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ÉTICA E SUSTENTABILIDADE NA ERA DIGITAL AULA 2 Prof.ª Giselle Aparecida Piragis Zogaib 2 CONVERSA INICIAL A evolução das tecnologias caminha junto com o desenvolvimento da humanidade. No início, o martelo de pedra lascada; hoje, o universo digital nos ajuda a viver melhor. Antes, buscávamos apenas meios que garantissem nossa sobrevivência; hoje, percebemos que também podemos ter algo além do que viver para não morrer. Experimentamos o conforto que as descobertas, os inventos humanos, podem oferecer, e gostamos. Gostamos tanto que aprendemos o que é consumismo. Desenvolvemos mercados, aperfeiçoamos técnicas de trocas, instituímos novos meios para medir como faríamos essas trocas – a moeda. Descobrimos a miséria e a desigualdade social, o uso indiscriminado dos recursos naturais, colocamos em risco o planeta e começamos a discutir o assunto, definimos conceitos e novas estratégias de produção para não deixarmos de ter conforto. Estamos reaprendendo a consumir, a pensar as nossas necessidades de um modo um pouco mais primitivo para garantir que a humanidade sobreviva aos próximos séculos com as descobertas que já fizemos; para que com as novas tecnologias os novos homens possam alcançar mais longe, outros universos, em que não precisem perder tempo reparando nossos erros ou aprendendo a lidar com eles. Nosso objetivo nesta aula é identificar como as novas tecnologias têm contribuído para o alcance do desenvolvimento sustentável no Brasil e o no mundo, durante a evolução desse conceito na história. Para que possamos iniciar nossos debates, falaremos de desenvolvimento sustentável. No primeiro tema, estudaremos os conceitos de crescimento, desenvolvimento e sustentabilidade. No segundo tema, faremos uma breve recapitulação da história desse conceito, e de como chegamos a essa definição. Para compreender a diferença entre conservar, preservar e inovar, destinamos o terceiro tema. No quarto tema, falaremos sobre a sustentabilidade sob o olhar do consumo e do marketing, com uma breve explicação sobre as normas elaboradas pelas ISO 26000 e ISO 14000, que foram instituídas de forma internacional para incentivar o comércio de produtos e serviços mais consciente quanto à responsabilidade social e ao meio ambiente. No quinto tema, veremos como interage com as novas tecnologias. 3 CONTEXTUALIZANDO Em se tratando de uma sociedade de massa, de um modo geral, consumimos informação em um formato padronizado, preestabelecido e que nos orienta para um padrão cultural. Mas essa realidade tem mudado com as novas gerações e com o modo como elas consomem informação. Não ficam satisfeitas com senso comum, sentem constante necessidade de contestar, contrariar, transgredir, não mais como as gerações passadas que faziam mais pela provocação do que pela descoberta. E, por razão dessa inquietude, mudamos nosso modo de inovar e pensar o crescimento. Continuamos precisando curar doenças, salvar o planeta da destruição ambiental, acabar com a fome e com a seca, identificar formas de baixar custos de produção na indústria, definir novas estratégias de mercado, mas, agora, somos provocados a fazer isso de outra forma, mais rápida, mais precisa e mais interativa. Assim, as novas tecnologias têm se apresentado como o caminho dourado1 para o desenvolvimento sustentável da humanidade. Mas de que modo? Quais são os obstáculos desse caminho? Será mesmo que o uso das novas tecnologias tem atuado no alcance do desenvolvimento sustentável ou tem atrapalhado? TEMA 1 – CRESCIMENTO, DESENVOLVIMENTO E SUSTENTABILIDADE Entender a função da sustentabilidade não é coisa simples, porque ela reúne uma gama de informações e detalhes que envolvem processos de contínua elevação do bem-estar comum traduzido em: maior liberdade política, maior participação econômica e melhor qualidade de vida. Na medida em que o esforço educacional transforma quantitativamente os cidadãos e a sociedade gerando estabilidade política, equilíbrio econômico, ganhos de produtividade no uso da terra, do capital e do trabalho, o país ingressa em um processo de desenvolvimento. Uma maneira mais fácil de entender o que é sustentabilidade nos transfere para os conhecimentos básicos conceituais sobre a diferença entre desenvolvimento, crescimento e sustentabilidade. 1 Referência ao filme O mágico de Oz (1939). 4 Crédito: KEEP SMILING/Shutterstock. 1.1 Desenvolvimento Em sentido amplo, desenvolvimento é a conquista continuada de bem- estar – meta principal de qualquer governo – e, portanto, de uma política econômica que busca a realização dos anseios comuns da sociedade, tais como: viver mais e com saúde, segurança, alimentação, habitação, desenvolvimento pessoal e desfrutar das liberdades fundamentais de pensar, opinar, ir e vir – princípios básicos da democracia. É evidente que desenvolvimento é um processo em que essas conquistas ocorrem de forma progressiva, envolvendo não apenas a questão econômica dos indivíduos, mas também as questões políticas, religiosas, biológicas, ambientais e culturais. Se o desenvolvimento econômico aumenta a vulnerabilidade às crises, ele é insustentável. [...] Mas pode-se reduzir a vulnerabilidade usando tecnologias que diminuam os riscos de produção, dando preferência a opções institucionais que reduzam as flutuações do mercado e acumulando reservas, sobretudo de alimentos e divisas. O desenvolvimento que aliar crescimento e menor vulnerabilidade será mais sustentável que o que não o fizer. Mas não basta ampliar a gama das variáveis econômicas a serem consideradas. Para haver sustentabilidade, é preciso uma visão das necessidades e do bem- estar humano que incorpora variáveis não-econômicas (CMMAD, 1991, p. 57). Portanto, é algo bem mais complexo e amplo do que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de uma nação. É um conceito qualitativo, somente atingido no médio e no longo prazo. Não existe um alvo numérico a ser 5 encontrado, mas uma posição comparativa com outros países a ser melhorada. É uma dinâmica estrutural. É preciso acompanhar um elenco de indicadores de desenvolvimento para averiguar seu comportamento dentro de uma série histórica e comparar esse desempenho ao dos demais países. O desenvolvimento depende de programação econômica, resultado de planejamento político e distributivo da renda, dos interesses da nação e de critérios cuja premissa central se forma sobre a necessidade de alcançar níveis mais altos de capacidade produtiva. Afinal, quais são esses critérios? “Em seu conjunto os critérios e pressupostos apresentados constitui elementos para uma concepção de desenvolvimento ao mesmo tempo, “estrutural” e centralizada em valores também compatível com diversas combinações de meios e fins” (Wolf, 1976, p. 52). Podem ser citados nos seguintes itens: acumulação, industrialização, modernização agrícola, padronização da demanda dos consumidores, capacidade empresarial, difusão tecnológica e científica, educação universal, provisão de recursos sociais e de previdência social, participação crescente no comercio mundial, aumento dos fluxos financeiros líquidos dos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Para mudar a qualidade do crescimento é necessário mudar nosso enfoque do esforço desenvolvimentista, de modo a levar em conta todos os seus efeitos. Por exemplo, um projeto hidrelétrico não pode ser encarado simplesmente como um modo de produzir mais eletricidade; seus efeitos sobre o meio ambiente e sobre o meio de vida da comunidade local devem constar de todos os balanços. Assim, abandonar o projeto de uma hidrelétrica porque prejudicam um sistema ecológico raro pode ser uma medida a favor do progresso e não um retrocesso no desenvolvimento (CMMAD, 1991,37 HAYDÉE, L. 7 Cidades que despoluíram seus rios e podem nos inspirar. Exame, 13 set. 2016. Disponível em: . Acesso em: 5 dez. 2019. A HISTÓRIA da Nespresso. Global Mentoring Group, 8 maio 2018. Disponível em: . Acesso em: 5 dez. 2019.INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Disponível em: . Acesso em: 6 dez. 2019. THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE. Dubai já descobre o lado menos fascinante do crescimento. Veja, 30 out. 2010. Disponível em: . Acessado em: out. 2019. MEADOWS, D. et al. Os limites do crescimento. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1978. MICROSOFT quer usar conhecimento em IA para analisar mudanças climáticas. Época Negócios, 16 abr. 2019. Disponível em: . Acesso em: 5 dez. 2019. PARQUE DAS AVES. Disponível em: . Acesso em: 6 dez. 2019. PESQUISAS apresentam soluções para o aproveitamento de rejeitos de mineração. SIMI, 6 fev. 2019. Disponível em: . Acessado em: set/2019. PROJETO TAMAR. Disponível em: . Acesso em: 6 dez. 2019. O QUE é transformação digital? TD, S.d. Disponível em: . Acesso em: 5 dez. 2019. SILVA, M. G.; ARAÚJO, N. M. S.; SANTOS, J. S. “Consumo Consciente”: o ecocapitalismo como ideologia. Revista Katálysis, Florianópolis, v. 15, n. 1, p. 95-111, jan./jun. 2012. 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Vale considerar que essas metas requerem um conhecimento prático de princípios básicos de tecnologia inovadora relativo ao nível tecnológico da indústria, da agricultura, da construção e demais atividades de diferentes níveis e tipos de especialidades com base em suposições realistas e relativas à evolução futura dos sistemas educacionais. Crédito: TMLsPhotoG/Shutterstock. 7 1.2 Crescimento O crescimento tem por meta estimular o processo produtivo das economias, e isso implica um conceito quantitativo medindo a capacidade do Produto Interno Bruto (PIB) de uma nação, estabelecido em modelos e projetos que implicam a expansão dos bens de consumo em escala capaz de atender às necessidades da produção interna e externa do país nas relações de mercado. Obedece a uma ordem conjuntural de curto prazo. O objetivo do crescimento econômico traz, frequentemente, consequências ambientais não desejadas como reflexo das atividades econômicas e dos custos ecológicos, que são cálculos derivados das ações práticas para produzir os bens de que a sociedade necessita. O Crescimento não estabelece um limite preciso a partir do qual o tamanho da população ou o uso dos recursos podem levar a uma catástrofe ecológica. Os limites diferem para o uso de energia, de matéria-prima, de água e de terra. Muitos deles se imporão por si mesmos mediante a elevação de custos e diminuição de retornos, e não mediante uma perda súbita de alguma base de recursos. O conhecimento acumulado e o desenvolvimento tecnológico podem aumentar a capacidade de produção da base de recursos. Mas há limites externos, e para haver sustentabilidade é preciso que, bem antes de esses limites serem atingidos, o mundo garanta acesso equitativo ao recurso ameaçado e reoriente os esforços tecnológicos no sentido de aliviar a pressão (CMMAD, 1991, p. 48). 8 Crédito: Potapov Alexander / Shutterstock Caso: Na tarde de 5 de novembro de 2015, o rompimento de uma barragem da mineradora Samarco (controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton) varreu do mapa o distrito de Banto Rodrigues, a 35 km de Mariana (MG), causando 19 mortes. Um tsunami de lama quente e fétida de rejeitos de minério de ferro (aproximadamente 50 milhões de m³, o suficiente para encher 20 mil piscinas olímpicas) percorreu uma distância superior a 800 km entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo até desaguar no litoral capixaba, destruindo a bacia do rio Doce. Foi a maior tragédia ambiental do Brasil e o maior vazamento de rejeitos minerais do mundo. Um gigantesco rastro de destruição devastou as matas ciliares, provocou a suspensão do abastecimento de água em vários municípios e impactou fortemente a pesca e o turismo. Aproximadamente 3 milhões de pessoas foram atingidas de forma direta ou indireta. De acordo com o Ibama, 835 hectares de Áreas de Preservação Permanente (APP) foram destruídos (Trigueiro, 2017: 61). Tanto na pobreza quanto nos países desenvolvidos o crescimento está diretamente atrelado à sustentabilidade. No primeiro, por danos relacionados à falta de acesso a recursos básicos como saneamento, que, por exemplo, contamina rios e à educação, que leva informação como estratégias de manejo de produtos agroflorestais, entre outros exemplos que mostram como seria possível garantir maior destreza ao reconhecer nos recursos naturais potenciais econômicos. No segundo, o impacto ambiental recai sobre o uso descontrolado, desmedido, dos recursos sem o aguardo da regeneração do meio. A pressa em relação ao crescimento dos países desenvolvidos acaba por reforçar os fatores causadores da pobreza. O desenvolvimento sustentável é mais que crescimento, ele exige uma mudança no teor do crescimento a fim de torná-lo menos intensivo de matérias-primas e energia, e mais equitativo em seu impacto. Tais mudanças precisam ocorrer em todos os países, como parte de um pacote de medidas para manter a reserva de capital ecológico, melhorar a distribuição de renda e reduzir o grau de vulnerabilidade às crises econômicas (CMMAD, 1991, p. 56). 9 1.3 Sustentabilidade Créditos: EtiAmmos / Shutterstock. Reportando-nos às noções de bem e mal, de certo e errado, a visão de crescimento pode ostentar a ambiguidade no próprio conceito. Isto é, revelar consequências ambientais que apresentem opções inversas ao objetivo de expansão. Assim, a construção de rodovias, aeroportos, represas, mineradoras, petroquímicas e cimento provocam perdas à biodiversidade,2 à saúde e ao bem- estar da coletividade e de muitos outros seguimentos produtivos que podem traduzir opções certas para o crescimento, mas promovem efeitos colaterais, como os resíduos industriais e a poluição do ar que transgridem o meio ambiente. Serviços ambientais, ecossistêmicos ou naturais são serviços que a natureza oferece ao homem, e que são indispensáveis para a sobrevivência humana. São exemplos o trabalho de polinização realizado pelas abelhas, fundamental para a manutenção da diversidade biológica e para a produção de grãos, e o controle do clima, da água e dos alimentos etc. Esses serviços são usados como cálculo sobre o valor da natureza. 2 Biodiversidade: “Diversidade biológica; o total de genes, espécies, de comunidades e ecossistemas e processos de uma região; abrange todas as espécies de plantas, animais e microrganismos, bem como os sistemas a que pertencem, e pode ser considerada quatro níveis: diversidade genética, diversidade de espécies, diversidade e ecossistemas e diversidade de comunidades e processos. [...] A biodiversidade é o centro atual da discussão entre países possuidores de reservas significativas de diversidade biológica, que defendem o princípio da soberania sobre tais recursos, e os detentores de tecnologias para produção e uso destes recursos, que consideram a biodiversidade como ‘patrimônio da humanidade’, ou seja, de livre acesso” (Urban, 2002, p. 24). 10 No entanto, seja crescimento econômico, seja desenvolvimento econômico, as mudanças no ecossistema fisico são inevitáveis. Mas se a exploração estiver considerando os níveis dos impactos em cada área não será ruim porque não esgotará os recursos renováveis. É preciso definir a produtividade máxima sustentável. Podemos representar a relação de entre os conceitos conforme a figura a seguir. Apesar de conceitualmente distintos, são interdependentes no que se refere a uma sociedade que controla o consumo dos serviços ambientais. Figura 1 – Relação entre conceitos comuns ao desenvolvimento sustentável Fonte: elaborado pela autora. Enquanto o desenvolvimento se ocupa de estruturar o investimento e as metas da União para que haja o crescimento, o crescimento cuida de realizar as ações necessárias para que exista um desenvolvimento que seja efetivo no atendimento às necessidades de longo prazo, por exemplo, a erradicação da pobreza. Quadro 1 – Desenvolvimento versus crescimento Desenvolvimento Crescimento Qualitativo Quantitativo Programação econômica Meta Estrutural, esqueleto do país Orçamento da união Ação Execução Aplicação do orçamento da União Funcionamento Desenvolvimento CrescimentoSustentabilidade 11 1.4 Como atenuar a intensidade deste problema? A degradaçãodo meio ambiente pode ser minimizada por projetos que não se preocupam em apenas efetivar a missão de implantação dos processos produtivos, mas em analisar os possíveis impactos destes ao meio ambiente. Não devemos ignorar os efeitos sobre o ecossistema,3 negligenciando os problemas derivados da ausência de responsabilidade na implantação e na avaliação do projeto. Exemplo: a poluição do ar por emissão de CO2. Os danos ambientais podem afetar a vida humana de várias formas, constatando-se o efeito maléfico do crescimento, como: encurtamento da vida das pessoas afetadas; capacidade produtiva e geração de renda prejudicadas; custos de remédios; insatisfação com a qualidade de vida (Contador, 2000, p. 291). Ainda sobre como atenuar a intensidade do problema, constatamos que a avaliação social de projetos dessa natureza exige investimentos por parte da sociedade. “A mensuração é mais simples do que a solução para os problemas causados pelos danos ambientais. Fechar simplesmente as indústrias poluidoras e proibir o uso de inseticidas e insumos tóxicos prejudica os trabalhadores que perdem as oportunidades de emprego” (Contador, 2000, p. 294). Os consumidores mais ricos têm acesso a bens substitutos, muitas vezes importados, e, consequentemente, são menos afetados diretamente. A proposta do Relatório de Brundtland (1988) é a criação de estratégias para substituir processos de crescimento destrutivos pelos de desenvolvimento sustentável. Para que isso seja viável, é necessário que os países modifiquem suas políticas tanto em relação ao próprio desenvolvimento quanto em relação aos impactos que podem gerar em outras nações. Por exemplo, a atual preocupação em relação ao Acordo de Paris (2015), com a saída dos Estados Unidos, é manter a China. Sem o compromisso desses países, que estão entre os principais poluidores, o acordo perde a aplicabilidade. As principais políticas que devem ser adotadas pelos países, segundo o Relatório de Brundtland, são: retomar o crescimento com a proposta de diminuir desigualdades; 3 Ecossistema: “Unidade formada pela comunidade biológica com seus ciclos de energia e de alimentação e ambientes bióticos, com os quais interagem; numa mesma área podem existir vários ecossistemas; não é correto falar, por exemplo, em ecossistema amazônico ou ecossistema litorâneo” (Urban, 2002, p. 42). 12 alterar a qualidade do desenvolvimento com foco em metas que considerem o consumo dos serviços ambientais; atender a necessidades essenciais de emprego, alimentação, energia, água e saneamento; manter um nível populacional sustentável com alternativas sustentáveis para equilibrar consumo e crescimento populacional, como investimentos em novas tecnologias na agricultura e na produção de energia; conservar e melhorar a base de recursos, como o reflorestamento e a recuperação de áreas degradadas; reorientar a tecnologia e administrar o risco; incluir o meio ambiente e a economia no processo de tomada de decisões. Crédito: AjayTvm/Shutterstock. Caso: Conheça o exemplo do Hospital Moinhos de Vento para reciclagem do lixo. O hospital criou estruturas que permitem reutilizar todo o lixo gerado, como é o caso do plástico usado e não contaminado, que, depois de reciclado, volta a ser utilizado em forma de sacolas de lixo para coleta seletiva. Os papéis que um dia foram usados como receituários e exames viram papel higiênico (GloboNews Cidades e Soluções, 2017). https://www.shutterstock.com/pt/g/Ajayptp 13 TEMA 2 – OBJETIVOS PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (ODS) Crédito: Rainier Ampongan/Shutterstock. A produção de tecnologias, desde os mais primitivos seres humanos até a época atual, integra um processo que tem como meta a proteção da espécie humana. No entanto, o surgimento de políticas de governo, como o capitalismo, gera consumo, e o processo de sobrevivência da espécie deixou de ser a preocupação primária. A explosão do capitalismo aconteceu com a Primeira Revolução Industrial no século XVIII, com o surgimento de máquinas de produção em massa. A máquina de fiar, o tear hidráulico e o tear mecânico tornaram-se marcos dos avanços tecnológicos. Nesse período, os bens de consumo eram um privilégio de minorias. Normalmente, quem trabalhava na produção não fazia parte do mesmo grupo daqueles que adquiriam os bens produzidos. Por volta de 1860 começou a Segunda Revolução Industrial, período em que se registrou o surgimento da eletricidade, a transformação do ferro em aço e o avanço dos meios de transporte. Nessa fase, o homem conheceu as ferrovias, o avião e a produção em massa por meio da linha de montagem (1923) de Henry Ford. Os meios de comunicação, por sua vez, passaram a ser o telégrafo e o telefone. Nessa época, o consumo era mais incentivado, diferentemente do que ocorrera no período anterior. Afinal, houve crescimento na produção e o surgimento da necessidade de se adquirir bens. 14 A Terceira Revolução Industrial aconteceu na metade do século XX e trouxe com ela os avanços ultrarrápidos – microeletrônica, robótica industrial, computadorização dos serviços e biotecnologia. Com as transformações que aconteceram ao longo dos anos em todas as áreas da sociedade, fez-se a separação definitiva entre o capital, representado pelos donos dos meios de produção, e o trabalho, representado pelos assalariados. Agora já estamos vivendo a Quarta Revolução Industrial, a da Era Digital. Esta é a fase em que se conectam máquinas aos meios digitais – a automação dos meios de produção e a Internet das Coisas (IoT). Pessoas e máquinas estão mais conectadas a problemas e soluções. De 1994 até hoje, as discussões continuam. A Cúpula da Terra, formada pela comissão da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, da Rio 92, se reúne até hoje para dar continuidade aos debates, incluir novas discussões e rever dados. Exemplos disso são a revisão da Agenda 21, em 1997; a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável, em 2002, em Johanesburgo (África do Sul), para os resultados da Rio 92; em 2005, o Programa de Barbados das Nações Unidas, para debater, entre outras coisas, as mudanças climáticas e a elevação do nível do mar; a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada durante a COP 21,4 quando foi definido o Acordo de Paris, em 2015. Nesse mesmo ano, em Nova York, aconteceu a Cúpula de Desenvolvimento Sustentável, em que foram definidos os Objetivos para Desenvolvimento Sustentável (ODS), uma agenda que prevê ações até 2030. Nesse breve resumo, a história das discussões ambientais mostra que desde a apresentação dos relatórios até o momento atual ainda há os que acreditam que cabe apenas aos países em desenvolvimento a responsabilidade de preservar. Assumem parcialmente a culpa, mas eximem-se da responsabilidade. Estudos científicos mostram que a pobreza tem origem na má distribuição de renda, que a sociedade está dividida e que não é promovendo uma exterminação em massa que o problema será resolvido. O desenvolvimento humano traz consigo, ineditamente, todo tipo de mudança seja de maneira irracional, seja sustentável. Malthus não disponha de meios para prever todas 4 Conferência das Nações Unidades sobre as Mudanças no Clima é a reunião bianual realizada pela Conference of the Parties (Conferência das Partes – COP), que é o órgão supremo decisório da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). 15 as modificações que a mente humana poderia criar, nem as mudanças que as ações humanas poderiam desencadear no meio ambiente. Mas herdeiros teóricos do economista atualizaram, no devido tempo, as previsões sobre o futuro da humanidade. Sempre houve necessidadede atualizações e, possivelmente, sempre haverá, como ocorre com o Código Florestal novamente em discussão no Congresso Nacional. Hoje, nada mudou. Ainda temos como realizar previsões com o respaldo científico de especialistas E elas continuam sendo de grande valia para a evolução e para a preservação da espécie humana. A diferença é que hoje a fundamentação científica está mais ampla e os argumentos técnicos são mais debatidos. Ignorar previsões, por mais apocalípticas que pareçam, não é sensato se não houver respaldo de uma antítese testada em nível equivalente. Propondo um comparativo, países desenvolvidos, em desenvolvimento ou não desenvolvidos poderiam seguir o exemplo do modo como o ecossistema estabelece a inter-relação entre as formas de vida. Apesar de nem sempre ser tranquila, sempre é necessariamente harmoniosa. Além do mais, independentemente de concordar ou não com as previsões para os próximos 80 anos, não podemos negar os fatos de que ocupamos o mesmo planeta e que o resultado das ações de um será sentido por todos. TEMA 3 – PRESERVAÇÃO, CONSERVAÇÃO OU INOVAÇÃO? O mais recente e forte desafio que o mercado globalizado enfrenta é conceituar sustentabilidade sem fugir da dura realidade universal que é a utilização de recursos cada vez mais escassos e necessidades cada vez mais diversificadas para atender ao mundo dos negócios, cuja megatendência de consumo é amparada pelas novas tecnologias, cada vez mais sofisticadas, que buscam abrandar a força do extremo entre escassez de recursos produtivos e capacidade de produção em larga escala. Essa situação dicotômica exige soluções inovadoras no âmbito das dimensões: ambiental, social, econômica, política e institucional. Diante dessa premissa, surge com força total o desafio da sustentabilidade, que é inibir o esgotamento dos recursos naturais no âmbito das gerações atuais em detrimento de gerações futuras. Foi com este enunciado que a ideia começou a ser assimilada pela comunidade internacional, depois que a Organização das Nações 16 Unidas (ONU) assumiu, em 1 de dezembro de 1987, que a partir de então o desenvolvimento sustentável deveria se tornar princípio orientador central de governos e instituições privadas, organizações e empresas (Veiga, 2015, p. 9). Vários autores já contaram como o conceito de desenvolvimento sustentável surgiu. Mas o que eles ainda não puderam descrever é como o mundo se uniu para aplicar de fato o desenvolvimento sustentável, simplesmente porque ainda não chegamos a um consenso prático. Algumas poucas vozes reagiam ao “catastrofismo”, mas, no geral, tudo se encaminhava para a consolidação da ideia de que as nações ricas eram as únicas áreas viáveis do mundo e os países que não haviam enriquecido até aquele momento deveriam desistir de fazê-lo – em prol da sobrevivência da vida na Terra. Foi aí que a ONU decidiu convocar a conferência de Estocolmo. Quando o tema, até então tratado na esfera acadêmica, foi levado para o nível dos governos, o vento começou a mudar. E o Brasil teve papel destacado nessa história [com a Rio92] (Almeida, 2002, p. 18). Para algumas sociedades, o crescimento é prioridade a qualquer preço. Esse é o caso dos Estados Unidos, que saiu recentemente do Acordo do Clima (2015) para intensificar a produção interna, mesmo que isso gere mais emissões de CO2. Para outros, a cultura do desenvolvimento já assimilou o conceito de sustentabilidade; alguns carregam em sua história a boa convivência com o meio ambiente, com um perfil cultural, como o Japão, e outros, mais recentemente, como a Alemanha e a Noruega. Mas, mesmo esses países já erraram muito no quesito preservação, porque nem sempre estamos cientes dos danos que suas escolhas, para suprir necessidades do presente, podem causar no futuro. Certas coisas só aprendemos com o tempo, por meio de um método dedutivo. Uma conclusão dolorosa desse raciocínio é que alguns projetos provocam reação de valor negativo à sociedade, ou seja, na maioria das vezes não resultam no desenvolvimento sustentável. Não deveriam ser aprovados e, sim, eliminados por significarem violência aos padrões morais e éticos da sociedade. Um exemplo é a mineração no Brasil. Essa produção é uma das mais importantes para a economia nacional, no entanto, os danos ao meio ambiente são irreversíveis, mesmo sem catástrofes. Os investimentos no setor se restringem à captação dos recursos naturais, pois não existe uma efetiva aplicação do conhecimento científico já disponível para atenuar os impactos ao meio ambiente, tanto na extração quanto no restante do processo. Sugestão de leitura 17 Leia o artigo do SIMI (2019) Pesquisas apresentam soluções para o aproveitamento de rejeitos de mineração, disponível em: . Não deixe também de assistir ao vídeo disponível na página. O desenvolvimento sustentável não é a solução definitiva dos problemas ambientais, apenas uma prevenção. É uma alternativa calculada sustentada em metodologias que embasam planejamentos que procuram avaliar e prever danos futuros. A resistência de alguns países em aderir às estratégias sustentáveis apenas demonstra a dificuldade em inovar. Os riscos que correm não são apenas o de serem responsáveis por prejuízos a todo o planeta, mas o de serem superados por aqueles que viram no desenvolvimento sustentável um desafio não restrito à preservação da vida, uma oportunidade de crescimento com desenvolvimento. 3.1 Quem preserva conserva É tão simples quanto parece: quem preserva o meio ambiente conserva sua estrutura. Mas, afinal, qual é a diferença entre eles? Conservar é manter em um estado que não prejudique a existência dos recursos e da vida e ainda permita seu uso para o desenvolvimento e crescimento econômico. Preservar trata da aplicação de planejamento e métodos aplicados a longo prazo com o objetivo de conservar. Vamos às definições trazidas pela ambientalista e jornalista Teresa Urban (2002): Conservação da natureza – manejo do uso humano da natureza, compreendendo a preservação, a manutenção, a utilização sustentável, a restauração e a recuperação do ambiente natural, para que possa produzir, em bases sustentáveis, o maior benefício às atuais gerações, mantendo seu potencial de satisfazer às gerações futuras e garantindo a sobrevivência dos seres vivos em geral; não é sinônimo de preservação porque está voltada para o uso humano da natureza, em bases sustentáveis, enquanto a preservação visa à proteção a longo preza das espécies, habitats e ecossistemas (Urban, 2002, p. 35). Conservação in situ – conservação de ecossistemas e habitas naturais e a manutenção e recuperação de populações viáveis de espécies em seus meios naturais e, no caso de espécies domesticadas ou cultivadas, nos meios onde tenham desenvolvido suas propriedades características (Urban, 2002, p. 35). Preservação – conjunto de métodos, procedimentos e políticas que visem à proteção a longo prazo das espécies, dos habitats e 18 ecossistemas, além da manutenção dos processos ecológicos, prevenindo a simplificação dos sistemas naturais; parte integrante da conservação” (Urban, 2002, p. 63). Vamos aos exemplos: A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)5 realiza estudos que viabilizam práticas para uso sustentável dos recursos naturais, tanto no plantio quanto na extração e nos procedimentos que devem ser adotados para a segurança dos trabalhadores. Esse trabalho é um trabalho de conservação da natureza. O Parque das Aves,6 em Foz do Iguaçu, Paraná, é uma instituição destinada à conservação de aves da Mata Atlântica. Eles contribuem para a recuperação e a prevenção da extinção de espécies. Um outro exemplo é o Projeto Tamar,7 que trabalha com a recuperação e a prevenção de extinção de espécies,mas, no caso deles, espécies marinhas, em especial as tartarugas. Estes são exemplos de conservação in situ (no local). O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)8 trabalha com estratégias de monitoramento remoto, via satélite, para oferecer imagens sobre, por exemplo, a Amazônia e o Cerrado. Isso garante o fornecimento de dados com bases metodológicas que serão usadas para a preservação desses biomas. 3.2 Inovações para o bem Dizem que é na necessidade que inovamos. Por tudo o que já vimos até aqui, tem fundamento. Quando existe a sombra do mal, trabalhamos para superá-lo (assimetria por supressão).9 Uma comunidade com poucos recursos desenvolveu uma forma alternativa para aquecimento de água, usando garrafas pet, caixas de leite tetrapak e canos de PVC. Funcionou, além de reutilizar resíduos. Outro exemplo: algumas empresas como a Microsoft estão disponibilizando tecnologias de Inteligência Artificial para contribuir com a preservação do meio ambiente. Em uma reportagem da revista Época Negócios, Lucas Joppa, diretor ambiental da Microsoft, afirma: “Mesmo para setores diferentes, a rápida adoção de tecnologia baseada em IA tem potencial de não 5 Disponível em: . 6 Disponível em: . 7 Disponível em: . 8 Disponível em: . 9 Conteúdo apresentado anteriormente. 19 apenas gerar ganhos significativos para o meio ambiente, mas também para o PIB em geral” (Época Negócios, 2019). A tecnologia que será disponibilizada pela Microsoft é apenas um dos exemplos do que a inovação é capaz de fazer pelo bem do planeta e, como consequência, evitar nossa extinção. E a inovação não está apenas na tecnologia, mas em toda a cadeia produtiva, do conhecimento tradicional ao manejo dos resíduos. Inovar não está restrito à criação de novos produtos. Podemos encontrar inovação na forma de fazer, no modo de pensar. Crédito: G-Stock Studio/Shutterstock. Empresas inovadoras compreendem que a inovação começa com uma ideia. Ideias são mais ou menos como bebês – nascem pequenas, imaturas e sem forma. São promessas, e não uma realização. Em uma empresa inovadora, os executivos não dizem: “isso é uma ideia sem fundamento”. Em vez disso, perguntam: “O que seria necessário para transformar essa ideia em viável e que se transforme em uma oportunidade para nós?” (Drucker, 2012, p. 241). Para isso, a cultura da preservação depende de práticas de educação ambiental. Não se trata de plantar o feijão no copinho de café, mas observar o meio à sua volta e perceber que podem existir deferentes formas para solucionar o mesmo problema. É sempre bom lembrar que o real desenvolvimento sustentável tem seus alicerces no modo como a sociedade enxerga a sua própria existência. Vamos a mais um exemplo: 20 Crédito: Rodolfo Pizzo/Shutterstock. Você já deve conhecer as máquinas de café expresso. Existem diversas marcas no mercado. Algumas usam cápsulas de alumínio, outras, de plástico.10 Nenhum dos dois recursos são baratos, e não são de fácil decomposição. Alguns países da Europa proibiram o uso dessas máquinas porque os resíduos eram crescentes, ou seja, não se conseguiu gerir de forma correta as consequências dessa charmosa e prática mordomia. Mas o Brasil continua vendendo as máquinas e suas cápsulas. O que é feito delas? Podemos citar o exemplo da líder europeia em máquinas de café expresso, a suíça Nespresso, fundada em 1986, pertencente ao Grupo Nestlé. Em 2003, a marca anunciou o lançamento de seu Programa de Qualidade Sustentável AAA, com o objetivo de promover a produção e o fornecimento de café de alta qualidade de uma forma sustentável. No programa existe um sistema de logística reversa para as cápsulas de alumínio. Então, depois que você comprar as suas capsulas em uma das lojas, você as leva de volta quando for fazer sua próxima compra. A empresa então destina esse insumo a um setor em que o alumínio é encaminhado para a reciclagem e o café, para a compostagem. No início havia um serviço de coleta com motoboys. Mas ele foi suspenso, provavelmente porque, ao visitar a loja, você é convidado a tomar um café, conhecer a novidade e comprar mais. Só que, certamente, a maioria das pessoas não se preocupa com a devolução das cápsulas e, muito menos, em separá-las no lixo reciclável. Ou seja, uma importante e cara matéria-prima, com um (quase) infinito potencial 10 Assista ao vídeo explicando como essas capsulas são produzidas, disponível em: (Manual do Mundo, 2018). 21 para reuso – o alumínio vai parar em um aterro sanitário junto com todas as outras coisas desprezadas em nossas casas, sem a menor chance de futuro. Mas continuamos a consumir esse tipo de café porque é bom e porque tem status. Porque é prático e higiênico. Imagine o que acontece com as cápsulas de plástico. A trágica trajetória de vida das cápsulas de café não deveria nos causar remorso – supondo que exista uma preocupação quanto a isso. Seria simples se pensássemos em como tornar esse processo sustentável, lembrando que, como consumidores, estamos diretamente envolvidos. A responsabilidade não é só da empresa. Não precisamos boicotar produtos, apenas assumir as tarefas que nos cabe, ao menos realizar o descarte correto. Não precisaremos devolver as cápsulas à empresa se nos dispusermos a limpar as cápsulas de alumínio ou plástico e entregá-las para a reciclagem. Simples assim. Se quisermos ir mais longe, podemos procurar conhecer o processo de produção ou procurar alternativas, como as capsulas reutilizáveis. Crédito: Karol Moraes/Shutterstock. A nossa responsabilidade com o desenvolvimento, em especial com o desenvolvimento sustentável, está diretamente relacionada com a vida em sociedade, com os benefícios econômicos da produção industrial, com o emprego, a educação, o saneamento básico, a saúde pública... Uma simples cápsula de café pode disseminar doenças ou gerar empregos – em todas as fases de sua existência. E se você imagina que por não escolher uma máquina de café como esta você está livre de sua responsabilidade, se engana. Se você é daquelas pessoas que diz que não imprime papel porque faz mal ao meio ambiente e prefere ficar horas com o computador ligado para ler textos, por exemplo, saiba que: 22 Um computador ligado durante 1 hora/dia consome 5,0 kwh/mês. No decorrer de um ano, a economia decorrente de desligar o computador durante esta uma hora de almoço será de 60 kwh, o que leva cada pessoa que desligar seu computador a deixar de jogar na atmosfera 18 quilos de CO2. Esse volume corresponde ao emitido por um carro movido a gasolina ao percorrer 120 km (Akatu, 2011). Ou você sabia que cada vez que realiza uma busca no Google você está contribuindo para a emissão de CO2? “São 3,5 bilhões de buscas por dia, fazendo com que a gigante de tecnologia seja responsável por 40% das emissões de dióxido de carbono relacionadas à internet” (Época Negócios, 2018). Você não imaginava que fosse tanto, não é mesmo? Então, o que podemos concluir é que o problema não está em consumir, mas na forma como consumimos. O desenvolvimento precisa ser sustentável e é fundamental que essa responsabilidade não seja transferida para os outros. A responsabilidade é de todos, individualmente, por mais que esse pareça um discurso do senso comum. TEMA 4 – O MERCADO DA SUSTENTABILIDADE 4.1 Consumo consciente De repente, ser sustentável tornou-se um status. Nem ao menos sabem bem do que se trata, mas já levantam bandeiras. A questão é se essas iniciativas têm alguma validade prática. Isso é importante deser discutido porque, como já vimos, o desenvolvimento sustentável trata de vivermos o presente, mas sem prejudicar as futuras gerações. Não basta apenas dizer que é sustentável. Precisa ser sustentável. E não tem como falar em consumo consciente sem parecer um tanto ideológico, porque ele envolve escolhas para um bem comum. Mas consumir de forma consciente nada mais é do que considerar os reflexos das escolhas individuais na sociedade, na economia e no meio ambiente. No entanto, mesmo com toda a mobilização pela causa ambiental e os alertas de ambientalistas e cientistas, os níveis de consumo não param de crescer, talvez motivados pela necessidade de expandir a produção: Os impactos dessa dinâmica sobre meio ambiente são reconhecidos até mesmo por economistas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os quais revelam que o crescimento econômico nos países ditos desenvolvidos tem intensificado as pressões sobre o meio ambiente desde a segunda metade do século 20, como perspectiva de acentuação desta nos próximos 20 anos (Kempf, 2010, citado por Silva et al., 2012, p. 97). 23 Mas se em uma ida ao supermercado damos preferência a uma marca porque ela cuida do meio ambiente, isso realmente precisa ser pensado de forma consciente. Ao compramos um produto, estamos participando de uma das etapas da cadeia produtiva e da preservação do meio ambiente. Como um produto foi pensado, de que modo consumimos, como descartamos, o que fazem com esse resíduo depois de nós... São apenas algumas das perguntas que deveriam ser feitas quando pensamos em escolher este ou aquele item para incluirmos em nossas vidas. No ensaio “Consumo consciente”: o ecocapitalismo como ideologia (Silva; Araújo; Santos, 2012), as autoras acreditam na fragilidade do consumir diante da força do mercado, e que é transferido ao consumir uma responsabilidade de decisão, sendo que faltam informações para que realmente se possa estar consciente das escolhas que se faz. Este, enredado em uma teia de sedução mobiliada por mecanismos meticulosamente estudados pelo marketing e pela propagando e destituído das informações mínimas que orientem a sua decisão no ato da compra – quando não diretamente ludibriado –, vê reduzido ou diretamente nulo o poder que lhe vem sendo, em tese, atribuído. O discurso de valorização do papel do consumidor individual contrasta com a força das grandes corporações e seu controle sobre o mercado, expressos na produção de estilos de comportamento, pretensamente inovadores, mas reafirmadores da irracionalidade no uso dos recursos naturais (Silva; Araújo; Santos, 2012, p. 98). Mas será mesmo que o consumidor está tão indefeso assim, sujeito aos mandamentos do capitalismo como acreditam as autoras? 4.2 Marketing e consumo Crédito: lemono / Shutterstock Ao contrário do que elas afirmam, a pesquisa A perspectiva responsável do marketing e o consumo consciente: uma interação necessária entre a empresa e o consumidor explica como o Marketing 3.0 adotado hoje pelas 24 empresas atua em defesa do meio ambiente tomando como base as escolhas dos consumidores. “O Marketing 3.0 se volta para valores humanos, partindo da premissa de que os consumidores estão cada vez mais em busca de soluções para satisfazer a seus anseios de transformar o mundo globalizado” (Enéas Silva et al, 2012, p. 70). Assim como o consumo muda ao longo do tempo, correspondendo às transformações culturais e aos valores morais, as estratégias de marketing também teriam que se adequar a essas mudanças. No início o Marketing 1.0 tinha como objetivo a venda de produtos. Na sequência, no Marketing 2.0, com a era da informação, a opinião o perfil do cliente exigiu que as empresas segmentassem o mercado de acordo com o público. O Marketing 3.0, hoje, corresponde a essa nova era tecnológica, com pessoas globalizadas, criativas e mais sensíveis às necessidades não apenas físicas. A comunicação está intimamente ligada ao conceito de tribalismo em marketing, em que os consumidores desejam estar conectados a outros consumidores em comunidades e não às empresas, e que para estabelecer esta conexão com outros seres humanos as marcas precisam desenvolver uma personalidade autêntica [...] discutindo com mais ênfase o papel da experiência no processo de consumo, entendendo que se inicia antes e termina depois do consumo (Enéas Silva et al, 2012, p. 71). Ou seja, mais do que nunca as empresas interessadas em uma gestão voltada ao seu público e às causas ambientais estão determinadas a entender as necessidades específicas de seus consumidores e, assim, construir estratégias que não apenas vendam seus produtos como ambientalmente responsáveis, mas contribuam para a formação de uma nova consciência ambiental. Como uma das forças que definem o Marketing 3.0, a sustentabilidade ambiental tem se tornado preocupação de empresas e atores sociais de uma forma geral. Dentre os motivos podemos destacar a dependência de recursos naturais, o impacto ambiental exercido pelas organizações e a reputação ambiental da marca (Enéas Silva et al, 2012, p. 72). Essa segmentação do mercado pode ser classificada em quatro pontos (Enéas Silva et al, 2012, p. 72): 1. inovador de tendências, que possui motivação emocional e espiritual para usar produtos verdes; 2. o que busca valor utilizando produtos verdes para aumentar a eficiência e economizar custos; 25 3. o que combina padrões, ou seja, produtos que já atingiram o mainstream;10 4. o comprador cauteloso, aquele que não acredita em produtos verdes. O Marketing 3.0 deixou de ter atenção com a necessidade de lucro das empresas, apenas incorporou ações que terão como resultado o reconhecimento do consumidor e a contribuição para o desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento é qualitativo, trata-se de um planejamento. Quando relacionamos esse conceito com sustentabilidade, estamos buscando um planejamento que tem como proposta sustentar esse desenvolvimento ao longo de gerações. Ele não pode encerrar seu ciclo onde iniciou. E esse último estágio do marketing tem atuado com esse perfil. Ainda como compradores cautelosos e habituados às antigas estratégias do marketing, temos o cuidado de pensar se não estamos sendo envolvidos apenas por estratégias de Marketing 1.0. Não é desconfiança à toa, afinal, nem todas as empresas estão realmente interessadas em adotar práticas sustentáveis pelos mais diversos motivos, incluindo o próprio despreparo quanto aos novos valores morais e às transformações cultural e de consumo. TEMA 5 – DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E NOVAS TECNOLOGIAS 5.1 Transformação digital Talvez você seja como a maioria das pessoas que acreditam que as tecnologias são boas para o meio ambiente. E por que não seriam? Afinal, elas tornam a vida mais fácil, reduzem custos, aceleram processos, diminuem distâncias, produzem energia, promovem a interação entre as pessoas... O homem sempre buscou a tecnologia para melhorar a sua vida. O martelo de pedra lascada é um exemplo disso. Se existisse, na época de sua criação, um prêmio do ano para a melhor invenção, provavelmente o seu inventor o receberia. Damos tanta importância a isso que, ao longo da história, essas invenções sempre marcaram época. A máquina a vapor, a Revolução Industrial, a energia nuclear, a Internet. Estas e muitas outras tecnologias que mudaram a forma de existir dos seres vivos trouxeram tantos benefícios quanto malefícios. Sempre 10 Conceito que expressa tendência ou moda dominante. 26 em função da necessidade e do desejo de superação da polaridade negativa. Poderíamos tecer infinitos elogios e críticas para nossos inventos, mas primeiro trataremos de falar do quanto as tecnologias melhoram nossas vidas e por que são tãouteis para o desenvolvimento sustentável. Como já vimos, a sociedade se transforma e, nessa mutação constante, define novas necessidades e novas formas de consumo que são acompanhadas por setores de produção e serviços que procuram lucrar com essas demandas. Já vimos também que o consumo consciente é importante para o desenvolvimento econômico e social. Se você listasse as tecnologias que mais consome em uma semana, saberia avaliar o impacto positivo que elas causam no meio ambiente? Mas cabe aqui esclarecer um ponto dessa conversa. Podemos falar em tecnologia de duas formas: tecnologias – generalizando todas as invenções humanas, desde o machado de pedra lascada – e novas tecnologias – que correspondem aos últimos quarenta anos, quando se iniciaram os processos de digitalização entre a terceira e a quarta revoluções industriais. Conciliando as necessidades do homem moderno com o crescimento da população, a ONU estima que, até 2030, seremos mais de 8,2 bilhões em todo o planeta. Com tanta gente vivendo junto, só mesmo muita tecnologia para tornar viável a qualidade de vida, a produção de alimentos, a educação... Ainda assim, muitos ficarão de fora. Serão apenas pessoas que, embora reais, estarão ainda mais invisíveis, porque não possuirão seus avatares e, por isso, provavelmente ficarão ainda mais isolados, ilhados, distantes do mundo em que as coisas acontecem. Quando usamos nossos celulares para conversar com pessoas, programar uma viagem, assistir programas (que eram) de televisão, comprar comida, pagar contas e consultar um médico, nos deslumbramos com a possibilidade de um futuro ainda mais informatizado, automatizado e integrado à Internet das Coisas (IoT). Mas, na ponta oposta à dos consumidores, as empresas estão acompanhando essas transformações da Era Digital? Segundo o site Transformação Digital (TD, S.d.), ainda não. Apenas 19% das empresas globais estão concentradas no potencial dessa nova Era (Transformações Digitais TD, S.d.). Segundo a Dell, 15% das organizações globais estão atrasadas, 32% só acompanham a marca e 34% estão avaliando a transformação digital. Apenas 19% das organizações estão concentradas em explorar 27 essa via de mão dupla, interagindo digitalmente com os usuários com o intuito de expandir seus resultados, destacando-se em canais, vendas, novos serviços e experiências de clientes – desde a atração até o pós-venda, quando é trabalhada a fidelização e condução para que os usuários se tornem embaixadores da marca (Transformação Digital TD, S.d.). A transformação digital das empresas não é mais uma questão de querer. Essa é a nova forma de comunicação com consumidores e toda empresa deverá ser capaz de se comunicar e satisfazer a necessidade de seus clientes por meio de software. E esse é o motivo de muitas empresas ainda estarem estudando a transformação digital em vez de partirem logo para as mudanças necessárias. A economia digital exige que se repense o papel do software na organização, independentemente do modelo de receita. E não se trata de apenas pensar qual software se encaixa melhor na empresa: A performance da organização está diretamente ligada ao seu nível de maturidade digital. Quanto mais evoluídos os componentes de um programa de transformação, como processos centrados em tecnologias inteligentes, pessoas capacitadas e ferramentas, melhor o desempenho comercial das empresas (Transformação Digital TD, S.d.). Veja a seguir quais setores industriais estão mais preparados para a transformação digital, ainda segundo o site Transformação Digital TD (S.d.). Figura 1 – Ranking de maturidade digital por indústria Fonte: Transformação Digital TD (S.d.) Com este ranking, podemos lembrar que quando a nova indústria se preocupa com a opinião e as necessidades dos clientes não é por uma simples estratégia de venda. As empresas estão atendendo a uma nova demanda de consumo em que o cliente não é apenas um mero receptor. Ele tem atuado de forma mais impactante sobre os bens produzidos, para quê produzi-los, como produzi-los e como distribuí-los. Então, o setor de saúde pública, por exemplo, https://transformacaodigital.com/transformacao-digital-empresa/ https://transformacaodigital.com/transformacao-digital-empresa/ 28 classificado como a último a estar preparado para a transformação digital, segundo o ranking, pode sofrer críticas quanto à destinação de investimentos se não estiver atento aos índices de vulnerabilidade social e ambiental. Crédito: Epitavi/Shutterstock. Caso: MAS COMO O BLOCKCHAIN PODE SER ÚTIL NA AGRICULTURA Como dito, todo ano, se desperdiça bilhões de reais em alimentos pela falta de eficiência seja na armazenagem, transporte ou venda dos produtos. Existe um “grande oceano” de dados que não são coletados e processados. Uma possiblidade tecnológica é aliar o Big Data na agricultura ao Blockchain para reunir, organizar e validar esses dados. Assim, é possível aumentar a eficiência e garantir 100% de transparência na cadeia produtiva. Se a cadeia de carnes no Brasil fosse descentralizada em um Blockchain, dificilmente a Operação Carne Fraca da Polícia Federal seria necessária, já que o próprio sistema faz a auditoria de todo o processo. Hoje, muitos produtores já possuem sistemas completos de monitoramento dos processos. São sensores no campo, drones, GPSs nas máquinas agrícolas e muito mais. No entanto, esses dados servem apenas para o produtor. Imagine ter um QR Code em cada rótulo de produto com as informações detalhadas de procedência, pesticidas usados, técnica de cultivo, condições do solo e etc? E a cada vez que esse produto trocar de mãos, os dados fossem atualizados identificando por quem passou o produto? Especialistas dizem que a adoção em grande escala dessas tecnologias pode ser responsável pelo maior salto na produtividade agrícola desde a mecanização. Mas e o produtor, o que ganha isso? Ele poderia ter mapeado ponto a ponto onde o seu produto é mais vendido, a taxa de perda em cada etapa do processo, garantindo um fluxo de caixa mais positivo. Os dados são muito úteis quando coletados e organizados. Finalmente, será possıv́el monitorar a taxa de perda de cada tipo de alimento, do cultivo, processamento, consumo e descarte. Os agricultores podem personalizar espaços no campo para demandas de consumo regionais identificadas no Blockchain e os usuários poderão rastrear sem dificuldades a origem dos alimentos diários. Frutas, legumes, carne, leite, café, arroz, feijão, soja, milho etc. Alimentos processados, como massa de tomate, macarrão, embutidos e sucos de frutas. Tudo isso pode estar presente no Blockchain do futuro (Transformação Digital TD, S.d.). https://www.shutterstock.com/pt/g/Epitavi 29 5.2 Acesso às tecnologias sustentáveis Mas e quem não tiver a possibilidade de ter acesso ao que será tão essencial quanto a água, a internet? O que será dessas pessoas? Nosso mundo ficará dividido em dois? Seremos a nossa própria supressão? Quando pensamos que no futuro faltará água, podemos estar muito equivocados. Talvez as fontes de água pura, natural, sejam mais escassas. Mas já desenvolvemos tecnologias que tornam a água potável, a mesma que deixamos escoar pelo ralo da cozinha, do banho ou da descarga. São Paulo já vive esta realidade (Ferreira, 2015; Portal Tratamento de água, 2018) com o reuso de água tratada em setores industriais, e a Namíbia, desde 1968, trata a água do esgoto para consumo, atendendo a todos os parâmetros de purificação exigidos pela Organização Mundial de Saúde e União Europeia. É um processo ainda caro, mas quanto maior for a procura, maior será a oferta. O mesmo já ocorre com a dessalinização da água do mar, a um custo, em média, duas vezes maior do que o tratamento convencional. Países como Inglaterra, Estados Unidos e Israel, além do desértico EmiradosÁrabes, fazem uso dessa tecnologia (The International Herald Tribune, 2010); alguns a terceirizam. Então, mesmo que continuemos jogando lixo nos oceanos, já temos duas estratégias para nos ajudar no futuro. Porque, como já vimos, se existe a necessidade, daremos um jeito. O problema será o acesso. Alguns povos indígenas não enterravam seus mortos nem os jogavam ao mar. Eles os depositavam em um local chamado sambaqui. Nesse mesmo lugar, eram depositadas conchas, utensílios e outros objetos referentes à comunidade. Era tanta coisa que formavam pequenos relevos na paisagem, alguns com 18 metros de altura. Hoje são importantes fontes de pesquisa arqueológica. Imagine no futuro, quando escavarem locais como o Parque Fresh Kills (em Nova York, nos Estados Unidos). O local onde hoje há uma imensa área verde e captação de gás metano como fonte de energia já foi o maior aterro sanitário do mundo. Recebia mais de 25 mil toneladas de lixo por dia, resíduos diversos – biodegradáveis ou não – que foram enterrados para recuperação da área. Guarda certa semelhança com antigas tradições. Mas será que os pesquisadores do futuro ficarão tão entusiasmados quanto os arqueólogos de hoje? Qual impressão terão de nossa civilização? Teremos uma chance de 30 acharem que foi intencional, já que, por exemplo, estamos aproveitando nosso próprio desastre como matéria-prima para gerar energia? E os mares, que hoje sabemos ser o maior responsável pelo equilíbrio térmico da Terra, com algas que filtram o CO2 e devolvem oxigênio para a atmosfera, talvez terão em seu hábitat novos exemplares marinhos. Partindo do princípio da Lei de Lavoisier (1760), que diz que “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, teremos peixes mutantes que se alimentarão de micropartículas de plástico. Ainda não inventamos nada que reverta a situação que causamos aos mares, mas já descobrimos como reverter o que fizemos com os rios. Crédito: Alexmalexra/Shutterstock. Um investimento pesado em limpeza e longos anos de trabalho duro recuperaram rios como o Tamísia, na Inglaterra, o Senna, na França, e o rio Reno (Haydeé, 2016) que passa por várias cidades da Europa. Todos eles e tantos outros sofreram danos que pareciam irreversíveis, e alguns chegaram a ser considerados biologicamente mortos, consequência da evolução humana por séculos, com sua necessidade de atender a novas demandas de consumo em seu tempo. Mas investimentos que passaram da casa dos bilhões conseguiram reverter os danos e hoje, além de devolverem o hábitat para as vidas nativas de suas águas, também tornaram as cidades locais menos fedidos e mais atrativos. No Brasil, ainda não vivemos uma experiência assim com o rio Tietê (SP) ou o rio Iguaçu (PR), os mais poluídos do país. Mas já estamos experimentando o uso de novas tecnologias para o financiamento da recuperação de rios menores, como o Jundiai, no estado de São Paulo,12 onde pesquisadores desenvolveram 12 Falaremos sobre este caso mais adiante. 31 um projeto que usa moedas virtuais (bitcoins) para financiar pesquisas de recuperação do rio. Crédito: vovan/Shutterstock. Nas florestas, onde normalmente o sinal do Wi-Fi não é muito bom, também se usa a tecnologia para proteger as matas. Os índios Saruí, da Amazônia, usam a tecnologia de smartphones e a ajuda do Google para defender o território contra os caçadores e madeireiros: Nos meses seguintes, após muitas reuniões de trabalho com sua equipe [a gerente de projetos Comunitário da Google, Rebeca Moore], organizou um projeto e partiu da Califórnia em direção à reserva saruí para oferecer cursos de capacitação aos índios. Com a ajuda do Google Tradutor, os americanos ensinaram a usar smartphones de um jeito diferente. Nas mãos dos saruís, esses equipamentos passaram a registrar qualquer movimentação estranha na floresta (caçadores, madeireiros etc.) para que se registrasse, por GPS. Depois era só enviar o material para as autoridades competentes, como a Polícia Federal e a Funai. Os índios passaram a se dividir em grupos para incursões de até cinco dias na floresta. Vinte e dois índios com smartphones tornaram-se responsáveis pela fiscalização, com o apoio das autoridades policiais da região (Trigueiro, 2017, p. 84). Além de servir como estratégia de defesa, os saruís aproveitaram para registrar também todas as espécies de animais e vegetais da reserva, sua diversidade biológica. Crédito: Budimir Jevtic/Shutterstock. 32 Nos locais já desmatados e fundamentais para a produção de alimentos pela agricultura, drones fazem o acompanhamento da plantação enquanto tratores e colheitadeiras, sem operadores, guiadas com o uso de um tablet, realizam o trabalho de até dez pessoas. O crescimento econômico depende de boas tecnologias para que seja viabilizado. Algumas não podem ser consideradas sustentáveis, mas quando o são, proporcionam desenvolvimento e seus resultados não são colhidos apenas em curto prazo. As tecnologias estão cada vez mais acessíveis à população, mais próximas do cotidiano das pessoas, tornando a vida de todos mais prática e ajudando a mensurar resultados e problemas com maior precisão. Essa interação, que também é usada pelo Marketing 3.0, e revista em certificações como as ISO, são apenas algumas das estratégias que smart-governos poderão utilizar para o crescimento econômico e o desenvolvimento sustentável de seus territórios. A negação de que temos um futuro em comum no planeta, e de que existe a necessidade de pensar no planejamento das cidades, trará, em pouco tempo, o isolamento. A tendência é que fique ainda mais distante a realidade entre países pobres e ricos. Será muito maior o custo para recuperar qualquer distanciamento que se tenha nesse momento sobre os avanços em direção ao desenvolvimento, independentemente de quanto a economia local seja uma potência hoje. TROCANDO IDEIAS Agora que foram apresentados conceitos para que você possa compreender a dimensão das novas tecnologias frente ao desenvolvimento sustentável, encolha um dos casos apresentados para debater com seus colegas. Lembre-se de indicar algumas referências que possam ilustrar o seu posicionamento. NA PRÁTICA Certamente você já ouviu falar da estação brasileira na Antártica, a Comandante Ferraz. Os pesquisadores que ficavam hospedados na base passavam meses por lá e tinham muita dificuldade em compartilhar dados com as universidades de origem, com outros pesquisadores e alunos. Mas a situação mudou um pouco com a instalação de internet. Para realizarmos uma prática: 33 leia a reportagem a seguir, publicada pelo portal do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) em março de 2019; indique de que modo a internet contribuirá para os avanços nas pesquisas realizadas na Estação Antártica Comandante Ferraz, na preservação do meio ambiente e no desenvolvimento sustentável do Brasil. Fale também sobre a importância desse investimento nesse contexto; no conteúdo desta aula você encontra várias referências que o ajudarão nessa prática, mas será necessário que você as leia, analise e contextualize, levando em consideração as seguintes referências: o Tratado da Antártica (Decreto n. 75.963/1975); o Acordo de Paris (Acordo do Clima) (Decreto n. 9.073/2017). o Acordo de Paris apresenta as demandas necessárias para frear os danos ambientais consequentes do aquecimento global. O Tratado da Antártica trata do compartilhamento de pesquisas em prol da humanidade. Entre as pesquisas que são realizadas nesse território internacional estão aquelas relacionadas ao clima e ao aquecimento da temperatura do planeta. Reportagem: MCTIC, ANATEL, MARINHA DO BRASIL E OI INAUGURAM A NOVABASE DE TELECOMUNICAÇÕES NA ANTÁRTICA Sistema antigo permitia aos pesquisadores somente chamadas por voz e novo sistema permite voz, vídeo e até videoconferência online (ao vivo). por ASCOM - publicado 10/03/2019 19h17. Última modificação 22/05/2019 09h13. O que parece simples para quem vive em grandes cidades brasileiras, agora será rotina também para os pesquisadores que passam boa parte do ano na EACF – Estação Antártica Comandante Ferraz. A ampliação e modernização do sistema de telecomunicações foram possíveis graças a intermediação do MCTIC através da Anatel, para a renovação do acordo entre Marinha e Oi, criado em 2006 e prorrogado em 2018 por mais cinco anos. Com vinte vezes mais capacidade de transmissão de dados, agora a rede móvel com conexão 4G vai atenuar o isolamento dos cientistas e pesquisadores, permitindo a transmissão de imagens de pesquisas e informações que incluem as observações atmosféricas que podem reduzir as consequências de eventos meteorológicos severos no Brasil. Especialistas afirmam que a Região Sul, parte do Sudeste e Centro- Oeste tem sofrido com tempestades de alto poder destrutivo. Esses eventos são alimentados pelos ventos úmidos com temperaturas negativas que chegam da Antártica. Esses ventos são tão importantes quanto os que circulam pelo país, mas que saem da Amazônia. Ou seja, Antártica e Amazônia são as principais fontes de energia para os temporais que provocam impacto socioeconômico direto na agricultura, 34 por exemplo, e que, consequentemente, interferem na economia e na vida dos brasileiros. Pesquisas Recentemente pesquisadores brasileiros descobriram um princípio ativo que vem dos fungos que pode aumentar a resistência das plantas no inverno. O estudo faz parte do PROANTAR – Programa Antártico Brasileiro. Criado em 1982, já realizou, por ano, vinte projetos de pesquisas, nas áreas de oceanografia, biologia marinha, glaciologia, geologia, meteorologia e arquitetura, além de permitir à Marinha do Brasil, com o apoio da FAB – Força Aérea Brasileira, realizar uma das maiores operações de apoio logístico, em termos de complexidade e distância. Pesquisas científicas de qualidade estão sendo desenvolvidas desde a década de 1980, requisito fundamental para o Brasil fazer parte do seleto grupo mundial de apenas 29 países que definem o futuro do Continente Branco no Tratado Antártico. O tratado da Antártica entrou em vigor em 1961. Por ele os países têm direito a exploração científica do continente em regime de cooperação internacional. A Antártica, o espaço e os fundos oceânicos constituem as últimas grandes fronteiras ainda a serem totalmente conquistadas pelo homem (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, 2019). FINALIZANDO Chegamos ao fim de mais uma aula. Falamos sobre os conceitos que definem desenvolvimento sustentável e outros conteúdos relacionados. A abordagem histórica permitiu uma reflexão sobre como o Brasil cresceu na defesa do meio ambiente e enfrentou as críticas ao longo do ano. Críticas que ainda enfrenta e apontam para necessidades de investimentos no setor para a superação dos desafios que vêm sendo impostos. Podemos dizer que os investimentos em tecnologia, com regulamentações, poderão ser muito úteis para o crescimento econômico, com a preservação do meio ambiente. Essa realidade não está restrita ao país com a maior área da Amazônia, mas a todo o mundo, pois todos devem trabalhar em cooperação submetendo os interesses políticos aos interesses pela manutenção dos recursos para esta e para futuras gerações. 35 REFERÊNCIAS ALMEIDA, F. O bom negócio da sustentabilidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. A ONU e o meio ambiente. ONU Brasil, S.d. Disponível em: . Acesso em: 5 dez. 2019. ASCOM. MCTIC, Anatel, Marinha do Brasil e Oi inauguram a nova base de telecomunicações na Antártica. Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, 10 mar. 2019. Disponível em: . Acesso em: 9 dez 2019. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). Série ISO 14000. Rio de Janeiro: ABNT, 1996. _____. NBR ISO 26000:2010: diretrizes sobre responsabilidade social. ABNT: Rio de Janeiro, 2010. BRASIL. Decreto n. 9.073, de 5 de junho de 2017. 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