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PARTE I PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 1PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 1 06/09/2011 14:36:0506/09/2011 14:36:05 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 2PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 2 06/09/2011 14:36:0706/09/2011 14:36:07 Universidade Estadual de Santa Cruz Reitor Prof. Antonio Joaquim da Silva Bastos Vice-reitora Profª. Adélia Maria Carvalho de Melo Pinheiro Pró-reitora de Graduação Profª. Flávia Azevedo de Mattos Moura Costa Diretora do Departamento de Ciências da Educação Profª. Raimunda Alves Moreira Assis Ministério da Educação PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 3PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 3 06/09/2011 14:36:0706/09/2011 14:36:07 Ficha Catalográfi ca P371 Pedagogia: psicologia e educação ll : aprendizagem e linguagens – EAD; módulo 3, volume 4 / Elaboração de conteúdo: Karina Pereira Pinto. – [Ilhéus, BA]: UAB/ UESC, [ 2011]. 191, [33] p. : il. ISBN: 978-785-7455-227-9 Inclui bibliografi as. 1. Psicologia educacional. 2. Psicologia da aprendiza- gem. I. Pinto, Karina Pereira. II. Título: Aprendizagem e linguagens, módulo 3, volume 4. CDD 370.15 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 4PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 4 06/09/2011 14:36:0906/09/2011 14:36:09 PE DA G O G IA EA D - U ES C Coordenação UAB – UESC Profª. Drª. Maridalva de Souza Penteado Coordenação do Curso Pedagogia (EAD) Profª. Drª. Maria Elizabete Sauza Couto Elaboração de Conteúdo Profª. Drª. Karina Pereira Pinto Instrucional Design Profª. Msc. Marileide dos Santos de Olivera Profª. Msc. Cibele Cristina Barbosa Costa Profª. Msc. Cláudia Celeste Lima Costa Menezes Revisão Profª. Msc. Sylvia Maria Campos Teixeira Coordenação de Design Profª. Msc. Julianna Nascimento Torezani Diagramação Jamile A. de Mattos Chagouri Ocké João Luiz Cardeal Craveiro Capa Sheylla Tomás Silva PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 5PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 5 06/09/2011 14:36:0906/09/2011 14:36:09 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 6PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 6 06/09/2011 14:36:0906/09/2011 14:36:09 PARA ORIENTAR SEUS ESTUDOS: Ao longo do texto você encontrará alguns boxes com orientações de estudo. A seguir descrevo o que cada uma signifi ca e como você deve proceder diante das orientações. PARA REFLETIR: São pequenas provocações feitas ao longo do tex- to para que você interrompa por alguns minutos a leitura e pense sobre o que está sendo estudado. ATENÇÃO: Nos boxes em que há pedido de atenção são apresen- tadas questões ou conceitos importantes para a elaboração de sua aprendizagem e continuidade dos estudos. SAIBA MAIS: Aqui você terá acesso a informações que complemen- tam seus estudos a respeito do tema abordado. São apresentados trechos de textos ou indicações que contribuem para o aprofunda- mento de seus estudos. FILME RECOMENDADO: São indicações de fi lmes (curtas-metra- gens e/ou longas-metragens) que contribuem para a complementa- ção dos estudos realizados. LEITURA RECOMENDADA: Indicação de obras bibliográfi cas vincu- ladas ao conteúdo abordado. ATIVIDADES: Esta é a única orientação de estudo que será avaliada e receberá nota. As atividades devem ser realizadas de acordo com as orientações específi cas. PRINCIPAIS CONCEITOS ESTUDADOS: Ao longo das unidades, ao apresentar as diversas teorias, serão destacados em caixa-alta os principais conceitos abordados. Ao fi nal de cada teoria estudada, os conceitos são retomados para que você possa verifi car sua aprendi- zagem. VOCÊ SABIA?: Apresentamos curiosidades relacionadas aos temas que estão sendo abordados. VERBETE: Signifi cado ou referência de uma palavra utilizada no texto que seja importante para sua compreensão. PARA ORIENTAR SEUS ESTUDOS PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 7PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 7 06/09/2011 14:36:0906/09/2011 14:36:09 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 8PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 8 06/09/2011 14:36:1006/09/2011 14:36:10 Sumário PARTE I UNIDADE I Psicologia e educação: pensando aprendizagem e desenvolvimento 1 PRIMEIRAS PALAVRAS .............................................................................................................. 19 2 RETOMANDO ALGUMAS QUESTÕES ............................................................................................. 20 3 COMPREENSÃO CRÍTICA DOS SISTEMAS TEÓRICOS SOBRE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM .... 23 4 A ESCOLHA DA ABORDAGEM EM PSICOLOGIA E A PRÁTICA PEDAGÓGICA ....................................... 28 4.1 Como escolher uma abordagem? ..................................................................................... 31 ATIVIDADES ........................................................................................................................... 35 RESUMINDO ........................................................................................................................... 35 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................... 36 UNIDADE II Abordagens tradicionais da Psicologia da Educação 1 PRIMEIRAS PALAVRAS .............................................................................................................. 41 2 TEORIAS COMPORTAMENTAIS .................................................................................................... 42 2.1 Pressupostos teóricos ..................................................................................................... 42 2.1.1 O Condicionamento Clássico de Ivan Pavlov .................................................................... 43 2.1.2 O Behaviorismo Radical de Frederic Skinner ................................................................... 45 3 TEORIA PSICANALÍTICA DE FREUD ............................................................................................. 52 3.1 Pressupostos teóricos ..................................................................................................... 53 3.1.1 Transferência como condição de aprendizagem ............................................................... 56 3.1.2 O professor e o Ideal do Eu ......................................................................................... 61 ATIVIDADES ........................................................................................................................... 65 RESUMINDO ........................................................................................................................... 65 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................... 66 UNIDADE III Abordagens Interacionistas em Psicologia e Educação 1 PRIMEIRAS PALAVRAS .............................................................................................................. 73 2 PSICOLOGIA GENÉTICA DE JEAN PIAGET..................................................................................... 74 2.1 Pressupostos teóricos ..................................................................................................... 75 2.2 Tema para refl exão: A importância da interação social para o desenvolvimentodo conhecimento lógico-matemático .................................................................................. 84 3 PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA DE VYGOTSKY ............................................................................ 88 3.1 Pressupostos teóricos ..................................................................................................... 89 3.2 Tema para refl exão: Autoconceito e preconceito no cotidiano escolar .................................... 98 4 PIAGET E VYGOTSKY: DIFERENÇAS ........................................................................................... 104 ATIVIDADES ......................................................................................................................... 107 RESUMINDO ......................................................................................................................... 107 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 108 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 9PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 9 06/09/2011 14:36:1106/09/2011 14:36:11 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 10PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 10 06/09/2011 14:36:1106/09/2011 14:36:11 PARTE II UNIDADE IV Abordagens sócio-históricas transdisciplinares em Psicologia e Educação 1 PRIMEIRAS PALAVRAS ............................................................................................................ 113 2 GENEALOGIA DE MICHEL FOUCAULT ........................................................................................ 116 2.1 Pressupostos teóricos ................................................................................................... 120 2.2 Tema para refl exão: Medicalização da vida escolar ........................................................... 141 3 ANÁLISE INSTITUCIONAL ........................................................................................................ 150 3.1 Pressupostos teóricos ................................................................................................... 154 3.2 Tema para refl exão: Educação, mídia e produção de subjetividade .................................... 172 ATIVIDADES ......................................................................................................................... 181 RESUMINDO ......................................................................................................................... 182 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 183 Considerações Finais Anexos ANEXO 1 – Manifesto de Lançamento do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade ANEXO 2 – Infância, televisão e publicidade PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 11PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 11 06/09/2011 14:36:1106/09/2011 14:36:11 Sobre a autora Profª. Drª. Karina Pereira Pinto Doutora em Educação pela PUC/SP, mestre em Psicologia Social pela UERJ, graduada em Psicolo- gia pela UERJ. Professora da área de Psicologia do Departamento de Filosofi a e Ciências Humanas da UESC. É professora e pesquisadora na área de For- mação de Professores e atua nos seguintes temas: Psicologia e Educação, Psicologia Social, Processos de Exclusão Social, Saúde Mental, História da Psico- logia. Coordena, juntamente com Hildeberto Vieira Martins (UFF), o Grupo de Pesquisa Interinstitucio- nal “Saberes Psicológicos e Produção de Subjetivida- des: História, Educação, Diversidade Sociocultural e suas interfaces”, cadastrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq. PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 12PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 12 06/09/2011 14:36:1106/09/2011 14:36:11 Ementa DISCIPLINA PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO II Profª. Drª. Karina Pereira Pinto Contribuições das principais teorias psicológicas para a compreensão do processo ensino-aprendi- zagem: comportamentalismo e interacionismo. A construção do conhecimento, as teorias da apren- dizagem e a prática pedagógica. Fatores sócio-am- bientais e interpessoais da aprendizagem escolar. O sujeito como aprendente no contexto da socie- dade tecnológica. PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 13PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 13 06/09/2011 14:36:1106/09/2011 14:36:11 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 14PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 14 06/09/2011 14:36:1106/09/2011 14:36:11 Agradecimento Agradeço a Elisa Teixeira pela leitura dos originais e colaboração com suas generosas sugestões durante a produção de todo material de Psicologia e Educação I e II para o curso de Pedagogia EAD - UAB/UESC. Agradeço a Kayobi de Azevedo Vargas que me incen- tivou e apoiou a cada instante de meu processo de elaboração e escrita. Agradeço a minha mãe, Marlene Dias Pereira Pinto, que me afetou com seu amor pela educação e pela profi ssão docente. Agradeço a Maria Elizabete Souza Couto, pela feliz oportunidade de produzir os livros de Psicologia e Educação I e II para o curso de Pedagogia EAD - UAB/ UESC, pois através deles pude sistematizar e aper- feiçoar meus conhecimentos e, concomitantemente, minha prática pedagógica. Hoje eu acordei com medo Mas não chorei, nem reclamei abrigo Do escuro eu via o infi nito Sem presente, passado ou futuro Senti um abraço forte, já não era medo Era uma coisa sua que fi cou em mim, e que não tem fi m (Cazuza & Frejat – Poema) PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 15PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 15 06/09/2011 14:36:1106/09/2011 14:36:11 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 16PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 16 06/09/2011 14:36:1106/09/2011 14:36:11 Ao fi nal da unidade o(a) aluno(a) deverá: ter clareza sobre as diferentes abordagens que com- põem a Psicologia como ciência; conhecer, de maneira geral, os assuntos que serão de- senvolvidos na disciplina Psicologia e Educação II; desenvolver a capacidade de escolha em relação às abordagens da Psicologia. Objetivos PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO: PENSANDO APRENDIZAGEM E DE- SENVOLVIMENTO 1Unidade PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 17PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 17 06/09/2011 14:36:1106/09/2011 14:36:11 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 18PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 18 06/09/2011 14:36:1206/09/2011 14:36:12 UNIDADE 1 PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO: PENSANDO APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO 1 PRIMEIRAS PALAVRAS De um modo geral, podemos dizer que a Psicologia é uma ci- ência que contribui para os estudos da subjetividade. Subjetividade são os modos de ser, agir, pensar e sentir, construídos por cada um de nós a partir das relações sociais. Somos todos diferentes e, ao mesmo tempo, temos várias coisas em comum. Dentre os elementos que nos igualam, podemos dizer que vi- venciamos questões em comum no âmbito social (a realidade social que nos cerca), cultural (atribuímos signifi cados parecidos às coisas que fazem parte de nossas vidas, como, por exemplo, o modo como entendemos o que é ser mãe) e histórico (vivemos um tempo his- tórico - os séculos XX e XXI - marcado pelo avanço tecnológico, por guerras, pela luta pelos direitos humanos, por grandes movimentos sociais, pela globalização etc.). Já os elementos que nos diferenciam são constituídos a partir da relação que nós estabelecemos com múltiplas questões sociais, culturais e históricas. A partir desta relação, nos tornamos capazes, ou não, de fazerescolhas, de decidir que caminho queremos seguir. Para além de nossas possibilidades de escolhas, algumas coisas vão nos afetar positiva ou negativamente e outras nos serão indiferen- tes. Por que algumas pessoas sentem medo de roda-gigante e outras adoram? Por que algumas pessoas têm mais afi nidade pelas ciências exatas, e outras pelas ciências humanas? Por que algumas pessoas aprendem rapidamente alguns assuntos, e outras precisam de mais tempo? Explicar a construção da subjetividade a partir da relação entre os processos individuais e coletivos é uma forma bem ampla e genérica de falar de um conceito que é bastante complexo. Para compreender, de uma forma mais aprofundada, como nossas subje- tividades se constituem, é preciso recorrer às teorias da Psicologia. Há muitas teorias da Psicologia, e, para cada uma, a subjetividade é Figura 1 UAB|UESC 19PedagogiaUESC U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 19PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 19 06/09/2011 14:36:1206/09/2011 14:36:12 explicada de uma forma específi ca. Nesta unidade veremos algumas abordagens tradicionais da Psicologia da Educação, e outras abordagens que contribuem para a compreensão de questões que permeiam a Psicologia e a Educação. Nas próximas unidades, teremos contato com as teorias da Psicologia e suas diversas formas de compreender a construção da subjetivida- de. 2 RETOMANDO ALGUMAS QUESTÕES Vamos relembrar algumas questões que estudamos na disci- plina Psicologia e Educação I? Com base na abordagem sócio-histórica, vimos que o desen- volvimento humano não se dá de maneira linear e previsível, de- marcado apenas pela idade cronológica. Vimos que, quando levamos em consideração apenas a idade cronológica, acabamos rotulando as pessoas em etapas de vida determinadas socialmente, e que nem sempre o modo de vida mais saudável para cada um condiz com as normas pré-estabelecidas. Uma questão central nas discussões reali- zadas em Psicologia e Educação I foi que a prática de rotular pessoas pode ser muito prejudicial para seus processos de desenvolvimento e aprendizagem. Estudamos que a Psicologia não é uma ciência estática, para- da no tempo. A Psicologia é uma ciência em permanente transforma- ção, e a formulação das teorias que a compõem está marcada pelo contexto político-social em que tais teorias são formuladas. Desta forma, dizemos que a Psicologia não é uma ciência neutra, pois suas formulações teóricas são marcadas por determinados contextos his- tóricos, culturais, políticos, sociais e econômicos. No Brasil, a Psicologia sofreu grandes transformações nas úl- timas décadas, e podemos dizer que a história da Psicologia no Brasil foi marcada por três grandes momentos: Higienismo: o Higienismo é um movimento que se inicia, no Brasil, no século XIX, com o objetivo de promover uma limpeza social através da pre- venção de doenças físicas e mentais. Seu desen- volvimento tomará rumos questionáveis, pois o higienismo trará uma forte marca das ideias eu- genistas, que tinham como meta a melhoria e a regeneração racial. A Eugenia foi uma das bases do Nazismo. O higienismo pode ser compreen- dido, portanto, como um movimento que trata da prevenção de doenças físicas e mentais e da limpeza étnico-racial de cunho eugenista. O primeiro momento abrange o início do sé- culo XIX até 1961: período anterior à regu- lamentação da profi ssão. A Psicologia desen- volveu-se a partir de três grandes áreas do conhecimento, a Filosofi a, a Medicina e a Edu- cação, caracterizando-se por discursos higie- nistas e moralizantes. 20 Módulo 3 I Volume 4 EAD Psicologia e Educação: pensando aprendizagem e desenvolvimentoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 20PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 20 06/09/2011 14:36:1306/09/2011 14:36:13 No segundo momento, de 1962 a 1985, temos a regulamentação da Psicologia como profi ssão (1962). Os primeiros anos de desen- volvimento da Psicologia como profi ssão no Brasil foram marca- dos pelo regime da ditadura militar (1964-1985). Este fato trouxe consequências para a Psicologia como ciência e profi ssão, pro- duzindo no imaginário social a representação da Psicologia como ciência que “soluciona problemas” e adéqua pessoas às normas sociais (PINTO, 2010a). O terceiro momento, de 1985 até hoje em dia, é caracterizado por grandes movimentos sociais de abertura política, dos quais a ca- tegoria dos psicólogos participou ativamente no sentido de ressig- nifi car a Psicologia como ciência e profi ssão no Brasil. Ao invés da Psicologia permanecer no papel de solucionar problemas de adap- tação, ela volta-se para a promoção da qualidade de vida. Esta transformação nas concepções da Psicologia afeta diretamente as noções sobre desenvolvimento humano e aprendizagem. É importante lembrar que, de acordo com o contexto polí- tico-cultural, algumas teorias da Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem terão predominância em relação a outras. E, dentre as várias teorias, temos diferentes objetos de estudo, com diferentes concepções de homem, e, consequentemente, diferentes formas de conceber a subjetividade. Dependendo do modo como entendemos o que é subjetividade, temos uma concepção específi ca sobre como se processa o desenvolvimento e a aprendizagem dos sujeitos. SAIBA MAIS Quer saber mais sobre Higienismo e Eugenia? Leia o texto “Higienis- mo e Eugenia: discursos que não envelhecem”, de Maria Lúcia Boarini e Oswaldo H. Yamamoto. Disponível em: http:// www.cocsite.coc.fi ocruz. br/psi/pdf/higienismo_ eugenia.pdf Figura 2 – Fonte: http://blogdocappacete.blogspot.com/2009_11_01_archive.html 21PedagogiaUESC U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 21PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 21 06/09/2011 14:36:1306/09/2011 14:36:13 Atualmente, o desenvolvimento humano é compreendido como um processo de transformação que acontece ao longo de toda a vida dos sujeitos, sempre marcado pelo contexto histórico e cultural, pela relação com o outro, e determinado por múltiplos fatores. Desta forma, quando falamos em criança, adolescente, idade adulta e velhice, não estamos falando em fases naturais do ser hu- mano, e, sim, em períodos da vida que foram delimitados a partir de contextos históricos e culturais específi cos. No módulo de Psicologia e Educação I (PINTO, 2010b, p. 79), temos um bom exemplo das determinações sociais sobre o desenvol- vimento: As próprias transformações do corpo vêm a constituir a adolescência como um fenômeno social, lembrando que até mesmo as marcas corporais são signifi cadas socialmente. Vejamos um exemplo: ‘Os seios na menina e os músculos no menino. Sabemos que os seios e o desenvolvimento da massa muscular acontecem na mesma fase da adolescência, mas a menina que tem seus seios se desenvolvendo não os vê, sente e signifi ca como possibilidade de amamentar seus fi lhos no futuro, o que seria vê-los como naturais. Com certeza, em algum tempo ou cultura isso já foi assim. Hoje, os seios tornam as meninas sedutoras e sensuais. Esse é o signifi cado atribuído em nosso tempo. A força muscular dos meninos já foi signifi cada como possibilidade de trabalhar, guerrear e caçar. Hoje é beleza, sensualidade e masculinidade’ (AGUIAR; BOCK; OZELLA apud PINTO, 2010b, p. 79). Por isso, atualmente, as teorias dos Ciclos de Vida ou do Life Span (estudadas em Psicologia e Educação I) estão sendo muito di- fundidas: há uma valorização e um respeito pelos diferentes modos de atribuir signifi cado à vida, sem que haja julgamentos de valor a partir das normas determinadas hegemonicamente. Dependendo do contexto histórico, cultural e social em que a pessoa está inserida, ela terá diferentes formas de vivenciaros diversos momentos e idades de sua vida. Neste sentido, inserimos aqui, também, a necessidade de compreensão sobre as diversas for- mas como as famílias se organizam, reforçando o que a pesquisadora Szymanski (2009, p. 108) afi rma: “falar em família desestruturada é bobagem. O que há são diferentes estruturas de família”. A visão preconceituosa de “família desestruturada” está sendo recusada pela Psicologia, pois esta reconhece o polimorfi smo familiar, ou seja, a Psi- cologia reconhece que existem muitas formas de organização fami- liar, e que nenhuma é melhor ou mais saudável do que a outra. Vimos 22 Módulo 3 I Volume 4 EAD Psicologia e Educação: pensando aprendizagem e desenvolvimentoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 22PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 22 06/09/2011 14:36:1306/09/2011 14:36:13 que a qualidade das relações familiares é um dentre muitos fatores que contribuem para o desenvolvimento dos sujeitos. 3 COMPREENSÃO CRÍTICA DOS SISTEMAS TEÓRICOS SOBRE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM As defi nições de desenvolvimento e aprendizagem dependem, sempre, da corrente teórica à qual estão referidas. Tradicionalmen- te a Psicologia da Educação subdivide as correntes teóricas em três grandes abordagens: o Inatismo, o Ambientalismo e o Interacionis- mo. Vejamos suas principais características em relação ao desenvol- vimento humano e à aprendizagem no Quadro 1. QUADRO 1 – Inatismo, Ambientalismo, Interacionismo Abordagem Características Inatismo Pressupõe que todo indivíduo já nasce com todas as qualidades e capacidades básicas que são responsáveis pelas características de cada pessoa; considera que os sujeitos, após o nascimento, sofrem poucas transformações ao longo de sua existência; acredita-se que há um “curso natural” no desenvolvimento humano determinado a priori; postula que existe uma essência imutável no ser humano, o “verdadeiro-eu”. O Inatismo na prática pedagógica: o aluno vai se desenvolver sozinho, pois seguirá seu curso natural. Ao professor cabe apenas observar, pois sua capacidade de interferir no desenvolvimento espontâneo do aluno é mínima. Ditado popular: “Pau que nasce torto nunca se endireita”. Ambientalismo Postula que “o homem é uma tábula rasa ao nascer”, baseando-se na máxima do empirismo inglês; acredita que o meio é capaz de moldar o homem segundo seus imperativos, colocando o homem no lugar de passividade e submissão: ele não faz escolhas, apenas é moldado; considera que o homem é um ser extremamente plástico, que desenvolve suas características em função das condições presentes no meio em que se encontra; concebe que o papel do ambiente é muito mais importante do que a maturação biológica. O Ambientalismo na prática pedagógica: o professor deve conduzir a aprendizagem do aluno através de condicionamentos e reforços, enquanto o aluno apenas responde aos estímulos oferecidos. Se os estímulos forem adequados, o aluno tem um bom aprendizado; se forem inadequados, o aluno terá prejuízo na aprendizagem. Todo processo educacional depende da ação do professor. Ditado popular: “A ocasião faz o ladrão”. 23PedagogiaUESC U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 23PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 23 06/09/2011 14:36:1306/09/2011 14:36:13 Interacionismo Concebe o conhecimento como um processo de construção que emerge em meio a relações, e estas relações não são lineares, ou seja: como em toda relação, existem contradições, movimentos e sinuosidades, tornando cada construção do conhecimento única; pressupõe que o desenvolvimento humano só adquire sentido se pensado em relação dialética com a realidade na qual ele processa; postula que as determinações biológicas não devem ser negligenciadas, mas devem ser pensadas em sua relação dialética com o contexto no qual irão se atualizar; afi rma que é preciso pensar o ser humano em sua totalidade, e não dividido em partes. O Interacionismo na prática pedagógica: o desenvolvimento e a aprendizagem se realizam a partir da relação professor-aluno, levando-se, sempre, em consideração o contexto social, histórico e cultural em que os sujeitos (professor e aluno) estão inseridos. Ditado popular: “Enquanto há vida, há esperança”. Fontes: CATHARINO (2001), DAVIS; OLIVEIRA (1994). Esta divisão clássica da Psicologia da Educação é bastante interessante, pois traz um panorama geral sobre diferentes formas de conceber o ser humano e suas impli- cações para a prática pedagógica. No entanto, encontramos alguns problemas nesta divisão: Por ser muito ampla, a divisão em três abordagens agrupa teorias que são muito distintas entre si, consi- derando apenas alguns poucos aspectos que as unem. É o exemplo da Teoria genética de Piaget e da Psicolo- gia sócio-histórica de Vygotsky. Estas duas teorias se aproximam pelo fato de considerarem o sujeito como um ser ativo no processo de aprendizagem, conceben- do seu desenvolvimento a partir da interação com o mundo que o cerca. Mas as teorias apresentam muito mais diferenças do que semelhanças no modo como concebem os processos de desenvolvimento e apren- dizagem (veremos aspectos específi cos de suas con- cepções na unidade III). Agrupá-las em uma mesma abordagem, portanto, torna-se um problema. Outro aspecto complicado da divisão em três aborda- Empirismo inglês: Thomas Ho- bbes é um empirista inglês. Para ele, a origem de todo conhecimen- to é a sensação, princípio origi- nal do conhecimento dos próprios princípios: a imaginação é um agrupamento inédito de fragmen- tos de sensação e a memória nada mais é do que o refl exo de antigas sensações. A fi losofi a de Hobbes é materialista e mecanicista. Fonte: http://www.monografi as.brasiles- cola.com/fi losofi a/spinoza-hobbes. htm Dialética: “Um dos mais interes- santes debates sobre a dialética ocorreu entre os fi lósofos Hegel e Marx. Na visão do primeiro, a for- ma de relacionar com o mundo era construída a partir de uma razão que determinava os meios de se enxergar e pensar a realidade. Em contrapartida, Marx assumia uma postura diferente ao dizer que na relação com o mundo também encontramos formas de se alterar nossas formas de pensar”. Fonte: http://www.brasilescola.com/fi lo- sofi a/dialetica.htm 24 Módulo 3 I Volume 4 EAD Psicologia e Educação: pensando aprendizagem e desenvolvimentoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 24PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 24 06/09/2011 14:36:1306/09/2011 14:36:13 gens é o fato de que esta divisão não contempla várias teorias da Psicologia que trazem contribuições importantes para a Edu- cação, como, por exemplo, a Psicanálise. A Psicanálise, mais do que uma linha teórica, pode ser considerada uma abordagem da Psicologia, pois, a partir da Teoria psicanalítica de Freud, vários teóricos propuseram teorias de base psicanalítica, como Jacques Lacan, Carl Gustav Jung, Melanie Klein, Donald Winnicott, dentre outros. Conforme a concepção de homem presente nas diversas linhas teóricas da Psicanálise, teremos proposições sobre desen- volvimento e aprendizagem diferentes. Desta forma, a partir das três grandes abordagens menciona- das – Inatismo, Ambientalismo e Interacionismo –, poderíamos fazer várias outras subdivisões, mais específi cas, das diversas teorias da Psicologia que contribuem para as questões educacionais. A seguir, reproduzo dois quadros do módulo de Psicologia e Educação I para relembrarmos as principais abordagens e teorias da Psicologia nos séculos XX e XXI, e as principais perspectivas da Psi- cologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem. Preste atenção na variedade de abordagens e perspectivas teóricas nos Quadros 2 e 3. QUADRO 2 – Principaisabordagens e teorias da Psicologia nos séculos XX e XXI: Teoria/ abordagem Proposição Teóricos e Tendências atuais Behaviorismo Também conhecida como Teoria Comportamental, “nasce com Watson e tem um desenvolvimento grande nos EUA, em função de suas aplicações práticas, tornou-se importante por ter defi nido o fato psicológico, de modo concreto, a partir da noção de comportamento” . Behaviorismo Radical (Skinner) Behaviorismo cognitivista (Bandura) Gestalt “Tem seu berço na Europa, surge como uma negação da fragmentação das ações e processos humanos, realizada pelas tendências da Psicologia científi ca do séc. XIX, postulando a necessidade de se compreender o homem como uma totalidade. A Gestalt é a tendência teórica mais ligada à fi losofi a”. Considera que o primeiro dado imediato é a forma, revelada pela percepção. Wertheimer, Koffka e Köhler Gestalt Terapia (Pearls) Derivações: Psicologia Existencialista-Humanista (Sartre) Teoria do Campo (Kurt Lewin) Psicologia humanista (Carl Rogers) Psicanálise “Nasce com Freud, a partir da prática médica, recupera para a Psicologia a importância da afetividade e postula o inconsciente como objeto de estudo, quebrando a tradição da Psicologia como ciência da consciência e da razão”. Psicanálise (Sigmund Freud) Psicologia Analítica (Jung) Psicologia Reichiana (Reich) Psicanálise Lacaniana (Lacan) Psicanálise Kleiniana (Melanie Klein) Dentre outras 25PedagogiaUESC U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 25PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 25 06/09/2011 14:36:1306/09/2011 14:36:13 Psicologia sócio-histórica Nasce da crítica à naturalização do fenômeno psicológico. Nesta abordagem, o fenômeno psicológico é constituído na realidade social, cultural e histórica em que está imerso. Vygotsky (sociointeracionismo) Michel Foucault Análise Institucional Fontes: BOCK; FURTADO; TEIXEIRA (2007); CATHARINO (2001). QUADRO 3 – Principais perspectivas da Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Perspectiva Teorias Proposição Conceitos Centrais Psicanalítica Teoria psicanalítica de Freud O comportamento é controlado por pulsões - Inconsciente - Complexo de Édipo Comportamental Behaviorismo (Pavlov, Skinner) O meio controla o comportamento - Condicionamento clássico e operante Teoria da Aprendizagem Social de Bandura As crianças aprendem no contexto social observando e imitando mode- los - Aprendizagem por modela- gem - Aprendizagem por observa- ção Cognitiva Psicologia Genética de Piaget Mudanças qualitativas no pensamen- to entre a primeira infância e a ado- lescência - Equilibração - Esquemas de ação - Interação - Autonomia Teoria da Aprendizagem Verbal Signifi cativa de Ausubel Aprendizagem como um processo de modifi cação do conhecimento a partir da relação que os conceitos estabele- cem entre si - Aprendizagem signifi cativa - Conceito inclusor - Inclusão obliteradora - Assimilação cognitiva - Hierarquias conceituais Teoria do Processamento de Informações Os seres humanos são processadores de símbolos - Esquemas de conhecimento Sociointeracionista Teoria Sociocultural de Vygotsky O contexto sociocultural de uma criança tem impacto importante no seu desenvolvimento - Mediação - Internalização - Zona de Desenvolvimento Proximal Teoria Psicogenética de Wallon Compreensão do processo de consti- tuição da pessoa conforme os mode- los que a cultura do seu tempo dis- ponibiliza - Processo de integração or- ganismo-meio - Processo de integração dos conjuntos funcionais - Integração afetiva-cogniti- va-motora Teoria da Ação Compreensão político-ética da infân- cia. A ação humana se reveste de caráter de intervenção contínua nos acontecimentos do mundo - Dimensão coletiva do agir humano - O sentido do agir se cons- trói como acontecimento - O agir humano não se sepa- ra do pensar e do ser Life Span (Curso de Vida) Possui uma conotação de extensão da vida sem utilizar critérios de estágios para fi ns de delimitação ou periodi- zação - Deve-se estar atento aos eventos do contexto - Estratégias longitudinais - Cortes transversais Fontes: PAPALIA; OLDS (2000); COLL-SALVADOR et al (2000); CASTRO (2001); MAHONEY; ALMEIDA (2005); NERI (2001). 26 Módulo 3 I Volume 4 EAD Psicologia e Educação: pensando aprendizagem e desenvolvimentoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 26PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 26 06/09/2011 14:36:1406/09/2011 14:36:14 Todas estas abordagens e perspectivas teóricas da Psicologia podem trazer contribuições para a Educação, mas, neste material de Psicologia e Educação II, veremos apenas algumas teorias que tra- zem contribuições mais específi cas para compreendermos os proces- sos de desenvolvimento e aprendizagem escolares e não escolares. Ao longo do estudo das teorias, vocês verão que cada uma compreende os sujeitos e seus processos de uma forma. É impor- tante ressaltar que nenhuma teoria é mais importante que a outra. As teorias selecionadas para este material de estudo não são as úni- cas que existem, e também não podem ser consideradas as mais importantes. Elas foram selecionadas, pois apresentam, atualmente, muitas pesquisas e estudos no âmbito da Psicologia e Educação, tra- zendo muitas contribuições para as práticas pedagógicas escolares e não escolares. Outro critério que utilizei para a seleção das teorias é a grande diversidade de visões de mundo e de concepções de homem de cada perspectiva. Acredito que é muito importante para o estu- dante de Pedagogia o contato com uma ampla diversidade de teorias, não para que ele utilize um pouquinho de cada uma, mas para que saiba ESCOLHER qual perspectiva teórica utilizará como embasamen- to de sua prática pedagógica. Discutiremos esta questão com mais detalhe no tópico 4. No Quadro 4, apresento um breve resumo das teorias e abor- dagens que serão estudadas nas unidades II, III e IV deste material de estudo de Psicologia e Educação II. Preste atenção às proposições de cada teoria. Algumas se aproximam e, até, dialogam, enquanto outras se distanciam muito. Quadro 4 – Perspectivas teóricas que serão trabalhadas na disciplina Psicologia e Educação II Abordagem / Teorias Proposição Conceitos Centrais Teorias Comportamentais (Pavlov, Skinner) As abordagens comportamentais em Psicologia são comumente conhecidas pelo nome Behavio- rismo. Behavior, em inglês, signifi ca “comporta- mento”. Desta forma, para designar as teorias que têm como objeto de estudo o comportamen- to, as denominamos genericamente de Behavio- ristas ou Comportamentalistas, ou ainda, Teorias Comportamentais. - Estímulo-resposta e ambiente - Refl exo Condicionado - Condicionamento operante - Reforço - Discriminação e Generalização Teoria Psicanalítica de Freud Freud elabora a teoria psicanalítica a partir da escuta de seus pacientes. A Psicanálise propõe que processos inconscientes ocorrem simultane- amente ao desenvolvimento biológico e social e que o estudo deles é fundamental para compre- endermos o comportamento, as subjetividades e os sintomas humanos. - Consciente, Pré-consciente e Inconsciente - Sonhos, Atos Falhos e Sintomas - Eu, Isso e Supereu - Sexualidade - Transferência - Ideal do Eu 27PedagogiaUESC U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 27PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 27 06/09/2011 14:36:1406/09/2011 14:36:14 Psicologia Genética de Piaget A Psicologia Genética de Piaget é uma concep- ção Interacionista e Construtivista. Interacionis- ta, pois considera que o organismo e o meio se infl uenciam mutuamente e que esta interação provoca mudanças no indivíduo. Construtivista, pois, a partir desta interação com o meio, o co- nhecimento vai sendo adquirido como um pro- cesso construído pelo indivíduodurante toda sua vida. - Interação - Ação - Esquemas de ação - Assimilação e Acomodação - Equilibração Majorante - Erro construtivo Teoria Sociocultural de Vygotsky Lev Semenovich Vygotsky elaborou uma teoria da Psicologia voltada para refl exões acerca do desenvolvimento humano, a partir de uma abor- dagem qualitativa e interdisciplinar. Recebe a denominação de Sociointeracionismo, pois, além de considerar o indivíduo ativo em seus processos de desenvolvimento e aprendiza- gem, este se constitui necessariamente em um ambiente histórico e social. - Funções psicológicas superiores - Mediação - Instrumentos e signos - Internalização - Zona de Desenvolvimento Proximal Genealogia de Michel Foucault Seus estudos trazem grandes contribuições para a Psicologia e Educação, pois, com sua teoria provocadora, desestabiliza algumas questões que não conseguimos perceber em nosso coti- diano educacional, de tão comuns que elas se apresentam. Uma das contribuições inestimáveis de Foucault para o campo educacional é a desna- turalização das práticas escolares. - Desnaturalização - Relações de forças - Produção de subjetividades - Poder e Resistência - Prática - Regimes de verdade - Disciplina ou Poder disciplinar Análise Institucional (Lourau, Deleuze e Guattari) As diferentes escolas que compõem a aborda- gem da Análise Institucional se reúnem em tor- no da proposta de propiciar, apoiar e defl agrar nas comunidades, nos coletivos e conjuntos de pessoas, processos de auto-análise e de auto- gestão. Com a Análise Institucional, de repente, não estamos mais em uma instituição, não trata- mos mais a instituição, mas somos, por exemplo, atravessados pela instituição. - Autogestão e Autoanálise - Demanda - Instituição, Instituído e Instituinte - Atravessamento e Transversalidade - Produção de Subjetividades - Desejo - Subjetividades assujeitadas e Subjetividades singularizadas 4 A ESCOLHA DA ABORDAGEM EM PSICOLOGIA E A PRÁTICA PEDAGÓGICA A partir do estudo do Quadro 4, passamos a ter conhecimen- to de várias perspectivas teóricas da Psicologia diferentes entre si. Como cada teoria traz uma visão de mundo, com certa concepção de homem, não é correto utilizarmos um pedaço de cada teoria em nossas práticas pedagógicas. Algumas concepções de homem são in- compatíveis; outras são bastante próximas. Precisamos estar atentos ao modo como cada teoria compre- ende o ser humano, pois, como vimos em Psicologia e Educação I, as subjetividades se constituem, em grande parte, a partir das expecta- 28 Módulo 3 I Volume 4 EAD Psicologia e Educação: pensando aprendizagem e desenvolvimentoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 28PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 28 06/09/2011 14:36:1406/09/2011 14:36:14 tivas que depositam em nós. Vamos relembrar uma questão que estudamos em Psicologia e Educação I: Como se produz o “senso de normalidade” Nos seres humanos, da infância à velhice, atravessamos os processos que chamamos comumente de “crescimento, ganho ou progresso” e “perdas e degenerações”. Anita Liberalesso Neri (2001) afi rma que “a sociedade constrói cursos de vida na medida em que prescreve expectativas e nor- mas de compor tamento apropriado para as diferentes faixas etárias” (p. 19). Ao redor de tais expectativas e normas, o ser humano acaba por de- sempenhar papéis sociais “que uma dada sociedade convencionou serem típicos daquela fase da vida” (NERI, 2001, p. 20). A mesma autora ressalta que a estruturação da vida das pessoas em ida- des produz um “senso de normalidade” entre os sujeitos que, de certa forma, buscam “estar em dia” com sua própria idade. Por isso observamos comportamentos semelhantes entre pessoas de uma mesma faixa etária de um dado local. Este processo, no entanto, não tem nada de natural. Tra- ta-se de um processo social. Mas, sem perceber, os indivíduos internalizam as expectativas sociais e “passam a pensar que é natural corresponder à expectativa social em relação ao comportamento apropriado para cada idade” (NERI, 2001b, p. 20). ATENÇÃO Figura 3 – Banco de Img UAB|UESC As pesquisadoras Rita Marisa Ribes Pereira e Solange Jobim e Souza (2001) também abordam esta questão, destacando o quanto as teorias da Psicologia também agem no sentido de construir um “senso de normalidade” entre os sujeitos, que buscam estar enqua- drados nas expectativas que depositam neles. Segundo Pereira e Souza (2001), “cada momento histórico constrói simultaneamente suas questões e os modos pelos quais bus- ca resolvê-los” (p. 27). Podemos entender esta afi rmativa da seguinte 29PedagogiaUESC U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 29PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 29 06/09/2011 14:36:1406/09/2011 14:36:14 forma: atualmente temos algumas preocupações sobre a infância que não existiam há 50 anos, como, por exemplo, a de que as crianças hoje são mais agitadas. A partir desta preocupação, vários pesquisa- dores buscam explicações sobre o motivo das crianças hoje demons- trarem esta agitação, e produzem, com isso, explicações teóricas e conceitos (como a hiperatividade) que são difundidos nas escolas, na mídia etc. Vejamos, novamente com Pereira e Souza (2001), os efei- tos disso: Cada época irá proferir o discurso que revela seus ideais e expectativas em relação às crianças, tendo esses discursos conseqüências constitutivas sobre o sujeito em formação. Melhor dizendo, a produção e o consumo de conceitos sobre a infância pelo conjunto da sociedade interferem diretamente no comportamento de crianças, adolescentes e adultos, e modelam formas de ser e agir de acordo com as expectativas criadas nos discursos que passam a circular entre as pessoas, expectativas essas que, por sua vez, correspondem aos interesses culturais, políticos e econômicos do contexto social mais amplo (PEREIRA; SOUZA, 2001, p. 28). A partir da divulgação de certos conceitos em ambientes não científi cos, este conceito acaba por se transformar em senso comum e produz sujeitos que vão corresponder aos rótulos que receberão. Vamos voltar ao exemplo da criança agitada: os pais de uma crian- ça que tem muita energia, que corre e brinca bastante, ouvirão em algum telejornal a notícia sobre crianças hiperativas. A partir daí, começarão a se preocupar se seu fi lho tem ou não este “problema”, e observarão que seu fi lho brinca muito mais do que outras crian- ças. Os pais comentarão isso com a professora que dirá “seu fi lho não presta muita atenção na aula, pois fi ca brincando com os cole- gas”. Aos poucos, e num processo que é quase imperceptível, este “medo” da criança ser hiperativa começa a transparecer nas atitudes dos pais e da professora, e tudo que a criança faz passa a ser visto como um “sintoma do problema”, até que a criança começa a cor- responder à expectativa de “agitação”. Neste momento, ela é levada para o psicólogo ou para o médico que examinam superfi cialmente a criança – em geral, perguntando ao adulto o que ela tem, e não à própria criança – e diagnosticam a criança a partir da percepção do adulto. Está criado o problema real, a partir da imaginação dos pais! No momento em que a criança é levada para um especialista que lhe atribui um diagnóstico, a criança passa a acreditar que “é doente”, e seu comportamento, de fato, se altera. A criança está cumprindo as 30 Módulo 3 I Volume 4 EAD Psicologia e Educação: pensando aprendizagem e desenvolvimentoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 30PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 30 06/09/2011 14:36:1406/09/2011 14:36:14 expectativas que lhe foram depositadas, enquadrando-se, assim, no “senso de normalidade” de criança doente. Pereira e Souza (2001) trazem algumas falas bastante inte- ressantes que ilustram a buscapelo “senso de normalidade”: Relato 1. Desabafo de mãe: “Estava lendo a carteirinha de va- cinação e lá dizia que a criança levanta a cabecinha com qua- tro meses. Meu fi lho com dois meses está tentando levantar. É para deixar?” (apud PEREIRA; SOUZA, 2001, p. 31). Relato 2. Na pracinha um grupo de crianças estava brincando e as mães “corujando” as proezas dos fi lhos. As mães trocam informações sobre as idades de cada um. Um dos meninos, embora na mesma faixa etária, não demonstra a mesma “de- senvoltura” dos companheiros. A mãe mente sua idade (apud PEREIRA; SOUZA, 2001, p. 31). Relato 3. Em uma reportagem de um programa jornalístico, discute-se o tema “a vida dos adolescentes de hoje”. No sho- pping, entre outras mocinhas, a adolescente Michele dá todas as dicas sobre marcas da moda, formas de paquera etc. Já em casa, após muita insistência da repórter, Michele assume que tem bonecas. Guardadas. Escondidas embaixo da cama (apud PEREIRA; SOUZA, 2001, p. 31). A partir destas considerações, vemos como é importante estu- darmos muito bem as teorias da Psicologia, pois nossa escolha teóri- ca subsidiará nossa prática pedagógica, construindo o sujeito a partir da relação professor-teoria-prática-aluno. 4.1 Como escolher uma abordagem? Bem, como já dissemos, cada abordagem possui uma concep- ção de homem, um modo de compreender como o homem se relacio- na com o mundo e traz uma implicação para a prática pedagógica. Concepção de homem De uma forma bem simplifi cada, podemos fazer algumas dis- tinções entre as diferentes concepções de homem. Há abordagens que consideram o homem de forma determinista, ou seja, sua vida é determinada por questões que escapam à sua possibilidade de es- Figura 4 UAB/UESC 31PedagogiaUESC U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 31PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 31 06/09/2011 14:36:1406/09/2011 14:36:14 colha (Behaviorismo e Psicanálise). Outras abordagens descrevem o homem com mais liberdade. Algumas consideram que o ser humano se constitui a partir do contexto sócio-histórico (VYGOTSKY; FOU- CAULT; Análise Institucional), e outras concebem algumas caracterís- ticas do desenvolvimento de forma universal e a-histórica (PIAGET). Como o homem se relaciona com o mundo A partir de suas diferentes concepções de homem, cada abor- dagem tem uma forma de compreender como homem e mundo se re- lacionam. Para o Behaviorismo, o homem se relaciona com o mundo a partir de estímulos e respostas. Para a Psicanálise, a relação homem- mundo se dá a partir de processos psíquicos internos e inconscientes. Para Piaget, a relação homem-mundo parte de processos cognitivos do sujeito em direção ao mundo. Já para Vygotsky, o processo se dá de forma inversa: do mundo para o sujeito. Foucault e a abordagem da Análise Institucional afi rmam que homem e mundo se constituem mutuamente através de múltiplos processos sociais, históricos e cul- turais. Implicação da abordagem para a prática pedagógica Por que é importante pensar sobre essas questões em um curso de Pedagogia? Bem, como já foi estudado em outro momen- to, é muito importante que o pedagogo tenha consciência de que a Psicologia não é uma ciência neutra. Cada abordagem e perspectiva teórica, portanto, traz uma implicação. O termo implicação aqui utilizado é diferente da defi nição que encontramos nos dicionários. Implicação é um conceito da aborda- gem da Análise Institucional que nos ajuda a compreender as esco- lhas teóricas que fazemos. Implicação é um processo que ocorre com os sujeitos que exercem determinada ação, como resultado do contato com determi- nada situação. A implicação não começa no sujeito, nem na situação que sofre intervenção, e sim na relação sujeito-situação. Trata-se de um processo político, social e cultural, pois a relação sujeito-situação produz efeitos. Desta forma, as implicações devem ser analisadas em todas as suas dimensões, pois os efeitos estão diretamente relacio- nados com a constituição dos sujeitos e do mundo em que vivemos. 32 Módulo 3 I Volume 4 EAD Psicologia e Educação: pensando aprendizagem e desenvolvimentoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 32PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 32 06/09/2011 14:36:1506/09/2011 14:36:15 Para deixar mais claro o que signifi ca pensar as implicações da escolha de uma determinada abordagem para a prática pedagógica do professor, vamos pensar a partir de um exemplo: Situação: uma criança está apresentando difi culdades em realizar suas tarefas escolares em sala de aula. Sujeito: professor que baseia sua prática pedagógica em uma determina- da abordagem ou linha teórica da Psicologia. Relação sujeito-situação: de acordo com a perspectiva teórica que o professor escolher para basear sua prática pedagógica, ele terá um enten- dimento específi co sobre a situação que presencia, e sua intervenção se dará de determinada forma. Análise da implicação: vamos imaginar, de forma bastante simplifi cada, duas situações distintas. (a) Um professor que baseia sua prática pedagó- gica na abordagem comportamental, (b) e outro professor que baseia sua prática pedagógica na teoria sócio-histórica de Vygotsky. (a) O professor que baseia sua prática na abordagem comportamental terá a seguinte percepção da situação: a criança está com difi culdades de realizar suas tarefas, pois a atividade não foi planejada adequadamente. É preciso compreender quais estímulos estão interferindo na compreensão da criança sobre a tarefa a ser realizada, controlar tais estímulos, para que a criança responda de maneira satisfatória. Compreende-se que a apren- dizagem da criança se realiza a partir de respostas a estímulos específi cos. Dependendo do estímulo que lhe é direcionado, a criança dará a resposta esperada (fazer a tarefa) ou uma resposta insatisfatória (não faz a tare- fa). O professor deve, portanto, ter um bom controle sobre os estímulos para que as respostas sejam dadas de maneira satisfatória. As implicações desta abordagem para a prática pedagógica são: o professor lida com o aluno como um ser passivo que reage a estímulos; as questões externas ao processo de aprendizagem em sala de aula não são consideradas em um primeiro momento; a responsabilidade em relação à aprendizagem do aluno recai sobre o planejamento do professor. (b) O professor que baseia sua prática na teoria sócio-histórica de Vygotsky terá a seguinte percepção da situação: a criança está com difi culdades de realizar suas tarefas, pois ainda não alcançou o desenvolvimento neces- sário para realizá-la de forma autônoma. É preciso compreender em qual nível de desenvolvimento a criança se encontra para, a partir daí, introdu- zir mediadores que possibilitem que o desenvolvimento da criança avance. Várias atividades, de tipos e difi culdades diversifi cados, serão realizadas com a turma toda em que a criança está inserida para que o professor ob- tenha uma boa compreensão sobre o que aquela criança consegue ou não realizar sozinha. Compreende-se que a aprendizagem da criança se reali- za a partir da interação da criança com a cultura. A relação com pessoas mais experientes (que agem como mediadoras) é fundamental para que o desenvolvimento avance. O professor deve, portanto, possibilitar que as interações entre todos os envolvidos (crianças e adultos) favoreçam, na criança com difi culdade de realizar a tarefa, a passagem de um nível de PARA REFLETIR 33PedagogiaUESC U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 33PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 33 06/09/2011 14:36:1506/09/2011 14:36:15 desenvolvimento potencial para um nível de desenvolvimento real. As im- plicações desta abordagem para a prática pedagógica são: o professor lida com o aluno como umser ativo que se desenvolve a partir de sua interação com o mundo; as questões externas ao processo de aprendizagem em sala de aula são consideradas a todo o momento, pois os processos culturais são fundamentais para o desenvolvimento e aprendizagem; a responsa- bilidade em relação à aprendizagem do aluno é de todos os envolvidos no processo. Bem, a partir destas considerações gerais, a importância da escolha em relação às abordagens da Psicologia deve ter fi cado mais clara. Para escolher uma abordagem, portanto, é preciso estar atento a um aspecto primordial: qual abordagem se aproxima mais da forma como você compreende o ser humano? 34 Módulo 3 I Volume 4 EAD Psicologia e Educação: pensando aprendizagem e desenvolvimentoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 34PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 34 06/09/2011 14:36:1506/09/2011 14:36:15 5 ATIVIDADES 1. Explique o que é “senso de normalidade”. 2. Qual a importância de analisar as implicações das abordagens da Psicologia para a prática pedagógica do professor? 6 RESUMINDO Nesta unidade, fi zemos uma breve recapitulação dos principais aspectos que foram estudados em Psicologia e Educação I, especial- mente relativos à noção de desenvolvimento humano, à compreensão da Psicologia como uma ciência datada, ao conceito de subjetividade, às teorias dos Ciclos de Vida e Life Span, e uma compreensão não preconceituosa sobre família. Vimos que as defi nições de desenvolvimento e aprendizagem dependem, sempre, da corrente teórica a qual estão referidas, e fi - zemos um breve passeio por três grandes abordagens tradicionais da Psicologia da Educação: o Inatismo, o Ambientalismo e o Interacionis- mo. Foram apresentadas as teorias que compõem o material de estudo de Psicologia e Educação II, que trazem contribuições mais específi cas para compreendermos os processos de desenvolvimento e aprendizagem escolares e não escolares, ressaltando que nenhuma teoria é mais importante que a outra. Retomamos a noção de “senso de normalidade” para enfatizar que as subjetividades se constituem, em grande parte, a partir das expectativas que depositam em nós. Vimos como é importante estu- darmos muito bem as teorias da Psicologia, pois nossa escolha teórica subsidiará nossa prática pedagógica, construindo o sujeito a partir da relação professor-teoria-prática-aluno. Desta forma, a escolha da abordagem que servirá de base para nossa prática pedagógica é fun- damental, pois cada abordagem possui uma concepção de homem, um modo de compreender como o homem se relaciona com o mundo e traz uma implicação para a prática pedagógica. ATIVIDADES55555555 RESUMINDO 35PedagogiaUESC U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 35PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 35 06/09/2011 14:36:1506/09/2011 14:36:15 7 REFERÊNCIAS CATHARINO, Tânia. Psicologia na Educação: contribuições da Análise Institucional. In: MACIEL, Ira Maria (Org). Psicologia e Educação: novos caminhos para a formação. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2001, p. 35-54. DAVIS, Cláudia; OLIVEIRA, Zilma de. Psicologia na Educação. São Paulo: Cortez, 1994. NERI, Anita Liberalesso. Paradigmas contemporâneos sobre desen- volvimento humano em Psicologia e em sociologia. In: NERI, Anita Liberalesso (Org.). Desenvolvimento e envelhecimento: pers- pectivas biológicas, psicológicas e sociológicas. Campinas: Papirus, 2001. p. 11-37. PEREIRA, Rita Marisa Ribes; SOUZA, Solange Jobim e. Infância, co- nhecimento e contemporaneidade. In: KRAMER, Sônia; LEITE, Maria Isabel (Orgs.). Infância e produção cultural. Campinas: Papirus, 2001. p. 25-42. PINTO, Karina Pereira. Formação de psicólogos, que caminhos? Da solução de problemas de ajustamento à promoção da qualidade de vida. In: Anais do IX Encontro Clio-Psyché: Gênero, Psicologia e História – CD-ROM. Rio de Janeiro: Clio-Psyché, 2010a. PINTO, Karina Pereira. Docência e fundamentos da educação – Pedagogia: Psicologia e Educação I – EAD, módulo 2, volume 4. Ilhéus: UAB; UESC, 2010b. BOARINI, Maria Lúcia; YAMAMOTO, Oswaldo. Higienismo e Euge- nia: discursos que não envelhecem Disponível em: <http://www. cocsite.coc.fi ocruz.br/psi/pdf /higienismo_eugenia.pdf>. Acesso em: 2010. REFERÊNCIAS 36 Módulo 3 I Volume 4 EAD Psicologia e Educação: pensando aprendizagem e desenvolvimentoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 36PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 36 06/09/2011 14:36:1506/09/2011 14:36:15 Suas anotações _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 37PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 37 06/09/2011 14:36:1506/09/2011 14:36:15 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 38PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 38 06/09/2011 14:36:1606/09/2011 14:36:16 Ao fi nal da unidade o(a) aluno(a) deverá: obter conhecimentos específi cos sobre as contribui- ções que as Teorias Comportamentais e da Psicanáli- se trazem para as questões educacionais; analisar as diferentes formas de abordar as questões psicológicas do sujeito da aprendizagem. Objetivos ABORDAGENS TRADICIONAIS DA PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 2Unidade PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 39PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 39 06/09/2011 14:36:1606/09/2011 14:36:16 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 40PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 40 06/09/2011 14:36:1606/09/2011 14:36:16 1 PRIMEIRAS PALAVRAS Nesta unidade, veremos duas abordagens teóricas bastante distintas: as Teorias Comportamentais e a Psicanálise. O objetivo da unidade, além de trazer conhecimentos específi cos sobre as contri- buições que cada abordagem traz para as questões educacionais, é dar a oportunidade para que você, estudante de Pedagogia, perceba as diferentes formas de abordar as questões psicológicas do sujeito da aprendizagem. Estude com afi nco cada uma das abordagens desta unidade, e esteja atento às suas diferenças nas concepções de homem, nos modos de compreender como o homem se relaciona com o mundo e nas implicações pedagógicas de cada abordagem. UNIDADE 2 ABORDAGENS TRADICIONAIS DA PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 41PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 41PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 41 06/09/2011 14:36:1606/09/2011 14:36:16 2 TEORIAS COMPORTAMENTAIS As abordagens comportamentais em Psicologia são comumen- te conhecidas pelo nome Behaviorismo. Este termo foi criado pelo autor estadunidense John B. Watson, em 1913 (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2007a). Behavior, em inglês, signifi ca “comportamento”. Desta forma, para designar as teorias que têm como objeto de estudo o comportamento, as denominamos genericamente de Behavioristas ou Comportamentalistas ou, ainda, Teorias Comportamentais. Segundo Eduard Marti Sala e Javier Onrubia Goñi (2000a), as teorias comportamentais mantêm, até início da década de 1960, o status de principais teorias da aprendizagem. Após este período, ocorre o que os autores chamam de Revolução Cognitivista, ou seja, outras teorias que não utilizam a abordagem comportamental entram em cena, ampliando o leque de possibilidades na compreensão dos processos escolares de aprendizagem. 2.1 Pressupostos teóricos Marti Sala e Onrubia Goñi (2000a) afi rmam que, guardadas as diferenças entre as diversas teorias comportamentais existentes, estas conservam princípios e pressupostos básicos em comum. Desta forma, podemos apresentar o Behaviorismo da seguinte maneira: Herdeiro da tradição empirista e do positivismo, adota como atitudes comuns, na versão mais clássica, a defi nição do comportamento nos termos de uma linguagem E-R (estímulo-resposta), essencialmente molecular, o periferismo no tratamento dos fenômenos comportamentais, a insistência na importância do ambiente na hora de determinar o comportamento, a ênfase na aprendizagem e em alguma forma de associação E-R com as leis básicas que o regem e a pesquisa de um tratamento objetivo dos fenômenos de condutas, segundo o modelo científi co natural (MARTI SALA; ONRUBIA GOÑI, 2000a, p. 215.) As bases para compreensão dos pressupostos teóricos do Behaviorismo têm início com a Refl exologia russa. Esta corrente teó- rica teve como principais representantes Séchenov, Pavlov e Bechte- rew, teóricos que recusavam explicações mentalistas para os com- portamentos, buscando explicações na fi siologia dos refl exos. Dentre os três autores citados, Pavlov foi o que infl uenciou mais diretamente a construção do Behaviorismo (SOUZA JR.; LOPES; CIRINO, 2007). VOCÊ SABIA? “A Rússia foi um país pio- neiro no campo de es- tudos da Refl exologia, exercendo um importante papel no desenvolvimento científi co de meados do século XIX até a década de 1940. Foi um perío- do marcado pela extre- ma efervescência política do então Estado czarista russo, que culminou com a implantação do Estado socialista em 1917. Den- tre os numerosos pes- quisadores empenhados na fi siologia dos refl exos, pode-se destacar a in- fl uência de pelo menos três na história da Psico- logia moderna”: Séche- nov (1829-1905), Pavlov (1849-1936) e Bechterew (1857-1927) (SOUZA JR.; LOPES; CIRINO, 2007, p. 169). 42 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 42PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 42 06/09/2011 14:36:1706/09/2011 14:36:17 2.1.1 O Condicionamento Clássico de Ivan Pavlov Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) nasceu na Rússia em 1849 e trouxe como contribuição para a Psicologia do compor- tamento a proposição teórica do Refl exo Condicionado. Seus experimentos, atualmente, são conhecidos como “Processos de Condicionamento Clássico”. Sempre preocupado com a padronização das condições experimentais de suas pesquisas, Pavlov utilizava controles rigorosos para eliminar quaisquer possibilidades de erros. Os termos ESTÍMULO, RESPOSTA e AMBIENTE foram cunhados para tornar seus estudos mais precisos. As pesquisas de Pavlov apresentam grande relevância para as teorias da aprendizagem, pois Pavlov analisou as conexões existentes entre estímulos ambientais neutros e a atividade fi siológica (respos- ta), descobrindo que os chamados comportamentos involuntários po- dem ser controlados por condições ambientais. Vamos exemplifi car: ao ouvirmos um carro frear bruscamente, nosso coração palpita com mais intensidade. Qual a relação entre o estímulo ambiental neutro (carro freando bruscamente) e nossa reação fi siológica (coração pal- pitar mais intensamente)? Pavlov estudou como o estímulo ambiental pode desencadear reações involuntárias (não temos controle volun- tário sobre as batidas de nosso coração). Segundo Eduard Marti Sala e Javier Onrubia Goñi (2000a): [...] o organismo aprende a desencadear determinadas condutas que já existem em seu repertório comportamental e como resposta – de maneira condicionada – a certos estímulos ambientais inicialmente neutros em relação a tais condutas, como uma conseqüência do reiterado surgimento conjunto desses estímulos inicialmente neutros com algum dos estímulos que, de maneira direta e incondicional, provocam as condutas em questão (p. 216). Vejamos como foi realizada sua pesquisa com salivação de cães: Pavlov delineou a seguinte metodologia em seus estudos sobre os refl exos: colocava-se o sujeito experimental (em geral, cães) sobre uma mesa, preso por correias, dentro de uma sala de isolamento acústico e isenta de estimulação visual externa. Através de uma fístula feita na parte inferior do focinho do animal, introduzia-se um encanamento Figura 5 - Ivan Pavlov Fonte: http://commons.wikimedia.org/ wiki/File:Ivan_Pavlov_(Nobel).png 43PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 43PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 43 06/09/2011 14:36:1706/09/2011 14:36:17 ATENÇÃO emborrachado que era ligado às glândulas salivares. Esse encanamento continha uma escala graduada onde era possível aferir com precisão a quantidade de saliva secretada. Através da cânula, toda a saliva era depositada num pequeno recipiente apoiado sobre uma mola sensível. A saliva que caía no recipiente movimentava uma agulha ligada à mola, que registrava o gotejamento num quimógrafo. Os experimentos iniciais consistiam na apresentação ao cão de um pedaço de pão que logo em seguida era dado ao animal para que o comesse. Com a repetição do procedimento, bastava a visão do alimento para que o cão salivasse. O refl exo salivar eliciado pelo alimentocolocado na boca do animal foi denominado refl exo incondicionado, visto que não demandava nenhuma aprendizagem. Era, portanto, inato. Já a secreção salivar obtida com a visão do alimento só foi obtida após algumas tentativas. Logo, o processo demandou uma aprendizagem ou condicionamento, fato que levou Pavlov a denominá-lo REFLEXO CONDICIONADO (SOUZA JR.; LOPES; CIRINO, 2007, P. 172-173 – grifo meu). Posteriormente, Pavlov aperfeiçoaria sua pesquisa, produzin- do um experimento que se tornaria um clássico da Psicologia moder- na: Refl exo Condicionado “Sem dúvida, o exem- plo mais famoso de condicionamento clás- sico, extraído dos tra- balhos de Pavlov, é o da aprendizagem por parte de um cachor- ro da conduta de sali- vação ao ouvir o som de um sininho: em um primeiro momento, o cachorro saliva – res- posta incondicionada – quando lhe é oferecida alguma comida – estímulo incondicionado –, porém não diante do som do sininho; no processo de condicionamento, soa-se o sininho repetidas vezes, simultaneamente ao apresentar a comida; de- pois desse processo, o cachorro aprende a salivar, respondendo ao som do sininho – resposta condicionada a um estímulo condicionado – mesmo antes que lhe seja dado qualquer comida” (MARTI SALA; ONRUBIA GOÑI, 2000a, p. 216). Figura 6 - Experimento de Pavlov. Fonte: http://html. rincondelvago.com/ivan-pavlov.html 44 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 44PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 44 06/09/2011 14:36:1706/09/2011 14:36:17 Esquematicamente, podemos compreender o experimento de Pavlov da seguinte maneira: 1. Comida (estímulo incondicionado) -> salivação (resposta in- condicionada) 2. Comida + sininho -> salivação 3. Sininho (sem comida) -> salivação (resposta condicionada) O experimento de Pavlov sobre o Condicionamento clássico como um processo de aprendizagem é de grande importância para a Psicologia, pois permitiu compreender como estímulos e respostas que, a princípio, não tinham nenhuma relação, podem ser conecta- dos. FILME RECOMENDADO Para ilustrar os estudos de Pavlov com bom humor, recomendamos o curta-metragem de animação Pavloviana, de Alexandre Bersot. FICHA TÉCNICA: Título: Pavloviana Diretor: Alexandre Bersot; Gênero: Animação; Ano: 2004; Duração: 9 min. Sinopse: Condicionado desde feto, toda vez que Otho ouve um apito ou um som estridente sente uma fome incontrolável. Disponível em <http://www.youtube.com/watch ?v=v6eU9pMDedQ> O trabalho de Pavlov provocou grandes mudanças na Psico- logia moderna, pois, além de utilizar instrumentos de medida mais exatos em suas pesquisas, formulou “uma terminologia mais precisa para se referir ao que denominava fenômenos psicológicos, como por exemplo, estímulo, resposta e ambiente” (SOUZA JR.; LOPES; CIRI- NO, 2007, p. 174) e construiu uma metodologia que foi fundamental para a expansão posterior do Behaviorismo. 2.1.2 O Behaviorismo Radical de Frederic Skinner Como dissemos anteriormente, o termo Behaviorismo foi cria- do por John Watson em 1913. Este autor possui uma frase clássica: “O que precisamos fazer é começar a trabalhar na psicologia fazendo 45PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 45PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 45 06/09/2011 14:36:1806/09/2011 14:36:18 VOCÊ SABIA? do comportamento, e não da consciência, o ponto objetivo de nos- so ataque” (WATSON apud CANÇADO; SOARES; CIRINO, 2007, p. 181). O interesse de Watson, portanto, era o estudo do comporta- mento, sendo sua fase inicial marcada pelos estudos sobre compor- tamento animal. Mais tarde, mudará seu interesse para o estudo do comportamento de crianças. Watson teve os estudos de Ivan Pavlov como uma de suas principais infl uências, e estes dois autores terão bastante infl uência no itinerário de formação de Skinner. Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) nasceu no dia 20 de março de 1904, na cidade de Susquehanna, na Pensilvânia, nos Es- tados Unidos. Durante a infância, permaneceu nesta cidade e, pos- teriormente, foi estudar no Hemigton College de Nova York. Skinner relata da seguinte maneira sua experiência nos anos de vida univer- sitária: Nunca me adaptei à vida de estudante. Ingressei numa fraternidade acadêmica sem saber do que se tratava. Não era bom nos esportes e sofria muito quando as minhas canelas eram atingidas no hóquei sobre o gelo ou quando melhores jogadores de basquete faziam tabela na minha cabeça… Num artigo que escrevi no fi nal do meu ano de calouro, reclamei de que o colégio me obrigava a cumprir exigências desnecessárias (uma delas era a presença diária na capela) e que quase nenhum interesse intelectual era demonstrado pela maioria dos alunos. No meu último ano, eu era um rebelde declarado (SKINNER apud SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p. 279). Sua crítica às exigências desnecessárias, impostas pelo meio escolar, somada à compreensão sobre a importância dos processos escolares, faz Skinner dedicar-se aos estudos sobre aprendizagem. O contato inicial de Skinner com a Psicologia se deu através de lei- turas de textos de Watson e Pavlov (MACIEL; SÁ, 2001). Foi infl uen- ciado pelas proposições teóricas destes autores, mas suas refl exões ganharam um caráter diferenciado: Os resultados de Skinner em suas pesquisas sobre o comportamento reordenaram as considerações feitas sobre esse objeto de estudo até então. O comportamento dos organismos não seria infl uenciado apenas por alterações ambientais antecedentes, como proposto pela psicologia estímulo-resposta, baseada no paradigma refl exo. Grande parte do comportamento seria infl uenciada por suas conseqüências. Um organismo, ao comportar-se, produz modifi cações no ambiente que, por sua vez, alteram a forma como o indivíduo se comporta. É neste sentido que, na perspectiva Figura 7 - Skinner e os experimentos da Caixa de Skinner. Fonte: http://www. skeptically.org/skinner/id4.html “A designação ‘Behavio- rismo Radical’ foi cunhada por Skinner para se referir à fi losofi a da análise expe- rimental do comportamen- to. O termo ‘radical’ vem de raiz, no sentido em que designaria uma proposta que se atém ao estudo do comportamento a partir do próprio comportamento, sem o recurso explicativo a qualquer outra entidade” (CANÇADO; SOARES; CIRI- NO, 2007, p. 188) 46 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 46PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 46 06/09/2011 14:36:1806/09/2011 14:36:18 skinneriana, pode-se dizer que o organismo produz o meio que o determina (CANÇADO; SOARES; CIRINO, 2007, p. 184). O grande salto que Skinner dá em relação à Pavlov e Watson foi o seguinte questionamento: como se explica a mudança no re- pertório de comportamentos do organismo? Ou seja, como ocorrem aprendizagens de comportamentos novos e mais complexos? A par- tir destes questionamentos, Skinner formula o conceito de CONDI- CIONAMENTO OPERANTE, pois o considerou mais representativo da situação de aprendizagem da vida humana (MARTI SALA; ONRUBIA GOÑI, 2000a; MACIEL; SÁ, 2001). No condicionamento operante, o que propicia a aprendizagem de novos comportamentos é a ação do organismo sobre o meio e o efeito resultante desta ação. O condicionamento operante não ne- cessita de nenhum estímulo externo observável, pois a ação do or- ganismo é, primeiramente, espontânea. Esta ação espontânea, no entanto, vai gerar consequências que se tornam estímulos que ser- virão para manter, ou não, aquela ação. Daí o nome “operante”, pois signifi ca que o organismo vai “operar”, “agir” sobre o meio. “Os homens agem so- bre o mundo, modifi - cando-no e, por sua vez, sãomodifi cados pelas conseqüências de suas ações” (SKINNER, 1978, p. 15). Caixa de Skinner “O que hoje chamamos de análise do compor- tamento começou com o estudo do que Skinner denominou refl exo alimentar. O que parecia ser um simples refl exo a ser investigado para uma tese de doutorado mostrou-se uma fonte ines- perada de novos conhecimentos. Ratos eram colocados em uma pequena câmara experi- mental com acesso a pelotas de alimento em uma cuba colocada em uma das paredes. Com peso corporal controlado e número de horas de privação de alimentos constante, Skinner re- gistrava o número de pelotas consumidas por unidade de tempo. Um equipamento rudimen- tar produzia um gráfi co on-line da freqüência acumulada de pelotas consumidas, usando um quimógrafo adaptado. O registro do quimógra- fo mostrava visualmente a diminuição na força do refl exo alimentar (número de pelotas por minuto) como função do número de pelotas consumidas. Para automatizar esse registro Skinner colocou uma portinhola basculante fechando a boca da cuba. Os ratos empurravam a porta para chegar até o alimento, o que acionava um meca- nismo que registrava automaticamente o consumo de uma pelota. Na verdade, registrava o empurrão na porta, mas não garantia que apenas uma pelota era consumida cada vez que o rato tinha acesso ao alimento. O passo seguinte foi esvaziar a cuba e construir um mecanismo dispensador de alimento. Uma pequena barra de me- tal, quando pressionada, fazia cair na cuba uma pelota de alimento por vez. Agora, o contador eletromecânico acionado pela pressão à barra de metal registrava fi dedignamente o consumo de cada pelota. O aparato foi um sucesso e veio a ser o precursor das milhões de Caixas de Skinner (as Skinner Boxes) fabricadas nos últimos 70 anos” (TODOROV, 2004, p. 151-152). Figura 8 - Caixa de Skinner. Fonte: http://str.com.br/Str/caixa.jpg SAIBA MAIS 47PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 47PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 47 06/09/2011 14:36:1806/09/2011 14:36:18 O conceito central que explica os processos de condiciona- mento operante é REFORÇO. Segundo Eduard Marti Sala e Javier On- rubia Goñi (2000a): [...] o reforço é o processo de fortalecimento de uma determinada resposta de acordo com suas conseqüências; portanto, em um processo de reforço, uma determinada classe de respostas aumenta a probabilidade de ocorrência no futuro (p. 217). Para Skinner, o condicionamento só se efetua quando o orga- nismo é estimulado pelas consequências de seu comportamento. Para isso, há dois tipos de reforços: positivo ou negativo. Reforço positivo: “é todo evento que aumenta a probabili- dade futura da resposta que o produz” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2007a, p. 50). Para tornar mais clara a explica- ção, vejamos o exemplo que Ira Maciel e Márcia Sá (2001) nos fornecem: “Em situações do cotidiano escolar quando um aluno recebe um elogio do professor, este elogio (reforço positivo) mantém ou fortalece um comportamento operante” (MACIEL; SÁ, 2001, p. 121). Reforço negativo: “é todo evento que aumenta a probabili- dade futura da resposta que o remove ou atenua” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2007a, p. 50). Maciel e Sá (2001) nos ajudam a compreender: “O aumento do consumo de analgé- sicos, por exemplo, pode ser explicado por meio deste tipo de reforço. A retirada do estímulo aversivo (dor de cabeça) pelo uso do remédio aumenta o procedimento de tomar com- primidos” (p. 121). Segundo a proposição teórica do Condicionamento operante de Skinner, a aprendizagem é consequência de uma série de reforços bem planejados pelos professores. Vejamos nas palavras de Skinner (1972) como isto se dá: Condicionamento operante e reforço “A aplicação do condicionamento operante na educação é simples e direta. O ensino é um arranjo de contingências sob as quais os alunos aprendem. Aprendem a ser ensinados no seu ambiente natural, mas os professores arranjam contingências especiais que aceleram a aprendizagem, facilitan- do o aparecimento do comportamento que, de outro modo, seria adquirido vagarosamente, ou assegurando o aparecimento do comportamento que poderia, de outro modo, não ocorrer nunca” (SKINNER, 1972, p. 62). A TE N Ç Ã O 48 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 48PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 48 06/09/2011 14:36:1906/09/2011 14:36:19 O processo inverso ao que ocorre em relação ao reforço é a extinção: esta ocorre sempre que uma resposta reforçada anterior- mente deixa de ser reforçada sistematicamente. O desaparecimento da resposta se dá de maneira gradual. Outros conceitos que complementam a compreensão sobre condicionamento operante são: DISCRIMINAÇÃO e GENERALIZAÇÃO. Vejamos como Eduard Marti Sala e Javier Onrubia Goñi (2000a) ex- plicam e exemplifi cam tais conceitos: A discriminação é o processo pelo qual se aprende a dar uma resposta na presença de um certo estímulo ou classe de estímulos, e somente na presença desses, de maneira que tais estímulos acabem tornando-se signos ou sinais específi cos que regulam o comportamento tratado – como, por exemplo, aprender a identifi car pelo nome uma determinada letra sem utilizar qualquer outra letra. Essa conexão funcional entre os estímulos discrimitativos e as respostas é obtida quando se reforça sistematicamente a resposta diante desses estímulos e não se reforça diante de outros. A generalização, por sua vez, é o processo pelo qual é possível transferir a aprendizagem efetuada por um estímulo contextual concreto a outros estímulos similares – por exemplo, identifi car uma letra não somente quando é manuscrita caligrafi camente, mas também quando diferentes pessoas escrevem ou quando estiver escrita de maneiras diferentes (p. 217 – grifos no original). Ao combinarmos a discriminação com a generalização cria- mos a possibilidade de formar conceitos e transferir comportamentos aprendidos de uma situação para outra, pois se torna possível esta- belecer novas relações entre as atividades do sujeito, seu meio e as atividades previamente existentes. Após o estudo de tantos conceitos novos, você deve estar se perguntando: de que forma podemos utilizar os conceitos do Beha- viorismo na prática pedagógica? Bem, vejamos alguns aspectos: Um ponto interessante que vale a pena ressaltar diz respeito à punição: há um debate entre os behavioristas a respeito da validade da punição como forma de reduzir a frequência de respostas que não são esperadas. As práticas punitivas na educação foram há muito questionadas, pois as razões que levaram o aluno a ter uma ação indesejada (ação que sofre punição) não são alteradas com a punição. Os alunos que sofrem punições, ao invés de adotarem novos comportamen- 49PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 49PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 49 06/09/2011 14:36:1906/09/2011 14:36:19 tos, tornam-se especialistas na esquiva e na fuga. As ações podem, até, parar de ocorrer temporariamente, mas isso não signifi ca que a motivação para realizá-la novamente tenha se alterado. Os behavioristas “propuseram a substituição defi - nitiva das práticas punitivas por procedimentos de instalação de comportamentos desejáveis” (BOCK; FURTADO; TEIXEI- RA, 2007a, p. 53). Para Skinner, o erro no processo de aprendizagem deve ser reduzido: Skinner dá ênfase à estruturação de estímulos que controlem a resposta do aluno através da programação dos reforços oferecidos, de modo a manter a intensidade do com- portamento esperado. Para isso, “propõe dividir a matéria de aprendizagem em passos muito pequenos, diante dos quais os alunos devem responder constantemente, com oobjetivo de argumentar tanto quanto se possa a freqüência dos refor- ços e reduzir ao mínimo os erros” (MARTI SALA; ONRUBIA GOÑI, 2000a, p. 219). Sobre o papel do professor: este é concebido como um ex- perimentador das situações de ensino no cotidiano escolar. Deve planejar previamente a organização dos conteúdos de forma hierarquizada. “Cabe ao professor analisar a conduta inicial e terminal, organizar as unidades de informação, de- senvolver programas de reforço, selecionar meios e formas de apresentação levando em conta a motivação externa ade- quada” (MACIEL; SÁ, 2001, p. 131). Sobre o papel da escola: esta deve “modelar o comporta- mento humano e organizar o processo de aquisição de habi- lidades, atitudes, conhecimentos específi cos e úteis ao mo- delo social” (MACIEL; SÁ, 2001, p. 131). Sobre as diferenças individuais: “A ênfase no atendimento às diferenças individuais do alunado foi considerada por Skin- ner, tanto em relação ao ritmo pessoal de estudo como na seleção de eventos, reforçadores adequados aos indivíduos. Ao levar em consideração o respeito às diferenças o ritmo de aprendizagem dos alunos, ignorou muitas outras diferenças (por exemplo, a diversidade de interesses) em prol da homo- geneização do ensinar e do aprender” (MACIEL; SÁ, 2001, p. 124). 50 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 50PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 50 06/09/2011 14:36:1906/09/2011 14:36:19 A partir das considerações sobre o Behaviorismo radical de Skinner, podemos concluir que nosso comportamento é regido pelo grupo social, principalmente a partir dos aspectos que classifi camos como “bom ou mau”, “certo ou errado”. Mesmo quando estas classi- fi cações não são verbalizadas, os indivíduos inferem tal julgamento, pois “a ação do grupo vai produzir o comportamento de autocontrole” (MACIEL; SÁ, 2001, p. 126). Desta forma Skinner ressalta a impor- tância dos ambientes sociais como determinantes do comportamento moral dos homens. Principais conceitos estudados: - Estímulo-resposta e ambiente - Refl exo Condicionado - Condicionamento operante - Reforço - Discriminação e Generalização FILME RECOMENDADO Recomendo o fi lme Laranja Mecânica para refl etir um pouco sobre os limites éticos que devem permear algumas proposições behavioristas sobre condicionamento. FICHA TÉCNICA: Título: Laranja Mecânica Direção: Stanley Kubrick; Gênero: Ficção Científi ca; Ano: 1971; Duração: 138 min Sinopse: No futuro, Alex (Malcolm McDowell), líder de uma gangue de delinquentes, cai nas mãos da polícia. Preso, ele foi usado em experimento destinado a refrear os impulsos destrutivos: seria condicionado de forma obrigatória a ter aversão a qualquer tipo de violência. Mas Alex acaba se tor- nando impotente para lidar com a violência que o cerca. Por fora, torna-se uma simples laranja – natural e orgânica –, mas por dentro, age como uma estrutura mecânica, uma máquina manipulada pelo Estado. 51PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 51PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 51 06/09/2011 14:36:1906/09/2011 14:36:19 VOCÊ SABIA? 3 TEORIA PSICANALÍTICA DE FREUD Sigmund Freud (1856-1939) nasceu em 1856, em uma pequena cidade perto de Viena. A família Freud era ju- dia, seu pai, Jakob, comerciante de lã. Freud foi o primogênito dos oitos fi lhos que seu pai teve com sua terceira mulher, Amélia, 20 anos mais nova do que ele. Quando Freud nasceu, ele já era tio do fi lho de seu meio irmão, fruto do primeiro casamento do pai. Aos quatro anos de idade, Freud mudou- se com a família para Viena, onde seu pai esperava encontrar melhores oportunidades para seu comércio. Sempre Freud foi ótimo aluno durante sua vida esco- lar. Formou-se em Medicina e especializou-se em Neurologia. Durante sua especialização, dedicou-se a pesquisa sobre o sistema nervoso e pretendia seguir carreira acadêmica e de pesquisador. Contudo, durante sua residência em Neurologia, Freud casou-se com Marta, com quem teria 6 fi lhos, e, para tanto, precisava de recursos fi nanceiros que a pesquisa não lhe garantia. Por essa razão, decidiu clinicar. Foi quando saiu do laboratório de Brucke e foi trabalhar no hospital de Viena, na equipe do Dr. Meynert. Ali, no hospital de Viena, come- çou a atender pessoas acometidas de problemas nervosos e interessou-se pela histeria - doença para a qual a neurologia não oferecia tratamento. Foi a partir da clínica com pacientes histéricas que Freud postulou a etiologia inconsciente dessa patologia e elaborou uma nova teoria que deu o nome de Psi- canálise. “Quando eu era uma criança de quatro anos, fui para Viena e ali recebi toda a minha educação. No Gymnasium, fui o primeiro de minha turma durante sete anos e desfrutava de privilégios es- peciais, e quase nunca tive de ser examinado em aula” (FREUD, 1924/1987, v. XX, p. 18). A obra freudiana é muito vasta. O primeiro livro publi- cado que foi reconhecido com o marco do início da Psicanáli- se foi A Interpretação dos sonhos, que data de 1900. Desde então, Freud não cessou de escrever até o ano de sua morte, 1939. Sua obra foi reunida e publicada em 24 volumes. Freud escreveu sobre sonhos, atos falhos, sintomas histéricos e obsessivos, as psicoses, o inconsciente, o recal- que, a transferência e a pulsão, sobre a civilização, religião, guerra, arte, criatividade - inúmeros temas e conceitos cuja Esta parte foi escrita em co-autoria com Elisa Teixei- ra, psicóloga e psicanalista, mestre em Psychopathologie Fondamentale et Psychanaly- se - Université de Paris VII e doutora em Psicologia Clínica pela PUC/RJ. Elisa Teixeira é professora da Universidade Cândido Mendes/RJ e profes- sora do Instituto Superior de Educação Pró-Saber/RJ. Pos- sui experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psi- cologia Clínica, Psicologia do Desenvolvimento e Psicologia Educacional. Figura 9 - Sigmund Freud. Fonte: http:// pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Sigmund_ Freud_LIFE.jpg Freud passou a maior parte de sua vida em Viena, dos quatro aos 82 anos, quando, fugindo de perseguições nazistas, re- fugiou-se em Londres. Apesar da idade avançada e das inú- meras cirurgias que sofreu por causa de um câncer na man- díbula, continuou clinicando e escrevendo até o fi m de sua vida. Quatro irmãos de Freud morreram em campos de con- centração. A respeito da sua escolha pro- fi ssional, Freud escreve “em- bora vivêssemos em circuns- tâncias muito limitadas, meu pai insistiu que, na minha es- colha de uma profi ssão, devia seguir somente minhas incli- nações” (FREUD, 1924/1987, v. XX, p. 18). 52 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 52PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 52 06/09/2011 14:36:2006/09/2011 14:36:20 A TEN Ç Ã O extensão e complexidade nos impedem de aqui abordá-los todos. Portanto, escolhemos dar uma breve explicação sobre o funciona- mento mental do ponto de vista da psicanálise e, depois, discorrer so- bre os conceitos de Ideal do Eu e de Transferência que podem ajudar aos professores na compreensão do que acontece na sala de aula. 3.1 Pressupostos teóricos Em 1900, no livro Interpretação dos sonhos, Freud descreveu nosso funcionamento mental e o dividiu em três sistemas: o sistema CONSCIENTE, PRÉ-CONSCIENTE e INCONSCIENTE. Freud comparou o sistema mental a um iceberg: a consciência seria sua parte visível e o inconsciente a parte submersa. Consciente, Pré-consciente e Inconsciente “O inconsciente exprime o ‘conjunto dos conteúdos não pre- sentes no campo atual da consciência’. É constituído por conteúdos reprimidos, que não têm acesso aossistemas pré-conscientes/cons- cientes, pela ação de censuras internas. Estes conteúdos podem ter sido conscientes, em algum momento, e ter sido reprimidos, isto é, ‘foram’ para o inconsciente. O inconsciente é um sistema do aparelho psíquico regido por leis próprias de funcionamento. Por exemplo, é atemporal, não existem as noções de passado e presente. O pré-consciente refere-se ao sistema onde permanecem aque- les conteúdos acessíveis à consciência. É aquilo que não está na cons- ciência, neste momento, e no momento seguinte pode estar. O consciente é o sistema do aparelho psíquico que recebe ao mesmo tempo as informações do mundo exterior e as do mundo inte- rior. Na consciência, destaca-se o fenômeno da percepção, principal- mente a percepção do mundo exterior, a atenção, o raciocínio” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2007b, p. 73-74 – grifos no original). O inconsciente é o lugar psíquico dos conteúdos, ideias e re- presentações que foram recalcados ou suprimidos pela censura que existe entre o pré-consciente e o inconsciente por serem incompatí- veis com a consciência. Uma vez recalcados, no inconsciente, os conteúdos, ideias e representações fazem pressão para vir à tona, manifestarem-se. Então, existiria uma tensão entre a censura que tenta impedir que conteúdos inconscientes se tornem conscientes e uma pressão do Recalque: Freud fez questão de distinguir os instintos de origem pu- ramente orgânica como a sede e a fome, da se- xualidade, reservando para esta o termo pulsão. O recalque ou repressão (como se diz popular- mente) da pulsão é capaz de provocar as neuroses. De forma bastante ge- nérica podemos afi rmar que o recalque é a base da civilização e da cultu- ra. A vida em sociedade implica necessariamente este recalque e, em con- trapartida, ela condena a civilização a lidar com o mal estar inerente a sua possibilidade. O próprio conceito de civilização traz consigo a insatisfa- ção e o mal estar. 53PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 53PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 53 06/09/2011 14:36:2006/09/2011 14:36:20 A TE N Ç Ã O inconsciente no sentido contrário. Quando o inconsciente consegue driblar essa censura, seus conteúdos aparecem na consciência atra- vés de SONHOS, ATOS FALHOS e SINTOMAS. No livro Psicopatologia da Vida Cotidiana, de 1901, Freud procurou mostrar que o inconsciente estava presente naquilo que costumamos descrever como eventos do dia a dia: enganos, erros, omissões, falhas de memória etc. Segundo Freud, nada disso acon- tece por acaso: estes fatos são determinados pelo inconsciente. Os atos falhos, assim como outros enganos, muitas vezes são utilizados para realizar desejos que foram censurados. Neste caso, a intenção assume o disfarce de um acidente fortuito. Por exemplo, uma pes- soa que tem que pegar um trem, contra a sua vontade, para visitar alguém, perto da cidade onde mora. Na estação onde deve trocar de trem, pega um trem que o leva de volta para o ponto de partida. Ou uma pessoa que fi cou incumbida de abrir e fechar um debate e, ao invés de dizer “a sessão está aberta”, diz “a sessão está encerrada”. Ou ainda: alguém que tenta abrir a porta do trabalho com as chaves de casa etc. Assim, tanto o sonho, o ato falho, quanto o sintoma, nada mais são do que o resultado do confl ito entre o inconsciente e a censura. O conjunto de conteúdos que forma o sonho, por exemplo, traduz a trama de desejos não satisfeitos contidos no inconsciente. Sonhar, nesse sentido é a realização de um desejo inconsciente. Re- alização imperfeita, incompleta e distorcida, é claro, porque a ação do recalque impede que as imagens oníricas explicitem com clareza o desejo inconsciente. Por isso é preciso um deciframento, uma inter- pretação para chegarmos ao conteúdo latente do sonho. Em 1920, Freud propõe uma nova descrição do funcionamento psíquico. Ele mantém a divisão em três sistemas que denomina: EU, ISSO e SUPEREU, também traduzidos como EGO, ID e SUPEREGO. O Eu/Ego apresenta semelhanças com a consciência; o Isso/Id, com o inconsciente; e o Supereu/Superego, com a censura. Eu, Isso e Supereu “O Id ou Isso é composto por energias que Freud chamava de pulsões – desejos e necessidades que não reconhecem qual- quer norma estabelecida. O Isso/Id não é socializado, não respeita convenções, e as energias que o constituem buscam a satisfação incondicional do organismo. O Ego ou o Eu mantém contato com a realidade que nos cer- ca. É a porção visível de cada um de nós, convive segundo as regras socialmente aceitas, sofre as pressões imediatas do meio e executa 54 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 54PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 54 06/09/2011 14:36:2006/09/2011 14:36:20 A psicanálise mostra que há uma vasta gama de desejos que são impedidos de chegar ao nível do Ego, isto é, desejos cuja existên- cia o Eu sequer toma ciência devido à censura. O Supereu atua como protetor do Eu, pois sem ele as pulsões tornariam insuportável a vida do indivíduo em sociedade. Está no inconsciente tudo aquilo que o EU não sabe que exis- te, tudo aquilo que foi recalcado, suprimido com base em concepções morais internalizadas pelo indivíduo. Somos possuidores de um uni- verso de desejos que desconhecemos. Tudo o que pensamos e que- remos é apenas uma parte do que realmente somos. Grande parte de nós encontra-se oculta em nosso inconsciente, reprimida pelo nosso Supereu. Os dois conceitos que representam os alicerces da teoria freu- diana e que causaram maior impacto na compreensão do ser humano e, consequentemente, acusaram maior resistência, são: o Incons- ciente e a Sexualidade. A concepção do funcionamento psíquico proposta pela Psica- nálise traduz uma concepção de ser humano que rompe com o ra- cionalismo. Mostra que não somos donos da verdade que julgamos conhecer a respeito de nossas motivações, nossos gostos, amores e ódios. As escolhas conscientes são infl uenciadas ou determinadas pelo inconsciente. ações destinadas a equilibrar o convívio das pessoas com os que a cercam. O Superego ou Supereu, por sua vez, é um depositário das normas e princípios morais do grupo social a que o individuo se vin- cula. Ali concentram-se as regras e as ordenações da sociedade e da cultura, representadas inicialmente pela família e posteriormen- te internalizada pela pessoa” (CUNHA, 2002, p. 14 – grifos nossos). O Eu apresenta intensa resistência, repugnância àquelas ideias que con- trariam os seus valores morais ou àquelas que abalam a profunda au- toestima que tem por si mesmo – o famoso nar- cisismo. ATENÇÃO FILME RECOMENDADO Para complementar seus estudos, recomendamos o fi lme Freud, além da alma, de John Huston. FICHA TÉCNICA: Título: Freud, além da alma Direção: John Huston; Gênero: Drama/Biografi a; Ano: 1962; Duração: 139 min. Sinopse: Huston realiza uma pseudo-biografi a do psicanalista vienense Sig- mund Freud (1856-1939), mas descrevendo apenas um período de cinco anos (a partir de 1885) da vida do médico. Nessa época, a maioria dos co- legas de Freud se recusava a tratar dos casos de histeria por acreditar que tudo não passava de fi ngimento dos pacientes para chamar atenção. Mas Freud não achava isso e passou a aplicar a técnica da hipnose, que viria a se tornar uma prática no tratamento psiquiátrico. 55PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 55PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 55 06/09/2011 14:36:2006/09/2011 14:36:20 O inconsciente rompe com o racionalismo vigente na época de Freud, subverte a visão do homem cartesiano. Freud diz que a Psicanálise representa um golpe psicológico para a humanidade aoevidenciar que o mental não é idêntico à consciência, que o mental não se reduz àquilo que é conhecido por nós. Ou seja, que o “Eu não é senhor de sua própria casa”, como costumava dizer Freud. Por outro lado, a SEXUALIDADE é, sem dúvida, o conceito freudiano que provocou, e ainda provoca, mal-entendidos, interpre- tações distorcidas e preconceitos em relação à Psicanálise. Para com- preendermos a noção de Sexualidade na teoria de Freud, precisamos, antes de qualquer coisa, dissociá-la de genitalidade. Na Psicanálise, ela assume uma dimensão muito mais ampla. Na clínica, com suas pacientes, Freud descobriu que grande parte dos conteúdos inconscientes, que haviam sido recalcados, tinha uma conotação sexual. Ele afi rma, igualmente, que a sexualidade não se inicia na puberdade como se pensava, mas na mais tenra infância e, assim, rompe com a ideia da ingenuidade infantil e da criança an- gelical. Freud busca mostrar que, quando pensamos no desenvolvi- mento humano, não estamos mais no registro dos instintos, mas das pulsões libidinais que não buscam apenas saciar necessidades fi sio- lógicas. Elas proporcionam ou não prazer e estabelecem relação com os outros, como é o caso na oralidade e da analidade, por exemplo: quando uma criança é alimentada por sua mãe ou é educada para controlar seus esfíncteres, ela não está no registro do instinto ou ne- cessidade fi siológica, mas numa relação com sua mãe, onde prazer, demanda, controle, recusa, satisfação etc., estão em jogo. 3.1.1 Transferência como condição de aprendizagem Por ocasião do quinquagésimo aniversário do seu colégio, Gymnasium, Freud escreveu um artigo que integrou um volume co- letivo em homenagem à instituição. Esse texto foi posteriormente publicado sob o título em português Algumas observações sobre a psicologia escolar (FREUD, 1914/1987, v. XIII). Nesse ensaio, Freud faz menção a sua última redação no colégio: [...] pareço relembrar que, durante todo esse tempo, tinha a premonição de uma tarefa futura, até que esta encontrou expressão manifesta na minha redação de despedida da escola, como um desejo de que pudesse, no decurso de minha vida, contribuir SAIBA MAIS A Psicanálise nasceu como um tratamento para neuróticos, mas Freud também se serviu de seus conceitos para analisar fenômenos so- ciais e para dialogar, contribuir ou se contra- por com outros campos do saber como a Arte, a Psiquiatria, a Sociolo- gia, a Filosofi a, a Educa- ção etc. Sendo assim, é um instrumento valioso para a análise e com- preensão de fenômenos sociais atuais, inclusive os que acontecem na escola, como por exem- plo: a inclusão de crian- ças portadoras de ne- cessidades especiais, o bullying, o aumento da violência, as difi culda- des de aprendizado, os “novos” sintomas como o TDA/H, a medicaliza- ção do sofrimento, den- tre outros. 56 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 56PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 56 06/09/2011 14:36:2106/09/2011 14:36:21 com algo para nosso conhecimento humano (FREUD, 1914/1987, v. XIII, p. 285/86). Freud continua nesse texto em homenagem a sua escola: É difícil dizer se o que exerceu mais infl uência sobre nós foi a nossa preocupação pelas ciências que nos eram ensinadas ou a personalidade de nossos mestres. Nós os cortejávamos, ou lhes virávamos as costas; imaginávamos neles simpatias e antipatias que provavelmente não existiam; estudávamos seus caracteres e sobre eles formávamos ou deformávamos os nossos. Eles provocavam nossa mais enérgica oposição e forçavam-nos a uma submissão completa; bisbilhotávamos suas pequenas fraquezas e orgulhávamo-nos de sua excelência, e seu conhecimento e sua justiça. Nossa posição em relação a eles [...] bem podia ter tido suas inconveniências para os interessados. Estávamos, desde o princípio, igualmente inclinados a amá-los e a odiá-los, a criticá-los e a respeitá-los (FREUD, 1914, v. XIII, p. 286). Não podemos deixar de mencionar o estranhamento que essa passagem provoca, tamanha a diferença com o contexto atual. Essas lembranças de Freud deixam clara a posição que seu professor ocu- pava para ele: a de modelo a partir do qual seus alunos formavam ou deformavam os seus caracteres. Mais adiante, Freud é explícito quanto à função de Ideal do Eu exercida por seus professores: Estes homens, nem todos pais na realidade, tornaram-se nossos pais substitutos. Foi por isso que, embora ainda bastante jovens, impressionaram-nos como tão maduros e tão inatingivelmente adultos. Transferimos para eles o respeito e as expectativas ligadas ao pai onisciente de nossa infância e depois começamos a tratá-los como tratávamos nossos pais em casa. Confrontamo-los com a ambivalência que tínhamos adquirido em nossas próprias famílias e, ajudados por ela, lutamos como tínhamos o hábito de lutar com nossos pais em carne e osso... A menos que levemos em consideração nossos quartos de criança e nossos lares, nosso comportamento para com os professores seria não apenas incompreensível, mas também indesculpável (FREUD, 1914, v. XIII, p. 288). Embora Freud não utilize o conceito de TRANSFERÊNCIA, o que não caberia numa carta-homenagem a sua escola, é a ela que ele se refere. O autor chega a explicá-lo mais adiante no texto. Vejamos 57PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 57PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 57 06/09/2011 14:36:2106/09/2011 14:36:21 A TE N Ç Ã O como Freud explica o conceito de TRANSFERÊNCIA: Conceito de Transferência “A natureza e a qualidade das relações da criança com as pessoas do seu sexo e do sexo oposto já foram fi rmadas nos primeiros seis anos de sua vida. Ela pode posteriormente desenvolvê-las e transformá-las em certas direções, mas não pode mais se livrar delas. As pessoas a quem se acha assim ligada são os pais e os irmãos e as irmãs. Todas as que vem a conhecer mais tarde tornaram-se fi guras substitutas desses primeiros objetos de seus sentimentos. [...]. Seus relaciona- mentos posteriores são assim obrigados a arcar com uma espécie de herança emocional, defrontam-se com simpatias e antipatias para cuja produção esses próprios relacionamentos pouco contribuíram. Todas as escolhas posteriores de amizade e amor seguem a base das lembranças deixadas por esses primeiros protótipos” (FREUD, 1914, v. XIII, p. 287). Com efeito, desde os primórdios da Psicanálise, Freud perce- beu a transferência que acontecia na sua relação com seu pacientes. O fenômeno da transferência não é exclusivo da relação analítica. Ele está presente nos vínculos afetivos entre sujeitos. Considerar que a transferência não é exclusiva da experiên- cia analítica e que ela acontece, por exemplo, entre o professor e o aluno, não nos permite, de modo algum, pensar na possibilidade de realizar um processo analítico na escola. Muito pelo contrário! O uso da transferência separa o campo psicanalítico do pedagógico. Na aná- lise, essa transferência é interpretada pelo analista, o que não cabe em outras relações. A transferência está presente no laço afetivo que estabelecemos com outro e, em particular, com a fi gura do professor. A transferência comporta a dimensão dos afetos transferidos, assim como a da repetição de padrões de comportamento. Por extensão, a transferência pode, inclusive, designar a rela- ção que um sujeito ou que sujeitos podem estabelecer com um saber – o que permite falar de transferência coletiva. Freud abordou essa questão no seu texto Uma difi culdade no caminho da Psicanálise, quando indica a resistência ou a transferência negativa que a psica- nálise provocou em seus leitores da época: Para começar, direi que não se trata de uma difi culdade intelectual, de algo que torne a psicanálisedifícil de ser entendida pelo ouvinte ou pelo leitor, mas de uma difi culdade afetiva – alguma coisa que aliena os sentimentos daqueles que entram em contato com a psicanálise, de tal forma que os deixa menos inclinados a acreditar nela e a se interessar por ela. Conforme se poderá observar, os 58 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 58PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 58 06/09/2011 14:36:2106/09/2011 14:36:21 dois tipos de difi culdade, afi nal, equivalem-se. Onde falta simpatia, a compreensão não virá facilmente (FREUD, 1917/1987, v. XVII, p.171). Freud observa, portanto, dois tipos de transferências: uma “positiva” e outra “negativa”. “A transferência positiva é ainda divisível em transferência de sentimentos amistosos ou afetuosos, que são admissíveis à consciência, e a transferência de prolongamentos desses sen- timentos no inconsciente” (FREUD, 1912, v. XII, p. 140). A transferência negativa diz respeito a sentimentos hostis. Uma das contribuições da Psicanálise para a formação de pro- fessores é pensar as duas vertentes da transferência: a positiva e a negativa. Os professores são alvo destes dois tipos de transferência, além daquela que é condição da aprendizagem. A admiração pelo professor (transferência positiva) pode conduzir o aluno ao interesse pela disciplina que está sendo ministrada, produzindo uma maior faci- lidade no aprendizado. O inverso também é verdadeiro. A hostilidade que o aluno pode nutrir pelo professor (transferência negativa) afasta o interesse e difi culta a transmissão do conhecimento. Em seus escritos técnicos, Freud dedica um deles ao tema do amor transferencial. Ele inicia dizendo que todo principiante em Psi- canálise se sente alarmado pelas difi culdades em interpretar as asso- ciações do paciente e lidar com os sintomas. Contudo, logo aprende a encarar estas difi culdades como insignifi cantes e fi ca convencido de que os únicos obstáculos realmente sérios que tem de enfrentar resi- dem em lidar com a transferência. Freud adverte ao analista iniciante de que ele deve reconhecer que: [...] o enamoramento da sua paciente é induzido pela situação analítica e não deve ser atribuído aos encantos de sua própria pessoa; de maneira que não tem nenhum motivo para orgulhar-se de tal ‘conquista’, como seria chamada fora da análise (FREUD, 1914/15, v. XII, p. 210). O conhecimento do fenômeno transferencial que permeia as relações permite ao professor distinguir sua pessoa da função que ele ocupa na relação com o aluno. Isso introduz a possibilidade de uma leitura nova sobre o que acontece na sala de aula. Com efeito, levar em consideração o fenômeno da transferência pode relativizar a ideia de que existe uma relação dual direta, sem interferências. 59PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 59PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 59 06/09/2011 14:36:2106/09/2011 14:36:21 Se, por um lado, reconhecer que a raiz do amor transferencial ao professor provém das relações parentais, por outro lado, pode ser experimentado como uma ferida narcísica, frustração; ou, até mes- mo, um alívio em relação aos afetos hostis endereçados aos professores. Muitos comportamentos agressivos de alunos não visam a pessoa do profes- sor, mas a função que ele ocupa naquele momento para seus alunos: função de um adulto que tem responsabilidades sobre Figura 10. Fonte: http://grooeland.blogspot. com/2008/02/educao-os-professores-e-os.html eles, que decide sobre os encaminhamentos da aula, que representa uma autoridade, a instituição escola, o conhecimento que ele deseja ou despreza etc. Retomemos mais uma passagem do texto de 1914, escrito por Freud, em homenagem à sua escola: Estes homens, nem todos pais na realidade, tornaram- se nossos pais substitutos. Foi por isso que, embora ainda bastante jovens, impressionaram-nos como tão maduros e tão inatingivelmente adultos (FREUD, 1914, v. XIII, p. 288). A transferência destaca a dessimetria que caracteriza essa re- lação, ou seja, sublinha a diferença das posições e dos lugares simbó- licos que aluno e professor ocupam. O professor, aqui, está no lugar de Ideal do Eu, ocupando a função de modelo. Atualmente, ouvimos falar bastante em relação horizontaliza- da entre professor e aluno. Algumas leituras equivocadas, no entan- to, compreendem a horizontalização como ausência de autoridade por parte do professor, como se signifi casse que professor e aluno possuem as mesmas funções e obrigações e que passam a ser cole- gas. Este tipo de entendimento é bastante complicado, pois, através dele, professores, hoje, tendem a se esquivar em assumir uma po- sição de autoridade, hesitam e se destituem da responsabilidade de transmitir ao aluno o que a diferença entre eles signifi ca. Observa-se, aí, uma confusão entre autoritarismo e autoridade, entre uma relação igualitária e uma relação democrática. É importante sublinhar que esses termos não são sinônimos. Um professor que assume seu papel de autoridade não precisa ser autoritário, assim como, uma relação vertical, assimétrica, pode ser democrática. 60 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 60PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 60 06/09/2011 14:36:2206/09/2011 14:36:22 Autoridade, Complexo de Édipo e Ideal de Eu Para a Psicanálise, na origem da relação de autoridade – na nos- sa sociedade é a autoridade paterna que exerce dominantemente esse papel – está a hostilidade daquele que, aos olhos da criança, detém todo o poder e satisfação possíveis. Surge o desejo de suprimir esse ou- tro para tomar posse desse lugar tão privilegiado. Isto é, em síntese, o fa- moso Complexo de Édipo, de Freud. Os impulsos destrutivos pre- sentes no Complexo de Édipo são transformados e substituídos por uma identifi cação com o pai a partir do amor ao que ele tem. Esta é a raiz da formação do Ideal do Eu: amá-lo para ser o que ele é e ter o que ele tem. 3.1.2 O professor e o Ideal do Eu Freud compara o Eu de uma pessoa a uma cebola cujas cama- das corresponderiam às várias identifi cações ocorridas ao longo da vida. No curso do desenvolvimento de uma criança, algumas pessoas ocupam a função do que Freud denominou IDEAL DO EU, transmitin- do valores e ideais que orientam o sujeito nas suas escolhas, atitudes e comportamentos. Dentre as pessoas que tradicionalmente exercem essa função, encontramos os pais ou seus substitutos, como os pro- fessores. O Ideal do Eu sempre se encontra em um ponto mais além, à frente do sujeito, que funciona como uma espécie de horizonte em direção ao qual nos movemos. Podemos dizer que, para haver ensino e para haver aprendizagem, o professor precisa ocupar esse lugar de Ideal do Eu. Contudo, a pergunta que se impõe, sobretudo quando comparamos a situação atual com aquela descrita por Freud em sua carta de homenagem ao colégio em que estudou, é: o professor, hoje, assume esse lugar de Ideal do Eu? Figura 11. Édipo e o Oráculo de Delfos. Fonte: http://www.templodoconhecimento. com/portal/modules/smartsection/item. php?itemid=22 A TEN Ç Ã O 61PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 61PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 61 06/09/2011 14:36:2206/09/2011 14:36:22 Para pensarmos a função de Ideal do Eu na relação professor-aluno, sugerimos a compa- ração entre dois fi lmes. No fi lme Ao mestre, com carinho, de James Clavell, fi ca nítido que o professor exerce a função de Ideal do Eu para a turma e consegue, assim, não apenas instruí-loscom o conteúdo de suas disciplinas, mas também transmitir ideais, valores e princípios éticos. Já no fi lme Clube do Imperador, de Michael Hoffman, apesar dos esforços do professor em transmitir valores éticos para seu aluno Sedgewick, seu esforço foi em vão. Vamos assistir aos fi lmes e pensar sobre essas relações? FICHA TÉCNICA: Título: Ao mestre, com carinho Direção: James Clavell; Gênero: Drama; Ano: 1967; Duração: 105 min. Sinopse: Um jovem professor enfrenta alunos indisciplinados e desordei- ros, neste fi lme clássico que refl etiu alguns dos problemas e medos dos adolescentes dos anos 60. Sidney Poitier tem uma de suas melhores atu- ações como Mark Thackeray, um engenheiro desempregado que resolve dar aulas em Londres, no bairro operário de East End. A classe, liderada por Denhan, Pamela e Barbara, está determinada a destruir Thackeray como fi zeram com seu professor anterior, ao quebrar-lhe o espírito. Mas Thackeray, acostumado às hostilidades, enfrenta o desafi o tratando os alunos como jovens adultos que em breve estarão se sustentando por conta própria. Quando recebe um convite para voltar à engenharia, Tha- ckeray deve decidir se pretende continuar a ser professor. FICHA TÉCNICA: Título: Clube do imperador Direção: Michael Hoffman; Gênero: Drama; Ano: 2002; Duração: 109 min. Sinopse: William Hundert (Kevin Kline) é um professor apaixonado de História Antiga e tem como objetivo ultrapassar a rotina acadêmica e ensinar os alunos a viver. Respeitado pela diretoria de um colégio para rapazes da alta sociedade norte-americana, ele é reconhecido entre todos por ensinamentos como: “o caráter de um homem é o seu destino”. Mas a calmaria estava com os dias contados. Recém-matriculado, Sedgewi- ck Bell, fi lho de um infl uente senador, contesta cada um desses valores transmitidos em aula. PARA REFLETIR FILMES RECOMENDADOS Atualmente, o professor não é mais convocado a encarnar a função de Ideal do Eu, no sentido de transmitir ideais que guiem e norteiem o sujeito em sua formação para, em nome desses ideais, renunciar a suas pulsões. Ele é convocado a apresentar-se como um exemplo de sucesso, de alguém bem sucedido ou como um meio para atingir o sucesso o mais rápido possível, o que, por sua vez, constitui uma armadilha, pois, o professor, não possuindo os atributos cultua- dos hoje em dia – não goza de prestígio, não tem sucesso fi nanceiro etc. – apresenta-se frequentemente aquém dessa função. 62 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 62PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 62 06/09/2011 14:36:2206/09/2011 14:36:22 É nesse sentido que alguns professores considerados bem-su- cedidos se adaptam às leis do mercado e se oferecem como produtos na economia do saber, para seus consumidores/alunos. Como um bom exemplo do que estamos falando, temos o professor Pachecão. Trata- se de um professor de Física, nascido em Minas Gerais, que ganhou popularidade nacional assumindo ares de pop star. Vejamos sua apre- sentação no site que leva seu nome: [...] é o precursor do estilo da ‘aula show’, que mudou sobremaneira o processo de ensino no Brasil. Um mix de criatividade, alegria e humor torna este mineiro de Laranjal único em sua atividade. [...] Com mais de vinte anos de dedicação ao ensino, dois CDs gravados (mais de 70 mil cópias vendidas), [...] na TV, Pachecão tem passagem nos principais programas de auditório: Brasil Legal, Jô, Faustão, Programa Livre, Sandy & Jr. (PACHECÃO, 2008, s/p.). Ainda no site do professor Pachecão, encontramos um link para as “palestras motivacionais”, outro para a TV Pachecão, onde encon- tramos ofertas de vídeos do professor; e ainda um para a Lojinha do Pachecão, que anuncia o relançamento do CD “Eu odeio Física!”. Não deixa de nos surpreender a transformação de um professor em marca, divulgada com uma linguagem publicitária de pop star. A importância dessa contradição reside no fato de ela nos reve- lar um dos impasses da Educação contemporânea. Se, antes, a educa- ção – que se consolida como corpus teórico na Modernidade – cumpria a função de transmitir ideais morais visando à formação de um homem moral e crítico, hoje, ela deve oferecer um caminho rápido e seguro para o sucesso, que, por sua vez, tende a ser percebido como metas a serem atingidas em relação ao acúmulo de capital, à visibilidade, à beleza e à juventude. Como pode o professor cumprir essa função se ele tende a representar a antítese do que o senso comum considera sucesso? É nesse sentido que o psicanalista Contardo Calligaris (1995) aponta para um paradoxo: [...] se em nossa cultura o valor está no gozo prometido, então, a autoridade pedagógica deve ser sustentada segundo as regras do jogo. Se os signos aparentes do bem-estar, do sucesso material, ou seja, do gozo realizado, são para nós índices de valor social, pouco importa que a escola seja bonita, ofereça ventiladores e computadores. Importa muito mais que os professores em que se espera que as crianças acreditem não sejam a imagem social da privação (CALLIGARIS, 1995, p. 30 – grifo no original). 63PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 63PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 63 06/09/2011 14:36:2406/09/2011 14:36:24 Este é o convite que fazemos para que você, estudante de Pedagogia, refl ita sobre a realidade atual a partir dos preceitos da Psicanálise. FILME RECOMENDADO Para refl etir sobre as questões atuais da educação, sugerimos que você assista ao documentário Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim. Este documentário apresenta inúmeros testemunhos de professores que se dizem impotentes, “invisíveis” e que se sentem despreparados para lidar com os alunos que encontram na sala de aula. Por que será que isso acontece? FICHA TÉCNICA: Título: Pro Dia Nascer Feliz Direção: João Jardim; Gênero: Documentário; Ano: 2006; Duração: 88 min. Sinopse: Defi nido pelo próprio diretor como “um diário de obser- vação da vida do adolescente no Brasil em seis escolas”, Pro Dia Nascer Feliz fl agra o dia-a-dia e adentra a subjetividade de alunas e professores de Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro. As en- trevistas são intercaladas com sequências de observação do am- biente das escolas - meio, por sinal, bem pouco frequentado pelo documentário. Sem exercer interferência direta, a câmera fl agra salas de aula, esquadrinha corredores, pátios e banheiros, teste- munha uma reunião de conselho de classe (onde os professores decidem o destino curricular dos alunos “difíceis”) e momentos de relativa intimidade pessoal. Principais conceitos estudados: • Consciente, Pré-consciente e Inconsciente • Sonhos, Atos Falhos e Sintomas • Eu, Isso e Supereu • Sexualidade • Transferência • Ideal do Eu 64 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 64PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 64 06/09/2011 14:36:2406/09/2011 14:36:24 1. Explique a diferença entre o conceito de Condicionamento Clássico, de Pavlov, e Condicionamento Operante, de Skinner. 2. Explique, com suas palavras, o conceito de Transferência para Freud, e qual a relação entre transferência positiva e aprendizagem. 3. Quais as principais diferenças em relação aos modos como o Behaviorismo Radical de Skinner e a Psicanálise concebem o homem? Nesta unidade, foram apresentadas duas perspectivas teóricas bastante distintas sobre desenvolvimento e aprendizagem: primeira- mente, estudamos as Teorias Comportamentais do Condicionamento Clássico de Ivan Pavlov e o Behaviorismo Radical de Frederic Skinner. Em um segundo momento, vimos a Teoria Psicanalítica de Freud. As Teorias Comportamentais e a Psicanálisepossuem aborda- gens muito distintas sobre os processos psíquicos, especialmente re- lacionados ao desenvolvimento e à aprendizagem. Isto se dá devido a diferentes concepções de homem que fornecem a base para suas pro- posições teóricas. O Behaviorismo é uma teoria de base racionalista, ao passo que a Psicanálise coloca em xeque o racionalismo através de seu conceito de Inconsciente. Outra diferença marcante entre as duas abordagens é o fato de as Teorias Comportamentais colocarem o foco no comportamento, pressupondo que é possível compreender o comportamento humano e controlá-lo através de estímulos e reforços. Já para a Psicanálise, nunca temos acesso ao que verdadeiramente somos, pois nossas es- colhas conscientes são infl uenciadas ou determinadas pelo incons- ciente. Muitas outras divergências podem ser apontadas entre as duas abordagens, mas, por hora, é importante relembrar que a Psicologia não é uma ciência neutra e com um único objeto de estudo. Desta forma, as diferentes concepções de homem de cada teoria devem ser, sempre, analisadas, para que se refl ita sobre as implicações de tais concepções para nossa prática pedagógica. ATIVIDADES RESUMINDO 65PedagogiaUESC 2 U ni da de 1 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 65PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 65 06/09/2011 14:36:2506/09/2011 14:36:25 BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lour- des Trassi. O Behaviorismo. In: BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias. Uma intro- dução ao estudo de Psicologia. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2007a, p. 45-58. BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lour- des Trassi. A Psicanálise. In: BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias. Uma intro- dução ao estudo de Psicologia. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2007b. p. 70-84. CALIGARIS, C. Três Conselhos para a educação das crianças. In: ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE (Org.). Educa-se uma criança? Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1999. p. 25-30. 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Rio de Janeiro: Imago, 1987. p. 171-184. FREUD, Sigmund. (1925). Um estudo Auto biográfi co. In: FREUD, Sigmund. Obras Completas. Edição Standard Brasileira, v. XX. 2 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. p. 17-88. FREUD, Sigmund. (1927). O Futuro de uma Ilusão. In: FREUD, Sig- mund. Obras Completas. Edição Standard Brasileira, v. XXI. 2 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. p. 13-71. FREUD, Sigmund. (1929). Mal-Estar na Civilização. In: FREUD, Sig- mund. Obras Completas. Edição Standard Brasileira, v. XXI. 2 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. p. 81-171. FREUD, Sigmund. (1932). Conferência XXXIV, Explicações, Aplica- ções e Orientações. In: FREUD, Sigmund. Obras Completas. Edição Standard Brasileira, v. XXII. 2 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. p. 167-191. MACIEL, Ira Maria; SÁ, Márcia Souto Mourão. Frederic Skinner e a modelaegem do comportamento. In: MACIEL, Ira Maria (Org). Psico- logia e Educação: novos caminhos para a formação. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2001. p. 113-133. 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Roteiro: Charles Kaufman, Wolfgang Reinhardt, Jean-Paul Sartre. Música: Wendy Car- los. EUA: Universal International Pictures, 1962. (139 min.). Preto e Branco, legendado. LARANJA Mecânica. Diretor: Stanley Kubrick. Gênero: Ficção Cien- tífi ca. Produção: Stanley Kubrick. Fotografi a: John Alcott. Roteiro: Stanley Kubrick, baseado em livro de Anthony Burgess. Música: Wen- dy Carlos. Inglaterra: Estúdio Warner Bros. / Hawk Films Ltd. / Polaris Production, 1971. (138 min.). Colorido, legendado. PAVLOVIANA. Diretor: Alexandre Bersot. Gênero: Animação. Rio de Janeiro: 2004. (9 min.), colorido, não legendado. Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=v6eU9pMDedQ>. PRO DIA Nascer Feliz. Diretor: João Jardim. Gênero: Documentá- rio. Produção: Flávio R. Tambellini e João Jardim. Fotografi a: Gustavo Hadba. Roteiro: João Jardim. Música:Dado Villa-Lobos. Brasil: Ravina Filmes / Fogo Azul Filmes, 2006. (88 min.). Colorido, legendado. 68 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens tradicionais da Psicologia da EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 68PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 68 06/09/2011 14:36:2606/09/2011 14:36:26 Suas anotações _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 69PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 69 06/09/2011 14:36:2606/09/2011 14:36:26 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 70PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 70 06/09/2011 14:36:2606/09/2011 14:36:26 Ao fi nal da unidade o(a) aluno(a) deverá: obter conhecimentos específi cos sobre as contribui- ções da Psicologia Genética de Piaget e a Psicologia sócio-histórica de Vygotsky para as questões do de- senvolvimento e da aprendizagem; refl etir sobre as implicações das diferentes teorias para a prática pedagógica. Objetivos ABORDAGENS INTERACIONISTAS EM PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 3Unidade PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 71PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 71 06/09/2011 14:36:2706/09/2011 14:36:27 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 72PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 72 06/09/2011 14:36:2706/09/2011 14:36:27 1 PRIMEIRAS PALAVRAS Nesta unidade, estudaremos as duas principais perspectivas teóricas da Psicologia que contribuem para os estudos do desenvolvi- mento e da aprendizagem: a Psicologia genética de Piaget e a Psico- logia sócio-histórica de Vygotsky. Os principais conceitos das respectivas teorias serão apresen- tados, e também duas pesquisas realizadas com base em cada uma das perspectivas teóricas, de modo a ampliar as possibilidades de aplicação/utilização dos estudos aqui realizados. Por fi m, apresentarei alguns pontos de divergência entre as duas abordagens, para que refl itamos sobre suas possíveis implica- ções em nossas práticas pedagógicas. UNIDADE 3 ABORDAGENS INTERACIONISTAS EM PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO U ni da de 73PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 73PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 73 06/09/2011 14:36:2706/09/2011 14:36:27 2 PSICOLOGIA GENÉTICA DE JEAN PIAGET A Psicologia Genética de Piaget (1896-1980) é uma concepção Interacionista e Construtivista. Interacionista, pois considera que o organismo e o meio se infl uenciam mutuamente e que esta interação provoca mudanças no indivíduo; Construtivista, pois, a partir desta interação com o meio, o conhecimento vai sendo adquirido como um processo construído pelo indivíduo durante toda sua vida. Segundo Eduard Marti Sala e Javier Onrubia Goñi (2000b), a importância de Piaget no campo educativo foi favorecida pelo contex- to em que surgiu, na primeira metade do século XX: tratava-se de um período em que as principais teorias da aprendizagem ligadas ao comportamentalismo sofriam um esgotamento em sua ênfase educa- tiva baseada “na instrução direta, na transmissão do conhecimento e em uma certa passividade do aluno” (p. 249). Naquela época, a epistemologia estava dividida entre os que defendiam que o conhecimento era simplesmente uma cópia da realidade exterior e que era adquirido por meio dos sentidos – empirismo – e os que defendiam que o conhecimento era inato – inatismo. Neste contexto, Piaget propõe uma terceira alternativa. Defendia que o conhecimento vai sendo construído – não é inato – e que, nessa construção, o indivíduo tem um papel especial – o seu conhecimento não é simplesmente uma cópia da realidade como os empiristas crêem. [...] Por esse motivo, muitas de suas idéias vão ser estudadas graças às respostas que crianças de diferentes idades davam quando resolviam tarefas diferentes. [...] Assim, Piaget começou a defender sua teoria em um momento em que as teorias da aprendizagem enfatizavam sobretudo as propriedades do estímulo – e não as do sujeito como um organismo organizador da informação – e em um momento em que os sentidos – muito mais que a ação – eram os principais protagonistas no ato do conhecimento (MARTI SALA; JAVIER ONRUBIA GOÑI, 2000b, p. 249-250). Jean Piaget nasceu na Suíça, em 1896, fi lho de uma família abastada. Desde muito cedo interessou-se pelo mundo animal, che- gando a trabalhar, ainda na infância, como ajudante do diretor do Museu de História Natural de Neuchâtel. Desta forma, sua trajetória o encaminha para a Biologia e, posteriormente, volta-se para a Filosofi a para buscar respostas a algumas inquietações. A Psicanálise também se torna alvo de interesse, dedicando-se a algumas publicações e pa- lestras de base psicanalítica. No entanto, o fato de não se constituir Figura 12. Jean Piaget. Fonte: www.fi ndagrave. com/cgi-bin/fg.cgi?page 74 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologiae Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 74PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 74 06/09/2011 14:36:2706/09/2011 14:36:27 A TEN Ç Ã O como um campo científi co faz com que Piaget realize duras críticas à Psicanálise, afastando-se de suas concepções (SÁ, 2001). Após doutorar-se, em 1918, Piaget volta-se para a Psicologia, dedicando-se à investigação sobre como se forma o conhecimento humano. Daí o nome de sua teoria: Psicologia Genética. Neste caso, o adjetivo Genética não tem, aqui, relação com os genes da Biologia, e sim com a ideia de origem, ou seja, é a Psicologia que se dedica ao estudo da origem do conhecimento humano. Mais especifi camente, Piaget dedicou-se à compreensão sobre como as crianças constroem noções fundamentais do conhecimento lógico, tais como noção de tempo, de espaço, de causalidade etc. Cláudia Davis e Zilma de Oliveira (2002) explicam os primór- dios de tal questionamento em Piaget: Inicialmente, Piaget trabalhou com dois psicólogos franceses, Binet e Simon, que, por volta de 1905, tentavam elaborar um instrumento para medir a inteligência das crianças que freqüentavam as escolas francesas. Tal instrumento – o teste de inteligência Binet-Simon – foi o primeiro teste destinado a fornecer a idade mental de um indivíduo [...]. Ao analisar as respostas das crianças dos testes, Piaget começou a se interessar pelas respostas erradas das crianças, salientando que estas só ‘erravam’ porque as respostas eram analisadas a partir do ponto de vista do adulto. Na verdade as respostas infantis seguiam uma lógica própria (DAVIS; OLIVEIRA, 2002, p. 37) A questão que orientará toda teoria de Piaget, portanto, é: como a lógica infantil se transforma em lógica adulta? 2.1 Pressupostos teóricos Para iniciarmos os estudos sobre a Psicologia Genética de Pia- get, vamos ler o texto abaixo sobre ensino de ciências nas escolas: “Descobri com estupefa- ção que os mais simples raciocínios implicando a inclusão de uma parte no todo ou no encade- amento das relações, ou ainda a multiplicação de classes (encontrar a parte comum de duas entidades), apresenta- vam para as crianças normais, até 12 anos, difi culdades insuspeita- das pelo adulto” (PIA- GET apud MACIEL; SÁ, 2001, p. 86). Ensino de ciências e a Psicologia genética “Introduzir os alunos no universo das ciências é um dos gran- des objetivos do ensino para a escola fundamental e média, perse- guido por todos os professores – mas alcançá-lo desde as primeiras séries do ensino fundamental torna-se tarefa bastante difícil. O que temos visto são alunos carregando uma coleção de fatos isolados, os quais não compreendem direito, com isso gerando gran- U ni da de 75PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 75PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 75 06/09/2011 14:36:2806/09/2011 14:36:28 de desinteresse pelas ciências. Esses alunos não sentem as ciências como pertencendo ao seu mundo, mas sempre como algo que mais tarde aprenderão. Com esse ensino, não estamos introduzindo os alunos no universo das ciências; muito pelo contrário, estamos ini- ciando sua exclusão. A ciência é mais do que uma coleção de conceitos ligados por uma teoria, como é tradicionalmente ensinado. A ciência busca uma explicação para algum problema sobre a natureza com os conceitos nascendo da necessidade de justifi car um raciocínio. A coleção de fatos e teorias é o subproduto mais importante dessa excitante tare- fa de procurar explicar com seu próprio raciocínio um fenômeno da natureza. O ensino de ciências precisa ter essas mesmas características: ser excitante, ter um problema sobre a natureza para resolver, pro- mover a discussão sobre os raciocínios e justifi cativas dos alunos para que eles possam interagir com – e não somente aceitar os – ra- ciocínios científi cos já elaborados. As aulas de ciências devem ser planejadas para que os estu- dantes ultrapassem a ação contemplativa e encaminhem-se para a refl exão em busca de explicações que, em última análise, são as metas de um trabalho científi co. Buscamos então nos trabalhos de Piaget referenciais teóricos sobre como os indivíduos constroem seus raciocínios e principalmente como constroem as explicações sobre a natureza” (CARVALHO, 2005, P. 50-51 – grifo meu). A interação no processo de construção do conhecimento é um fator fundamental na Psicologia de Piaget. Eduard Marti Sala e Javier Onrubia Goñi (2000) apontam que, para Piaget, o sujeito é protago- nista na aquisição do conhecimento através de suas ações. A ação, portanto, tem grande importância nesta teoria, pois “conhecer é atu- ar diante da realidade que nos envolve. O sujeito conhece na medida em que modifi ca a realidade através de suas ações” (p. 250). Esta proposição é válida para todas as idades, em seus diversos processos de conhecimento: o bebê quando soa o chocalho, a criança que brin- ca de enfi leirar objetos, o jovem que elabora explicações fantásticas sobre o universo. Marti Sala e Onrubia Goñi (2000b) explicam com precisão o que signifi ca “atuar” para Piaget: Contudo, atuar no sentido piagetiano não se pode traduzir necessariamente por ações e movimentos externos e visíveis. Esse poderia ser o caso das crianças pequenas, que, de alguma maneira, necessitam manipular a realidade que as envolve para poder entendê-la. Na maioria dos casos, porém, essa atividade é interna, mental, ainda que se possa basear em objetos físicos. Um sujeito pode estar 76 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 76PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 76 06/09/2011 14:36:2806/09/2011 14:36:28 A TEN Ç Ã O mentalmente muito ativo sem que por isso tenha de mover ou manipular objetos: quando compara, ordena, classifi ca, conta ou faz deduções mentais (p. 250). É um engano, portanto, acharmos que um aluno ativo e parti- cipativo em sala de aula é aquele que fala muito, pergunta tudo e ex- pressa suas opiniões oralmente. Às vezes, um aluno que permanece quieto e calado está em intensa atividade mental. Não podemos nos deixar levar por estereótipos em nossa prática docente. Para explicar como se organizam as múltiplas ações de um or- ganismo, Piaget desenvolveu o conceito de ESQUEMAS DE AÇÃO. Os esquemas de ação são totalidades organizadas e relacionadas entre si que permitem ao sujeito dar sentido à realidade, modifi cando-a. Esquemas de Ação “Denominam esquemas de ação aquilo que em uma ação é transpor- tável, generalizável ou diferenciável de uma outra ou, dito de outra maneira, o que é comum às diversas repetições ou aplicações da mes- ma ação” (PIAGET apud MARTI SALA; JAVIER ONRUBIA GOÑI, 2000b, p. 251 – grifo no original). Um exemplo que podemos dar de esque- ma de ação é o ato de reunir coisas: uma criança utiliza um esquema de ação de reunião quando separa fi guras geométricas; um estudante uni- versitário também utiliza seus esquemas de ação de reunião quando organiza seus materiais em pastas, por disciplinas. Trata-se do mesmo princí- pio de reunião, estabelecido através da interação com a realidade. Os esquemas passam por uma gradação, de acordo com o desenvolvimento cognitivo: primeiramente nós dispomos de esque- mas refl exos, que são ações automáticas geradas a partir de deter- minados estímulos, como o refl exo de sucção realizado pelo bebê na amamentação; aos poucos, outros esquemas de ação vão surgindo, ainda de forma simples e restrita, mas que não se caracterizam mais pela ação refl exa; por fi m, a partir de um dado momento, surgem os esquemas representativos, nos quais as ações são representadas mentalmente, e não mais de forma concreta e externa (MARTI SALA; JAVIER ONRUBIA GOÑI, 2000b). É como se os esquemas deação estivessem entre o sujeito e o mundo, pois dão sentido, interpretam e ordenam a realidade, Figura 13. Fonte <http:// elianeportopead.pbworks.com/w/ page/10137487/MATEMATIZANDO> U ni da de 77PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 77PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 77 06/09/2011 14:36:2806/09/2011 14:36:28 tornando-a compreensível e apreensível ao sujeito. Esta interação constante entre sujeito e objeto (mundo) vai se realizar através de processos de ASSIMILAÇÃO e ACOMODAÇÃO. Assimilação: [...] através dele o organismo – sem alterar suas estruturas – desenvolve ações destinadas a atribuir signifi cações, a partir da sua experiência anterior, aos elementos do ambiente com os quais interage (DAVIS; OLIVEIRA, 2002, p. 38). Acomodação: [...] o organismo tenta reestabelecer um equilíbrio superior com o meio ambiente [...]. Agora o organismo é impelido a se modifi car, a se transformar para se ajustar às demandas impostas pelo ambiente (DAVIS; OLIVEIRA, 2002, p. 38). É preciso ressaltar que os processos de assimilação e acomo- dação são complementares e acontecem ao mesmo tempo. Vejamos um exemplo: uma criança pequena aprende a segurar uma bola de tênis. Ela precisará fazer uso do esquema de “pegar a bola”, acionan- do uma certa postura do braço, da mão, dos dedos etc. Um tempo depois, são dadas à mesma criança várias bolas de tamanhos dife- rentes: bola de gude, bola de futebol, bola de basquete. A criança passa pelos processos de assimilação e acomodação, pois incorpora um novo objeto (bolas de tamanhos diferentes) utilizando-se de um repertório que ela já possuía (segurar uma bola), ao mesmo tempo que precisa modifi car o esquema anterior para se ajustar à nova rea- lidade das bolas de diferentes tamanhos. A partir dos processos de assimilação e acomodação, o sujeito vai construindo seus conhecimentos por meio da interação com a rea- lidade que o envolve. Esta interação constante entre sujeito e realida- de permite que sejam construídos novos esquemas que possibilitam uma maior compreensão da realidade, e, de modo simultâneo, que o sujeito construa a realidade através da atribuição de diferentes signi- fi cados às suas experiências (MARTI SALA; JAVIER ONRUBIA GOÑI, 2000b). Os processos de assimilação e acomodação estão diretamente relacionados ao conceito de EQUILIBRAÇÃO MAJORANTE. Para Piaget, todo organismo vivo busca sempre manter um estado de equilíbrio, ou seja, de adaptação ao ambiente em que está inserido, eliminando qualquer perturbação em sua relação com o meio. Figura 14. Fonte <http:// guiuempedacos.blogspot. com/2009/09/blog-post.html> 78 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 78PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 78 06/09/2011 14:36:3106/09/2011 14:36:31 Este processo dinâmico de busca pelo equilíbrio entre sujeito e meio resulta em construções e elaborações sucessivas e constantes de novas estruturas cognitivas. Tal processo, no entanto, não é tran- quilo, pois provoca, permanentemente, desequilíbrios gerados por difi culdades encontradas na resolução do problema. Tais difi culdades são resultantes da insufi ciência de esquemas que nós dispomos para interagir com os objetos. Os desequilíbrios, no entanto, têm um pa- pel muito importante nos processos de aprendizagem. Vejamos como nas palavras de Piaget (1976) a explicação sobre os desequilíbrios: [...] mede-se pela possibilidade de superá-los, quer dizer, sair deles. A fonte real do progresso deve, pois, ser procurada na reequilibração, naturalmente não no sentido de um retorno à forma anterior de equilíbrio, cuja insufi ciência é responsável pelo confl ito ao qual essa equilibração provisória chegou, mas de uma melhora da forma precedente. Entretanto, sem o desequilíbrio não teria havido reequilibração majorante (PIAGET, 1976, p. 19). A partir dos desequilíbrios, cria-se a possibilidade de constru- ção de novos esquemas. Neste momento, vale ressaltar um conceito de extrema importância para a prática pedagógica: ERRO CONSTRU- TIVO. Ao invés de considerarmos o erro do aluno como algo negativo e que deve ser eliminado, devemos diferenciar um simples erro co- metido, dos processos de desenvolvimento que fazem parte da cons- trução do conhecimento. U ni da de 79PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 79PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 79 06/09/2011 14:36:3106/09/2011 14:36:31 Você reparou que o conceito de “erro” para a Psicologia Genética de Piaget é diferente da noção de “erro” no Behaviorismo Radical de Skinner? Que tal abrirmos um Fórum de discussão na Plataforma Moodle para discutirmos o signifi cado de Erro para as duas teorias? Peça ajuda ao tutor para criar o Fórum, e mãos à obra! Para a Psicologia Genética, [...] os erros são interpretados como indicadores de uma atividade organizadora e assimilador, certamente insufi ciente, porém essencial para poder progredir. São também indícios de que o sujeito não incorpora passivamente as informações do seu meio, mas que as assimila aos seus esquemas, mesmo que muitas vezes esses sejam inefi cazes e tenham de modifi car-se ou organizar-se de maneira mais adequada. São, em última instância, a manifestação do ponto de vista de um sujeito que se encontra em um determinado nível de desenvolvimento e que, com o tempo, o superará (MARTI SALA; JAVIER ONRUBIA GOÑI, 2000b, p. 255 – grifo meu). Pensemos sobre um exemplo clássico na teoria de Piaget: mostramos dois copos com a mesma quantidade de água para um a criança, e perguntamos se são iguais. A criança concorda que têm a mesma quantidade de água. Agora, pegamos um destes copos e transferimos toda sua água para outro recipiente com dimensões diferentes do anterior (um copo mais alto, por exemplo). Nada foi acrescentado ou tirado. Mostramos para a criança um dos copos com água que já estava presente no início do experimento e o novo copo, mais alto. Perguntamos se a quantidade de água continua a mesma, e a criança confunde-se, pois não sabe, ainda, distinguir a dimen- são do recipiente da quantidade de líquido dentro dele, apontando que o recipiente mais alto possui mais água. Ao transferirmos novamente a água do recipiente alto para o copo inicial, e perguntarmos para a criança: e agora? Ela dirá que há a mesma quan- tidade de água nos dois copos, pois os copos são iguais. Para que a criança considerasse que a quanti- dade de água não mudou, e sim o formato dos recipientes, teria que estar na etapa operatório- concreta de desenvolvimento, na qual ela já PA RA R EF LE TI R Figura 15. Fonte: http://i.ytimg. com/vi/Q8yKhbXhkk0/0.jpg 80 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 80PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 80 06/09/2011 14:36:3206/09/2011 14:36:32 possui a capacidade de reversibilidade, isto é, de considerar simulta- neamente uma ação e sua ação inversa. As características das etapas do desenvolvimento cognitivo e socioafetivo de Piaget podem ser vistas no quadro 5. Quadro 5 – Desenvolvimento Cognitivo e Socioafetivo, segundo Piaget Estágio de desenvolvi- mento Idade aproximada Características Esquemas Vida afetiva Sensório-motor 0 a 2 anos - Inteligência prática - O bebê começa a ser capaz de re- solver problemas práticos cada vez mais complexos - A evolução dos esquemas permite que o mundo vá sendo organizado (espacialmente, temporalmente, causalmente) “Esquemas de ação, conceitos sensório-motores, início da constru- ção das categorias de objeto, espaço, tempo e causalida- de” “Daindiferenciação eu-mundo exterior ao reconhecimento dos objetos e pes- soas, sentimentos derivados da ação” Pré-Operatório 2 a 6 anos - Inteligência representativa (es- quemas de ações interiorizadas) - Egocentrismo (o ponto de vista da criança domina) - Pensamento intuitivo, baseado na percepção “Indiferenciação entre o ponto de vista próprio e o dos outros, rigidez e irreversibilidade do pensamento” “Interesse como prolongamento de necessidade, senti- mentos de respeito (afeição + temor) pelos mais velhos, obediência, moral heterônoma” Operatório Concreto 6 a 11 anos - Inteligência operatória (baseada em um conjunto de operações ló- gicas) - Pensamento mais lógico e racio- nal - As operações permitem organizar a realidade de uma maneira mais estável (conservações) - Reversibilidade “Aquisição da ca- pacidade de per- ceber e a reversi- bilidade das opera- ções, explicações causais, noções de permanência de substância, peso e volume” “Sentimentos de respeito mútuo e de justiça (distribu- tiva e retributiva), moral da coope- ração (correlata à lógica da reversi- bilidade), apareci- mento da vontade como regulação da ação” Operatório Formal 11 a 15 anos - Inteligência formal (pode-se apli- car a qualquer conteúdo) - Pensamento combinatório (capa- cidade de pensar em todas as com- binações e variantes possíveis de um fenômeno) - Pensamento hipotético-dedutivo (capacidade de raciocinar por meio de hipóteses) “Pensamento pro- posicional e hipo- tét ico-dedutivo, esquemas formais de lógica combina- tória e de propor- ções” “Construção da au- tonomia” Fontes: Marti Sala e Onrubia Goñi (2000b, p. 252); Campos e Nepomuceno (2007, p. 252). Eduard Marti Sala e Javier Onrubia Goñi (2000b) ressaltam que a teoria dos estágios de desenvolvimento é, muito possivelmente, a parte mais conhecida e difundida da teoria de Piaget, mas fazem um U ni da de 81PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 81PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 81 06/09/2011 14:36:3206/09/2011 14:36:32 alerta importante: é preciso tomar cuidado com o uso que será dado a tal formulação teórica. Maciel e Sá (2001) também enfatizam esta questão, afi rmando que tal teoria “pode servir como mais um rótulo de fracasso escolar” (p. 90). Vejamos como Marti Sala e Onrubia Goñi (2000b) explicam este cuidado que devemos tomar: Cuidado na compreensão e utilização das etapas de desenvolvimento de Piaget “Ao descrever uma série de etapas de desenvolvi- mento correspondentes às capacidades e à maneira de atuar mais representativa de crianças em diferentes idades, Piaget oferece um instrumento muito tentador para a prática edu- cativa, porém perigoso. Tentador porque permite situar um aluno, de acordo com seu estágio de desenvolvimento, em um certo nível de competência e apreciar o que é capaz ou incapaz de fazer e de aprender. Nesse sentido, pode servir para delinear programas e tarefas escolares e para analisar as aprendizagens da aula. Porém, também é um instrumento perigoso, pois oferece somente indicações de uma capacidade cognitiva geral que nem sempre tem repercussões em apren- dizagens específi cas. Efetivamente, não interessa a Piaget saber em que idade aparece tal e tal capacidade cognitiva, ou em que idade se manifesta com mais intensidade tal ou tal erro de raciocí- nio. Por isso, sempre dá idades aproximativas para situar os estágios de desenvolvimento. O seu interesse recai sobre a ordem de sucessão desses estágios, sobre o que representa passar de um estágio a outro nível cognitivo e sobre a explica- ção desse progresso. Além do mais, Piaget não quer estabele- cer um instrumento diagnóstico ao nível cognitivo das pessoas de acordo com a idade. O que lhe interessa é identifi car as mudanças cognitivas mais gerais – e não as que se referem a esta ou àquela parcela de conhecimento – que acontecem em todas as pessoas – com um caráter universal, sempre as- sociadas à espécie humana. Por todas as razões, a prudência impõem-se na hora de extrapolar os dados relativos aos es- tágios de Piaget na prática educativa (MARTI SALA; ONRUBIA GOÑI, 2000b, p. 253 – grifos meus). A TE N Ç Ã O 82 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 82PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 82 06/09/2011 14:36:3206/09/2011 14:36:32 Ira Maciel e Márcia Sá (2001) sugerem que a teorização so- bre os estágios de desenvolvimento de Piaget sejam utilizados como alicerce para avaliação dos alunos e não como critério para julgar se o aluno está atrasado ou não, se está fazendo o que “deveria” de acordo com sua idade ou não. Como destacamos no boxe com o título “Cuidado na compreensão e utilização das etapas de desenvolvimen- to de Piaget”, a categorização em etapas deve servir como um auxílio para que o professor perceba o que foi e o que não foi aprendido por seus alunos e para que o professor se questione: Por que determinado conteúdo não pôde ser aprendido por alguns alunos? Não é a idade cronológica da criança e/ou adolescente que marca o pertencimento a uma lógica própria a cada estágio e, sim, seus próprios raciocínios (MACIEL; SÁ, 2001, p. 90). Dando continuidade ao alerta sobre a utilização da teoria das etapas de desenvolvimento, Ana Maria Pessoa de Carvalho (2005) destaca que: Nas salas de aula não temos um sujeito epistêmico, temos, em média, 30 alunos que se encontram em várias fases de desenvolvimento, com a obrigação de ensinar a todos simultaneamente. Para tal, ao planejarmos uma atividade de ensino, é conveniente conhecer os procedimentos mediante os quais os alunos vão se apropriando progressivamente dos conteúdos escolares para que possamos intervir efi cazmente em sua aquisição (CARVALHO, 2005, p. 52-53). Desta forma, a Psicologia Genética vem contribuir para a prá- tica pedagógica no sentido de criar possibilidades para que o profes- sor conheça melhor os processos de aprendizagem de seus alunos. Eis uma das grandes contribuições de Piaget para a compreensão da criança e do jovem, e também para os processos pedagógicos: conceder lugar de importância ao ponto de vista das crianças e dos jovens nos processos de desenvolvimento e aprendizagem. Principais conceitos estudados: • Interação • Ação • Esquemas de ação • Assimilação e Acomodação • Equilibração Majorante • Erro construtivo ATENÇÃO “Se a construção da mo- ral depende da vida com os outros, o lugar social representado pela esco- la mais especifi camente pela sala de aula merece destaque neste cenário. Assim, a competitividade entre alunos para obten- ção de notas individuais deve ser substituída por trabalhos em parceria e em grupo, onde predo- mine a solidariedade e o respeito. O professor deixa de ocupar o papel de grande árbitro e a prática da auto-avaliação e da avaliação pelo gru- po passa a ser constru- ída no dia-a-dia escolar. Isto porque pensar em exercício da cidadania, hoje, requer de nós o esforço de conviver com todas as diferenças que os outros cidadãos nos apontam, para que jun- tos possamos construir um país menos injusto e desigual para tantos” (MACIEL; SÁ, 2001, p. 104). U ni da de 83PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 83PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 83 06/09/2011 14:36:3306/09/2011 14:36:33 SAIBA MAIS 2.2 Tema para refl exão: A importância da interação social para o desenvolvimento do conhecimento lógico-matemático Neste tópico apresentarei a síntese de um estudo de Constance Kamii sobre a importância da interação social para o desenvolvimento cognitivo da criança. Constance Kamii uti- liza como referencial teórico a Psicologia Genética de Jean Piaget. Este estudo foi publicadono livro: “Aritmética: novas perspectivas. Implicações da teoria de Piaget”. Kamii (1995) afi rma que, de modo geral, os educado- res concordam que a interação entre alunos é muito impor- tante para o desenvolvimento, pois, ao relacionarem-se, as crianças aprendem umas com as outras. Para Kamii (1995), no entanto, este não é o motivo que a leva a defender a inte- ração entre crianças. Para Kamii (1995, p. 57), o “conhecimento lógico-ma- temático não pode ser adquirido por interiorização daquilo que é do outro, mas pelo pensamento autônomo de cada criança”. O conhecimento, desta forma, tem suas fontes den- tro da própria criança, seus recursos, sendo elaborado a par- tir de sua própria ação mental. Sendo assim, por que Constance Kamii afi rma que in- teração é importante? Para a pesquisadora, a interação com outras crian- ças é importante, pois as ideias dos outros são fundamentais para promover situações de dúvida na criança, levando-a a pensar criticamente sobre suas próprias ideias em relação às ideias das outras pessoas. Vejamos um exemplo: [...] se uma criança diz que 5 + 4 = 8, e outra diz que 5 + 4 = 9, essa polêmica levará ambas a pensar criticamente a partir da troca de pontos de vista. [...] Quando crianças se convencem de que a ideia do outro é mais sensata que a sua própria, elas mudam a sua forma de pensar, corrigindo-se de dentro para fora (KAMII, 1995, p. 57). Constance Kamii (1995), referindo-se a Piaget, expli- ca que a interação é indispensável não apenas para a elabo- ração do pensamento lógico da criança, como também para a construção das ciências na vida adulta. As trocas interin- dividuais tornam-se importantes, desta forma, pois, “sem a Figura 16. Constance Kamii e Jean Piaget, em 1960. Fonte: <http://sites. google.com/site/constancekamii/> Constance Kamii é “natu- ral de Genebra/Suiça. Filha de pais japoneses, viveu no Japão até os 18 anos, transferindo-se depois para os Estados Unidos, onde em 1955 se bacharelou em Sociologia no Pomona Col- lege. Na Universidade de Michigan terminou o mestra- do de Educação em 1957 e doutorou-se em Educação e Psicologia na mesma univer- sidade em 1965. Foi aluna e colaboradora de Jean Piaget. [...] Constance Kamii trata das questões da natureza do número; objetivos para en- sinar número; princípios de ensino; situações na escola que podem ser usadas pelos professores para ensinar nú- mero, a prática pedagógica de professores. [...] Parte da afi rmação de Piaget ‘O jogo é um tipo de atividade par- ticularmente poderosa para o exercício da vida social e da atividade construtiva da criança’, assim pontua nos seus trabalhos os jogos em grupo, como fator de im- portância para o desenvol- vimento da capacidade cog- nitiva e interpessoal, sendo mais efi ciente e prazeroso, ao invés de folhas de exercí- cios e atividades similares”. Fonte: http://www.wook.pt/ authors/detail/id/10556 84 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 84PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 84 06/09/2011 14:36:3306/09/2011 14:36:33 diversidade de teorias e o constante esforço para ir além das suas contradições, o progresso científi co não teria sido possível” (PIA- GET apud KAMII, 1995, p. 58). Vejamos como se procede a uma pesquisa realizada por Doi- se e Mugny (apud KAMII, 1995) com crianças com idades de seis anos e três meses, para verifi car a conservação de comprimentos. Inicialmente, Doise e Mugny (apud KAMII, 1995) utilizaram dois trilhos de 4 cm de largura e 22 cm de comprimento. Para que se adaptassem aos trilhos e compreendessem sua função, as crianças puderam brincar com vagões sobre os trilhos por um tempo antes de o experimento começar. Figura 17. Extraída de Kamii (1995) A fi gura 17 representa o experimento realizado com vagões. Para começar o experimento, os vagões eram colocados paralela- mente na frente da criança, para quer pudessem julgar e constatar que se tratavam de dois trilhos iguais (Figura 17a). Após a consta- tação da criança, um dos trilhos era arrastado para a direita (Figura 17b), e a seguinte pergunta era feita para a criança: “os trilhos têm o mesmo comprimento ou um é mais comprido que o outro?”. Como o experimento foi realizado com crianças não-conservadoras, todas afi rmaram que um trilho era mais comprido do que o outro. Ao pedir que as crianças justifi cassem suas respostas, elas diziam que o trilho que foi arrastado era maior. Segundo Kamii (1995, p. 59), “essa é uma resposta típica. Não-conservadores consideram apenas as pontas desalinhadas, e baseiam seu julgamento no fato de que um trilho passou a frente do outro”. Para verifi car os efeitos da interação entre sujeitos, Doise e Mugny (apud KAMII, 1995) organizaram as crianças em pares de modo que suas opiniões sempre discordassem, de alguma forma, nos modos de pensar. Para isso, utilizaram adultos para contrapor Conservação: trata-se de um conceito de Piaget e está ligado às etapas de desenvolvimento da criança. Um experimento simples, para verifi car se a criança é conservadora ou não, pode ser realiza- do com uma dúzia de la- ranjas. Organizamos duas fi leiras paralelas, com seis laranjas cada. Em uma fi leira, colocamos as la- ranjas afastadas umas das outras; na outra fi lei- ra, colocamos as laranjas encostadas umas nas ou- tras. Perguntamos para a criança em qual fi leira há mais laranjas. A criança não-conservadora dirá que a fi leira na qual as la- ranjas estão afastadas há mais laranjas; já a criança conservadora dirá que nas duas fi leiras há a mesma quantidade de laranjas. Com o desenvolvimento da noção conservação, a criança consegue realizar operações que permitem organizar a realidade de uma maneira mais estável (conservações). U ni da de 85PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 85PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 85 06/09/2011 14:36:3306/09/2011 14:36:33 a opinião da criança. Primeiramente o experimentador perguntava à criança se os trilhos desalinhados eram do mesmo tamanho ou não. Ao responder que um era mais comprido que o outro, o experimentador perguntava para o par da criança (adulto), o que ele achava. A resposta sempre era diferente, fato que levava o experimentador a apontar as discor- dâncias e pedir que chegassem a um acordo. Vejamos nas palavras de Kamii (1995), como o experimento se desenrola: O debatedor respondia diferentemente conforme as diferentes afi rmações da criança. Por exemplo, se a criança na primeira condição experimental adotava a resposta incorreta de seu oponente, o que era mais comum, ele voltava à primeira resposta dela, dizendo- lhe: ‘Mas eu concordo com você que este trilho é mais comprido que o outro’. E, apontando para a escolha anterior da criança, enfatizava: ‘Ele é maior aqui’. Se, por outro lado, a criança, a partir das observações do contra-argumentador, desse a resposta correta, os dois adultos evitavam demonstrar qualquer sinal de aprovação e repetiam a resposta errada. Se, ainda assim, ela insistisse na igualdade de tamanho dos dois trilhos, o experimentador passava para o segundo item ou terminava o experimento (KAMII, 1995, p. 61). Segundo Kamii, as perguntas têm que ser cuidadosamente colocadas, sempre, pois crianças pequenas respondem, geralmente, que as fi guras são iguais, mas que os comprimentos são diferentes. O que as crianças levam em consideração para verifi car o comprimento – diferentemente dos adultos – é o ponto de chegada, e não a distân- cia entre o ponto de partida e de chegada. Outro experimento foi realizado, desta vez utilizando duas cordas de comprimentos diferentes: uma de 10 cm e outra de 15 cm. Figura 18. Fonte: http://www.psicopedagogiabrasil.com.br/provas_operatoriasfotos.htmAs cordas foram mostradas para as crianças (Figura 18) e per- guntas parecidas com o experimento anterior foram feitas. Crianças não-conservadoras, na Figura 18b, disseram que as duas cordas ti- 86 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 86PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 86 06/09/2011 14:36:3306/09/2011 14:36:33 nham o mesmo comprimento. A justifi cativa para esta resposta era que as duas extremidades coincidiam. Já na situação da Figura 18c, as mesmas crianças diziam que a corda de baixo era mais comprida, pois a extremidade ia além da outra. Kamii (1995) ressalta, no entanto, que crianças conserva- doras e as intermediárias, possuíam opiniões bastante distintas das crianças não-conservadoras: As conservadoras, em contra-partida, asseguravam que a de 15cm era mais comprida em qualquer situação da [Figura 18]. Elas sabiam, inclusive, justifi car logicamente a sua afi rmação. As intermediárias geralmente diziam que a corrente de 15 cm era a mais comprida, quando na situação [18b], mas não na [18c]. Elas também tinham difi culdades de justifi car as suas respostas, que se caracterizavam por hesitação e vacilação (KAMII, 1995, p. 63). Neste experimento, as crianças também fi zeram pares com adultos e tiveram suas opiniões questionadas. Vejamos os resultados apontados por Constance Kamii (1995): “A primeira observação a ser feita é que as crianças que trocaram pontos de vista com um adulto avançaram muito mais que aquelas deixadas sozinhas com os materiais e as próprias questões” (KAMII, 1995, p. 64); A partir da teoria construtivista de Piaget, Kamii (1995) explica: as crianças que estiveram com os adultos “[...] foram confrontadas com respostas que contradiziam as delas mesmas, ainda que no mesmo nível cognitivo. As- sim, quando elas tentavam conciliar as contradições, aca- bavam por coordenar diferentes pontos de vista e cons- truir uma relação num nível mais elevado incluindo os pontos de vista opostos” (KAMII, 1995, p. 65); Com estes estudos, Constance Kamii (1995) demonstra a im- portância da interação social para o desenvolvimento do conhecimen- to lógico-matemático da criança, através de uma perspectiva cons- trutivista: “Os seres humanos constroem conhecimentos à medida que tentam tirar sempre o melhor proveito de suas experiências” (KAMII, 1995, p. 68). U ni da de 87PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 87PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 87 06/09/2011 14:36:3606/09/2011 14:36:36 SAIBA MAIS 3 PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA DE VYGOTSKY Lev Semenovich Vygotsky (1896-1934) nasceu em 1896, na cidade de Orsha, na Bielo-Rússia. Filho de judeus abastados teve uma excelente formação cultural e intelectual. Graduou-se em 1917 em Direito pela Universidade de Moscou, e, entre 1917 e 1923, le- cionou Literatura e Psicologia. Após este período, passa a integrar o Instituto de Psicologia de Moscou, onde fi rma parceria com Alexan- dre Lúria e Alexis Leontiev, grandes colaboradores de sua obra, e cria o Instituto de Estudos das Defi ciências. A partir desta experiên- cia, resolve cursar Medicina, e amplia seus referenciais teóricos no âmbito da neurologia e da fi siologia. Todas essas iniciativas tinham como pano de fundo os compromissos da Rússia pós-revolucionária e o propósito de desenvolver uma teoria marxista do funcionamento intelectual (MACIEL, 2001, p. 62). Vygotsky elaborou uma teoria da Psicologia voltada para re- fl exões acerca do desenvolvimento humano, a partir de uma abor- dagem marxista, qualitativa e interdisciplinar. Atualmente, no Bra- sil, seu trabalho é bastante divulgado e valorizado, mas fi cou prati- camente desconhecido no ocidente até fi nais dos anos 1960/1970, devido a barreiras culturais e linguísticas e também por questões ideológicas de ordem internacional. Seu primeiro livro traduzido no ocidente foi “Pensamento e Linguagem”, publicado nos Estados Uni- dos em 1962 (MARTI SALA e ONRUBIA GOÑI, 2000c; OLIVEIRA, 1997). Atualmente, a Psicologia sócio-histórica de Vygotsky carac- teriza-se como uma Psicologia em expansão, pois incorpora novos problemas e questões de âmbito teórico e prático, além de receber aprofundamento e reformulações eventualmente necessárias em relação a algumas de suas proposições originais (MARTI SALA; ON- RUBIA GOÑI, 2000c). Tal qual a Psicologia Genética de Piaget, a Psicologia de Vygotsky também recebe a denominação de Interacionista. Trata- se, no entanto, de outro tipo de interacionismo, que fi cou mais co- nhecido como Sociointeracionismo, pois, além de considerar o in- divíduo ativo em seus processos de desenvolvimento e aprendiza- gem, este se constitui necessariamente em um ambiente histórico e social. Para Vygotsky o desenvolvimento não se dá de forma linear, com mudanças qualitativas periódicas. Na época em que desenvol- Figura 19. Vygotsky. Fonte: http://naborfranca.sites.uol.com. br/psicologia_clinica/biografi a_ vygotsky.htm “A psicologia soviética tem sido muito pouco conhecida no continente latino-americano entre outras coisas, porque no período da Guerra Fria todos os governos dos países da América Latina, com exceção de Cuba, seguiam as posições do governo norte-america- no, o que implicava con- siderar como subversão ideológica qualquer tipo de produção artística, científi ca ou cultural pro- cedente daquele país. [...] A psicologia sovi- ética usa o Marxismo e suas variantes como fun- damento fi losófi co. Este fato esteve relacionado intrinsecamente com as formas que tomava o marxismo na direção política soviética” (REY, 2007, p. 349-350). 88 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 88PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 88 06/09/2011 14:36:3606/09/2011 14:36:36 veu sua proposição teórica, Vygotsky afi rmava que os estudos rea- lizados sobre Psicologia da Criança estavam “dominadas pela noção de mudança evolucionária e ignora[va]m os pontos de viragem, as mudanças convulsivas e revolucionárias que são tão freqüentes no desenvolvimento da criança” (VYGOTSKY, 1994, p. 97). Marta Kohl de Oliveira (1997) ressalta três aspectos básicos do pensamento de Vygotsky: - as funções psicológicas têm um suporte biológico pois são produtos da atividade cerebral; - o funcionamento psicológico fundamenta-se nas relações sociais entre o indivíduo e o mundo exterior, as quais se desenvolvem num processo histórico; - a relação homem/mundo é uma relação mediada por sistemas simbólicos (OLIVEIRA, 1997, p. 23). Com base em Ira Maria Maciel (2001), podemos dizer que as principais perguntas que norteiam a Psicologia sócio-histórica de Vygotsky são: Qual é a relação existente entre os seres humanos e o seu ambiente físico e social? Quais são os mecanismos pelos quais a cultura torna-se parte da natureza de cada pessoa? Como os signos culturais interferem no processo de de- senvolvimento dos indivíduos? Como o professor pode contribuir para que o aluno domi- ne progressivamente os instrumentos culturais? 3.1 Pressupostos teóricos As análises realizadas por Vygotsky sobre desenvolvimento e aprendizagem partem do princípio de que as FUNÇÕES PSICOLÓGI- CAS SUPERIORES, que são tipicamente humanas, são sempre media- das. Por função psicológica superior entende-se que são os processos mentais superiores, que diferenciam o ser humano dos outros ani- mais. Vejamos como Marti Sala e Onrubia Goñi (2000c) defi nem: Segundo Vigotsky, o que distingue as capacidades psicológicas tipicamente humanas – a memória voluntária, a atenção consciente, o pensamento, a afetividade etc. – e as separados processos psicológicos básicos, compartilhados com outras VOCÊ SABIA? O nome de Vygotsky, no Brasil, é escrito de vá- rias formas: Vygotsky, Vygotski, Vigotsky e Vi- gotski. Neste material usaremos a grafi a mais comum: Vygotsky. U ni da de 89PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 89PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 89 06/09/2011 14:36:3706/09/2011 14:36:37 espécies animais – a memória natural, a atenção involuntária, a inteligência não-simbólica, as reações emocionais etc. – é que as primeiras utilizam como um suporte uma série de instrumentos mediadores – os ‘signos’ –, os quais permitem controlar e regular o próprio comportamento e levá-lo à prática de maneira consciente, reagindo, assim, não tanto aos estímulos externos de maneira direta, mas aos signifi cados representados por esses instrumentos mediadores (p. 259). Vejamos um exemplo simples para deixar clara a distinção entre as funções psicológicas superiores e os processos psicológicos básicos: podemos ensi- nar um animal a abrir uma porta quando ele quer passar para o outro lado, mas, após passar, o animal não seria capaz de, voluntariamente, fechar a por- ta para interromper uma corrente de ar. Segundo Vygotsky, o comportamento de tomar uma decisão a partir de uma nova informação é um comportamento tipicamente humano. Para compreendermos a concepção de Funções Psicológicas Superiores de Vygotsky, um outro conceito é fundamental: MEDIA- ÇÃO. Marta Kohl de Oliveira (1997) nos ajuda a compreender este conceito: Figura 20. Fonte: http://gatocomvertigens. blogs.sapo.pt/173778.html A TE N Ç Ã O Mediação “Mediação, em termos genéricos, é o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento. Quando um indivíduo aproxima sua mão da chama de uma vela e a retira rapida- mente ao sentir dor, está estabelecida uma relação direta entre o ca- lor da chama e a retirada da mão. Se, no entanto, o indivíduo retirar a mão quando apenas sentir o calor e lembrar-se da dor sentida em outra ocasião, a relação entre a chama da vela e a retirada da mão estará mediada pela lembrança da experiência anterior. Se, em outro caso, o indivíduo retirar a mão quando alguém lhe disser que pode se queimar, a relação estará mediada pela intervenção de outra pessoa. O processo simples estímulo-resposta é substituído por um ato complexo, mediado, que representamos da seguinte forma: 90 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 90PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 90 06/09/2011 14:36:3706/09/2011 14:36:37 Há dois tipos de mediadores: os INSTRUMENTOS e os SIG- NOS. Os INSTRUMENTOS são elementos intermediários entre o ho- mem e o mundo a sua volta, ampliando as possibilidades de transfor- mação da natureza. São, em geral, voltados para um objetivo espe- cífi co, carregando consigo as funções para a qual foram criados. Por exemplo: para beber água, o homem se utiliza de copo, uma concha ou um vasilhame fundo. É mais fácil beber água assim do que direta- mente da fonte. O copo, neste caso, é um instrumento utilizado para intermediar o homem e a natureza. Os animais também se utilizam de instrumentos: os chipan- zés, por exemplo, utilizam varas ou galhos para alcançar alimentos distantes; sobem em caixas ou pedras para atingir frutas pendura- das no teto. Há, no entanto, uma diferença fundamental entre o uso dos instrumentos mediadores pelo homem e pelos animais: segundo Vygotsky, os animais não produzem deliberadamente um instrumen- to que servirá, também, para uso futuro, isto é, eles não guardam o instrumento com aquela função e o transmitem a outros membros de seu grupo social. Os animais “são capazes de transformar o ambiente num momento específi co, mas não desenvolvem sua relação com o meio num processo histórico-cultural, como o homem” (OLIVEIRA, 1997, p. 29). Os SIGNOS têm uma função semelhante ao uso dos instru- mentos, mas diferenciam-se destes por atuarem como meios auxi- Nesse novo processo o impulso direto para reagir é inibido, e é incorporado um estímulo auxiliar que facilita a complementação da operação por meios indiretos’. No exemplo da vela, o estímulo (S) seria o calor da chama e a resposta (R) seria a retirada da mão. Numa rela- ção direta entre o indivíduo e a vela, é necessário que o calor provoque dor para que a mão seja retirada. A lembrança da dor (isto é, algum tipo de representação mental do efeito do calor da chama) ou o aviso de outra pessoa sobre o risco da queimadura seriam elementos me- diadores, intermediários entre o estímulo e a resposta. A presença de elementos mediadores introduz um elo a mais nas relações organismo/ meio, tornando-as mais complexas. Ao longo do desenvolvimento do indivíduo as relações mediadas passam a predominar sobre as relações diretas. Vygotsky trabalha, então, com a noção de que a relação do ho- mem com o mundo não é uma relação direta, mas, fundamentalmente, uma relação mediada. As funções psicológicas superiores apresentam uma estrutura tal que entre o homem e o mundo real existem media- dores, ferramentas auxiliares da atividade humana” (OLIVEIRA, 1997, p. 26-27). U ni da de 91PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 91PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 91 06/09/2011 14:36:3806/09/2011 14:36:38 liares para solucionar um problema psicológico. Os instrumentos são elementos externos ao homem; os signos são orientados para dentro do próprio sujeito. Signos são “ferramentas que auxiliam nos proces- sos psicológicos e não nas ações concretas, como os instrumentos” (OLIVEIRA, 1997, p. 30). Segundo Marti Sala e Onrubia Goñi (2000c): [...] os signos e os sistemas de signos que servem de mediadores nos processos psicológicos superiores não têm caráter estritamente individual, mas, ao contrário, foram elaborados ao longo da história cultural da espécie humana e, por isso, a sua origem é social – pensemos, por exemplo, na linguagem, possivelmente o instrumento psicológico mediador por excelência dos processos psicológicos superiores [...]. Por isso, o meio social e cultural é que dispõe dos signos e dos sistemas de signos necessários para formar processos psicológicos superiores, pois o desenvolvimento individual consiste, em boa parte, no acesso progressivo a esses signos e sistemas de signos ou, em outras palavras, na aprendizagem progressiva dos signos e sua utilização (MARTI SALA; ONRUBIA GOÑI, 2000c, p. 259). A aprendizagem de signos será efetivada a partir da par- ticipação e interação da criança em atividades com outras pessoas mais experientes do que ela no uso dos sistemas de signos. Estas pessoas mais experientes não precisam ser, necessariamente, pessoas com mais idade. Basta que tenham mais experiência em determinados aspectos. Neste sentido, as práticas educativas ganham destaque nos processos de desenvolvimento da abordagem sócio- histórica de Vygotsky, pois estabelecem profunda relação entre aprendizagem e desenvolvimento. Figura 21. Fonte: http://planicie-heroica. weblog.com.pt/arquivo/146375 A TE N Ç Ã O Relação entre desenvolvimento e aprendizagem “De modo diverso ao que ocorre em outras teorias e modelos psico- lógicos, a relação entre desenvolvimento e aprendizagem adquire um caráter bidirecional, de infl uência e interconexão mútuas: é preciso um certo nível de desenvolvimento para realizar determinadas apren- dizagens, porém, e de maneira mais ou menos necessária, o acesso a níveis mais altos de desenvolvimento requer a realização de aprendi- zagens” (MARTI SALA; ONRUBIA GOÑI, 2000c, p. 260). De acordo com a abordagem sócio-histórica de Vygotsky, ainteração social é, portanto, fundamental para o processo de desen- volvimento das capacidades psicológicas superiores do ser humano. 92 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 92PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 92 06/09/2011 14:36:3806/09/2011 14:36:38 ATENÇÃO Através das relações interpessoais com outros homens, o indivíduo internaliza as formas culturalmente estabelecidas de funcionamento psicológico. A interação social pode se dar diretamente com outros membros da cultura, ou por meio de elementos diversos do ambiente culturalmente estruturado. Vygotsky enfatiza, ao lado do desenvolvimento, os processos de aprendizagem. Para o autor, aprendizagem e desenvolvimento es- tão estreitamente relacionados, sendo a aprendizagem fundamental para que ocorra o desenvolvimento. “É o aprendizado que possibili- ta o despertar dos processos internos de desenvolvimento que, não fosse o contato do indivíduo com certo ambiente cultura, não ocorre- riam” (OLIVEIRA, 1997, p. 56). É como se o aprendizado se desse de forma mais rápida que o desenvolvimento, impulsionando-o. Segundo Oliveira (1997), “o processo pelo qual o indivíduo internaliza a matéria-prima fornecida pela cultura não é, pois, um processo de absorção passiva, mas de transformação, de síntese” (p. 38). Para Vygostky, este é o principal mecanismo a ser compreendido no estudo do ser humano: o processo de INTERNALIZAÇÃO. Ira Ma- ciel (2001) aponta que “a internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o aspecto carac- terístico da psicologia humana e defi ne a constituição do sujeito” (p. 64). Noção de cultura para Vygotsky “A cultura não é pensa- da por Vygotsky como algo pronto, um sistema estático ao qual o indi- víduo se submete, mas como uma espécie de ‘palco de negociações’, em que seus membros estão num constante movimento de recria- ção e reinterpretação de informações, conceitos e signifi cados. A vida social é um processo dinâmico, onde cada sujeito é ativo e onde acontece a interação entre o mundo cultural e o mundo subjetivo de cada um” (OLIVEIRA, 1997, p. 38). A TEN Ç Ã O Processo de internalização A internalização é resultado de uma série de transformações no sujeito, no qual ocorrem os seguintes processos: “a) Uma operação que inicialmente representa uma atividade externa é reconstruída e começa a ocorrer internamente. Essa ocorrência possibilita o desenvolvimento dos processos mentais superiores, as operações com os signos, a emergência da inteligência prática, da atenção voluntária e da memória fundamentais para a interação com o mundo natural e social. b) Um processo interpessoal é transformado num processo intrapes- soal. Acontece a interação primeiro no nível social e depois no nível individual; primeiro, entre pessoas (interpsicológica) e, depois, no interior da criança (intrapsicológica). Esta conquista amplia a aten- ção voluntária, desenvolve a memória lógica e a formação de con- ceitos. Todas as funções superiores originam-se das relações reais entre os indivíduos humanos. c) A transformação de um processo interpessoal num processo intra- pessoal é o resultado de uma série de eventos ocorridos ao longo do desenvolvimento. Estas transformações se desenvolvem por um longo período de tempo, com idas e vindas até consolidar-se o pro- cesso da internalização” (MACIEL, 201, p. 65-66 – grifos no origi- nal). U ni da de 93PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 93PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 93 06/09/2011 14:36:3806/09/2011 14:36:38 ATENÇÃO Em sua Psicologia sócio-histórica, Vygotsky buscou, de dife- rentes maneiras, chamar a atenção para o permanente estado de movimento e mudança dos processos psicológicos. Tal estado de per- manente movimento e mudança fi ca bem caracterizado através do conceito de ZONA DE DESENVOLVIMENTO PROXIMAL. A zona de de- senvolvimento proximal, muitas vezes chamada pela sigla ZDP, é a diferença entre o nível que a pessoa é capaz de fazer alguma coisa com a ajuda dos outros (Nível de desenvolvimento potencial) e o ní- vel de tarefas que consegue fazer sozinha (Nível de desenvolvimento real). Vejamos no Quadro 6 explicações sobre os conceitos: “Qualquer função no desenvolvimento cultu- ral da criança aparece duas vezes, ou em dois planos. Primeiro, ela aparece no plano social e, depois, no plano psi- cológico. Primeiro, apa- rece entre as pessoas como uma categoria in- terpsicológica, e depois dentro da criança como uma categoria intrap- sicológica. [...] Não é necessário dizer que a internalização transfor- ma o próprio processo e muda sua estrutura e funções” (VYGOTSKY, 1994, p. 163). Quadro 6 Zona de desenvolvimento proximal Nível de desenvolvimento potencial Capacidade de desempenhar tarefas com a ajuda de adultos ou de companheiros mais capazes. Há tarefas que uma pessoa não é capaz de realizar sozinha, mas que se torna capaz de realizar se alguém lhe der instruções, fi zer uma demonstração, fornecer pistas ou lhe der assistência durante o processo. No entanto, há outras tarefas que uma pessoa não consegue realizar nem acompanhada, pois ainda não alcançou o desenvolvimento potencial necessário. Vejamos um exemplo: uma criança de cinco anos pode ser capaz de construir a torre de cubos sozinha; uma de três anos não consegue construí-la sozinha, mas pode conseguir com a assistência de alguém; uma criança de um ano não conseguiria realizar essa tarefa, nem mesmo com ajuda. Nível de desenvolvimento real Capacidade de realizar tarefas de forma independente. É o resultado de processos de desenvolvimento já completados. Corresponde às capacidades que a pessoa já adquiriu e se utiliza de maneira individual. Zona de desenvolvimento proximal Refere-se ao caminho que o indivíduo vai percorrer para desenvolver funções que estão em processo de amadurecimento e que se tornarão funções consolidadas, estabelecidas no nível de desenvolvimento real. É a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob orientação de um adulto ou colaboração de companheiros mais capazes. É um domínio psicológico em constante transformação. Fontes Oliveira (1997, p. 59-60); Marti Sala e Onrubia Goñi (2000c, p. 260-261); Maciel (2001, p. 69-70). PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 94PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 94 06/09/2011 14:36:3906/09/2011 14:36:39 A relação entre os níveis de desenvolvimento real e potencial é complexa, dinâmica, dialética e seus processos não estão limitados à infância, mas estendem-se por toda a vida das pessoas. A interação é de fundamental importância nesses processos, pois possibilita que pessoas mais experientes atuem como mediadores no nível de desen- volvimento potencial, possibilitando o alcance do nível de desenvolvi- mento real. Segundo Marti Sala e Onrubia Goñi (2000c): É preciso insistir no caráter dinâmico e complexo da ZDP e dos níveis de desenvolvimento implicados. Por um lado, deve-se entender que as pessoas não possuem um único nível geral de desenvolvimento potencial, mas diferentes níveis – em relação a diferentes âmbitos de desenvolvimento, tarefas e conteúdos. Ao mesmo tempo, a ZDP e o nível de desenvolvimento potencial não são propriedades intrínsecas da criança ou da pessoa em desenvolvimento, nem preexistem à interação com outras pessoas, mas se criam e aparecem no próprio decorrer dessa interação. Portanto, uma determinada pessoa pode mostrar diferentes níveis de desenvolvimento potencial e entrar em diferentes ZDPs, de acordocom quem interatua e como se realiza essa interação (p. 261). O brincar e a imaginação “Defi nir o brinquedo como uma atividade que dá prazer à criança é in- correto por duas razões. Primeiro, muitas atividades dão á criança experiências de prazer muito mais intensas do que o brinquedo, como, por exemplo, chupar chupeta [...]. E, segundo, existem jogos nos quais a própria atividade não é agradável, como, por exemplo, [...] jogos que só dão prazer à criança se ela considera o resultado interessante. [...]. A criança em idade pré-escolar envolve-se num mundo ilusório e ima- ginário onde os desejos não realizáveis poder ser realizados, e esse mundo é o que chamamos de brinquedo. A imaginação é um processo psicológico novo para a criança; representa uma forma especifi camente humana de atividade consciente, não está presente na consciência de crianças muito pequenas e está totalmente ausente em animais. Como todas as funções da consciência, ela surge originalmente da ação. O velho adágio de que o brincar da criança é imaginação em ação deve ser invertido; podemos dizer que a imaginação, nos adolescentes e nas crianças em idade pré-escolar, é o brinquedo sem ação. [...] Não existe brinquedo sem regras. A situação imaginária de qual- quer forma de brinquedo já contém regras de comportamento, embora possa não ser um jogo com regras formais estabelecidas a priori. A criança imagina-se como mãe e a boneca como criança, e, dessa forma, deve obedecer as regras do comportamento maternal. [...] Crianças pequenas podem fazer coincidir a situação de brinquedo e a realidade. [...] O que na vida real passa despercebido pela criança torna-se uma regra de comportamento no brinquedo. [...] A noção de que uma criança pode se comportar em uma situação imaginária sem regras é simplesmente incorreta. Se a criança está representan- do o papel de mãe, então ela obedece as regras de comportamento maternal. O papel que a criança representa e a relação dela com um objeto (se o objeto tem seu signifi cado modifi cado) originar-se-ão sempre das regras. [...] É enorme a infl uência do brinquedo no desenvolvimento de uma criança” (VYGOTSKY, 1994, p. 121-126). SA IBA M A IS U ni da de 95PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 95PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 95 06/09/2011 14:36:3906/09/2011 14:36:39 FILME RECOMENDADO Para ilustrar e enriquecer seus estudos, recomendo o curta de animação O menino que viu o ice- berg, de Paul Driessen. Neste belo curta, temos a oportunidade de experenciar realidade e imagi- nação simultaneamente. A noção de imaginação, apresentada no curta, se aproxima bastante do conceito de Vygotsky, na qual na imaginação também há regras. FICHA TÉCNICA: Título: O menino que viu o iceberg Direção: Paul Driessen; Gênero: Animação; Ano: 2000; Duração: 9 min. Sinopse: Trata-se de um curta de animação belís- simo sobre um menino que viu o Iceberg. O curta conta a história de um menino com uma imagina- ção muito fértil. Devido à sua imaginação, ninguém lhe dá crédito quando ele presencia algo realmen- te sério. O fi lme apresenta, simultaneamente, dois mundos - realidade e fantasia. A técnica utilizada é tinta sobre papel. Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v =4qyUIPQ8yvo> LEITURA RECOMENDADA Quer saber mais sobre o brincar e a brincadeira? Recomendamos a leitura do texto de Vygotsky “O papel do brinquedo no desenvolvimento”. Este texto pode ser encontrado no livro VYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da mente. O desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1994. Figura 22. Fonte: http://lolhehehe.com/wp-content/uploads/2010/07/23451.jpg A Psicologia sócio-histórica de Vygotsky traz grandes contri- buições para as práticas pedagógicas do professor, especialmente no sentido de ressaltar a natureza histórica do desenvolvimento e as constantes mudanças dos fenômenos psicológicos do sujeito. De acordo com Maciel (2001): Adotar uma perspectiva sócio-histórica requer um permanente olhar sobre os movimentos da história social e individual buscando explicações e defi nindo novas mediações para o ambiente de aprendizagem. 96 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 96PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 96 06/09/2011 14:36:3906/09/2011 14:36:39 Assumir esta atitude permite ultrapassar a prática de apenas tecer descrições e/ou ainda se dedicar a conceber rótulos para as situações e/ou os sujeitos em questão (p. 72). Desta forma, ao lidar com os processos de desenvolvimento considerando a internalização, o professor: [...] precisa aceitar porém o fato da inexistência de um esquema universal que represente adequadamente a relação dinâmica entre aspectos internos e externos do desenvolvimento. A constante mudança das condições históricas confi gura fenômenos sempre em movimento e impõe uma atuação ativa a todos os envolvidos na experiência social e educacional. Esta posição encaminha o professor e outros atores institucionais para uma atitude permanente de observador e investigador do processo de desenvolvimento do aluno. Na mesma medida convida-o também a ser um observador de si mesmo na interação educativa (MACIEL, 2001, p. 73 – grifo meu). Nesta compreensão sobre aprendizagem e desenvolvimento, a escola caracteriza-se como local de grande responsabilidade, pois a ela cabe transformar os processos elementares em processos psico- lógicos superiores através da ação mediadora do professor. O conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal propõe que o professor atue como um interlocutor que está em permanente di- álogo com os estudantes, introduzindo novos olhares, novas catego- rias, novas conceituações dos fenômenos observados no mundo físico e social (MACIEL, 2001). A promoção da interação entre os pares no ambiente escolar favorece, portanto, a criação de “zonas de construção” (cf. MACIEL, 2001), que são múltiplas ZDPs presentes no cotidiano escolar e que se iniciam com o trabalho do professor em sala de aula, mas se es- tendem para além deste, abrangendo todos os espaços e tempos do cotidiano escolar. Principais conceitos estudados: • Funções psicológicas superiores • Mediação • Instrumentos e signos • Internalização • Zona de Desenvolvimento Proximal U ni da de 97PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 97PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 97 06/09/2011 14:36:4106/09/2011 14:36:41 3.2 Tema para refl exão: Autoconceito e preconceito no cotidiano escolar Apresentaremos, a seguir, uma pesquisa de Ivone Martins de Oliveira (1993) baseada na Psicologia sócio-histórica de Vygotsky. Como dissemos logo no início dos estudos sobre Vygotsky, trata-se de uma teoria da Psicologia que se encontra em expansão e que vem incorporando temas atuais no âmbito da educação escolar e não- escolar. Ivone Martins de Oliveira é professora da Universidade Federal do Espírito Santo e coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estu- dos de Processos de Aprendizagem, Cognição e Interação Social. Sua pesquisa é intitulada “Autoconceito, preconceito: a criança no contex- to escolar” (OLIVEIRA, 1993). Segundo Oliveira (1993), os estudos sobre identidade dos alu- nos não é um tema frequente entre pesquisadores do meio educa- cional. Ao mesmo tempo, no contexto da sala de aula, o professor se depara, constantemente, com situações que envolvem a formação da identidade de seu aluno. Oliveira (1993) ressalta que, tendo ou não clareza de que é um formador de identidades, o professor cerca-se de uma série de práticas “que imprimem uma orientação ao desenvolvi- mento dessa identidade” (p. 153). Estudos que levem em consideração as noções de autoconcei- to, autoimageme autoestima são fundamentais para a compreensão mais ampla sobre a forma como as crianças se percebem em sua relação com a vida escolar. Vejamos o que signifi ca cada um desses FILME RECOMENDADO O curta-metragem As coisas que moram nas coisas, de Bel Bechara e Sandro Serpa, apresenta a riqueza do brincar para a vida da criança, explorando as possibilidades de ressignifi cação da reali- dade através da brincadeira. FICHA TÉCNICA: Título: As Coisas que Moram nas Coisas Direção: Bel Bechara, Sandro Serpa; Gênero: Ficção; Ano: 2006; Duração: 14 min. Sinopse: Enquanto acompanham sua família formada por catadores de lixo, três crianças atribuem novos signifi cados aos objetos descartados pela cidade, inventando brincadeiras e pontos de vista. Disponível em: http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=4798 Figura 23: Ivone Martins de Oliveira. Fonte: http://www. ce.ufes.br/niepacis/quemso- mos/membros.asp.htm 98 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 98PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 98 06/09/2011 14:36:4106/09/2011 14:36:41 conceitos: Autoconceito: “é a atitude que o indivíduo tem de si mesmo, decorrente da maneira como se percebe” (OLIVEIRA, 1993, p. 154), ou seja, como cada um acha que é. Por exemplo: “Eu me acho capaz”, “Eu me acho bonita”, “Eu me acho feia”, “Eu me acho inteligente”, “Eu me acho desinteressante” etc. Autoimagem: “apresenta-se como um sinônimo de autocon- ceito, mas com uma ênfase no aspecto social de sua forma- ção” (OLIVEIRA, 1993, p. 154). Podemos dizer que autoima- gem é o que achamos que os outros acham sobre nós. Por exemplo: “Eu acho que ninguém gosta de mim”, “Eu acho que os outros me acham chata”, “Eu acho que faço sucesso com a turma da escola”, “Eu acho que todos me acham bo- nita” etc. Autoestima: “é abordada como uma atitude valorativa do in- divíduo com relação a si mesmo” (OLIVEIRA, 1993, p. 154). A partir da relação entre o autoconceito e a autoimagem, formamos nossa autoestima. Se nosso autoconceito é alto e nossa autoimagem também, possivelmente teremos uma boa autoestima. No entanto, se nosso autoconceito e nossa autoimagem forem baixos, possivelmente nossa autoestima também será baixa. Oliveira, no entanto, afi rma que estes três con- ceitos estão muito interligados entre si, e nem sempre é possível separar um do outro quando buscamos com- preender uma criança. Desta forma, na pesquisa reali- zada, os três conceitos serão sintetizados na noção de autoconceito. Ivone Oliveira (1993) explica o objetivo da pesquisa: Com o objetivo de aprofundar a refl exão sobre a identidade do aluno, alguns estudos foram realizados no sentido de se construir escalas para mensuração do nível de autoconceito e auto-estima, verifi car as relações existentes entre autoconceito e outras variáveis, de natureza social e educacional, presentes no contexto escolar, bem como levantar e testar estratégias para mudança do nível de auto-estima em alunos (OLIVEIRA, 1993, p. 154). A metodologia utilizada foi o Estudo de Caso como procedi- mento de investigação em uma sala de aula de 3ª série (atual 4º ano) Figura 24. Extraída de: http://daia- netrisch.blogspot.com/2010/08/ velhice.html U ni da de 99PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 99PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 99 06/09/2011 14:36:4206/09/2011 14:36:42 de uma escola municipal de Campinas, Estado de São Paulo. O referencial teórico utilizado na pesquisa foi baseado nos pressupostos sobre a constituição social do psiquismo humano, de Vygotsky. Optou-se, portanto, pela investigação da construção da identidade do aluno nas interações estabelecidas em sala de aula. Partindo do pressuposto de que essas interações são mediadas/se estabelecem pela linguagem e de que, portanto, o signo – a palavra – interfere na/constitui a identidade, pretendíamos apreender os rumos que esta seguia, através das falas que permeavam essas interações: falas das crianças, para as crianças e sobre as crianças na sala (OLIVEIRA, 1993, p. 155 – grifos no original). A pergunta principal que norteou toda a pesquisa foi: Quais são os processos sociais envolvidos na produção da “valorização negativa” do aluno por parte de si mesmo na elaboração social de sua identidade? Ao longo da pesquisa, durante as denominações e autodeno- minações dos próprios alunos, destacaram-se, em suas falas, ques- tões relacionadas a preconceito e discriminação. Vejamos como estas questões se desenrolaram em relação a uma aluna que recebeu da pesquisadora o nome fi ctício de “Alc”. Alc chamou a atenção da pesquisadora pelo fato de ser mui- to retraída. Raramente falava ou participava das atividades que en- volviam o “falar” em sala de aula. Sua participação oral acontecia apenas quando era solicitada diretamente pela professora. Ao ser questionada pela pesquisadora sobre o porquê de não falar em sala de aula, Alc respondeu: “Eu não! Os outros vão rir de mim”. Oliveira (1993) explica: Sua não participação é mediada, dentre outros aspectos, pelo que imagina que os ‘outros’ possam fazer com relação a ela – ler o seu texto em voz alta pode provocar o riso em alguém. [...] O que há de específi co na situação do riso, nesse caso, que desencadeia o não-participar de Alc? Quem são esses outros que poderiam rir dela? Por que iriam rir? Quem é esse mim do qual os outros poderiam rir? (OLIVEIRA, 1993, p. 158 – grifos no original). Alc era muito discriminada dentro de sala de aula por alguns meninos da turma, que a rejeitavam, recusando-se a sentar perto 100 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 100PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 100 06/09/2011 14:36:4206/09/2011 14:36:42 dela ou a fazer atividades em grupo. “Escuridão”, “noi- te”, “preta”, “feia” eram apelidos que alunos meninos usavam para referir-se à Alc, que tinha traços de negri- tude ressaltados. Ivone Oliveira (1993) faz algumas perguntas para que refl itamos sobre Alc: De que forma essas constatações acerca da discriminação que permeava a vida escolar de Alc, podem contribuir para a compreensão do enunciado: Eu não! Os outros vão rir de mim? [...]. Quem era esse ‘mim’ no jogo de relações estabelecidas nessa situação? Alc/imagem que tinha de si perante os meninos que a discriminavam? Alc/ imagem que fazia da imagem que os meninos faziam dela? Alc/imagem que tinha de sua produção [...] perante os colegas? (p. 159). A partir de uma atividade proposta pela profes- sora na qual solicitava que os alunos escrevessem so- bre si (Como eu sou?), sobre as identifi cações (Quem é parecido comigo? O que é parecido na classe?) e as não-identifi cações (O que é diferente na classe?), per- cebemos, pelas respostas de Alc, uma referência cons- tante à sua negritude. Alc escreve: “Eu sou preta e te- nho o cabelo duro. Os meninos tiram sarro de mim só porque eu sou preta” (OLIVEIRA, 1993, p. 159). Ivone Oliveira explica: Sobre o Bullying Uma das situações que presenciamos na pesquisa de Ivone Martins de Oliveira (1993) é o Bullying. Bullying é um termo atualmente utiliza- do para se referir a agressões físicas ou não, ocorridas em ambientes escolares. Caracterizam-se como bullying atitudes de amplo espectro, tais como: violência física, estragar objetos dos colegas, obri- gar o colega a fazer coisas que ele não quer, insultar, apelidar, “tirar sarro”, fazer comentários racistas, excluir sistematica- mente uma pessoa das atividades, fofo- cas, boatos e intimidações de todo tipo. Quer saber mais sobre Bullying? Reco- mendo a leitura do texto: ANTUNES, Deborah Christina; ZUIN,Antô- nio Álvaro Soares. Do bullying ao precon- ceito: os desafi os da barbárie à educação. Psicologia & Sociedade, v. 20, n.1, p. 33-42, 2008. Disponível em: http:// www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102- 71822008000100004&script=sci_arttext Figura 25. UAB|UESC SAIBA MAIS É interessante observar que se a questão da negritude é constantemente marcada no texto, ela o é socialmente no sentido de apontar para as diferentes formas de relação estabelecidas com e entre os alunos: diferenciações e confl itos, identifi cações e não-identifi cações (OLIVEIRA, 1993, p. 160). Não se trata, portanto, de um problema individual de Alc, e, sim, de algo construído socialmente nas interações estabelecidas em sala de aula. A análise dos textos de autodenominação dos demais alunos da turma demonstra esta questão. E um fato chamou a aten- ção da pesquisadora: Embora houvesse mais alunas com traços de negritude ressaltados, dentre aquelas que realizaram U ni da de 101PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 101PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 101 06/09/2011 14:36:4206/09/2011 14:36:42 FILME RECOMENDADO a atividade, com exceção de Alc, nenhuma outra apontou traços físicos que colocassem em questão a negritude ao dizer sobre si. Havia outras alunas que também tinham cabelo crespo como o de Alc, mas não chamaram a atenção para isso em seus textos (OLIVEIRA, 1993, p. 162-163). Filme recomendado Que tal refl etirmos um pouco mais sobre preconceito e racismo? O curta-metragem O Xadrez das Cores, de Marco Schiavon, traz algumas questões muito interessantes para nossa refl exão. Vamos assistir? FICHA TÉCNICA: Título: O Xadrez das Cores Direção: Marco Schiavon; Gênero: Ficção; Ano: 2004; Duração: 22 min. Sinopse: Cida, uma mulher negra de quarenta anos, vai trabalhar para Maria, uma velha de oitenta anos, viúva e sem fi lhos, que é extremamente racista. A relação entre as duas mulheres começa tumultuada, com Maria tripudiando em cima de Cida por ela ser negra. Cida atura a tudo em silêncio, por precisar do dinheiro, até que decide se vingar através de um jogo de xadrez. Disponível em: http://www.portacurtas.com.br/pop_160. asp?Cod=2932&exib=5937 A pesquisa de Ivone Oliveira se estende, ampliando e aprofun- dando o leque de análises sobre o autoconceito de Alc. Para não nos estendermos muito nos detalhes da pesquisa, apresentarei alguns re- sultados e considerações realizadas à luz da Psicologia sócio-histórica de Vygotsky. Através das análises realizadas a partir das relações estabe- lecidas em sala de aula, buscou compreender os processos sociais envolvidos na autodesvalorização dos alunos e na construção de um autoconceito negativo. Tomando como foco de análise uma fala de Alc – “Eu não! Os outros vão rir de mim” –, pudemos perceber uma multiplicidade de aspectos que intervém na construção da identidade de Alc, especialmente as referências negativas à sua negritude. Vimos que ser ‘preto’, para muitos alunos, era mais que ter sinais diacríticos étnico-raciais referentes ao negro. Ser ‘preto’ implicava o preconceito e a discriminação. Implicava ser tratado de forma diferenciada. Implicava a rejeição e a marginalização (OLIVEIRA, 1993, p. 174). 102 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 102PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 102 06/09/2011 14:36:4306/09/2011 14:36:43 Outro aspecto vale ser ressaltado nos processos de discrimi- nação presentes na classe de Alc, e na forma como nós, educadores, devemos lidar com essas questões em nossas salas de aula: Deparamo-nos, nesse percurso, com a situação socioeconômica dos alunos e com a identidade de gênero interferindo fortemente na defi nição de quem era e/ou deveria ser considerado ‘preto’. Uma aluna com traços de negritude, mas com uma posição socioeconômica privilegiada no bairro e entre os colegas, não era designada como ‘preta’, e não se autodesignava como tal. Um aluno, igualmente com traços de negritude, e se autodenominando ‘mulato’, não era tratado como ‘preto’ [...]. Já outras duas alunas, meninas, pobres, com traços de negritude ressaltados, eram denominadas ‘pretas’ e altamente discriminadas – uma delas se autodenominava ‘preta’ e a outra, ‘morena’. Estes fatos nos mostram que para compreender os sentidos que envolvem o ser ‘preto’ nessa sala, não basta nos determos nos atributos físicos em si, mas, sim, no signifi cado que tem para esses alunos possuir tal ou tal atributo físico (referente ao negro) quando a criança em questão é ‘pobre’ e mulher (OLIVEIRA, 1993, p. 174 – grifos meus). As últimas considerações de Ivone Martins de Oliveira (1993) são importantíssimas: não podemos dizer, a partir do nosso ponto de vista, o signifi cado de algo ou de alguma situação vivenciada em sala de aula. Se quisermos de fato “compreender os sentidos” de determi- nada situação para nossos alunos, precisamos investigar qual “signifi - cado tem para esses alunos” a situação específi ca que eles vivenciam. A partir da perspectiva da Psicologia sócio-histórica de Vygotsky, é preciso, portanto, considerar: a inter-relação entre os diversos enunciados existentes; os enlaces possíveis entre os enunciados; o vínculo de tais enunciados com o contexto sócio-histórico mais amplo. Um pressuposto básico da Psicologia sócio-histórica é que o desenvolvimento humano e a construção da identidade não se dão de forma individualista e fechada no sujeito. Quando afi rmamos que para Vygotsky o desenvolvimento se dá “de fora para dentro” (pro- cesso de internalização), queremos dizer que, na constituição dos sujeitos (e das subjetividades), há toda uma força social, histórica, ideológica e cultural agindo. As relações sociais de poder entram em U ni da de 103PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 103PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 103 06/09/2011 14:36:4306/09/2011 14:36:43 A TE N Ç Ã O jogo como elemento de análise sobre a consti- tuição dos sujeitos e, consequentemente, dos sentidos que cada sujeito vai atribuir às suas experiências e à sua própria vida. Para fi nalizar, convido todas e todos a prestarem muita atenção às palavras de Ivone Martins de Oliveira, e que estas palavras nos ajudem a refl etir sobre nossas práticas pedagó- gicas: “Tendo em conta limitações de uma perspectiva individualista para investigar a identidade, podemos trazer para a discussão a inter- pretação que normalmente se tem feito sobre os ‘problemas’ relati- vos ao autoconceito e às estratégias propostas para encaminhá-los. Freqüentemente sendo entendidos como ‘desajustes psicológicos’, a estes ‘problemas’ são propostas soluções individualistas, as quais não colocam em questão a origem social e histórica desses mesmos ‘problemas’. Se contradições, confl itos e tensões envolvem as enun- ciações das crianças a respeito de si próprias, essas mesmas contra- dições, confl itos e tensões circulam pela sala de aula e vão além dos muros da escola. Desta forma, para encaminhar ‘problemas’ que são de ordem social e histórica, é necessário, antes de mais nada, que se pense esses ‘problemas’, também, como sociais e históricos e não ‘psicológicos’” (OLIVEIRA, 1993, p. 175). 4 PIAGET E VYGOTSKY: DIFERENÇAS Após realizarmos estudos sobre os principais conceitos da Psi- cologia genética de Piaget e da Psicologia sócio-histórica de Vygotsky, é fundamental marcarmos as diferenças entre as duas perspectivas. As teorias de Piaget e Vygotsky, em um primeiro contato, po- dem parecer muito semelhantes e, até, complementares. No entanto, não é correto pensar assim! José Antônio Castorina (2002) ressalta este fato: Para boa parte dos psicólogos do desenvolvimento, psicólogos educacionaise mesmo pedagogos do mundo europeu e também latino-americano, as teorias de Piaget e Vygotsky são duas versões opostas sobre o desenvolvimento intelectual e os processos de aprendizagem (CASTORINA, 2001, p. 11). Figura 26. Fonte: Publicidade Benetton (http://www.benetton.com) 104 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 104PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 104 06/09/2011 14:36:4306/09/2011 14:36:43 Vejamos, no Quadro 7, as principais divergências entre as duas proposições teóricas. Quadro 7 – Divergências teóricas entre Piaget e Vygotsky Vygotsky Piaget Apresenta um estruturalismo fraco, no sentido de que defendeu um estudo inter-relacionado e não reducionista das funções e processos psicológicos. Insistiu na constituição de sistemas estruturais como a chave do desenvolvimento da inteligência. A interação social e o instrumento lingüístico são decisivos para compreender o desenvolvimento cognitivo. O desenvolvimento cognitivo é interpretado a partir da experiência com o meio físico, deixando aqueles fatores em um lugar subordinado. A aprendizagem interage com o desenvolvimento, produzindo sua abertura nas zonas de desenvolvimento proximal, nas quais as interações sociais e o contexto sociocultural são centrais. O processo de desenvolvimento intelectual explicado pelo mecanismo de equilibração das ações sobre o mundo, precede e coloca limites aos aprendizados, sem que estes possam infl uir sobre aquele. Postula uma trajetória de desenvolvimento “de fora para dentro” do indivíduo. Postula uma trajetória de desenvolvimento “de dentro para fora” do indivíduo. Processo contextualizado de apropriação da cultura e formação do pensamento Seqüência universal de formas de pensamento Linguagem do grupo cultural dirigindo a formação dos conceitos Reestruturação lógico-matemática que utiliza a linguagem unicamente como signifi cante Constituição dos conhecimentos explicada pela ‘internalização’ da cultura Explicação sobre aquisição do conhecimento a partir da equilibração dos sistemas de conhecimento O sujeito é social O sujeito é universal e individual O aprendizado orienta o desenvolvimento O desenvolvimento dirige as aprendizagens Sobre a “fala egocêntrica” na criança: é o discurso da criança quando dialoga alto consigo própria. A criança primeiramente utiliza a fala socializada, com a função de comunicar. Com o desenvolvimento é que ela passa a ser capaz de utilizar a linguagem como instrumento de pensamento, com a função de adaptação pessoal. Isto é, a internalização do discurso é um processo gradual. A “fala egocêntrica’ é um fenômeno relevante para o momento de transição entre o discurso socializado e o discurso interior. Sobre a “fala egocêntrica” na criança: para Piaget, a função da fala egocêntrica é exatamente oposta àquela proposta por Vygotsky. Ela seria uma transição entre estados mentais individuais não verbais, de um lado, e o discurso socializado e o pensamento lógico, de outro. Não existe brincadeira sem regras. A situação imaginária de qualquer forma de brinquedo já contém regras de comportamento, embora possa não ser um jogo com regras formais estabelecidas a priori. Em um momento inicial o jogo está basicamente livre de regras, orientado para uma satisfação momentânea da criança, transformando-se, em um momento posterior, em razão da socialização da criança e da incorporação de uma regência de leis gerais. A teoria de Vygotsky, em linhas gerais, aparece como uma teoria histórico-social do desenvolvimento que, pela primeira vez, propõe uma visão da formação das funções psíquicas superiores como ‘internalização’ mediada pela cultura e, portanto, postula um sujeito social que não é apenas ativo, mas, sobretudo interativo. Em linhas gerais, a teoria piagetiana é apresentada como uma versão do desenvolvimento cognitivo nos termos de um processo de construção de estruturas lógicas, explicada por mecanismos endógenos, e para a qual a intervenção social externa só pode ser ‘facilitadora’ ou ‘obstaculizadora’. Em poucas palavras, uma teoria universalista e individualista do desenvolvimento, capaz de oferecer um sujeito ativo, porém abstrato, e que faz da aprendizagem um derivado do próprio desenvolvimento. Fonte: Castorina (2002, p. 11-13); Oliveira (1997, p. 53); Silva (2002, p. 58); Vygotsky (1994, p. 123). U ni da de 105PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 105PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 105 06/09/2011 14:36:4406/09/2011 14:36:44 Esta breve comparação entre as teorias de Piaget e Vygotsky esclarece os principais pontos de divergência entre os dois teóricos. O resultado dessa comparação coloca professores e pedagogos diante da disjuntiva de optar entre suas teorias do desenvolvimento intelectual e da aprendizagem, bem como diante de duas maneiras de conceber a prática educacional (CASTORINA, 2002, p. 13). Como estudamos na primeira unidade, cada teoria possui uma visão de homem e uma compreensão sobre como o homem se re- laciona com o mundo. Ter clareza sobre estes aspectos nos ajuda a fazer escolhas sobre qual abordagem teórica queremos para embasar nossa prática pedagógica. LEITURA RECOMENDADA Quer saber mais sobre o debate entre as teorias de Piaget e de Vygotsky? Recomendo a leitura do livro: CASTORINA, José Antônio; FERREIRO, Emília; LERNER, Délia; OLIVEIRA, Marta Kohl de (Orgs.). Piaget-Vygotsky. Novas contribuições para o debate. São Paulo: Ática, 2002. O livro é composto por vários artigos, de autores diferentes, que trazem contribuições muito im- portantes para este debate que não se encerra no quadro apresentado neste material de estudo de Psicologia e Educação II. 106 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 106PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 106 06/09/2011 14:36:4406/09/2011 14:36:44 1. Qual a importância da interação para a Psicologia genética de Piaget? 2. A partir da Psicologia genética de Piaget, explique, com suas palavras, como acontece o processo de equilibração majorante. 3. Com base na Psicologia sócio-histórica de Vygotsky, explique o papel da mediação no desenvolvimento humano. 4. Explique, com suas palavras, o conceito de Zona de Desenvolvimento Pro- ximal, e dê um exemplo para ilustrar sua explicação. 5. Leia com atenção o Quadro 7 “Divergências teóricas entre Piaget e Vygotsky”. Escolha três aspectos que diferenciam as teorias dos dois autores, e explique-as com suas palavras. Vimos, nesta unidade, duas perspectivas teóricas bastante distintas sobre desenvolvimento e aprendizagem: a Psicologia gené- tica de Piaget e a Psicologia sócio-histórica de Vygotsky. Através do estudo dos principais conceitos das respectivas te- orias foi possível ampliar os nossos conhecimentos e explorarmos duas pesquisas de fundamental importância para a prática pedagó- gica: o estudo de Constance Kamii sobre a importância da interação social para o desenvolvimento do conhecimento lógico-matemático da criança, e a pesquisa de Ivone Martins de Oliveira sobre autocon- ceito e preconceito no cotidiano escolar. As duas pesquisas ilustram bem alguns conceitos das teorias abordadas nesta unidade e ampliam nossos temas de debate sobre desenvolvimento e aprendizagem. Para fi nalizar, foram estudados brevemente alguns pontos de divergência entre as duas perspectivas teóricas, remetendo às ques- tões estudadas na primeira unidade deste material de estudo de Psi- cologia e Educação II: cada teoria possui uma concepção de homem, um modo de compreender a relação do homem com o mundo e traz implicações para nossa prática pedagógica. ATIVIDADES RESUMINDO U ni dade 107PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 107PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 107 06/09/2011 14:36:4406/09/2011 14:36:44 ANTUNES, Deborah Christina; ZUIN, Antônio Álvaro Soares. Do bullying ao preconceito: os desafi os da barbárie à educação. Psicologia & So- ciedade, v. 20, n.1, p. 33-42, 2008. Disponível em: http://www.scielo. br/scielo.php?pid=S0102-1822008000100004&script=sci_arttext BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. A Psicologia do desenvolvimento. 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REFERÊNCIAS 108 Módulo 3 I Volume 4 EAD Abordagens interacionistas em Psicologia e EducaçãoPsicologia e Educação II PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 108PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 108 06/09/2011 14:36:4506/09/2011 14:36:45 MARTINS, João Batista. Vygotsky e a educação. Belo Horizonte: Au- têntica, 2005. OLIVEIRA, Ivone Martins de. Autoconceito, preconceito: a criança no contexto escolar. In: GÓES, Maria Cecília Rafael de & SMOLKA, Ana Luiza Bustamante (Orgs.). A linguagem e o outro no espaço escolar. São Paulo: Papirus, 1993. p. 153-175. OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky. Aprendizado e desenvolvimento. Um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1997. PIAGET, Jean. A equilibração das estruturas cognitivas. Problema central do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. PIAGET, Jean. Seis estudos de Psicologia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987. REY, Fernando Luis González. 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Disponível em: http:// www.portacurtas.com.br /pop_160.asp?Cod=2932&exib=5937 U ni da de 109PedagogiaUESC 3 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 109PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 109 06/09/2011 14:36:4506/09/2011 14:36:45 Suas anotações _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ _______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ PEDAGOGIA- MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 110PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 110 06/09/2011 14:36:4506/09/2011 14:36:45 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 111PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 111 06/09/2011 14:36:4506/09/2011 14:36:45 PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 112PEDAGOGIA - MOD 3 - VOL 4 - PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO 2.indd 112 06/09/2011 14:36:4506/09/2011 14:36:45