocês já conhecem alguns símbolos utilizados em fluxogramas? Conforme já foi verificado nas rotas anteriores, pode-se afirmar que: Figura 1 – Trecho de um fluxograma – Exercício I. O ponto 1 refere-se a um caminho natural do processo, enquanto o ponto 2 significa o fim dessa etapa. II. O ponto 3 significa a necessidade de um relatório para que o processo avance, e o ponto 1 refere-se a uma condição de decisão. III. O ponto 2 refere-se a um conector de rotina, enquanto o ponto 3 significa que algum documento deve ser gerado para sequência do processo. IV. O ponto 2 significa um conector de rotina, enquanto o ponto 1 refere-se a uma condição de desvio inerente ao processo. a. ( ) As alternativas I e III estão corretas. b. ( ) As alternativas II e III estão corretas. c. ( ) Somente a alternativa I está correta. d. ( ) As alternativas II e IV estão corretas. e. ( ) Somente a alternativa IV está correta. 4 Análise O exemplo acima é relativo a um fluxograma simples; no entanto, já se pode observar alguns itens que são essenciais à compreensão de um mapa de processos. No caso específico deste exercício, a alternativa “b” é a correta: • O ponto 1 significa uma condição de decisão (normalmente com duas possíveis respostas: sim ou não). • O ponto 2 expressa uma circunstância em que se tem uma referência para “quebra do fluxograma”, ou seja, o processo deve iniciar em outra posição conforme indicado no círculo A. Este recurso é utilizado para evitar cruzamentos (intersecções) de linhas. • Quanto ao ponto 3, é um símbolo que significa que existe algum documento (relatório por exemplo) que deve ser utilizado como um input (entrada) para sequência do processo. TEMA 1 – FLUXOGRAMA DE PROCESSO: REPRESENTAÇÃO Conforme visto anteriormente, um fluxograma é uma linguagem em forma de diagrama que tem como finalidade representar processos ou fluxos de materiais e operações (diagramação lógica ou de fluxo). É uma forma de notação para comunicação de fluxos de processo, entre as várias existentes, talvez a mais simples e com certeza uma das mais utilizadas. Quando se utiliza o termo fluxograma, ocorrem algumas dúvidas referentes a diagrama (ou fluxograma) de blocos, fluxograma de processos, fluxograma funcional, vertical etc. A seguir será apresentada, de forma resumida, uma classificação referente a fluxogramas: a. Diagrama de Blocos: Apresenta uma sequência de atividades contínua e sem envolvimento de decisão. Pode ser utilizado em Instruções de Trabalho Simples ou Macro Fluxo de Processos. No macro fluxo só funciona para demonstrar relações contínuas entre os processos. Nota Os diagramas de blocos são comumente citados quando utilizados em uma linguagem de programação de softwares, que não é o tema desta disciplina. http://www.infoescola.com/administracao_/fluxograma/ 5 Figura 2 – Fluxograma de Blocos b. Fluxograma de Processo Simples: Como já citado anteriormente, mostra as relações entre as fases e necessidades básicas de qualquer processo. Figura 3 – Fluxograma Simples c. Fluxograma Funcional (ou de Raias): Mostra a sequência das atividades de um processo entre as áreas ou seções por onde ele flui. É útil para processos que não se completam em uma única área, pois indica também os responsáveis por cada fase ou função. 6 Figura 4 – Fluxograma Funcional ou de Raias d. Fluxograma Físico ou Geográfico: Mostra o caminho percorrido por um processo no ambiente. É geralmente confeccionado sobre uma planta de um setor de serviços ou da fábrica (similar a um mapa). Figura 5 – Fluxograma Físico 7 e. Fluxograma ANSI: É o mais complexo deles, mas provavelmente o mais completo, apresentando uma relação fiel (se for bem feito) da interação das etapas do processo. Para executá-lo, normalmente começamos com um Diagrama de Blocos e vamos detalhando e incluindo alternativas de tomada de decisão até que tenhamos um “retrato” do processo o mais próximo possível da realidade. Ele possui uma simbologia internacionalmente compreendida, criada pelo American National Standards Institute (ANSI), que será apresentado posteriormente. Figura 6 – Fluxograma Padrão ANSI Fonte: <http://pagotto.wordpress.com>. f. Diagrama Vertical: Mostra uma sequência de eventos (processos) pela qual o produto/serviço passa. O diagrama ilustra os passos do(s) processo(s), seu relacionamento e informações referentes a distância percorrida e tempo das atividades. Normalmente utilizado para pequenos processos de manufatura. 8 Figura 7 – Diagrama Vertical Embora tenhamos uma série de tipos de fluxograma, a sim bologia não tem uma alta rigidez, o que faz com que invariavelmente alguns profissionais utilizem-se de pequenas alterações para poder apresentar um mapeamento de processo. Segue uma simbologia básica para construção de fluxogramas (a mais usual e aceita pela maioria dos modeladores de processos). Quadro 1 – Simbologia pata construção de fluxogramas SÍMBOLO NOME SIGNIFICADO Terminação Utilizado quando queremos indicar o início ou o fim de uma rotina ou de um fluxograma. Operação ou atividade Dentro do símbolo deve ser descrita, de forma sucinta, a operação ou atividade que é realizada. 9 Decisão Símbolo utilizado quando no fluxo de informações existe mais de um caminho a seguir. Neste caso, uma pergunta deve ser feita dentro do símbolo, de forma resumida. As respostas a esta pergunta devem ser preferencialmente sim ou não (saída binária), que nascem em dois ângulos diferenciados e seguem caminhos alternativos. Documento Utilizado quando determinada etapa do processo deve incluir a emissão de um documento impresso (relatório, por exemplo). Dados (computador) Utilizado quando determinada etapa do processo é realizada por meio de uma tela de programa de computador. Subprocesso (interfaces) Indica que toda uma rotina é realizada neste ponto e que, para simplificar o fluxo, esta rotina foi desenhada em outra página ou está em outro arquivo. Área de arquivo físico Representa arquivo definitivo de documentos físicos. Dentro dele deve ser colocado o local de arquivamento. Conector de Rotina ou de Fluxo O conector de rotina permite simplificar a vinculação de sub- rotinas e/ou fluxogramas sem que haja intersecções de linhas. Portanto, dentro do símbolo deve ser colocada uma letra ou outro sinal que permita a identificação de onde se encontra a continuação da rotina. Conector de Página Caso um fluxograma não caiba em umapágina, coloca-se um símbolo para indicar que existe continuação. Dentro do símbolo coloca-se o número da página que dá continuidade ou uma referência para localização. Na outra página, em sentido contrário, coloca-se a referência ou o número da página anterior. Dados Dados digitados e armazenados automaticamente no sistema Banco de dados Banco de dados: Mídia eletrônica. Quando utilizado, deve ser precedido pelo símbolo de digitação de dados do sistema. Não pode ser utilizado no começo e no fim do fluxo. 10 Linha de ponta cheia Mostra a direção do fluxo das atividades, indicando o caminho obrigatório. Não se deve escrever sobre este símbolo. Linha tracejada ponta cheia Mostra a direção obrigatória do fluxo de informação. Não se deve escrever sobre este símbolo. Executante Símbolo utilizado para representar a troca de executante das operações/atividades. Em todos os momentos que o executante é alterado, o novo executante é identificado com este símbolo. Outra simbologia importante é a ANSI (American National Standards Institute), que criou um padrão em que alguns símbolos são similares aos mostrados acima. Figura 8 – Fluxograma ANSI TEMA 2 – FLUXOGRAMA DE PROCESSO: ELABORAÇÃO Endosso que, de início, a melhor forma de se elaborar um fluxograma para retratar um mapa de processos é manualmente. E por que deve ser feito assim? Você deve se perguntar: por que, com tanta tecnologia e tantos softwares que facilitam as nossas vidas, vamos voltar ao passado e utilizar papel e lápis? 11 Neste momento é o melhor caminho, pois na maioria das vezes o profissional de mapeamento de processos deve percorrê-lo na prática. Como dizem os japoneses, gemba gembutsu: “vá ao local de trabalho e enxergue o que está acontecendo”. Por experiência, não existe melhor método para mapear um processo. Mas você pode perguntar: eu vou ficar para sempre com desenhos elaborados à mão com lápis em uma folha de papel? Não. Aí é que entra a tecnologia. De posse de todas as informações obtidas no chão de fábrica ou na área de serviços (conhecido como gemba), utilize as ferramentas e tecnologias disponíveis para agilizar o trabalho. Para elaboração de fluxogramas, podem ser utilizados aplicativos do pacote Office da Microsoft (Excel ou Powerpoint, por exemplo, que não foram criados especificamente para esse fim, no entanto podem atender bem a esta demanda), ou utilize o Visio, também da Microsoft (este sim um aplicativo que foi criado com a finalidade de se elaborar diagramas dos mais variados tipos, como fluxogramas, organogramas, mapas de fluxo de valor etc.). Outro software para elaboração de fluxogramas é o Bizagi (disponível em: <http://www.bizagi.com/>). A Figura 9 mostra um exemplo de elaboração de fluxograma simples, e a Figura 10 o mesmo fluxograma completo. Figura 9 – Elaboração de fluxograma simples (fragmentos) http://www.bizagi.com/ 12 Figura 10 – Fluxograma simples (completo) Fonte: <www.comexito.com.br>. Agora que você sabe como elaborar um fluxograma, vamos ao mapeamento do fluxo de valor. TEMA 3 – MAPA DO FLUXO DE VALOR (VSM): APRESENTAÇÃO Na Aula 2 aprendemos quais são as principais notações de processos. Nesta rota, verificamos como se elaboram os fluxogramas, com as técnicas e simbologias apropriadas e executamos alguns exercícios de aplicação. Com o fluxograma é possível mapear a grande maioria dos processos, sejam eles no ambiente fabril ou num ambiente de serviços. Vamos ver agora uma ferramenta muito utilizada pelo pessoal do Lean Manufacturing (ou produção enxuta, baseado no STP). Trata-se do mapeamento do fluxo de valor. As vantagens desta ferramenta em relação a outras referentes a mapeamento de processos são: a. Ajuda a visualizar mais do que simplesmente os processos individuais, por exemplo, solda, montagem ou um processo de publicação, conforme visto anteriormente. É possível pode enxergar o todo. b. Ajuda a identificar os desperdícios e sua origem no fluxo de valor. c. Junta conceitos e técnicas enxutas, que ajudam a evitar a implementação de técnicas isoladas. 13 d. Mostra a relação entre fluxo de informação e fluxo de materiais. e. Identifica com clareza o lead time, o tempo real de processamento e consequentemente as atividades que não agregam valor. f. Descreve como sua unidade deve operar para criar um fluxo. g. Liga todos os processos, desde o consumidor final até a matéria-prima, em um fluxo regular para gerar o menor lead time, a mais alta qualidade e o custo mais baixo. Como mencionado, essa ferramenta tem uma visão mais macro, se comparada com o fluxograma. Com essa ferramenta se consegue enxergar os fluxos de matérias e informação bem como clientes, fornecedores e processos. Praticando o mapeamento do fluxo de valor, aprende-se a enxergar o chão de fábrica (ou uma área de serviço) de tal modo a apoiar a produção enxuta. Lembre-se que mapear é apenas uma técnica, sendo a implementação de um estado futuro baseado em conceitos da produção enxuta o objetivo principal desta ferramenta. TEMA 4 – MAPA DO FLUXO DE VALOR (VSM): ELABORAÇÃO Mapear um fluxo de valor é algo que necessita de técnicas, conhecimentos e habilidades apuradas. A seguir apresentamos alguns passos primordiais antes de se iniciar o mapa propriamente dito: a. Acompanhe a trajetória de produção de um produto desde o início até o final, e faça uma representação visual do fluxo de material e de informação. b. Desenhe (utilizando ícones) um mapa do estado futuro de como o valor deveria fluir. c. Inicie por uma família de produto (numa empresa que produz vários eletrodomésticos, mapear uma família de manufatura de um micro-ondas, por exemplo). Não tente mapear mais famílias ao mesmo tempo, pois o resultado não será satisfatório. d. Embora o mapeamento do fluxo de valor possa ser realizado em vários níveis, é recomendável que se faça o mapeamento do cliente ao fornecedor ou, como é comumente conhecido, um mapeamento porta a porta. Figura 11 – Mapeando uma família de produto 14 A simbologia para o mapeamento do fluxo de valor difere um pouco da simbologia que aprendemos sobre fluxogramas. Segue um resumo dos ícones utilizados e suas funções: Figura 12 – Simbologia para mapeamento do fluxo de valor 15 TEMA 5 – VISÕES NO MAPEAMENTO DO FLUXO DE VALOR O mapeamento do fluxo de valor dever ser construído baseando-se em quatro visões: 1. Visão do Cliente 2. Visão dos Processos 3. Visão do Fluxo de Materiais 4. Visão do Fluxo de Informações Para melhor descrever as visões, serão apresentados sequencialmente exemplos de ícones do mapa de fluxo de valor fundamentado em uma empresa fictícia (Montadora São Jorge) juntamente com cada visão. Note que a cada inserção de uma visão, o mapa vai evoluindo e crescendo em tamanho e informações. Este exemplo é baseado no livro Aprendendo a Enxergar, de Mike Rother e John Shook (2009). 1. A visão do cliente Informações necessárias do cliente: • volume anual contratado e volume mensal; • combinação (mix) de produtos com seus respectivos volumes; • tamanho da embalagem; • frequência de entrega. Figura 13 – Visão do cliente no mapa de fluxo de valor 16 2. Visão dos processos: Informações necessárias do processo: • quantidade de turnos; • quantidade de operadores por turno; • T/CP = tempo de ciclo do processo (3600/produção horária da célula); • T/C = tempo de ciclo operador (somatória de todos os tempos de ciclo manual da célula); • T/S ou (TR) = tempo de setup da célula (caso haja vários tempos de setup, considerar o mais representativo); • TPT = tamanho dos lotes de produção; • porcentagem de refugo; • OEE = eficiência global do equipamento. Figura 14 – Visão dos processos no mapa de fluxo de valor17 3. Visão do Fluxo de Materiais Informações necessárias do fornecedor: • tamanho da embalagem; • frequência de entrega. Figura 15 – Visão do fluxo de materiais no mapa do fluxo de valor 4. Visão do Fluxo de Informações Informações necessárias: • frequência de entrega; • previsão de volumes. 18 Figura 16 – Visão do fluxo de informações no mapa de fluxo de valor Figura 17 – Mapa do fluxo de valor completo Conforme mostrado nos diagramas (mapas) anteriores, esta ferramenta fornece a oportunidade de cobrir todo o processo de uma maneira macro, em 19 que é possível também identificar gargalos, tempo de agregação de valor e lead time, sendo bastante utilizada por profissionais e empresas que praticam os conceitos de produção enxuta. TROCANDO IDEIAS Leia atentamente o estudo de caso disponibilizado no link a seguir: <https://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/19067/3/ CT_GEOB_XVIII_2013_05.pdf>. Com base no item “Apresentação, Análise de Dados e Resultados” do estudo de caso e no texto de aprendizagem, responda às perguntas e identifique conceitos que se associam a esta aula. Realize as seguintes atividades: 1. No estudo de caso apresentado, a autora elabora um descritivo inicial para conhecer quais são as entradas, as saídas e os fornecedores do processo de orçamento de estruturas pré-fabricadas conforme alternativas abaixo: I. As entradas do processo são: declaração técnica das estruturas pré- fabricadas e programação de orçamentos. II. As entradas do processo são: projetos, memorial descritivo e especificações técnicas. III. São considerados fornecedores: cliente externo, representantes, fornecedores de itens metálicos e expedição da matriz/filial. IV. São considerados fornecedores: representantes, fornecedores de itens metálicos e expedição da matriz/filial. V. As saídas são: estruturas pré-fabricadas conforme solicitação do cliente. No levantamento realizado, admite-se como verdadeiro que: a. ( ) I e II estão corretas. b. ( ) III e V estão corretas. c. ( ) I, III e V estão corretas. d. ( ) II e III estão corretas. e. ( ) I e V estão corretas. 2. Realizando uma análise comparativa entre o mapeamento do estado atual e o mapeamento do estado futuro, percebe-se que houve um ganho nas atividades do coordenador de orçamento. Este ganho refere-se a: https://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/19067/3/CT_GEOB_XVIII_2013_05.pdf 20 a. ( ) Analise de viabilidade. b. ( ) Espera. c. ( ) Solicitação de informações. d. ( ) Revisão de orçamento. e. ( ) Viabilidade. ANÁLISE DO ESTUDO DE CASO 1. No texto, a identificação inicial da autora mostra que as entradas do processo são: projetos, memorial descritivo e especificações técnicas (item II), e que fornecedores são: cliente externo, representantes, fornecedores de itens metálicos e expedição da matriz/filial (item III). Reparem que, neste caso, o cliente também aparece como fornecedor. 2. A atividade “solicitar informações” foi eliminada, obtendo-se um ganho. Essa atividade foi realocada para a primeira atividade do coordenador de orçamentos. NA PRÁTICA Um mapeamento de processos foi realizado na empresa PrintEasy, que executa impressões de publicações a partir de pedidos dos clientes. Inicialmente, as informações foram descritas para posterior elaboração do fluxograma. Com base nas técnicas de mapeamento de processos, elabore um fluxograma com raias no sentido horizontal conforme dados a seguir. Procure fazer sem ver a resposta. • O cliente inicia o processo com a requisição do pedido. • O departamento de impressão coleta a informação a ser processada (dados no computador). • O departamento de fechamento encaderna o material. • O departamento de qualidade verifica a gramática. • Se estiver correto, segue para o departamento de envio, que processa o preenchimento do pedido e o envia ao cliente. • Se não estiver correto, retorna ao processo de impressão. 21 RESPOSTA Figura 18 – Resposta ao mapeamento da empresa PrintEasy FINALIZANDO Por mais que se tente expressar como funcionam os processos dentro de uma empresa (com suas entradas, atividades, tarefas, saídas) de forma descritiva, o entendimento nunca ocorrerá de forma clara. Traçando um paralelo com a técnica de desenho técnico mecânico, será quase impossível transmitir uma ideia ou uma concepção de uma peça relativamente complexa somente por meio de um descritivo ou até mesmo de fotografia. No caso do exemplo apresentado, o desenho técnico mecânico transmite todas as ideias de forma e dimensões de uma peça, e ainda oferece uma série de informações, como: • o material de que é feito a peça; • o acabamento das superfícies; • unidade de medida; • a tolerância dimensional etc. Conforme mencionado, o fluxograma (ou outro tipo de notação) está para o mapeamento de processos tal qual o desenho técnico mecânico está para 22 engenharia mecânica. É a forma mais inteligente de se expressar aquilo que se pretende mostrar. Tanto os fluxogramas quanto o mapeamento do fluxo de valor (VSM) apresentam de forma clara características essenciais dos elementos de um processo (entradas, atividades, saídas, pontos de decisão, departamentos, funções, cliente, fornecedores etc.). Conhecer e saber aplicar essas linguagens é fundamental, tanto para o profissional de mapeamento quanto para o administrador que tem como objetivo visualizar os processos de forma clara e ordenada. No caso do VSM (mapeamento do fluxo de valor), a grande vantagem é poder ter uma visão do todo e enxergar os desperdícios que muitas vezes ficam ocultos. Para Shook (2002), a “falta de visão holística e a aplicação de ferramentas de forma desestruturada são as principais causas de implantações malsucedidas de projetos lean”. 23 REFERÊNCIAS E. WILDAWER; L. WILDAWER, D. B. S. Mapeamento de Processos: conceitos, técnicas e ferramentas. Curitiba: InterSaberes, 2015. LIKER, J. K. O Modelo Toyota: 14 Princípios de Gestão do Maior Fabricante do Mundo. Porto Alegre: Bookman, 2005 PAVANI JUNIOR, O.; SCUCUGLIA, R. Mapeamento e Gestão por Processos: BPM. São Paulo: MBooks, 2011. ROTHER, M.; SHOOK, J. Aprendendo a Enxergar: mapeando o fluxo de valor para agregar valor e eliminar o desperdício. São Paulo: Lean Institute Brasil, 2009. STADLER, A. et al. Gestão de Processos com Suporte em Tecnologia da Informação. Curitiba: InterSaberes, 2013. 24 GABARITO Exercício referente à Figura 1. Resposta: b. Trocando ideias 1. b 2. c. GESTÃO E MAPEAMENTO DE PROCESSOS AULA 5 Prof. Roberto Candido Pansonato 2 CONVERSA INICIAL Vimos nas aulas passadas como identificar desperdícios e valor na cadeia produtiva. Vimos também como mapear os processos por meio de algumas ferramentas (fluxograma, BPM, SIPOC, cadeia de valor, VSM etc.). Cada uma com suas particularidades, todas essas ferramentas possuem um objetivo em comum: identificar pontos no processo que necessitam ser corrigidos ou reconhecer possibilidades de melhoria. Se não for deste modo, não teria sentido estarmos despendendo recursos (tempo, conhecimentos, técnicas etc.) para chegarmos a lugar nenhum. O estado futuro (ou To-Be) é a representação gráfica da solução de melhoria de um processo, que é a base desta aula. Seguem os principais temas desta aula: 1. Princípios básicos para análise de processos 2. Indicadores de desempenho 3. Melhoria dos processos 4. Implantação de projetos de melhoria 5. Fatores críticos para implantação de projetos de melhoria CONTEXTUALIZANDO Para se solucionar um problema de saúde de forma eficaz, por exemplo, é necessário que se foque a causa-raiz e não apenas o sintoma. Quando se faz análise dos processos, a forma de se enxergar as possíveissoluções é de certo modo similar ao trabalho de um médico. Nem sempre a melhor solução (ou um remédio) para um processo (uma doença) será a mesma para outro processo (outra doença). Para ajudar o analista a encontrar a melhor solução, vamos conhecer os princípios básicos para análise de processos. Antes de entrar nos detalhes sobre os princípios, vamos conhecer alguns deles por meio da problemática abaixo. Uma das maiores redes de restaurantes do mundo, o McDonald’s, opera em mais de cem países, cada qual com seus costumes e culturas diferentes. Só no Brasil, a rede possui mais de mil pontos de venda. Entre os motivos de sucesso da rede, destacam-se as melhorias. Dentre os princípios de melhoria utilizados pelo McDonald’s, sobre os quais se pode afirmar que são pontos de referência da marca, podemos destacar: 3 I. Minimização do envolvimento de pessoas e foco em liderança. II. Processo de terceirização e redução de custos com fornecedores. III. Padronização dos processos e redução no tempo de ciclo. IV. Padronização dos processos e foco na cozinha saudável. a. As alternativas I e III estão corretas. b. Somente a alternativa I está correta. c. Somente a alternativa III está correta. d. As alternativas II e IV estão corretas. e. Somente a alternativa IV está correta. Análise Uma das vantagens competitivas do McDonald’s em relação a outras redes de restaurantes é o nível de padronização dos processos: tempos reduzidos e similares de atendimento, padrões rigorosos de prestação de serviços e níveis de qualidade praticamente idênticos entre todas as unidades. Portanto, a padronização dos processos e a redução do tempo de ciclo (alternativa c) são os princípios de melhoria de destaque dessa rede. Em qualquer lugar do mundo onde haja um McDonald’s, o processo de atendimento e o tempo de ciclo (cada vez menor) serão os mesmos. Estes princípios conferem uma certa estabilidade no processo, ocasionando poucas variações. TEMA 1 – PRINCÍPIOS BÁSICOS PARA ANÁLISE DE PROCESSOS 1.1 Descrição A análise dos processos de negócio é o ponto de partida para a introdução de melhorias. Como já foi mencionado em aulas anteriores, o processo correto (ou o mais próximo disto) proporcionará um produto ou serviço correto. Portanto, quanto mais se conhece os processos de negócio, mais possibilidades de atuar sobre eles para aperfeiçoá-los (nível de excelência). Para Müller (2003), “a análise dos processos de negócio tem por objetivo ampliar a compreensão das características de processo, de forma a possibilitar uma posterior melhoria e padronização (quando necessária e desejada)”. No entanto, como se pode implantar alguma melhoria sem que se tenha claro onde estamos e aonde queremos chegar? 4 Neste momento é necessário que se tenha alguns indicadores básicos que nos permitam enxergar a situação atual dos processos. Para isto, esses indicadores devem ser medidos. Essa ação (a de medir os processos) é fundamental para quem queira administrar algo. Segundo Deming (2003), “não se gerencia o que não se mede; não se mede o que não se define; não se define o que não se entende; não há sucesso no que não se gerencia”. Neste contexto, pode-se entender que medir as condições do processo é primordial para o sucesso de qualquer organização. Uma das formas de demonstrar as medições de processos é a utilização de indicadores. Os indicadores têm relação direta com os objetivos que se pretende alcançar. Por exemplo, se após um mapeamento de processos concluiu-se que o foco principal seria a redução de custos, devemos tomar como partida indicadores financeiros. Por outro lado, se foram constatados problemas com velocidade de um determinado processo e deseja-se aumentar esta velocidade, devemos utilizar indicadores relativos a tempo de ciclo (peças por hora ou tempo padrão para realização de um determinado serviço, por exemplo). Para se ter um ponto de partida na análise dos processos de negócio, é importante analisá-los. A seguir veremos alguns indicadores básicos: tempo, custo, valor agregado e qualidade. 1.2 Análise de tempo Na competitividade acirrada que se observa no mundo corporativo, o fator tempo é um diferencial de sucesso para qualquer organização. Para Müller (2003), é possível, por meio da construção de um fluxo-cronograma (um fluxograma específico com demonstração dos tempos de ciclo, tal qual um diagrama vertical, visto na aula anterior), obter informações importantes a respeito de quais atividades devem ser priorizadas para análise de tempo. A análise de tempo leva em consideração não somente os tempos de ciclos, mas também os tempos de processamento de toda a cadeia de valor (lead time). A princípio, o ponto de partida para análise deve ser o ponto de restrição do processo (ou ponto gargalo). É obvio que, resolvendo-se um ponto de restrição (ponto “A”, por exemplo), a restrição moverá para outro ponto (ponto “B”), e assim consecutivamente, tornando-se um ciclo contínuo para melhoria do fluxo de processo. 5 1.3 Análise do custo O foco principal do mapeamento não é a aplicação direta sobre custos. O resultado do mapeamento pode sim direcionar para um trabalho de redução de custos na elaboração do estado futuro (To-Be) em função da evidência de custos nas atividades de um processo. O mais importante é a compreensão dos processos do negócio. Para aplicação de um método que se baseia em custo, sugere-se utilizar o método ABC (Activity-Based Costing) ou custo baseado nas atividades, que se baseia nas seguintes premissas: foco nas atividades; visualização das atividades de mais alto custo; visualização de atividades que não agregam valor. 1.4 Análise do valor agregado Como foi mencionado nas aulas anteriores, o termo valor agregado refere- se a algo que agrega valor ao cliente (que ele esteja disposto a pagar). Para analisar o valor agregado em um fluxo de processo, é necessário identificar as atividades que realmente agregam valor sob a perspectiva do cliente. Durante essa análise, vamos encontrar os seguintes tipos de atividades: ● Valor Real Agregado (VRA): atividades que certamente agregam valor às saídas previstas pelo cliente. ● Valor Empresarial Agregado (VEA): atividades desempenhadas para realização do produto ou serviço que não agregam valor direto ao cliente, mas que precisam ser desempenhadas. ● Sem Valor Agregado (SVA): atividades que não agregam valor ao cliente e tampouco são necessárias, portanto devem ser eliminadas. Segundo Müller (2003, p. 96), “na maioria dos processos empresariais, menos do custo está nas atividades VRA”. De acordo com Harrington, citado por Müller (2003, p. 96), “mais alarmante ainda é a diferença entre o tempo de ciclo das atividades VRA e o tempo de ciclo total, menos ou cerca de 5%” (lembram- se do exemplo da fila do banco apresentado na aula sobre desperdícios e valor?). Por meio de um trabalho criterioso e constante contra os desperdícios, pode-se obter uma minimização das atividades de valor empresarial agregado (VEA) e a eliminação das atividades sem valor agregado (SVA). 6 1.5 Análise da qualidade De acordo com Ishikawa (1993), “a preocupação mais importante no controle de qualidade deve estar centrada no atendimento dos requisitos do cliente e na prevenção de reincidências”. Partindo do pressuposto que o processo certo produzirá os resultados certos, a análise da qualidade deve passar pelas atividades e consequentemente pelos processos de uma organização. Para esta análise, podem ser utilizadas técnicas e ferramentas básicas da gestão da qualidade: ● Folha de verificação: tabelas ou planilhas simples usadas para facilitar a coleta e análise de dados. Local onde se registram os dados dos itens a serem verificados, permitindo uma rápida percepção da realidade. ● Os “5 porquês”: têm como finalidade desenvolver especialidadetécnica nas pessoas que conduzem a análise, encontrando-se a causa-raiz. ● Diagrama de causa e efeito (também conhecido como diagrama espinha de peixe ou diagrama de Ishikawa): a partir de um efeito conhecido, esta ferramenta auxilia na identificação das possíveis causas que provocaram algum problema de qualidade, por exemplo. ● Gráfico de Pareto: utilizado para identificar, entre as causas levantadas, aquelas que determinam a maioria dos problemas de perda da qualidade. ● Histograma: método gráfico para representar a dispersão (variação) de um conjunto de dados. ● Gráficos de dispersão (ou correlação): permitem analisar a relação entre duas variáveis (por exemplo, a redução de preço com o aumento da concorrência ou tempo de estudo e notas dos alunos etc.). ● Cartas de controle (ou gráficos de controle): funcionam como um “termômetro”, permitindo que se acompanhe o andamento de um processo ao longo do tempo com o intuito de monitorar e identificar as causas das variações na qualidade de um produto ou serviço. Das ferramentas acima, as três primeiras ajudam na análise da situação problema (coleta de dados e busca da(s) causa(s)-raiz). O gráfico de Pareto auxilia a identificar as causas relacionadas à perda da qualidade. As três últimas ferramentas da lista (histograma, gráficos de dispersão e cartas de controle) são baseadas em estatísticas. Podem ser empregadas em 7 pontos específicos do processo para acompanhar e controlar indicadores de qualidade. TEMA 2 – INDICADORES DE DESEMPENHO Nos parágrafos anteriores discutiram-se alguns tipos de análises de processo baseados em indicadores. Também foi vista uma frase atribuída a Deming, que diz que não se gerencia aquilo que não se mede. Quando falamos em medir um determinado processo, estamos falando do posicionamento real de um processo em relação a um indicador qualquer. Utilizando-se de um exemplo muito simples, a meta de controle da temperatura do corpo humano é mantê-lo abaixo dos 37 oC. Em caso de alguma anomalia no ser humano que cause um aumento dessa temperatura, ações para redução da temperatura e seu monitoramento (verificação a cada hora, por exemplo) devem ser realizadas, levando-se em conta o indicador de temperatura que prevê a “meta” de, no máximo, 37 oC. Indicadores podem ser definidos como ferramentas de gestão para monitoramento, controle e avaliação dos processos das organizações com o objetivo de acompanhar o alcance ou não das metas, identificar avanços e oportunidades de melhorias e auxiliar na solução de problemas. Apresentamos a seguir algumas recomendações para elaboração de indicadores: ● Objetividade: forma simples e direta. ● Clareza: de fácil compreensão. ● Preciso: evitar duplicidade de informações. ● Viabilidade: devem medir resultados, não intenções (algo mensurável). ● Representatividade: estatisticamente representativa do universo analisado. ● Visualização: permitir interpretação rápida (uso de gráficos, por exemplo). ● Ajuste: adaptado à realidade do processo e da empresa. ● Alcance: possibilitar analise das causas, não apenas dos efeitos. ● Resultados: devem relatar fielmente o que está ocorrendo na organização. 8 Quadro 1 – Exemplos de indicadores INDICADOR CONCEITO FÓRMULA Margem líquida Mede o percentual que a empresa obtém de lucro em relação às vendas Resultado líquido Vendas líquidas Índice de reclamação de clientes Mede a evolução das reclamações de clientes Número de reclamações recebidas Número de unidades vendidas Despesas administrativas Mede o desempenho das despesas administrativas que compõem a formação do lucro líquido Despesas administrativas Receita líquida Produtividade ($) Mede a produtividade de cada processo em termos de custo Receita real do processo Custo total do processo Eficiência operacional Mede a utilização da capacidade total Horas trabalhadas Horas disponíveis Para melhorar o entendimento sobre indicadores, leiam o capítulo 1.6 (“Produtividade e Indicadores”) do livro Mapeamento de Processos (Wildauer; Wildauwer, 2015, p. 36-44), disponível na Biblioteca Virtual. TEMA 3 – MELHORIA DOS PROCESSOS Não há como obter sucesso na administração de uma empresa, seja ela pública ou privada, sem que se tenha uma cultura organizacional direcionada para melhoria dos processos. Essa cultura deve ser implantada de forma sistematizada e entendida por todos na organização. Conforme E. Wildauer e L. Wildauer (2015, p. 55): Melhoria de processos sugere a melhoria da qualidade na execução deles; por isso, devem sofrer intervenções no sentido de se promoverem mudanças de forma que aumentem sua qualidade produtiva, seja pela eficiência da aplicação do tempo e do uso dos recursos humanos, seja pela eficácia em atingir as metas com menor desperdício e custo. Muitos autores propõem princípios para melhoria dos processos de uma forma geral. Harrington (1993) propõe uma série de doze princípios para agilizar a dinâmica do profissional em mapeamento de processos: 1. Eliminação da burocracia; 2. Eliminação da duplicidade; 3. Avaliação do valor agregado (AVA); 4. Simplificação; 5. Redução do tempo de ciclo; 6. Tornar os processos a prova de erros; 7. Modernização; 8. Linguagem simples; 9 9. Padronização; 10. Parceria com fornecedores; 11. Aperfeiçoamento do quadro geral; 12. Automação e/ou mecanização de processos: soluções em tecnologia da informação. A intenção da apresentação desses princípios é proporcionar ao administrador os caminhos que devem ser seguidos para se ter qualidade e agilidade nos processos (modernizá-los, reduzi-los e simplificá-los), corrigir o que for necessário e melhorá-los continuamente. Para reforçar a compreensão sobre melhoria de processos, leia o capítulo 1.10 (“Melhoria de Processos”) do livro Mapeamento de Processos (Wildauer; Wildauer, 2015, p. 55-56), disponível na Biblioteca Virtual. Após a leitura, responda à questão 5 da página 58. TEMA 4 – IMPLANTAÇÃO DE PROJETOS DE MELHORIA Dentre as estratégias adotadas pelas organizações para aumento de competitividade, uma refere-se à implantação de projetos de melhoria contínua. Conforme já abordado nas aulas anteriores, existe uma certa confusão ao se referir aos conceitos de Produção Enxuta (também chamada Lean Manufacturing ou Sistema Toyota de Produção). Não é raro encontrar no meio empresarial o termo produção enxuta como sinônimos de métodos específicos como kaizen, troca-rápida, kanban, 5S, poka-yoke, mapeamento do fluxo de valor, trabalho padronizado etc. O que ocorre é que, entre as ferramentas da manufatura (produção) enxuta, não existe nenhuma maneira sistemática de ligar um problema da organização a uma ferramenta específica com o objetivo de eliminar esse problema. Como mencionado na Aula 4, a falta de visão holística e a aplicação de ferramentas de forma desestruturada são as principais causas de implantações malsucedidas do sistema Toyota de Produção (Shook, 2002). Outros fatores, além do mencionado anteriormente, também são responsáveis pelo fracasso de alguns projetos de melhoria. Entre eles podemos destacar: gestão inapropriada, definição incorreta do objetivo, falta de comprometimento da equipe, não entendimento da cultura lean etc. É de suma importância que o gestor absorva essa cultura e utilize as ferramentas lean de forma sistêmica para implantação dos projetos de melhoria contínua. De acordo com Shein (2009, p. 3) a definição de cultura dentro de uma organização é a seguinte: 10 Cultura organizacional é o padrão de suposições básicas que um dado grupo inventou, descobriu ou desenvolveu ao aprender a lidar com seus problemas de adaptação externa e integração interna e que funcionou bem o suficiente para ser considerado válido e, portanto, para ser ensinado a novos membros como sendo a formacorreta de perceber, pensar e sentir em relação aqueles problemas. Portanto, o sucesso na implantação de projetos de melhoria deve ter como base uma cultura que dê respaldo às dificuldades que irão aparecer no decorrer do processo, pois, como veremos a seguir, projetos de melhoria contínua exigem muito esforço e compromisso contínuos. Para o avanço do sucesso e efetividade dos processos, é primordial o planejamento de fatores relacionados à implantação de melhoria contínua. Deve- se reduzir e simplificar esses processos, corrigi-los no que for necessário e melhorá-los continuamente. 4.1 Melhoria contínua Muito tem se falado sobre melhoria contínua, mas como isso realmente se aplica nas organizações? Imai (1996) menciona que a melhoria contínua (kaizen) implica no envolvimento de todos, do gerente ao trabalhador, com foco no aperfeiçoamento de processos e orientação para (a) inovações incrementais que demandam menor investimento e tempo de implantação e (b) aspectos humanos como motivação, comunicação, treinamento, trabalho em equipe, envolvimento e autodisciplina. (Tanaka; Muniz Junior; Faria Neto, 2012, p. 105) Em alguns momentos ocorrem alguns equívocos entre projetos de melhoria contínua e inovação; no entanto, há características que os diferenciam. A melhoria contínua (kaizen) significa pequenos melhoramentos realizados no estado atual (As-Is) provenientes de esforços contínuos. Por outro lado, inovação envolve um melhoramento drástico no estado atual (As-Is), como resultado de um grande investimento em nova tecnologia. A tabela a seguir ilustra essas diferenças. 11 Quadro 2 – Comparação entre melhoria contínua e inovação Descrição Melhoria Contínua Inovação Efeito Longo prazo e duradoura Curto prazo Ritmo Pequenos progressos Grandes progressos Estrutura de tempo Contínua e incremental Intermitente e não incremental Mudança Gradual e constante Repentina e passageira Envolvimento Todos Poucos “defensores” selecionados Enfoque Coletivismo, esforços em grupo, enfoque sistêmico Individualismo, ideias e esforços individuais Método Manutenção e melhoramento Refugo e retrabalho Estímulo Know-how e atualizações convencionais Avanços tecnológicos, novas invenções e teorias Exigências práticas Investimento menor, porém, maior esforço de manutenção Investimento maior, porém, menor esforço de manutenção Orientação do esforço Pessoas Tecnologia Critérios de avaliação Processo e esforços para busca de melhores resultados Lucro Vantagem É útil na economia de crescimento gradual Adapta-se melhor à economia de crescimento rápido Fonte: Imai,1996. A tabela acima apresenta de forma clara as principais diferenças entre projetos de melhoria contínua e projetos de inovação. Pelo fato de necessitar de muito esforço, persistência, disciplina e trabalho em equipe, e também por gerar resultados de forma mais lenta, muitas empresas abandonam essa modalidade, pois a maioria delas deseja resultados mais expressivos e imediatos. Tanaka, Munir Junior e Faria Neto (2012, p. 106), referenciando Liker (2005), afirmam que “a melhoria contínua (kaizen) aprimora habilidades nos envolvidos, tais como: trabalhar de modo eficiente em pequenos grupos, auto gerenciar tarefas, resolver problemas, documentar e melhorar processos, coletar e analisar dados”. Outra definição apropriada sobre os projetos de melhoria contínua é dada por Mesquita e Alliprandini (2003), que, de acordo com Tanaka, Muniz Junior e Faria Neto (2012, p. 106), destacam que “várias empresas possuem atividades de melhoria contínua, mas que na maioria dos casos apenas ressaltam a aplicação de técnicas e ferramentas com pouca atenção aos comportamentos relacionados a cultura da empresa”. O que ocorre é que não se dá o devido cuidado às competências existentes na organização para se ter o aperfeiçoamento regular e sustentado dos processos. 12 Embora não haja consenso sobre como uma organização deve implantar um processo de melhoria contínua, reuni algumas citações de autores que considero relevantes: ● Valorizar o Conhecimento Profundo, fundamentado nos seus 14 princípios que abrangem a natureza da variação, a teoria estatística da falha até a psicologia da mudança (Deming); [...] ● Usar o princípio de Pareto para definir os poucos problemas críticos e designar equipes para resolver esses problemas e incutir a perspectiva que um esforço de melhoria é impulsionado por muitas melhorias pequenas, passo a passo (Juran); ● Desenvolver a autonomia dos colaboradores para gerenciar a organização, buscar qualidade e melhorar o desempenho (Ishikawa). (Tanaka; Muniz Junior; Faria Neto, 2012, p. 106) Para Harrington e Harrington (1997), “estimam-se que deve haver mais de 100 diferentes ferramentas, métodos e técnicas de melhoria contínua”. Observem-se os exemplos: ● ciclo PDCA é uma continuidade do kaizen, age continuamente, logo que se obtém uma melhoria, e o estado atual resultante torna-se o alvo para maiores melhorias (Imai, 1996). A norma NBR ISO 9001:2000 sugere a aplicação da metodologia PDCA para todos os processos dos sistemas de gestão da qualidade; ● 5S é uma das 3 principais atividades do kaizen e é indispensável para um ambiente eficiente e enxuto (Imai, 1996); ● Manutenção Produtiva Total (TPM) que é uma estratégia ampla, orientada para pessoas, máquinas e equipamentos, visando maximizar a eficiência do processo e a qualidade do produto; ● Manufatura Enxuta busca a redução dos custos associados aos desperdícios do sistema de produção para maximização dos lucros, geração de maior valor para o cliente final (Liker, 2005). (Tanaka; Muniz Junior; Faria Neto, 2012, p. 107) TEMA 5 – FATORES CRÍTICOS NA IMPLANTAÇÃO DE PROJETOS DE MELHORIA Tenho visto em muitas empresas um grande alvoroço quando se fala em implantação de projetos de melhoria contínua. Normalmente a alta direção forma uma equipe, mune-as de todo tipo de ferramentas que de alguma forma estão ligadas ao conceito da Manufatura Enxuta, e em curto espaço de tempo cobra os resultados do trabalho desta equipe. Infelizmente (ou felizmente, eu creio), os resultados não surgem como um passe de mágica, e o programa as vezes é abortado ou continua existindo somente para fornecer a ideia equivocada de se ter equipes que trabalham continuamente com kaizen. Alves, Souza e Ferraz (2007), baseados em revisão de literatura, indicam cinco fatores críticos que influenciam o sucesso dos projetos de melhoria: 13 ● Liderança, que é o compromisso da gerência com a implantação de um programa de melhoria. Esse compromisso é traduzido em comunicação, planejamento, execução e controle de mudança. ● Motivação, que se refere a manutenção do engajamento dos envolvidos e se relaciona com o incentivo à participação e a responsabilidade dos mesmos; ● Equipe e Treinamento, que engloba cinco aspectos: líder da equipe, composição da equipe; existência de um facilitador; presença de um grupo externo coordenando e apoiando as equipes para alcançar os objetivos do programa de melhoria; ● Metas e constância de propósito, que enfoca a busca de resultados; ● Disponibilidade, que se refere a dedicação dos envolvidos para realização das atividades. A seguir, serão apresentados os 14 princípios de Deming. Esses princípios foram destacados do livro Out of the Crisis (Saia da Crise), de Willian Edwards Deming, originalmente editado em 1986. Depois de participar ativamente da evolução do modelo japonês para administração da qualidade, pode-se dizer que Deming tem conhecimento e compreensão dos fatores críticos para implantação de projetos de melhoria contínua conforme dados abaixo: Os 14 Princípios de Deming 1. Para a melhoria de produtos/serviços deve-se estabelecer uma constância de propósitos de forma a tornar a organização competitiva e mantê-la em atividade, assim comocriar empregos; 2. “Adote a filosofia”. Segundo Deming as organizações ocidentais deveriam acordar para o “novo desafio”, pois agora estamos em uma nova era econômica onde se faz necessário que a administração ocidental assuma seu papel de liderança neste processo de transformação; 3. Deming defendia que a qualidade deve fazer parte do produto/serviço desde o início, ou seja, deveria ser eliminada a necessidade de inspeção (que só detecta as falhas depois que elas já ocorreram); 4. Para Deming o mais importante na aprovação de orçamentos não deveria ser o preço, mas a diminuição do custo total, para isso, deve-se desenvolver um fornecedor para cada matéria-prima ou insumo de forma a tornar o relacionamento mais duradouro, confiável e leal; 5. Outra forma de reduzir os custos deveria ser a busca constante por melhorias no processo/serviço de forma a aumentar produtividade e a qualidade; 6. “Institua treinamento no local de trabalho”. Manter uma mão-de- obra qualificada diminui os erros no processo por falha humana; 7. Deve ser instituída a “liderança”. As “chefias” habituais devem ser revistas. O objetivo do líder é proporcionar as condições adequadas para uma execução melhor do trabalho; 8. O medo deve ser eliminado a fim de possibilitar que todos trabalhem de forma eficaz e tranquila; 9. Todos devem trabalhar de forma conjunta. Os departamentos devem trabalhar juntos de forma a prever e evitar possíveis falhas; 10. Segundo Deming, deve ser eliminada qualquer alusão a metas do tipo “zero defeitos”, pois, elas servem apenas para causar inimizades e desmotivação, uma vez que a maioria das falhas se encontra nos processos e não estão ao alcance da maioria dos trabalhadores; 14 11. Deve ser implantada a gestão por processos e substituídas todas as quotas na linha de produção. Elas devem ser substituídas pela liderança; 12. Possibilite que os colaboradores se orgulhem de seu desempenho e mude os conceitos de responsabilidades de “números absolutos” para “qualidade” (abolição da avaliação anual de desempenho e da administração por objetivos). 13. A organização deve instituir um sólido programa de treinamento a fim de possibilitar o auto aprimoramento da equipe; 14. Todos devem estar envolvidos no processo de realização da transformação. (Faria, 2018) Para sintetizar os princípios propostos por Deming, segue abaixo um exemplo clássico do ciclo PDCA. Figura 1 – Ciclo PDCA (roda de Deming) Para saber se uma empresa está no caminho certo no que diz respeito à implantação de projetos de melhoria contínua, pode-se utilizar a tabela a seguir. No entanto, eventualmente os níveis de melhoria contínua propostos não descrevem exatamente a realidade vivida pelas organizações, pois cada organização tem sua própria experiência em relação à melhoria contínua (Bessant; Caffyn; Gallagher, 2001). 15 Quadro 3 – Estágios de Evolução da Melhoria Contínua Fonte: Bessant; Caffyn; Gallagher, 2001, p. 73. TROCANDO IDEIAS Leia atentamente o estudo de caso (p. 26-40) disponível no link <http://dspace.c3sl.ufpr.br/dspace/bitstream/handle/1884/33855/MARILIS%20R OCHA%20ALBUQUERQUE%20NECO.pdf?sequence=1>. O estudo de caso proposto é referente à implantação de um projeto de melhorias (kaizen) em uma empresa multinacional de grande porte em um setor administrativo. Muitas vezes, há um pré-conceito de que atividades de kaizen (melhoria contínua) só funcionam em setores produtivos. Esse estudo mostra que felizmente esta afirmação não é correta. Os resultados obtidos pela empresa em um setor administrativo foram excelentes. Após ler o texto e discorrer sobre os resultados obtidos, pode-se afirmar que a seguinte informação é correta: a. A estrutura para implantação de melhoria foi suportada unicamente por ferramentas da qualidade, entre elas: diagrama de Pareto, diagrama de causa e efeito e módulo ABC. 16 b. A implantação ocorreu por meio de informações mapeadas pela alta direção, que a disseminou entre todos os departamentos, tanto produtivos como administrativos. c. A base do programa para implantação de melhorias é sustentada por dez pilares técnicos que, por sua vez, são realizados por meio de sete passos de implementação baseados no PDCA. d. A base do programa para implantação de melhorias é sustentada por dez pilares técnicos baseados no estudo financeiro da empresa. e. A implantação ocorre com base nos 14 princípios de Deming, ressaltando o foco na liderança e no “zero defeitos”. Análise de estudo de caso O trabalho realizado na empresa CNH mostrou que o planejamento por meio de pilares de sustentação do sistema de implantação de melhorias em um setor administrativo foi uma decisão acertada da empresa. Os dez pilares técnicos criados e sua realização por meio de sete passos baseados no PDCA fortificaram o programa, e assim foi possível obter sucesso nesse trabalho (alternativa “c”). Discuta as estratégias de melhoria contínua colocadas em prática pela empresa CNH com os demais estudantes utilizando o Ambiente Virtual (AVA). NA PRÁTICA Vamos relembrar alguns pontos importantes vistos nesta aula que são de grande valia para a implantação de projetos de melhoria. Analise e responda às questões propostas. As respostas estão ao fim deste documento. 1. Para se ter um ponto de partida na análise dos processos de negócio, é necessário fazer a verificação destes. Uma empresa, para controlar a qualidade, utiliza três ferramentas (X, Y e Z). A ferramenta X contém um conjunto de itens que podem aparecer em determinado processo e cuja ocorrência ou não ocorrência devem ser assinaladas, geralmente, em forma de tabelas. A ferramenta Y é um gráfico de barras que ordena as frequências de ocorrência. A ferramenta Z é um diagrama com o formato de espinha de 17 peixe, que facilita a visualização das causas de determinado problema. Considerando o que foi descrito, avalie as seguintes afirmações: I. A ferramenta X é a Folha de Verificação, cujo uso facilita as ações de coletar, organizar e classificar dados, localizar defeitos e identificar a relação de causa e efeito. II. A ferramenta Y é o Diagrama de Pareto, que mostra a informação e torna evidente a priorização dos problemas, além de separar as causas críticas das triviais. III. A ferramenta Z é o Diagrama de Ishikawa, que apresenta a relação entre os resultados de um processo (efeito) e seus fatores (causas). É correto o que se afirma em: a. I, apenas. b. I, II e III apenas c. I e III, apenas. d. II e III, apenas. e. II, apenas. 2. Conforme vimos ao estudar princípios de análise de melhoria contínua, uma das principais ideias de Deming diz que não se gerencia (ou se administra) aquilo que não se mede. Isso remete à elaboração de indicadores. Partindo desse pressuposto, dê uma resposta ao problema a seguir: Em um restaurante, produzem-se 6.400 refeições por mês. O consumo de energia elétrica é de 12.000 kWh por mês. O proprietário precisa estabelecer uma meta de consumo e quer utilizar esses dados como base para criar um indicador de energia elétrica por refeição. Como seria o indicador ideal para demonstrar/prever o consumo em função de cada refeição produzida? a. 0,53 KWh por refeição. b. 213 refeições por KWh mês. c. 1,87 refeições por KWh. d. 1,87 KWh por refeição. e. 56,25 refeições por KWh mês. 3. Eventualmente ocorrem alguns equívocos entre projetos de melhoria contínua e inovação; no entanto há características distintas entre ambos. A melhoria contínua (kaizen) significa pequenos melhoramentos realizados no estado atual (As-Is), provenientes de esforços contínuos. Por outro lado, inovação 18 envolve um melhoramento drástico no estado atual (As-Is) como resultado de um grande investimento em nova tecnologia. Baseado nessas afirmações, assinale a alternativa correta: I. Melhoria contínua envolveinvestimento menor, porém maior esforço de manutenção, enquanto inovação envolve investimento maior, porém menor esforço de manutenção. II. Melhoria contínua envolve alta tecnologia, enquanto inovação envolve foco na obtenção de lucro. III. Melhoria contínua é útil na economia de crescimento gradual e a inovação adapta-se melhor à economia de crescimento rápido. IV. Melhoria contínua deve ser empregada em organizações fabris, enquanto inovação deve ser utilizada no ambiente administrativo. a. As alternativas I e III estão corretas. b. Somente a alternativa I está correta. c. Somente a alternativa III está correta. d. As alternativas II e IV estão corretas. e. Somente a alternativa IV está correta. FINALIZANDO A importância do mapeamento de processos é crucial para as organizações; no entanto, transformar dados e informações obtidas no mapeamento em projetos de melhoria é um grande desafio. A distância entre ter o conhecimento do que deve ser feito e efetivamente executar a melhoria é muito grande. Uma prova de que uma execução efetiva de melhoria de processos traz bons resultados é o caso do McDonald’s, citado na contextualização, o qual tem ênfase na padronização dos processos. Nesta aula vimos que a análise dos processos de negócio é o ponto de partida para a introdução de melhorias, e os indicadores mostrarão em que direção deve-se seguir para alcançar os objetivos. Neste contexto, alguns indicadores básicos podem nos mostrar como agir por meio de análises sobre o mapeamento: análises de tempo, custo, valor agregado e qualidade. Na análise da qualidade foi mencionada a importância da aplicação das ferramentas da qualidade. 19 Salientamos também algumas recomendações para elaboração de indicadores, bem como alguns exemplos para serem utilizados como referência. A partir do momento em que se tem claramente os processos mapeados e se conhece claramente os indicadores que nos guiarão na decisão de onde agir, temos recursos para iniciar as melhorias dos processos. Alguns princípios propostos por Harrington (1993) servem como roteiro para futura implantação de projetos de melhoria. E, falando sobre implantação de projetos de melhoria, mais uma vez foram enfatizadas as dificuldades de executá-los, principalmente levando-se em consideração a busca por resultados imediatos de algumas organizações por meio da aplicação de ferramentas da Produção Enxuta. Projeto de melhoria contínua ou inovação? A partir da tabela comparativa proposta por Imai (1996), verificamos as diferenças entre as duas possibilidades de atuação nos processos. Definir que caminho deve ser tomado é uma decisão do administrador. Para o sucesso na implantação de projetos de melhoria, alguns fatores críticos devem ser levados em consideração, tais como: liderança, motivação, equipe e treinamento, metas claras e disponibilidade dos envolvidos. Os 14 princípios de Deming nos auxiliam no sentido de refletir qual é o papel da administração no processo de transformação. Por fim, para saber em qual estágio uma empresa se encontra no que diz respeito à implantação de projetos de melhoria contínua, foi apresentada uma tabela para orientação. Encerro esta aula reforçando mais uma vez a frase: “O processo certo produzirá os resultados certos”. 20 REFERÊNCIAS ALVES, F. A.; SOUZA L. G. M.; FERRAZ, T. C. P. Identificação de fatores críticos que influenciam o desempenho de projetos de melhoria contínua. In: ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, 27., Foz do Iguaçu, 2007. Anais..., Foz do Iguaçu: [s. n.], 2007. BESSANT, J.; CAFFYN, S.; GALLAGHER, M. An evolutionary model of continuous improvement behaviour. Technovation, v. 21, n. 1, p. 67-77, 2001. DEMING, W. E. Saia da Crise. São Paulo: Futura, 2003. FARIA, C. Quatorze princípios de Deming. InfoEscola. Disponível em: <https://www.infoescola.com/administracao_/quatorze-principios-de-deming/>. Acesso em: 04 abr. 2018. HARRINGTON, H. Aperfeiçoando processos empresarias. São Paulo: Makron, 1993. IMAI, M. 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São Paulo: Lean Institute Brasil, 2009. SCHEIN, E. Cultura organizacional e liderança. São Paulo: Atlas, 2009. TANAKA, W. Y.; MUNIZ JUNIOR, J.; FARIA NETO, A. Fatores críticos para implantação de projetos de melhoria contínua segundo líderes e consultores industriais. Revista Eletrônica Sistemas & Gestão, v. 7, n. 1, p. 103-121, 2012. Disponível em: <http://www.revistasg.uff.br/index.php/sg/article/view/V7N1A7>. Acesso em: 04 abr. 2018. WILDAWER, W. E.; WILDAWER, D. B. S. L. Mapeamento de processos: conceitos, técnicas e ferramentas. Curitiba: InterSaberes, 2015. 22 RESPOSTAS 1. b. 2. d. 3. a. GESTÃO E MAPEAMENTO DE PROCESSOS AULA 6 Prof. Roberto Candido Pansonato 2 CONVERSA INICIAL Na aula anterior, conhecemos a importância das análises dos indicadores como forma de gerar um projeto de melhoria contínua. Os indicadores são primordiais para a tomada de decisão. Vimos também as diferenças entre projetos de melhoria contínua e inovação (que não são poucas). Embora os indicadores sejam de grande importância para a tomada de decisões, existem algumas soluções normalmente aplicadas a alguns tipos genéricos de processo. Muitas vezes, após o mapeamento de um processo, surgem grandes dificuldades para solução dos problemas. Nesta aula, será proposto um conjunto de possíveis soluções, que com certeza irá ajudá-los a decidir qual caminho trilhar após o mapeamento de um processo. Essas possíveis soluções são ativadas pelos chamados gatilhos, que iremos ver logo em seguida. Os principais temas estudados nesta aula serão os seguintes: 1. Aplicação e análises técnicas: análise de valor 2. Aplicação e análises técnicas: proposta de melhoria 3. Priorização dos processos a serem resolvidos 4. Análise da variação dos indicadores de processo 5. Análise de gaps (melhorias pontuais) CONTEXTUALIZANDO O texto a seguir refere-se a um problema fictício que ocorreu em uma indústria. Vamos tentar ajudar o diretor da empresa? A empresa RCP Automotive é uma indústria de médio porte (aproximadamente 350 funcionários) fabricante de peças automotivas e não está conseguindo atender à demanda dos clientes. Seu diretor industrial, Sr. Belmiro, solicitou a uma empresa de consultoria uma análise de qual seria o caminho para atender às solicitações dos clientes. Entre as soluções propostas após o mapeamento estavam algumas relativas à automatização de processos, ao aumento da área de estoque, entre outras. No entanto, para se melhorar a produtividade de uma empresa, antes de qualquer ação é necessária a seguinte análise: a. Verificação do nível de automatização. 3 b. Análise do ponto de equilíbrio. c. Análise da mão de obra direta e indireta.d. Análise nos pontos de gargalo. e. Análise estratégica por departamentos. Análise Um dos erros que se comentem em análises quando se quer aumentar a produtividade é automatizar pontos de um sistema produtivo que não geram impactos diretos na produtividade final de uma organização. Como automatização muitas vezes se mostra como um incremento em tecnologia, ela é aplicada sem um critério minimamente inteligente. Tomando-se como base a Teoria das Restrições, introduzida por Eliyahu M. Goldratt em seu livro A Meta (1984), todo processo produtivo terá uma restrição a qual todos os outros processos estarão subordinados; portanto, antes de qualquer ação referente à automatização, uma análise minuciosa deve ser feita para encontrar o(s) ponto(s) gargalo(s) das organizações (alternativa d). No caso da empresa deste exemplo, que tinha como foco (ou gatilho) o aumento de produtividade, antes mesmo de decidir por automatização de um processo qualquer ou aumento de área destinada a estoque, deveria ser feita uma análise das restrições dos processos. Como complemento ao que foi mencionado anteriormente, a Teoria das Restrições é baseada na premissa de que a taxa de atingimento de metas num sistema é determinada pela vazão desse sistema e limitada por pelo menos uma restrição. TEMA 1 – APLICAÇÃO E ANÁLISES TÉCNICAS: ANÁLISE DE VALOR Como já foi mencionado em aulas anteriores, o processo correto (ou o mais próximo disto) proporcionará um produto ou serviço correto. Na rota anterior, foram apresentados alguns indicadores básicos para tomada de decisão quanto aos objetivos que se quer alcançar. Além dos indicadores básicos (tempo, custo, valor agregado e qualidade), utilizam-se também alguns princípios que podem apresentar possíveis soluções para implantação de projetos que agreguem valor. As informações a seguir têm como fonte o livro Mapeamento e Gestão por Processos – BPM, de Orlando Pavani Junior e Rafael 4 Scucuglia, e foram adaptadas à rota de aprendizagem. Vale ressaltar que essas informações se referem a sugestões para possíveis soluções para elaboração do estado futuro, não devendo o analista de processos se limitar a este menu proposto. Ressalto também que os dados apresentados a seguir demonstram grande parte da realidade das empresas em que atuei. Segue abaixo quadro- resumo com os gatilhos da análise (o que se quer resolver) e as possíveis soluções. Quadro 1 – Gatilhos de análise e as possíveis soluções Gatilho da análise Possível solução (estado futuro) Resultado alvo de indicadores Pensamento lean Assegurar qualidade no início Variabilidade dos indicadores Padronização de processos Automatização Gargalo (restrição) Melhorar a produtividade nos pontos de gargalo (restrição) Interações humanas Minimizar handoffs Minimizar envolvimento de pessoas Interações externas Foco nas interações com clientes Ponto único de contato Processos separados Regas de negócio Criação de regras de negócio Terceirizações Gaps Variadas Fonte: elaborado com base em Pavani Junior e Scucuglia, 2011. O quadro anterior refere-se a um resumo da análise realizada. Se a análise demonstrar variabilidade nos indicadores (alternam-se bons e maus resultados), a possível solução pode ser a padronização dos processos ou automatização, conforme mencionado no segundo item da tabela. Vale ressaltar que, dependendo da análise realizada, pode-se ter uma ou mais soluções para o estado futuro. A seguir, serão apresentadas as definições de como funciona cada tipo de possíveis soluções do estado futuro apontados na tabela. 1.1 Pensamento lean Como já foi comentado na aula 3, o pensamento lean (ou pensamento baseado na produção enxuta) parte do pressuposto de que a sequência principal das atividades que agregam valor à transformação da matéria-prima em produto acabado não deve ser interrompida (fluxo contínuo). Como o cliente paga pelo processo de criação de valor, este deve ser o mais desobstruído possível, 5 reduzindo-se o tempo de processamento e do lead time (conforme exemplo de agregação de valor na Aula 3). Deve-se, portanto, assegurar um fluxo contínuo. Outro fator importante diz respeito a um outro princípio básico do pensamento lean: foco nas atividades que agregam valor e eliminação das atividades que não agregam valor. Se o gatilho é o resultado-alvo de indicadores, para obtenção de um bom resultado as atividades que não agregam valor, na medida do possível, devem ser eliminadas. Vale salientar que muitas vezes, principalmente nos processos administrativos, incorporam-se atividades sem agregação de valor e criam-se profissionais que as executam por um longo período. 1.2 Assegurar qualidade no início Os possíveis problemas de qualidade devem ser detectados no início do processo, não delegando esta atividade para ser efetuada após todo o processamento de um produto ou serviço. Recomenda-se investir recursos para que o processo seja robusto o suficiente para assegurar a qualidade do produto ou serviço, evitando um dos grandes problemas relacionados aos sete desperdícios que vimos na Aula 3, que é o retrabalho. 1.3 Padronização dos processos A falta de padronização dos processos pode invariavelmente gerar problemas de variabilidade de indicadores (alternância entre bons e maus resultados). Se profissionais diferentes executam as mesmas tarefas de um modo diferente, então a soma de diferentes níveis de habilidade resultará em instabilidade. Estabelecer processos padronizados baseados em métodos certificados é uma das principais tarefas após um mapeamento que certamente promoverá confiabilidade e estabilidade processual. Um caso emblemático de padronização que proporciona bons resultados é o caso do nível de padronização encontrado na rede de restaurantes de fast food McDonald’s: em qualquer lugar do mundo onde haja um McDonald’s o modo de atendimento será muito similar, para não dizer igual. Essa padronização também é vista nas empresas automotivas de origem japonesa, especificamente a Toyota, que conseguem alto níveis de qualidade ao adotar essa solução. Portanto, conclui- se que, quando a variação é mínima, tem-se um controle da instabilidade. 6 1.4 Automatização Automatizar um processo significa substituir um trabalho manual por procedimentos automáticos, sejam eles obtidos por meio de máquinas e equipamentos ou softwares de computador. Via de regra, processos automáticos geram uma eficiência produtiva maior que um processo com atuação manual. Vale ressaltar que decidir por um processo automatizado nem sempre é garantia de bons resultados. Automatizar um processo no estado atual, principalmente quando se utiliza tecnologia da informação, é como automatizar um erro. O procedimento correto seria analisar o estado atual por meio das várias técnicas apresentadas, propor um modelamento para o estado futuro e a partir daí propor possíveis automatizações. No início de nossos estudos, foram citados os erros que se cometem ao adquirir softwares que de alguma forma iriam solucionar problemas de fluxo de informações, mas algumas vezes o que se vê é a adaptação para um modo automática daquilo que estava sendo realizado de forma manual e não estava funcionando a contento – portanto, trata-se de automatizar o defeito. Embora pareça óbvio, tenho visto muitos erros deste tipo na minha trajetória profissional. 1.5 Melhorar a produtividade nos pontos gargalos Gargalos, ou restrições, são os empecilhos que barram a fluidez dos processos e muitas vezes geram estagnação na produtividade. Conforme mencionado no início desta aula, Eliyahu M. Goldratt, em seu livro A Meta (1984), diz que todo processo produtivo sempre terá uma restrição. A modelagem do estado futuro (To-Be) deve buscar sempre a otimização dos processos no sentido de aumentar a vazão nos pontos de gargalo. De acordocom a Teoria das Restrições, toda organização tem, em um dado momento no tempo, pelo menos uma restrição que limita a performance do sistema (a organização em questão) em relação à sua meta. A ilustração a seguir mostra um processo fictício em que se tem um fluxo contínuo entre a matéria-prima e o produto acabado e os tempos de ciclo de cada processo. Nota-se que por mais que o processo mais rápido deste fluxo (processo D) efetue seu trabalho, estará sempre subordinado à restrição do processo mais lento (neste caso o processo B). Cabe ao analista fazer a análise e propor as melhorias necessárias. 7 Figura 1 – Análise de restrição de processo 1.6 Minimizar handoffs O termo handoffs significa os pontos exatos em que um determinado processo troca de poder. Por exemplo, um formulário da área de suprimentos que, após a solicitação do pedido, passa por uma verificação e aprovação prévia (troca de poder 1) e em seguida passa para o supervisor de compras (troca de poder 2), que decidirá qual comprador deverá assumir este processo. De forma geral, quanto mais handoffs tiver um processo, mais moroso ele será e consequentemente com custo mais alto. Em resumo, como visto no tópico referente à cadeia de valor de Michael Porter, uma forma eficiente de identificar handoffs é analisar que quanto mais pessoas e áreas funcionais participarem de um processo ou quanto mais níveis de aprovação existirem, maior a probabilidade de esse processo conter alta proporção de trabalhos que não agregam valor. 1.7 Minimizar envolvimento de pessoas Quando se fala em minimizar o envolvimento de pessoas, não se refere apenas à substituição de seres humanos por máquinas em um sistema de manufatura. O grande ganho que se consegue nos processos está no fluxo de informações. Tal qual a dinâmica do telefone sem fio, em que uma informação transmitida entre várias pessoas causa um erro enorme no final do processo, informações orientadas através de pessoas normalmente podem gerar problemas de qualidade. Isso leva a crer que, num processo de fluxo de informações, quanto menor a quantidade de pessoas envolvidas, melhor a qualidade na passagem das informações. 8 1.8 Designação de atividades No início da Aula 2, mais especificamente na seção “Contextualizando”, foi dado um exemplo de um problema que ocorreu em uma empresa que, em função da inexistência de um procedimento de designação de atividades, proporcionou uma falha no processo que acarretou uma reclamação do cliente. A designação de tarefas nesse contexto significa a movimentação de trabalho de um departamento a outro, transferindo responsabilidades de forma clara (o que é ligeiramente diferente de handoffs). 1.9 Foco nas interações com os clientes Por que focar as interações com os clientes? O simples fato de se ter um processo interno robusto já não é o suficiente para garantir o sucesso de uma empresa? Por exemplo, é ineficiente otimizar um processo de preenchimento de pedidos sem considerar o processo de suporte ao cliente que facilite a resolução de problemas relativos ao processo em questão. Mesmo que o pedido tenha sido processado sem problemas (com eficiência), se o item for enviado ao cliente de maneira errada e este se frustrar ao tentar obter o item que ele de fato deseja, o resultado da experiência do cliente não é positivo, e a repetição de novos negócios com o mesmo se torna menos provável. A situação descrita nos remete à definição de conceitos de eficiência e eficácia. Portanto, é necessário ser eficiente nos processos internos de uma organização, porém essa eficiência não irá gerar resultados se não tivermos um processo de suporte ao cliente que o satisfaça plenamente (eficácia). 1.10 Ponto único de contato Normalmente este tipo de demanda ocorre em processos de atendimento ao cliente. Um sintoma tradicional deste tipo de problema são as transferências múltiplas de chamada quando um cliente entra em contato com uma empresa qualquer para resolver um problema. Quem já não se viu numa situação dessas, em que um atendente transfere uma chamada para outro, que por sua vez transfere para um terceiro, e assim por diante? Invariavelmente você, como cliente, irá contar sempre a mesma história para cada atendente. O cliente deseja ser atendido de forma única, com o menor grau de transferências possível. Estabelecer ponto único de contato, sempre que 9 possível e principalmente para clientes especiais, é uma forma de melhorar a relação com o cliente e gerar fidelidade. 1.11 Processos separados (criar processo para cada grupo) Demandas diferentes podem solicitar processos diferentes. Normalmente, um único processo tenta absorver todas as variações possíveis; no entanto, entradas e saídas podem variar em complexidade, tipo, tamanho etc. Para algumas variações o processo pode funcionar bem, porém, para outras pode ficar confuso e lento. Por exemplo, ao fazer compras em um supermercado, um cliente seleciona o item e decide ir direto ao caixa rápido. O supermercado tem dois processos de verificação de saída: um para muitos itens e outro para poucos. A verificação para muitos itens tem um empacotador, enquanto a rápida não tem. Se entradas naturalmente se agrupam devido a diferenças significativas, então um símbolo de decisão deve ser colocado no início do processo, perguntando qual subprocesso é mais apropriado para esse grupo. Nesse caso pode haver recursos e custos adicionais, mas deve haver maior eficiência e satisfação do cliente. O grupo de entrada é devidamente direcionado para o processo apropriado (ABPMP, 2009). 1.12 Terceirizações Uma das possíveis soluções para o estado futuro de um modelamento de processos pode ser a terceirização. Tendo como gatilho as regras de negócio, é uma prática cada vez mais comum e frequente nos dias atuais: terceirizar as responsabilidades pelos processos de apoio a outras empresas especializadas na função, liberando a empresa para que esta foque seus recursos em processos estratégicos que geram mais valor ao negócio. Alguns processos de apoio possuem um certo grau de especialização que, nos dias atuais, só se encontra em empresas terceirizadas. Neste momento, é necessário que haja uma decisão de cunho estratégico para definir quais processos devem ser terceirizados. Hoje em dia, é raríssimo encontrar empresas que não possuam processos de segurança patrimonial, limpeza e serviços de restaurante terceirizados, pois no mercado existem inúmeras empresas que prestam esses tipos serviço de maneira mais eficiente e com menor custo do 10 que se fosse realizado internamente com os recursos das organizações. Além dos processos mencionados, que já são padrões de terceirização, outros podem ser detectados por meio da modelagem e analisados quanto à possibilidade de terceirização. O fato é que empresas que adotaram a terceirização costumam relatar que seus custos reduziram, na maioria das vezes, sem alteração da qualidade do serviço. TEMA 2 – APLICAÇÃO E ANÁLISES TÉCNICAS: ANÁLISE DE VALOR Nos parágrafos anteriores, foram catalogadas algumas possíveis soluções para modelagem do estado futuro (To-Be). Será abordado nos próximos parágrafos como se efetua a análise no processo a partir dos gatilhos específicos obtidos por intermédio do estudo detalhado dos fluxos decorrentes da modelagem. Este tipo de análise é o mais comum e mais detalhado dentro das literaturas sobre BPM. Após a execução do mapeamento, quais melhorias podem ser implementadas para se obter um processo mais eficiente e eficaz? Conforme o CBOK 2.0 (ABPMP, 2009), análise de processo é definida da seguinte maneira: “a análise é um trabalho de descoberta que envolve encontrar respostas a uma série de questões sobre o processo e gerar dados para assegurar que quaisquer conclusões estejam baseadas em extrapolações de dados enão em rumores e generalizações”. Portanto, deve-se utilizar as evidências obtidas no processo para gerar as melhorias necessárias. Para análise de processo (in-process), utiliza-se comumente uma ferramenta de gestão (ou método) denominado PDCA. Criada por Shewhart e difundida nos anos 1950 por Willian Edwards Deming, é muito utilizada na administração geral. Possui como característica o controle e a melhoria de processos de forma contínua e está vinculada à filosofia kaizen (cultura japonesa referente à melhoria contínua e um dos pilares da administração da qualidade). Segue abaixo um breve resumo das etapas do PDCA: ● Plan (“Planejar”): planejar o que deve ser realizado. Deve-se observar o problema, definir o problema e determinar ações para resolvê-lo. ● Do (“Executar”): Executar as ações conforme planejado. Coletar dados para o mapeamento e análise dos próximos passos. 11 ● Check (“Verificar”): verificar os resultados e analisar os dados gerados pelo processo durante a execução, identificando as diferenças entre o planejado e o alcançado. ● Action (“Agir”): agir no sentido de realizar as correções das falhas verificadas durante o processo. Mesmo após a correção ser realizada, deve-se repetir o ciclo. Figura 2 – Ciclo PDCA e a melhoria contínua Percebe-se que com essa metodologia o ciclo não deve parar no primeiro giro, devendo girar até que se tenha plena convicção da solução do problema. Quando se fala de melhoria contínua, parte-se do pressuposto de que esse ciclo deve sempre estar em movimento. Portanto, o ciclo PDCA permite de forma otimizada e contínua a análise e o controle dos mais diversos processos existentes em uma organização. Durante a análise, deparamo-nos com a necessidade ou oportunidade de melhoria, que é o denominado gatilho (Pavani Junior; Scucuglia, 2011). Dentre esses gatilhos, ressaltam-se duas categorias: 1. Gatilho disparado por eventos específicos: ocorrências pontuais que justifiquem uma revisão de um processo de negócio. Como exemplo pode-se destacar: resultados de planejamento estratégico, introdução de novas tecnologias, novos negócios, aquisições e fusões. 2. Gatilho disparado por monitoramento contínuo: ocorrências identificadas por meio de comportamentos de indicadores que medem o desempenho de processos. Qualquer resultado esperado que não ocorra de forma contínua requer algum tipo de mudança ou ação de melhoria. De uma maneira geral, os indicadores devem ser a base para este gatilho, no entanto vale ressaltar que o conhecimento tácito das pessoas (conhecimento que o indivíduo adquiriu ao longo da vida, pela experiência e geralmente é difícil de 12 ser formalizado ou explicado a outra pessoa) deve ser levado em consideração (Pavani Junior; Scucuglia, 2011) Com relação aos gatilhos anteriormente mencionados, estes sugerem melhorias que podem ser classificadas conforme da seguinte maneira: ● Necessidade de Melhoria: refere-se a todo e qualquer resultado proveniente de uma análise que apresente um motivo específico e que esteja prejudicando as operações, tais como: problemas de desempenho, problemas de estratégia, inovação tecnológica, novos negócios, aumento de capacidade, etc. ● Oportunidade de Melhoria: refere-se a todo e qualquer resultado independentemente de qualquer motivo específico, tais como: normas de gestão, procedimentos otimizados, diagnoses estruturadas, etc. (Pavani Junior; Scucuglia, 2011) TEMA 3 – PRIORIZAÇÃO DOS PROCESSOS A SEREM RESOLVIDOS A análise de processos para implantação de melhorias normalmente consome recursos, portanto saber escolher qual processo deve ser priorizado é de suma importância. Existem várias ferramentas para priorizar tanto os processos como os problemas a serem atacados. Dentre elas podemos destacar as mais simples, como Matriz GUT, Pareto e Matriz de Impacto e Severidade. As duas primeiras fazem parte das ferramentas da qualidade. A Matriz de Impacto e Severidade – também muito utilizada para gestão de riscos em Projetos (Possi, 2006) – a qual será utilizada como exemplo, possui duas variáveis: ● Impacto: Processos de maior impacto são aqueles que se eventualmente proporcionarem falhas ou resultados negativos irão influenciar diretamente a satisfação do cliente e ou a remuneração dos acionistas. ● Severidade: Quanto mais severo for o processo, mais nocivo será uma eventual falha em termos de imagem para o cliente e reputação da organização. (Possi, 2006) Figura 3 – Matriz impacto versus severidade Fonte: ABPMP, 2009, p. 79. 13 Para utilização dessa matriz, cada processo é listado em algum ponto do quadro, levando-se em consideração a severidade e o impacto para a organização. Os processos que apresentarem uma elevada pontuação no impacto e na severidade serão os processos que precisam de mais atenção. Qualquer que seja a forma de priorização, os processos escolhidos devem atender diretamente aos objetivos da organização e ter um impacto positivo no resultado-chave do negócio. TEMA 4 – ANÁLISE DA VARIAÇÃO DOS INDICADORES DE PROCESSO Os indicadores de processo são definidos e obviamente metas são estabelecidas. Embora essas metas sejam atribuídas por meio de um desejo humano, algumas regras devem ser levadas em consideração, como por exemplo propor um objetivo alcançável. Regras para elaboração de indicadores foram apresentadas na aula 5. Um dos indicadores que certamente deverá acionar uma ação de curto prazo é o indicador referente à “reclamação de clientes”, pois todo o trabalho de mapeamento/modelagem de um processo tem como um dos principais objetivos a satisfação do cliente, seja o cliente externo ou interno. Conforme foi mencionado em parágrafos anteriores (mais especificamente na seção “Contextualizando” desta aula), a rede de restaurantes de fast food McDonald’s tem um forte trabalho no sentido de minimizar as variações de processo. Para que esse objetivo seja alcançado, a empresa utiliza a padronização de trabalho. Variações de processos ocorrem em qualquer organização, no entanto, o grande desafio é minimizá-las e mantê-las sob controle. Muitas vezes as empresas administram seus indicadores de processo pela média dos resultados, sem se importar com a variabilidade, que pode estar escondendo futuros problemas. Vejamos como exemplo os gráficos abaixo, relativos ao tempo de entrega de um produto qualquer (lead time): 14 Figura 4 – Processo A Figura 5 – Processo B Reparem que se esses dois processos fossem analisados pela média, ambos estariam atendendo à meta estipulada; no entanto, a dispersão dos resultados é muito mais evidente no processo A, em que se tem um desvio padrão de 2 contra 0,5 de desvio padrão do processo B. Embora pareçam óbvias as diferenças de resultados, normalmente é um erro comum nas organizações não se ater a esta variabilidade. Seja o analista de processos ou o administrador, a atenção à variabilidade dos processos é primordial para o sucesso de uma empresa. 15 O entendimento das causas e a proposição de melhorias para variações de um processo são mais complexas e exigem um maior esforço, no entanto, ter um processo com o mínimo de variabilidade e sob controle proporcionará resultados mais previsíveis, que com certeza irão melhorar a capacidade de planejamento de seus administradores. Neste contexto, as ferramentas estatísticas são um grande aliado. Seguem algumas sugestões dadas por Edson Vaz Musa1 (citado por Pavani Junior; Scucuglia, 2011, p. 189) durante um seminário da Fundação Nacional da Qualidade, realizado em 19 de abril de 2006, que considero relevantes e pertinentes para análise da variação dos indicadores de processo: • Toda e qualquer medida (indicador) possui variabilidade, proveniente do processo e do próprio sistema de medição; • Erro que todos comentem: mexer no processo quando eleestá estável [lembram-se do experimento de Deming, na rota 1?]. Um erro grave é cometido quando tomamos uma ação todas as vezes que determinado resultado fica acima ou abaixo da média. Comparar com a média é sempre inadequado (vide exemplos dos gráficos acima). O que precisa ser analisado é se o resultado se encontra fora dos limites de controle. • Outro ponto a ser analisado é se a variabilidade do processo (desvio padrão) está muito grande. Deve-se mexer no processo em duas situações: 1. Quando o resultado estiver fora dos limites de controle; 2. Quando se deseja diminuir a variabilidade do processo. • Tomar ações sempre que um indicador se apresentar acima ou abaixo da média só aumenta a variabilidade do mesmo. • Isso é aplicável não só a produção, mas para todos os resultados administrativos, financeiros, etc. • Pontos fora do limite de controle certamente possuem uma causa especial. É necessário localizar e trabalhas nas causas especiais. • Exemplo: um empresário norte-americano inventou um sistema de informação que possibilita analisar suas 950 lojas. Trata-se de uma gestão baseada por cores: uma loja com resultado vermelho significa variabilidade abaixo dos limites de controle. Nesses casos, ele ligava para as lojas e entendia a causa da variabilidade (sistema simples e eficaz). • Devemos focar nas causas especiais. Causas normais acontecem. Exemplo: uma queda de 3% de faturamento gera um alarde, mas quando for pesquisada uma “causa” pode ser que tenha tido um feriado a mais naquele mês. Isso gera um desconforto desnecessário. A performance está dentro dos limites normais de variação, é inevitável. • O grande objetivo a perseguir é reduzir a variabilidade dos processos. Os gráficos a seguir ilustram melhor o que ocorre nos processos e quando se deve tomar uma decisão quanto à intervenção sobre eles. 1 Primeiro brasileiro a chegar à presidência de uma empresa multinacional. 16 Figura 6 – Processo com variabilidade sob controle Figura 7 – Processo com variabilidade fora do controle TEMA 5 – ANÁLISE DE GAPS (MELHORIAS PONTUAIS) Além dos gatilhos que podem gerar as possíveis soluções apresentadas, existe um outro tipo de gatilho baseado em pontos no sequenciamento de processos que possuam algum tipo de obstáculo, por menor que seja. Mesmo não sendo tão relevantes em termos de resultado, a análise desses gaps e a proposição de melhorias proporcionará ganhos paralelos na sistemática de trabalho e no clima entre os participantes do processo. Segue abaixo alguns tipos de gaps mais comuns, conforme Pavani Junior e Scucuglia (2011, p. 196): • Produto ou serviço errado • Restrições impostas por regulações ou recursos • Políticas restritivas • Processos sem procedimento padrão • Falta de controle de qualidade • Controle exagerado • Recursos inadequados ou indisponíveis • Ergonomia pobre 17 • Layout e ambiente inadequados • Formação de filas • Pessoas controlando pessoas • Valor agregado baixo ou negativo • Inflexibilidade comportamental • Respostas muita lentas de outras áreas • Pequenos conflitos de relacionamento entre pessoas • Falta de credibilidade na liderança • Etapas sendo executadas “porque sempre foi assim” • Procedimentos operacionais desnecessários Segue um exemplo de mapeamento de um processo no qual o analista detectou um gap: Figura 8a – Fluxograma de processo (estado atual) Figura 8b – Fluxograma de processo (estado futuro) FONTE: O Autor FONTE: O Autor 18 O exemplo acima ilustra uma situação na qual não se detectaram problemas de performance por meio de indicadores, porém um tipo de gap muito comum foi identificado: “porque sempre foi assim”. Trata-se de uma inspeção realizada no produto antes de embalá-lo, sendo que todo produto estocado deve, pelo procedimento da empresa, ter sua checagem realizada. Houve também ganhos referentes aos desperdícios catalogados pela produção enxuta, tais como: eliminação de retrabalho e excesso de processo. De acordo com o exemplo anterior, cabe ao analista de processos a função de entender a lógica do sequenciamento de atividades e compreender, se existir, possibilidades de execução diferenciada que resulte em algum tipo de ganho. Conforme Mike Rother e John Shook (2009): “Sempre que há um produto para um cliente, há um fluxo de valor. O desafio é enxergá-lo”. TROCANDO IDEIAS Vimos nesta aula que um dos “gatilhos” para tomada de decisão em relação à possível solução para modelagem do estado futuro refere-se à melhoria da produtividade dos pontos de gargalo. Dentro desse contexto, o estudo de caso a seguir refere-se à utilização dos fundamentos da Teoria das Restrições (TOC) em uma indústria de couros do estado de Santa Catarina. A restrição de capacidade para atendimento a um determinado cliente foi solucionada por meio da aplicação dos fundamentos da Teoria das Restrições. Vamos ver como a utilização dessa teoria funciona na vida real? Leia atentamente o estudo de caso disponível no link a seguir: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/contabilidade/article/viewFile/2175- 8069.2009v6n11p59/11605>. Discorrendo sobre os resultados obtidos após a implantação das melhorias, pode-se afirmar que a seguinte informação é correta: a. O estudo mostra que as restrições que afetavam a empresa estavam contidas no mercado. b. O estudo mostra que as restrições que afetavam a empresa estavam contidas no elemento máquina, que era o único gargalo. c. O estudo mostra que as restrições que afetavam a empresa estavam contidas nos elementos máquina e matéria-prima. 19 d. O estudo mostra que as restrições que afetavam a empresa estavam contidos nos elementos máquina e mão de obra. e. O estudo mostra que as restrições que afetavam a empresa estavam contidos nos elementos de gestão administrativa. Análise do estudo de caso O estudo de caso na indústria de couros de Santa Catarina mostra como se efetua uma análise em um processo a partir do objetivo de aumentar a produtividade nos pontos de gargalo para atendimento à demanda do cliente. Nesse caso, a restrição principal estava na máquina. O segundo gargalo, também conhecido como recurso com capacidade restrita, refere-se à matéria- prima. Esse estudo de caso é um bom exemplo de exploração das restrições em um sistema produtivo (alternativa correta: c). Discuta com os demais alunos utilizando-se do Ambiente Virtual. Vocês já identificaram algum processo que possui restrições quanto à capacidade produtiva? Em termos nacionais (Brasil), vocês conseguem enxergar algum processo que possua gargalos (restrições) que prejudicam o fluxo de um determinado segmento? NA PRÁTICA Responda às questões propostas. As respostas estão ao final deste documento. 1. Difundida nos anos 1950 por Willian Edwards Deming e muito utilizada na administração geral, possui como característica o controle e a melhoria de processos de uma forma contínua e está vinculado à filosofia kaizen (cultura japonesa referente à melhoria contínua e um dos pilares da administração da qualidade). Essa definição se refere: I. Às sete ferramentas da qualidade. Entre elas: gráfico de controle, diagrama de causa e efeito, e histograma. II. Ao PDCA, que significa: planejar, definir, construir e agir. III. À melhoria contínua e ao processo de padronização como forma de melhoria de eficiência dos processos. IV. Ao PDCA, que significa: planejar, executar, verificar e agir. 20 Assinale a alternativa correta: a. As alternativas I e II estão corretas. b. Somente a alternativa I está correta. c. Somente a alternativa II está correta. d. As alternativas III e IV estão corretas. e. Somente a alternativa IV está correta. 2. Uma das análises que o profissional de mapeamento/modelagem de processos deve fazer refere-se à análiseda variação dos indicadores de processo. Conforme essa análise, é correto afirmar que: a. Variações de processos ocorrem em qualquer organização, no entanto, o grande desafio é minimiza-las e mantê-las sobre controle. b. Variações de processos ocorrem em qualquer organização, no entanto, deve- se maximizá-las e mantê-las sobre controle. c. As variações de processos lhes são inerentes, no entanto, devemos focar as causas normais, porém para processos especiais. d. Variações de processos ocorrem em qualquer organização devido à instabilidade dos processos de negócio, que variam em função do mercado. e. Variações de processos ocorrem em qualquer organização. Toda e qualquer medida (indicador) possui invariabilidade, proveniente do processo e do próprio sistema de gestão. 3. O segmento de pet shop movimentou no ano de 2016 no Brasil algo em torno de R$ 19 bilhões (fonte: <http://cbn.globoradio.globo.com>). A Duda’s Toy (nome fictício) é um pet shop que vem apresentando um crescimento extraordinário e precisa organizar seus processos por meio de um mapeamento. Por meio de um fluxograma simples, descreva o processo a seguir. Faça-o antes de ver a resposta e verifique a solução no gabarito ao fim da atividade. I. Início, II. Cachorro dá entrada no pet shop. III. Recepcionista do pet shop verifica se o animal está cadastrado. Se estiver cadastrado, segue para o próximo passo; se não, deve providenciar cadastro. 21 IV. Recepcionista do pet shop verifica quais serviços devem ser executados. Se tosa e banho, segue o processo 5 em diante; caso apenas banho, segue para o processo 6. V. Cachorro é levado para a tosa. VI. Cachorro é levado para o banho. VII. Após banho, cachorro é encaminhado para secagem. VIII. Cachorro é encaminhado para aplicação de antipulga e colocação de coleira e adereços. IX. Cachorro é encaminhado ao canil. X. Aguardo pelo dono do cachorro. XI. Pagamento pelo serviço efetuado. XII. Devolução ao dono. XIII. Fim. FINALIZANDO Na aula passada, vimos que a análise dos processos de negócio é o ponto de partida para a introdução de melhorias, e os indicadores mostrarão em que direção deve-se seguir para se alcançar os objetivos. Vimos também como implantar projetos de melhoria. Nesta aula, o foco sobre a análise de processos foi mais extenso. Conhecemos a complexidade de uma análise criteriosa baseada em gatilhos. Qual será o ponto de partida para implantação de melhoria após o mapeamento de processos no estado atual? Por meio de um conjunto de soluções apresentadas (tais como agregação de valor para o cliente, minimização do envolvimento de pessoas, aumento de produtividade nos pontos de gargalo, chegando até a terceirização), foi possível compreender que para cada sintoma teremos um “remédio” adequado. Entendemos a definição da análise de processos segundo a ABPMP (Association of Business Process Management Professionals), que é uma associação internacional de profissionais de gerenciamento de processos de negócios e serve como ótima referência para o nosso trabalho. Reconhecemos a diferença entre necessidade de melhoria e oportunidade de melhoria. Como decidir em que processos atuar após seu mapeamento e análise? Para essa questão, apresentamos uma ferramenta simples que apresenta bons resultados, que é a matriz de impacto e severidade. 22 Voltamos a discorrer sobre indicadores de processos, porém sob uma outra ótica, que é a análise da variabilidade dos processos. Ao se analisar indicadores de processo pela média, pode-se cometer erros primários que com certeza irão comprometer os resultados da organização. Em resumo, quanto mais padronizado for um processo, menor será a sua variabilidade. Dentro deste tópico, foram apresentadas sugestões extremamente úteis de um grande especialista na área de administração. Muitas vezes, na análise de processos, ocorrem possibilidades de melhorias pontuais que não se enquadram nos padrões pré-estabelecidos, mas que certamente devem ser implantadas (os chamados gaps). Neste contexto, foi apresentado um exemplo de fluxogramas do estado atual (As-Is) e do estado futuro (To-Be) para auxiliar a compreensão. Chegamos ao fim desta aula e desta disciplina. Todo o conhecimento visto até esse momento, desde a definição do que é um processo, passando pela gestão por processos, mapeamento e modelagem, notações para mapeamento, análise de processos e projetos de melhoria, tem como objetivo capacitar o administrador para o eficaz desenvolvimento de sua profissão. O conhecimento isolado não gera mudanças, no entanto, a transformação deste conhecimento em projetos é o que faz a diferença entre os profissionais. Espero ter contribuído no sentido de fazer esta diferença em preparar profissionais de sucesso. 23 REFERÊNCIAS ABPMP – Association of Business Process Management Professionals. CBOK 2.0: Guia para gerenciamento de processos de negócios – corpo comum de conhecimento. [S. l.]: ABPMP, 2009. ABPMP BRASIL. Disponível em: <http://www.abpmp-br.org/>. Acesso em: 5 abr. 2018. DEMING, W. E. Saia da crise. São Paulo: Futura, 2003. WILDAWER, E. W.; WILDAWER, L. D. B. S. Mapeamento de processos: conceitos, técnicas e ferramentas. 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Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2016-06/brasil-desperdica-40-mil-toneladas-de-alimento-por-dia-diz-entidad... SERAFIM, A. O modelo de cadeia de valor de Michael Porter. Portal Gestão, 13 mar. 2013. Disponível em: <https://www.portal-gestao.com/artigos/6991-o-modelo-de-cadeia-de-valor-de-michael-porter.html>. Acesso em: 28 maio 2018. TAPPING, D.; SHUKER, T. Lean Office – Gerenciamento do fluxo de valor para áreas administrativas. São Paulo: Hemus, 2010. TEMA 2 – FLUXOGRAMA DE PROCESSO: ELABORAÇÃO TEMA 3 – MAPA DO FLUXO DE VALOR (VSM): APRESENTAÇÃO TEMA 4 – MAPA DO FLUXO DE VALOR (VSM): ELABORAÇÃO TEMA 5 – VISÕES NO MAPEAMENTO DO FLUXO DE VALOR TROCANDO IDEIAS Análise do estudo de caso NA PRÁTICA Resposta FINALIZANDO REFERÊNCIAS GABARITO