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PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO C U M P L I C I D A D E I D E O L Ó G I C A A N A M E R C Ê S B O C K I N : P S I C O L O G I A E S C O L A R : T E O R I A S C R Í T I C A S . S Ã O P A U L O : C A S A D O P S I C Ó L O G O , 2 0 0 3 . P P 7 9 - 1 0 3 F O N T E : H T T P S : / / D I V E R S A . O R G . B R / R E L A T O S - D E - E X P E R I E N C I A S / A L T E R I D A D E - N O - C E N T R O - D A - Q U A D R A / Como a Psicologia entra na seara da Educação? Ana M. Bock Graduação Psicologia - 1975 Mestrado Psicologia Social - 1991 Doutorado Psicologia Social - 1997 O que significa cumplicidade ideológica? “(...) Ou seja, as perguntas revelam a concepção psicológica a elas subjacente. Das cinco clínicas-escola pesquisadas, três delas têm um roteiro de entrevista muito semelhante. Analisando as perguntas efetuadas aos clientes, constatou-se que a maioria das entrevistas utiliza roteiros centrados na história de vida da criança (parto, nascimento, doenças, processo de desenvolvimento, acontecimentos traumáticos tais como separação dos pais, hospitalização, quedas, por exemplo), em antecedentes de problemas mentais na família, bem como em aspectos referentes à situação sócio-econômica familiar”. I N : S O U Z A , M A R I L E N E . P R O N T U Á R I O S R E V E L A N D O O S B A S T I D O R E S D O A T E N D I M E N T O P S I C O L Ó G I C O À Q U E I X A E S C O L A R . E S T I L O S C L I N . V . 1 0 N . 1 8 S Ã O P A U L O J U N . 2 0 0 5 Como pensamos o fracasso escolar? “(...) entrevista de triagem: (...) ‘andou aos dois anos, teve convulsão febril aos oito meses, a gravidez foi indesejada, viveu vários momentos de hospitalização em função de problemas de saúde’.” “(...) utilização de ‘jargões escolares’: (...) ‘não sabe nada’, ‘tem problema de aprendizagem’; ‘é disperso’ e de estereótipos sobre o cliente, ‘está bem cuidada, limpa, roupa adequada, cabelos penteados’, ‘o pai é negro, a mãe é branca e Mariana é bem mestiça’.” I N : S O U Z A , M A R I L E N E . P R O N T U Á R I O S R E V E L A N D O O S B A S T I D O R E S D O A T E N D I M E N T O P S I C O L Ó G I C O À Q U E I X A E S C O L A R . E S T I L O S C L I N . V . 1 0 N . 1 8 S Ã O P A U L O J U N . 2 0 0 5 Lendo prontuários psicológicos “Os relatórios finais de atendimento dos casos de queixa escolar chegam basicamente ao mesmo diagnóstico: as crianças necessitam de atendimento em ludoterapia e os pais, atendimento psicoterápico, seja ele familiar ou individual. Mais uma vez as diferenças presentes no início do atendimento dos casos encaminhados por queixa escolar se transformam, no final do processo de atendimento, em semelhanças”. I N : S O U Z A , M A R I L E N E . P R O N T U Á R I O S R E V E L A N D O O S B A S T I D O R E S D O A T E N D I M E N T O P S I C O L Ó G I C O À Q U E I X A E S C O L A R . E S T I L O S C L I N . V . 1 0 N . 1 8 S Ã O P A U L O J U N . 2 0 0 5 Encaminhamentos de casos de queixa escolar “Ao se perguntar a uma criança: (...) ‘Onde o sol se põe?’o teste de inteligência solicita (...) o conceito geográfico de pontos cardeais. Atrelados a esses conhecimentos, há dados de pesquisa que mostram o quanto tais crianças, na escola, vivem situações diárias de perda de auto-estima, o que se reflete numa situação de avaliação psicológica” I N : S O U Z A , M A R I L E N E . P R O N T U Á R I O S R E V E L A N D O O S B A S T I D O R E S D O A T E N D I M E N T O P S I C O L Ó G I C O À Q U E I X A E S C O L A R . E S T I L O S C L I N . V . 1 0 N . 1 8 S Ã O P A U L O J U N . 2 0 0 5 Instrumentos de avaliação psicodiagnóstica No processo de diagnóstico realizado por aluna de quinto ano do curso de Psicologia, sob supervisão, em uma das clínicas-escola pesquisada, foi aplicada a Escala Wechsler de Inteligência: Jonas (8a) apresentou um rendimento muito baixo em todos os sub-testes, ficando sempre na média esperada para uma criança de 5 anos. Mas a longa convivência da aluna com essa criança, durante as sessões lúdicas, não confirmou essa defasagem apontada pelo instrumento de medida de inteligência, (...) depois de alguns meses de contato com a criança: Vemos a necessidade de uma melhor investigação nesse caso, pois supomos que Jonas seja pseudo-deficiente mental. Rogério (7a), que, segundo relata sua mãe: “... ‘foi à escola mas a professora não o queria, tentaram por uma semana e foi retirado. Durante essa semana que permaneceu na escola andava por baixo das cadeiras. A professora escrevia na lousa e ele logo apagava, todos os alunos prestavam atenção nele, menos na aula, por isso foi convidado a se retirar’. Com apenas uma semana de aula, esse aluno é considerado como uma criança impossível de ser controlada. Nenhuma das perguntas que vêm em seguida na entrevista de triagem esclarecem o que se passou na escola, ou levanta hipóteses a respeito da impossibilidade de permanência dessa criança em sala de aula. Antes de entender mais detalhadamente o que se passou na relação escolar, ou ainda perguntar à mãe se essa atitude também ocorre em casa e em que condições, essa criança foi encaminhada para o neurologista. I N : S O U Z A , M A R I L E N E . P R O N T U Á R I O S R E V E L A N D O O S B A S T I D O R E S D O A T E N D I M E N T O P S I C O L Ó G I C O À Q U E I X A E S C O L A R . E S T I L O S C L I N . V . 1 0 N . 1 8 S Ã O P A U L O J U N . 2 0 0 5 Instrumentos de avaliação psicodiagnóstica “No caso do processo de escolarização, essa interpretação desconsidera pelo menos dois fatos. O primeiro é o de que a relação professor-aluno constrói-se no dia-a-dia da sala de aula e que pode mobilizar sentimentos e criar novas possibilidades de representação da criança sobre si mesma e sobre a escola.” “(...) desconsidera a escola historicamente construída, cuja complexidade transcende a relação professor-aluno. Embora a escola tenha como um de seus principais objetivos ser um espaço de socialização do saber, a sua inserção se dá numa determinada sociedade, com uma organização política, social e econômica específica, sendo, no caso brasileiro, fortemente marcada por preconceitos sociais, principalmente em relação às famílias mais pobres.” O fazer pedagógico é área de saber e produção profissional da pedagogia/educação. A Educação é um fenômeno social e intencional. I N : S O U Z A , M A R I L E N E . P R O N T U Á R I O S R E V E L A N D O O S B A S T I D O R E S D O A T E N D I M E N T O P S I C O L Ó G I C O À Q U E I X A E S C O L A R . E S T I L O S C L I N . V . 1 0 N . 1 8 S Ã O P A U L O J U N . 2 0 0 5 Instrumentos de avaliação psicodiagnóstica “Não se quer afirmar, no entanto, que não existam problemas emocionais graves. Mas sim que estes não recaem sobre a maciça maioria de crianças das nossas escolas (públicas e privadas) e que mesmo que tais problemas aconteçam, as experiências recentes mostram a importância do espaço pedagógico como um elemento estruturante do psiquismo e promotor de relações mais saudáveis.” E “(...) mesmo que se constatasse por meio de um psicodiagnóstico que as questões emocionais de origem familiar estivessem interferindo profundamente na relação dessa criança com o conhecimento, impedindo-a de aprender, é fundamental pensar que ações pedagógicas podem ser inseridas nesse contexto.” I N : S O U Z A , M A R I L E N E . P R O N T U Á R I O S R E V E L A N D O O S B A S T I D O R E S D O A T E N D I M E N T O P S I C O L Ó G I C O À Q U E I X A E S C O L A R . E S T I L O S C L I N . V . 1 0 N . 1 8 S Ã O P A U L O J U N . 2 0 0 5 Instrumentos de avaliação psicodiagnóstica O que vimos fazendo como psicólogas/os atendendo a queixas escolares? Cumplicidade ideológica entre Psicologia e Educação Cumplicidade ideológica entre Psicologia e Educação O que é este texto? Discute a relação entre Psicologia e Educação, criticando como o saber psicológico naturaliza desigualdades. Objetivos principais: Analisara necessidade da Psicologia na Educação; Compreender respostas às demandas; Refletir sobre a cumplicidade ideológica. B O C K , A N A . I N : P S I C O L O G I A E S C O L A R : T E O R I A S C R Í T I C A S . S Ã O P A U L O : C A S A D O P S I C Ó L O G O , 2 0 0 3 . P P 7 9 - 1 0 3 Cumplicidade ideológica entre Psicologia e Educação Escola Tradicional: Educação como controle moral e disciplinar da 'natureza corrompida'. Vigilantes - bedéis. Escola Nova: Criança: valorização da espontaneidade, criatividade e afetividade. Teorias do desenvolvimento humano. Vigilantes - psicólogas/os. B O C K , A N A . I N : P S I C O L O G I A E S C O L A R : T E O R I A S C R Í T I C A S . S Ã O P A U L O : C A S A D O P S I C Ó L O G O , 2 0 0 3 . P P 7 9 - 1 0 3 Cumplicidade ideológica entre Psicologia e Educação Psicologia e Educação se unem para ocultar dimensões sociais da educação. Educação tratada como desenvolvimento de capacidades individuais, ignorando fatores sociais. “A Psicologia fortaleceu noções naturalizantes da Pedagogia e contribuiu para ocultar a educação como processo social” (p. 83). B O C K , A N A . I N : P S I C O L O G I A E S C O L A R : T E O R I A S C R Í T I C A S . S Ã O P A U L O : C A S A D O P S I C Ó L O G O , 2 0 0 3 . P P 7 9 - 1 0 3 Cumplicidade ideológica entre Psicologia e Educação “(...) a Pedagogia e a Psicologia que a acompanha no trabalho educativo insistem em pensar a educação como um processo natural de desenvolvimento de potencialidades existentes no sujeito. E, quando alguém resiste em apresentar essas características, lá estão estes saberes com suas leituras patologizantes para atribuir responsabilidade exclusiva ao educando e sua família” (p. 85) B O C K , A N A . I N : P S I C O L O G I A E S C O L A R : T E O R I A S C R Í T I C A S . S Ã O P A U L O : C A S A D O P S I C Ó L O G O , 2 0 0 3 . P P 7 9 - 1 0 3 Cumplicidade ideológica entre Psicologia e Educação Consequências desta cumplicidade ideológica: Fracasso atribuído ao aluno individualmente. Silenciamento das desigualdades estruturais (pobreza, políticas educacionais, currículo). Reforço da meritocracia e da ideologia de igualdade mascarada. B O C K , A N A . I N : P S I C O L O G I A E S C O L A R : T E O R I A S C R Í T I C A S . S Ã O P A U L O : C A S A D O P S I C Ó L O G O , 2 0 0 3 . P P 7 9 - 1 0 3 Cumplicidade ideológica entre Psicologia e Educação Alternativas: Romper a cumplicidade e reconhecer contextos sociais da escola. “A Psicologia deveria ser capaz de denunciar as péssimas condições de vida como geradoras de desigualdade que leva alunos desiguais à escola, escola esta que incrementa esta desigualdade e oferece uma ideologia que consegue fazer o aluno e sua família acreditarem que ele é o responsável pela sua situação de fracasso”(p. 97) B O C K , A N A . I N : P S I C O L O G I A E S C O L A R : T E O R I A S C R Í T I C A S . S Ã O P A U L O : C A S A D O P S I C Ó L O G O , 2 0 0 3 . P P 7 9 - 1 0 3 Cumplicidade ideológica entre Psicologia e Educação Alternativas: Romper a cumplicidade e reconhecer contextos sociais da escola. “A Psicologia deve se dedicar ao estudo dos resultados subjetivos da experiência escolar. (...) a Psicologia deve superar a visão naturalizante, que possui, de homem e de desenvolvimento” (p. 98-99) B O C K , A N A . I N : P S I C O L O G I A E S C O L A R : T E O R I A S C R Í T I C A S . S Ã O P A U L O : C A S A D O P S I C Ó L O G O , 2 0 0 3 . P P 7 9 - 1 0 3 Cumplicidade ideológica entre Psicologia e Educação “(...) é preciso entender com clareza a dimensão política da educação, para escapar de pensá-la como algo neutro e imparcial”(p. 102) B O C K , A N A . I N : P S I C O L O G I A E S C O L A R : T E O R I A S C R Í T I C A S . S Ã O P A U L O : C A S A D O P S I C Ó L O G O , 2 0 0 3 . P P 7 9 - 1 0 3 “A educação tem sentido porque mulheres e homens aprenderam que é aprendendo que se fazem e se refazem, porque mulheres e homens se puderam assumir como seres capazes de saber, de saber que sabem, de saber que não sabem. De saber melhor o que já sabem, de saber que não sabem. A educação tem sentido porque, para serem, mulheres e homens precisam de estar sendo.” F R E I R E , P . I N : P E D A G O G I A D A I N D I G N A Ç Ã O : C A R T A S P E D A G Ó G I C A S E O U T R O S E S C R I T O S . 1 . E D . S Ã O P A U L O : E D I T O R A U N E S P , 2 0 0 0 . Outras referências BARROS, Maria Isabel (org). Desemparedamento da infância: a escola como lugar de encontro com a natureza. Rio de Janeiro, julho de 2018. 2ª edição. Disponível em: https://criancaenatureza.org.br/wp- content/uploads/2018/08/Desemparedamento_infancia.pdf. Acessado em 05.08.25 MACHADO, Adriana Marcondes. Reinventando a avaliação psicológica. São Paulo, 1996 (tese de doutorado). Instituto de Psicologoa da Universidade de São Paulo. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-26112013- 110134/publico/adrianamarcondesdoutorado.pdf. Acessado em 05.08.25