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ANTROPOLOGIA DA RELIGIÃO Prof. Dr. José Luiz Izidoro Prof. Guilherme Bernardes Filho Diretor Presidente Prof. Aderbal Alfredo Calderari Bernardes Diretor Tesoureiro Prof. Frederico Ribeiro Simões Reitor UNISEPE – EaD Prof. Melquisedeque de Jesus Santos Coordenador EaD de área Prof. Dr. Renato de Araújo Cruz Coordenador Núcleo de Ensino a distância (NEAD) Material Didático – EaD Equipe editorial: Fernanda Pereira de Castro - CRB-8/10395 Isis Gabriel Alves Pedro Ken-Iti Torres Omuro Prof. Dr. Renato de Araújo Cruz – Editor Responsável Apoio técnico: Alexandre Meanda Neves Anderson Francisco de Oliveira Douglas Panta dos Santos Galdino Fabiano de Oliveira Albers Gustavo Batista Bardusco Kelvin Komatsu de Andrade Matheus Eduardo Souza Pedroso Vinícius Capela de Souza Revisão: Isabela da Silva Pery, Vanessa Schreiner, Débora de Freitas Dias Diagramação: Diego Macedo Pedroso, Nikolas Fellipe de Morais SOBRE O AUTOR: José Luiz Izidoro Nascido em Iguape, Estado de São Paulo. Possui graduação (bacharelado) em Teologia pelo Instituto Teológico de São Paulo (1995); graduação (licenciatura plena) em Filosofia pela Universidade Faculdades Associadas do Ipiranga (1988); mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2005), com ênfase em Antropologia; doutorado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2010), com ênfase em Antropologia e Historiografia antiga; e pós-doutorado em Ciências da Religião pela UMESP (2013), com ênfase em Antropologia e Teorias da Linguagem. Possui estágio de experiência intercultural no Equador e América Central por oito anos. Possui o curso de Língua Espanhola pela PUC de Quito - Equador. Possui o curso de Língua Inglesa pela English School of Maynooth - Irlanda. Possui experiência de Administração Educacional como Vice Reitor pelo Centro de Ensino Superior de Ensino - CES - e como Vice-Diretor pelo Colégio Cristo Redentor - Juiz de Fora por quatro e cinco anos respectivamente. Está na carreira docente, em escola pública e faculdades particulares, desde 1987. Possui estágio de atualização acadêmica em Bíblia, Teologia e Espiritualidade, realizado na Holanda e na Itália em 2016. Foi professor do Instituto São Tomás de Aquino (ISTA) em Belo Horizonte - MG, no curso de pós graduação latus sensus em CIÊNCIAS DA RELIGIÃO, com a disciplina de ANTROPOLOGIA DA RELIGIÃO. Possui experiências com o ensino a distância (ISTA - Montes Claros) com as disciplinas ECUMENISMO E DIÁLOGO INTERRELIGIOSO e HISTÓRIA COMPARADA DAS RELIGIÕES. Atualmente é professor de Filosofia na UNISEPE, Registro, SP. Atua como pesquisador no grupo de pesquisa Religião, Ecologia e Modernidade da PUC-Minas. Atua principalmente nos seguintes temas: cristianismo, sociologia da religião, religiões, experiências do sagrado e contemporaneidade, religiosidades, espiritualidades, diálogo inter-religioso, ecumenismo, Bíblia, culturas, etnias, antropologia, sociologia, filosofia, sociedades, políticas públicas, identidades, semiótica da cultura, realidade latino-americana. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/4642500737287289 SOBRE A DISCIPLINA: A disciplina de Antropologia da Religião tem o objetivo de apresentar a Religião na perspectiva das ciências sociais, sobremaneira da Antropologia. Se trata de um olhar científico e de aproximação aos estudos das religiões no horizonte das culturas. Serão apresentadas três unidades, cada unidade terá dois capítulos, que terão os seguintes conteúdos: Cultura e religião, O homem e a experiência religiosa na história e nas sociedades, O locus religioso no mundo contemporâneo e a memória cristã, Ética e religião, Diálogo e tolerância entre as religiões e As discussões sobre a religião nos espaços públicos. Desejamos êxito aos alunos e alunas do curso de Teologia da UNISEPE – UNIVR. http://lattes.cnpq.br/4642500737287289 Os ÍCONES são elementos gráficos utilizados para ampliar as formas de linguagem e facilitar a organização e a leitura hipertextual. SUMÁRIO UNIDADE I ........................................................................................... 05 1º Cultura e religião................................................................... 05 2º O homem e a experiência religiosa........................................... 12 UNIDADE II ........................................................................................... 22 3º O locus religioso no mundo contemporâneo e a memória cristã...... 22 4º Ética e religião...................................................................... 30 UNIDADE III .......................................................................................... 38 5º Diálogo e tolerância entre as religiões....................................... 38 6º As discussões sobre a religião nos espaços públicos................... 47 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................... 55 5 UNIDADE I CAPÍTULO 1 - CULTURA E RELIGIÃO No término deste capítulo, você deverá saber sobre: ✓ A religião enquanto sistema cultural; ✓ As perspectivas da religião; ✓ A religião como chave de compreensão do ser humano; ✓ O sagrado como ascese. Introdução Cultura e religião são temas recorrentes nos debates atuais sobre as religiões, sobretudo nos estudos comparados das religiões, nas ciências sociais e em ciências da religião. Quanto às ciências sociais sobremaneira em antropologia da religião, se conecta o objeto da pesquisa, isto é, a religião, na sua dimensão fenomenológica e os métodos enquanto ferramentas de análise e com o rigor científico. Certamente temos que manter as devidas distâncias entre o rigor científico aplicado à análise dos fenômenos religiosos, as produções teológicas ondem emergem os elementos confessionais e as próprias experiências religiosas ou as diferentes religiosidades. Nosso foco é o antropológico, pois a religião é concebida no seio das culturas das diferentes sociedades e suas representações simbólicas evocam as mais deferentes formas de vida religiosa, onde o mistério do sagrado se entrelaça com o cotidiano da vida. A religião pode ser uma das grandes chaves para a compreensão do ser humano. Ela evoca, por meio de seus ritos e representações simbólicas, a própria identidade individual e também dos grupos socioculturais. O sagrado se constitui como movimento espiritual humano que está na própria essência do ser humano, cuja dinâmica é a ascese. Consiste no exercício interior, que é um processo, um caminho para uma experiência espiritual, e que tem como ferramenta principal a oração, cujo objetivo é o discernimento da consciência humana. Assim, a religião em sua prática torna-se muito complexa em suas manifestações, de rituais, textos, fórmulas, etc., bastante fluidos e diferenciados, evocando diferentes significados em consonância com as buscas infindáveis do ser humano e estabelecendo um componente significativo para os estudos e pesquisas acadêmicas. 1.1 A religião enquanto sistema cultural - Os estudos antropológicos Todas as religiões apresentam os seus símbolos ou sistema simbólico, isto é, símbolos de desenhos, prédios, imagens, vitrais, locais de culto, objetos sagrados, músicas, rituais, coisas através das quais a pessoa identifica aquela religião metaforicamente e na busca de sentido para a sua vida. Todas as religiões externam aquilo que elas acreditam por meio de imagens materiais ou imateriais. O conceito de cultura denota um padrão de significado transmitido historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens se comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida. Os símbolossagrados funcionam para sintetizar o ethos de um povo – o tom, o caráter e a qualidade da sua vida, seu estilo e disposições morais e estéticas – e sua visão de mundo (GEERTZ, 1989, p. 66-67). 6 Para Clifford Geertz: uma religião é um sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosos, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas concepções com tal aura de fatualidade que as disposições e motivações parecem singularmente realistas (1989, p. 67). A religião pode ser uma das grandes chaves para a compreensão do ser humano. Ela evoca, por meio de seus ritos e representações simbólicas, a própria identidade individual e também dos grupos socioculturais. Essa realidade se torna presente quando perguntamos se sou cristão católico, cristão evangélico, judeu, islâmico, budista, hindu ou de fé pessoal, mas não frequento nenhuma instituição, ou se sou ateu, agnóstico, cético. A fé é campo pessoal, subjetivo, sentimento interior, convicção do ser humano; a religião é coletiva, pressupõe junção de muitos tipos de fé, muitas pessoas que se agrupam em grandes unidades, religiões menores e religiões maiores. Quando se fala em convicção pessoal, se fala de campo interno, muito difícil de ser demonstrado, ou seja, aquela pessoa que diz com total veracidade de seu mundo: eu sinto dentro de mim que existe um Deus, sinto dentro de mim forças superiores, sinto que elas me protegem, forças que me dão destinos e que há vida após a morte, isso já é um grande recorte para a ideia de fé. Por sua vez, quando uma pessoa frequenta uma sinagoga, mesquita, Igreja, rito católico ou evangélico, ou alguma cerimônia judaica, ou islâmica, a fé se torna mais externa, mais social. Nesse caso, a religião se torna um fenômeno sociológico que torna externo e objetivo o que emerge inicialmente como fenômeno subjetivo e individual. Hoje, no mundo do século XXI, a religião está sendo muito subjetiva, aí podemos chamar de customização da fé ou customização das religiões. Cada indivíduo pega do campo religioso e às vezes mistura-se diversas tradições, aquilo que mais agrada seu universo, o que mais diz respeito à sua convicção. Religião é fundamental, sem ela não há sentido em grande parte da arte, da literatura, da gramática da sociedade, pois elas se relacionam com as ideias que as pessoas têm do além, do sagrado e da vida após o plano terrestre. Se estudamos o período da história medieval, sobretudo no auge do teocentrismo e logo no início da história moderna, com o movimento do renascimento, então constatamos a presença, a importância e a vivacidade da religião por meio da arte (os vitrais das catedrais), da escultura, da arquitetura, entre outras expressões artísticas. Daí surge um pensamento: como refletir sobre as religiões? Existem algumas maneiras para se entender a análise religiosa, isto é, pode-se pegar os conceitos como orações, rituais, sacrifícios, jejuns, liturgias, símbolos religiosos, etc. e estabelecer com isso os componentes de estudos sobre as religiões, tanto no seu campo fenomenológico como hermenêutico? O termo fenomenologia, ou seja, a ciência que estuda, que investiga os fenômenos reais ou não, de que maneira eles se apresentam na consciência humana, veio da filosofia para a questão religiosa. Para Aldo Natale Terrin, a fenomenologia da religião repete o estudo comparado das religiões, porém num nível mais profundo, uma vez que tem a convicção de que é possível chegar à essência da religião e captar sua própria verdade e a da experiência religiosa (2003, p. 29). A história das religiões não pretende apenas informar e oferecer dados, mas quer também oferecer seu método específico de pesquisa. Os pontos de maior evidência, considerados segundo a perspectiva do método, poderiam ser assim resumidos, segundo Aldo Natale Terrin: 7 ...em primeiro lugar, a história das religiões utiliza um estudo meticuloso das fontes das respectivas línguas originais (estudo de textos sagrados e dos documentos mais importantes); em segundo lugar, demonstra especial preocupação com o estudo das religiões na linha vertical, isto é, segue o desenvolvimento histórico e as passagens internas que ocorrem no tempo; em terceiro lugar, a história das religiões procurou e procura manter certa neutralidade diante do objeto de seu estudo, isto é, a própria religião, para não comprometer o caráter científico da pesquisa. Ressalta-se que esse ponto de vista será um dos mais contestados por outras disciplinas, especialmente pela fenomenologia da religião; enfim, a história das religiões apresenta-se como uma disciplina altamente especializada em seu setor, em seu campo de pesquisa, razão pela qual tem como consequência também outra limitação: não pode ter a pretensão de chegar a um conhecimento específico de todas as religiões. Cada historiador das religiões é especialista em uma religião, mas conhece as outras religiões apenas indiretamente. Assim, um estudioso de religiões ou é budólogo e indólogo, ou é grecista, ou é egiptólogo etc. (2003, p. 20). Desse modo, os estudos das religiões para a ciência das religiões se tornam um importante e necessário exercício investigativo para a aproximação da religião enquanto fenômeno sociocultural, que se desenvolve de maneira individual e coletiva nas diferentes sociedades e culturas e que, por sua função, estabelece o sentido existencial, espiritual, psicológico e social e no contexto das culturas, se destacando pelos estudos da antropologia da religião. 1.2 Perspectivas da Religião O sagrado se constitui como movimento espiritual humano que está na própria essência do ser humano, cuja dinâmica é a ascese, do grego ἀσκέω, "se esforçar, procurar" (Eis por que também eu me esforço por manter uma consciência irrepreensível constantemente, diante de Deus e diante dos homens – Atos dos Apóstolos, cap. 24, 16). Consiste no exercício interior, que é um processo, um caminho para uma experiência espiritual e que tem como ferramenta principal a oração, cujo objetivo é o discernimento da consciência humana. Essa experiência deve ser vivida no núcleo mais íntimo de cada pessoa, de seus sentimentos, de sua consciência e de sua afetividade. A ascese da humanidade cria um movimento espiritual que extrapola a dimensão humana e aí emerge o transcendente. É o mais profundo do ser humano. Quanto mais humano somos, mais tocamos o divino dentro de nós mesmos e aí emerge a conexão do humano com o sagrado. Na pluralidade das experiências religiosas e do sagrado emerge a diversidade de perspectivas da religião e como vão se arquitetando em sua materialidade, isto é, nas igrejas e templos sagrados. O enfoque do historiador não é dizer que uma religião é viva ou morta, mas entender a força que transforma, que une, que dá características, que faz crescer, expandir e que assume as diversas formas que cada religião concebe o mundo, passado ou presente, nas diferentes sociedades e culturas. Assim, a religião em sua prática torna-se muito complexa em suas manifestações, de rituais, textos, fórmulas, etc., bastante fluidos e diferenciados, evocando diferentes significados em consonância com as buscas infindáveis do ser humano. Também se faz importante pensar as religiões monoteístas, aquelas que concebem a existência de um único Deus, criador de tudo, onipotente, onisciente, onipresente e pensar as religiões politeístas, dualistas, religiões animistas, que concebem a ideia de Deus de diferentes maneiras. Aqui dá-se a importância dos estudos comparativos das religiões, onde se estabelecem os eixos comuns das religiões a partir do método comparativo. 8 O tema religião não foi muito tratado pelos historiadores do passado, ou era tratado num recorte amplo que chamamos de sociedade. A mudança começa no século XIX, com Émile Durkheim, sociólogo e antropólogofrancês, nascido em 1858 e falecido em 1917, que lançou as formas elementares da vida religiosa tentando distinguir a religião da magia, e também Rudolf Otto – teólogo alemão nascido em1869 e falecido em 1937, autor da obra O Sagrado, publicada pela primeira vez em 1917. Essa obra de Rudolf Otto foi considerada uma das mais importantes do século XX e é mais conhecida do público pelo seu conceito de numinoso, que significa aquela emoção espiritual que desperta ou inspira aquelas qualidades e virtudes conectadas com o sagrado e o seu mistério. Outros estudiosos das religiões se destacaram na pesquisa sobre o tema, entre eles Aldo Natale Terrin (1942), Giovanni Filoramo (1945), Carlo Prandi (1931), entre outros. Também podemos mencionar outros autores que se sobressaíram com o tema da religião, que passa pela filosofia, sociologia, psicologia, antropologia e teologia. No artigo de Adriani Milli Rodrigues: “Religião, teologia e antropologia: o confronto entre Karl Barth e Ludwig Feuerbach”, a autora menciona alguns autores, citando Weber e Harvey. Segundo Adriani, para Weber (1966, p. 28) Feuerbach foi o precursor de Marx, Nietzche e Freud, pois sua teoria da religião permanece como modelo geral da explicação psicológica e sociológica da origem e natureza da religião que domina o mundo moderno. Já para Harvey (1997, p. 30), a partir de sua análise religiosa, Feuerbach antecipou muitos temas do século XX, tais como a teoria marxista da alienação, a ênfase freudiana no papel do desejo, a ênfase empirista na experiência sensível, a preocupação fenomenologista com o corpo e a preocupação existencialista com o confronto da consciência com a ansiedade e a morte. Considerações finais A religião pode ser uma das grandes chaves para a compreensão do ser humano. A fé é campo pessoal, subjetivo, sentimento interior, convicção; a religião é coletiva, pressupõe junção de muitos tipos de fé, muitas pessoas que se agrupam em grandes unidades, religiões menores e religiões maiores. Quando se fala de convicção pessoal, se fala de campo interno, muito difícil de ser demonstrado, ou seja, aquela pessoa que diz com total veracidade de seu mundo: eu sinto dentro de mim que existe um Deus, sinto dentro de mim forças superiores, sinto que elas me protegem, forças que me dão destinos e que há vida após a morte, isso já é um grande recorte para a ideia de fé. Nos dias atuais, a religião está sendo muito subjetiva e cada indivíduo pega do campo religioso e às vezes mistura-se diversas tradições, aquilo que mais agrada seu universo, o que mais diz respeito à sua convicção. Na pluralidade das experiências religiosas e do sagrado, emergem a diversidade de perspectivas da religião e como vão se arquitetando também em sua materialidade, isto é, nas igrejas e templos sagrados, por meio de seus ritos e símbolos, sendo esse um vasto campo para os estudos das religiões nos diferentes contextos históricos das sociedades e das culturas. A religião, por meio de seus símbolos, tem a função de sintetizar o modo de vida de determinado povo e cultura, isto é, reúne os elementos principais constitutivos do ethos de um povo e da visão que ele tem do mundo. Assim, todas as religiões externam aquilo que elas acreditam por meio de imagens materiais ou imateriais. 9 Daí surge um pensamento: como refletir sobre as religiões? Existem algumas maneiras para se entender a análise religiosa, pode-se pegar os conceitos como orações, rituais, sacrifícios, jejuns, liturgias, símbolos religiosos, etc. e estabelecer com isso os componentes de estudos sobre as religiões, tanto no seu campo fenomenológico como no hermenêutico? Tais questões são respondidas, enquanto tentativas, pelas inúmeras bibliografias que tratam o tema “religião e cultura”. Desse modo, os estudos das religiões para a ciência das religiões se tornam um importante e necessário exercício investigativo para a aproximação da religião enquanto fenômeno sociocultural, que se desenvolve de maneira individual e coletiva nas diferentes sociedades e culturas. Os símbolos sagrados funcionam para sintetizar o ethos de um povo – o tom, o caráter e a qualidade da sua vida, seu estilo e disposições morais e estéticos – e sua visão de mundo (GEERTZ, 1989, p. 66-67). A religião pode ser uma das grandes chaves para a compreensão do ser humano. Ela evoca, por meio de seus ritos e representações simbólicas, a própria identidade individual e também dos grupos socioculturais. Para Clifford Geertz, uma religião é um sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosos, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas concepções com tal aura de fatualidade que as disposições e motivações parecem singularmente realista (1989, p. 67). O sagrado se constitui como um movimento espiritual humano que está na própria essência do ser, cuja dinâmica é a ascese, do grego ἀσκέω, "se esforçar, procurar" (Eis por que também eu me esforço por manter uma consciência irrepreensível constantemente, diante de Deus e diante dos homens – Atos dos Apóstolos, cap. 24, 16). Investigue nos dicionários o conceito de ascese e compare com o conceito em Atos dos apóstolos 24,16. 10 ............................................. para a compreensão do ser humano. Ela evoca, por meio de seus ritos e representações simbólicas, a própria identidade individual e também dos grupos socioculturais. A) A religião pode ser uma das grandes chaves B) A religião não pode ser uma das grandes chaves C) A cultura pode ser uma das grandes chaves D) Os grupos sociais podem ser uma das grandes chaves E) A mística pode ser uma das grandes chaves A resposta correta: A, pois é também por meio da religião que se pode compreender o ser humano. O tema religião não foi muito tratado pelos historiadores do passado ou foi tratado num recorte amplo que chamamos de sociedade. ..................................... com Émile Durkheim, sociólogo e antropólogo francês, que lançou as formas elementares da vida religiosa e tentava distinguir a religião da magia. A) A mudança começa no século XX B) A mudança começa no século XIX C) A mudança começa no século XVIII D) A mudança começa no século XVII E) A mudança começa no século XVI A PERSPECTIVA DO SAGRADO NA OBRA DE RUDOLF OTTO Autor: Bruno de Oliveira Silva Portela Resumo: O objetivo desse artigo é apresentar a concepção de Rudolf Otto acerca da experiência religiosa, o Sagrado, numinoso e suas categorias, além de apontar para o sentimento que a experiência religiosa provoca no ser humano. Otto destaca que o elemento essencial da experiência religiosa é o Sagrado. O Sagrado, entretanto, não se confunde com a pureza moral, nem com os elementos de uma ética religiosa, ele possui os elementos racional e irracional. O elemento racional possui aspectos mais imanentes, que se deixam ser conceituados pela linguagem e estão presentes nas elaborações reflexivas do ser humano. O elemento irracional, por sua vez, é aquele que extrapola os limites da linguagem, possuindo atributos sobre os quais o ser humano não se assenhora. Ele leva o ser humano a apenas sentir e se reconhecer num sentimento de criatura diante da realidade maior do que ele. A esse elemento transcendente, Otto dá o conceito de numinoso. 11 https://www.youtube.com/watch?v=zj9r0J9Os9E Faustino Teixeira - O ritmo encantado das religiões no Brasil – 5 set.2019 O tema religião não foi muito tratado pelos historiadores do passado, ou foi tratado num recorte amplo que chamamos de sociedade. A mudança começa com Émile Durkheim. Amplie o seu conhecimento e saiba mais. Leia Émile Durkheim (1996). As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São Paulo: Martins Fontes, 1996. Resposta correta: B https://www.youtube.com/watch?v=zj9r0J9Os9Ehttps://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89mile_Durkheim http://books.google.com.br/books/about/As_formas_elementares_de_vida_religiosa.html?id=PqGiAAAACAAJ&redir_esc=y http://books.google.com.br/books/about/As_formas_elementares_de_vida_religiosa.html?id=PqGiAAAACAAJ&redir_esc=y https://pt.wikipedia.org/wiki/Martins_Fontes 12 UNIDADE I CAPÍTULO 2 - O HOMEM E A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA No término deste capítulo, você deverá saber sobre: ✓ O contexto religioso no mundo contemporâneo; ✓ O fenômeno religioso, suas interpretações e suas implicações na formação das sociedades; ✓ O contexto gerador dos movimentos religiosos emergentes; ✓ A desregulação do religioso ou desregulação institucional. Introdução A religião torna-se um dos principais caminhos para a compreensão do ser humano. Porém, dada a complexidade de se compreender o ser humano no estágio em que nos encontramos na sociedade contemporânea, também se exige novas metodologias e ferramentas próprias das ciências sociais para uma análise mais profunda das culturas e das sociedades. Contudo, no mais profundo do ser humano reside o mais profundo da força do sagrado que alimenta aquela dimensão transcendente e metafísica. Por isso, religião é o religar do humano ao divino, ao transcendente, por meio das representações simbólicas, das imagens, dos ritos e da ascese. Temos que compreender o fenômeno religioso dentro de um contexto de rápidas e significativas mudanças socioculturais e cósmicas e, por isso, de maneira “buliçosa e inquieta”, inserido nos diferentes espaços institucionais e sistemas culturais. Contudo, ele também é disseminado amplamente nos diversos espaços do cotidiano como “vivência do sagrado e do espiritual”, revestido de “força e de poder”. Os estudiosos que pesquisam as religiões contextualizam o surgimento das novas formas religiosas vendo-as como um produto de respostas das sociedades aos processos de secularização, globalização, fragmentação e individualização. Todos esses novos movimentos religiosos têm em conta os novos desafios que são impostos pelas novas conjunturas mundiais. Os movimentos religiosos emergentes, que surgem mais ou menos nos anos 60, principalmente na Europa, no Brasil, nos Estados Unidos, Japão etc., foram resultados das profundas mudanças nas sociedades. Tais mudanças se davam no âmbito social, político e cultural, sobretudo no contexto pós-guerra, cujo movimento se denominava contracultura. Nesse contexto de mudanças socioculturais, políticas, econômicas, ideológicas e também de mobilidade religiosa se desenvolvem os movimentos que emergem enquanto experiência religiosa ou espiritualidade. 2.1 O contexto religioso no mundo contemporâneo A Modernidade e a Pós-modernidade mostram o seu poder paradoxal e ambíguo. Secularização da sociedade e, ao mesmo tempo, revitalização e renovação do universo religioso. Duas faces de uma mesma moeda cuja lógica está na interação dialética do moderno que desabriga a religião e, nesse desabrigar, lhe possibilita novas moradas, conquanto mais esparsas e menos institucionais e influenciáveis no todo social (PORTELLA, 2006, p. 77). Para Antônio Flávio Pierucci, secularização 13 e efervescência religiosa não se obstam, mas se combinam e polinizam-se (apud PORTELLA, 2006, p. 77). Não podemos afirmar ligeiramente que a religião ou as religiosidades estão em declínio, decadência, diminuindo ou até mesmo desaparecendo nas sociedades contemporâneas. Temos que compreender o fenômeno religioso dentro de um contexto de rápidas e significativas mudanças socioculturais e cósmicas e, por isso, de maneira “buliçosa e inquieta”, inserido nos diversos espaços institucionais e sistemas culturais. Contudo, ele também é disseminado amplamente nos diferentes espaços do cotidiano como “vivência do sagrado e do espiritual”, revestido de “força e de poder”. Silas Guerriero afirma que: Não houve um desencantamento do mundo e, em consequência, também não houve o reencantamento da pós-modernidade. Não houve desencantamento, pois não chegou a termo a racionalização dos objetos sacrais por parte da própria religião, nem a magia desapareceu e nem as entidades sobrenaturais deixaram de conviver com os personagens sociais. O crente também nunca se desencantou. Continua vivendo num mundo encantado. Podemos dizer que o mundo não está encantado da mesma maneira de antes, mas que, de alguma maneira, o encantamento permanece (in SOUZA e MARTINO – orgs., 2004, p. 168). Desse modo, o sagrado se dispõe em suas representações simbólicas e mistéricas a partir de novas configurações, novas ressignificações e de acordo com os novos perfis e vieses dos diferentes tecidos socioculturais. Nas palavras de Robert Schreiter “o mundo hoje, considerado em sua totalidade, pode ser mais religioso do que era há vinte anos” (in: Revista Concilium, 2011, p. 29). A religião, que se expressa nas diferentes formas de crenças e com distintos símbolos e ritos, continua existindo de maneira disseminada, fluida, subjetiva e autônoma, onde se articulam os símbolos, as representações comuns, as improvisadas imagens que emergem na singularidade dos desejos e das necessidades existenciais e afetivas do “homem religioso”. A religião continua a existir e coexistir de maneira fragmentada e interativa em suas experiências e livre das forças reguladoras e até mesmo institucionais de controle. Para Silas Guerriero, a secularização possibilitou o avanço do pluralismo e do trânsito religioso, uma vez que não havendo as amarras das instituições religiosas, o indivíduo pode manipular os bens simbólicos construindo seus arranjos religiosos sem medo de quebrar o eixo central onde está apoiado ((in SOUZA e MARTINO – orgs., 2004, p. 168). No âmbito da autonomia e da liberdade de escolhas e opções, as sociedades contemporâneas tecem sua teia, no emaranhado dos tecidos socioculturais e religiosos, como estratégia de espaços alternativos de sentido e de equilíbrio entre a humanidade, a natureza e o cosmo. A crise institucional possibilita a vivência das experiências sagradas no âmbito pessoal, na articulação coletiva das individualidades e na criação de espaços e de comunidades de pertencimento para viver sua subjetividade mística e religiosa. De acordo com Terrin, é o novo “romântico”, o “subjetivo” do nosso olhar sobre o mundo que, a partir da nossa subjetividade, nos permite prestar atenção ao novo modo de ver “crenças” tão variadas, tão difíceis de decifrar e ao mesmo tempo tão importantes (2004, p. 9). Existe um movimento sincrônico de desencantamento e reencantamento do mundo na contemporaneidade. Para Claude Geffré, diante da angústia provocada pelo vazio de sentido e o fim 14 das ideologias do progresso, da ciência, do socialismo há uma aspiração geral pela função tutelar do sagrado, que desempenha o papel da mãe original (2013, p. 216). A pós-modernidade não seria outra coisa que o esgotamento do projeto moderno da metafísica clássica, da maneira de interpretar o ser como presença, como algo de fixo, de rígido e incapaz de acolher as identidades alheias, as diferenças culturais e religiosas. O abandono da metafísica forte em favor de uma débil deveria ajudar não apenas a Igreja, mas também as estruturas políticas ocidentais a elaborar projetos e morais mais tolerantes e atentas ao pluralismo típico do fim da modernidade (in: REB 72 – Revista Eclesiástica Brasileira, 2012, p. 630, 632). 2.2 O fenômeno religioso, suas interpretações e suas implicações na formação das sociedades Segundo Donizete Rodrigues, em tempos mais recentes, em função do reencantamento do mundo, da revalorização da religião, materializada na proliferação de novos movimentos religiosos e na privatização da vida religiosa, o denominado sistema, self-service religioso, onde cada pessoa pode criar a sua própria maneira de buscar e viver o religioso, a teoria da secularização, estãosendo fortemente criticados. Temas como a secularização e sectarismo dominaram os estudos sociológicos e antropológicos nos anos 70 do século XX e os novos movimentos religiosos despertaram grande interesse a partir dos anos de 1980-90 que continua até hoje. A fragmentação e a privatização da religião, a desterritorialização do espaço religioso e o grande aumento do mercado dos bens simbólicos provocaram o fim do monopólio das religiões/Igrejas históricas (2008, p. 34-35) e abriram espaços para o emergir de novas formas religiosas. Essas novas formas da vida religiosa exigem novos métodos para a sua interpretação, tendo em vista suas implicações na formação das sociedades. Os estudiosos que pesquisam as religiões contextualizam o surgimento das novas formas religiosas vendo-as como um produto de respostas das sociedades aos processos de secularização, globalização, fragmentação e individualização. Todos esses novos movimentos religiosos têm em conta os novos desafios que são impostos pelas novas conjunturas mundiais. O uso do termo novos exige normalmente que o grupo religioso que emerge seja diferente dos já existentes. A diferença aplica-se à vivência da fé que pode contrariar as regras e os credos de outras religiões e grupos religiosos considerados oficiais. Essas novas formas de vida religiosa emergem em diferentes contextos históricos, quando tirados do seu contexto histórico tradicional, e quando surgem apresentam novos rostos e novas formas modificadas, novas metodologias e novas práticas religiosas, com uma variação em termos de lideranças, de organização e de concepção ética familiar. A religião em seu formato tradicional de Dossel Sagrado (BERGER, 1967) já não oferece, em sua totalidade, aquela proteção e a guarda aos indivíduos que a buscavam e que a aderiam para a sua vida. Contudo, a religião, quando já não responde as inquietações e os desejos manifestados pelos indivíduos, poderá se apresentar, na perspectiva de seus buscadores, com nova configuração, isto é, como novos movimentos religiosos. Portanto, se especula que essa dinâmica é resultado da dinâmica global contemporânea. Existem as diferentes e múltiplas ofertas religiosas que se traduzem nesses novos movimentos religiosos que atendem as diferentes e múltiplas necessidades e que cada vez mais tomam um caráter particular. 15 Na opinião de Eliane Hojaij Gouveia, as comunidades sagradas modernas, fragmentadas, pluralizadas abrem-se para o encontro com as diversas linguagens e conectam-se às novas redes de comunicação à distância, utilizam-se dos novos e velozes meios de transporte e comunicação de massa. As comunidades religiosas tornam-se móveis, desterritorializadas e propiciam aos seus adeptos o direito a uma pertença também móvel e transitória, bem como propiciam aos fiéis variados encontros com parceiros de fé. Tais parceiros religiosos costumam ter as mais diversas origens étnicas e são provenientes dos mais diversos locais das cidades, do planeta e dos mais variados níveis socioeconômicos (SOUZA; MARTINHO – orgs., 2004, p. 152). No contexto das sociedades contemporâneas ocorre um processo de assimilação e de adaptação das diferentes religiões, religiosidades e das múltiplas espiritualidades para um reencantamento do mundo. A religião como componente histórico, socioantropológico e teológico é uma realidade permanente dos grupos humanos e está em constante mudança de acordo com os movimentos das sociedades, portanto, jamais desaparecerá. Ela surge e ressurge com novos rostos e novas configurações, o que exige um olhar diferenciado no que se refere ao fenômeno religioso e suas diferentes interpretações. 2.3 O contexto gerador dos movimentos religiosos emergentes Os movimentos religiosos emergentes, que surgem mais ou menos nos anos 60, principalmente na Europa, no Brasil, nos Estados Unidos, Japão etc., foram resultados das profundas mudanças nas sociedades. Tais mudanças se davam no âmbito social, político e cultural, sobretudo no contexto pós-guerra, cujo movimento se denominava contracultura. Contracultura era um movimento que teve seu auge na década de 1960, era um estilo de mobilização e de contestação social que utilizava novos métodos e meios de comunicação em massa. Foi um movimento apreciado, sobretudo pelos jovens a partir de uma crítica social. Os jovens inovavam seus estilos de vida, se aproximando mais a uma atitude antissocial aos olhos dos grupos conservadores. Nesse contexto de mudanças socioculturais, políticas, econômicas e ideológicas e também de mobilidade religiosa, se desenvolvem os movimentos religiosos emergentes. De acordo com Donizete Rodrigues, os crentes, os fiéis, ao encontrarem, ao longo de suas vidas, outras alternativas religiosas, ou melhor, outros caminhos para se chegar à salvação da alma, abandonam a Igreja ou confissão religiosa original e mudam de confissão religiosa, de religião ou de Igreja. No caso específico do Brasil e de Portugal, partindo da Igreja Católica Romana, considerada, durante séculos, como a única instituição religiosa capaz de guiar o Homem no caminho da salvação, os fiéis transitam para os novos movimentos religiosos ou outras práticas alternativas (2008, p. 32). Desse modo, é compreensível que, em um contexto social conturbado, complexo e com grandes problemas econômicos e sociais, a atitude dos movimentos religiosos emergentes sejam flexíveis e de acesso a todas as pessoas, com um pensamento otimista, um discurso adaptado à nova realidade histórica e um discurso teológico e eclesiológico voltado para a prosperidade e para as promessas de salvação imediata. Esses componentes constituem como força e autoridade para a aceitação popular e para o crescimento global dos mesmos, num contexto de crise institucional das religiões oficiais e no ensejo de se criar novas identidades religiosas. https://pt.wikipedia.org/wiki/Contracultura_da_d%C3%A9cada_de_1960 https://pt.wikipedia.org/wiki/Comunica%C3%A7%C3%A3o 16 A perda de força da observância, o desenvolvimento de uma religião à la carte, a proliferação das crenças combinadas a partir de várias fontes, a diversificação das trajetórias de identificação religiosa, o desdobramento de uma religiosidade peregrina: todos esses fenômenos são indicadores de uma tendência geral à erosão do crer religioso institucionalmente validado. Em uma França majoritariamente católica, esse fenômeno atinge de maneira particularmente visível a Igreja Romana. Porém, todas as igrejas cristãs e o conjunto das instituições religiosas se confrontam, de maneira diversa, com o enfraquecimento de sua própria capacidade reguladora (HERVIEU-LÉGER, 2015, p. 170-171). Esse processo denominado desregulação do religioso ou desregulação institucional, paralelamente, corresponde à construção de novas identidades religiosas baseadas nas trajetórias específicas dos indivíduos e suas experiências. A desregulação consiste no deslocamento da noção de verdade autorizada – que é uma revelação preservada pela instituição na figura de um profissional – para verdades constituídas pela autenticidade dos sujeitos. Tal deslocamento faculta a recomposição do campo religioso, agora baseado numa lógica plural que garante alguma transmissão e continuidade de linhagem religiosa, todavia, submetida aos processos de construção e de reconstrução das subjetividades dos indivíduos e de laços fundados em afinidades (RODRIGUES, p. 55-56). Donizete Rodrigues aponta os seguintes fatores para a expansão dos movimentos religiosos emergentes (2008, p. 33): 1. O contexto da globalização e consequente perda de identidade cultural e religiosa; 2. Aumento da insensibilidade e do individualismo do mundo moderno, em geral, e das grandes cidades, em particular; 3. Aumento dos problemas sociais e econômicos, tais como: desemprego, marginalidade, toxicodependência, prostituição, racismo, violência urbana,etc.; 4. Problemas do foro psicológico, tais como angústia, ansiedade e falta de sentido para a vida, etc.; 5. Falta de capacidade e, às vezes, interesse por parte das Igrejas históricas tradicionais para enfrentar os problemas socioeconômicos, psicológicos e espirituais da maioria da população carenciada; 6. Afastamento gradual dos fiéis da sua Igreja original, pois ela apresenta, de uma forma geral, um discurso desatualizado quanto à realidade social, cultural e religiosa de hoje; 7. No caso dos países do Terceiro Mundo, a falta de vontade política dos governantes de realizar uma verdadeira mudança na sociedade, na tentativa de resolver ou amenizar a situação de extrema pobreza em que vive a maior parte da população, isso faz com que haja um descrédito generalizado da classe política e uma valorização das obras assistenciais de organizações não-governamentais e de Igrejas e outras associações religiosas, não conotadas com o poder político. Os movimentos religiosos emergentes atuam no contexto das religiões já instituídas e nem sempre há o diálogo e o respeito mútuo entre elas. Também existe rispidez e aspereza em muitos espaços de relações interconfessionais e inter-religiosos. Como exemplo dessa realidade no contexto das sociedades contemporâneas, a Igreja, numa tentativa de proteger, garantir e perpetuar o seu poder e reconhecimento social, faz várias tentativas para impedir o progresso desses no mercado religioso, bem como sua nova atuação no contexto da privatização da prática religiosa, porém, mais se sugere uma convivência pacífica entre as diferentes compreensões e experiências religiosas, ainda que fragmentadas, pluralizadas e em constante mobilização e desterritorialização. 17 Segundo a compreensão de Elisa Rodrigues (2009, p. 56-57), a modernidade torna-se a condição principal de existência das novas alternativas religiosas, visto que é ela que provê as liberdades que garantem ao indivíduo possibilidade de livre arbítrio, de autonomia e de consciência religiosa. Inclusive, a modernidade provê condições para, contraditoriamente, o florescimento de modos religiosos fundamentalistas. Tais grupos também podem ser compreendidos na chave da rejeição aos pressupostos da modernidade. Os movimentos religiosos emergentes expressam uma tentativa criativa de sobrevivência da religião na era secular. Menos como um protesto sociorreligioso e mais como um beliscão que serve para a explicitação de que, entre público e privado, cada vez mais as fronteiras tornam-se imprecisas e isso garante à religião o entre lugar, a possibilidade de não ser moderna tampouco antimoderna. Contudo, o verdadeiro locus do sagrado é o corpo e os corpos como espaço de manifestação das diferentes linguagens religiosas e que se apresentam por meio dos ritos, dos símbolos e das diferentes narrativas míticas. Para Emerson José Sena da Silveira (IZIDORO; WERNECK; ARAÚJO Orgs., 2019, p. 47), sagrado e dessacralização andam juntos nas sociedades pós-seculares: há espaço para múltiplas linguagens, a mítica, a científica, a acadêmica, a religiosa, a poética, a histórica. Não obstante, nos indícios aparentemente ameaçadores àquelas estruturas religiosas sólidas, fixas e reguladoras da moral social das sociedades, no entanto, não se vislumbra nenhuma investida mortal contra a religião tradicional e histórica, isto é, à Igreja. O que se vislumbra é um panorama religioso multifacetário que se desloca e vai assumindo novas identidades e fisionomias como resposta aos desafios das sociedades em mudanças. É certo também que, nas novas configurações socioculturais e religiosas, aqueles valores que eram considerados perenes no âmbito da vida e da liberdade humana estarão também em mudanças e serão deslocados, substituídos ou suprimidos. No entanto, é possível que haja lugar para todos nessa ampla casa cósmica que abriga os vários rostos do sagrado e as várias cores culturais e que exige a tolerância e o respeito às diferentes concepções da vida e às múltiplas experiências do sagrado. Faustino Teixeira compreende que: a Igreja é sinal e instrumento do Reino de Deus na história, mas não de forma exclusiva, pois o Reino se faz também presente através da atuação de outras tradições religiosas. Os outros também participam da realidade do reino de Deus. À medida que se reconhece as riquezas envolvidas nas doutrinas e práticas das outras tradições religiosas abre-se o essencial espaço para uma interpretação novidadeira do cristianismo. O verdadeiro diálogo inter-religioso acontece quando se respeita em profundidade o enigma da pluralidade religiosa em sua diferença irredutível e irrevogável. O diálogo requer uma sensibilidade nova, um despojamento profundo, uma consciência de humildade, uma busca incessante e, sobretudo, uma convicção de estar diante do solo sagrado do outro. O diálogo é, antes de tudo, um ato espiritual, pois pressupõe atenção, escuta, respeito e abertura, bem como uma atitude de confiança e entrega a um mistério sempre maior (2012, p. 175). Considerações finais O sagrado se dispõe em suas representações simbólicas e mistéricas a partir de novas configurações, novas ressignificações e de acordo com os novos perfis e vieses dos diferentes tecidos socioculturais. A religião, que se expressa nas diferentes formas de crenças e com distintos símbolos e ritos continua existindo de maneira disseminada, fluida, subjetiva e autônoma, onde se 18 articulam os símbolos, as representações comuns, as improvisadas imagens que emergem na singularidade dos indivíduos e das necessidades existenciais e afetivas do “homem religioso”. A religião em seu formato tradicional de Dossel Sagrado (BERGER, 1967) já não oferece, em sua totalidade, aquela proteção e a guarda aos indivíduos que a buscavam e que a aderiam para a sua vida. Contudo, a religião, quando já não responde as inquietações e os desejos manifestados pelos indivíduos, poderá se apresentar, na perspectiva de seus buscadores, com nova configuração, isto é, como novos movimentos religiosos. A religião como componente histórico, socioantropológico e teológico é uma realidade permanente dos grupos humanos e está em constante mudança de acordo com os movimentos das sociedades, portanto, jamais desaparecerá. Ela surge e ressurge com novos rostos e novas configurações que exigem um olhar diferenciado no que se refere ao fenômeno religioso e suas diferentes interpretações. Os movimentos religiosos emergentes atuam no contexto das religiões já instituídas e nem sempre há o diálogo e o respeito mútuo entre elas. Também existe rispidez e aspereza em muitos espaços de relações interconfessionais e inter-religiosos. Não obstante, os indícios aparentemente ameaçadores àquelas estruturas religiosas sólidas, fixas e reguladoras da moral social das sociedades, no entanto, não se vislumbra nenhuma investida mortal contra a religião tradicional e histórica, isto é, à Igreja. O que se vislumbra é um panorama religioso multifacetário que se desloca e vai assumindo novas identidades e fisionomias como resposta aos desafios das sociedades em mudança. A contemporaneidade apresenta o seu poder paradoxal e aparentemente contraditório, secularização da sociedade em suas diversas facetas e simultaneamente revitalização e mudanças do universo religioso. Dois rostos que fazem parte de uma lógica que está na força dialética do moderno que desloca e desabriga a religião e, nesse mesmo movimento, lhe possibilita novas fisionomias e novas formas de experimentá-la com mais autonomia e incidência social. O contexto religioso atual apresenta uma diversidade de experiências religiosas e espiritualidades que respondem as mudanças de ordem social, política, econômicas, cultural e existencial que emergem nas sociedades contemporâneas. Desse modo, os fenômenos religiosos devem ser compreendidos a partir das experiências religiosas, de seuprocesso hermenêutico e de suas implicações no cotidiano das pessoas e na dinâmica das diferentes culturas e sociedades. Nas novas configurações socioculturais e religiosas que emergem, aqueles valores que eram considerados perenes no âmbito da vida e da liberdade humana estarão também em mudança e serão deslocados, substituídos ou suprimidos. No entanto, é possível que haja lugar para todos nessa ampla casa cósmica que abriga os vários rostos do sagrado e as várias cores culturais e que exige a tolerância e o respeito às diferentes concepções da vida e às múltiplas experiências do sagrado. 19 Para Antônio Flávio Pierucci, secularização e efervescência religiosa não se obstam, mas se combinam e polinizam-se (apud PORTELLA, 2006, p. 77). Não podemos afirmar ligeiramente que a religião ou as religiosidades estão em declínio, decadência, diminuindo ou até mesmo desaparecendo nas sociedades contemporâneas. Temos que compreender o fenômeno religioso dentro de um contexto de rápidas e significativas mudanças. De acordo com Donizete Rodrigues, os crentes, os fiéis, ao encontrarem, ao longo de suas vidas, outras alternativas religiosas, ou melhor, outros caminhos para se chegar à salvação da alma, abandonam a Igreja ou confissão religiosa original e mudam de confissão religiosa, de religião ou de Igreja. No caso específico do Brasil e de Portugal, partindo da Igreja Católica Romana, considerada, durante séculos, como a única instituição religiosa capaz de guiar o Homem no caminho da salvação, os fiéis transitam para os novos movimentos religiosos ou outras práticas alternativas (2008, p. 32). Donizete Rodrigues aponta alguns fatores para a expansão dos movimentos religiosos emergentes (2008, p. 33). Quais são esses fatores? Investigue no 2.3 deste capítulo. 20 ........................................ não seria outra coisa que o esgotamento do projeto moderno da metafísica clássica, da maneira de interpretar o ser como presença, como algo de fixo, de rígido e incapaz de acolher as identidades alheias, as diferenças culturais e religiosas. A) A pós-modernidade B) A modernidade C) A modernidade clássica D) A antiguidade E) A era medieval Resposta correta: A, pois o forte esgotamento do projeto moderno da metafísica clássica é característica da pós-modernidade. A religião em seu formato tradicional de Dossel Sagrado já não oferece, em sua totalidade, aquela proteção e a guarda aos indivíduos que a buscavam e que a aderiam para a sua vida. Quem é o autor dessa afirmação? A) Bultmann B) Berger C) Dussel D) Beozo E) Joachim Jeremias https://www.youtube.com/watch?v=S2m0Thg4OW4 Religare - Conhecimento e Religião sobre antropologia e religião Carlos Brandão – Antropólogo Flávio Senra – Cientista da Religião https://www.youtube.com/watch?v=S2m0Thg4OW4 21 RODRIGUES, Adriani Milli. Religião, teologia e antropologia: o confronto entre Karl Barth e Ludwig Feuerbach. Horizonte, Belo Horizonte, v. 7, n. 14, jun. 2009. Resumo da autora: O objetivo desse artigo é sintetizar os principais elementos do confronto entre o pensamento do teólogo reformado Karl Barth e o do filósofo alemão Ludwig Feuerbach com relação aos temas da religião, teologia e antropologia que, na abordagem de ambos, apresentam conexão direta. Para tanto, esse estudo inicia-se com uma panorâmica apresentação feuerbachiana da interpretação antropológica da teologia e da religião, particularmente a partir de sua obra mais famosa, A essência do cristianismo, que conduz às suas conclusões de ataque à teologia e ressignificação da função da religião. A seguir, a reação de Barth às ideias de Feuerbach é contemplada a partir de sua visão teológica teocêntrica. Nesse sentido, há a exposição de duas fases da reação barthiana ao pensamento de Feuerbach. Na primeira delas, Barth apresenta certos elementos de concordância e aproveitamento das noções feuerbachianas, enquanto na segunda fase a discordância é total. Em suas conclusões, o artigo indica que o debate entre Barth e Feuerbach gira em torno da ideia de reducionismo teológico ou religioso, tão presente nos debates epistemológicos dos estudos em Ciências da Religião. Leia e saiba mais sobre o sagrado revelado: IZIDORO, José Luiz, WERNECK, Mário, ARAÚJO, Paulo Sérgio (Orgs.). O Sagrado Revelado: nas Teias Socioculturais da Contemporaneidade. São Paulo: Fonte Editorial, 2019. Resposta correta: B 22 UNIDADE II CAPÍTULO 3 - O LOCUS RELIGIOSO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO E A MEMÓRIA CRISTÃ No término deste capítulo, você deverá saber: ✓ O locus religioso no mundo contemporâneo; ✓ A memória cristã; ✓ As experiências cristãs diversificadas; ✓ Identidades cristãs Introdução A religião torna-se um dos principais caminhos para a compreensão do ser humano. É a chave para a compreensão da vida social, das práticas institucionais, para compreender as experiências cotidianas da vida e os processos de mudança socioculturais. A religião é um fator de coesão social porque produz cultura. Existem diversas formas de expressões religiosas, e estas nunca saturam o mercado, havendo oportunidades e espaço para novos grupos, que podem apresentar objetivos parecidos ou distintos, dependendo de como se articulam os interesses e as motivações para seu surgimento. Atualmente, a crença continua ocupando um espaço importante na vida das pessoas e se configura ou reconfigura de acordo com as diferentes realidades socioculturais de cada sociedade. Desse modo, a religião e as religiosidades não desaparecem, elas se desdobram, ampliam-se e diversificam-se simultaneamente. O mundo atual continua conectado à religião do ponto de vista das diferentes espiritualidades ligadas ao transcendente que convergem o humano com a natureza e com todo o cosmo numa perspectiva holística. Nessa relação, a dimensão humana transcende na própria profundidade do ser e, de uma realidade subjetiva, emerge para as diferentes realidades objetivas por meio de seus ritos, suas imagens, templos, seus escritos e sistemas simbólicos. Desde os tempos antigos, o Cristianismo esteve presente de maneira significativa em muitas geografias da região da Palestina e, também, fora desse ambiente, com uma imagem plural e diferentes tendências e identidades. Como em suas origens, atualmente o Cristianismo, ou os Cristianismos, encontram-se também em movimentos de diásporas; portanto, assumem diferentes fisionomias na constante tensão entre a tradição e as adequações oriundas do surgimento de novos quadros hermenêuticos e epistemológicos. 3.1 Memória cristã e religião na contemporaneidade Conforme mencionado com outras palavras na Unidade I, a religião torna-se um dos principais caminhos para a compreensão do ser humano. Para Donizete Rodrigues (2008, p. 17-42), em seu artigo “Novos movimentos religiosos: realidade e perspectiva sociológica”, a religião, como expressão simbólica das experiências sociais, como fenômeno social, como subsistema cultural/social, é de primordial importância na análise de todas as sociedades humanas. É a chave para a compreensão da vida social, das práticas institucionais, para entender as experiências 23 cotidianas e os processos de mudança social. Desde o surgimento da Sociologia que um tema central desta ciência é o complexo processo de secularização ou “desencantamento do mundo”, no sentido weberiano. A maioria dos teóricos, clássicos e modernos, prós ou contras, valorizaram esta problemática nas suas teorizações. Para Edson Martins (2017, p. 7-16), como conclusão de seu artigo “Novos Movimentos Religiosos: duas questões”, ele diz que é possível concluir que a religião é um fato presente na vida do ser humano desde o início da História. Ela é um fator de coesão social, produtora de cultura e pode ser benéfica ou nociva, dependendo de quem a manipula. É possível, ainda,constatar que, apesar de existirem expressões religiosas dos mais variados matizes, as religiões não saturaram o mercado, havendo espaço para o surgimento de mais grupos com propostas e objetivos ora semelhantes, ora distintos uns dos outros. É um movimento que parece não ter fim. Esse fenômeno é causado principalmente pelas mudanças sociais e pela incapacidade de as grandes religiões darem respostas rápidas às demandas das pessoas. Essa inadequação das grandes religiões abre brechas para o surgimento de grupos pequenos, com propostas bastante específicas. Dentre esses novos grupos, há aqueles que surgiram por meio de dissidências de grupos já existentes, há aqueles de matriz oriental, de matriz indígena e aqueles que praticam um visível sincretismo, fato normal quando se fala em novos movimentos religiosos. O que se conclui, portanto, é que o surgimento dos novos movimentos religiosos é fruto do espírito do nosso tempo: muita oferta para o atendimento das necessidades, que estão ficando cada dia mais particulares. Aqui também acrescentamos os grupos de matriz africana, caiçara e dos diferentes grupos de imigrantes que no Brasil se fixaram. Não se trata de pequenos grupos e, sim, de proporções de pessoas e grupos humanos que respondem, no que concerne à religião, aos desafios que se apresentam na dinâmica atual da mobilização das diferentes sociedades e culturas, que podem ser de grandes, pequenas ou médias proporções humanas. Na opinião de Danièle Hervieu-Léger (2015, p. 22, 23, 28), o religioso é uma dimensão transversal do fenômeno humano que trabalha, de modo ativo e latente, explícito ou implícito, em toda a extensão da realidade social, cultural e psicológica, segundo modalidades próprias a cada uma das civilizações dentro das quais se tenta identificar sua presença. Essa pulverização de identidades religiosas individuais não implica, necessariamente, o enfraquecimento ou mesmo o desaparecimento completo de toda forma de vida religiosa comunitária. Muito ao contrário, como o aparato das grandes instituições religiosas se mostra cada vez menos capaz de regular a vida de fiéis que reivindicam sua autonomia de sujeitos que creem, assiste-se a uma efervescência de grupos, redes e comunidades, dentro das quais os indivíduos trocam e validam mutuamente suas experiências espirituais. A crença continua ocupando um espaço importante na vida das pessoas e se configura ou reconfigura de acordo com as diferentes realidades socioculturais de cada sociedade e do exercício da memória individual e coletiva dos grupos. Desse modo, a religião e as religiosidades não desaparecem, elas se desdobram, ampliam-se e diversificam-se simultaneamente. Danièle Hervieu- Léger (2015, p. 51) define esse fenômeno como “Believing without Belonging” – “crer sem pertencer”. Isso não quer dizer que não exista mais nenhum tipo de vínculo, por exemplo, entre a crença cristã e a pertença institucional, as práticas rituais, os estilos de vida familiar, a lógica da aliança matrimonial, comportamentos sexuais, opções políticas etc.; mas se reconfigura o universo religioso das pessoas com diferentes fisionomias. 24 O mundo atual continua conectado à religião, do ponto de vista das diferentes espiritualidades ligadas ao transcendente que convergem o humano com a natureza e com todo o cosmos numa perspectiva holística. Nessa relação, a dimensão humana transcende a própria profundidade do ser e de uma realidade subjetiva emerge para as diferentes realidades objetivas por meio de seus ritos, suas imagens, templos, seus escritos e sistemas simbólicos. Assim como as grandes religiões, o Cristianismo passou por diversos processos de leituras, releituras e interpretações e que, hoje, também exige o uso de novas ferramentas metodológicas de análises, como também os novos olhares às diferentes expressões religiosas, religiosidades e às novas espiritualidades que emergem, as quais, em muitas situações, são oriundas ou vertentes do Cristianismo no percurso da História. 3.2 Cristianismos de origens: experiências cristãs diversificadas Como em suas origens, atualmente e no marco da globalização das sociedades, o Cristianismo, ou os Cristianismos, encontram-se também em movimentos de diáspora; portanto, assumem diferentes fisionomias na constante tensão entre a tradição e as adequações oriundas do surgimento de novos quadros hermenêuticos e epistemológicos. Já não se trata de fixar regras e estabelecer rígidas estruturas no âmbito das experiências religiosas cristã na atualidade, mas, sim, de buscar compreender, nas mesmas experiências, o “sentido” da relação do mistério implícito do sagrado explicitado de diferentes maneiras e com base nos desejos e nas aspirações humanas num constante diálogo com as diferenças. Trata-se de uma compreensão sincrética das experiências religiosas e das diversidades de espaços do sagrado, em que os elementos antropológicos e religiosos não se misturam, mas interagem recíproca e dialeticamente. Segundo Felix Wilfred (2011, p. 24-25), no que diz respeito ao Cristianismo, as fronteiras estão se tornando porosas, e talvez não possamos fixar identidades rigidamente confessionais. Em alguns casos, haverá manifestações abertas de pertença institucional ao Cristianismo. Em outros, o Cristianismo será significativamente mudado pelo encontro com outras cosmovisões representadas por outras tradições religiosas e culturas autóctones. No contexto global da atualidade, a missão é o diálogo e a partilha de suas experiências religiosas e espirituais com os outros, levando a um mútuo enriquecimento e reconhecimento da presença de Deus e do Reino de Deus por cima de limites e fronteiras. A missão, atualmente, não é prerrogativa de nenhuma experiência religiosa particular; é algo que todos os crentes precisam praticar enquanto continuam a encontrar o Divino em sua jornada espiritual. Desde os tempos antigos, o Cristianismo esteve presente de maneira significativa, em muitos ambientes da Palestina e, também, fora dele, como na Ásia e em outras geografias, com uma “imagem mais diversificada do cristianismo primitivo, em cujo seio havia múltiplas correntes e tendências bem pouco diferenciadas entre si, compondo um grande leque” (FREEDMAN, 1992, p. 290), do qual os extremos, posteriormente, seriam a ortodoxia e a heresia. Convém considerar que o Cristianismo primitivo, em seu início, por seu caráter pluralista e sincrético, certamente não apresentava uma estrutura já consolidada das categorias “heterodoxia e ortodoxia”. Philipp Vielhauer (1991, p. 806), mencionando a Papias e Hegesipo, diz que “ambos lutaram contra o gnosticismo, em uma época na qual não existiam instituições reconhecidas ou documentos admitidos por todos como notae ecclesiae e em que estas coisas – estrutura comunitária, episcopado monárquico, regras do cânon – achavam-se em estado incipiente”. Paulo Augusto de Souza Nogueira (2003, p. 129;133) considera que a Ásia Menor do fim do século I d.C. continha a maior diversidade de expressões religiosas e formas de organização de comunidades de todo o 25 Cristianismo desse período. Essa mobilidade na diáspora foi determinante para a expansão do Cristianismo emergente e para a intensa troca de práticas e crenças que se tornou característica do Cristianismo asiático. Em uma primeira fase do Cristianismo primitivo, encontramos os testemunhos dos que estiveram junto a Jesus Cristo. Posteriormente, a partir da segunda geração de discípulos e discípulas, encontramos aqueles grupos que difundiram o Cristianismo por meio do querigma pascoal anunciado. Na comunidade cristã primitiva, Jesus, conhecido como “aquele que anunciava e dava seu testemunho”, isto é, o portador da mensagem, passa a ser “anunciado”, agora, como “Boa nova” (Evangelho) pelos cristãos. Segundo Rudolf Bultmann (2004, p. 74), “conforme mostra a tradição sinótica, a comunidadeprimitiva retomou a pregação de Jesus e continuou a anunciá-la. E na medida em que o fez, Jesus tornou-se para ela o mestre e profeta. Mas ele é mais: é, ao mesmo tempo, o Messias; e assim ela passa a anunciar – e isso é o decisivo – simultaneamente a ele mesmo”. O Cristianismo, desde seu início, empreendeu grandes esforços individuais e coletivos para estabelecer, talvez, um possível perfil de Jesus que catalisasse as diversidades e as expectativas messiânicas. Atos 1,1 é enfático em apontar as tentativas e “variedades” de escritos existentes para narrar “os fatos que se cumpriram entre nós”. Para Jacir de Freitas Faria (2003, p. 10-11), por meio desse esforço coletivo para traçar o perfil do mestre, surgiram vários Cristianismos, isto é, vários modos de interpretar Jesus. Do “cristianismo dos ditos de Jesus (Q); passando pelo cristianismo da cura e do caminho de Marcos; pelo cristianismo do Jesus Filho de Deus, Messias e seguidor do judaísmo de Mateus; o cristianismo da salvação para judeus e não judeus de Lucas; o cristianismo do discurso teológico elaborado e dos sinais de João; o cristianismo do Jesus ressuscitado e glorioso de Paulo; entre outros cristianismos; até o cristianismo gnóstico, que mostra Jesus, o ressuscitado que traz a salvação”. No horizonte mais amplo de Atos dos Apóstolos, podemos observar outras vertentes de irradiação do Cristianismo primitivo. Os helenistas, por meio da dispersão (Atos 8,1bss.), colocam-se no horizonte de Atos 1,8, isto é, a missão cristã de Jerusalém, passando pela Judéia, Samaria até os confins da Terra, com o deslocamento de Filipe ao sul, pelo “caminho de Gaza” ao encontro com o “Etíope eunuco” (Atos 8,26-40). Também em Damasco poderíamos estabelecer um elo com o Cristianismo de Ananias e a missão gentílica de Paulo (Atos 9,10a.15). Na Selêucia, Chipre, Panfilia, Antioquia da Psidia, Icônio, Síria, Cilícia, Derbe, Listra, Frígia, Galácia, Trôade, Filipos, Tessalônica, Beréia, Atenas, Corinto, Éfeso, Cesaréia, Roma etc., poderíamos considerar a presença de núcleos ou pequenas comunidades cristãs que, no contexto neotestamentário, apontariam para outras fronteiras étnicas e geográficas. Archibald Mulford Woodruff (1996, p. 78-79) aponta as experiências cristãs que existiam antes do auge da atividade de Paulo, isto é, a Igreja Síria Oriental e a Igreja Síria Ocidental, ou seja, a Igreja Antioquenha. Woodruff oferece algumas características elementares dessas duas igrejas no âmbito do Cristianismo pré-paulino: “A igreja de Síria oriental é conhecida a partir de sua produção literária e história posterior, por sua ética exigente e cristologia sapiencial. Praticava-se o Batismo e a Santa Ceia. A geografia nos permite imaginar que, nos tempos do contato de Paulo com essa igreja, ela estava em contato com o mesmo grupo que produziu a fonte Q, especialmente na Arábia. A igreja de Antioquia é conhecida por sua liberdade concernente à lei, à conversão de gentis, ao querigma da morte e da ressurreição de Jesus, ao tema apocalíptico do futuro triunfo de Deus e a autoconsciência do grupo”. 26 Em relação à Arábia, Jerome Murphy-O’Conner (1993, p. 737), aludindo a Gal. 1,17 e sua localização geográfica, diz que o itinerário Paulino (Damasco – Arábia – Damasco) pode indicar que, no início, Paulo estava convencido que sua missão era para os Gentis, sem, portanto, querer prolongar a permanência de sua missão nesse território. É possível que a missão paulina estivesse fortemente impregnada pelas tradições cristãs que se estabeleceram em vários centros étnico-geográficos em um período muito próximo à ressurreição de Jesus Cristo e que eles muito influenciaram no percurso da missão itinerante de Paulo e na pré-paulina (Atos 26,22-23; 1Co 1,13-17; 1,24; 9,19-20; Gal 1,17; etc.). Nessa amplitude, Jorge Pixley (1998, p. 7) nos diz que “há milhões de cristãos cujas igrejas se remontam aos primeiros séculos (...) Estão as igrejas coptas de Egito e de Etiópia que foram declaradas heréticas como ‘monofísitas’ nas discussões cristológicas dos séculos cinco e seis. Estão as igrejas orientais de tradições tomasina como a ‘Mar Thoma’ na Índia, uma zona cristianizada em tempos remotíssimos que nunca conheceu a dominação romana e que não foi declarada herética pelos bispos aliados dos imperadores, porque estes nem sequer sabiam de sua existência. Um exame do primeiro século da expansão do movimento de Jesus deve dar-nos tolerância até a diversidade que logo se negou em benefício da unidade religiosa que requeria um império em decomposição”. Assim, é na multiformidade das experiências cristãs em suas origens e de sua recepção no processo histórico das sociedades, das culturas e de outras religiões, que vão se construindo a memória religiosa e a identidade cristã. Essa multiformidade de Cristianismos se entrelaça em suas fronteiras étnicas e geográficas, confluindo, assim, nas diversidades de identidades religiosas. Considerações finais O mundo contemporâneo continua ligado à religião, na perspectiva das diferentes espiritualidades ou religiosidades ligadas ao transcendente que convergem o humano com o cosmos numa perspectiva universal. Nessa relação, a dimensão humana se humaniza e transcende na própria profundidade do ser e, de uma realidade subjetiva, emerge para as diferentes realidades objetivas por meio de seus ritos, suas imagens, templos, seus escritos e sistemas simbólicos. Assim como as grandes religiões, o Cristianismo passou por diversos processos de leituras, releituras e interpretações e, atualmente, exige o uso de novos métodos de análises, como também de novos olhares para as diferentes expressões religiosas, religiosidades e as novas espiritualidades que emergem, as quais, em muitas situações, poderão ser oriundas ou variantes do Cristianismo no percurso da História. A religião é uma dimensão transversal que atravessa todo o ser humano de maneira ativa e latente, de forma explícita ou até implícita, e que atinge a extensão social, política, econômica, cultural e psicológica dos indivíduos; claro, de acordo com as diferentes sociedades e nas diferentes etapas históricas. É no processo histórico das sociedades, nos distintos períodos de desenvolvimento dos povos, das culturas e da vida social que se compreendem o fenômeno religioso e as religiões. Na multiformidade das experiências 27 cristãs em suas origens e de sua recepção no processo histórico das sociedades, das culturas e de outras religiões, é que vão se construindo a memória religiosa e a identidade cristã. Essa multiformidade de Cristianismos se entrelaça em suas fronteiras étnicas, culturais e geográficas, confluindo, assim, nas diversidades de identidades religiosas nos diferentes percursos da História. Para Donizete Rodrigues (2008, p. 17-42), em seu artigo “Novos movimentos religiosos: realidade e perspectiva sociológica”, a religião, como expressão simbólica das experiências sociais, fenômeno social e subsistema cultural/social, é de primordial importância para a análise de todas as sociedades humanas. É a chave para a compreensão da vida social, das práticas institucionais, para entender as experiências cotidianas e os processos de mudança social. A crença continua ocupando um espaço importante na vida das pessoas e se configura ou reconfigura de acordo com as diferentes realidades socioculturais de cada sociedade. Desse modo, a religião e as religiosidades não desaparecem, elas se desdobram, ampliam-se e diversificam-se simultaneamente. Segundo Rudolf Bultmann (2004, p. 74), “conforme mostra a tradição sinótica, a comunidade primitiva retomou a pregação de Jesus e continuou a anunciá-la. E na medida em que o fez, Jesus tornou-se para ela o mestre e profeta. Mas ele é mais: é, ao mesmo tempo, o Messias; e assim ela passa a anunciar – e isso é o decisivo – simultaneamente a ele mesmo”. No horizontemais amplo de Atos dos Apóstolos, podemos observar outras vertentes de irradiação do Cristianismo primitivo. Os helenistas, por meio da dispersão (Atos 8,1bss.), colocam-se no horizonte de Atos 1,8, isto é, a missão cristã de Jerusalém, passando pela Judéia, Samaria até os confins da Terra, com o deslocamento de Filipe ao sul, pelo “caminho de Gaza” ao encontro com o “Etíope eunuco” (Atos 8,26-40). Pesquise Atos 1,8; Atos 8,1bss e Atos 8, 26-40; respectivamente. 28 1. A religião torna-se um dos principais caminhos para a compreensão: a) Do ser humano. b) Do universo. c) Do cosmo. d) Da criação. e) Do espírito. A resposta correta: A. Por meio da religião, pode-se compreender o ser humano. 1 - Philipp Vielhauer (1991, p. 806), mencionando _________, diz que “ambos lutaram contra o gnosticismo, em uma época na qual não existiam instituições reconhecidas ou documentos admitidos por todos como notae ecclesiae e em que estas coisas – estrutura comunitária, episcopado monárquico, regras do cânon – achavam- se em estado incipiente”. Assinale a alternativa que completa a lacuna. a) Jerónimo e Josefo. b) Papias e Hegesipo. c) Agostinho e Tomás de Aquino. d) Antão e Nicodemos. e) Ambrósio e Papias. Religare – Conhecimento e Religião sobre Cristianismo das origens. Flávio Senra entrevista Paulo Nogueira. Exibido em: 10 maio 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=q69QX9VlCBc. https://www.youtube.com/watch?v=q69QX9VlCBc 29 THEISSEN, Gerd. A Religião dos Primeiros Cristãos: Uma teoria do cristianismo primitivo. São Paulo: Paulinas, 2009. Esse volume traz uma análise do Cristianismo primitivo, seguindo o estilo das pesquisas na área das Ciências da Religião. Theissen procura apresentar os conteúdos do Cristianismo no primeiro século de uma forma que os leitores, independentemente de suas convicções religiosas particulares, tenham acesso ao objeto pesquisado. O autor quer fazer compreender, sobretudo, a força da fé cristã na vida e na História da Antiguidade. Dois objetivos norteiam sua pesquisa: primeiro, a pesquisa sobre a vida dos primeiros cristãos, investigando as afirmações teológicas deles por meio de uma aproximação semiótica, psicológica e histórica, tornando-se visíveis, com categorias científico-religiosas, a fé, o culto e a ética da igreja primitiva; segundo, mostra como o Cristianismo primitivo se desenvolveu ao se distanciar do Judaísmo, criando um mundo autônomo de símbolos religiosos, sendo que este último tinha a força de formar comunidade e transformar toda a História do mundo até então conhecido. Theissen é cristão, todavia acredita na comunicação científica, a qual torna possível a compreensão das coisas por todos, apesar de posições religiosas diferentes dos participantes do diálogo. Para aprofundar seu conhecimento a respeito do tema “Antropologia da Religião”, leia a obra: IZIDORO, José Luiz, WERNECK, Mário, ARAÚJO, Paulo Sérgio (Orgs.). O Sagrado Revelado: nas Teias Socioculturais da Contemporaneidade. São Paulo: Fonte Editorial, 2019. Respostas: 1 – Alternativa “b”; 30 UNIDADE II CAPÍTULO 4 – ÉTICA E RELIGIÃO No término deste capítulo, você deverá saber: ✓ O que é a ética; ✓ A ética enquanto princípio categórico; ✓ A religião e a ética; ✓ O diálogo como exigência ética para as religiões. Introdução Ética e religião, são dois temas importantes e complementares em sua essência, não somente para o debate acadêmico e eclesial, mas, sobretudo, para a prática da vida cotidiana. A ética torna-se um princípio categórico e universal da humanidade, porém que tem sua ação prática intrínseca à pessoa, por meio de seu comportamento, conduta e atitudes. A ética, assim como a moral, encontra-se vinculada ao processo de desenvolvimento e de construção dos indivíduos nas diferentes sociedades e culturas por meio de seus hábitos e costumes. A ética tem a ver com a realidade humana que é construída com base em sua história e nas relações socioculturais das pessoas nas sociedades em que se originam e se desenvolvem. A ética cristã reúne os componentes antes mencionados e é compreendida no horizonte da fé cristã e de suas exigências atitudinais, fundamentada na Sagrada Escritura. Na perspectiva da ética, a religião deveria ser um espaço consagrado para a prática da justiça, da caridade, do amor e da misericórdia, temas, por vezes, despistados ou omissos nas instituições religiosas. A religião, desde os espaços instituídos para sua prática cúltica e social deve ser, em sua essência, geradora de possibilidades do cultivo da ética. E como cultivo da ética, considerando o pluralismo religioso, a diversidade de experiências do Sagrado, as distintas espiritualidades, podemos situar o tema do diálogo religioso e inter-religioso como uma exigência ética de vivência e de respeito às diferenças religiosas e confessionais. 4.1 O que é a ética No livro que o Pastor Melquisedeque (2021, p. 6) escreveu para o curso de teologia da UNISEPE|UNIVR, Ética, Bioética, Moral Social e Família, a palavra ética apresenta os seguintes sentidos etimológicos: Vem do grego ethos, que significa “costume”, “disposição” ou “hábito”. A sociedade romana traduzia esse termo para o latim mos (ou moris, plural), que quer dizer “costume”, de onde vem à palavra moral. Tanto ethos como mos falam de um tipo de comportamento propriamente humano que não é natural; ou seja, o homem não nasce com ele, como se fosse um instinto, mas adquire ou conquista por hábito. A ética, pela própria etimologia, nos diz a respeito da realidade humana construída a partir da sua história e socialmente a partir das relações coletivas dos seres humanos nas sociedades onde nascem e vivem. Assim, a ética estuda as ações do indivíduo isoladamente ou coletivamente. 31 O professor Luís Carlos (2020, p. 21-22), no livro que escreveu em 2020 para o curso de teologia da UNISEPE-UNIVR, Teologia Cristã, apresenta o seguinte significado para o conceito de ética e de ética cristã: É a forma rotineira em textos acadêmicos ou não e nas conversas cotidianas, fazendo parte daqueles conceitos tratados pelo senso comum. É usada em diferentes situações e lugares, por diferentes culturas. No entanto, sua definição é mais complexa que seu uso e outra questão polêmica que precisa ser respondida é sobre os limites entre o conhecimento da ética e da moral. Encontra-se uma excelente distinção de ética e moral em paul ricoeur (2011), importante filósofo protestante, seguidor de Karl Barth. Ele afirma que na etimologia das palavras, ambas remetem para a ideia de costumes (ethos, mores), sendo uma de origem grega e outra de origem latina. O que as difere, de forma bem sutil, é a diferença entre bom e obrigatório. Quanto a ética cristã, entende-se como a ética fundamentada na sagrada escritura e na tradição cristã. É em sua doutrina e em seus conceitos cristãos o que o teólogo encontrará enquanto sentido para a prática dos costumes, ou seja, para o viver bem, em harmonia consigo, com a natureza e com as pessoas, objetivando a finalidade última de sua existência. A ética cristã é composta pelos princípios que são derivados da própria fé cristã que determinam as ações de seus fiéis. De acordo com o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis, Ética é o ramo da filosofia que tem por objetivo refletir sobre a essência dos princípios, valores e problemas fundamentais da moral, tais como a finalidade e o sentido da vida humana, a natureza do bem e do mal, os fundamentos da obrigação e do dever, tendo como base as normas consideradas universalmente válidas e que norteiam o comportamento humano. De acordo com a filósofa Marilena Chauí (2002, p. 337), Para que haja conduta ética é preciso que exista o agente consciente, isto é, aquele que conhece a diferença entre bem e mal, certo e errado, permitido e proibido, virtude e vício. A consciênciamoral não só conhece tais diferenças, mas também se reconhece como capaz de julgar o valor dos atos e das condutas e de agir em conformidade com os valores morais, sendo por isso responsável por suas ações e seus sentimentos e pelas consequências do que faz e sente. Consciência e responsabilidade são condições indispensáveis da vida ética. O campo ético é, assim, constituído pelos valores e pelas obrigações que formam o conteúdo das condutas morais, isto é, as virtudes. Estas são realizadas pelo sujeito moral, principal constituinte da existência ética. Desse modo, a ética torna-se um princípio categórico e universal da humanidade, porém que tem sua ação prática intrínseca à pessoa, por meio de seu comportamento, sua conduta e suas atitudes. A ética, assim como a moral, encontra-se vinculada ao processo de desenvolvimento e de construção dos indivíduos nas diferentes sociedades e culturas por meio de seus hábitos e costumes. A ética tem a ver com a realidade humana que é construída com base em sua história e nas relações socioculturais das pessoas nas sociedades em que se originam e se desenvolvem. A ética tem a ver com o bem e com e o mal, com as obrigações e com o dever, como também com o reto comportamento dos indivíduos na coletividade. O “homem ético” é dotado de virtudes e valores que constituem as condutas morais. A ética cristã reúne os componentes antes mencionados e é compreendida no horizonte da fé cristã e de suas exigências atitudinais, sendo basicamente fundamentada pela Sagrada Escritura. 32 O século XXI se caracteriza pelos valores fragmentados e instáveis das sociedades, pela provisoriedade dos valores éticos e morais, pela corrupção de valores como a honra, a verdade, o direito, a justiça e a honestidade, também pelo medo e pela insegurança oriunda do contexto atual da pandemia do coronavírus e pelas altas tecnologias, inovações científicas e facilidades das comunicações. Esse é o mundo que, inevitavelmente, habitamos; é o mundo em que vivemos. Para Aldo Natale Terrin (2004, p. 8-9), na perspectiva religiosa desse contexto, O religioso pós-moderno é eclético, heterodoxo, escandaloso com relação às tradições clássicas, mas é tudo o que temos à disposição para compreender o mundo religioso atual, fora das habituais acomodações de ritos. É o antropológico, é o “humano mais humano” capaz de nos tornar sensíveis no modo de enfrentar os problemas da sociedade e das culturas atuais. Mudanças de época e de mentalidade provocam perplexidade diante das decisões a serem tomadas, pois os paradigmas tradicionais são questionados – sejam mentalidades, sejam valores ou atitudes. A pluralidade de releitura da vida e daqueles valores que constituíam o dossel sagrado dos indivíduos coexistem, conflitam-se e ajustam-se na contemporaneidade. Além disso, o individualismo sociocultural, a produtividade econômica, o consumismo crescente, a autonomia e o sucesso pessoal, com suas consequências são experimentados por toda a humanidade. Para Terrin (2004, p. 7), estamos numa época de sobreposições, interseções, decomposições, fragmentações, desconstruções e reconstruções. Desse modo, obviamente, faz-se necessário aguçar nossa sensibilidade, nossa capacidade intuitiva, emocional, espiritual e intelectual aos desafios que se estabelecem para a continuidade de nossa existência planetária com base nos princípios éticos, isto é, nas atitudes e nos comportamentos em favor da vida. Aí situamos as atitudes e os comportamentos individuais fundamentadas na ética e, sobremaneira, na ética cristã. 4.2 A religião enquanto possibilidade do cultivo da ética É no poder e na força que reveste o Sagrado em que reside o sentido condensador do “religioso” em todos os povos e em todas as culturas antigas e contemporâneas; desse modo, procura-se alternativas viáveis para responder aos paradoxos da existência humana. Terrin (2004, p. 229) acredita que: O poder sobrenatural que o primitivo descobre no mundo – e que por certos aspectos não é diferente do medo-assombro – seja o momento mais determinante da nossa experiência do sagrado na medida em que ele se distingue do profano. O profano é o que é “normal”, “cotidiano”, que não causa sobressaltos, não provoca situações inexplicáveis; o sagrado, ao contrário, reveste-se de “potência”, “força”, um poder que quebra os esquemas habituais e deixa entrever o religioso. Para Clifford Geertz (1989, p. 73-74), A perplexidade, o sofrimento e um sentido de paradoxo ético obstinado, quando se tornam suficientemente intensos ou suportados durante muito tempo, são todos eles desafios radicais à proposição de que a vida é compreensível e de que podemos orientar-nos efetivamente dentro dela, através do pensamento – desafios que qualquer religião que pretenda substituir tem que enfrentar, por mais “primitiva” que seja. 33 De acordo com Terrin (2004, p. 230), o Sagrado é o momento da crise, da necessidade urgente, do dilema, do mistério da vida que poderia tomar uma direção que não é a desejada e em que vemos abrir-se diante de nós o precipício e o abismo de nossa impotência. E é no paradoxo do “estar aí” das sociedades contemporâneas e nessa “busca constante e incerta” de caminhos conhecidos e desconhecidos que emergem os mais profundos anseios e desejos humanos manifestados, articulados e concebidos nos diferentes e diversos espaços de manifestações dos desejos humanos de transcendência. Desse modo, a religião atua nas pessoas, por meio de seus símbolos, ritos e de seu sistema religioso como dispositivos de força, motivações e sentido espiritual. Na perspectiva da ética, a religião deveria ser um espaço consagrado para a prática da justiça, da caridade, do amor e da misericórdia, temas despistados ou, por vezes, omissos nas instituições religiosas. A religião, desde os espaços instituídos para sua prática cúltica e social deve ser, em sua essência, geradora de possibilidades do cultivo da ética. Considerando o pluralismo religioso, a diversidade de experiências do Sagrado, as distintas espiritualidades, podemos situar o tema do diálogo religioso e inter-religioso como uma exigência ética de vivência e de respeito às diferenças religiosas e confessionais. Diálogo subentende interação, encontro, interlocução e participação entre sujeitos, num processo comunicacional e que estabelece semelhantes pesos de pontos de vistas, opiniões, ideias e pensamentos entre os interlocutores no que se referem a determinados objetos de debates e discussões, porém sempre resguardando a alteridade e os princípios fundamentais que regem os sujeitos e que os fazem autônomos e particulares. Na perspectiva religiosa, étnica e sociocultural também é possível aplicar esse conceito de diálogo, não obstante os conflitos e a tensão inerentes a essa dinâmica interacional. Nem sempre os diálogos se efetivam verdadeiramente como diálogo, pois se criam camadas teóricas que solapam as realidades dialogadas e os resultados se tornam superficiais e sem efeitos substanciais. Os diálogos entre as religiões, assim como entre os povos e as culturas, em muitos momentos da história das sociedades se converteram em grandes tratados e dossiês para as prateleiras e bibliotecas daqueles idealizadores dos diálogos e sem atingir, no entanto, os verdadeiros objetivos que, talvez, outrora se propuseram, quando estes apontavam o respeito, a paz e a tolerância entre as religiões e as diferentes concepções do Sagrado; portanto, são muitos os desafios que se apresentam para o diálogo inter-religioso. Na compreensão de Ana Luzia Caixeiro (2013, p. 117-118), o pluralismo parte do pressuposto de que todas as religiões são igualmente boas. Essa compreensão tem sido desenvolvida por vários teólogos contemporâneos como Raimon Pannikkar (1918-2010) e o estadunidense Paul Knitter (1939). O caminho do diálogo inter-religioso tem desafios tanto teóricos quanto práticos.A teologia católica, em nível mundial, tem produzido vasta literatura a respeito. A teologia protestante, de igual maneira, também tem feito suas contribuições à compreensão do que significa o diálogo inter- religioso e, em sua vivência, mais em outras latitudes do que no Brasil. O principal desafio teórico, para católicos e protestantes no que diz respeito ao diálogo inter-religioso, encontra-se no nível teológico: Como promover o diálogo sem renunciar ao proprium do Cristianismo? E Faustino Teixeira (2014, p. 65) sugere que o mais importante é acreditar num futuro de diálogo e de conversação alternativa, marcados pelo respeito ao outro, pela abertura ao seu mundo e pelo rico intercâmbio de dons, que sabe resguardar o patrimônio das diferenças. 34 Considerações finais O século XXI se caracteriza pelos valores fragmentados e instáveis das sociedades, pela provisoriedade dos valores éticos e morais, pela corrupção de valores como a honra, a verdade, o direito, a justiça e a honestidade; também pelo medo e pela insegurança oriunda do contexto atual da pandemia da coronavírus, mas também pelas altas tecnologias, inovações científicas e facilidades das comunicações. Esse é o mundo em que, inevitavelmente, habitamos, é o mundo em que vivemos. A pluralidade de releitura da vida e daqueles valores que constituíam o dossel sagrado dos indivíduos coexistem, conflitam-se e ajustam-se na contemporaneidade. Além disso, o individualismo sociocultural, a produtividade econômica, o consumismo crescente, a autonomia e o sucesso pessoal, com suas consequências, são experimentados por toda a humanidade. Nesse contexto complexo e desafiador, situamos as atitudes e os comportamentos individuais fundamentados na ética e, sobremaneira, na ética cristã. E como atitude ética e de vivência das virtudes cristãs, situamos o tema do diálogo, subentendendo a interação, o encontro, a interlocução e a participação entre sujeitos, num processo comunicacional e que estabelece semelhantes pesos de pontos de vistas, opiniões, ideias e pensamentos entre os interlocutores no que se refere a determinados objetos de debates e discussões. Na perspectiva religiosa, também é possível aplicar esse conceito de diálogo, não obstante os conflitos e a tensão inerentes a essa dinâmica interacional. Logo, o diálogo religioso ou inter-religioso torna-se uma das principais exigências éticas das religiões na contemporaneidade e que poderá desdobrar-se a todas as atitudes que afirmam a vida do ser humano nas diferentes culturas e sociedades. A ética tem a ver com o bem e com e o mal, com as obrigações e com o dever, como também com o reto comportamento dos indivíduos na coletividade. É no poder e na força que reveste o Sagrado em que reside o sentido condensador do “religioso” em todos os povos e as culturas antigas e contemporâneas; desse modo, procura-se alternativas viáveis para responder aos paradoxos da existência humana e desde aquele reto comportamento dos indivíduos mencionado. Assim, obviamente, faz-se necessário aguçar nossa sensibilidade, nossa capacidade intuitiva, emocional, espiritual e intelectual aos desafios que se estabelecem para a continuidade de nossa existência planetária com base nos princípios éticos cristãos, isto é, nas atitudes e nos comportamentos em favor da vida. De acordo com a filósofa Marilena Chauí (2002, p. 337), para que haja conduta ética, é preciso que exista o agente consciente, isto é, aquele que conhece a diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado, o permitido e o proibido, a virtude e o vício. A consciência moral não só conhece tais diferenças, como também se reconhece como capaz de julgar o valor dos atos e das condutas e de agir em conformidade com os valores 35 morais, sendo, por isso, responsável por suas ações e seus sentimentos e pelas consequências do que faz e sente. Consciência e responsabilidade são condições indispensáveis na vida ética. O campo ético é, assim, constituído pelos valores e pelas obrigações que formam o conteúdo das condutas morais, isto é, as virtudes. Estas são realizadas pelo sujeito moral, principal constituinte da existência ética. Na perspectiva da ética, a religião deveria ser um espaço consagrado para a prática da justiça, da caridade, do amor e da misericórdia, temas despistados ou, por vezes, omissos nas instituições religiosas. A religião, desde os espaços instituídos para sua prática cúltica e social deve ser, em sua essência, geradora de possibilidades do cultivo da ética. Nem sempre os diálogos se efetivam verdadeiramente como diálogo, pois se criam camadas teóricas que solapam as realidades dialogadas, e os resultados se tornam superficiais e sem efeitos substanciais. Os diálogos entre as religiões, assim como entre os povos e as culturas, em muitos momentos da história das sociedades, converteram-se em grandes tratados e dossiês para as prateleiras e bibliotecas daqueles idealizadores dos diálogos, sem atingir, no entanto, os verdadeiros objetivos que, talvez, outrora se propuseram, quando estes apontavam o respeito, a paz e a tolerância entre as religiões e as diferentes concepções do Sagrado; portanto, são muitos os desafios que se apresentam para o diálogo inter-religioso. A ética tem a ver com ________________ que é construída por meio de sua história e das relações socioculturais das pessoas nas sociedades em que se originam e se desenvolvem. Assinale a alternativa que preenche a lacuna. a) A realidade do universo. b) A família. c) A realidade humana. d) A cultura. e) A religião. A resposta correta é a letra c. A realidade humana enquanto construção torna-se um importante espaço para a ética. 36 1 - Na perspectiva da ética, a religião deveria ser um espaço consagrado para a prática da justiça, da caridade, do amor e da misericórdia: a) Temas despistados e sempre omissos nas instituições religiosas. b) Temas nunca omissos nas instituições religiosas. c) Temas sempre lembrados nas instituições religiosas. d) Temas despistados ou, por vezes, omissos nas instituições religiosas. e) Temas despistados ou, por vezes, omissos nas instituições do estado. Ética e Religião – Franklin Leopoldo e Silva. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=fglNft4c4Jg. Leia o artigo “Novos Movimentos Religiosos: duas questões”, de Edson Martins Disponível em: https://faculdadecristadecuritiba.com.br/storage/2018/11/Numero-8-Dezembro-2017-Art1.pdf Acesso em 23 fev. 2022 O presente artigo parte do pressuposto de que a religião é um fato social, presente desde o início da humanidade, não havendo grupo social que não tenha ao menos uma forma de expressão religiosa em seu meio. Ele tem por objetivo abordar a questão da proliferação de tantos grupos de expressão religiosa, ciente do fato de que já existe um número elevadíssimo deles no Brasil. Procurar-se-á tentar responder a duas questões relativas aos novos movimentos religiosos. A primeira está relacionada aos motivos do surgimento desses grupos, ligada à incapacidade de as grandes religiões em atender às necessidades atuais das pessoas; a segunda é mostrar um pouco quem são esses grupos, o que pensam e o que pregam. https://www.youtube.com/watch?v=fglNft4c4Jg https://faculdadecristadecuritiba.com.br/storage/2018/11/Numero-8-Dezembro-2017-Art1.pdf 37 Faustino Teixeira (2014, p. 65) sugere que o mais importante é acreditar num futuro de diálogo e de conversação alternativa, marcados pelo respeito ao outro, pela abertura ao seu mundo e pelo rico intercâmbio de dons, que sabe resguardar o patrimônio das diferenças. Saiba mais e se aprofunde na bibliografia indicada: TEIXEIRA, Faustino. Cristianismo e diálogo inter-religioso. São Paulo: Fonte Editorial, 2014. Respostas: 1 – Alternativa “d”; 38 UNIDADE III CAPÍTULO 5 - DIÁLOGO E TOLERÂNCIA ENTRE AS RELIGIÕES No término deste capítulo,você deverá saber: ✓ O diálogo inter-religioso; ✓ A pluralidade religiosa; ✓ A tolerância religiosa; ✓ O caminho do diálogo. Introdução Neste capítulo, trataremos o tema do diálogo inter-religioso como exigência ética que se aplica a todas as religiões, culturas e sociedades nos âmbitos global e local. A prática do diálogo inter- religioso torna-se uma ação comunicativa oriunda do espírito, isto é, é um ato de acolhida, de cuidado, de respeito e de partilha de vida. Desse modo, do âmago de toda a religião, quando vivida autenticamente, emergem as práticas das ações espirituais de amor e de misericórdia, nas quais se expande o próprio significado da religião do ponto de vista de suas particularidades para o horizonte mais amplo das diferentes expressões religiosas. O diálogo entre as religiões vai além de uma comunicação temática, na qual se estabelece um tema eixo para causar a dinâmica comunicacional entre diferentes interlocutores ou instituições religiosas. Esse diálogo vai além das tentativas, muitas vezes infrutíferas, que acontecem entre os líderes religiosos. Vai além dos documentos que sintetizam os resultados das altas discussões verborrágicas e sem resultados substanciais para as vidas que se cruzam no contínuo vai e vem de suas fronteiras étnicas, culturais, geográficas e religiosas. O diálogo inter-religioso é um ato pedagógico e de exigência ética que não somente deve aproximar as religiões entre si e institucionalmente, mas também valorizar e respeitar as pessoas envolvidas no processo dialógico. O tema da tolerância religiosa está situado na grande temática do diálogo inter- -religioso. Muitas vezes, se confunde o conceito de tolerância com o verbo aguentar ou suportar. No entanto, o conceito que mais se aproxima da ação da tolerância é o respeito. O respeito induz ao cuidado e à responsabilidade com o outro que é diferente e é sujeito dialógico. Sendo assim, muitos são os desafios que emergem desse tema, e, por isso, faz-se necessário apropriar-se de pistas e de ferramentas metodológicas para responder a tais desafios nas sociedades contemporâneas. 5.1 O diálogo inter-religioso O diálogo inter-religioso torna-se uma exigência ética para todas as religiões, culturas e sociedades no âmbito do fenômeno da globalização, dos conflitos entre o local e o global e das redefinições das identidades. O diálogo emerge como uma oportunidade de convivência respeitosa entre as diferenças e simultaneamente com a afirmação das particularidades de cada povo, cultura, religião e sociedade. De acordo com Claude Geffré, Na era planetária, a comunidade das nações exige uma ética global para todos os homens, acima da diversidade das religiões e das éticas particulares. Como em 39 qualquer diálogo, a primeira condição é respeitar o outro na sua diferença. A segunda condição é a de permanecer fiel a si mesmo. Se os parceiros do diálogo não se definem por uma certa identidade religiosa e cultural, não haverá diálogo (2013, p. 15-16). Faustino Teixeira afirma que os teólogos cristãos vêm sendo desafiados a reconhecer o valor intrínseco das outras tradições religiosas, a honrar a alteridade na sua singularidade específica, a destacar os distintos caminhos religiosos como "vias misteriosas de salvação", operadas e sustentadas pela presença de um Mistério sempre maior. Buscam superar, com instrumentos aperfeiçoados, a perspectiva limitada que não consegue reconhecer no outro senão sua potencialidade de abertura positiva para aquilo que ignoram. Trata-se de um caminho novo e desafiante: o reconhecimento do pluralismo de princípio (2011, p. 373). Esse novo e desafiante caminho conta com atitudes e ações espirituais de relevância que marcam a vida das pessoas e das religiões. Na introdução do seu artigo “Espiritualidade e inter-religiosidade”, Faustino Teixeira destaca a importância da pluralidade religiosa e, ao mesmo tempo, os desafios que daí surgem para o diálogo inter-religioso: A pluralidade religiosa é um dos traços mais característicos do século XXI. Não há como desconsiderar ou relativizar o traço da diversidade religiosa no tempo atual. Trata-se de um fenômeno irreversível, que tende a sublinhar a presença diversificada do “outro” como provocação permanente para a construção da identidade. O grande desafio está em compreender essa pluralidade religiosa não como um dado conjuntural passageiro ou fruto de cegueira problemática dos seres humanos, mas como um mistério transbordante, um dom que corresponde a um misterioso desígnio de Deus para a humanidade. A espiritualidade é um dos caminhos frutuosos para a percepção do valor da diversidade. Ela possibilita a afirmação da humildade, da abertura desarmada para o outro, e igualmente uma consciência viva da vulnerabilidade dos caminhos que levam a Deus no tempo. Talvez seja um dos campos mais propícios para a percepção do valor da inter-religiosidade, da dinâmica de dom que envolve a relação e a comunhão entre as diversas religiões, preservando os traços essenciais que as distinguem (2011, p. 1). A prática do diálogo inter-religioso torna-se uma ação comunicativa oriunda do espírito, isto é, é um ato de acolhida, de cuidado, de respeito e de partilha de vida. Desse modo, do âmago de toda a religião, quando vivida autenticamente, emergem as práticas das ações espirituais de amor e de misericórdia, nas quais se expande o próprio significado da religião do ponto de vista de suas particularidades para o horizonte mais amplo das diferentes expressões religiosas. Para Paul Tillich, Na profundidade de toda religião viva há um ponto onde a religião como tal perde sua importância e o horizonte para o qual ela se dirige provoca a quebra de sua particularidade, elevando-a a uma liberdade espiritual que possibilita um novo olhar sobre a presença do divino em todas as expressões do sentido último da vida humana (1968. p. 173). Na perspectiva de Comte-Sponville (2007. p. 127), a espiritualidade envolve qualidades humanas fundamentais que, acionadas, provocam profundas mudanças no mundo interior e se irradiam para a história. No horizonte dos cristianismos de origens e das diversidades de experiências cristãs, emergem os distintos espaços de abertura ao “diferente” e ao “novo”, os quais desafiarão os cristãos para as travessias das fronteiras geográficas, étnicas e culturais na antiguidade cristã e em todo o percurso da história; lembrando que daí emerge a relevância do diálogo inter-religioso para a 40 contemporaneidade. Os textos aos quais faremos referência abaixo são paradigmáticos para a constatação de uma autêntica abertura do cristianismo antigo às fronteiras étnicas e geográficas: • Mc 7,24-29 (a mulher era sírio-fenícia, considerada pagã; como em Atos 16,1: Timóteo era filho de mãe judia que abraçara a fé, e de pai grego); • Mc 9,38-40 (o uso do nome de Jesus aparece fora do círculo do discipulado autorizado); • Jo 4,7-42 (Jesus entre os samaritanos, em alusão à Samaria e à sua relação com os judeus de Jerusalém e da região da Judeia); • Mt 8,10 (uma região desconhecida como Magadã); • Lc 10, 29-37 (Jesus, na parábola do bom samaritano, rompe com o tradicional paradigma de que o judaísmo já estava plenificado por meio das Leis e da Religião – Levita e Sacerdote – e apresenta uma possibilidade ética e de abertura por meio de um “samaritano”); • Mt 25,31-46 (no último julgamento, participarão todas as nações); • Atos 2, 9-11 (Pentecostes: em Jerusalém, se encontravam judeus piedosos de todas as nações que há debaixo da terra); • Atos 1,8 (a missão cristã é dirigida “até os confins da terra”); • Atos 8,26-40 (a missão cristã chega a Gaza e tem como destinatário o etíope eunuco, alta autoridade da rainha de Candace – Meroé - África); • Gálatas 3, 28 (... não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em CristoJesus). Para Faustino Teixeira, Quando se vive em profundidade a perspectiva cristã, a abertura dialogal vem naturalmente. Não há contradição alguma entre o domicílio cristão e a abertura aos outros. Na verdade, a dinâmica da alteridade está no coração do Cristianismo. O Deus de Jesus constitui um "símbolo de abertura" permanente, é um Deus que acolhe o sussurro do plural e integra as diferenças. O Deus que Jesus apresenta em seu ministério é uma Presença dotada de amizade e misericórdia, que se preocupa profundamente com o destino humano e com toda a criação. É um Deus de amor incondicional e ilimitado, marcado por total abertura. O que vale para Jesus é o alcance soteriológico do amor: é ele que decide, em última instância, o sinal da acolhida do Deus misericordioso (2011, p. 5-6). O pluralismo é uma realidade humana e social desejada por Deus e que atravessa todas as sociedades. Por isso, o pluralismo deve ser respeitado, e não somente tolerado. No que concernem às religiosidades, as espiritualidades e as religiões devem ser compreendidas como dimensões não somente teológicas e pneumatológicas das pessoas, mas também como uma importante dimensão antropológica dos indivíduos e dos grupos sociais; assim, todas as pessoas devem ser respeitadas em suas livres escolhas em matéria religiosa, de acordo com o seu direito e a sua consciência. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, no Título II “Dos direitos e garantias fundamentais”, capítulo I “Dos direitos e deveres individuais e coletivos”, artigo 5º, parágrafo VI, institui e resguarda o exercício religioso: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. Portanto, o diálogo entre as religiões vai além de uma comunicação temática, na qual se estabelece um tema eixo para causar a dinâmica comunicacional entre diferentes interlocutores ou instituições 41 religiosas. Esse diálogo vai além das tentativas, muitas vezes infrutíferas, que acontecem entre os líderes religiosos. Vai além dos documentos que sintetizam os resultados das altas discussões verborrágicas e sem resultados substanciais para as vidas que se cruzam no contínuo vai e vem de suas fronteiras étnicas, culturais, geográficas e religiosas. O diálogo inter-religioso é um ato pedagógico e de exigência ética que não somente deve aproximar as religiões entre si e institucionalmente, mas também valorizar e respeitar as pessoas envolvidas no processo dialógico, estabelecendo o compromisso de cuidado e de responsabilidade entre os mesmos e sempre reconhecendo que a religião está inserida nos diferentes processos históricos e sofre as ações do tempo e dos espaços onde estão situadas e com todas as ambiguidades e os paradoxos constitutivos da história. Na opinião de Faustino Teixeira (2014, p. 85-86), o encontro entre as religiões torna-se um imperativo humano de nossos dias. O diálogo aparece como um desafio singular para captar e compreender a extraordinária diversidade das tradições religiosas, bem como deixar-se enriquecer por ela. O diálogo inter-religioso envolve sempre a relação entre interlocutores diferentes, num processo construtivo voltado para o conhecimento mútuo e o enriquecimento recíproco. A presença do outro suscita não apenas maravilha, mas também agonia, uma vez que sua presença nos desconcerta e nos desvia do caminho seguro até então trilhado. É a outra face da dinâmica da alteridade, que nos faz viver a experiência do limite e da fronteira. O diálogo inter-religioso tem como base norteadora a comunicação ativa e proativa entre os interlocutores e a ética como princípio vital. Desse modo, no horizonte da ética cristã, o diálogo inter- religioso é compreendido como exigência cristã de seguimento a Jesus Cristo e a seus ensinamentos, apresentada e fundamentada pela Sagrada Escritura. Conduzidos pelas exigências éticas cristãs, na perspectiva do diálogo inter-religioso, sempre se rompem certos paradigmas quando estes criam obstáculos e barreiras para as práticas e ações decorrentes daquelas exigências. Com isso, o diálogo inter-religioso torna-se um exercício pedagógico não somente de aproximações entre as religiões, mas criador de oportunidades de vivência da paz, da fraternidade, da solidariedade, da justiça e do direito, conceitos tão caros para o cumprimento da Epístola de São Tiago 1, 27: “Com efeito, a religião pura e sem mácula diante de Deus, nosso Pai, consiste nisto: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se livre da corrupção do mundo”. Portanto, esse diálogo deve ajudar todos os povos e culturas a respeitar as diversidades religiosas em suas diferentes expressões e a construir holisticamente a casa comum (oikos: casa ou ambiente habitável), onde possa ser possível a vivência de centelhas da justiça, do direito, da fraternidade, da paz, do respeito e do amor. 5.2 Tolerância religiosa O tema da tolerância religiosa está situado na grande temática do diálogo inter-religioso já tratado no ponto 5.1 deste capítulo. Muitas vezes, se confunde o conceito tolerância com o verbo aguentar ou suportar. No entanto, o conceito que mais se aproxima da ação da tolerância é o respeito. O respeito induz ao cuidado e à responsabilidade com o outro que é diferente e é sujeito dialógico. É no contexto do pluralismo e das diversidades de ofertas no campo religioso onde situamos, atualmente, a construção de um mundo de sentido e a construção das identidades religiosas, que têm provocado os diferentes grupos e instituições religiosas a buscarem, em sua interação, o diálogo, o respeito e a tolerância com aqueles grupos religiosos de credos e concepções distintas. 42 Quando se trata do cristianismo, se ampliamos o horizonte de compreensão do pluralismo das experiências religiosas no nosso âmbito continental, concluímos que o tema se torna muito mais complexo. O processo de formação do cristianismo na América Latina e no Caribe, não obstante as contradições existentes, foi plural desde o início, assim como a formação dos nossos povos brasileiros, oriundos de lugares distintos da África, da Europa, da Ásia, das diferentes raízes étnicas indígenas, que vão ampliando sua fisionomia étnico-cultural com as correntes migratórias intercontinentais nos períodos posteriores. Assim, o tema da tolerância deve ser cuidadosamente compreendido nesse contexto plural e diversificado como também nas relações paradoxais, ambíguas e tensas que são inerentes aos processos dialógicos entre os indivíduos e os grupos religiosos e socioculturais. Para Márcio de Jagun (SANTOS et al. – Orgs., 2016, p. 53-54), a partir da primeira Constituição Republicana (1891), o Brasil adota oficialmente a laicidade do Estado, sendo assegurado a todos os indivíduos e confissões religiosas o livre e público exercício do culto. Somente com a chamada Constituição Cidadã, de 1988, foram restabelecidos os direitos essenciais, entre os quais a liberdade de crença e de culto, na sua amplitude desejada, mas não com a eficiência esperada. Todavia, apesar das previsões legais da laicidade do Estado desde o passado, a legislação infraconstitucional sempre foi utilizada como “ferramenta torta” para legitimar o preconceito e a perseguição às religiões não hegemônicas. Há relatos em jornais, em periódicos e em inquéritos policiais, desde o Brasil Colônia aos dias atuais, passando pelos primórdios da República, nos quais se constatam relatos discriminatórios, preconceituosos e abusivos contra as práticas religiosas das mais variadas matrizes – todas de características minoritárias em termos da população nacional. O cenário contemporâneo político-social brasileiro vem configurando desde os anos 2000 uma realidade dual. De um lado, temos avançado no debate sobre a intolerância religiosacom a criação de algumas medidas públicas, tais como as leis que regulamentam o ensino de História Africana e Indígena e o Plano Nacional de Proteção à Liberdade Religiosa e de Promoção de Políticas Públicas para as Comunidades Tradicionais de Terreiro (PNCT). De outro, é expressivo o número de casos de intolerância registrados por diferentes órgãos (SANTOS et al. – Orgs., 2016, p. 17). A intolerância religiosa é uma atitude que emerge do pensamento em relação à estima, à personalidade e ao caráter do indivíduo. Na perspectiva da religião, ser intolerante é admitir que o seu princípio religioso e de crença é melhor e superior que os demais. As atitudes do indivíduo intolerante é o de ser preconceituoso e com práticas de violências no campo verbal e físico, como as atitudes proselitistas, as agressões verbais, os olhares de discriminação, os conflitos familiares, os danos e a destruição ao patrimônio dos lugares sagrados e até a morte das pessoas. No dia 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou e proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que, no Artigo XVIII, diz o seguinte: “Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular”. O caminho do diálogo inter-religioso sugere uma prática pedagógica entre os atores na dinâmica comunicacional, mas nem sempre se obtêm os resultados esperados no âmbito fenomenológico, isto é, das experiências religiosas. Nem sempre o outro diferente estabelece um ponto de encontro com o seu interlocutor. É necessário um princípio ético que deve nortear a dinâmica comunicacional, 43 senão, deixa de ser um diálogo, e a relação se torna composta de protagonistas e antagonistas; nesse cenário, o outro diferente se torna um componente ameaçador e tende a ser eliminado. Para Leonardo Boff, o diálogo entre as religiões não deve começar pela discussão das doutrinas, mas pela conscientização da espiritualidade que une a todos. Todas as religiões, embora sadias, podem incorrer em desvios, em endurecimento e em atitudes fundamentalistas de alguns. Aqui, há um vasto campo de recíproca crítica e de processos de purificação. Desse diálogo orante, nascem os pontos de convergência que fundam a paz possível entre as religiões, uma das bases para a paz política mundial. A tolerância ativa entre as religiões significa, portanto, a convivência pacífica e alegre entre as mais diversas religiões que veem em sua diversidade uma riqueza do único e mesmo Mistério fontal (2006, p. 119-120). Considerações finais O diálogo inter-religioso tem como base norteadora a comunicação ativa e proativa entre os interlocutores e a ética como princípio vital. Desse modo, no horizonte da ética cristã, o diálogo inter- religioso é compreendido como exigência cristã de seguimento a Jesus Cristo e a seus ensinamentos, apresentada e fundamentada pela Sagrada Escritura. Conduzidos pelas exigências éticas cristãs, na perspectiva do diálogo inter-religioso, sempre se rompem certos paradigmas quando estes criam obstáculos e barreiras para as práticas e ações decorrentes daquelas exigências. Com isso, o diálogo inter-religioso torna-se um exercício pedagógico não somente de aproximações entre as religiões, mas criador de oportunidades de vivência da paz, da fraternidade, da solidariedade, da justiça e do direito. É no contexto do pluralismo e das diversidades de ofertas no campo religioso onde situamos, atualmente, a construção de um mundo de sentido e a construção das identidades religiosas, que têm provocado os diferentes grupos e instituições religiosas a buscarem, em sua interação, o diálogo, o respeito e a tolerância com aqueles grupos religiosos de credos e concepções distintas. A tolerância ativa entre as religiões significa a convivência pacífica e de paz entre as diferentes religiões que vivem em sua pluralidade uma riqueza do único e mesmo mistério divino. O diálogo inter-religioso torna-se uma exigência ética para todas as religiões, culturas e sociedades no âmbito do fenômeno da globalização, dos conflitos entre o local e o global e das redefinições das identidades. O diálogo emerge como uma oportunidade de convivência respeitosa entre as diferenças e simultaneamente com a afirmação das individualidades de cada povo, de cada cultura, da religião e da sociedade. O tema da tolerância deve ser compreendido nesse contexto plural e diversificado da globalização mundial, como também de suas relações paradoxais, ambíguas e tensas, que são inerentes aos processos dialógicos entre os indivíduos e os grupos religiosos e socioculturais. 44 De acordo com Claude Geffré, na era planetária, a comunidade das nações exige uma ética global para todos os homens, acima da diversidade das religiões e das éticas particulares. Como em qualquer diálogo, a primeira condição é respeitar o outro na sua diferença. A segunda condição é a de permanecer fiel a si mesmo. Se os parceiros do diálogo não se definem por uma certa identidade religiosa e cultural, não haverá diálogo (2013, p. 15-16). Que no horizonte dos cristianismos de origens e das diversidades de experiências cristãs emergem os distintos espaços de abertura ao “diferente” e ao “novo”, os quais desafiarão os cristãos para as travessias das fronteiras geográficas, étnicas e culturais na antiguidade cristã e em todo o percurso da história; lembrando que daí emerge a relevância do diálogo inter-religioso para a contemporaneidade. De acordo com Márcio de Jagun (SANTOS et al. – orgs., 2016, p. 53-54), a partir da primeira Constituição Republicana (1891), o Brasil adota oficialmente a laicidade do Estado, sendo assegurado a todos os indivíduos e confissões religiosas o livre e público exercício do culto. A Constituição da República Federativa do Brasil............., no Título II “Dos direitos e garantias fundamentais”, capítulo I “Dos direitos e deveres individuais e coletivos”, artigo 5º, parágrafo VI, institui e resguarda o exercício religioso: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. a) de 1988 b) de 1888 c) de 1934 d) de 1945 e) de 1962 Resposta: Alternativa correta “a”, pois essa foi a data da Constituição Brasileira que instituiu esse direito. 45 1 - Quando se trata do cristianismo, se ampliamos o horizonte de compreensão do pluralismo das experiências religiosas no nosso âmbito continental, concluímos que o tema se torna muito mais complexo. O processo de formação do cristianismo na América Latina e no Caribe, não obstante as contradições existentes, ..............................., como também em suas origens primitivas. a) Não foi plural em seu início b) Foi plural desde o início c) Foi monolítico desde o início d) Foi plural após o início e) Foi eclético desde o início Religare - Conhecimento e Religião sobre Diálogo Inter-religioso Flávio Senra entrevista Faustino Teixeira. O programa foi exibido no dia 17/09/2008. https://www.youtube.com/watch?v=imTk1pelZ7k TEIXEIRA, Faustino. Diálogo Inter-religioso: o desafio da acolhida da diferença. Persp. Teol. 34 (2002) 155- 177. O diálogo inter-religioso constitui, neste início do século XXI, um dos desafios mais imprescindíveis para a humanidade. Tem-se falado inúmeras vezes que a paz entre as religiões constitui condição fundamental para a paz no mundo. Infelizmente, esse horizonte de fraternidade e de diálogo encontra-se ainda bem distanciado. O quadro do tempo atual é revelador de um espectro de violência e de fascínio do mal. Tal cenário apresenta- se ainda mais doloroso ao se perceber a presençae o lugar da religião nos embates e conflitos contemporâneos. https://www.youtube.com/watch?v=imTk1pelZ7k 46 Leia, na íntegra, o artigo do professor Faustino Teixeira e saiba mais: “Diálogo Inter-religioso: o desafio da acolhida da diferença. Persp. Teol. 34 (2002) 155-177”. http://www.faje.edu.br/periodicos/index.php/perspectiva/article/view/630/1053. Acesso em 21 fev. 2022. Resposta: 1 – Alternativa “b” http://www.faje.edu.br/periodicos/index.php/perspectiva/article/view/630/1053 47 UNIDADE III CAPÍTULO 6 - AS DISCUSSÕES SOBRE A RELIGIÃO NOS ESPAÇOS PÚBLICOS No término deste capítulo, você deverá saber: ✓ A religião no espaço público; ✓ Espaço público e esfera pública; ✓ Os desafios para a as religiões; ✓ Desafios para a Teologia. Introdução Neste capítulo, apresentaremos as discussões sobre a religião nos espaços públicos. Se observarmos a história do cristianismo, como também de outras religiões, sempre houve, desde seu início, a relação e a interação, nem sempre de harmonia, entre o Estado e a Igreja. Essas ocorrências sempre aconteciam de acordo com os interesses e comodidades que se estabeleciam entre os dois espaços. O mundo contemporâneo é caracterizado pelo reencantamento, ao contrário das afirmações que enfatizavam o desencantamento do mundo como a causa do secularismo. As religiões e as diferentes experiências do sagrado com suas espiritualidades estão presentes nos mais diferentes espaços sociogeográficos. Existe um novo emergir do sagrado. A religião sempre manteve o seu lugar de ação e de reflexão nos espaços privados das diferentes subjetividades como também nos espaços públicos, exercendo a sua função social de acordo com os diferentes propósitos e interesses. São muitos os desafios que surgem, não somente das discussões sobre a religião nos espaços públicos, mas também das implicações que tal fenômeno apresenta nos diferentes cenários públicos e privados e, por isso, faz-se necessário apropriar-se de pistas e de ferramentas metodológicas para responder a tais desafios nas sociedades contemporâneas. Esses desafios são tarefas primordiais para a teologia das religiões, para toda a teologia, para a eclesiologia e para a missiologia. São responsabilidades que emergem do código ético e se aplicam como exigência ética de comportamento individual e coletivo das pessoas. 6.1 Religião e espaço público São conhecidas as bases históricas do Cristianismo primitivo no que concerne à sua formação étnica e à sua configuração religiosa no seio do judaísmo e do helenismo no contexto romano. São pautas para olharmos com mais atenção e cuidado o tema do diálogo inter-religioso na contemporaneidade, no contexto da América Latina e particularmente do Brasil. O cristianismo, em suas origens, apresenta uma diversidade de matizes étnico-culturais, nas quais judeus, gregos e romanos interagem a partir de suas fronteiras socioculturais e geográficas, possibilitando, assim, a fluidez e a permeabilidade na construção da identidade cristã no primeiro século. 48 O mundo contemporâneo é caracterizado pelo reencantamento, ao contrário das afirmações que enfatizavam o desencantamento do mundo como a causa do secularismo. As religiões e as diferentes experiências do sagrado com suas espiritualidades estão presentes nos mais diferentes espaços sociogeográficos. Existe um novo emergir do sagrado. Para Peter Berger, “a modernidade, por razões compreensíveis, esconde todas as antigas certezas. A incerteza é uma condição que muitas pessoas têm grande dificuldade de assumir. Desse modo, qualquer movimento que promete assegurar ou renovar a certeza tem um apelo seguro (2001, p. 14).” Na opinião de Faustino Teixeira, o pluralismo moderno coloca uma situação inédita para a humanidade, que se vê confrontada com novas perspectivas as quais rompem com o tradicional quadro dos sistemas homogêneos e fechados e convidam para os campos abertos de conhecimento. Emerge hoje, com vitalidade, um processo singular de comunicação e de interdependência entre os diversos povos e culturas, a consciência viva da pluralidade das religiões, de sua proximidade – inédita para o cristianismo -, bem como de seu dinamismo e poder de atração e inspiração para o Ocidente. O mundo perde suas fronteiras bem delimitadas, e não há como ficar resguardado em seu lugar, protegido contra o apelo do outro (2014, p. 33). O outro diferente se torna o lugar desde onde eu interpreto o meu eu existencial, emocional, psicológico e histórico. Existe um processo relacional entre os sujeitos diferentes que supera a imanência e acontece na dinâmica do diálogo. Por meio do diálogo, faz-se necessária a abertura ao conhecimento e ao mundo do outro, assim como a iluminação da compreensão dos caminhos diferentes que se tomam para alcançar o Sagrado. Tal diálogo acontece nos espaços públicos e privados onde a religião transita por meio de seus símbolos, ritos e representações. A noção de espaço público/esfera na sua relação com a religião surge como um desenvolvimento do debate sobre o conceito de secularização, hegemônico nas ciências sociais até os anos 1970, no tratamento do papel da religião nas sociedades modernas. Dentro da perspectiva de análise traçada por Max Weber – que inaugura o que seus epígonos canonizaram como “paradigma da secularização” –, o processo histórico que se deu no Ocidente impulsionou os domínios da política, da ciência e da economia a se autonomizarem pouco a pouco da matriz religiosa, relegando essa última ao domínio do privado. Esse percurso histórico que conduzia à secularização dentro desses moldes (separação das esferas e confinamento da religião ao privado) foi difundido também pelos seus seguidores, como uma trajetória universal, inexorável, generalizante. Atualmente, ao se buscar uma perspectiva mais plural, diversa e diferenciada desse processo numa escala mundial, pode-se constatar que os processos de separação entre o secular e o religioso nas sociedades não levaram necessariamente a um retraimento do segundo e uma preeminência do primeiro, mas, antes, a formas de articulação entre os dois domínios (CAMURÇA; ORO, 2018, p. 9). A religião sempre manteve o seu lugar de ação e de reflexão nos espaços privados das diferentes subjetividades como também nos espaços públicos, exercendo a sua função social de acordo com os diferentes propósitos e interesses. Marcelo Camurça, citando Della Cava (1976) e Pedro de Oliveira (1992), comenta que, no Brasil, apesar da separação Igreja/Estado firmada na Constituição de 1891, a religião nunca deixou de ter influência no Estado na esfera pública e na política. A começar pelo Catolicismo, considerada a religião da “nação” – dentro da fórmula, ser católico = brasileiro –, a quem o Estado outorgava, tanto na República Velha, quanto nos governos de Vargas e sucessores, de 1900 a 1964, a hegemonia cultural na sociedade. Expediente que se deu por meio da concessão à Igreja Católica da organização dos ritos cívicos da nação e da sagração das instituições do Estado: missas campais, crucifixos e cruzeiros nos lugares públicos; na família, mediante o reconhecimento 49 do casamento religioso, e não do divórcio; na escola, com o ensino religioso facultativo nas escolas públicas; e, na saúde, com o financiamento das Santas Casas de Misericórdia (2018, p. 126). Porém, dentro do percurso da história, esse panorama do Catolicismo brasileiro enquanto a religião da nação nem sempre se manteve no mesmo formato e com a mesma hegemonia social, pois o contexto sociopolítico exigia um repensar da igreja enquanto presença e participação nos espaços públicos. No que concerne à Igreja Católica no Brasil, os eventos do Concílio Vaticano II e da Conferência de Medellin dos bispos da América Latina nos anos 1960-1970 vão engendrar, nela, uma postura no sentido de seu aggiornamento à modernidadee à democracia. Dentro do espírito dessa época de transformações, ela passa a atuar no campo religioso brasileiro não mais buscando exercer sua supremacia, mas reconhecendo o direito à liberdade religiosa de outros cultos. Desse modo, tanto no período ditatorial quanto no da redemocratização do país (1964-1985), a Igreja Católica não se encontrará reivindicando os privilégios institucionais de outrora, mas pugnando por direitos humanos e sociais (CAMURÇA, 2018, p. 127). De acordo com Camurça, “nos anos 1980, assistimos ao crescimento do segmento evangélico quebrando a hegemonia católica no campo religioso brasileiro e desejando converter essa representatividade social/simbólica da população em presença e reconhecimento na esfera pública (2018, p. 126).” Se observarmos a história do cristianismo, como também de outras religiões, sempre houve, desde seus inícios, a relação e a interação, nem sempre de harmonia, entre o Estado e a Igreja. Essas ocorrências sempre aconteciam de acordo com os interesses e as comodidades que se estabeleciam entre os dois espaços. Sociologicamente, se torna compreensível tal “convivência”, e teologicamente sempre se construiu uma justificação para tal “convivência”. Enquanto Igreja Católica Apostólica Romana, o mais recente acordo está presente no Acordo entre o Governo da República Federativa do Brasil e a Santa Sé, relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, firmado na Cidade do Vaticano em 13 de novembro de 2008: “O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso IV, da Constituição, e considerando que o Governo da República Federativa do Brasil e a Santa Sé celebraram, na Cidade do Vaticano, em 13 de novembro de 2008, um Acordo relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil. Considerando que o Congresso Nacional aprovou esse Acordo por meio do Decreto Legislativo no 698, de 7 de outubro de 2009. Considerando que o Acordo entrou em vigor internacional em 10 de dezembro de 2009, nos termos de seu Artigo 20”. Ari Pedro Oro e Marcelo Ayres Camurça (2018, p. 15) enfatizam que autores como Habermas, Rawls, Gauchet, Casanova, Assad e Taylor, para além das especificidades teóricas sustentadas por cada um deles, compartilham, embora com tonalidades diferentes, a ideia de que, na atualidade, Estado, Religião e Sociedade mantêm relações marcadas menos pela oposição, e mais por arranjos e conexões variadas. Desse modo, como já mencionado anteriormente, a religião no espaço público torna-se uma realidade comum e ordinária do ponto de vista histórico e sociológico, cujas exigências ocorrem no âmbito dos métodos e das ferramentas de análises para verificar as incidências e as consequências das relações entre Estado, religião e sociedade. 50 6.2 Desafios para as religiões Muitos são os desafios que emergem, não somente das discussões sobre a religião nos espaços públicos, mas também das implicações que tal fenômeno apresenta nos diferentes cenários públicos e privados e por isso, faz-se necessário apropriar-se de pistas e de ferramentas metodológicas para responder a tais desafios nas sociedades contemporâneas. Para Faustino Teixeira, um dos traços do mundo contemporâneo é o intenso retorno da religião na esfera pública. Os dados históricos desmentiram, de forma patente, os prognósticos de uma modernidade “racionalmente desencantada”; assim, o que se percebe é a presença do religioso por toda a parte. É um lugar comum dizer que o Brasil é um país marcado pela tolerância religiosa e pela dinâmica do sincretismo. De fato, desde sua gênese, o traço da pluralidade sistemática esteve sempre presente, permeada, em seguida, por porosidade e contaminações. Essa “predisposição estrutural à porosidade”, que marcou desde o início o campo religioso brasileiro, abre um espaço singular para a possibilidade de uma dinâmica dialogal (2014, p. 48; 59) a partir dos espaços públicos e privados. Cristina Pompa, no trabalho “Introdução ao dossiê religião e espaço público” (2012, p. 157-166), considera que, desde o início da construção dos campos disciplinares, do corpus teórico e dos instrumentos metodológicos das ciências sociais, a religião tem se encontrado na base de suas preocupações, não apenas como campo empírico privilegiado de investigação, mas, antes, como fundamento epistemológico. Evocam-se imediatamente a efervescência religiosa como celebração do próprio social e as categorias religiosas de entendimento de Durkheim, as formas de religião como diferencial evolutivo na definição dos estágios culturais, de Tylor e, naturalmente, o conceito de secularização de Weber, fundamento da modernidade, como distinção irreversível entre religioso e civil. A realidade do pluralismo religioso, por meio da crescente diversidade religiosa e das diferentes expressões do sagrado no panorama mundial, convoca as sociedades do século XXI a serem sensíveis às manifestações de cunho religioso e sociocultural e à vitalidade que o sagrado exerce no desenvolvimento das culturas e das sociedades; ou seja, de forma conivente com a dinâmica do Estado ou de forma tensa e paradoxal. De uma maneira ou de outra, constata-se que o pluralismo religioso se coloca atualmente como um elemento insuperável e que, como resposta, ainda de forma provisória aos desafios que se estabelecem, tal realidade exige o diálogo, o respeito, a paz e a tolerância. A religião está presente nas sociedades, em diversos espaços e de formas diversificadas, de acordo com cada cultura, povo e sociedade; e, por isso, é convocada a ter uma prática de cuidado e de responsabilidade na condução das pessoas e da cidadania. Isso se dá pela própria ação da religião enquanto prática ética e de moral, convergindo com a justiça, com o direito e com os princípios que regem a vida e a natureza. Logo, em diferentes espaços públicos, se observa a presença de diferentes igrejas, credos, comunidades e organizações religiosas que filtram a dor e o sofrimento das pessoas oferecendo-lhes as oportunidades para a realização dos desejos que anseiam, pois nem sempre esses anseios são respondidos satisfatoriamente pelos aparatos do Estado. Também é importante que nessa diversidade religiosa haja a convivência e o respeito entre os espaços religiosos e civis e que se obtenha êxito na articulação das necessidades que emergem. Assim, é relevante que não haja violência, competição e conflitos que possam bombardear os objetivos principais das ações e resultar na neutralidade dos propósitos almejados. 51 Desse modo, quando se emite uma ideia ou se abre uma discussão em favor da laicidade, não é um pensamento ou opinião que tem o escopo de desacreditar ou anular a religião, mas que define o espaço da religião na esfera pública, e isso acontece com os discursos apoiadores da religião e que afirmam os espaços públicos. Religião e sociedade são componentes da mesma natureza, enquanto desejos e anseios do ser humano. A religião não deve ocupar o espaço autorizado do Estado, e o Estado não deve ocupar o espaço autorizado da religião. Os dois espaços devem colaborar e possibilitar o diálogo com as instâncias necessárias de ambos e propiciar as respostas precisas e almejadas pelas pessoas e grupos socioculturais. Qualquer discrepância à natureza da religião, da sociedade e do Estado resultará na anulação das ações em favor dos grupos humanos e tornará inviável os papéis dos respectivos atores sociais e religiosos. Religião, laicidade, democracia e Estado são temas que estão juntos, mas que ainda se provocam e acabam debilitando suas ações em favor de um bem maior que é a vida. Na opinião de Faustino Teixeira, o diálogo inter-religioso constitui, neste início do século XXI, um dos desafios mais imprescindíveis para a humanidade. Tem-se falado inúmeras vezes que a paz entre as religiões constitui condição fundamental para a pazno mundo. Infelizmente, esse horizonte de fraternidade e diálogo encontra- -se ainda bem distanciado. O quadro do tempo atual é revelador de um espectro de violência e de fascínio do mal. Tal cenário mostra-se ainda mais doloroso ao se perceber a presença e o lugar da religião nos embates e conflitos contemporâneos. Em todos os continentes, surgiram conflitos étnicos, nacionais ou sociais, nos quais religião desempenhou um papel fatídico (2002, p. 155). Portanto, os desafios para as religiões no âmbito das sociedades, no que concerne ao diálogo inter- religioso e aos espaços públicos, não só corresponde à teologia das religiões, mas à eclesiologia, à missiologia e a toda a teologia. Segundo Teixeira (2002, p. 150), com base na realidade do pluralismo religioso e na práxis do diálogo, toda a reflexão teológica é acionada a buscar uma nova interpretação da realidade religiosa pluriforme envolvente. No campo do cristianismo, esse desafio se faz fundamental, e a perspectiva que se abre é de uma Igreja “com os outros e para os outros”, voltada e orientada para o horizonte mais amplo do Reino de Deus. Considerações finais A religião no espaço público torna-se uma realidade comum e ordinária do ponto de vista histórico e sociológico, cujas exigências ocorrem no âmbito dos métodos e das ferramentas de análises para verificar as incidências e as consequências das relações entre Estado, religião e sociedade. A realidade do pluralismo religioso, por meio da crescente diversidade religiosa e das diferentes expressões do sagrado no panorama mundial, convoca as sociedades do século XXI a serem sensíveis às manifestações de cunho religioso e sociocultural e à vitalidade que o sagrado exerce no desenvolvimento das culturas e das sociedades; ou seja, de forma conivente com a dinâmica do Estado ou de forma tensa e paradoxal. De uma maneira ou de outra, constata-se que o pluralismo religioso se coloca atualmente como um elemento insuperável e que, como resposta, ainda de forma provisória aos desafios que se estabelecem, tal realidade exige o diálogo, o respeito, a paz e a tolerância. 52 Desde os primórdios da história do cristianismo, como também de outras religiões, a religião sempre esteve vinculada de maneira direta ou indireta ao Estado e aos espaços públicos. A própria dinâmica de objetivação e de exteriorização da religião e da espiritualidade a um campo sociológico já vai definindo o papel da religião nas sociedades e sua função; assim como a influência social no campo religioso. Esse processo é estudado e pesquisado pela sociologia da religião, pela antropologia da religião, pelas ciências da religião, como também pela história das religiões. Os desafios para as religiões no âmbito das sociedades, no que concerne ao diálogo inter-religioso e aos espaços públicos não só corresponde à teologia das religiões, mas à eclesiologia, à missiologia e a toda a teologia. O estudo teológico é acionado a buscar uma nova compreensão e uma nova hermenêutica da realidade histórica e religiosa, que é pluriforme e que deve ser envolvente. No horizonte do cristianismo, esse desafio se faz fundamental, e a perspectiva que se apresenta é de uma Igreja que se identifique “com os outros” e que seja “para os outros”, voltada e orientada pela ética cristã e num horizonte mais amplo do Reino de Deus. Para Peter Berger, a modernidade, por razões compreensíveis, esconde todas as antigas certezas. A incerteza é uma condição que muitas pessoas têm grande dificuldade de assumir. Desse modo, qualquer movimento que promete assegurar ou renovar a certeza tem um apelo seguro (2001, p. 14). De que, nos anos 1980, assistimos ao crescimento do segmento evangélico quebrando a hegemonia católica no campo religioso brasileiro e desejando converter essa representatividade social/simbólica da população em presença e reconhecimento na esfera pública (CAMURÇA, 2018, p. 126). Cristina Pompa, no trabalho “Introdução ao dossiê religião e espaço público” (2012, p. 157-166), considera que, desde o início da construção dos campos disciplinares, do corpus teórico e dos instrumentos metodológicos das ciências sociais, a religião tem se encontrado na base de suas preocupações, não apenas como campo empírico privilegiado de investigação, mas, antes, como fundamento epistemológico. 53 Marcelo Camurça, citando Della Cava (1976) e Pedro de Oliveira (1992), comenta que, no Brasil, apesar da separação Igreja/Estado firmada.............., a religião nunca deixou de ter influência no Estado, na esfera pública e na política. a) Na Constituição de 1891 b) Na Constituição de 1836 c) Na Constituição de 1945 d) Na Constituição de 1963 e) Na Constituição de 2008 Resposta: A resposta correta é a letra “a”, pois foi na Constituição de 1891 que se firmou a separação Igreja e Estado. 1 - Religião, laicidade, democracia e Estado...................................., mas que ainda se provocam e acabam debilitando suas ações em favor de um bem maior que é a vida. a) São temas que estão separados b) São temas que estão juntos c) São temas que estão em conflitos d) São temas que estão em tensão contínua e) São temas que estão juntos https://www.youtube.com/watch?v=D4cGja1zqs8 Religare - Conhecimento e Religião sobre religião no espaço público. Flávio Senra entrevista Luiz Carlos Susin https://www.youtube.com/watch?v=D4cGja1zqs8 54 POMPA, Cristina. Introdução ao dossiê religião e espaço público: repensando conceitos e contextos - Rio de Janeiro: Religião e Sociedade 32(1): p. 157-166, 2012. Desde o início da construção dos campos disciplinares, do corpus teórico e dos instrumentos metodológicos das ciências sociais, a religião tem se encontrado na base de suas preocupações, não apenas como campo empírico privilegiado de investigação, mas, antes, como fundamento epistemológico. Evocam- -se imediatamente a efervescência religiosa como celebração do próprio social e das categorias religiosas de entendimento de Durkheim, as formas de religião como diferencial evolutivo na definição dos estágios culturais, de Tylor e, naturalmente, o conceito de secularização de Weber, fundamento da modernidade, como distinção irreversível entre religioso e civil. Ari Pedro Oro e Marcelo Ayres Camurça (2018, p. 15) enfatizam que autores como Habermas, Rawls, Gauchet, Casanova, Assad e Taylor, para além das especificidades teóricas sustentadas por cada um deles, compartilham, embora com tonalidades diferentes, a ideia de que, na atualidade, Estado, religião e sociedade mantêm relações marcadas menos pela oposição, e mais por arranjos e conexões variadas. Resposta: 1 – Alternativa “b”. • Aggiornamento: é um termo italiano, que significa "atualização". Essa palavra foi a orientação-chave dada como objetivo para o Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII em 1962. • Ethos: costumes, tradições, linguagem, maneira de ser, etc. de uma pessoa ou de um povo. • Fenomenologia: do grego phainesthai – aquilo que se apresenta ou que mostra – e logos explicação, estudo). É parte da corrente filosófica que afirma os fenômenos como importantes. Estes devem ser estudados e analisados em si mesmos. 55 • Hierofania: ato de manifestação do Sagrado. É a consciência fundamentada da existência e manifestação do sagrado. Este se manifesta por meio dos objetos habituais de nosso cosmos, porém, como oposto do mundo comum e considerado profano. • Macroecumenismo: o ecumenismo em escala ampla e plural. • Metafísica: Metafísica (do grego antigo μετα (metà) = depois de, além de tudo; e Φυσις [physis] = natureza ou física) é considerada uma das principais disciplinas da filosofia. Os sistemas metafísicos, na sua forma clássica, tratam de problemas centrais da filosofia teórica. • Neoesoterismo: novas formas esotéricas. • Neopentecostalismo: novas formas de pentecostalismos. • Pós-modernidade:é um conceito que representa toda a estrutura sociocultural desde o fim dos anos 80 até os dias atuais. Em suma, a pós-modernidade consiste no ambiente em que a sociedade pós- moderna está inserida, caracterizada pela globalização e domínio do sistema capitalista. • Secularismo: refere-se à visão de que as atividades humanas e as decisões, especialmente as políticas, devem ser imparciais em relação à influência religiosa. É um sistema que não assume a influência da religião no destino dos homens e separa a religião do Estado e das instituições governamentais. BERGER, Peter. A dessecularização do mundo: uma visão global. Religião e Sociedade. 2002. BOFF, Leonardo. Virtudes para um outro mundo possível: convivência, respeito e tolerância. Petrópolis: Ed. Vozes, 2006. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2016]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 1 jun. 2020. BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Editora Teológica, 2004. 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