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CASO CLÍNICO Paciente relata corrimento vaginal há mais de dois meses, de coloração amarelada, cheiro desagradável e aspecto espumoso, chegando a sujar suas roupas íntimas. Apresenta, ainda, dispareunia, dor genital relacionada à relação sexual. Nega disúria, que é a dor ao urinar, ou outras queixas urinárias MORFOLOGIA Trichomonas vaginalis é uma célula polimorfa, tanto no hospedeiro natural como em meios de cultura. Os espécimes vivos são elipsoides ou ovais e algumas vezes esféricos Possuem a capacidade de formar pseudópodes, os quais são usados para capturar os nutrientes e se fixar em partículas sólidas. Ainda, há presença de flagelos e de membrana ondulante Contrariando o que ocorre na maioria dos protozoários, não há formação de cistos, e como todos os tricomonadideos, T vaginalis apresenta somete o estágio de trofozoíto As condições físico-químicas, como o PH e a temperatura, afetam o aspecto dos Trichomonas Este protozoário é desprovido de mitocôndrias e apresenta grânulos densos denominados hidrogenossomos CLASSIFICAÇÃO LOCAL DE INFECÇÃO T. vaginalis habita o trato geniturinário do homem e da mulher, onde produz a infecção e não sobrevive fora do sistema urogenital REPRODUÇÃO A multiplicação, como em todos os tricomonadídeos, ocorre por divisão binária longitudinal, e a divisão nuclear é do tipo criptopleuromitótica, sendo o cariótipo constituído por 6 cromossomos FISIOLOGIA T. vaginalis é um organismo anaeróbio facultativo. Cresce perfeitamente bem na ausência de oxigênio, em meios de cultura com faixa de PH compreendida entre 5 e 7,5 e em temperatura entre 20 e 40 graus Como fonte de energia, o flagelado utiliza glicose, frutose, maltose, glicogênio e amido T. vaginalis é capaz de manter em reserva o glicogênio e pode realizar a síntese de aminoácidos TRANSMISSÃO É incontestável que a tricomoníase é uma doença sexualmente transmissível, além de transmissível pelo parto, por roupas íntimas, por toalhas contaminadas e por fômites, espéculo vaginal em clínicas ginecológicas Atualmente, admite-se que a transmissão não sexual é incomum e pode ser aceita para explicar a tricomoníase em crianças, incluindo os recém-nascidos, como também em virgens CLASSIFICAÇÃO VAGINAL GRAU 1 PH vaginal 3,8 a 4,5 Os fungos Candida estão presentes Há Flora de Doderlein GRAU 2 PH mais alto que o de grau I Bacilos Doderlein ainda presentes, mas já com presença de cocos e de outros bacilos Os fungos são também encontrados GRAU 3 Bacilos Doderlein ausentes, porém presença de cocos e de outros bacilos Fungos são raros e o PH desta é aumentado Mais propensa a desenvolver infecções CICLO BIOLÓGICO SINTOMATOLOGIA T. vaginalis apresenta alta especificidade de localização, sendo capaz de produzir infecção somente no trato urogenital humano MULHER Na mulher, o espectro clínico da tricomoníase varia da forma assintomática (80% dos casos) ao estado de vaginite aguda Estudos clínicos e experimentais da infecção determinaram que o período de incubação varia de 3 a 20 dias. T. vaginalis infecta principalmente o epitélio do trato genital. Nas mulheres adultas, a exocérvice é suscetível ao ataque do protozoário, mas raramente os organismos são encontrados na endocérvice. A Tricomoníase provoca uma vaginite que se caracteriza por um corrimento vaginal fluido abundante de cor amarelo-esverdeada, bolhoso, de odor fétido, mais frequente no período pós-menstrual. O processo infeccioso é acompanhado de prurido (coceira) ou irritação vulvovaginal de intensidade variável e dores no baixo ventre. A mulher apresenta dor e dificuldade para as relações sexuais (dispareunia de introito), desconforto nos genitais externos, dor ao urinar (disúria) e aumento da frequência miccional (poliúria). A vagina e a cérvice podem ser edematosas e eritematosas (vermelhidão), com erosão e pontos hemorrágicos na parede cervical, conhecida como colpitis macularis ou cérvice com aspecto de morango. Os sintomas da tricomoníase são mais pronunciados no período pós- menstrual e na gravidez. HOMEM A Tricomoníase no homem é comumente assintomática ou apresenta-se como uma uretrite com fluxo leitoso ou purulento e uma leve sensação de prurido na uretra. Pela manhã, antes da passagem da urina, pode ser observado um corrimento claro, viscoso e pouco abundante, com desconforto ao urinar (ardência miccional) e por vezes hiperemia, aumento do fluxo sanguíneo, do meato uretral. Durante o dia, a secreção é escassa. Nos portadores assintomáticos, o parasito permanece na uretra e talvez na próstata. As seguintes complicações são atribuídas a este organismo: prostatite, balanopostite, inflamação da glande, e cistite, inflamação da bexiga. Este protozoário pode se localizar ainda na bexiga e na vesícula seminal COMPLICAÇÕES DA TRICOMANÍASE Doença inflamatória pélvica Transmissão e aquisição do HIV Aumento do risco de desenvolvimento de câncer cervical Infertilidade feminina e masculina Nascimentos pré termo: Baixo peso por inflamação da placenta PATOGÊNESE O estabelecimento de T. vaginalis no sítio de infecção inicia com o aumento do PH, visto que o PH normal da vagina é ácido (3,8-4,5) e o organismo desenvolve-se em PH maior que 5 Um contato inicial entre T.vaginalis e leucócitos resulta em formação de pseudópodes e fagocitose das células imunes nos vacúolos fagocíticos do parasito A interação entre T.vaginalis com seu hospedeiro é um processo complexo, no qual estão envolvidos componentes associados à superfície celular do parasito, a células epiteliais do hospedeiro e também a componentes solúveis encontrados nas secreções vaginal e uretral A citoaderência e a citotoxicidade exercidas pelo parasito sobre as células do hospedeiro dependem de fatores de virulência como adesinas e Cisteina proteases As Cisteina proteases são secretadas pelo parasito, exercem efeito citotóxico e hemolítico e apresentam capacidade de degradar a porção C3 do complemento e anticorpos IgG, IgM, IgA presentes na vagina. A expressão dos genes que codificam as proteases e as adesinas é modulada por fatores externos relacionados com o hospedeiro, tais como os níveis de cálcio e ferro Por esse motivo, enquanto o número de organismos na vagina diminui durante a menstruação, os fatores de virulência mediados pelo ferro contribuem para a exacerbação dos sintomas neste período. Além disso, T. vaginalis pode se autorrevestir de proteínas plasmáticas do hospedeiro, impedindo que o sistema imune reconheça o parasita como estranho. PATOLOGIA T. vaginalis tem se destacado como um dos principais patógenos do trato urogenital humano e está associado a serias complicações de saúde. Vários estudos mostram que T. vaginalis promove a transmissão do vírus da imunodeficiência humana (HIV); é causa de baixo peso de bebês, como de nascimento prematuro; predispõe mulheres à doença inflamatória pélvica atípica, câncer cervical e infertilidade. Recentemente, estudos têm mostrado a associação de T. vaginalis com tipos agressivos de câncer de próstata PROBLEMAS RELACIONADOS COM A GRAVIDEZ T. vaginalis causa ruptura prematura de membrana, parto prematuro, baixo peso de recém-nascidos, endometrite pós-parto, natimorto e morte neonatal. A resposta inflamatória gerada pela infecção pode conduzir direta ou indiretamente a alterações na membrana fetal ou decídua. PROBLEMAS RELACIONADOS COM A FERTILIDADE T. vaginalis está relacionado com doença inflamatória pélvica, pois infecta o trato urinário superior, causando resposta inflamatória que danifica as células ciliadas da mucosa tubária, inibindo a passagem de espermatozoides ou de óvulos através da tuba uterina TRANSMISSÃODO HIV A infecção por T. vaginalis tipicamente faz surgir uma agressiva resposta imune celular local com inflamação do epitélio vaginal e exocérvice em mulheres e da uretra em homens. Essa resposta inflamatória induz uma grande infiltração de leucócitos, incluindo células-alvo do HIV como linfócitos TCD4 e macrófagos, aos quais o HIV pode se ligar e ganhar acesso. Além disso, T. vaginalis frequentemente causa 127 pontos hemorrágicos na mucosa, permitindo o acesso direto do vírus para a corrente sanguínea. Semelhantemente, em uma pessoa infectada pelo HIV, os pontos hemorrágicos e a inflamação podem aumentar os níveis de vírus nos fluídos corporais e o número de linfócitos e macrófagos infectados pelo HIV presentes na região genital Além disso, um aumento da carga viral na secreção uretral tem sido documentado em indivíduos com tricomoníase T. vaginalis tem a capacidade de degradar o inibidor de protease leucocitária secretória, um produto conhecido por bloquear o ataque do HIV às células, podendo esse fenômeno também promover a transmissão do vírus. Além disso, muitos pacientes são assintomáticos e, mantendo-se sexualmente ativos, propagam ainda mais a infecção. IMUNOLOGIA A presença de anticorpos locais e sistêmicos é frequentemente revelada nos indivíduos infectados, apesar de não ter sido ainda comprovada a existência da imunidade adquirida contra T. vaginalis. Fatores não imunológicos como a presença de zinco, tóxico ao parasito em altas concentrações, e ferro, modulador de fatores de virulência de T. vaginalis, são importantes para o estabelecimento do parasitismo. Além desses, fatores imunológicos como a ativação do complemento pela via alternativa, a resposta de neutrófilos, macrófagos e anticorpos inespecíficos constituem a resposta imune inata contra T. vaginalis. Neutrófilos são as células inflamatórias predominantes encontradas na secreção vaginal de pacientes com tricomoníase. Os parasitos induzem a produção de IL-8 em neutrófilos. Por outro lado, os parasitos induzem apoptose de neutrófilos Além disso, neutrófilos em apoptose- T. vaginalis induzida, mantidos em interação com macrófagos, provocaram aumento na produção de IL-10, uma interleucina anti-inflamatória, e diminuição dos níveis de citocinas pró-inflamatórias, tais como TNF-a e IL-6 nos macrófagos, reduzindo a resposta inflamatória. DIAGNÓSTICO O diagnóstico da tricomoníase não pode ser baseado somente na apresentação clínica, pois a infecção poderia ser confundida com outras DSTs A investigação laboratorial é necessária e essencial para o diagnóstico da tricomoníase, uma vez que leva ao tratamento apropriado e facilita o controle da propagação da infecção LABORATORIAL HOMEM Swab subprepucial ou saída da uretra, sêmen ou primeira urina do dia O organismo é mais facilmente encontrado no sêmen do que na urina ou em esfregaços uretrais MULHER Sem higiene nas 24 horas anteriores, coleta do fluido vaginal com swab ou espéculo A vagina é o local mais facilmente infectado e os trichomonas são mais abundantes durante os primeiros dias após a menstruação PRESERVAÇÃO DA AMOSTRA O T. vaginalis é suscetível à desidratação e às mudanças do potencial de óxido-redução O material colhido de pacientes que não for examinado em preparações a fresco, imediatamente após a coleta ou inoculado em meios de cultura, deverá ser preservado em líquidos ou em meios de transporte EXAME MICROSCÓPICO O exame microscópico convencional de preparações a fresco e de esfregaços fixados e corados, junto com os métodos de cultivo, são os procedimentos laboratoriais mais comumente empregados no diagnóstico da tricomoníase urogenital O diagnóstico da tricomoníase, tradicionalmente, depende da observação microscópica do protozoário móvel, por meio do exame direto de esfregaços a fresco com auxílio da microscopia de campo claro e/ou de campo escuro e/ou de contraste de fases, bem como pela microscopia de esfregaços fixados e corados IMUNOLÓGICO O imunodiagnóstico por meio de reações de aglutinação, métodos de imunofluorescência (direta e indireta) e técnicas imunoenzimáticas (ELISA) tem contribuído para aumentar o índice de certeza do resultado Estas técnicas não substituem os exames parasitológicos, mas podem completa-los, quando negativos Os métodos imunológicos têm significado maior naqueles casos de pacientes assintomáticos, permitindo uma triagem adequada com a possibilidade de um tratamento precoce e uma diminuição do risco de transmissão TRATAMENTO I: Metronidazol II: Secnidazol III: Tinidazol IV: Ornidazol T. vaginalis não é sensível aos antibióticos e atualmente existe um aumento nos casos isolados resistentes ao metronidazol Em gestantes esses medicamentos não devem ser usados via oral, somente pela aplicação local de cremes e géis vaginais PROFILAXIA Incontestavelmente, o mecanismo de contágio da tricomoníase é a relação sexual, portanto o controle desta é constituído de medidas preventivas que são tomadas no combate às outras DSTs I: Educação sexual II: Uso de preservativo III: Abstinência de contatos sexuais com pessoas infectadas IV: Administração de um tratamento imediato e eficaz, tanto para os sintomáticos como para os assintomáticos, de forma que haja tratamento simultâneo para parceiros sexuais, mesmo que apenas um tenha sido diagnosticado EPIDEMIOLOGIA A tricomoníase é a DST não viral mais comum no mundo. A Organização Mundial de Saúde estimou em 2008 uma incidência anual de 276,4 milhões de casos novos de tricomoníase no mundo A incidência da infecção depende de vários fatores incluindo idade, atividade sexual, número de parceiros sexuais, outras DSTs, fase do ciclo menstrual, técnicas de diagnóstico e condições socioeconômicas A perpetuação do protozoário depende da sobrevivência no hospedeiro humano. O organismo, não tendo a forma cística, é suscetível à dessecação e às altas temperaturas, mas pode viver, surpreendentemente, fora de seu hábitat por algumas horas sob alta umidade. A taxa de prevalência da infecção em homens é pouco conhecida, mas provavelmente é 50 a 60% menor que em mulheres