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ÉTICA, RESPONSABILIDADE SOCIAL E AMBIENTAL AULA 6 Prof.a Olívia Resende 2 CONVERSA INICIAL Olá você já imaginou como seria a responsabilidade das organizações em um mundo cada vez mais globalizado? Como seriam suas ações em meio a consumidores cada vez mais conscientes da sua responsabilidade com um mundo melhor? Consumidores estes com mais acesso a informação e produtos diferenciados? Como as organizações se mantêm em um cenário assim? Pense e reflita sobre estas perguntas. Nesta aula, vamos tentar responder a estas perguntas e mais especificadamente, iremos aprofundar nas Ferramentas de Gestão que direcionam as empresas na busca de resultados sustentáveis. CONTEXTUALIZANDO A responsabilidade social empresarial é, segundo o Ethos, “uma forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais que impulsionem o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais”. A Responsabilidade da Empresa surge em um contexto, onde o Estado, as empresas e a sociedade civil estão envolvidos diante das pressões internacionais que coloca todos num campo de incertezas; com relação aos seus projetos, fazendo com que outras formas de controle dos respectivos destinos sejam objeto de pesquisa e de utilização de novas certificações, metodologias e sistemas de apoio à decisão. Algumas ferramentas gerenciais contribuem para a implementação e fiscalização de práticas de Responsabilidade Social Empresarial. Com a globalização das práticas de RSE, entende-las e aplica-las de maneira adequada é de extrema importância. No que diz respeito ao papel do gestor na construção da responsabilidade social da organização devem ter especial atenção, pois os projetos que não levarem essas questões em consideração estarão fadados ao fracasso. Da mesma forma, o desconhecimento progressivo do processo de governança local 3 e das dinâmicas locais sobre o desenvolvimento de processos de intervenção tecnológica tem trazido inúmeros problemas: para as comunidades, os governos, os organismos internacionais e os órgãos de fomento internacional, no âmbito da gestão dos respectivos projetos, entre eles os projetos de responsabilidade social. Nesta rota buscaremos refletir sobre a Gestão Empresarial e a Responsabilidade Social Empresarial em meio a um cenário de globalização, apresentaremos algumas ferramentas, normas e práticas que devem ser objeto dos programas de responsabilidade social empresarial, as quais poderão ser utilizadas para que a sua empresa seja considerada responsável, dentre eles daremos enfoque ao Investimento Comunitário Estratégico, além disto apresentaremos o marketing 3.0, um novo conceito para o desenvolvimento de estratégias de marketing que está totalmente relacionado às estratégias de Sustentabilidade e de Responsabilidade Social. Para tanto buscaremos responder as seguintes perguntas: Para responder a esta e outras perguntas, começaremos abordando a relação entre a Globalização e a Responsabilidade Social Empresarial. TEMA 1 DA ROTA: A GLOBALIZAÇÃO DA RESPONSABILIDADE SOCIAL E O PRINCÍPIO DA INCERTEZA Com a globalização estamos há algumas décadas vivendo um movimento internacional denominado “neoliberalismo”. O neoliberalismo defende que o Estado deixe de ser agente controlador da economia, ou seja, defende a pouca intervenção do governo no mercado de trabalho, a política de privatização de empresas estatais, a livre circulação de capitais internacionais e ênfase na O que a globalização tem a ver com a Responsabilidade Social Empresarial? Existem formas de gerir uma empresa voltada para sua Responsabilidade Social? 4 globalização, a abertura da economia para a entrada de multinacionais, a adoção de medidas contra o protecionismo econômico, a diminuição dos impostos e tributos excessivos, dentre outros, passando o estado a exercer um reduzido número de atividades, delegando, através de diferentes mecanismos e leis, parte das suas atividades para outros segmentos da sociedade. Assim, algumas atividades que antes eram exclusivas do Estado passaram a ser confiadas às empresas. Que através da Responsabilidade Social Empresarial, se transformaram em grande parte, em agentes de desenvolvimento local, através das parcerias público-privadas. Neste cenário, as empresas passaram a ter mais responsabilidades. Quando nos remetemos ao “princípio da incerteza”, estamos nos referindo ao grande número de exigências, normas, projetos, controle e monitoramentos que as empresas passam nesse momento e que precisam ser revistos através de análise prospectiva para que seus objetivos sejam atingidos. Podemos então dizer que a Responsabilidade Social Empresarial, surge neste contexto internacional neoliberal, como mudança de perspectiva do sistema econômico e de regime de Estado. No aspecto neoliberal, o Estado cria todas as condições para se dedicar às suas novas funções. Entretanto, deixa de ser um “agente de controle” das atividades econômicas para ser um “agente de fiscalização” dos processos, produtos e serviços que foram terceirizados, privatizados e realizados através de parcerias público-privadas (setor privado) ou termos de parceria (terceiro setor). Em relação às organizações da sociedade civil, o Estado as dota de natureza privada com personalidade jurídica de instituição pública, garantindo que estas possam receber recursos de instituições públicas ou de empresas, com dedução de imposto de renda, para desenvolvimento de projetos. Nesse contexto, empresas, comunidades, mercados nacionais e internacionais, agências de certificação e projetos diversos passam a fazer parte das agendas das empresas responsáveis e dos seus respectivos setores e profissionais. 5 Destarte, o papel dos diferentes atores sociais está assim definido: o Estado passa a ser agente fiscalizador das atividades que atribuiu para empresas e organizações da sociedade civil, através das agências de regulação; a sociedade civil, estruturada em organizações da sociedade civil de interesse público, será o agente público para projetos na área social, sob tutela e controle do Ministério da Justiça; o Ministério Público, seja ele federal ou estadual, passa a ser agente de controle dos bens de interesse difuso e coletivo de todo tipo de relação estabelecida entre o Estado, as empresas; as empresas passam a ser agentes de desenvolvimento local, numa perspectiva de sustentabilidade social, ambiental, cultural, econômica e financeira. Para Ferraz (2007), a responsabilidade social, nada mais é que um dos pressupostos da função social da Empresa: o de atender aos anseios da sociedade onde está inserida, por meio de práticas sociais e éticas, o amparo aos direitos do trabalhador envolvido com a produção, bem como o reconhecimento dos valores desse trabalhador por meio de investimentos intelectuais e culturais, e enfim, a responsabilização, ambiental, social e moral. Assim, como analisamos em outras rotas e aqui reforçado, a responsabilidade social vem assumindo relevância considerável a partir das intervenções realizadas pelas empresas em diversas situações em que o Estado não se faz mais presente. Não basta implantar práticas para solução de desafios empresariais, é necessário que elas possam também ser avaliadas. Da mesma forma, é preciso saber qual tipo de prática a ser adotada vai tornar possível que os resultados sejam atingidos. Segundo Zocolaro (2013), em linhas gerais, as empresas têm desenvolvido práticas na área de: governança, direitos humanos, público interno,6 meio ambiente, cadeia de valor, comunidade e sociedade, governo e mercado consumidor. Gonçalves (2011) entende que as ações de responsabilidade social estão cobrindo as áreas de educação, meio ambiente, capacitação de mão de obra, gênero e diversidade social, sexual e racial, emprego e renda e orientações para o mercado, as empresas passam a ter uma ação muito mais extensiva. Atualmente, as empresas passam a incorporar funções governamentais, quando gradualmente vão assumindo áreas e projetos, que efetivamente não são a sua atividade fim, fazendo com que internamente todo o seu público alvo esteja também envolvido nessas atividades. Para se implantar a responsabilidade social empresarial, foram desenvolvidas várias ferramentas, normas e seus respectivos sistemas de gestão que, ao serem aplicados e sistematizados pelos diferentes públicos-alvo, garantem a certificação a responsabilidade social de todos os procedimentos descritos nos planos a serem desenvolvidos. A responsabilidade social empresarial envolve temas e demandas diversos, que só podem ser suficientemente inseridos em uma organização por meio de várias ferramentas de gerenciamento. Entre as ferramentas de gestão mais utilizadas, temos o balanço social, que é uma ferramenta de comunicação dos resultados das atividades das empresas e de seus projetos nessa perspectiva. O balanço social é um tipo de demonstração de resultados parecido com as demonstrações financeiras publicadas anualmente, no qual as empresas apresentam um conjunto de informações sobre os projetos, os benefícios e as ações sociais dirigidas aos empregados, aos investidores, aos analistas de mercado, aos acionistas e à comunidade. Relatório de Sustentabilidade Empresarial, Balanço Social Corporativo, Relatório Social e Relatório Social-Ambiental são outros nomes utilizados pelas organizações, especialistas e acadêmicos para designar o material informativo sobre a situação da organização em relação a questões sociais e ambientais. (OLIVEIRA, 2008). 7 A função principal do balanço social é tornar pública a responsabilidade social empresarial, construindo maiores vínculos entre a empresa, a sociedade e o meio ambiente. Leitura Obrigatória Rico, E. M. A responsabilidade social empresarial e o Estado: uma aliança para o desenvolvimento sustentável. Perspec. vol.18 no.4, São Paulo 2004 Saiba mais Assista o vídeo da Fundação Grupo Boticário e da responsabilidade assumida pela empresa. O Brasil é um país maravilhoso, rico em florestas tropicais e em reservas de água doce. O trabalho da Fundação Grupo Boticário é proteger o patrimônio natural do nosso país, que além de ser maravilhoso, possui a maior biodiversidade do planeta. Assista a este vídeo e conheça os projetos da Fundação! https://www.youtube.com/watch?v=DVE19y5znGA TEMA 2 DA ROTA: FERRAMENTAS GERENCIAIS NO PROCESSO DE RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL Atualmente, a responsabilidade das empresas passa a ser o centro das discussões das principais economias do mundo, associado ao conceito de desenvolvimento sustentável, um modelo de progresso econômico e social que permitirá que todos os seres humanos atinjam boas condições de vida, sem comprometer a capacidade do ser humano de se manter continuamente no planeta. Na tentativa de dar resposta a esse anseio mundial, surgem códigos, princípios e normas que regulamentam essas práticas. Alguns exemplos são o Pacto Global da ONU, já visto em nossas aulas, o Sustainability Index do Dow Jones, e as normas SA8000 (focada prioritariamente nas relações de trabalho) e AA1000 (com foco no diálogo com partes interessadas), que desafiam as corporações a atingir um patamar mais alto de desempenho. No Brasil, a Bovespa lançou em 2005 o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), https://www.youtube.com/watch?v=DVE19y5znGA 8 resultado da análise de uma carteira de ações de empresas reconhecidamente comprometidas com a sustentabilidade. Atualmente, o GRI –Global Reporting Initiative, foi criada com o objetivo de elevar as práticas de relatórios de sustentabilidade de empresas a um nível de qualidade equivalente ao dos relatórios financeiros. Estes códigos, princípios e normas que regulamentam as práticas de Responsabilidade Social Empresarial, contribuem demonstrando para todos qual é a postura da empresa e seus dirigentes e da qualidade do produto ou serviço oferecido. Como vimos, o Estado ajuda apenas na identificação e na formulação de políticas públicas, deixando a responsabilidade para as empresas. Segundo a Global Reporting, um relatório de sustentabilidade é um relatório que divulga o desempenho econômico, ambiental, social e de governança da organização relatora. Cada vez mais, organizações querem tornar suas operações mais sustentáveis e estabelecer um processo de elaboração de relatório de sustentabilidade para medir desempenhos, estabelecer objetivos e monitorar mudanças operacionais. Um relatório de sustentabilidade é a plataforma fundamental para comunicar os impactos de sustentabilidade positivos e negativos bem como para obter informações que podem influenciar na política, estratégia e nas operações da organização de uma forma contínua. Vamos apresentar alguns relatórios. Iniciamos com os Indicadores Ethos, que segundo o Instituto Ethos são ferramentas de gestão que visam apoiar as empresas na incorporação da sustentabilidade e da responsabilidade social empresarial (RSE) em suas estratégias de negócio, de modo que esse venha a ser sustentável e responsável. A ferramenta é composta por um questionário que permite o auto diagnóstico da gestão da empresa e um sistema de preenchimento on-line que possibilita a obtenção de relatórios, por meio dos quais é possível fazer o planejamento e a gestão de metas para o avanço da gestão na temática da RSE/Sustentabilidade. Ainda para o Instituto Ethos, a atual geração dos Indicadores Ethos, que será continuamente aprimorada, apresenta uma nova abordagem para a gestão das empresas e procura integrar os princípios e comportamentos da RSE com 9 os objetivos para a sustentabilidade, baseando-se num conceito de negócios sustentáveis e responsáveis ainda em desenvolvimento. Além de ter maior integração com as diretrizes de relatórios de sustentabilidade da Global Reporting Initiative (GRI), com a Norma de Responsabilidade Social ABNT NBR ISO 26000, CDP, e outras iniciativas. Os Indicadores Ethos para Negócios Sustentáveis e Responsáveis têm como foco avaliar o quanto a sustentabilidade e a responsabilidade social têm sido incorporadas nos negócios, auxiliando a definição de estratégias, políticas e processos. Embora traga medidas de desempenho em sustentabilidade e responsabilidade social, esta ferramenta não se propõe a medir o desempenho das empresas nem reconhecer empresas como sustentáveis ou responsáveis. O Global Report Initiative (GRI) é outro instrumento gerencial para avaliação das práticas de responsabilidade social através de relatórios que deverão ser enviados para os organismos credenciados. (Indicadores Ethos de Responsabilidade Social Empresarial, 2007) Já a norma ISO 14063 define comunicação ambiental como sendo o processo de compartilhar informação sobre temas ambientais entre organizações e suas partes interessadas, visando construir confiança, credibilidade e parcerias para conscientizar os envolvidos e para utilizar as informações no processo decisório. A norma está organizada para propor o alinhamento entre os princípios, a política, a estratégia e as atividades de comunicação ambiental (CAMPOS, M. K. S., 2007). As organizações devem construir sua comunicação ambiental com base em princípios: utilizar transparência no processo, ser relevante no conteúdo comunicado, garantir credibilidade das informações, ser responsivo aos stakeholders e adotar clareza nalinguagem. O Projeto SIGMA foi lançado em 1999 com o apoio do Departamento de Indústria e Comércio do Reino Unido. Visando construir a capacidade das empresas de alcançarem seus objetivos de negócio e institucionais tratando, de modo mais eficaz, os dilemas, ameaças e oportunidades nos campos econômico, social e ambiental. As diretrizes do Projeto SIGMA oferecem soluções flexíveis e viáveis que podem ser implementadas em uma ampla gama 10 de setores, tipos de organização e funções. Integração e melhoria de desempenho são palavras chaves no Projeto SIGMA. Ele reúne temas sociais, ambientais e econômicos, ao mesmo tempo em que incentiva as empresas a integrar essas áreas na gestão organizacional. É a síntese de vários modelos e instrumentos no campo da responsabilidade social empresarial. Ele pode ser usado sozinho ou em conjunto com outras iniciativas e permite às organizações definirem seu próprio processo de acordo com suas necessidades, visando sempre à melhoria do desempenho. (Instituto Willis Harman House, Antakarana) O Guide 72 (ISO, 2001) é um documento informativo sobre conceitos, processos e metodologias para sistemas de gestão que deverão ser objeto de uso pelas empresas para implantação dos processos de certificação e de padronização de sistemas de gestão. A norma PAS 99 (BSI, 2006) é a primeira norma mundial que integra os diferentes sistemas de gestão da qualidade (qualidade, meio ambiente, higiene, saúde e segurança do trabalho). Nesse procedimento padrão não foram incluídas as normas de ética e responsabilidade social. O modelo usado na PAS 99 (BSI, 2006) tem como base o Guide 72 (ISO, 2001) com algumas modificações, já tendo sido testado na prática. Todo o processo do sistema integrado de gestão segue o mesmo princípio do sistema PDCA como mecanismo de gestão das diferentes normas de qualidade. Assim, o primeiro passo deve ser a identificação das necessidades do negócio. Se a empresa não vê benefícios com a integração, então não deverá fazê-la – embora seja difícil imaginar uma organização que não veja. Leitura Obrigatória RODRIGUES et al. A prática da Responsabilidade Social Empresarial através do Programa Miniempresa da Junior Achievement em Macapá/AP. Saiba mais Assista os vídeos da norma 26000 e a entrevista sobre Sistema de Gestão Ambiental e fique por dentro. 11 https://www.youtube.com/watch?v=pp_ERQAaEko https://www.youtube.com/watch?v=0wZIm-E5yOM TEMA 3 DA ROTA: INVESTIMENTO COMUNITÁRIO ESTRATÉGICO (ICE) O aumento vertiginoso da pobreza, aliado aos processos de redemocratização de diversos países, intensifica a pressão social exercida pela sociedade junto ao setor privado. O resultado é a ampliação do alcance da visão das empresas sobre sua responsabilidade, que passam a ir além das expectativas de acionistas, funcionários, fornecedores e clientes. As empresas começam então a perceber a necessidade de geração de valor para todos os stakeholders, e a serem questionadas na sua missão e objetivos, em seus processos produtivos e nos impactos que geram no meio ambiente, na sociedade dentre outros. (Aliança Grupo Capoava, 2010) Recentemente, a Corporação Financeira Internacional, objetivando ampliar e melhorar os resultados da cadeia de valor dos investimentos realizados em programas e projetos de responsabilidade social, desenvolveu outro programa, que já está em andamento, denominado Investimento Comunitário Estratégico. Os novos desafios impostos as empresas, exigem que estas se tornem sujeito de transformação social, tanto da comunidade onde está inserida, quanto do país, assim, o Investimento Comunitário Estratégico, quando executado de maneira estratégica, ou seja, alinhado às diretrizes de responsabilidade social e sustentabilidade e às estratégias de negócio da empresa, integrando a perspectiva interna à perspectiva externa do negócio, e gerando valor para a empresa e sociedade, contribui para que estes desafios sejam alcançados. No Brasil ainda pouco se fala do Investimento Comunitário Estratégico (ICE), onde é praticamente desconhecido da maior parte das instituições e empresas. Convém ressaltar que todas as considerações realizadas nesse item foram extraídas do único manual da CFI em língua portuguesa que trata dessa questão no País. https://www.youtube.com/watch?v=pp_ERQAaEko https://www.youtube.com/watch?v=0wZIm-E5yOM 12 Segundo Pimentel (2011), atualmente, a grande maioria dos investidores sociais privados são fundações, associações empresariais e empresas, e não pessoas físicas, fundações familiares ou comunitárias. Isso significa dizer que, de forma geral, estes investimentos são administrados tendo como pano de fundo a lógica empresarial. Assim, parece natural que os investimentos sejam executados por meio do desenvolvimento de programa próprio, ou seja, sejam focados em determinados temas definidos pela empresa em um horizonte mais curto de tempo. Mas em que consiste o ICE? O ICE consiste, por um lado, em contribuições ou ações voluntárias por parte das empresas para ajudar comunidades localizadas em suas áreas de operação a resolver suas prioridades de desenvolvimento; e, por outro, em aproveitar as oportunidades criadas pelo investimento privado de maneira sustentável que respaldem os objetivos do negócio (IFC, 2010). Vale ressaltar que o ICE não deve ser confundido com as obrigações das empresas de mitigarem ou compensarem as comunidades locais pelos impactos ambientais e sociais causados por projetos em desenvolvimento. Essas questões são tratadas de forma isolada pelos “Padrões de Desempenho Socioambiental” da IFC. Entretanto, as duas são componentes interligadas de uma abordagem da gestão dos relacionamentos empresa– comunidade. As empresas estão mudando as suas formas de gestão socioambiental, passando de “doadoras filantrópicas” e de “práticas pontuais” para adotantes de “programas estratégicos de planejamento” centrados em investimento comunitário orientado para plano de negócios. Segundo o Instituto Ethos, o ICE, através da gestão dos riscos e das oportunidades, cria valor compartilhado pela articulação dos objetivos e das competências do negócio, com as prioridades de desenvolvimento das partes interessadas locais. 13 Através do ICE, as empresas apoiam diversos tipos de atividades: capacitação, desenvolvimento de formas de sustento, transferência de conhecimento, acesso a serviços sociais e infraestrutura, frequentemente em contextos onde os níveis de pobreza, risco social e expectativa são altos e onde empresas e comunidades competem pelo uso da terra e dos recursos naturais. A estrutura de um programa de ICE passa pelas seguintes etapas: avaliar o contexto empresarial; avaliar o contexto local; avaliar o processo de envolvimento comunitário; e avaliar a necessidade de capacitação. Depois dessas etapas, é necessário definir os parâmetros, o modelo de implementação e o processo de mensuração e comunicação dos resultados. A noção dos conceitos de desenvolvimento, inovação, mudança e progresso poderá ter diferentes significados em razão dos contextos historicamente produzidos, que definiram elaborações e apropriações cognitivas pelos diferentes grupos e comunidades, no local onde as empresas e instituições desenvolvem as suas atividades. A construção de um modelo cognitivo integra: a história pessoal e comunitária com conceitos e significados; a formação dos conjuntos de relações que definem formas de pensar, agir e se comportar diante das diferentes relações que se estabelecem diariamente com as coisas, os outros, o mundo, os objetos; e, por conseguinte, as implicações das atividades das empresas quando pretendem implantar programas de responsabilidade social e de investimento comunitário estratégico. Concomitantemente, para a identificação da estrutura do modelo cognitivo das comunidades de projeto,os gestores devem levar em consideração: Variáveis culturais; Variáveis ambientais; Variáveis sociais; variáveis políticas; Variáveis econômicas; Variáveis financeiras. As Variáveis culturais, na maior parte dos projetos de empreendimentos civis, a variável cultural não é levada em consideração, já que, praticamente, a legislação que regula a possibilidade de realização de um empreendimento não privilegia essa questão como fator de realização deste; 14 Variáveis ambientais, existe uma grande diferença entre a compreensão do que seja um aspecto (variável promotora do impacto) em relação a um impacto ambiental (fatores resultantes da ativação de um aspecto); Variáveis sociais, a maior parte dos empreendimentos não se integra aos locais onde são instalados, tanto da perspectiva de sua manutenção (uso de mão de obra local) quanto dos grupos sociais que irão utilizá-los; Variáveis políticas, a falta de conhecimento das atividades a serem desenvolvidas pelos empreendimentos pode gerar uma ação reativa em termos de organização local contra estes, como já vem acontecendo em várias partes do planeta; Variáveis econômicas, refere-se a um conjunto de grandezas determinadas pelo funcionamento do sistema econômico, onde estão incluídos, por exemplo, os preços, as quantidades transacionadas no mercado, a riqueza produzida, as taxas de juros, as taxas de câmbio, a legislação trabalhista, as taxas de desemprego, entre outras; Variáveis financeiras, as variáveis financeiras são aquelas relacionadas aos valores e ao orçamento de capital, à avaliação do retorno e do risco financeiro, à análise da estrutura de capital, às possibilidades de financiamentos de longo ou curto prazo e à administração de caixa do empreendimento em desenvolvimento. De uma forma geral, os programas de ICE acabam se tornando um aspecto (agente promotor do impacto) que evitará um impacto (resultado da ação de um aspecto) passivo (custo de recuperação de um impacto) e um dano ambiental (infringência legal produzida por um impacto ambiental). Leitura Obrigatória http://commdev.org/wp- content/uploads/2015/05/P_SCI_Quick_Guide_Portugese.pdf Saiba mais http://commdev.org/wp-content/uploads/2015/05/P_SCI_Quick_Guide_Portugese.pdf http://commdev.org/wp-content/uploads/2015/05/P_SCI_Quick_Guide_Portugese.pdf 15 Leia o artigo do Instituto Iris sobre a diferença entre os conceitos de Responsabilidade Social e Investimento Social. http://institutoiris.org.br/artigo/a-diferenca-entre-os-conceitos-de- responsabilidade-social-e-investimento-social/ TEMA 4 DA ROTA: SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL E SUAS RELAÇÕES COM A GESTÃO DA MUDANÇA E MARKETING Já vimos que a Sustentabilidade Corporativa está sendo discutida em empresas de todos os portes e segmentos. Porém, nem sua implantação nem o acompanhamento dos seus resultados vêm sendo tratados como deveriam. Os efeitos das ações de Sustentabilidade somente serão sentidos ao longo do tempo. Por isso, uma estratégia mal definida e mal implantada pode causar desânimo nos stakeholders, fazendo com que os envolvidos se sintam desestimulados e percam a confiança nos efeitos do processo. Em resumo, um projeto de Sustentabilidade malconduzido pode provocar efeitos contrários aos esperados, desencorajando, assim, a sua adoção. É nesse cenário que a Gestão da Mudança, com enfoque na constante necessidade de adaptação das organizações contemporâneas, torna-se o elemento que, com boa margem de segurança e em relação às práticas de Sustentabilidade, permitirá à empresa sair do estado atual para o estado desejado. Podemos definir a mudança organizacional como um processo que pode acarretar desde o direcionamento estratégico até mudanças culturais na organização. Embora seja um processo natural ao longo da existência de uma organização, para que ele tenha sucesso, cada etapa envolvida deve ser gerenciada e acompanhada. Como a Sustentabilidade é um conceito novo e que envolve mudança de comportamento, neste caso, a mudança deve ocorrer, em um primeiro momento, por meio da conscientização. Somente assim as chances de resultados efetivos e duradouros serão maiores. Conscientizar alguém a respeito de algo, ao contrário do que parece, nem sempre é uma tarefa fácil. A conscientização remete ao engajamento, que, por sua vez, remete ao fortalecimento das ações corporativas sustentáveis. Nesse sentido, trabalhar a http://institutoiris.org.br/artigo/a-diferenca-entre-os-conceitos-de-responsabilidade-social-e-investimento-social/ http://institutoiris.org.br/artigo/a-diferenca-entre-os-conceitos-de-responsabilidade-social-e-investimento-social/ 16 mudança organizacional e coletiva passa a ser um fator decisivo. Contudo, deve- se ter em mente que, quando implantadas, as mudanças geram resistências, e é aí que a Gestão da Mudança assume um papel fundamental, pois é por meio de suas metodologias que as resistências serão minimizadas. Assim como em todas as áreas, a Sustentabilidade deve ser encarada e conduzida como um projeto no qual devem ser consideradas, no mínimo, as seguintes etapas: Planejamento e estudo de cenários; Implantação com base em análises; Acompanhamento e divulgação de resultados. A etapa de planejamento, que é o ponto de partida para a implantação de mudanças, deve levar em conta as questões culturais e comportamentais e os riscos e impactos gerados por uma mudança organizacional. Definir metas e ferramentas de mensuração de resultados pode ser considerada como uma boa tática de engajamento e de comprometimento dos colaboradores envolvidos. Na etapa de implantação, o que prevalece é a transparência na comunicação, ou seja, a forma pela qual os resultados obtidos ao longo do processo são demonstrados e, mais ainda, pela qual os participantes são envolvidos nas mudanças. Já na etapa de acompanhamento e divulgação de resultados, os responsáveis devem mensurar as mudanças ocorridas, definindo os ajustes necessários para melhorias no processo e comunicando esses pontos aos envolvidos. Após tudo o que apresentamos até agora, podemos nos perguntar: como, efetivamente, as empresas devem direcionar as questões de marketing quando o assunto é Sustentabilidade e Responsabilidade Social? O marketing 3.0 surge como uma resposta possível a essa questão, buscando acompanhar as mudanças mais profundas pelas quais o mercado tem passado. O que é o marketing 3.0? O marketing 3.0 vai de encontro aos novos desafios do mundo globalizado partindo da premissa de que o ser humano deve ser considerado em suas três 17 dimensões: corpo, mente e espírito – de acordo com Kotler. Deve levar em conta, portanto, os valores humanos e os anseios individuais e coletivos por tornar o mundo um lugar melhor e mais justo para todos. Assim segundo Kotler (2010), “a missão do marketing 3.0 nas empresas consiste em estabelecer um elo com o cliente, promover a sustentabilidade no planeta e melhorar a vida dos pobres. Se você criar um caso de amor com os seus clientes, eles próprios farão a sua publicidade”. No relacionamento com os stakeholders, as estratégias fundamentadas nesse conceito apresentam um vínculo profundo com a ética, atentando para as questões relacionadas à Sustentabilidade e à Responsabilidade Social – por isso, também é conhecido como Marketing de Valores. Mais substancialmente, porém, o marketing 3.0 busca restabelecer a confiança no exercício e nas estratégias de marketing colocando em prática, diante dos consumidores e da sociedade, conceitos como respeito e compromisso, assumindo essas posturas efetivamente, não como mero jargão mercadológico. O marketing 3.0, em suma, é aquele que deve colocar as questões culturais e socioambientais no centro do modelo de negócios da empresa, demonstrando sua preocupação com as comunidades ao seu redor (consumidores, colaboradores, parceirosde canal e acionistas) e minimizando, assim, as implicações da globalização. Devemos observar, contudo, que ele não pretende transformar o modelo empresarial em um modelo social, mas sim demonstrar que os resultados e a perpetuação do negócio estão correlacionados aos impactos socioambientais que desestabilizam a própria economia. A seguir, apresentamos sete ações de sustentabilidade desenvolvidas a partir dos pressupostos do marketing 3.0 para serem consideradas e inseridas no planejamento empresarial: Identificar os pontos intangíveis e mapear os processos da empresa desde a cadeia produtiva até o relacionamento com os agentes externos; Elaborar um Plano de Sustentabilidade; Estabelecer políticas de contratação de funcionários e fornecedores; Criar projetos de inteligência coletiva que envolvam funcionários, comunidade, clientes, fornecedores, ONGs (organizações não governamentais), governos e universidades; Definir indicadores (econômicos, ambientais, sociais, trabalhistas e de direitos 18 humanos, dentre outros) e métricas; Buscar certificações de órgãos balizadores, o que agrega valor à marca; Comunicar, de forma eficaz, as ações e os seus resultados, tanto interna como externamente. É lícito pensarmos que o ambiente de negócios, cada vez mais afetado por mudanças que exigem uma readaptação das estratégias e mesmo da cultura da empresa, precisará de uma estratégia de marketing que considere essas mudanças e que ofereça ferramentas efetivas para que a empresa opere dentro dessas condições um tanto instáveis. Nesse sentido, a tendência que é a de uma migração definitiva para o marketing 3.0, o que não significa, porém, que essa migração será repentina, visto que uma readaptação de estratégias e de cultura empresarial requer um embasamento em análises e estudos que precisam de tempo hábil para serem realizados de maneira a assegurar seus resultados. Sendo assim, embora a adoção do marketing 3.0 seja algo praticamente certo e mesmo esperado, durante algum tempo as estratégias do marketing 1.0 (foco nos produtos) e 2.0 (foco nos clientes) conviverão com as do 3.0. Em relação as metas do milênio, muitas empresas têm se amparado nessas metas para se posicionar como empresas socialmente responsáveis, diferenciando-se pela preocupação com a sustentabilidade e definindo-se como marca preocupada com a continuidade e a melhoria da qualidade de vida das pessoas (clientes e colaboradores). Dentre elas, podemos citar a P&G e a Danone, empresas que, alinhadas às metas do milênio e às estratégias sustentáveis e socialmente responsáveis do marketing 3.0, desenvolvem produtos e firmam parcerias no intuito de suprir as necessidades de comunidades e populações carentes. Leitura Obrigatória Rezilda Rodrigues Oliveira. Responsabilidade social corporativa: afinal, quem são os interessados? Acesso em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/economiaegestao/article/viewFile/61/54 Saiba mais Assistam os vídeos do canal Meio Ambiente que fala sobre empresas sustentáveis. http://periodicos.pucminas.br/index.php/economiaegestao/article/viewFile/61/54 19 https://www.youtube.com/watch?v=KAPVEJo9nss https://www.youtube.com/watch?v=y8IMfn45LUQ TEMA 5 DA ROTA: AS ORGANIZAÇÕES E A SUSTENTABILIDADE Vimos no decorrer desta disciplina que a empresa é parte viva da sociedade, e como tal, tem responsabilidades para o Desenvolvimento Sustentável e o Local. Assim, entendemos que as dimensões da sustentabilidade empresarial, de maneira geral, pressupõem, que as tecnologias ambientais, além de tornarem possível a administração dos impactos ambientais, não devem se transformar num aspecto passivo, ou dano, ou gerar conflitos ambientais em toda a cadeia produtiva das empresas e instituições. Cada vez mais, observa-se que nem todas as soluções de base tecnológica são as melhores alternativas para questões relativas à sustentabilidade social, econômica e ambiental. Algumas tecnologias propostas como soluções para a manutenção da sustentabilidade, entre elas a sustentabilidade empresarial, acabaram por se constituir em passivos ambientais, onerando sensivelmente empresas e instituições, na sua destinação final, quando cumpriram a sua função operacional, na respectiva etapa do ciclo de vida dos processos produtivos (extração de matérias-primas, produção, distribuição, circulação, troca, consumo e disposição final). As tecnologias ambientais devem estar orientadas para gerar benefícios sociais, resultados econômicos e redução dos impactos ambientais. Esses critérios deverão ser utilizados para que a solução tecnológica adotada através da seleção de uma tecnologia ambiental traga os melhores resultados tanto para o público interno quanto para o público externo das empresas. Para que seja possível, é necessário que, antes de adotar uma solução proposta por uma tecnologia ambiental, sejam verificadas várias questões na relação com a sustentabilidade e seu grau de obsolescência tecnológica. Isso https://www.youtube.com/watch?v=KAPVEJo9nss https://www.youtube.com/watch?v=y8IMfn45LUQ 20 quer dizer que devemos avaliar se a tecnologia a ser adotada não foi suplantada por outra que apresenta melhor desempenho. Muitas empresas atualmente estão revendo formas de aquisição de tecnologias ambientais, entre as quais podemos citar a terceirização de algumas das suas atividades mais complexas e com maior impacto ambiental, com o objetivo de eximir-se da corresponsabilidade pelos danos ambientais das empresas subcontratadas que lhes prestam serviços. Desse modo, algumas ações estão sendo discutidas para resolver essas questões: a) formas de contratação de tecnologias ambientais; b) terceirização de etapas de processos produtivos para empresas de tecnologias ambientais; e c) investimento em pesquisas básicas e recuperação de soluções ambientais a partir de conhecimentos tradicionais. Um dos maiores desafios para empresas e instituições é avaliar qual a melhor forma de promover a gestão dos aspectos, impactos, passivos, danos e conflitos ambientais decorrentes das tecnologias ambientais utilizadas em seus processos produtivos. Normalmente, as empresas compram tecnologias ambientais por pressão ou exigência de órgãos de licenciamento ou em decorrência da natureza de sua atividade, para fins de controle ambiental. Entretanto, na maior parte das vezes, as empresas e instituições não fazem avaliação da relação custo-benefício, entre as soluções existentes, para verificar qual é a tecnologia mais adequada para determinados tipos de projetos. Essa ausência de avaliação das tecnologias ambientais faz com que os processos de suas respectivas aquisições passem necessariamente por avaliações com base em alguns critérios. Certos critérios devem ser adotados na avaliação tecnológica, tais como: a relação custo da tecnologia x benefícios em relação ao seu ciclo de vida; 21 situação em processo de descarte; processo de montagem e desmontagem; utilização de componentes; reciclagem de partes de sua estrutura; amortização; e se configurasse como tecnologia limpa (tecnologia ambiental sem produção de aspectos ambientais). Muitas empresas utilizam diferentes formas de terceirização: umas subcontratam outras empresas para desenvolver atividades potencialmente poluidoras; e outras criam as condições para que seus funcionários estabeleçam firmas a fim de que as referidas atividades sejam executadas pela nova empresa, na condição de subcontratada. As duas possibilidades promovem a redução dos graus de responsabilidade sobre os impactos ambientais. Da mesma forma, nos processos de fusão e incorporação de empresas, equipamentos e tecnologias ambientais entram no processo de avaliação das auditorias do tipo due dilligence. Nessas auditorias, as tecnologias ambientais assam por alguns tipos de acordos, entre as empresascompradoras x empresas vendedoras, em termos de compensações financeiras, por assumir ou não um passivo ambiental. Em alguns casos, a dedução ou compensação acionária, decorrentes dessas relações comerciais, fazem-se presentes em contratos específicos. Até os órgãos ambientais são envolvidos, para que as transações tenham legitimidade legal diante de todos os processos implicados nas transações. Num contexto de terceirização dos processos produtivos, não basta que empresas e instituições realizem esses processos de modo simplificado. Torna-se necessário que se estabeleça um processo de qualificação das empresas terceirizadas para prestação dos serviços, numa perspectiva de atendimento à qualidade desejada pela empresa cedente dos processos, produtos e serviços a serem desenvolvidos. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) desenvolveu um Programa de Capacitação de Fornecedores, com oito critérios de excelência de gestão baseados na Fundação Nacional da Qualidade 22 (FNQ): liderança; estratégias e planos; clientes; sociedade; informações e conhecimento; pessoas; processos; e resultados. O programa é articulado entre empresas e instituições com o Sebrae, e cada um fará o seu investimento no programa. Assim, micro e pequena empresas terão acesso às melhores tecnologias e treinamentos com custo bem reduzido. Afora as questões relativas ao processo de terceirização dos produtos e serviços, os projetos de responsabilidade social têm procurado integrar outras perspectivas às dimensões da sustentabilidade empresarial. Assim, pudemos entender que os aprimoramentos são necessários e devem ser constantes nas organizações. Leitura Obrigatória SEBRAE. Gestão Sustentável na Empresa. Saiba mais Assista o vídeo e reflita. https://www.youtube.com/watch?v=MWUHurprTVA NA PRÁTICA “Em Ha Tien Plain, uma remota região do sudoeste do Vietnã, a população experimentou o influxo de mão-de-obra emigrante nos últimos 15 anos, com pessoas buscando oportunidades econômicas para o cultivo de arroz e camarão e trabalho nas fábricas de cimento locais. Uma dessas fábricas de cimento, a Holcim Vietnam, foi financiada pela IFC. As mudanças no uso da terra como resultado da fábrica resultaram em uma perda significativa e crescente do habitat natural local — uma combinação complexa de pastagens sazonalmente inundadas, pantanais, torres de pedra calcária, encostas de arenito e mangues — apesar da crescente conscientização do valor da biodiversidade da área. À medida que o projeto progrediu, ficou claro que qualquer intervenção eficaz na conservação do habitat necessitaria de uma agenda comum e da colaboração dos principais grupos interessados. Em 2002, tiveram início as discussões a https://www.youtube.com/watch?v=MWUHurprTVA 23 respeito do papel de cada um desses grupos de interessados: o poder de convocação da IFC; a influência local da empresa de cimento Holcim; o conhecimento técnico das ONGs locais e dos acadêmicos; a autoridade mandatória do governo local; e o apoio ativo da população local. Todos esses interessados seriam necessários para assegurar um resultado bem-sucedido. ” Fonte: http://www.ifc.org/wps/wcm/connect/6dfcd90048855597b744f76a6515bb18/IFC_StakeholderEn gagement_Portuguese.pdf?MOD=AJPERES Imagine que você é o gestor da empresa responsável por resolver estes problemas, o que faria neste caso? Comentários Com base no que foi estudado e para a solução do problema, deve-se elaborar um planejamento elaborado a partir de um projeto baseado em um modelo para alcançar o resultado desejado de gestão e conservação de recursos sustentáveis. Após o planejamento, a implementação do modelo/projeto envolvendo todos os stakeholders com monitoramento dos resultados e da evolução. SÍNTESE Nesta rota trabalhamos questões que dizem respeito a Globalização da Responsabilidade Social, fator fundamental para entendermos o atual cenário imposto às empresas. Uma vez abordada a responsabilidade das empresas sobre suas externalidades, estudamos como e quais são as ferramentas gerenciais mais utilizadas no processo de Responsabilidade Social Empresarial. Abordamos também questões sobre o Investimento Comunitário Estratégico (ICE), e por fim estudamos a Sustentabilidade Empresarial e suas Relações com a Gestão da Mudança e Marketing e as organizações e a sustentabilidade. http://www.ifc.org/wps/wcm/connect/6dfcd90048855597b744f76a6515bb18/IFC_StakeholderEngagement_Portuguese.pdf?MOD=AJPERES http://www.ifc.org/wps/wcm/connect/6dfcd90048855597b744f76a6515bb18/IFC_StakeholderEngagement_Portuguese.pdf?MOD=AJPERES 24 REFERÊNCIAS OLIVEIRA, J. A. P., Empresas na Sociedade. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. FERRAZ, A. C. S. L., A Responsabilidade Social como Estratégia Empresarial de Desenvolvimento. Universidade de Marília, 2007. Acesso em: http://dominiopublico.mec.gov.br/download/teste/arqs/cp062626.pdf GLOBO, O que são relatórios Global Reporting Initiative (GRI). Acesso em: http://oglobo.globo.com/economia/rio20/o-que-sao-relatorios-global- reporting-initiative-gri-4714286 GRI, Relatórios de Sustentabilidade da GRI: Quanto vale essa jornada? Acesso em: https://www.globalreporting.org/resourcelibrary/Portuquese- Starting-Points-2-G3.1.pdf INSTITUTO ETHOS, Indicadores Ethos para Negócios Sustentáveis e Responsáveis. Acesso em: http://www3.ethos.org.br/conteudo/iniciativas/indicadores/#.VtQvhH0rK1s INSTITUTO ETHOS, Indicadores Ethos de Responsabilidade Social Empresarial. Acesso em: http://www3.ethos.org.br/wp- content/uploads/2013/07/IndicadoresEthos_2013_PORT.pdf CAMPOS, M. K. S. – Fiesp – Seminário Internacional “Tendências da ISO em normalização ambiental internacional e as ações do Brasil”, A Comunicação Ambiental no Brasil e o potencial de aplicação da norma ISO 14063, Acesso em: http://www.fiesp.com.br/ambiente/pdf/iso/11_marcelo.pdf http://dominiopublico.mec.gov.br/download/teste/arqs/cp062626.pdf http://oglobo.globo.com/economia/rio20/o-que-sao-relatorios-global-reporting-initiative-gri-4714286 http://oglobo.globo.com/economia/rio20/o-que-sao-relatorios-global-reporting-initiative-gri-4714286 https://www.globalreporting.org/resourcelibrary/Portuquese-Starting-Points-2-G3.1.pdf https://www.globalreporting.org/resourcelibrary/Portuquese-Starting-Points-2-G3.1.pdf http://www3.ethos.org.br/conteudo/iniciativas/indicadores/#.VtQvhH0rK1s http://www3.ethos.org.br/wp-content/uploads/2013/07/IndicadoresEthos_2013_PORT.pdf http://www3.ethos.org.br/wp-content/uploads/2013/07/IndicadoresEthos_2013_PORT.pdf http://www.fiesp.com.br/ambiente/pdf/iso/11_marcelo.pdf 25 ISO, ISO Guide 72:2001Guidelines for the justification and development of management system standards. Acesso em: http://www.iso.org/iso/catalogue_detail?csnumber=34142 Aliança Grupo Capoava: Responsabilidade Social Empresarial: Por que o guarda-chuva ficou pequeno? (2010) IFC, Investimento Estratégico Comunitário. Acesso em: http://commdev.org/wp- content/uploads/2015/05/P_SCI_Quick_Guide_Portugese.pdf INSTITUTO ETHOS, Gestão de impactos sociais nos empreendimentos: riscos e oportunidades. Acesso em: http://www3.ethos.org.br/cedoc/gestao-de-impactos-sociais-nos- empreendimentos-riscos-e-oportunidades/#.VtRKBn0rK1s ZOCOLARO, S. Responsabilidade Social Corporativa. 2013. Acesso em: http://www.businessreviewbrasil.com.br/l%C3%ADderesempresariais/274/Resp onsabilidade-Social-Corporativa INSTITUTO ETHOS, Empresas e Direitos Humanos na Perspectiva do Trabalho Decente.http://www1.ethos.org.br/EthosWeb/arquivo/0-A- cb3MarcoDeReferenciaCOMPLETO.pdf FUNDAÇÃO GRUPO BOTICÁRIO. Relatório Anual, 2014. 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Preparado para nossa quinta aula? Nesta aula vamos tratar mais profundamente da Sustentabilidade Empresarial, indicando seus impactos, forças e megaforças por meio de um estudo realizado pela consultoria KPMG, focando na questão do conhecimento e da conscientização dos indivíduos para o sucesso de práticas de Responsabilidade Social Empresarial que afetem positivamente a Sustentabilidade Empresarial. Iremos detalhar, também, a diferença entre Responsabilidade Social Empresarial, Sustentabilidade Empresarial e Desenvolvimento Sustentável. CONTEXTUALIZANDO Os indivíduos estão diante de um novo desafio, seja dentro de uma organização ou na sua vida cotidiana particular. A conscientização de que devemos ser parte integrante do processo do Desenvolvimento Sustentável é fator determinante para o futuro das próximas gerações. No cunho profissional, o indivíduo está diante de desafios que envolvem suas atividades. Esse profissional estará, cada vez mais, diante de avaliações decorrentes das exigências e considerações relativas aos resultados sustentáveis de todas as suas decisões e consequentes implicações em relação aos diferentes públicos- alvo da empresa ou instituição em que ele trabalha. A Sustentabilidade Empresarial como fenômeno social deve proporcionar uma compreensão integral do que ocorre (investigação), do que fazer (intervenção) e dos resultados atingidos. Nessa perspectiva, o profissional deve dotar-se de recursos que propiciem a efetividade da Sustentabilidade Empresarial. Diferentes visões, formações e áreas fazem parte de uma organização, cada um contribui com sua área específica, pensando, porém, de forma sistemática. 3 Quando tratamos de sustentabilidade empresarial, a perspectiva não é setorial, mas integrada. Ou seja, é preciso constatar que há um conjunto de ocorrências objetivas e transcendentes (acontecendo na realidade) que independem do profissional de determinada área. Essas variáveis acontecem de forma integrada e precisam ser identificadas, pois corremos o risco de não atingirmos a sustentabilidade das ações desenvolvidas. Assim, seu maior desafio como profissional será desenvolver uma compreensão das implicações sustentáveis sobre as suas ações, não a partir da visão disciplinar sob a qual você foi treinado, mas a partir da forma como os fenômenos ocorrem no dia a dia da sua empresa ou instituição. Para que possamos verificar essa questão, veremos a distinção entre os conceitos de Desenvolvimento Sustentável, Sustentabilidade Empresarial e Responsabilidade Social Empresarial, colocando o conhecimento e a visão sistêmica como fatores relevantes para o sucesso dessas práticas. TEMA 1: SUSTENTABILIDADE O que é Sustentabilidade? Como surgiu o conceito de Sustentabilidade? Existe diferença entre Desenvolvimento Sustentável e Sustentabilidade? Com a queda do comunismo na última década, o capitalismo emergiu como a ideologia econômica dominante no mundo. Infelizmente, os resultados produzidos em dez anos de capitalismo global não têm sido uniformemente positivos. A saturação dos mercados desenvolvidos, a ampliação do fosso entre ricos e pobres, o crescimento dos níveis de degradação ambiental e a preocupação de que o mundo desenvolvido possa estar perdendo o controle sobre sua própria densidade populacional, vêm se combinando e criando entraves à economia global (HART; MILSTEIN, 2004, p. 65). Os primeiros movimentos em torno do Desenvolvimento Sustentável surgem já nas décadas de 1970 e 1980, frutos da insatisfação com as desigualdades sociais e com a degradação ambiental decorrentes de falhas dos mercados e das externalidades negativas que foram compreendidas depois dos 4 grandes desequilíbrios e crises no cenário mundial. Esses movimentos entendem que os padrões de produção e consumo nas sociedades capitalistas não poderiam ser mantidos, tendo em vista que os recursos do planeta são finitos. Assim, segundo HART (2006), o termo sustentabilidade compreende muitas ideias, questões, conceitos e práticas. Alguns pesquisadores atribuem o surgimento do conceito a partir do grave acidente ocorrido em 1986 na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, quando a explosão de um dos reatores lançou uma quantidade de radiação equivalente a 500 bombas atômicas de Hiroshima na atmosfera, levando à evacuação de uma área de mais de 140 mil quilômetros quadrados. Esse grave acidente provocou danos em mais de 65 mil pessoas e causou aproximadamente 15 mil óbitos, afetando direta ou indiretamente a 3,5 milhões de habitantes. A Organização das Nações Unidas (ONU), já alertava desde 1972, na Conferência de Estocolmo (a ECO-72), sobre o comportamento predatório em relação ao meio ambiente e ao planeta, lançando, então, o Relatório de Brundtland, intitulado “Nosso Futuro Comum” em 1987. No relatório, a ONU tece severas críticas à postura dos países desenvolvidos que, em prol do desenvolvimento econômico, desconsideravam fatores essenciais à sobrevivência dos recursos do planeta e à segurança populacional. O relatório frisa que o principal objetivo do desenvolvimento é satisfazer às necessidades e aspirações humanas. Inclui-se nas necessidades a ideia básica de atendimento aos mais pobres, que necessitam receber prioridade. Segundo o relatório Brundtland, para que haja um desenvolvimento sustentável, é preciso que todos tenham as suas necessidades básicas atendidas e lhes sejam proporcionadas oportunidades de concretizar suas aspirações a uma vida melhor. As necessidades são determinadas social e culturalmente e o desenvolvimento sustentável requer a promoção de valores que mantenham os padrões de consumo dentro do limite das possibilidades ecológicas a que todos podem, de modo razoável, aspirar (CMMAD, 1991). O efeito provocado pelo alerta da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento deu início a movimentos vinculados a causas sociais e ambientais no mundo todo, tornando-se uma preocupação de toda a sociedade e uma responsabilidade para o mundo empresarial. 5 No Brasil, o movimento tornou-se mais intenso a partir da ECO-92, realizada no Rio de Janeiro, e da Rio +10, realizada em Johanesburgo. Recentemente, também no Rio de Janeiro, realizou-se a Rio +20, reunião a partir da qual foram desenvolvidas metas específicas, saindo das rodas dos ambientalistas, abrangendo toda a sociedade preocupada com o desenvolvimento de ações e estratégias, como o consumosustentável, a redução da poluição atmosférica e a proteção dos oceanos. Para tornar o Desenvolvimento Sustentável um conceito aplicável e palpável, a estratégia foi desagregar seus elementos constitutivos em dimensões. Ignacy Sachs subdividiu o Desenvolvimento Sustentável em cinco dimensões: Sustentabilidade social Trata da consolidação de processos que promovam a equidade na distribuição dos bens e da renda para melhorar os direitos e as condições de subsistência da população e reduzir as distâncias entre os padrões de vida dos indivíduos. Sustentabilidade econômica Possibilita a alocação e a gestão eficiente de recursos produtivos, bem como o fluxo regular de investimentos públicos e privados. Sustentabilidade ecológica Refere-se às ações para aumentar a capacidade de carga do planeta e evitar danos ao meio ambiente. Sustentabilidade espacial Refere-se a uma configuração rural-urbana equilibrada e a uma melhor solução para assentamentos humanos. Sustentabilidade cultural Refere-se ao respeito pela pluralidade de soluções particulares apropriadas às especificidades de cada ecossistema de cada cultura. 6 Porém, como mola propulsora do capitalismo, as organizações deveriam ser inseridas no processo de mudança para que pudéssemos absorver efetivamente os benefícios desse novo processo e o conceito saísse do papel e fosse efetivamente aplicado. Uma organização sustentável é aquela que procura incorporar os conceitos e objetivos relacionados com o Desenvolvimento Sustentável nas suas políticas e práticas de modo consistente. É a que, simultaneamente, procura ser eficiente em termos econômicos, respeitar a capacidade de suporte do meio ambiente e ser instrumento de justiça social, promovendo a inclusão social, a proteção às minorias e grupos vulneráveis, o equilíbrio entre os gêneros dentre outros. Contribuir para o desenvolvimento Sustentável é o objetivo dessa empresa e a responsabilidade social, o meio para tornar sua contribuição efetiva (BARIBIERI e CAJAZEIRA, 2012, p. 68) As organizações comprometidas com o Desenvolvimento Sustentável, apresentam relatórios corporativos que, por enquanto, são voluntários. Atualmente, na Europa Ocidental, 68% das multinacionais fazem esse tipo de relatório e, nos Estados Unidos, mesmo a percentagem sendo menor (41%), há um crescimento vertiginoso. Em todos os casos, as empresas que apresentam esta conta tripla de resultados perceberam, antes de outras, que no futuro imediato o consumidor se tornará cada vez mais responsável e exigirá saber qual é o impacto econômico, ambiental e social que geram os produtos que compra. 7 A Sustentabilidade Empresarial, como não poderia ser diferente, adota medidas de desempenho que levam conta alguns indicadores, objetivos e metas. Os indicadores empresariais de sustentabilidade estão atualmente divididos em categorias (indicadores ambientais, econômicos, sociais e institucionais), mas o assunto é bastante abrangente. No Brasil, dentre as medidas e relatórios mais conhecidos constam os indicadores do Instituto Ethos, os indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e os Indicadores de Sustentabilidade (ORBIS). Além desses indicadores, existe, ainda, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), que foi criado pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) em 2005 e busca oferecer aos investidores uma opção de carteira composta por ações de empresas reconhecidamente comprometidas com a responsabilidade social e a sustentabilidade empresarial. TEMA 2: IMPACTOS, FORÇAS E MEGAFORÇAS Conforme vimos, a Sustentabilidade Empresarial busca suprir falhas de mercado, sendo que em seus objetivos visa à busca de soluções para atender às demandas sociais, ambientais e econômicas do mercado, tendo como alvo 8 final todos os stakeholders, ou seja, todos aqueles que se relacionam com a empresa. A questão social vem sendo uma preocupação mundial, e, nesse sentido, as empresas são chamadas a resolver problemas globais que o Estado não conseguiu resolver sozinho. Embora a Sustentabilidade Empresarial ainda não seja uma preocupação central na maioria das organizações (principalmente por ser vista como algo que provoca um aumento nos custos de operação e nos preços de venda), o próprio comportamento do consumidor, preocupado com as questões socioambientais, tem sido o gatilho para que o assunto seja prioritário nas agendas de muitas corporações pelo mundo. Mas, o que é a Responsabilidade Social Empresarial? De acordo com a Fundação Prêmio Nacional da Qualidade, Responsabilidade Social Empresarial é o relacionamento ético e transparente da organização com os stakeholders, visando o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais. Porém, o conceito de Responsabilidade Social Empresarial não diz respeito à filantropia que muitas empresas praticavam antes do surgimento dos novos e estratégicos conceitos. A ênfase, hoje, recai sobre a forma como as empresas conduzem seus negócios, tornando-se parceiras e corresponsáveis no desenvolvimento social. A Filantropia não prevê retorno, apenas doação. Já a Responsabilidade Social Empresarial, diz respeito às atitudes tomadas tendo em vista todos os stakeholders (acionistas, colaboradores, prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade e governo), promovendo a cidadania e o desenvolvimento social e transformando a forma pela qual os negócios são conduzidos, de forma a preservar os recursos ambientais e a buscar o equilíbrio das diferenças sociais. Desse ponto de vista, podemos então dizer que a Filantropia está muito aquém da Responsabilidade Social Empresarial. 9 Segundo estudo realizado em 2012 por uma consultoria norte-americana, a KPMG, existem dez megaforças que podem causar impactos significativos nos negócios até aproximadamente 2032, aumentando, assim, a complexidade do ambiente de negócios. Conheça, a seguir, cada uma das dez megaforças: 1. A primeira megaforça pode impactar diretamente em todas as demais. As estimativas de perdas anuais devido às mudanças climáticas variam de 1% a 5% ao ano, se os formuladores de políticas não agirem rapidamente. Essas perdas afetam diretamente a empresa, bem como a humanidade. As perdas não são apenas empresariais. Afetam o indivíduo como um todo. 2. No que diz respeito à segunda megaforça, entendida como energia e combustíveis, os mercados de combustíveis fósseis tendem a se tornar mais voláteis e imprevisíveis, devido à maior demanda global por energia; às mudanças no padrão geográfico de consumo; às incertezas de fornecimento e consumo e ao aumento de intervenções regulatórias relacionadas às mudanças climáticas. Esse mercado precisa inovar para que, num futuro próximo, possamos sobreviver sem sua utilização em massa. 3. No que diz respeito à escassez, podemos ter escassez de recursos materiais e de água. A escassez de recursos materiais pode ser entendida a partir do aumento do consumo e da demanda pelos insumos na produção. Como os países em desenvolvimento se industrializam rapidamente, a demanda global por recursos materiais deve aumentar drasticamente. Os negócios devem enfrentar restrições comerciais crescentes e intensa competição global por uma ampla gama de recursos que se tornam menos disponíveis. Porém, a escassez também proporciona possibilidades de inovação, otimizando a utilização desses materiais e sua substituição ou, ainda, sua recuperação a partir de resíduos. 4. Já no que diz respeito a escassez de água, a previsão é de que, em 2030, a demanda global por água fresca excederá as provisões em 40%. As empresas estarão vulneráveis ao racionamento de água, à queda da qualidade da água, àvolatilidade dos preços da água e a riscos de reputação. 5. O crescimento da população é a quinta megaforça e estima-se que a população mundial deva alcançar 8,4 bilhões em 2032, afetando as megaforças da escassez. Dessa forma, deixará os ecossistemas e o 10 fornecimento de recursos naturais (como comida, água, energia e materiais) sob pressão intensa. Se, por um lado, isso é uma ameaça aos negócios, também há oportunidades de crescimento do comércio, de geração de empregos e de criação de inovações para atender às necessidades de agricultura, saneamento, educação, tecnologia, finanças e saúde da população. 6. A sexta megaforça é a riqueza. Estima-se que a classe média global (definida pela OCDE como indivíduos com rendimento disponível entre US$ 10 e US$ 100 per capita ao dia) cresça 172% entre 2010 e 2030. O desafio para as empresas é atender a esse novo mercado de classe média em uma época em que os recursos tendem a ser mais escassos e voláteis. 7. A urbanização é a sétima megaforça. Até 2030 estima-se que todas as regiões em desenvolvimento – incluindo a Ásia e a África – devem ter a maioria de seus habitantes vivendo em áreas urbanas. Praticamente todo o crescimento populacional, nos próximos 30 anos, será nas cidades. Essas cidades exigirão melhorias extensas na infraestrutura, incluindo construção, fornecimento de água e saneamento, eletricidade, gestão de resíduos, transporte, saúde, segurança pública e conectividade de Internet e telefonia. 8. A segurança alimentar é a oitava megaforça. Nas próximas duas décadas, o sistema global de produção de alimentos estará sob crescente pressão das “megaforças”, incluindo o crescimento populacional, escassez de água e desmatamento. Os preços globais de alimentos devem aumentar de 70% a 90% até 2030. Em regiões com escassez de água, os produtores agrícolas provavelmente terão que competir por provisões com outras indústrias que exigem muita água (como utilidades elétricas e mineração) e com consumidores. Será necessária uma intervenção para reverter o crescimento da escassez localizada de alimentos (o número de pessoas cronicamente subnutridas subiu de 842 milhões, no final dos anos 1990, para mais de 1 bilhão, em 2009). 9. A nona megaforça é o declínio do ecossistema. Historicamente, o principal risco para os negócios no declínio dos serviços de biodiversidade e ecossistema tem sido a reputação das corporações. No entanto, como ecossistemas globais mostram crescentes sinais de colapso e estresse, um número maior de companhias está percebendo o quanto suas operações 11 dependem dos serviços críticos que esses ecossistemas fornecem. O declínio dos ecossistemas está tornando os recursos naturais mais escassos, mais caros e menos diversificados, aumentando os custos da água e intensificando o dano causado por espécies invasivas em setores como agricultura, pesca, alimentação, bebidas, medicamentos e turismo. 10. Por fim, a décima megaforça é o desmatamento. Florestas são grandes negócios: produtos de madeira movimentaram US$ 100 bilhões por ano entre 2003 e 2007 e o valor de outros produtos derivados das florestas (em sua maioria alimentos) foi estimado em US$ 18,5 bilhões em 2005. No entanto, a OCDE prevê que as áreas florestais irão diminuir 13%, entre 2005 e 2030, principalmente no sul da Ásia e da África. Pressão por parte dos órgãos regulamentadores e da sociedade pode impor mudanças comportamentais nessas empresas. Oportunidades de negócios devem surgir a partir do desenvolvimento de mecanismos de mercado e incentivos econômicos para reduzir o desmatamento. Conforme apontado pelo estudo, no período entre os anos de 2002 e 2010, os custos ambientais externos de empresas de onze setores subiram cerca de 50% (de US$ 566 bilhões para US$ 846 bilhões). Além disso, se fossem pagar todo o custo ambiental de sua produção, as empresas perderiam, a cada dólar ganho, cerca de US$ 0,41. Transformada em números – e diante da noção da não perenidade dos recursos naturais – a Responsabilidade Social, diferentemente de um modismo qualquer, assume o aspecto de uma forma de investimento que, no final, poderá assegurar o futuro das organizações! Sem ação e planejamento estratégicos, os riscos se multiplicarão e serão perdidas oportunidades. As corporações estão reconhecendo que há valor e oportunidade na responsabilidade que vai além dos resultados do próximo trimestre, e que o que é bom para as pessoas e para o planeta também pode ser bom para os resultados no longo prazo e para a geração de valor aos acionistas, avalia Yvo de Boer no relatório da KPMG. Assim, soluções para as megaforças devem ser aprimoradas e identificadas pelas organizações. TEMA 3: SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL E A GESTÃO DO CONHECIMENTO 12 Pudemos entender que a Sustentabilidade Empresarial é fator importante para o sucesso da organização, bem como os desafios que se apresentam nos dias atuais. Para tanto, colaboradores, comunidade, dentre outros, devem conhecer seu potencial transformador, entrando em cena a Gestão do Conhecimento. Assim, entendemos que a Gestão do Conhecimento afeta positivamente a Sustentabilidade Empresarial podendo obter resultados positivos, tanto no curto quanto no longo prazo. O fato é que, se, por um lado, o grande desafio desse século é promover o desenvolvimento sustentável, tema ainda recente em nosso contexto globalizado, por outro, a própria falta de conhecimento e de dados históricos é um desafio. A gestão do conhecimento é um termo amplamente utilizado pelas empresas para referir-se à tomada de decisões estratégicas, e, em se tratando das práticas sustentáveis, será necessário aplicá-lo cada vez mais. O conhecimento é um elemento importante no processo de transformação das empresas, sob qualquer ótica, principalmente a partir do momento que a competitividade ficou bastante acirrada diante do papel presente e efetivo da globalização no processo produtivo, em que praticamente inexistem diferenças em relação ao preço e à qualidade (RODRIGUEZ, 2002). Para SABBAG (2007) podemos definir Gestão do Conhecimento como um sistema integrado que desenvolve saberes e competências coletivas, utilizáveis pelas organizações e pessoas, visando ampliar o capital intelectual. Um dos maiores desafios nos dias atuais é formar gestores sustentáveis, que tenham em suas práticas de Responsabilidade Social Empresarial a visão sustentável como uma estratégia que esteja alinhada com o lucro, ou seja, que colabore com o lucro. Por meio de um processo orientado à gestão do conhecimento, as empresas poderão capturar, organizar, utilizar e disseminar informações voltadas à transformação social. Dessa forma, terão como analisar e decidir questões que envolvam a necessidade de capacitação de funcionários e de implementação de indicadores, tecnologias e inovações. 13 Neste ponto, podemos destacar que o ponto fundamental pode ser caracterizado como aquele relacionado a mudanças culturais nas empresas – e, neste ponto, os investimentos em capacitação e treinamento são fatores importantes. Podemos destacar a importância das palestras de conscientização social, ambiental e econômico e até mesmo treinamentos específicos acerca da inovação e sustentabilidade – fatores fundamentais, inclusive, para a disseminação do conhecimento e do engajamento corporativo. Existem ferramentas que auxiliam na Gestão do Conhecimento e na sua maioria, as empresas têm utilizado as chamadas “melhores práticas” como uma das primeiras fases para a implementação de um processo de Gestão do Conhecimento. Podemos destacar que as “Melhores Práticas” são algumas ferramentas que auxiliam na Gestão do Conhecimento. Assim, incialmente, tem-se a definição destas melhores práticas visando contribuir para a organização nos seguintes requisitos: otimização de recursosque poderão ser direcionados para novas práticas, aumentando assim a produtividade; identificação e substituição de práticas organizacionais pouco ou nada eficientes e improdutivas, reduzindo assim o índice de retrabalho; equiparação do conhecimento, propiciando que funcionários de menor nível ou rendimento aprendam com aqueles que já adotaram práticas mais eficientes. A Gestão do Conhecimento visando a contribuição para uma cultura sustentável dentro das organizações vem se tornando uma prática de Governança Corporativa, por meio da qual as empresas extrapolam suas preocupações com a viabilidade econômica e passam a se preocupar com todos os stakeholders a ela ligados ou por ela afetados. De acordo com o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC): Governança Corporativa é o sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre proprietários, Conselhos de Administração, diretorias e órgãos de controle. As boas práticas de governança corporativa convertem princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor da organização, facilitando seu acesso ao capital e contribuindo para a sua longevidade (IBGC, 2010). 14 A governança está relacionada com a autogestão de uma empresa e representa três elementos principais: a preocupação com a prestação de contas, a transparência nos resultados e a proteção de acionistas minoritários. Assim sendo, uma empresa sustentável é aquela que gera lucros para seus acionistas e melhora a qualidade de vida de todos os stakeholders. Segundo relatório da Bovespa (2009), do ponto de vista da governança, as empresas podem ser enquadradas em dois níveis: As de nível 1 devem adotar práticas que favoreçam a transparência e o acesso às informações pelos investidores; As de nível 2, além das características contidas no nível 1, devem adotar um conjunto amplo de práticas de governança e de direitos adicionais para os acionistas minoritários. Assim, podemos dizer que a Gestão do Conhecimento contribui para a Sustentabilidade na medida em que, como medida de mudança cultural, as organizações dotam-se da Governança Corporativa e da melhoria contínua, contribuindo com a Responsabilidade Social Empresarial. Podemos perceber, então, que a governança corporativa é forte aliada da Sustentabilidade. TEMA 4: SUSTENTABILIDADE NAS ESTRATÉGIAS EMPRESARIAIS A organização Uniethos, em meados de 2012 lançou, na Conferência Internacional Ethos os resultados da pesquisa “Estratégias empresariais para a sustentabilidade no Brasil”, realizada em 2011 com as 100 maiores empresas do país e com o conjunto de organizações associadas ao Instituto Ethos, caracterizado como uma organização da sociedade civil de interesse público que tem como objetivo mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerir seus negócios. Na pesquisa foram analisadas 250 empresas de todos os portes e segmentos na tentativa de mapear o processo de incorporação da Sustentabilidade em suas estratégias de negócios, avaliando a profundidade e abrangência das estratégias adotadas. 15 Dada a importância dessas estratégias na competitividade, nos custos etc. os principais resultados foram: 15% das empresas avaliam os impactos que as ações sustentáveis têm sobre os custos; 20% medem os impactos na competitividade; 69% entendem que a inserção da sustentabilidade no planejamento estratégico é uma necessidade; 68% desenvolvem algum tipo de relacionamento com os grupos de interesse de seu setor; 23% desenvolvem projetos sustentáveis de forma contínua, fazendo parcerias, discutindo novos produtos ou detendo-se em processos efetivamente mais engajados. Na tentativa de identificar qual o impacto dessas estratégias em ações que geraram inovação, os resultados foram: 14% das empresas promoveram inovações em sustentabilidade; 36% do total de empresas pesquisadas criaram sistemas integrados de gestão para coordenar as ações de sustentabilidade em todas as áreas; 60% das empresas criaram comitês para alinhar as áreas de negócios com as de sustentabilidade. A pesquisa do Instituto Ethos possibilitou clarear a direção no Brasil da inserção da sustentabilidade no planejamento estratégico das empresas, demonstrando que há um avanço significativo e que o tema tem sido considerado nos negócios corporativos. Percebemos que o Brasil tem avançado, seguindo algumas tendências internacionais. Hoje, há a preocupação em ir ao encontro dos interesses da sociedade e dos consumidores, atendendo-os em suas demandas com uma estratégia de 16 inovação e redução de custos por meio de processos mais eficientes, possibilitando que as empresas se tornem mais competitivas. Assim, percebemos que a adoção de estratégias voltadas para a Sustentabilidade, se implementadas adequadamente, em conjunto com a adoção de inovações que proporcionem redução de custo, tornam as empresas mais competitivas. Porém fica a pergunta: Que tipos de estratégias as empresas estão utilizando? No Guia EXAME 2015, foram apresentadas 68 empresas consideradas modelo de Sustentabilidade e de Responsabilidade Social Empresarial, com destaque especial para as companhias com as melhores práticas em cada um dos setores analisados. Além disso, a revista EXAME destacou as companhias com as melhores práticas em 10 categorias: 1. Governança de Sustentabilidade; 2. Direitos Humanos; 3. Mudanças Climáticas; 4. Relação com a Comunidade; 5. Relação com Clientes; 6. Gestão de Fornecedores; 7. Gestão de Água; 8. Gestão de Biodiversidade; 9. Gestão de Resíduo; 10. Ética e Transparência. Alguns destaques foram: Agronegócio: Bunge 17 O agronegócio é uma atividade sedenta por água, um recurso cada vez mais escasso. Atenta à questão, a Bunge resolveu investir em duas frentes para reduzir o consumo do insumo. Apostou em programas de educação, como o “Colaborador Sustentável”, que busca conscientizar os funcionários, e no uso de água de reuso em caldeiras e torres de resfriamento em Jaguaré. Resultado: entre 2012 e 2014, o projeto-piloto ajudou a reduzir em 40% o consumo de água no processo produtivo. Uma mudança positiva que já está sendo adotada em outras fábricas da empresa. Farmacêutica: Eurofarma O laboratório Eurofarma pesquisa uma solução para descontaminar plásticos e vidros de remédios classificados como perigosos a fim de viabilizar a reciclagem desses materiais. No ano passado, 91% dos resíduos do processo produtivo foram fornecidos a cimenteiras para alimentar fornos e gerar energia. Na dimensão social, a empresa investe em projetos culturais, esportivos e educacionais. Um dos mais relevantes é o centro técnico de enfermagem que custeia até três anos de formação de jovens carentes. Mas, para que essas estratégias possam possibilitar retorno para a organização e para a sociedade, adotar o pensamento sistêmico em conjunto com a visão estratégica torna-se primordial. O pensamento sistêmico busca inserir na visão estratégica o todo, ou seja, existe ligação entre a ciência (a razão), a arte (a sensação), a filosofia (o sentimento) e a transcendência (a intuição), já que tudo está ligado a tudo. Nesse sentido, o Pensamento Sistêmico é a abordagem fundamental para pensar fora do padrão, pois a formação de uma visão integrada de produção, economia, sociedade, cultura e ambiente natural envolve inúmeras variáveis. 18 Pensar sistemicamente é olhar para todo o processo e não as para partes dele. É medir todos os impactos que uma determinada ação ou decisão empresarial causa, considerando presente, passado e futuro por meio das lições aprendidas e da adoção de melhorias. É levar em conta não somente os interesses empresariais, mas de todos,inclusive da sociedade. Vamos apresentar o caso da Natura, para analisarmos qual seria o desempenho e a aplicabilidade do pensamento sistêmico aplicado na prática? De acordo com a Natura, o pensamento sistêmico permeia todas as suas decisões e ações estratégicas. A empresa acredita que os resultados sustentáveis foram atingidos por meio das relações de qualidade que estabeleceu em todos os níveis nos quais atua e com todos os públicos com os quais mantém contato – consultores, fornecedores e sociedade, incluindo aí os seus consumidores. Segundo a empresa, seus dirigentes e funcionários buscam criar valores para a sociedade como um todo, gerando resultados integrados nas dimensões econômica, social e ambiental. Seus maiores desafios corporativos a serem sistematicamente pensados são: maximização do lucro, recomposição dos recursos naturais finitos e distribuição da riqueza. O modelo de negócios da Natura é baseado em uma promoção do crescimento econômico de forma compatível com o desenvolvimento social e o uso responsável dos recursos ambientais. Ainda no que diz respeito à responsabilidade social, a Natura estimula o desenvolvimento pessoal, material e profissional de suas consultoras, encorajando-as a tornarem-se agentes de transformação, contribuindo, portanto, para a disseminação do conceito de bem-estar e para a construção de uma sociedade mais próspera, justa e solidária. Assim, podemos perceber que a Natura, ao se preocupar com suas consultoras transformando-as em agentes de transformação, contribui com o todo e não apenas com as partes. O pensamento sistêmico, de uma forma geral, pode ser definido como uma nova forma de percepção da realidade. Segundo CAPRA (1996) quanto mais são estudados os problemas de nossa época, mais se percebe que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes. 19 Deve-se sempre partir do princípio de que o todo é mais do que a soma das partes, tendo o sistema como um todo integrado cujas propriedades essenciais surgem das inter-relações entre as partes. Entender a realidade sinteticamente significa colocá-la dentro de um contexto e estabelecer a natureza de suas relações. Um passo importante a ser dado em nossa sociedade é a aceitação do pensamento sistêmico, uma vez que o ser humano e a própria ciência criaram preconceitos com a visão holística e sistêmica e, com isso, estabeleceram divergências difíceis de serem superadas. Porém é necessária uma ruptura nesse modo de pensar para que possamos de fato agir dentro das exigências de um mundo sustentável! TEMA 5: RELAÇÕES ENTRE AS ÁREAS DE CONHECIMENTO E RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL O Pensamento Sistêmico deve ser o pensamento norteador das diferentes áreas de uma organização. Dentro de um contexto de Sustentabilidade Empresarial, a Responsabilidade Social Empresarial deve envolver as diferentes áreas para atender às demandas de seu público interno (empresa) e externo (agentes de interesse e de pressão das empresas). A relação entre as implicações das diferentes áreas do conhecimento com o pensamento sistêmico, atendendo os diversos públicos-alvo, no âmbito da Responsabilidade Social Empresarial, busca estabelecer e demonstrar a relação entre ética, Responsabilidade Social Empresarial e Sustentabilidade Empresarial como princípios norteadores da profissão. Cabe destacar que a ausência de compromisso na eficiência (utilização dos recursos), na eficácia (tempo adequado) e na efetividade (mudanças esperadas) dos resultados das intervenções no campo profissional compromete seriamente os resultados almejados pelas instituições e organizações no que diz respeito à Responsabilidade Social Empresarial e à Sustentabilidade Empresarial. 20 Essa situação vem se estabelecendo devido à adoção da perspectiva neoliberal, na qual o Estado assume funções mínimas e repassa para várias instituições parte de suas funções sociais, com alguns benefícios fiscais e tributários. Assim, essa perspectiva estabelece a relação entre ética e responsabilidade social e estabelece a responsabilidade não apenas com o social, mas também com o socioambiental. A área de Engenharia tem relação direta com a Responsabilidade Social Empresarial no âmbito dos programas que estão sob sua gestão. Segundo DA SILVA FILHO et al (2011), Engenharia é a ciência e a profissão que deve absorver conhecimentos matemáticos, técnicos e científicos para aplicá-los no mundo em que vivemos, a fim de suprir nossas necessidades e favorecer o nosso desenvolvimento. Um engenheiro deverá ser capaz de criar mecanismos, produtos, processos e estruturas para poder transformar recursos naturais e não naturais para satisfazer as necessidades humanas. Já na área da Administração, que coordena programas em suas diferentes áreas, atuam sobre a Responsabilidade Social Empresarial em cada área de sua responsabilidade. Essas áreas e programas, por sua vez, têm relação direta com seu público interno em termos de orientações gerais dos processos e produtos e serviços para que os clientes estejam satisfeitos; com os fornecedores de produtos, diferenciando-se da concorrência e cumprindo todas as legislações relativas à natureza da sua atividade em conformidade com o meio ambiente. Além disso, parte dos investimentos realizados nessa área acabam retornando para a comunidade, por exemplo: o Planejamento e Controle da Produção (PCP) como está organizado para que todas as atividades da empresa ocorram em conformidade com as metas de responsabilidade social em termos de impactos ambientais. Segundo TINOCO e ROBLES (2006), em Ciências Contábeis a Responsabilidade Social Empresarial deve estar relacionada à redução/eliminação de passivos ambientais, sociais e das dimensões da sustentabilidade que tenham impactos na qualidade de vida do público interno, 21 na comunidade, no meio ambiente, num contexto de otimização econômico- financeira dos processos, produtos e serviços, desenvolvidos nas diversas unidades das empresas, instituições e organizações, ou seja, reduzir custos de insumos e matérias-primas em processos produtivos e operacionais a partir de sua integração com o processo produtivo. Na área da Gestão de Recursos Humanos, a Responsabilidade Social Empresarial deverá desenvolver projetos que tenham como foco de atuação programas de desenvolvimento profissional, visando integrar conhecimentos, competências e habilidades em estruturas em que atitudes orientadas venham a promover a sustentabilidade das ações dos diferentes públicos-alvo. Em que medida os programas de gestão de RH levam em consideração qualidade de vida, valorização do ser humano, público interno (empregados) e externo (comunidade, fornecedores, consumidores, acionistas), inter-relações entre a organização e estes públicos e as demandas do mercado nos seus processos de capacitação que redundem num melhor produto e uma melhor visibilidade da Responsabilidade Social Empresarial da empresa para os seus diferentes públicos-alvo? Na área da Gestão de Tecnologia da Informação, a responsabilidade social deverá desenvolver projetos que tenham por objetivo de atuação programas de comunicação corporativa e de divulgação, para os diferentes públicos-alvo possam tomar decisões acerca dos seus diversos nichos de mercado numa perspectiva estratégica. Segundo BRITTO (2005), os sistemas empresariais dão suporte, em essência, para três camadas da organização, ou seja, as camadas de suporte tático, gerencial e operacional. Sendo o primeiro aquele que permite respostas ágeis e acertadas no campo das estratégias organizacionais, o segundo, possibilita uma melhor integração e colaboração de dados infra e interdepartamentais, melhorando as respostas de gerenciamento e, por fim, a terceira que admiteum melhor controle interno de todas as atividades organizacionais. Assim, os projetos de TI devem ser realizados de modo integrado com o conhecimento de especialistas ou devem ser realizados administrativamente, 22 para cobrir problemas operacionais que não impactam na responsabilidade social e na sustentabilidade da empresa. Ao analisarmos a relação entre as áreas de conhecimento e sua atuação na Responsabilidade Social Empresarial, podemos compreender que a inter- relação é um fator determinante para o sucesso das práticas adotadas e que a visão sistêmica do todo, colabora com os resultados. TROCANDO IDEIAS Você já comprou um produto ou serviço no qual a empresa é eticamente responsável e adote práticas de Responsabilidade Social Empresarial? Você pesquisa sobre as ações das empresas antes de comprar um produto? Você já comprou produtos em sites especializados em produtos de procedência da China? Provavelmente muitas respostas serão negativas, ou seja, os indivíduos não pesquisam muito sobre a procedência dos produtos que compram. Porém, se em um noticiário uma empresa for pega praticando atos ilícitos você continuaria comprando os produtos? Deixe sua opinião no fórum disponível no AVA! NA PRÁTICA Samarco, Vale e BHP Billiton são denunciadas em evento internacional Leia a reportagem abaixo de fevereiro de 2016, onde a Samarco e duas controladas Vale e a anglo-australiana BHP Billiton foram denunciadas pelo rompimento da barragem em Mariana – MG, que segundo a jornalista Mariana Medeiros, seria o maior crime socioambiental do Brasil. Os danos do rompimento da barragem, segundo a reportagem, já afetam mais de um milhão de pessoas da bacia do Rio Doce. 23 “A denúncia ao exterior foi feita pelo Frei Rodrigo Peret, da Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade (Afres), durante o evento Alternative Mining Indaba, realizado, na cidade do Cabo, África do Sul. [...] Desde o dia do rompimento da barragem, em cinco de novembro de 2015, representantes da sociedade civil organizada fazem alertas e denúncias sobre as violações de direitos humanos decorrentes do maior desastre da história da mineração no País. [...] Em relatório divulgado pela Justiça Global, com o título “Vale de Lama”, entidades apontam que as empresas têm falhado em fornecer respostas rápidas e efetivas nas questões que envolvem o direito à vida, à água, à moradia, ao trabalho, à saúde e ao meio ambiente. São também relatadas situações de hostilidade e criminalização de defensores e defensoras de direitos humanos e movimentos sociais”. Fonte: http://seculodiario.com.br/27223/10/samarco-vale-e-bhp-billiton-sao-denunciadas-em- evento-internacional. Acesso em: 31/05/2016 A sociedade brasileira ficou indignada com esse crime ambiental, que poderia ter sido evitado – e isso seria de responsabilidade do poder público, da empresa e dos funcionários envolvidos. O poder público tem o dever de fiscalizar; a empresa, de manter políticas com padrões de segurança e os funcionários envolvidos devem ter consciência de suas ações, de modo que a denúncia sempre pode ser realizada. Reflita: Os dirigentes e funcionários da Samarco e o poder público poderiam ter evitado esta tragédia? Quais serão as possíveis consequências deste rompimento para os lucros e imagem da empresa? SÍNTESE Nesta aula que está chegando ao fim estudamos alguns aspectos da Sustentabilidade – seus impactos, forças e megaforças; a Sustentabilidade Empresarial e a Gestão do conhecimento; a sustentabilidade nas estratégias empresariais e as relações entre as áreas de conhecimento e a responsabilidade social. Conforme vimos, há distinção entre os conceitos de Desenvolvimento Sustentável, Sustentabilidade, Sustentabilidade Empresarial e http://seculodiario.com.br/27223/10/samarco-vale-e-bhp-billiton-sao-denunciadas-em-evento-internacional http://seculodiario.com.br/27223/10/samarco-vale-e-bhp-billiton-sao-denunciadas-em-evento-internacional 24 Responsabilidade Social Empresarial, mas todas abrangem a ética, a consciência da garantia de sobrevivência das próximas gerações, dentre outras questões. Por fim, ainda apresentamos a importância do conhecimento e da conscientização para a efetividade das ações, além de analisarmos o impacto de uma visão sistêmica. REFERÊNCIAS BARBIERI, J. C.; CAJAZEIRA, J. E. R. Responsabilidade social empresarial e a empresa sustentável: da teoria à prática. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. BOER, Y. Expect the Unexpected: building business value in a changing world. Disponível em: http://www.kpmg.com/Global/en/IssuesAndInsights/ArticlesPublications/Docum ents/building-business-value.pdf. Acesso em 31/05/2016. BOVESPA. Nível 1 de Governança Corporativa. 2011. Disponível em: http://www.bmfbovespa.com.br/Pdf/Folder_Nivel1.pdf. Acesso em 31/05/2016. BOVESPA. Nível 2 de Governança Corporativa. 2011. Disponível em: http://www.bmfbovespa.com.br/pt-br/servicos/download/Regulamento-de- Listagem-do-Nivel-2.pdf. Acesso em 31/05/2016. BRITTO, B. N. Ética e Responsabilidade Social Empresarial na utilização da Tecnologia da Informação. SEGeT – Simpósio de Excelência em Gestão e Tecnologia. 2007. Disponível em: http://www.aedb.br/seget/arquivos/artigos07/1413_Etica%20e%20RSE%20no% 20uso%20da%20TI.pdf. Acesso em 31/05/2016. CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo, 1996. COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Relatório Brundtland: nosso futuro comum. 2. ed. 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Nos dias atuais a preocupação com questões éticas nas organizações tem proporcionado várias discussões e estudos também na área acadêmica. Outros temas surgiram, como: desenvolvimento econômico, desenvolvimento sustentável, responsabilidade social empresarial, sustentabilidade dentre outros. E apesar do foco, a premissa do lucro nas organizações ainda é determinante, uma vez que é esta a finalidade de uma empresa. A partir desta rota de aprendizagem, iremos discutir questões éticas nas empresas como um negócio, discussão que abrange a ética em si, a responsabilidade social, o código de ética e seus desdobramentos. CONTEXTUALIZANDO Nesta aula, refletiremos sobre o discurso ético apresentado pelas empresas e o desenvolvimento de mecanismos que proporcionem olhares críticos para a problemática. Também vamos analisar se as empresas que se dizem éticas desenvolvem, de fato, essa característica com responsabilidade ou se apenas aproveitam esse discurso para obter mais lucro. Conforme afirma SOUSA (2005), o sistema capitalista, no qual nossa sociedade vive nos dias atuais, apresenta-se deficiente, necessitando recriar-se constantemente. As organizações, com a finalidade de obtenção de lucro, dotavam-se da confiança de que recursos naturais e humanos eram capazes de suprir todos os insumos para a produção demandada e receber todos os refugos de produção e lixos dessas demandas. A problemática da degradação ambiental não era levada em consideração em estudos econômicos. 3 Na medida em que a exploração de recursos naturais e humanos não estava sendo tratada com a devida seriedade, houve necessidade de o sistema de produção capitalista se reinventar, se adequando às limitações impostas. Inovações foram implementadas na tentativa de gerar resultados positivos sobre a problemática, uma vez que, cada vez mais, a opinião pública tem cobrado posicionamento das empresas. No âmbito social, o sistema capitalista também se mostrou deficiente. De acordo com o Banco Mundial, em 2008 cerca de 1,29 bilhão de pessoas viviam abaixo da linha da extrema pobreza, ou seja, viviam com menos de US$1,25 dólar por dia; 1,18 bilhões de pessoas vivem na fronteira, entre extrema pobreza e pobreza, que são os que vivem com US$1,25 à US$ 2,00; e no total 2,471 bilhões de pessoas viviam abaixo do patamar de US$2,00. Isso implica dizer que mais de um terço da população mundial encontra-se em condições indignas de sobrevivência, passando por privações de toda espécie. Esse estado de privação e marginalização dá origem a tensões sociais e violência (BANCO MUNDIAL, 2008). Desemprego, subnutrição, crises econômicas e fragilidade nos sistemas educacional, de saúde, previdenciário etc. são fatores que têm sido agravados pela crescente desigualdade social e econômica, não apenas em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, mas na realidade de cada nação. Esse quadro tem sido evidenciado anualmente pelos relatórios do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009). Para SACHS (2008), o desenvolvimento sustentável pressupõe a existência de critérios de sustentabilidade social, ambiental e de viabilidade econômica, entendendo que apenas soluções que abarcam esses três elementos podem obter denominação de desenvolvimento. A relevância do papel das organizações na sociedade e, mais especificamente, nos dias atuais, forçam-nas a buscar formas de amenizar as externalidades negativas sobre a sociedade e o meio ambiente, empregando conceitos e práticas do Desenvolvimento Sustentável, mediante a implantação de atributos de Responsabilidade Social Empresarial (RSE), em sua estratégia de gestão. 4 A RSE “é a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com as quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais que impulsionem o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais e promovendo a redução das desigualdades sociais” (INTITUTO ETHOS, 2012). Para que possamos verificar essa questão, veremos os fatores que englobam a responsabilidade social nas empresas em sua dimensão ecológica, social e humana, apontando também para as relações interpessoais dentro dessas instituições. Como ferramenta de aplicação, apresentaremos uma proposta sobre o código de ética e suas funções. Vamos lá? TEMA 1: ÉTICA COMO NEGÓCIO Tratar de questões éticas nas organizações é um assunto demasiadamente delicado, por envolver interesses pessoais e sociais. Em um contexto que envolve ética versus lucro, a ética, como dito antes, é um jogo com regras nem sempre claras e objetivas e uma competição em que os interesses pessoais muitas vezes se sobrepõem aos interesses comuns. Nesse sentido, algumas práticas vêm sendo desenvolvidas para minimizar a sobreposição destes interesses. Com relevância, o tema Responsabilidade Social é uma dessas práticas que decorre de um crescente envolvimento das organizações com a Responsabilidade Social Empresarial (RSE) nos últimos anos. A capacidade de determinar a relação, as características das empresas socialmente responsáveis e os fatores internos e sistêmicos que podem influenciar o resultado é um pré- requisito para o desenvolvimento e análise de políticas que visem a incentivar o desenvolvimento sustentável. Porém, podemos perceber que algumas empresas podem construir uma imagem eticamente correta, dando visibilidade à dimensão ambiental, social e, ao mesmo tempo, esconder suas transgressões. A bandeira ética pode ser um grande slogan para marqueteiros e empresários mal-intencionados. 5 Neste contexto, a ética no ambiente organizacional adquiriu uma posição peculiar no campo da ética aplicada. Além disso, falar sobre a ética e seus dilemas não é algo novo, porém, hoje tenta-se aplicá-la ao contexto empresarial. Inicialmente Sócrates já tentava desenvolver o senso ético nas pessoas a partir da seguinte pergunta: Como devemos viver nossa vida? O ser humano tenta responder a essa mesma pergunta há muitos séculos. Podemos inferir que essa pergunta é feita desde que o ser humano se entende como parte de uma sociedade. Contudo, hoje a ética ultrapassa os limites da filosofia, da sociologia, da psicologia e da teologia e vem ganhando cada dia mais espaço no campo empresarial. O que de fato intriga é o fato de não sabermos se a dimensão ética nas empresas é mesmo desenvolvida e respeitada ou se é puro discurso de marketing para alcançar o lucro. Algumas empresas podem construir uma imagem eticamente correta, dando visibilidade à dimensão ambiental, social e, ao mesmo tempo, esconder suas transgressões. A bandeira ética pode ser um grande slogan para marqueteiros e empresários mal-intencionados. As questões éticas e de Responsabilidade Social Empresarial no âmbito das organizações devem ser muito mais do que uma propaganda empresarial ou uma ação de marketing, bem-remunerada e segura: devem possibilitar a realização de um trabalho em equipe com cooperação e integridade de indivíduos capazes de se motivarem para agir de maneira correta, com atitudes voltadas para o bem e para fazer o que é correto. A ética nas empresas deve estar associada à integridade da pessoa física com a pessoa jurídica, pois uma empresa ética, harmoniosa, bem-sucedida e estável é constituída por pessoas exercendo sua liberdade. Para entendermos uma mudança comportamental nas organizações, o colaborador deve agir como membro ativo do seu ambiente de trabalho, ou seja, da empresa, fazendo a opção pelo que é bom, justo e correto.6 Segundo a Terceira Lei de Newton (1643-1727), “para cada ação há uma reação igual e em sentido contrário” (NEWTON, 1687). O indivíduo que exerce ações éticas deixa visível em sua atuação profissional os valores cultivados em sua vida pessoal e vice-versa. Isso vale também para as empresas: toda ação empresarial implica em uma reação ou uma consequência, ou seja, para cada ato ético ou antiético praticado, haverá uma consequência. Essa é uma asserção muito forte, pois se aplica a cada ação em qualquer lugar e em qualquer tempo. Assim, é imperativo que a empresa não trate a ética apenas como mais um negócio, mas como uma atitude que irá desencadear benefícios para os stakeholders, para a própria empresa e para a sociedade como um todo. Para fixar o conteúdo desta aula, façamos a leitura do capítulo que trata sobre ética no livro de Mário Alencastro: “Ética Empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa”. Boa leitura! Percebemos, ao final deste tema, que muitas empresas se dotam de atitudes éticas apenas se valendo dos benefícios que vão adquirir. Por isso, entender questões como humanização, relacionamento interpessoal e ética é importantíssimo. TEMA 2: ÉTICA E RSE A educação ética dos funcionários é uma responsabilidade da empresa. Sendo assim, caso os colaboradores não tenham tido uma formação para a ética na vida pessoal, também é responsabilidade da empresa encontrar um caminho para que se possa colaborar no cultivo de valores, por meio de treinamento e formação apropriados. Já que os indivíduos são parte viva da organização, os colaboradores deverão se comprometer com o código de ética da empresa. Assim, é importante a relação ética com as práticas de Responsabilidade Social Empresarial. Segundo SROUR (2003), essas práticas, vão além ao afirmar que a responsabilidade social acontece dentro e fora da empresa, pois representa a constituição de uma cidadania organizacional dentro da empresa e com a realização de direitos sociais fora dela. 7 CARROLL (1979) define RSE como uma prática que incorpora categorias econômicas, legais, éticas e discricionárias de desempenho do negócio. Essas quatro categorias básicas refletem uma visão de responsabilidade social empresarial que está relacionada com algumas das definições oferecidas anteriormente, mas que classifica as responsabilidades sociais das empresas de uma forma mais exaustiva. Divide-se, assim, a RSE em quatro níveis: econômico, legal, ético e discricionário, iniciando pela obrigatoriedade e chegando à responsabilidade assumida pela própria vontade e escolha. A responsabilidade econômica é a base para todas as outras e reflete a necessidade de a empresa zelar por sua saúde financeira e estratégica para garantir sua sobrevivência e crescimento. Já a responsabilidade legal significa que a empresa deve ser responsável pela adequação de suas ações à legislação vigente, incluindo sua relação com o governo, consumidores, fornecedores e outros stakeholders, em especial aqueles cujas relações sejam regulamentadas pela lei. Atender a esses dois níveis de responsabilidade significa cumprir os requisitos da sociedade, de suas normas e leis para viabilizar o funcionamento da organização. A responsabilidade ética não é exigida, mas é algo esperado da empresa pela sociedade como um todo. Traduz-se em escolhas organizacionais que estejam de acordo com princípios éticos e morais vigentes na cultura social onde a empresa está inserida, levando-a a atuar num patamar acima do mínimo requerido por lei, no que se refere ao atendimento dos interesses coletivos. Responsabilidade descricionária Responsabilidade ética Responsabilidade legal Responsabilidade econômica 8 O quarto e último nível, responsabilidade discricionária, abriga as iniciativas da empresa em se envolver e buscar soluções para os problemas sociais de maneira voluntária, que depende de sua escolha e vontade. Não é um envolvimento exigido e nem sempre é esperado, mas é desejado pela sociedade. É no nível discricionário que a empresa aporta, voluntariamente, recursos humanos, materiais e financeiros para a melhoria das condições sociais coletivas. Esse nível é também denominado de filantropia. Responsabilidade Social Empresarial é uma forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais que impulsionem o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais (INSTITUTO ETHOS). Assim, entendemos que o conceito de responsabilidade social empresarial tem na ética seu fundamento, delimitando ações e relações com todos os stakeholders − representados por cada pessoa ou grupo de pessoas com interesse nas ações e no desempenho de uma organização, ou seja, colaboradores, funcionários, clientes, consumidores, acionistas, fornecedores etc. Porém, este fundamento não é simples e cabe a pergunta: Como é praticada a Responsabilidade Social Empresarial nas relações entre as organizações e seus stakeholders? 9 Não podemos deixar de lado, o aspecto mais importante das práticas de Responsabilidade Social Empresarial, estas ultrapassam o aspecto legal da empresa, do uso da filantropia ou de uma ação social, podendo proporcionar uma mudança de atitude significativa por meio da gestão empresarial, em uma perspectiva sobre os valores sociais, ambientais e econômicos para além dos muros da instituição. A Responsabilidade Social Empresarial pressupõe consciência e compromisso das empresas com mudanças sociais. Impõe que elas reconheçam sua obrigação não só com acionistas e clientes, mas também com os seres humanos, com a construção de uma sociedade mais justa, honesta e solidária, uma sociedade melhor para todos. Assim, ela é uma prática orientada pela ética, que vai além das obrigações legais e econômicas, rumo às sociais, respeitando-se a cultura e as necessidades e desejos das pessoas (PASSOS, 2004, p. 166). Assim, quando abordamos o assunto, Responsabilidade Social Empresarial, não devemos nos esquecer do tema que está em destaque atualmente em todos os empreendimentos: o desenvolvimento sustentável. Três pilares do Desenvolvimento Sustentável: FONTE: elaborado a partir de CMMAD (1987) A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) apresentou os três pilares para o Desenvolvimento Sustentável: Ambiental, Econômico e Social. Na ocasião da publicação do Relatório Brundtland − documento intitulado “Nosso Futuro Comum” −, definiu desenvolvimento 10 sustentável da seguinte forma: “satisfazer as necessidades das gerações presentes sem comprometer as possibilidades das gerações futuras para atender as suas próprias necessidades” (CMMAD, 1987). Para que uma empresa atenda aos pilares do Desenvolvimento Sustentável, deve ser economicamente viável, socialmente justa e responsável ambientalmente. Para tanto, deve adotar a ética como parâmetro e prática, bem como a Responsabilidade Social Empresarial. Já fez a leitura do livro de apoio desta disciplina, o “Ética Empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa”? Aproveite o momento! TEMA 3: DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL Vamos entender um pouco mais sobre esses dois conceitos muito importantes e que têm como premissa a ética? O Desenvolvimento Sustentável e a Sustentabilidade ainda confundem muitas pessoas, pois parecem ser conceitos parecidos, mas têm significados diferentes. A sustentabilidade se apresenta na atualidade como conceito fundamental para um desenvolvimento econômico, social e ambiental equilibrado, requerendo transformações em diversasesferas da sociedade. Nas empresas a sustentabilidade se destaca na forma de objetivos a serem alcançados e valores a serem criados. Para haver um Desenvolvimento Sustentável efetivo, as empresas e organizações têm um papel fundamental no que tange a adoção de medidas que minimizem os impactos de suas operações, seja na dimensão econômica – reduzindo custos e aumentando lucros – ou na social, reduzindo as externalidades negativas oriundas de suas operações sobre as comunidades, e ainda, na dimensão ambiental, contribuindo efetivamente com a redução dos níveis de extração, poluição e rejeitos. Às empresas, caberá a implementação de inovações na gestão que visem ao uso racional das matérias-primas, à eliminação do desperdício e à utilização de práticas responsáveis em relação aos stakeholders e shareholders. 11 Para ELKINGTON (1994), tornou-se cada vez mais claro que as empresas devem desempenhar um papel central na concretização de objetivos e de estratégias para o desenvolvimento sustentável, enfatizando que a opinião pública tem sido determinante nessas iniciativas. Como exemplo, ele aponta que, em 1992 uma pesquisa de opinião pública, realizada em 22 países com cerca de 22.000 pessoas mostrou que “a preocupação com o meio ambiente se tornou um fenômeno mundial”. Porém, como já vimos, isso não é tão simples, uma vez que a empresa visa o lucro e adotar estas práticas pode se tornar inviável para a organização. HART e MILSTEIN (2004), no trabalho intitulado “Criando Valor Sustentável”, apresentam um modelo baseado na criação de valor ao acionista, no qual esse valor é um construto multidimensional. O modelo é fundamentado em duas dimensões bem conhecidas que são fontes de tensão criativa para as empresas. Se você tiver a oportunidade, não deixe de fazer a leitura desse trabalho! Observe os três pilares do Desenvolvimento Sustentável: Fonte: elaborado a partir de HART e MILSTEIN (2004) Para HART e MILSTEIN (2004), o eixo vertical no modelo reflete a necessidade simultânea que a empresa tem de manter os negócios atuais e de criar a tecnologia e os mercados de amanhã. Essa dimensão captura a tensão 12 experienciada pela necessidade de alcançar resultados de curto prazo ao mesmo tempo em que pensa no crescimento futuro. O eixo horizontal reflete a necessidade de crescimento da empresa e de proteger as habilidades e os potenciais organizacionais internos, e, ao mesmo tempo, de infundir na empresa novas perspectivas e conhecimentos vindos de fora. Essa dimensão reflete a tensão experienciada pela necessidade de proteger a essência técnica a fim de que ela possa operar sem interferência, ao mesmo tempo em que permanece aberta a novas perspectivas e a novos modelos e tecnologias. Em cada quadrante do modelo, HART e MILSTEIN (2004) especificam um foco que a empresa deve dar: No quadrante inferior esquerdo, o foco se direciona em fatores de desempenho interno como redução de custo e risco. Já o quadrante inferior direito foca no desempenho ampliado, inserindo os stakeholders externos como fornecedores e clientes na cadeia de valor imediata, bem como órgãos de regulação e comunidades. Nos quadrantes superiores, o futuro é vislumbrado não apenas a curto prazo: No quadrante superior esquerdo do modelo, a empresa deve não apenas ter um desempenho eficiente nos negócios atuais, mas também deve estar constantemente preocupada com a criação de produtos e serviços do futuro. O quadrante superior direito foca nas dimensões externas associadas ao desempenho futuro e atuação em camadas sociais menos favorecidas economicamente. Para que haja maximização da Criação de Valor ao Acionista ao longo do tempo, as empresas devem ter um bom desempenho simultâneo em todos os quatro quadrantes do modelo e em uma base contínua. 13 Percebe-se que a implementação das estratégias abordadas no modelo propicia a criação de valor ao acionista e exige inovações que devem pensar o Desenvolvimento Sustentável em todos os quadrantes. Assim, para atingir o ponto central, as organizações necessitam, inicialmente, considerar em seus planejamentos e estratégias para o atual momento em que se encontram e também para o futuro, bem como para seus ambientes internos e externos. A adoção das estratégias que compõem o modelo possibilitará às organizações criar valor sustentável aos seus stakeholders, a partir de processos de conscientização, assimilação, acomodação, adaptação, experimentação e aprendizagem da organização com relação às estratégias componentes do modelo. Em resumo, a sustentabilidade é um conceito complexo, multidimensional, que não pode ser equacionado por meio de uma única ação corporativa. A criação de valor sustentável requer que as empresas levem em conta cada um dos quatro conjuntos abrangentes de motivadores. 1. Primeiro, as empresas podem criar valor reduzindo o nível de consumo de matéria-prima e de poluição, associado com a rápida industrialização. 1. Segundo, as empresas podem criar valor ao operar com níveis mais amplos de transparência e responsabilidade, uma vez que são impulsionadas pela sociedade civil. 2. Terceiro, as empresas podem criar valor por meio do desenvolvimento de novas e revolucionárias tecnologias que tenham o potencial para reduzir os danos do homem ao planeta. 3. Finalmente, as empresas podem criar valor ao atender às necessidades dos indivíduos localizados no extremo inferior da pirâmide de renda do mundo – e isso de uma forma que facilite a criação e distribuição de renda inclusiva. A criação de valor é um fator de extrema relevância para a sobrevivência das empresas e contribuição ao Desenvolvimento Sustentável. Podemos entender que a responsabilidade Social Empresarial, conforme conceituada 14 anteriormente, vem ao encontro de necessidades primordiais do Desenvolvimento Sustentável. TEMA 4: CÓDIGO DE ÉTICA Como desenvolver atitudes éticas e práticas de Responsabilidade Social Empresarial dentro das organizações? Só uma moral que reconhece normas válidas sempre e para todos, sem qualquer exceção, pode garantir o fundamento ético da convivência social tanto nacional como internacional (Encíclica Veritatis Splendor, João Paulo II). Com estas palavras do Papa João Paulo II vamos começar nossa reflexão sobre a importância de se definir uma norma de conduta ética para as organizações. A relevância de se adotar normas nas organizações advém do conflito de interesses. A incorporação de elementos e princípios sociais e ambientais nas práticas organizacionais podem gerar conflitos de interesses políticos, culturais, econômicos, entre outros. Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH, 2010), a contribuição à diminuição das desigualdades socioeconômicas, da redução da pobreza é dever de diferentes organizações da sociedade, independentemente de seu caráter público ou privado, incluindo governos que desempenham papel fundamental na elaboração de políticas públicas. Atualmente, muitas empresas – e até mesmo conselhos profissionais – estabelecem códigos de ética (ou códigos de conduta empresarial/profissional). Esses códigos têm por objetivo concretizar os princípios, a visão e a missão da empresa ou da profissão. O Código de Ética é um instrumento/norma/documento elaborado em formato de texto com diversas diretrizes que norteiam os indivíduos quanto a suas posturas e atitudes ideais, moralmente aceitas ou toleradas pela empresa e sociedade como um todo. Essa norma enquadra os indivíduos a uma conduta aceita e alinhada com a boa imagem da entidade ou da profissão a qual pretende ocupar. Visa, dentre outras atitudes, o incentivo à voluntariedade e à humanização, em vista da criação de algumas atividades profissionais. É 15 redigido, analisado e aprovado pela sua entidade de classe,organização ou governo competente, de acordo com as atribuições da atividade desempenhada, proporcionando benefícios éticos para a sociedade. Para o Instituto de Ética nos Negócios, o Código de Ética pode ser definido como a declaração do conjunto de direitos, deveres e responsabilidades empresariais para com os stakeholders, refletindo a cultura, os princípios, os valores, a atuação socioambiental e o conjunto das normas de conduta para dirigentes, executivos e colaboradores, bem como para as empresas integrantes da cadeia produtiva, mediante os quais atuam as premissas que enriquecem os processos decisórios da empresa e orientam o seu comportamento. Além disso, deve ser o principal instrumento da Governança Corporativa e da gestão estratégica para se tornar um aliado das empresas no caminho que levará ao Desenvolvimento Sustentável. No sentido de orientar as pessoas, o Código de Ética determina normas que fixam alguns regulamentos acerca dos comportamentos dos colaboradores dentro de uma organização. Apesar de a ética não implicar em penas legais, o código de ética supõe uma normativa interna de cumprimento obrigatório. Essa norma dá respaldo aos gestores para identificarem possíveis falhas na conduta dos indivíduos. Embora não sejam normas que implicam em penas legais, podem estar vinculadas às normas legais como por exemplo, discriminar que é um crime punido por lei. Essas normas têm como principal objetivo determinar uma linha de conduta uniforme, dentro de determinado setor, categoria ou empresa. Existindo instruções por escrito, não há necessidade de os dirigentes explicarem constantemente quais são as obrigações que têm os funcionários. Um código de ética deve levar em consideração o setor de atuação da empresa, a categoria dos profissionais que ali trabalham e os anseios da própria empresa. Assim, respeitando os interesses do setor, das categorias e da empresa, o código de ética apresenta proibitivos com a intenção de orientar ações que colaborem na atitude social da empresa frente aos diferentes públicos com os quais se relaciona. Para a construção do código de ética, além das considerações já mencionadas, é de extrema importância que seu conteúdo suscite reflexão e participação de todos os envolvidos, envolvendo desde a diretoria geral até o 16 último colaborador contratado, pois todos têm a responsabilidade de colocá-lo em prática em seu dia a dia. O conteúdo deve ser claro e objetivo, facilitando a compreensão de todos e reduzindo o risco de interpretações errôneas ou subjetivas no que se refere ao caráter moral e ético. O Instituto Brasileiro de Ética nos Negócios publicou em sua revista Ética nos Negócios, Ano IV – n. 13 de março de 2014, um artigo que faz a seguinte pergunta: Para que servem os códigos de ética? A professora Maria Cecília Coutinho de Arruda argumentou alguns fatores justificam o código de ética. Segundo ARRUDA (2014), programas de educação, sensibilização e incentivo à atuação ética estão sendo cada vez mais desenvolvidos nas empresas. Os executivos do topo começam a perceber que o custo de controles, auditoria e compliance, assistência jurídica, prevenção à lavagem de dinheiro, corrupção e risco ultrapassam valores que se classificariam como aceitáveis. Assim, entendem que a ética vale a pena. Ainda para ARRUDA (2014), o código de ética dá visibilidade à empresa, indica que há valores sobre os quais se estruturam premissas e compromissos para com diferentes grupos de interesse, dentro e fora da organização. Esse registro sempre configura ou pressupõe relações de seriedade e responsabilidade – condições favoráveis a bons negócios. Em 2006, o Instituto Brasileiro de Ética nos Negócios, apresentou três funções básicas do código de ética, que são: Função de legitimação moral Os direitos e as responsabilidades da empresa para com os stakeholders, expressos no Código de Ética, oferecem os termos com base nos quais todos os stakeholders podem reconhecer que as suas legítimas expectativas serão tratadas equitativamente. O critério de equilíbrio das expectativas torna-se a base para um acordo e uma cooperação mutuamente vantajosa. 17 Função cognitiva Através da enunciação de princípios abstratos e gerais e de regras de comportamento preventivo, o código de ética, permite reconhecer os comportamentos não éticos (oportunistas) e esclarecer o exercício apropriado (não abusivo) da autoridade, da arbitrariedade, da delegação e da autonomia decisória de cada participante da empresa e de cada stakeholder. Função de incentivo O Código de Ética gera incentivos à observância dos princípios e dos valores corporativos e também das normas de conduta nele contidas, pois da sua observância depende a formação da reputação da empresa e o estabelecimento de relações de confiança reciprocamente vantajosas entre a empresa e os seus stakeholders. Podemos perceber que a ética empresarial proporciona a difusão de diversos valores dentro do mundo empresarial, em uma perspectiva quase sempre comportamental, sendo capaz de assegurar o sucesso com bons resultados de maneira clara e determinada. Diversas empresas adotaram um código de ética, com o intuito de agir frente a valores éticos, especificando seu exemplo de conduta em sua estrutura organizacional. TEMA 5: PACTO GLOBAL Aprendemos, no tema anterior, que a ética empresarial proporciona a difusão de diversos valores dentro do mundo empresarial em uma perspectiva quase sempre comportamental; porém, ela necessita de instrumentos para avaliar e mobilizar a comunidade empresarial no que diz respeito a suas práticas de Responsabilidade Social Empresarial. Neste sentindo, o Pacto Global vem ao encontro de necessidades éticas e de Responsabilidade Social Empresarial. Em meio ao cenário de crescente inquietação sobre os efeitos dos aumentos dos mercados, do consumo, da população mundial e de um mundo cada vez mais globalizado, o ex-Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, propôs o Pacto Global no Fórum Econômico Mundial, em 31 de janeiro de 1999, com o objetivo de mobilizar a comunidade empresarial 18 internacional para adoção, em suas práticas de negócios, de valores fundamentais e internacionalmente aceitos nas áreas de direitos humanos, relações de trabalho, meio ambiente e combate à corrupção refletida em 10 princípios. Para tanto, convocou líderes empresariais, de sindicatos, de ONGs e outros atores da sociedade civil a se unirem e criarem ações e parcerias em prol de um mercado global mais inclusivo, igualitário e sustentável, contribuindo para o avanço das práticas de Responsabilidade Social Empresarial. Hoje, há mais de 5.200 organizações signatárias articuladas por 150 redes ao redor do mundo. (OLIVEIRA et al, 2008). Porém, o Pacto Global não tem como objetivo ser um instrumento regulador, ele não vigia e não gera obrigações comportamentais ou de ações e práticas gerenciais das empresas, apenas visa a ser uma iniciativa de ação voluntária de cidadania empresarial, que procura fornecer diretrizes para a promoção do crescimento sustentável e da cidadania, mediante lideranças corporativas, comprometidas e inovadoras. o Global Compact confia no interesse próprio e esclarecido das empresas, das entidades do trabalho e da sociedade civil para iniciar e compartilhar uma ação substantiva na busca dos princípios nos quais se baseia o Global Compact (REDE BRASILEIRA DO PACTO GLOBAL, 2012). Os princípios a seguir são baseados na Declaração Universal de Direitos Humanos, na Declaração da Organização Internacional do Trabalho sobre Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho, na Declaração do Rio sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento e na Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção. A partir dessas declarações, definiram-se dez Princípios Universais parao Pacto Global, estando relacionados “às quatro áreas de direitos humanos, direitos do trabalho, proteção ao meio ambiente e combate à corrupção, escolhidas por possuírem um potencial efetivo para influenciar e gerar mudança positiva” (REDE BRASILEIRA DO PACTO GLOBAL, 1999). 19 Princípios do Pacto Global Os dois primeiros princípios dizem respeito aos direitos humanos. Desta maneira, o Pacto Global pretende promover o desenvolvimento humano sustentável focando atenções à vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e padrão de vida decente. Direitos Humanos 1. As empresas devem apoiar e respeitar a proteção dos direitos humanos reconhecidos internacionalmente; 2. Assegurar-se de sua não participação em violações destes direitos; Na dimensão trabalho, observam-se quatro princípios: Trabalho 3. As empresas devem apoiar a liberdade de associação e o reconhecimento efetivo do direito à negociação coletiva; 4. A eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou compulsório; 5. A abolição efetiva do trabalho infantil; 6. Eliminar a discriminação no emprego; No que diz respeito à dimensão sobre o meio ambiente, os princípios enumerados visam a promover maior responsabilidade ambiental, que não agrida a natureza, sendo uma abordagem preventiva e não corretiva, além de unir esforços no sentido de promover a gestão do ciclo de vida dos produtos. 20 Meio Ambiente 7. As empresas devem apoiar uma abordagem preventiva aos desafios ambientais; 8. Desenvolver iniciativas para promover maior responsabilidade ambiental; 9. Incentivar o desenvolvimento e difusão de tecnologias ambientalmente amigáveis; O princípio referente à última dimensão se posiciona contra a corrupção: Contra a Corrupção 10. As empresas devem combater a corrupção em todas as formas, inclusive extorsão e propina. O PG é um instrumento de livre iniciativa das empresas, sindicatos e organizações da sociedade civil, que busca fornecer diretrizes para a promoção do desenvolvimento sustentável, por meio de lideranças corporativas comprometidas e inovadoras. A organização que adere ao PG admite voluntariamente o compromisso de implantar os dez princípios (que você acabou de conhecer) em suas atividades cotidianas e prestar contas à sociedade, com publicidade e transparência, dos progressos que está realizando no processo de implantação dos princípios mediante Comunicações de Progresso (COP). A adesão ao Pacto Global não configura obrigação e não é monitorada; contudo, alguns compromissos devem ser assumidos pelas empresas ao aderirem. A adesão de uma empresa ou entidade ao Pacto Global implica comprometer-se com a implantação gradual dos dez princípios. Espera-se que os signatários alcancem uma série de mudanças em suas atividades, de modo que o Pacto Global e seus princípios façam parte de sua estratégia, cultura e atividades diárias. O signatário também deve ser transparente, ou seja, informar publicamente e de maneira contínua (anualmente) os progressos realizados na implantação dos princípios (por meio da apresentação de Comunicações de 21 Progresso) e manter um diálogo com os grupos de stakeholders (grupos de interesse da empresa). O compromisso também sugere a seleção de fornecedores, de modo que todos aqueles que fornecem à empresa também cumpram com os princípios do Pacto Global. Em casos específicos de empresas grandes, médias ou pequenas que têm atividade global, o compromisso do Pacto é global, ou seja, para todas as suas operações no mundo. Entidades que participam do Pacto e não são empresas têm um papel específico, no qual se espera que promovam o Pacto em todo seu âmbito de influência. De acordo com o Pacto Global, as empresas, grupos de empresas e outras organizações participam da rede de forma voluntária e, por isso, terão que enviar ao Secretário-Geral da ONU uma carta assinada pelo seu executivo principal e, quando possível, pelo Conselho de Administração, manifestando o compromisso empresarial com o Global Compact e seus princípios. Segundo Oliveira et al (2008), as empresas participantes deverão: Impulsionar mudanças nas suas operações, de maneira que os 10 princípios do Pacto Global se tornem parte da estratégia, da cultura e das operações rotineiras; Defender publicamente o Pacto Global e seus princípios através dos meios de comunicação de que dispõe, tais como comunicados à imprensa, discursos, relatórios etc.; Publicar em seu relatório anual (ou outro relatório similar) uma descrição das maneiras pelas quais a empresa está apoiando o Pacto Global e seus 10 princípios (OLIVEIRA et al, 2008). O Brasil, em 2009, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE (2012), em seus Indicadores de Desenvolvimento Sustentável, apresentava uma tendência de declínio no grau de desigualdade na distribuição de renda desde 1992. Porém, o índice de Gini – que, segundo o Instituto de 22 Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), mede o grau de concentração de renda em determinado grupo, apontando diferenças entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos – permaneceu elevado em 2009 (0,524), indicando que, apesar da redução, as desigualdades socioeconômicas persistem. A proporção de domicílios com rendimento mensal domiciliar per capita de até ½ salário mínimo sofreu um decréscimo no período observado, passando de 24,4%, em 1992, a 19,1% em 2009; cerca de 9,7% da população de 15 anos de idade ou mais eram ainda analfabetos, correspondendo a, aproximadamente, 14,1 milhões de pessoas (IPEA, 2012). Por outro lado, por várias razões, o Brasil desponta como uma possível potência da economia verde e inclusiva. Mais de 48% da matriz energética brasileira eram de fonte renovável em 2009 (EPE/MME, 2010). O Brasil dispõe de mais de 20% do solo arável do planeta e felizmente conta com insolação e disponibilidade de água. Isso, somado a uma cultura colaborativa e a uma classe empresarial cada vez mais engajada, consciente das suas responsabilidades e que quer atuar como protagonista, permite ao país ir muito mais além, ou seja, desenvolver-se de forma sustentável (PACTO GLOBAL, 2012). Assim, as empresas brasileiras signatárias do Pacto Global cada vez mais percebem que são parte da solução para a promoção de uma economia verde e inclusiva! TROCANDO IDEIAS O que você sabe sobre o “Projeto Ortópolis”? Pesquise sobre o contexto em que esse projeto foi desenvolvido e o que ele agregou à população de Barroso, município de Minas Gerais. Em seguida, compartilhe com seus colegas o resultado de sua pesquisa, pois esses dados serão muito importantes para o desenvolvimento prático de nosso estudo! NA PRÁTICA Uma empresa multinacional adquire uma planta de uma empresa brasileira em uma cidade do interior de Minas. Para a implementação de suas 23 práticas, a reestruturação é necessária para a incorporação desta unidade fabril com as políticas e diretrizes da organização. Com a reestruturação, vários funcionários foram demitidos causando insatisfação na comunidade, uma vez que, essa empresa era o maior empregador da cidade. Vamos para Barroso, interior de Minas Gerais, em 2003. A população prepara uma carta para a direção da Holcim na Suíça e no Brasil, reclamando da nova política da companhia, principalmente quanto à redução de postos de trabalho e terceirização. A comunidade, unida pela primeira vez, questiona por que a Holcim não dá mais empregos aos barrosenses. Também reclama da retirada das chaminés da fábrica, consideradas símbolo local. As lideranças solicitam ações que visem fortalecer a sociedade. Com a carta assinada e enviada aos diretores da empresa, a busca pela solução se inicia. O Professor e Consultor Edgar Ricardo von Buettner expõe a ideia de planejar e implementar, de forma sistêmica e participativa,uma “cidade correta”. Com a autorização para implementar o projeto, o consultor Edgar procurou o Sebrae RJ e posteriormente marcaram encontro com as lideranças da comunidade para solucionar os problemas e começar o planejamento da Ortópolis. Compartilha que gostaria de criar um programa para reduzir o impacto dessas ações e fomentar o desenvolvimento das comunidades locais: “Se nós queremos resolver todos os problemas da comunidade, precisamos mudar de comportamento. A comunidade tem que mudar o comportamento”. Neste encontro identificaram grandes problemas: geração de renda, saúde, educação, a questão do meio ambiente e, o principal, a comunidade precisava modificar o comportamento não só em relação à cidade, mas à dinâmica das mudanças que aconteciam. Ficou claro que todas as ações deveriam partir da própria população. Foram traçados os objetivos do projeto, os resultados a serem alcançados, as demandas da cidade. Surgiram os nove eixos temáticos: 1. Mudança comportamental assumida e realizada; 2. Modelos de políticas públicas elaborados; 24 3. Empreendedorismo difundido e implementado; 4. Agronegócio desenvolvido e implementado; 5. Econegócio desenvolvido e implementado; 6. Plano estratégico urbano elaborado e implementado; 7. Melhoria da infraestrutura instalada; 8. Gestão ambiental municipal implementada; 9. Cidade embelezada (arquitetura e paisagismo). Assim o Projeto Ortópolis teve como Visão ser um município formado por pessoas que detinham uma postura cidadã consistente e cooperativa, que constituíam os poderes públicos, instituições sociais e organizações empresariais de excelência, articulados e comprometidos com o desenvolvimento sustentável, que resultasse em resgate da autoestima, boa qualidade de vida e justiça social, com respeito ao meio ambiente, à cultura e aos valores éticos. E tinha como Missão possibilitar mudança comportamental que resultasse na participação de todos os setores da sociedade na construção de uma comunidade responsável, justa, solidária e ética, buscando boa qualidade de vida para todos. Com base nestas informações, reflita: esta seria a melhor opção para a comunidade? Teriam outras possibilidades? SÍNTESE Nesta aula estudamos alguns aspectos da ética como negócio, a ética e a responsabilidade social, o Desenvolvimento Sustentável e a Responsabilidade Social Empresarial, o código de ética e o Pacto Global. Segundo SOUSA (2006), o sistema capitalista, no qual nossa sociedade vive nos dias atuais, apresenta-se deficiente e necessita recriar-se constantemente. As organizações, com a finalidade de obtenção de lucro, 25 dotavam-se da confiança de que recursos naturais e humanos eram capazes de suprir todos os insumos para a produção demandada e receber todos os refugos de produção e lixos dessas demandas. A problemática da degradação ambiental não era levada em consideração em estudos econômicos. Na medida em que a exploração de recursos naturais e humanos não estavam sendo tratadas com a devida atenção, houve necessidade do sistema de produção capitalista se reinventar, se adequado às limitações impostas. Inovações foram implementadas na tentativa de gerar resultados positivos sobre a problemática, uma vez que, cada vez mais a opinião pública tem cobrado posicionamento das empresas. Nesta aula refletimos sobre o conceito e como se desenvolveram os estudos do Desenvolvimento Sustentável, da Sustentabilidade e da Responsabilidade Social Empresarial, na busca de mecanismos que minimizem os impactos negativos das empresas na sociedade. REFERÊNCIAS CARROLL, A. B. A three-dimensional conceptual model of corporate social performance. Academy of Management Review, Mississippi, v. 4, n. 4, p. 497-505, 1979. CARROLL, A. B. Corporate social responsibility: evolution of a definitional construct. 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Rio de Janeiro: Campus, 2003. 28 ÉTICA, RESPONSABILIDADE SOCIAL E AMBIENTAL AULA 3 Prof.a Olívia Resende 2 CONVERSA INICIAL Você já parou para refletir o que seria viver em uma sociedade em que as empresas agissem única e exclusivamente em busca de benefício dos acionistas, ou seja, em benefício próprio, agindo de tal forma que seu processoprodutivo beneficiasse apenas a produtividade, deixando de lado, a comunidade, o meio ambiente, dentre outros? Ou numa sociedade em que todas as empresas sem exceção levassem em consideração em suas decisões os stakeholders (partes interessadas pelas práticas de determinada empresa), o meio ambiente, antes de realizar algo? Nesta aula, abordaremos a ética nos negócios e analisaremos a corrida pelo lucro e sua grande influência no mundo empresarial. Refletiremos sobre o conceito de ética empresarial, bem como suas etapas de formação e seus dilemas. CONTEXTUALIZANDO Já vimos que para o convívio em sociedade, a ética é um assunto importante e cada dia mais difundido e necessário. Nas práticas empresariais isso não é diferente, uma vez que toda empresa é parte viva de uma determinada comunidade. Nos dias atuais, em pleno século XXI, fala-se muito em ética empresarial e isso vem se difundindo de maneira mais veemente nos últimos anos. Assim, o tema é relativamente recente. O autor Mario Alencastro (2013) afirma que a ética empresarial começou a ser debatida com mais intensidade no final dos anos 1960, depois de uma série de escândalos acontecidos no mundo empresarial norte-americano. Na década de 1980, ocorreu uma série de seminários sobre ética nos negócios, sempre com cursos dirigidos a executivos, com o intuito de conscientizá-los sobre a importância desse tema. Mais tarde, o mesmo aconteceu na Bélgica, Itália, Espanha, França e Inglaterra. No Brasil, o movimento de valorização da responsabilidade social empresarial ganhou forte impulso na década de 90, através da ação de entidades não governamentais, institutos de pesquisa e empresas sensibilizadas para a 3 questão, tais como o trabalho do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE) na promoção do Balanço Social, baseado em princípios éticos elevados (ETHOS, 2008). Nesta aula, buscaremos refletir sobre o conceito e como se desenvolveram os estudos da ética empresarial. Além disso, apresentaremos as etapas da formação ética de uma empresa e os dilemas que envolvem o tema. Para tanto buscaremos responder as seguintes perguntas: O que é ética empresarial? A ética empresarial pode fazer diferença na sociedade? Para responder a estas e outras perguntas, começaremos abordando a ética nos negócios e alguns aspectos históricos sobre a ética empresarial. TEMA 1: A ÉTICA NOS NEGÓCIOS Há uma grande diferença entre grandes empresários e homens de negócios. Segundo Arruda e Vasconcellos (1989), quando se estuda a vida de grandes empresários, com frequência se observa que essas pessoas são dotadas de uma natureza profundamente espiritual. Em contrapartida, os homens de negócios que não primam pela honestidade e moralidade em sua atuação, cedo se tornam conhecidos por suas deficiências, e seu prestígio pode ser mais drasticamente abalado do que aconteceria em outras profissões. Nos dias atuais, fala-se muito em ética nos negócios, responsabilidade social empresarial e sustentabilidade, porém, concretiza-se pouco em relação ao respeito aos valores humanos e da comunidade. Empresários buscam a primazia dos processos atuando de maneira ética, porém, ainda se tem muito o que fazer para que seja efetivo o atendimento aos direitos humanos. Mas o que é ética nos negócios ou ética empresarial? Para Moreira (1999), a ética nos negócios, ou ética empresarial, é “comportamento da empresa entendida como lucrativa quando age de conformidade com os princípios morais e as regras do bem proceder aceitas pela coletividade (regras éticas)”. 4 Em diversos países o tema ética nos negócios evoluiu, e têm se tornado primordial para a garantia do sucesso das empresas, uma vez que, cada vez mais, os consumidores estão empoderados de sua condição de agente de mudança e cobrando atitudes proativas por parte das empresas no que diz respeito à consciência dos direitos sociais. Segundo Alencastro (2013), a pressão exercida pelos consumidores, por exemplo, tem feito com que as empresas ultrapassem o campo das obrigações legais – o que é determinado pela justiça – e passem também a ter preocupações éticas. Como já abordamos, a ética nos negócios ou ética empresarial foi inicialmente inserida nos debates nos Estados Unidos e posteriormente na Europa, ganhando impulso no Brasil na década de 90. Segundo Arruda e Vasconcellos (1989), na década de 60, o Prof. Baumhart, um dos pioneiros da Ética Aplicada aos Negócios, realizou nos Estados Unidos uma pesquisa junto a 2000 empresários de várias filiações religiosas e ideológicas. Concluiu que existia uma necessidade imperiosa de humanização da tecnocracia dominante. Na Europa, havia uma visão humanista do homem e a preocupação social tanto de estudantes quanto de empresários. Para Arruda e Vasconcellos (1989), o europeu normalmente se mostra muito aberto para discutir problemas de ordem ética, tem uma formação filosófica básica que o habilita para isso, tem ideias claras sobre os temas em questão e chega intelectualmente a soluções profundas. Custa-lhe apenas a decisão de mudar sua forma de ser quando necessário. Hoje na Europa, com a globalização e internacionalização dos negócios cada vez mais forte, a concorrência e o rápido desenvolvimento da inovação tecnológica e o persistente nível de desemprego, a ética empresarial tornou-se um dos temas mais debatidos. Porém, essa temática não é simples, pois envolve vários olhares e maneiras de ver o mundo, torna-se evidente a complexidade e reúne empresários e acadêmicos para discussões que visam a unir as responsabilidades éticas e a eficácia empresarial. Pode-se perceber casos reais de empresas públicas e privadas em várias nações, por constituírem testemunhos positivos de que a ética e o sucesso são 5 compatíveis, atribuindo peso ao estudo da ética nos negócios na Europa, pois empresários de renome não hesitam em expor, com clareza e profissionalismo, a trajetória percorrida e o êxito final. O Brasil (considerado em 2015 um dos países mais corruptos do mundo, segundo o site do Estadão, na classificação que abarca 175 países) subiu três posições desde 2014, passando da 72ª posição para a 69ª sem corresponder a mudanças reais. Essa problemática não parece de pouca monta. Já havia problemas apontados pelos autores Arruda e Vasconcellos em fins da década de 80 e início de 90, antes mesmo da atual crise política e econômica que atravessa nosso país. Segundo esses autores, a falta de credibilidade em relação a inúmeras ocupações, posições e profissões cresce com rapidez e o mundo empresarial não se exclui dessa questão. Numa tentativa de reforçar padrões morais de comportamento, latentes em grande número de jovens brasileiros, faz-se necessário e urgente aprofundar-se nos sistemas éticos de análise dos negócios. Porém, toda empresa visa o lucro, até mesmo para sua sobrevivência, e aliar os interesses dos acionistas e da comunidade nem sempre são temas fáceis de serem resolvidos. Para Lipovetsky (2005), o universo da empresa se deixará sempre guiar pelos cálculos da eficácia e da rentabilidade. Agora, porém, sai ao encalço da alma, da “business ethics” (ética nos negócios), a última moda nos meios empresariais. Então, como compreender a ética empresarial num contexto marcado pela corrida em busca do lucro? Na contemporaneidade, para que as empresas se mantenham competitivas, não basta apenas oferecer produtos com qualidade, garantia, baixo custo e boa logística; é necessário apresentar outras qualidades, afinal, o cliente está cada vez mais exigente. Assim, pode-se perceber um diferencial nos negócios: a aplicação de uma conduta ética nas empresas que possa ser capaz de contribuir com melhores resultados em todos os campos: desde a relação individual com os colaboradores até a dimensão financeira. 6 Leitura obrigatóriaPara aprofundar seus conhecimentos, faça a leitura do capítulo 2 – A Ética no mundo da empresa – do livro: ALENCASTRO, M. Ética Empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. Curitiba: Intersaberes, 2013. TEMA 2: CONCEITUANDO A ÉTICA EMPRESARIAL O que é um negócio? O que constitui uma empresa? O que torna uma pessoa empresária ou empreendedora? A palavra negócio pode ser compreendida através de sua etimologia, tendo origem do latim “negotium”, que significava trabalho, ocupação, labuta − da conexão entre o advérbio “nec” (não) com o substantivo “otium”, otium é ócio, descanso, lazer, e a partícula nec é um advérbio de negação. Praticar o não-ócio é negociar. Assim, negócio pode ser entendido como uma atividade humana, realizada por indivíduos que se unem em prol de um objetivo e não se trata única e exclusivamente de uma relação financeira. Na Economia, um negócio trata-se de uma relação comercial e ou financeira, que é administrada por indivíduos com fins de captação de recursos para gerar bens e serviços, gerando capital de giro entre os diversos setores. Resumidamente, podemos afirmar que entende-se por negócio toda e qualquer atividade econômica com o objetivo de gerar lucro. Existe possibilidade de ser ético buscando o lucro? A etimologia da palavra empresa vem do Italiano “impresa” (atividade a que uma pessoa se dedica ou, ainda, a ação de imprimir algo), e do latim “emprehendere”, formado por “em” + “prehendere” (pegar, capturar, levar diante de si, segurar), referindo-se àquele que se apodera. Outros derivados são 7 “empreendedor” e “empreendedorismo”. Hoje, podemos entender uma empresa como a célula-base da economia moderna, caracterizada pela formação de pessoas jurídicas, de caráter legal e constitutivo, tendo como objetivo a prática de uma atividade pública e econômica capaz de gerar lucro. Na Economia, temos dois tipos de lucro: o contábil e o econômico. O lucro contábil é basicamente o confronto entre receita realizada e custo consumido, é respaldado pelo conservadorismo, convenção da objetividade e Princípios Contábeis Geralmente Aceitos. Já o lucro econômico, que é o incremento do valor presente do patrimônio líquido, envolve aspectos subjetivos, mas é superior ao lucro contábil (FUGI, 2004). Na sociedade capitalista, caracterizada pela propriedade privada, o lucro é a remuneração pelos fatores de produção, terra, capital e trabalho. O lucro, portanto, é a recompensa e a motivação para a instalação e continuidade de um empreendimento. J. R. Hicks, na obra Value and Capital (1946), definiu lucro como "a quantia que uma pessoa pode consumir durante um período de tempo, estando essa pessoa tão bem no final do período como estava no início". Portanto para o autor, o lucro está relacionado com a manutenção da riqueza ou do capital do indivíduo. Portanto, podemos perceber que para um negócio, o lucro é o fator mais relevante. Assim, vamos procurar compreender um pouco mais a historicidade do lucro através da leitura de um trecho do livro de Octávio Gouveia de Bulhões, Dois conceitos de lucro. Durante a Idade Média, a ética religiosa foi um poderoso impedimento a práticas gananciosas e especulativas nas relações econômicas ocidentais. Com o crescimento do comércio e o advento do Mercantilismo, essa ética foi deixada de lado, mas ainda não se apercebia do lucro a ser causado pela expansão econômica e aumento da capacidade produtiva. O empenho existente era pelo monopólio imposto pelos comerciantes marítimos e pelas proibições de exportação de matérias-primas e importação de produtos manufaturados pelos industriais. Somente com a influência de Adam Smith, que se posicionaria contra essas práticas defendendo a liberdade de comerciar e consumir, com o bem- 8 estar de todos garantido pela expansão do processo produtivo, é que o quadro antigo começaria a se alterar. Otávio Gouveia de Bulhões afirma que no Mercantilismo "o lucro está subordinado à valorização ou desvalorização do produto". O autor assinala também que, durante a Revolução Industrial, Karl Marx defendeu que o lucro seria a parcela não paga ao assalariado, enquanto a "Escola Austríaca", através de Böhm-Bawerk, teorizou que o produto acabado tem maior valor do que o alcançado pelos fatores de produção, pois acreditavam na ideia de que os produtos do presente possuem mais valor do que os produtos futuros. Bulhões chama o primeiro de "lucro-confisco (advindo da transferência de renda)" e o segundo de "deságio". Conclui que o "lucro de investimento, como soma adicional de renda" somente seria compreendido no século XX. Segundo Bulhões, foi Knut Wicksell que, a partir de 1934, "deu ênfase à mudança de escala de produção como característica do investimento e assinalou o acréscimo de produtividade como fonte de lucro (BULHÕES, 1969). O lucro, porém, causa uma disparidade entre o salário pago ao trabalhador e o valor do trabalho produzido por ele, chamado de “mais valia”. A mais valia definida por Karl Marx (1818 – 1883) é a diferença entre o valor do objeto produzido e a soma do valor dos meios de produção e do valor do trabalho (valor da mercadoria + valor dos meios de produção + valor do trabalho) como base do lucro no sistema capitalista. Nesse contexto, as perguntas feitas anteriormente precisam ser elucidadas. Lucro x ética. É no contexto dessa reflexão que a ética empresarial está envolvida: em um jogo com regras nem sempre claras e objetivas e uma competição em que os interesses pessoais muitas vezes se sobrepõem aos interesses comuns. Leitura obrigatória Para mais informações, leia os capítulos 2 do livro: ALENCASTRO, M. Ética Empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. 9 TEMA 3: ETAPAS DA FORMAÇÃO ÉTICA DE UMA EMPRESA Para compreender a ética nos negócios, precisamos entender as etapas da formação de uma empresa em busca de sua autonomia. Assim, é necessário antes compreender o processo da formação pessoal de cada um de nós em busca de amadurecimento, ou seja, autonomia. Nascemos éticos ou antiéticos? De que maneira se dá a formação da nossa consciência ética e moral? Como acontece o processo de amadurecimento do ser humano? O que nos torna pessoas maduras? Antes de iniciarmos esse estudo, é imprescindível compreender a etimologia da palavra autonomia, que significa o poder de dar a si a própria lei, autós (por si mesmo) e nomos (lei). Não se entende esse poder como algo absoluto e ilimitado, também não se entende como sinônimo de autossuficiência. Indica uma esfera particular, cuja existência é garantida dentro dos próprios limites que a distinguem do poder dos outros e do poder em geral, mas apesar de ser distinta, não é incompatível com as outras leis. Para Kant (1724 – 1804), a autonomia “designa a independência da vontade em relação a qualquer desejo ou objeto de desejo e sua capacidade de determinar-se em conformidade com uma lei própria, que é a da razão” (ABBAGNANO, 2000). Há várias formas de entender a palavra autonomia ao longo do tempo. Porém, tanto pela etimologia quanto pelo pensamento kantiano, a palavra autonomia significa autogoverno, governar a si próprio. Assim, um indivíduo autônomo é aquele que governa a si próprio, tomando a vida nas próprias mãos. O que hoje entra no debate é o processo dialógico contido na filosofia grega, que prioriza a capacidade de o indivíduo buscar respostas para as próprias perguntas, exercitando, portanto, sua formação autônoma. Segundo o psicólogo e filósofo Jean Piaget (1896-1980), existem algumas etapas de formação da nossa consciência ética e moral em busca de autonomia. Araújo (1996), com base nos estudos de Piaget sobre o juízo moral, apresentou as seguintes definições: anomia e heteronomia em direção à autonomia. 10 Podemos perceber queentre as três terminologias citadas anteriormente, o sufixo grego “nomia” (regras) é comum: anomia – “a” (negação) + “nomia” − refere-se a um estado de ausência de regras ou à pessoa que age de acordo com o que considera certo pelos seus interesses pessoais; heteronomia – “hetero” (vários) + “nomia” − refere-se a perceber a existência de muitas regras que são impostas por outros que exercem autoridade; por fim, a autonomia – “auto” (si mesmo, próprio) + “nomia” − refere-se à capacidade de discernir e fazer escolhas por si mesmo, governar a própria vida. A autonomia de um indivíduo não é construída de um dia para o outro; ela passa por um processo que tem diferentes etapas de desenvolvimento, começa desde muito cedo e continua se desenvolvendo no decorrer da existência do ser humano, nas diferentes decisões que tomamos, como um sistema de evolução e tomada de consciência. Na empresa, que é levada a efeito por uma ou mais pessoas, não é diferente: podemos tentar entender o processo de formação autônomo, ético e moral de uma empresa se compreendemos que a ética empresarial também é uma evolução que passa por diversas etapas, as quais vão sendo construídas aos poucos. Analisar o desenvolvimento empresarial, levando em consideração a aproximação e a analogia entre o desenvolvimento humano, foi exposto pela autora norte-americana Linda Starke em 1999, que especificou cinco etapas para a evolução moral de uma empresa: Corporação amoral: nesse estágio, a empresa busca o sucesso a qualquer custo e é capaz de violar normas e valores sociais sem qualquer consideração com seus colaboradores, desconsiderando a individualidade das pessoas e considerando-as apenas como parte econômica de produção da empresa. Podemos citar como exemplo o caso da Film Recovery Systems, que extraia prata de velhas chapas de raios-X, utilizando cianido, até que foi fechada em 1983 depois que um empregado morreu intoxicado por esta substância. Corporação legalista: nesse estágio, o modelo de corporação é completamente adepto da lei, mas não de seu espírito, ou seja, baseia- 11 se sempre na lei, adotando códigos de conduta que se parecem com produtos de departamentos legais. Buscam adotar algumas posturas éticas, apenas para evitar problemas legais. Apegada à lei ao pé da letra, a corporação legalista tem por finalidade definir a sua conduta, adotando códigos e outras regras em um alto legalismo. Corporação receptiva: nesse estágio, a empresa está interessada em mostrar-se responsável porque isso é conveniente, não porque é certo. Começam a entender que as decisões éticas podem ser do interesse da companhia a longo prazo, ainda que envolvam perdas econômicas imediatas. Os códigos de conduta das corporações receptivas começam a tomar forma de “códigos de ética”. Corporação ética que aflora: a corporação ética que aflora (ou ainda chamada de “nascente”) está em um estágio mais desenvolvido e reconhece a condição de um contrato social entre os negócios e a sociedade, além de procurar difundir essa postura em todos os setores da empresa, dando início a uma estabilidade entre os fatores éticos e a lucratividade. É o caso da Jonhson & Jonhson, excelente exemplo, pela forma com que equilibra preocupações éticas e lucratividade. A maneira com que solucionou o caso Tylenol é uma ótima referência. Corporação ética: nesse estágio, a empresa consegue deixar a ética e os lucros em uma mesma dimensão, alcançando um perfeito equilíbrio entre ambos. Essa etapa de formação simboliza um empresário que treina seus colaboradores desde o início, a fim de que eles se afastem de ações que possam comprometer o código de ética da empresa. Leitura obrigatória Você poderá obter mais informações sobre o assunto com a leitura do capítulo 2 do livro: ALENCASTRO, M. Ética Empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. 12 TEMA 4: LIDERANÇA ÉTICA Como vimos anteriormente, para compreender a ética nos negócios, precisamos entender que a construção do processo ético é, principalmente, pessoal. Nesse momento, iremos refletir sobre a conduta pessoal de um profissional ético e que sabe como liderar. Historicamente, na construção das sociedades, a liderança fez parte de grandes eventos, afinal, desde sempre tivemos pessoas que se apresentaram frente ao seu tempo, construindo impérios, nações, provocando revoluções, conduzindo movimentos sociais, arrastando multidões etc. A religião tem uma grande representatividade de líderes como Jesus Cristo, Moisés, Maomé e Buda sendo considerados os maiores líderes da história. Eles viveram e morreram há séculos e, mesmo assim, ainda hoje possuem vários seguidores no mundo inteiro. Quando falamos de liderança, recordamo-nos de vários personagens importantes e famosos, como Gandhi, Papa Francisco, Hitler, Abraham Lincoln, Mandela, Roosevelt, Madre Tereza de Calcutá, entre outros. Pessoas que, ao longo da história, construíram e modificaram a realidade da sociedade. Warren Bennis realizou pesquisas sobre liderança e, depois de pesquisar sobre centenas de líderes de sucesso, chegou à conclusão de que existe mais diversidade do que pontos em comum nesses líderes. Mesmo assim, na divergência de cada líder e na medida em que Bennis foi aprofundando os seus estudos, ele começou a detectar alguns pontos em comum entre eles. Para Bennis (1998), as habilidades pessoais são um dos mais importantes pontos em comum que significam a capacidade que os líderes de sucesso têm de usar muito bem os seus pontos fortes e de trazer à tona o que têm de melhor para as pessoas à sua volta (BENNIS, BBC World Service). Assim, as habilidades pessoais que proporcionam líderes ideais concentram sua energia: Em seus pontos fortes; Nos pontos fortes das pessoas que lideram; 13 E nos pontos fortes da própria empresa. De acordo com Bennis, as habilidades pessoais podem ser compreendidas através de quatro fatores: 1. Expectativas; 2. Equilíbrio; 3. Habilidades pessoais; 4. Sonhos e esperanças. Expectativas O cargo de gestor geralmente está sob um “fogo cruzado”. Afinal, o líder representa a empresa diante da equipe e a equipe diante da empresa. O líder eficaz espera o melhor das pessoas e faz de tudo para ajudá-las a atingir o seu máximo, inclusive testando-as. Faz também com que seus colaboradores se sintam importantes e se sintam bem só de estarem perto do líder. Esse é o efeito direto de se considerar as pessoas de forma absolutamente positiva. Porém, o líder também falha, afinal, é um ser humano. Assim, lidar com suas próprias falhas faz parte do dia a dia de um líder de sucesso. Equilíbrio Um líder emocionalmente equilibrado não reprime suas emoções. Ele aprende a administrá-las de modo a liberá-las na hora certa, com a pessoa certa e da forma mais adequada possível. Consegue se acalmar quando está nervoso, se automotiva e têm uma razoável percepção de si e dos outros. Pode-se dizer que se trata de um profissional protegido pelo otimismo e pela esperança, com positivas expectativas de que as coisas darão certo, apesar dos reveses e das dificuldades. Habilidades pessoais “Fator Wallenda”: Karl Wallenda (1905 -1978) foi um famoso equilibrista que viveu durante muito tempo apenas para o trabalho. Ele costumava dizer: “Para mim, andar na corda bamba é viver; todo o resto é meramente esperar”. 14 Depois de muitos anos, pela primeira vez, Wallenda pensou na possibilidade de cair e teve uma queda fatal. Ao invés de se concentrar em caminhar na corda, ele havia começado a concentrar sua energia em não cair. Bennis relaciona o caso Wallenda ao fato de que, dentre as centenas de líderes que estudou, nenhum deles jamais mencionou a palavra fracasso. Os líderes eficazes concentram a energia deles na busca do sucesso, ao invés de desperdiçá-latentando evitar o fracasso. É importante conhecer o que se tem de melhor e lutar para alcançar seus objetivos. Leitura obrigatória Para consolidar seus estudos, leia o capítulo 3 – A ética no mundo da empresa – do livro: ALENCASTRO, M. Ética Empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. TEMA 5: RELAÇÕES HUMANAS E ÉTICA NO TRABALHO As relações humanas decorrem da interação entre indivíduos, ou seja, entre duas ou mais pessoas, sendo que essa relação pressupõe o respeito mútuo. Como visto no tema anterior, as habilidades pessoais para um líder são de extrema importância e nas relações humanas não é diferente. Apesar de decorrerem da interação entre dois ou mais indivíduos, precisamos apresentar o que se trata por competência intrapessoal e interpessoal. Intrapessoal: capacidade de compreender a si mesmo, tanto sentimentos e emoções quanto estilos cognitivos e inteligência. Segundo Silva (2016), competência intrapessoal é o diálogo interno, conhecendo, percebendo e identificando as crenças, atitudes, sentimentos, valores pessoais, entre outros. Interpessoal: relativo a ou que envolve relação entre duas ou mais pessoas. A competência interpessoal é onde se envolve e ocorre a 15 interação entre duas ou mais pessoas; é a habilidade de lidar eficazmente com outras pessoas. Em um ambiente de trabalho não é diferente, faz-se necessário o relacionamento interpessoal e, quando não ocorre sintonia de uma ou mais pessoas, provoca-se o estresse, a desmotivação pelo trabalho, dificultando o bom andamento do trabalho/grupo. Em uma relação humana, a contribuição individual é fator indispensável. Em uma organização não é diferente: respeito entre os colegas e superiores, evitar fofocas, saber ouvir, colaborar e ajudar os colegas/pares mesmo nos momentos difíceis, apresentar soluções aos problemas sem atacar os colegas, respeitar raças, gostos e opiniões, principalmente se colocando no lugar do outro. Silva (2016) entende que o indivíduo deve propiciar clima que favoreça as relações, desta forma, formando equipes com os mesmos objetivos, pessoas motivadas cumprindo suas tarefas em harmonia, propiciando crescimento não só da equipe, mas da área, da Organização como um todo. Nessas relações, a humanização é uma questão de vital importância, pois somos seres de relação (seres sociais) em constante conexão com outras pessoas, seja no campo pessoal ou profissional. Essa humanização/socialização deve estar atrelada à ética, fundada em valores como o respeito, a solidariedade, a empatia e a ajuda mútua, lembrando sempre que o meu direito termina quando começa o do outro. Cabe uma pergunta: como podemos criar essa socialização entre as pessoas que constituem um ambiente organizacional? Criar essa socialização não é nada fácil, pois a convivência humana em si é difícil e desafiante, porque cada um reage de maneira diferente quando está inserido em um grupo de trabalho. Segundo Barbosa (2011), profissionais competentes individualmente podem render muito abaixo de sua capacidade por influência do grupo e das situações de trabalho. Pessoas convivem e trabalham com pessoas e portam-se como pessoas, isto é, reagem às outras pessoas com as quais entram em contato: comunicam-se, simpatizam, e sentem atrações, antipatizam e sentem aversões, aproximam-se, afastam-se, entram em conflito, competem, colaboram, desenvolvem afeto. O processo de interação 16 humana é constituído através dessas reações voluntárias ou involuntárias, intencionais ou não- intencionais (MOSCOVICI, 2008). Segundo Tourinho (1982), as relações humanas dentro de um ambiente organizacional geram uma necessidade de proximidade entre as pessoas que nele trabalham, configurando uma percepção entre e sobre os indivíduos. Tanto as relações humanas pessoais quanto profissionais devem colaborar para que possamos perceber o outro além de suas características físicas, bem como em sua essência. Quando vemos o outro em sua individualidade, conseguimos ter uma ligação positiva com essa pessoa. Boas relações desencadeiam afinidades baseadas em respeito mútuo e cordialidade entre os colaboradores. Na contramão, quando adotamos relações enfraquecidas, podemos enxergar o outro a partir de estereótipos criados em nossa imaginação, gerando um comportamento aético e hostil entre essas pessoas. A maior questão é como saber lidar bem com os outros, nas organizações não é diferente, trabalhar bem com os outros para que seu desempenho seja satisfatório, produtivo e consiga colocar em prática todo conhecimento em prol da empresa, com desempenho e serviços de alta qualidade. Leitura obrigatória Para saber mais, leia o capítulo 3 do livro: ALENCASTRO, M. Ética Empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. NA PRÁTICA Leia a reportagem sobre o caso da Volkswagen e a ética das grandes empresas: Volkswagen foi pega em fraude nos controles antipoluição, num teste de emissões de NOX (óxido de nitrogênio) nos Estados Unidos 17 O fato é grave e chamou a atenção para outros casos de má administração e falhas nos controles corporativos das grandes empresas. Mas também mostrou a incompetência ou a inadequação dos órgãos públicos de controle da poluição na Europa e nos Estados Unidos. Ao manipular os índices de emissões de NOx de 482.000 carros com motores 4 cilindros “clean diesel” (em versões dos VW Passat, Jetta, Golf, Beetle e Audi A3), a montadora alemã deu margem a estimativas de que 11 milhões de automóveis do grupo estejam jogando entre 237.161 e 948.691 toneladas de NOx por ano no planeta. Fonte: UOL Notícias. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/luiz- felipe-alencastro/2015/09/30/o-caso-volkswagen-e-a-etica-das-grandes-empresas.htm> Acesso em 05/05/2016. Veja a versão completa da notícia a seguir: O caso Volkswagen e a ética das grandes empresas Os desdobramentos da fraude dos controles antipoluição praticada pela Volkswagen nos Estados Unidos suscitaram uma série de interrogações e de polêmicas. Quem iniciou e deu cobertura à trapaça? Embora o CEO e vários outros altos responsáveis da empresa tenham se demitido ou mandados para a rua, ainda há pontos obscuros. Mais importante proprietário da VW, com 20% de ações que lhe dão um direito de veto na direção da firma, o Estado da Baixa Saxônia (um dos 16 Estados da Alemanha), não sabia de nada, conforme declarou o ministro da Economia do Estado (Lander). O fato é grave e chamou a atenção para outros casos de má administração e falhas nos controles corporativos das grandes empresas. Mas também mostrou a incompetência ou a inadequação dos órgãos públicos de controle da poluição na Europa e nos Estados Unidos. Na realidade, quem levantou a pista sobre as práticas delituosas da VW foi a ICTT, uma pequena ONG americana de parcos recursos. Como explicou um de seus diretores, a descoberta se deu quase por acaso: "nós não esperávamos achar alguma coisa" no teste. Só depois da denúncia da ICTT é que os organismos oficiais de controle americanos fizeram a investigação mais http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/luiz-felipe-alencastro/2015/09/30/o-caso-volkswagen-e-a-etica-das-grandes-empresas.htm http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/luiz-felipe-alencastro/2015/09/30/o-caso-volkswagen-e-a-etica-das-grandes-empresas.htm 18 aprofundada que desembocou na denúncia da firma alemã. Agora, na Alemanha, na França, nos Estados Unidos e em vários outros países, as autoridades e as agências governamentais de controle, admitindo implicitamente que falharam, prometem mais meios e mais rigor para os testes antipoluição. No meio tempo, apareceram propostas mais criativas e mais transparentes de vigilância sobre as manipulações dos fabricantes de automóveis. A mais interessante consisteem obrigar as fabricantes de carro a usar um código aberto (open source), permitindo o acesso dos usuários à caixa preta informática (proprietary code) que pauta o funcionamento de cada carro. Foi nessa caixa preta que a VW ocultou o software que lhe permitiu escapar aos controles antipoluição. Naturalmente, a proposta pode parecer utópica, visto que a confidencialidade do proprietary code é a alma do negócio na indústria do automóvel e de muitos outros setores. Porém, os prejuízos da VW e dos outros fabricantes de carros a diesel atingem tais proporções que poderão incitar à adoção do open source por uma parte das indústrias. Como escreveu no seu blog David Bollier, um ativista pela democratização da informática, se os organismos governamentais quiserem impedir estragos no meio ambiente e na segurança antes dos desastres, eles devem impor aos industriais a obrigatoriedade do código aberto em suas máquinas. Fonte: UOL Notícias. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/blogs-e- colunas/coluna/luiz-felipe-alencastro/2015/09/30/o-caso-volkswagen-e-a-etica-das-grandes- empresas.htm> Acesso em: 05/05/2016. Caso Volks vai além da questão ética e escancara a "Sociedade de Risco" O escândalo dos motores a diesel, que abalou a imagem da Volkswagen no mundo inteiro, pode sepultar a hipocrisia dos limites de emissão de gases tóxicos e abrir caminho para os carros elétricos http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/luiz-felipe-alencastro/2015/09/30/o-caso-volkswagen-e-a-etica-das-grandes-empresas.htm http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/luiz-felipe-alencastro/2015/09/30/o-caso-volkswagen-e-a-etica-das-grandes-empresas.htm http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/luiz-felipe-alencastro/2015/09/30/o-caso-volkswagen-e-a-etica-das-grandes-empresas.htm 19 Volkswagen e-Golf: 3.328 vendas na Europa e 357 nos Estados Unidos no ano passado Desde que foi pega traindo a confiança do consumidor num teste de emissões de NOx (óxido de nitrogênio) nos Estados Unidos, a Volkswagen está sendo tratada como uma espécie de Geni da indústria automobilística. Ao manipular os índices de emissões de NOx de 482.000 carros com motores 4 cilindros “clean diesel” (em versões dos VW Passat, Jetta, Golf, Beetle e Audi A3), a montadora alemã deu margem a estimativas de que 11 milhões de automóveis do grupo estejam jogando entre 237.161 e 948.691 toneladas de NOx por ano no planeta. Como o NOx é mais danoso (a curto prazo) ao ser humano do que o CO2 (dióxido de carbono), que é responsável pelo aquecimento global, a derrapada ética da Volkswagen provocou a ira da imprensa alemã. A revista semanal Der Spiegel fez uma capa demolidora. Transformou um Fusca em esquife, carregado por seis homens de luto, e foi lacônica no título: “Der Selbstmord” (O Suicídio). Mas, apesar da indignação alemã pela maneira irresponsável como alguns dirigentes trataram um ícone do país, a Volkswagen vai continuar vendendo carros em todo o planeta. É difícil prever o tamanho do estrago que os testes de emissões podem provocar nas vendas da Volks, embora seu valor de mercado já tenha recuado quase 40% em duas semanas. Suas ações na Bolsa de Frankfurt, que eram vendidas a 167,60 euros no dia 17/09, estavam cotadas 102,00 euros no dia 1º/10. De qualquer forma, a companhia ainda valia 46,672 bilhões de euros no final da semana passada – e muitos ainda apostam que ela não foi a única a mentir para os especialistas. O escândalo do “dieselgate” dá margem para inúmeras interpretações. Por isso, apesar da má conduta ética da montadora, quero lançar um olhar mais http://editora3-cdnmed-idin.agilecontents.com/resources/jpg/1/2/1444068320621.jpg?keepThis=true&TB_iframe=true&height=480&width=720 20 abrangente sobre o caso. Na minha opinião, a Volkswagen mergulhou fundo demais no ideal capitalista de produzir e vender cada vez mais. Afinal, em 2014 o Volkswagen Group (9.496.891 veículos vendidos) já era maior que o Toyota Group (8.657.903) e a General Motors Company (7.362.897). Com um crescimento de 5,1% em relação a 2013 (quando também terminou na liderança), o Volkswagen Group detinha 12,98% do mercado global de automóveis no final do ano passado, contra 11,83% do Toyota Group e 10,02% da GM Company. Mas Wolfsburg queria mais. Pelo menos até antes do escândalo dos motores a diesel, o objetivo da empresa era transformar a marca Volkswagen na líder mundial de vendas de automóveis até 2018. Contando só os modelos que trazem os logotipos VW, a marca terminou a temporada de 2014 em segundo lugar, com 6.022.625 emplacamentos, contra 6.384.760 da líder Toyota. A Ford aparecia em terceiro, com 5.413.255, e a Chevrolet em quarto, com 4.108.397. Evidentemente, a Volkswagen não tinha como objetivo intoxicar pessoas, mas sim vender mais carros. E na ânsia de vender mais e mais e mais, sempre e sempre e sempre, inúmeras empresas do mundo inteiro (também de todos os segmentos) estão envenenando o planeta. A emissão de CO2 – principal vilão do aquecimento global – tem subido a um ritmo sem precedentes desde 1984. Mas, segundo um relatório do órgão americano EIA (Energy Information Administration), o uso de motores a gasolina e a diesel para transporte nos Estados Unidos resultou, em 2014, na emissão de 1,075 bilhão de toneladas e 444 milhões de toneladas de CO2, respectivamente, totalizando 1,519 bilhão de toneladas de CO2. Isso equivale a 83% do total de emissões de CO2 por todo o setor de transporte dos EUA. Entretanto, essa poluição absurda representou apenas 28% de todo o dióxido de carbono que o setor industrial de Tio Sam jogou na atmosfera no ano passado. E por que isso acontece? Porque no ritmo industrial dos últimos 40 ou 50 anos, os países se convencionaram a seguir um padrão de aceitação de venenos, pesticidas, gases, acidentes e até assassinatos que levou nosso modo de vida (e morte) a se transformar naquilo que o filósofo alemão Ulrich Beck batizou de Sociedade de Risco. Na visão de Beck, a definição de limites de tolerância ou a estipulação de valores máximos levou à criação de uma indústria do risco: 21 Limites de tolerância para vestígios poluentes e tóxicos “admissíveis” no ar, na água e nos alimentos têm, em relação à distribuição de riscos, um significado comparável ao que tem o princípio de desempenho para a distribuição desigual de riqueza: eles simultaneamente admitem as emissões tóxicas e legitimam-na dentro dos limites que estipula. Quem quer que limite a poluição, estará fatalmente consentindo com ela. Aquilo que ainda é admissível e, por sua definição em termos sociais, “inofensivo” – independente do quão daninho seja. Particularmente, enquanto todo mundo atira contra a Volks, vejo uma oportunidade para que a indústria automobilística seja repensada. Afinal, por mais que a tecnologia se modifique (e agora ficou comprovado isso), os motores a diesel nunca conseguirão ser menos poluentes do que os alimentados por gasolina. O diesel é largamente utilizado nos carros de passeio dos Estados Unidos e da Europa porque é mais barato. E todo mundo quer gastar menos (não necessariamente poluir menos). Mas, com a emissão de 1,075 bilhão de toneladas métricas de CO2 a cada ano só nos Estados Unidos, está claro que os motores a gasolina também não resolvem a questão ambiental. Por isso, a verdadeira guinada nessa questão não será apenas uma exemplar punição à Volkswagen, mas sim a adoção de políticas de incentivo real à produção e comercialização de veículos elétricos. Só assim estaríamos falando de carros que não poluem. Modelos que circulam sem poluir a atmosfera já são comuns em muitas marcas, mas os números são ridiculamente pequenos quando comparados aos poluidores. Tanto nos Estados Unidos (30.200 emplacamentos em 2014) quanto na Europa (15.158), o carro elétrico mais vendido é o Nissan Leaf. Nos EUA,ele é seguido pelo Chevrolet Volt (18.805 emplacamentos) e pelo Tesla Model S (18.480). No mercado europeu, logo atrás do Leaf vêm o Renault Zoe (11.090 vendas) e o Tesla Model S (8.841). Com relação à Volkswagen, o e-Golf vendeu apenas 357 unidades em território americano no ano passado. Na Europa, seu desempenho com carros elétricos é melhor, ocupando o quarto lugar com o e- Up (5.450 vendas) e o sexto com o e-Golf (3.328). Portanto, o risco à saúde humana só desapareceria (teoricamente) se a tolerância à poluição fosse reduzida a zero. Como eu já disse, Beck identificou 22 uma indústria do risco, pois é preciso engenharia e investimentos para que os níveis de NOx ou CO2 que saem dos escapamentos dos carros passem de, digamos, 100 g/km para 80 g/km. Para movimentar a economia, portanto, o risco é ótimo. Em seu livro Futuros Imaginários: das Máquinas Pensantes à Aldeia Global, Richard Barbrook afirma que “o presente é compreendido como o futuro embrionário e o futuro ilumina o potencial do presente”. Partindo dessa premissa, um professor da Universidade Mackenzie, Vinícius Prates, escreveu em 2013 uma tese que talvez exemplifique a forma como olhamos para os automóveis que desejamos (ou como as montadoras querem que a gente os veja): Apesar dos muitos milhões de carros poluentes fabricados por ano, a indústria automobilística se caracteriza do ponto de vista do enunciador por este futuro que ilumina e explica o presente: ou seja, ela é figurada como sustentável pelo que um dia ocorrerá. Assim, não importa quantas unidades movidas a gasolina sejam fabricadas (e as consequentes críticas dos ambientalistas antagonistas), o enunciador consegue tamponar a falta constitutiva da crise ambiental por uma operação de deslizamentos de sentidos – os milhões de carros “sujos” (que vemos com nossos olhos) saindo das fábricas apenas preparariam o glorioso porvir de um capitalismo sem sintomas (que vemos com nossa ideologia), repleto de máquinas ecologicamente limpas. Se liderar uma cruzada mundial de incentivo aos veículos elétricos, a Volkswagen tem uma chance de propor um mundo melhor, renascer depois do “suicídio” e voltar a dizer um dia, em qualquer língua: “Você conhece, você confia”. Fonte: Isto É. Disponível em: <https://www.istoedinheiro.com.br/caso-volks-vai-alem-da- questao-etica-e-escancara-a-sociedade-de-risco/>. Acesso em 05/06/2021. A imprensa alemã, indignada, divulgou reportagens sobre o assunto, porém, apesar da indignação alemã pela maneira irresponsável como alguns dirigentes trataram um ícone do país, a Volkswagen vai continuar vendendo carros em todo o planeta. Fica a pergunta: os dirigentes da Volkswagen foram éticos em sua decisão? 23 SÍNTESE Neste material didático estudamos alguns aspectos da ética nos negócios, as etapas de formação de uma empresa ética, a liderança ética, as relações humanas e a ética no trabalho. Conforme vimos, para o convívio em sociedade, a ética é um assunto importante e cada dia mais difundido e necessário. Nas práticas empresariais isso não é diferente, uma vez que toda empresa é parte viva de uma determinada comunidade. O movimento ético nas organizações teve impulso a partir dos anos 90 com a valorização da responsabilidade social. Mas para que este movimento seja eficaz, antes o desenvolvimento de indivíduos éticos é necessário e, para tanto, é necessário existir regras, leis e normas que regulem o relacionamento humano no trabalho e sirvam de orientação quanto ao que é certo ou errado, justo ou injusto, lícito ou ilícito, permitido ou proibido. Nesta aula, refletimos sobre o conceito e como se desenvolveram os estudos da ética empresarial, além de apresentarmos as etapas da formação ética de uma empresa e os dilemas que envolvem o tema. REFERÊNCIAS ABBAGNANO. N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000. ALENCASTRO, M. Ética Empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. Curitiba: Intersaberes, 2013. ARAÚJO, U. O ambiente escolar e o desenvolvimento do juízo moral infantil. São Paulo. Casa do Psicólogo. ARRUDA, M. C. C., VASCONCELLOS, H. A ética nos negócios. Revista de Administração de Empresas. vol.29. n.3, São Paulo. 1989. BENNIS, W. 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ÉTICA, RESPONSABILIDADE SOCIAL E AMBIENTAL AULA 2 Prof.a Olívia Resende 2 CONVERSA INICIAL Para darmos continuidade à disciplina, vamos refletir sobre algumas teorias éticas, seus conceitos, e acompanhar numa dimensão histórica o caminho percorrido pela humanidade em busca de uma sociedade mais justa. Uma sociedade mais justa se faz com cidadãos mais justos. Mas o que é um cidadão justo? Vamos fazer você pensar um pouco na complexidade desse assunto e por que gera tanta discussão entre filósofos e teóricos há tanto tempo. Você já pensou se é justo, ético ou antiético furtar um remédio, cujo valor você não pode pagar, para salvar a vida de alguém por quem você tem muito apreço? Ou ainda, se é ético ou antiético ficar com uma carteira que alguém esqueceu no parque, num dia de domingo? E caso o valor encontrado na carteira esquecida no banco do parque seja o valor exato para comprar o remédio que aquela pessoa que você ama precisa para sobreviver? Podemos perguntar também sob um outro viés: o indivíduo deve privilegiar o valor da vida (salvar alguém da morte) ou o valor da propriedade privada (não roubar nem se apoderar do que não é seu)? Nesta aula, vamos tentar esclarecer essas e outras perguntas sobre questões éticas e como o homem vem desenvolvendo seus pensamentos sobre o assunto. CONTEXTUALIZANDO O convívio em sociedade é sempre um assunto intrigante, pois deve-se levar em consideração questões antropológicas, culturais, éticas, morais e legais daquela sociedade em questão, não há como generalizar. Quando analisarmos uma determinada atitude, devemos nos ater ao nosso mundo, ao mundo do outro e respeitar essa relação também, porque o que é certo para mim, pode não ser certo para o outro. Ao longo dos tempos, desde que o homem se reconheceu como um ser racional, deparamo-nos com diversas teorias éticas que surgiram nas diferentes sociedades, sempre tentando responder aos dilemas das relações de convivência entre os indivíduos. Pegaremos como base a descrição 3 colocada por Alencastro (2013) em seu livro Ética empresarial na prática, no qual o autor divide a ética de forma didática e em função de suas motivações básicas, como: Ética das Virtudes, Ética Religiosa, Ética do Dever, Finalismo e Utilitarismo. Analisaremos e refletiremos sobre cada uma dessas funções da ética. Podemos colocar a dificuldade dessa relação exemplificando com a questão do aborto. Conforme podemos analisar no mapa, regiões em verde são países em que o aborto é livre e, em contrapartida, nas regiões em vermelho o aborto é condenado e há leis restritivas. Quais são os fatores que proporcionam essa liberdade e ou restrição? Aqui, podemos tentar estabelecer um elo entre questões culturais, educacionais,econômicas, éticas, dentre outras, e as leis que deixam livre e as que restringem. Podemos perceber que, mesmo em países em que as leis são mais “duras”, existem aqueles indivíduos que defendem e os que condenam o ato, como é o caso do Brasil. Aqui temos pessoas que defendem o direito de decisão da mulher e pessoas que defendem o direito do feto de viver. Essa é uma questão delicada e que envolve ética e justiça. Figura 1 – O aborto no mundo: liberdade e leis restritivas Fonte: Elástica. Disponível em: <http://elastica.abril.com.br/o-aborto-deve-acontecer- em-um-unico-caso-quando-a-mulher-quiser> Acesso em 19/04/2016. Podemos perceber que o convívio em sociedade não é uma questão simples, mas envolve ética, moral e direito e foi tratada de diversas maneiras no decorrer da existência das relações humanas. Dito isso, nesta aula, buscaremos refletir sobre as teorias éticas apresentando a ética das virtudes, ética religiosa, ética do dever, finalismo e http://elastica.abril.com.br/o-aborto-deve-acontecer-em-um-unico-caso-quando-a-mulher-quiser http://elastica.abril.com.br/o-aborto-deve-acontecer-em-um-unico-caso-quando-a-mulher-quiser 4 utilitarismo. Trabalharemos alguns dos vários significados e interpretações, que tratam do assunto, inserindo questões contemporâneas para contextualizarmos os aspectos éticos. Para tanto buscaremos responder as seguintes perguntas: Para responder a esta e outras perguntas, começaremos abordando questões históricas e contemporâneas da ética, buscando inseri-las em suas motivações mais básicas. TEMA 1: O QUE É ÉTICA? O conceito de ética admite vários significados e interpretações, sendo ela normalmente definida como “ciência da conduta humana”. Falar sobre ética não é algo novo, pois o estudo da ética é bastante antigo. Sócrates (470-399 a.C.), “pai da ética”, desenvolvia o senso filosófico nas pessoas por meio de uma pergunta: como devemos viver nossa vida? Desde então, estamos há mais de 25 séculos tentando responder a mesma pergunta: como viver? O ser humano, desde sua origem e ser social que é, aderiu à convivência em comunidade para preservar sua vida e minimizar as dificuldades com a manutenção de sua sobrevivência. Ao aderir à vida em comunidade para ter maiores chances de sobrevivência, trouxe consequências, como a aquisição e construção de valores acerca do bem e do mal, do justo e do injusto, do certo, do incerto e do errado que, por força da habitualidade, tornam-se costumes, regras aceitas, obedecidas por toda a comunidade e transmitidas sucessivamente de geração para geração, que constituem o domínio da ética e da moral. O que é ser um indivíduo ético ou aético? O que é ser essencialmente justo? As diferentes maneiras de entender a ética fazem diferença na vida dos indivíduos? 5 A palavra ética, no entanto, teve seu uso indiscriminado ao longo dos anos, e nos dias atuais ainda persiste, como ressalta Nalini (1997): A ética permeia todos os discursos. A propósito das condutas humanas ainda capazes de chocar uma sociedade já acostumada a todos os desatinos, levantam-se as vozes dos moralistas a invocar a necessidade de um repensar comportamental. Ética, infelizmente, é moeda em curso até para os que não costumam se portar eticamente. Não é raro que as proclamações morais de maior ênfase provenham de pessoas que nunca poderiam ser rotuladas éticas. Compreensível, por isso, que para servir a objetivos os mais diversos, nem todos eles compatíveis com o núcleo conceitual que a palavra pretende transmitir. Além disso, a utilização excessiva de certas expressões compromete o seu sentido, como se o emprego frequente implicasse em debilidade semântica. Ética, no Brasil, sofre de anemia. Já se disse que ela é anoréxica! Para Silva (2013), partindo do pressuposto de que tudo gira em torno do homem e de sua posição de destaque no mundo, conceito que vem permeando toda a história moderna do mundo ocidental e, ao mesmo tempo, menosprezando a todos os outros seres imputados como irracionais e, dessa forma, não capazes de mudar o ambiente em que estão inseridos, o que mais se busca é entender que temos um homem, diagnosticado como racional, fazedor de cultura e que, de certa forma, é considerado um ser social. Materializa-se como ético, na medida em que se busca, na ética, a justiça social. O que Silva (2013) tenta expor é que a ética é uma construção humana e, dessa forma, considerada como um instrumento capaz de realçar as relações sociais, bem como criar todos os meios para garantir a justiça social. Ser ético, portanto, é voltar-se para o outro, e para o éthos, que pressupõe voltar-se para o conjunto de costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento e da cultura, característicos de uma determinada comunidade, época ou região. Nesse sentido, podemos considerar que a justiça é a luta não violenta pelos excluídos. Assim, entende que o homem se constitui como ser ético na medida em que vai construindo a sua socialização e, ao mesmo tempo, passa a desempenhar alguns papéis para a dinâmica do grupo no qual está inserido. (SILVA, 2013). 6 O conteúdo dos papéis, em cada sociedade, tem sido caracterizado de maneiras distintas, tornando difícil tratar ou descrever esses papéis de maneira única, pois eles são relativos. Em cada sociedade e/ou comunidade, em função da organização específica em torno da vida dos indivíduos que estão inseridos, do trabalho, da produção da vida material, organiza-se também o tipo de comportamento “desejável” para cada pessoa. A resposta à pergunta de Sócrates (470-399 a.C.), “pai da ética”, sobre como devemos viver nossa vida vai depender em parte do contexto em que o indivíduo está inserido. Na contemporaneidade, essa pergunta ultrapassa os limites da filosofia e esbarra em outras fontes de conhecimento, como as da psicologia, da sociologia, da medicina, da biologia e de outras ciências. Entretanto, todas elas ainda remetem ao campo da ética, e é uma questão que essa disciplina procura responder até os dias de hoje. Sendo assim, podemos afirmar que a ética e suas questões estão presentes em todos os setores − em tudo aquilo que nos rodeia. Segundo Silva (2013), a ética é uma das áreas que maior interesse desperta atualmente em toda e qualquer área, particularmente no campo da filosofia e da política, sobretudo porque diz respeito à nossa experiência cotidiana, ainda mais quando sentimos que cada vez mais vivemos numa crise ética. Desde a Grécia Antiga até a atualidade, muitas teorias foram construídas para explicar o comportamento ético das pessoas no convívio em sociedade. Conforme mencionado anteriormente, pode-se dividir a ética de forma didática em função das motivações básicas da seguinte forma: Ética da Virtude; Ética Religiosa; Ética do Dever; Finalismo; Utilitarismo. Leitura obrigatória Para aprofundar seus conhecimentos, faça a leitura do capítulo 1 do livro: ALENCASTRO, M. Ética empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. Editora Intersaberes, 2013. Esse capítulo também servirá de base para os outros temas desta aula. 7 TEMA 2: ÉTICA DA VIRTUDE Etimologicamente, a palavra virtude deriva do latim virtus (“força ou qualidade, essência”), que indica uma qualidade positiva e própria do ser humano de fazer o bem (para si e para os outros), ou ainda, no contexto da moral, a qualidade ou ação que dignifica o homem. A origem dessa terminologia deu-se pelos filósofos gregos. E qual é essa qualidade ou ação que dignifica o homem? Podemos perceber diversas interpretações sobre este tema, mas basicamente, é a prática constante do bem com liberdade e responsabilidade moral. Portanto, são consideradas virtudes a polidez, a prudência, dentre outros. Assim, podemos perceber que a virtude corresponde ao uso da liberdade com responsabilidadeem busca do bem comum. Já o oposto da virtude é o vício, que se fundamenta no hábito da prática do mal, correspondendo ao uso da liberdade sem responsabilidade. A ética da virtude tem seu foco no caráter mais que na ação do indivíduo, e está interessada na questão de saber quais as ações que estão certas ou erradas e as várias maneiras de tratar a questão. Figura 2 – Ações certas e erradas Fonte: Pelos caminhos da evangelização. Disponível em: <http://peloscaminhosdaevangelizacao.blogspot.com> – Acesso em 19/04/2016. http://elastica.abril.com.br/o-aborto-deve-acontecer-em-um-unico-caso-quando-a-mulher-quiser http://elastica.abril.com.br/o-aborto-deve-acontecer-em-um-unico-caso-quando-a-mulher-quiser 8 Segundo Bettencourt (2014), a ética da virtude pensa assim sobre o gênero de pessoa que deveremos ser, que ações deveremos tomar, quais as qualidades que tornam a vida boa e quais os vícios e qualidades negativas que devemos evitar. O núcleo desse gênero de ética é o Eudaimonia, que se poderá traduzir como “Felicidade”. Historicamente, a ética da virtude teve suas raízes na Grécia antiga, e sua origem está nos filósofos gregos. Sócrates (469-399 a.C.) defendia a ideia de que as causas éticas pessoais só poderiam ser definidas com o conhecimento de si mesmo. O filósofo tinha como seu lema: “conhece-te a ti mesmo”. Desta forma, uma vez alcançado tal objetivo (conhecer-se), o homem teria uma percepção de suas virtudes, agindo, então, de forma correta. Já Platão (429-347 a.C.) aperfeiçoou a visão de Sócrates apresentando uma divisão geral das virtudes em quatro princípios: a prudência, a fortaleza, a temperança e a justiça. Santo Ambrósio fez uso desses fundamentos de Platão, chamando-os mais tarde de virtudes cardeais: ■ Prudência: também chamada de sabedoria, é a virtude racional e é peculiar da classe dirigente ou dominante; característica peculiar a indivíduos que se comportam evitando perigos e problemas; precaução. ■ Fortaleza: chamada de valentia, é a virtude do entusiasmo, dos impulsos volitivos e afetos, regrando o coração e é peculiar da classe militante ou guerreira; força; vigor; robustez. http://peloscaminhosdaevangelizacao.blogspot.com/2011/06/valorizacao-da-propria-vida_23.html 9 ■ Temperança: chamada de autodomínio, é a virtude da vida impulsiva, instintiva e é peculiar da classe trabalhadora; característica do indivíduo que equilibra suas próprias vontades. ■ Justiça: resulta da colaboração igualitária de todas as virtudes, garantindo a harmonia entre elas; particularidade daquilo que se encontra em correspondência (de acordo) com o que é justo; modo de entender e/ou de julgar aquilo que é correto. Segundo Alencastro (2013), a coragem, a justiça, a prudência e a temperança são exemplos das virtudes aristotélicas. Deriva-se daí a importância da promoção de hábitos sociais através dos quais se desenvolva nas pessoas um modo de ser maduro e que se convertam na fonte principal de seu agir moral. Uma vez apropriados de forma pessoal, dão lugar a um modo de ser que expressa uma conformidade aos costumes, a marca de um indivíduo de caráter, aquele capaz de agir de forma livre e responsável. Aristóteles (384-322 a.C.), em seu livro Ética a Nicômaco, questiona: “Em que consiste o bem para o homem?” Ao que se responde: “Uma atividade da alma em conformidade com a virtude”. O filósofo compreendia que existem duas espécies de virtude, a intelectual e a moral, e que o bem próprio da pessoa é a inteligência e que o homem devia viver de acordo com a razão. E, ainda, que somente pela razão se pode chegar às virtudes. Para Aristóteles, ser feliz é usar a razão com propriedade e o fazer de tal modo que isso se torne uma virtude. Aristóteles apresentou a virtude como um traço de caráter exposto na ação do homem. Para ele, a virtude seria uma propriedade do caráter humano apresentada de diversas maneiras, como: paciência, benevolência, justiça, compaixão, coragem, tolerância, afabilidade, generosidade, honestidade, sensatez, lealdade, equidade etc. 10 As virtudes eram tidas como fundamentais para o filósofo, pois o homem virtuoso, aquele que tem a capacidade de refletir sobre suas escolhas e escolhe o que é mais apropriado para si e para as pessoas que convivem com ele em sociedade viveria bem, tendo uma vida melhor. Leitura obrigatória Vamos continuar aprofundando nossos conhecimentos? Então faça a leitura do artigo a seguir: Noções introdutórias sobre a ética das virtudes aristotélica. http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/conjectura/article/download/179 6/1127 Saiba mais Entenda um pouco do que Leonardo Boff, um grande filósofo brasileiro, entende sobre Virtude assistindo ao vídeo a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=vydv0R9Pd54 TEMA 3: ÉTICA RELIGIOSA A ética religiosa é regida por princípios e regras estabelecidos pelas distintas religiões. A ética cristã é um bom exemplo do que seria uma ética religiosa, visto que apregoa a obediência aos deveres religiosos. Sendo assim, é delimitada por parâmetros (princípios e regras) religiosos: os mandamentos de Deus têm o caráter de imperativos supremos. Na concepção cristã, o ato de matar ou de roubar, por exemplo, não se justificariam, pois seriam contrários aos mandamentos bíblicos universais (“não matarás”, “não roubarás”), que devem ser obedecidos. Assim, a ética religiosa tem características como os mandamentos – conjunto de leis ditadas por Deus e que devem ser seguidas. São elas: ■ Dogmas: crenças e doutrinas estabelecidas que não admitem contestação, ou seja, uma verdade absoluta, definitiva, imutável, infalível, inquestionável e segura, nas quais não pairam dúvidas; http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/conjectura/article/download/1796/1127 http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/conjectura/article/download/1796/1127 https://www.youtube.com/watch?v=vydv0R9Pd54 11 ■ Normas: regras que regem o comportamento dos indivíduos, sempre com caráter de ordem suprema, englobando nelas diversas religiões, seitas, confissões de fé, entre outros. Podemos começar a perceber que na maioria das vezes os indivíduos pensam em ética religiosa enquanto delimitação de normas e comportamentos religiosos. Logo, pensam em Deus (entendido como ser absoluto e transcendente) e remetem a Ele uma dupla função: a de legislar e a de sancionar tudo o que se refere ao que é bem ou mal, bom ou ruim. Esse Deus, como juiz, julga quem escolhe o mal e premia quem escolhe o bem. O “olho de Deus” que tudo vê é um símbolo utilizado pelo cristianismo. E significa o olho que está em nós mesmos nos impedindo de cometer atos antiéticos e não o olhar de Deus que está no céu vigiando tudo e todos. Figura 3 – O “olho de Deus”, símbolo cristão Fonte: Spreadshirt. Disponível em: <http://pt.depositphotos.com/21339873/stock-photo- all-seeing-eye-of-god.html> Acesso em 20/04/2016 Questões religiosas são responsáveis, historicamente, por grandes conflitos mundiais que ocorreram ao longo dos séculos, e que persistem nos dias de hoje. É bom ressaltar que existem fatores de caráter político, econômico, territorial, geopolítico, histórico, entre outros, que também desencadeiam os conflitos, mas as questões religiosas e o radicalismo sempre são motivos elencados como um dos principais. Atualmente existem inúmeras religiões sendo praticadas no mundo, as principais são: http://pt.depositphotos.com/21339873/stock-photo-all-seeing-eye-of-god.html http://pt.depositphotos.com/21339873/stock-photo-all-seeing-eye-of-god.html 12 ■ Cristianismo: historicamente é a religião com maior número de seguidores, sendo que atualmente conta com mais de 2,2 bilhões de adeptos no mundo. Os cristãos, como são chamados, creem que Jesus Cristo é filho de Deus e veio ao mundo como mortal para trazer salvação, foi morto e ressuscitou. Religião monoteísta (adoraçãoa apenas um deus) e tem a bíblia como o livro sagrado. ■ Islamismo: trata-se de uma religião monoteísta que surgiu no século VII, criada por Maomé, seu líder supremo. O Corão é o livro sagrado. Atualmente existem cerca de 1,6 bilhão de adeptos no mundo e é a que mais cresce. Está difundido especialmente na Ásia e África, mas existem diversos seguidores em países como a Inglaterra e a Espanha. ■ Budismo: trata-se de uma religião criada por um príncipe indiano chamado Sidarta Gautama, conhecido como Buda. Surgiu na Índia, no século VI a.C. No budismo não há hierarquia, existe a figura de um líder espiritual, que é o Buda e não há um deus. Atualmente existem aproximadamente 376 milhões de adeptos. O principal livro sagrado budista consiste no Tripitaka, livro compartimentado em três conjuntos de textos que compreendem os ensinamentos originais de Buda, além do conjunto de regras para a vida monástica e ensinamentos de filosofia. ■ Judaísmo: considerada a primeira religião monoteísta, tendo como crença a existência de apenas um deus, o criador de tudo. Para os judeus, Deus fez um acordo com os hebreus, fazendo com que eles se tornassem o povo escolhido e prometendo-lhes a terra prometida. Seu patriarca é Abraão. Conta atualmente com aproximadamente 15 milhões de adeptos e tem a bíblia como o livro sagrado. 13 A maioria das religiões pregam o amor, o respeito e a dignidade, porém, entre seus adeptos, as diferenças de crença acabam sendo as responsáveis pelos grandes conflitos mundiais. Podemos ressaltar que os primeiros filósofos cristãos buscavam conciliar fé e razão como instrumento de análise e reflexão. Segundo Valls (1994), a filosofia insurge no campo da ética cristã, na tentativa de justificar seus princípios e normas de comportamento, se submetendo à lei divina revelada pelos livros sagrados, mediante uma disciplina específica: a teologia dogmática. Ao falarmos em ética na dimensão religiosa, fechamos o discurso, uma vez que nos atemos para uma proposta de livre escolha e decisão, pois tudo já vem subjugado por algo maior e determinante. Com o avanço das ideias do Iluminismo, a humanidade deixou de lado o Teocentrismo (Deus como centro de todas as decisões) e colocou o próprio homem no lugar Dele, fazendo nascer o Antropocentrismo (o homem como centro de tudo). No período iluminista − conhecido como a “Era da Luz” − o homem passou a representar o ser absoluto dele próprio, deixando de lado as afirmações categóricas, dogmáticas, autoritárias e suas distorções da vontade criadas pela concepção de pecado. Fazendo uma análise entre ética frente a ética religiosa, entendemos que na primeira o indivíduo tem a livre escolha de seus atos, enquanto a ética religiosa está atrelada à fé. Ir de encontro com a ética religiosa é afirmar que a moral está na conformidade com a vontade de Deus e que o mal é ir contra essa vontade absoluta. Leitura obrigatória Quer saber mais? Então não deixe de ler os textos indicados a seguir: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/529499-a-etica-do-papa-francisco- artigo-de-giannino-piana http://www.ihu.unisinos.br/noticias/529499-a-etica-do-papa-francisco-artigo-de-giannino-piana http://www.ihu.unisinos.br/noticias/529499-a-etica-do-papa-francisco-artigo-de-giannino-piana 14 http://www.recantodasletras.com.br/redacoes/3427313 Saiba mais Para entendermos um pouco mais as questões éticas no contexto religioso, leia a resenha realizada por Wilson Ricardo Buquetü Pirotta do livro: COMPARATO, F. K. Ética: Direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. https://www.revistas.usp.br/rdisan/article/download/80651/84301/111104 TEMA 4: ÉTICA DO DEVER Para entendermos a ética do dever, devemos inicialmente entender alguns conceitos estudados por grandes filósofos ao longo do tempo. Segundo artigo produzido pela PUC/Rio, o homem é concebido como um indivíduo, como um ser que, por essência, não precisa pertencer a uma comunidade. É verdade que, de fato, os homens vivem e precisam mesmo viver, por questões de proteção, com outros homens, mas esse conviver não faria parte do que é o homem. Ainda, acresce-se à noção de indivíduo uma outra característica: a de igualdade. Se pesquisarmos no dicionário e em alguns livros, a igualdade é a falta de diferenças entre duas coisas, que possuem o mesmo valor ou são interpretadas a partir do mesmo ponto de vista, em comparação a outra coisa ou pessoa. A palavra igualdade tem relação com o conceito de uniformidade, de continuidade, ou seja, quando há um padrão entre todos os sujeitos ou objetos envolvidos. Ainda segundo o artigo da PUC/Rio, por princípio os homens são todos iguais. Isso significa que não mais se assume que o ser humano possua um papel na cadeia de seres, na estrutura da natureza, nem que se possa, no interior do grupo humano, falar de diferentes funções de homens, como afirmava Platão na Politeía. Por fim, um terceiro ponto característico do homem moderno, segundo o artigo da PUC/Rio, consiste no fato de ele ser concebido como livre. Ele é, também por princípio, tanto livre de restrições impostas a ele por instâncias externas, quanto livre para seguir o curso de vida que melhor lhe aprouver. A esse aspecto da liberdade, associa-se a autonomia e a capacidade do homem http://www.recantodasletras.com.br/redacoes/3427313 https://www.revistas.usp.br/rdisan/article/download/80651/84301/111104 15 de atribuir-se, ele próprio a si próprio, as regras pelas quais pautará sua vida e suas ações. Percebe-se que diante de tal visão do homem, cada indivíduo determina para si mesmo o curso de vida que quer seguir. As ideias de bem, de boa vida, ficam deixadas à deliberação de cada um. Fica a pergunta: Como conviver entre humanos de modo a evitar conflitos? Essa pergunta nos remete à ética do dever que tem início com o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), que afirmou que “a moral propriamente dita, não é doutrina que nos ensina como sermos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade”. Segundo Kant, a ética do dever centrou-se na razão humana, deixando de lado muitos dos conceitos e formulações da ética religiosa, colaborando para que a pessoa fosse autônoma e, consequentemente, livre. Uma vez que o homem pensa, abre-se perante ele a possibilidade de seguir por sua própria razão, sem se deixar enganar pelas crenças, tradições e opiniões alheias. O indivíduo é um ser sensível por natureza, uma vez que é condicionado por suas disposições naturais. Porém, por outro lado, é um ser racional, alguém capaz de se regular por leis que impõe a si mesmo. A essa imposição chamamos de dever: não é uma obrigação externa, e sim a expressão da lei moral em nós, ou seja, o senso moral inato ao ser humano e não derivado da experiência sensorial ou religiosa (SANTOS e MORUJÃO, 2001). Figura 3 – Immanuel Kant Fonte: A Filosofia. Disponível em: <http://www.afilosofia.com.br/post/immanuel- kant/436> Acesso em 20/04/2016. http://www.afilosofia.com.br/post/immanuel-kant/436 http://www.afilosofia.com.br/post/immanuel-kant/436 16 Para Kant, o indivíduo deve agir o mais perfeitamente que puder, eis o fundamento primário de toda obrigação de agir. Assim, a ética do dever vem do reconhecimento do que a própria pessoa faz de si mesma e que, pela razão, chega à necessidade obrigatória de obedecer a certas regras: os imperativos categóricos. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) expôs essa ideia de que todos os seres humanos têm a capacidade de distinguir o bem do mal e que, pela razão, todas as pessoas são chamadas a cumprir o seu dever, como base de toda a ética do dever de Kant, o qual também sofreu grande influência do Iluminismo. Para Kant, a razão deve ser submetida a uma análise sobre as diversas possibilidades de ação, ou seja, é pela razão queo ser humano se distingue do animal, conferindo-lhe a qualidade de pensar por si próprio. É por ela que a pessoa se torna autônoma e livre. A seguir, alguns exemplos dos chamados imperativos categóricos de Kant: Princípio da autonomia de Kant "Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza." Imperativo Universal de Kant "A máxima do meu agir deve ser por mim entendida como uma lei universal, para que todos a sigam." Imperativo Prático de Kant "Age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim ao mesmo tempo e nunca apenas como um meio." 17 Saiba mais Jürgen Habermas é filósofo do Instituto de Pesquisa Social, em Frankfurt (Alemanha). O texto a seguir foi apresentado na Conferência do Mês (IEA/USP): "Zum pragmatischen, ethischen und moralise hen Gebrauch der praktischen Vernunft", realizada em outubro de 1989. Boa leitura! http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103- 40141989000300002&script=sci_arttext TEMA 5: FINALISMO E UTILITARISMO Finalismo Ao se tratar do tema finalismo, é primordial se ater ao uso da terminologia em si, pois esta aceita diversos sentidos, oferecendo algumas possibilidades de equívocos devido às palavras fim e finalidade. Porém, para evitar enganos, aqui trataremos especificamente da dimensão ética como o princípio que admite uma finalidade. Para Japiassú e Marcondes (2008), o finalismo é doutrina que transpõe o princípio de finalidade para a ordem da metafísica, com o objetivo de explicar os fenômenos do mundo material ou moral, tanto pela intervenção de um espírito criador e providencial quanto em função de um futuro "apocalipse" que virá justificar tudo o que se passou anteriormente. Segundo Alencastro (2013), os finalistas não partem de regras, mas de objetivos, e avaliam as suas ações à medida que favorecem esses objetivos. Assim, para se definir o rumo certo de uma ação, inicialmente deve-se escolher um fim acertado e depois decidir sobre o meio para alcançá-lo. Dentre os teóricos que trataram da ética, Aristóteles tem como especificidade ser finalista, ou seja, entende que o homem, em todas as suas ações, tem por finalidade alcançar algo (um bem final). Esse bem final, que em uma escala hierárquica é o maior de todos os outros, é a felicidade. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141989000300002&script=sci_arttext http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141989000300002&script=sci_arttext 18 Para os finalistas, a felicidade se focaliza no bem, no efeito da ação, sempre como um fim a ser obtido pelo indivíduo e não por meio da observância de determinações ou mandamentos. Assim, podemos nos remeter ao pensamento elaborado por Nicolau Maquiavel no século XV em seu livro O príncipe, expondo um modelo de governo norteado por um princípio segundo o qual, na política, “os fins justificam os meios”. Portanto, para Aristóteles, “a natureza de uma coisa é o seu estágio final, porquanto, o que cada coisa é quando seu crescimento se completa, nós chamamos de natureza de cada coisa, quer falemos de um homem, de um cavalo, de uma família, ou até mesmo da política. Mais ainda: o objetivo para o qual cada coisa foi criada – sua finalidade – é o que há de melhor para ela, e a autossuficiência é uma finalidade e o que há de melhor” (ARISTÓTELES, Política, I, 1253b, 15) Para todos os filósofos finalistas os objetivos são as finalidades e não partem de regras. Para eles, deve-se primeiramente escolher um objetivo − um fim apropriado – e, depois, decidir sobre a maneira como alcançá-lo. Utilitarismo Para Japiassú e Marcondes (2008), o utilitarismo é a doutrina ética defendida sobretudo por J. Bentham e J. S. Mill. Na definição de Mill, "as ações são boas quando tendem a promover a felicidade, más quando tendem a promover o oposto da felicidade". As ações, boas ou más, são consideradas assim do ponto de vista de suas consequências, sendo o objetivo de uma boa ação, de acordo com os princípios do utilitarismo, promover em maior grau o bem geral. As críticas ao utilitarismo geralmente apontam para a dificuldade de se estabelecer um critério de bem geral, e para o fato de que, em nome deste bem geral, essa doutrina aceita o sacrifício de uma minoria, sem considerar as intenções e motivos nos quais a ação se baseia, levando em conta apenas os seus efeitos e consequências (JAPIASSÚ e MARCONDES, 2008). O utilitarismo surgiu em meados do século XVIII, na Inglaterra, tendo sua gênese nos filósofos Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806- 19 1873), situando a prática das ações de acordo com sua utilidade, ou seja, relacionaram o útil ao bom, baseando-se para tal em preceitos éticos. Bentham e Stuart Mill entendem então, que uma ação é eticamente correta se ela tiver por objetivo alcançar a felicidade, não no sentido meramente individual, mas no aspecto coletivo, de forma não egoísta, a fim de evitar atitudes humanamente impulsivas. Desse modo, a ética utilitarista rejeita o egoísmo. Assim, conforme Mário Alencastro (2013), o utilitarismo vê o bom como aquilo que é útil para a maioria, tornando-se assim uma espécie de altruísmo ético, sempre admitindo a possibilidade do sacrifício individual a favor da coletividade. Portanto, uma atitude só deve ser concretizada se for para o bem de um grande número de pessoas. Assim, antes da efetivação de uma ação, ela deve ser avaliada sob o ponto de vista dos seus resultados práticos. O princípio básico da teoria ética do utilitarismo é: “se é útil, é porque é bom”. O utilitarismo se diferencia de outros princípios éticos de caráter bom ou mal, pois, de acordo com o utilitarismo, é possível que uma ação boa seja resultado de uma motivação ruim, ou seja, a ação não depende da motivação de quem a pratica, afinal, uma intenção negativa pode gerar consequências úteis e benéficas a um coletivo maior. De acordo com John Stuart Mill: “O credo que aceita a Utilidade ou Princípio da Maior Felicidade como fundamento da moral, sustenta que as ações são boas na proporção com que tendem a produzir a felicidade; e más, na medida em que tendem a produzir o contrário da felicidade. Entende-se por felicidade o prazer e a ausência de dor; por infelicidade, a dor e a ausência de prazer” (MILL, 1962). Os utilitaristas entendem que o objetivo da ética é proporcionar o máximo de felicidade para o maior número de pessoas. Segundo Alencastro (2013), esse seria o princípio da “maior felicidade” ou “maior utilidade”. Neste sentido, a felicidade estaria na procura do máximo prazer e no mínimo de dor, 20 o bem está na maior felicidade ao maior número de indivíduos, e as ações positivas são aquelas que a produzem. Para Mill (1962), “A felicidade é o único fim da ação humana e sua consecução, o critério para julgar toda conduta”. NA PRÁTICA Leia o trecho a seguir, para aprofundar seus conhecimentos sobre o Islã, sua origem (a civilização que se ergueu sobre a base da fé islâmica), crenças e principais tradições. Uma parte fala sobre como esses indivíduos lidam com a influência ocidental sobre suas vidas. “[...] McDonalds no Líbano – Os extremistas, que enxergam o mundo pela oposição entre Jesus e Maomé, se ressentem da avassaladora influência ocidental sobre o planeta – nos costumes, nos hábitos de consumo, no modo de vida. Tanto que, em países dominados por radicais islâmicos, especialmente os talibãs do Afeganistão, tudo o que lembra a cultura ocidental é proibido e severamente punido. Mas, de novo, isso não é uma regra. No Irã, há grandes anúncios de produtos ocidentais pelas ruas de Teerã, existem mulheres procurando cirurgiões plásticos, num sinal de vaidade antes inadmissível, e é muito expressivo o contingente feminino que frequenta a universidade – uma raridade em algumasnações islâmicas que confinam a mulher aos limites do lar. "Há aspectos do capitalismo ocidental que são plenamente aceitos pelas populações muçulmanas", diz um diplomata brasileiro que serviu por oito anos no Líbano. "As cadeias de fast food, como o McDonald's, fazem sucesso do Marrocos ao Líbano," diz ele. [...]” “[Os extremistas] são mulçumanos que integram algumas ramificações da religião, como os do Sunitas do Afeganistão e os xiitas do Líbano, porém a maioria dos mulçumanos repudia suas ações, por exemplo, os ataques suicidas. O primeiro equívoco comum entre ocidentais e cristãos é considerar todo islâmico um extremista suicida e, por extensão, um terrorista em https://www1.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/MostraMateria.asp?page=&cod=939383 https://www1.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/MostraMateria.asp?page=&cod=939383 potencial", adverte a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo. [...]” Fonte: Veja on-line. Como a maioria condena algumas ações dos extremistas, aderir a uma cultura diferente pode ser menos complicado. Levando em consideração o que estudamos, os extremistas são éticos em suas ações? SÍNTESE Nesta aula, trabalhamos questões que dizem respeito as mudanças e evolução das teorias sobre a ética empresarial, pois é de fundamental importância conhecer e analisar algumas das diversas teorias que vêm norteando a ética no decorrer da história, com suas mudanças e evoluções conceituais. Assim, percorremos um caminho histórico e conceitual de algumas das teorias éticas mais importantes no curso da história da filosofia, assim vistas: Ética das virtudes (a.C. − Sócrates, Platão, Aristóteles etc.); Ética religiosa (Era Cristã); Ética do dever (Kant 1724-1804); Finalismo (século XV) e Utilitarismo (Bentham e Stuart Mill). Pudemos perceber que as teorias são concebidas e se desenvolvem nos mais diversos tipos de sociedade, sempre respondendo aos conflitos e aos problemas de cada época nas relações entre as pessoas em convivência dentro dela. REFERÊNCIAS ALENCASTRO, M. Ética empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. Curitiba: Intersaberes, 2013 ARISTÓTELES. Política. Trad. Mário da Gama Kury. 3. ed. Brasília: UnB, 1997. __________. Ética a Nicômaco. Trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross. São Paulo: Nova Cultural, 1996. 21 22 BETTENCOURT, P. Ética da virtude? Disponível em: <www.portalcoimbra.com/portal/o-que-e-etica-da-virtude-aristoteles> Acesso em 20/04/2016. Consciência Política. Disponível em: <http://www.portalconscienciapolitica.com.br/products/filosofia-etica-e- sociedade/> Acesso em 20/04/2016. COTRIM, G. Fundamentos de Filosofia. 15.ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2004. JAPIASSÚ, H. MARCONDES, D. Dicionário básico de Filosofia. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. KANT, I. Crítica da razão pura. 5. Edição. Tradução: SANTOS, M. P. e MORUJÃO, A. F. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Disponível em: <http://charlezine.com.br/wp-content/uploads/Cr%C3%ADtica-da- Raz%C3%A3o-Pura-Kant.pdf> Acesso em 20/04/2016. LEVENE, L. Penso, logo existo: tudo o que você precisa saber sobre Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013. MILL, J.S. On liberty. Edited with an introduction by Mary Warnock. Nova York: Meridian Book, 1974. MONDIN, B. Introdução à Filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. Tradução de J. 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Disponível em: <http://www.maxwell.vrac.puc- rio.br/3744/3744_3.PDF> Acesso em 20/04/2016. http://www.portalcoimbra.com/portal/o-que-e-etica-da-virtude-aristoteles http://www.portalconscienciapolitica.com.br/products/filosofia-etica-e-sociedade/ http://www.portalconscienciapolitica.com.br/products/filosofia-etica-e-sociedade/ http://charlezine.com.br/wp-content/uploads/Cr%C3%ADtica-da-Raz%C3%A3o-Pura-Kant.pdf http://charlezine.com.br/wp-content/uploads/Cr%C3%ADtica-da-Raz%C3%A3o-Pura-Kant.pdf http://www.portalcoimbra.com/portal/o-que-e-etica-da-virtude-aristoteles/ http://www.portalcoimbra.com/portal/o-que-e-etica-da-virtude-aristoteles/ http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/3744/3744_3.PDF http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/3744/3744_3.PDF 23 RODRIGUES, F. Ética do bem e ética do dever. Disponível em: <http://www.oquenosfazpensar.com/adm/uploads/artigo/etica_do_bem_e_etica _do_dever/fernando_rodrigues_247-265.pdf> Acesso em 20/04/2016. VALLS, A. L. M. O que é ética. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994. http://www.oquenosfazpensar.com/adm/uploads/artigo/etica_do_bem_e_etica_do_dever/fernando_rodrigues_247-265.pdf http://www.oquenosfazpensar.com/adm/uploads/artigo/etica_do_bem_e_etica_do_dever/fernando_rodrigues_247-265.pdf ÉTICA, RESPONSABILIDADE SOCIAL E AMBIENTAL AULA 1 Prof.a Olívia Resende 2 CONVERSA INICIAL Você já se perguntou como seria viver em uma sociedade na qual cada indivíduo faz o que bem entende, da maneira que pensa ser melhor para si próprio, ou faz apenas aquilo que lhe traz benefício sem pensar no outro ou nas consequências que suas atitudes trazem para a vida de outro indivíduo? Ou como seria uma sociedade em que as pessoas em suas atitudes e ações individuais pensem no coletivo, no outro, na comunidade, antes de fazer algo? Em uma sociedade com equidade e harmonia? Nesta aula, vamos discutir esses questionamentos na sociedade ao longo do tempo e o desenvolvimento de teorias que tentam contribuir para que a vida em comunidade seja boa para todos, com ética, moral e direitos de cada cidadão. Vamos começar? Bons estudos! CONTEXTUALIZANDO Para o convívio em sociedade, a Ética é um assunto importante e cada dia mais difundido e necessário. São frequentes as queixas acerca da falta de ética na sociedade, na política, nas empresas e até mesmo nos meios culturais e religiosos. Segundo Alencastro (1997), na sociedade contemporânea valorizam-se comportamentos que praticamente excluem qualquer possibilidade de cultivo de relações éticas, como o consumo. Para o autor, é fácil verificar que o desejo obsessivo na obtenção, possessão e consumo da maior quantidade possível de bens materiais é o valor central na nova ordem estabelecida no mundo e que o prestígio social é concedido para quem consegue esses bens. Na contramão de atitudes éticas que respeitem a individualidade, o companheirismo, entre outros, o sucesso material passou a ser sinônimo de sucesso social e o êxito pessoal devendo ser adquirido a qualquer custo. Prevalece o desprezo ao tradicional, o culto à massificação e mediocridade que não ameaçam e que permitem a manipulação fácil das pessoas. Por exemplo, em uma sociedade cada vez mais inserida em redes sociais através da internet, fica nítido o que o professor e autor Mário Alencastro afirmou em 1997, quando o acesso à internet estava começando no Brasil. Nessa sociedade hoje conectada, podemos perceber indivíduos 3 alienados, agressivos, que prezam o ter e muito pouco o ser, ostentando nas redes sociais, viagens, festas, coisas, fruto da busca por “curtidas”. Nesta aula, buscaremos refletir sobre a etimologia, o conceito e como se desenvolveram os estudos da ética ao longo dos tempos, apresentando os principais filósofos que se preocuparam com o assunto. Além disso, apresentaremos a sociedade contemporânea e suas transformações sob um olhar ético, analisando os atores sociais presentes, seus conflitos, interesses, valores e posicionamentos ideológicos e discutiremos os dilemas éticos. Para tanto, buscaremos responder as seguintes perguntas:O que é ética e o que é moral? O que é ser essencialmente humano? A ética faz diferença na vida dos indivíduos? Para responder a estas e outras perguntas, começaremos abordando a distinção entre ética e moral e alguns aspectos filosóficos e históricos sobre a ética. TEMA 1: ETIMOLOGIA, HISTORICIDADE E O CONCEITO DE ÉTICA O que quer dizer ética? Posso dizer que ética é igual à moral? A palavra ética pode ter duas origens distintas e são abordadas por diferentes autores. A primeira é a palavra grega “ethos”, com “e“ curto, que pode ser traduzida por “costume”. Em contrapartida, a segunda também se escreve “ethos”, porém, o “e” é longo e tem o significado de “propriedade de caráter”. As duas são importantes e contribuem para o que abordaremos nesta aula. Na Roma antiga, o termo foi traduzido do grego “ethos” para o latim “mos” (ou no plural “mores”), que expressa costume, dando origem à palavra 4 moral. A primeira que pode ser traduzida como costume, entende-se que serviu de base para a tradução latina de Moral. Já no que diz respeito à segunda, propriedade de caráter é o que de alguma forma orienta a utilização atual que tem a palavra Ética (MOORE,1975, p. 4). Percebe-se, portanto, que tanto “ethos” (caráter) quanto “mos” (costume) referem-se ao comportamento propriamente humano. Destarte, ética e moral, segundo sua etimologia e historicidade, estão relacionadas a uma realidade essencialmente humana, construída de forma social nas relações entre os seres humanos, norteando toda a vida em sociedade, desde o nascimento até a morte. “Ética é a investigação geral sobre aquilo que é bom” (MOORE, 1975). Podemos também expor a definição de Motta (1984) sobre a ética, que para o autor pode ser entendida como um bloco de valores que conduz o comportamento humano na sociedade, com fins de garantir o bem-estar geral. Segundo Cortella (2007), ética é um conjunto de valores e princípios que as pessoas usam para decidir três grandes questões importantes, que são: quero, devo e posso. Ética é o conjunto de valores apropriados para cada indivíduo, a fim de definir essas questões e os princípios da sociedade, sendo esses valores religiosos ou não, por meio de padronizações. Portanto, segundo a etimologia e historicidade das palavras ética e moral, ambas estão relacionadas a uma realidade essencialmente de percepção da conduta humana, suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal. Mas mesmo que haja uma relação entre ética e moral, essa relação não iguala as duas terminologias, sendo ética diferente de moral. A moral que aqui abordamos tem sua base na obediência a normas, mandamentos, costumes e tabus, em uma dimensão um pouco mais religiosa. E a ética busca dar fundamento ao bom modo de viver, entre humanos em sociedade. No estudo da filosofia clássica com relação à etimologia da palavra ética, vemos que essa terminologia não se resumia ao conceito de moral (entendida 5 como "costume" ou "hábito", vindo do latim “mos”, ou do plural “mores”), pois investigava a fundamentação teórica para encontrar o melhor modo de viver e conviver em sociedade, ou seja, procurava um melhor estilo de vida dentro da sociedade, tanto na vida pessoal quanto na vida pública. A filosofia moral ou a ética nasce quando, além das questões sobre os costumes, também se busca compreender o caráter de cada pessoa, isto é, o senso moral e a consciência moral individuais” (CHAUI, 2008, p.310). Assim, o estudo da ética incluía diversas disciplinas que não eram contempladas no estudo da física, da retórica, da dialética nem da estética e da lógica. Portanto, a ética ganhava abrangência nos mais diversos campos filosóficos, os quais hoje conhecemos como: psicologia, pedagogia, antropologia, sociologia, entre outros. São áreas que estão direta ou indiretamente ligadas à nossa maneira de viver e ao nosso estilo de vida. Devemos ter cuidado para não confundir ética com lei, mesmo que, geralmente, a lei encontre na ética suas bases e seus princípios. Com a moral e a ética instaurou-se também o direito, que são as regras obrigatórias de determinada sociedade. Para entendermos melhor, vamos analisar as relações entre a Ética, a Moral e o Direito, determinando a ação do indivíduo. Figura 1 – Relações entre a Ética, a Moral e o Direito Fonte: Adaptado do site da UFRGS. Disponível em <http://www.ufrgs.br/bioetica/fundamen.htm> Acesso em 13/04/2016. ÉTICA MORAL DIREITO AÇÃO JUSTIFICATIVA NORMA POR ADESÃO REGRA OBRIGATÓRIA http://www.ufrgs.br/bioetica/fundamen.htm 6 Pense por um momento no local onde você trabalha: alguém fundou essa empresa (e esse alguém pode ter sido você mesmo, caso seja autônomo ou empresário), que hoje atende uma série de clientes, lida com diversos fornecedores e consegue gerar receita. Essa receita paga salários que serão usados para comprar outras coisas e pagar por outras contas, gerando receita também para outras pessoas. Assim, no local em que você trabalha, existe a preocupação ética de todos os envolvidos no processo? Ou seja, o que justifica a ação? Ou apenas a preocupação moral, por adesão? Ou apenas se cumprem as leis do direito, as regras obrigatórias? Tanto a ética e a moral quanto o direito estão intimamente ligados à ação do indivíduo. Adiante, entenderemos um pouco mais das caraterísticas e focos da ação ética. Leitura obrigatória Para aprofundar seus estudos, faça a leitura indicada a seguir: SILVA, R. N. da. Ética e paradigmas: desafios da psicologia social contemporânea. In: PLONER, KS. et al., org. Ética e paradigmas na psicologia social. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2008. pp. 39 a 45. TEMA 2: ASPECTOS FILOSÓFICOS E HISTÓRICOS SOBRE A ÉTICA Dentro dos aspectos filosóficos e históricos sobre a ética, podemos entender que surgem teorias éticas em diferentes sociedades como resposta aos dilemas das relações entre as pessoas. Segundo Mário Alencastro (2013), na condição de indivíduos, os humanos realizam sua existência na convivência com os outros, pois, já ao nascerem encontram-se sempre diante de uma comunidade já constituída, e para seu desenvolvimento não podem dispensar o apoio dessa comunidade (ALENCASTRO, 2013, p. 29). https://www.youtube.com/watch?v=9r996PBbbpI 7 Assim, o estudo da ética não é novo, sua historicidade é marcada por fatores importantes, através dos quais se percebem diversas condições morais em inúmeros dados do passado, com forte apelo na contemporaneidade. Alencastro (2013) afirma que, já na Grécia Clássica, Sócrates (470-399 a.C.) afirmava que a pergunta “como devemos viver nossas vidas?” era a principal questão a ser respondida pela filosofia. Assim, um dos pontos fundamentais da historicidade da ética está na Grécia Antiga, com as teorias dos séculos IV e V a.C. Continue a leitura para saber mais sobre elas! Pólis, cidade-estado A pólis foi uma importante forma de organização, conhecida como cidade-estado, e que motivou entre os gregos a formação de experiências políticas e sociais das mais diversas. O surgimento da pólis marca um dos mais importantes aspectos do desenvolvimento da civilização grega. Nas pólis, os cidadãos viviam e participavam de forma ativa na vida das pessoas, dando início a uma dimensão mais clara de sociedade, que seria a base da civilização ocidental, sendo um modelo das antigas cidades gregas. Marcou o início da organização política, desde o período arcaico até o período clássico. O que significava naquela época, para o grego, viver em uma pólis? Segundo Moraes (2012), significava poder conviver com os outros da maneira mais livre possível. O cidadão grego que vivia na pólis não deveria se ocupar com a sua sobrevivência. Por outro lado, viver em uma pólis significava, positivamente, viver entre iguais. Issoindica que ninguém estava obrigado a prestar reverência a ninguém, que ninguém necessita colocar-se a serviço de ninguém, a não ser em época de guerra. Isso fazia com que todos os assuntos fossem tratados por meio do diálogo e da persuasão. Essas duas condições são até hoje dificílimas de serem satisfeitas em qualquer época histórica. Os sofistas Foram os sofistas que quebraram com a tradição pré-socrática dos filósofos da natureza e iniciam ataques e críticas aos costumes e tradições até então praticados na sociedade ateniense. Para eles, o ser humano não deve se moldar a padrões externos de beleza, de comportamento, de crenças. O 8 homem só deve se moldar a sua própria personalidade, ou seja, a sua liberdade. Para os sofistas, a moral e a lei somente serviam para bloquear o livre desenvolvimento do homem. Os sofistas foram os primeiros a defender a filosofia do relativismo, negando a existência da verdade absoluta. Além disso, também criticavam tudo aquilo que não era natural ao ser humano. Para eles, a existência das leis e do Estado eram algo completamente antinatural ao homem e, portanto, deveria ser destruído. Para os sofistas, o que existe são opiniões boas e más, melhores e piores, mas jamais falsas e verdadeiras. Assim, a ética também não é absoluta e, sim, relativa, segundo a qual, o valor mais elevado para qualquer cidadão era atingir o prazer supremo. Os sofistas consideravam que a ética não passava de mera convenção social. Sócrates Sócrates é considerado o “pai da ética”, pois revelou uma necessidade de se refletir, de forma sistemática, sobre conceitos que antes eram dados de forma automática, como o bem, a virtude a justiça. Para Sócrates, a identidade entre os interesses individuais e os comunitários era o caminho para a felicidade. Defendia a moderação dos apetites, a busca pelo conhecimento e a bondade como um dom que merecia ser valorizado. Sócrates trouxe à tona os ideais de uma cidade que fosse moralmente perfeita. Isso incluía harmonia entre os diversos interesses, tanto individuais quanto coletivos. Assim, entendia que os princípios éticos que deveriam reger as instituições eram aqueles que continham elevados valores de cidadania. Os sofistas defendiam o relativismo, Sócrates, ao contrário, defendia a ideia de valores eternos. Suas pesquisas iniciais giraram em torno do núcleo da alma humana. Para ele, todas as pessoas tinham a obrigação de procurar o conhecimento, pois dotadas de conhecimento acerca do bem e do mal, buscam fazer o bem, sendo justas umas com as outras e vivendo em sociedades regidas pelos valores éticos. Platão Platão foi adepto de Sócrates e mestre de Aristóteles, sendo um dos principais filósofos gregos da Antiguidade. Defendia o bem como valor supremo 9 e afirmava que as pessoas deveriam ir em busca da razão, desprezando seus instintos e paixões. Em uma época de mudanças, entre os valores antigos e um novo mundo que emergia, Platão conseguiu absorver e gerar uma riqueza de ideias sem igual. Abordava os mais diversos temas, com a força da paixão e da criatividade artística sem levar muito em conta a lucidez da razão. Para o filósofo, a sociedade então vigente deveria ser reorganizada e o poder confiado aos sábios, evitando, portanto, que a ignorância prevalecesse e corrompesse as almas, sendo assim dominadas pelos instintos e paixões. Aristóteles Na medida em que seu mestre Platão trabalhava com construções sociais imaginárias, utópicas, por projeções sobre qual o melhor futuro para a humanidade, Aristóteles tratou das coisas reais, dos sistemas políticos existentes na sua época. Assim, os revolucionários e doutrinários da sociedade perfeita foram inspirados por Platão, já os grandes juristas e pensadores políticos, mais inclinados à ciência e ao realismo, foram influenciados por Aristóteles. Como Platão, Aristóteles apresentou a necessidade de “reorganizar a sociedade”. Deste modo, a ética e a política caminhariam sempre juntas. Para Aristóteles, o homem tem por finalidade a busca pela felicidade e apresentou a questão do valor supremo da felicidade. Para tal, o indivíduo deveria seguir sua própria natureza, evitando os exageros, caminhando pela justa medida, uma vez que nenhuma pessoa consegue ser feliz sozinha. Leitura obrigatória Continue ampliando seus conhecimentos com a leitura do capítulo 1 do nosso livro base: “Ética Empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa”. Esse capítulo também servirá de base para os estudos dos outros temas desta aula. 10 Saiba mais Entenda um pouco mais dos aspectos filosóficos e históricos sobre a ética com os vídeos a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=809bdDKp1BA https://www.youtube.com/watch?v=tL36cKPQzsw https://www.youtube.com/watch?v=kkHJce9-oLE TEMA 3: ÉTICA E MORAL SOCIAL, ÉTICA E VALORES HUMANOS Iniciaremos este tema expondo a anedota que a professora Andréa Vieira Zanella escreveu em seu artigo intitulado Reflexões sobre a pesquisa em psicologia, método(s) e “alguma” ética. A professora expõe a seguinte pergunta: “por que o frango cruzou a estrada?” e nos apresenta respostas, advindas de interlocutores variados espacialmente e temporalmente. Para Zanella (2008), assim respondem: ■ Professora primária: “Porque queria chegar do outro lado da estrada”. ■ Poliana: “Porque estava feliz”. ■ Platão: "Porque buscava alcançar o bem”. ■ Aristóteles: “É da natureza dos frangos cruzar a estrada”. ■ Nelson Rodrigues: “Porque viu sua cunhada, uma galinha sedutora, do outro lado”. ■ Marx: “O atual estágio das forças produtivas exigia uma nova classe de frangos, capazes de cruzarem a estrada”. ■ Moisés: “Uma voz vinda do céu bradou ao frango: “Cruza a estrada!” E o frango cruzou a estrada e todos se regozijaram”. ■ Maquiavel: “O frango cruzou a estrada. A quem importa o porquê? Estabelecido o fim de cruzar a estrada, é irrelevante discutir os meios que usou para isso”. ■ Darwin: “Ao longo de grandes períodos de tempo, os frangos têm sido selecionados naturalmente, de modo que, agora, têm uma predisposição genética a cruzarem estradas”. https://www.youtube.com/watch?v=809bdDKp1BA https://www.youtube.com/watch?v=tL36cKPQzsw https://www.youtube.com/watch?v=kkHJce9-oLE 11 ■ Einstein: “Se o frango cruzou a estrada ou a estrada se moveu sob o frango, depende do ponto de vista. Tudo é relativo”. ■ Kant: “O frango seguiu apenas o imperativo categórico próprio dos frangos. É uma questão de razão prática”. ■ ACM: “Estava tentando fugir, mas já tenho um dossiê pronto, comprovando que aquele frango pertence a Jorge Amado. Quem o pegar vai ter que se ver comigo!”. ■ Sócrates: “Tudo o que sei é que nada sei”. ■ Dorival Caymmi: “Eu acho (pausa)... — Amália, vai lá ver pra onde vai esse frango pra mim, minha filha, que o moço aqui tá querendo saber”. Nesta anedota que a Professora Andréa escreveu, fica claro que diante de uma ação, pessoas em diferentes lugares e tempos, pensam diferente. Assim como vimos, questões éticas são discutidas a séculos e hoje a discussão ainda é forte. Com acesso à internet e mídias sociais, os indivíduos julgam as situações conforme o que acreditam, dentro do que lhes é colocado em distintas situações. Cabem aqui algumas perguntas: Nos dias atuais, fala-se muito em ética. Você sabe por quê? Há distinção entre ética e moral? A ética e/ou moral afetam nosso cotidiano? Pode-se entender a ética como uma reflexão sobre o agir humano e abarca a moral, pois lhe é mais ampla. A ética existe como referência para os indivíduos que vivem em uma determinada sociedade, possibilitando que a sociedade possa se tornar cada vez mais humana. Assim, o indivíduo deve possuir um senso ético, pois como humanos, vivemos em comunidade e somos continuamente avaliados e julgados por nós mesmos epelos outros, a fim de identificar em nossas ações atitudes boas ou más, certas ou erradas, justas ou injustas. A moral é a regulação dos valores e comportamentos considerados legítimos por uma determinada sociedade, um povo, uma religião, tradição cultural etc. Estabelece os valores efetivos a serem seguidos por determinada 12 sociedade. É, portanto, provisória, muda com o passar do tempo, pois os costumes e hábitos de um povo mudam também (SIMON, 2009). As relações dos indivíduos na sociedade, são reguladas por um conjunto de normas, leis, costumes e hábitos. Mas o que é esse conjunto de normas, leis, costumes e hábitos? Podemos afirmar que esse conjunto de regras é a moral. As sociedades mudam constantemente e, historicamente, podemos observar que uma sociedade sucede a outra. Da mesma maneira, as morais concretas de uma sociedade, se sucedem umas às outras. Por exemplo, na sociedade feudal, que tinha como perspectiva de horizonte ético a salvação da alma e a preparação para a vida eterna e cujas explicações baseavam-se na religião e na fé, cede lugar à sociedade moderno-burguesa, cujos valores fundamentais são ligados a questões materiais e cujas explicações têm como fundamento o próprio homem, concebido como ser dotado de racionalidade, e capaz de autodeterminar-se sem interferência externa. A moral pode variar em determinado tempo e lugar. As regras morais são determinadas pelas formas como as pessoas organizam sua convivência e conforme estabelecem as condições de sobrevivência e trabalho. As normas morais podem estar estabelecidas de forma escrita, ou podem aparecer como costumes arraigados na cultura, por exemplo, as decisões de um indivíduo baseando-se única e exclusivamente em normas preestabelecidas, tais como não ultrapassar o sinal vermelho, não se atrasar em seus compromissos, não furar fila, não estacionar na vaga preferencial. São tidas como uma decisão ou ato moral, que geralmente são os deveres que o sujeito deve cumprir em seu dia a dia. De acordo com Vasquez (2000): “A função social da moral é a de regular as ações dos indivíduos nas suas relações mútuas, ou as do indivíduo com a comunidade, visando a preservar a sociedade no seu conjunto ou, no seio dela, a integridade de um grupo social”. Cada indivíduo, comportando-se moralmente, se sujeita a determinados princípios, valores ou normas morais, sendo que o indivíduo não pode inventar os princípios ou normas nem modificá-los por exigência pessoal. O normativo é algo estabelecido e aceito por determinado meio social. Na sujeição do 13 indivíduo a normas estabelecidas pela comunidade se manifesta claramente o caráter social da moral (VASQUEZ, 2000). O comportamento moral é tanto comportamento de indivíduos quanto de grupos sociais humanos. Mesmo quando se trata da conduta de um indivíduo, a conduta tem consequências de uma ou outra maneira para os demais, sendo objeto de sua aprovação ou reprovação. Mas, os atos individuais que não têm consequência alguma para os demais indivíduos não podem ser objeto de uma qualificação moral. O campo da ética é um pouco mais amplo do que isso. A ética procura estabelecer uma reflexão sobre o agir humano que ultrapassa o simples cumprimento do que está escrito. Saiba mais Leia a notícia a seguir sobre os atentados que ocorreram em Paris em novembro de 2015, e tente relacionar com os conteúdos lidos até agora. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1706236-policia-francesa- registra-tiroteio-e-explosao-em-paris.shtml TEMA 4: ÉTICA, MORAL, DIREITO E SEUS DILEMAS Atuamos em sociedade conduzidos por uma reflexão sobre o que é certo ou errado, ou sob algo que nos obriga constantemente a agir corretamente e que nos pune em caso de deslizes? Em outras palavras, é a ética ou a lei que orientam as nossas ações corretas? (ALENCASTRO, 2013, p.45) Antes de respondermos a estes questionamentos, precisamos entender alguns conceitos. São nas relações sociais que ideias e normas se desenvolvem em sintonia com uma necessidade social. Para Vasques, a função social da moral consiste na regulação das relações entre os homens visando manter e garantir uma determinada ordem social, ou seja, regular as ações dos indivíduos nas suas ações mútuas ou as do indivíduo com a comunidade, visando preservar a sociedade no seu conjunto e a integridade de um grupo social. Segundo Oliveira e Azevedo, os valores morais são aqueles ligados à natureza do comportamento moral dos homens. Um comportamento http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1706236-policia-francesa-registra-tiroteio-e-explosao-em-paris.shtml http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1706236-policia-francesa-registra-tiroteio-e-explosao-em-paris.shtml 14 moralmente aceitável é definido por um código de conduta de grupo. Esse código muitas vezes está implicitamente gravado na memória coletiva em função da cultura, do meio e da história de um povo. Outras vezes, esse código de comportamento está também estabelecido nas leis de uma nação. Kohlberg (1969) acredita que o desenvolvimento moral é baseado primariamente num raciocínio moral e segue uma série de estágios. Já o direito garante o cumprimento do estatuto social em vigor através da aceitação voluntária ou involuntária da ordem social juridicamente formulada, ou seja, o direito garante a aceitação externa da ordem social. A moral tende a fazer com que os indivíduos harmonizem voluntariamente, de maneira consciente e livre, seus interesses pessoais com os interesses coletivos (VÁSQUEZ, p.69, 2000). No que se refere à ética, esta tem um caráter mais generalizado do que a moral e o direito, sendo empregada para justificar e legitimar as normas morais e jurídicas, bem como criticá-las em caso de não estarem adequadas às reais necessidades da sociedade. Sendo assim, ela sempre indaga sobre o que é o certo, o bom e o obrigatório, preocupando-se em desenvolver e fundamentar tais conceitos, tomando-os como princípio geral, retirando ao assim proceder os juízos normativos. Figura 2– Nível do plano normativo Podemos entender de maneira mais simples, fazendo uma analogia com círculos concêntricos, conforme mostra o professor Mário Alencastro. Por exemplo, a discussão sobre a idade penal e a corrupção que são assuntos de Direito Moral Ética 15 natureza ética mais abrangente, mas que têm implicações no campo da moral e do direito. O que podemos perceber é que com o avanço da liberdade individual e das conquistas do homem, há, hoje, uma geração muito preocupada com os seus direitos em detrimento dos seus deveres. Os valores individuais são importantes para que o indivíduo adote uma postura, e entende-se que valores são um conjunto de procedimentos, atitudes, e até mesmo visão de mundo (influenciados ou não pela cultura, herança familiar e meio) que faz o indivíduo agir e interagir com o mundo em que vive. Araújo (2002) define valores como sendo as qualidades presentes nas coisas e que pode ser essencial para a existência dessas coisas. Podem ser acidentais, secundárias e muitas vezes as próprias coisas em si. São valores, uma vez que são essenciais para a existência, não só do homem, mas para a existência do universo. Assim, os valores éticos são determinantes para as atitudes humanas, cabendo ao direito a ação sobre atitudes que não condizem com o que a sociedade necessita. Saiba mais Entenda um pouco mais dos conceitos de ética, moral e direito num exemplo aplicado à administração pública. Assista ao vídeo a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=NVdgp7XZl2w TEMA 5: A VERDADE, A RESPONSABILIDADE, A LIBERDADE E OS VALORES ÉTICOS O filósofo contemporâneo espanhol Fernando Savater expõe em seu livro intitulado Ética para meu filho, a seguinte questão: o que é ética? Aqui, vamos trabalhar sobrea verdade, a responsabilidade, a liberdade e os valores éticos de uma forma gostosa na leitura de um breve trecho da resposta do autor para seu filho adolescente. “Há ciências que estudamos por simples interesse de saber coisas novas; outras, para adquirir uma habilidade que nos permita fazer ou utilizar alguma coisa; a maioria, para conseguir um trabalho e ganhar a vida com ele. https://www.youtube.com/watch?v=NVdgp7XZl2w 16 Se não sentirmos curiosidade nem necessidade de realizar esses estudos, poderemos prescindir deles tranquilamente. Há uma infinidade de conhecimentos muito interessantes, mas sem os quais podemos nos arranjar muito bem para viver. Eu, por exemplo, lamento muito não ter nem ideia de astrofísica ou de marcenaria, que dão tanta satisfação a outras pessoas, embora essa ignorância nunca me tenha impedido de ir sobrevivendo até hoje. E você, se não me engano, conhece as regras do futebol, mas é bem fraco em beisebol. Não tem maior importância, você desfruta os campeonatos mundiais, dispensa olimpicamente a liga americana e todo o mundo sai satisfeito. O que eu quero dizer é que certas coisas, podem ser apreendidas ou não, conforme a vontade da pessoa. Como ninguém é capaz de saber tudo, o remédio é escolher e aceitar com humildade o muito que ignoramos. É possível viver sem saber astrofísica, marcenaria, futebol e até mesmo sem saber ler e escrever: vive-se pior, decerto, mas vive-se. No entanto, há outras coisas que é preciso saber porque, por assim dizer, são fundamentais para nossa vida. É preciso saber, por exemplo, que saltar de uma varanda do sexto andar não é bom para a saúde; ou que uma dieta de pregos (perdoem-me os faquires!) e ácido prússico não nos permitirá chegar à velhice. Também não é aconselhável ignorar que, se dermos um safanão no vizinho cada vez que cruzarmos com ele, mais cedo ou mais tarde haverá consequências muito desagradáveis. Pequenezas desse tipo são importantes. Podemos viver de muitos modos, mas há modos que não nos deixam viver. Em resumo, entre todos os saberes possíveis existe pelo menos um imprescindível: o de que certas coisas nos convêm e outras não. Certos alimentos não nos convêm, assim como certos comportamentos e certas atitudes. Quero dizer, é claro, que não nos convêm se desejamos continuar vivendo. Se alguém quiser arrebentar-se o quanto antes, beber lixívia poderá ser muito adequado, ou também cercar-se do maior número possível de inimigos. Mas, de momento, vamos supor que preferimos viver, deixando de lado, por enquanto, os respeitáveis gostos do suicida. Assim, há coisas que nos convêm, e o que nos convém costumamos dizer que é “bom”, pois nos cai bem; outras, em compensação, não nos convêm, caem-nos muito mal, e o que não nos convém dizemos que é “mau”. Saber o que nos convém, ou seja, distinguir entre o bom e o mau, é um conhecimento que todos nós tentamos adquirir – todos, sem exceção – pela compensação que nos traz. 17 Como afirmei antes, há coisas boas e más para a saúde: é necessário saber o que devemos comer, ou que o fogo às vezes aquece e outras vezes queima, ou ainda que a água pode matar a sede e também nos afogar. No entanto, às vezes as coisas não são tão simples: certas drogas, por exemplo, aumentam nossa energia ou produzem sensações agradáveis, mas seu abuso contínuo pode ser nocivo. Em alguns aspectos são boas, mas em outros são más: elas nos convêm e ao mesmo tempo não nos convêm. No terreno das relações humanas, essas ambiguidades ocorrem com maior frequência ainda. A mentira é, em geral, algo mau, porque destrói a confiança na palavra – e todos nós precisamos falar para viver em sociedade – e provoca inimizade entre as pessoas; mas às vezes pode parecer útil ou benéfico mentir para obter alguma vantagem, ou até para fazer um favor a alguém. Por exemplo, é melhor dizer ao doente de câncer incurável a verdade sobre seu estado, ou deve-se enganá-lo para que ele viva suas últimas horas sem angústia? A mentira não nos convém, é má, mas às vezes parece acabar sendo boa. Procurar briga com os outros, como já dissemos, em geral é inconveniente, mas devemos consentir que violentem uma garota diante de nós sem interferir, sob pretexto de não nos metermos em confusão? Por outro lado, quem sempre diz a verdade – doa a quem doer – costuma colher a antipatia de todo o mundo; e quem interfere ao estilo Indiana Jones para salvar a garota agredida tem maior probabilidade de arrebentar a cabeça do que quem segue para casa assobiando. O que é mau às vezes parece ser mais ou menos bom e o que é bom tem, em certas ocasiões, aparência de mau. Haja confusão! [...] Resumindo: ao contrário de outros seres, animados ou inanimados, nós homens podemos inventar e escolher, em parte, nossa forma de vida. Podemos optar pelo que nos parece bom, ou seja, conveniente para nós, em oposição ao que nos parece mau e inconveniente. Como podemos inventar e escolher, podemos nos enganar, o que não acontece com os castores, as abelhas e as formigas. De modo que parece prudente atentarmos bem para o que fazemos, procurando adquirir um certo saber-viver que nos permita acertar. Esse saber-viver, ou arte de viver, se você preferir, é o que se chama de ética.” Assim, podemos perceber que quando se fala em comportamento humano, no que diz respeito às escolhas a serem feitas entre o bem e o mal, o certo e o errado, o permitido e o proibido, há o envolvimento de questões 18 éticas, morais e de direitos que devemos nos atentar, fazendo com que a verdade, a responsabilidade a liberdade e os valores, sejam cerceados pelos três conceitos. Saiba mais Para complementar seus estudos, leia o artigo A liberdade em Jean- Paul Sartre: responsabilidade, angústia e má-fé, disponível a seguir: https://colunastortas.wordpress.com/2015/08/20/a-liberdade-em-jean- paul-sartre-responsabilidade-angustia-e-ma-fe/ TROCANDO IDEIAS Muito bem! Chegou o momento de trocar ideias com seus colegas de turma no fórum desta disciplina. Para a discussão de hoje, acesse o Ambiente Virtual de Aprendizagem e responda as seguintes questões, retiradas do livro de Alencastro: 1. Os grupamentos humanos têm mesmo a necessidade de adotarem regras de conduta para poderem sobreviver? 2. Há mesmo lugar para a ética nas atividades práticas cotidianas? Há espaço para a ética, por exemplo, no mundo dos negócios? https://colunastortas.wordpress.com/2015/08/20/a-liberdade-em-jean-paul-sartre-responsabilidade-angustia-e-ma-fe/ https://colunastortas.wordpress.com/2015/08/20/a-liberdade-em-jean-paul-sartre-responsabilidade-angustia-e-ma-fe/ http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/cunha-aceita-pedido-de-impeachment-contra-dilma http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/cunha-aceita-pedido-de-impeachment-contra-dilma 20 SÍNTESE Estudamos neste material didático alguns aspectos da ética, da moral e do direito. Entende-se que a convivência em sociedade deve ocorrer em ordem. Para tanto, devem existir regras, leis e normas que regulem o relacionamento humano e sirva de orientação quanto ao que é certo ou errado, justo ou injusto, lícito ou ilícito, permitido ou proibido. Vários filósofos se preocuparam com a Ética, tendo sido Sócrates o que deu início a uma reflexão sistemática da virtude e da justiça. Fechamos com o filósofo contemporâneo Fernando Savater, que aborda a verdade, a liberdade e os valores éticos com uma resposta para seu filho adolescente. REFERÊNCIAS ALENCASTRO, M. A importância da Ética. UNESP, 1997. Disponível em: <http://www.feis.unesp.br/Home/departamentos/fitotecniatecnologiadealimentos esocioeconomia716/antoniolazarosantana/a-importancia-da-etica-soc-e- etica--2014.pdf> Acesso em 03/12/2015. __________. Ética Empresarial na prática: liderança, gestão e responsabilidade corporativa. Curitiba: Intersaberes, 2013. BITTAR, C.E.B.; ALMEIDA, G.A. Curso de Filosofiado Direito. 8ª ed. rev. aum. São Paulo: Atlas, 2010. CHAUI, M. Convite à filosofia. 13ª ed. São Paulo: Ática, 2008. CORTELLA, M. S. Qual é a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. Petrópolis: Vozes, 2007. ÉTICA EMPRESARIAL. 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