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Ana Carolina Simões – MED 105 – PAPM III Aula 28/04/2022 Ausculta Cardíaca Estetoscópio Diafragma: região mais larga do sino, propício para a ausculta de sons de alta frequência. Utilizado para bulhas normais e a maioria dos sopros Deve ser utilizado em todos os focos de ausculta. Geralmente se pressiona o estetoscópio na parede torácica para se usar o diafragma Campânula: região menor do sino, propícia para ausculta de sons de baixa frequência, como 3° e 4° bulhas cardíacas e alguns poucos tipos de sopros. Deve ser usada nos focos mitral e tricúspide. Se tentarmos auscultar um som de baixa frequência com o diafragma não vamos conseguir, pois eles ficam abafados pelos sons de alta frequência. A função da campânula é justamente retirar esses sons mais altos para propiciar clareza na ausculta de sons mais baixos. Geralmente não se pressiona e nem se pega na cabeça do estetoscópio para usar a campânula Oliva: é a parte que conecta no ouvido do médico Estetoscópio de duas peças: possui diafragma e campânula em lados opostos, para utilizar a campânula é preciso virar a face e ouvir um click, significa que trocou a região de ausculta do sino. Estetoscópio de uma peça: ao pressioná-lo contra o corpo do paciente ele funciona como diafragma, ao soltarmos e deixar mais “frouxo” funciona como campânula Eletrônico: não é muito bom por distorcer o som quando aumenta o volume Técnica da Ausculta Cardíaca Ter um bom estetoscópio Estar em ambientes silenciosos dentro do possível Paciente deve estar em decúbito dorsal (deitado), com a cabeceira da cama levantada em 30° e com tórax desnudo Nunca se examina um paciente recostado no travesseiro, com apoio de pés e com braços e pernas cruzadas. Nos casos em que um paciente está dispneico, pergunta-se qual a intensidade e dependendo pode ser deixado o travesseiro, em condição de preservar o paciente, ou ainda, o paciente pode ser auscultado sentado (em casos também de alguns sopros, como o da insuficiência aórtica facilitado pela inclinação do tronco para frente) Deve ser auscultado também em decúbito lateral esquerdo, para sensibilizar alguns sons como a terceira e quarta bulhas do VE Não se ausculta todos os pacientes nessa posição, é opcional A ausculta cardíaca deve sempre começar com a palpação do pulso carotídeo (PC) Ana Carolina Simões – MED 105 – PAPM III Aula 28/04/2022 Os Focos de Ausculta Cada um desses pontos possuem uma relação anatômica direta com a parede torácica e com as estruturas que estão dentro do tórax, os quais estão intimamente próximos as válvulas Os focos levam os nomes das válvulas Ponto 1: foco mitral É muito próximo anatomicamente da válvula mitral e do VE Está no 5° espaço intercostal esquerdo, na linha hemiclavicular Ponto 2: foco tricúspide. É muito próximo da válvula tricúspide e do ventrículo direito. Está no 5° e 6° espaço intercostal esquerdo, mais próxima da linha paraesternal Ponto 3: foco aórtico acessório. É muito próximo da válvula aórtica Está entre o 3° e 4° espaço intercostal esquerdo na linha paraesternal Ponto 4: foco aórtico convencional É muito próximo da saída do vaso aórtico, ou seja, a parte inicial da aorta, logo depois da válvula aórtica Está no 2° espaço intercostal direito, mais próximo da linha paraesternal. Ponto 5: foco pulmonar É muito próximo da valva pulmonar (válvula pulmonar + artéria pulmonar) Está no 2° espaço intercostal esquerdo, mais próximo da linha paraesternal. Sequências da Ausculta Cardíaca Normalmente começa-se pelo foco mitral (1), depois para o foco tricúspide (2), em seguida o foco aórtico acessório (3), o foco aórtico convencional (4) e, por fim, o foco pulmonar (5). O foco mitral e o tricúspide são os focos em que se ausculta a primeira bulha (B1), bem audível Os focos aórtico, aórtico acessório e pulmonar são os focos onde se ausculta bem a segunda bulha (B2). Locais Adicionais de Ausculta Cardíaca Existem alguns pontos em que se passa o estetoscópio, sendo esses focos opcionais: na fúrcula, na axila e na clavícula esquerda. Na fúrcula existe um sopro característico da estenose aórtica, caso haja esse sopro, o paciente possui essa doença – local onde se procura irradiações de sopros aórticos Na axila, se houver um sopro, pensa-se em insuficiência mitral – deve ser auscultado ao nível do quinto espaço intercostal à esquerda. Na clavícula esquerda, se houver um sopro, pensa-se em persistência do canal arterial (doença congênita comum em crianças) Ana Carolina Simões – MED 105 – PAPM III Aula 28/04/2022 O canal arterial é um canal que liga a aorta com a artéria pulmonar na vida intrauterina e é ele que leva sangue oxigenado pela mãe para a aorta do neonato sistemicamente para que seja redistribuído Quando a criança nasce, a abertura pulmonar aumenta a pressão intratorácica e esse canal fecha, bloqueando o fluxo por ele, porém, quando o fluxo permanece pelo não fechamento do canal, é gerado um sopro, que é bem audível na região da clavícula esquerda. Carótida – pacientes com mais de 60 anos, com histórico de infarto, AVE e obstrução arterial periférica, tem que auscultar primeiramente a carótida para ver se pode palpá-las, pois se ele tiver sopro de carótida não pode palpar O pulso carotídeo é simultâneo a primeira bulha (B1) Toda vez que se for auscultar um paciente, é necessário auscultar as carótidas, principalmente se o paciente tiver mais de 60 anos Um sopro na carótida pode significar estenose de carótida, o que atesta obstrução local por placa de ateroma, e significa que esse paciente está sofrendo com baixo fluxo cerebral, aumentando a chance de um AVC O Pulso Carotídeo e sua Importância na Ausculta Cardíaca A palpação do pulso carotídeo é uma referência à beira do leito. Deve-se permanecer com a palpação durante todo o exame de ausculta do paciente, porque é a maneira de se identificar o que está se enxergando à beira do leito em termos de vista de ciclo cardíaco. Sem a palpação do pulso carotídeo não é possível saber o que se está auscultando A ausculta cardíaca deve sempre começar com a palpação do pulso carotídeo. A identificação da primeira e segunda bulhas (B1 e B2) é guiada pelo pulso carotídeo. A B1 é a bulha que bate com o pulso carotídeo – o pulso carotídeo distende simultaneamente com o aparecimento do som da B1 (“Tum”) O pulso arterial é simultâneo a B1 Lembrar: diástole = enchimento; sístole = ejeção. A identificação da B1 e B2 é crucial para a identificação do ciclo cardíaco a beira do leito Ciclo Cardíaco e Bulhas A B1 corresponde ao som de fechamento da válvula mitral e tricúspide (“Tum”) – fim da diástole e começo da sístole (onde ocorre a ejeção do volume sanguíneo) Com o começo da sístole, as válvulas aórtica e pulmonar abrem e o ventrículo esvazia A B2 corresponde ao som do fechamento das válvulas aórtica e pulmonar (“Tá”) pós a sístole expulsar todo o sangue do ventrículo, dando início a uma nova diástole A ausculta de primeira bulha (B1) É a bulha que bate junto com a distensão do pulso carotídeo No foco mitral ouvimos o componente M1 e no tricúspide o T1 Ana Carolina Simões – MED 105 – PAPM III Aula 28/04/2022 O som de M1 (tum), tem maior intensidade que o som de T1 (tum) Isso acontece porque o VE é mais potente e tem mais pressão que o VD, fazendo com que no momento que ele comece a contrair, a válvula mitral seja fechada com mais força do que a válvula tricúspide M1 pode ser desdobrada, sendo representeada com trum, quando se aproxima do foco tricúspide Pode ser auscultada em todo o tórax, porém é melhor audível em seus focos de origem B1 é somde alta frequência, portanto é audível com o diafragma As patologias cardíacas mais frequentes estão mais atreladas a B1 Fatores que atuam na sonoridade de B1 A espessura da parede torácica – sendo menor em obesos, em pessoas com mamas e musculatura grande, e maior em crianças e em indivíduos mais magros. A intensidade e rapidez com que o ventrículo ejeta – quanto mais competente maior a intensidade da sonoridade, quando menos competente, como na IC, menor a intensidade (B1 vai ser hipofonética.) A estrutura das válvulas – diminuída na insuficiência mitral (IM) e aumentada na estenose mitral o O som de B1 é hiperfonético na estenose mitral e tricúspide (mais rara) Hiperfonese – aumento da sonoridade vocal ou dos ruídos cardíacos Quando a válvula mitral é estenótica, a pressão no átrio é muito grande, porque a válvula não abre, com isso, a pressão vai aumentando cada vez mais, até que a válvula seja aberta e, quando isso acontece, a válvula está fibrótica, degenerada e se une à parede atrial, assim, da mesma maneira em que se usou uma pressão para abrir a válvula, uma grande pressão será utilizada para fechá-la. A ausculta de segunda bulha (B2) Necessariamente, o que caracteriza o som da B2 é a tentativa do sangue de retornar para o VD/VE pelas válvulas pulmonar e aórtica com elas já fechadas As artérias aorta e pulmonar estão cheias de volume, o que aumenta a pressão nelas, porém as pressões dentro dos ventrículos estão baixas, então, existe uma tendência natural do sangue que está nelas querer voltar para os ventrículos novamente por diferença de pressão Quando esse sangue tenta entrar, o que acontece é que o sangue irá bater nas regiões dos seios das válvulas (seios de valsalva) onde ele empurra essas válvulas para a posição de fechamento, fazendo com que ocorra o som de B2, ou seja, a coluna de sangue volta disparada com o intuito de entrar no ventrículo, porém encontra a válvula fechada, o que causa um choque na superfície desta Resumindo, ele depende do volume batendo nas válvulas e da pressão com que esse volume bate – quanto mais volume e quanto mais pressão, mais intenso o som de B2. É a bulha que não bate junto com a distensão do pulso carotídeo No foco aórtico e aórtico acessório auscultamos o componente A2, e no foco pulmonar o componente P2 O “tá” do A2 em um dos focos aórticos tem ser maior que o “tá” do som de P2 Pode ser auscultada em todo o tórax, porém é melhor audível em seus focos de origem A B2 é um som de alta frequência, portanto audível com o diafragma do estetoscópio A B2 é fisiologicamente desdobrada no pico da inspiração, melhor audível no foco pulmonar Ela possui os componentes A2 e P2 com uma distância de fechamento entre eles, e essa distância pode ser perceptível fisiologicamente O que ocorre é que a válvula aórtica fecha primeiro do que a válvula pulmonar, porque o VE, por ser mais rápido e mais potente, ejeta primeiro e fecha a válvula logo em seguida; já o VD, que é mais atrasado, ejeta depois e somente após isso fecha a válvula pulmonar o Mesmo que haja essa diferença de tempo entre os fechamentos, ela é bem pequena o Resumindo, na hora da inspiração, leva-se mais volume para o coração direito, e assim, como o VD já é mais atrasado, a distância entre A2 e P2 vai aumentar mais ainda, fazendo Ana Carolina Simões – MED 105 – PAPM III Aula 28/04/2022 com que o VD demore mais para ejetar e fechar a válvula pulmonar e, consequentemente, se ouça o som como “trá” Na expiração, o som de B2 é seco (“tá”) Fatores que atuam na sonoridade de B2 A estrutura da parede torácica – menor em obesos, em pessoas com mamas e musculatura grande, e maior em crianças e em indivíduos mais magros. O volume ejetado – maior nos estados hiperdinâmicos (aumenta DC), e menor na estenose aórtica grave e na insuficiência cardíaca grave o Em todos os estados hiperdinâmicos, como febre, anemia, gravidez, ansiedade e exercícios físicos, o volume ejetado é muito grande, e assim, consequentemente, o volume que retorna e bate na superfície da válvula também será muito grande o Na IC, há ejeção de pouco volume, então, somente esse pouco volume volta para bater na superfície da válvula o Na estenose da válvula aórtica, a válvula não permite a passagem de sangue, então, como passa pouco sangue, consequentemente pouco volume irá retornar para bater na superfície da válvula Estado de fechamento da válvula – diminuindo na insuficiência aórtica e pulmonar em função do volume não bater em toda a superfície da válvula. Pressão nas grandes artérias – sendo elevada na HAS e na HAP (hipertensão arterial pulmonar – ocorre, por exemplo, em casos de DPOC (mais comum), doenças congênitas e idiopáticas) o Na HAS (lado esquerdo) e na HAP (lado direito), o sangue irá retornar com uma alta pressão e irá chocar na válvula já fechada Observações Se um paciente tem um sopro que cai depois da B2 e antes da B1, é um sopro diastólico Exemplo: pensando no coração esquerdo, na diástole, que é o tempo do enchimento, a válvula aórtica está fechada e a válvula mitral tem que estar totalmente aberta para a passagem do sangue do AE para o VE, porém, caso a válvula mitral não abra totalmente como deveria, ocorre o aparecimento de um sopro, que é característico do turbilhonamento que ocorre no momento da passagem do sangue pela válvula, configurando o quadro de estenose mitral (sopro na diástole) Caso o médico dispense a informação técnica da palpação do pulso carotídeo, pode haver uma confusão de diagnóstico entre as bulhas B1 e B2, e caso isso corra, a consequência de se tratar um paciente com insuficiência mitral como se fosse com estenose mitral pode ser a morte Se o sopro está caindo entre B1 e B2, é um sopro sistólico Exemplo: Um paciente com sopro sistólico possui o som “TUM – FFFFFF – TÁ”. o Se esse sopro for na válvula mitral na sístole, significaria que essa válvula está permitindo o vazamento de sangue do ventrículo por ela, o que configura um quadro de insuficiência mitral Lembrando que em condições normais, na sístole, há ejeção de sangue pela aorta, então a válvula mitral tem que estar fechada para que não haja vazamento do sangue para o átrio Se há uma bulha acessória grudada na B1, normalmente essa bulha é a B4. Se há uma bulha acessória grudada na B2, normalmente essa bulha é a B3 Ana Carolina Simões – MED 105 – PAPM III Aula 28/04/2022 Sequência Lógica na Ausculta Cardíaca Passo 1: ausculta de bulhas normais – buscando avaliar a intensidade dos componentes Foco mitral buscando B1 (M1) Foco tricúspide buscando B1 (T1) Foco aórtico acessório buscando b2 (A2) Foco aórtico buscando B2 (A2) Foco pulmonar buscando B2 (P2) Passo 2 – ausculta de bulhas acessórias (patológicas) Foco mitral, buscando B3 e B4 de ventrículo esquerdo Foco tricúspide, buscando B3 e B4 de ventrículo direito. Passo 3 – ausculta de sopros Retomar o passo 1 todo em busca de sopros Como descrever uma ausculta cardíaca fisiológica O ritmo deve ser regular (RCR) com os sons de B1 e B2 ocorrendo de maneira cadenciada (ritmo cardíaco regular, podendo ser bradicardico ou taquicardico). O ritmo regular nos afirma sobre a integridade do nó sinusal, ou seja, o comando elétrico do coração está normal Quando o ritmo é irregular, deve ser descrito como tal, o que nos leva a pensar em patologias como a fibrilação atrial Deve ser em 2 tempos, ou seja, com presença e B1 e B2 Deve ter M1 maior que T1 Deve ter A2 maior que P2 Não deve ter sopros ou bulhas acessórias Desdobramento fisiológico presente. Descrição de Ausculta Cardíaca normal – RCR em 2T, com M1 >T1, com A2 > P2, podendo haver desdobramento fisiológico de B2 presente, sem sopros ou bulhas acessórias.