Prévia do material em texto
PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO: CUMPLICIDADE IDEOLÓGICA Ana Mercês Bahia Bock Psicologia e Educação são duas áreas de conhecimento que têm mantido uma relação de colaboração tão estreita que, hoje, temos a psicologia educacional como uma produção decorrente deste en- contro. Mas nem sempre foi assim... Enquanto a concepção dominante, na educação ocidental, foi a chamada Escola Tradicional, não houve necessidade de uma Psico- logia para acompanhar a prática educativa. A Psicologia só se tor- nou necessária quando o Movimento da Escola Novairevolucionou a educação e construiu demandas específicas para a Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem. Analisar por que a Psicologia se tornou necessária para a edu- cação e como a Psicologia respondeu às demandas que lhe foram feitas, abordando criticamente esta relação que se estabeleceu entre Psicologia e Educação é o objetivo deste capítulo. Nossa posição tem sido de apresentar a cumplicidade ideológica que se estabeleceu entre Psicologia e Educação e que tem caracterizado a prática educativa atual. Nosso intento não é contribuir para desfazer a rela- ção entre estas duas áreas, até porque seria impossível, mas contri- buir para que esta relação possa se dar em outros termos e possa- mos superar conjuritamente, Psicologia e Educação, as visões nauiraiizantes que temos desenvolvido. ANA MERCÊS BAHIA BOCK A ESCOLA TRADICIONAL NÃO PRECISOU DA PSICOLOGIA A Escola Tradicional reúne experiências e concepções pedagó- gicas que caracterizaram e orientaram a educação desde o século XVIII até o início do século XX. São processos educativos que tive- ram lugar, principalmente,_ern_e_scplas religiosas. A concepção tradicional pensou a educação corno um trabalho de^esenraizamentoj^ojnal jmtural que caracterizava o ser humano. O homem nascia dotado de uma natureza humana dupla: uma parte era corrompida (pecado original) e outra era a considerada essencial, potencialmente boa e construtiva. À educação cabia desenvolver a parte essencial da natureza humana, impedindo que a parte corrom- pida prosseguisse se manifestando nas pessoas. Para isto, utilizou o instrumento básico do saber. O conhecimento era visto como o único instrumento capaz de dar ao homem o autocontrole necessário para que a parte má da natureza humana fosse controlada. Para a Pedagogia da Escola Tradicional, o aluno aparecia ao professor como alguém naturalmente corrompido. Suas ações na escola demonstravam isto: inquietos, ora curiosos, ora desinteressa- dos; ora afetuosos, ora agressivos; ora criativos, ora destrutivos; indisciplinados, se deixados sozinhos, sem regras e sem vigilância. Perversos, com hábitos indesejáveis, como se apropriar das coisas dos outros indevidamente, masturbar-se, não respeitarem os mais velhos e autoridades, não cumprir com as tarefas e responsabilida- des. Estes alunos deveriam ser expostos a um modelo aperfeiçoado do humano para poderem desenvolver a natureza humana essencial. Este modelo estava dado pelos professores e alguém escolhido para dar nome à escola e que deveria ser cultuado e seus feitos deveriam ser divulgados sempre aos alunos para que pudessem conhecer o modelo a seguir. Por isto as escolas tradicionais, na sua grande maioria, têm nome de alguém (em geral um homem) considerado aprimorado pela cultura. A escola tradicional estava também fincada sobre um outro prin- cípio: disciplina e regras firmes paru que os alunos pudessem ir cor- PSIUX-IXJIA DA ElXJCAÇÀO: CUMPUODADB iDBOLÓUICA 81 seus i l r> \s 1'riiK-ipios c códigos morais oram construídos, divulgados e repetidos à exaustão. Deveriam ser aprendidos a qual- quer custo. Para garantir esta meta, vigilantes disciplinares faziam parte dos agentes educacionais na escola. Disciplina, regras, vigilância e muito conteúdo escolar caracte- rizavam a escola tradicional. Um aluno dotado de uma natureza humana corrompida com a possibilidade de, sendo bem educado, desenvolver um lado bom desta natureza. Para que Psicologia? Não havia necessidade alguma de qual- quer conhecimento sobre os seres humanos, pois já se conhecia sua natureza corrompida e já se sabia de seu potencial para criar, cooperar, ser honesto, desenvolver relações estáveis, respeitar a autoridade, ser intelectualmente aprimorado e ser dotado de coe- rência, tudo que a educação deveria promover por meio da discipli- na e do conhecimento. A REVOLUÇÃO DA ESCOLA NOVA O século XX trouxe muitas transformações no mundo. As Gran- des Guerras trouxeram uma valorização da infância, tomada como o futuro. A escola também respondeu a estas novas ideias com a proposta da Pedagogia da Escola Nova, que pôs no avesso as idei- as da escola tradicional. A criança, agora, era vista como natural- mente boa. Sua natureza humana mantinha-se dupla: uma parte boa, manifesta desde o nascimento e uma outra corruptível. Â es- cola cabia, agora, manter na criança a bondade e a espontaneidade que a caracterizavam. Escola passou a ser espaço de liberdade e de comunicação. Lugar onde a criança poderia manifestar sua afetividade, expressa como carinho ou agressividade; sua criatividade, expressa como cons- trução ou destruição; sua liberdade, expressa como obediência ou rebeldia. Todas as manifestações infantis foram tomadas, em seu natural, como boas e desejáveis. Mas a escola se manteve vigilante; ANA MERCÊS BAHIA BOCK não no que diz respeito à disciplina, mas ao que diz respeito ao de- senvolvimento psicológico da criança. Vigilantes disciplinares (bedéis) foram trocados por vigilantes do desenvolvimento (psicólogos e pedagogos). Nada de regras. Regras somente aquelas construídas pelo grupo da escola. Nenhuma preocupação com a disciplina, pois na "ba- gunça" se via interesse pelo saber, pela construção coletiva, pela troca. A comunicação entre as crianças era prioridade. O professor foi colocado em lugar modesto e sem forte influência, afinal era um representante do mundo adulto, visto sempre como um mundo cor- rompido. O professor passou a ter função de organizador das condi- ções de aprendizagem, devendo prover materiais e situações para o aprendizado. As técnicas pedagógicas se tornaram ativas. Alunos em atividade permanente, vivendo a satisfação do aprendizado e da descoberta. I As escolas já não cultuavam grandes homens e, portanto, muda- ram seus nomes, aproveitando ideias ou símbolos de grupalização, tro- ca, descoberta, jogos ou termos que fizessem referência à infância. A cultura, como saber, continuou a ser instrumento básico de trabalho, mas agora era importante estimular perguntas e não mais fornecer respostas que não correspondiam a nenhuma delas, como na escola tradicional. Curiosidade, inleicsso, mot i vaçào, experiência eram palavras importantes do vocabulário escolanovista. E por que a Escola Nova precisou da Psicologia? Porque precisava conhecer a criança c seu desenvolvimento natural, sem ser corrompido, para poder trabalhar para mante-la as- sim. Era preciso saber como se dá o desenvolvimento natural das crianças para poder vigiá-las deste ponto de vista. Com isto, a Pedagogia da Escola Nova se alia à Psicologia, que aparece como a área do saber capaz de fornecer as respostas que a se necessitava. As principais teorias do desenvolvimento sào deste período. Muita coisa será produ/ida sobre o desenvolvimento das crianças: de seu pensamento e inteligência, de seus afetos e de sua sociabilidade, oferecendo à educação um saber imprescindível ao seu trabalho. PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO: CUMPLICIDADE IDEOLÓGICA 83 A Psicologia se desenvolve não só como conhecimento, mas também como prática capaz de contribuir no processo educacional: instrumentos da Psicologia, como os testes, têm uma aplicação escola para formai1 classes mais homogéneas e para avaliar o desen- volvimento psicológico das crianças; a Psicologia Clínica começa a atender crianças com dificuldade para o aprendizado; a Psicologia Educacional se desenvolve contribuindo com saberes que preten- dem dinamizar e qualificar o processo educacional. A CUMPLICIDADE IDEOLÓGICA jA relação Psicologia e Educação deve ser analisada criticamen- te, isto c, devemos ser capazes de desvelar o que o discurso e as concepções construídas, a partir desta junção, ocultaram. A Psicolo- gia fortaleceu noções naturalizantes da Pedagogia e contribuiu para ocultar a educação como processo social. A educação ficou conce- bida como processo cultural de desenvolvimento das potencialidade s dos indivíduos. Todos os aspectos sociais que compõem a educação ficaram ocultados. A educação é processo social, por meio do qual a sociedade adulta impõe seus modelos, seus valores e suas regras às crianças e jovens. A educação é processo que responde a necessidades de gru- "̂ pôs dominantes na sociedade adulta; a educação é mantida financei- : ramente pela sociedade e é cobrado dela responder às exigências r? feitas e às funções atribuídas a ela. A educação é exercida em insti- tuição que pertence à sociedade e é controlada por ela.JDa educa- ção espera-se que prepare os indivíduos para o trabalho e para a convivência social, entendida como respeito às regras de conduta e aos valores morais dominantes. A educação deve utilizar como ins- trumento básico de intervenção uma determinada cultura, tomada pelo conjunto social, que controla a educação, como a única cultura válida. São esses parâmetros sociais que são traduzidos em parâmetros pedagógicos e servem para a programação de conteúdo 34 ANA MERCÊS BAHIA BOCK escolares, para o estabelecimento de regras, critérios e formas de avaliação e para definição de regras disciplinares. Cabe aqui, antes de prosseguirmos nossa reflexão, voltarmos às nossas duas pedagogias - tradicional e nova — para relacioná-las às sociedades, nas quais surgiram e se desenvolveram. A Pedagogia da Escola Tradicional respondeu a uma sociedade aristocrática hierarquizada e cristalizada. Tudo estava "no lugar". As diferenças sociais entre no- bres e servos era dada naturalmente, assim, quem nascia nobre morria nobre e o mesmo acontecia com os servos. As concepções de mundo deste período são também hierarquizadas e cristalizadas: a Terra é o centro do universo; a natureza é sagrada; a verdade é única e está dada por revelação divina. Ninguém precisa escolher nada porque os destinos estão traçados; cabe a cada um seguir sua própria sina. Em uma socie- dade onde tudo está pensado como pronto e acabado, à escola e à edu- cação que nela acontece só resta REPRODUZIR. Por isso, as regras, a disciplina, a autoridade se tornam tão importantes. Por isso, a tarefa fundamental da educação é impor o modelo dominante. A Pedagogia da Escola Nova é fruto do capitalismo monopolista e responde às necessidades de uma sociedade em permanente mo- vimento. Nada é sagrado que não possa ser transformado e vendido como mercadoria. Nada deve permanecer estanque, pois só o movi- mento permanente da sociedade pode prometer ascensão a todos e pode gerar novos interesses que garantam o movimento permanente do mercado e da produção, e portanto a reprodução do capital. Uma sociedade como esta precisa de pessoas inquietas, ativas e criativas; homens e mulheres empreendedores. A escola se põe a cumprir esta função, aproveitando a espontaneidade c criatividade das crianças. Des- valoriza o modelo adulto, instiga à transformação e incentiva o novo. A Escola não é neutra e nem desinteressada. A escola trabalha para educar em uma determinada d i recuo: a direção vitoriosa nas disputas entre os diversos interesses dos diferentes grupos sociais, A política educacional é o resultado da disputa de interesses e nego- ciações que acontecem na sociedade, entre grupos religiosos, em- presários, trabalhadores, organizados ou não em partidos políticos. PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO: CUMPLICIDADE IDEOLÓGICA 85 Mas a Pedagogia e a Psicologia que a acompanha no trabalho educativo insistem em pensar a educação como um processo natural de desenvolvimento de potencialidades existentes nos sujeitos. E, quando alguém resiste em apresentar estas características, lá estão estes saberes com suas leituras patologizantes para atribuir respon- sabilidade exclusiva ao educando e a sua família. E agora, podemos voltar a nossa reflexão, para desvendar a cumpli- cidade da Psicologia com o ocultamente do caráter social da educação. A Psicologia dominante possui uma concepção de homem que parte da noção de natureza humana. Segundo esta concepção, somos dotados de uma natureza que, ao se atualizar, produz as capacidades que temos como humanos: trabalhar, amar, coope- rar, sermos morais, sermos seres pensantes e falantes e outras mais. O mundo psicológico faz parte desta natureza, portanto, está dado como potencialidade. A dinâmica e as estruturas do mundo psíquico são universais. O conteúdo varia com as culturas. Por pensar assim, fomos capazes de teorizar sobre o desenvolvimento das crianças desde a Suíça, os EUA, a Europa e os países de Ter- ceiro Mundo. Em todos os lugares, as crianças se desenvolvem em um processo de etapas de fases universais. Mudam os conteúdos. As crianças que por qualquer motivo não apresentam esíe desen- volvimento serão tomadas como problemas: retardo, comprome- timento psíquico, dinâmica familiar conflituosa, desestruturação familiar, vítima de violência familiar, enfim, algum fator perturbou o desenvolvimento natural daquela criança, tornando-a inapta à educação normal. A Psicologia desenvolveu instrumentos capaz.es de captar os problemas vividos pelos alunos difíceis. A Psicologia e a Pedagogia desenvolveram práticas de recuperação dos alunos que se constitu- em como problema para a escola. Nossas noções isolaram o sujeito de seu mundo social. Os ho- mens possuem condições para se desenvolverem que estão dadas pela natureza. Se a sociedade não atrapalhar, ou ao contrário, forne- cer condições adequadas para o desenvolvimento natural sadio, tudo